Prévia do material em texto
<p>COPYRIGHT © 2024 MIKAELE VIANA</p><p>Todos os direitos desta edição reservados para a autora.</p><p>Revisão Ortográfica e Leitura Crítica: Laíssa Chaves (@laissarevisa)</p><p>Betagem: Nayra Lohany, Ana Carolina e Raquel Santos (@hanny.reading,</p><p>@carolmoonreads e @overagainrach)</p><p>Diagramação: MikaeleViana (mikaeleautora)</p><p>Capa: Luiza Castro (@luliscart)</p><p>É proibida a reprodução total e parcial desta obra, de qualquer forma ou por</p><p>qualquer meio eletrônico, mecânico, inclusive por meio de processos</p><p>xerográficos, incluindo ainda o uso da internet, sem permissão de seu editor</p><p>(Lei 9.610 de 19/02/1998). Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens,</p><p>lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação do autor,</p><p>qualquer semelhança com acontecimentos reais é mera coincidência.</p><p>Sinopse</p><p>Depois de quase quinze anos em um relacionamento sólido e estável, Alexandre viu sua vida</p><p>mudar drasticamente. Após um término tranquilo, ele sentiu a necessidade de colocar seus</p><p>pensamentos em ordem e procurar um pouco de paz.</p><p>Contudo, ele encontrou algo muito maior, e que, definitivamente, não tinha nada a ver com paz.</p><p>Foi na fazenda Serra Dourada, o lugar onde cresceu e herdou, que o seu caminho cruzou com o</p><p>do garoto que lhe causou sensações desconhecidas desde o primeiro instante.</p><p>Luan era o filho dos caseiros da fazenda, tinha vinte anos e era o garoto mais bonito que</p><p>Alexandre já viu em sua vida. Tendo que conviver juntos, os dois passam a nutrir uma atração</p><p>avassaladora, alimentada por flertes inocentes e contidos.</p><p>Luan não imaginava que o seu desejo pelo seu patrão fosse algo tão intenso, e sequer cogitou a</p><p>hipótese de que esse desejo fosse recíproco, afinal, para todos os efeitos, Alexandre era hétero.</p><p>No entanto, a convivência acabou aproximando-os, e aquela atração que nasceu de forma branda,</p><p>se intensificou ao ponto de ficar incontrolável.</p><p>E bem, nenhum dos dois tinha a intenção de reprimir o que crescia em seu interior. Sucumbir ao</p><p>desejo era algo que Alexandre e Luan estavam dispostos e até ansiosos para fazer.</p><p>Notas da Autora</p><p>As vozes da minha cabeça, incentivadas pelas vozes das minhas amigas,</p><p>Clau e Isah, me fizeram entrar de cabeça no mundo deles e criar essa</p><p>história.</p><p>No entanto, a cada palavra e linha que eu escrevia, me sentia mais e</p><p>mais conectada com eles, com a tensão que se formava gradativamente,</p><p>com as descobertas de sentimentos e tudo que vinha a seguir. Eu amo a</p><p>forma como eles se amam, amo o amor deles e amo o fato de ter dado vida</p><p>a eles.</p><p>Como a história se passa no interior, falas e citações foram adaptadas</p><p>para condizer com a realidade. Haverá muitas palavras escritas de forma</p><p>informal e até “erradas”, mas tudo isso serve para entregar originalidade à</p><p>história.</p><p>Sou uma autora iniciante e, apesar de já ter escrito algumas coisas no</p><p>Wattpad, sinto que ainda tenho muito a aprender.</p><p>Este é o meu primeiro lançamento e espero, de todo o coração, que</p><p>vocês curtam essa história e que se deliciem com os momentos dos nossos</p><p>meninos. O amor deles é lindo e, mais bonito ainda, é a forma como ele</p><p>desabrochou.</p><p>Como uma flor de laranjeira.</p><p>Gatilhos:</p><p>Violência física,</p><p>homofobia,</p><p>abuso familiar,</p><p>rejeição devido à orientação sexual,</p><p>autorejeição.</p><p>CONTENTS</p><p>Capítulo UM</p><p>Capítulo DOIS</p><p>Capítulo TRÊS</p><p>Capítulo QUATRO</p><p>Capítulo CINCO</p><p>Capítulo SEIS</p><p>Capítulo SETE</p><p>Capítulo OITO</p><p>Capítulo NOVE</p><p>Capítulo DEZ</p><p>Capítulo ONZE</p><p>Capítulo DOZE</p><p>Capítulo TREZE</p><p>Capítulo CATORZE</p><p>Capítulo QUINZE</p><p>Capítulo DEZESSEIS</p><p>Capítulo DEZESSETE</p><p>Capítulo DEZOITO</p><p>Capítulo DEZENOVE</p><p>Capítulo VINTE</p><p>Capítulo VINTE E UM</p><p>Capítulo VINTE E DOIS</p><p>Capítulo VINTE E TRÊS</p><p>Capítulo VINTE E QUATRO</p><p>Capítulo VINTE E CINCO</p><p>Capítulo VINTE E SEIS</p><p>Capítulo VINTE E SETE</p><p>Capítulo VINTE E OITO</p><p>Capítulo VINTE E NOVE</p><p>Capítulo TRINTA</p><p>Capítulo TRINTA E UM</p><p>Capítulo TRINTA E DOIS</p><p>Capítulo TRINTA E TRÊS</p><p>Epílogo</p><p>Vem aí…</p><p>Agradecimentos</p><p>Dedicatória</p><p>Dedico este livro a todas as pessoas que tiveram</p><p>o amor desabrochando como uma flor de laranjeira.</p><p>Um beija-flor sempre estará destinado a voar ao encontro</p><p>da sua flor favorita.</p><p>Epígrafe</p><p>Seu amor desabrochou como uma flor de laranjeira, doce, suave,</p><p>como uma fragrância simples, mas que em você se tornou única e me</p><p>deixou dependente</p><p>E eu, como um servo obediente, me tornei um beija-flor,</p><p>viciado em cada mínima coisa que compunha você, bebendo cada sopro de</p><p>prazer que escapa de sua boca como uma súplica sussurrada ao vento</p><p>Tudo em você é doce, desde a sua voz até a sua alma</p><p>Te encontrar foi como ganhar na loteria, mas nenhum prêmio no mundo</p><p>vale o privilégio de ter você</p><p>Meu garoto, te amar é o meu destino, teu amor me alimenta e me mantém</p><p>vivo</p><p>Navegaria pelos sete mares e atravessaria montanhas por você</p><p>Só para te ter</p><p>Só para pertencer a você</p><p>Vivi por tantos anos, mas minha vida só encontrou um sentido quando você</p><p>desabrochou para mim</p><p>Me fez sentir vivo</p><p>Me transbordou</p><p>Você é a minha flor de laranjeira, e eu sempre serei o seu beija-flor</p><p>CAPÍTULO UM</p><p>Alexandre encarava fixamente o copo de uísque em sua mão,</p><p>como se pudesse quebrá-lo apenas com o poder da mente. As velas, que</p><p>enfeitavam a mesa, derreteram até se apagarem, as flores no vaso de</p><p>vidro pareciam murchas e a comida que ele preparou com tanto cuidado</p><p>havia esfriado.</p><p>O silêncio naquela casa era completamente oposto ao barulho que</p><p>sua mente fazia.</p><p>Ele pensava demais.</p><p>Se questionava os motivos de tudo parecer tão diferente, de como</p><p>deixou seu casamento chegar àquele ponto e em que momento ele e a</p><p>esposa perderam a sincronia.</p><p>E pensava, exaustivamente, em que momento de suas vidas eles</p><p>deixaram de se amar.</p><p>Ao longo daquele ano, Alexandre e Fernanda tentaram de tudo</p><p>para reacender a chama da paixão, para tentar manter intacto o amor que</p><p>nutriam um pelo outro. Mas todos os seus esforços pareciam em vão,</p><p>nada havia mudado. Quatro anos de namoro e dez de casamento eram</p><p>muita coisa para serem jogados fora, e por isso ele estava tentando</p><p>arduamente reverter aquela situação. Mas ao que parecia, nada poderia</p><p>salvá-los da iminente separação.</p><p>E, ao pensar em seu relacionamento, no quão fácil foi se</p><p>apaixonar pela esposa quando ainda estavam no início da faculdade, em</p><p>como ele se sentiu o homem mais feliz do mundo quando ela disse sim ao</p><p>seu pedido de casamento, e após a formatura de ambos, quando ela o</p><p>deixou extremamente realizado ao subir no altar ao seu lado, era algo que</p><p>o fazia se esforçar a cada segundo para que aquilo não acabasse.</p><p>Desde o início, os planos do casal sempre foram formar uma</p><p>família e passar o resto de suas vidas juntos. Depois de três anos de</p><p>casados, eles foram abençoados com a chegada de Heitor e se tornaram</p><p>de fato uma família feliz.</p><p>Alexandre não sabia em que momento tudo mudou.</p><p>Não percebeu quando deixou de procurar por sua esposa, ou</p><p>quando ela perdeu o interesse em seu corpo. Não notou quando pararam</p><p>de viver suas vidas como um casal e passaram a se tratar como dois</p><p>amigos que dividiam a mesma casa. Ele não notou. Fernanda também</p><p>não. E quando perceberam, já era tarde demais. Seus esforços pareciam</p><p>inúteis e eles já estavam cansados daquela situação.</p><p>Mesmo que não tivessem problemas no casamento ou vivessem</p><p>brigando, a tensão entre eles era palpável, como se estivessem pisando</p><p>em um terreno perigoso e a qualquer momento tudo fosse ruir sob seus</p><p>pés.</p><p>Esperar que as coisas voltassem ao que era antes, parecia uma</p><p>realidade ilusória e, a cada vez que ele pensava sobre o iminente fim de</p><p>seu casamento, sua angústia e tristeza aumentavam. Ele não queria que</p><p>acabasse, não queria que seus problemas afetassem seu filho, não queria</p><p>que o sonho chegasse ao fim.</p><p>Entretanto, nada durava para sempre.</p><p>Quando o barulho da porta se abrindo ecoou pela sala, ele ergueu</p><p>a cabeça e avistou a esposa entrar.</p><p>Fernanda usava um vestido longo, seus cabelos escuros estavam</p><p>amarrados para o alto, havia uma bolsa de grife pendurada em seu ombro</p><p>desnudo e os saltos altos que ela usava causava um barulho contra o</p><p>porcelanato que irritava os ouvidos.</p><p>— Alex? Por que tá sentado no escuro? — ela perguntou ao se</p><p>aproximar devagar. Depois</p><p>assustadoras o deixaram em alerta.</p><p>— Cadê o patrão? — perguntou exaltado.</p><p>— Não sei, tá dormindo, eu acho…</p><p>— Pode chamar ele pra mim?</p><p>— Aconteceu alguma coisa?</p><p>— Tempestade tá parindo, tem algo de errado. — naquele</p><p>momento, um trovão soou alto no céu e Luan se assustou.</p><p>— Vou chamar ele pra você. — informou e seguiu apressadamente</p><p>em direção ao corredor que levava aos quartos.</p><p>Ao alcançar a porta do quarto de Alexandre, Luan hesitou duas</p><p>vezes antes de bater devagar. Moveu-se nervosamente sobre seus pés</p><p>enquanto aguardava e, ao ouvir uma voz rouca e baixa mandá-lo esperar,</p><p>seu coração bateu acelerado.</p><p>Quando Alexandre surgiu usando apenas uma calça de tecido fino,</p><p>Luan engoliu em seco e tentou inutilmente desviar seu olhar do peitoral</p><p>largo e tatuado.</p><p>— Tá tudo bem, Luan?</p><p>— Ah… — grunhiu e limpou a garganta. — Gabriel tá te chamando,</p><p>disse que a Tempestade tá parindo, mas tem algo errado.</p><p>— Droga! — Alexandre se afastou, deixando a porta entreaberta.</p><p>Luan o observou se aproximar do guarda-roupa e quando o viu pegar</p><p>algumas roupas e se preparar para vesti-las, ele saiu dali.</p><p>Quando voltou para a sala, Gabriel, nervoso, continuava parado à</p><p>porta. Pingos de chuva começaram a cair naquele momento e os trovões</p><p>aumentaram de intensidade, assim como o vento, que soprava com força.</p><p>— Ele já tá vindo. — informou e Gabriel assentiu.</p><p>Cerca de dois minutos depois, Alexandre surgiu completamente</p><p>vestido. Apressadamente, ele pegou as botas perto da porta e as calçou de</p><p>forma desajeitada.</p><p>— Me fala o que tá acontecendo. — pediu.</p><p>— Desde a tarde que ela tá estranha, daí, eu ouvi os trovões e, antes</p><p>de chover, resolvi verificar se tava tudo bem. Ela tá deitada lá e tem muito</p><p>sangue, acho que o potro tá tendo dificuldade de sair sozinho.</p><p>— E onde ela tá?</p><p>— No estábulo.</p><p>— Ligou pra Verônica e pro Rafael? — perguntou ao se erguer.</p><p>— A Verônica foi pra capital ontem e disse que chega amanhã até o</p><p>meio-dia e o Rafael… ele já tava por aqui quando aconteceu e tá lá com a</p><p>égua.</p><p>Alexandre não disse nada, mas Luan franziu o cenho ao saber que</p><p>Rafael estava ali à uma da manhã, porém, aquilo não era de sua conta.</p><p>Então quando os viu se afastar, ele deu dois passos em direção à porta e</p><p>passou ambas as mãos pelos cabelos.</p><p>— Posso ir junto? — pediu contido.</p><p>Alexandre parou e o fitou de cima a baixo. Gabriel estava mais</p><p>distante e já se molhava com os respingos da chuva.</p><p>— Vai chover e tá tarde. — comentou com preocupação.</p><p>— Sou doce, mas não sou de açúcar, senhor. — murmurou e Gabriel</p><p>acabou soltando uma risada. Alexandre, por outro lado, prendeu o lábio</p><p>inferior entre os dentes para se impedir de sorrir. — Quer dizer… eu não me</p><p>importo de ficar molhado. — falou, mas só se deu conta do quanto aquilo</p><p>soou estranho quando os olhos de Alexandre se arregalaram.</p><p>— Vamo logo, Tempestade tá sofrendo. — Gabriel os apressou.</p><p>Alexandre suspirou fundo e meneou com a cabeça, indicando o</p><p>caminho para Luan.</p><p>Os três seguiram debaixo da chuva fraca em direção ao estábulo do</p><p>lado do curral, a pouco mais de cem metros. Entraram na grande construção</p><p>de madeira e mesmo com a pouca luz, eles se atentaram ao foco da lanterna</p><p>na última baía no fim do corredor. Os outros cavalos relincharam e se</p><p>agitaram com a presença dos humanos.</p><p>Quando chegaram, encontraram Rafael com os braços sujos de</p><p>sangue. Tempestade estava deitada, respirava de forma ruidosa e com</p><p>dificuldade e parecia sem forças. Os pés do potro já escapavam para o lado</p><p>de fora, então Alexandre os agarrou e tentou puxar devagar.</p><p>— Ela não vai aguentar. — Rafael falou devagar.</p><p>— Temos que tirar o potro. — Alexandre disse nervoso. — Eu vou</p><p>ter que puxar.</p><p>Luan se manteve de longe, pois estava assustado com aquela</p><p>situação. Pegou uma das lanternas no chão e os iluminou, tentando ajudá-</p><p>los de alguma forma.