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<p>Tabacaria</p><p>Heterónimo:</p><p>Álvaro de Campos</p><p>Escola E.B. 2,3/s de Mora</p><p>2010/2011</p><p>Disciplina: Português</p><p>Docente: Ana Alice Pinto</p><p>Realizado por:</p><p>Ana Margarida Pinto, nº2</p><p>12º A</p><p>Álvaro de Campos</p><p>1ª fase</p><p>-</p><p>Decadentismo</p><p>3ª fase</p><p>-</p><p>Pessimismo</p><p>Tabacaria</p><p>2ª fase</p><p>-</p><p>Futurista/sensacionista</p><p>O poema é constituído por 167 versos</p><p>divididos em 17 estrofes irregulares ( 3 a 39 versos)</p><p>Métrica bastante irregular</p><p>Versos livres</p><p>Análise formal</p><p>Tabacaria vs Quarto</p><p>Fora vs Dentro</p><p>Tudo vs Nada</p><p>Realidade vs Sonho</p><p>Objectividade vs Subjectividade</p><p>Temática</p><p>Temas</p><p>Niilismo</p><p>(nada valeu a pena, tudo foi em vão; não sou nada)</p><p>Angústia existencial</p><p>Desilusão</p><p>Vazio</p><p>Pessimismo</p><p>Divisão do poema em 4 partes:</p><p>1ª parte:</p><p>1ª estrofe</p><p>sujeito poético assume um vazio (que é ilusório)</p><p>2ª parte:</p><p>2ª - 6ª estrofe</p><p>localiza-se</p><p>estabelece a sua condição actual</p><p>3ª parte:</p><p>7ª - 13ª estrofe</p><p>justifica-se pelo rumo que tomou na vida</p><p>alternativas que lhe restam para ser feliz</p><p>4ª parte:</p><p>14ª - 17ª estrofe</p><p>regresso à realidade</p><p>1ª parte - é assumido uma espécie de vazio - "não sou nada", e a contraposição entre o nada exterior e o tudo interior ("tenho em mim..."). Na realidade o vazio é ilusório e aquele "nada" é apenas o assumir de não ser nada exteriormente.</p><p>2ª parte - Campos estabelece a sua condição actual ao mesmo tempo que nos localiza - sabemos que está no seu quarto e a metáfora do quarto é a metáfora da sua condição humana. Ele é uma mente presa num quarto que olha a realidade do dia-a-dia por uma janela. definição do "eu" de Campos enquanto ser só e abandonado à sua sorte. sentido de oposição entre realidade (a rua, a Tabacaria) e irrealidade (a vida de Campos, o quarto). A ligação entre ambas é apenas uma janela, ou seja, permite uma interacção limitada, mas nunca uma passagem concreta de uma para a outra. Está vencido e sabe que nunca conseguirá ser feliz.</p><p>3ª parte - Campos justifica para si mesmo o rumo que tomou na vida e, deixando ainda tomar-se pelo desespero, olha as alternativas que lhe restavam para ser feliz. Aqui a contraposição já não é entre o real e o ideal, entre o fora e o dentro, mas entre ele e os outros, entre a sua condição e a condição dos outros. Choca-lhe sobretudo aqueles que vivem a sua vida numa inconsciência plena - essa é afinal em muitas das passagens de Pessoa, afinal o ideal inatingível de felicidade - porque os vê precisamente como os seus adversários, os adversários de quem pensa e se preocupa. Começa com a rapariga que come chocolates, suja, perdida na sua gula. Essa passagem é marcante e simples de analisar: "Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! / Mas eu penso". Mas sabe que isso está fora do seu alcance - ele não vai deixar de pensar. Resta-lhe uma atitude nobre vaga: os poemas. Uma atitude nobre que ele espera que o salve, não sabe bem como, de uma mediocridade intensa que lhe vem de não nada fazer sentido na sua vida.</p><p>4ª parte - marca o regresso da realidade. Campos deixa de "filosofar" quando um elemento real se intromete entre ele e a Tabacaria. Tudo se desmorona, porque tudo estava apenas no pensamento de Campos e nunca poderia ser real da mesma maneira que o Esteves é real. (haverá também afinal um nome mais real do que Esteves?). Passando subitamente a interveniente na realidade que analisava, Campos, assim que vê um conhecido e que depois lhe acena, deixa de poder estar fora da realidade para ser puxado violentamente para o meio dela. É assim que o Universo se reconstrói subitamente, sem metafísica, ou seja, sem dar mais azo ao pensamento e à análise - é só a verdade dos sentidos e não a idealização do pensamento.</p><p>5</p><p>Análise de cada estrofe…</p><p>1ª estrofe</p><p>Não sou nada.</p><p>Nunca serei nada.</p><p>Não posso querer ser nada.</p><p>À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.</p><p>Descrença em relação a si mesmo, ainda assim sabe que possui sonhos.