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<p>1</p><p>MÍDIAS SOCIAIS, GÊNERO E POLÍTICA NO</p><p>CENÁRIO BRASILEIRO</p><p>2</p><p>3</p><p>Elizabeth Christina de Andrade Lima</p><p>Maria Lucinete Fortunato</p><p>(Organizadoras)</p><p>MÍDIAS SOCIAIS, GÊNERO E POLÍTICA NO</p><p>CENÁRIO BRASILEIRO</p><p>4</p><p>Copyright © dos autores</p><p>Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida,</p><p>transmitida ou arquivada, desde que levados em conta os direitos dos autores.</p><p>Capa e diagramação</p><p>Déborah Letícia Ferreira de Sousa</p><p>Conselho Editorial</p><p>Prof. Dr. Fábio Marques de Souza (UEPB, Brasil)</p><p>Prof. Dr. Maged Talaat Mohamed Ahmed Elgebaly (Aswan University, Egito)</p><p>Profa. Dra. Marta Lúcia Cabrera Kfouri-Kaneoya (UNESP, Brasil)</p><p>Comitê Científico</p><p>Profa. Dra. Cristina Bongestab (UEPB, Brasil)</p><p>Prof. Dr. Dánie Marcelo de Jesus (UFMT, Brasil)</p><p>Prof. Dr. José Alberto Miranda Poza (UFPE, Brasil)</p><p>Profa. Dra. Kelly Cristiane Henschel Pobbe de Carvalho (UNESP, Brasil)</p><p>Profa. Dra. María Isabel Pozzo (IRICE-Conicet-UNR, Argentina)</p><p>Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>M629</p><p>Mídias sociais, gênero e política no cenário brasileiro /</p><p>organizadoras, Elizabeth Christina de Andrade</p><p>Lima, Maria Lucinete Fortunato. – São Paulo:</p><p>Mentes Abertas, 2021.</p><p>266 p. : il. color.</p><p>ISBN 978-65-87069-81-4</p><p>1. Mídias sociais. 2. Diferenças de gênero. 3.</p><p>Violência Política de Gênero. 4. Práticas políticas. I.</p><p>Título.</p><p>21. ed. CDD 305.3</p><p>/714</p><p>5</p><p>SUMÁRIO</p><p>Apresentação ......................................................................................................... 7</p><p>I PARTE: CULTURA, MÍDIAS E AUDIOVISUAIS</p><p>A centralidade das Mídias Sociais na experiência política: uma</p><p>década de mudanças no cenário brasileiro ........................................................ 11</p><p>Rostand de Albuquerque Melo</p><p>Jornalismo em tempo de Fake News: reflexões teóricas a partir de uma</p><p>prática de checagem ........................................................................................... 47</p><p>Cássia Lobão Assis e Aline Barbosa Oliveira</p><p>Atividade jornalística em metamorfose: como a chegada do computador e da</p><p>internet impactaram as redações campinenses ............................................... 63</p><p>Verônica Almeida de Oliveira Lima</p><p>Produção de narrativas audiovisuais em sentido Anti-horário:</p><p>empoderamento de estudantes de escolas públicas ........................................ 79</p><p>Antônio Simões e Elisama Vitória Leite da Silva</p><p>II PARTE: GÊNERO E CULTURA</p><p>Dimensões de sentidos da cultura Funk: uma análise de gênero no</p><p>espaço escolar ..................................................................................................... 99</p><p>Robéria Nádia Araújo Nascimento e Thatiane Oliveira do Nascimento</p><p>Trabalho e Desigualdades de Gênero em tempos de pandemia ................ 123</p><p>Roseli de Fátima Corletti e Vitória Karoline de Souza Tomé</p><p>Violência Política de Gênero e a participação das mulheres na política .. 145</p><p>Elizabeth Christina de Andrade Lima e Ana Paula Guedes do Nascimento Costa</p><p>Diferenças de Gênero e processos de subjetivação: lesbianidades</p><p>em cena ............................................................................................................. 169</p><p>Maria Lucinete Fortunato</p><p>6</p><p>III PARTE: CULTURA E PRÁTICAS POLÍTICAS</p><p>Política em tempos de ascensão da extrema direita .................................... 189</p><p>Karlla Christine Araújo Souza e Iuka Kaliany Freire de Oliveira</p><p>Pernambuco à esquerda? A força política das Famílias Arraes-Campos</p><p>na esfera estadual ............................................................................................. 207</p><p>José Adilson Filho</p><p>Percepções e impressões dos eleitores de Campina Grande, Paraíba,</p><p>sobre o voto ...................................................................................................... 225</p><p>Cyntia Carolina Beserra Brasileiro</p><p>A religiosidade evangélica conservadora na política brasileira</p><p>contemporânea: despertar, ascensão e participação ................................... 253</p><p>José Ferreira Júnior</p><p>7</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>É com muito prazer que trazemos a público o livro: Mídias Sociais,</p><p>Gênero e Política no cenário brasileiro. O livro composto de doze capítulos</p><p>e dividido em três partes: Cultura, Mídias e Audiovisuais; Gênero e Cultura;</p><p>Cultura e Práticas Políticas, cada uma com quatro artigos, foi escrito por dife-</p><p>rentes autores, de Instituições Federais, Estaduais e Privadas de Ensino Superior</p><p>e de diferentes formações acadêmicas, tais como: Comunicólogos, Sociólogos,</p><p>Antropólogos e Historiadores; no entanto, todos com um só interesse: buscar</p><p>refletir sobre temas concernentes ao atual cenário político, midiático e cultural</p><p>do Brasil.</p><p>Até onde é possível observar, não tem sido fácil “ler” o Brasil, estudar e</p><p>compreender os fortes impactos que culminaram com as mudanças no cotidia-</p><p>no da cultura a partir do acesso ao ciberespaço, com todas as potencialidades</p><p>oferecidas por esse novo e imenso canal de comunicação que se apresentou,</p><p>num primeiro momento, como um ambiente propício não só para possibilitar</p><p>novas e inusitadas interações sociais, mas também e, sobretudo, para permitir a</p><p>socialização de diferentes ramos do conhecimento entre os povos e culturas em</p><p>situação planetária.</p><p>Não obstante essa possibilidade, a internet, tem permitido muitas outras</p><p>coisas, entre elas, o uso indiscriminado dessa plataforma de comunicação pela</p><p>política e pelos políticos. Quem poderia imaginar há cerca de 10, 15 anos atrás</p><p>que as campanhas eleitorais e, principalmente, a construção da imagem pública</p><p>dos candidatos se daria, preferencialmente, no espaço virtual? Para usar uma</p><p>analogia, parece-nos que os políticos desceram dos palanques, dos púlpitos e</p><p>entraram nos computadores para chegarem mais perto de seu eleitor, por meio</p><p>de um verdadeiro espetáculo de cores, luzes e imagens que mais parecem uma</p><p>encenação teatral. É sobre os usos das Mídias Sociais pelos políticos que trata o</p><p>artigo do comunicólogo Rostand Melo. Primeiro artigo que compõe a primeira</p><p>parte do livro: Cultura, Mídias e Audiovisuais. Baseado em estudos desenvol-</p><p>vidos para escrita de sua Tese, defendida no ano de 2015. Ele reflete como de lá</p><p>para cá esse mass media só veio a se instituir massivamente pelos políticos em</p><p>uma ambiência, que alhures, poderíamos até afirmar, totalmente inusitada. A</p><p>política hoje é um espetáculo midiático, e o político um ator que encena todo o</p><p>tempo, em busca de conquistar o voto do eleitor.</p><p>Junto a tais usos midiáticos, também vai ganhar forte aderência e po-</p><p>pularidade por parte dos políticos e dos usuários em geral, as chamadas redes</p><p>8</p><p>sociais, tais como o Facebook e o Whats App. Tais canais de comunicação, par-</p><p>ticularmente o Whats App permitem o disparo de mensagens, as mais diversas</p><p>possíveis para centenas de usuários e tudo poderia ser muito bom, não fosse o</p><p>uso malicioso, por parte de usuários e de “robôs” nesses espaços de comunica-</p><p>ção. Referimo-nos as chamadas Fake News, ou seja, notícias falsas que provocam</p><p>uma grande confusão nas mentes dos usuários que chegam a duvidar sobre o</p><p>que é mentira ou verdade. Esse é o tema do artigo das jornalistas Cássia Lobão</p><p>e Aline Oliveira, cujo intento é o de apresentar ao leitor como se proteger das</p><p>notícias falsas, Fake News, a partir da prática de checagem.</p><p>Unido a essa preocupação, as também comunicólogas Verônica Lima e Ali-</p><p>ne Oliveira discutem as mudanças das rotinas produtivas nos jornais impressos</p><p>da cidade de Campina Grande/PB, tomando como marco histórico a inserção</p><p>dos computadores nos ambientes de trabalho, culminando com o fechamento</p><p>das redações. Para tanto, são analisados os jornais Diário da Borborema, Jornal</p><p>da Paraíba e Correio da Paraíba. Parte-se do pressuposto de que o modelo capi-</p><p>talista pós-industrial atinge também o segmento jornalístico, a partir da inser-</p><p>ção de tecnologias que desestruturaram os modos tradicionais de se produzir</p><p>informações. Defendem as autoras que o avanço tecnológico trouxe mudanças,</p><p>não apenas</p><p>os temas mais</p><p>comentados a cada momento. Outra característica do Twitter e do Instagram</p><p>que ajuda na atuação dos bots é a possibilidade de marcar usuários e interagir</p><p>com eles, mesmo que eles não pertençam à sua rede de seguidores. Os perfis au-</p><p>tomatizados conseguem buscar posts sobre determinados temas e interagir com</p><p>os usuários reais, muitas vezes contestando-os ou compartilhando links para di-</p><p>recionar o debate. Há ainda casos de ataques automáticos sobre posts que tratem</p><p>do nome de uma determinada pessoa.</p><p>Uma demonstração didática de como os bots funcionam é o exemplo do</p><p>que ocorreu no perfil da jornalista Lohanna Lima que atua na cobertura espor-</p><p>tiva em Minas Gerais. Em 27 de fevereiro de 2020 a repórter fez uma postagem</p><p>em seu perfil no Twitter noticiando uma série de demissões no clube Atléti-</p><p>34</p><p>co Mineiro, incluindo o diretor de futebol chamado Rui Costa. Por se tratar</p><p>de um homônimo do governador da Bahia, um perfil suspeito de ser um bot</p><p>fez comentários automáticos na postagem com acusações contra o político e</p><p>uso de hashtags favoráveis a adversários do gestor baiano. Provavelmente estava</p><p>programada para buscar postagens sobre Rui Costa governador. Naquele dia o</p><p>nome Rui Costa estava entre os temas mais falados no Twitter, mas referindo-se</p><p>ao diretor esportivo. Após o incidente, a conta “robô” foi suspensa.</p><p>Figura 04: reproduções de tela extraídas dos perfis @lohanna_lima e</p><p>@PatriotaRuy</p><p>35</p><p>A atuação dos robôs foi intensificada nas campanhas eleitorais. É o que</p><p>apontam os dados coletados pelo projeto Observa 2018, desenvolvido pela di-</p><p>retoria de Análises de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP-F-</p><p>GV), que monitorou as interações no Twitter durante as eleições presidenciais</p><p>de 2018 com boletins semanais. O período com maior percentual de interações</p><p>geradas por robôs foi registrado no período entre 12 a 18 de setembro13, quando</p><p>atingiu a marca de 12,9% do total de interações analisadas. O projeto identificou</p><p>3.198 contas automatizadas atuando no período, gerando 681.980 interações.</p><p>Desse total, 69% estavam vinculadas a interações de apoio a Bolsonaro com</p><p>471.117 interações. Em seguida, estavam as mensagens de apoio a candidatura</p><p>de Haddad, com 165.225 interações oriundas de robôs, o que representa 24,22%</p><p>do total. No segundo turno, com a polarização e aumento do volume de posta-</p><p>gens sobre as eleições, a atuação dos robôs continuou. O maior índice foi regis-</p><p>trado de 11 a 16 de outubro14 com 10,4% das discussões. Foram identificadas</p><p>3.989 contas automatizadas que geraram 852.335 interações. Desse total, 70,7%</p><p>estavam vinculadas ao grupo de apoio a Bolsonaro e 28,2% de apoio a Haddad.</p><p>Considerando o total de menções/interações sobre cada candidato, somando-se</p><p>perfis reais e automatizados, o DAPP-FGV identificou que 13,8% das interações</p><p>favoráveis a Bolsonaro foram provocados por robôs, enquanto a presença de</p><p>bots representou 7,7% do total de mensagens de apoio ao petista. Os dados mos-</p><p>tram que a estratégia está presente nas militâncias de direita e de esquerda, mas</p><p>no caso brasileiro de 2018 o candidato vencedor foi o mais beneficiado por bots.</p><p>A campanha de Bolsonaro detinha o maior volume de postagens automatizadas,</p><p>bem como o candidato teve a maior presença de bots entre o total de interações</p><p>de apoio.</p><p>A existência dos bots em larga escala comprova outro aspecto importante</p><p>sobre o problema da proliferação das fake News. Sua origem não provém de ato</p><p>individual de irresponsabilidade de alguém que cria histórias inverídicas por fa-</p><p>natismo, humor de gosto duvidoso ou ócio. Não que isto não possa, porventura,</p><p>acontecer ocasionalmente. Mas o fenômeno só é possível em larga escala a partir</p><p>da efetivação de uma estrutura profissional de criação, difusão e monitoramen-</p><p>to de conteúdos falsos em redes sociais. Há uma indústria da fake news. Para</p><p>combatê-la é preciso saber qual a origem dos recursos que a financiam. Nesse</p><p>sentido, foi aberto inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar</p><p>13 Dados completos disponíveis em: <https://observa2018.com.br/wp-content/uploads/2018/09/DAPP-Report-</p><p>-20set2018.pdf>.</p><p>14 Dados completos disponíveis em: <https://observa2018.com.br/wp-content/uploads/2018/10/18-10-Dapp-Re-</p><p>port.pdf>.</p><p>36</p><p>notícias fraudulentas e ataques à corte, com investigações15 sobre um grupo de</p><p>empresários que forneciam recursos para uma organização de blogueiros e po-</p><p>líticos que coordenariam o esquema de difusão de fake news, com suspeita de</p><p>participação de familiares do presidente e funcionários do Palácio do Planalto,</p><p>numa estrutura chamada de “gabinete do ódio”.</p><p>Robôs, perfis anônimos e notícias falsas só funcionam com a cumplicidade,</p><p>ingênua ou intencional, dos usuários das redes sociais. Além das necessárias</p><p>medidas que podem ser tomadas para combater as fake news no âmbito de insti-</p><p>tuições como o Judiciário, a Imprensa e até mesmo entre as empresas regulado-</p><p>ras das plataformas, também é fundamental a conscientização dos usuários com</p><p>ações de educação para o uso das mídias sociais, estimulando a leitura crítica</p><p>das informações que surgem na timeline. É o que defendem Spinelli e Ramos</p><p>(2019, p.201)</p><p>Não adianta o empenho das organizações midiáticas, bem como de outras</p><p>ações governamentais ou empresariais, se a população não está preparada</p><p>para compreender ativamente o funcionamento de um ecossistema co-</p><p>municacional em desordem informacional que precisa ser compreendido</p><p>a partir de uma complexidade cognitiva que, por sua vez, requer raciona-</p><p>lidade e tempo de processamento por parte dos receptores.</p><p>A internet está presente no cotidiano de brasileiros de diversas classes so-</p><p>ciais e níveis de formação. Dados do Centro Regional de Estudos para o Desen-</p><p>volvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), ligado ao Comitê Gestor da</p><p>Internet no Brasil, indicam que três em cada quatro brasileiros usam a internet.</p><p>Os números são referentes a 2019. O país possui 134 milhões de usuários de</p><p>internet, o que representa 74% da população com 10 anos ou mais. O índice</p><p>também avançou na zona rural, onde 53% dos moradores declarou ter acesso</p><p>à internet, e entre as classes D e E, com 57% de pessoas com acesso. Um ponto</p><p>que chama a atenção é que 58% dos usuários de internet no Brasil acessam a</p><p>rede apenas pelo telefone celular. O avanço do acesso não significa o fim das</p><p>desigualdades, tendo em vista a instabilidade das conexões e as disparidades</p><p>entre os dispositivos. Spinelli e Ramos (2019) questionam sobre os impactos</p><p>da chegada da tecnologia em grupos sociais que não foram inseridos ainda na</p><p>educação formal:</p><p>15 Ver notícia sobre o tema em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/27/moraes-determina-quebra-de-</p><p>-sigilo-de-investigados-e-bloqueio-de-perfis-na-internet.ghtml>.</p><p>37</p><p>A taxa de analfabetismo funcional, aliada à penetração do celular confi-</p><p>guram um cenário de defasagem em relação à tecnologia usada e às ca-</p><p>pacidades humanas de letramento para lidar com as mesmas. Enquanto a</p><p>competência para a interpretação de mensagens continua estagnada há 10</p><p>anos, a capacidade de propagação de mensagens aumenta. (SPINELLI &</p><p>RAMOS, 2019, p.203)</p><p>A adoção de medidas de literacia midiática é fundamental para que os usuá-</p><p>rios tenham noção dos possíveis impactos das mensagens que compartilham,</p><p>bem como saibam identificar e questionar informações com indícios de falsifi-</p><p>cação deliberada. A falta de conhecimento sobre o modo como as mídias sociais</p><p>e o jornalismo operam, bem como a ausência de reflexão crítica sobre a relação</p><p>desses campos com nossas decisões políticas são fatores que geram maior vul-</p><p>nerabilidade em relação a conteúdos manipulados. Entretanto, deve-se fazer a</p><p>ressalva de que a disseminação de fake news não é um fenômeno exclusivo de</p><p>pessoas pobres ou com baixa escolarização. As intencionalidades e os impulsos</p><p>emocionais são ingredientes que tornam os usuários da rede, com diversos per-</p><p>fis socioeconômicos, suscetíveis a acreditar e compartilhar</p><p>fake news, bem como</p><p>serem influenciados em suas decisões políticas. Esse complexo cenário faz com</p><p>que o problema das fake news seja considerado o principal dilema vinculado à</p><p>interface entre mídia e política para os próximos processos eleitorais no Brasil e</p><p>nas principais democracias do mundo.</p><p>AS TRANSMISSÕES AO VIVO: TENDÊNCIA CONSOLIDADA</p><p>Uma das características mais proeminentes da linguagem das mídias sociais</p><p>é o que podemos chamar de “protagonismo da imagem”. A linguagem visual,</p><p>seja com o uso de fotografias, vídeos ou de artes gráficas, possui maior potencial</p><p>de atração e sedução em plataformas como o Facebook e Instagram, este último</p><p>que se caracteriza como um tipo de rede social que surgiu especificamente com</p><p>o objetivo de compartilhar fotos. Trata-se de uma mudança significativa em re-</p><p>lação ao Twitter, principal mídia social do pleito de 2010. Apesar de também</p><p>possibilitar a postagem de fotos e vídeos, o Twitter ainda mantém como uma de</p><p>suas principais características o uso de frases de efeito, curtas o suficiente para</p><p>causar impacto dentro do limite de 280 caracteres. No Facebook, os textos não</p><p>possuem limitação de espaço. Por outro lado, precisam do acompanhamento de</p><p>uma imagem para chamar a atenção do usuário em meio a uma enxurrada de</p><p>38</p><p>informações postadas minuto a minuto. Nas duas plataformas, as postagens são</p><p>ressigificadas a partir de cada comentário ou compartilhamento. Atualizam-se</p><p>a cada interação, fazendo com que uma mesma postagem repercuta durante</p><p>horas ou até dias depois de sua divulgação inicial. A imagem, devido ao maior</p><p>apelo emocional e cognitivo, é um ingrediente usado como forma de buscar</p><p>não apenas chamar a atenção dos usuários, mas gerar algum tipo de reação e</p><p>engajamento.</p><p>Outra característica relevante é a possibilidade de promover transmissões</p><p>ao vivo de eventos públicos de campanha, fato que no Brasil só é possível nas</p><p>mídias sociais. Isso porque a lei eleitoral não permite a transmissão de progra-</p><p>mas ao vivo nos guias eleitorais de rádio e TV. Aos candidatos é vedada por lei</p><p>a possibilidade de produzir e promover a transmissão ao vivo de um evento de</p><p>propaganda eleitoral. Os programas do Guia Eleitoral no rádio e televisão de-</p><p>vem ser previamente gravados, com o prazo definido em lei.</p><p>Desde o pleito de 2010 o uso das transmissões ao vivo e até mesmo intera-</p><p>tivas pôde ser percebido no contexto local da Paraíba, com a realização naquela</p><p>eleição de debates on-line como o “Cássio Ao Vivo”, o “Ricardo Ao Vivo” e o</p><p>“Papo Verdade”. O modelo adotado, inicialmente, foi similar ao de um chat na</p><p>internet, com a figura de um mediador que recebe as perguntas enviadas através</p><p>do uso de hashtags formados pelo nome de cada debate e usadas na rede para</p><p>realizar o envio das perguntas. Um modelo parecido voltou a ser adotado por</p><p>Ricardo Coutinho na reta final da campanha de 2014. Já Cássio Cunha Lima,</p><p>Senador e candidato a governador em 2014, voltou a adotar o modelo do chat,</p><p>dessa vez sem mediador, e passou a promover também espetáculos em praça</p><p>pública numa espécie de comício virtual, onde uma arena em formato quadrado</p><p>era usada para dar maior dinamismo ao chat e permitir a participação de pes-</p><p>soas ao vivo, de frente para o candidato. Mistura de comício com programa de</p><p>auditório, possível apenas a partir das mídias sociais.</p><p>Enquanto que em 2010 havia a necessidade de abrir uma janela especifica</p><p>dentro dos sites oficiais de cada candidato para transmitir ao vivo, o que obriga-</p><p>va o usuário a sair mesmo que momentaneamente das mídias sociais, agora já é</p><p>possível transmitir, com boa qualidade e custo reduzido, dentro das plataformas</p><p>de cada tipo de mídia social. Em vinte e seis de março de 2015 o Twitter lançou</p><p>o periscope, aplicativo para celular que permite transmissões ao vivo. Poste-</p><p>rioemente, em catorze de dezembro de 2016, a funcionalidade foi incorporada</p><p>ao aplicativo da rede social por meio de uma atualização que liberou a função</p><p>Twitter Live. O Facebook liberou a função de transmissões ao vivo em dezoi-</p><p>39</p><p>to de janeiro de 2015 no Brasil, inicialmente apenas para páginas verificadas,</p><p>ou seja, para perfis de empresas, instituições e personalidades e que tenham a</p><p>propriedade e identidade confirmadas pela plataforma. As lives foram libera-</p><p>das para todos os usuários do Facebook em abril de 2016. O Instragram liberou</p><p>a funcionalidade de transmissão ao vivo nos stories em dezesete de janeiro de</p><p>201716, permitindo que usuários façam lives com duração máxima de uma hora.</p><p>Outras plataformas também permitem transmissões ao vivo, como o Youtube</p><p>e o Snapchat. Em artigo anterior (MELO, 2016) indicamos a tendência de am-</p><p>pliação do uso de transmissões ao vivo nas eleições municipais de 2016 devido à</p><p>redução de custos em relação às transmissões realizadas nas campanhas de 2010</p><p>e 2014 no pleito para governador, quando eram usadas estruturas de televisão,</p><p>com estúdios, montagens de cenários e uso de equipamentos profissionais, para</p><p>a realização de transmissões ao vivo na web. De fato, o uso das transmissões ao</p><p>vivo se acentuou no pleito de 2016 e foi amplamente usado nas eleições de 2018,</p><p>por candidatos e apoiadores. Conforme antecipamos, o recurso que antes era</p><p>complexo e caro se tornou algo cotidiano:</p><p>Com o recurso disponível também para usuários do Facebook, há a pers-</p><p>pectiva de que um mesmo evento público possa gerar várias transmissões</p><p>ao vivo simultaneamente, tendo em vista o acesso à possibilidade de mili-</p><p>tantes ou outros atores sociais envolvidos na campanha, como jornalistas</p><p>e equipe de marketing, realizarem transmissões paralelas às postagens dos</p><p>perfis e páginas oficiais dos candidatos. A tendência que se aponta é de</p><p>que os discursos, comícios, passeatas e demais eventos de rua poderão ser</p><p>transmitidos ao vivo de modo mais constante, quebrando barreiras espa-</p><p>ciais no cenário de disputa pelo convencimento (e pelo voto). A transmis-</p><p>são ao vivo deverá passar a ser algo cotidiano, principalmente em meio à</p><p>agenda conflituosa dos candidatos. (MELO, 2016, p.13)</p><p>De fato, as transmissões ao vivo se consolidaram nas eleições de 2018. Can-</p><p>didatos como Bolsonaro, Haddad e Ciro Gomes usaram o recurso de modo re-</p><p>corrente. Com um discurso antisistema e com dificuldades de relação com a im-</p><p>prensa, Bolsonaro optou por adotar as lives no Facebook com regularidade com</p><p>muita antecedência em relação à campanha eleitoral. Foi à estratégia usada pelo</p><p>político para estabelecer uma relação direta com seu público, sem a mediação</p><p>de jornalistas e sem filtros. Isso ajudou a criar o que Wardle e Derakhshan (apud</p><p>16 Ver notícia sobre a medida em: <https://tecnoblog.net/206062/live-instagram-liberado/>.</p><p>40</p><p>SPINELLI & RAMOS, 2019) chamaram de “câmaras de eco”, ou seja, um pro-</p><p>cesso de compartilhamento de conteúdos por meio de redes de conexões. Essa</p><p>estratégia foi importante para construir a capilaridade e influência de Bolsonaro</p><p>entre grupos que se identificam com seu discurso conservador, fato importante</p><p>para viabilizar sua candidatura. Já na campanha, o uso das lives permitiu ao can-</p><p>didato contornar a ausência de tempo da propaganda eleitoral gratuita no rádio</p><p>e na televisão, bem como driblar possíveis questionamentos da imprensa. Havia</p><p>um canal de contato direto.</p><p>A estética amadora, com as transmissões feitas de casa, contrastava com as</p><p>estruturas dos estúdios de televisão usados nos pronunciamentos oficiais e nos</p><p>guias eleitorais. O cenário improvisado reforçava visualmente o discurso antis-</p><p>sistema. Após o atentado sofrido pelo candidato, que forçou o cancelamento</p><p>dos eventos públicos de campanha na reta final do primeiro turno, as lives se</p><p>tornaram a principal ferramenta de interação com o eleitorado, em conjunto</p><p>com as postagens nas mídias sociais. Chegou a fazer transmissões de situações</p><p>extremamente particulares, como ocorreu ao fazer uma live do quarto do hospi-</p><p>tal onde estava internado.</p><p>Figura 05: Print de transmissão no perfil de Jair Bolsonaro no Facebook.</p><p>A estratégia</p><p>das lives continuou a ser usada após a vitória. Antes de conce-</p><p>der a primeira entrevista coletiva após o anúncio do resultado da votação, Bol-</p><p>sonaro fez uma live em sua página oficial no Facebook. Após a posse, estabeleceu</p><p>uma periodicidade de transmissões com o mesmo formato usado na campanha,</p><p>realizando lives exibidas sempre às noites das quintas-feiras. As lives de quinta</p><p>serviram como uma espécie de pronunciamento informal, onde o presidente</p><p>41</p><p>fala abertamente. Nos contextos em que o presidente evita falar com a imprensa,</p><p>as lives são seu principal espaço de voz. Além disso, assessores costumam fazer</p><p>transmissões do contato de Bolsonaro com apoiadores na porta do Palácio da</p><p>Alvorada e em atos públicos, até mesmo nas controversas manifestações contra</p><p>o Supremo e o Congresso realizadas em Brasília durante a pandema do Corona-</p><p>vírus. Em diferentes contextos, as lives estabeleceram uma relação direta com o</p><p>público na web, sem a mediação da imprensa. A estratégia também está sendo</p><p>usada continuamente pelos adversários, incluindo o ex-presidente Lula. Muitas</p><p>das lives produzidas por políticos pautam matérias da imprensa, principalmente</p><p>quando há casos de falas polêmicas. Se as falas dos protagonistas da disputa po-</p><p>lítica geram maior repercussão, vale destacar que essas ferramentas também são</p><p>cada vez mais usadas por militantes e também integram o contexto que permite</p><p>a proliferação de fake news. Trata-se de um tipo de conteúdo que passa a ser</p><p>possível de ser produzido e transmitido a partir do advento das mídias sociais</p><p>e que tornam o ecosistema midiático que envolve o campo político ainda mais</p><p>complexo e fragmentado.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Engajamento, comunicação descentralizada, baixo nível de controle do</p><p>fluxo de informação, liberdade de expressão e custos reduzidos, estes são os in-</p><p>gredientes proporcionados pelas plataformas de mídias sociais. Inegavelmente,</p><p>tais plataformas possuem um grande potencial de democratização da comuni-</p><p>cação política. Isso quando analisamos estes aspectos isoladamente. Entretanto,</p><p>a disputa pelo poder é mais complexa e os diferentes atores em cena no campo</p><p>político também tem acesso às mesmas ferramentas. Plataformas que contribuí-</p><p>ram para que jovens de vários países promovessem mobilizações espontâneas</p><p>também contribuíram para que um dos bilionários mais controversos dos Es-</p><p>tados Unidos conquistasse adesão popular para ser eleito presidente. As plata-</p><p>formas libertadoras foram apropriadas por discursos de violência, máquinas de</p><p>desinformação e destruição de reputações. Práticas de xenofobia que pareciam</p><p>enterradas, como efeito de um processo civilizatório de amadurecimento po-</p><p>lítico, “ressurgem” das profundezas das redes. O “gigante acordou”, diziam os</p><p>manifestantes brasileiros de 2013. Afinal, quem de fato cresceu e se beneficiou</p><p>da revolta difusa, sem pauta definida e apartidária promovida ao final do pri-</p><p>meiro mandato de Dilma Rousseff? Quais novos protagonistas emergiram do</p><p>despertar do gigante antissistema de 2013? O país dividido e a polarização cada</p><p>42</p><p>vez mais extrema são efeitos desde contexto, criando o “Cenário de Representa-</p><p>ção Política” (LIMA, 1994) que culminou com o resultado das eleições de 2018.</p><p>Não há como escapar da presença das mídias sociais nos processos eleito-</p><p>rais da próxima década, mas é preciso repensar o modo como as utilizaremos</p><p>de agora em diante para que não sejamos comandados por elas ou por quem</p><p>programe seus algoritmos. É importante cobrar das empresas controladas por</p><p>servidores e aplicativos um regime de auto-regulamentação que contribua para</p><p>a construção de um ecossistema comunicacional que consiga manter a liberdade</p><p>de expressão e, ao mesmo tempo, evitar que o caos seja o “novo normal” dos re-</p><p>gimes democráticos. É preciso tratar com transparência o modo como os dados</p><p>pessoais dos usuários são utilizados, mas também permitir que os tão criticados</p><p>algoritmos possam contribuir para a rápida identificação e interrupção das ca-</p><p>deias de difusão de fake news. Por se tratar de empresas de tecnologia com pre-</p><p>sença global, as legislações nacionais sentem dificuldade em criar mecanismos</p><p>de regulação e acompanhar a velocidade das mudanças.</p><p>Nesse sentido, acreditamos ser necessário estabelecer uma nova leitura so-</p><p>bre a ideia de “empoderamento” dos usuários das mídias sociais. Esse sujeito</p><p>que agora possui direito de fala, potencial de influência e desejo por visibilidade</p><p>e capital social, precisa perceber que o poder proporcionado pelas tecnologias</p><p>de informação e comunicação também traz consigo novas responsabilidades.</p><p>Não adianta apenas acusar a mídia massiva de manipulação se, em suas redes</p><p>pessoais, reproduz abertamente práticas de manipulação de informações. Não</p><p>que a crítica da mídia deva ser deixada de lado, mas não podemos deixar que a</p><p>necessária consciência dos interesses dos conglomerados de comunicação seja</p><p>instrumentalizada como justificativa para a difusão das fake news. A simplifica-</p><p>ção dos discursos “antimídia” está servindo de escudo eficiente para proteger lí-</p><p>deres centralizadores e com viés autoritário de denúncias e críticas. Afinal, toda</p><p>informação contra eles é repelida com antecedência por seus apoiadores mais</p><p>fiéis. Como resumiu o próprio Donald Trump em 2016, quando ainda era pré-</p><p>-candidato à indicação do Partido Republicado: “tenho os eleitores mais leais.</p><p>Alguma vez vocês viram algo assim? Eu poderia parar na metade da Quinta</p><p>Avenida, disparar contra as pessoas e não perderia eleitores”17. A mesma fideli-</p><p>dade é válida quando o objetivo é destruir a reputação dos opositores. As teorias</p><p>conspiratórias e fake news que encontraram terreno fértil para sua difusão na in-</p><p>ternet criaram um tipo de militante/eleitor teleguiado de um modo tão intenso e</p><p>17 Ver notícia sobre a declaração em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas noticias/efe/2016/01/23/poderia-atirar-</p><p>-contra-pessoas-na-5-avenida-e-nao-perderia-votos-diz-trump.htm>.</p><p>43</p><p>fiel como a televisão tentou fazer e nunca conseguiu com a mesma intensidade.</p><p>O desafio é furar as bolhas de opinião, gerar usuários mais conscientes da</p><p>responsabilidade de “ser” a sua própria mídia e promover um espelho plural de</p><p>ideias, onde conservadores e progressistas possam divergir e argumentar, mas</p><p>também estabelecer os espaços de consenso e diálogo necessários para que a</p><p>democracia e os direitos individuais sobrevivam. Meta complexa de ser atingida</p><p>num contexto no qual é inegável eficiência do marketing de ataque e desinfor-</p><p>mação para a concretização de projetos políticos que não tem pudor de atuar</p><p>sem escrúpulos. O jornalismo profissional e as agências de fact-cheking exer-</p><p>cem um novo tipo de protagonismo como resposta à crise de credibilidade que</p><p>as enfraqueceu. Entretanto, o esforço não terá efeitos satisfatórios enquanto os</p><p>usuários não se apropriarem novamente das ferramentas comunicacionais de</p><p>que dispõem para buscar a liberdade, usando-as com lucidez e empatia. Até lá,</p><p>essas ferramentas seguem sendo usadas para a perpetuação da obediência.</p><p>44</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>BAQUERO, R. Empoderamento: Instrumento de Emancipação Social? - Uma discussão concei-</p><p>tual. Revista Debates, Porto Alegre, v. 6, n. 1, p.173-187, jan.-abr. 2012. Disponível em:< ht-</p><p>tps://www.seer.ufrgs.br/debates/article/viewFile/26722/17099/>. Acesso em: 21 maio 2020.</p><p>BARREIRA, I. Chuva de Papéis: Ritos e símbolos de campanhas eleitorais no Brasil. Rio de Ja-</p><p>neiro: Relume Dumará, 1998.</p><p>BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1987.</p><p>CANAVILHAS, J.; FERRARI, P. Fact-checking: o jornalismo regressa às origens. In: Jornalismo</p><p>em tempo de transformação: desafio de produção e de ação. Lisboa: Sulina, 2018. pp. 30-</p><p>49. Disponível em: <https://ubibliorum.ubi.pt/handle/10400.6/6892>. Acesso em: 17 maio</p><p>2020.</p><p>CARDOSO, G. A mídia na sociedade em rede. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.</p><p>CASTELLS, M. Redes de Indignação e Esperança: movimentos sociais na era da internet. Rio</p><p>de Janeiro: Jorge Zahar, 2013.</p><p>FIGUEIRA J.; SANTOS S. (org.). As fake news e a nova ordem (des)informativa na era da</p><p>pós-verdade. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra: 2019. Disponível em: <ht-</p><p>tps://digitalis.uc.pt/pt-pt/livro/fake_news_e_nova_ordem_desinformativa_na_era_da_p%-</p><p>C3%B3s_verdade>. Acesso em 13 abril 2020.</p><p>GOMES, W. Internet e participação política. In: GOMES, W; MAIA, R. C. M. Comunicação e</p><p>Democracia: Problemas & perspectiva. São Paulo: Paulus, 2008.</p><p>LEMOS, A. Cibercultura: Tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Su-</p><p>lina, 2003.</p><p>LIMA, Vinicius A. de. Sete teses sobre mídia e política no Brasil. In: Revista USP, n° 61, p. 48-</p><p>57, 1 maio 2004. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/13317>.</p><p>Acesso em 03 março 2019.</p><p>__________ Televisão e Poder: A Hipótese do Cenário de Representação Política, CR-P. In: O</p><p>Enredo Eleitoral. Revista Comunicação e política, Vol. 1, nº1, Agosto-novembro. Rio de</p><p>Janeiro: Cebela, 1994. p.05-22.</p><p>LYOTARD, J-F. A Condição Pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.</p><p>MACHADO, J. Fake News, a novidade das velhas falsificações. In: FIGUEIRA J.; SANTOS, S.</p><p>(org.). As fake news e a nova ordem (des)informativa na era da pós-verdade. Coimbra:</p><p>Imprensa da Universidade de Coimbra: 2019.</p><p>MAIA, R. C. M. Democracia e a internet como esfera pública virtual: aproximação às condições</p><p>de deliberação. In: GOMES, W; MAIA, R. C. M. Comunicação e Democracia: Problemas &</p><p>perspectiva. São Paulo: Paulus, 2008.</p><p>__________. Internet e esfera civil: limites e alcances da participação política. In: MAIA, R. C. M;</p><p>GOMES, W; MARQUES, F. P. J A. (org’s). Internet e participação política no Brasil. Porto</p><p>Alegre: Sulina, 2011. Cap. 2, p. 47-94.</p><p>MALINI, F. ANTOUN, H. A @internet e a #rua: ciberativismo e mobilização nas redes</p><p>sociais. Porto Alegre: Sulina, 2013.</p><p>MARCONDES FILHO, C. Fake news: o buraco é muito mais em baixo. In: FIGUEIRA J.; SAN-</p><p>TOS, S. (org.). As fake news e a nova ordem (des)informativa na era da pós-verdade.</p><p>Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra: 2019.</p><p>MELO, R. de A. O ‘reencantamento’ da política nas mídias sociais: performances de mobiliza-</p><p>ção on-line em campanhas eleitorais na Paraíba. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Gra-</p><p>duação em Ciências Sociais, Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande,</p><p>2015. Disponível em: <http://dspace.sti.ufcg.edu.br:8080/jspui/handle/riufcg/147>. Acesso</p><p>em: 20 nov. 2019.</p><p>__________ . Curtir, Compartilhar, votar: Perspectivas Para o Uso de Mídias Sociais nas Cam-</p><p>45</p><p>panhas Eleitorais de 2016. In: Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste,</p><p>2016, Caruaru-PE. Anais... São Paulo: Intercom, 2016. Disponível em: <http://www.porta-</p><p>lintercom.org.br/anais/nordeste2016/resumos/R52-2389-1.pdf>. Acesso em 04 maio 2020.</p><p>MORAIS, F. Chatô: o rei do Brasil, a vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das</p><p>Letras, 2003.</p><p>PARISER, E. O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você. Tradução de Diego</p><p>Alfaro. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.</p><p>PRIOR, H. Em nome do povo: o populismo e o novo ecossistema mediático. FIGUEIRA J.; SAN-</p><p>TOS, S. (org.). As fake news e a nova ordem (des)informativa na era da pós-verdade.</p><p>Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra: 2019.</p><p>RUEDIGER, M.A. (Coord.) Robôs, redes sociais e política no Brasil [recurso eletrônico]: estu-</p><p>do sobre interferências ilegítimas no debate público na web, riscos à democracia e processo</p><p>eleitoral de 2018. – Rio de Janeiro: FGV, DAPP, 2017. Disponível em: <http://biblioteca-</p><p>digital.tse.jus.br/xmlui/bitstream/handle/bdtse/4433/2017_ruediger_robos_redes_sociais_.</p><p>pdf?sequence=1>. Acesso em: 26 de set. 2019.</p><p>SASTRE, A; CORREIO, C; CORREIO, F. A influência do “filtro bolha” na difusão de Fake News</p><p>nas mídias sociais: reflexões sobre as mudanças nos algoritmos do Facebook. Revista GEMI-</p><p>NIS, São Carlos, UFSCar, v. 9, n. 1, p.4-17, jan. / abr. 2018. Disponível em: <http://www.re-</p><p>vistageminis.ufscar.br/index.php/geminis/article/view/366/pdf>. Acesso em: 18 maio 2020.</p><p>SILVA, T. O potencial contra-hegemônico da internet sob ameaça em tempos de concentra-</p><p>ção midiática no Facebook. 2017. Disponível em: <https://tarciziosilva.com.br/blog/o-po-</p><p>tencial-contra-hegemonico-da-internet-esta-ameacado-em-tempos-de-concentracao-mi-</p><p>diatica-no-facebook/>. Acesso em 18 maio 2020.</p><p>SILVA, T; SANTOS, N. Monitoramento Online e Vigilância nas Eleições 2010. In: Simpósio</p><p>da Associação Brasileira dos Pesquisadores em Cibercumltura, 4, 2010, Rio de Janeiro.</p><p>Anais. São Paulo, SP: ABCiber, 2010. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publi-</p><p>cation/329600437_Monitoramento_Online_e_Vigilancia_nas_Eleicoes_2010>. Acesso em</p><p>18 maio 2020.</p><p>SILVERSTONE, R. Por que estudar a mídia? São Paulo: Loyola, 2002.</p><p>SPINELLI, E; RAMOS, D. Desordem informacional no ecossistema digital das eleições brasi-</p><p>leiras de 2018. In: FIGUEIRA J.; SANTOS, S. (org.). As fake news e a nova ordem (des)</p><p>informativa na era da pós-verdade. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra: 2019.</p><p>THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes,</p><p>1998.</p><p>WOLTON, D. Pensar a comunicação. Brasília: UnB, 2004.</p><p>46</p><p>47</p><p>JORNALISMO EM TEMPO DE FAKE NEWS: REFLEXÕES TEÓRICAS A</p><p>PARTIR DE UMA PRÁTICA DE CHECAGEM1</p><p>Cássia Lobão Assis2</p><p>Aline Barbosa Oliveira3</p><p>A LUTA DO JORNALISMO POR LEGITIMAÇÃO</p><p>O jornalismo só sobrevive a partir da existência da credibilidade por parte</p><p>do público que o acompanha. Até os dias de hoje, os jornalistas lutam para man-</p><p>ter a reputação de grupo que é comprometido com a verdade e que trabalha com</p><p>a apuração de fatos para torná-los públicos a toda e qualquer pessoa. Essa repu-</p><p>tação por alguns momentos da história foi manchada por questões de interesse</p><p>e alguns deles foram descobertos e admitidos, como no caso do Grupo o Globo,</p><p>grupo que é alvo da presente pesquisa, que apoiou o golpe militar brasileiro em</p><p>19644.</p><p>Com o advento da internet, esse grupo de profissionais precisou disputar</p><p>espaço com pessoas sem especialização na área de produção de informações.</p><p>Não existe mais a possibilidade de controlar a informação, diante da quantida-</p><p>de de vozes que disputam a atenção de um público cada vez mais apressado e</p><p>exigente. Além disso, muitas foram as mudanças que ajudaram a pôr em crise a</p><p>hegemonia do jornalismo enquanto segmento responsável pela mediação entre</p><p>a sociedade e os acontecimentos cotidianos dignos de registro em espaços legí-</p><p>timos de comunicação, como afirma Anderson (2013, p.32):</p><p>Se quisesse resumir em uma sentença a última década no ecossistema</p><p>jornalístico, a frase poderia ser a seguinte: de uma hora para outra, todo</p><p>mundo passou a ter muito mais liberdade. Produtores de notícias, anun-</p><p>ciantes, novos atores e, sobretudo, a turma anteriormente conhecida como</p><p>audiência gozam hoje de liberdade inédita para se comunicar, de forma</p><p>1 Estudo apresentado preliminarmente no IV Encontro de Comunicação e Marketing – CONTENTCOM (FIP, 19</p><p>a 21/11/2019, João Pessoa/PB), e já disponível nos anais do evento (p.134-150):</p><p>https://even3.blob.core.windows.net/download/AnaisContent2019.dfec06a0676b4488b9a7.pdf</p><p>2 Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Departamento de</p><p>Comunicação Social da UEPB desde 1989.</p><p>E-mail: cassialobao@ccsa.uepb.edu.br Lattes: http://lattes.cnpq.br/3118233868976623</p><p>3 Graduanda do 7º período do curso de Jornalismo pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). E-mail: aline.</p><p>barboliv@gmail.com Lattes: http://lattes.cnpq.br/4103615515946343</p><p>4 “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”. O Globo, Rio de Janeiro, 31/08/2013. Disponível em:https://oglobo.</p><p>globo.com/brasil/apoio-editorial-ao-golpe-de-64-foi-um-erro-9771604 Acesso em: 29 de jun. 2020.</p><p>48</p><p>restrita ou ampla, sem as velhas limitações de modelos de radiodifusão e</p><p>da imprensa escrita. Nos últimos 15 anos houve uma explosão de técnicas</p><p>e ferramentas. E, mais ainda, de premissas e</p><p>expectativas. Tudo isso lan-</p><p>çou por terra a velha ordem.</p><p>A luta é constante para recuperação e manutenção da audiência e da credi-</p><p>bilidade da época em que existia o monopólio das notícias, contudo com uma</p><p>diferença, a credibilidade está em forma de likes, compartilhamentos e comentá-</p><p>rios. Diante de um tempo em que as fake news têm avançado de modo crescente,</p><p>o jornalismo vê a possibilidade de buscar novamente a confiança do público.</p><p>Uma tentativa de se tornar novamente a instância de mediação das informações</p><p>entre fontes e sociedade.</p><p>O JORNALISTA COMO GATEKEEPER E GATEWATCHER</p><p>Tanto na fase áurea do jornal impresso, século XIX, como também durante</p><p>os primeiros anos da televisão, no século XX, as empresas de jornalismo eram</p><p>as donas da informação. A produção de notícias vinha por parte dos jornalistas</p><p>que decidiam o que as pessoas iriam receber de informação. A interação do</p><p>veículo com o público era mínima, através de cartas, e mais tarde por telefones</p><p>e e-mails. As pessoas quase não tinham como questionar a veracidade da in-</p><p>formação a que tinham acesso e, mesmo assim, a confiabilidade nesses meios</p><p>era alta, afinal eles eram os jornalistas e supostamente deveriam saber o que era</p><p>importante para o público. Os jornais simplesmente definiam o que era notícia</p><p>e o público apenas recebia-as como alguém faminto pelas últimas novidades:</p><p>havia uma época em que os editores de jornais acordavam pela manhã,</p><p>iam para o trabalho e decidiam o que deveríamos pensar. Tinham essa</p><p>capacidade porque custava caro montar uma gráfica, mas aquilo se tor-</p><p>nou o seu ethos explícito: como jornalistas, tinham o dever paternalista de</p><p>alimentar os cidadãos com uma dieta saudável de cobertura jornalística</p><p>(PARISER, 2012, p.57).</p><p>Com o avanço da área, também avançaram os estudos em jornalismo. As-</p><p>sim, desde o século XX até os dias de hoje se tenta explicar o porquê de as no-</p><p>tícias serem como são. Muitas teorias surgiram, a primeira delas, oficialmente</p><p>acadêmica, foi a teoria do Gatekeeper. Desenvolvida nos anos de 1950 por David</p><p>49</p><p>Manning White, a teoria compreende que as notícias são como são porque o jor-</p><p>nalista as define assim, a partir de um processo de seleção das notícias, ou seja,</p><p>Nesta teoria, o processo de produção da informação é concebido como</p><p>uma série de escolhas onde o fluxo de notícias tem de passar por diversos</p><p>gates, isto é, ‘portões’ que não são mais do que áreas de decisão em relação</p><p>às quais o jornalista, isto é, o gatekeeper, tem de decidir se vai escolher essa</p><p>notícia ou não (TRAQUINA, 2012, p.150).</p><p>Atualmente, essa teoria é de certa forma limitada por minimizar outras</p><p>dimensões do processo de produção da notícia, entre as quais podemos citar</p><p>o público e as fontes da informação. Assim, a partir da limitação desta teoria,</p><p>surge uma nova possibilidade de estudar o processo de seleção de notícias. Para-</p><p>lelamente à revolução tecnológica trazida pela internet, essa nova possibilidade</p><p>é chamada de Gatewatching. Burns define essa teoria como sendo a observação,</p><p>por parte do público, dos</p><p>[...] portões de saída das publicações de notícias e de outras fontes, a fim</p><p>de identificar material importante, à medida que ele é disponibilizado”.</p><p>Ou seja, na perspectiva do gatewatching o público tem uma atuação extre-</p><p>mamente avaliadora sob conteúdo publicado pelos meios de comunica-</p><p>ção, de acordo com o que julga ser importante para si mesmo. Ele já não</p><p>consome todo o conteúdo produzido pelos jornais e chega ao ponto de até</p><p>mesmo interferir no que vai ser produzido pelos meios de comunicação</p><p>(BURNS apud SILVA, 2014, p.21).</p><p>A partir de então, o que se observa é um processo de redefinição, ao mesmo</p><p>tempo que de reinvenção do ato de comunicar e o “impacto” que terá no público</p><p>leitor, que já não é o mesmo de antes, de maneira particular, e na sociedade, de</p><p>maneira geral.</p><p>A INTERNET E A DEMOCRATIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO</p><p>Com o desenvolvimento tecnológico, a internet rapidamente se espalhou</p><p>e mudou radicalmente o ritmo e o modo de produção de notícias nos grandes</p><p>jornais. Deu-se o início o chamado processo de democratização da informação.</p><p>Já não era mais necessário estar vinculado a uma empresa de jornalismo para</p><p>50</p><p>divulgar informações pois, agora, qualquer pessoa também pode isso. Os jorna-</p><p>listas já não são mais os donos da verdade, pelo contrário, agora esses meios são</p><p>severamente questionados por seus posicionamentos diante das informações</p><p>que publicam. De acordo com Kucinski (2011), “o advento da internet como</p><p>principal meio hoje de comunicação – tanto interpessoal, como intergrupal e</p><p>de massa – destruiu o monopólio da fala detido pelos jornais, pelos jornalistas,</p><p>e pela indústria capital intensiva da comunicação”.5 Fidalgo (2008), ao refletir</p><p>sobre o impacto dessa nova era tecnológica sobre as atividades jornalísticas, ex-</p><p>plica que, à medida que a internet facilita o acesso direto do público para com as</p><p>fontes primárias, sem necessidade de intermediação:</p><p>[...] os próprios cidadãos passaram a ter um acesso facilitado a essas ‘fon-</p><p>tes primárias`, dependendo isso apenas da sua iniciativa e de um</p><p>conhecimento mínimo da “cartografia” das instituições e dos mecanis-</p><p>mos de navegação no ciberespaço; por outro lado ainda, ficou tam-</p><p>bém muito mais acessível à generalidade dos cidadãos a possibilidade</p><p>de eles mesmos, com custos e conhecimentos elementares, criarem</p><p>projectos autónomos de edição e difusão de informação no espaço</p><p>público, desenvolvendo iniciativas que nalguns casos se apelidam de</p><p>“jornalismo participativo” ou “jornalismo cívico” – significando uma</p><p>intervenção de cidadãos na esfera pública com os mecanismos, os</p><p>procedimentos e, nalguns casos, os próprios objetivos tradicionalmen-</p><p>te reservados aos jornalistas profissionais integrados em empresas de</p><p>media. (FIDALGO, 2005, p.04)</p><p>Neste contexto, as informações fornecidas pela grande mídia passam a ser</p><p>questionadas em real time. Comentários, curtidas, críticas, elogios agora fazem</p><p>parte do retorno do público diante das informações fornecidas. Agora, os gran-</p><p>des grupos de informação disputam a atenção de um público que está empan-</p><p>turrado de informações, advindas de diversas fontes, e que vão até mesmo de</p><p>encontro com as informações fornecidas pelos jornalistas profissionais. Agora,</p><p>a interatividade, e não a comunicação unidirecional, predomina na relação en-</p><p>tre mídia e público, ao ponto que o público questiona, desconstrói conceitos e</p><p>avalia os conteúdos jornalísticos. Kucinski (2011) define isso como “um novo</p><p>processo de elaboração coletiva do discurso midiático”. Em outras palavras, é a</p><p>5 KUCINSKI, B. “O poder da imprensa e os abusos do poder”. Observatório de imprensa. Campinas-SP, 22/03/2011.</p><p>Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br/interesse-publico/o-poder-da-imprensa-e-os-abusos-do-</p><p>-poder/. Acesso em: 29/06/2020.</p><p>51</p><p>teoria do gatewatcher em atuação através da internet com a colaboração e inter-</p><p>ferência do público no processo produtivo das notícias.</p><p>REDES SOCIAIS E FAKE NEWS</p><p>As pessoas hoje lotam as redes sociais, definidas por Recuero (2006) como</p><p>relações sociais que se dão no âmbito da internet. Essas redes favoreceram a</p><p>aproximação de pessoas que moram em locais extremamente distantes e via-</p><p>bilizaram o compartilhamento do conteúdo de um usuário com todos. Um</p><p>dos fatores relevantes quando se fala dessas redes e sua relação com o jorna-</p><p>lismo é a facilidade do acesso às informações. Se antes alguém só se informa-</p><p>va se comprasse um jornal ou parasse para ouvir um rádio ou assistir a uma</p><p>tv, agora basta um clique no celular ou computador. As redes sociais ajudam</p><p>a impulsionar postagens e alcançar pessoas em cadeia. Cada informação tem</p><p>a potencialidade de ser alçada aos assuntos mais comentados na internet, isto</p><p>porque uma notícia, divulgada por uma pessoa com apenas dez amigos, pode</p><p>ser compartilhada por um desses amigos que tem outros</p><p>mil e assim sucessi-</p><p>vamente. Uma notícia aparentemente irrelevante pode crescer exponencial-</p><p>mente, ou, no jargão da linguagem dos internautas, viralizar e até pressionar</p><p>os meios tradicionais de comunicação a divulgá-la. A cada minuto, centenas</p><p>de informações são criadas, replicadas e repassadas. E, embora a internet tenha</p><p>sido tão benéfica à democracia e à pluralidade de opiniões, ela acarreta outras</p><p>perspectivas negativas num mundo hiperconectado.