</p><p>— Então puxa. — Gabriel pediu, seus olhos estavam focados no</p><p>focinho de Tempestade. — Faz parar o sofrimento dela.</p><p>— Tudo bem. — Alexandre suspirou fundo e forçou.</p><p>Tempestade relinchou e se mexeu, Gabriel acabou sentando-se no</p><p>chão, colocou a cabeça da égua em seu colo e passou a acariciá-la, na</p><p>intenção de acalmá-la.</p><p>Poucos minutos depois, o potro grunhiu e bufou baixo ao se livrar</p><p>do confinamento apertado. Coberto do líquido da placenta e do sangue, o</p><p>pequeno bicho tinha o cordão umbilical enrolado ao seu pescoço.</p><p>— Ele parece bem, mas precisa de cuidado. — Alexandre falou ao</p><p>desenrolar o cordão do pescoço pequeno e cortá-lo com um canivete que</p><p>Gabriel retirou do bolso e o entregou. — A égua ainda tá…</p><p>— Não. — Gabriel murmurou baixo. — Ela morreu.</p><p>— Droga! — exclamou. — O que a Verônica disse sobre isso?</p><p>— Nada demais, só que a idade gestacional tava no tempo e</p><p>esperava que o parto fosse na semana que vem.</p><p>— Luan, tem um depósito lá na frente, perto da entrada, tem um</p><p>amontoado de panos grossos lá, traz alguns pra gente enrolar o bicho.</p><p>Luan assentiu freneticamente e se afastou.</p><p>— Cê tá legal? — Rafael perguntou a Gabriel, sua voz soou calma e</p><p>contida.</p><p>— Tô, eu só… ela é a minha égua favorita.</p><p>— Eu sei, sinto muito.</p><p>— Tá tudo bem.</p><p>Alexandre os observou em silêncio. Gabriel parecia chateado e</p><p>Rafael demonstrava preocupação com ele. Os dois trocaram um olhar</p><p>intenso, que logo foi quebrado.</p><p>— Voltei! — Luan apareceu com um amontoado de panos nos</p><p>braços. — Aqui. — entregou um dos panos para Alex, que enrolou o potro</p><p>com cuidado e se levantou com ele em seus braços, Luan o seguiu de perto.</p><p>Gabriel e Rafael cobriram a égua com os outros panos e ficaram ali</p><p>por mais um momento. A chuva do lado de fora caía e os estrondos dos</p><p>trovões eram assustadores e tão fortes que pareciam causar tremores abaixo</p><p>de seus pés.</p><p>— Ele tá bem? — Luan perguntou a Alexandre.</p><p>— Sim…</p><p>— É um macho?</p><p>— Acredito que sim. Não consegui ver direito.</p><p>— Será que ele vai viver sem a mainha dele? — perguntou</p><p>preocupado.</p><p>— Vai sim, Luan… ele vai ficar bem, desde que seja bem cuidado.</p><p>— murmurou e entrou na única baía desocupada.</p><p>— E como ele vai comer?</p><p>Alexandre olhou para o rosto de Luan e se deparou com os olhos</p><p>escuros arregalados de espanto, os cabelos compridos e molhados caíam</p><p>sobre seu rosto e a ponta fina do seu nariz estava avermelhada pelo frio.</p><p>— Vamos ter de alimentá-lo. — disse com calma e colocou o potro</p><p>no chão forrado de feno. — Cê vai acabar pegando uma gripe, tá todo</p><p>molhado e tá frio.</p><p>— Eu tô bem. — gesticulou em desdém. — Ele vai ter que comer</p><p>agora?</p><p>— Seria o certo, mas agora não temos o que dar pra ele. De manhã</p><p>vamos ter leite fresco e a veterinária vai chegar e cuidar dele direitinho.</p><p>— Que bom… ele vai ficar triste sem a mainha dele, né?</p><p>— Se ele tiver quem cuide bem dele, acho que não. — Alexandre</p><p>passou a mão pelo focinho do potro e sorriu pequeno.</p><p>— Hum… e ele vai ficar aqui sozinho?</p><p>— Não podemos levar ele pra casa, Luan.</p><p>— Mas ele vai ficar sozinho aqui… e ele acabou de perder a mainha</p><p>dele. — murmurou e projetou um bico manhoso.</p><p>Alexandre quis sorrir, mas se conteve porque Luan parecia</p><p>realmente chateado. Olhou ao redor e viu o espaço parcialmente escuro,</p><p>então, voltou a olhar para Luan que tinha seus olhos escuros focados no</p><p>bicho.</p><p>— E o que cê quer que a gente faça? — arqueou a sobrancelha.</p><p>— Levar ele pra casa, deixar ele lá na área onde podemos ficar</p><p>vigiando de perto.</p><p>— Cê vai levantar durante a madrugada pra ficar de olho nele?</p><p>— Se for preciso, eu nem durmo. — falou e sorriu.</p><p>Ao soltar um suspiro profundo, Alexandre voltou a olhar para o</p><p>potro.</p><p>— Tudo bem, Luan. Vamos levar ele pra casa. — cedeu.</p><p>A luz do sol, despontando atrás das montanhas ao longe, refletia</p><p>contra o rosto adormecido de Luan, que descansava em uma das redes</p><p>penduradas na varanda espaçosa. Alexandre o observava em silêncio,</p><p>sentado em uma cadeira de balanço e com uma manta grossa sobre suas</p><p>pernas.</p><p>Depois que levaram o potro para casa, Luan ficou o cercando com</p><p>preocupação evidente, então, quando Alex mandou que ele fosse tomar um</p><p>banho e trocar suas roupas molhadas e o garoto disse que estava bem, ele o</p><p>convenceu de obedecer e, em troca, ficaria ali até que</p><p>ele voltasse.</p><p>Quando os dois estavam devidamente confortáveis em roupas</p><p>quentinhas, Luan se deitou na rede e ficou observando o bicho enrolado nas</p><p>mantas. Alexandre ocupou a cadeira de balanço e juntos, eles vigiaram o</p><p>pequeno potro durante toda a madrugada. Mas em algum momento, Luan</p><p>foi vencido pelo cansaço e dormiu, depois disso, Alexandre passou todo o</p><p>tempo observando-o.</p><p>E por todas aquelas horas, sendo confortado apenas pelo barulho da</p><p>chuva fraca que ainda caía, Alexandre pensou nos acontecimentos dos</p><p>últimos dias.</p><p>Por três dias, ele se manteve o mais afastado que pôde de Luan.</p><p>Ainda não compreendia o que estava acontecendo consigo, mas</p><p>sentiu que precisava de distância caso quisesse entender.</p><p>De alguma forma, Luan havia despertado nele um interesse que ele</p><p>não achava ser possível, e mesmo se mantendo distante, ele não parava de</p><p>pensar sobre o garoto e muito menos deixar de observá-lo quando tinha a</p><p>oportunidade. E ali, vendo-o dormir tão sereno, ele se pegou pensando mais</p><p>além.</p><p>Alexandre imaginou que se não tivesse certeza de sua sexualidade,</p><p>Luan seria o tipo no qual ele sentiria atração, seria o tipo de cara que</p><p>despertaria o seu interesse, mesmo que ele não gostasse de se envolver com</p><p>pessoas mais novas.</p><p>Entretanto, Alexandre não gostava de caras, então, por que parecia</p><p>interessado em Luan?</p><p>Sem respostas.</p><p>Durante aqueles três dias, Alexandre se fez inúmeras perguntas,</p><p>mas não obteve resposta alguma.</p><p>— Xandinho? — Maria apareceu na varanda e os encontrou ali. —</p><p>O que tão fazendo aqui fora? — perguntou ao ver seu filho dormindo na</p><p>rede.</p><p>— A égua que tava prenha pariu de madrugada. Nós tivemos de</p><p>ajudar no parto e trouxemos ele pra cá.</p><p>Maria viu o pequeno bicho que começou a se mover. Vagarosamente</p><p>e de forma desajeitada, ele se levantou e ficou sobre as quatro patas.</p><p>— Oh Deus… e por que não deixaram ele junto da mãe?</p><p>— Ela morreu.</p><p>— Mas por que trouxeram ele pra cá?</p><p>— Luan que decidiu isso… ele ficou preocupado em deixar o potro</p><p>sozinho lá no estábulo.</p><p>Maria sorriu e voltou a olhar para o seu filho.</p><p>— Meu menino é assim mesmo… tem um coração enorme e mesmo</p><p>que me dê muita dor de cabeça, ele é só um garoto muito sensível.</p><p>— Percebi isso, ele ficou acordado por muito tempo vigiando o</p><p>potro. Ficou com medo do bicho se sentir sozinho.</p><p>Ela assentiu e sorriu de forma doce. Então, se aproximou da rede e</p><p>passou as mãos pelos cabelos revoltos do garoto.</p><p>— Querido… — chamou calma. Luan abriu os olhos sonolentos e</p><p>projetou um bico manhoso. — Vá dormir na cama, tá frio aqui fora.</p><p>— Não, mainha… tenho que cuidar do potrinho.</p><p>— Pode ir dormir, Luan. Eu cuido dele. — Alexandre falou.</p><p>Luan esfregou os olhos e se sentou. Ao olhar para os lados, ele</p><p>avistou o potro de pé.</p><p>— Meu Deus! Ele tá de pé! — exclamou assustado.</p><p>— Sim, e deve tá com fome. — Maria comentou.</p><p>— O que a gente dá pra ele, mainha?</p><p>— Gabriel vai tirar leite agorinha, peça pra ele separar um pouco,</p><p>misture com água e farinha de arroz, arrume um bico de silicone e coloque</p><p>em uma garrafa de plástico.</p><p>— Tipo uma mamadeira gigante? — Luan questionou animado, seus</p><p>olhos estavam arregalados de empolgação.</p><p>— Sim, querido.</p><p>— Tá bom! Vou lá pedir o leite pro Gabriel. — levantou da rede e</p><p>pegou o guarda-chuva pendurado em uma escapa na parede, então, saiu em</p><p>direção ao curral.</p><p>— Vou cuidar do café da manhã. — dona Maria falou e entrou na</p><p>casa.</p><p>Alexandre manteve seus olhos no potro de pé. Esticou sua mão e</p><p>afagou o focinho amarronzado, assim como todo o seu corpo.</p><p>— Cê vai ficar bem, bichinho… Luan vai cuidar bem de você. —</p><p>informou e acabou sorrindo.</p><p>— Cadê o Luan? — Rafael perguntou ao ocupar uma cadeira em</p><p>frente à mesa de Alexandre.</p><p>— Tá lá fora com o potro. — respondeu baixo. Sua cabeça doía pela</p><p>falta de sono e a caneca de café em suas mãos era a segunda que ele tomava</p><p>em poucas horas. — Como o Gabriel tá?</p><p>— Ele esconde bem, mas eu notei que ele ficou chateado pela</p><p>Tempestade.</p><p>— Ele te mandou embora?</p><p>— Como sempre… pensei que ele fosse deixar eu ficar mais tempo,</p><p>mas depois que voltamos, ele me despachou. — murmurou chateado.</p><p>— Eu vi quando você saiu. Por que vocês não namoram de uma</p><p>vez? Estão nisso tem o quê? Cinco meses?</p><p>— Sete. E ele não é assumido, Alex. Não é tão fácil assim.</p><p>— Eu entendo… mas ele já sabe que cê tá apaixonado? —</p><p>questionou com cuidado.</p><p>Rafael desviou olhar e focou no pasto verde através das janelas.</p><p>Cruzou as mãos e começou a bater o pé no carpete gasto.</p><p>— Ainda não tive coragem de contar. — confessou. — Não sei em</p><p>que pé estamos, eu disse que gostava dele e ele falou que também gostava</p><p>de mim, mas que precisava de tempo pra se entender. Eu só… é confuso.</p><p>Quando a gente tá na cama, ele parece gostar de mim, mais do que</p><p>demonstra, mas depois, tudo muda, ele volta a me tratar como se eu não</p><p>fizesse ele se contorcer e gemer no meu…</p><p>— Entendi, entendi… não precisa de tantos detalhes. —</p><p>interrompeu. — Isso me parece complicado, mas cê deve saber o que faz.</p><p>— Eu não sei, e não tô muito animado em descobrir. — sorriu e</p><p>ajeitou o chapéu sobre seus cabelos curtos e castanhos. — Mas não tem</p><p>muito o que fazer. — deu de ombros. — Seu Joaquim e dona Maria foram</p><p>pra missa?</p><p>— Sim, parece que vai ter um almoço na casa de alguém de lá e à</p><p>tarde vai ter bingo.</p><p>— Então você vai ficar aqui sozinho com o Luan? — perguntou,</p><p>mas Alexandre notou uma pitada de diversão na voz do amigo.</p><p>— Sim?.. a não ser que ele saia com algum amigo pra cidade. O que</p><p>tem de mais nisso?</p><p>— Nada não… mas eu notei como ele olha pra você. — comentou</p><p>despretensiosamente.</p><p>— Como assim? — Alexandre deixou a caneca sobre a mesa e</p><p>focou toda a sua atenção em Rafael.</p><p>— Ele te olha diferente… como se tivesse interesse.</p><p>— Você acha? — se aprumou no assento e passou a mão pela barba</p><p>espessa.</p><p>— Acho… — Rafael sorriu ao observar Alex. — Mas me conta aqui</p><p>uma coisa…</p><p>— Hum…</p><p>— Por que você parece ter gostado de saber disso?</p><p>— O quê? — franziu o cenho em confusão.</p><p>— Cê parece ter gostado de saber que o garoto tá a fim de você.</p><p>Alexandre negou com a cabeça e abriu um sorriso tenso.</p><p>— Tá viajando, Rafael.</p><p>— Sabe o que mais eu percebi? — questionou e Alexandre meneou</p><p>a cabeça. — Você também olha pra ele com interesse.</p><p>Alexandre engoliu em seco e um arrepio gélido percorreu seu corpo,</p><p>assim como em seu estômago que se contorceu em ansiedade.</p><p>— Cê ficou doido. — acusou.</p><p>— Fiquei? Tem certeza?</p><p>Alexandre se levantou de forma abrupta e caminhou em direção às</p><p>janelas.</p><p>— Isso não faz sentido, Rafael! Eu gosto de mulher!</p><p>— Não disse que cê não gostava. Só pontuei que você parece gostar</p><p>de homem também. Mas especificamente dele.</p><p>— Não gosto, cê tá enganado. — resmungou e suspirou fundo. —</p><p>Ele é só um garoto! — apontou contrariado.</p><p>— Não, ele é um cara de vinte anos e muito gostoso. Não tem nada</p><p>de errado nisso, cê sabe, né?</p><p>— Não quero falar disso… — respondeu com seriedade.</p><p>— Tudo bem, não tá mais aqui quem falou. — ergueu as mãos em</p><p>um gesto de rendição. — Mas se quiser conversar sobre isso, sabe que pode</p><p>contar comigo.</p><p>— Não tem nada pra conversar, Rafael. Eu tô no meio de uma</p><p>separação, não tô com cabeça pra isso agora.</p><p>— Entendi. — Alexandre se virou e encarou o rosto do seu amigo, o</p><p>sorriso divertido que ele ostentava indicava que ele não esqueceria daquele</p><p>assunto tão cedo. — Que foi? — perguntou com sarcasmo.</p><p>— Porra! Isso não faz sentido! — exclamou exaltado. — Não faz o</p><p>menor sentido. — sua voz desceu algumas oitavas e seus olhos se voltaram</p><p>para a janela.</p><p>Rafael se levantou, caminhou devagar e parou ao lado do amigo.</p><p>Apoiou sua mão no ombro de Alexandre e olhou na mesma direção que ele</p><p>olhava.</p><p>Ao longe, Luan brincava com o potro em um pasto próximo ao</p><p>curral.</p><p>— Talvez não faça… ou talvez você só não tá pronto pra reconhecer</p><p>o que sente ainda.