</p><p>2ª estrofe</p><p>Janelas do meu quarto,</p><p>Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é</p><p>(E se soubessem quem é, o que saberiam?),</p><p>Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,</p><p>Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,</p><p>Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,</p><p>Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,</p><p>Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,</p><p>Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.</p><p>Sozinho no quarto o sujeito poético contempla a rua, e percebe que lá há um mistério que ninguém vê, apenas ele percebe pois possui uma capacidade imaginativa muito grande. De seguida faz referência à morte como um desses mistérios.</p><p>Oposição entre o quarto (dentro) – realidade subjectiva - e a rua (fora) – realidade objectiva.</p><p>3ª estrofe</p><p>Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.</p><p>Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,</p><p>E não tivesse mais irmandade com as coisas</p><p>Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua</p><p>A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada</p><p>De dentro da minha cabeça,</p><p>E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.</p><p>A sua reflexão deixa-o deprimido.</p><p>4ª estrofe</p><p>Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.</p><p>Estou hoje dividido entre a lealdade que devo</p><p>À tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,</p><p>E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.</p><p>Assim se vê dividido entre a subjectividade e a realidade - oposição</p><p>5ª estrofe</p><p>Falhei em tudo.</p><p>Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.</p><p>A aprendizagem que me deram,</p><p>Desci dela pela janela das traseiras da casa.</p><p>Fui até ao campo com grandes propósitos,</p><p>Mas lá encontrei só ervas e árvores,</p><p>E quando havia gente era igual à outra.</p><p>Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?</p><p>Tudo o que aprendeu procura esquecer pois não lhe foram úteis.</p><p>Recorre à natureza em busca de um sentido, mas essa busca é em vão, também no campo não vê sentido. Para o sujeito poético essa vida é inútil pois ele é um homem da cidade, lúcido e angustiado.</p><p>Entretanto volta à sua reflexão.</p><p>6ª estrofe</p><p>Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?</p><p>Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!</p><p>E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!</p><p>Génio? Neste momento</p><p>Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,</p><p>E a história não marcará, quem sabe?, nem um,</p><p>Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.</p><p>Não, não creio em mim.</p><p>Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!</p><p>Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?</p><p>Não, nem em mim…</p><p>Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo</p><p>Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?</p><p>Oposição do sonho e a realidade ponderada em relação a si mesmo.</p><p>O sujeito poético opõe a capacidade de sonhar há limitação do mundo real .</p><p>Negativismo agora em relação ao futuro.</p><p>Compara-se a doidos, sonhadores, malucos, pois esses sim, ao contrário dele têm conclusões e certezas a cerca de muitas coisas.</p><p>Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –</p><p>Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas –,</p><p>E quem sabe se realizáveis,</p><p>Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?</p><p>O mundo é para quem nasce para o conquistar</p><p>E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.</p><p>Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.</p><p>Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo.</p><p>Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.</p><p>Os sonhos nada valem pois são limitados pelo mundo externo e real.</p><p>O mundo não é para aqueles que apenas sonham, mas para os que lutam. E apesar de ter conquistado mais que Napoleão, amado mais que Cristo e filosofado mais que Kant, nada disso foi útil pois tudo foi imaginação e não realidade.</p><p>Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,</p><p>Ainda que não more nela;</p><p>Serei sempre o que não nasceu para isso;</p><p>Serei sempre só o que tinha qualidades;</p><p>Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,</p><p>E cantou a cantiga do Infinito</p><p>numa capoeira,</p><p>E ouviu a voz de Deus num poço tapado.