</p><p>Levando em consideração que através das redes sociais as pessoas se tornam</p><p>protagonistas e fontes, há uma descentralização do papel do jornalista. Qual-</p><p>quer um pode divulgar informações e se fazer um “jornalista” só por redigir um</p><p>texto e acrescentar umas fotos dos fatos mais recentes. Assim, as pessoas que se</p><p>beneficiam da desinformação, ganham um terreno fértil para a disseminação</p><p>de conteúdo falso e as tão conhecidas fake news. O termo ganhou popularidade</p><p>durante a corrida presidencial dos Estados Unidos, em que Donald Trump foi</p><p>eleito.</p><p>Neste artigo, compreende-se por fake news o que também Meneses (2018,</p><p>p. 47) compreende. Ou seja, “um documento deliberadamente falso, publicado</p><p>online, com o objetivo de manipular os consumidores”. Ressalta-se aqui algumas</p><p>observações importantes que o autor destaca: o termo “documento” é utilizado</p><p>tendo em vista que estes conteúdos não estão apenas em formato de texto hoje</p><p>em dia; já “deliberadamente falso” significa que quem os cria tem o objetivo</p><p>52</p><p>de enganar e sabe que aquela informação é mentirosa. O “publicado online”,</p><p>por sua vez, vem sob a compreensão do autor que as fake news nascem com a</p><p>internet. Os boatos e as informações com erros de apuração sempre existiram,</p><p>isso não é um fenômeno exclusivo da internet e das redes sociais, pois de acordo</p><p>com Alves e Maciel (2020), a própria prensa de Gutenberg no século XV, que</p><p>permitiu a impressão em massa de livros, também possibilitou a produção de</p><p>panfletos que espalharam todo tipo de notícias falsas. Segundo Meneses (2018),</p><p>só a internet possibilitou a criação das fake news, tal como se conhece hoje, pelos</p><p>seguintes fatores associados à internet: facilidade de publicação, desregulação,</p><p>abundância de informações existentes na web, facilidade de confundir entre o</p><p>verdadeiro e o falso por causa da facilidade de manipulação, e a facilidade de</p><p>obter retorno financeiro com publicidade. É necessário destacar aqui que a com-</p><p>preensão deste termo, tal como é aqui utilizado, não é unânime para todos os</p><p>pesquisadores sobre a temática e está sujeito a compreensões diferenciadas, sob</p><p>justificativas específicas, de acordo com cada autor.</p><p>Mereles (2017) elencou que entre alguns fatores que incentivam a existência</p><p>incontrolável das fake news está à facilidade de divulgar informações nas redes</p><p>sociais.</p><p>Antes da existência das redes sociais, o público recebia notícias por meio</p><p>dos jornais, que tinham jornalistas profissionais checando – mesmo que</p><p>seletivamente – as informações. Com as redes sociais, um político profis-</p><p>sional, uma jogadora de vôlei e um sociólogo estão a um clique de distân-</p><p>cia do público – um tweet, um post no Facebook, uma foto no Instagram.</p><p>Mas quem verifica as informações que eles repassam? 6</p><p>Outros fatores destacados pela autora são a falta de checagem dos próprios</p><p>meios de comunicação, em detrimento da velocidade para dar o furo e o fator da</p><p>pós-verdade: a ideia de que uma mentira contada muitas vezes se torna verdade,</p><p>e de que nós escolhemos racionalmente acreditar em uma mentira, porque ela é</p><p>adequada às nossas convicções pessoais.</p><p>Por sua vez, Vinner (2018) salienta que,</p><p>na era digital, nunca foi tão fácil publicar informações falsas, que são rapi-</p><p>damente compartilhadas e consideradas verdadeiras – como vemos com</p><p>6 MERELES, C. “Checagem de fatos: um novo nicho no jornalismo” Politize! São Paulo, 24/05/2017. Disponível em:</p><p>https://www.politize.com.br/checagem-de-fatos/ Acesso em 29/06/2020.</p><p>53</p><p>frequência em situações de emergência quando a notícia é transmitida em</p><p>tempo real. (VINNER apud MALTA & ALENCAR, 2018, p.07)</p><p>No Brasil, segundo a BBC Brasil, a popularização de aparelhos tecnológicos,</p><p>como computadores e smartphones, também trouxe o efeito de que “boa parte</p><p>da população brasileira tem acesso diariamente a redes sociais, como Facebook</p><p>e WhatsApp, e se tornou alvo de uma avalanche de notícias falsas disparadas a</p><p>todo momento”7. Isso se dá porque o sistema de Bolha dos Filtros8 (PARISER,</p><p>2012), presente nas plataformas de redes sociais, promove um direcionamento</p><p>de conteúdos em nichos de acordo com o gosto do usuário, e entre esses con-</p><p>teúdos, estão as fake news que reforçam posicionamentos já pré-estabelecidos</p><p>do usuário.</p><p>Segundo matéria publicada no Correio Braziliense em março de 2018, os</p><p>dados do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT, sigla em inglês) divulga-</p><p>dos na Revista Science mostram que notícias falsas se espalham 70% mais rápido</p><p>que as verdadeiras e alcançam muito mais gente. A publicação do jornal ainda</p><p>afirma que</p><p>de acordo com o estudo, as informações falsas ganham espaço na inter-</p><p>net de forma mais rápida, mais profunda e com mais abrangência que</p><p>as verdadeiras. Cada postagem verdadeira atinge, em média, mil pessoas,</p><p>enquanto as postagens falsas mais populares - aquelas que estão entre o</p><p>1% mais replicado - atingem de mil a 100 mil pessoas.9</p><p>É neste cenário, que no mercado jornalístico surge uma nova área de atuação:</p><p>a checagem de fatos. Muitas agências têm surgido com o intuito de checagem de</p><p>conteúdos que circulam nas redes sociais, falas de políticos e outros conteúdos.</p><p>Segundo matéria publicada no site Brasil de Fato, em palestra, a coordenadora</p><p>do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Renata</p><p>Mielli, destacou que foi em função das fake news que surgiu esse mercado;</p><p>Essas agências estão se propondo a, diante de uma comoção em torno dos</p><p>problemas que envolvem a circulação de notícias falsas, combatê-las. En-</p><p>7 “‘É como usar drogas›: por que as pessoas acreditam e compartilham notícias falsas?”. BBC Brasil, São Paulo, 26</p><p>out de 2018. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45767478>. Acesso em: 15 jun. 2020</p><p>8 Termo que define a ação das plataformas de filtrar os conteúdos para oferecer conteúdos aos usuários que seguem</p><p>seu nicho de interesse, opiniões e gosto.</p><p>9 Agência Estado. “Fake news se espalham 70% mais rápido que notícias verdadeiras, diz MIT”. Correio Braziliense,</p><p>Brasília-DF, 08/03/2018. Disponível em: https://is.gd/UPT4qc . Acesso em 29 de jun. 2020.</p><p>54</p><p>tão você tem empresas privadas classificando notícias produzidas como</p><p>verdadeiras, falsas, imprecisas, exageradas, distorcidas, com critérios que</p><p>também podem ser muito subjetivos.10</p><p>Para tentar sanar essa preocupação de critérios subjetivos na checagem, a</p><p>Rede Internacional de Fact-Checking (The International Fact-Checking Network -</p><p>IFCN) surgiu em 2014 após um encontro de checadores do mundo todo promo-</p><p>vido pelo Poynter Institute. Depois do evento, o grupo passou a se comunicar por</p><p>uma lista de e-mails em grupo e já eram chamados de Associação Internacional</p><p>de Checadores (GRAVES apud PRADO; MORAIS, 2018). Um pouco mais de</p><p>um ano, o grupo se tornou a Rede Internacional de Fact-Checking (IFCN). O in-</p><p>tuito da organização é metodizar o modo de atuação das agências de checagem</p><p>que se propõem a fazer checagens transparentes para que o próprio consumidor</p><p>do conteúdo das agências cheque essas agências. Assim, as empresas que são fi-</p><p>liadas à organização recebem o selo de aprovação do IFCN e são obrigadas a se-</p><p>guir os princípios de: Apartidarismo, Transparência de fontes, Transparência de</p><p>Financiadores, Transparência na Metodologia e Política de Correção de erros.</p><p>AS AGÊNCIAS DE CHECAGEM E O FATO OU FAKE</p><p>Ao contrário do que se pode pensar, a história da checagem não emerge da</p><p>internet, embora tenha sido nesse ambiente em que essa atividade se popula-</p><p>rizou. Foi em 1991 que o jornalista da CNN, Brooks Jackson,</p><p>recebeu a ordem</p><p>do seu chefe para checar os discursos dos candidatos à presidência dos Estados</p><p>Unidos George H. W. Bush e Bill Clinton. Com uma equipe chamada de ad poli-</p><p>ce, Jackson estampava uma fala, após checagem, com os termos “verdadeiro” ou</p><p>“falso” (VIANA apud PRADO e MORAIS, 2018, p.03).</p><p>No Brasil, a chegada da checagem começou pontualmente. Os primeiros</p><p>registros feitos nesse sentido foram os projetos “Mentirômetro” e o “Promes-</p><p>sômetro”, da Folha de S. Paulo em 2010. Conforme salientam Prado e Morais</p><p>(2018), em julho de 2015 surge o primeiro veículo a checar o discurso de políti-</p><p>cos do Brasil, o Aos Fatos. Em novembro do mesmo ano, surge a Agência Lupa,</p><p>primeira agência de notícias do Brasil a se especializar em fact-checking.11</p><p>Em julho de 2018, o grupo de jornalismo da Rede Globo de comunicação</p><p>10 FERNANDES, L. “E quem checa as agências de checagem de notícias falsas?” Brasil de Fato. São Paulo. 15/06/2018.</p><p>Disponível em: https://bit.ly/2zeNpS7 . Acesso em 29 de jun. 2020.</p><p>11 Equipe Lupa. “O que é a agência Lupa?” 15/10/2015. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/</p><p>lupa/2015/10/15/como-selecionamos-as-frases-que-serao-checadas/ Acesso em: 29 de jun. 2020.</p><p>55</p><p>criou o projeto ““Fato ou Fake””, uma seção do G1, com o intuito de ajudar o</p><p>público a esclarecer o que é verdade e o que é mentira em relação às informações</p><p>de grande repercussão nas redes sociais. Como afirma: “O objetivo é alertar os</p><p>brasileiros sobre conteúdos duvidosos disseminados na internet ou pelo celular,</p><p>esclarecendo o que é notícia (fato) e o que é falso (fake)” (G1, 2018)12.</p><p>Para o desenvolvimento deste projeto, uma intensa investigação é realizada</p><p>pelas equipes de jornalismo do grupo GLOBO, entre as quais são G1, O Globo,</p><p>Extra, Época, Valor, CBN, Globo News e TV Globo que todos os dias fazem o</p><p>monitoramento das mensagens muito compartilhadas em redes sociais e que</p><p>são suspeitas. Todas as informações checadas são publicadas na plataforma do</p><p>projeto e categorizadas como um Fato ou uma Fake, ou Não é bem assim.</p><p>Após o monitoramento das mensagens difundidas em redes sociais, através</p><p>da troca de dados entre os jornalistas, a equipe constata que uma informação</p><p>foi amplamente divulgada, busca a fonte daquela informação e a investigam.</p><p>Será observado se a informação está fora de contexto, se é um fato antigo e se</p><p>os fotos correspondem à informação publicada. Logo após, serão buscadas as</p><p>pessoas envolvidas, testemunhas e especialistas para esclarecimentos a respeito</p><p>da informação (G1, 2018).</p><p>O projeto traz a transparência como principal critério para a checagem das</p><p>informações, por isso são consideradas:</p><p>Transparência de fontes - As fontes consultadas, pessoas ou instituições,</p><p>devem estar no texto para que o leitor veja o caminho da apuração com clareza.</p><p>Transparência de metodologia - Será divulgada a motivação para a sele-</p><p>ção de determinada notícia para checagem e o porquê de determinada notícia</p><p>ser classificada como fato ou como fake.</p><p>Transparência de correções - Se a checagem foi alterada na sua publicação</p><p>original, comprometendo a mesma, esta alteração estará devidamente identifi-</p><p>cada no texto.</p><p>Os internautas podem sugerir às redações sobre as informações que de-</p><p>vem ser checadas. Ao mesmo tempo, um “bot” (robô), no Facebook e no Twi-</p><p>tter responderá a esses internautas o que é verdadeiro ou falso, caso o assunto</p><p>questionado já tenha sido checado. Além disso, através do WhatsApp, usuários</p><p>cadastrados podem ver os links das checagens realizadas. Vale ressaltar, porém,</p><p>que o Fato ou Fake não faz parte da lista de checadores credenciados pela IFCN,</p><p>ainda que possua alguns dos critérios da organização, como a transparência na</p><p>12 G1. “G1 lança ‘Fato ou Fake’, novo serviço de checagem de conteúdos suspeitos”. Globo. Rio de Janeiro, 30/07/2018.</p><p>Disponível em: https://glo.bo/2v0lhzU. Acesso em: 19 de nov. de 2018.</p><p>56</p><p>metodologia, nas correções e fontes como pressuposto da prática das checagens</p><p>que realiza.</p><p>CONFIABILIDADE DO PÚBLICO AO PROJETO FATO OU FAKE</p><p>Para que haja um aprofundamento das teorias apresentadas neste artigo,</p><p>será analisado o posicionamento do público em relação à confiança a priori no</p><p>projeto Fato ou Fake. Isso será feito através da avaliação dos comentários no</p><p>post do Facebook do que anuncia o início das atividades do projeto. Parte-se do</p><p>pressuposto de que os internautas são os maiores replicadores de fake news, e</p><p>que por isso, é o público-alvo do conteúdo produzido pelo Fato ou Fake. Assim,</p><p>será analisado se este projeto teve a aceitação do público e conseguiu instituir</p><p>a sua legitimação na internet, com jornalistas exercendo novamente a figura de</p><p>gatekeeper sobre o que é notícia e o que não é. Isso será feito através da obser-</p><p>vação das reações do público na postagem, e principalmente, dos comentários.</p><p>É necessário destacar que a página do Fato ou Fake no Facebook possui</p><p>78.098 curtidas e 78.923 seguidores até a data de escrita deste artigo (26 de ou-</p><p>tubro de 2019). O post que será analisado foi publicado no dia 30 de julho de</p><p>2018 e vem com o link da matéria do site que explica de que modo o projeto</p><p>será realizado e quais são suas metodologias. A imagem a seguir mostra o post</p><p>analisado (Figura 1):</p><p>Figura 1 - Print da postagem de apresentação do serviço Fato ou Fake, no</p><p>Facebook</p><p>Fonte: facebook.com/fatooufake</p><p>57</p><p>O post também foi compartilhado 467 vezes e possui 756 comentários até</p><p>a data de escrita deste artigo (26 de outubro de 2019). E as reações do público</p><p>foram 1,3 mil, das seguintes formas:</p><p>CURTI – 1,1 mil pessoas</p><p>HAHA - 98 pessoas</p><p>AMEI - 73 pessoas</p><p>GRR - 13 pessoas</p><p>UAU - 6 pessoas</p><p>Como demonstra a imagem a seguir (Figura 2):</p><p>Figura 2 - Print de tela com o demonstrativo das reações no</p><p>post que anuncia início do projeto Fato ou Fake</p><p>Fonte: facebook.com/fatooufake</p><p>A partir dos 756 comentários postados, foi-se delimitado que seriam ana-</p><p>lisados os comentários feitos nos dias úteis da primeira semana de lançamento</p><p>do post, ou seja, de segunda à sexta-feira, de 30 de julho de 2018 a 03 de agosto</p><p>de 2018. Na análise quantitativa, detectou- se que 100 comentários foram feitos</p><p>durante o período analisado, contudo deve-se ressaltar também que apenas os</p><p>comentários no post foram incluídos. Os comentários que respondiam a um</p><p>outro comentário não foram utilizados na presente análise. Também não foram</p><p>utilizados, nem contabilizados comentários iguais, repetidos por um mesmo in-</p><p>ternauta. Os comentários foram categorizados nos seguintes grupos:</p><p>Confia: Quando o internauta apresentava confiança nos serviços de che-</p><p>cagem. Aqui estão incluídos os comentários que possuíam links justamente de</p><p>texto que pedia para que a agência checasse determinada informação, ou que</p><p>apenas parabeniza o grupo pela iniciativa;</p><p>Confia por inferência: Quando o internauta apresentava confiança no</p><p>serviço de checagem, mas um modo indireto, sendo compreendido apenas por</p><p>associações de elementos presentes nos comentários. Aqui estão incluídos co-</p><p>mentários que de alguma forma defendem o serviço, falam de sugestões para o</p><p>melhoramento das atividades e coisas semelhantes;</p><p>Não Confia: Quando o internauta não apresenta nenhuma confiança nos</p><p>serviços de checagem. Aqui estão incluídos os comentários de críticas diretas a</p><p>58</p><p>empresa e seus serviços;</p><p>Não confia por inferência: Quando o internauta demonstra não confiar</p><p>nos serviços de checagem, mas de modo indireto, sendo compreendido apenas</p><p>através de associações presentes nos comentários; Aqui estão incluídos comen-</p><p>tários que falam de modo irônico sobre os trabalhos de checagem, que fazem</p><p>críticas a partir da sua associação a grupos políticos e coisas semelhantes;</p><p>Indefinido: Quando não se é possível saber qual a opinião do internauta</p><p>pela falta de clareza para se interpretar posicionamentos. Os comentários desta</p><p>categoria foram contabilizados, porém não serão utilizados na análise pretendi-</p><p>da pelo trabalho;</p><p>Irrelevante: Quando o comentário não servia para avaliação do</p><p>presente</p><p>artigo. Aqui estão incluídos comentários com links sem textos explicativos; co-</p><p>mentários relacionados a outros assuntos, que não um posicionamento quanto</p><p>ao lançamento do projeto. Os comentários desta categoria foram contabilizados,</p><p>porém não serão utilizados na análise pretendida pelo trabalho.</p><p>Confia e não confia: Quando o internauta apresentava acreditar nos servi-</p><p>ços de checagem, mas com ressalvas.</p><p>A tabela a seguir expressa os resultados da análise:</p><p>Gráfico 1- Demonstrativo da classificação dos comentários analisados</p><p>A análise demonstra que 17 dos comentários se apresentavam como que</p><p>os usuários confiassem efetivamente na proposta. 5 comentários inferiam que</p><p>os usuários confiavam. 38 comentários apontavam que os usuários claramente</p><p>não confiavam no serviço de checagem, enquanto 15 demonstravam o mesmo,</p><p>só que por inferência. 03 comentários demonstravam confiar e não confiar ao</p><p>59</p><p>mesmo tempo, enquanto 13 comentários foram classificados como indefinidos</p><p>por não deixarem um posicionamento mais evidente e 09 comentários foram</p><p>classificados como irrelevantes por fazerem menção de assuntos que fugiam da</p><p>proposta da pesquisa.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>No momento em que se discutem as novas perspectivas do exercício do</p><p>jornalismo, o artigo buscou observar a tentativa de manutenção da legitimidade</p><p>por parte do grupo Globo de jornalismo. Como uma empresa tradicional que</p><p>disputa audiência na internet com grupos independentes que refutam as infor-</p><p>mações divulgadas por ela, a empresa aproveita o contexto em que as fake news</p><p>têm desorientado as pessoas e tenta recuperar a credibilidade através do serviço</p><p>de checagem, “Fato ou Fake”, ressignificando o papel de um gatekeeper, ou seja</p><p>de um porteiro que define as informações para o público consumir.</p><p>A partir da análise dos comentários dos internautas do Facebook sobre a</p><p>nova proposta de trabalho do grupo, foi possível constatar que, nestes comentá-</p><p>rios delimitados e analisados, há uma desconfiança dos usuários em relação ao</p><p>papel de mediador proposto pela equipe do Fato ou Fake: dos 100 comentários</p><p>analisados, 38 demonstram claramente que não confiam, além de mais 15 o afir-</p><p>marem por inferência. Ou seja, 53% dos comentários analisados demonstram</p><p>que não há confiança por parte dos usuários na mediação oferecida pela plata-</p><p>forma.</p><p>Através dessa análise preliminar, percebe-se também que o número de pes-</p><p>soas que acreditam na checagem feita por esses profissionais da comunicação</p><p>é inferior se comparada aos que não acreditam, pois, numa somatória dos que</p><p>confiam de modo explícito (17), com os que confiam por inferência (5), temos</p><p>uma porcentagem de 23% dos comentários analisados que demonstram con-</p><p>fiança. Além disso, o demonstrativo de indecisão entre confiar e não confiar ao</p><p>mesmo tempo possui apenas uma porcentagem de 2%, o que não altera signi-</p><p>ficativamente o resultado. Ainda assim, esse número demonstra que existe um</p><p>público que tem interesse em encontrar um mediador em que se possa confiar.</p><p>Alguns com suas ressalvas (visto na categoria “confio e não confio”), mas mos-</p><p>trando ainda sua procura por de meios de comunicação com credibilidade.</p><p>Os resultados obtidos demonstram que não há fortes indícios de credibili-</p><p>dade por parte do público para com o serviço realizado pelo Fato ou Fake. Num</p><p>contexto em que as informações falsas causam transtornos e caos, as pessoas de-</p><p>60</p><p>sejam que alguém de confiança cheque para elas, contudo, os meios tradicionais</p><p>de comunicação ainda não conseguem retornar ao estilo de antigamente em</p><p>que controlavam as informações que predominavam entre o público, pois este</p><p>demonstra estar mais crítico na escolha de fontes para confiar.</p><p>Contudo, a iniciativa desse projeto pautado na transparência, mostra o in-</p><p>teresse do meio de comunicação de, não apenas definir o que é fato e o que é</p><p>fake, mas de se mostrar mais ser claro sobre a apuração e resultado. Ou seja, há</p><p>uma ressignificação da teoria jornalística do gatekeeper. O meio de comunicação</p><p>agora, em vez de simplesmente trazer a informação, tem interesse em se mos-</p><p>trar mais transparente, mostrando a razão de determinado fato ser classificado</p><p>como verdade ou como mentira. Hoje o público auxilia e interfere no processo</p><p>de checagem das notícias, como se vê na teoria do gatewatcher, mas o Gatekeeper</p><p>não se perdeu de todo pelo que indicam as novas perspectivas práticas e teóricas</p><p>no campo do jornalismo onde o jornalista checa fiscalizado pelo internauta e o</p><p>internauta lhe devolve a credibilidade.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>AGÊNCIA ESTADO. “Fake news’ se espalham 70% mais rápido que notícias verdadeiras, diz</p><p>MIT”. Correio Braziliense, 2018. Disponível em: https://is.gd/UPT4qc . Acesso em 29 de</p><p>junho de 2020.</p><p>AGÊNCIA LUPA, “O que é a agência Lupa?”. Rio de Janeiro, 2015. Disponível em: https://is.gd/</p><p>6biV8k . Acesso em: 29 de junho de 2020.</p><p>ALVES, M. A. S.; MACIEL, E. R. H. “O fenômeno das fake news: Definição, combate e contexto”.</p><p>Revista Internetlab, vol. 1, n° 1, fevereiro de 2020. Disponível em: https://is.gd/38HfXI .</p><p>Acesso em 29 de junho 2020.</p><p>ANDERSON, C.W. et al. “Jornalismo pós-industrial: adaptação aos novos tempos”. Revista de</p><p>Jornalismo ESPM. São Paulo: n 5, ano 2, abr-jun, 2013.</p><p>FIDALGO, J. “Novos desafios a um velho ofício ou... um novo ofício? A Redefinição da profis-</p><p>são de jornalista”. Minho-Portugal: Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, 2005.</p><p>Disponível em: https://is.gd/YD9my4 . Acesso em 01 de julho 2020.</p><p>G1. “G1 lança “Fato ou Fake”, novo serviço de checagem de conteúdos suspeitos”. Rio de Janeiro,</p><p>30/07/2018. Disponível em: https://glo.bo/2v0lhzU . Acesso em: 19 de novembro 2018.</p><p>KUCINSKI, B. “O poder da imprensa e os abusos do poder”. Observatório da Imprensa, 2011.</p><p>Disponível em: https://clck.ru/PaVY . Acesso em: 19 nov. 2018.</p><p>MALTA, V. V. M.; ALENCAR, J. A. “O Jornalismo Online e o Uso da Pós-Verdade”. 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Rio de Janeiro: Zahar,</p><p>2012.</p><p>PRADO,J.G.R.; MORAIS, O.J. “A checagem de fatos (fact-checking) como nova prática jornalís-</p><p>tica: história, crescimento e profissionalização”. Anais do XXIII Congresso de Ciências da</p><p>Comunicação na Região Sudeste – Belo Horizonte-MG: 07-09jun./2018. Disponível em:</p><p>https://is.gd/pcj04F Acesso em: 15 junho 2020.</p><p>RECUERO, R. C. Comunidades em Redes Sociais na Internet: Proposta de Tipologia baseada</p><p>no Fotolog.com. (Tese de Doutorado). UFRS, Faculdade de Biblioteconomia e Comunica-</p><p>ção; Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação. Porto Alegre, 2006. Dis-</p><p>ponível em: http://www.raquelrecuero.com/teseraquelrecuero.pdf .Acesso em: 15 de junho</p><p>2020.</p><p>SILVA, M. R. Do gatekeeping ao gatewatching: impressões sobre papel do jornalista como me-</p><p>diador da informação. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Jornalismo) - Uni-</p><p>versidade Federal de Santa Catarina-UFSC, Florianópolis, 2014.</p><p>SOUZA, F. “‘ É como usar drogas›: por que as pessoas acreditam e compartilham notícias falsas?”.</p><p>São Paulo: BBC Brasil, 26 out de 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/</p><p>brasil-45767478 . Acesso em: 15 jun. 2020</p><p>TRAQUINA, N. Teoria do jornalismo: porque as notícias são como são. v.1, 3.ed. Florianópolis:</p><p>Insular, 2012.</p><p>62</p><p>63</p><p>ATIVIDADE JORNALÍSTICA EM METAMORFOSE:</p><p>COMO A CHEGADA DO COMPUTADOR E DA INTERNET</p><p>IMPACTARAM AS REDAÇÕES CAMPINENSES</p><p>Verônica Almeida de Oliveira Lima1</p><p>Aline Barbosa Oliveira2</p><p>O artigo apresenta parte dos resultados obtidos através de pesquisa desen-</p><p>volvida no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (UEPB/</p><p>CNPq), cota 2019-2020. A pesquisa teve como objetivo central, compreender</p><p>as mudanças ocorridas nas rotinas produtivas dos principais jornais impres-</p><p>sos de Campina Grande/PB a partir da chegada dos computadores às reda-</p><p>ções. Partiu-se da hipótese de que a categoria dos jornalistas sofreu de forma</p><p>direta as consequências advindas da inserção do computador nas redações, afe-</p><p>tando tanto seu ambiente de trabalho como sua rotina produtiva.</p><p>Como método, utilizou-se a História Oral, e como instrumento de coleta</p><p>de dados a entrevista semiestruturada. Foram selecionados onze (11) entrevis-</p><p>tados com histórico de vínculo de trabalho em uma das empresas de jornalis-</p><p>mo impresso estabelecidas na cidade de Campina Grande/PB, quais sejam: o</p><p>Diário da Borborema, Jornal da Paraíba e Correio da Paraíba. Tal vínculo se</p><p>estabeleceu entre o período que antecede e, também, sucede, a chegada dos</p><p>computadores nas referidas redações. Tal recorte temporal visou extrair dos</p><p>entrevistados uma visão mais clara de como ocorria as rotinas produtivas antes</p><p>da chegada de tais tecnologias nas redações e, em seguida, como tais rotinas</p><p>foram afetadas pelas mesmas tecnologias.</p><p>O trabalho parte da compreensão de que o desenvolvimento do sistema ca-</p><p>pitalista está em constante adaptação diante das necessidades de cada período</p><p>histórico e que este teve influência sobre as mudanças ocorridas nas redações.</p><p>Tem-se em vista que, promovendo a inserção de tecnologias que maximizam a</p><p>produtividade, o sistema também diminui a segmentação de funções existentes,</p><p>características do modelo fordista. Por outro lado, o sistema transforma o traba-</p><p>lhador em um multitarefa, eliminando funções que agora podem ser exercidas</p><p>pelo novo maquinário controlado por poucos trabalhadores. Tal conjuntura,</p><p>além de remodelar as atividades dos jornalistas na redação e seu espaço de tra-</p><p>1 Doutora em Ciências da Educação pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Portugal) e professora</p><p>do Departamento de Comunicação Social da Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: veronicaoliveira@uepb.</p><p>servidor.edu.br</p><p>2 Graduanda em Jornalismo pela Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: aline.barboliv@gmail.com</p><p>64</p><p>balho, altera o perfil do profissional.</p><p>A EMPRESA JORNALÍSTICA: DO FORDISMO AO PÓS-INDUSTRIALISMO</p><p>O desenvolvimento do sistema capitalista gerou uma série de modelos de</p><p>produção industrial que foram sendo implementados ao longo dos anos, dentre</p><p>eles, o fordismo. Desenvolvido por Henry Ford, este modo de produção levava</p><p>em consideração o avanço tecnológico como meio de alavancar o ritmo produti-</p><p>vo. Sob a crença de que a produção em larga escala levaria ao consumo em larga</p><p>escala, o fordismo surgiu tendo como base a associação de ideias tayloristas, ou</p><p>seja, a segmentação da classe trabalhadora em indivíduos que atuem em ativi-</p><p>dades específicas realizando, assim, uma única tarefa todos os dias. Larangeira</p><p>(1997 apud BOTELHO, 2000), referindo-se ao processo de trabalho fordista, o</p><p>caracteriza como uma prática de gestão onde há uma radical separação entre</p><p>concepção e execução e que se baseia no trabalho segmentado com ciclos ope-</p><p>ratórios muito curtos, requerendo pouco tempo para formação e treinamento</p><p>dos trabalhadores.</p><p>Ford, ao invés de permanecer com uma produção manufatureira, como fez</p><p>Taylor, promoveu a produção em massa, crendo que esta resultaria em consumo</p><p>em massa. Assim, no modelo de produção fordista, a potencialidade produtiva</p><p>do trabalhador é levada ao máximo, chegando ao ponto de se utilizar a esteira</p><p>com o objetivo de evitar a perda de tempo do operário em busca da matéria-pri-</p><p>ma. (SILVA FILHO, 2005).</p><p>Com a crise em 1930, por causa do acúmulo de bens nos estoques, o for-</p><p>dismo deu lugar a um modelo de produção mais flexível, o que alguns autores</p><p>chamam de pós-fordismo ou, como define Harvey (1992), de acumulação flexí-</p><p>vel. Segundo o autor, esta fase marca um confronto com a rigidez do processo</p><p>produtivo fordista, pois “se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos</p><p>produtos e padrões de consumo” (HARVEY, 1992, p. 140). Assim, as produções</p><p>são feitas de acordo com a demanda dos consumidores, influenciando a jornada</p><p>de trabalho do funcionário já que, agora, trabalha-se de acordo com as necessi-</p><p>dades da produção.</p><p>O jornalismo como grupo de produção de informações também partici-</p><p>pa dos modelos produtivos do capital no contexto fordista ou, como sugerem</p><p>outros autores3, no contexto pós-industrial. Tais termos são sinônimos, porém,</p><p>segundo Sanson (2013, p. 70), “o conceito sociedade pós-industrial diz respeito</p><p>3 Um dos autores que utiliza o termo pós-industrial é Bell D. (1974).</p><p>65</p><p>ao caráter mais amplo das mudanças que se processam no capitalismo”, assim</p><p>como complementa Castells (1999 apud SANSON 2013, p. 70): “A sociedade</p><p>pós-industrial remete para a transformação da estrutura ocupacional, na qual se</p><p>assiste a um declínio do emprego industrial em benefício do emprego no setor</p><p>de serviços”.</p><p>O jornalismo se encontrando no meio das formas de produção industrial,</p><p>segue, consequentemente, seus modelos. No contexto pós-industrial, o conhe-</p><p>cimento é a fonte de poder e a base para o surgimento de novos produtos que</p><p>incentivam o consumo. O conceito de jornalismo pós-industrial surge com Doc</p><p>Searls (ANDERSON et al, 2013) e faz referência ao jornalismo que não é mais</p><p>organizado de acordo com a lógica do maquinário de produção. Ou seja, existe</p><p>uma desestruturação dos modos tradicionais de se produzir notícias e informa-</p><p>ções. O que antes fazia parte de um modelo industrial de produção, por segmen-</p><p>tar indivíduos para cada atividade, agora é mixado em um único indivíduo que</p><p>precisa, por exemplo, apurar, redigir, editar, diagramar e publicar. A tecnologia</p><p>torna-se facilitadora dos modos de produção, à medida que também elimina</p><p>funções de trabalho anteriormente necessárias dentro das redações.</p><p>No estudo “Jornalismo pós-industrial” desenvolvido pelos pesquisadores</p><p>C. W. Anderson, Clay Shirky e Emily Bell (2013), o conceito de Searls é estendi-</p><p>do, uma vez que passa a incluir a necessidade de modernização das grandes cor-</p><p>porações jornalísticas tradicionais para, assim, sobreviver às ondas do avanço</p><p>tecnológico que imperam na contemporaneidade. A crise no jornalismo é uma</p><p>realidade uma vez que diante da falta de receita e da forte concorrência com a</p><p>internet, jornalistas estão sendo demitidos e as redações estão cortando custos.</p><p>Assim, se não houver uma reformulação das grandes corporações de comunica-</p><p>ção, não haverá modo de a atividade jornalística sobreviver.</p><p>Este novo modelo é marcado pela descentralização, flexibilidade e mobili-</p><p>dade, aspectos que, segundo Rodrigues (2013), se impuseram na maneira como</p><p>a sociedade produz e consome notícias hoje, mas que são praticamente proibi-</p><p>das no funcionamento da indústria da informação tradicional, onde, em mui-</p><p>tos casos, ainda impera o sistema fordista de produção. É nesse contexto que</p><p>o jornalista começa a perder sua função segmentada, diante do surgimento de</p><p>tecnologias que fazem o seu trabalho de modo automatizado. Para permanecer</p><p>atuando, este profissional precisa dominar as tecnologias emergentes de modo a</p><p>continuar firme enquanto força de trabalho.</p><p>Diante disso, o relatório afirma que “se concluirmos que o jornalismo é</p><p>essencial, e que não há solução para a crise, a única maneira de garantir a sobre-</p><p>66</p><p>vivência do jornalismo de que a sociedade precisa no cenário atual é explorar</p><p>novas possibilidades” (ANDERSON, SHIRKY e BELL, 2013. p. 38), ou seja, é</p><p>necessário repensar os modelos produtivos que estão operando nas redações e</p><p>melhorá-los fazendo uso da tecnologia.</p><p>O relatório ainda mostra que aquilo que</p><p>o jornalismo vem sofrendo, dentro das perspectivas aqui abordadas, é tão forte</p><p>que não há retorno. Neste sentido, se adaptações não forem feitas, não há mais</p><p>como manter a proposta industrial do jornalismo, pois ao considerar a tecnolo-</p><p>gia como inimiga, torna-se difícil manter a sustentabilidade econômica de uma</p><p>empresa de comunicação.</p><p>O JORNALISMO CAMPINENSE: HISTÓRIA E METAMORFOSE</p><p>O marco histórico da imprensa foi a criação da prensa por Johannes Gu-</p><p>tenberg, na Alemanha, em 1455. Num período pré-industrial, a criação deste</p><p>maquinário possibilitou a impressão de materiais, começando pela produção de</p><p>200 bíblias. De acordo com Paternostro (2006), o método dele foi inovador na</p><p>Europa e rapidamente se espalhou pelo continente no século XV, embora formas</p><p>parecidas de impressão já existissem no Oriente. Mas foi somente dois séculos</p><p>depois da prensa de Gutenberg que surgiu o primeiro jornal impresso, em Es-</p><p>burgo na Alemanha, com tiragem regular: o Relation, um semanário de quatro</p><p>páginas para ricos e poderosos.</p><p>Mesmo conseguindo imprimir uma quantidade razoável de materiais para</p><p>a época, a produção ainda era muito artesanal. Foi apenas no século XIX, justa-</p><p>mente pelo desenvolvimento da sociedade industrial, que a prensa foi se reno-</p><p>vando e melhorando a produção, substituindo os equipamentos de madeira por</p><p>prensas de aço movidas por energia a vapor. O uso de papel em bobinas também</p><p>contribuiu para o aumento da circulação de jornais nesta época (PATERNOS-</p><p>TRO, 2006).</p><p>O material impresso chegou ao Brasil em 1808 com a vinda da família real</p><p>portuguesa para o país. A Impressão Régia imprimia leis e papéis diplomáticos,</p><p>censurados pela coroa (NOBLAT, 2003). O primeiro jornal do Brasil foi editado</p><p>em 1° de junho em Londres, por Hipólito José da Costa, para escapar da censura</p><p>e defender a liberdade de imprensa. Segundo Noblat, (2003, p. 166) “em 10 de</p><p>setembro é publicado o primeiro número do Gazeta do Rio de Janeiro, jornal</p><p>oficial feito na Impressão Régia destinado a informar as ações administrativas e</p><p>a vida social do Reino”.</p><p>Em Campina Grande, na Paraíba, segundo Gaudêncio (2012), a imprensa</p><p>67</p><p>começou através do jornal A Gazeta do Sertão, criado por Irineu Joffily e Fran-</p><p>cisco Retumba, em setembro de 1888. Mas, ainda de acordo com o autor, foi</p><p>apenas no início da década de 1990 que Campina teve o primeiro jornal com</p><p>uma estrutura mais arrojada, o Correio de Campina que teria funcionado com</p><p>altos e baixos até 1927.</p><p>O autor ressalta ainda que a imprensa de Campina Grande não vivenciou</p><p>as mudanças que ocorreram no jornalismo entre o final do século XIX e início</p><p>do século XX ao mesmo tempo da imprensa dos grandes centros culturais do</p><p>país como Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo ele, as características desse novo</p><p>modelo jornalístico que continha a profissionalização dos jornalistas, o advento</p><p>da propaganda como fonte de renda, organização específica e a modernização</p><p>da tipografia só foram introduzidas de forma mais bem sucedida em Campina</p><p>Grande com a chegada do Diário da Borborema, do grupo dos Diários Associa-</p><p>dos, em 1957, onde, segundo ele “uma equipe de jornalistas estabeleceu uma</p><p>forma profissional e moderna” (2012, p.175).</p><p>Após a chegada do Diário da Borborema, outros jornais campinenses sur-</p><p>giram, entre eles o Correio da Paraíba, em 19534 e o Jornal da Paraíba que, de</p><p>acordo com o seu portal, foi fundado em 19715.</p><p>Segundo Baldessar (2005), a modernização começou a chegar nas empresas</p><p>de comunicação já na década de 1970, na área gráfica e gerencial. As redações,</p><p>particularmente, começaram a ser modernizadas em 1980 com a chegada dos</p><p>computadores. Em Campina Grande esse processo chegou um pouco mais tar-</p><p>de, da metade para o fim da década de 1990 com a introdução dos computado-</p><p>res nas redações de impresso da cidade.</p><p>Segundo nosso Entrevistado 1, jornalista que atuou no Diário da Borbore-</p><p>ma no período anterior e posterior à chegada do computador,</p><p>Do segundo semestre de 96 em diante já começou o processo de informa-</p><p>tização [no Diário da Borborema], que já era uma tendência nacional. Lá</p><p>no Centro-Sul, no Sudeste estava mais na frente, mas, cá para nós, até por</p><p>questões econômicas de investimento e de custeio, a gente demorou um</p><p>pouquinho mais a acompanhar esse avanço tecnológico que foi a informa-</p><p>tização das redações. (Entrevistado 1, 2019)</p><p>4 Borba, Hacéldama. Jornal Correio da Paraíba encerra atividades após mais de 60 anos de fundação. João Pessoa,</p><p>3 de Abr de 2020. Disponível em: < https://is.gd/wNUQZ2> Acesso em 02 de jul de 2020.</p><p>5 Oliveira, Jhonathan. Jornal da Paraíba 48 anos: A notícias continua em suas mãos, se antes era no papel, agora é</p><p>no celular. 05 de Set. de 2019. Disponível em: <https://is.gd/QgG1ZJ> Acesso em 02 de Jul. de 2020.</p><p>68</p><p>Já de acordo com o Entrevistado 2, jornalista que viveu a transição no Jor-</p><p>nal da Paraíba, a mudança no veículo começou nos primeiros anos da década</p><p>de 1990.</p><p>Todos passaram a interagir com as novas máquinas e a evolução foi acon-</p><p>tecendo de forma gradual. Por volta de 94 o computador já fazia parte</p><p>da nossa rotina de trabalho na redação, embora ainda não houvesse um</p><p>domínio humano de cem por cento sobre a máquina, o que só aconteceu</p><p>alguns anos mais tarde (Entrevistado 2, 2020)</p><p>No jornal Correio da Paraíba a informatização chegou em 1994 de acordo</p><p>com nosso Entrevistado 3 que, à época, era chefe de redação da sucursal em</p><p>Campina Grande. Segundo ele, “houve uma mudança, naturalmente, radical na</p><p>estrutura de trabalho porque nós passamos a conviver com os equipamentos,</p><p>num primeiro momento, para ajudar, agilizar na produção do conteúdo diário</p><p>de notícias” (Entrevistado 3, 2020).</p><p>Em cada época, o advento das novas mídias se limitou a reproduzir a divul-</p><p>gação realizada pelo jornal impresso com pontuais modificações relacionadas às</p><p>novas possibilidades tecnológicas permitidas pelos avanços existentes em cada</p><p>meio. Com a chegada da televisão, por exemplo, a notícia era – literalmente</p><p>– lida em periódicos pelo apresentador. No contexto radiofônico acontecia da</p><p>mesma forma: o locutor lia a notícia extraída de jornais impressos e, em seguida,</p><p>as comentava. Dessa forma, é possível afirmar que a evolução da mídia como</p><p>um todo aconteceu na medida em que as formas de comunicação avançavam.</p><p>No entanto, no caso do jornal impresso, diferente das outras mídias, as tecno-</p><p>logias contribuíram não mais para a ampliação, mas sim para o fim do produto.</p><p>Na realidade da Paraíba, mais estritamente em Campina Grande, não foi</p><p>diferente. Três dos principais jornais que circulavam na cidade não se ergueram</p><p>frente à crise e viram o cenário em ascensão atingir as redações da cidade. O</p><p>Diário da Borborema encerrou suas atividades em 01 de fevereiro de 2012. Pela</p><p>demissão em massa no conhecido ‘DB’, um clima de medo se instaurou nas re-</p><p>dações dos jornais impressos do município, e em 7 de abril de 2016, este medo</p><p>se consolidou com o fechamento da redação e o fim da circulação impressa do</p><p>Jornal da Paraíba (JP). Agora, o jornal funciona apenas em versão online em</p><p>uma redação dividida com outros veículos da Rede Paraíba de Comunicação.</p><p>Após o encerramento das atividades dos dois periódicos, Campina Grande</p><p>passou a contar apenas com o jornal Correio da Paraíba, único jornal impresso</p><p>69</p><p>com conteúdo inteiramente jornalístico em circulação na cidade, mas que tinha</p><p>a maioria de sua produção realizada em João Pessoa, Campina Grande sediava</p><p>apenas uma sucursal. O Correio, porém, fechou as portas em abril de 2020 du-</p><p>rante o andamento da pesquisa que resultou no presente artigo.</p><p>METODOLOGIA: RELATOS EM ORALIDADE</p><p>Os relatos expostos neste tópico foram selecionados a partir das entrevistas</p><p>realizadas com onze (11) jornalistas que viveram a implantação dos computa-</p><p>dores e da internet nas redações dos jornais Correio da Paraíba, Diário da Bor-</p><p>borema e Jornal da Paraíba. As entrevistas foram realizadas entre outubro de</p><p>2019 e junho</p><p>estruturais e técnicas nas redações, mas também nas rotinas pro-</p><p>dutivas dos jornalistas, impactando em todas as etapas do processo de confec-</p><p>ção dos jornais. O computador também levou ao acúmulo de funções sobre os</p><p>jornalistas, eliminou etapas, e se tornou um dos fatores que contribuiu para o</p><p>fechamento das redações.</p><p>Como último artigo a compor a primeira parte deste livro, os jornalistas</p><p>Antônio Simões e Elisama da Silva propõem aos estudantes de escolas públicas</p><p>uma provocação: sob a supervisão de um aluno da Comunicação Social, pro-</p><p>duzir boas notícias. Partindo de suas experiências cotidianas e do lugar onde</p><p>habita e pratica sua socialização, que boas notícias poderiam ser construídas?</p><p>Essa proposta vai, de fato, na contramão das narrativas cotidianas, que desta-</p><p>cam a violência, a morte, o desamor e a insensibilidade das pessoas como se “as</p><p>boas ações”, a afetividade e a solidariedade não mais existissem na face da terra.</p><p>Acreditamos ser este um bom contexto político cultural para tais provocações.</p><p>Na segunda parte do livro, Gênero e Cultura, as comunicólogas Robéria</p><p>Nascimento e Thatiane Oliveira trazem para o contexto escolar a discussão so-</p><p>bre as relações de gênero a partir da cultura Funk e os desdobramentos sobre o</p><p>consumo da música Funk baseadas nas letras de algumas músicas, para sentir</p><p>como os alunos e alunas percebem essa produção musical e a sua relação com a</p><p>9</p><p>construção do gênero feminino.</p><p>Já as sociólogas Roseli Corletti e Vitória Tomé analisam as condições das</p><p>mulheres trabalhadoras no Brasil e o aumento da desigualdade de gênero du-</p><p>rante a pandemia do Corona Vírus. Através de dados estatísticos elas compro-</p><p>vam que não só a precarização do trabalho tem sido uma constante em nosso</p><p>país, mas também o aumento e aprofundamento da desigualdade de gênero, que</p><p>coloca novamente a mulher, num campo desigual de disputas pelo mercado de</p><p>trabalho.</p><p>O artigo escrito pelas antropólogas Elizabeth Lima e Ana Paula Costa tem</p><p>por intento apresentar e problematizar o que vem a ser a violência política de</p><p>gênero. Uma realidade nova, em termos de discussão teórica, mas antiguíssima,</p><p>em termos práticos. Em outras palavras, as autoras tentam demonstrar que uma</p><p>das estratégias mais utilizadas, principalmente pelos homens políticos, é acionar</p><p>a violência de gênero para desestimular, amedrontar e incapacitar as mulheres</p><p>na disputa por espaços de poder.</p><p>No último artigo, da segunda parte do livro, escrito pela historiadora Lu-</p><p>cinete Fortunato, é construída toda uma discussão epistemológica sobre a idéia</p><p>de lesbianidade e de como, ao longo dos estudos sobre as homossexualidades,</p><p>as subjetividades lésbicas foram invisibilizadas pelos teóricos do tema em detri-</p><p>mento de outras subjetividades homoafetivas. Aqui se une uma problemática de</p><p>gênero e de orientação sexual. Trata-se de um texto atual e provocativo.</p><p>Na terceira e última parte do livro, intitulado Cultura e Práticas Políticas,</p><p>lê-se inicialmente o artigo escrito pelas sociólogas Karlla Souza e Iuka Oliveira,</p><p>que tratam de um tema extremamente pertinente e atual, pois discute a cons-</p><p>trução teórica e ideológica em torno da “Escola sem Partido”. Uma das bandei-</p><p>ras ideológicas do governo Jair Messias Bolsonaro. Artigo imprescindível para</p><p>quem deseja uma contextualização histórica e prática desse momento na políti-</p><p>ca brasileira e da relação Política versus Educação.</p><p>Na sequencia, temos o artigo escrito pelo historiador José Adilson Filho</p><p>que problematiza a permanência de grupos políticos no poder, a partir do nome</p><p>de família, ou do “capital político familiar”. Para tanto, ele realiza uma espécie de</p><p>genealogia do poder da Família Arraes-Campos no Estado de Pernambuco, cujo</p><p>intento é demonstrar não só a longevidade dessa prática, mas de sua presença</p><p>em todo Brasil. Defendendo que estamos longe de romper com esse modelo que</p><p>garante a sucessão de grupos políticos no exercício do poder a partir do nome</p><p>de família.</p><p>O artigo escrito pela antropóloga Cyntia Brasileiro, por sua vez, discute as</p><p>10</p><p>diversas representações sociais que os eleitores constroem sobre o voto e o ato de</p><p>votar. Tal discussão ganha forte relevância no momento em que se observa uma</p><p>falsa ideia de que o brasileiro “não sabe votar”, é “alienado” ou que “não gosta</p><p>de política”. Por meio de estudos realizados para a escrita de sua Tese, através</p><p>da realização de entrevistas, junto aos eleitores da cidade de Campina Grande,</p><p>no Estado da Paraíba, a autora conclui que o eleitor sabe e opera com uma série</p><p>de avaliações e reflexões para escolher em quem e por que votar. Nestes termos,</p><p>a chamada “consciência política” deriva de uma série de relações e percepções</p><p>sobre o voto.</p><p>Para fechar o livro, contamos com a contribuição do historiador José Fer-</p><p>reira, que traz para a discussão outro relevante tema: o despertar, a ascensão e</p><p>a participação da Frente Parlamentar Evangélica conservadora no Congresso</p><p>Nacional – Câmara dos Deputados e Senado Federal –, considerando a sua in-</p><p>gerência nos governos presidenciais – desde a redemocratização experimentada</p><p>pelo país até a vitória do Presidente Jair Messias Bolsonaro, nas Eleições de 2018</p><p>–, cuja representatividade promoveu a interrupção de um ciclo governamental</p><p>tido como progressista “2003-2016” e a ascensão de um governo de extrema</p><p>direita na presidência do país.</p><p>Diante do exposto, convidamos o leitor a se aventurar pelo universo pluris-</p><p>significativo que os artigos que compõem esse livro nos oferecem – sem precon-</p><p>ceito de: gênero, orientação sexual, gosto musical, orientação política, simpatia</p><p>partidária ou qualquer outro tipo de ideia pré-concebida –, para poder, através</p><p>da interação propiciada pela leitura, formar e construir um pensamento crítico</p><p>acerca das indagações do nosso presente.</p><p>Esperamos, pois, que este livro nos possibilite trilhar caminhos de resistên-</p><p>cia que concorram para a produção de modos singulares de existência, abertos</p><p>ao diálogo, à diversidade e ao fortalecimento da democracia, da cidadania e das</p><p>liberdades individuais.</p><p>Elizabeth Christina de Andrade Lima</p><p>Maria Lucinete Fortunato</p><p>11</p><p>A CENTRALIDADE DAS MÍDIAS SOCIAIS NA EXPERIÊNCIA</p><p>POLÍTICA: UMA DÉCADA DE MUDANÇAS NO CENÁRIO BRASILEIRO</p><p>Rostand de Albuquerque Melo1</p><p>“Não é possível afirmar se o uso das mídias sociais interferiu no resultado</p><p>da eleição”. Esta frase se tornou um clichê entre os primeiros trabalhos e pes-</p><p>quisas desenvolvidos, a partir de 2010, sobre o uso de plataformas colaborativas</p><p>como Twitter e Facebook nas campanhas eleitorais no Brasil. Tal afirmação este-</p><p>ve presente na Tese de Doutorado que produzimos sobre o tema (MELO, 2015)</p><p>e foi uma das cobranças da banca no momento da defesa. O questionamento</p><p>comum, e pertinente naquele contexto, era de que não havia como mensurar o</p><p>impacto das mídias sociais na decisão do eleitorado, apesar do seu uso cada vez</p><p>mais frequente, tendo em vista que elementos tradicionais da dinâmica eleitoral</p><p>continuavam presentes. Era o caso da propaganda no rádio e na televisão, da</p><p>cobertura jornalística e da atuação de partidos e lideranças políticas tradicio-</p><p>nais. Não havia, de fato, como “isolar” a variável das mídias sociais nas análises</p><p>desenvolvidas no campo da Comunicação e das Ciências Sociais. Não havia, até</p><p>2018.</p><p>A eleição de Jair Messias Bolsonaro para Presidente da República compro-</p><p>vou a influência das redes sociais na decisão do eleitorado ao permitir, de modo</p><p>empírico, a atribuição de um peso maior para essas plataformas midiáticas na</p><p>construção de estratégias de comunicação durante a campanha. O caso Bol-</p><p>sonaro praticamente isolou as redes sociais das outras variáveis. Tratava-se de</p><p>um Deputado Federal com 28 anos consecutivos de mandato, mas considerado</p><p>como integrante do ‘baixo clero’, expressão usada para designar parlamentares</p><p>com pouca expressão no Congresso Nacional. São deputados que não interfe-</p><p>rem diretamente na definição das pautas e dos resultados de votações, não ocu-</p><p>pam cargos relevantes na mesa diretora</p><p>de 2020, e todas passaram pelo processo de gravação e transcrição</p><p>literal das falas. O roteiro semiestruturado de entrevista foi organizado em qua-</p><p>tro eixos, totalizando vinte perguntas. Todo o processo de coleta e tratamento</p><p>dos dados seguiu as diretrizes da metodologia da História Oral que, para Al-</p><p>berti (2005), consiste na realização de entrevistas gravadas com indivíduos que</p><p>participaram de, ou testemunharam acontecimentos e conjunturas do passado</p><p>e do presente. As entrevistas de História Oral são tomadas como fontes para a</p><p>compreensão do passado, ao lado de documentos escritos, imagens e outros ti-</p><p>pos de registros. Caracterizam-se por serem produzidas a partir de um estímulo,</p><p>pois o pesquisador procura o entrevistado e lhe faz perguntas, dando espaço aos</p><p>sujeitos, geralmente depois de consumado o fato ou a conjuntura que se quer</p><p>investigar.</p><p>Até por volta do ano de 1995, antes dos computadores chegarem às reda-</p><p>ções campinenses, a máquina de escrever era o maquinário mais presente nesses</p><p>espaços. Era comum encontrar salas cheias de repórteres escrevendo seus textos</p><p>e ao mesmo tempo fazendo muito barulho com as teclas que exigiam habilida-</p><p>de. Os cursos de datilografia eram comuns na época e aqueles que não tinham</p><p>passado por um, ou não aprenderam intuitivamente, eram chamados de “de-</p><p>dógrafos”, pessoas que só sabiam usar um dedo de cada mão para datilografar</p><p>(Entrevistada 4, 2019). A Entrevistada 5 (2020), falando sobre sua vivência com</p><p>a máquina no Diário da Borborema aponta os problemas técnicos que enfrentou</p><p>com a máquina de escrever:</p><p>Com máquina de escrever a gente trabalhava com fita. Então às vezes a</p><p>fita se desgastava aí você tinha que parar a digitação para trocar a fita da</p><p>máquina. Você tinha que ir na chefia pedir uma autorização para trocar</p><p>70</p><p>a fita. Às vezes a fita enrolava, às vezes quebrava uma letra e aí a máquina</p><p>ficava enganchando. Era bem complicado. (Entrevistada 5, 2020)</p><p>Segundo o Entrevistado 2 (2020), no Jornal da Paraíba, no fim da década</p><p>de 1980, os repórteres tinham que escrever uma matéria em duas vias usando</p><p>carbono. Isso acontecia para facilitar a revisão dos textos, onde uma pessoa lia</p><p>e outra pessoa acompanhava para verificar algum erro. Depois disso, tudo era</p><p>passado para o diagramador para a montagem da página organizando os textos</p><p>e as fotos.