</p><p>CAPÍTULO CINCO</p><p>Cercado pela relva verde, Luan alimentava o pequeno potro com a</p><p>mamadeira improvisada cheia de leite. O bicho parecia esfomeado e sugava</p><p>o bico de silicone como se sua vida dependesse daquilo, o que causava</p><p>risadas gostosas no garoto.</p><p>— Calma, potrinho,</p><p>ou vai se engasgar. — murmurou calmo</p><p>enquanto afagava o focinho amarronzado. — Isso, bom garoto…</p><p>Luan sentiu o vento fresco da tarde soprar contra seus cabelos</p><p>soltos. Estava sentado sobre a relva e com o potro diante de si. Era fim de</p><p>tarde, seus pais ainda não tinham voltado da cidade, e como ele passou todo</p><p>o dia com o potrinho, quase não viu Alexandre.</p><p>Alexandre.</p><p>Luan não conseguia entender o que de fato havia acontecido com</p><p>ele.</p><p>Em um momento, Alexandre estava fugindo dele como o diabo</p><p>fugia da cruz, depois, passou uma madrugada inteira ao seu lado cuidando</p><p>do potro, sendo que não tinha necessidade de sua presença ali, parecia até</p><p>que queria ficar por perto.</p><p>E bem, aquilo estava confundindo sua cabeça.</p><p>Durante as horas que ficaram na presença um do outro, eles não</p><p>conversaram sobre absolutamente nada. Vez ou outra, Luan sentia o peso do</p><p>olhar de Alexandre e não era como se ele não tivesse olhado também. Ele</p><p>olhou. Alexandre usando apenas uma camiseta simples e bermuda, com os</p><p>cabelos úmidos e os olhos verdes brilhando como estrelas no céu, era difícil</p><p>demais de ignorar.</p><p>Entretanto, não passou de olhares.</p><p>Eles ficaram sozinhos por todo o dia, mas por algum motivo</p><p>pareciam evitar a presença um do outro.</p><p>Rafael apareceu pela manhã para ajudar Gabriel a enterrar a</p><p>Tempestade em algum lugar da propriedade e depois foi embora. Luan se</p><p>manteve ocupado com o potrinho, estava extremamente encantado com o</p><p>bicho e temia que ele se sentisse solitário sem a mãe.</p><p>A cena da madrugada fora algo que ele nunca presenciou em sua</p><p>vida. Por mais que seus pais trabalhassem para a família Cavalcante desde</p><p>antes do seu nascimento, ele nunca acompanhou seu pai em suas idas para o</p><p>trabalho e, por isso, aquelas situações não eram algo do seu cotidiano. Ele</p><p>se sentiu tocado com as circunstâncias nas quais o bichinho nasceu e não</p><p>queria se afastar dele.</p><p>— Cê gosta de um leitinho fresco? — ele suavizou a voz e sorriu ao</p><p>afastar a garrafa vazia. — Tá com o buchinho cheio? — o potro relinchou e</p><p>fungou em sua direção. — Precisamos de um nome pra você, coisinha fofa.</p><p>— Cê sabe que ele não vai te responder, não é? — Luan ouviu a voz</p><p>de Alexandre soando de trás e girou o pescoço para observá-lo.</p><p>Notou que aquelas aproximações sorrateiras estavam se tornando</p><p>um hábito.</p><p>— Ele responde sim… eu só não aprendi a língua dos potrinhos</p><p>ainda. — comentou, o que causou uma risada em Alexandre.</p><p>— Cê parece apegado a ele.</p><p>Luan voltou a olhar para o potro e pendeu a cabeça para o lado. Seus</p><p>cabelos rasparam em seus ombros e balançaram suavemente. Alexandre</p><p>manteve seus olhos fixos nas ondulações escuras e mais uma vez se</p><p>questionou qual seria o cheiro e a textura daqueles fios.</p><p>— O bichinho não tem mãe, e aqueles outros cavalos e éguas</p><p>parecem ser muito grandes e ele é tão pequeno.</p><p>— Ele vai ter que se acostumar, Luan, não tem muito o que fazer.</p><p>— Por que não podemos cuidar dele? — perguntou chateado.</p><p>— Mas vamos cuidar dele, até porque não tem como ele se</p><p>alimentar sozinho. Precisamos dar leite até os dois meses, depois passamos</p><p>pra ração.</p><p>— Ele vai poder ficar lá em casa com a gente?</p><p>— Não, ele tem de ficar no estábulo pro Gabriel cuidar dele.</p><p>— Eu posso ajudar?</p><p>Alexandre observou Luan, se atentando à forma como ele estava</p><p>sentado com as pernas dobradas, os olhos focados no bicho à sua frente e</p><p>sua mão que não parava de fazer carinho na pelagem amarronzada.</p><p>Luan era lindo e Alexandre parecia não conseguir se acostumar com</p><p>aquele fato.</p><p>No entanto, além de sua beleza, Luan possuía uma inocência e</p><p>sensibilidade que pouco se via para aquela idade. E bem, ele parecia muito</p><p>apegado naquele potro.</p><p>— Cê quer ficar com ele?</p><p>— O quê? — arregalou os olhos e o fitou esperançoso.</p><p>— Cê quer ele pra você?</p><p>— Tá falando sério? — Luan se levantou de forma abrupta e passou</p><p>as mãos para retirar os resquícios de mato grudados em suas roupas. — Vai</p><p>me dar o potrinho?</p><p>— Só se você quiser, tem que cuidar dele com mais atenção e…</p><p>— Eu quero! — exclamou exaltado. — Caramba! Eu quero muito!</p><p>— Tudo bem, Luan… o potro é seu.</p><p>— Porra, senhor! Obrigado!</p><p>Luan ofegou e abriu um sorriso imenso e Alexandre se atentou</p><p>demais naquela reação.</p><p>Ele se sentiu bem por ser o causador de tamanha felicidade.</p><p>— Mas quero que deixe o Gabriel te ajudar. Cê não tem experiência,</p><p>então ele vai te ensinar tudo o que precisa fazer.</p><p>— Tá bom, tá bom! Eu deixo ele me ensinar. — respondeu animado</p><p>e voltou sua atenção para o bicho. — Temos que escolher um nome pra</p><p>você, potrinho!</p><p>— Qual vai ser? — Alexandre cruzou os braços e pendeu a cabeça</p><p>para o lado.</p><p>Luan pensou por um segundo, se agachou e voltou a acariciar o</p><p>focinho do potro.</p><p>— Alexandre. — soltou.</p><p>— Por que vai dar meu nome pra ele?</p><p>— Porque ele vai ser um garanhão. — informou como se explicasse</p><p>algo. — E se eu não montar em um, vou montar no outro… — murmurou</p><p>baixinho, mas Alexandre ouviu.</p><p>Seu coração bateu acelerado naquele momento e um frio esquisito</p><p>percorreu sua barriga. Luan falava aquelas coisas com tanta naturalidade</p><p>que Alexandre se perguntou por um segundo, se ele sabia o impacto que</p><p>causava, mas ao analisar a forma que ele continuava a agir como se não</p><p>tivesse dito nada de mais, constatou que Luan não sabia.</p><p>Ou se sabia, não demonstrava.</p><p>— Luan… — sua voz soou rouca e baixa e sua mão alisou os pelos</p><p>da barba que crescia cada vez mais.</p><p>— Tô brincando, Xandinho… — grunhiu divertido e ergueu o olhar</p><p>para Alexandre. — O nome dele vai ser Relâmpago Marquinhos.</p><p>Alexandre paralisou por alguns segundos, seus olhos completamente</p><p>focados em Luan brilharam de uma forma diferente e, quando não</p><p>aguentou, ele soltou uma risada alta.</p><p>Luan ficou novamente de pé e passou a admirá-lo completamente. A</p><p>forma como ele jogou a cabeça para trás, o som da risada dele que soava</p><p>firme e um pouco rouca, o jeito como o corpo bem construído parecia</p><p>relaxado naquele momento, mesmo que minutos antes parecesse tenso com</p><p>a sua fala.</p><p>A risada era gostosa. Luan não esperava que houvesse outra coisa</p><p>gostosa em Alexandre além do corpo dele, mas pelo visto, havia se</p><p>enganado.</p><p>— Será que algum dia eu vou deixar de me surpreender com você,</p><p>garoto?</p><p>— Não sei. — deu de ombros e sorriu. — E aí, gostou do nome?</p><p>Alexandre assentiu e se moveu minimamente, seus olhos deslizaram</p><p>devagar pela extensão da propriedade e seus pulmões se encheram com ar</p><p>puro.</p><p>— Relâmpago é porque o nome da mãe dele era Tempestade?</p><p>— Sim senhor.</p><p>— Eu gostei.</p><p>— Sério?</p><p>— Sim, Luan. — Alexandre moveu seu olhar de volta para Luan e</p><p>sorriu de lado. — Você escolheu bem.</p><p>— Que bom! Agora vamos ter de fazer uma certidão de nascimento</p><p>pra ele.</p><p>— Aí cê já tá passando do limite, garoto!</p><p>— Tô brincando!</p><p>— Tudo bem, leva ele pro estábulo, já tá escurecendo.</p><p>— Sim senhor, senhor… — Luan se moveu e tentou direcionar o</p><p>potro na direção do estábulo. — Vamo lá, Marquinhos, vamo pra sua</p><p>casinha!</p><p>Alexandre os observou se afastarem, mas assim que Luan chegou na</p><p>cerca que dividia os piquetes, ele sentiu que precisava falar algo, então o</p><p>chamou.</p><p>— Luan? — o garoto parou e o observou com atenção. — Você vai</p><p>se sair bem cuidando dele.</p><p>— Obrigado, Xandinho. — ele sorriu, abriu o colchete e passou com</p><p>o potro, depois seguiu em direção ao estábulo.</p><p>Já Alexandre permaneceu parado, apenas observando-o se afastar.</p><p>Era fim de tarde de uma segunda-feira quando Rafael voltou da</p><p>capital e trouxe consigo o Heitor.</p><p>Assim que Alexandre ouviu o barulho do carro se aproximando, ele</p><p>apressou o passo e os esperou na varanda. Quando Rafael desceu do veículo</p><p>e libertou o garotinho de seis anos da cadeirinha infantil, ele correu em</p><p>direção ao pai que o agarrou com um abraço apertado.</p><p>— Oi, meu filho… que saudade o papai tava de você. — proferiu</p><p>baixo, o cheiro de shampoo doce entrou por suas narinas e causou em si</p><p>uma sensação indescritível de paz.</p><p>— Oi, papai! Bença? — o garotinho cumprimentou com educação.</p><p>— Deus te abençoe, meu menino. — sorriu e deixou um beijo na</p><p>bochecha rosada. — Como a tua mãe tá? — perguntou ao mantê-lo em seu</p><p>colo.</p><p>— Ela tá bem, mandou beijinhos</p><p>e disse que tava com saudade.</p><p>— Fernanda mandou a mala dele e alguns remédios pra resfriado.</p><p>— Rafael falou ao colocar a bagagem no chão perto de Alexandre.</p><p>— Ela me disse que mandaria quando liguei mais cedo… —</p><p>respondeu e só então colocou o filho no chão. — Então quer dizer que você</p><p>tá doente? E ainda assim quis vir pra fazenda?</p><p>— Sim, papai! Não vou pro colégio porque tô de férias…</p><p>— E você se saiu bem nas provas? — Alexandre questionou.</p><p>— Sim, a mamãe disse que eu fui um bom garoto.</p><p>— Com certeza foi… — ele bagunçou os cabelos castanhos claros</p><p>do filho e voltou sua atenção para Rafael. — Já vai voltar pra cidade?</p><p>— Sim, mas antes, vou deixar as vacinas do gado com o Gabriel,</p><p>acho que amanhã ele já começa a vacinar.</p><p>— Tudo bem.</p><p>— Vou indo e amanhã cedo tô aqui, qualquer coisa me liga!</p><p>Alexandre assentiu e observou seu amigo entrar na caminhonete e</p><p>dirigir em direção à casa que Gabriel ocupava sozinho. Haviam mais três</p><p>acomodações onde os outros peões, que não tinham moradia fixa na cidade,</p><p>ficavam. Lá, eles tinham uma área comum onde faziam suas refeições e o</p><p>Pedro, que era primo de Rafael e ocupava outra casa junto de um colega de</p><p>trabalho, era o responsável por preparar as refeições de todos.</p><p>— Papai, cadê a senhora Nona? — Heitor questionou depois de</p><p>alguns minutos.</p><p>— Tá lá na cozinha preparando uma surpresa pra você.</p><p>— Sério? O quê?</p><p>— Vai lá vê. — indicou a porta e sorriu quando o garoto partiu em</p><p>disparada.</p><p>Alexandre pegou a mala do filho e olhou ao redor mais uma vez,</p><p>como se buscasse inconscientemente por algo.</p><p>E ele encontrou.</p><p>Luan caminhava vagarosamente em direção à casa enquanto mexia</p><p>no aparelho telefônico em sua mão. Os cabelos escuros estavam presos para</p><p>trás como ele costumava manter quando trabalhava e a regata cinza estava</p><p>molhada com o suor do dia de trabalho puxado.</p><p>Como se sentisse o peso do seu olhar, Luan ergueu a cabeça e o</p><p>flagrou observando-o, parado e com a mala na mão. Antes que pudesse</p><p>desviar o olhar, ele vislumbrou um sorriso descarado repuxar os lábios</p><p>levemente fartos, e naquele momento, uma quentura gostosa irradiou de seu</p><p>peito por toda a barriga.</p><p>Como se estivesse fugindo, ele entrou rapidamente na casa, mas por</p><p>dentro, estava torcendo para que Luan se juntasse a eles na cozinha para</p><p>poder observá-lo mais de perto.</p><p>Ao chegar em casa, Luan seguiu diretamente para o seu quarto na</p><p>intenção de tomar um banho. Estava cansado, sujo e muito suado, sem</p><p>contar a fome descomunal que fazia seu estômago roncar alto.</p><p>Após tomar um banho demorado e revigorante, ele vestiu uma</p><p>bermuda jeans, uma regata preta e secou seus cabelos com a toalha, depois,</p><p>penteou os fios escuros e passou um pouco de perfume, só então ele saiu do</p><p>quarto.</p><p>Foi guiado pelo cheiro do bolo de chocolate e pelas conversas e</p><p>risadas que soavam da cozinha.</p><p>— Querido, fiz um bolim de chocolate, come um pedacinho! —</p><p>dona Maria falou com animação ao ver o filho entrar na cozinha.</p><p>— Eu quero sim, mainha, tô mortinho de fome! — exclamou</p><p>enquanto observava o garotinho sentado ao lado de Alexandre. — Oi,</p><p>carinha. — cumprimentou e ocupou o espaço vago do outro lado da mesa e</p><p>de frente para Alex.</p><p>— Oi. — Heitor respondeu e sorriu, a janelinha pela falta de dente</p><p>fez com que Luan também sorrisse. — O senhor é o Luan?</p><p>— Sou sim, mas não precisa me chamar de senhor, tá bom? —</p><p>murmurou, e após receber um aceno afirmativo, ele se empenhou em cortar</p><p>uma fatia generosa do bolo e servi-la em um dos pratos sobre a mesa. —</p><p>Você é o herdeiro de todo esse reinado? — gesticulou ao redor como se</p><p>mostrasse toda a propriedade de Alexandre.</p><p>— Sim, meu papai é dono e ele diz que eu vou ser dono um dia</p><p>também. — informou e Alex sorriu com orgulho.