</p><p>Crer em mim? Não, nem em nada.</p><p>Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente</p><p>O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,</p><p>E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.</p><p>Escravos cardíacos das estrelas,</p><p>Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;</p><p>Mas acordámos e ele é opaco,</p><p>Levantámo-nos e ele é alheio,</p><p>Saímos de casa e ele é a terra inteira,</p><p>Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.</p><p>Impotência perante a realidade.</p><p>Niilismo presente; o sujeito poético que esperou sem sucesso e nada conseguiu, agora já não pode crer nele nem em nada.</p><p>A realidade objectiva pesa sobre o “eu” cheio de sonhos e, por isso, ele se encontra desiludido.</p><p>7ª estrofe</p><p>(Come chocolates, pequenas;</p><p>Come chocolates!</p><p>Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.</p><p>Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.</p><p>Come, pequena suja, come!</p><p>Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!</p><p>Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,</p><p>Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)</p><p>Inveja a inocência duma criança que come chocolates.</p><p>Mas esse sentimento desaparece ao perceber que deita fora o papel e os sonhos.</p><p>8ª estrofe</p><p>Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei</p><p>A caligrafia rápida destes versos,</p><p>Pórtico partido para o Impossível.</p><p>Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,</p><p>Nobre ao menos no gesto largo com que atiro</p><p>A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,</p><p>E fico em casa sem camisa.</p><p>O sujeito poético exibe o seu vazio interior, a negatividade e o niilismo em relação a si e ao futuro, pois o sonho foi vencido pela realidade.</p><p>9ª estrofe</p><p>(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,</p><p>Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,</p><p>Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,</p><p>Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,</p><p>Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,</p><p>Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,</p><p>Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -</p><p>Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!</p><p>Meu coração é um balde despejado.</p><p>Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco</p><p>A mim mesmo e não encontro nada.</p><p>Recorre a figuras femininas inexistente – sonho alivia o sofrimento.</p><p>Procura também algo mais moderno, sem saber o quê mas que o ajude na inspiração.</p><p>Mas tudo isto é em vão… continua sem falta de esperança e vazio.</p><p>Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.</p><p>Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,</p><p>Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,</p><p>Vejo os cães que também existem,</p><p>E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,</p><p>E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)</p><p>Volta à observação do real. Nesse momento desumaniza-se, difere-se das pessoas.</p><p>A realidade impenetrável deixa-o alheio, marginal ao mundo.</p><p>Vivi, estudei, amei e até cri,</p><p>E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.</p><p>Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,</p><p>E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses</p><p>(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);</p><p>Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo</p><p>E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.</p><p>10ª estrofe</p><p>Volta a desilusão e o desejo de trocar de lugar com outra pessoa (mendigo).</p><p>11ª estrofe</p><p>Fiz de mim o que não soube</p><p>E o que podia fazer de mim não o fiz.</p><p>O dominó que vesti era errado.</p><p>Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.</p><p>Quando quis tirar a máscara,</p><p>Estava pegada à cara.</p><p>Quando a tirei e me vi ao espelho,</p><p>Já tinha envelhecido.</p><p>Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.</p><p>Deitei fora a máscara e dormi no vestiário</p><p>Como um cão tolerado pela gerência</p><p>Por ser inofensivo</p><p>E vou escrever esta história para provar que sou sublime.