</p><p>O próprio processo de diagramação também era complicado. O Entrevista-</p><p>do 6 (2020) explica que no Jornal da Paraíba esse processo era feito com base em</p><p>um ofício que tinha as colunas do jornal. Quando o material escrito era recebido</p><p>pelos diagramadores, havia a contagem do número de linhas, letras e palavras.</p><p>A partir desse somatório, dividia-se o resultado pelo número do tipo (o tama-</p><p>nho da letra do jornal). Também tinha que se avaliar o espaço da página com</p><p>a inclusão das fotografias. Só depois que o material estava pronto, era enviado</p><p>para impressão. O Entrevistado 2 descreve o processo de montagem do jornal</p><p>no Jornal da Paraíba:</p><p>Com todo o visual da página pronto, o material era encaminhado para o</p><p>digitador que na época ainda usava antigas máquinas chamadas linotipo.</p><p>Eram máquinas grandes que derretiam chumbo e à medida que o digi-</p><p>tador ia copiando o texto do repórter iam se formando as linhas com as</p><p>frases, para em seguida seguir para a impressão. (Entrevistado 2, 2020)</p><p>Com todo esse trabalho segmentado, o número de pessoas envolvidas era</p><p>muito além dos jornalistas que atuavam na redação. O trabalho se assemelhava</p><p>ao modelo produtivo fordista onde o produto passa pelas mãos de vários traba-</p><p>lhadores especializados em uma única função para que ao fim esteja pronto. No</p><p>presente caso, percebe-se que a segmentação vai desde os jornalistas que traba-</p><p>lhavam na produção, redação, revisão, edição, diagramação até os técnicos que</p><p>atuavam na manutenção das máquinas de impressão, os que transportavam os</p><p>jornais para outras cidades e entregadores. A chegada da informatização trouxe</p><p>uma nova perspectiva de trabalho onde o perfil dos trabalhadores passou a ser</p><p>mais multifuncional por conseguir concentrar várias atividades em um único</p><p>maquinário.</p><p>A informatização chegou nas redações campinenses a partir da década de</p><p>71</p><p>1990. O primeiro jornal a receber os computadores nas redações foi o Jornal da</p><p>Paraíba. Por volta de 1994 o computador já fazia parte da rotina (Entrevistado</p><p>2, 2020). O Entrevistado 1 viveu a chegada da informatização no Diário da Bor-</p><p>borema que, segundo ele, se deu na segunda metade de 1996. Ele também afirma</p><p>que esse processo já era uma tendência no cenário nacional, mas em Campina</p><p>demorou um pouco mais para chegar.</p><p>Lá no Centro-Sul, no Sudeste estava mais na frente, mas, cá para nós, até</p><p>por questões econômicas de investimento e de custeio, a gente demorou</p><p>um pouquinho mais a acompanhar esse avanço tecnológico que foi a in-</p><p>formatização das redações. (Entrevistado 1, 2019)</p><p>Esse processo de informatização mudou significativamente a rotina pro-</p><p>dutiva dos jornalistas de jornal impresso de Campina Grande. O Entrevistado</p><p>7, que foi estagiário no Diário da Borborema, destaca que a grande mudança</p><p>advinda com o aumento do número de computadores na redação, foi a rapidez</p><p>no processo produtivo.</p><p>No processo de datilografia você fazia o texto datilografado, entregava</p><p>para uma pessoa, essa pessoa repassava para o computador e depois ia</p><p>para um processo de diagramação. Existia isso. E no computador não.</p><p>Você fazia o texto já mandava o processo direto para o setor de diagrama-</p><p>ção. Então tiramos uma parte aí dessa trilha que era composta por três,</p><p>quatro pessoas, reduziu para duas, por exemplo. (Entrevistado 7, 2019)</p><p>As mudanças advindas com a chegada do computador foram acontecen-</p><p>do paulatinamente. Ainda havia a segmentação de funções, diante do processo</p><p>de adaptação dos profissionais, que fizeram cursos em escolas de computação</p><p>da cidade ou foram treinados por profissionais de sucursais da empresa que</p><p>já tinham passado pela informatização. Mas o fato a ser destacado aqui é que,</p><p>mesmo com a demora para adaptação dos profissionais, o trabalho havia sido</p><p>simplificado. O Entrevistado 1 (2019) fala sobre essa simplificação:</p><p>Na máquina, se você errou, tem que digitar ‘XXX’ para passar por cima</p><p>daquela palavra que você errou. Se tivesse muita rasura tinha que colocar</p><p>outra lauda na máquina e escrever de novo. No computador tudo mudou</p><p>porque você já corrige, já tem corretor. [..] Todo mundo passou a ter texto</p><p>72</p><p>final. Antes do computador tinha o copy desk que é aquele cara que vai co-</p><p>pidestrar o texto, ou seja a corrigir os erros que os repórteres cometeram</p><p>na produção do texto. Então o copy desk faz aquela correção, pode até me-</p><p>lhorar dar um enfoque melhor no primeiro parágrafo melhor ao texto, ou</p><p>se não precisar dessa substituição, ele corrige alguns erros de ortografia,</p><p>concordância, de pontuação. Mas no computador todo mundo se adap-</p><p>tou, ai deixou de haver a figura do copy desk e cada repórter passou a ter</p><p>texto final. (Entrevistado 1, 2019)</p><p>Mediante as declarações de jornalistas entrevistados, percebe-se que o</p><p>processo produtivo muito foi agilizado mediante a inserção dos computadores.</p><p>Todavia, isso não significa menos trabalho, pois é a partir deste momento que</p><p>funções antes existentes entram em extinção. Exemplo disso é o desaparecimen-</p><p>to dos copy desks nas redações como mencionado pelo Entrevistado 1, diagra-</p><p>madores manuais e digitadores. O que vai sendo percebido ao longo da história</p><p>é que um profissional agora vai acumulando funções que pertenciam a outros,</p><p>isso porque a tecnologia viabilizou que várias atividades fossem feitas mais ra-</p><p>pidamente com a necessidade de apenas um indivíduo. Isto é o que, por exem-</p><p>plo, destaca a Entrevistada 5, quando relata da necessidade de ter aprendido a</p><p>diagramar quando esteve ocupando a função de editora de cultura no Diário da</p><p>Borborema:</p><p>Eu tive que aprender a diagramar, tive que aprender a usar o programa</p><p>de computador para diagramação</p><p>porque eu fui editora de cultura e os</p><p>editores na época eram quem diagramavam as páginas. Foi uma outra</p><p>mudança também que a gente teve que se adaptar, eu tive que me adaptar.</p><p>(Entrevistada 5, 2020)</p><p>A mudança também passou pela estrutura física das redações de jornal. O</p><p>Entrevistado 6 (2020) falou da necessidade de se ampliar a redação do Jornal da</p><p>Paraíba, como de fato aconteceu. A Entrevistada 4 também destacou as mudan-</p><p>ças estruturais no Diário da Borborema:</p><p>Antes das máquinas era um ambiente natural com janelas abertas, e quan-</p><p>do tava como muito calor, um ventilador. Com a chegada dos computado-</p><p>res tinha que climatizar, porque, se não, eles não aguentavam porque es-</p><p>quentavam demais. Aí teve todo um preparo de climatização, um preparo</p><p>73</p><p>de instalações elétricas. Tudo foi um preparo para poder iniciar de fato e</p><p>de direito o uso de computador. (Entrevistada 4, 2019)</p><p>A chegada de tecnologia nova sempre causa estranhamento e por isso</p><p>aqueles que a estão recebendo passam por um processo de adaptação. Todos os</p><p>jornais analisados na presente pesquisa forneceram algum tipo de treinamento</p><p>para seus funcionários aprenderem a lidar com o novo maquinário. Contudo, a</p><p>resistência para adaptar-se, entre alguns profissionais ocorreu, como declarou o</p><p>Entrevistado 8, que atuava no Jornal da Paraíba. Segundo seu relato, “teve gen-</p><p>te que não conseguiu se adaptar e inclusive se entregaram à bebida, ao álcool.</p><p>Eu tive companheiros meus que inclusive faleceram, perderam o emprego, não</p><p>conseguiram emprego mais de jeito nenhum” (Entrevistado 8, 2019). No Diário</p><p>da Borborema o relato de pessoas sem interesse de se adequar às novidades tec-</p><p>nológicas também foi real:</p><p>Muitos ficaram bitolados ao impresso. [...] muitas pessoas se limitaram ao</p><p>impresso. Tem colegas que nem sequer compraram computador. Tinha</p><p>cursos lá no jornal, o cara não quis, tava pensando numa aposentadoria.</p><p>A famosa lei do menor esforço né? O cara não queria um esforço maior aí</p><p>muitos saíram. (Entrevistado 9, 2019)</p><p>O computador nas redações foi uma estrutura importantíssima para uma</p><p>série de mudanças que estavam por vir. A internet chegou, o celular também.</p><p>Redes móveis de internet facilitaram o trabalho de produção, apuração, edição e</p><p>publicação. Os blogs jornalísticos surgiram na web com textos curtos, imagens</p><p>e o seu principal diferencial, o imediatismo. De acordo com Pariser (2012), o</p><p>impacto explosivo da internet sobre a prática jornalística trouxe muitas mudan-</p><p>ças, expandindo, inclusive, o espaço das notícias à força e atropelando empresas</p><p>mais antigas. Os publicitários que também geravam receitas aos jornais percebe-</p><p>ram na internet uma oportunidade de atingir mais gente com um custo menor.</p><p>De acordo com Anderson et al (2012), nunca foi do interesse dos anunciantes</p><p>patrocinar os meios de comunicação. Essa barganha deu certo até o século XX</p><p>quando o poder de barganha da mídia estava nas mãos de quem vendia, no caso</p><p>os meios de comunicação e, hoje, esse modelo já não serve.</p><p>Em Campina Grande, os jornalistas de impresso perceberam que essas mu-</p><p>danças começaram a impactar em seus trabalhos, e que não conseguiam atender</p><p>à demanda dos consumidores de informação, como relata o Entrevistado 9:</p><p>74</p><p>A cada minuto o cidadão quer uma novidade, então o jornal impresso</p><p>você espera pelo menos uma noite pra ter uma informação e a sociedade</p><p>é ávida por informação instantânea e imediata. [...] Todo mundo ficava</p><p>com medo do jornal ir afinando. E ele foi diminuindo o número de pági-</p><p>nas. Quando eu trabalhava no Diário da Borborema e o jornal começou a</p><p>diminuir, cortar custos, diminuir pessoas a gente já tinha mais ou menos</p><p>uma previsão de que poderia ser extinto, como foi extinto. (Entrevistado</p><p>9, 2019)</p><p>Diante da crise financeira, as especulações sobre o fechamento de ambas</p><p>as redações começaram a acontecer. A Entrevistada 5 (2020) relata que o dis-</p><p>curso sobre um iminente fechamento durou por anos, fato que fez com que já</p><p>não se acreditasse mais em falência do jornal como aconteceu. O Entrevistado</p><p>10 (2020) também descreve sobre como foi o processo de queda do Jornal da</p><p>Paraíba:</p><p>[...] havia um comentário interno entre os funcionários de que a coisa</p><p>não andava muito bem em termos de finanças para a empresa, devido ao</p><p>próprio fato concreto da redução do número de funcionários. Fechou pra-</p><p>ticamente todo o aspecto administrativo do jornal e a gente ficou depen-</p><p>dendo da TV, o departamento pessoal também era da TV, o departamento</p><p>de vendas era da TV, e poucas pessoas trabalhando, com a equipe reduzi-</p><p>díssima. Então havia essa especulação. Oficialmente eles não diziam nada,</p><p>mas a gente sentia pela própria experiência de todos, principalmente dos</p><p>mais antigos, de que o fechamento estava próximo, até que aconteceu de-</p><p>finitivamente aquilo que a gente esperava. (Entrevistado 10, 2020)</p><p>Apesar de tanto se falar no processo tecnológico, é necessário destacar que</p><p>a informatização das redações não é a única responsável pelo panorama geral</p><p>da crise dos impressos. Outros fatores são incluídos pelos jornalistas, entre eles,</p><p>como destacado por pela Entrevistada 4 (2019), a mudança do gosto de leitura</p><p>do público. A Entrevistada 4 (2019) também inclui o alto custo necessário para a</p><p>produção de jornais impressos, desde manutenção das máquinas, como a com-</p><p>pra de papel, o transporte para impressão em João Pessoa, no caso do Diário</p><p>da Borborema. O Entrevistado 1 (2019) também inclui nas razões para o fecha-</p><p>mento das redações o abandono dos anunciantes do jornal por outros meios de</p><p>comunicação:</p><p>75</p><p>O noticiário de telejornalismo e radiojornalismo abrangem um público</p><p>mais heterogêneo, abrange quem é iletrado e quem é letrado. Para você ter</p><p>acesso ao noticiário do jornal impresso, primeiro tem que ser alfabetiza-</p><p>do, segundo tem que ter poder aquisitivo de comprar o jornal em banca.</p><p>Então tem gente que gosta de ler, mas não gosta de comprar. Tem jornal</p><p>que [...] consegue se autossustentar com assinaturas e a venda avulsa, o</p><p>que não era o caso do Diário da Borborema e muito menos do Jornal da</p><p>Paraíba. Então a gente se valia da quantidade de assinantes, que era de cir-</p><p>culação estadual. Aí tem toda uma logística que é caríssima, tem um custo</p><p>operacional você deslocar uma quantidade x de jornais [...] e esses custos</p><p>têm que ser cobertos pelos anunciantes. Então esse fluxo de anunciantes</p><p>foi migrando para outros veículos: televisão, rádio e redes sociais, então</p><p>isso enfraqueceu a receita do jornal.</p><p>Como a história aponta, ambos os jornais encerraram sua circulação im-</p><p>pressa. Com empregos perdidos diante das redações fechadas, os jornalistas ti-</p><p>veram que mudar de atuação. A maioria dos entrevistados para este trabalho</p><p>foi para as áreas de radiojornalismo, jornalismo digital em portais de notícias</p><p>online e assessoria de imprensa ou comunicação.</p><p>A partir do presente estudo percebe-se que o computador trouxe muitas</p><p>mudanças nas rotinas produtivas dos jornais impressos campinenses. Esse fator</p><p>tecnológico foi um dos elementos que alimentou a crise dos impressos, à medida</p><p>que a concorrência aumentou e as preferências do público foram sendo remo-</p><p>deladas pelos avanços. Os periódicos não conseguiram se adaptar às mudanças</p><p>e, com isso, não conseguiram atender às demandas do mercado informativo.</p><p>Excluindo pessoas do ramo, as inovações nas redações moldaram os que ficaram</p><p>para lidar e se adaptar às mudanças que estão acontecendo em todo momento,</p><p>ressignificando continuamente o perfil do profissional de jornalismo.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>A presente pesquisa teve como objetivo compreender as mudanças oca-</p><p>sionadas nas rotinas produtivas dos jornais impressos de Campina Grande a</p><p>partir da chegada dos computadores até o fechamento das redações. A partir</p><p>da compreensão das mudanças ocasionadas nos modelos produtivos do capi-</p><p>tal, reconhece-se que os mercados foram se adequando às novas realidades que</p><p>traziam consigo a inclusão de tecnologias para a</p><p>produção, entre eles o próprio</p><p>76</p><p>jornalismo impresso.</p><p>Em uma análise institucional, as empresas de jornal impresso campinenses</p><p>tiveram que se atualizar e promover a qualificação dos profissionais para utili-</p><p>zarem o novo maquinário. Assim, percebe-se que num contexto pós-industrial,</p><p>o jornalismo precisa saber lidar com as mudanças promovidas pela tecnologia</p><p>para que se possa permanecer atuando com relevância diante da sociedade, tal</p><p>como aconteceu com as redações informatizadas de Campina Grande, se ren-</p><p>dendo às novidades tecnológicas que já estavam atuando no mercado impresso</p><p>do Brasil.</p><p>No contexto campinense, a inserção dos computadores dentro das redações</p><p>promoveu uma série de mudanças, tanto estruturais e técnicas, como nas rotinas</p><p>produtivas, trazendo agilidade na produção, edição e impressão dos jornais. A</p><p>partir do computador, uma série de outras tecnologias foram sendo inseridas nas</p><p>redações sendo resultado do processo de pós-industrialização que adentrou nas</p><p>redações, extinguindo funções e gerando novas demandas de trabalho, as quais</p><p>foram unificadas a um número mais enxuto de jornalistas. Percebeu-se, assim,</p><p>que houve a mudança no perfil deste profissional ainda dentro do segmento de</p><p>impresso, tendo em vista que acumulou atividades que outrora pertenciam a</p><p>outros trabalhadores, ao passo que eliminou outras profissões e profissionais</p><p>que não se permitiram renovar pela chegada da nova tecnologia.</p><p>O computador foi apenas a primeira de uma série de mudanças que viriam</p><p>com a chegada de outros recursos tecnológicos às redações e que mudariam o</p><p>perfil dos jornalistas e acirraram a concorrência com o surgimento de novos</p><p>meios de comunicação. Com altos custos de produção, falta de investimento</p><p>publicitário e concorrência da instantaneidade dos blogs na internet, os grandes</p><p>jornais impressos de Campina Grande/PB foram sendo fechados um a um. Os</p><p>jornalistas desempregados, ainda que cheios de novas aptidões, precisaram se</p><p>readaptar ao mercado e mudar de atuação. Todos os entrevistados para a pes-</p><p>quisa, relataram que continuavam atuando com o jornalismo, mas em outros</p><p>segmentos como assessoria, radiojornalismo ou jornalismo digital.</p><p>77</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>ALBERTI, Verena. Histórias dentro da História. In: PINSKY, Carla Bassanezi (Org.). Fontes his-</p><p>tóricas. São Paulo: Contexto, 2005.</p><p>ANDERSON, C.W. et al. “Jornalismo pós-industrial: adaptação aos novos tempos”. Revista de</p><p>Jornalismo ESPM. São Paulo: n 5, ano 2, abr-jun, 2013.</p><p>BALDESSAR, Maria José. Jornalismo e tecnologia: pioneirismo e contradições. Revista Pj:Br,</p><p>ed. 5, 1° semestre, 2005. Disponível em: <https://is.gd/HjASiB> Acesso em 02.jul de 2020</p><p>BOTELHO, Adriano. Do fordismo à produção flexível: a produção do espaço num contexto</p><p>de mudança das estratégias de acumulação do capital. Dissertação de Mestrado (USP),</p><p>São Paulo 2000.</p><p>COSTA, Andriolli. Jornalismo, compartilhamento e credibilidade no contexto pós-industrial. In</p><p>Revista do Instituto Humanitas Unisinos. São Leopoldo, RS. No 447, ano XIV, 30/06/2014.</p><p>ISSN 1981-8793.</p><p>FREIRE, Flora Leite. As transformações nas rotinas produtivas das redações: Diário de Pernam-</p><p>buco e Jornal do Commércio. Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação</p><p>em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, 2018.</p><p>GAUDÊNCIO, Bruno Rafael de Albuquerque. Da academia ao bar: círculos intelectuais,cultura</p><p>impressa e repercussões do modernismo. Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-</p><p>-Graduação em História da Universidade Federal de Campina Grande. Campina Grande,</p><p>2012.</p><p>HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural.</p><p>17 ed. São Paulo: Loyola, 1996.</p><p>NOBLAT, Ricardo. A arte de fazer um jornal diário. 4.ed, São Paulo, Contexto, 2003.</p><p>PARISER, E. O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você. Rio de Janeiro: Zahar,</p><p>2012.</p><p>PATERNOSTRO, Vera Íris. O texto na TV: Manual de telejornalismo. 2.ed, Rio de Janeiro, El-</p><p>sevier, 2006.</p><p>RODRIGUES, Carla. Jornalismo e Sociedade Pós-Industrial. Revista Alceu. Jul/Dez 2013, v. 14,</p><p>n.27, p.136-148.</p><p>SANSON, Cesar. Trabalho e subjetividade: da sociedade industrial à sociedade pós-industrial.</p><p>Tese de Doutorado (UFPR), Paraná, 2009. Disponível em: <https://is.gd/h7foQ2></p><p>78</p><p>79</p><p>PRODUÇÃO DE NARRATIVAS AUDIOVISUAIS EM SENTIDO</p><p>ANTI-HORÁRIO: EMPODERAMENTO DE ESTUDANTES</p><p>DE ESCOLAS PÚBLICAS</p><p>Antonio Simões Menezes6</p><p>Elisama Vitória Leite da Silva7</p><p>A partir de agora, você é convidado a acompanhar o surgimento e desen-</p><p>volvimento de um projeto que acredita em uma sociedade mais humana, jus-</p><p>ta e fraterna em plena gestação. Por isso, ele inicia sua trajetória construindo</p><p>narrativas audiovisuais que enfocam a gentileza. Esta, embora quase totalmente</p><p>invisível aos produtos jornalísticos de referência, continua a permear as relações</p><p>sociais diuturnamente. Mas, poucos percebem a importância de dar visibilidade</p><p>para esses episódios.</p><p>Em busca de uma produção jornalística inovadora, um grupo de estudan-</p><p>tes e um docente do curso de Jornalismo da Universidade Estadual da Paraíba</p><p>(UEPB) começaram a se reunir em 2017. Todos concordavam que a inovação</p><p>não era sinônimo de apropriação de novas tecnologias. Um olhar diferenciado</p><p>para a realidade poderia resultar em formatos e narrativas inovadoras. Nesse</p><p>sentido, ficou combinado que seria criado um projeto de Extensão voltado para</p><p>construir e exibir boas notícias.</p><p>A proposta acreditava ser possível inverter a lógica de produção preponde-</p><p>rante no jornalismo, baseada em critérios de noticiabilidade, os quais precisam</p><p>ser reconfigurados, e criar um programa pautado pelas histórias inspiradoras</p><p>normalmente pouco publicizadas pelas empresas jornalísticas. Havia a tentativa</p><p>de mostrar o outro lado da sociedade, caracterizado por personagens que traba-</p><p>lham duro para tornar o mundo melhor.</p><p>Após as primeiras reuniões e debates, ficou definida a criação do programa</p><p>Anti-horário, cujo público-alvo eram adolescentes e jovens. Em sua primeira</p><p>temporada, apresentou, por meio do seu canal no YouTube, episódios sobre os</p><p>diversos aspectos da gentileza. Na segunda temporada, abordou a arte como</p><p>6 Professor do curso de Jornalismo da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e doutor em Ciências Sociais pela</p><p>Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Coordena o projeto Anti-horário e integra o Grupo de Pesqui-</p><p>sa em Jornalismo e Mobilidade (Mobjor/UEPB). E-mail: simoesmenezes@gmail.com</p><p>7 Graduanda do curso de Jornalismo da Universidade Estadual da Paraíba e bolsista do projeto Anti-horário.</p><p>E-mail: elisamavitoriaa@gmail.com</p><p>80</p><p>transformação social. Com o objetivo de aumentar a visibilidade dos programas</p><p>e para fomentar uma leitura crítica dessa produção, foi desenvolvida em escolas</p><p>públicas de Campina Grande a Maratona Anti-horário.</p><p>Nas próximas páginas, serão descritas as ações realizadas, pelos discentes</p><p>de jornalismo da UEPB, com o objetivo de contribuir para o empoderamento</p><p>dos estudantes do Ensino Fundamental e Médio dessas instituições. Há, ainda,</p><p>a apresentação dos resultados de uma pesquisa científica sobre o impacto do</p><p>projeto para o crescimento desses adolescentes e jovens.</p><p>JORNALISMO COMO MECANISMO PEDAGÓGICO DE EMANCIPAÇÃO</p><p>Lá no longínquo início dos anos 2000, no livro “A prática da reportagem”,</p><p>o jornalista Ricardo Kotscho escreveu que o exercício do jornalismo é uma luta</p><p>pela conquista de mentes e corações. Alguns pensavam que essa disputa era tra-</p><p>vada primordialmente entre as principais empresas de comunicação. Mas, sem</p><p>dúvidas, as salas de notícias sempre foram apenas um dos fronts desta batalha</p><p>no campo simbólico.</p><p>No atual mundo pós-digital (SANTAELLA, 2016), não é novidade ver pes-</p><p>soas das mais diversas classes sociais se apropriarem de dispositivos digitais mó-</p><p>veis e da internet para a produção e distribuição de conteúdo. Este, não raro,</p><p>materializa suas visões de mundo e tenta convencer as demais da sua</p><p>pertinência</p><p>e veracidade. Ou seja, com a quebra do monopólio do polo de emissão (LÉVY;</p><p>LEMOS, 2010), diversos atores sociais ganham gradativamente destaque e se</p><p>tornam protagonistas, assim como os jornalistas, no reconfigurado e ainda mais</p><p>complexo campo da comunicação na sociedade em rede8.</p><p>De fato, essas redes horizontais possibilitam o surgimento daquilo que</p><p>chamo de autocomunicação de massa, que definitivamente amplia a au-</p><p>tonomia dos sujeitos comunicantes em relação às corporações de comu-</p><p>nicação, à medida que os usuários passam a ser tanto emissores quanto</p><p>receptores de mensagens. (CASTELLS, 2017, p. 22)</p><p>Nesse contexto de empoderamento da audiência, o fomento aos usos e</p><p>8 “[...] a estrutura social que caracteriza a sociedade no início do século XXI, uma estrutura social construída ao</p><p>redor das redes digitais de comunicação, embora não determinada por elas” (CASTELLS, 2017, p. 22).</p><p>81</p><p>apropriações das tecnologias digitais, que promova o exercício da cidadania,</p><p>pode ser uma das inovações tão aguardadas pelo estudante que sonha com uma</p><p>escola mais conectada com a sua realidade. Nessa perspectiva, o jornalismo é</p><p>um parceiro fundamental para o desenvolvimento de projetos educomunicati-</p><p>vos que podem compor uma estratégia de Alfabetização Midiática e Informa-</p><p>cional9. Essas ações, conforme Caprino (2016), ganham cada vez mais relevân-</p><p>cia nas instituições de ensino brasileiras.</p><p>A necessidade de responder aos desafios modernos apresentados pelos</p><p>meios digitais parece que tem aumentado ainda mais a importância dos</p><p>projetos que têm como objetivo capacitar os cidadãos não só a compreen-</p><p>der essas tecnologias como também apropriar-se das novas possibilidades</p><p>de produzir conteúdos e mensagens comunicacionais. (CAPRINO, 2016,</p><p>p.340)</p><p>Soares (2000), quando defendia a formação, autonomia e desenvolvimento</p><p>de “um novo campo de intervenção social” proveniente da inter-relação comu-</p><p>nicação e educação, já garantia que a educomunicação tem como um dos seus</p><p>pilares a área da educação para a comunicação. Esta abrangeria, entre outras</p><p>ações, os “[...] projetos que se caracterizam por implementar procedimentos</p><p>voltados para a apropriação dos meios e das linguagens da comunicação por</p><p>parte das crianças e jovens” (SOARES, 2000, p. 22).</p><p>Caprino (2016) ressalta que não é a mera produção de conteúdo a responsá-</p><p>vel pelo processo de empoderamento de seus agentes. É possível até mesmo que</p><p>algumas iniciativas no campo da comunicação venham apenas copiar mode-</p><p>los consolidados na “mídia de massa”. Assim, dificilmente conseguiriam sequer</p><p>despertar um olhar crítico dos atores sociais para as mensagens, por exemplo,</p><p>sensacionalistas divulgadas pela mídia.</p><p>O projeto Anti-horário, desenvolvido como ação de Extensão dos estudan-</p><p>tes do curso de Jornalismo da UEPB, foi concebido exatamente para atuar no</p><p>polo oposto a esse tipo de conteúdo. Seu objetivo inicial era construir narrativas</p><p>humanizadas com base em histórias inspiradoras. Embora não fosse seu propó-</p><p>9 “Por um lado, a alfabetização informacional enfatiza a importância do acesso à informação e a avaliação do uso</p><p>ético dessa informação. Por outro, a alfabetização midiática enfatiza a capacidade de compreender as funções da</p><p>mídia, de avaliar como essas funções são desempenhadas e de engajar-se racionalmente junto às mídias com vistas</p><p>à autoexpressão”. (CAROLYN et al, 2013, p. 18)</p><p>82</p><p>sito central, foi de encontro, até certa forma, ao discurso da mídia mainstream</p><p>que apresenta essencialmente um mundo caracterizado pela violência em suas</p><p>mais diversas facetas.</p><p>A espetacularização dos mais distintos episódios, principalmente em pro-</p><p>gramas ditos policiais, faz parte das mensagens cotidianas consumidas por mi-</p><p>lhões de pessoas em todo o País. Em comum, além da banalização da violência,</p><p>essas narrativas abordam fatos ocorridos, na maioria das vezes, principalmente</p><p>nas periferias ou com a participação de alguns de seus integrantes, ajudando a</p><p>reforçar a estigmatização dessas áreas e de seus moradores.</p><p>Dessa forma, opera-se uma Construção social da realidade marcada pela</p><p>tragédia, corrupção, catástrofe, enfim, pelo caos. Cria-se a impressão de que</p><p>quase nada há de positivo em uma cidade, por exemplo, para ser exibido pela</p><p>mídia. Na contramão dessa lógica, o projeto Anti-horário tenta mostrar o outro</p><p>lado quase esquecido pela mídia hegemônica: histórias inspiradoras que per-</p><p>meiam o cotidiano das pessoas.</p><p>Nesse sentido, foram produzidos 14 programas jornalísticos experimentais</p><p>ao longo de 2018. A primeira temporada, que teve como temática gentileza, con-</p><p>tou com 7 episódios e foi lançada no primeiro semestre daquele ano no canal</p><p>do projeto no YouTube10. No semestre seguinte, a segunda temporada da série</p><p>enfocou a arte enquanto transformação social. As narrativas eram destinadas</p><p>principalmente aos jovens de 15 a 25 anos de idade e tinham como um de seus</p><p>objetivos estimulá-los para desenvolverem outras ações de impacto social, ten-</p><p>do como referência os personagens e situações apresentadas ao longo de cada</p><p>temporada.</p><p>Na tentativa de fazer essas histórias serem acessadas por jovens em outros</p><p>locais, além do ciberespaço, foi firmado uma parceria com o projeto de Extensão</p><p>Cinema de Bairro, desenvolvido pelo Departamento de Comunicação da UEPB.</p><p>O projeto, coordenado pelo professor Rômulo Azevedo, tinha o objetivo de le-</p><p>var produções audiovisuais paraibanas para serem exibidas em, pelo menos, 22</p><p>bairros de Campina Grande. Assim, seria possível levar as histórias inspiradoras</p><p>produzidas pelo Anti-horário para adolescentes e divulgar o projeto junto aos</p><p>jovens de bairros periféricos de Campina Grande.</p><p>Aliado a essa nova estratégia de distribuição do conteúdo, o canal do proje-</p><p>to Anti-horário no YouTube, em novembro de 2018, tinha 500 inscritos e alguns</p><p>10 https://www.youtube.com/channel/UC8p6r2rWo8ZPFzpmF6GtR_g/playlists</p><p>83</p><p>dos episódios mais de mil visualizações. No Facebook, o desempenho foi seme-</p><p>lhante: 450 curtidas na página até o dia 17 de novembro de 2018. No Instagram,</p><p>o perfil do projeto atingiu quase 400 seguidores, até novembro de 2018. Esses</p><p>dados eram monitorados mensalmente desde o início do projeto e foram con-</p><p>siderados positivos pela equipe do Anti-horário. Porém, havia a necessidade de</p><p>fazer essas histórias circularem entre mais jovens. Por isso, foi criada a Maratona</p><p>Anti-horário.</p><p>A ação foi planejada para beneficiar estudantes do Ensino médio de escolas</p><p>públicas de Campina Grande. Ela consistia na apresentação do projeto Anti-ho-</p><p>rário pelos discentes do curso de Jornalismo e na na exibição ininterrupta dos</p><p>sete episódios de uma temporada, totalizando cerca de 30 minutos de conteú-</p><p>do audiovisual. Ao fim, os estudantes de jornalismo estimulariam uma roda de</p><p>conversa com os secundaristas sobre a temática abordada nos vídeos, enfatizan-</p><p>do o papel de protagonismo social que os jovens poderiam assumir em busca</p><p>de um mundo com mais justiça social. E assim, em 14 de novembro de 2018,</p><p>na Escola Estadual Major Veneziano, no bairro da Catingueira, em uma sala do</p><p>3º ano do Ensino Médio, o projeto Anti-horário deu início à sua trajetória no</p><p>campo da educomunicação.</p><p>Segundo Almeida (2016), a educomunicação tem como um de seus obje-</p><p>tivos conscientizar as comunidades sobre a função da comunicação dialógica</p><p>como mecanismo que viabiliza a construção de conhecimento e na conquista</p><p>de melhores condições de vida. “O compromisso daqueles que intervêm é com</p><p>a transformação que pretendem ver na comunidade em que a intervenção ocor-</p><p>rerá, assim sendo o objetivo será formulado pensando sempre no que se espera</p><p>que os participantes façam” (ALMEIDA, 2016, p.13).</p><p>Nesse sentido, no ano de 2019, o projeto Anti-horário foi estruturado para</p><p>desenvolver prioritariamente atividades de capacitação audiovisual, baseada no</p><p>uso de smartphones, destinadas para estudantes do 3º ano de escolas públicas</p><p>de Campina Grande.</p><p>O desafio era usar o jornalismo como estratégia pedagógi-</p><p>ca para produção de narrativas audiovisuais, além de oferecer uma introdução</p><p>ao letramento midiático digital para esses jovens e simultaneamente contribuir</p><p>com abordagens inovadoras no processo de ensino e aprendizagem desenvolvi-</p><p>do nas escolas.</p><p>84</p><p>A revolução tecnológica que estamos presenciando obriga as pessoas a</p><p>desenvolver novas estratégias de adaptação e incorporação dessas tecno-</p><p>logias ao seu dia a dia, transformando inclusive as formas de comunica-</p><p>ção com o outro. Se as pessoas mudam e se adaptam ao novo, a educação</p><p>também tem que mudar, e é na pesquisa e discussão que encontraremos</p><p>algumas das soluções para essa convergência de mídias e educação. (GA-</p><p>VASSA, 2016, p.73).</p><p>O projeto também dialoga com as recomendações da Organização das Na-</p><p>ções Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) sobre recur-</p><p>sos indispensáveis à educação na era digital. Afinal, conforme Cury e Consani</p><p>(2019), as escolas não conseguem acompanhar em suas práticas pedagógicas o</p><p>ritmo de desenvolvimento tecnológico contemporâneo.</p><p>Dessa forma, segundo os autores, a UNESCO recomenda uma maior apro-</p><p>priação das tecnologias digitais pelas escolas. Processo que resultaria, entre seus</p><p>principais benefícios, na “[...] formação de estudantes e professores para/pelas</p><p>mídias digitais, garantindo uma participação maior e mais plena na vida eco-</p><p>nômica, política e social para atingir o desenvolvimento de uma cidadania ativa</p><p>(inclusão digital)”. (CURY; CONSANI, 2019, p. 82).</p><p>É necessário ressaltar que a escola deve ser um espaço de vanguarda. Local</p><p>em que professores e estudantes possam se apropriar das novas tecnologias</p><p>digitais para compreender com mais propriedade a sociedade contemporânea.</p><p>Assim, os usos dessas tecnologias devem ir além do acesso às informações,</p><p>mas, essencialmente, ser canal de produção e publicação de formas simbólicas</p><p>que contribuam para a construção construção social da realidade. “Portanto,</p><p>o surgimento da autocomunicação de massa, como chamo as novas formas</p><p>de comunicação em rede, aumenta as oportunidades de mudança social, sem,</p><p>no entanto, definir o conteúdo e o objetivo dessa transformação” (CASTELLS,</p><p>2017, p. 26).</p><p>Dessa forma, a escola tem a oportunidade de ser um dos agentes sociais</p><p>de liderança no fomento de produtos de comunicação que venham a contri-</p><p>buir para o desenvolvimento social dos mais diversos segmentos da população.</p><p>Apesar dos nós que precisam ser desatados para a implementação de projetos</p><p>ancorados nas tecnologias digitais, os prováveis resultados a serem alcançados</p><p>certamente compensarão os esforços desprendidos.</p><p>85</p><p>É o momento de unir ainda mais estudantes e professores em torno de</p><p>processos e práticas que resultem em ideias e conhecimentos essenciais para</p><p>ajudar a superar os desafios sociais dos próximos anos. “A escola deve ser o lugar</p><p>onde se constrói o novo; deve estabelecer-se como um terreno fértil, capaz de</p><p>deixar florescer os novos pensadores, os novos criadores de ideias” (VASQUES,</p><p>2019, p.278).</p><p>Um desses promotores de criação certamente são jovens que já utilizam as</p><p>tecnologias digitais diuturnamente e devem ter seus conhecimentos estimula-</p><p>dos e valorizados nas ações de educomunicação. “Por que não estabelecer uma</p><p>‘intimidade’ entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiên-</p><p>cia social que eles têm como indivíduos?” (FREIRE, 1996, p.30). A proposta</p><p>do projeto Anti-horário é oferecer noções de produção jornalística audiovisual</p><p>com o uso de dispositivos digitais móveis, a partir dos conhecimentos técnicos e</p><p>intelectuais dos estudantes das escolas públicas de Campina Grande.</p><p>Ao levar em conta a familiaridade do jovem com smartphones e a sua faci-</p><p>lidade em produzir vídeos, que normalmente são publicados em sites de redes</p><p>sociais (RECUERO, 2012), o projeto Anti-horário priorizou a capacitação para</p><p>a elaboração de narrativas audiovisuais que viessem a ser publicadas em perfis</p><p>criados pelos estudantes em redes sociais. A escolha desse formato também sus-</p><p>cita a análise crítica de conteúdos audiovisuais por parte dos estudantes. Assim,</p><p>antes de planejarem suas produções, eles são convidados a assistir e debater nar-</p><p>rativas audiovisuais inovadoras.</p><p>Espera-se que elas venham a ser referências para as suas criações. Ao mes-</p><p>mo tempo, os elementos de inovação dessas histórias são contextualizados à</p><p>produção de vídeos jornalísticos mainstream. A intenção é oferecer aos estu-</p><p>dantes o conhecimento básico das lógicas de desenvolvimento desses produtos.</p><p>Assim, junto à perspectiva prática da elaboração de conteúdo audiovisual, há</p><p>uma contextualização da importância e potencial dos recursos audiovisuais para</p><p>a conquista de mentes e corações.</p><p>Aprender a usar as novas mídias, a dominar os seus códigos e compreen-</p><p>der os riscos e potencialidades que comportam, não só do ponto de vista</p><p>técnico, mas também cultural e ético, é fundamental para a formação de</p><p>cidadãos conscientes, que sejam capazes de exercer integralmente seus di-</p><p>reitos e deveres. (VIEIRA; MOREIRA; ARANTES, 2016, p.269)</p><p>86</p><p>No próximo tópico, será explicado como foi concebido e desenvolvido o</p><p>projeto Anti-horário em sua perspectiva educomunicativa, bem como a quan-</p><p>tidade de estudantes beneficiados pelas ações do projeto. Em seguida, os dados</p><p>coletados na pesquisa, que objetiva compreender se essa capacitação realmente</p><p>contribui para o empoderamento dos estudantes, serão apresentados e analisa-</p><p>dos.</p><p>FORMAÇÃO AUDIOVISUAL E CONSTRUÇÃO DE HISTÓRIAS INSPI-</p><p>RADORAS</p><p>Ainda no ano de 2018, o projeto Anti-horário teve sua segunda experiência</p><p>em sala de aula ao ser convidado pela organização da Feira Literária de Campina</p><p>Grande (FLIC) para construir e aplicar a oficina “Produção de Boas Notícias”.</p><p>Esta, que foi ministrada na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio</p><p>Senador Argemiro de Figueiredo, no bairro do Catolé, durante a realização da</p><p>FLIC, tinha como um de seus objetivos fomentar nos estudantes o desejo de</p><p>produzir boas notícias sobre o seu cotidiano.</p><p>Junto com a Maratona Anti-horário, essa atividade foi uma espécie de em-</p><p>brião do projeto que passou a ser executado em 201911. Ele consistia, em sín-</p><p>tese, em apresentar e debater produções midiáticas em escolas públicas, além</p><p>de capacitar estudantes para a produção de narrativas audiovisuais. Ao final do</p><p>treinamento, os vídeos elaborados pelos adolescentes, que usavam basicamente</p><p>seus próprios smartphones para a gravação das imagens e aplicativos gratuitos</p><p>na edição e finalização do material, eram apresentados em sala de aula e uma</p><p>roda de conversa realizada para comentar os trabalhos exibidos.</p><p>Compreendemos que a produção audiovisual pode levar o indivíduo a</p><p>descobrir o seu entorno e a si próprio através da criação de narrativas que</p><p>utilizem uma linguagem complexa e que exigem, para sua realização, um</p><p>sujeito ligado de maneira multirreferencial à realidade que o cerca. Saber</p><p>lidar com os desafios que este sistema de signos impõe é prerrogativa para</p><p>11 Neste ano, mais uma vez, o projeto Anti-horário foi parceiro da FLIC. Ele foi responsável por capacitar estudan-</p><p>tes do 9º ano do Ensino Fundamental, da escola Estadual de Ensino Fundamental de Aplicação, para realizarem</p><p>a cobertura da segunda edição da FLIC. O projeto Anti-horário também supervisionou os trabalhos efetuados</p><p>pelos adolescentes durante o evento e realizou a edição do conteúdo produzido pelos repórteres literários. O relato</p><p>completo desta experiência foi publicado na revista Leia Escola, periódico do Programa de Pós-Graduação em</p><p>Linguagem e Ensino da Unidade Acadêmica de Letras da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).</p><p>87</p><p>a nova geração (VIEIRA; MOREIRA; ARANTES, 2016, p.259-260)</p><p>Outra intenção central do projeto de Extensão era contribuir para a des-</p><p>construção do processo de estigmatização (GOFFMAN, 1981) de áreas periféri-</p><p>cas de Campina Grande. A ideia era usar o próprio jornalismo para se contrapor</p><p>às narrativas baseadas no viés sensacionalista da cobertura dos fatos (LAGE,</p><p>2011) abordados cotidianamente em parte significativa do noticiário difundido</p><p>pela mídia hegemônica.</p><p>A mídia deveria dar destaques a pessoas altruístas. Contudo, como espe-</p><p>rar que enfatize a solidariedade em um mundo regido pela competitivi-</p><p>dade? Como falar de modéstia em tempos de exibicionismo? Como valo-</p><p>rizar a partilha se tudo gira em torno da lógica da acumulação? (BETTO,</p><p>2018, p.74).</p><p>Lógico que não existem respostas simples para essas questões complexas.</p><p>Contudo, a educação aliada às práticas de comunicação emancipatórias criadas</p><p>conjuntamente com os jovens por meio, por exemplo, do uso de tecnologias</p><p>digitais móveis e da internet podem ser um caminho frutífero. Nesse sentido, ao</p><p>estimular um novo olhar sobre bairros estigmatizados, há a intenção, nessas ofi-</p><p>cinas desenvolvidas nas escolas públicas, de levar o jovem a enxergar gestos de</p><p>fraternidade, altruísmo, gentileza, entre outros semelhantes, e despertá-lo para</p><p>a importância e o cultivo de valores humanos.</p><p>As instituições de ensino, beneficiadas pelo projeto, foram escolhidas alea-</p><p>toriamente. Após um primeiro contato com professores ou dirigentes da escola,</p><p>era realizada a apresentação do projeto, com ênfase em seus objetivos e poten-</p><p>cial impacto junto ao público-alvo. Depois da proposta da oficina ser aceita pela</p><p>direção da escola, os estudantes de jornalismo, por meio dos perfis do projeto</p><p>Anti-horário em redes sociais e em visitas nas salas de aulas, convidaram os es-</p><p>tudantes para participarem da capacitação.</p><p>Com o local, data e público definidos, o passo seguinte era a construção</p><p>da oficina, a qual ficaria sob a responsabilidade dos estudantes de jornalismo</p><p>devidamente capacitados pelo projeto Anti-horário para esse fim. Toda a con-</p><p>cepção e planejamento do treinamento, que levava em conta o perfil de cada</p><p>turma, ocorria no Laboratório de Projeto Gráfico ou no Laboratório Multimídia</p><p>88</p><p>do curso de Jornalismo da UEPB. Era habitual a estrutura básica da oficina ser</p><p>comum para todas as escolas, mas adaptações pontuais ao contexto de cada uni-</p><p>dade de ensino foram realizadas para proporcionar melhor aproveitamento por</p><p>parte dos estudantes.</p><p>A próxima etapa consistia na aplicação da oficina. Após uma rápida ex-</p><p>plicação sobre o surgimento e desenvolvimento do projeto Anti-horário, eram</p><p>apresentados alguns vídeos da primeira temporada do programa, cujo tema foi</p><p>gentileza, e da segunda temporada, que abordou a arte como transformação so-</p><p>cial. Chegava então o momento de passar “oficialmente” a palavra para os es-</p><p>tudantes. Eles eram estimulados a se posicionarem criticamente e sustentarem</p><p>suas opiniões por meio da argumentação.</p><p>Nesse contexto, também havia a tentativa de comparar a produção de nar-</p><p>rativas baseada em episódios e personagens inspiradores com aquelas sobre</p><p>violência apresentadas cotidianamente em programas noticiosos, por exemplo.</p><p>Mais uma vez, os estudantes eram convidados a opinar sobre quais recortes da</p><p>realidade lhes pareciam ser mais interessantes, bem como se as mensagens hu-</p><p>manizadas tinham potencial de sensibilizar a audiência para agir de forma se-</p><p>melhante aos protagonistas daquelas histórias.</p><p>Enfim, o círculo da docência não deveria fechar-se, como uma cidadela</p><p>sitiada, sob o bombardeio da cultura de mídia, exterior à escola, ignorada</p><p>e desdenhada pelo mundo intelectual. O conhecimento dessa cultura é</p><p>necessário não só para compreender os processos multiformes de indus-</p><p>trialização e super comercialização culturais, mas também o quanto das</p><p>aspirações e obsessões próprias a nosso “espírito da época” é traduzido e</p><p>traído pela temática das mídias. (MORIN, 2003, p.80).</p><p>Os adolescentes gradativamente pareciam perceber a importância das nar-</p><p>rativas humanizadas e alguns chegavam até mesmo a revelar que sentiam falta</p><p>de mais conteúdos daquela natureza. “E que tal fazer um vídeo semelhante sobre</p><p>o cotidiano de vocês?” Essa era uma das formas usadas pela equipe do projeto</p><p>Anti-horário para lançar à turma o desafio de criar conteúdos audiovisuais ins-</p><p>piradores.</p><p>Como resultado prático da oficina, os secundaristas deveriam criar e apre-</p><p>sentar vídeos de até um minuto, que seriam debatidos em sala de aula e, poste-</p><p>89</p><p>riormente caso desejassem, poderiam ser publicados em seus perfis nas redes</p><p>sociais. A ideia era que, a partir daquela formação, eles pudessem construir um</p><p>perfil específico para a exibição de suas produções audiovisuais baseadas em</p><p>temáticas inspiradoras sobre suas comunidades.</p><p>A escola, ao propor o uso dessas mídias já integradas ao dia a dia do aluno</p><p>e mediando as atividades desenvolvidas com esta mídia, cumpre sua fun-</p><p>ção social, pois, contribui para que o aluno identifique o que é relevante,</p><p>orienta as relações de interação e colaboração entre os aprendizes e favo-</p><p>rece os processos de produção do conhecimento. (GAVASSA, 2016, p.76)</p><p>A referência principal para esses vídeos mais curtos, depois de lançado o</p><p>desafio, foi a série “Segundos que Contam”12. Esta contempla narrativas, com</p><p>duração de um minuto e publicadas no perfil do projeto Anti-horário no Insta-</p><p>gram, sobre projetos e personagens que contribuem para a melhoria da quali-</p><p>dade de vida de crianças, jovens e adultos em Campina Grande. Seus episódios</p><p>foram exibidos em sala de aula e debatidos com os estudantes.</p><p>Em seguida, noções elementares de jornalismo, como pauta e técnicas de</p><p>entrevista, por exemplo, eram apresentadas aos estudantes. Agora toda a ofici-</p><p>na focava no aprimoramento das habilidades necessárias aos estudantes para</p><p>viabilizar a construção de narrativas estruturadas nos princípios jornalísticos</p><p>elementares. Havia a estratégia de tornar o curso, que ocorria ao longo de três</p><p>encontros de duas horas-aula cada um, o mais prático possível. Dessa forma, ao</p><p>final do primeiro encontro, os estudantes, já divididos em equipes, tinham que</p><p>construir e apresentar uma pauta.</p><p>No próximo encontro, que costumava ocorrer em um intervalo de sete a</p><p>quinze dias, os estudantes já traziam as pautas que pretendiam usar para a pro-</p><p>dução dos vídeos. Eles tinham recebido a tarefa de investigar, em seus bairros,</p><p>histórias que poderiam render narrativas inspiradoras. Depois de apresentar</p><p>suas propostas, os estudantes de jornalismo e os próprios alunos dos outros gru-</p><p>pos, sugeriram modificações para aperfeiçoar as pautas que seriam a essência de</p><p>cada vídeo a ser construído.</p><p>A nova etapa da oficina era comumente muito atrativa para os estudantes,</p><p>pois passavam a debater noções básicas de roteiro, dicas de gravação de ima-</p><p>12 Disponível em: https://www.instagram.com/p/Bwkma4wnHsS/?igshid=1y1k7zsjfc86s</p><p>90</p><p>gens e captação de áudios. Constantemente, os exemplos usados para melhorar</p><p>a compreensão do conteúdo eram os vídeos já apresentados em sala, elaborados</p><p>por alguns dos ministrantes da oficina, que aproveitavam para compartilhar os</p><p>aprendizados através da superação de desafios inerentes a essas produções.</p><p>O último tópico daquele segundo encontro era essencial para finalização</p><p>dos vídeos a serem produzidos: a indicação de aplicativos adequados à edição</p><p>dos trabalhos. Além de demonstrar quão intuitivos são esses aplicativos, os uni-</p><p>versitários também selecionavam tutoriais que poderiam ser acessados pelos es-</p><p>tudantes em caso de alguma dúvida no processo de edição de vídeos. A partir de</p><p>então, os alunos poderiam ir a campo entrevistar suas fontes, gravar as imagens,</p><p>editar e finalizar seus vídeos.</p><p>O grande dia finalmente havia chegado! Era a hora de assistir aos vídeos de</p><p>cada equipe. Ao fim de cada exibição, os trabalhos eram debatidos e sugestões</p><p>de aperfeiçoamento explicadas por monitores do projeto e pelos integrantes dos</p><p>outros grupos. Mais uma vez, antes da entrega dos certificados de participação</p><p>na oficina</p><p>emitidos pela UEPB, era ressaltado o objetivo de que todos os en-</p><p>contros pudessem contribuir para despertar um novo olhar desses estudantes à</p><p>realidade e à mídia, assim como às diversas possibilidades que eles dispunham</p><p>de se apropriar de dispositivos digitais móveis e da própria internet na execução</p><p>de suas novas narrativas audiovisuais.</p><p>Ao final de 2019, exatos 111 estudantes de escolas públicas tinham sido</p><p>capacitados nas oficinas ministradas pelo projeto Anti-horário. Porém, de fato,</p><p>haveria a experiência contribuído para o empoderamento desses jovens? Com o</p><p>objetivo de responder essa questão, a equipe do Anti-horário realizou uma pes-</p><p>quisa científica, cuja metodologia e resultados serão apresentados no próximo</p><p>tópico.</p><p>IMPACTOS NA COMUNIDADE ESCOLAR</p><p>É provável que, pelo menos em uma análise apressada ou baseada no</p><p>senso comum, um dos principais desafios metodológicos deste trabalho seja</p><p>a proximidade dos pesquisadores com o objeto da pesquisa. Nessa linha de</p><p>pensamento, seria possivelmente perguntado se essa relação coloca em risco a</p><p>busca da objetividade do estudo científico. “[...] a palavra-chave para objetividade</p><p>– quando este princípio é entendido com relação à procura e à aproximação da</p><p>91</p><p>realidade, à verdade como correspondência – não é neutralidade, mas sim in-</p><p>vestigação” (SPONHOLZ, 2009, p. 21).</p><p>Dessa forma, desde que escolhidas técnicas adequadas para responder às</p><p>questões propostas pelo estudo, a proximidade dos pesquisadores com seu obje-</p><p>to de pesquisa pode ser até mesmo benéfica.</p><p>Nos casos citados como exemplos ou em outros casos similares, o contato</p><p>prévio com o ambiente escolar e/ou institucional pesquisado comprome-</p><p>teria os resultados da pesquisa? Queremos argumentar que não. Em nos-</p><p>so entendimento, o que se faz necessário é sistematizar a metodologia da</p><p>pesquisa, de forma que o pesquisador possa utilizar a sua prévia experiên-</p><p>cia no lócus de pesquisa não como como um fator que vai comprometer a</p><p>“neutralidade”, mas sim como um fator que o ajudará a apreender melhor</p><p>o ambiente da pesquisa e seus sujeitos (MARQUES, 2016, p. 265).</p><p>A pesquisa de campo foi norteada pela observação participante (MALI-</p><p>NOWSKI, 1978) na tentativa de compreender as práticas sociais analisadas, a</p><p>partir do olhar da comunidade escolar beneficiada pelas ações do projeto Anti-</p><p>-horário. Assim, foram aplicados questionários junto aos estudantes que parti-</p><p>ciparam das oficinas. Além disso, entrevistas seriam realizadas com os docentes</p><p>das escolas contempladas pelo projeto.