</p><p>— Olha, não sei do que eu tenho mais inveja, se é da sua herança ou</p><p>da sua dicção.</p><p>— Dicção? — Heitor pronunciou devagar e franziu o cenho ao</p><p>pender a cabeça para o lado.</p><p>— Dicção significa que você fala bem, filho, sem se atrapalhar. —</p><p>Alex explicou.</p><p>— Ah, entendi. Mas olha, a mamãe diz que não pode ter inveja das</p><p>pessoas, é feio.</p><p>— Hum. — Luan grunhiu e assentiu. Sua boca estava cheia de bolo</p><p>e havia recheio de chocolate sujando o canto dos seus lábios. Quando</p><p>Alexandre percebeu que olhava demais para aquele ponto, desviou sua</p><p>atenção e focou seus olhos no prato vazio. — Cê tá certo, meu pequeno</p><p>herdeiro, me desculpe por isso.</p><p>— Tudo bem, tio, o senhor aprende. — respondeu com naturalidade</p><p>e bebeu um pouco de leite com nescau.</p><p>Luan soltou uma risada pela resposta e limpou a boca com um</p><p>guardanapo que havia sobre a mesa.</p><p>— Acho que já chega de comer coisa doce por hoje, espertinho. Ou</p><p>você não vai jantar.</p><p>— Tá bom.</p><p>— Falando em jantar, mainha, eu vou à cidade comer um lanche</p><p>com o Gustavo, daqui a pouco eu volto, tá?</p><p>— Vê se não faz como da última vez e volta de madrugada, tá me</p><p>ouvindo? — ordenou sem se virar.</p><p>— Sim, senhora. — respondeu, então se levantou com o prato vazio</p><p>em suas mãos, se aproximou da pia e o lavou de forma rápida, depois o</p><p>colocou no escorredor. — Guto tá chegando, daqui a pouco eu volto, amo a</p><p>senhora. — murmurou ao parar do lado de sua mãe e deixou um beijo</p><p>carinhoso na testa enrugada pela idade.</p><p>Alexandre deslizou seus olhos, rapidamente, pelas costas de Luan e</p><p>focou no traseiro arredondado coberto pelo jeans.</p><p>— Também amo você, garoto safado. — Maria meneou a cabeça e</p><p>bateu no filho com um pano de prato. — Se chegar de madrugada vai</p><p>dormir pro lado de fora.</p><p>— Não vou. — quando se virou, acabou flagrando Alexandre</p><p>olhando-o quase hipnotizado. Contendo o sorriso, ele olhou para Heitor e</p><p>falou: — Amanhã vou te apresentar o Relâmpago Marquinhos, pequeno</p><p>herdeiro, cê vai se amarrar. — deu uma piscadela divertida e saiu da</p><p>cozinha.</p><p>— Esse garoto vai deixar o resto de cabelo preto que eu tenho</p><p>branquinho, igual leite de vaca. — Maria comentou e riu. — Vou fazer o</p><p>jantar, o que vocês querem comer?</p><p>Alexandre olhou para Heitor ao seu lado e passou a mão pelos</p><p>cabelos castanhos claros do garoto, que sorriu e esfregou um dos olhos com</p><p>a mão pequena.</p><p>— Cê quer ir comer na cidade? — perguntou. — Comer um</p><p>espetinho com farofa de feijão-tropeiro, o que acha?</p><p>— Pode ser, papai.</p><p>— Tudo bem, mas antes você vai tomar banho e os remédios pro</p><p>resfriado. — informou e olhou para Maria, que os observava com atenção.</p><p>— Não precisa fazer o jantar se não quiser, Nona, vou comer com o Heitor</p><p>na rua.</p><p>— Tá bom, então.</p><p>Alex levantou e ajudou o filho a descer do banco com cuidado.</p><p>— Vamos lá, garotão. Cê precisa de um banho e trocar de roupa.</p><p>Luan estava sentado em uma cadeira de plástico ao lado de Gustavo</p><p>quando viu Alexandre estacionar a Dodge Ram do outro lado da rua, em</p><p>frente a um estabelecimento que vendia os melhores espetos da pequena</p><p>cidade. Ao sair, ele bateu a porta com certa força, e após dar a volta no</p><p>imenso veículo, ajudou o filho a descer.</p><p>De mãos dadas, os dois caminharam até o local e ocuparam uma</p><p>mesa, logo, uma garçonete apareceu e os atendeu.</p><p>— O filho do patrão chegou hoje? — Gustavo perguntou depois de</p><p>beber um gole de refrigerante.</p><p>— Sim, junto com o Rafa, se não me engano. — comentou e deu</p><p>uma mordida generosa no hambúrguer gorduroso.</p><p>— Entendi… — murmurou e deu uma risadinha.</p><p>— O que foi? — perguntou e deixou o sanduíche dentro da bandeja</p><p>de plástico.</p><p>— O patrão não vai com a minha cara mesmo, mas ele parece gostar</p><p>de você.</p><p>— O que quer dizer com isso? — Luan franziu o cenho e encarou</p><p>Gustavo.</p><p>— Quando eu falo, ele finge que nem me ouve… — confessou e</p><p>ergueu a mão, levando-a até o canto da boca de Luan para limpar a sujeira</p><p>do ketchup. — Mas quando tu fala, ele escuta cada palavra com muita</p><p>atenção. — proferiu baixo e levou o polegar sujo para a própria boca.</p><p>— Gustavo, a gente tá no lanche mais frequentado desse fim de</p><p>mundo e a praça tá cheia… quer mesmo o pessoal falando algo? — inquiriu</p><p>e Gustavo deu de ombros. — Para de dar vacilo na frente dos outros, já é a</p><p>segunda vez.</p><p>— Por quê? Não quer que saibam da gente?</p><p>— Claro que não quero! Tá doido? Meus pais não sabem da minha</p><p>sexualidade, e eu não quero o</p><p>povo desse lugar me olhando torto por causa</p><p>disso. — respondeu sério e bebeu um gole do seu refrigerante. — Até</p><p>parece que não sabe como esse pessoal daqui é.</p><p>— Tá bom, esquentadinho. Prometo que não faço mais, mesmo que</p><p>eu não me importe de ser visto com você. — cruzou os braços e se recostou</p><p>no encosto da cadeira. — Ele tá olhando pra cá… se não fosse hétero e</p><p>casado, chutaria que ele tá a fim de você.</p><p>— Tá viajando, Guto. — resmungou.</p><p>Luan focou seus olhos no porta guardanapo sobre a mesa e engoliu a</p><p>vontade de falar que Alexandre não estava mais casado, porém, Alex não</p><p>parecia disposto a expor aquilo tão cedo e não seria ele a falar sobre algo</p><p>que não era de sua conta.</p><p>A única coisa na qual ele estava se importando no momento, era no</p><p>fato de sentir como se Alexandre pudesse ver através de sua alma. Mesmo</p><p>estando do outro lado da rua, ele sentia o peso daquele olhar.</p><p>Era intenso, maçante, parecia despi-lo completamente e arrepiava a</p><p>sua pele. O que era estranho, dado ao fato de que só se conheciam há uma</p><p>semana. Porém, Luan não levava aquilo em conta, até porque não havia</p><p>prazo estipulado para sentir atração por alguém.</p><p>Contudo, era inusitado o fato de que um homem de trinta e cinco</p><p>anos, que se dizia hétero, ficasse olhando para a sua bunda da forma que</p><p>Alexandre olhou mais cedo. Luan não negava que havia gostado daquilo,</p><p>pois era um fato que se sentia atraído, até demais, por ele. Só que aquelas</p><p>situações o deixavam confuso.</p><p>Ele não sabia se o brilho nos olhos verdes indicava desejo ou</p><p>atração e por isso tinha medo de arriscar.</p><p>Sem conseguir se conter, ele moveu a cabeça para o lado e olhou</p><p>para Alexandre do outro lado da rua, e lá estava ele, observando-o com</p><p>atenção.</p><p>Luan não entendia quais eram as intenções de Alexandre, porém,</p><p>estava disposto a descobrir cada uma delas.</p><p>— Por que ele tá vindo pra cá? — Gustavo questionou confuso e</p><p>deixou seu copo com cerveja sobre a mesa.</p><p>Luan tragou a fumaça saborizada do cigarro eletrônico que</p><p>compartilhava com o amigo, ao liberar a fumaça de seus pulmões, ele</p><p>voltou a olhar na direção onde Alexandre estava e o avistou se aproximando</p><p>com Heitor ao seu lado.</p><p>Quando alcançaram a calçada da praça, Heitor balançou o braço que</p><p>segurava a mão de seu pai e sorriu animado quando viu Luan, esse que se</p><p>aprumou no lugar e manteve seu olhar sobre os recém-chegados.</p><p>— Olá, pequeno herdeiro! — cumprimentou quando Alexandre</p><p>parou ao lado da mesa que ocupava.</p><p>— Oi!</p><p>— Tudo tranquilo? — Luan questionou e Heitor ergueu o polegar e</p><p>acenou. — Tá precisando de algo, senhor? — arqueou a sobrancelha e</p><p>conteve a vontade de sorrir.</p><p>— Não, mas Heitor e eu estamos indo pra casa e pensamos que cê</p><p>poderia querer uma carona.</p><p>— Eu vou levar ele, patrão. — Gustavo disse, mas quando</p><p>Alexandre lançou-lhe um olhar intenso e frio, ele engoliu em seco e se</p><p>calou.</p><p>Alexandre voltou a olhar para Luan e esperou. Os dois se</p><p>mantiveram por segundos naquela troca de olhares que só foi quebrada</p><p>quando Heitor puxou o braço do pai.</p><p>— Papai, quero um balão daquele! — apontou em direção ao</p><p>vendedor ambulante com vários balões amarrados em um enorme bastão.</p><p>— Tudo bem… — concordou e passou a mão pelas costas do filho.</p><p>— Se for querer a carona, espere aqui, só vou comprar um balão com o</p><p>Heitor e já volto. — informou e sem esperar por uma resposta, se afastou</p><p>com o filho.</p><p>— Cê não quer dormir lá em casa? Amanhã a gente vai cedinho. —</p><p>Gustavo perguntou com certo interesse.</p><p>— Não posso, mainha disse pra eu voltar cedo, não quero painho</p><p>pegando no meu pé de novo. — contou e bebeu o que restava da cerveja no</p><p>copo americano.</p><p>Luan não gostava de beber em dias úteis, mas estava tão cansado</p><p>que cedeu a vontade e pediu uma garrafa de cerveja para dividir com</p><p>Gustavo.</p><p>— Eu posso te levar, se quiser.</p><p>— Não precisa, é perigoso pra você voltar sozinho. — murmurou</p><p>qualquer desculpa que imaginou para dissuadir seu amigo da ideia de ir até</p><p>a fazenda.</p><p>Ele queria ir com Alexandre, mesmo que não admitisse em voz alta.</p><p>— Cê vai pegar carona com o patrão? — Gustavo observou bem o</p><p>rosto de Luan, que permanecia atento a Alex. — Cê tá a fim dele, né?</p><p>— O quê? — franziu o cenho e olhou para o amigo.</p><p>— Cê tá a fim dele. — afirmou.</p><p>— E quem não tá? Ele é um puta gostoso, uma pena que seja hétero.</p><p>— desdenhou.</p><p>— E casado, não esquece que ele é casado.</p><p>— Uhum, casado, casado. Entendi, não vou esquecer. — respondeu</p><p>displicente e crispou os lábios, quando avistou Alexandre e Heitor voltando,</p><p>ele se levantou ansioso.</p><p>— Vamos indo? — Alexandre o chamou.</p><p>— Beleza… — falou e deixou sua parte do valor que consumiram</p><p>sobre a mesa. — A gente se vê amanhã, Guto.</p><p>— Até. — ele acenou e os observou se afastarem.</p><p>Caminhando de forma tranquila ao lado de Heitor, Luan o ouvia</p><p>tagarelar animadamente sobre como o seu balão do Homem de Ferro era</p><p>legal. Alexandre respondia o filho sempre que era questionado, entretanto, a</p><p>sensação gélida em seu estômago e o suor em suas mãos eram grandes</p><p>indicativos de que, mesmo disfarçando bem, ele estava nervoso com a</p><p>presença de Luan.</p><p>Depois de prender o filho na cadeirinha, ele fechou a porta e parou</p><p>diante de Luan, que estava estático ao lado da porta do passageiro.</p><p>— O que foi? — franziu o cenho em confusão.</p><p>— Nada, só tô notando o quanto esse carro é grande… tipo, muito</p><p>grande. — murmurou ao olhar para a caminhonete preta. — É pra</p><p>compensar alguma coisa? — arqueou a sobrancelha e prendeu o lábio</p><p>inferior entre os dentes.</p><p>Alexandre olhou ao redor, notando várias pessoas dispersas nos</p><p>estabelecimentos. Sendo atingido por uma dose de coragem, ele apertou a</p><p>ponta do nariz ao abaixar a cabeça e deu um passo a frente, parando ao lado</p><p>de Luan e encostando seu ombro ao dele. A pequena diferença de altura</p><p>entre eles era de dez centímetros, e por isso, Luan precisou erguer</p><p>minimamente sua cabeça para fitar o perfil bonito. Seu estômago esfriou e o</p><p>coração bateu mais acelerado.</p><p>— Não existe nada em mim que precise ser compensado, Luan. —</p><p>proferiu baixo, e a voz rouca pareceu acariciar a pele de Luan, deixando-a</p><p>arrepiada. — Se a sua dúvida é essa, pode ter certeza que é grande… —</p><p>Alexandre sorriu de lado, a sensação calorosa de satisfação que irradiou em</p><p>seu peito ao constatar que, pela primeira vez, deixou Luan completamente</p><p>mudo, foi extremamente satisfatório. Ele passou a mão pela barba espessa,</p><p>abriu a porta do carro e meneou a cabeça. — Vamos pra casa, garoto.</p><p>Atordoado, Luan assentiu e entrou no veículo, novamente, ele sentiu</p><p>como se tivesse sido atingido em cheio, pois o cheiro delicioso do perfume</p><p>de Alexandre estava impregnado no espaço confinado. Era intenso,</p><p>amadeirado e havia uma leve pitada de doce. Uma fragrância única, que</p><p>encheu seus pulmões e o deixou inebriado. Viciado.</p><p>— Tudo bem aí atrás, filho? — Alex perguntou ao ocupar o assento</p><p>do motorista.</p><p>— Sim, papai, meu balão é muito legal. Você gostou, tio Luan?</p><p>— Gostei sim, pequeno herdeiro. — Luan murmurou baixo. Seus</p><p>olhos deslizaram pelo enorme painel e focaram em Alexandre, que deu</p><p>partida e manobrou para pegar a rua movimentada.</p><p>Alex manteve o sorriso de lado, uma das mãos apertava levemente o</p><p>couro do volante e a outra alisava sua barba. Manteve a atenção focada na</p><p>estrada, mas mentiria se dissesse que não foi um grande esforço não olhar</p><p>para o garoto ao seu lado.</p><p>Ambos ficaram em silêncio, apenas ouvindo Heitor falar sem parar e</p><p>respondendo quando questionados. Em poucos minutos, Alexandre pegou a</p><p>estrada de chão que levava à fazenda Serra Dourada, a cinco quilômetros. O</p><p>breu da noite os cercava, assim como no interior do carro e apenas os faróis</p><p>iluminavam o caminho. Luan cruzou os braços, pois estava de regata e o ar-</p><p>condicionado era muito forte. Ao notar como o garoto se encolheu, Alex</p><p>estendeu o braço para trás e pegou um casaco sobre o banco traseiro e deu a</p><p>ele.