</p><p>Percebe quais as suas falhas e que a perda de identidade não era real mas imaginária (tendo perdido tempo com isso).</p><p>Sem personalidade não pode fazer parte do mundo e sem fazer parte do mundo não pode subir ao palco e tem de ficar nos bastidores.</p><p>A escrita pode ser a sua salvação e ele quer provar isso a si mesmo, que consegue ser grande.</p><p>12ª estrofe</p><p>Essência musical dos meus versos inúteis,</p><p>Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,</p><p>E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,</p><p>Calcando aos pés a consciência de estar existindo,</p><p>Como um tapete em que um bêbado tropeça</p><p>Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.</p><p>Mas ao olhar para a tabacaria (representação da realidade) essa euforia logo passa – volta a desilusão, o vazio, o niilismo.</p><p>Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.</p><p>Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada</p><p>E com o desconforto da alma mal-entendendo.</p><p>Ele morrerá e eu morrerei.</p><p>Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.</p><p>A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.</p><p>Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,</p><p>E a língua em que foram escritos os versos.</p><p>Morrerá depois o planeta gigante em que tudo isto se deu.</p><p>Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente</p><p>Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,</p><p>Sempre uma coisa defronte da outra,</p><p>Sempre uma coisa tão inútil como a outra,</p><p>Sempre o impossível tão estúpido como o real,</p><p>Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,</p><p>Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.</p><p>Sente-se desconfortável ao olhar o dono da tabacaria que é um homem comum.</p><p>Volta o sentimento de inutilidade, mas agora tudo é inútil – ele e o dono da tabacaria, a tabacaria, os seus versos, a rua, o país, o planeta, e até o universo: tudo é inútil.</p><p>13ª estrofe</p><p>14/ 15ª/ 16ª estrofe</p><p>Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),</p><p>E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.</p><p>Semiergo-me enérgico, convencido, humano,</p><p>E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.</p><p>Anticlímax – a realidade volta ao sujeito poético, que é tomado por uma euforia e vai tentar escrever.</p><p>Essa euforia passa rapidamente e o sujeito poético fica sem pensar, sem reflectir, para apenas saborear o cigarro.</p><p>Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los</p><p>E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.</p><p>Sigo o fumo como uma rota própria,</p><p>E gozo, num momento sensitivo e competente,</p><p>A libertação de todas as especulações</p><p>E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.</p><p>Depois deito-me para trás na cadeira</p><p>E continuo fumando.</p><p>Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.</p><p>17ª estrofe</p><p>(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira</p><p>Talvez fosse feliz.)</p><p>Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.</p><p>O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).</p><p>Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.</p><p>(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)</p><p>Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.</p><p>Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo</p><p>Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.</p><p>Volta a reflectir, agora de forma emotiva, pensa na felicidade da vida simples.</p><p>Um cliente sai da tabacaria e o sujeito poético reconhece-o, é um homem comum, sem muitas inquietações e reflexões. O “eu” interage com esse homem – o Esteves “sem metafísica” .</p><p>O sujeito poético continua desiludido e sem esperança para a realidade, enquanto o dono da tabacaria alheio a tudo apenas sorri.</p><p>Esteves – verbo estar no pretérito</p><p>Recursos estilísticos</p><p>Anáfora – vv: 1/2/3; 14/15; 21/22; 72/73; 99 - 101; 141 - 145</p><p>Paralelismo de construção – vv: 11 - 13; 14/15; 52 - 54; 57 - 59</p><p>Antítese – vv: 13; 119; 26</p><p>Comparação – vv: 120/121; 109; 26</p><p>Aliteração – vv: 30; 65</p><p>Enumeração - vv: 104; 64</p><p>Dupla adjectivação ou tripla adjectivação - 89 – 91; 148</p><p>Gradação – vv: 133 - 140</p><p>Metáfora – vv: 151</p><p>Interrogação retórica</p><p>– vv: 146</p><p>1 – O tempo real é o tempo exacto que leva o poema a ser lido e, como tal, este representa um vasto monólogo interior, que por sua vez está integrado numa espécie de narrativa mínima.