</p><p>Por meio dessas técnicas de pesquisa, havia a intenção de construir dados</p><p>quantitativos e qualitativos que permitissem compreender se as oficinas minis-</p><p>tradas contribuíram para o empoderamento dos estudantes. Originário da pala-</p><p>vra inglesa empowerment, o conceito de empoderamento social pode ser defini-</p><p>do da seguinte forma: “Trata-se de processos que tenham a capacidade de gerar</p><p>processos de desenvolvimento autossustentável, com a mediação de agentes ex-</p><p>ternos – os novos educadores sociais – atores fundamentais na organização e no</p><p>desenvolvimento dos projetos” (GOHN, 2004, p.23). Ainda segundo a autora,</p><p>a categoria empowerment pode significar as práticas voltadas para a promoção</p><p>e desenvolvimento de grupos, gerando uma melhora gradativa em suas vidas.</p><p>Devido ao universo de 111 alunos beneficiados, foram realizados recortes</p><p>na aplicação dos questionários. O projeto desenvolveu atividades em três tur-</p><p>mas compostas por estudantes de Ensino Médio e, por meio de parceria com</p><p>a FLIC, em uma turma com alunos de Ensino Fundamental. Duas turmas de</p><p>Ensino Médio foram escolhidas aleatoriamente para participar desta pesquisa,</p><p>92</p><p>além da única turma de Ensino Fundamental. Pelo menos 20% de alunos, de</p><p>cada turma capacitada, foram contatados, também aleatoriamente, para par-</p><p>ticipar da pesquisa. Acredita-se que esse percentual garanta uma amostragem</p><p>representativa de cada grupo.</p><p>Estudantes do Ensino Médio do Instituto Federal da Paraíba (IFPB – cam-</p><p>pus Campina Grande) e da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio</p><p>Prof. Itan Pereira responderam um questionário no segundo semestre de 2019.</p><p>Este foi formulado com dez perguntas objetivas, embora em uma delas fosse ne-</p><p>cessário justificar a resposta. Os alunos foram indagados se a oficina havia aten-</p><p>dido suas expectativas, se pretendiam continuar a produzir vídeos sobre suas</p><p>comunidades, se seria possível passar a produzir vídeos periódicos sobre temas</p><p>voltados para a construção de uma sociedade mais justa, se foi fácil encontrar</p><p>histórias inspiradoras em suas comunidades, se passaram a ter uma auto-per-</p><p>cepção de agentes de transformação social, se estavam mais confiantes para a</p><p>produção de conteúdo audiovisual, se a capacitação contribuiu para sua forma-</p><p>ção escolar, se as habilidades aprendidas poderiam ser usadas em seu cotidiano</p><p>escolar e como poderiam ser usadas, além de atribuírem nota de zero a dez para</p><p>a oficina e informarem se a indicaria para um colega. O questionário foi aplica-</p><p>do através da plataforma Google Forms.</p><p>Sete estudantes, de um total de vinte e quatro capacitados no IFPB, foram</p><p>contatados aleatoriamente para responder o questionário. A ideia é que as res-</p><p>postas de quase um terço da turma seja uma amostra representativa desse grupo.</p><p>Entre os que responderam o questionário, 85,7% disseram que a oficina atendeu</p><p>suas expectativas. A maioria, 71,4%, também disse ser possível produzir conteú-</p><p>do periódico nas redes sociais voltado para a construção de uma sociedade com</p><p>mais justiça social. Todavia, 42,9% não pretendem produzir vídeos sobre a sua</p><p>comunidade.</p><p>E não seria por falta de temáticas inspiradoras, já que 71,4% disseram ser</p><p>fácil encontrar tema dessa natureza no seu bairro. Ainda assim, após o treina-</p><p>mento, 28,6% dizem se ver como agentes de transformação social na sua comu-</p><p>nidade, enquanto 57,1% responderam talvez. A totalidade dos estudantes disse</p><p>que se sentia mais confiante para produzir conteúdos audiovisuais, bem como</p><p>recomendaria a oficina para colegas. Segundo 85,7% dos estudantes, a capaci-</p><p>tação contribuiu para a sua formação escolar e exatamente o mesmo percentual</p><p>de alunos acha que as habilidades aprendidas na oficina serão usadas de alguma</p><p>93</p><p>forma no cotidiano escolar.</p><p>Já na escola Prof. Itan Pereira a maior parte da turma foi contatada para</p><p>responder o questionário. Exatos vinte e sete alunos de um total de trinta e seis,</p><p>o que equivale a 75% do grupo, responderam o questionário. Por coincidência,</p><p>entre os que responderam o questionário 85,2% disseram que a oficina atendeu</p><p>suas expectativas. A maioria, 51,9% também disse ser possível construir conteú-</p><p>do periódico nas redes sociais voltado para a construção de uma sociedade com</p><p>mais justiça social. Contudo, apenas 14,8% pretendem produzir vídeos sobre a</p><p>sua comunidade.</p><p>Mais uma vez, essa resistência não seria motivada pela escassez de histórias</p><p>inspiradoras. Afinal, 81,5% disse ser fácil encontrar tema dessa natureza no seu</p><p>bairro. Ainda assim, após o treinamento, 44,4% dizem se ver como agentes de</p><p>transformação social na sua comunidade, enquanto 48,1% responderam talvez.</p><p>Nessa escola, 70,4% dos entrevistados garantiram se sentir mais confiantes para</p><p>produzir conteúdos audiovisuais.</p><p>Como ocorreu com os estudantes do IFPB, todos os alunos consultados da</p><p>escola Prof. Itan Pereira recomendariam a oficina para os colegas. Semelhante</p><p>aos dados obtidos com estudantes do IFPB, 81,7% dos alunos da escola Prof.</p><p>Itan Pereira acreditam que a capacitação contribuiu para a sua formação escolar</p><p>e 88,9% dos alunos acham que as habilidades aprendidas na oficina serão usadas</p><p>de alguma forma no cotidiano escolar.</p><p>Na escola Estadual de Ensino Fundamental de Aplicação, os estudantes já</p><p>tinham sido ouvidos, em janeiro de 2020, durante a produção do artigo “Um</p><p>smartphone na mão e algumas ideias na cabeça: repórter literário</p><p>em ação”. Os</p><p>dados obtidos naquela ocasião foram aproveitados neste paper, já que a equipe</p><p>do Anti-horário não permanecia com os contatos dos estudantes e seria adequa-</p><p>do evitar deslocamentos até a escola em um período de isolamento social.</p><p>Alunos do Aplicação responderam um questionário específico, pois a ca-</p><p>pacitação foi voltada para a cobertura da FLIC, embora a lógica da oficina fosse</p><p>semelhante àquelas aplicadas nas demais escolas. As questões não abordaram</p><p>diretamente o treinamento, mas, de certa forma, um de seus resultados: capaci-</p><p>tar os estudantes para fazer a cobertura da Feira Literária de Campina Grande.</p><p>Foi construída uma amostragem composta por seis estudantes de um gru-</p><p>po de 28 treinados. Ou seja, 21% do grupo capacitado. As três perguntas, en-</p><p>viadas e respondidas via WhatsApp, eram subjetivas. Questionavam como foi a</p><p>94</p><p>experiência de fazer a cobertura da FLIC, se ela contribuiu para o aprendizado</p><p>do aluno e de que forma. Todos os estudantes ouvidos avaliaram positivamente</p><p>o trabalho realizado. “Foi uma experiência simplesmente fantástica!”13, resumiu</p><p>a estudante Ingrid Mohana da Silva Farias, 15 anos de idade.</p><p>A estudante Maria Eduarda Silva Santana, 16 anos de idade, explicou como</p><p>a cobertura contribuiu com seu aprendizado: “[...] me mostrando que o jorna-</p><p>lismo é muito mais que só uma entrevista”14. Ela ressalta que a atividade lhe aju-</p><p>dou ao evidenciar como poderia usar sua criatividade. Fabrícia Gomes da Silva</p><p>Melo, 14 anos de idade, destacou que o trabalho desenvolvido durante a FLIC</p><p>contribuiu para lhe fazer perceber que o “[...] jornalismo pode ser uma carreira</p><p>incrível”15.</p><p>Meses após a realização das oficinas, professores de duas escolas seriam</p><p>entrevistados para ajudar a compreender se havia algum indício, pelo menos</p><p>no cotidiano escolar, de empoderamento do grupo capacitado pela oficina. A</p><p>intenção era fazer entrevistas presenciais nas escolas. Porém, por conta do isola-</p><p>mento social vivenciado no País devido a pandemia decorrente da COVID-19,</p><p>enviamos as questões, que nortearam a entrevista semiestruturada, pelo aplica-</p><p>tivo WhatsApp.</p><p>Das duas unidades escolares que tiveram estudantes de Ensino Médio con-</p><p>tatados para responder questionários desta pesquisa, o IFPB foi escolhido alea-</p><p>toriamente para ter um de seus docentes ouvidos nesta fase da pesquisa. Já a</p><p>escola Aplicação, por ser a única com estudantes do Ensino Fundamental parti-</p><p>cipantes do projeto, também teve um docente ouvido nesta fase da pesquisa. Os</p><p>profissionais contatados tiveram participação direta na viabilização das oficinas</p><p>em seus respectivos locais de trabalho.</p><p>Eles responderam cinco questões que buscavam verificar a existência de</p><p>mudanças no desenvolvimento escolar dos alunos, na socialização, na leitura</p><p>crítica de mundo e se, o que aprenderam na oficina, tem sido aplicado no dia a</p><p>dia escolar. As perguntas foram enviadas via WhatsApp e os entrevistados en-</p><p>caminharam arquivos com as respostas às perguntas, os quais foram anexados</p><p>nesse mesmo aplicativo.</p><p>13 Trecho de entrevista concedida, via WhatsApp, por Ingrid Mohana da Silva Farias aos pesquisadores no dia 24</p><p>de janeiro de 2020.</p><p>14 Trecho de entrevista concedida, via WhatsApp, por Maria Eduarda Silva Santana, aos pesquisadores no dia 24 de</p><p>janeiro de 2020.</p><p>15 Trecho de entrevista concedida, via WhatsApp, por Fabrícia Gomes da Silva Melo, aos pesquisadores no dia 24</p><p>de janeiro de 2020.</p><p>95</p><p>O Chefe de Departamento de Ensino Técnico do IFPB em Campina Gran-</p><p>de, Golbery de Oliveira Chagas Aguiar Rodrigues, informou que as oficinas mi-</p><p>nistradas proporcionaram “[...] aos estudantes participantes empoderamento,</p><p>no sentido de dar confiança, autonomia e segurança na produção de atos de</p><p>fala e de expressões audiovisuais”16. O professor, que também é coordenador do</p><p>projeto de ensino IF NEWS – imprensa colegial, ressaltou que a oficina ter sido</p><p>ministrada por estudantes foi um diferencial eficiente.</p><p>Professor Golbery explicou que o projeto também resultou em melhora na</p><p>socialização dos estudantes e motivou o interesse deles para o desenvolvimento</p><p>de trabalhos em equipe. O docente também comentou se os discentes capacita-</p><p>dos apresentaram melhoras na leitura crítica de mundo e dos meios de comu-</p><p>nicação.</p><p>Esse é um ponto chave que persigo como coordenador de um projeto de</p><p>imprensa colegial, com protagonismo discente. Dada a questão da segu-</p><p>rança, da autonomia, a visão crítica deles foi melhorada/aguçada. Essa</p><p>questão é determinante, sobretudo em dias contemporâneos, em que há</p><p>setores de imprensa que tratam a notícia de modo interesseiro, ideológico</p><p>e o aluno, o cidadão precisa ter senso crítico suficiente para detectar aim-</p><p>prensa séria daquela motivada por interesses particulares.17</p><p>A professora Nágida Maria da Silva Paiva cedeu suas aulas e participou</p><p>de toda a capacitação efetuada na escola Estadual de Ensino Fundamental de</p><p>Aplicação, além de acompanhar os estudantes durante a FLIC. Ela diz que seus</p><p>alunos, depois do treinamento, passaram a argumentar com mais propriedade.</p><p>“Sem dúvida, houve uma mudança de postura dos alunos assistidos pela oficina:</p><p>mostraram-se mais independentes e autoconfiantes para o desenvolvimento das</p><p>tarefas”18.</p><p>Ela explica que os estudantes se apropriaram de conteúdos da oficina e</p><p>passaram a aplicá-lo no cotidiano escolar. “Para a realização das atividades eles</p><p>pensam na organização pelo olhar de uma pauta. Achei bem interessante. Por</p><p>16 Trecho de entrevista concedida, via WhatsApp, pelo professor Golbery de Oliveira Chagas Aguiar Rodrigues aos</p><p>pesquisadores em 7 de abril de 2020.</p><p>17 Trecho de entrevista concedida, via WhatsApp, pelo professor Golbery de Oliveira Chagas Aguiar Rodrigues aos</p><p>pesquisadores em 7 de abril de 2020.</p><p>18 Trecho de entrevista concedida, via WhatsApp, pela professora Nágida Maria da Silva Paiva aos pesquisadores</p><p>em 13 de abril de 2020.</p><p>96</p><p>exemplo, onde procurar o tema, de que forma apresentar, pensar em fontes con-</p><p>fiáveis, prazos. O celular ganhou um novo significado para eles”19.</p><p>Talvez por essa forma peculiar de aproveitar todos os conteúdos ministra-</p><p>dos na capacitação, eles já tiveram a ideia de desenvolver atividades escolares</p><p>por meio da construção de produto audiovisual. Dessa forma, acabam por se</p><p>tornar referência para os demais. “É inquestionável que os alunos melhoraram</p><p>significativamente. Tornaram-se referência para os demais colegas. Um grupo</p><p>dos alunos assistidos na oficina montou documentários sobre Preconceito Lin-</p><p>guístico para apresentar nas turmas. O resultado foi exitoso”20.</p><p>A docente assegurou, ainda, que seus alunos apresentaram melhoras na lei-</p><p>tura crítica de mundo e dos meios de comunicação.</p><p>Quando um fato noticiado era colocado em questão, eles já se posiciona-</p><p>vam e outros já queriam saber como a informação foi construída: onde</p><p>circulava, qual a veracidade, fonte. Asseguro, com muita alegria, que as</p><p>oficinas, desenvolvidas pela equipe do Anti-horário junto aos alunos do</p><p>nono ano da Escola Estadual de Ensino Fundamental II, turno tarde, fo-</p><p>ram um divisor de águas na vida escolar desses meninos21.</p><p>Assim, os resultados, obtidos ao ouvir estudantes beneficiados pelas oficinas</p><p>e docentes que viabilizaram a execução do projeto em suas escolas, demonstram</p><p>a relevância das atividades desenvolvidas para o processo de empoderamento</p><p>desses adolescentes e jovens. Um dos pontos mais interessantes é que parte dos</p><p>estudantes passou a se perceber como agentes de transformação social.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Com base na experiência vivenciada e conforme os estudantes entrevis-</p><p>tados, há uma variedade de temáticas inspiradoras em suas comunidades que</p><p>podem ser transformadas em narrativas audiovisuais. Assim, esses relatos aju-</p><p>dariam a desconstruir o processo de estigmatização sofrido por essas áreas da</p><p>19 Trecho de entrevista concedida, via WhatsApp, pela professora Nágida Maria da Silva Paiva aos pesquisadores</p><p>em 13 de abril de 2020.</p><p>20 Trecho de entrevista concedida, via WhatsApp, pela professora Nágida Maria da Silva Paiva aos pesquisadores</p><p>em 13 de abril de 2020.</p><p>21 Trecho de entrevista concedida, via WhatsApp, pela professora Nágida Maria da Silva Paiva aos pesquisadores</p><p>em 13 de abril de 2020.</p><p>97</p><p>cidade, que recai também sobre seus moradores.</p><p>Todavia, infelizmente, parte significativa dos jovens do Ensino Médio ca-</p><p>pacitados não demonstraram interesse em contar essas histórias positivas. Dado</p><p>que aponta a necessidade de um trabalho específico de sensibilização dos es-</p><p>tudantes ser desenvolvido nas próximas oficinas. Assim, eles poderão se sentir</p><p>estimulados para a produção de vídeos baseados, por exemplo, nos personagens</p><p>que trabalham para melhorar a vida de toda a comunidade.</p><p>Afinal, esses jovens se sentem mais confiantes, como eles próprios asse-</p><p>guraram, para a construção de conteúdos audiovisuais. Além disso, agora suas</p><p>produções podem ser ancoradas em princípios básicos do jornalismo.</p><p>Eles foram oportunizados a mergulhar num universo, até então, desco-</p><p>nhecido e distante de muitos – o universo da comunicação/informação</p><p>jornalística/mídia responsável. Perceberam-se parte desse ambiente – “re-</p><p>pórteres, editores”. Estes jovens experienciaram momentos além dos mu-</p><p>ros da escola despertando-lhes novos olhares. Cumprimos nosso papel.22</p><p>Nessa perspectiva, o projeto também conseguiu oferecer contribuição para</p><p>a construção de uma alfabetização midiática e informacional entre os estudantes</p><p>de Ensino Fundamental e Médio de escolas públicas de Campina Grande. As</p><p>habilidades aprendidas nesse campo, conforme relatos de alunos e professores,</p><p>melhoraram a formação escolar desses adolescentes e foram utilizadas em ativi-</p><p>dades discentes.</p><p>A partir dos resultados da pesquisa efetuada, parece que o projeto Anti-ho-</p><p>rário consegue cumprir um de seus objetivos fundamentais: fomentar o empo-</p><p>deramento de estudantes de escolas públicas de Campina Grande. Sobretudo, o</p><p>estudo contribuiu para apontar aspectos que podem e devem ser melhorados no</p><p>projeto, bem como para fortalecer as ações que obtiveram êxito ao longo dessa</p><p>trajetória voltada para a promoção de uma sociedade com mais justiça social,</p><p>fraternidade e amor.</p><p>22 Trecho de entrevista concedida, via WhatsApp, pela professora Nágida Maria da Silva Paiva aos pesquisadores</p><p>em 13 de abril de 2020.</p><p>98</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>ALMEIDA, Lígia Beatriz Carvalho de. Projetos de intervenção em educomunicação. Cam-</p><p>pina Grande: v 1.6 – 24 ago. 2016. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.</p><p>php/4615056/mod_resource/content/1/Projetos%20de%20Interven%C3%A7%C3%A3o.</p><p>pdf. Acesso em: 06 mai. 2020.</p><p>BETTO, Frei. Por uma educação crítica e participativa. Rio de Janeiro: Anfiteatro, 2018.</p><p>CAPRINO; Mônica Pegurer Caprino. Mídia-educação, inclusão digital e comunicação comu-</p><p>nitária: espaços de interconexão. IN: SOARES, Ismar de Oliveira; VIANA, Claudemir; XA-</p><p>VIER, Jurema Brasil (Org.). Educomunicação e alfabetização midiática: conceitos, práti-</p><p>cas e interlocuções. São Paulo: ABPEducon, 2016.</p><p>CAROLYN, Wilson; GRIZZLE, Alton; TUAZON, Ramon; AKYEMPONG, Kwame; CHEUNG,</p><p>Chi-Kim. Alfabetização midiática e informacional: currículo para formação de professo-</p><p>res. Brasília: UNESCO, UFTM, 2013.</p><p>CASTELLS, Manuel. O poder da comunicação. – 2ª ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra,</p><p>2017.</p><p>CURY, Lucillene; CONSANI, Marciel. A educação de hoje rumo à educação planetária de ama-</p><p>nhã. Comunicação & educação, n. 2, ano XXIV, jul/dez 2019.</p><p>FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz</p><p>e Terra, 1996.</p><p>GAVASSA; Regina Célia Fortuna Broti. A produção de mídia na escola: espaços de colabora-</p><p>ção. IN: SOARES, Ismar de Oliveira; VIANA, Claudemir; XAVIER, Jurema Brasil (Orgs.).</p><p>Educomunicação e alfabetização midiática: conceitos, práticas e interlocuções. São Paulo:</p><p>ABPEducon, 2016.</p><p>GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4 Ed. São</p><p>Paulo: Saraiva, 1981.</p><p>GOHN, Maria da Glória. Empoderamento e participação da comunidade em políticas sociais.</p><p>Saúde e Sociedade, v. 13, nº 2, mai-ago 2004, p. 20-31.</p><p>KOTSCHO, Ricardo. A prática da reportagem. 4ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2000.</p><p>LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista. São Paulo: Record, 2011</p><p>LEMOS, André.; LÉVY, Pierre. O futuro da internet: em direção a uma ciberdemocracia plane-</p><p>tária. São Paulo: Paulus, 2010.</p><p>MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental: Um relato do empreendimento</p><p>e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia. São Paulo: Editora</p><p>Abril, 1978.</p><p>MARQUES, Janot Pires. A “observação participante” na pesquisa de campo em educação. Edu-</p><p>cação em Foco, ano 19 - n. 28 – mai./ago. 2016 p. 263-284. Disponível em: http://revista.</p><p>uemg.br/index.php/educacaoemfoco/article/view/1221. Acesso em: 27 Abr. 2020.</p><p>MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. – 8ª ed. Rio de</p><p>Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.</p><p>RECUERO, Raquel. A conversação em rede: comunicação mediada por computador e redes</p><p>sociais na Internet. Porto Alegre: Sulina, 2012.</p><p>SOARES, Ismar de Oliveira. Educomunicação: um campo de mediações. Comunicação & Edu-</p><p>cação, set./dez. p. 12-24, 2000.</p><p>SPONHOLZ, Liriam. Jornalismo, conhecimento e objetividade: além do espelho e das constru-</p><p>ções. 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A linguagem</p><p>de cunho erótico-pornográfico do funk foi submetida à análise em sala de aula</p><p>considerando-se algumas letras com referências pejorativas nas quais subjazem</p><p>visões discriminatórios sobre as mulheres. Tais alusões parecem difundir e re-</p><p>forçar as assimetrias de gênero, à medida que distorcem a construção identitária</p><p>do feminino pela junção de apologias e coreografias sensualizadas que naturali-</p><p>zam a superioridade do masculino.</p><p>A pesquisa tem apontado que grande parte do repertório é pontuada por</p><p>insinuações que exploram a prática sexual objetificando as mulheres. Como</p><p>há expressiva ressonância desse ritmo no cotidiano dos jovens, sua apropria-</p><p>ção nos espaços-tempos escolares, através de observações semântico-culturais</p><p>acerca dessas nuances, pode fomentar reflexões sobre a problemática de gênero</p><p>e, consequentemente, favorecer a formação para a criticidade. Nesse percurso,</p><p>buscamos demonstrar como as referências às masculinidades e às feminilidades</p><p>permeiam as narrativas e até que ponto projetam sentidos de cunho sexista.</p><p>Ao problematizar tal discussão na escola podemos promover uma aproximação</p><p>cultural que expande o campo de interpretação e aprendizagem para as questões</p><p>sociais de gênero inscritas na performatividade4 do funk.</p><p>A opção por “narrativas” segue a concepção de Motta (2010), no que tan-</p><p>1 Orientadora da pesquisa. Doutora em Educação pela Universidade Federal da Paraíba-UFPB. Professora Asso-</p><p>ciada da UEPB, Docente Permanente e Coordenadora Adjunta do Programa de Pós-Graduação em Formação de</p><p>Professores (PPGFP/UEPB). E-mail: rnadia@terra.com.br</p><p>2 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Formação de Professores (PPGFP/UEPB). Professora da Rede</p><p>Municipal de João Pessoa – PB. Supervisora Escolar da Prefeitura Municipal de Sapé</p><p>– PB.</p><p>3 O estudo se alinha à perspectiva de gênero e cultura com ênfase na análise das apologias sexistas do funk na Edu-</p><p>cação Básica contemplando o viés da formação escolar.</p><p>4 O funk é entendido como estrutura performativa porque abre a possibilidade de inaugurar novos sentidos sobre e</p><p>para a vida social (MOITA LOPES, 2008).</p><p>100</p><p>ge à expressão universal do uso da linguagem em sua polissemia no registro</p><p>de “vozes”, implícitas ou explícitas, nos produtos da indústria cultural (leia-se</p><p>“midiáticos”). No sentido aqui privilegiado, as narrativas representam os atos de</p><p>fala do funk que circulam coletivamente e fomentam significados: “Através dos</p><p>códigos circulantes podemos analisar os efeitos de sentido das enunciações em</p><p>seus aspectos éticos, morais e ideológicos” (MOTTA, 2010, p. 09).</p><p>Importa-nos esclarecer, também, que o enfoque do feminino não circuns-</p><p>creve qualquer racionalidade binária em termos de sexo-gênero; apenas se re-</p><p>porta aos signos linguísticos do funk vinculados à sexualidade feminina. No</p><p>entanto, estamos cientes de que toda leitura de gênero solicita entrelaçamentos</p><p>conceituais como patriarcado, construção identitária e relações de poder, cujos</p><p>contornos incluem os significados do masculino sobre o feminino, engendrados</p><p>nessas relações. Como reitera Scott (1995) qualquer análise sobre sexismo deve</p><p>partir da premissa de que uma informação sobre as mulheres é necessariamen-</p><p>te uma informação sobre os homens, já que o mundo “das mulheres” é criado</p><p>“no” e “pelo” mundo masculino. Assim, os arquétipos5 da cultura, bem como os</p><p>códigos sociais derivam desses intercâmbios legitimando as representações que</p><p>incidem no imaginário coletivo.</p><p>Nesse sentido, a análise do funk na escola pode forjar (re) ações de cons-</p><p>cientização sobre os estereótipos discriminatórios que impactam a dignidade</p><p>feminina. Na percepção de Louro (2010a), o cotidiano escolar é um campo per-</p><p>passado por leituras e concepções de gênero, “produzindo diferenças, distin-</p><p>ções, desigualdades, porque desde o seu início a instituição escolar exerceu ação</p><p>distintiva por múltiplos mecanismos de classificação, ordenamento e hierarqui-</p><p>zação das pessoas” (LOURO, 2010a, p.57).</p><p>Como um fenômeno da cultura pop (THOMPSON, 2008), o funk alcança</p><p>crianças e adolescentes desde as séries iniciais da educação básica. Esse público</p><p>é consumidor assertivo de um sistema midiatizado que induz gostos e com-</p><p>portamentos imbricados a músicas, filmes, danças, seriados televisivos, criando</p><p>agrupamentos de “homogeneização” coletiva. Tais agrupamentos se colocam no</p><p>centro dos processos de convergência massificada pelo consumismo de ideias e</p><p>padrões em escala global.</p><p>Canclini (2008) defende que vivemos numa época em que as empresas não</p><p>5 Para Carl Gustav Jung, os arquétipos personificam as diversas qualidades humanas sugerindo as nuances compor-</p><p>tamentais. Na verdade, são modelos ou simulacros de imagens psíquicas que se tornam conhecidas no imaginário</p><p>coletivo a partir dos simbolismos e representações das culturas.</p><p>101</p><p>fabricam apenas bens úteis, mas atitudes, estilos, aparências pessoais, sistemas</p><p>globalizados de teor simbólico, que aproximam e vinculam milhões de “consu-</p><p>midores” das ideias mundo afora. Tanto no cenário urbano das grandes metró-</p><p>poles, como no campo, as marcas disseminadas rompem fronteiras para tran-</p><p>sitar e unificar os grupos atuando em suas subjetividades e escolhas cotidianas.</p><p>O autor evidencia as maneiras desiguais com que os grupos se apropriam dos</p><p>bens simbólicos, hibridizando a cultura com a globalização, num processo que</p><p>Guattari e Rolnik (1996) denominam de “cultura/mercadoria”, ao ditar compor-</p><p>tamentos, sensibilidades, relações sociais, percepções e memórias.</p><p>Em face disso, as indústrias culturais articulam novas matrizes do mundo</p><p>simbólico do consumo e, no protótipo massificado, as mídias e suas manifesta-</p><p>ções inventam múltiplos modelos para replicação. Nesse cenário, as mulheres</p><p>também vão sendo moldadas a padrões estéticos que as identificam como seres</p><p>sexualizados, cujos corpos são submetidos a diversas violências simbólicas. A</p><p>imagem da “boazuda gostosa”, com curvas esculpidas e definidas, disseminada</p><p>no funk, carrega arquétipos machistas que equiparam “libertinagem” à liberdade</p><p>sexual. Tal padronização ecoa estilos e comportamentos “colonizados”, oriundos</p><p>da ordem patriarcal. O lugar da mulher na sociedade vai sendo desvirtuado nas</p><p>batidas e nas letras do funk, tornando o corpo feminino um operador simbólico</p><p>e um signo erotizado que tende a estimular o padrão das “popozudas” 6 para</p><p>reprodução coletiva. Essa dinâmica corrobora a cultura como um conjunto de</p><p>sistemas simbólicos que só pode ser entendido no plural cujas intencionalidades</p><p>prescrevem determinadas posições e maneiras de agir.</p><p>Por isso, Canevacci (2008) menciona os “fetichismos visuais”, que são</p><p>caracterizados pelas representações e simulações do corpo contemporâneo nos</p><p>interstícios interativos da sociedade. O autor considera que, nos agenciamentos</p><p>dos grupos, o corpo é visto como espaço de integração, controle, ritualização,</p><p>erotização, configurando uma superfície híbrida, mas banalizada, na qual são</p><p>forjadas dicotomias que separam o homem e a mulher, o nu e o vestido, o belo e</p><p>o feio, o atraente e o rejeitado. Nessa dinâmica, as singularidades são silenciadas</p><p>para reforçar ideias de exclusão vinculadas a gênero, beleza ou faixa etária. Nas</p><p>palavras do autor, a estética identitária aí concebida sustenta o cenário de visi-</p><p>6 Na gíria brasileira do funk, o termo significa “mulher com nádegas proeminentes”, derivado de “popô”, eufemismo</p><p>que se refere à mesma parte do corpo nos bebês através de uma linguagem infantilizada. A associação entre expres-</p><p>sões infantis e conotação sexual já revela indícios de apropriação pejorativa.</p><p>102</p><p>bilidade dos novos tempos nos quais a “liberdade” é fetiche7 e discurso nas ma-</p><p>lhas da cultura midiática. Assim, imagens, pessoas e gostos são homogeneizados</p><p>através de gírias, modismos, códigos de comportamento, linguagens, facilmente</p><p>reconhecidos, que atuam como “painel comunicacional” para a produção de có-</p><p>digos e sentidos (CANEVACCI, 2008).</p><p>No ponto de vista do funk, o “painel feminino” articula questões de gênero</p><p>ao atrelar as mulheres à imagem das “popozudas” em coreografias que “descem</p><p>até o chão”. Os consumidores do ritmo podem enxergar isso como diversão, mas</p><p>até que ponto crianças e adolescentes, ou os jovens em geral, visualizam a prer-</p><p>rogativa explícita do masculino como signo dominante em padronizações que</p><p>exploram ou vulgarizam a sexualidade? De que modo as letras e as posturas de</p><p>sensualização reforçam a conivência com o sexismo e objetificam o feminino?</p><p>Se a escola é locus de formação e construção de novas racionalidades, torna-se</p><p>pertinente adotar a problemática de gênero como caminho investigativo para</p><p>conhecer as polarizações sexuais hegemônicas insinuadas na linguagem do funk,</p><p>debatendo as associações deturpadas entre a figura feminina e a sexualidade.</p><p>Nesse universo rítmico-simbólico, cabe atentar para os modos e maneiras</p><p>de comunicação, para o verbal e o não verbal, as marcas de gestualidades, os</p><p>dizeres e os não ditos, os explícitos e os implícitos das situações circunscritas</p><p>e propostas nas músicas atentando para os seus significados. Corrobora Louro</p><p>(2010a) que a linguagem é o campo mais eficaz e persistente para a instituição</p><p>das desigualdades e distinções de gênero: “A linguagem não apenas expressa</p><p>relações, poderes, lugares; ela os institui. Ela não apenas veicula, mas produz e</p><p>pretende fixar diferenças culturais” (LOURO, 2010a, p.58).</p><p>Sob essa linha de pensamento, a ideia é aproximar a escola desse debate,</p><p>incentivando reflexões e leituras que avaliem até que ponto a linguagem do funk</p><p>reproduz a historicidade patriarcal e seus reducionismos. Para, dessa forma,</p><p>criar condições pedagógicas e didáticas que materializem o</p><p>ou nas comissões. Geralmente não con-</p><p>seguem assumir lideranças partidárias e nem maior destaque da imprensa. São</p><p>figuras que também não são lembradas habitualmente na indicação de cargos no</p><p>Governo Federal. Dito de outro modo, o baixo clero possui capital político re-</p><p>duzido, para adotarmos um conceito de Bourdieu (1987), e ocupa um lugar pe-</p><p>riférico no campo político. Assim era visto Bolsonaro até 2015, quando começa</p><p>1 Professor da Universidade Estadual da Paraíba, Doutor em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em</p><p>Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande - PPGCS/UFCG. Membro do Grupo de Pesquisa do</p><p>CNPq: Antropologia da Política: Cultura Midiática e Práticas Políticas e Membro do Laboratório de Cultura, Mídia</p><p>e Política – LECMIPO, da UFCG. E-mail: rostandmelo@gmail.com</p><p>12</p><p>a ganhar destaque por suas falas polêmicas e pelo posicionamento conservador,</p><p>aproveitando-se da crise de popularidade da então presidente Dilma Rousseff,</p><p>do Partido dos Trabalhadores (PT).</p><p>Os processos que sofreu devido à repercussão das falas consideradas ma-</p><p>chistas, racistas e “politicamente incorretas” geravam polêmicas na mídia con-</p><p>vencional, mas conferiam visibilidade ao político até então inexpressivo. Pro-</p><p>gramas populares ou de humor, como SuperPop da RedeTV e CQC da Rede</p><p>Bandeirantes, cederam espaço ao deputado enquanto personagem caricato e</p><p>controverso. Na TV, chegou a afirmar que não empregaria uma mulher com o</p><p>mesmo salário de um homem com a ressalva, “mas tem mulher que é competen-</p><p>te”. Chegou a classificar como “promiscuidade” a relação amorosa entre brancos</p><p>e negros ao ser questionado pela cantora Preta Gil sobre sua reação se desco-</p><p>brisse que um filho seu se apaixonou por uma mulher negra. Em entrevista à</p><p>revista Playboy, em junho de 2011, ganhou destaque com frases como “Vizinho</p><p>gay desvaloriza o imóvel” e “prefiro que um filho meu morra num acidente do</p><p>que apareça com um bigodudo por aí” 2.</p><p>As falas machistas, racistas e homofóbicas eram apresentadas como algo</p><p>grotesco, mas se encaixavam nas demandas por espetacularização do entreteni-</p><p>mento televisivo. Mesmo apresentadas como chocantes e risíveis, essas aparições</p><p>conferiam visibilidade, num fenômeno que podemos compreender a partir da</p><p>relação entre mídia e populismo, como explica Prior (2019, p.133) ao defender</p><p>que figuras populistas encontram cobertura mais simpática junto a veículos de</p><p>comunicação propensos ao que chama de “infoentretenimento”:</p><p>Os meios de comunicação tendem a dar cobertura noticiosa a tudo</p><p>aquilo que represente uma certa ruptura com a regularidade do quo-</p><p>tidiano e as mensagens populistas, emotivas e disruptivas, desafiam</p><p>o status quo e a ordem pré-estabelecida (...) as mensagens populistas</p><p>acabam por merecer ampla cobertura dos meios de comunicação, ati-</p><p>vando uma das suas funções sociais mais relevantes, a vigilância sis-</p><p>témica. Deste modo, os media servem de palco privilegiado para os</p><p>movimentos populistas.</p><p>Paradoxalmente, as falas provocadoras e agressivas, para se dizer o míni-</p><p>mo, começaram a atrair seguidores nos perfis vinculados diretamente ou indi-</p><p>2 Um levantamento das frases polêmicas ditas por Bolsonaro no decorrer da carreira política foi realizado pelo</p><p>jornal Folha de São Paulo e divulgado no dia da divulgação do resultado da eleição, em 28 de outubro de 2018. Dis-</p><p>ponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/relembre-frases-polemicas-de-jair-bolsonaro.shtml>.</p><p>13</p><p>retamente a Bolsonaro. Passou a ser chamado de ‘mito’ e se tornou um nome</p><p>lembrado pelo eleitorado antipetista no contexto das manifestações que pediam</p><p>o impeachment e da repercussão da Operação Lava-Jato3. Coincidência ou não,</p><p>Bolsonaro seguia um dos lemas do consultor político norte-americano Roger</p><p>Stone, que atua desde os anos 1960 com o partido Republicano e foi um dos</p><p>responsáveis pela construção da imagem pública de Donald Trump na campa-</p><p>nha para a presidência: “a atual política de desmoralização é essencial para ser</p><p>notado. Você tem que ser ultrajante para ser notado”. Stone é considerado um</p><p>dos pioneiros da propaganda de campanha negativa. “É melhor ser infame do</p><p>que não ter fama nenhuma”, defende4.</p><p>Mesmo com maior visibilidade, Bolsonaro chegou em 2018 com vários ele-</p><p>mentos desfavoráveis. Não pertencia à uma legenda” forte, disputando a presi-</p><p>dência pelo até então inexpressivo Partido Social Liberal (PSL). Também não</p><p>atraiu grandes partidos para sua coligação, que contou apenas com mais uma</p><p>legenda, o Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), do seu candidato</p><p>a vice, General Hamilton Mourão. Sem partidos expressivos na composição da</p><p>Câmara dos Deputados5, Bolsonaro obteve apenas oito segundos no tempo de</p><p>Guia Eleitoral no Horário de Propaganda Eleitoral Gratuita (HPEG) no primei-</p><p>ro turno e onze inserções nos intervalos comerciais. Para fins de comparação, o</p><p>candidato com mais tempo de programa no rádio e na TV foi Geraldo Alckmin,</p><p>do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) com cinco minutos e 32</p><p>segundos, além de 432 inserções. Além disso, o candidato do PSL praticamente</p><p>desprezou os tradicionais debates na TV, tendo faltado aos programas na reta</p><p>final do primeiro turno e em todo o segundo turno. Bolsonaro também tinha,</p><p>pelo menos oficialmente, desvantagem nos recursos de campanha. Afirmou na</p><p>prestação de contas apresentada à Justiça Eleitoral que gastou R$2.456.215,036.</p><p>A campanha mais cara foi a de Henrique Meirelles do Movimento Democrá-</p><p>tico Brasileiro (MDB) que declarou um total de R$57.030.000,00 em despesas</p><p>no primeiro turno. Alckmin gastou R$53.350.139,97. Ambos não conseguiram</p><p>3 Investigação realizada pelo Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal (PF) a partir de março de 2014</p><p>para apurar suspeitas de corrupção em contratos envolvendo a Petrobras e outras instituições públicas. O nome</p><p>refere-se ao início das investigações, quando se identificou o uso de uma rede de postos de combustíveis e lava-jato</p><p>de veículos para movimentação de recursos ilícitos, operação conhecida como “lavagem de dinheiro”. Informações</p><p>disponíveis em: <http://www.mpf.mp.br/grandes-casos/lava-jato/entenda-o-caso>.</p><p>4 Frases extraídas do documentário “Get me Roger Stone”, de 2017, com duração de 1h41min, disponível na plata-</p><p>forma de streaming Netflix: <https://www.netflix.com/br/title/80114666></p><p>5 O tempo do Guia Eleitoral é definido de acordo com o tamanho das bancadas na Câmara Federal, considerando</p><p>os partidos que integram cada coligação.</p><p>6 Dados disponíveis em:</p><p><http://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/2018/2022802018/BR/280000614517/integra/despesas>.</p><p>14</p><p>chegar sequer ao segundo turno.</p><p>Em resumo, um candidato sem histórico de liderança política, sem apoio</p><p>de grandes legendas, sem tempo de televisão e com poucos recursos financei-</p><p>ros em comparação com os adversários (pelo menos oficialmente) conseguiu</p><p>vencer uma eleição, contra outras 12 candidaturas, adotando as mídias sociais</p><p>como plataforma prioritária de relação com o eleitorado. A vitória de Bolsonaro</p><p>passou a ser atribuída, por comentaristas políticos e pesquisadores, à influência</p><p>das redes sociais e de fenômenos correlatos como a disseminação de Fake News</p><p>nos ambientes digitais, à formação das chamadas “bolhas de opinião” e o avanço</p><p>de uma onda conservadora no Brasil e em outros países.</p><p>Adotando como pressuposto a tese da centralidade das mídias sociais na</p><p>experiência política brasileira no contexto contemporâneo, o artigo se propõe</p><p>a analisar e descrever aspectos vinculados a este tipo de espaço de interação</p><p>social mediada que se consolidaram nos últimos 10 anos, adotando o recorte do</p><p>período de 2010 a 2020. Trata-se da primeira década de uso efetivo das mídias</p><p>sociais em campanhas eleitorais brasileiras, tendo em vista que até 2009 o uso de</p><p>plataformas já existentes (a exemplo do Orkut e Facebook) era restrito por limi-</p><p>tes impostos pela legislação eleitoral. Dentro do recorte temporal delimitamos</p><p>três fenômenos inerentes à dinâmica</p><p>espaço dialógico da</p><p>formação escolar como subsídio a compreensão das singularidades do feminino</p><p>e dos estereótipos que a perpassam. Nesse intuito, as proposições buscam ilu-</p><p>minar as relações entre dinâmicas culturais, gênero e educação, estruturando-se</p><p>sob três movimentos teóricos que visam ancorar o procedimento empírico re-</p><p>latado: discussão de gênero no âmbito da educação intercultural, incursão pelo</p><p>7 Na concepção freudiana, o termo diz respeito a objetos de fantasias sexuais que provocam o desejo misturando os</p><p>limites entre imaginação e realidade ao remeter para outros contextos.</p><p>103</p><p>conceito de funk e a contextualização da atividade pedagógica para inspirar no-</p><p>vos protocolos metodológicos de apropriação do funk nos espaços educativos.</p><p>EDUCAÇÃO INTERCULTURAL: UMA LEITURA DE GÊNERO</p><p>A educação intercultural contempla tanto as particularidades como as assi-</p><p>metrias culturais da sociedade contemporânea nos espaços de sala de aula. Isso</p><p>inclui pensar as noções de gênero enquanto constructos desses dispositivos con-</p><p>siderando a multiplicidade dos diferentes discursos e representações em seus</p><p>modos de subjetivação. Guattari e Rolnik (1996) acreditam que diferentes con-</p><p>cepções de sujeito e suas formas de subjetivação são oriundos das sociedades,</p><p>que as transformam a partir das culturas e do conhecimento, criando modos de</p><p>definição de si e dos outros. Neste ambiente de constante devir, a forma como</p><p>os sistemas sociais se organizam ou se desorganizam, e que desenvolvem a alte-</p><p>ridade e a sociabilidade, produz consequências sobre a subjetividade daqueles</p><p>que constituem o espaço de convivência. É nesse espaço que os estereótipos e</p><p>preconceitos encontram brechas para circular e “adjetivar” os sujeitos.</p><p>O ambiente escolar incorpora essas subjetividades, vivências, singularida-</p><p>des. Portanto, no espaço escolar o debate sobre culturas diversas pode aproxi-</p><p>mar os sujeitos educativos e auxiliar a compreensão do mundo. Canclini (2006)</p><p>propõe que a interculturalidade solicita dos ambientes educativos a análise das</p><p>transformações identitárias e dos hibridismos, a fim de ser possível criar “for-</p><p>mas de situar-se em meio à heterogeneidade social” (CANCLINI, 2006, p.26).</p><p>Desse modo, a escola se interpõe como locus propício à interação de culturas</p><p>favorecendo aprendizagens sobre o diverso e as diferenças. O funk é uma das</p><p>manifestações culturais que podem migrar para a ambiência educativa como</p><p>ponto de partida para a reflexão sobre as miscigenações e intercâmbios sociais,</p><p>uma vez que nessa superfície, oriunda das periferias, notamos sistemas ambiva-</p><p>lentes de representação e significados.</p><p>Orofino (2002) também argumenta a favor de práticas de intervenção educa-</p><p>tiva que problematizem o caráter multicultural das sociedades contemporâneas</p><p>e de suas subjetivações a fim de ser possível identificar os espaços intersticiais</p><p>que, efetivamente, constituem as novas identidades (individuais e coletivas), e</p><p>que atuam nas suas reconfigurações, na construção dos simbolismos, na trans-</p><p>formação de comportamentos. Portanto, pensar a interculturalidade pressupõe</p><p>104</p><p>ensaiar mediações escolares e enfoques teórico-pedagógicos que acionem uma</p><p>observação crítica das diversas culturas e suas manifestações, a fim de conhecer</p><p>seus impactos na vida coletiva.</p><p>Moreira e Candau (2016) postulam que a reprodução e o consumo dos</p><p>conteúdos, sobretudo difundidos pela mídia e seus suportes, se imbricam dire-</p><p>tamente as nossas maneiras de conceber as culturas e de assimilar suas transfor-</p><p>mações. Daí ser necessário propor esse debate nos ambientes educativos, “para</p><p>viabilizar o exame das questões sociais de gênero e dos ‘diferentes’, pois não se</p><p>pode conceber experiências pedagógicas desculturizadas” (MOREIRA; CAN-</p><p>DAU, 2016, p.13).</p><p>O funk é definido por aspectos de irreverência e polêmica que talvez</p><p>justifiquem seu poder atrativo entre a juventude8, segmento que tende a ser cap-</p><p>turado pelas armadilhas da comunicação global. Entretanto, Thompson (2008)</p><p>acredita que a recepção dos simbolismos culturais, entre os jovens, requer a in-</p><p>terpretação de seus desdobramentos pela “formação do eu”. No grupo juvenil,</p><p>ritmos se expandem rapidamente; cruzam barreiras do campo e da cidade, uni-</p><p>ficando gostos e conexões, confundindo as individualidades, que se mesclam</p><p>aos padrões coletivos. Mas o autor salienta que a apropriação das mídias “é tam-</p><p>bém um fenômeno ‘localizado’, pois envolve indivíduos específicos, que contam</p><p>com os recursos que lhes são disponíveis para dar sentido às mensagens e incor-</p><p>porá-las em suas vidas” (THOMPSON, 2008, p. 155).</p><p>Tal visão é compartilhada por Orofino (2002), que julga ser urgente exami-</p><p>nar os padrões circulantes e as apropriações culturais, considerando os contextos</p><p>sócio-históricos e as especificidades dos sujeitos, a fim de romper invisibilidades</p><p>e a passividade reprodutiva de comportamentos. Para isso, é fundamental inves-</p><p>tir em formação e em capacitação crítica no espaço escolar. Nesses termos, cabe</p><p>debater na escola não somente o papel das indústrias culturais e de seus dispo-</p><p>sitivos, mas avaliar, em sintonia com as novas gerações, os cenários da recepção</p><p>e do consumo, propondo “ações educativas em que os sentidos dominantes das</p><p>mensagens veiculadas pelos sistemas mercantis de produção da cultura podem</p><p>efetivamente ser subvertidos e ressignificados” (OROFINO, 2002, p. 2).</p><p>Moreira e Candau (2016) dizem que se determinados sentidos são constru-</p><p>8 Não é nossa intenção explorar a categoria juventude nem os sentidos de ser jovem, cabendo informar que, neste</p><p>texto, o termo alude a sujeitos adolescentes, em processos de formação escolar, e mais vulneráveis às influências da</p><p>indústria cultural que, segundo Hall (2004), é marcada pelo intenso consumo de imagens, bens e tendências para</p><p>fins comerciais em larga escala.</p><p>105</p><p>ções ou foram aprendidos socialmente, também podem ser refeitos e reinven-</p><p>tados na escola. Por isso, os educadores têm importante papel na inserção de</p><p>relações interculturais na sala de aula a fim de compreender suas imbricações.</p><p>Assim, discutir o funk em suas abordagens de gênero implica convocar a escola</p><p>para novos enfrentamentos. No raciocínio de Louro (2000), o primeiro deles</p><p>aponta que a sexualidade não é apenas uma questão pessoal, mas é social e po-</p><p>lítica. O segundo, remete ao fato de que a sexualidade é “aprendida”, ou seja, é</p><p>construída, ao longo de toda a vida, por todos os sujeitos. O maior desafio recai</p><p>na construção da identidade feminina: “os corpos ganham sentido socialmente.</p><p>A inscrição dos gêneros, feminino ou masculino, nos corpos é feita, sempre, no</p><p>contexto de uma determinada cultura e, portanto, com as marcas dessa cultura”</p><p>(LOURO, 2000, p.06). São, portanto, as variáveis culturais e suas inscrições co-</p><p>letivas que precisam permear o debate de gênero na escola.</p><p>Nas ponderações de Fleury (2002), a educação intercultural pode incorpo-</p><p>rar as temáticas de gênero para avaliar a inculcação das relações de dominação</p><p>e naturalização do feminino, visando promover experiências de alteridade em</p><p>que o confronto e o conflito entre sexos permitam novos aprendizados e o cres-</p><p>cimento dos sujeitos no conhecimento do outro.</p><p>O autor propõe a renovação curricular nesse sentido a partir de alguns ca-</p><p>minhos: a) planejamento do princípio da igualdade, no qual os sujeitos e as</p><p>expressões populares sejam vistos pelo menos como “possibilidades próximas”</p><p>de contribuição à escola, enquanto fontes de diferentes aprendizagens da rea-</p><p>lidade do mundo; b) adoção de técnicas e de instrumentos multimodais, na</p><p>qual se reconheça o viés interdisciplinar necessário aos recursos educativos em</p><p>suas relações com os diversos produtos culturais; c) formação e requalificação</p><p>dos educadores, para a superação de estratégias e metodologias monoculturais,</p><p>decorrentes de visões etnocêntricas, que rechaçam novas possibilidades de me-</p><p>diação pedagógica.</p><p>Dessa maneira, observar o “local da cultura” (BHABHA, 2005) é essencial à</p><p>construção de novos aprendizados. Isso inclui trazer para a realidade educativa a</p><p>subjetividade de outras fontes, para além dos livros didáticos, e estimular trânsi-</p><p>tos culturais: aprender com músicas, filmes, poesias, teatro e outros dispositivos</p><p>que trazem a vida cotidiana para o espaço escolar. Em síntese, unir e aproximar,</p><p>conectar partes, distinguir sem fragmentar o diverso, “estabelecer a unidade do</p><p>conjunto e a diversidade de elementos que o constitui” (FLEURY, 2002, p.142).</p><p>106</p><p>Para tanto, há que se trabalhar as questões de gênero na educação por dife-</p><p>rentes estudos de linguagem, para além das disciplinas, porque estes não desig-</p><p>nam apenas as palavras e suas etimologias, mas nos permitem chamar atenção</p><p>para os sistemas históricos e culturais de significação da língua, dos seus usos</p><p>e intenções de comunicação – das ordens simbólicas – que precedem o domí-</p><p>nio real da fala, da leitura e da escrita com seus arranjos de intencionalidades.</p><p>Nas letras do funk, a sexualidade se impõe como mecanismo de mediação para</p><p>o arquétipo da mulher-objeto. A escola é, assim, convocada a refletir sobre os</p><p>tensionamentos de gênero aí mobilizados, uma vez que esses representam for-</p><p>mas primárias de dar sentido às relações de poder entre os sexos. Identificar as</p><p>incidências de discursos sexistas nos artefatos culturais constitui, portanto, um</p><p>importante passo para fomentar novos modos de pensamento.</p><p>PRESSUPOSTOS DE UMA CULTURA TRANSGRESSORA</p><p>O ritmo teve origem nos Estados Unidos, entrelaçado a outros estilos mu-</p><p>sicais na década de 30/40, com a migração dos negros para a área urbana. Do</p><p>rhythm and blues ao rock e soul, tornou-se um movimento de luta por direitos</p><p>civis dos negros norte-americanos, que assumiu, posteriormente, um cunho co-</p><p>mercial passando a se denominar de funky, incorporando, também, entre os</p><p>adeptos, um estilo particular de personalidade e de vestuário, acompanhado por</p><p>uma batida rítmica mais pesada, que foi chamada de “funk”.</p><p>No contexto nacional, nasceu na zona sul carioca. Vianna (1995) declara</p><p>que “os Bailes da Pesada, como eram chamadas as festas domingueiras no Ca-</p><p>necão, atraíam cerca de 5 mil dançarinos de todos os bairros cariocas, tanto da</p><p>Zona Sul quanto da Zona Norte” (VIANNA,1995, p.13). Aos poucos, ganhou as</p><p>periferias e, como é característico da cultura, foi se moldando de acordo com</p><p>o contexto social vivenciado pelos sujeitos, adentrando em todas as camadas</p><p>sociais e rompendo as fronteiras das favelas.</p><p>Como explica Herschmann (2005), a musicalidade do funk já apresenta</p><p>uma atmosfera de aculturação envolta por estigmas e preconceitos ao divergir</p><p>de padrões morais e socialmente aceitáveis. As primeiras definições em dicio-</p><p>nários apontam o caráter transgressor do vocábulo que é atrelado a significados</p><p>ambíguos como medo, susto, pavor, pânico e terror. Tais conotações expandi-</p><p>ram visões negativas trazendo percepções de algo nocivo, periférico, construído</p><p>107</p><p>à margem de uma suposta população bem sucedida e erudita. Na verdade, a</p><p>vinculação do funk às camadas desfavorecidas originou-se nos primeiros bailes</p><p>violentos com tumultos e arrastões que “tocavam o terror”. Isso, consequente-</p><p>mente, demonizou a cultura do funk e a imagem dos funkeiros, indivíduos que se</p><p>tornaram marginalizados pela opinião pública em função dessas representações.</p><p>Fischer (2003) explicita que a ação de representar é uma das instân-</p><p>cias de produção discursiva dos significados culturais. Estes se dão a conhecer</p><p>através de signos referentes a objetos, pessoas, sentimentos, fantasias, sonhos</p><p>ou desejos da coletividade. Tais signos, elucida Canclini (2006), se atrelam à</p><p>construção de valores, à cristalização de conceitos e preconceitos, à formação</p><p>do senso comum e à constituição das identidades sociais. Desse modo, a ação de</p><p>representar, pela via da linguagem, dá vida ao fenômeno da aculturação, pois,</p><p>através dela, em processos de transmissão social, o senso comum reproduz e</p><p>legitima determinadas subjetividades.</p><p>À luz de Bhabha (2005) o funk pode ser pensado como uma “prática cultu-</p><p>ral enunciativa”, que simboliza determinados valores e específicas temporalida-</p><p>des históricas. Portanto, neste texto, é tratado como espaço narrativo de sentidos</p><p>de gênero, um ethos discursivo híbrido (BHABHA, 2005), atrelado a significa-</p><p>dos construídos na e pela sociedade. Desse modo, não há qualquer intenção</p><p>em “tiranizar” a cultura do funk; apenas mostrar que determinadas músicas9</p><p>evocam discriminações de gênero.