</p><p>— Parece com frio… — comentou ao entregar a peça de roupa.</p><p>— Ah, só não tô acostumado com ar-condicionado. — explicou e se</p><p>aconchegou no casaco. O cheiro do perfume parecia ainda mais forte</p><p>naquela peça e Luan sentiu vontade de</p><p>ronronar e se encolher ainda mais.</p><p>— No seu quarto não tem ar?</p><p>— Tem, mas eu não uso.</p><p>— Por quê? — franziu o cenho e olhou para Luan por alguns</p><p>segundos.</p><p>— Eu já tô ocupando um quarto que não devia, não posso ficar</p><p>usando o ar-condicionado como se fosse visita.</p><p>— Luan, você pode usar qualquer coisa daquela casa sem se</p><p>preocupar com isso.</p><p>— Não posso, senhor. Eu sou só um funcionário, filho de</p><p>funcionários. A casa é sua e não…</p><p>— Exatamente. — interrompeu ao afirmar. — A casa é minha, e eu</p><p>tô dando liberdade pra você usar o ar-condicionado, ou qualquer coisa que</p><p>tenha naquela casa ou fazenda, entendeu? — perguntou sério.</p><p>Luan focou seu olhar em Alexandre, no braço musculoso e</p><p>estendido em direção ao volante, naquele peitoral parcialmente exposto,</p><p>devido aos botões fora de suas casas, e no rosto sério, que mesmo coberto</p><p>pela barba farta deixava transparecer sua tensão.</p><p>— Entendi, Alexandre. — respondeu em um sopro de ar.</p><p>— Ótimo.</p><p>Pelo restante do tempo, eles ficaram em silêncio e quando</p><p>Alexandre passou pela entrada da fazenda, olhou para trás pelo espelho</p><p>retrovisor e avistou seu filho dormindo na cadeirinha.</p><p>Ao parar em frente ao casarão, Luan desceu e observou Alexandre</p><p>abrir a porta traseira e retirar Heitor, que permaneceu dormindo.</p><p>— Não vai entrar? — Alex perguntou ao notar Luan parado no</p><p>mesmo lugar.</p><p>— Não, eu vou lá ver como o relâmpago tá. — acenou em direção</p><p>ao estábulo ao longe e se moveu para retirar o casaco.</p><p>— Entendi… pode ficar com ele. — falou e Luan parou de se</p><p>mover. — Ainda tá frio e cê pode precisar.</p><p>— Tudo bem, obrigado.</p><p>— Não por isso, Luan, boa noite.</p><p>— Boa noite, Alexandre. — respondeu e girou sobre as havaianas</p><p>para se afastar.</p><p>A cada passo que dava, o sorriso em seu rosto aumentava e seu</p><p>coração batia descompassado. Se encolheu dentro do casaco e levou a barra</p><p>do colarinho até o nariz para cheirar bem de perto.</p><p>— Filho da mãe, gostoso e cheiroso… — grunhiu como se estivesse</p><p>irritado, apesar de não estar. — E grande, não posso esquecer dessa</p><p>informação… — sorriu ainda mais e apressou o passo. — Relâmpago</p><p>Marquinhos, papai tá chegando!</p><p>CAPÍTULO SEIS</p><p>Heitor ficou completamente encantado com o potrinho no momento</p><p>em que o viu.</p><p>Ele e Luan passavam muito tempo juntos, cuidando, brincando e</p><p>alimentando o Relâmpago, esse que crescia cada vez mais forte e saudável.</p><p>Alexandre agradeceu por ter Luan para distrair seu filho, já que</p><p>naquela semana ele ficou bastante ocupado ajudando Gabriel e os outros</p><p>peões com a vacinação do gado.</p><p>Naquele momento, ele observava os dois brincando no pasto e sorriu</p><p>quando Heitor escorregou e começou a gargalhar.</p><p>— Alex? Tá me ouvindo? — a voz de Fernanda soou através da</p><p>chamada.</p><p>— Sim, Nanda. — respondeu e escorou o corpo na estrutura do</p><p>curral. — Ele precisa mesmo ir?</p><p>— Sim, o aniversário da minha mãe é amanhã, e eu esqueci</p><p>completamente disso. Ela quer que ele esteja presente. Você sabe como eles</p><p>são apegados.</p><p>— É, eu sei. Tudo bem, amanhã cedo a gente sai daqui. —</p><p>informou.</p><p>— Ok, ele tá bem? Tá melhor da virose?</p><p>— Sim, tá completamente saudável, a Nona fez uns chás caseiros,</p><p>ele reclamou, mas bebeu tudo, agora tá bem.</p><p>— Ele odeia essas coisas mesmo… — murmurou e Alexandre ouviu</p><p>barulho de papéis sendo mexidos. — Escuta, acabei de chegar do fórum e</p><p>tô com papelada aqui até o pescoço, quando chegar em casa eu ligo pra</p><p>falar com ele.</p><p>— Tudo bem, até mais tarde. — se despediu e desligou.</p><p>Depois de guardar o celular no bolso da calça jeans, ele caminhou</p><p>em direção aos dois e parou quando alcançou a cerca, pendurou os braços</p><p>no arame liso e sorriu.</p><p>— Papai! O tio Luan disse que quando o Relâmpago tiver grandão</p><p>eu vou poder montar nele! — Heitor exclamou animado e correu até seu</p><p>pai.</p><p>— Ele disse?</p><p>— Sim!</p><p>— Que legal, filho… tio Luan é muito bonzinho, né?</p><p>— Sim! Ele é mais legal que o tio Rafa. — comentou e Alex</p><p>gargalhou.</p><p>— Ele vai odiar saber disso.</p><p>— Não tenho culpa de ser irresistível. — Luan falou ao se</p><p>aproximar com o potro ao seu lado. Seu sorriso permaneceu em seu rosto,</p><p>mas o frio gélido em seu estômago e o arrepio na nuca ao ter os olhos</p><p>verdes sobre si de forma intensa quase o fizeram vacilar.</p><p>— Pai, eu tô com sede. — Heitor passou pelo vão entre os arames e</p><p>ergueu a cabeça para olhar o rosto de Alex. — Vou indo, a Nona disse que</p><p>ia fazer uma limonada.</p><p>— Não vá correndo, entendeu? E depois vá tomar banho.</p><p>— Tá bom.</p><p>Luan deu alguns passos em direção ao colchete e o abriu para passar</p><p>com o potro, que logo se afastou. Luan assobiou e ele voltou, e aquele gesto</p><p>chamou a atenção de Alex.</p><p>— Ele te segue se você assobia? — perguntou e Luan assentiu. —</p><p>Desde quando?</p><p>— Comecei a fazer isso desde que ele nasceu. Maneiro, né? —</p><p>sorriu e observou quando Alex passou a acompanhá-lo até o estábulo.</p><p>— É legal. — retirou o chapéu de sua cabeça e passou a mão</p><p>desocupada pelos cabelos. — Acho que o Heitor vai sentir falta dele.</p><p>— Sentir falta? — Luan franziu o cenho.</p><p>— Sim, Fernanda ligou. Amanhã é o aniversário da mãe dela e eles</p><p>querem o Heitor por lá.</p><p>— Poxa, ele só ficou aqui por cinco dias.</p><p>— Ele vai voltar em outro momento, talvez antes que as férias</p><p>acabem.</p><p>— E você vai com ele? — perguntou baixo, seu olhar permaneceu</p><p>focado no potro que caminhava à sua frente.</p><p>— Vou…</p><p>— Entendi. — Luan abriu a cancela do estábulo e entrou com o</p><p>potro e Alexandre ao seu lado.</p><p>— Não gostou de saber que vou com ele? — perguntou ao notar o</p><p>bico chateado no rosto do garoto.</p><p>Luan não respondeu, caminhou até a última baía com o potro em seu</p><p>encalço e depois o prendeu ali. Quando voltou, encontrou Alex parado e de</p><p>braços cruzados, com os olhos verdes focados em cada movimento seu.</p><p>Ele manteve o passo tranquilo, mas ao passar por Alexandre, foi</p><p>impedido de continuar quando teve seu braço agarrado pela mão levemente</p><p>calejada.</p><p>— Te fiz uma pergunta, Luan… — indagou.</p><p>— Por que a minha opinião é importante? — arqueou a sobrancelha</p><p>ao questionar.</p><p>— Só responde.</p><p>Luan soltou seu braço do aperto de Alex e se virou, ficando de</p><p>frente para ele. Manteve sua cabeça erguida e seu olhar paralisado nos olhos</p><p>verdes. Lentamente, ele umedeceu os lábios e engoliu em seco. Um</p><p>enxame de borboletas pareceu alçar voo em sua barriga e suas entranhas se</p><p>contraíram em ansiedade.</p><p>Alexandre estava tão perto e parecia tão lindo com aquela barba</p><p>espessa e aqueles botões da camisa fora de suas casas que ele teve de conter</p><p>a vontade de tocá-lo.</p><p>Um pecado. Alexandre Cavalcante era um pecado em forma</p><p>humana.</p><p>— Não posso dizer que não quero que você volte pra sua esposa,</p><p>Alexandre. Não tenho esse direito.</p><p>— Já te disse que não tô mais casado.</p><p>— E por que ainda usa sua aliança? — inquiriu.</p><p>Alexandre ficou surpreso com aquela pergunta. Não imaginava que</p><p>Luan fosse duvidar de sua palavra.</p><p>— Eu… — Alex negou com a cabeça e passou a mão pela barba. —</p><p>Nós ainda não contamos pro Heitor, não contamos pra ninguém. —</p><p>confessou. — Por isso eu ainda não a tirei. — ergueu a mão e moveu o dedo</p><p>adornado pela aliança de ouro.</p><p>— Entendi, imagino que deva ser complicado mesmo. — respondeu</p><p>displicente e tentou se afastar, porém, Alexandre estendeu o braço e</p><p>espalmou sua mão contra a madeira, encurralando-o contra a parede. —</p><p>Alex… — soprou baixo e abaixou a cabeça.</p><p>Alexandre sentiu sua pele arrepiar ao ouvir Luan chamando-o</p><p>daquela forma tão suave e íntima. Não entendia o que estava acontecendo,</p><p>mas naquele momento ele foi consumido por uma vontade e desejo que</p><p>pareceu cegá-lo.</p><p>Ele estendeu sua mão e tocou o queixo de Luan, o contato contra a</p><p>pele quente, mesmo sendo algo brando, causou um choque térmico em</p><p>ambos os corpos. Ao erguer a cabeça do garoto, ele foi nocauteado pelo</p><p>desejo que brilhava nas íris escuras e dilatadas, e aquilo agiu como</p><p>combustível sendo derramado sobre uma pequena faísca de fogo.</p><p>Alexandre se sentia quente.</p><p>— Você não me respondeu. — sussurrou e deu um passo à frente.</p><p>Seus dedos deslizaram pela bochecha até alcançar uma mecha de cabelo</p><p>escuro que escapou do elástico. Eram macios, como ele imaginou. — Não</p><p>gostou de saber que eu vou</p><p>pra capital?</p><p>— Isso faz diferença pra você? — questionou com tranquilidade,</p><p>apesar de estar sendo consumido pelo nervosismo.</p><p>— Faz. — respondeu sem titubear.</p><p>— Por quê? — pendeu a cabeça para o lado, o que causou mais</p><p>aproximação do seu rosto na mão de Alex. — Isso não é algo que um cara</p><p>hétero se importaria.</p><p>— Uma resposta por outra, o que acha? — propôs e Luan assentiu.</p><p>— Então me dê a minha resposta, Luan.</p><p>— Se eu disser que quero que cê vá embora, vai ser uma mentira,</p><p>Alexandre. Só que meus motivos pra querer que você fique vão muito além</p><p>do que chamariam de adequado. — confessou com calma, seus olhos não</p><p>desviaram do rosto de Alex por nem um segundo. — Agora eu quero a</p><p>minha resposta.</p><p>— A diferença, Luan… é que mesmo sem ter procurado, agora eu</p><p>tenho um grande motivo pra voltar pra cá, eu só precisava ter certeza de que</p><p>não tava imaginando coisa.</p><p>— E o motivo sou eu? — perguntou ansioso. Seu coração batia tão</p><p>acelerado que ele achou que fosse pular fora de seu peito.</p><p>— Pode apostar que sim… — consumido pela coragem e ousadia,</p><p>Alex tornou a tocar a mecha de cabelo e roçar seus dedos contra a bochecha</p><p>de Luan. — E respondendo a sua outra pergunta… até chegar aqui, eu</p><p>estava convicto da minha sexualidade. Mas com as coisas que eu tenho</p><p>pensado ultimamente… eu posso ser tudo, Luan, menos hétero. —</p><p>expressou com firmeza e deu um passo atrás, então, com um sorriso imenso</p><p>no rosto, saiu do estábulo e deixou Luan sozinho.</p><p>Com as pernas bambas e a mente uma confusão, Luan conteve a</p><p>vontade absurda que sentiu de gritar e gargalhar e respirou fundo várias</p><p>vezes para se acalmar.</p><p>Não era mais uma dúvida, Alexandre, definitivamente, estava</p><p>interessado. E aquilo poderia ser algo muito bom, ou… muito, muito ruim.</p><p>— Merda!</p><p>No sábado bem cedo, Alex se aprontava para pegar a estrada com</p><p>Heitor.</p><p>Quando acordou, apenas seu Joaquim estava de pé na cozinha e</p><p>preparando o café, então ele tomou uma dose generosa do líquido preto e</p><p>fumegante antes de acordar seu filho. Mas só quando já estava no carro que</p><p>notou ter esquecido sua carteira, ele deixou Heitor no carro e se apressou</p><p>até seu quarto.</p><p>Ao sair do cômodo já com a carteira no bolso da calça jeans que</p><p>usava, ele encontrou com Luan, que também saia de seu quarto com o rosto</p><p>amassado pelo travesseiro e os lábios inchados e avermelhados. Ambos</p><p>paralisaram no corredor, se observavam com curiosidade e certa tensão.</p><p>Pela primeira vez, Luan havia sonhado com Alexandre e acordou</p><p>suado e ofegante, já Alex pegou no sono bem tarde da noite, imaginando</p><p>coisas com Luan das quais não devia e relembrando o quão gostoso foi a</p><p>sensação de ter aqueles cabelos entre seus dedos por um segundo.</p><p>De alguma forma que ainda não compreendia, ele parecia fissurado</p><p>na cabeleira rebelde do garoto.</p><p>— Hum… bom dia. — Luan murmurou baixo quando a tensão se</p><p>tornou incômoda.</p><p>— Bom dia, Luan. — Alex sorriu e o observou completamente.</p><p>— Já tá indo? — questionou contido.</p><p>— Já sim, Heitor tá me esperando no carro. — respondeu e passou a</p><p>acompanhar Luan, esse que caminhava devagar como se quisesse que o</p><p>momento perto de seu patrão não acabasse.</p><p>— Ah sim… bom, boa viagem pra vocês. — desejou assim que</p><p>alcançou a sala.</p><p>— Obrigado… — ao chegar na porta aberta, Alex parou e girou</p><p>sobre as botinas. Encontrou Luan parado e observando-o. — Até breve,</p><p>Luan. — se despediu e saiu da casa.</p><p>Luan permaneceu parado, com um frio na barriga e uma sensação</p><p>gostosa irradiando de seu peito por todo o corpo. Aquela fala soou como</p><p>uma promessa de que ele voltaria logo, e dada a conversa que eles tiveram</p><p>no dia anterior, Luan estava com uma sensação esmagadora de que as coisas</p><p>iriam mudar drasticamente entre ele e Alexandre.