</p><p>2 – A personagem, ou seja, o sujeito poético está no quarto, e quando o poema começa, ele está a olhar pela janela. Depois senta-se numa cadeira, até que acende um cigarro e se levanta de novo chegando à janela e acenando de lá a um conhecido na rua que nesse instante sai da Tabacaria.</p><p>3 - Depois de uma reflexão sobre o mistério do mundo enquanto o sujeito poético olha pela janela, o momento em que sujeito poético está sentado (a partir da 6ª estrofe), serve para “magicar” sobre o abismo que se abre entre o sonho e a realidade. Quando faz o movimento de “cabeça mal voltada” (vv 130) e depois se prepara para se levantar, a temática do quotidiano junta-se à da “libertação de todos os pensamentos” (vv 150), associada ao fumo do cigarro.</p><p>Respostas às questões</p><p>4 – Há muitas vezes associação metafórica entre o espaço interior e o espaço exterior. Por exemplo: quando a rua parece um comboio - o tempo, a partida (vv 18); ou outro exemplo, quando o espaço confinado de quarto se liga àquele “poço tapado” em que soa a voz de Deus (vv 61).</p><p>5 – Quer na 1ª estrofe quer no final da 2ª, a natureza oposto dos mundos, por fora e por dentro, é manifestada por uma oposição entre o real objectivo e o sonho como real subjectivo.</p><p>6 – Enumeração caótica é a acumulação de palavras que designam objectos, seres, sensações, unidos por uma ou várias ideias básicas, mas sem ligação evidente entre si.</p><p>É também na presença de enumeração caótica que podemos constatar ou confirmar a existência do binómio realidade/sonho – realidade objectiva/realidade subjectiva.</p><p>7 – As duas estrofes entre parêntesis, ambas põem em cena um “tu”, que é no primeiro caso uma “pequena suja” que “come chocolates” e, no segundo caso é uma sucessão de figuras femininas inspiradoras na tradução das musas e que constituem momentos em que certas imagens produzidas pela memória, ou pela imaginação, servem para sublinhar por contraste a condição do sujeito que é incapaz da verdade, do simples prazer ; incapaz também da comunicação com o mundo (por exemplo, “E tudo isto é estrangeiro, como tu” vv 103).</p><p>8 – A oposição entre as coisas visíveis, aquilo que é “real por fora”, e o sonho, aquilo que é “real por dentro”, mostra a inadequação e a separação dos espaços subjectivo e objectivo, mas ao mesmo tempo, pois em ambos os mundos é reconhecida realidade e sugere a sua oposição radical.</p><p>9/11 – O conhecido, o Esteves “sem metafísica”, que olha para o “eu” e com ele troca um cumprimento, constitui o outro pólo de uma comunicação possível; a cortina entre os mundos subjectivo e objectivo, rompe-se, assim, apesar de simples e sem relevo especial, é essa figura que introduz o equilíbrio no universo do “eu” – porque é quem o “puxa” para a realidade plausível.</p><p>10 – A Tabacaria começa por ser a metonímia da realidade exterior (vv 23) dado que é aquilo que o “eu” vê da sua janela, do outro lado da rua. Depois com a aparição do dono da tabacaria (vv 129); e depois de um cliente que entra na Tabacaria (vv 145) e que, de seguida sai (vv 161); e afinal o “eu” reconhece como o Esteves “sem metafísica” (vv 162), a Tabacaria vai tornar-se o palco de uma cena mínima da vida quotidiana e familiar, desempenhando então um valor de símbolo dessa realidade.</p><p>12 - O universo reconstrói-se sem ideal nem esperança – corresponde ao estado de lucidez em que o “eu” se encontra (vv 15) e sintetiza o percurso que ele faz ao longo do poema; mas o ideal e a esperança são elementos do mundo subjectivo (sonhos) e o universo exterior é apenas a realidade que é aceitável, e assim perante o sorriso do dono da tabacaria o “eu” descobre a possibilidade da “libertação de todas as especulações” (de todas as reflexões, de todos os pensamentos) (vv 164).</p><p>Não sou nada.</p><p>Nunca serei nada.</p><p>Não posso querer ser nada.</p><p>À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.</p><p>image1.jpeg</p><p>image2.png</p><p>image3.gif</p>

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