</p><p>Para Sodré (2014) os ritmos guardam em si uma dinâmica etnomusical que</p><p>realimenta a potência existencial dos grupos: “é uma modalidade do movimento</p><p>investida pelo fluxo temporal, portanto um esquema cíclico de transformação e</p><p>reprodução das culturas” (SODRÉ, 2014, p.10). O autor identifica uma configu-</p><p>ração simbólica que, conjugada à dança, constitui ela própria um contexto, uma</p><p>espécie de “lugar”, ou de cenário sinestésico e sinergético, onde ritualisticamente</p><p>algo acontece, criando práticas de sociabilidade entre a juventude. É por meio</p><p>do som e da movimentação corporal que o grupo jovem “reelabora simbolica-</p><p>mente o espaço cultural, na medida em que modifica, ainda que momentanea-</p><p>mente, as hierarquias territoriais, estimulando o poder expressivo do corpo até</p><p>o ponto de produção de imagens próprias de ‘liberação’” (SODRÉ, 2014, p.10).</p><p>9 O funk também é espaço de enunciação para as desigualdades sociais e periféricas, quando, por exemplo, é veículo</p><p>das causas do movimento negro nas lutas por justiça social. Ao dar voz às minorias cumpre importante função</p><p>democrática. Tal aspecto chama a atenção para a intencionalidade que permeia os produtos culturais e suas ex-</p><p>pressões.</p><p>108</p><p>Contudo, também é oportuno lembrar que a própria dança, como um pres-</p><p>suposto do funk, se entrelaça a questões de gênero. Canclini (2006) a percebe</p><p>como uma produção (e um processo) cultural onde se atravessam lutas políticas</p><p>em torno dos muitos significados que os diferentes discursos e representações</p><p>inscrevem nos corpos humanos. Como consequência, a dança opera, ao lado de</p><p>muitas outras práticas de ritualização dos usos cotidianos do corpo, como uma</p><p>“pedagogia cultural de gênero”, por meio da qual observamos diferentes ma-</p><p>neiras de usar o corpo entre homens e mulheres. Na sociedade existem noções</p><p>equivocadas que circulam em frases como “mulher pode rebolar; homem, não”.</p><p>Para Louro (2010b), essas referências posicionam os sujeitos em lugares sociais</p><p>específicos, por meio da construção de diferentes “marcas” corporais aceitas e</p><p>propagadas.</p><p>O espetáculo do funk acontece por meio das performances de artistas,</p><p>tanto femininos como masculinos, conhecidos como MCs10, protagonistas</p><p>performáticos que instituem práticas de sociabilidades com o público durante</p><p>os bailes e as audições. Tanto os cantores como os compositores são minorias</p><p>com identidades transitórias, pois tendem a expor estratégias de reinvenção e</p><p>reinserção social na busca de espaço e visibilidade midiática. Esse marcador</p><p>identitário nos aproxima do pensamento de Hall (2004), que discute a inexistên-</p><p>cia de identidades puras ou permanentes na contemporaneidade, acenando para</p><p>a falta de estabilidade do sujeito social, que é múltiplo, deslocado e descentrado</p><p>(re) criando novos “regimes de pertença” (CANCLINI, 2006) de acordo com as</p><p>imposições culturais massificadas.</p><p>PISTAS PARA A COMPREENSÃO DE GÊNERO</p><p>Quais são as concepções culturais de gênero? Bourdieu (2009) aborda</p><p>a dominação simbólica entre os sexos traçando a gênese do habitus feminino,</p><p>entendendo-o como “um ser-percebido, incessantemente exposto à objetivação</p><p>operada pelo olhar e pelo discurso dos outros” (BOURDIEU, 2009, p.79). As-</p><p>sim, a categoria solicita uma perspectiva relacional, uma vez que é naturalizada</p><p>pelas visões da sociedade. As impressões acerca do social</p><p>e de seus elementos</p><p>de configuração surgem desde o nascimento dos sujeitos, e vão influenciar suas</p><p>10 MC (Mestre de Cerimônia) é o artista que canta suas composições ou improvisações a fim de comandar os bailes</p><p>agitando a “galera”. Esse termo, por sua vez, surgiu em referência aos moradores dos morros cariocas que compare-</p><p>ciam em massa aos primeiros “pancadões”: festas com som ensurdecedor que misturavam funk e hip-hop.</p><p>109</p><p>percepções da cultura, bem como os simbolismos e os signos que configuram as</p><p>práticas esperadas, consideradas “normais” entre os sexos, tanto para meninos</p><p>como para meninas, fundamentando as representações correntes sobre homens</p><p>e mulheres.</p><p>Muraro e Boff (2002) clarificam que a diferença entre os sexos, enquanto</p><p>matriz conceitual é, historicamente, interpretada como desigualdade, gerando</p><p>uma distorção que tornou a mulher subordinada ao homem, como se perten-</p><p>cesse à esfera dos bens que este possui. Essa objetificação a situou como pro-</p><p>priedade masculina desvirtuando sua alteridade. Nesses termos, a equidade de</p><p>gêneros requer a formação de uma racionalidade que não naturalize qualquer</p><p>tipo de exploração.</p><p>Acerca disso, Louro (2010b) rememora a pertinente afirmação de Simone</p><p>de Beauvoir sobre “se tornar” mulher, pois o “ser” mulher não é assegurado pelo</p><p>nascimento e nem pela biologia. Tal compreensão resulta de uma ótica cons-</p><p>trucionista, que surgiu em 1949, tornando-se, portanto, antecipadora da onda</p><p>feminista dos anos 1960 a favor das liberdades de gênero. Há, nessa perspectiva,</p><p>a ideia de processo, um fazer em curso, supondo a construção de um sujeito</p><p>feminino ou, como se diria mais tarde, de um sujeito de gênero.</p><p>A autora assinala que “os processos de construção podem ser (e efetivamen-</p><p>te são) distintos, mas lidar com o conceito de gênero significa colocar-se con-</p><p>tra a naturalização do feminino e, obviamente, do masculino” (LOURO, 2010b,</p><p>p.207). As identidades moldadas de acordo com determinados padrões não são</p><p>estáveis, mas transitórias, como ratifica Hall (2004). Em virtude do movimento e</p><p>das transições, as instituições e as práticas sociais são constituídas pelos gêneros</p><p>e também constituintes dos gêneros. O conceito aglutina uma dinâmica cultural</p><p>complexa que tem forte apelo relacional, pois é no campo das relações sociais</p><p>que os papéis desiguais são forjados e disseminados.</p><p>Scott (1995) propõe que as teorias do patriarcado originam a subordinação</p><p>das mulheres a partir da “necessidade” do domínio masculino. Nessas teorias,</p><p>os corpos femininos basicamente se vinculam à reprodução da espécie. A visão</p><p>objetificada do feminino nega a escolha da sexualidade e se origina, apenas, do</p><p>ideal social da procriação, aquele em que as mulheres são vistas como “seres</p><p>maternos” assexuados: “A objetificação sexual é o processo primário de sujeição</p><p>das mulheres. Ela liga o ato com a palavra, a construção com a expressão, a per-</p><p>cepção com a efetivação, o mito com a realidade” (SCOTT, 1995, p.77).</p><p>110</p><p>Já Bourdieu (2009) recupera as razões históricas do conceito, em termos</p><p>de dominação e controle, que originam a hegemonia masculina. No passado, a</p><p>posição da mulher enquanto inferior ao homem sustentou-se por três instâncias</p><p>sociais: a família, a igreja e a escola. À família cabia a função de (re) produzir</p><p>a visão androcêntrica para manter viva a dominação masculina. O eco dessas</p><p>ideias motivou posturas machistas e opressoras com o aval da própria socieda-</p><p>de, que as reproduziu entre as gerações.</p><p>A igreja, por sua vez, legitimou a autoridade masculina no seio das famí-</p><p>lias, traduzindo o dogma da inferioridade das mulheres na mística simbólica</p><p>dos textos sagrados. E, por último, a escola propagou a divisão dos papéis para</p><p>cada gênero, disciplinando homens e mulheres para fortalecer a lógica do sis-</p><p>tema patriarcal. Assim, às mulheres foram dadas as tarefas de cuidar e educar;</p><p>aos homens, o papel dominante do provedor e a analogia sexual do “predador”,</p><p>autorizados a burlar a ordem social com comportamentos desviantes, porém</p><p>aceitáveis e estimulados, em função da condição de “machos”, conservando viva</p><p>a desigualdade pelo ideal da submissão feminina.</p><p>Uma leitura dessa construção histórica tende a ser cristalizada no universo</p><p>do funk ao naturalizar o estereótipo da virilidade masculina, reforçando a apo-</p><p>logia assimétrica, na qual o homem exerce poder sobre uma mulher submissa,</p><p>transformada num troféu para sua ostentação. Todavia, como interpelar as co-</p><p>notações sexistas do funk na sala de aula, confrontando-as, a fim de inspirar</p><p>outras redes de significação sobre o feminino?</p><p>O FUNK NA INSTÂNCIA ESCOLAR: METODOLOGIA DE UMA EXPE-</p><p>RIÊNCIA PEDAGÓGICA</p><p>A título de uma investigação prévia e pragmática sobre o funk, relatamos</p><p>uma experiência pedagógica realizada em 2015, que articulou a participação de</p><p>crianças e adolescentes, entre 10 e 14 anos11, matriculados no 5º ano do Ensino</p><p>Fundamental da Escola Municipal Ubirajá Targino Botto, localizada no Bairro</p><p>Cristo Redentor, em João Pessoa, capital da Paraíba. A intenção foi incentivar a</p><p>turma a discernir a respeito da figura feminina que é retratada nas letras indi-</p><p>cadas para estudo, assim denominadas: “Bom Bum” e “Ela quer pau”, dos MC’s</p><p>Gui e Pikachu, respectivamente.</p><p>11 A distorção série-idade é recorrente nas instituições públicas de ensino.</p><p>111</p><p>A sequência didática visou potencializar a aprendizagem sobre os senti-</p><p>dos da linguagem como prática social. No percurso pedagógico, abordamos a</p><p>rápida disseminação da cultura do funk entre os jovens, chamando atenção para</p><p>o teor de algumas músicas que em nada parecem contribuir para a construção</p><p>da identidade feminina. De uma turma de 19 alunos, 15 participaram da ativi-</p><p>dade proposta (7 meninos e 8 meninas). A metodologia considerou, a princípio,</p><p>a aplicabilidade didática para a Língua Portuguesa12 num desdobramento da</p><p>unidade em curso demarcada pela estrutura curricular.</p><p>Para tanto, sugerimos a organização de um grupo focal na biblioteca da</p><p>escola. O espaço foi escolhido por ser mais afastado das salas, o que evitaria</p><p>barulhos externos ou interferências de outros estudantes no decorrer de uma</p><p>atividade que teria a audição como premissa de aprendizagem. Martín-Barbero</p><p>(2009) salienta que o procedimento do grupo focal possibilita um “reordena-</p><p>mento dos sentidos das culturas”, auxiliando a compreensão das narrativas, se-</p><p>jam orais, sejam escritas. O contato com os participantes favorece as mediações</p><p>de significados e as novas leituras indicam os “usos sociais” compartilhados nas</p><p>interlocuções.</p><p>Para Costa (2005) trata-se de uma ferramenta de pesquisa qualitativa e em-</p><p>pírica que “auxilia a identificar temáticas, tendências e o foco dos fenômenos;</p><p>a desvendar problemas, ampliando a consciência do que se investiga” (COSTA,</p><p>2005, p.180). Seu uso na escola é propício para promover o diálogo com o tema</p><p>estudado. Nesse intuito, a mediação docente focalizou a temática de gênero, pri-</p><p>vilegiando o enfoque de seus aspectos sociohistóricos, acrescidos de conside-</p><p>rações sobre os trânsitos e as mediações das culturas num mundo globalizado.</p><p>Tendo em vista a caracterização teórico-metodológica definida, a articula-</p><p>ção do grupo focal obedeceu aos seguintes critérios:</p><p>a) O planejamento - definição do ambiente para a atividade e a preparação</p><p>do roteiro de questões a ser encaminhado ao grupo a fim de orientar a discussão</p><p>temática, após a explicação dos propósitos do estudo. Apontamos as caracterís-</p><p>ticas do funk, destacamos sua rápida disseminação entre os jovens e solicitamos</p><p>que, ao final, os alunos construíssem e registrassem seus significados. Contex-</p><p>12 A proposta integra a pesquisa da Especialização em Gênero e Diversidade na Escola (NIPAM/UFPB) que é apro-</p><p>fundada, hoje, no Mestrado em Formação de Professores. A inserção da metodologia também ocorreu na disciplina</p><p>de História uma vez que a aplicabilidade do funk sinaliza uma configuração</p><p>curricular aberta à interdisciplinari-</p><p>dade de saberes e flexível a séries escolares, avaliando-se as condições cognitivas dos participantes em relação às</p><p>músicas selecionadas para análise.</p><p>112</p><p>tualizamos algumas questões de gênero e indagamos à turma como, no seu en-</p><p>tendimento, a sociedade trata o masculino e o feminino. Na sequência, foram</p><p>apresentadas as expectativas de aprendizagem e os critérios de avaliação; b) A</p><p>definição dos participantes - a atividade foi direcionada para alunos do 5ª ano</p><p>do Ensino Fundamental; c) A organização do roteiro-base - seleção e apresen-</p><p>tação dos questionamentos que nortearam o processo de interlocução; d) A rea-</p><p>lização da reunião - o grupo foi reunido em dia e hora previamente agendados,</p><p>posicionado em círculo para favorecer a discussão temática, a audição das mú-</p><p>sicas, bem como anotações ou observações sobre o repertório em análise. Por</p><p>fim, foi sugerida a gravação do debate de forma a promover encaminhamentos</p><p>e novos desdobramentos acerca do trabalho realizado.</p><p>A priori, a análise foi pensada a partir de letras que somente “insinuavam”</p><p>o erotismo13. Mas quando essas foram apresentadas ao grupo, os alunos disse-</p><p>ram: “-Não tia, essa não! Boa é essa daqui!” Embora as preferências por outras</p><p>músicas não tenham sido aprofundadas, tornou-se evidente a opção da turma</p><p>por sucessos do momento. A primeira música foi, então, tocada no celular. Na</p><p>sequência, os alunos indicaram a segunda. Ao mesmo tempo em que as escolhi-</p><p>das provocaram os primeiros constrangimentos de nossa parte, em função do</p><p>teor chulo e malicioso dos vocabulários, reconhecemos que a intervenção do</p><p>grupo na definição das músicas para estudo mostrou-se relevante, porque faria</p><p>mais sentido mediar suas interlocuções a partir de conteúdos já conhecidos no</p><p>cotidiano, mas que ainda não tinham sido “refletidos”, ainda que os conteúdos</p><p>suscitassem desconforto.14</p><p>Observamos que 09 entre 10 músicas, ou seja, 90% da playlist dos parti-</p><p>cipantes, era composta por funk. E, nessas, ficou nítido o cunho sexista, pois</p><p>todas mencionavam práticas sexuais em que a mulher é situada como objeto de</p><p>satisfação do homem. Parece-nos que a opção pelo funk além de apontar prefe-</p><p>rência evidencia a adultização precoce em função da empatia dos adolescentes</p><p>por letras e performances extremamente apelativas à sexualidade. No funk, em</p><p>particular, a afinidade parece minimizar os constrangimentos dos jovens com as</p><p>coreografias ou com os palavrões relativos ao sexo. São termos que, socialmente,</p><p>eram apenas pronunciados por adultos, e, ainda assim, instrumentos de uma</p><p>13 Que apresentam menos referências a práticas sexuais ou termos pornográficos, a exemplo das músicas: Ela quer</p><p>(MC Gui) e Favorável (MC Romeu).</p><p>14 Não há qualquer intenção “moralista” por traz desse comentário; apenas a observação de que o repertório nos</p><p>causa incômodo pelos termos que propaga.</p><p>113</p><p>linguagem entendida como “transgressora” nos espaços públicos.</p><p>Sarmento e Pinto (2004) informam que o fenômeno de antecipação de ma-</p><p>turidade conhecido como “adultização” consiste numa mudança de sentidos que</p><p>se traduz na aceleração ou superação da vida infanto-juvenil. Costuma decorrer</p><p>da comunicação persuasiva e dos diversos produtos midiáticos destinados ao</p><p>público adulto cujo acesso alcança crianças e adolescentes. Já que o trânsito da</p><p>identificação cultural é alimentado por hábitos de consumo, as consequências</p><p>desses processos estimulantes são, segundo os autores, percebidas no aumento</p><p>da criminalidade infantil, no consumo de drogas, na discussão da diminuição</p><p>da menoridade penal e na erotização precoce que, muitas vezes, evolui para ca-</p><p>sos de gravidez na adolescência. Produtos como perfumes, maquiagem, sutiãs</p><p>e saltos altos eram representações do mundo adulto feminino. Hoje, algumas</p><p>meninas logo cedo abandonam a inocência de crianças, incorporando esses sig-</p><p>nos e disfarçando suas idades reais no intuito de avançar etapas para parecerem</p><p>adultas e sedutoras.</p><p>O denominado “funk ostentação”, classificação das músicas escolhidas pela</p><p>turma, é um subgênero de enquadramento da figura feminina como “disponí-</p><p>vel”, caracterizado por forte apelo sexual. As conotações de poder são polêmicas</p><p>nesse estilo, no qual coreografias provocantes simulam cenas agressivas de sexo</p><p>por movimentos corporais de dominação. As letras equiparam o conceito de gê-</p><p>nero à sexualidade ou à libertinagem. Louro (2010b) formula que a articulação</p><p>entre masculinidade e sexualidade é mais central do ponto de vista histórico,</p><p>enquanto que o feminino é atrelado à invisibilidade.</p><p>Os MCs encarnam personagens “poderosos” e exibicionistas que se envai-</p><p>decem com a fama, músculos, roupas de grife, correntes de ouro, como se fos-</p><p>sem dotes de “predadores” aptos à captura “das presas”. Os temas centrais deste</p><p>estilo, que surgiu em São Paulo, em 2008, versam sobre carros, motocicletas,</p><p>bebidas e outros objetos de valor a fim de contradizer as mensagens do precur-</p><p>sor ritmo carioca, que se referia à vida de misérias e aos sofrimentos das favelas.</p><p>No funk ostentação, há justamente a apologia da ascensão social na tentativa de</p><p>“glamourizar” os integrantes e suas posturas.</p><p>O ângulo predominante é a imagem de uma mulher submissa que com-</p><p>pactua da hierarquia masculina tentando corresponder à sedução esperada. O</p><p>modelo de homem se vangloria da capacidade de “comandar” seres inferiores. O</p><p>funk ostentação, apesar de considerado “libertário” entre seus adeptos, é repleto</p><p>114</p><p>de linguagem sexista, violenta e pornográfica. A palavra “pornografia” revela o</p><p>sentido literal de “escrever sobre prostitutas”. O prefixo porn se reporta ao ca-</p><p>ráter devasso e obsceno de filmes, vídeos, fotografias, desenhos, textos escritos</p><p>ou orais com menções explícitas a práticas de sexo que deturpam a identidade</p><p>feminina e, sobretudo, o conceito de infância.</p><p>Nas músicas para exame os sentidos previsíveis e/ou explícitos surgem atre-</p><p>lados a termos obscenos logo nos títulos, mas, ao longo das letras, esses foram</p><p>extraídos e sinalizados pelo ícone do asterisco*:</p><p>Música 1: Ela quer Pau / Mc Pikachu</p><p>Tava no fluxo, avistei a novinha no grau / Sabe o que ela quer? P*, p*, p*,</p><p>ela quer P*. / p*,p*, p*, ela quer p*. / Tava no fluxo, avistei a novinha no</p><p>grau. / Sabe o que ela quer? , p*, p*, ela quer P*. p*, p*, p*, ela quer p*./</p><p>Tava na rua, fumando um baseado chegou a minha amiga e pediu pra dar</p><p>um trago./ Eu falei assim, vamos fazer um acordo, dá a b* pra mim, o c* e</p><p>fuma o beck todo./ Dá a b* pra mim, o c* e fuma o beck todo.</p><p>Música 2: Bum Bom / Mc Gui</p><p>Tá no olhar, no jeito de andar. /A doida sabe conquistar. /Sereia do mar./</p><p>Do corpo perfeito, faz efeito a quem se atreve a olhar. /Quando ela dança,</p><p>geral quer ver./Ela quebra a banca, faz o sangue ferver. / Jeitin de malandra,</p><p>sobe e desce e alcança. / Ela mostra quem manda quero envolver./Mexe</p><p>esse bum bum pro mc gui./ Mexe esse bum, bum, bom, bom, bom[...] Teu</p><p>jeito me encanta, suave balança./Me faz perder o ar. /O tempo avança, a</p><p>noite é uma criança /Não tem hora pra acabar.</p><p>O roteiro-base do grupo focal assegurou a dinâmica dialógica da interlo-</p><p>cução a partir de oito questões15. A primeira dirigida à turma foi composta pela</p><p>seguinte indagação: “Qual o papel da mulher na sociedade?” Na segunda, quise-</p><p>mos saber “como a mulher é retratada nas músicas de funk”. A terceira foi assim</p><p>formulada: “Como vocês (meninas) se sentem ao serem retratadas assim?”. A</p><p>quarta questão indagou: “Vocês acham que a mulher é interesseira como mos-</p><p>trada nas músicas de funk?”. A quinta: “O que significa o termo “novinha”? Na</p><p>15 Buscamos adequar as perguntas à faixa etária do grupo no sentido de minimizar dificuldades de compreensão e</p><p>possibilitar rápido acesso às respostas sem produzir dispersão ou desinteresse pela atividade.</p><p>115</p><p>sexta, encaminhamos o seguinte questionamento: “Vocês acham que o funk</p><p>retrata a visão social?”. A sétima propôs:</p><p>“Meninos, vocês gostariam que essas</p><p>músicas fossem feitas para vocês? E a oitava pergunta: “Escutar essas músicas</p><p>incentiva a fazer o que elas dizem?”</p><p>As respostas são aqui resumidas e identificadas pelas iniciais dos partici-</p><p>pantes para fins de preservação de privacidade, evitando-se, desse modo, quais-</p><p>quer transtornos de ordem ética. Nossas ponderações também são sintetizadas</p><p>em razão dos limites deste texto.</p><p>Na primeira questão “Qual o papel da mulher na sociedade? as respostas</p><p>foram assim estruturadas:</p><p>Respostas Masculinas</p><p>W: Pra sofrer / C: Pra cuidar dos filhos / J: Pra lavar os panos, a casa. / T: Pra</p><p>cozinhar / D: Tomar conta dos filhos, ser dona de cada / C2: Sofrer com homem</p><p>/ J2: Pra sofrer.</p><p>Respostas Femininas</p><p>F: Pro marido cuidar dela. / A: Nasceu pra ir pro CAC16 / S: Para se divertir.</p><p>/ T: Fazer o que ela quiser / J: Ficar em casa / J: Ajudar o homem e trabalhar. / R:</p><p>Cuidar dos filhos / J2: Pra casar / D: Pra ser feliz</p><p>Os meninos expõem a compreensão da mulher como um ser à disposição</p><p>do marido e dos filhos. Nenhum se refere à mulher ativa ou inserida no mer-</p><p>cado de trabalho, como se fosse destinada a cuidar do lar. As meninas, apesar</p><p>de ensaiarem o que desejam no futuro, parecem tímidas em suas colocações</p><p>buscando, talvez, novos significados que não vivenciam em suas famílias. Suas</p><p>falas supõem redes de discursos sociais que refletem os marcadores patriarcais.</p><p>Na segunda questão, indagamos dos alunos como a mulher é retratada nas</p><p>músicas de funk, já que nelas observamos “imagens clichês”. Seguem as respos-</p><p>tas do grupo:</p><p>Respostas Masculinas</p><p>W, J, D, J2: Mexendo a bunda / C: Como uma rapariga / J: Como prostituta</p><p>/ C2: Uma sem futuro.</p><p>Respostas Femininas</p><p>F, R: Fazendo o que MC Gui manda / T: Recebendo ordem / A: Se “achano”</p><p>/ D, J: Dançando / S: Uma safada / J2: Fazendo o que ela quer.</p><p>Na proposta 3, “Como vocês (meninas) se sentem ao serem retratadas as-</p><p>16 Referência a um centro comunitário de lazer que funcionou em João Pessoa até o ano de 2018.</p><p>116</p><p>sim?”, a intenção era provocar a participação das alunas, mas alguns meninos se</p><p>posicionaram:</p><p>Respostas Masculinas</p><p>J: Tá parecendo que é pra ela se prostituir / C2: Tá mandando na mulher. /</p><p>D: Tá parecendo que é marido dela.</p><p>Respostas Femininas</p><p>F, A, S, T: Não gosto / R: No fundo do poço / J: Ninguém gosta / D: Humi-</p><p>lhada / J2: Lá em baixo.</p><p>A afirmação “tá parecendo que é marido dela” alude aos valores da socie-</p><p>dade patriarcal, que situa o homem como proprietário da mulher, autorizando</p><p>a opressão como atitude “natural” no contexto familiar. Ou seja, a resposta si-</p><p>naliza a visão corrente de que os maridos são “proprietários” das mulheres, cuja</p><p>posse é legitimada socialmente pela instituição do casamento. Também indica a</p><p>normatividade de gênero que só reconhece como legítima a heterossexualidade.</p><p>A quarta questão indagou: “Vocês acham que a mulher é interesseira como</p><p>mostrada nas músicas de funk?” Entre as ideias do grupo, aparecem as seguintes:</p><p>Respostas Masculinas</p><p>W, C, D: É nada (de forma irônica, os meninos dizem que as meninas são</p><p>interesseiras) / J: Eu tô gostando, porque os meninos têm que governar o mun-</p><p>do (Nesse momento, houve um princípio de barulho e divergências femininas,</p><p>mas a maioria concordou e padronizou as opiniões) /J2, C2, T: As mulheres só</p><p>querem o dinheiro dos home mermo.</p><p>Respostas Femininas</p><p>F, R, J: Tá acabando com a gente / A, S: Fechou com a nossa cara / T, J2, D:</p><p>Nós não somos interesseiras!</p><p>Na assertiva de um dos meninos: “As mulheres só querem o dinheiro dos</p><p>home mermo” transparece a suposta ausência da autonomia feminina sugerindo</p><p>sua dependência. O patriarcado, ao secundarizar a mulher como um ser ativo,</p><p>fortaleceu a ideia do “homem provedor”. No funk, essa imagem surge reforçada</p><p>pelo sujeito viril, envolto num paradigma de erotização, que exorta a dominação</p><p>masculina.</p><p>Na quinta pergunta, referente ao significado da expressão “novinha”, a tur-</p><p>ma tentou explicar o significado com as seguintes palavras:</p><p>Respostas Masculinas</p><p>W, C, J, T: É de menor / D, C2, J2: Menina nova, quase criança.</p><p>117</p><p>Respostas Femininas</p><p>A: É uma menina de 13 anos; é uma menina assim como F (o corpo da</p><p>menina citada apresenta sinais mais marcantes da puberdade, que nas demais</p><p>meninas). F, concordou com a afirmação / J: Tia, o pai dele disse que é melhor</p><p>ele cantando essas músicas do que fazendo coisa errada! / T: É da idade da gente.</p><p>/ R, D, J2, S: Adolescente como a gente.</p><p>Na questão 6, “Vocês acham que o funk retrata a visão social?”, obtivemos</p><p>as opiniões:</p><p>Respostas Masculinas</p><p>W, C, J: Não / T, D, C2, J2: Sei não.</p><p>Respostas Femininas</p><p>F, A, S: Acho que não, pois ninguém é obrigado a escutar, escuta por que</p><p>quer / T, J2, R, J, D: Sim.</p><p>A sétima pergunta se dirigiu ao grupo masculino: “Meninos, vocês gosta-</p><p>riam que essas músicas fossem feitas para vocês”?</p><p>Respostas Masculinas</p><p>J: Não, oxe, isso é feio, não fala nisso com a gente não! (Todos concordaram,</p><p>expressando-se num burburinho).</p><p>Na última pergunta: “Escutar essas músicas incentiva a fazer o que elas di-</p><p>zem?”, nem todos se posicionaram a respeito, como podemos verificar abaixo:</p><p>Respostas Masculinas</p><p>W, C, J, T: Sim, vai incentivar (os demais concordaram com expressões cor-</p><p>porais).</p><p>Respostas Femininas</p><p>A: Eu não vou fazer / T: Incentiva sim (as demais concordaram com expres-</p><p>sões corporais).</p><p>A discussão foi encerrada com um questionamento para além dos indica-</p><p>dos no roteiro-base: “O que você diria aos autores de funk?”. Meninos e meninas</p><p>ficaram reflexivos por poucos segundos e uma das meninas soltou uma garga-</p><p>lhada, imaginando a possibilidade de encontrar o MC para dizer pessoalmente</p><p>o que pensava.</p><p>Respostas Masculinas</p><p>C, W: Saia do Brasil, vocês são safados! / C2: Que a música não é certa e</p><p>também vai ser pior pra eles e para os outros! / T, D: Pra sair do Brasil! / J2: Ir</p><p>embora do país! /J: Pra ser processado!</p><p>118</p><p>Respostas Femininas</p><p>A, F: Eu dizia que gostava da música deles / R:Qualquer coisa pra tirar eles</p><p>do Brasil! / S: Eu dizia que gostava da música deles, “me dá um autógrafo”! (J2, J,</p><p>D, concordaram com expressões corporais e sorrisos / T: Pra eles não cantarem</p><p>mais!</p><p>Foi possível observar que os meninos, embora achem os MCs “safados”, se</p><p>sentem mais confortáveis com as músicas. Apesar de dizerem que não acham</p><p>“certas” as alusões ao sexo ou acharem que dariam “processos”, parecem se “em-</p><p>poderar” dos discursos. Sobre a afirmação de um deles: “Os meninos têm que</p><p>governar o mundo”, emergem as prerrogativas atribuídas ao sexo masculino, im-</p><p>bricadas aos modos de pensar e agir da coletividade, que alcançam a sala de aula</p><p>numa extensão do mundo social. Entre as meninas, a percepção das implicações</p><p>dos discursos machistas sobre “as novinhas” parece ocorrer, mas ainda não se</p><p>mostrou suficiente para modificar suas opções musicais. Então, seguem repro-</p><p>duzindo o teor androcêntrico do ritmo, embaladas por ideias que insinuam as</p><p>mulheres como fúteis, vaidosas ou meros objetos para ostentação masculina.</p><p>Entretanto, na escola, os sujeitos aprendentes podem ser convocados a</p><p>movimentos interpretativos que os impulsionem a se reconstituir, dando vida</p><p>a novos saberes de enfrentamento das discriminações que podem ressignificar</p><p>as subjetividades de gênero. Para Moita Lopes (2016) a percepção dos discur-</p><p>sos como construções sociais torna as pessoas corresponsáveis pela criação de</p><p>significados, o que também inclui a possibilidade de resistência às narrativas</p><p>hegemônicas. Num país socialmente desigual, colocar o foco na educação para</p><p>modificar tal cenário parece ser essencial e oportuno na conscientização das</p><p>relações de gênero.</p><p>A centralidade da mídia ajuda a replicar determinadas visões, que, como</p><p>vimos, se projetam no universo do funk. As temáticas da sexualidade, abordadas</p><p>no repertório, traduzem influências culturais, cujos sentidos precisam ser con-</p><p>textualizados na</p><p>esfera da coletividade e nas individualidades dos estudantes,</p><p>porque “a escola é uma agência importante na constituição de quem somos e</p><p>suas práticas podem legitimar outros sentidos sobre quem podemos ser, orien-</p><p>tadas por um senso de justiça social” (MOITA LOPES, 2016, p. 134).</p><p>119</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Após a análise e a discussão de gênero, a turma foi estimulada a produzir</p><p>paródias das músicas para uma exposição no mural escolar, prática que tam-</p><p>bém pode inspirar outras sequências didáticas e novos aportes metodológicos.</p><p>As versões lúdicas e criativas foram apresentadas na culminância do projeto de</p><p>leitura para a disciplina de Língua Portuguesa, ocasião em que as crianças canta-</p><p>ram e compartilharam suas aprendizagens sobre a cultura do funk, socializando</p><p>os aprendizados desta proposta interdisciplinar.</p><p>O trecho de uma das músicas “a novinha quer pau” se transformou em “ela</p><p>quer pão, pão com requeijão”, trazendo para o espaço escolar mais uma possi-</p><p>bilidade de diálogo com a diversidade cultural e a ressignificação de conteúdos</p><p>na direção de novos modos de aprender, conforme os pressupostos da Educação</p><p>Intercultural. No incentivo à percepção plural das culturas, da valorização das</p><p>diferenças e da discussão das construções identitárias, é possível potencializar</p><p>saberes e identificar a complexidade dos processos de subjetificação de gênero,</p><p>a partir do funk, problematizando pertinentes questões no espaço de sala de</p><p>aula. Isso porque a escola constitui locus de interação para práticas discursivas e</p><p>comportamentais que circulam para além dela.</p><p>Ainda que a experiência aqui relatada expresse o estágio atual de uma pes-</p><p>quisa em curso, e sujeita a novos desdobramentos, o contexto de geração de</p><p>dados sinalizou que as letras de funk difundem fetiches e estereótipos de des-</p><p>valorização das mulheres que precisam ser rompidos, por relativizarem ideias</p><p>de erotização e de sexualidade que tentam naturalizar a exploração feminina.</p><p>Portanto, a apropriação do funk na escola configura um novo quadro de refe-</p><p>rência para o exame dessa dinâmica, colaborando com o debate das apologias</p><p>sexistas resultantes dos condicionamentos sociais de gênero, a fim de subsidiar a</p><p>formação de crianças e adolescentes em seus processos identitários. Como afir-</p><p>ma Moita Lopes (2016), a linguagem é um poderoso dispositivo de construção</p><p>dos sentidos de si e dos outros em meio às negociações discursivas do mundo</p><p>sociocultural.</p><p>Não é possível interferir nas preferências dos sujeitos aprendentes, mas po-</p><p>demos chamar atenção para as implicações subjacentes as suas opções musicais</p><p>de forma a instigar seus potenciais de transformação social. Ao consumirem es-</p><p>ses ritmos, incitados pelos modismos midiáticos, adolescentes e jovens precisam</p><p>120</p><p>avaliar as subcodificações para compreender que nelas reverbera a concepção</p><p>patriarcal sobre as mulheres, entrelaçada a letras e coreografias maliciosas que</p><p>as objetificam e as inferiorizam. Assim, serão (in) formados sobre o risco da re-</p><p>produção de preconceitos e, sobretudo, conscientizados para o engajamento na</p><p>luta pela equidade entre homens e mulheres, dentro e fora do contexto escolar.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.</p><p>CANCLINI, Nestor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade.</p><p>São Paulo: EDUSP, 2006.</p><p>______. Nestor García. Latino-americanos à procura de um lugar neste século. São Paulo:</p><p>Iluminuras, 2008.</p><p>CANEVACCI, Massimo. Fetichismos visuais: corpos eróticos e metrópole comunicacional. São</p><p>Paulo: Ateliê Editorial, 2008.</p><p>COSTA, Maria Eugênia Belczac. Grupo focal. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio (Orgs).</p><p>Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação. São Paulo: Atlas, 2005.</p><p>COSTA, M. V et al. Estudos Culturais, educação e pedagogia. In: Revista Brasileira de Educa-</p><p>ção nº 23, 2003.</p><p>FISCHER, Rosa M. Televisão e educação: fluir e pensar a TV. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.</p><p>FLEURY, Reinaldo Matias. Desafios à educação intercultural no Brasil. In: FLEURY, Reinaldo</p><p>Matias (Org). Intercultura: Estudos emergentes. Rio Grande do Sul: Editora Unijuí, 2002.</p><p>GUATTARI, Felix; ROLNIK, Suely. Cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1996.</p><p>HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.</p><p>HERSCHMANN, MicaeI (Org.). Abalando os anos 90: funk e hip-hop, globalização, violência</p><p>e estilo cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.</p><p>LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes et al (Orgs). O</p><p>corpo educado. Autêntica: Belo Horizonte, 2000.</p><p>______. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes,</p><p>2010a.</p><p>______. Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo na educação. Petrópolis: Vo-</p><p>zes, 2010b.</p><p>MARTÍN-BARBERO, Jesús. Uma aventura epistemológica. Entrevistador: Maria Immacolata</p><p>Vassallo de Lopes. Matrizes. São Paulo, v.2, n.2, jul./dez. 2009.</p><p>MOITA LOPES, Luiz Paulo. Gêneros e sexualidades nas práticas discursivas contemporâneas.</p><p>In: SILVA, Antonio Pádua Dias da (Org). Identidades de gênero e práticas discursivas.</p><p>Campina Grande: EDUEPB, 2008.</p><p>______. Sexualidades em sala de aula. In: MOREIRA, Antonio Flávio; CANDAU, Vera Maria</p><p>(Orgs). Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Petrópolis: Vozes,</p><p>2016.</p><p>MOREIRA, Antonio Flávio; CANDAU, Vera Maria (Orgs). Multiculturalismo: diferenças cultu-</p><p>rais e práticas pedagógicas. Petrópolis: Vozes, 2016.</p><p>MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise crítica da narrativa. Brasília: Editora Universidade de Brasília,</p><p>2013.</p><p>MURARO, Rose Marie; BOFF, Leonardo. Feminino e masculino: uma consciência para o en-</p><p>contro das diferenças. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.</p><p>121</p><p>OROFINO, Maria Isabel. Educação intercultural, mídia e mediações: aportes das teorias lati-</p><p>no-americanas da comunicação e consumo cultural. Linguagens & Cidadania. v.4, n.2. jul./</p><p>dez, 2002.</p><p>SARMENTO, Manuel Jacinto; PINTO, Manuel. As culturas da infância nas encruzilhadas da 2ª</p><p>modernidade. In: SARMENTO, Manuel Jacinto; CERISARA, Ana Beatriz. Crianças e miú-</p><p>dos: perspectivas sociopedagógicas da infância e educação. Porto, Portugal: Edições ASA,</p><p>2004.</p><p>SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Ale-</p><p>gre, v. 20, n. 2, p. 71-99, jul./dez. 1995.</p><p>SODRÉ, Muniz. Cultura, corpo e afeto. Dança, Salvador, v. 3, n. 1, jan./jul. 2014.</p><p>THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes,</p><p>2008.</p><p>VIANNA, Hermano Paes. O mundo Funk Carioca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.</p><p>122</p><p>123</p><p>TRABALHO E DESIGUALDADES DE GÊNERO EM</p><p>TEMPOS DE PANDEMIA1</p><p>Roseli de Fátima Corteletti 2</p><p>Vitória Karoline de Souza Tomé3</p><p>A disseminação da COVID-19 atravessou todo o estrato social, colocando</p><p>em evidência e aumentando as desigualdades sociais e educacionais que o Brasil</p><p>enfrenta, provocando, dessa forma, impactos na dinâmica do mercado de traba-</p><p>lho, com consequências profundas na vida dos/as trabalhadores/as. No entanto,</p><p>torna-se importante salientar que a atual crise econômica já vinha se aprofun-</p><p>dando desde o ano de 2015, e que se agravou com a pandemia. Além disso, foi</p><p>significativo o impacto da Reforma Trabalhista promovida pelo governo Temer,</p><p>no ano de 2017, a qual introduziu o trabalho intermitente e regulamentou o</p><p>teletrabalho, intensificando ainda mais a precarização das relações de trabalho.</p><p>Como consequência, as taxas de desemprego e da informalidade, que estavam</p><p>altas, se intensificaram ainda mais.</p><p>A pandemia não poupou praticamente nenhuma área da vida coletiva ou</p><p>individual, causando mudanças econômicas e sociais, com alterações quanto</p><p>à circulação de pessoas nos âmbitos local, nacional e internacional, devido às</p><p>orientações de distanciamento social da Organização Mundial da Saúde - OMS.</p><p>Dessa forma, atingiu toda a classe trabalhadora de formas diferenciadas: de-</p><p>semprego</p><p>para uma grande parcela da população, sobretudo nas atividades</p><p>econômicas, que demandam tanto a presença física do trabalhador/a, quanto a</p><p>presença física dos clientes/usuários. Com isso, verificamos efeitos imediatos no</p><p>comércio e no setor de serviços, tais como o turismo e toda a sua cadeia produti-</p><p>va, hotelaria, aviação, restaurantes; bem como os teatros, cinemas, shows, even-</p><p>tos, feiras, entre outras atividades, como é o caso das Escolas e Universidades</p><p>que, com a suspensão das aulas presenciais, passaram a utilizar o ensino remoto</p><p>1 Este artigo apresenta resultados da pesquisa do Programa de Iniciação Científica (PIBIC), a qual foi realizada na</p><p>vigência (2020-2021), na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).</p><p>2 Doutora em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Professora efetiva da Unidade Acadêmica</p><p>de Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e vice-líder do TDEEP – Grupo de Pes-</p><p>quisa Trabalho, Desenvolvimento e Políticas Públicas. E-mail: roselicortel@yahoo.com.br.</p><p>3 Graduanda do Curso de Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).</p><p>Bolsista do Programa de Iniciação Científica da (UACS-UFCG) e membro do TDEPP – Grupo de Pesquisa Traba-</p><p>lho, Desenvolvimento e Políticas Públicas – E-mail: vitoriakarolinetome@gmail.com.</p><p>124</p><p>através de plataformas digitais.</p><p>Por outro lado, este contexto pandêmico significou a intensificação do tra-</p><p>balho para as atividades consideradas essenciais e que necessitavam ser desen-</p><p>volvidas presencialmente. Estas atingiram principalmente as seguintes catego-</p><p>rias: profissionais de saúde em geral (médicos/as, enfermeiros/as, técnicos/as</p><p>de enfermagem, trabalhadores/as de limpeza das clínicas e hospitais), os/as en-</p><p>tregadores/as via plataformas digitais, as trabalhadoras domésticas, os/as traba-</p><p>lhadores/as informais e aqueles/as que tiveram que migrar suas atividades para</p><p>o ambiente doméstico, como é o caso dos/as professores/as da educação básica</p><p>à pós-graduação, cujas atividades profissionais passaram a ser realizadas remo-</p><p>tamente, em ambiente doméstico, o que gerou uma intensificação do trabalho,</p><p>principalmente para as mulheres. Além destes, houve também uma intensifi-</p><p>cação da jornada de trabalho para aqueles que permaneceram trabalhando nas</p><p>demais atividades essenciais, como: hospitais, clínicas, farmácias, bancos, super-</p><p>mercados, onde o risco da contaminação e de contágio é maior.</p><p>Além disso, é importante destacar que a pandemia do novo coronavírus</p><p>apresenta um profundo recorte de gênero, de classe e de raça. Segundo Antunes</p><p>(2020), a divisão sociossexual e racial do trabalho demonstra que as mulheres</p><p>brancas sofrem mais que os homens brancos, enquanto as trabalhadoras negras</p><p>são ainda mais penalizadas que as mulheres brancas (como exemplo, citamos as</p><p>trabalhadoras domésticas no Brasil, que totalizam 6,2 milhões, das quais 68%</p><p>são negras). Visto que o racismo é um fator estrutural na sociedade, consequen-</p><p>temente, a desigualdade de gênero se complexifica quando se trata da mulher</p><p>negra.</p><p>Como exemplo, podemos mencionar o primeiro óbito causado pela co-</p><p>vid-19 no Brasil, que ocorreu no Estado do Rio de Janeiro – onde uma tra-</p><p>balhadora doméstica negra contraiu o vírus de sua patroa recém-chegada de</p><p>uma viagem à Itália. A patroa branca se recuperou e a trabalhadora negra veio</p><p>a falecer. Tal acontecimento evidenciou as profundas desigualdades existentes</p><p>na sociedade e a fragilidade do ser humano, uma vez que há classes sociais que</p><p>puderam estar em maior segurança devido às suas condições financeiras ou</p><p>ao tipo de trabalho desenvolvido, enquanto outras não. Como aponta Santos</p><p>(2020): “O surto viral pulveriza este senso comum e evapora a segurança de um</p><p>dia para o outro. Sabemos que a pandemia não é cega e tem alvos privilegiados,</p><p>mas mesmo assim cria-se com ela uma consciência de comunhão planetária, de</p><p>125</p><p>algum modo democrática” (SANTOS, 2020, p.07). Contudo, sabe-se que pan-</p><p>demia não foi igual para todos. O vírus atingiu milhares de pessoas, mas suas</p><p>consequências foram severas, principalmente para as pessoas mais pobres e em</p><p>situações de maior vulnerabilidade, diante do crescimento das desigualdades</p><p>sociais que o Brasil enfrenta na atualidade.</p><p>Dessa forma, convém pontuar que a pandemia revela os desafios que são</p><p>impostos às mulheres, já que o trabalho feminino não é visivelmente reconhe-</p><p>cido e as mulheres são (ainda) vistas como um ser reprodutivo, voltado para os</p><p>cuidados da família e destinadas às tarefas domésticas. Esses problemas serão</p><p>analisados ao longo do artigo, pois a relação que se tem no trabalho das mulhe-</p><p>res as coloca em lugar de subordinação, exploração e de desigualdade.</p><p>Diante dos argumentos supracitados, o artigo que ora introduzimos tem por</p><p>objetivo analisar e problematizar o impacto da pandemia no Brasil, bem como</p><p>os reflexos ocasionados no mercado de trabalho e nas desigualdades de gênero.</p><p>O cenário será voltado em torno das dificuldades enfrentadas pelas mulheres, já</p><p>que são um dos grupos sociais mais vulneráveis, por estarem na chamada linha</p><p>de frente (nas atividades presenciais). A proposta teórico-metodológica recorre</p><p>ao levantamento bibliográfico sobre a pandemia e as desigualdades de gênero,</p><p>aprofundando os conceitos de patriarcado, capitalismo, gênero, divisão social e</p><p>sexual do trabalho e interseccionalidade, partindo dos pensamentos de autoras,</p><p>como: Hirata (2002), Saffioti (2015), Kergoat (2009), Scott (1995), Souza-Lo-</p><p>bo (2021), Crenshaw (2012), junto a outros/as autores/as. Ademais, lançaremos</p><p>mão da análise de dados secundários obtidos nas pesquisas que vêm sendo rea-</p><p>lizadas, como é o caso do IBGE e DIEESE, além de pesquisas, livros e artigos</p><p>publicados durante a pandemia, nos quais buscamos identificar a problemática</p><p>em torno do trabalho das mulheres, bem como analisar as configurações das de-</p><p>sigualdades de gênero e da divisão sexual do trabalho em tempos de pandemia,</p><p>para identificar possíveis deslocamentos, avanços e/ou retrocessos.</p><p>O artigo encontra-se estruturado da seguinte forma: primeiramente, bus-</p><p>camos contextualizar sobre as mulheres no mercado de trabalho, desigualdades</p><p>de gênero e divisão social e sexual do trabalho. Em seguida analisamos as con-</p><p>sequências da pandemia nas condições de trabalho, discorrendo sobre o traba-</p><p>lho das professoras que tiveram que se adaptar ao ensino remoto. Para tanto,</p><p>buscamos verificar os desafios enfrentados, com a combinação das atividades</p><p>reprodutivas e produtivas, no mesmo espaço do ambiente doméstico.</p><p>126</p><p>MULHERES E MERCADO DE TRABALHO: TENDÊNCIAS ATUAIS</p><p>A despeito de tanto mestrado</p><p>Ganha menos do que o namorado</p><p>E não sabe o porquê</p><p>Tem talento de equilibrista</p><p>Ela é muita, se você quer saber</p><p>Pitty</p><p>A abordagem sobre a diferença de salários entre os homens e as mulheres</p><p>na música “Desconstruindo Amélia”, lançada em 2009, pela cantora Pitty, nos</p><p>remete à indagação de que, por mais que o tempo tenha passado, a exploração e</p><p>a inferiorização das mulheres permanece na atualidade, expressando-se através</p><p>de desigualdades no mundo do trabalho, as quais se intensificaram muito mais</p><p>com a pandemia da COVID-19. Em outras palavras, tal como sugere Corteletti</p><p>e Milanês (2020): “a força produtiva feminina é utilizada de uma forma ainda</p><p>mais intensa do que o normal, visando extrair o máximo de mão-de-obra, com</p><p>a vantagem de pagar salários mais baixos, do que se o mesmo trabalho fosse</p><p>realizado pelos homens” (CORTELETTI & MILANÊS, 2020, p.12).</p><p>De acordo com a pesquisa do DIEESE (2020), na atualidade as mulheres</p><p>ainda continuam ganhando menos do que os homens, mesmo quando ocupam</p><p>cargos de gerência ou direção, para elas a hora paga foi de R$ 32,35, e, para eles,</p><p>de R$ 45,83; quando possuíam o ensino</p><p>superior completo, elas ganhavam em</p><p>média R$ 3.999, e eles, R$ 6.363.</p><p>A PNAD (2020) mostra que a participação das mulheres supera a dos ho-</p><p>mens em algumas profissões culturalmente identificadas como “femininas” e</p><p>associadas a menores salários. A maior disparidade é encontrada na categoria</p><p>das trabalhadoras domésticas, na qual 92,3% são mulheres. Mas elas também</p><p>predominam nas áreas da educação, da saúde e na assistência social, ou seja,</p><p>atividades relacionadas aos cuidados com outras pessoas. Somando essas áreas</p><p>com a administração pública, defesa e seguridade social, a participação das mu-</p><p>lheres (25,2%) era bem maior que a dos homens (10,9%). Essa desproporção na</p><p>esfera do trabalho é realçada por Melo e Castilho (2009):</p><p>127</p><p>(...) a participação das mulheres no mercado de trabalho é crescente</p><p>e houve maior acesso à escolaridade feminina (o que provocou, entre</p><p>outros, uma mudança nos arranjos familiares, tais como a redução do</p><p>tamanho das famílias e quebra do modelo patriarcal). Ainda assim, as</p><p>ciências econômicas continuam a não dar conta da questão da invisibi-</p><p>lidade do trabalho reprodutivo. O desconhecimento da especificidade</p><p>da contribuição das mulheres acentuou a subestimação das práticas</p><p>por elas exercidas no espaço familiar e no produtivo, reforçando a ideia</p><p>do subemprego feminino (MELO e CASTILHO, 2009, p.139).</p><p>Em face desses elementos, cabe frisar que as mudanças mais significativas</p><p>no mercado de trabalho para as mulheres ocorreram por meio de lutas femi-</p><p>nistas no alcance de políticas públicas, além do direito à educação e o direito ao</p><p>voto, cujas realizações devem ser destacadas, pois impactou a vida das mulheres,</p><p>proporcionando, assim, oportunidades que antes eram negadas. Atualmente, as</p><p>mulheres ocupam espaços na área da saúde, sendo médicas, enfermeiras, den-</p><p>tistas, etc.; na área da ciência, produzindo bastante pesquisas; na política; no</p><p>empreendedorismo, entre outros segmentos.</p><p>Pela primeira vez na história dos jogos olímpicos, haverá quase tantas mu-</p><p>lheres quanto homens competindo, presentes em todos os 33 esportes, a repor-</p><p>tagem afirma que as mulheres são 47% do total de atletas brasileiros em 2021.</p><p>Comparado com o primeiro ano dos jogos, em 1964, que havia apenas uma</p><p>mulher participando das olimpíadas, esses dados representam uma grande con-</p><p>quista na equidade de gênero nos jogos. Enquanto na representação política,</p><p>ainda de acordo com os dados coletados pela pesquisa, mostra que essa igualda-</p><p>de não repercute. Nas eleições de 2020, por exemplo, em 60% dos municípios,</p><p>nenhuma mulher concorreu à prefeitura. As mulheres eram candidatas à prefei-</p><p>tura em 20 cidades na disputa do segundo turno; dessas, foram eleitas apenas</p><p>sete. Nas capitais do país, nenhuma mulher foi eleita. Em 53% das cidades bra-</p><p>sileiras, nenhuma mulher negra ocupou a Câmara Municipal.</p><p>Apesar das conquistas, as mulheres ainda se encontram em atividades mais</p><p>vulneráveis e precárias e apresentam maiores chances de ficarem desemprega-</p><p>das. Com a crise instaurada no cenário atual, as mulheres têm sofrido ainda</p><p>mais para se manter no mercado de trabalho, pois, como observa a socióloga Si-</p><p>mone de Beauvoir (2009) basta uma crise política, econômica ou religiosa para</p><p>128</p><p>que os direitos das mulheres sejam questionados.</p><p>Dados do DIEESE (2020) também revelam que a taxa de desocupação por</p><p>cor/raça foi expressiva. No ano de 2019, entre as mulheres não negras houve</p><p>uma redução de 10,6%, diferentemente das mulheres negras que tiveram um</p><p>aumento de 16,6%. Já no ano de 2020, tal diferença foi ainda maior; a taxa de</p><p>desocupação das mulheres não negras foi de 13,5%, já a das mulheres negras foi</p><p>de 19,8%. Dessa forma, os resultados para este contingente de mulheres negras</p><p>e mais pobres refletiram em um agravamento da situação de pobreza e de exclu-</p><p>são social.</p><p>DESIGUALDADES DE GÊNERO E DIVISÃO SOCIAL E SEXUAL DO TRA-</p><p>BALHO</p><p>As explicações que naturalizam as desigualdades enfrentadas pelas mulhe-</p><p>res devem ser questionadas, já que são potencializadas através da dominação e</p><p>opressão masculina, como também pelas relações de poder. Essa desvalorização</p><p>oculta o papel das mulheres, colocando-as em “segundo plano” na esfera social.</p><p>Partindo dessas argumentações, é importante aprofundar esse debate mediante</p><p>o cenário de inferiorização que as mulheres (ainda) enfrentam, uma vez que a</p><p>divisão sexual do trabalho contribuiu bastante para analisar historicamente a</p><p>divisão do trabalho entre homens e mulheres e, dessa forma, incidir diretamente</p><p>nas relações de gênero.</p><p>De acordo com essa premissa, Scott (1995) destaca que o conceito de gêne-</p><p>ro é usado para explicar as relações sociais entre os sexos, indicando não mais</p><p>explicações biológicas, mas construções sociais, enfatizando a complexidade</p><p>das relações não determinadas pelo sexo. Ou seja, o conceito de gênero não se</p><p>refere somente às constituições biológicas de ser homem ou ser mulher, mas</p><p>cada sociedade, em épocas distintas, define quem é homem e quem é mulher,</p><p>e os papéis que lhes são atribuídos. Para Scott (1995), não é somente a luta das</p><p>mulheres na história, mas a inclusão das teorias e práticas femininas e também</p><p>masculinas do passado, que precisam figurar no rol de discussões de como o</p><p>gênero atua e dá sentido às relações sociais hoje.