</p><p>E bem, seria uma grande mentira de sua parte dizer que não ansiava</p><p>por aquilo.</p><p>À noite, Luan havia combinado de sair com Gustavo para uma festa</p><p>que teria na cidade. Então, antes que sua mãe reclamasse sobre o fato de</p><p>voltar tarde, ele já a deixou informada de que dormiria na casa do seu</p><p>amigo. Ele também havia combinado de pegar uma carona com Rafael, que</p><p>disse ter algo muito importante para resolver com Gabriel, mas que voltaria</p><p>para a cidade lá pelas onze da noite.</p><p>Então quando ouviu uma buzina soando, ele se apressou em passar</p><p>perfume e saiu do quarto. Encontrou sua mãe na varanda conversando com</p><p>Rafael, que permaneceu no carro com a janela aberta.</p><p>— Não se preocupa, Nona, eu vou cuidar desse remelento. —</p><p>brincou e Luan revirou os olhos e mostrou-lhe o dedo do meio.</p><p>— Mainha, sua benção? — pediu ao se aproximar da mais velha.</p><p>— Deus te abençoe e te guarde, meu menino. Tenha cuidado nessa</p><p>festa, e não vai encher o rabo de cachaça.</p><p>— Não prometo isso, mas prometo tentar me comportar. —</p><p>murmurou com diversão e deixou um beijo contra a testa de sua mãe. —</p><p>Amo a senhora, minha velha. Vai dormir logo e não faça nada que eu não</p><p>faria. — implicou e se afastou com um sorriso radiante no rosto.</p><p>— Tu me respeita, moleque safado! Te quero aqui em casa cedo,</p><p>antes de eu sair com o teu pai pra missa, entendeu?</p><p>— Trago pão de manhã! Um beijo, meu amor. — exclamou alto e</p><p>entrou no carro.</p><p>Rafael manobrou e logo pegou a estrada para sair da fazenda.</p><p>Rapidamente, ele lançou uma olhadela para Luan que mantinha sua atenção</p><p>no celular.</p><p>— Tá bonitão, tudo isso pro Gustavo? — implicou.</p><p>— Me erra! Tenho nada com o Gustavo não. — replicou e guardou</p><p>o celular no bolso da calça jeans apertada que vestia. A camiseta preta e</p><p>simples era justa e grudava em seu peito, as correntes de prata ao redor de</p><p>seu pescoço davam-lhe um charme a mais e as botas, que também eram</p><p>pretas, completavam suas vestimentas.</p><p>— Saquei, então deve ser pro Fernando…</p><p>Luan arregalou os olhos ao fitar Rafael.</p><p>— Como cê soube disso?!</p><p>— Até onde eu sei, ele é o único que tem um carro prata e que tava</p><p>a fim de ti.</p><p>— O Alexandre te contou? — Luan perguntou, porém, Rafael se</p><p>atentou ao fato de que diferente das outras vezes que Luan se referia a Alex,</p><p>ele não usou o termo “seu Alexandre”.</p><p>— Tem dias que ele falou… mas não foi fofoca não, ele só disse que</p><p>no dia que chegou na fazenda tinha um carro prata por lá. Só liguei dois</p><p>mais dois.</p><p>— Entendi… — grunhiu em resposta e manteve os olhos na estrada.</p><p>— Mas me conta aqui, se você não tá produzido assim pra alguém,</p><p>então quer dizer que não tá interessado em ninguém? — indagou com</p><p>curiosidade.</p><p>— A noite é uma criança, lá vai ter muita gente, posso me interessar</p><p>por alguém. — deu de ombros em um gesto claro de desinteresse e Rafael</p><p>sorriu.</p><p>— Saquei… cê sempre tem um alvo em mente, mas hoje não tá</p><p>pensando em ninguém em específico… — murmurou e Luan cerrou o olhar</p><p>em sua direção. — Ou tá, mas a essa hora a pessoa tá lá na capital.</p><p>— O que cê tá querendo dizer com isso? — arqueou a sobrancelha e</p><p>cruzou os braços.</p><p>— Não tô querendo dizer nada… mas você não é nada sutil quando</p><p>tem interesse em alguém.</p><p>Luan prendeu a carne do interior de sua bochecha entre os dentes e</p><p>olhou pela janela para o breu da noite. As luzes da cidade já brilhavam ao</p><p>longe e ele não via a hora de chegar.</p><p>— Esquece isso, Rafa… não vai rolar nada, você sabe.</p><p>— Eu não sei de nada, meu amigo…</p><p>— Mas me diz você, o que era tão importante que cê precisava tratar</p><p>com o Gabriel a essa hora? — perguntou para mudar o foco da conversa e</p><p>notou quando o sorriso divertido de Rafael diminuiu.</p><p>— Nada não, era só uns b.o da fazenda mesmo.</p><p>— Uhum, sei… naquele dia que a Tempestade pariu, era uma da</p><p>manhã e você tava com ele… tava tratando desses negócios também?</p><p>Rafael comprimiu os lábios em uma linha fina. Sua mente estava tão</p><p>conturbada naquela noite que ele sequer se deu conta de que Luan</p><p>perceberia sua presença lá tão tarde.</p><p>— É complicado, Luan… não comenta isso com ninguém, por</p><p>favor. — pediu contido.</p><p>— Fica tranquilo, cara… de complicação eu entendo bem. — falou</p><p>e abriu um sorriso arteiro. — Mas fala aí, ele transa bem? — questionou</p><p>para provocar e recebeu um olhar sério e ameaçador. — Tô brincando! —</p><p>ergueu as mãos em um gesto de rendição e prendeu a risada. — Ele é</p><p>bonito, mas não é pro</p><p>meu bico.</p><p>— Se eu te jogar na próxima ponte que a gente passar, ninguém vai</p><p>te achar. — ameaçou.</p><p>— Calma, garotão… já entendi que o Gabriel tem dono. E eu não</p><p>me envolvo com gente comprometida.</p><p>— Sei…</p><p>— Tô falando sério. Agora pisa no acelerador aí, se eu tivesse vindo</p><p>no Relâmpago Marquinhos já tinha chegado.</p><p>— Além de intrometido, ainda é folgado! Eu mereço mesmo. —</p><p>reclamou, porém, acelerou ainda mais.</p><p>— Para de estresse, nem parece que acabou de transar. — acusou e</p><p>recebeu um olhar confuso. — Teu cabelo tá molhado e, se eu me lembro</p><p>bem, cê não tava com esse chupão aí no pescoço que dá pra ver até da lua,</p><p>acho que alguém queria marcar território.</p><p>— Cala a boca, garoto. — revirou os olhos, mas as palavras de Luan</p><p>ficaram em sua cabeça, martelando e alimentando suas esperanças.</p><p>Coisa que não deveria acontecer e ele sabia bem disso.</p><p>— Tá bom, tá bom.</p><p>— Alex tá lascado contigo, viu.</p><p>Luan voltou a olhar para a escuridão da noite, a imagem de</p><p>Alexandre tão perto de si lá no estábulo inundou sua mente e deixou seu</p><p>estômago agitado.</p><p>— Acho que quem tá lascado sou eu, Rafa… — soprou baixo. —</p><p>Bem lascadinho, e nem é do jeito que eu queria…</p><p>Alexandre chegou na fazenda por volta das oito horas da manhã.</p><p>Era domingo, então não havia trabalhadores na propriedade como de</p><p>costume e tudo parecia muito tranquilo.</p><p>Ele desceu da caminhonete e entrou na casa, sabia que dona Maria e</p><p>seu Joaquim estavam na cidade para a missa e imaginou que Luan poderia</p><p>estar dormindo.</p><p>Grande engano.</p><p>Ao chegar à cozinha, ele se deparou com o garoto sentado no banco</p><p>diante da mesa com um prato com dois pães e um copo cheio do que ele</p><p>imaginou ser achocolatado. Porém, o que o deixou mais surpreso naquele</p><p>cenário eram as roupas que Luan usava.</p><p>— Bom dia, Luan. — cumprimentou ao se aproximar e sorriu</p><p>quando o garoto teve um sobressalto pelo susto.</p><p>— Caramba! Quer me matar do coração?! — levou a mão ao peito</p><p>de forma exagerada e Alex sorriu daquela reação.</p><p>— Tá assustado?</p><p>— Não, mas não te ouvi chegar. Pensei que fosse uma assombração.</p><p>Alexandre sorriu ainda mais com a resposta e, tranquilamente, ele se</p><p>acomodou no banco de frente para Luan e serviu uma dose generosa de</p><p>café.</p><p>— Noite agitada? — perguntou e indicou as roupas alheias com o</p><p>queixo.</p><p>Luan demorou mais que o esperado para responder, pois estava</p><p>embasbacado com as feições de Alexandre, que havia aparado a barba e</p><p>cortado o cabelo.</p><p>Estava ainda mais bonito e com uma aparência mais condizente com</p><p>a sua idade.</p><p>— Ah, sim, acabei de chegar da cidade… teve uma festa ontem a</p><p>noite. — respondeu contido e focou sua atenção no prato.</p><p>— E durou a noite toda? — arqueou a sobrancelha ao questionar.</p><p>— Não, acabou lá pelas quatro da manhã…</p><p>— E por que tá chegando só agora? — Alexandre não entendia de</p><p>onde surgiram tantos questionamentos, mas eles escapavam de sua boca</p><p>sem controle algum.</p><p>— Eu dormi no Guto, mainha ia brigar de novo se eu chegasse de</p><p>madrugada, então disse que dormiria por lá.</p><p>A quentura do café queimou a língua de Alexandre, mas o</p><p>incômodo que surgiu em seu peito ao ouvir aquela informação sobrepôs</p><p>qualquer dor física.</p><p>Luan dormiu com aquele garoto?</p><p>— Como assim?</p><p>— Como assim o quê? — franziu o cenho e encarou o mais velho.</p><p>— Você dormiu com aquele… — suspirou fundo e deixou a xícara</p><p>sobre a mesa. — Dormiu com o Gustavo?</p><p>Luan sentiu a intensidade dos olhos verdes sobre si e uma quentura</p><p>gostosa percorreu seu corpo. Não era do seu feitio ser um mentiroso, mas</p><p>naquele momento, ele resolveu provocar Alexandre só para ver o que ele</p><p>diria.</p><p>— Dormi sim, senhor… a cama dele é mais confortável que a</p><p>minha, acredita? — soltou e de forma despreocupada pegou o copo com</p><p>achocolatado e bebeu.</p><p>Entretanto, seus olhos se mantiveram em Alexandre, analisando</p><p>cada uma de suas reações e elas foram bem claras.</p><p>A forma como ele fechou a mão em punho sobre a mesa e a tensão</p><p>em sua mandíbula ficaram ainda mais evidentes pela falta da barba espessa.</p><p>— O que tem de errado na sua cama? — Alexandre perguntou com</p><p>seriedade.</p><p>Falta você. Era o que Luan queria responder, mas se conteve e</p><p>apenas deu de ombros.</p><p>Alexandre estava se corroendo por dentro. O sentimento que há</p><p>muito tempo havia sumido pareceu surgir como um monstro com garras</p><p>muito afiadas. Um nó sufocante se formou em sua garganta e sua mente,</p><p>sendo alimentada pelo que tinha visto no curral dias atrás, começou a</p><p>projetar vários cenários de Luan com aquele garoto.</p><p>Ele não gostou da sensação e teve dificuldade em bloquear aqueles</p><p>pensamentos inconvenientes.</p><p>— Tá tudo bem? — sua voz soou branda. — Seu rosto tá</p><p>vermelho…</p><p>— Hum, tá sim.</p><p>— Que bom. — ele abriu um sorrisinho de lado e tornou a beber do</p><p>achocolatado. — Cê voltou rápido, pensei que fosse demorar mais.</p><p>— Eu disse que voltaria logo.</p><p>— Cê disse, mas achei que ficaria mais tempo por lá.</p><p>— Além do meu filho, não tem mais nada que me prenda na capital,</p><p>Luan.</p><p>— Pensei que gostasse da capital.</p><p>— Não gosto, meus planos sempre foram voltar pra cá e cuidar da</p><p>fazenda, mas daí eu me casei e a Fernanda tinha vontade de abrir um</p><p>escritório de advocacia, então a gente ficou lá. — explicou com calma e</p><p>voltou a beber o café.</p><p>— Vocês são bem parceiros, né?</p><p>— Nós somos sim, ela sempre me apoiou em tudo e o mínimo que</p><p>eu poderia fazer era o mesmo.</p><p>— E ainda assim vocês estão se separando? — indagou com</p><p>curiosidade. — O que rolou?</p><p>— Nós sempre fomos bons em tudo, mas com o passar do tempo,</p><p>algumas coisas mudaram e só não deu mais certo. A Fernanda sempre vai</p><p>ser alguém importante na minha vida, ela é a mãe do meu filho e minha</p><p>parceira nos negócios, mas como casal, a gente não funciona mais.</p><p>— Isso deve tá sendo complicado pra vocês. — seus olhos</p><p>desviaram de Alex e focaram nos pães em seu prato. — Eu não entendo</p><p>nada de relacionamento, ainda mais sendo tão longo, mas imagino que não</p><p>seja tão fácil assim terminar.</p><p>— Eu pensei que fosse ser pior. — murmurou e observou com</p><p>atenção quando Luan partiu o pão ao meio e deu uma mordida generosa em</p><p>uma das partes. — Mas o último ano foi difícil, então eu acho que a gente já</p><p>tava meio que se adaptando sem perceber.</p><p>— Entendi… que bom que tá dando tudo certo pra você. —</p><p>respondeu depois de engolir um pedaço do pão.</p><p>Alexandre escaneou o rosto de Luan, os cabelos soltos e bagunçados</p><p>e as roupas, que apesar de estarem amarrotadas, ainda o deixavam bonito.</p><p>Mas o que atraiu ainda mais sua atenção, foram as tatuagens no braço</p><p>esquerdo que cobriam toda a pele clara.</p><p>Eram desenhos diversos, como tribais, flores, serpentes e mais</p><p>outras coisas das quais ele não conseguiu vislumbrar.</p><p>Luan era o cara mais bonito que Alex já viu em sua vida e isso era</p><p>incontestável.</p><p>— Mas e você? Já namorou ou tá namorando alguém?</p><p>— Não… eu nunca passei de casos que duram semanas, nunca me</p><p>apeguei a ninguém. E se eu tivesse namorando alguém agora, pode ter</p><p>certeza que as nossas conversas seriam bem diferentes.</p><p>— Seriam?</p><p>— Pode ter certeza.</p><p>— Interessante… — Alex deixou a xícara vazia sobre a mesa e</p><p>cruzou suas mãos. — Mas se você não tá em um relacionamento, o que</p><p>acontece entre você e o Gustavo?</p><p>— Ué, a gente tem um rolo…</p><p>— Um rolo?</p><p>— Sim, dormimos juntos quando temos vontade, mas não estamos</p><p>em uma relação, então ele pode ficar com quem quiser, assim como eu.</p><p>— E você fica? — a pergunta escapou antes que ele pudesse</p><p>impedir. — Fica com outras pessoas? Tem… rolos?</p><p>Luan sorriu de lado e esfregou ambas as mãos para livrá-las dos</p><p>farelos de pão. Lentamente, ele afastou o prato de si e apoiou os cotovelos</p><p>sobre a madeira da mesa.</p><p>— Por que quer saber? — arqueou a sobrancelha.