</p><p>Conforme Bezerra, Corteletti e Araújo (2020), as discussões sobre o con-</p><p>ceito de gênero surgiram nos anos de 1970, período em que ocorreu diversos</p><p>debates epistemológicos no campo das Ciências Sociais. Saffioti (2015) proble-</p><p>129</p><p>matiza que o conceito de gênero não explicita, necessariamente, desigualdades</p><p>entre homens e mulheres – a hierarquia é apenas presumida –, e que também</p><p>diz respeito a uma categoria histórica, demandando investimento intelectual. A</p><p>feminista Judith Butler (2015) contribui para uma melhor discussão sobre gêne-</p><p>ro, observando que esta foi produzida e estruturada de forma arbitrária, através</p><p>de uma oposição binária entre o masculino e o feminino, que gerava um pensa-</p><p>mento dicotômico e polarizado sobre os gêneros: homem e mulher como polos</p><p>opostos dentro de uma lógica invariável de dominação-subordinação. Para a</p><p>autora, as relações de gênero são estabelecidas como relações de poder por causa</p><p>da assimetria construída ao longo da História. Butler (2015) argumenta ainda</p><p>que gênero não é simplesmente algo que alguém é, mas algo que alguém faz, é</p><p>mais um fazer do que um ser.</p><p>O domínio do homem foi se afirmando ao longo das gerações, ao passo em</p><p>que se reforça na divisão sexual e social do trabalho, bem como na dinâmica</p><p>da produção e reprodução social. Em decorrência da construção social das re-</p><p>lações de gênero, partimos pela análise da fundamentação do patriarcado, pois</p><p>as relações patriarcais de gênero se constituem na separação entre as dinâmicas</p><p>de produção e reprodução social, que se refletem na divisão entre a esfera pro-</p><p>dutiva e doméstica, entre trabalho masculino e trabalho feminino, bem como</p><p>na construção social da mulher e do homem (NOGUEIRA; PEREIRA;TOITIO,</p><p>2020).</p><p>Embora o patriarcado tenha surgido muito antes do capitalismo, ambos</p><p>estão interligados. Dado que o capitalismo se organizou e se formou potencia-</p><p>lizando e criando formas de relação patriarcal, como condição imprescindível</p><p>para sua consolidação (NOGUEIRA; PEREIRA; TOITIO, 2020). Muito do ím-</p><p>peto para análise sobre o conceito do patriarcado, Saffioti (2015) acentua que</p><p>este regime se ancora em uma maneira de os homens assegurarem os meios</p><p>necessários à produção diária e à reprodução da vida. Há uma economia domés-</p><p>tica organizada que sustenta a ordem patriarcal e uma hierarquia estabelecida</p><p>com base nas distintas faixas etárias, cada uma desempenhando suas funções</p><p>sociais e tendo um certo significado. Bezerra, Corteletti e Araújo (2020) acres-</p><p>centam seus estudos definindo que:</p><p>O patriarcado não se configura como um sistema à parte do capitalismo,</p><p>mas é um regime</p><p>de dominação-exploração, intrinsecamente articulado</p><p>130</p><p>com o capitalismo, os quais se fundiram historicamente numa simbiose</p><p>patriarcado-racismo-capitalismo, não sendo autônomos, muito menos</p><p>interconexos, mas fazem parte do mesmo sistema. Ademais, o patriarca-</p><p>do é um caso específico das relações de gênero e sua constituição se dá no</p><p>âmbito das relações de produção e na esfera pública (é uma relação civil)</p><p>(BEZERRA; CORTELETTI; ARAÚJO, 2020, p.06).</p><p>O patriarcado, por ser um sistema social de dominação-exploração mascu-</p><p>lina sobre as mulheres, expressa-se na organização da família, onde ocorre uma</p><p>desvalorização, com uma dupla ou tripla jornada de trabalho para as mulheres.</p><p>Esse apoderamento faz da figura feminina um ser subordinado, fazendo com</p><p>que, ao mesmo tempo, estejam marginalizadas e sujeitas à opressão. Tal com-</p><p>plexidade fica clara nas palavras de Lerner (2019) o sistema patriarcal funcio-</p><p>na com a cooperação das mulheres, adquirida por intermédio da doutrinação,</p><p>privação da educação, na negação das mulheres sobre sua história, todavia, as</p><p>mulheres participam no processo de sua subordinação porque internalizam a</p><p>ideia de sua inferioridade. A autora respalda que o patriarcado mantém e sus-</p><p>tenta a dominação masculina, baseando-se em instituições como a família, as</p><p>religiões, a escola e a leis; são as ideologias que nos ensinam que as mulheres são</p><p>naturalmente inferiores.</p><p>Todavia, o conceito de família que conhecemos surge após a criação da</p><p>propriedade privada, ou seja, depois da existência do patriarcado, sendo através</p><p>da família que surgirá a divisão sexual do trabalho. Dessa forma, a exploração</p><p>sobre o sexo feminino se configura já nos primórdios do patriarcado, de modo</p><p>que podemos observar, de acordo com a linha de pensamento de Marx e En-</p><p>gels (2007), que a fonte de toda exploração está na propriedade privada e na</p><p>divisão social do trabalho, resultando, assim, na distribuição desigual do traba-</p><p>lho. A propriedade, como ressaltam Nogueira, Pereira e Toitio (2020, p.33), “é</p><p>a expressão idêntica da divisão social do trabalho, pois se refere ao produto da</p><p>atividade e outra à própria atividade”. Com isso, as oportunidades e condições</p><p>de trabalho das mulheres são expressas pelo patriarcalismo e pela divisão sexual</p><p>do trabalho, dessa forma, essa divisão sustenta e estrutura as relações desiguais</p><p>de gênero.</p><p>No capitalismo, a divisão social do trabalho se intensificou e se complexi-</p><p>ficou bastante. Em meio à sua formação, as mulheres são as responsáveis pelo</p><p>131</p><p>trabalho reprodutivo, ou seja, voltado para o ambiente doméstico e de cuidado,</p><p>pois existe um estereótipo de gênero diante do qual as mulheres são, por nature-</p><p>za, sexualmente afetivas e passivas; enquanto os homens, ainda de acordo com</p><p>esse estereótipo, são voltados para o trabalho produtivo, ocupando os espaços</p><p>públicos e visto como “o provedor”. Dessa forma, a divisão sexual do trabalho</p><p>se constitui como forma de privar a mulher ao espaço doméstico, controlando</p><p>os seus corpos, garantindo a reprodução e o acúmulo de riquezas. Esse contexto</p><p>põe em evidência a problemática da divisão sexual do trabalho que Souza-Lobo</p><p>(2021) formula:</p><p>A ideia de que a divisão do trabalho não só separa e articula produção e</p><p>reprodução, mas estrutura as relações no trabalho produtivo, permite re-</p><p>colocar a questão da relação entre a dinâmica das relações que integra os</p><p>dois níveis, sexualizando as relações de trabalho industrial feminino de-</p><p>sagregando as relações de trabalho nos processos de industrialização, que</p><p>estruturam o trabalho doméstico ou a própria divisão sexual do trabalho e</p><p>das tarefas nas várias relações sociais (SOUZA-LOBO, 2021, p.154).</p><p>Segundo Kergoat (2009), a divisão sexual do trabalho é a forma de divisão</p><p>do trabalho social decorrente das relações sociais de sexo; tem por destinação</p><p>prioritária dos homens a esfera produtiva e, das mulheres, a esfera reprodutiva.</p><p>Diante dessa perspectiva, Hirata (2002) defende que a forma da divisão social</p><p>do trabalho tem dois princípios de organização: o da separação e o da hierar-</p><p>quização. Fazendo dessa forma, distinção de trabalhos em ambos os sexos e su-</p><p>periorizando o trabalho do homem “valendo” mais. Essa divisão tanto separa</p><p>como inferioriza o valor do trabalho desenvolvido pelas mulheres. Ademais, a</p><p>relação antagônica entre homens e mulheres é compreendida de duas formas</p><p>segundo Hirata (2002) as primeiras (relações sociais de sexo) são entendidas</p><p>como desiguais, hierarquizadas ou antagônicas de exploração e de opressão, en-</p><p>tre as duas categorias de sexo; e, as segundas (relações de classe), como um dos</p><p>componentes da superexploração econômica de homens e de mulheres no tra-</p><p>balho e na sociedade.</p><p>As relações sociais estão na origem da divisão social do trabalho, segundo</p><p>Hirata e Kergoat (2007) “as relações sociais organizam, isto é, nomeiam e hierar-</p><p>quizam as divisões da sociedade: privado/público, trabalho manual/trabalho in-</p><p>132</p><p>telectual, capital/trabalho, divisão internacional do trabalho etc.” (p.132). Afir-</p><p>mando o que Souza-Lobo (2021) denota que a classe operária tem dois sexos.</p><p>Para esclarecer esse debate, Hirata (2002) é contundente ao afirmar:</p><p>Enquanto a divisão do trabalho doméstico for assimétrica, a igualdade</p><p>será uma utopia. Se o papel das políticas públicas em favor da igualdade</p><p>de homens e mulheres pode ter consequências positivas, apenas a mu-</p><p>dança da correlação de forças no interior da esfera “privada” poderá con-</p><p>tribuir para uma melhor distribuição do trabalho invisível, do trabalho</p><p>de compaixão e dedicação, de altruísmo, de disponibilidade permanente,</p><p>tornando abordável às mulheres – e não apenas virtualmente aos homens</p><p>e a um punhado de “mulheres excepcionais” – um espaço próprio, um</p><p>tempo “para si”, e o acesso à criatividade, que é possível apenas a partir de</p><p>uma afirmação de si enquanto sujeito autônomo (HIRATA, 2002, p.20).</p><p>A sociedade capitalista, no caso do Brasil, não está fundamentada em</p><p>apenas uma contradição social, de acordo com Saffioti (2015), mas sim em três</p><p>contradições: classe, raça e gênero, que formam um nó, apresentando distintas</p><p>determinações. Desse modo, “não se trata de somar racismo + gênero + classe</p><p>social, mas de perceber a realidade compósita e nova que resulta dessa difu-</p><p>são” (SAFFIOTI, 2015, p.115). Incluir a raça como elemento estrutural nas de-</p><p>sigualdades de gênero é evoluir até a visão interseccional, trazido por Kimberlé</p><p>Crenshaw (2012). Segundo a feminista, esse instrumento identificou as formas</p><p>como cada classe, raça e gênero interage e cria múltiplas opressões, particular-</p><p>mente para as mais marginalizadas na sociedade, como as mulheres negras e</p><p>indígenas.</p><p>Creshaw (2012) propõe a subdivisão da interseccionalidade em três cate-</p><p>gorias: estrutural, política e representativa. A interseccionalidade estrutural se</p><p>refere às formas como a opressão sofrida por mulheres negras é diferente da so-</p><p>frida pelas mulheres brancas. A interseccionalidade política aborda as políticas</p><p>feministas e as políticas antirracistas, que têm como consequência a margina-</p><p>lização da questão da violência em relação às mulheres de cor. E a interseccio-</p><p>nalidade representativa descreve como as mulheres negras são representadas na</p><p>cultura popular e como isso a afeta na vida cotidiana. É por meio das relações de</p><p>sexo/gênero, classe, raça/etnia que o capitalismo se movimenta, podendo culmi-</p><p>nar como uma opressão fundamentalmente complexa que as mulheres enfren-</p><p>133</p><p>tam; nas palavras de Saffioti (2013, p.120), “seria simplificar demais a realidade</p><p>asseverar que a propriedade privada constitui a fonte exclusiva da inferiorização</p><p>da mulher na sociedade”.</p><p>REFLEXOS DA PANDEMIA SOBRE AS MULHERES</p><p>O agravamento da crise intensificada ainda mais pela pandemia realçou</p><p>as desigualdades sociais que atravessam o país, pois, como Santos (2020, p.21)</p><p>observa: “a quarentena não só torna mais visíveis,</p><p>como reforça a injustiça, a</p><p>discriminação, a exclusão social e o sofrimento imerecido que elas provocam”.</p><p>De fato, entre os grupos sociais que mais foram afetados pelo coronavírus, a vida</p><p>das mulheres teve significativas mudanças e o principal efeito foi a sobrecarga de</p><p>trabalho, uma vez que: “as mulheres são consideradas ‘as cuidadoras do mundo’,</p><p>dominam na prestação de cuidados dentro e fora das famílias. Dominam em</p><p>profissões como enfermagem ou assistência social, que estão na linha da frente</p><p>da atenção com cuidados de doentes e idosos dentro e fora das instituições”</p><p>(SANTOS, 2020, p.15).</p><p>A pesquisa “Sem parar” (2020) destacou que, em média, 50% das mulheres</p><p>brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia, sendo 52% negras, 46%</p><p>brancas e 50% indígenas. No caso das mulheres no âmbito rural, esse percentual</p><p>chegou a 62%. Entre as responsáveis por cuidados com idoso, criança ou pessoa</p><p>com deficiência, 72% afirmaram que aumentou a necessidade de monitoramen-</p><p>to e companhia. Entre as mulheres em sua maioria brancas, urbanas, com nível</p><p>superior e na faixa dos 30 anos que seguiram trabalhando durante a pandemia,</p><p>com manutenção de salários, 41% afirmaram trabalhar mais na quarentena.</p><p>A pesquisa ainda destacou que a crise balançou as estruturas em todas as</p><p>casas de mulheres trabalhadoras. Entre as que responderam que estavam traba-</p><p>lhando mais do que antes da quarentena, 55% delas são brancas e 44% são ne-</p><p>gras. É importante ressaltar que, embora o percentual de negras nesse ponto seja</p><p>menor, dos 40% das mulheres que apontaram o risco de perda da subsistência</p><p>com a pandemia, 55% são negras. Além disso, 58% das mulheres desempregadas</p><p>são negras.</p><p>Segundo o IBGE (2021), a taxa de desocupação foi de 11,9% entre os ho-</p><p>mens, e, entre as mulheres, chegou à 16,4%, no último trimestre de 2020, uma</p><p>diferença gritante entre ambos os sexos. Além do mais, a partir dos dados do</p><p>134</p><p>DIEESE, mostra-se que, entre os anos de 2019 e 2020, a taxa de desocupação das</p><p>mulheres subiu de 13,9% para 16,8%, no Brasil. E, entre os Estados do Nordeste</p><p>que mais tiveram desocupação de mulheres, a Paraíba liderou, tendo o percen-</p><p>tual que subiu de 13,3% para 19,3%, no ano de 2021.</p><p>Gráfico 01- Durante a pandemia: mulheres desempregadas</p><p>Fonte: Pesquisa SEM PARAR: O trabalho e a vida das mulheres na pandemia.</p><p>Sempreviva Organização Feminista-SOF (2020)</p><p>No Brasil, historicamente, a taxa de ocupação de pessoas brancas é maior</p><p>em relação às pessoas negras. A pesquisa “Sem parar” (2020) no gráfico 01, re-</p><p>vela que o desemprego atinge mais as mulheres negras, com um percentual de</p><p>58%; já entre as mulheres brancas, o percentual foi de 39%, mostrando uma</p><p>condição de vulnerabilidade maior para as mulheres negras.</p><p>Dados coletados pela Gênero e Número (2020) mostram que, durante a</p><p>pandemia, a responsabilidade com o trabalho doméstico e de cuidado dificultou</p><p>a realização do trabalho remunerado para 61% das mulheres. Para 4% delas, o</p><p>trabalho doméstico e de cuidado inviabilizou o cumprimento das tarefas remu-</p><p>neradas. A pesquisa “Sem parar” (2020) mostra ainda que a pandemia alterou</p><p>a distribuição das tarefas domésticas, ou seja, 64% das mulheres de todas as re-</p><p>giões do Brasil que foram entrevistadas indicaram que, no período do distancia-</p><p>mento social, a distribuição permaneceu a mesma, sendo que 23% avaliam que</p><p>a participação de outras pessoas no trabalho doméstico e de cuidado diminuiu,</p><p>135</p><p>e 13% consideram que essa participação aumentou. Como mostram alguns re-</p><p>latos coletados na pesquisa, a exemplo deste: “Sinto sobrecarga mental sobre as</p><p>tarefas domésticas e sobre o ‘dever’ de administrar a casa e decidir o que fazer</p><p>ou não na manutenção da casa durante o isolamento”, (“Sem parar”, 2020, p.36).</p><p>As atividades domésticas que mais se intensificaram durante a pandemia são</p><p>destacadas no gráfico 02, cujos dados demonstram que as atividades que mais</p><p>se intensificaram na pandemia foram: a de preparar ou servir alimentos, lavar a</p><p>louça, limpar o domicílio e arrumá-lo, não sendo distribuídas de forma igualitá-</p><p>ria, sobrepondo as mulheres a trabalharem mais.</p><p>Gráfico 02- tipo de atividade x percepção de intensidade durante a</p><p>pandemia</p><p>Fonte: Pesquisa SEM PARAR: O trabalho e a vida das mulheres na</p><p>pandemia. Gênero e Número e Sempreviva Organização</p><p>Feminista-SOF (2020)</p><p>A análise feita pela Gênero e Número e pela Sempreviva Organizações Fe-</p><p>ministas – SOF (2020), no relatório intitulado “Sem parar”, também ressalta o</p><p>aumento nos índices de violências domésticas e nos casos de feminicídios du-</p><p>rante a pandemia. Dentro do espaço de confinamento com o marido e os filhos,</p><p>136</p><p>muitas mulheres relataram casos de violência partindo de seus parceiros. Gran-</p><p>de parte das mulheres reconhecem no ambiente doméstico a marca de um ciclo</p><p>de violência silencioso e cotidiano. O relatório mostra que 91,2% das mulheres</p><p>acreditam que a violência doméstica aumentou durante o período de distancia-</p><p>mento social.</p><p>No contexto atual, as mulheres pobres e negras são as maiores vítimas do</p><p>feminicídio, isto ocorre porque a pobreza e a condição racial caminham juntas</p><p>como fatores de vulnerabilidade das mulheres diante de qualquer tipo de violên-</p><p>cia, inclusive violência doméstica. No entanto, a pesquisa demonstra ainda que,</p><p>quando perguntadas sobre suas experiências pessoais, apenas 8,4% das mulhe-</p><p>res afirmaram ter sofrido alguma forma de violência no período de isolamen-</p><p>to. Esse percentual aumenta entre as mulheres nas faixas de renda mais baixa</p><p>(12,7% entre as mulheres com renda de até 1 salário mínimo) e é também maior</p><p>entre as mulheres das áreas rurais (11,7%). As principais ocorrências estiveram</p><p>relacionadas com formas de controle, ameaças, desqualificação das mulheres</p><p>relacionadas ao trabalho doméstico e à maternidade. Em um dos comentários</p><p>trazidos pelo relatório “Sem parar” (2020, p.45) uma das mulheres relatou que:</p><p>“Semana passada eu ouvi minha vizinha apanhar do marido dela, liguei pra po-</p><p>lícia e eles não me deixaram fazer a ligação como anônima, então fiz no meu</p><p>nome’’.</p><p>De fato, a violência doméstica e familiar contra a mulher está ligada predo-</p><p>minantemente a princípios machistas, ou seja, a desigualdade entre os homens</p><p>e as mulheres. Em decorrência do confinamento, além do medo de contrair o</p><p>vírus ao sair de casa, houve também a questão de ser flagrada fazendo a denún-</p><p>cia. Vale ressaltar que, apesar de existir a Lei Maria da Penha, uma conquista</p><p>jurídica para as proteções das mulheres, as violências continuam a existir e a</p><p>pandemia provocada pela Covid-19 surge como um agravante no cenário da</p><p>violência contra as mulheres. Diante dos argumentos mencionados, trataremos,</p><p>na seção a seguir, do panorama da pandemia na vida das mulheres trabalhado-</p><p>ras da educação que tiveram que se adaptar ao trabalho remoto/home office, e</p><p>que foram, ainda, uma das principais categorias que enfrentam o impacto direto</p><p>das desigualdades de gênero e sociais, enfrentando o excesso de trabalho, salá-</p><p>rios baixos e poucos recursos, juntando também as atividades domésticas.</p><p>137</p><p>O TRABALHO REMOTO DAS MULHERES DOCENTES</p><p>A mudança da passagem do ensino presencial para o ensino remoto pegou</p><p>muitas pessoas de surpresa, principalmente as trabalhadoras da educação que</p><p>tiveram que se adaptar ao trabalho remoto/home office. De acordo com dados</p><p>levantados pela PNAD Covid-19, em novembro de 2020, 57,8% das pessoas em</p><p>trabalho remoto/home office (trabalho mediado pelas novas tecnologias) eram</p><p>mulheres. Destarte, a pandemia exigiu o distanciamento social nos domicílios e</p><p>provocou a suspensão das aulas, devido ao fechamento das escolas, universida-</p><p>des e creches. Nesse sentindo, ocorreu a sobreposição de tarefas, principalmente</p><p>ligadas à vida doméstica, como a limpeza do lar, o preparo de alimentos, o cui-</p><p>dado com os filhos, atreladas às atividades da vida profissional, como lecionar,</p><p>orientar, ler e revisar</p><p>das mídias sociais na política: 1) o efeito</p><p>duplo de empoderamento/monitoramento da militância virtual, 2) o avanço das</p><p>Fake News e, por fim, 3) as lives (transmissões ao vivo) de eventos políticos. Estes</p><p>fenômenos serão observados a partir da discussão de noções conceituais como</p><p>as de “sociedade em rede”, “capital social”, “poder simbólico” e de “estetização do</p><p>cotidiano”, articuladas com casos empíricos como as experiências da campanha</p><p>eleitoral na Paraíba em 2010 e 2014, nas manifestações de rua ocorridas a partir</p><p>de junho de 2013 e a eleição de Bolsonaro em 2018.</p><p>DA PROMESSA DE DEMOCRATIZAÇÃO AO CONTROLE E MONITO-</p><p>RAMENTO</p><p>A ideia de que os fenômenos midiáticos assumem um papel central na ex-</p><p>periência política é anterior à ascensão das mídias sociais. Ao apresentar o que</p><p>denominou de “7 teses sobre mídia e política” Lima (2004) destaca a função</p><p>exercida pelas mídias massivas, a exemplo do rádio e da televisão, na vida po-</p><p>lítica no decorrer do século XX, com especial atenção aos processos eleitorais</p><p>brasileiros ocorridos a partir da década de 1980 com o processo de redemocra-</p><p>tização. O autor adota a definição de mídia enquanto “Conjunto das instituições</p><p>15</p><p>que utiliza tecnologias específicas para realizar a comunicação humana” (LIMA,</p><p>2004, p.50), implicando a existência de uma “mediação tecnológica” que estabe-</p><p>leça o processo de comunicação. Trata-se de uma experiência de comunicação</p><p>mediada ou mediatizada, conforme Thompson (1998) já indicara como sendo</p><p>uma das características da modernidade, ao defender a tese de que a conexão</p><p>entre a percepção direta de um evento e o ato de torná-lo público foi alterada</p><p>com a atuação das mídias. O evento não precisa mais ser presenciado fisicamen-</p><p>te pelos indivíduos para adquirir significado público e a experiência se dissocia</p><p>dos contextos locais para se tornar “experiência mediada”. Ou como descreve</p><p>Silverstone (2005, p. 24): “ligar a TV ou abrir um jornal na privacidade de nossa</p><p>sala é envolver-se num ato de transcendência espacial”.</p><p>As mídias, com suas tecnologias e linguagens, estão inseridas na experiên-</p><p>cia cotidiana e ocupam um papel central. Esta é à base da primeira e fundamen-</p><p>tal tese proposta por Lima (2004, p.50) que consiste na ideia de que “a mídia</p><p>ocupa uma posição de centralidade nas sociedades contemporâneas permeando</p><p>diferentes processos e esferas da atividade humana, em particular, a esfera da</p><p>política”.</p><p>Entretanto, a mídia analisada nas pesquisas do referido autor é a massiva,</p><p>caracterizada pela organização de uma instituição concentrada e hierarquizada.</p><p>São emissoras de rádio e televisão ou grupos editoriais de jornais e revistas que,</p><p>para existirem, demandam a organização de sistema nacional de telecomunica-</p><p>ções ou de um aparato de distribuição e logística. São conglomerados empresa-</p><p>riais vinculados ao poder econômico, por meio da publicidade, e do poder po-</p><p>lítico, devido ao processo de concessões públicas e as relações de propriedades</p><p>destes veículos, em muitos casos comandados por ocupantes de cargos públicos.</p><p>Esse modelo de mídia passa a exercer forte influência, como aponta o autor, na</p><p>tomada de decisões, desde hábitos cotidianos ao voto, bem como nos processos</p><p>de socialização. Como resume a segunda tese de Lima (2004), não há política</p><p>sem mídia. A ideia, que pode parecer exagerada, baseia-se no diagnóstico de</p><p>que:</p><p>(...) a própria ideia do que constitui um “evento público” se transforma a</p><p>partir da existência da mídia. Antes de seu desenvolvimento, um “evento</p><p>público” implicava compartilhamento de um lugar (espaço) comum; co-</p><p>-presença; visão, audição, aparência visual, palavra falada; diálogo. Depois</p><p>do desenvolvimento da mídia, um evento para ser “evento público” não</p><p>está limitado à partilha de um lugar comum. O “público” pode estar dis-</p><p>16</p><p>tante no tempo e no espaço. Dessa forma, a mídia suplementa a forma tra-</p><p>dicional de constituição do “público” mas também a estende, transforma e</p><p>substitui. O “público” agora é midiatizado. (LIMA, 2004, p.51).</p><p>No paradigma da mídia de massa, a noção de controle está presente de</p><p>modo mais claro. A percepção de que há uma divisão evidente entre os polos</p><p>de emissão e recepção permitiu o debate sobre aspectos como manipulação, es-</p><p>petacularização da política e sensacionalismo. A internet 2.0 gera uma ruptura</p><p>neste cenário ao proporcionar o surgimento de um modelo distinto da “con-</p><p>centração hierarquizada” das mídias massivas que é a “configuração em rede”,</p><p>dicotomia proposta por Cardoso (2007). De acordo com o autor, a principal</p><p>característica desse modelo é a convivência, simultaneidade e interligação entre</p><p>mídia de massa, meios de comunicação interpessoal e mídias que as combi-</p><p>nam em sua origem, como a própria internet. Surge o que o autor chama de</p><p>“sistema integrado de mídias”, considerando que a noção de convergência não</p><p>representa a substituição ou o fim das mídias massivas, mas a integração desse</p><p>tipo de experiência comunicativa com novas dinâmicas proporcionadas pelo</p><p>estabelecimento das redes. Contextualizando com um exemplo mais recente,</p><p>podemos considerar que é neste ponto que reside a força de plataformas como</p><p>o WhatsApp, que permitem a comunicação de modo privado e individualizado,</p><p>mas também permitem a criação de grupos com um número maior de usuários</p><p>e a interligação desses grupos pela lógica da comunicação em rede, permitindo</p><p>que determinados conteúdos viralizem rapidamente, difundindo-se em escala</p><p>massiva, mas sem demandar uma organização centralizada para fazê-lo.</p><p>Quando as mídias sociais surgiram e começaram a ser usadas em campa-</p><p>nhas de mobilização política e com fins eleitorais, a promessa que carregavam</p><p>era de democratização das relações políticas. O público finalmente seria ouvido</p><p>e poderia interagir diretamente com candidatos e gestores públicos. O Presiden-</p><p>te da República estaria ao alcance de uma marcação no Twitter, por exemplo. Os</p><p>cidadãos poderiam se organizar politicamente de modo mais “espontâneo”, sem</p><p>o filtro ou a mediação de instâncias tradicionais da experiência política, como</p><p>o Estado, os partidos, sindicatos e associações. Uma hashtag7 poderia, em tese,</p><p>7 As hashtags apresentam-se a partir do uso do sinal gráfico # (jogo da velha). De acordo com Santaella e Lemos</p><p>(2010, p.108) as hashtags são “indexadores de temas, tópicos e/ou palavras-chave que agregam todos os tweets</p><p>que as contêm em um mesmo fluxo, onde é possível observar a formação de uma comunidade ao redor do uso</p><p>específico da #hashtag. Esse fluxo comum possibilita a todos os usuários acompanhar a discussão de um tema e/ou</p><p>divulgar informações pertinentes em tempo real”. As autoras, neste caso, analisaram apenas a ferramenta Twitter,</p><p>que difundiu o uso de hashtag, porém a estratégia foi absorvida por outras plataformas, a exemplo do Facebook e</p><p>Instagram. Por isso, o mais correto é afirmar que as hashtags agregam “postagens” e não apenas tweets, como define</p><p>Santaella e Lemos e modo mais delimitado.</p><p>17</p><p>unir cidadãos isolados geograficamente, mas que defendem uma mesma causa</p><p>ou ideal. Isso sem a necessidade de líderes, grandes oradores ou entidades. Essa</p><p>é a ideia que fundamentava, por exemplo, as manifestações realizadas durante</p><p>a chamada “Primavera Árabe” ou ainda os protestos de junho de 2013 no Brasil</p><p>durante a realização a Copa das Confederações.</p><p>Mas a estrutura em rede e descentralizada dos “nós” da internet realmente</p><p>nos libertou dos grilhões informacionais? Ou permitiram novas relações de do-</p><p>minação e controle?</p><p>Maia (2008) ao discutir se a internet é ou não um instrumento de democra-</p><p>tização aponta um erro comum ao buscar por respostas: “é comum enfatizarem-</p><p>-se exageradamente as dimensões tecnológicas e estabelecer-se, deterministica-</p><p>mente, uma associação entre o potencial das novas tecnologias e a revitalização</p><p>de instituições e práticas democráticas” (MAIA, 2008, p.277). Apesar de se tratar</p><p>de um texto escrito há mais de uma década, o que é muito quando se observa</p><p>a velocidade</p><p>textos, elaborar avaliações, redigir artigos, participar de</p><p>reuniões administrativas, seminários, lives ou atender demandas nas redes so-</p><p>ciais, entre outras. Mostrando, por si só, que o trabalho das mulheres é exaustivo,</p><p>principalmente as mulheres mães que precisam trabalhar em jornadas duplas ou</p><p>triplas em trabalho remoto. Entre os relatos coligidos pelo relatório técnico de</p><p>pesquisa (2020), observamos, em uma das falas discorridas, a exaustão do tra-</p><p>balho remoto:</p><p>A impressão que tenho é que trabalho muito mais e rendo muito menos.</p><p>Em apenas dois meses já sinto algumas dores nas costas por conta de a</p><p>estação de trabalho não ser a mais adequada. Sinto pressão para “mostrar</p><p>que estou presente” através de produtividade, quando no trabalho pre-</p><p>sencial isso não existia. Saliento que estou em um setor com uma equipe</p><p>muito boa e com uma chefia bastante compreensiva, o que tem tornado</p><p>essa experiência bem melhor do que poderia ser. (Depoente, 2020).</p><p>Dessa forma, convém acentuar que essas experiências desiguais, que dife-</p><p>rentes mulheres possuem nas relações com o espaço doméstico, são resultado</p><p>da correlação que o capitalismo tem com o patriarcado, culminando na visão de</p><p>que o cuidado é voltado para a mulher. A casa, por sua vez, torna-se um espaço</p><p>de hierarquia, de disputas e conflitos de gênero. Esse modelo de delegação, que</p><p>coloca a mulher no plano afetivo, é expressado nas falas de Hirata e Kergoat</p><p>(2007, 607-608):</p><p>138</p><p>mesmo que exista delegação, um de seus limites está na própria estrutura</p><p>do trabalho doméstico e familiar: a gestão do conjunto do trabalho dele-</p><p>gado é sempre da competência daquelas que delegam [...] A nosso ver, é</p><p>preciso questionar, sobretudo, os âmbitos psicológicos da dominação e a</p><p>dimensão da afetividade (HIRATA; KERGOAT, 2007, 607-608):</p><p>Assim, muitas mulheres enfrentaram o machismo e o sexismo exacerbado</p><p>dentro do mesmo ambiente com o seu parceiro, pois, enquanto os homens ficam</p><p>em seu espaço de trabalho preservado e despreocupado, as mulheres têm que</p><p>lidar com as constantes interrupções, seja dos filhos ou de membros da família,</p><p>essa imposição gerada devido à pandemia converteu a casa em um espaço cons-</p><p>tantemente perturbador para o exercício de grande parte do trabalho intelectual</p><p>e produtivo de mulheres. Entre algumas das falas resgatadas por Maia e Ber-</p><p>nardo (2020) para o relatório técnico-científico, é possível observar alguns dos</p><p>pontos negativos dessas interrupções causada no trabalho docente:</p><p>Tenho mais interrupções, a falta de equipamento adequado ou moderno,</p><p>receber demandas de trabalho em qualquer horário e dia da semana, in-</p><p>clusive fins de semana e feriados, sinto falta do contato com meus colegas</p><p>de trabalho, dificuldade em separar vida familiar da atividade profissio-</p><p>nal, tenho dois filhos, sendo um com paralisia cerebral e epilepsia de difí-</p><p>cil controle. Sou mãe solo, portanto preciso adequar a rotina com eles, que</p><p>também estão em casa por conta da suspensão das atividades escolares,</p><p>com o trabalho. Em uma reunião por videoconferência, precisei sair para</p><p>atender meu filho que convulsionou no meu colo. (Respondente, 2020)</p><p>O gráfico 3 mostra que, nos dados obtidos pelo relatório técnico (2020), a</p><p>alternativa “sinto falta do contato dos colegas de trabalho” obteve uma maior</p><p>representatividade com 58,89%. Em seguida, aparece “tenho mais interrupções”,</p><p>com 50%. E, em terceiro lugar, para 56,44% das pessoas respondentes, aparece</p><p>a alternativa “dificuldade em separar a vida familiar da atividade profissional”.</p><p>As respostas revelam como os trabalhadores/as percebem a necessidade de con-</p><p>sulta entre os pares para realizarem suas tarefas cotidianas, além de sinalizar a</p><p>importância da convivência social. Para todas as pessoas, o trabalho remoto é</p><p>desafiador, para as mulheres os desafios são adicionais aos que são colocados</p><p>aos homens. Bohler et al. (2020) mostram as dificuldades que o trabalho remoto</p><p>139</p><p>trouxe na vida das mulheres docentes, pois elas tiveram mais interrupções, di-</p><p>ficuldade no manuseio de equipamentos e ferramentas educativas, além de que</p><p>as demandas aumentaram em qualquer horário e dia da semana, o que vem se</p><p>refletindo em problemas na saúde das docentes, tanto de ordem física quanto</p><p>mental.</p><p>Gráfico 3- Aspectos que foram dificultados no trabalho remoto</p><p>Fonte: Bohler et al. (2020, p.45)</p><p>Essas interrupções nas tarefas regulares causadas pela pandemia refletem</p><p>na produtividade acadêmica das mulheres, como mostra o levantamento reali-</p><p>zado pelo Movimento Parent in Science (2020), por meio de questionário apli-</p><p>cado a mais de 15 mil cientistas, entre discentes de pós-graduação, pós-dou-</p><p>torandas(os) e docentes/pesquisadores, o qual mostra que, no cumprimento</p><p>dos prazos, 70,4% das mulheres disseram que atingiu bastante o alcance na</p><p>produção de trabalhos científicos (sendo que no caso de mulheres com filhos</p><p>esse percentual é reduzido para 66,6%, e, no caso das sem filhos, aumenta para</p><p>79,9%), enquanto que para os homens o percentual foi de 79,6%. A pesquisa</p><p>mostra também que 18,3% dos homens conseguiram trabalhar remotamente, já</p><p>as mulheres apenas 8%.</p><p>A pesquisa da Parent in Science (2020) mostrou ainda que apenas 49,8%</p><p>das mulheres submeteram artigos científicos conforme o planejado, enquanto</p><p>68,7% dos homens mantiveram o plano. No caso de mulheres com filhos, 52%</p><p>140</p><p>não conseguiram finalizar artigos ou pesquisas. Além disso, a “DADOS, Revista</p><p>de Ciências Sociais” apurou que, no segundo semestre de 2020, apenas 28% dos</p><p>artigos científicos submetidos à revista foram assinados por mulheres, o menor</p><p>número desde 2016, uma vez que a média registrada era de 40,8%.</p><p>Com as aulas suspensas, dados de pesquisas realizadas demonstram que</p><p>as docentes sentiram dificuldades de estruturar as aulas devido à pressão para</p><p>aprender com urgência as estratégias pedagógicas que poderiam ser aplicadas</p><p>remotamente, além de terem que se habituar no manuseio de equipamentos e</p><p>ferramentas tecnológicas, além de pouca interação e participação dos alunos no</p><p>ambiente virtual.</p><p>Além dessa dificuldade de adaptação com essa nova realidade, muitas do-</p><p>centes relatam problemas relacionados a dores físicas, como dores na coluna,</p><p>nos olhos e entre outras partes do corpo, devido à quantidade de horas expos-</p><p>tas à tela do computador ou em outros equipamentos, como comprovado pelo</p><p>relatório de pesquisa: Condições de Trabalho Remoto e Saúde dos/as Docentes</p><p>da UFCG (2021), algumas das situações mencionadas: “O excedido de contato</p><p>com a tela do computador aumentou meus problemas de visão e ampliou minha</p><p>ansiedade” (Depoente). Além de que, segundo o relatório, há pouca interação</p><p>dos alunos no ambiente virtual, tornando as aulas exaustivas, como pode ser</p><p>conferido em um dos depoimentos: “A interação com os estudantes, nem de</p><p>longe se realizaram como nas atividades presenciais, embora fosse sempre facul-</p><p>tado o espaço para o diálogo, para questionamentos e etc. Muitos discentes em</p><p>condições muito precárias de acesso à internet, de moradia e etc.”.</p><p>Em suma, as maiores dificuldades no trabalho remoto home/office foram a</p><p>sobrecargas de atividades, a falta do contato físico que é habitual no cotidiano</p><p>escolar e que promove mais interações dos alunos com os professores, a pre-</p><p>cariedade da internet em muitos lares, a falta de equipamentos adequados, so-</p><p>mado às tarefas domésticas que as mulheres têm que lidar, resultando em uma</p><p>exaustão física e mental.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Com a pandemia o trabalho das mulheres ganhou grande relevância nas</p><p>atividades consideradas essenciais. Vimos através dos estudos que a divisão se-</p><p>xual limita o domínio feminino, negando os espaços públicos e econômicos,</p><p>141</p><p>bem como, a independência financeira e emocional, o que resulta em desigual-</p><p>dades de gênero.</p><p>Os dados analisados demonstram que apesar dos avanços conquistados pe-</p><p>las mulheres, como maior acesso ao nível superior,</p><p>dados do IBGE (2021) apon-</p><p>tam que o nível de escolaridade das mulheres é superior ao dos homens: entre</p><p>eles, 21,5% frequentaram o ensino superior; entre elas, 29,75%; e que, apesar do</p><p>maior ingresso no mercado de trabalho e da aprovação da PEC das Domésticas,</p><p>no ano de 2013 – que gerou um grande avanço no reconhecimento dos direitos</p><p>da categoria –, mas os dados atuais mostram que as desigualdades de gênero</p><p>ainda persistem. As desigualdades raciais, de gênero e de classe, bem como a</p><p>falta de oportunidade no mercado de trabalho são fatores determinantes para</p><p>explicar o grande contingente de pessoas desempregadas no país, sendo as mu-</p><p>lheres negras, as que se encontram em posição de maior vulnerabilidade.</p><p>A casa, por sua vez, torna-se um espaço de hierarquia, de disputas e confli-</p><p>tos de gênero. Essa desigualdade não é natural e está diretamente ligada a ques-</p><p>tões sociais, culturais e étnico-raciais, como o racismo e o sexismo. As desigual-</p><p>dades nas tarefas domésticas não estão apenas condicionadas à mulher, mas a</p><p>um trabalho social. Isso reproduz uma imagem em torno da mulher de que seu</p><p>local de ocupação é em casa, como reprodutora e inserida numa mesma estrutu-</p><p>ra patriarcal, essa percepção encontra na sociedade capitalista um terreno fértil</p><p>para sua perpetuação.</p><p>O modo como a opressão masculina incide sobre as mulheres faz jus às</p><p>movimentações feministas, pois, apesar do ingresso da mulher no mercado de</p><p>trabalho, o alcance aos direitos e oportunidades, como também as restrições,</p><p>opressivas impostas pelo sexo, descrevem a luta pela garantia à igualdade com</p><p>os homens em todos âmbitos da sociedade. Em face dessa disputa das mulhe-</p><p>res pela igualdade entre os sexos. As análises sobre as desigualdades de gênero</p><p>indagam discussões acerca de status, prestígio e poder. Essa desigualdade não</p><p>é natural e está diretamente ligada a questões sociais, culturais e étnico-raciais,</p><p>como o racismo e o sexismo.</p><p>Assim sendo, a subalternidade, o preconceito e a discriminação que per-</p><p>meiam a inserção das mulheres em ocupações mais rotineiras e repetitivas, com</p><p>baixa qualificação, constituem-se enquanto mecanismos de impossibilidade</p><p>para a realização e emancipação destas no mundo do trabalho. O mundo priva-</p><p>do (doméstico) é considerado o lugar natural da mulher, e a sua entrada na es-</p><p>142</p><p>fera pública, por consequência do trabalho ou de qualquer outro tipo de prática</p><p>social e política, é marcada pela divisão sexual do trabalho, na sociedade.</p><p>Através dos estudos, pudemos observar que, apesar de tantas mudanças</p><p>ocorridas no mercado de trabalho, a divisão sexual do trabalho é reforçada e</p><p>apropriada pelo capital na medida em que o trabalho feminino é incorporado ao</p><p>processo produtivo sob condições precárias e deterioradas, à desigualdade sala-</p><p>rial e ao acesso à qualificação. As mulheres são tidas como menos protegidas e</p><p>mais vulneráveis que os homens, ou seja, podemos constatar que a inserção das</p><p>mulheres no mercado de trabalho continua sendo marcada pelas desigualda-</p><p>des de gênero e raça, pela sobrecarga doméstica e pelas atividades relacionadas</p><p>aos cuidados com as pessoas. Levando em conta esses elementos, a pesquisa do</p><p>IPEA (2021) destaca que as mulheres se encontram, historicamente, em situação</p><p>de grande desvantagem nos indicadores de participação do mercado de traba-</p><p>lho. Destaca também que, com a chegada da pandemia da COVID-19, a situa-</p><p>ção ficou ainda mais grave e a proporção de mulheres ocupadas formalmente,</p><p>no mercado de trabalho, chegou a um patamar abaixo de 40%.</p><p>A pandemia realçou fortemente a precariedade e vulnerabilidade que mi-</p><p>lhares de mulheres enfrentam no Brasil. As jornadas de trabalho se intensifica-</p><p>ram para as mulheres docentes que transitaram para o trabalho remoto home/</p><p>office, havendo sobrecargas de atividades e agravando problemas que as docen-</p><p>tes universitárias já vinham enfrentando, antes mesmo da chegada da pande-</p><p>mia, pela cobrança de produtividade imposta nas instituições de ensino, desde</p><p>os anos 1990, bem como pela precarização das condições de trabalho vivenciada</p><p>nos últimos tempos. Além disso, a desvalorização do trabalho docente, das uni-</p><p>versidades públicas e da ciência, por parte do atual governo federal, bem como</p><p>a falta de reconhecimento profissional, são aspectos que vêm agravando as con-</p><p>dições de trabalho das mulheres docentes, com reflexos diretos na saúde, como</p><p>é o caso do cansaço, esgotamento, depressão, síndromes do pânico e do medo,</p><p>entre outros problemas físicos e mentais.</p><p>Finalizando, destacamos a importância das lutas das mulheres por espaços</p><p>mais igualitários e livres de preconceitos, de precarização, de exploração e por</p><p>melhores condições de trabalho e igualdade salarial, bem como contra as rela-</p><p>ções de poder presentes na estrutura patriarcal da sociedade capitalista, uma vez</p><p>que a ocupação de mulheres em postos de trabalho, adquirindo o seu salário e</p><p>se ausentando do trabalho doméstico, causa tensões, como alega Adichie (2017,</p><p>143</p><p>p.33): “estamos tão condicionados a pensar o poder como coisa masculina que</p><p>uma mulher poderosa é um absurdo. Julgamos as poderosas com mais rigor do</p><p>que os poderosos”. Nessa perspectiva e seguindo os passos de Simone de Beau-</p><p>voir (2009), a fragilidade feminina é uma invenção do patriarcado; desse modo e</p><p>parafraseando a filósofa, que nada limite nenhuma mulher em suas conquistas,</p><p>que nada as sujeite e que a liberdade seja a sua própria substância, pois as mu-</p><p>lheres apenas precisam ser tratadas como seres humanos iguais.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>ADICHE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: um manifesto. São Paulo:</p><p>Companhia das Letras, 2017.</p><p>ANTUNES, Ricardo. Coronavírus: o trabalho sobre fogo cruzado. São Paulo: Editora Boitempo,</p><p>2020.</p><p>BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.</p><p>BEZERRA, Elaine; CORTELETTI, de Fátima Roseli; ARAÚJO Iara Maria. Relações de trabalho</p><p>e desigualdades de gênero na indústria têxtil e de confecções do nordeste. (2020). 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Desse modo, direitos políticos, atividade pública</p><p>era algo inalcançável para as mulheres.</p><p>Ainda que houvesse todos esses tipos de restrições e proibições, as mu-</p><p>lheres, ainda que de forma clandestina, sob ameaças e julgamentos, nunca dei-</p><p>xaram de estarem presentes nas lutas sociais. Ao longo dos anos a contestação</p><p>desse lugar social a elas atribuído e a organização e mobilização em torno da</p><p>desconstrução desses limites e proibições, permitiram que as mulheres conquis-</p><p>tassem as mais variadas posições e espaços dentro da esfera social.</p><p>Nesse contexto de luta dos movimentos de mulheres e feministas, estas</p><p>adentraram no mercado de trabalho, em funções e posições antes delegadas ex-</p><p>clusivamente aos homens, tiveram direito ao voto e a serem votadas, reivindica-</p><p>ram a criação de políticas públicas específicas às suas demandas e necessidades,</p><p>a exemplo do enfrentamento constante à violência contra a mulher.</p><p>A inserção e participação de mulheres na vida pública e política, sobre-</p><p>tudo a partidária, vai de encontro e incomoda o lugar de privilégio ocupado</p><p>pelos homens por décadas. Assim, ainda que saibamos que as mulheres se en-</p><p>contram em um quadro de sub-representação na política – elas ocupam pouco</p><p>mais de 15% dos lugares na Câmara de Deputados, por exemplo – estas ao longo</p><p>dos anos, através de lutas diárias, foram impondo sua presença, ocupando luga-</p><p>res que também são seus por direito, tornando-se protagonistas em um cenário,</p><p>até pouco tempo, majoritariamente masculino.</p><p>Diante desse contexto, pesquisadores e ativistas têm, nos últimos anos cha-</p><p>1 Professora Titular de Antropologia da Universidade Federal de Campina Grande, doutora em Sociologia pelo Pro-</p><p>grama de Pós-Graduação em Sociologia da UFC – Universidade Federal do Ceará, líder do Grupo de Pesquisa do</p><p>CNPq: Antropologia da Política: Cultura Midiática e Práticas Políticas e Coordenadora do Laboratório de Cultura,</p><p>Mídia e Política – LECMIPO, da UFCG. E-mail: ecalima@terra.com.br</p><p>2 Mestre e Doutoranda em Ciências Sociais junto ao PPGCS/UFCG. Membro do Grupo de Pesquisa do CNPq: An-</p><p>tropologia da Política: Cultura Midiática e Práticas Políticas e membro do Laboratório de Cultura, Mídia e Política</p><p>– LECMIPO, da UFCG. E-mail: a.paulagn@gmail.com</p><p>146</p><p>mado a atenção para a visibilidade de um fenômeno: a violência política contra</p><p>mulheres que, dependendo da literatura escolhida, é chamada de violência polí-</p><p>tica de gênero ou, ainda, violência política sexista. As discussões em torno desse</p><p>tema trazem esse tipo de violência como algo específico dentro do conceito geral</p><p>de violência, ou ainda dentro das já tipificadas violência de gênero ou violência</p><p>doméstica.</p><p>Esta se caracterizaria pela tentativa de inibir a participação de mulheres</p><p>na política, tanto no processo de candidatura, como posteriormente, no exer-</p><p>cício de um mandato, através de diferentes tipos de assédio, de xingamentos,</p><p>estigmatização, exposição da vida sexual e afetiva, restrições à atuação e à voz</p><p>das mulheres, tratamento desigual por parte dos partidos. Este tipo de violência</p><p>pode ocorrer de maneira individual ou em grupo, em qualquer espaço da vida</p><p>pública e política e, também, através dos meios de comunicação. Por se tratar de</p><p>uma tipologia ainda pouco conhecida e discutida, este artigo propõe algumas</p><p>considerações preliminares quanto à violência política de gênero, na tentativa</p><p>de aprofundar o debate e assim promover a desconstrução e desnaturalização</p><p>desse fenômeno.</p><p>Não é demais afirmar que este tipo de violência ocorre com mulheres de</p><p>todas as origens e trajetórias, de maneira distinta, em toda parte do mundo. No</p><p>entanto, este debate tem ganhado força na América Latina, Archenti e Abaine</p><p>(2013), Cerva Cena (2014), Krook e Restrepo Sanín (2016), podem ser citadas</p><p>como as mais recentes e relevantes produções acadêmicas e científicas sobre o</p><p>tema em tela. No Brasil, Marlise Matos (2021) é uma das pesquisadoras que</p><p>tem se empenhado nas discussões e produções envolvendo o tema da violência</p><p>política contra as mulheres.</p><p>A VIOLÊNCIA DE GÊNERO ENQUANTO CONCEITO TEÓRICO E DE</p><p>INVESTIGAÇÃO</p><p>O conceito violência de gênero, em sua amplitude de sentido e análise, mui-</p><p>tas vezes pode ser utilizado como sinônimo de violência doméstica, intrafami-</p><p>liar ou ainda, violência contra a mulher, já que em sua maioria, não se tratando</p><p>de uma regra, as mais frequentes vítimas desse tipo de violência, são as mu-</p><p>lheres. No caso da violência política e de gênero aqui discutidas, elas também</p><p>figuram a maioria, ainda que possam ser identificados homens LGBTQI, como</p><p>147</p><p>alvos dessa prática.</p><p>Nesse sentido, a violência de</p><p>gênero deve ser entendida como um amplo</p><p>campo teórico e de investigação. Para Araújo (2008), a violência de gênero se</p><p>produz e se reproduz nas relações de poder, onde categorias de gênero, de raça</p><p>e de classe são incorporadas. Trata-se de uma forma de violência global que tem</p><p>como base a ordem patriarcal, que concede aos homens um poder e direito de</p><p>dominação sobre as mulheres, sendo permitidos a estes o uso da violência em</p><p>suas diversas formas. Nessa perspectiva, a referida autora compreende a ordem</p><p>patriarcal como elemento fundamental para a produção e manutenção da vio-</p><p>lência de gênero, imprimindo assim legitimidade à desigualdade nas represen-</p><p>tações de gênero internalizadas por homens e por mulheres.</p><p>Para além dessa compreensão, baseada na ordem patriarcal e na dominação</p><p>masculina, autoras feministas empregam outro meio analítico para refletirem</p><p>sobre a violência de gênero. Scott (1995) analisa a categoria de gênero como</p><p>algo relacional, uma construção social das diferenças percebidas entre os sexos,</p><p>fundamental para dar legitimidade e sentido às relações de poder. O gênero,</p><p>como categoria analítica, possibilitou a desconstrução de “verdades universais”</p><p>baseadas nas diferenças biológicas. Desse modo, se o gênero é algo relacional,</p><p>o poder masculino não pode ser absoluto, as mulheres também detêm parce-</p><p>las desse poder, em proporções desiguais que nem sempre são suficientes para</p><p>frear/acabar com a violência e dominação que sofrem.</p><p>Como dito, a amplitude do conceito de violência de gênero e seus va-</p><p>riados usos semânticos, dependem das escolhas empíricas e teóricas feitas,</p><p>implicando em desdobramentos analíticos e práticos variados. Quanto a isso</p><p>Bandeira (2014), afirma que a escolha do termo violência de gênero, implica</p><p>no entendimento de ações violentas que são produzidas em espaços e contextos</p><p>relacionais, interpessoais, com cenários sociais e históricos não uniformes.</p><p>A centralidade das ações violentas incide sobre a mulher, quer sejam es-</p><p>tas violências físicas, sexuais, psicológicas, patrimoniais ou morais, tan-</p><p>to no âmbito privado-familiar como nos espaços de trabalho e públicos.</p><p>Não se trata de adotar uma perspectiva ou um olhar vitimizador em re-</p><p>lação à mulher, o que já recebeu críticas importantes, mas destacar que</p><p>a expressiva concentração deste tipo de violência ocorre historicamente</p><p>sobre os corpos femininos e que as relações violentas existem porque as</p><p>relações assimétricas de poder permeiam a vida rotineira das pessoas.</p><p>148</p><p>(BANDEIRA, 2014, p.451)</p><p>Para a autora, os recorrentes casos de violência de gênero, aqui em específi-</p><p>co, a violência política de gênero, mostram que a ordem tradicional não se altera,</p><p>padrões e valores sexistas se ressignificam, se remodelam, no entanto, não são</p><p>eliminados. Os padrões sociais de gênero, do que é ser masculino e o que é ser</p><p>feminino, se organizam dentro de disputas simbólicas e materiais, que podem</p><p>operar em espaços privados, como o doméstico e serem também reproduzidos</p><p>em outras esferas, espaços públicos, institucionais, como o da política. O uso do</p><p>termo violência de gênero instituiu-se como categoria analítica que por sua vez</p><p>“remete aos lugares sociais sexuados, expõe as múltiplas desigualdades, às quais</p><p>as mulheres estão presas, e possibilita uma interação face a face, envolvendo a</p><p>ordem simbólica”. (BANDEIRA, 2014, p.261).</p><p>Dentro dessa perspectiva de dominação masculina, de estruturação pa-</p><p>triarcal, de divisão de pertencimentos ao meio público e ao privado, e também,</p><p>de divisão de papeis sociais de acordo com o gênero, que Saffioti (2001) busca</p><p>compreender a violência de gênero, entendida como um conceito mais amplo,</p><p>no qual dentro do âmbito patriarcal, os homens possuem o poder de determinar</p><p>a conduta das categorias sociais, havendo para eles ressonância e tolerância por</p><p>parte da sociedade. A execução desse projeto dominação/exploração masculi-</p><p>na exige que sua capacidade de mando seja auxiliada pela violência, aqui com-</p><p>preendida como física ou simbólica. As mulheres enquanto categoria social não</p><p>possui um projeto de dominação/exploração dos homens. “O poder masculino</p><p>atravessa todas as relações sociais, transforma-se em algo objetivo, traduzindo-</p><p>-se em estruturas hierarquizadas, em objetos, em senso comum”. (SAFFIOTI,</p><p>2001, p.119).