</p><p>— Porque você parece ser do tipo que… — interrompeu sua fala e</p><p>desviou o olhar.</p><p>— Do tipo que fica com quem quer?</p><p>— Sim…</p><p>— Eu realmente fico com quem quero. Não tenho problema com</p><p>isso.</p><p>— E você ficou com alguém ontem?</p><p>— Você tá muito interessado na minha vida pessoal, Alexandre.</p><p>Alexandre passou a mão pela barba bem aparada e abriu um sorriso</p><p>tenso. Estava nervoso e ter aquelas esferas escuras focadas em si, como se</p><p>enxergasse até a sua alma, causava-lhe</p><p>ainda mais ansiedade.</p><p>— Luan… por que é tão difícil ter uma resposta sua?</p><p>— Porque é mais divertido assim, cê não acha?</p><p>— Cê gosta de me provocar, eu já entendi.</p><p>— Sério? E o que me diz sobre isso? Você gosta?</p><p>Novamente, Alexandre sorriu nervoso. Era contraditório que uma</p><p>pessoa tão calma e centrada como ele pudesse sentir todas aquelas emoções</p><p>conflituosas como se fosse um mero adolescente. Luan conseguia provocar</p><p>tantas reações diversas que Alex estava tendo dificuldade em assimilar cada</p><p>uma delas.</p><p>— Uma resposta por outra? — inquiriu ao voltar sua atenção para</p><p>ele.</p><p>— Como quiser.</p><p>— Eu gosto mais do que deveria.</p><p>Luan se inclinou vagarosamente, umedeceu os lábios e prendeu o</p><p>inferior entre os dentes rapidamente. Seus olhos analisaram as feições de</p><p>Alex e uma súbita vontade de sorrir o invadiu ao notar que ele parecia</p><p>completamente focado em sua boca.</p><p>— Eu não fiquei com ninguém ontem a noite, Alex… não fico com</p><p>ninguém desde que você chegou aqui.</p><p>— E o que foi aquilo no curral com aquele garoto?</p><p>— Ah, cê viu? — arqueou a sobrancelha e sorriu de lado.</p><p>— Claro que vi, não é como se vocês estivessem tentando esconder.</p><p>— rebateu afiado.</p><p>— Certo, peço desculpa por aquilo, o Guto não se importa de ser</p><p>visto tendo esses momentos…</p><p>— E você se importa?</p><p>— É óbvio, olha onde a gente mora. — falou com seriedade. — Mas</p><p>não é isso que cê quer saber…</p><p>— Realmente não é… — apertou o nariz, desviou o olhar, mas não</p><p>durou muito tempo, logo seus olhos estavam focados em Luan. — Me diz,</p><p>por que cê não ficou com ninguém?</p><p>— Porque, senhor… o único cara por quem eu tenho me interessado</p><p>nas últimas semanas parece muito indeciso com o que quer.</p><p>— Eu pareço indeciso?</p><p>— Quem disse que é você? — perguntou com diversão.</p><p>— Luan… — grunhiu e Luan soltou uma risada. — Cê vai me</p><p>deixar louco, garoto.</p><p>Luan se levantou com tranquilidade, pegou o copo e o prato e os</p><p>levou até a pia. Mas, antes de sair da cozinha, ele parou e observou Alex,</p><p>que permaneceu imóvel, olhando-o.</p><p>— Um pouco de loucura, às vezes, faz bem, senhor.</p><p>CAPÍTULO SETE</p><p>Luan dormiu pelo restante do dia e só acordou quando batidas</p><p>calmas soaram contra a porta de seu quarto. Atordoado, ele levantou de sua</p><p>cama e até tropeçou em uma peça de roupa jogada no chão. Quando abriu a</p><p>porta, se deparou com Alex, escorado na parede da frente e com os braços</p><p>cruzados.</p><p>— Te acordei? — sorriu de lado e vasculhou o corpo do outro</p><p>completamente.</p><p>Luan era magro, mas também era todo definido, parecia esculpido</p><p>por mãos experientes. As tatuagens no seu braço esquerdo e pescoço o</p><p>deixavam ainda mais atraente, mas os cabelos grandes e revoltos eram algo</p><p>que o hipnotizavam.</p><p>— Acordou. — resmungou mal-humorado. — O que foi?</p><p>— Nada… a Nona pediu pra te chamar, ela queria saber se você ia</p><p>levantar pra comer.</p><p>— Tô sem fome. — grunhiu e coçou um dos olhos.</p><p>— Imaginei… mas o motivo real de eu ter te chamado é porque o</p><p>Rafa me convidou pra ir tomar umas bebidas na cidade. Pensei em te</p><p>convidar pra ir com a gente.</p><p>— Sério?</p><p>— Sim, ué…</p><p>— Ah, tudo bem… a que horas cês querem ir? — passou uma das</p><p>mãos pelos cabelos revoltos e a deslizou pelo pescoço e peito.</p><p>— Lá pelas oito… — respondeu ao conferir a hora no relógio em</p><p>seu pulso. — Amanhã temos trabalho e não dá pra chegar tão tarde.</p><p>— Tudo bem. Vou esperar minha alma voltar pro corpo e depois vou</p><p>me arrumar.</p><p>Alexandre sorriu e passou a mão pela barba.</p><p>— E, Luan? — chamou antes que o garoto fechasse a porta. — Pode</p><p>deixar seu cabelo solto?</p><p>Luan sentiu um frio inundar sua barriga, mas suas bochechas</p><p>esquentaram e ficaram coradas.</p><p>— Claro… — respondeu sem questionar o motivo por trás de tal</p><p>pedido.</p><p>— Perfeito… até às oito, Luan.</p><p>— Até. — sorriu e acenou, então, entrou no quarto.</p><p>Luan ocupava o banco do passageiro ao lado de Alexandre, que</p><p>dirigia com cuidado pela estrada de chão. Nos bancos de trás estavam</p><p>Gabriel e Pedro, este último que estava animado enquanto seu colega de</p><p>trabalho se mantinha quieto e contido.</p><p>Gabriel não gostava muito de frequentar bares ou socializar com</p><p>outras pessoas fora de seu trabalho, mas Rafael pediu que ele fosse e ele foi.</p><p>— O Rafa disse que já tá na Rota 160 com a Manu. — Pedro</p><p>informou ao guardar seu celular no bolso da calça.</p><p>— Manu é a sua namorada? — Alexandre perguntou.</p><p>— Sim, senhor… estamos namorando há pouco tempo. — falou e</p><p>abriu um sorriso orgulhoso.</p><p>— Ela é mais nova que você?</p><p>— Tem vinte e dois também… inclusive, eu tinha prometido a ela</p><p>que falaria com o Rafa pra ver se ele conseguia um emprego pra ela lá na</p><p>fazenda. Mas ele anda tão ocupado e estressado esses dias que deixei de</p><p>lado. — comentou, e aquela informação atraiu a atenção de Gabriel.</p><p>— E ela tá disposta a trabalhar na cozinha ou cuidando de casa?</p><p>Porque na fazenda o único emprego que pode ter por agora é esse.</p><p>— Sim, senhor, eu pensei em ceder a minha vaga de cozinheiro pra</p><p>ela e ir trabalhar no campo, mas o Rafa disse que o quadro de funcionários</p><p>tá fechado. E ela tá precisando muito pra ajudar com as despesas de casa e</p><p>pra pagar as mensalidades da faculdade de enfermagem que tá fazendo.</p><p>— Entendi… bom, vou falar com a Nona sobre isso, já tem um</p><p>tempo que eu quero colocar alguém pra ajudar ela com os afazeres, mas tá</p><p>difícil desdobrar a onça. — brincou e Luan acabou sorrindo. — Se ela</p><p>concordar, a gente pode ver esse emprego pra sua namorada, ok?</p><p>— Eu agradeço muito, senhor. — murmurou animado.</p><p>— Não foi nada…</p><p>Ainda em silêncio, Luan notou um fato um tanto interessante</p><p>naquela conversa. Pedro era apenas dois anos mais velho que si, mas</p><p>Alexandre não pareceu incomodado em tê-lo chamando-o de senhor, sendo</p><p>que na sua primeira conversa com ele, Alex disse que não precisava chamá-</p><p>lo daquela forma, pois não tinham tanta diferença de idade assim.</p><p>Seria ele uma exceção?</p><p>Luan não queria alimentar falsas esperanças, mas ficava cada vez</p><p>mais difícil com Alexandre agindo daquela forma e deixando-o com uma</p><p>sensação de ser único.</p><p>A conversa mudou para o lugar onde eles iriam encontrar com</p><p>Rafael, que era uma conveniência de posto bem frequentada e que ficava</p><p>localizada na rodovia que atravessava a cidade. Poucos minutos após</p><p>pegarem o asfalto, eles chegaram ao posto no centro da cidade. Alexandre</p><p>parou o carro em uma das vagas do estacionamento e todos desceram, logo</p><p>avistaram Rafael e uma garota de cabelos cacheados em uma mesa na parte</p><p>externa do estabelecimento.</p><p>— Pensei que ia ter que buscar vocês! — Rafael exclamou e ergueu</p><p>uma caneca de chopp.</p><p>— A gente nem demorou tanto. — Alexandre resmungou e sentou</p><p>em uma das cadeiras de madeira, depois, indicou a cadeira vaga ao seu lado</p><p>para que Luan se sentasse.</p><p>Pedro ocupou a cadeira ao lado da namorada e só restou a outra ao</p><p>lado de Rafael, onde Gabriel teve de sentar. Eles se cumprimentaram de</p><p>forma contida e voltaram suas atenções para os outros.</p><p>— Boa noite… — a única garçonete da conveniência apareceu, com</p><p>um bloquinho de notas na mão e um sorriso ansioso repuxando os lábios</p><p>pintados de vermelho. — Oi, Alexandre, quanto tempo. — cumprimentou e</p><p>Luan desviou o olhar do celular em sua mão e a fitou com atenção.</p><p>— Boa noite, Renata! Tudo tranquilo? — sorriu e estendeu sua mão,</p><p>que foi envolvida pela menor em um aperto rápido.</p><p>— Sim… — ela parecia nervosa, e o seu sorriso se tornou tenso ao</p><p>observar as pessoas na mesa. — O que vão pedir?</p><p>— Cê vai beber o quê? — perguntou para Luan, que ainda</p><p>observava a mulher parada perto da mesa.</p><p>— Não vou beber…</p><p>Alexandre assentiu e tornou a olhar para a garçonete.</p><p>— Traz uma rodada de chopp pro pessoal e uma dose de uísque sem</p><p>gelo pra mim, por favor.</p><p>— Tudo bem, alguma coisa pra comer?</p><p>— Uma porção daquelas batatas com linguiça e carne. — Rafael</p><p>pediu.</p><p>— Ok, já trago as bebidas e vou mandar preparar a porção.</p><p>— Obrigado, Renatinha. — ele agradeceu e deu uma piscadela para</p><p>a garota, que sorriu e se afastou.</p><p>Luan observou a tensão na mandíbula de Gabriel e no seu gesto ao</p><p>cruzar os braços e manter o olhar fixo sobre a mesa de madeira. Ninguém</p><p>naquela mesa pareceu notar aquilo além dele e de Alexandre,</p><p>nem mesmo</p><p>Rafael, que tirou um maço de cigarros mentolado do bolso e acendeu um</p><p>com um isqueiro vermelho.</p><p>— Quer um? — ofereceu a Luan.</p><p>— Tô de boa… — respondeu, mas seus olhos estavam focados na</p><p>garçonete que havia voltado com uma bandeja com canecas de chopps e um</p><p>copo com uísque pela metade.</p><p>— Luan, sabe aquela minha amiga? A Nicole? — Manuela</p><p>perguntou, o que o fez desviar sua atenção. Ambos se conheceram na</p><p>primeira vez em que saíram com Pedro e Rafael e, de vez em quando,</p><p>conversavam sobre as festas ou sobre as fofocas da cidade.</p><p>— O que tem ela?</p><p>— Pediu teu número. Disse que tentou falar contigo ontem, mas cê</p><p>tava com o Gustavo e ela não teve coragem de chegar em você. Posso</p><p>passar teu número pra ela?</p><p>Alexandre bebeu um gole generoso de uísque na tentativa de</p><p>desfazer o nó em sua garganta. Seu olhar cruzou com o de Rafael, que tinha</p><p>um riso divertido no rosto.</p><p>— Pode sim, diz pra ela me mandar uma mensagem depois, pra</p><p>gente conversar.</p><p>— Tá bom…</p><p>— Luanzinho mal chegou e tá passando o rodo em geral. — Rafael</p><p>provocou ao soprar a fumaça branca para o alto e Luan revirou os olhos.</p><p>— Não ferra!</p><p>— Todas as minhas amigas tão a fim de você, Luan. — Manu</p><p>comentou.</p><p>— Eu só sou uma novidade, depois elas desencanam. — deu de</p><p>ombros com desdém.</p><p>— Eu acho difícil. — Rafael alfinetou.</p><p>— Por que você não cuida da sua vida, hum? — Luan rebateu.</p><p>— Que tal deixar a vida particular do Luan pra lá? — Alexandre</p><p>sugeriu.</p><p>Rafael abriu um enorme sorriso e ergueu as mãos em um gesto claro</p><p>de rendição, depois, ele estendeu o braço e o apoiou no encosto da cadeira</p><p>de Gabriel. Suas provocações não passavam de uma tentativa em extrair</p><p>alguma reação de seu amigo, e as que ele teve em resposta foram claras</p><p>como água.</p><p>Alexandre estava muito envolvido, mas ainda não havia notado a</p><p>profundidade.</p><p>— Eu acho isso uma boa ideia. — Luan sorriu e se levantou. — Vou</p><p>pegar uma água. — informou e se afastou.</p><p>Alexandre o acompanhou com o olhar até que ele entrasse na</p><p>conveniência, então, voltou sua atenção para Rafael. Não disse uma</p><p>palavra, mas em sua mente ele xingava seu amigo de todos os nomes feios</p><p>possíveis e ele sabia que Rafael entendeu.</p><p>— Gabriel, não vai beber? — Pedro perguntou ao notar que o</p><p>vaqueiro não havia tomado nem um gole de sua bebida.</p><p>— Não tô a fim…</p><p>Rafael olhou para o lado e observou com atenção.</p><p>— Tá preocupado com algo?</p><p>— Só não tô com vontade de beber, tenho que acordar às cinco da</p><p>manhã.</p><p>— Tudo bem, daqui a pouco eu te levo pra casa. — falou calmo e</p><p>Gabriel assentiu sem encará-lo.</p><p>Luan apareceu com uma garrafa de água em uma mão e o celular na</p><p>outra, um sorriso largo emoldurava seu rosto, os cabelos soltos realçam sua</p><p>beleza e Alexandre se viu fascinado. Sem notar os olhos verdes sobre si, ele</p><p>ocupou seu lugar e continuou a mexer no aparelho.</p><p>— Tá tudo bem? — Alexandre perguntou em voz baixa.</p><p>Luan ergueu a cabeça e mirou o rosto bonito com atenção.</p><p>— Tá sim, por quê?</p><p>— Nada, cê não parece muito a vontade, quer ir embora?</p><p>— Não, tô tranquilo, qualquer coisa peço pro Rafa me levar.</p><p>— Por que vai pedir pro Rafael te levar se veio comigo? — pendeu</p><p>a cabeça para o lado e franziu o cenho em confusão.</p><p>— Talvez queira aproveitar o restante da noite com alguém já que tá</p><p>solteiro… a garçonete tá a fim de você, ouvi ela falando com a atendente.</p><p>— comentou em tom baixo para que ninguém ouvisse.</p><p>— Mas eu não tô a fim dela, Luan… e você vai voltar pra casa</p><p>comigo. — informou sem dar brecha para ser contestado e ajeitou a postura</p><p>no lugar.