</p><p>Nessa perspectiva, Saffioti (2004), compreende a violência contra a mulher,</p><p>como um fenômeno resultante de uma sociedade e cultura estruturadas em uma</p><p>ordem patriarcal de gênero. Esta reflete uma estrutura de poder, cuja distribui-</p><p>ção é muito desigual em desfavor às mulheres. As mulheres são amputadas no</p><p>desenvolvimento e uso da razão e no exercício do poder, ao contrário, são socia-</p><p>lizadas para serem dóceis e apaziguadoras.</p><p>Ao tratar do termo patriarcado, Saffioti argumenta quanto ao estabeleci-</p><p>mento de um contrato social e também sexual; social no sentido que cria o di-</p><p>reito político dos homens sobre as mulheres, e sexual no sentido de estabelecer</p><p>149</p><p>um acesso sistemático dos homens ao corpo das mulheres. Estas relações pa-</p><p>triarcais, suas hierarquias e estruturas de poder, contaminam a sociedade, não se</p><p>estabelecem apenas no espaço privado: o direito patriarcal contamina também</p><p>o Estado, nesse ínterim, é possível compreender a violência política de gênero.</p><p>Saffioti (2004) oferece ainda algumas distinções entre as categorias de vio-</p><p>lência de gênero, violência doméstica e violência intrafamiliar. A violência de</p><p>gênero trata-se de uma categoria mais geral, mas que não deve ser interpretada</p><p>como aquela que engloba os demais. A desigualdade de gênero é dada pela tra-</p><p>dição cultural, pelas estruturas de poder, está embrincada nas relações sociais.</p><p>“Nas relações entre homens e entre mulheres, a desigualdade de gênero não é</p><p>dada, mas pode ser construída e o é com frequência” (SAFFIOTI, 2004, p.71). A</p><p>violência de gênero pode se estabelecer entre dois homens e também entre duas</p><p>mulheres, no entanto, o mais comum é a violência de gênero perpetrada por</p><p>um homem contra uma mulher (a cultura falocêntrica estabelece esse tipo de</p><p>violência). A violência familiar envolve membros de uma mesma família exten-</p><p>sa ou nuclear, levando-se em conta a consanguinidade e afinidade. A violência</p><p>doméstica atinge também aqueles que não pertencem à família, esta tem lugar:</p><p>se dá no interior do domicílio, no entanto, ocorre também fora dele, e tem gêne-</p><p>ro – o masculino. É importante ressaltar que esses tipos de violência englobam</p><p>a física, psicológica, sexual e moral.</p><p>Estas práticas de violência estão difundidas na sociedade, estão naturaliza-</p><p>das, há uma espécie de consenso social no que se refere à conversão da agressi-</p><p>vidade dos homens em agressão.</p><p>As violências física, sexual, emocional e moral não ocorrem isoladamente.</p><p>Qualquer que seja a forma assumida pela agressão, a violência emocional</p><p>está sempre presente. Certamente, se pode afirmar o mesmo para a moral.</p><p>O que se mostra de difícil utilização é o conceito de violência como rup-</p><p>tura de diferentes tipos de integridade: física, sexual, emocional, moral.</p><p>Sobretudo em se tratando de violência de gênero, e mais especificamen-</p><p>te intrafamiliar e doméstica, são muito tênues os limites entre quebra de</p><p>integridade e obrigação de suportar o destino de gênero traçado para as</p><p>mulheres: sujeição aos homens, sejam pais ou maridos. (SAFFIOTI, 2004.</p><p>p.75)</p><p>A autora argumenta, ainda, que paira na cabeça de todas as mulheres a pos-</p><p>150</p><p>sibilidade, ameaça de agressões masculinas, estas funcionando como um meio</p><p>de sujeição aos homens no estabelecimento das relações de gênero. Com base</p><p>nessas definições do conceito mais amplo e geral de violência e especificamente</p><p>daquela que se volta contra um gênero, o feminino, que o tópico seguinte irá</p><p>discutir a existência da violência política de gênero, direcionada às mulheres que</p><p>pleiteiam ou já exercem algum cargo dentro da vida pública e política.</p><p>A</p><p>partir do que foi exposto, são evidentes os obstáculos culturais e sociais</p><p>que mulheres buscam diariamente desconstruir a fim de se fazerem presentes e</p><p>ativas na vida pública e política. Com isso, ainda que o quadro de sub-represen-</p><p>tação feminina na política, seja uma realidade persistente, a ONU Mulheres e a</p><p>União Interparlamentar, divulgaram em fevereiro de 2017, o ranking referente</p><p>a participação feminina no Parlamento, onde o Brasil ocupa o 154º, com 10,7%</p><p>de mulheres presentes na Câmara dos Deputados e 14,8% no Senado Federal,</p><p>estando atrás de praticamente todos os países da América Latina. Por ordem de</p><p>colocação, a Bolívia está em 2º com 53% na Câmara e 47,2% no Senado, México</p><p>em 8º com 42,6% na Câmara e 36,7% no Senado. Equador em 11º com 41,6%,</p><p>Argentina em 16º com 38,9% na Câmara Baixa e 41,7% na Câmara Alta e o Peru</p><p>em 80º lugar com 27,7%.3 Com o processo eleitoral ocorrido no ano de 2018,</p><p>o quadro de representação legislativa referente às mulheres teve uma pequena</p><p>alteração, para a Câmara dos Deputados, 77 mulheres foram eleitas, num total</p><p>de 513 deputados, significando cerca de 15% de representação. Para o Senado 07</p><p>mulheres foram eleitas, cerca de 13% do total de 81 cadeiras.</p><p>Com as eleições municipais de 2020, o maior número de mulheres candi-</p><p>datas, após a implementação das cotas mínimas de representação, aconteceu</p><p>no citado ano, elas foram pouco mais de 33% das candidatas. Enquanto eleitas,</p><p>também houve um aumento, que ainda assim se apresenta extremamente abai-</p><p>xo do que se espera de uma representação paritária, foram 652 mulheres eleitas</p><p>para os executivos municipais, pouco mais de 12% do total de eleitos.</p><p>No segundo semestre de 2020, levantamento realizado pelo Programa das</p><p>Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pela ONU Mulheres sobre</p><p>direitos políticos das mulheres, coloca o Brasil em 9º lugar entre 11 países da</p><p>América Latina. Os dados foram apresentados pelo projeto ATENEA, meca-</p><p>nismo que tem como objetivo acelerar a participação política de mulheres. Os</p><p>3 Informações no site do Poder360. https://www.poder360.com.br/congresso/brasil-e-140o-em-ranking-de-repre-</p><p>sentacao-feminina-no-legislativo/ Acesso em 25 de novembro de 2021.</p><p>151</p><p>resultados foram obtidos “por meio de um conjunto de indicadores padroniza-</p><p>do, com perguntas orientadas para o levantamento dos dados que alimentam</p><p>o Índice de Paridade Política (IPP). Esse índice mede a situação do exercício</p><p>dos direitos políticos das mulheres sob a perspectiva paritária, a partir de oito</p><p>dimensões de análise e 40 indicadores” (ATENEA: 2020, p. 08). Segundo o do-</p><p>cumento, o Brasil está entre os piores indicadores no que se refere aos direitos</p><p>políticos das mulheres e a paridade política entre homens e mulheres. O ranking</p><p>estabelecido a partir de pontuação obtida através da soma dos indicadores cita-</p><p>dos colocou o Brasil à frente apenas do Chile e do Panamá. Ao todo, participa-</p><p>ram do levantamento os seguintes países: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia,</p><p>Chile, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Peru e Uruguai.</p><p>A partir da leitura dos dados é notória a evidência de que ainda falta muito</p><p>para que se consiga ou pelo menos se aproxime de uma paridade representativa</p><p>entre homens e mulheres na política.</p><p>A VIOLÊNCIA POLÍTICA DE GÊNERO COMO ESTRATÉGIA DE DOMI-</p><p>NAÇÃO</p><p>Entender a violência política sofrida por mulheres, todo o processo de</p><p>subjugação pelo qual estas são submetidas, perpassa pela estruturação de uma</p><p>cultura machista, marcada pela dominação do masculino, no qual tudo aquilo</p><p>que é público, emancipatório, de prestigio, é destinado aos homens, cabendo às</p><p>mulheres o lugar do privado, do cuidado, do que é contido e resguardado. Aos</p><p>homens cabe a fala, a liderança, o destaque, o poder. Às mulheres fica reservado</p><p>o silêncio, a obediência, e a obrigação com tudo àquilo que diz respeito à esfera</p><p>doméstica (do privado).</p><p>Essa divisão de papeis sociais, a divisão sexual do trabalho, acaba por im-</p><p>plicar numa série de obstáculos quanto à entrada e permanência de mulheres na</p><p>vida pública e política (aqui entendida como política formal e partidária). Com</p><p>base nesse contexto, autores das ciências humanas e sociais, se debruçam em</p><p>torno de teorias que nos permitem compreender todo esse processo histórico e</p><p>cultural, no qual lugares de homens e mulheres foram sendo delimitados.</p><p>Beard (2018), traça sua discussão pensando a tradicional literatura ociden-</p><p>tal, especificamente a Odisseia, de Homero, a fim de nos fazer refletir onde co-</p><p>meça (na cultura ocidental), o silenciamento das vozes femininas no âmbito</p><p>152</p><p>público. A autora propõe uma reflexão em torno da existência de uma “barreira</p><p>invisível”, onde uma série de mecanismos são incorporados à cultura ocidental,</p><p>com o intuito de silenciar mulheres, afastando-as assim dos centros de poder</p><p>e decisão. Nesse sentido, é ensinado aos homens que eles têm o controle do</p><p>pronunciamento, do discurso público, assim como também, o “direito” de inter-</p><p>romper ou mesmo silenciar as mulheres.</p><p>Uma visão de longo alcance é oferecida pela autora no que se refere ao que</p><p>ela classifica como a “culturalmente constrangedora relação entre a voz das mu-</p><p>lheres e a esfera pública de discursos, debates e comentários – política em seu</p><p>sentido mais amplo”. (BEARD, 2018, p.20). Seu intento é chamar a atenção para</p><p>o fato de que o “discurso público e a oratória não eram apenas coisas que as</p><p>mulheres não faziam: eram práticas e habilidades que definiam a masculinidade</p><p>como gênero”. (BEARD, 2018, p.28).</p><p>Este se trata de um discurso tradicionalmente estabelecido e do qual ainda</p><p>somos herdeiros. Somos herdeiros do discurso clássico (Antiguidade), o discur-</p><p>so público, a retórica boa ou ruim é baseada nessa época, onde o gênero é uma</p><p>parte importante de sua construção. A fala das mulheres ainda é vista com es-</p><p>tranheza e dúvida, elas são estridentes, se fazem de vítimas, fazem lamúrias. Esse</p><p>tipo de comentário tenta retirar a autoridade e força da fala feminina são termos</p><p>que buscam devolvê-las à esfera doméstica, de sujeição e silencio.</p><p>A autora se preocupa com a necessidade de nos tornarmos mais conscien-</p><p>tes quanto aos processos e preconceitos que produzem essas tentativas de inibir/</p><p>coibir a fala das mulheres. Esses ataques, cerceamentos, muitas vezes ameaças,</p><p>até mesmo a sua integridade física, são estruturantes do que se define como vio-</p><p>lência política de gênero.</p><p>Na esteira dessa discussão sobre desigualdade social e política entre ho-</p><p>mens e mulheres, MIGUEL (2014), consideram este um fenômeno que se apre-</p><p>senta em quase todas as sociedades. O pensamento feminista tem nesse sentido,</p><p>papel crucial no que se refere à denúncia da situação de mulheres como efeito</p><p>de padrões de opressão;</p><p>O debate sobre a dominação masculina nas sociedades contemporâneas</p><p>– ou o “patriarcado”, como preferem algumas – abriu portas para temati-</p><p>zar, questionar e complexificar as categorias centrais por meio das quais</p><p>era pensado o universo da política, tais como as noções de indivíduo, de</p><p>153</p><p>espaço público, de autonomia, de igualdade, de justiça ou de democracia.</p><p>(MIGUEL, 2014, p.17)</p><p>O feminismo tem como base a crítica que vincula a submissão da mulher à</p><p>esfera privada (doméstica) e a sua consequente exclusão da esfera pública (po-</p><p>lítica). A frase de Simone de Beauvoir em sua obra, O Segundo Sexo, “não se</p><p>nasce mulher, torna-se mulher”, pode ser vista como fundadora do feminismo</p><p>contemporâneo. “O Segundo Sexo teve importância por contribuir para a re-</p><p>definição das fronteiras da política, indicando a profunda imbricação entre o</p><p>pessoal e o social, o público e o privado”. (MIGUEL, 2014, p.28). O pensamento</p><p>feminista é fundamental para a reflexão entre a dualidade da esfera pública e da</p><p>esfera privada, compreendê-la histórica e politicamente, nos permite enxergar</p><p>as diferentes implicações quanto às posições sociais ocupadas por homens e por</p><p>mulheres.</p><p>A esfera pública e a privada na modernidade se definiriam, respectivamen-</p><p>te, uma com base em princípios universais, na razão e na impessoalidade, e a</p><p>outra nas relações de caráter pessoal e íntimo. A construção e atribuição de es-</p><p>tereótipos de gênero às mulheres as colocaram como naturalmente dedicadas</p><p>à esfera doméstica e familiar, qualquer outro tipo de comportamento que fosse</p><p>contrário ao pressuposto, seria valorado como desvio. A despeito dessa divisão</p><p>que impõe expressamente lugares diferenciados, Biroli (2014) acrescenta que:</p><p>A separação entre as esferas é vista como ficção, dado que a posição em</p><p>uma, com as vantagens e as desvantagens a ela associadas, tem impacto</p><p>nas alternativas que se desenham e nas relações que se estabelecem na</p><p>outra. As barreiras para o exercício do trabalho remunerado fora da esfera</p><p>doméstica, especialmente para as posições de maior autoridade, de maior</p><p>prestígio e maiores vencimentos, estão associadas ao tempo que a mulher</p><p>despende no trabalho não remunerado, na esfera doméstica. (BIROLI,</p><p>2014, p.35)</p><p>As dificuldades de inserção e de permanência de mulheres nos espaços de</p><p>poder, no espaço da política, está intrinsicamente relacionado a essa divisão de</p><p>papéis. A sobrecarga com o ambiente doméstico, imposta às mulheres, muitas</p><p>vezes não lhe oferece as condições necessárias e igualitárias de alcance de uma</p><p>vida pública. Para tanto, a redefinição dessas esferas e a relação entre as mesmas,</p><p>154</p><p>é necessária, pois deste modo, se garante justiça social, permitindo assim que</p><p>o acesso a qualquer uma delas, não seja definido ou hierarquizado pelo sexo.</p><p>Essa desconstrução implica diretamente em igualdade de oportunidades para</p><p>que homens e mulheres disputem, participem e construam, legitimamente, uma</p><p>vida pública e política.</p><p>A VIOLÊNCIA POLÍTICA DE GÊNERO</p><p>A presença e a participação de mulheres na política – aqui entendida como</p><p>partidária e institucional – é uma realidade, o quadro de sub-representação no</p><p>qual estão inseridas, também. Nesse sentido, é importante pensarmos a prática</p><p>da violência política de gênero, em toda sua extensão, como um fenômeno dire-</p><p>tamente relacionado à situação de sub-representação feminina. Os autores que</p><p>se dedicam a investigação e teorização de tal fenômeno concordam que ainda</p><p>que em números desproporcionais e desiguais, as mulheres nas últimas décadas</p><p>têm participado cada vez mais de forma ativa e qualificada do cenário político.</p><p>Desse modo, também, tem cada vez mais incomodado e causado estranheza</p><p>àqueles não habituados a dividir um espaço que historicamente, culturalmente</p><p>e socialmente, se instituiu como masculino.</p><p>Essa maior presença, por muito indesejada, cria e recria um tipo de vio-</p><p>lência direcionado especificamente a elas, seja na condição de candidatas ou de</p><p>mulheres eleitas: a violência política de gênero.</p><p>A literatura acadêmica, sobretudo, na América Latina, tem definido esse</p><p>tipo de violência, em termos de violência física, e também sexual, psicológica,</p><p>simbólica e econômica ou patrimonial, que engloba agressões, ameaças, dife-</p><p>rentes tipos de assédio, estigmatização, exposição da vida sexual e afetiva, res-</p><p>trição à atuação e fala das mulheres, tratamento desigual por parte dos partidos</p><p>– a verba destinada pelos fundos partidários para as candidaturas femininas são</p><p>consideravelmente menores do que aquelas destinadas as candidaturas mascu-</p><p>linas, ainda que os partidos sejam hoje obrigados por lei a destinar 10% dessa</p><p>verba para as campanhas de mulheres.</p><p>Esse tipo de violência que recaí sobre as mulheres políticas (tanto na políti-</p><p>ca institucional/partidária, como no ativismo), tem como objetivo constranger,</p><p>barrar, diminuir, limitar, deslegitimar a atuação de mulheres num espaço que foi</p><p>socialmente atribuído como de privilégio dos homens.</p><p>155</p><p>As autoras Krook e Sánín (2016), veem a violência contra as mulheres na</p><p>política como uma ruptura da democracia, que tenta sistematicamente impedir</p><p>um setor da população de exercer seus direitos políticos. Para as autoras, se trata</p><p>de algo que viola os direitos humanos das mulheres, além de ser uma discrimi-</p><p>nação baseada no sexo e no gênero:</p><p>La violência contra las mujeres en la política puede entenderse como una</p><p>forma de discriminación contra la mujer en el ámbito político, que res-</p><p>tringe el acceso a los derechos y libertades en función del sexo, y bus-</p><p>ca mantener relaciones de poder desiguales entre hombres y mujeres.</p><p>(KROOK & SANÍN apud PINHO, 2020, p.478)</p><p>Tomando como base as definições de Krook e Sanín (KROOK & SANÍN</p><p>apud PINHO: 2020), a violência política de gênero pode ser pensada em cinco</p><p>ações: a violência física compreende aquela que atinge a integridade física de</p><p>uma mulher ou de algum familiar, com vista a atacá-la, incorporando assim</p><p>também, a violência sexual. A violência psicológica se refere à ocorrência de</p><p>danos à saúde mental/emocional, aos atos que tem como objetivo inferiorizar/</p><p>prejudicar socialmente as mulheres. A violência econômica ou patrimonial se</p><p>define como a limitação ou diminuição do acesso de mulheres aos recursos fi-</p><p>nanceiros, que para os homens estão facilmente acessíveis. A violência simbó-</p><p>lica por elas apresentada, baseia-se na definição dada por Bourdieu (2007), um</p><p>meio disciplinador que permite aos homens sua manutenção de poder na hie-</p><p>rarquia social. Os estereótipos de gênero são recursos utilizados nesse sentido,</p><p>para deslegitimar a atuação de mulheres na política.</p><p>No Brasil, Marlise Matos trouxe o tema da violência política de gênero (ou</p><p>sexista) para o debate político acadêmico no I Encontro Nacional da Rede de</p><p>Pesquisa e Feminismos e Política na UNB, em fevereiro de 2018. Em uma de</p><p>suas contas pessoais, em uma mídia digital, a pesquisadora definiu esse tipo</p><p>de violência como uma “forma de violência baseada no gênero com vistas à</p><p>manutenção dos privilégios masculinos nesse campo político”. A mesma ainda</p><p>coloca que esta se baseia na interrupção/ cerceamento da fala feminina e na ma-</p><p>nipulação psicológica para que haja desestabilização. Ainda há o repúdio, o re-</p><p>chaçamento à própria figura feminina, baseados em argumentos e construções</p><p>machistas.</p><p>156</p><p>Devido a recorrência destes episódios de violência política direcionados</p><p>às mulheres, alguns países têm aprovado legislação específica com o intuito de</p><p>combater esse fenômeno. O primeiro desses países foi a Bolívia, com a Lei 243</p><p>– Ley Contra el Acoso y Violencia Política Hacia las Mujeres, aprovada em maio</p><p>de 2012 e que define como crimes o assédio e a violência política contra mulhe-</p><p>res.</p><p>No México, a violência política de gênero foi tipificada na reforma da legis-</p><p>lação referente à violência contra as mulheres – Ley General de Acceso de las</p><p>Mujeres a Una Vida Libre de Violencia e no Código Federal de Instituciones y</p><p>Procedimientos Electorales, aprovados em 2013 pelo Senado. O Tribunal Elec-</p><p>toral del Poder Judicial de la Federación (TEPJF) do México, no ano de 2016,</p><p>divulgou um documento para esclarecer quando a violência política contra as</p><p>mulheres se baseia no gênero:</p><p>1. Se dirige o se ejerce sobre una mujer por ser mujer, tiene un impacto di-</p><p>ferenciado y/o afecta desproporcionadamente a las mujeres. 2. Tiene por</p><p>objeto o resultado menoscabar o anular el reconocimiento, goce y/o ejer-</p><p>cicio de los derechos político-electorales de las mujeres. 3. Es simbólico,</p><p>verbal, patrimonial, económico, físico, sexual y/o psicológico. 4. Se da en</p><p>el marco del ejercicio de derechos político-electorales o en el ejercicio de</p><p>un cargo público (sin importar el hecho de que se manifeste en el ámbito</p><p>público o privado, en la esfera política, económica, social, cultural, civil,</p><p>etcétera; tenga lugar dentro de la familia o unidad doméstica o en cual-</p><p>quier relación interpersonal, en la comunidad, en un partido o institución</p><p>política). 5. Es perpetrado por el Estado, colegas de trabajo, superiores je-</p><p>rárquicos, partidos</p><p>políticos, medios de comunicación, un particular y/o</p><p>un grupo de personas. (DIOS, 2016, p.73)</p><p>Igualmente no ano de 2016 o Peru aprovou o Plano Nacional Contra la</p><p>Violencia de Género (Decreto nº 8, 2016), que contempla a violência física, psi-</p><p>cológica, econômica ou patrimonial e sexual:</p><p>No decreto, essa modalidade corresponde a ‘qualquer ação, conduta ou</p><p>omissão entre outros, baseada em seu gênero, de forma individual ou gru-</p><p>pal, que tenha como objeto ou por resultado menosprezar, anular, impe-</p><p>dir, obstaculizar ou restringir seus direitos políticos, contrariando o di-</p><p>157</p><p>reito das mulheres a uma vida livre de violência e o direito das mulheres</p><p>a participar nos assuntos políticos e públicos em condições de igualdade</p><p>com os homens’.4</p><p>No Brasil, diante um quadro de intensificação e recorrência da violência</p><p>política de gênero, sobretudo, a partir das eleições do ano de 2018, a Câmara dos</p><p>Deputados, através da Secretaria da Mulher e da Primeira Secretaria, em dezem-</p><p>bro de 2019, promoveu discussões e campanha de enfrentamento a esse tipo de</p><p>prática. Desde então o canal “Ligue 180” foi escolhido para receber denúncias</p><p>relacionadas a esse tipo de violência, o “Fale Conosco” da Câmara é também</p><p>um meio que pode ser utilizado para o mesmo fim. Todo ato que tenha como</p><p>objetivo excluir, impedir ou restringir o acesso de mulheres ao espaço público,</p><p>ou ainda induzi-las a decisões contrárias a sua vontade, é caracterizado como</p><p>violência política de gênero.</p><p>A violência pode ocorrer tanto no meio virtual – por meio de ataques em</p><p>suas páginas pessoais na rede, Fake News – como também no meio físico – na</p><p>rua, em plenária, em eventos públicos – podem ainda sofrerem ataques na vi-</p><p>vência com seus próprios partidos como também dentro de suas casas. A vio-</p><p>lência política de gênero se constrói de maneira gradativa, através da prática de</p><p>diversas ações apresentadas durante toda essa discussão. Enquanto candidatas</p><p>elas estão sujeitas a essa violência principalmente, por meio de ameaças, inter-</p><p>rupções, desqualificação de sua conduta, violação de sua intimidade, difamação</p><p>e ainda, desvio de recursos financeiros de suas candidaturas para candidaturas</p><p>masculinas.</p><p>É importante frisar que essas ações não se limitam a mulheres em situa-</p><p>ção de campanha, mulheres que já ocupam um cargo político, também estão</p><p>propensas a tais situações. Na condição de eleitas, o que também pode ocorrer,</p><p>como as não indicações a comissões como titulares ou líderes de seu partido, a</p><p>interrupção constante em seus lugares de fala, a exclusão de debates, o questio-</p><p>namento quanto a sua forma de se vestir ou a sua aparência física, além da expo-</p><p>sição e julgamento de aspectos referentes a sua vida íntima e privada – o estado</p><p>civil das mulheres, seus relacionamentos amorosos e a maternidade, constan-</p><p>temente se tornam pauta em detrimento da sua trajetória e atuação enquanto</p><p>4 Consultar: blogdaboitempo.com.br/2016/08/12/violência-politica-contra-as-mulheres/ . Acesso em 04 de setem-</p><p>bro de 2021.</p><p>158</p><p>mulher pública e política.</p><p>O acirramento do período eleitoral e da disputa pelo poder acaba por gerar</p><p>a violência política/eleitoral, que recai sobre homens e sobre mulheres. Ao con-</p><p>trário do que ocorre com a violência política de gênero que ataca mulheres na</p><p>sua condição de mulher, enquanto gênero e não enquanto indivíduo ou sujeito</p><p>político, como ocorre com os homens. Esta se volta aos corpos das mulheres,</p><p>se estrutura nos estereótipos de gênero e na definição e delimitação de papeis</p><p>sociais tradicionais.</p><p>Em agosto do ano de 2020, a fim de comemorar os 12 anos da Lei Maria da</p><p>Penha (11.340), a Procuradoria da Mulher do Senado Federal, em parceria com</p><p>a Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, debateram a violência polí-</p><p>tica dirigida às mulheres. No Brasil, ainda não existe nenhum tipo de lei ou de</p><p>punição frente a esse tipo específico de violência. Há um PL 349/2015 de autoria</p><p>da deputada Rosângela Gomes, no sentido de coibir os preconceitos voltados às</p><p>mulheres desde que se candidatam.</p><p>A VIOLÊNCIA POLÍTICA DE GÊNERO EXPRESSA NA PRÁTICA</p><p>A prática política de mulheres no Brasil tem com frequência sido permeada</p><p>pela violência política de gênero. A deputada Maria do Rosário, por exemplo,</p><p>no ano de 2014, foi vítima de agressão proferida pelo também deputado, Jair</p><p>Bolsonaro, que durante uma discussão no plenário da Câmara dos Deputados,</p><p>afirmou que só não a estupraria porque a mesma não merecia. Em entrevista a</p><p>um jornal do Rio Grande do Sul, o deputado reafirmou sua fala, dizendo que a</p><p>mesma não merecia “por ser muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu</p><p>gênero, jamais a estupraria.”5</p><p>A ex-presidenta Dilma Vanna Rousseff, principalmente na metade de seu</p><p>segundo mandato e durante o de impeachment, que através de um golpe culmi-</p><p>nou na sua saída da presidência, no dia 31 de agosto de 2016, foi, por diversas</p><p>vezes, alvo de violência política de gênero, fosse por manifestantes nas ruas, seus</p><p>pares na política, ou ainda, pelos meios de comunicação hegemônicos, os xinga-</p><p>mentos de “vaca”, “louca”, “gorda”, “bruxa”, “incompetente”, dirigidos a ela, foram</p><p>constantes. Questionamentos por parte dos veículos de comunicação quanto</p><p>5 Consultar a link: https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-em-25-frases-polemicas/.</p><p>Acesso em 03/07/2021.</p><p>159</p><p>a sua vida privada e sexual, relacionando à sua atuação enquanto presidenta,</p><p>também foram recorrentes. Alguns jornalistas chegaram a afirmar que o proble-</p><p>ma da presidenta seria falta de um marido, ou de uma vida sexualmente ativa.</p><p>Outros, a colocaram como histérica e até esquizofrênica.6</p><p>A figura da ex-presidenta requer destaque, por se tratar do cargo mais alto</p><p>na hierarquia do poder executivo, além de ter sido nesta ocasião, a primeira vez</p><p>em que uma mulher foi eleita e reeleita presidenta (2010-2014 primeiro manda-</p><p>to, 2014-2016, interrompido através do processo de impeachment). Dilma Rou-</p><p>sseff teve sua saída do poder envolta em uma construção midiática, jurídica e</p><p>parlamentar e de todo um discurso misógino e sexista, que demarca com clareza</p><p>a violência política de gênero. A ex-presidenta foi associada aos mais variados</p><p>estereótipos de gênero, a mulher que foge completamente ao padrão social de</p><p>feminilidade, a mulher destemperada e emocionalmente instável. Foi recorren-</p><p>temente posto em suspeição a sua capacidade enquanto gestora, se ela teria as</p><p>condições necessárias para a ocupação do cargo, além das diversas especulações</p><p>quanto a sua sexualidade e vida íntima. As agressões dirigidas a ela, tanto ver-</p><p>bais como visuais, se relacionavam a violência contra o corpo feminino, através</p><p>dos mais variados xingamentos de gênero.</p><p>Em manifestações contrárias ao governo da presidenta, na época ainda em</p><p>processo de afastamento, Lima (2020), aponta alguns dos termos mais usados</p><p>para se referir a Dilma Rousseff: “vaca”, “puta”, “arrombada”, “Dilma vadia”, “Dil-</p><p>ma sapatão”, todos estão relacionados a condição de gênero e tem como objetivo</p><p>atingir, desqualificar, inferiorizar e violentar a mulher enquanto mulher. A auto-</p><p>ra afirma ainda, que a utilização de tais termos, se ancoram na desconstrução do</p><p>outro, na desqualificação de seu lugar social enquanto indivíduo, que a coloca</p><p>em uma espécie de limbo, de não-lugar. (LIMA, 2020)</p><p>Um dos casos de violência simbólica e sexual, que causa repúdio, ocor-</p><p>reu ainda durante o seu governo, com a circulação de adesivos, em forma de</p><p>“protesto”, devido a um aumento no preço dos combustíveis, onde a partir de</p><p>uma montagem com o rosto da presidenta Dilma, ela aparecia com as pernas</p><p>abertas. O adesivo que foi colocado na entrada do tanque de abastecimento dos</p><p>veículos, quando abastecidos pela bomba de gasolina, a mesma parecia penetrar</p><p>sexualmente a presidenta. Em tal adesivo é clara a tentativa de naturalização da</p><p>6 Sobre a misoginia e violência política de gênero dirigidas a Dilma Rousseff</p><p>ler o artigo: LIMA. Elizabeth Christina</p><p>de Andrade. Misoginia e estereótipos de gênero na construção da imagem pública de Dilma Rousseff. Revista</p><p>Eletrônica Vivência, V.1, n° 56, PPGA/UFRN, Natal, 2020.</p><p>160</p><p>violência contra a mulher, que merece ser punida, estuprada, por ter aumentado</p><p>o valor da gasolina. Interessante observar, que passados anos da saída do gover-</p><p>no e este ter sido assumido por dois homens, Michel Temer e Jair Bolsonaro, e a</p><p>gasolina ter aumentado, só no ano de 2021, mais de seis vezes, nenhum adesivo</p><p>com bombas penetrando os presidentes citados foi produzido e dado a público</p><p>para serem comercializados pelo “Mercado Livre”, como foi com Dilma Rous-</p><p>seff:</p><p>A violência simbólica de tal adesivo é tão evidente que chega a ser cruel. O</p><p>adesivo simula inclusive algo que deveria ter recebido o repúdio de todas</p><p>as mulheres, porque ele simula um estupro e nesse caso, um estupro co-</p><p>letivo. Simbolicamente é como se Dilma, ao ser coletivamente estuprada</p><p>estivesse sendo punida por não ser capaz de conseguir impedir o aumento</p><p>do preço da gasolina. (LIMA, 2020, p.265)</p><p>As agressões dirigidas à ex-presidenta seja na forma de discurso de ódio</p><p>nas redes sociais, em frases e xingamentos misóginos em cartazes durante ma-</p><p>nifestações, em charges ou montagens, enfim, em uma série de ferramentas que</p><p>buscavam desqualificar e estigmatizar a figura da mulher Dilma Rousseff, foi</p><p>uma constante em grande parte de seu governo. A violência política de gênero</p><p>funciona como um mecanismo eficiente que persegue mulheres que buscam seu</p><p>direito democrático e constitucional de ocuparem os espaços de poder. A vio-</p><p>lência política de gênero busca as intimidar na tentativa de mantê-las afastadas</p><p>do meio da política, implicando assim na manutenção do status quo do mascu-</p><p>lino na esfera pública e política.</p><p>A violência política sexista tomou proporções enormes, a ponto da ONU</p><p>Mulheres emitir nota mostrando-se preocupada com o contexto político brasi-</p><p>leiro e condenando esse tipo de violência.</p><p>A ONU Mulheres condena todas as formas de violência contra as mulhe-</p><p>res, inclusive a violência política de ordem sexista contra a Presidenta da</p><p>República Dilma Rousseff [...] Nenhuma discordância política ou protesto</p><p>pode abrir margem e/ou justificar a banalização da violência de gênero –</p><p>prática patriarcal e misógina que invalida a dignidade humana. (Nadine</p><p>Gazman – Representante da ONU Mulheres Brasil - 2016).</p><p>161</p><p>Na expressão máxima da violência, a cientista política e pesquisadora, Flá-</p><p>via Birolli, enxerga o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), mor-</p><p>ta com quatro tiros, para além de outras motivações que até hoje não foram</p><p>esclarecidas, como o ápice da violência física provocada pela violência política</p><p>de gênero. Para a pesquisadora, Marielle atuava o tempo todo enquanto mulher</p><p>negra, lésbica e periférica, perfil incomum nos espaços de poder: “o assassinato</p><p>de Marielle não apenas é violência política, carrega os marcadores de gênero que</p><p>vitimizam seus pares diariamente pelo mundo”.7</p><p>Outro episódio recente que reflete a violência política de gênero, ocorreu</p><p>em junho de 2018, durante entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura,</p><p>com a então pré-candidata à presidência da República, Manuela D’Ávila do PC-</p><p>doB, interrompida 62 vezes pelos entrevistadores, na tentativa de responder aos</p><p>seus questionamentos. Quando comparada à participação do também candida-</p><p>to Ciro Gomes do PDT, os números se tornam ainda mais visível, o candidato só</p><p>teve sua fala interrompida por 08 vezes.8</p><p>A trajetória percorrida por mulheres a fim de assegurar de maneira iguali-</p><p>tária seu espaço na vida pública e política, é longa e repleta de lutas, de quebra</p><p>de padrões e convenções, de julgamentos, de lágrimas e até de sangue. É um pro-</p><p>cesso árduo, contínuo e ainda repleto de obstáculos e dificuldades, no entanto,</p><p>as mulheres, ao longo de décadas, tem estado presentes e ativas. Em um número</p><p>consideravelmente desproporcional, tem ocupado posições de chefia, de lide-</p><p>rança, se destacam em diversas áreas do campo profissional e do conhecimento,</p><p>não sendo diferente, no campo da política formal/partidária.</p><p>Assim como acrescenta Flávia Biroli, “é justamente a participação efetiva e</p><p>o aumento de sua presença nos espaços de poder político, sobretudo na América</p><p>Latina, que tem suscitado o acréscimo e recorrência do fenômeno que se define</p><p>como violência política de gênero”.9 O espaço público e político ao ser estrutura-</p><p>do e organizado como algo pertencente ao masculino, vê na presença feminina</p><p>uma espécie de ameaça ao seu “lugar de direito”. Nesse sentido, o mecanismo da</p><p>violência política funciona como um meio de impedimento, como uma tentati-</p><p>va de mostrar as mulheres que aquele espaço não foi construído para elas.</p><p>7 Consultar o link: https://www.geledes.org.br/o-que-e-violencia-politica-de-genero-e-por-que-devemos-falar-</p><p>-sem-descanso-sobre-ela/. Acesso em 07/07/2021.</p><p>8 Consultar o link: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2018/06/26/manuela-davila-e-interrompi-</p><p>da-8-vezes-mais-que-ciro-gomes-no-roda-viva.htm. Acesso em 26/06/2018.</p><p>9 Consultar o link: https://www.geledes.org.br/o-que-e-violencia-politica-de-genero-e-por-que-devemos-falar-</p><p>-sem-descanso-sobre-ela/. Acesso em 07/07/2021.</p><p>162</p><p>Desse modo, interrompê-las, limitar seu tempo de fala, seja em plenária,</p><p>num debate ou entrevista, sobrepor suas vestimentas, comportamentos e forma-</p><p>tos de seus corpos, ao debate político, econômico e social, expô-las intimamente</p><p>na tentativa de depreciá-las, envergonha-las ou humilha-las, e por vezes, inferi-</p><p>-las com ameaças e interrupções de cunho físico, refletem a violência política,</p><p>como meio de dificultar e impedir a plena e igualitária participação de mulheres</p><p>no campo político.</p><p>Os relatos das mulheres são constantes e contundentes quanto à maneira</p><p>diferenciada como são tratadas, para além de idade, corrente ideológica ou par-</p><p>tido, todas as mulheres parecem, em algum momento de suas trajetórias públi-</p><p>cas e políticas, serem alvos desse fenômeno. É importante ressaltar a relevância</p><p>desse tipo de discussão, ao percebermos como essas mulheres tem cada vez mais</p><p>identificado e principalmente, combatido esse tipo de prática. Ainda que seja ex-</p><p>tremamente difícil e desgastante, não se deixam calar e reivindicam seu direito</p><p>de pertencimento a todos os espaços. Se faz necessário também, entendermos o</p><p>contexto conservador ainda mais acentuado que temos enfrentado nos últimos</p><p>anos. Essa reação conservadora busca naturalizar as diferenças entre público e</p><p>privado e a delegação de papeis imposta por cada um deles, neste sentido Biroli</p><p>(2018) assevera que o conservadorismo não é algo que surgiu recentemente, o</p><p>que se aponta é para uma nova onda neoconservadora que reage as conquista</p><p>e demandas das últimas três décadas, como por exemplo, a cota para mulheres</p><p>de representação política, assim, grupos conservadores – a exemplo de católicos</p><p>e evangélicos – se unem em torno de frear a ascensão desse tipo de demanda.</p><p>No ano de 2018, quando candidata à vice-presidência, Manuela D’Ávila</p><p>(PCdoB- RS), relatou alguns dos comentários dirigidos diariamente a ela nas</p><p>redes sociais, num deles pode-se ler o seguinte post: “o que queria mesmo Manu,</p><p>era foder voce gostoso sua vagabunda comunista”. Outro comentário violento</p><p>e sexista pode ser visto em “nervosa logo cedo, parece que o marido não tem</p><p>dado conta”. A sexualização e abuso quanto ao corpo feminino, são ferramentas</p><p>recorrentes no que se refere a prática desse tipo de violência. Manuela ainda afir-</p><p>mou, em entrevista a Folha de São Paulo, ser comum ouvir comentários que “se</p><p>disfarçam em forma de elogio, mas que são a reprodução de um discurso sexista</p><p>que põe todo o tempo em suspeição a capacidade e competência das mulheres”.</p><p>“Nossa, você me surpreendeu por saber falar sobre tal assunto. Sempre respon-</p><p>do: você achava que eu era a parlamentar</p><p>mais votada do Rio Grande do Sul há</p><p>163</p><p>quatro eleições por causa de meus olhos azuis? Eu não tenho os olhos azuis.”10</p><p>No mesmo período, a então candidata a Deputada Federal Carla Zambelli</p><p>(PSL-SP), afirmou que em um ato de campanha pelas ruas, ao passar em frente a</p><p>uma loja, foi abordada da seguinte maneira: “ei, vem cá, gostosinha”. A também</p><p>candidata a Deputada Federal, Lia Lopes (PSB-SP), contou que por ser solteira,</p><p>muitas vezes fez uso de uma aliança nos eventos de rua, mas que “mesmo assim</p><p>os homens são descarados”. Ela ainda afirmou ter sido alvo de “mãos bobas” e</p><p>abraços prolongados, e por isso, a necessidade de contratação de um guarda-</p><p>-costas.</p><p>No meio virtual, as candidatas Lia Lopes e Natalie Unterstell (Podemos-</p><p>-PR), afirmaram receber “nudes” (fotos íntimas, nuas), por parte dos homens o</p><p>tempo inteiro. Natalie, candidata a Deputada Federal, disse ter sido recorrente</p><p>ouvir de lideranças partidárias que ela “deveria abaixar a bola e tentar um cargo</p><p>menor”. A candidata em sua entrevista ainda acrescentou que: “acho que tem</p><p>uma coisa muito mais macro e horrorosa e machista pra caramba, que é a his-</p><p>tória do acesso aos recursos. Recebi o aviso de que me dariam 2.000. ‘Essa é a</p><p>média que a gente tá ajudando as candidatas mulheres.’ Hello, né? Imagina, com</p><p>2.000 você não faz nada”. Por lei os partidos são obrigados a reservar e destinar</p><p>30% dos recursos do fundo eleitoral para as candidaturas femininas, mas na prá-</p><p>tica, é comum as mulheres relatarem não ter acesso ao que seria de direito, e que</p><p>esse dinheiro acaba sendo destinado para várias outras ações, inclusive campa-</p><p>nhas masculinas, que são vistas com maiores possibilidades de êxito eleitoral.</p><p>A então candidata ao Senado, Mara Gabrilli (PSDB-SP) disse que para ela,</p><p>de maneira geral, o que a mais impacta é que os homens tem certa dificuldade</p><p>em ouvir. “Isso acaba obrigando nós, mulheres, a termos de empostar a voz para</p><p>sermos ouvidas. Sobretudo em situações de crise. Mas acredito que as mulheres</p><p>estão transformando os políticos, palavra masculina, a fazer uma nova política,</p><p>palavra feminina”. O não interesse, desprezo em ouvir a fala de mulheres, é re-</p><p>sultado dessa divisão de papeis que reproduz o espaço público como não apro-</p><p>priado às mulheres, como algo construído pelo e para os homens. 11</p><p>O assédio moral, sexual, a tentativa de desqualificação, de pôr em suspeição</p><p>10 Todos os relatos subsequentes foram retirados de reportagem realizada pela Folha de São Paulo, “Em rotina de</p><p>assédio e preconceito, candidatas recebem ameaças e nudes” e publicados em setembro de 2018. Disponível em:</p><p>https://www1.folha.uol.com.br. Acesso em 09/08/2020.</p><p>11 Todos os exemplos e comentários sobre experiências de violência política de gênero relatados acima pelas candi-</p><p>datas foram extraídos do link: https://www.geledes.org.br/o-que-e-violencia-politica-de-genero-e-por-que-deve-</p><p>mos-falar-sem-descanso-sobre-ela/. Acesso em 07/07/2021.</p><p>164</p><p>seu pertencimento aquele espaço, as negativas e subjugação quanto as suas falas,</p><p>discursos, foram expostos pelas mulheres acima citadas. Mulheres com vivên-</p><p>cias e experiências distintas, com trajetórias políticas e partidárias diferentes,</p><p>mas que enfrentam diariamente algo em comum, a violência política.</p><p>A Deputada Estadual Ana Paula da Silva (PDT-SC), teve seu nome posto</p><p>em destaque em diversos sites, não por sua trajetória e atuação enquanto pre-</p><p>feita da cidade de Bombinhas (SC), por dois mandatos, ou pelo seu mais novo</p><p>compromisso como deputada eleita, mas sim, pela repercussão negativa que a</p><p>escolha de sua roupa para tomar posse na Assembleia Legislativa de Santa Cata-</p><p>rina causou. A deputada foi vítima de comentários misóginos nas redes sociais,</p><p>por fazer uso de uma roupa decotada durante a ocasião. Ela teve sua reputação e</p><p>competência questionadas e atreladas à sua vestimenta, vista como não adequa-</p><p>da. Quanto à série de ataques sofridos através da internet, a deputada afirmou:</p><p>Claro que foi um dia de bastante sofrimento, não vou negar. Mas eu não</p><p>vou arredar o pé daquilo que eu sou. Eu quero ser feliz acima de todas as</p><p>coisas. E isso implica em me apresentar para as pessoas como eu sou. Cor-</p><p>po, alma, verdadeiramente aquilo que eu sou. Acho que esse preconceito</p><p>precisa ser desconstruído. E de fato, no ambiente da política, a presença</p><p>esmagadora de homens nos faz encolher, nos faz retroagir. 12</p><p>No ano de 2015 durante uma sessão parlamentar para a votação de uma Medida</p><p>Provisória (MP) que trata da diminuição da maioridade penal, de 18 para 16 anos,</p><p>na Câmara dos Deputados, a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), foi ameaçada e</p><p>agredida na frente de todos por dois de seus pares, durante discussões na plenária. A</p><p>deputada em uma tentativa de acalmar os ânimos de dois deputados que discutiam</p><p>calorosamente, os Deputados Federais Orlando Silva, do PCdoB-SP e Roberto Freira</p><p>do PPS-SP, foi empurrada com força por um deles, o deputado Roberto Freire (PPS-</p><p>-SP). Nesse momento, após reclamar do ocorrido, Jandira foi interrompida por outro</p><p>Deputado, Alberto Fraga (DEM-DF), que do microfone de sua bancada a fez a seguin-</p><p>te ameaça: “Ninguém pode se prevalecer da posição de mulher para querer agredir</p><p>quem quer que seja. E eu digo sempre que mulher que participa da política e bate</p><p>como homem, tem que apanhar como homem também. É isso mesmo, presidente.”</p><p>12 Entrevista concedida ao site: Pragmatismo Político. Consultar o link: https://www.pragmatismopolitico.com.</p><p>br/2019/02/deputada-e-achincalhada-por-usar-decote-durante-posse.html. Acesso em 20/03/2019.</p><p>165</p><p>13 A fala proferida pelo Deputado, para todos ouvirem, sem o menor tipo de cons-</p><p>trangimento, é o retrato explícito da violência política de gênero a qual as mulheres</p><p>parlamentares são submetidas diariamente. É nítida a insatisfação e o inconformismo</p><p>do parlamentar em dividir aquele espaço de poder e decisão com uma mulher. Assim</p><p>como as outras situações apresentadas, a prática sistemática, através de diversos meios,</p><p>proporcionada pela reprodução da violência política, busca impedir, barrar, amedron-</p><p>tar, limitar a atuação de mulheres. Esta trata-se de uma prática misógina, preconceituo-</p><p>sa e sexista, que atinge as mulheres políticas indistintamente.</p><p>A Deputada Federal Joice Hasselmann (PSL-SP), durante divergências dentro</p><p>de seu próprio partido, foi atacada e agredida por seus companheiros de legenda, que</p><p>questionaram seu corpo, sua aparência, peso e até mesmo seu modo de falar. O en-</p><p>tão candidato a Deputado Federal, Alexandre Frota, numa dessas ocasiões, se referiu a</p><p>mesma como “biscate” em sua conta no Twitter. O também Deputado Federal e filho</p><p>do Presidente Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, durante discussão a chamou de “Pe-</p><p>ppa Pig”, personagem infantil na forma de uma porca. A Deputada teve também seu</p><p>nome e dos seus filhos, envolvidos em ameaças de morte, sendo inclusive coagidos</p><p>através de mensagens em seus celulares.</p><p>É importante ressaltar novamente que a violência política de gênero atinge mulhe-</p><p>res de maneira indiscriminada, independente de filiação partidária ou ideológica. Joice</p><p>Hasselmann que por vezes assumiu o discurso de seus agressores contrários as próprias</p><p>mulheres, que fazia parte da mesma ordem social, política e ideológica daqueles que a</p><p>agrediam, ao se posicionar contrariamente aos mesmos, foi vítima da violência política</p><p>de gênero.</p><p>O caso mais recente e de grandes proporções, ocorreu no final de 2020 na As-</p><p>sembleia Legislativa de São Paulo. A Deputada Isa Penna (PSOL) foi apalpada, tocada</p><p>sem seu consentimento, por outro deputado, Fernando Cury (CIDADANIA) durante</p><p>sessão na casa legislativa. A Deputada que se encontrava de costas conversando com</p><p>o presidente da Casa, através da bancada, foi surpreendida pela chegada por trás do</p><p>deputado que passou a mão e permaneceu, na lateral de seu corpo, na altura dos seios,</p><p>toda a cena foi registrada em vídeo. “Eu estava de costas, só</p><p>senti a mão dele es-</p><p>corregar na minha lateral. No momento em que eu senti, virei e falei para ele:</p><p>‘Quem você acha que você é? Você está louco? Passar a mão em mim assim?’</p><p>E empurrei, tirei a mão dele”. No mesmo dia, a deputada registrou boletim de</p><p>13 Consultar o link: http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/05/se-bate-como-homem-mulher-tem-que-apa-</p><p>nhar-como-homem-diz-deputado.html. Acesso em 08/05/2020.</p><p>166</p><p>ocorrência e denúncia formal junto ao Conselho de Ética da Casa por quebra de</p><p>decoro. A Deputada pediu a investigação e cassação do mandato do Deputado</p><p>pela prática da violência. No decorrer do mês de fevereiro de 2021, a denúncia</p><p>foi aceita pelo conselho e segue para investigação. 14</p><p>Esses poucos casos, frente a uma enormidade de relatos de mulheres públi-</p><p>cas e vítimas da violência política, servem para demonstrar na prática as tenta-</p><p>tivas de intimidação, ameaça, cerceamento de fala, ridicularização, estigmatiza-</p><p>ção, abuso, aos quais as mulheres são diariamente submetidas dentro e fora do</p><p>espaço da política. Em um contexto político e social cada vez mais conservador,</p><p>a presença de mulheres nos espaços de poder, como a política, torna-se cada vez</p><p>mais incômoda e uma espécie de ameaça quanto à manutenção da dominação</p><p>de homens no espaço público e político. Desse modo, a violência política de</p><p>gênero se apresenta de maneira eficaz como meio capaz de barrar a ascensão de-</p><p>mocrática e igualitária de mulheres na disputa e instituição do espaço político.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>A presença e participação das mulheres na política é uma realidade. En-</p><p>frentando barreiras sociais e culturais, obstáculos que recaem sobre o seu gêne-</p><p>ro, as mulheres têm, diariamente, ainda que em números muito abaixo do espe-</p><p>rado para uma democracia representativa, plena e justa, ocupado seu espaço de</p><p>maneira ativa e qualificada, reivindicando seu direito de serem vistas e ouvidas.</p><p>Com isso, diante esse quadro de participação, como vimos, as mulheres têm</p><p>enfrentado o que a literatura acadêmica, ainda que não haja um consenso, por se</p><p>tratar de um fenômeno novo no meio científico, tem nomeado como violência</p><p>política de gênero, uma série de mecanismos sistemáticos que atentam contra</p><p>as mulheres em situação de vida pública e política, seja através de agressões, de</p><p>xingamentos, de tentativas de calá-las, de interrompê-las, de expor sua vida ínti-</p><p>ma e sexual, tudo com o objetivo de impedir a presença de mulheres num meio</p><p>construído e tradicionalmente ocupado pelos homens.</p><p>Esses questionamentos, ainda que iniciais, que cabem críticas, sugestões e</p><p>aprofundamentos, têm como objetivo intensificar esse debate na academia entre</p><p>os ativistas no meio político (instituições de representação, partidos), na so-</p><p>14 Consultar o link: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/12/17/isa-penna-denuncia-deputa-</p><p>do-fernando-cury-por-assedio-na-alesp.htm. Acesso em 20/12/2020.</p><p>167</p><p>ciedade como um todo, por entendermos que esse tipo de prática ameaça as</p><p>mulheres no exercício pleno de seus direitos políticos e de suas atividades, bem</p><p>como, vai de encontro a um ideal de completude democrática e representati-</p><p>va. Discutir esse fenômeno e problematizá-lo na tentativa de desnaturalização</p><p>e desconstrução do mesmo, implica na garantia de participação legítima de ho-</p><p>mens e mulheres em condições de igualdade, não só no meio da política repre-</p><p>sentativa, como em todos os espaços sociais.</p><p>A percepção antropológica da política nos permite compreender a parti-</p><p>cipação de mulheres nesse meio e seu estado de sub-representação, a partir da</p><p>análise das práticas culturais e dos modos socialmente e historicamente estabe-</p><p>lecidos do que é ser homem e do que é ser mulher.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>ARAÚJO, Maria de Fátima. Gênero e violência contra a mulher: o perigoso jogo de poder e do-</p><p>minação. Psicologia para a América Latina. N° 14, México, 2008.</p><p>BANDEIRA, Lourdes Maria. Violência de gênero: a construção de um campo teórico e de inves-</p><p>tigação. Revista Sociedade e Estado. V.29, N°2, Brasília, 2014.</p><p>BEARD, Mary. Mulheres e poder: um manifesto. São Paulo: Editora Planeta do Brasil. Tradução</p><p>de Celina Portocarrero, 2018.</p><p>BOLSONARO EM 25 FRASES POLÊMICAS. https://www.cartacapital.com.br/politica/bol-</p><p>sonaro-em-25-frases-polemicas/. Acesso em 03/07/2021</p><p>CONGRESSO BRASIL É 140° EM RANKING DE REPRESENTAÇÃO FEMININA NO LEGIS-</p><p>LATIVO. https://www.poder360.com.br/congresso/brasil-e-140o-em-ranking-de-repre-</p><p>sentacao-feminina-no-legislativo/ Acesso em 25 de novembro de 2021.</p><p>DEPUTADA É ACHINCALHADA POR USAR DECOTE DURANTE POSSE. https://www.</p><p>pragmatismopolitico.com.br/2019/02/deputada-e-achincalhada-por-usar-decote-du-</p><p>rante-posse.html. Acesso em 20/03/2019.</p><p>DIOS, Vania Citlali de. Violencia política contra las mujeres en México. Instituto de Investiga-</p><p>ción y Capacitación de Derechos Humanos. 2016.</p><p>EM ROTINA DE ASSÉDIO E PRECONCEITO, CANDIDATAS RECEBEM AMEAÇAS E NU-</p><p>DES. https://www1.folha.uol.com.br. Acesso em 09/08/2020.</p><p>FLÁVIA, Biroli. O público e o privado. In: MIGUEL, Luis Felipe. BIROLI, Flávia. Feminismo e</p><p>Política. São Paulo: Editora Boitempo, 2014.</p><p>KROOK, Mona Lena e SANÍN, Juliana Restrepo. Violencia contra las mujeres en política. 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Acesso em 04 de setembro de 2021.</p><p>169</p><p>DIFERENÇAS DE GÊNERO E PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO:</p><p>LESBIANIDADES EM CENA</p><p>Maria Lucinete Fortunato1</p><p>O artigo objetiva dissertar sobre as questões epistemológicas que permeiam</p><p>o estudo que venho desenvolvendo2, cuja pesquisa se encontra em fase inicial e</p><p>problematiza a instituição de facetas da “lesbianidade”, atentando para as suas</p><p>enunciabilidades, performatividades, visibilidades e dizibilidades em discursos</p><p>da imprensa escrita</p><p>da dinâmica das mídias sociais, o alerta continua válido. O ine-</p><p>briante encantamento gerado pelas potencialidades das tecnologias de informa-</p><p>ção não pode servir de cortina de fumaça para as relações de poder e domina-</p><p>ção, oriundas das dinâmicas sociais, e que se reproduzem nos espaços virtuais.</p><p>Como destacou Maia (2008, p.277) “se as tecnologias podem proporcionar um</p><p>ideal para a comunicação democrática, oferecendo novas possibilidades para a</p><p>participação descentralizada, elas podem, também, sustentar formas extremas</p><p>de centralização do poder”.</p><p>Torna-se pertinente discutir até que ponto essa nova ambiência comunica-</p><p>tiva poderá significar, de fato, um maior empoderamento dos cidadãos diante</p><p>da política ou simplesmente se tornar mais um simulacro de ação que mantém</p><p>a crença no modelo de democracia participativa. Usamos aqui o termo “empo-</p><p>deramento” com a consciência do seu caráter polissêmico, tendo se tornado um</p><p>jargão de uso comum, por exemplo, na eclosão dos protestos de 2013. O termo</p><p>surge de um neologismo criado a partir da expressão original em língua inglesa</p><p>empowerment que, de acordo com Baquero (2012) não é nova, pois sua origem</p><p>remete a Reforma Protestante iniciada pelo teólogo alemão Martinho Lutero no</p><p>século XVI. Nesse contexto, o empoderamento referia-se a relação entre o do-</p><p>mínio da escrita e poder, tendo em vista que uma das teses de Lutero era a defesa</p><p>da ideia de que os textos bíblicos deveriam ser traduzidos para outras línguas e</p><p>não apenas o latim, permitindo o acesso do povo mais simples e uma interpre-</p><p>tação mais pessoal. Nesse sentido, o termo já surge vinculado a uma experiência</p><p>comunicacional, pois, ainda segundo Baquero (2012, p.175), a quebra do poder</p><p>18</p><p>de uma elite eclesiástica por meio das traduções bíblicas só poderia ser obtido a</p><p>partir do “efeito multiplicador iniciado pela invenção da imprensa por Gutem-</p><p>berg”. Entretanto, a noção de “empowerment” se difunde de modo mais amplo</p><p>a partir da luta por direitos civis, estando relacionado de forma mais específica</p><p>a movimentos sociais como o feminismo e movimento negro. No Brasil, o con-</p><p>ceito de empoderamento surge vinculado a educação, a partir da obra de Paulo</p><p>Freire, sendo posteriormente adotado por diferentes áreas do conhecimento e</p><p>em diversos níveis, conforme Baquero (2012) o empoderamento individual, or-</p><p>ganizacional e comunitário.</p><p>Se considerarmos válida a tese de que poder e comunicação são conceitos</p><p>interdependentes, então mudanças estruturais nos processos de comunicação,</p><p>em escala ampla e social, geram como consequência o estabelecimento de novas</p><p>relações de poder. É o que Castells (2013) aponta ao propor a ideia de “autoco-</p><p>municação”, capaz de dotar os sujeitos de autonomia e ampliar suas possibilida-</p><p>des de expressão e influência. Na Sociedade em Rede (um dos principais con-</p><p>ceitos da obra de Castells) o poder é multidirecional e as redes de comunicação</p><p>exercem um papel central neste processo ao permitir que indivíduos propaguem</p><p>suas ideias numa plataforma que potencializa sua difusão em escala global, com</p><p>o alcance tão amplo quanto o da mídia massiva:</p><p>A autocomunicação de massa fornece a plataforma tecnológica para a</p><p>construção da autonomia do ator social, seja ele individual ou coletivo,</p><p>em relação às instituições da sociedade. É por isso que os governos têm</p><p>medo da internet, e é por isso que as grandes empresas têm com ela uma</p><p>relação de amor e ódio, e tem que obter lucros com ela, ao mesmo tempo</p><p>que limitam seu potencial de liberdade. (CASTELLS, 2013, p.12).</p><p>Castells relaciona a noção de autocomunicação com a eclosão de mobiliza-</p><p>ções sócio-políticas espontâneas no ambiente virtual que possibilitaram levantes</p><p>contra autoridades políticas e grupos econômicos poderosos. Começando pelo</p><p>caso da Tunísia em 2010/2011, a chamada Revolução Egípcia, as insurreições</p><p>conhecidas como “Primavera árabe” e, posteriormente, o movimento “Occupy</p><p>Wall Street” e as difusas manifestações de rua em países como Espanha e Brasil.</p><p>Mas quando esse potencial agregador e de estímulo à mobilização se dá num</p><p>contexto eleitoral, dialogando (ou enfrentando) estruturas formais de poder e a</p><p>atuação do marketing político profissional? Também é possível falar em empo-</p><p>deramento para eleitores conectados durante a campanha eleitoral?</p><p>19</p><p>Quando relacionamos o termo “empoderamento” às mídias sociais, con-</p><p>sideramos o papel ativo dos usuários na produção e circulação de conteúdo,</p><p>bem como a quebra parcial do esquema centralizador característico da mídia</p><p>massiva por meio da adoção de um modelo mais interativo e horizontal. Entre-</p><p>tanto, vale ressaltar o alerta de Maia (2010, p.69) ao destacar que “a internet não</p><p>promove automaticamente a participação política e nem sustenta a democracia;</p><p>é preciso, antes, olhar tanto para as motivações dos sujeitos quanto para os usos</p><p>que eles fazem dela, em contextos específicos”. Partindo desse pressuposto, de-</p><p>fendemos (MELO, 2015) que é preciso observar as intersecções entre as comu-</p><p>nidades virtuais geradas pelas mídias sociais e os modos tradicionais de se fazer</p><p>política, ou seja, perceber o jogo cotidiano da disputa pelo poder em instâncias</p><p>que vão além dos muros institucionais do Estado. Estar on-line não significa, por</p><p>si só, ter poder e autonomia. É importante perceber quais as intencionalidades e,</p><p>principalmente, quais as teias de influência circundam os atores sociais. Dito de</p><p>outro modo é questionar: a serviço de que (ou de quem) se exerce a militância</p><p>digital?</p><p>Isso porque a mobilização on-line democratiza o processo de troca de in-</p><p>formação sobre a política e gera, inegavelmente, potencialidades de empodera-</p><p>mento aos cidadãos. Entretanto, não anulam os interesses e motivações que já</p><p>permeiam a experiência política. Assim como o militante ideológico encontrará</p><p>no ciberespaço um lugar de atuação, o mesmo poderá ocorrer com quem deseja</p><p>manter e reproduzir relações de dominação, por exemplo, de assistencialismo</p><p>ou clientelismo. Os efeitos dependerão dos usos e apropriações. Deste modo,</p><p>encontramos militantes que se engajavam nas campanhas “doando” espaço em</p><p>seus perfis pessoais para candidatos por uma perspectiva ideológica. Por outro</p><p>lado, também encontramos militantes on-line que percebem a política enquanto</p><p>um mero jogo de interesses e verbalizam essa relação de forma direta. Apesar de</p><p>nos possibilitar uma ampliação das pautas da agenda pública, uma descentrali-</p><p>zação das instâncias de produção de discursos e uma crescente pluralidade de</p><p>vozes, as mídias sociais ainda perpetuam práticas políticas que atuam no sentido</p><p>contrário da conscientização e empoderamento dos sujeitos.</p><p>É o que alerta Gomes (2008) ao tratar do crescimento dos discursos de ódio</p><p>nos ambientes virtuais. Falas preconceituosas e antidemocráticas encontraram</p><p>na promessa de “liberdade plena” da internet um terreno fértil para propagação,</p><p>muitas vezes protegidas pelo escudo do anonimato:</p><p>20</p><p>E se na internet de fato floresce um espaço da liberdade de expressão e de</p><p>experiências democrática, ela igualmente se transformou no paraíso dos</p><p>conservadores, da ultradireita, dos racistas e dos xenófobos, um refúgio</p><p>que, aliás, tem-lhes sido mais seguro e próspero do que o mundo off-line.</p><p>(GOMES, 2008, p. 322)</p><p>O alerta apresentado 10 anos antes do pleito de 2018 parece ter tom premo-</p><p>nitório quando observamos os resultados desta votação na eleição presidencial</p><p>e em muitos Estados da federação, bem como no comportamento de parte da</p><p>militância bolsonarista antes e depois do pleito, desde as manifestações pelo im-</p><p>peachment de Dilma Rousseff ou nas manifestações em 2020 que pediam fecha-</p><p>mento do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e até Intervenção Militar,</p><p>apesar do resultado das eleições ter sido favorável a estes grupos. Discursos que</p><p>estavam escondidos e que ganharam as ruas a partir de páginas e perfis pautados</p><p>pela oposição ao que chamam de “politicamente correto”.</p><p>Outro aspecto relevante é a ampliação do controle sobre o comportamen-</p><p>(jornais e revistas) que enunciam esta questão3. A aborda-</p><p>gem tem como foco: o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, a Caminhada de</p><p>Mulheres Lésbicas e Bissexuais e a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, no</p><p>período que vai de 1997 a 2019.</p><p>A partir da ideia de que as palavras não contêm o mesmo sentido em es-</p><p>paços e tempos diferentes, a primeira indagação que me provocou a realizar o</p><p>referido estudo foi a de como pensar a produção de conhecimento histórico so-</p><p>bre as sexualidades na nossa contemporaneidade? Para responder esta questão</p><p>se impôs a importância da compreensão dos aportes epistemológicos e teóricos</p><p>que, ao longo do tempo, têm perpassado o fazer historiográfico acerca das se-</p><p>xualidades.</p><p>Logo, entrou em cena a necessidade de apreensão de modelos canônicos</p><p>de pensamento que me auxiliassem a compreender e problematizar os desloca-</p><p>mentos que se operacionalizaram nos últimos tempos e a construção de novos</p><p>modos de reflexões que apontem para a subversão de certos ditames das iden-</p><p>tidades sexuais e de gênero. A começar pela emergência da categoria homosse-</p><p>xualidade, criada na segunda metade do século XIX por psiquiatras europeus,</p><p>em contraposição à ideia de heterossexualidade - considerada como algo su-</p><p>postamente natural e imposta de modo cultural -; instituindo, assim, um binô-</p><p>mio hierárquico, normativo e excludente que patologizou as práticas “homosse-</p><p>1 Professora Titular de História da Universidade Federal de Campina Grande, Doutora em História Social pela</p><p>UNICAMP. E-mail: mlucinete@uol.com.br</p><p>2 O referido estudo vem sendo desenvolvido como parte de meu Estágio Pós-Doutoral em História no PPGH da</p><p>UFRRJ, sob a supervisão do Prof. Dr. Fábio Henrique Lopes.</p><p>3 Entre os autores que estudam o lesbianismo no Brasil pode-se destacar: BACCI (1916); BRANDÃO (2010); CAN-</p><p>CIANE; GHISLENI (2018); FERNANDES (2002); GARCIA (2003); GOMIDE, 2007; GROSSI; UZIEL; MELLO</p><p>(2007); MARTINHO, (2019); MESQUITA, (2004); MOTT (1987); OLIVEIRA, (2017); PISCITELLI (2004); PON-</p><p>TES (2019); LESSA (2003); RICH (2010) SOARES; COSTA (2012); VIEIRA (2014); TOLEDO (2008) e SAWIN,</p><p>(2002).</p><p>170</p><p>xuais”4, até então tidas como sodomitas; produziu certos efeitos performativos</p><p>e a predominância de um arraigado preconceito contra os ditos “desvios” de</p><p>sexualidades - a exemplo das lesbianidades -; os quais, permeados por uma am-</p><p>pla e descentralizada rede de poderes, acabaram sendo inseridos na categoria de</p><p>inferiores.</p><p>De acordo com Molina (2011), isto ocorreu tomando por fundamentos,</p><p>majoritariamente, o campo da patologia e do enquadramento do sujeito prati-</p><p>cante da homossexualidade pelo ato sexual, em oposição à ideia de heteronor-</p><p>matividade5, como prática de desvio ameaçadora cujas raízes preconceituosas</p><p>devem ser desvendadas, como forma de contribuição à erradicação da intole-</p><p>rância e da crueldade contra os homossexuais.</p><p>Toledo (2008, p.183), discutindo a inferência destas concepções no que</p><p>concerne às ideias de lesbianidades defende que,</p><p>Os processos de exclusão sobre as lesbianidades seriam então permeados</p><p>por um misto de machismo, misoginia e heteronormatividade. Dentro</p><p>desse sistema de poder, como existe uma percepção sexualizada dos su-</p><p>jeitos, a qual influencia na produção de desigualdades sociais e de hierar-</p><p>quias sexuais, as mulheres que vivenciam as lesbianidades participam de</p><p>duas categorias consideradas inferiores. Primeiro, pelo gênero (sentir-se</p><p>como e ser vista como mulher); segundo, por sua orientação homossexual</p><p>do desejo sexual (relacionar-se afetivo-sexualmente com o mesmo sexo).</p><p>Assim, enquanto mulheres e não-heterossexuais, existem vulnerabilida-</p><p>des e violências específicas sofridas por elas em seu cotidiano, estimula-</p><p>dos pela intersecção de valores culturais normativos, poder e diferença</p><p>percebida.</p><p>4 Se até o século XIX os homossexuais eram considerados libertinos ou delinquentes, em torno de 1870 os psi-</p><p>quiatras passaram a considerar a homossexualidade como objeto de análise médica, dando aos homossexuais o</p><p>estatuto de “loucos” ou doentes do instinto sexual e instituindo novas intervenções e controles, com a inclusão da</p><p>homossexualidade como uma doença mental pela OMS na Classificação Internacional de Doenças (CID) de 1977.</p><p>Quadro que perdurou até o dia 17 de maio de 1990, quando a Assembleia Geral da OMS deixou de classificar a ho-</p><p>mossexualidade como patologia. Data em que passou a ser comemorado o “Dia Internacional contra a Homofobia”.</p><p>5 A heteronormatividade se fundamenta na ideia de naturalidade da heterossexualidade; bem como na associação</p><p>obrigatória entre sexo e reprodução, inclusive a social, por meio de vários mecanismos de legitimação das práticas</p><p>sexuais, codificadas pelo modelo de família heterossexual e produtivo economicamente e da rejeição de práticas</p><p>consideradas de desvio e de corpos considerados abjetos (Cf. Butler, 2008). Assim como heterossexismo e hete-</p><p>rossexualidade compulsória, heteronormatividade é um termo preconceituoso usado para descrever situações nas</p><p>quais orientações sexuais diferentes da “heterossexual” são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas por práticas</p><p>sociais, crenças ou políticas (Cf. LOPES (2018); LOURO (2004), MISKOLCI, 2011; SWAIN (2001); PRECIADO</p><p>(2011); et al).</p><p>171</p><p>Vale considerar que, apesar dos avanços, o preconceito e a estigmatização</p><p>contra a(s) lesbianidade(s) e homossexualidade(s) ainda não foram superados</p><p>e tem sido lugar comum, inclusive em meios de comunicação, apontá-los como</p><p>responsáveis pela homofobia, pela violência de gênero e, consequentemente,</p><p>pela invisibilidade lésbica.</p><p>De acordo com Moskolci (2011):</p><p>Ao invés de transformar esta experiência em força política de resistência</p><p>e questionamento da heteronormatividade, parece mais forte, no con-</p><p>texto brasileiro, a manutenção de uma perspectiva que busca conciliar a</p><p>armadilha identitária da qual o movimento parece não saber sair. Daí a</p><p>estratégia vitimizadora que subdivide a homofobia nas chamadas trans-</p><p>fobia, homofobia, lesbofobia apelando para a proteção e a tolerância de</p><p>identidades ao invés de problematizar as normas sexuais como um todo.</p><p>(MOSKOLCI, 2011, p.65)</p><p>Assim sendo, a heteronormatividade – que permeia, majoritariamente, a</p><p>produção científica no século XX e ainda influencia parte da produção do século</p><p>XXI – demarca a dupla invisibilidade da construção discursiva sobre a existên-</p><p>cia lésbica, evidenciando uma continuidade discursiva que posiciona a mulher</p><p>lésbica em um lugar abjeto que incita, “(...) horror ou repulsa como se fosse</p><p>poluidor ou impuro, a ponto de ser o contato com isso temido como contami-</p><p>nador e nauseante”, (MISKOLCI, 2010, p.40), geralmente substantivado como</p><p>anomalia, desvio, pecado, imoralidade, aberração etc.; o que exclui a alternativa</p><p>do lesbianismo como existência possível de relacionamento.</p><p>Partindo dessa constatação, temos que as questões referentes a mulheres/</p><p>gêneros foram postas em discussão, no Brasil, sistematicamente, por meio dos</p><p>estudos desenvolvidos por militantes feministas, e pautados no marxismo, na</p><p>psicanálise, na fenomenologia social etc.</p><p>Os estudos marxistas, campo fecundo de análises historiográficas, por</p><p>exemplo, a princípio, se fundamentaram em um discurso político vinculado aos</p><p>movimentos feministas que se impuseram a partir década de 1960. Defendiam</p><p>a influência ideológica nas relações sociais e nas identidades e tomavam por</p><p>base os conceitos de trabalho e reprodução para captar o significado de gênero</p><p>172</p><p>e sexualidade6,</p><p>Questões que também foram atravessadas pelos códigos e nomes de matriz</p><p>heterossexual, por meio de componentes biológicos que diferenciam homem</p><p>e mulher e os caracterizam como macho e fêmea; vinculando a feminilidade à</p><p>passividade sexual. Binômios que englobariam, de forma sistemática, todas as</p><p>identidades sexuais, unificando-as. Tais binômios perpassaram a produção de</p><p>conhecimentos sobre as sexualidades até a década de 1970, quando o debate</p><p>sobre</p><p>to do eleitorado a partir do surgimento de meios tecnológicos para obtenção</p><p>de dados sobre o que pensam e dizem os usuários das mídias sociais. A cada</p><p>postagem, curtida ou comentário, produzimos dados que são passíveis de ar-</p><p>quivo e análise. Não apenas pelas empresas que controlam as plataformas como</p><p>Facebook (proprietária também de Instagram e Whatsapp), Google e Twitter,</p><p>mas também por empresas, marcas, agências de publicidade e profissionais de</p><p>marketing político. Do mesmo modo que nossas preferências de compra são uti-</p><p>lizadas para direcionar anúncios de produtos que almejamos, também é possível</p><p>mapear nossos perfis ideológicos e nossas tendências de posicionamento diante</p><p>de temas políticos e decisões em campanhas eleitorais.</p><p>O suposto ideal libertário da web 2.0 baseia-se, em outros argumentos, na</p><p>premissa de que a conexão entre os usuários (agora vistos como prossumers8) e a</p><p>descentralização da produção de conteúdo (ou liberação do pólo emissor9) per-</p><p>mitiriam a quebra do poder dos grandes conglomerados de mídia. Entretanto, a</p><p>infraestrutura de conexão e a gestão dos dados (arquivamento, distribuição e ca-</p><p>talogação) também são variáveis controladas por grandes conglomerados eco-</p><p>nômicos. Alguns desses grupos nascidos da ascensão do mundo digital, como</p><p>é o caso do Facebook e do Google. Os dados se tornaram um novo tipo de pro-</p><p>8 Neologismo originado do inglês e que vêm da fusão das palavras produtor e consumidor. Refere-se ao novo papel</p><p>do consumidor na sociedade contemporânea a partir do advento das tecnologias de Informação e Comunicação</p><p>(TICs) e da internet. Ver TAPSCOTT (2010)</p><p>9 Lemos (2003)</p><p>21</p><p>duto que fornecemos ao realizar uma busca ou publicar um post em rede social.</p><p>Como nos alerta Silva (2017, p.35) “outro ponto essencial é compreender como</p><p>as grandes empresas de “mídia social” exploram o discurso da abertura dos da-</p><p>dos enquanto, a rigor, desenvolvem sistemas algorítmicos de controle de expres-</p><p>são e visibilidade de conteúdos”. Esses dados são “lidos” de modo automático</p><p>por mecanismos de inteligência artificial, com o uso de algoritmos, que organi-</p><p>zam nossa experiência na rede, estabelecendo critérios para definir as informa-</p><p>ções que teremos acesso, os conteúdos mais relevantes para o nosso perfil ou os</p><p>anúncios publicitários que melhor se adequem aos nossos interesses de compra.</p><p>Se por um lado tornam possível nossa navegação nesse dilúvio informacional,</p><p>por outro estabelecem estruturas com potencial de controle e vigilância.</p><p>Seria então possível falar em censura na rede? Malini e Antoun (2012) de-</p><p>fendem que a censura no contexto da internet não corresponde apenas à lógi-</p><p>ca do “bloqueio”, mas do que os autores chamam de “controle da cooperação</p><p>social” que pode ser definida como “a redução dos instrumentos que permi-</p><p>tem a todos o compartilhamento de ideias, informações e dados” (MALINI &</p><p>ANTOUN: 2012, p.72). Um exemplo evidente desde processo é a percepção de</p><p>que aquilo que nos é mostrado na timeline de uma rede social, como Instagram</p><p>ou Facebook, não é apenas uma sequência cronológica de postagens de nossos</p><p>contatos (como o nome sugere) e nem o produto de nossas escolhas individuais,</p><p>mas o produto de uma seleção produzida a partir das regras estabelecidas pelas</p><p>empresas que administram estes espaços de interação mediada. A ideia de auto-</p><p>nomia do usuário é relativizada:</p><p>A face 2.0 da censura é a do controle do compartilhamento. A segunda</p><p>camada do compartilhamento a controlar é a das plataformas tecnológi-</p><p>cas por onde vazam essas narrativas em redes sociais. Esse controle se tra-</p><p>duz em enclousures da inteligência coletiva, evitando que essas constituam</p><p>modelos de autônomos de produção. (MALINI & ANTOUN, 2012, p.72)</p><p>Essa capacidade de “censura” pode ser percebida a partir da aplicação de</p><p>regras que filtram conteúdo. Um dos exemplos mais visíveis é o modo como o</p><p>Instagram impede a publicação de fotos de nudez, principalmente feminina. A</p><p>exposição do mamilo feminino é proibida, gerando o apagamento automático</p><p>da mensagem onde este tipo de conteúdo é identificado pela inteligência ar-</p><p>tificial da plataforma ou quando algum usuário faz uma denúncia. O critério</p><p>adotado pelo Instagram, neste caso, gera contestações de grupos feministas que</p><p>22</p><p>denunciam a censura apenas aos mamilos femininos, enquanto as fotos com</p><p>personagens masculinos não sofrem a mesma limitação. Já o Twitter, em mo-</p><p>delo oposto, apenas apresenta um aviso de “conteúdo possivelmente sensível”</p><p>quando identifica imagens de mesmo teor ou até mesmo mais explícitas. Se é</p><p>possível impedir ou filtrar a postagem de uma imagem por valores morais tam-</p><p>bém é tecnicamente possível fazê-lo por interesses ideológicos ou até mesmo</p><p>políticos. E essa regulação não é construída por leis, mas pelos interesses co-</p><p>merciais. “o aspecto fundamental da censura 2.0 é a transformação da web em</p><p>farmvilles, em que a regulação comum da web é substituída pela das empresas</p><p>proprietárias, que administram vida dentro de inúmeras redes e mídias sociais”</p><p>(MALINI & ANTOUN, 2012, p.73).</p><p>Esses dados não estão disponíveis apenas aos grandes conglomerados res-</p><p>ponsáveis por coletá-los e organizá-los. Dispositivos de monitoramento de redes</p><p>sociais permitem que empresas, celebridades, agências de publicidade consigam</p><p>criar relatórios sobre o está sendo dito em relação às suas marcas e clientes. É um</p><p>recurso disponível também para órgãos do Estado, partidos, candidatos e pro-</p><p>fissionais de marketing político. Assim como as marcas se reposicionam a partir</p><p>destes dados, candidatos também podem adequar sua performance pública às</p><p>expectativas dos internautas ou, de modo mais específico, dos grupos sociais</p><p>que formam sua base eleitoral. É possível saber o que se fala sobre o candidato</p><p>e seus adversários, bem como identificar com antecedência o surgimento de</p><p>correntes de opinião. É possível saber quais os temas mais buscados na internet,</p><p>identificar os temas mais comentados nas redes sociais, traçar um perfil dos</p><p>usuários ou ainda identificar quais os perfis mais influentes em determinadas</p><p>plataformas de mídias sociais.</p><p>A métrica dos dados orienta estratégias, permite direcionar conteúdos para</p><p>grupos específicos ou até mesmo definir quais perfis podem ser incorporados a</p><p>uma campanha (comercial ou política) por serem influentes nos grupos sociais</p><p>que se deseja atingir. Foi o que identificamos nas campanhas de 2010 e 2014 na</p><p>Paraíba quando digital influencers10 que falavam de temas como esportes, ma-</p><p>quiagem, turismo e até DJs foram incorporadas às estruturas de comunicação</p><p>das campanhas dos candidatos ao cargo de governador devido ao capital social</p><p>que construíram com grupos que tradicionalmente não seguem perfis sobre po-</p><p>lítica e não seriam atingidos pelas mensagens da propaganda eleitoral sem a</p><p>mediação destes formadores de opinião característicos da lógica colaborativa</p><p>10 Influenciadores digitais. Termo refere-se aos blogueiros ou produtores de conteúdo para mídias digitais que in-</p><p>fluenciam os hábitos de consumo de seus seguidores, sendo contratados por marcas para divulgação de produtos.</p><p>É o que se chama de marketing de influência.</p><p>23</p><p>das redes sociais.</p><p>A pluralidade dos discursos na rede é outro ponto relevante a ser afetado</p><p>pelo controle dos dados, que formam o que Pariser (2012) chama de “filtros-bo-</p><p>lha” para descrever o processo de ultrapersonalização da informação na internet</p><p>promovida a partir da análise dos dados de navegação dos usuários:</p><p>A nova geração de filtros on-line examina aquilo de que aparentemente</p><p>gostamos – as coisas que fazemos, ou as coisas das quais as pessoas pareci-</p><p>das conosco gostam – e tenta fazer extrapolações. São mecanismos de pre-</p><p>visão que criam e refinam constantemente uma teoria sobre quem somos</p><p>e sobre o que vamos fazer ou desejar a seguir. Juntos, esses mecanismos</p><p>criam um universo de informações exclusivo para cada um de nós – o</p><p>que passei a chamar de bolha dos filtros – que altera fundamentalmente o</p><p>modo como</p><p>nos deparamos com ideias e informações. (PARISER, 2012,</p><p>p.11)</p><p>Com o objetivo inicial de tornar nossa experiência na rede mais relevan-</p><p>te e os anúncios publicitários mais eficazes, as grandes empresas controladoras</p><p>da internet selecionam os conteúdos que veremos, com base nas nossas prefe-</p><p>rências e no nosso perfil, calculados automaticamente por inteligência artificial.</p><p>Vemos propagandas daquilo que estamos procurando, ouvimos novas canções</p><p>no estilo que mais gostamos, assistimos filmes relacionados aos nossos títulos</p><p>preferidos. “Os algoritmos que orquestram a nossa publicidade estão começan-</p><p>do a orquestrar nossa vida” (PARISER, 2012, p.11).</p><p>Mas esse fenômeno também silencia a divergência, afetando nossa expe-</p><p>riência política. As redes sociais nos apresentam as postagens dos contatos que,</p><p>automaticamente, consideram mais relevantes para nós. Com isso, temos acesso</p><p>a uma enxurrada de postagens que confirmam nossas crenças e ideologias e</p><p>o pensamento divergente é silenciado, sem que percebamos. Podemos afirmar</p><p>que as bolhas acirram polarizações políticas, reforçam visões preconceituosas</p><p>e limitam a expressão do contraditório. Chegam até nós, prioritariamente, as</p><p>informações que reforçam nossas visões de mundo, fazendo com que nossa rea-</p><p>ção ao diferente seja mais virulenta e menos tolerante. Militantes de direita, por</p><p>exemplo, praticamente só recebem informações de tom conservador. Militantes</p><p>de esquerda, do outro lado, vivem o mesmo efeito, só que com visões distintas.</p><p>Quando o encontro acontece, seja em meios virtuais ou físicos, a argumenta-</p><p>ção cede espaço para o confronto. É a morte da política no sentido da retórica</p><p>24</p><p>e convencimento. A noção da política enquanto ação coletiva se perde, nestes</p><p>espaços virtuais, para a política enquanto expressão do “eu”. “Um dos efeitos</p><p>dessa personalização exacerbada é a criação de uma esfera pública dividida e</p><p>manipulada por algoritmos, estruturalmente fragmentada e hostil ao diálogo”.</p><p>(PARISER, 2012, p.111).</p><p>A percepção do funcionamento dessas bolhas também tem sido considera-</p><p>da por políticos, “marketeiros” e militantes no estabelecimento de estratégias de</p><p>comunicação. No decorrer do segundo turno das eleições presidenciais de 2018,</p><p>polarizada pela disputa entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, era comum</p><p>observar o uso de hashtags características de um determinado candidato pela</p><p>militância do oponente. Parte dos eleitores petistas que percebiam a questão</p><p>das bolhas usaram a tag #B17, entre outras, em postagens com denúncias contra</p><p>Bolsonaro. Enquanto alguns militantes bolsonaristas faziam o mesmo, com crí-</p><p>ticas a Haddad postadas com o uso irônico de tags da militância como #viravoto</p><p>ou #elenao. Além do tom de provocação, o uso de tags do adversário também</p><p>visava furar a bolha dos algoritmos, fazendo com que a publicação chegasse</p><p>justamente a quem pensa e vota diferente, buscando ampliar a base de apoio</p><p>e adesão. Afinal, se a bolha só permite o acesso de informações a quem pensa</p><p>igual à campanha não seria eficaz no sentido do convencimento. Estaríamos</p><p>falando apenas com iguais ou quem já decidiu o voto de modo favorável, jus-</p><p>tamente quem menos interessa atingir numa campanha acirrada, afinal, já está</p><p>com convicção formada.</p><p>Outra estratégia usada pelos candidatos para furar a bolha era a deflagra-</p><p>ção de polêmicas. Neste aspecto é interessante observar a previsibilidade do</p><p>comportamento da militância virtual e como figuras controversas, a exemplo</p><p>de Bolsonaro, se aproveitam disso. Como dito anteriormente, trata-se de um</p><p>político que usa das frases polêmicas para galgar espaço de visibilidade, numa</p><p>releitura pós-moderna do ditado “falem mal, mas falem de mim”. Ao fazê-lo,</p><p>Bolsonaro se aproveita da previsível revolta dos militantes de esquerda às suas</p><p>declarações, fazendo com que ele se mantenha na centralidade do debate, de tal</p><p>modo que seu discurso conservador circula até mesmo nas redes que repudiam</p><p>suas ideias, apesar das fortes críticas que recebe. Um exemplo menos polêmico</p><p>dessa estratégia, mas talvez mais evidente, foi o uso das “colas” escritas na mão</p><p>durante entrevistas e debates televisivos no primeiro turno das eleições. A tática</p><p>apareceu em uma entrevista no Jornal Nacional, da Rede Globo, em 28 de agosto</p><p>de 2018. O candidato aparecia com as palavras “Deus”, “Família” e “Brasil” escri-</p><p>tas em uma das mãos:</p><p>25</p><p>Figura 01: Reprodução de tela da entrevista de Bolsonaro</p><p>ao Jornal Nacional</p><p>A suposta “cola” foi percebida, como era previsível, como sinal de “burrice”</p><p>e falta de capacidade e preparo, gerando várias postagens e memes em páginas e</p><p>perfis de militantes e vinculadas a movimentos sociais, como foi o caso do Mídia</p><p>Ninja. Entretanto, o que se percebeu em seguida é que a estratégia permitiu ao</p><p>candidato expor os principais motes de sua campanha para o público do adver-</p><p>sário, furando a bolha. As três palavras resumiam a base do seu discurso conser-</p><p>vador: Deus (religião), Família (valores morais) e Brasil (noção de patriotismo).</p><p>Não coincidentemente, são palavras que integravam seu slogan de campanha</p><p>“Deus Acima de tudo, Brasil acima de todos”.</p><p>Por outro lado, esse processo de hiper personalização fez com que a noção</p><p>de “fidelidade do consumidor” passasse a ser adotada no campo do marketing</p><p>político. Ou seja, campanhas personalizadas concentram seu foco em manter a</p><p>fidelidade de quem já possui predisposição ideológica de apoiar um partido ou</p><p>candidato ao invés de buscar a construção de um consenso social mais amplo.</p><p>Neste sentido, torna-se relevante pensar o papel que o jornalismo e os meios de</p><p>comunicação massivos ainda exercem no processo democrático, à medida que</p><p>atuam enquanto “elo social”, segundo argumenta Wolton (1999, p.35):</p><p>Quanto mais fragmentada estiver a sociedade, quanto mais fragilizada</p><p>pela exclusão ou por outras formas de hierarquia, mais a rádio e a te-</p><p>levisão generalistas constituem uma solução, porque constituem um elo</p><p>entre os meios sociais. Contrariamente às aparências, o progresso não visa</p><p>decalcar a comunicação sobre as hierarquias das comunidades, como per-</p><p>26</p><p>mitem as novas técnicas mas, pelo contrário, oferecer, graças aos média</p><p>generalistas, pontes de passagem entre os gostos e as preocupações dos di-</p><p>ferentes meios sociais. Apesar das suas limitações, a rádio e a televisão ge-</p><p>neralistas encontram-se mais próximas de uma problemática do interesse</p><p>geral do que a panóplia dos média temáticos, cuja força e fraqueza estão</p><p>no facto de corresponderem ao estado de fragmentação da sociedade.</p><p>Apesar de todas as críticas que podem e devem ser feitas em relação aos</p><p>meios massivos e os grupos políticos e econômicos que os controlam, ainda é</p><p>importante destacar a importância do jornalismo generalista na construção do</p><p>que podemos chamar de uma agenda pública de discussão, por meio da qual</p><p>temas de maior abrangência, nacional ou internacional, são discutidos e apre-</p><p>sentados, mesmo que isoladamente não tenham relação direta com o mundo</p><p>particular de determinados sujeitos. Visões opostas sobre um mesmo tema são</p><p>apresentadas, mesmo que sob o viés da espetacularização e sensacionalismo ca-</p><p>racterísticos da grande mídia. Essa visão do todo, que perdemos com a inter-</p><p>ferência dos algoritmos, é fundamental para o estabelecimento de uma esfera</p><p>pública de participação política. Não é à toa que o jornalismo é alvo de críticas e</p><p>ataques nos espaços virtuais quando contesta as crenças e valores considerados</p><p>“incontestáveis” no universo pasteurizado das bolhas virtuais. É o que acontece,</p><p>por exemplo, no processo de difusão das fake news, que observaremos no tópico</p><p>seguinte.</p><p>FAKE NEWS NOS PROCESSOS ELEITORAIS: DOS BOATOS AOS BOTS</p><p>A mentira não é uma novidade na política. Podemos citar desde o uso da</p><p>morte de João Pessoa (na época presidente da Paraíba) como justificativa para a</p><p>Revolução de 1930 no Brasil11 até a falsa denúncia de existência de armas de des-</p><p>truição em massa no Iraque para legitimar um ataque americano após os</p><p>atenta-</p><p>dos de 11 de setembro, são múltiplos os exemplos históricos de discursos e ações</p><p>políticas baseadas em mentiras ou “meias verdades”. Em campanhas eleitorais</p><p>a questão fica ainda mais evidente. O estabelecimento do que Barreira (1998)</p><p>denomina de “circuito de boatos” é um fenômeno recorrente na cultura política</p><p>brasileira, principalmente em disputas para cargos executivos, conforme descre-</p><p>11 Na biografia “Chatô: o Rei do Brasil”, Morais (2003) relata como Assis Chateaubriand orientou os editores dos</p><p>jornais e revistas pertencentes ao grupo Diários Associados, de sua propriedade, a relacionar o assassinato de João</p><p>Pessoa com o Governo Federal, apesar de Chateaubriand saber que as motivações estavam relacionadas a uma</p><p>disputa política local e uma vingança de caráter passional.</p><p>27</p><p>veu a autora em pesquisa sobre representações em torno de candidaturas femi-</p><p>ninas paras as prefeituras de Natal-RN e Maceió-AL nas eleições municipais de</p><p>1996. Para Barreira, os boatos configuram-se enquanto elemento de “construção</p><p>negativa das candidaturas”, exemplificando com dois tipos distintos de rumores</p><p>identificados nas eleições por ela observadas.</p><p>O primeiro tipo seria composto por boatos referentes à esfera político-ad-</p><p>ministrativa, transmitindo a sensação de medo em relação a possíveis mudanças</p><p>de atuação do governo. Trata-se de uma estratégia usada principalmente por</p><p>quem já está no poder e precisa alimentar a sensação de desconfiança em re-</p><p>lação aos adversários que propõem mudanças ou representam posturas oposi-</p><p>cionistas. É o caso de boatos sobre cortes ou atrasos de salários, suspensão de</p><p>programas ou benefícios sociais, demissões ou fechamento de órgãos públicos.</p><p>“Boatos dessa natureza representavam a tentativa de captar o discurso de ruptu-</p><p>ra de modo negativo” (BARREIRA, 1998, p.145). Dito de outro modo, buscam</p><p>transformar a esperança em medo.</p><p>Barreira (1988) identifica ainda a existência de boatos de ordem pessoal,</p><p>que funcionam relacionando a revelação de aspectos da vida privada de um de-</p><p>terminado candidato a transgressão de valores morais. Trata-se de uma tentativa</p><p>de desviar o debate das temáticas da gestão pública, por vezes enfadonhas e difí-</p><p>ceis de entender, substituindo-as por uma espécie de fofoca que gere repulsa ao</p><p>comportamento do candidato. Está geralmente relacionado a temas delicados</p><p>como: vida sexual, traição conjugal, uso de drogas, prática de aborto (ou apoio</p><p>a ela), entre outros. Funcionam acionando preconceitos e estereótipos, criando</p><p>uma espécie de barreira entre candidato e eleitorado. Em ambos os casos, perce-</p><p>bemos que se trata de uma estratégia de destruição do adversário, retirando-lhe</p><p>votos enquanto sua imagem pública é bombardeada.</p><p>Entretanto, trata-se de uma estratégia perigosa, pois pode gerar um efeito</p><p>bumerangue. Dito de outro modo, se ficar evidente que um político atuou dire-</p><p>tamente na construção de uma calúnia pode se tornar alvo do julgamento públi-</p><p>co no lugar de quem foi alvo do boato. Por isso, esses rumores costumam circu-</p><p>lar a partir da estratégia do anonimato. O uso de panfletos sem assinatura, por</p><p>exemplo, era uma estratégia comum, sendo inclusive registrada na campanha</p><p>para o governo da Paraíba em 2010, em conjunto com perfis falsos no Twitter. O</p><p>boato era de que Ricardo Coutinho, então candidato do Partido Socialista Bra-</p><p>sileiro (PSB), teria um pacto satânico. Às vésperas da votação do segundo turno,</p><p>um helicóptero azul foi visto em várias cidades do Estado jogando panfletos nas</p><p>ruas e parte desse material chegou a ser apreendido pela Polícia Federal. Assim</p><p>28</p><p>como aponta Barreira (1998, p.145), “os boatos, embora sem autoria definida,</p><p>acabam direcionando posturas e falas dos candidatos”. O boato circulava nas</p><p>redes sociais desde o primeiro turno e a religião acabou entrando na pauta e nos</p><p>discursos do socialista que, apesar do boato, foi eleito.</p><p>Mas com as redes sociais essas mentiras ganham nova proporção, como</p><p>aponta Marcondes Filho (2019, p.19) “Nova, em verdade, é a combinação entre</p><p>fake news, transformações da política e a ação da internet intervindo em de-</p><p>cisões políticas, transformando radicalmente o debate, especialmente em mo-</p><p>mentos de crise”. Se a internet potencializa a capacidade de autocomunicação</p><p>(CASTELLS, 2013) na perspectiva da democracia e liberdade de expressão, tam-</p><p>bém potencializa o efeito dos boatos, mentiras e ataques de reputações. Amplia</p><p>o alcance e oferece ferramentas de anonimato.</p><p>O fenômeno se dá ao ponto de autoridades perderem o receio de publicar</p><p>informações inverídicas abertamente em seus perfis oficiais. E isso não é um</p><p>fenômeno apenas do Brasil. Figueira e Santos (2019) apontam os dados apre-</p><p>sentados pelo serviço de fact cheking do jornal The Washington Post indicando</p><p>que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, divulgou 8.158 notícias</p><p>falsas ou enganosas em seus dois primeiros anos de mandato. O que é preocu-</p><p>pante, tendo em vista que informações apresentadas por autoridades podem ge-</p><p>rar efeitos reais, mesmo que baseadas em informações falsas. Podem estimular</p><p>comportamentos equivocados por parte da população ou ainda afetar a sensível</p><p>volatilidade dos mercados de investimentos. Em 26 de maio de 2020 o Twitter</p><p>chegou a marcar um alerta em uma das postagens do perfil oficial de Donald</p><p>Trump, pedindo que os usuários checassem as informações. No post, Trump su-</p><p>gere a possibilidade de fraude no envio de cédulas aos eleitores pelo correio, algo</p><p>permitido na legislação eleitoral americana. O presidente que costuma rotular</p><p>de fake News qualquer informação que se oponha aos seus interesses reagiu de</p><p>forma virulenta ao ter uma fake News proferida por ele identificada e evidencia-</p><p>da pelas ferramentas de checagem da plataforma, chegando a ameaçar intervir</p><p>nas empresas de mídias sociais12.</p><p>12 Ver cobertura da imprensa sobre o caso, a exemplo de reportagem disponível em: <https://g1.globo.com/mun-</p><p>do/noticia/2020/05/27/trump-fala-em-regular-ou-fechar-plataformas-de-midia-social.ghtml>.</p><p>29</p><p>Figura 02: Reprodução de postagem de Donald Trump no Twitter</p><p>Algo similar ocorre com o presidente brasileiro Jair Bolsonaro que teve</p><p>postagens apagadas pelas três principais plataformas de mídias sociais, Face-</p><p>book, Instagram e Twitter, durante a pandemia do Coronavírus. As empresas re-</p><p>crudesceram a vigilância contra fake news durante o primeiro semestre de 2020</p><p>visando evitar à difusão de mensagens que possam trazer riscos a saúde pública</p><p>por difundir informações inverídicas que estimulem a desobediência às medi-</p><p>das de isolamento social em todo o mundo e apresentem dados equivocados</p><p>sobre estatísticas, prevenção e possíveis fórmulas de cura ou vacinas até então</p><p>inexistentes.</p><p>Figura 03: Reprodução de postagem de Jair Bolsonato no Twitter</p><p>30</p><p>Mas o significado do termo fake news, que já entrou para o vocabulário</p><p>popular, vai além da mera tradução como “notícias falsas”. De acordo com a</p><p>definição de Machado (2019, p.34) Fake News é “publicar aquilo que alguém</p><p>gostaria de ler ou de ver, mesmo sendo inverídico, com o desejo de que se torne</p><p>verdade por repetição ou por ser a pista forçada de uma realidade encoberta.”</p><p>Ou seja, carrega um caráter de intencionalidade e se relaciona com um contex-</p><p>to sociocultural no qual os aspectos emocionais e ideológicos se sobrepõem à</p><p>materialidade dos fatos numa espécie de relativismo exacerbado. Este é o con-</p><p>texto que diversos autores classificam como “pós-verdade”. Caracterizada pela</p><p>“erosão da factualidade e uma nova relação dos atores políticos e dos cidadãos</p><p>com a verdade” (PRIOR, 2019, p.139). No campo político, o fenômeno da pós-</p><p>-verdade ganha terreno na tentativa de persuadir o outro a não votar em al-</p><p>guém, principalmente como ferramenta de desconstrução das imagens públicas</p><p>de adversários. Se alimentam da reprodução e reforço de estereótipos já ampla-</p><p>mente difundidos na sociedade, fazendo com que muitos usuários insistam em</p><p>compartilhar essas informações mesmo quando já estão cientes</p><p>de que já foram</p><p>publicamente desmentidas:</p><p>Não interessa se as “estórias” partilhadas através das redes horizontais de</p><p>comunicação são verdadeiras ou falsas, já que os sujeitos estão apenas in-</p><p>teressados em confirmar e partilhar uma determinada visão do mundo,</p><p>uma visão que esteja de acordo com os seus preconceitos, estereótipos,</p><p>atitudes ou crenças. (PRIOR, 2019, p.140)</p><p>Mesmo que a aplicação do termo pós-verdade ainda gere críticas e esteja</p><p>longe de ser consenso, o conceito contribui para que possamos perceber a exis-</p><p>tência de variáveis que possibilitaram o avanço dos fenômenos das Fake News</p><p>no contexto contemporâneo. Podemos relacioná-lo a noção de pós-modernida-</p><p>de, caracterizada pelo declínio das chamadas “grandes narrativas”. Para Lyotard</p><p>(1998, p.16), “Considera-se pós-moderna a incredulidade em relação aos metar-</p><p>relatos”. Parte do princípio de que o saber científico é uma espécie de discurso</p><p>e que, como tal, também passa a ser questionado com a crise de determinados</p><p>paradigmas, a exemplo dos conceitos de “razão”, “sujeito”, “totalidade”, “verdade”</p><p>e “progresso”. Na contestação das grandes instituições modernas, o Estado, os</p><p>partidos políticos e a grande imprensa também se tornam alvo de uma crise de</p><p>credibilidade e confiabilidade. Para Fausto Neto (2019, p. 194), o jornalismo em</p><p>seu formato tradicional estaria perdendo sua posição de protagonismo na esfera</p><p>31</p><p>pública:</p><p>Na esfera da comunicação política, observa-se que o jornalismo per-</p><p>de espaço na sua condição de ‘elo de contato’ entre as instituições e</p><p>os atores sociais. Sua centralidade dá lugar a uma ação comunicati-</p><p>va, cuja dinâmica se fará mais em torno de lógicas que, no nível ma-</p><p>cro, impulsionam de outra forma a atividade circulatória de discursos.</p><p>Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que dependem da perda de credibi-</p><p>lidade da imprensa para se propagar e até justificar sua existência, as fake news</p><p>se apropriam de aspectos da linguagem jornalística: “As fake news parasitam</p><p>um padrão jornalístico de empacotamento de informações. A lógica subjacen-</p><p>te é a da manchete de jornal: o mais forte em primeiro lugar numa mescla de</p><p>informação e apelo à emoção” (MACHADO, 2019, p.34). A espetacularização</p><p>e sensacionalismo que vemos em títulos apelativos de blogs “caça cliques” já é</p><p>conhecida do leitor de tabloides ou do espectador de programas vespertinos de</p><p>fofocas sobre a vida de celebridades. Há uma espécie de jogo de espelhos, onde</p><p>os produtores de fake news se apropriam de aspectos estéticos e linguísticos do</p><p>jornalismo tradicional para se apropriar do que resta de sua credibilidade e mas-</p><p>carar sua autoria fora do campo profissional dos repórteres e editores. Imitam</p><p>marcas, cores, tipos de fontes, layouts e linguagem de títulos e textos.</p><p>Para complicar ainda mais a identificação das fake news, há ainda o uso</p><p>de informações parcialmente verídicas ou extraídas de seu contexto temporal,</p><p>com diferentes formatos de apresentação. Como apontam Canavilhas e Ferrari</p><p>(2018, p.31), “devemos reconhecer que as ‘notícias falsas’ são, na verdade, uma</p><p>variedade de desinformações que inclui a correta utilização de dados manipu-</p><p>lados, a utilização errada de dados verdadeiros, a incorreta utilização de dados</p><p>falsos e outras combinações”. Na busca por uma sistematização desse fenômeno</p><p>fluido, difuso e dinâmico, os autores apresentam uma classificação proposta pela</p><p>First Draft News, organização criada em 2015 com o objetivo de coordenar ações</p><p>de combate ao fenômeno da desinformação, reunindo redações e centros de</p><p>pesquisa acadêmica. A classificação foi proposta por Claire Wardle, diretora de</p><p>investigação do projeto e aponta sete categorias, que listamos a seguir, conforme</p><p>descrito em Canavilhas e Ferrari (2018):</p><p>- Falsa conexão: Quando manchetes e ilustrações não confirmam o con-</p><p>teúdo;</p><p>32</p><p>- Falso contexto: Quando conteúdo genuíno é compartilhado com infor-</p><p>mação contextual falsa;</p><p>- Manipulação de contexto: Quando dados ou imagens genuínas são ma-</p><p>nipuladas para enganar;</p><p>- Sátira ou paródia: Sem intenção de prejudicar, mas com potencial de</p><p>enganar;</p><p>- Conteúdo enganoso: uso enganoso de informações para enquadrar uma</p><p>questão ou indivíduo;</p><p>- Conteúdo impostor: Quando fontes genuínas são imitadas;</p><p>- Conteúdo fabricado: Conteúdo novo, 100% falso, criado para enganar e</p><p>prejudicar.</p><p>Percebemos que a classificação faz uma distinção entre formatos de conteú-</p><p>do, níveis de ambiguidade e os objetivos de quem as produziu. Vão desde posta-</p><p>gens humorísticas que usam de modo irônico a linguagem jornalística, como é o</p><p>caso do site “Sensacionalista”, cujo lema é “isento de verdade”. Neste caso não há</p><p>a intenção de enganar, mas como o material é compartilhado em mídias sociais</p><p>podem levar a que determinados usuários façam interpretações equivocadas e</p><p>repercutam o material como se fosse verdadeiro. Na outra ponta, estão informa-</p><p>ções fabricadas intencionalmente no sentido de destruir reputações, manipu-</p><p>lar comportamentos e decisões ou produzir resultados políticos ou comerciais.</p><p>Apesar de não ser exata, a compreensão dessa escala de desinformação proposta</p><p>por Claire Wardle contribui para a percepção das estratégias usadas para produ-</p><p>zir e difundir notícias falsas.</p><p>De acordo com Figueira e Santos (2019; p.09) o debate sobre o fenômeno</p><p>das Fake News está focado em três questões centrais, são elas: “a ascensão de</p><p>protagonistas estranhos ao campo da política que agora dominam o espaço pú-</p><p>blico mediatizado, o papel das redes sociais e da internet e a crescente sensação</p><p>de relatividade perante os fatos”. Alguns destes aspectos foram identificados na</p><p>pesquisa sobre as campanhas eleitorais na Paraíba em 2010 e 2014.</p><p>Entre os novos protagonistas deste cenário não estão apenas blogueiros,</p><p>influenciadores digitais ou cidadãos situados fora dos campos da política e da</p><p>mídia, mas que possuem capital social no contexto da internet. Surgem também</p><p>personagens “não-humanos”. Isso porque a estratégia do anonimato se fortalece</p><p>no campo das mídias sociais não apenas com o uso de perfis falsos, mas tam-</p><p>bém com a adoção da estratégia de inclusão, programação e inteligência artifi-</p><p>cial neste processo. Os boatos são agora difundidos por bots, ou seja, robôs que</p><p>33</p><p>automatizam postagens e respostas em vários perfis ao mesmo tempo, inflando</p><p>artificialmente as métricas sobre a repercussão de um determinado tema. Como</p><p>evidencia Marcondes Filho (2019):</p><p>Não se trata, portanto, apenas da criação e veiculação de mentiras em mo-</p><p>mentos delicados da decisão política (plebiscitos, eleições, votações), mas</p><p>do uso massivo de computadores (robôs) que replicam a mesma notícia</p><p>falsa e pressionam pessoas com centenas de milhares de posts buscando</p><p>massacrar opiniões adversas. (MARCONDES FILHO, 2019, p.19)</p><p>Um dos riscos da atuação do bots reside do fato de que uma parcela signi-</p><p>ficativa da população desconhece sua existência ou não compreende de forma</p><p>clara como atuam, considerando um problema menor. O que, de fato, é um so-</p><p>cial bot? Segundo Ruediger (2017, p.09) Os robôs sociais (social bots) são “con-</p><p>tas controladas por software que geram artificialmente conteúdo e estabelecem</p><p>interações com não robôs. Eles buscam imitar o comportamento humano e se</p><p>passar como tal de maneira a interferir em debates espontâneos e criar discus-</p><p>sões forjadas”. Além de difundir notícias falsas, os robôs cumprem a função de</p><p>inflar artificialmente o debate nas redes sociais, criando a “falsa sensação de</p><p>amplo apoio político a certa proposta, ideia ou figura pública” (RUEDIGER,</p><p>2017 p.09.). Geram uma espécie de “efeito manada” computadorizado, no qual</p><p>a falsa sensação de consenso ou de maioria induzem usuários reais a prestarem</p><p>atenção a determinados temas ou personalidades, considerando-as mais rele-</p><p>vantes a partir do quantitativo de postagens que lhes conferem protagonismo.</p><p>Isso funciona particularmente no Twitter onde os trending topics operam como</p><p>principal termômetro de visibilidade, indicando uma lista com</p>