</p><p>— Sim senhor, senhor… — murmurou e recebeu uma olhadela</p><p>divertida de Alex.</p><p>Se passaram três horas desde que chegaram à conveniência e depois</p><p>de várias rodadas de chopp e doses de uísque, apenas Luan e Gabriel, que</p><p>optaram por não beber, permaneciam sóbrios.</p><p>— Cê vai pra casa comigo? — Rafael soprou a pergunta de forma</p><p>embolada para Gabriel, que tentava com muito esforço mantê-lo de pé.</p><p>— Vou te levar pra casa e depois vou pra fazenda.</p><p>— Por que cê não dorme comigo?</p><p>— Rafael, a gente não tá sozinho. — falou baixo e lançou uma</p><p>olhadela para o lado, onde Luan, Pedro e Manu estavam esperando por</p><p>Alexandre.</p><p>— Eu sei, eu sei… temos que fingir que não rola nada. — grunhiu e</p><p>se escorou no próprio carro. Estava completamente bêbado e quando</p><p>acontecia, sua língua ficava solta.</p><p>Gabriel sabia que aquilo iria acontecer e foi por isso que optou por</p><p>não beber. Precisava ficar consciente para cuidar de Rafael e controlar as</p><p>coisas que saiam de sua boca. Uma tentativa falha de não deixar tão</p><p>evidente o que ele tentava com tanto afinco manter escondido.</p><p>Os outros fingiram não ouvir o que era dito, Pedro e Manu estavam</p><p>abraçados e Luan observava a entrada da conveniência na esperança de que</p><p>Alexandre aparecesse logo. Quando ele apareceu, caminhou devagar e até</p><p>tropeçou em seus pés, o riso divertido e o brilho em seus olhos indicavam</p><p>que ele estava alto pelas várias doses de uísque que consumiu durante a</p><p>noite.</p><p>— Vamos indo? — chamou ao se aproximar.</p><p>— Vou levar o Rafael pra casa. — Gabriel informou.</p><p>— Quer que a gente passe por lá pra te levar pra fazenda?</p><p>— Não precisa. — sua voz saiu abafada e contida, talvez até</p><p>envergonhada, porém, ninguém comentou nada. Ele ajudou Rafael a entrar</p><p>no carro e se acomodar no banco do passageiro, depois de fechar a porta, se</p><p>virou e fitou o casal. — Pedro? Vai pra casa da Manu?</p><p>— Vou.</p><p>— Então vamos indo… deixo vocês lá.</p><p>— Boa noite patrão, Luan…</p><p>— Boa noite. — Alexandre e Luan se despediram dos quatro e os</p><p>observaram até que eles saíssem do estacionamento.</p><p>— Acha que eles vão dormir juntos? — Luan questionou e</p><p>Alexandre franziu o cenho. — Rafael e Gabriel, eu sei dos dois… e o Rafa</p><p>é do tipo que quando o álcool entra, a verdade sai.</p><p>Alexandre sorriu e deu de ombros. Estava alegre como há muito</p><p>tempo não ficava.</p><p>— Eles com certeza vão dormir juntos. — passou as mãos pelos</p><p>cabelos claros e depois pelo rosto. Sentia-se zonzo e suas bochechas</p><p>pareciam dormentes e estavam coradas. — Cê sabe dirigir?</p><p>— Sei… por quê?</p><p>— Porque você vai levar a gente pra casa… eu não tô muito legal</p><p>pra pegar a estrada.</p><p>— Vai me deixar dirigir a sua caminhonete? — arregalou os olhos</p><p>em surpresa genuína e Alex sorriu ainda mais.</p><p>— É só um carro, Luan… e você disse que dava conta de tudo. —</p><p>soprou baixo e Luan sentiu seu rosto corar.</p><p>— Tudo bem, mas se a gente cair na primeira ponte, a culpa é toda</p><p>sua. — grunhiu e pegou a chave da mão de Alex.</p><p>Quando olhou ao redor, alguns funcionários do posto e até a</p><p>garçonete que os atendeu os observavam com curiosidade.</p><p>Luan sabia que Alexandre era conhecido pelas redondezas, pois</p><p>nasceu e se criou ali, porém, ele não imaginava que as atenções sobre o</p><p>fazendeiro fossem tantas.</p><p>Com aquele pensamento em mente, ele entrou na Dodge Ram, mas</p><p>assim que ligou o veículo sentiu a potência daquele motor, seu corpo tremeu</p><p>cheio de adrenalina e um sorriso largo e animado se abriu em seu rosto.</p><p>— Caralho! Olha a potência dessa máquina!</p><p>— Gostou? — questionou ao se acomodar melhor no assento.</p><p>— Tem como não gostar? — engatou a marcha ré e manobrou para</p><p>sair do estacionamento.</p><p>Em poucos minutos, eles pegaram a estrada de chão que levava para</p><p>a fazenda. Luan se manteve concentrado na estrada e Alexandre</p><p>permaneceu com o olhar focado nele, admirando cada mínimo detalhe,</p><p>mesmo que não estivesse completamente sóbrio.</p><p>Alexandre estava tendo certa dificuldade em assimilar vários dos</p><p>sentimentos que passaram a fazer morada em sua mente. Entretanto, sua</p><p>atração por Luan foi a primeira coisa que ele compreendeu e aceitou.</p><p>Era intenso, magnético, algo que ele não tinha poder ou forças para</p><p>lutar contra.</p><p>E ele nem queria.</p><p>Depois de muito tempo, Alexandre se sentia vivo. Luan mexia com</p><p>todas as emoções que ele achou terem se apagado dentro de si e elas eram</p><p>indescritíveis. E apesar de ainda não ter tido tempo para processar todas as</p><p>informações e mudanças recentes, ele estava completamente aberto a tudo o</p><p>que estava por vir.</p><p>Quando chegaram à fazenda, Luan estacionou o veículo diante do</p><p>casarão e com um enorme sorriso,</p><p>de notar a mesa posta, as velas e flores, seus</p><p>olhos buscaram pelo rosto do marido, que permaneceu sentado de forma</p><p>desleixada e voltou a olhar para o copo quase vazio em sua mão. —</p><p>Alexandre?</p><p>— Onde você tava? — a voz grave e levemente rouca soou baixa.</p><p>— Fui deixar o Heitor na casa dos meus pais e depois fui ao</p><p>shopping, eu falei onde ia.</p><p>— Pensei que fosse voltar cedo, cê saiu já tem tempo…</p><p>— Ué, eu fui ao shopping, encontrei umas amigas e acabei indo</p><p>jantar com elas depois. — Fernanda deixou a bolsa sobre a mesa ao lado</p><p>do jarro com rosas vermelhas e encarou Alexandre. — Você preparou</p><p>tudo isso? — questionou e o marido assentiu. — Por quê? É o nosso</p><p>aniversário de casamento e eu esqueci? — abriu um sorriso nervoso e</p><p>acabou ocupando um dos lugares vazios à mesa.</p><p>— Não, eu só… quis preparar alguma coisa pra você. —</p><p>confessou e bebeu o que restava do uísque em seu copo.</p><p>— Eu não sabia, Alex.</p><p>— Eu sei que não, era pra ser uma surpresa. — resmungou e se</p><p>levantou.</p><p>Em silêncio, ele seguiu em direção ao quarto do casal no segundo</p><p>andar. Ao entrar no cômodo, Alex retirou a camisa social preta que vestia</p><p>e manteve o passo até estar dentro do banheiro. Quando ficou</p><p>completamente nu, entrou no box e ligou o registro. A água gelada caindo</p><p>contra suas costas largas causou um choque térmico e arrepiou sua pele.</p><p>Alexandre se manteve imóvel por vários minutos, tentando inutilmente</p><p>limpar sua mente e organizar seus pensamentos.</p><p>Era certo que ele não amava mais sua esposa, e aceitar aquele fato</p><p>doeu em si, mais do que poderia imaginar. Por muitos meses, ele tentou</p><p>se enganar, tentou se convencer de que aquilo era somente uma crise no</p><p>casamento, que assim como os outros problemas que eles tiveram no</p><p>decorrer dos anos, aquele seria resolvido e serviria como aprendizado.</p><p>Se apegou aos bons momentos e as lembranças que</p><p>compartilhavam, se apegou ao carinho que nutria pela sua companheira</p><p>de longa data, aos planos para o futuro que fizeram ainda tão novos, ao</p><p>sorriso de seu filho ao ter seus pais juntos dando-lhe tanto amor e</p><p>carinho. Ele se apegou a tudo de bom que o cercava, só que nada daquilo</p><p>resolveu seus problemas, e quando entendeu o que de fato havia mudado,</p><p>seu mundo pareceu desabar.</p><p>Ainda existiam bons sentimentos, afinal, além de ser sua esposa,</p><p>Fernanda era sua melhor amiga, sua companheira e confidente, a pessoa</p><p>que sempre apoiou seus sonhos e esteve ao seu lado em cada conquista</p><p>sua, torcendo e vibrando por ele, assim como ele sempre fez por ela. Eles</p><p>sempre foram parceiros em tudo, sempre foram unidos e os maiores</p><p>apoiadores um do outro.</p><p>Todavia, não existia mais amor.</p><p>O amor que os consumiu no início da relação, o amor que cresceu</p><p>durante os anos de namoro e noivado, que se multiplicou com o</p><p>casamento e a chegada do filho. Aquele amor que unia as pessoas em um</p><p>laço eterno e que perdurava por vidas e mais vidas, não existia mais.</p><p>Alexandre e Fernanda não se amavam mais.</p><p>E aquela mudança não foi algo que eles provocaram, não foi algo</p><p>pelo qual buscaram ou queriam. Não. Simplesmente aconteceu, e por isso</p><p>os dois estavam tão relutantes em deixar que tudo chegasse ao fim.</p><p>Estavam empurrando aquela difícil decisão com a barriga, como se em</p><p>um passe de mágica tudo voltasse ao seu devido lugar. Como se o amor</p><p>fosse voltar a fazer morada em seus corações.</p><p>Não iria.</p><p>E Alexandre não aguentava mais viver angustiado e não</p><p>aguentava mais ver o medo e a incerteza nos olhos de Fernanda aos quais</p><p>ele fora tão apaixonado.</p><p>Ao sair do banho, ele a encontrou sentada na cama, os cabelos</p><p>embolados em um coque bagunçado e um roupão de seda cobrindo seu</p><p>corpo esguio.</p><p>— Tá chateado comigo? — perguntou acanhada.</p><p>— Não. — respondeu sem encará-la e seguiu para o closet</p><p>espaçoso.</p><p>— Alexandre, eu não tinha ideia de que você fosse preparar um</p><p>jantar! — murmurou ao acompanhá-lo de perto. — Eu pensei que você</p><p>fosse trabalhar até tarde como faz quase toda noite.</p><p>— O intuito de surpresa é exatamente este, Fernanda,</p><p>surpreender! — grunhiu e removeu a toalha enrolada em seus quadris,</p><p>deixando-a jogada no chão.</p><p>Fernanda observou Alexandre em completo silêncio.</p><p>Algumas das tatuagens que cobriam o peito largo do lado</p><p>esquerdo tinham um significado importante para ambos, pois era a data</p><p>de nascimento e o nome do filho deles. As outras, que consistiam em</p><p>alguns ramos de rosas e uma serpente na lateral da barriga, foram algo</p><p>que o Alexandre de vinte e cinco anos ficou imensamente feliz por fazer.</p><p>Seus cabelos loiros escuros haviam crescido demais nos últimos meses,</p><p>assim como a barba espessa que precisava ser aparada. Porém, mesmo</p><p>com aquela aparência desleixada, ele conseguia permanecer</p><p>incrivelmente bonito e atraente.</p><p>Com um metro e noventa de altura e noventa quilos de massa</p><p>muscular bem distribuídos, Alexandre era um homem grande.</p><p>Seu corpo parecia ter sido moldado por anos de academia, mas era</p><p>apenas resultado dos anos de trabalho bruto na fazenda Serra Dourada.</p><p>Na faculdade, quando Fernanda iniciou o curso de direito e Alex</p><p>agronegócio, a aparência dele foi a primeira coisa que a atraiu, mas o que</p><p>a fez se apaixonar perdidamente foi o jeito carinhoso, encantador e</p><p>responsável.</p><p>Alexandre sempre foi um homem centrado em seus deveres e</p><p>obrigações. Sabia que seria ele a tomar conta dos negócios da fazenda de</p><p>sua família e por isso foi fazer faculdade na capital. Sempre foi</p><p>extremamente dedicado aos negócios que seu pai construiu com tanto</p><p>esforço e que herdou quando o mais velho morreu há cinco anos.</p><p>Fernanda amou seu marido desde o primeiro momento, mas</p><p>sequer imaginou que, anos depois, aquele sentimento que cresceu tão</p><p>lindamente fosse desaparecer. E a sensação desconfortável ao observá-lo</p><p>completamente nu e não sentir qualquer atração por ele, poderia ser</p><p>igualada a enfiar um dedo numa ferida que não sarou. Era difícil aceitar</p><p>que tudo acabou, porque doía imaginar que eles não teriam mais um ao</p><p>outro como antes. Não havia restado nada além da amizade,</p><p>companheirismo e respeito que eles construíram ao longo dos anos.</p><p>Depois de vestir apenas uma cueca boxer, Alexandre se moveu e</p><p>olhou para a mulher parada e com os braços cruzados. Se perdeu por</p><p>segundos na beleza dela, nos olhos brilhantes que ele sempre foi</p><p>fissurado e que agora pareciam apenas olhos comuns. Na boca carnuda,</p><p>ainda pintada por um batom vermelho vinho, que sempre parecia</p><p>apetitosa e que agora ele não sentia a menor vontade de provar. No corpo</p><p>ao qual ele amou tantas vezes, mas que agora não sentia nenhum desejo</p><p>em possuir.</p><p>Tudo estava diferente, e a cada vez que ele percebia isso, parecia</p><p>que seu coração quebrava um pouco mais.</p><p>Ele voltou sua atenção para as roupas e logo vestiu uma calça</p><p>jeans surrada e uma camisa de mangas compridas. Sequer fez questão de</p><p>colocar todos os botões em suas casas, quando se inclinou para pegar o</p><p>chapéu em um dos nichos mais altos, Fernanda suspirou fundo.</p><p>— Você vai sair?</p><p>— Vou pra fazenda.</p><p>— Sério? Só porque eu não cheguei pra um jantar que nem sabia</p><p>que teria? — grunhiu chateada.</p><p>— Rafael me ligou mais cedo, preciso ir lá resolver uns assuntos</p><p>com o pessoal do frigorífico.</p><p>— E você precisa ir agora? São dez horas da noite, Alexandre!</p><p>São mais de cem quilômetros numa estrada de chão até lá! Você sabe o</p><p>quanto é perigoso viajar durante a noite por aquelas estradas!</p><p>— Não me importo… me dá tempo pra pensar. — respondeu e</p><p>sentou em uma poltrona disposta no cômodo para poder calçar as meias e</p><p>as botinas de couro. — E eu ando armado, não precisa se preocupar.</p><p>— Cê tá fazendo isso pra me punir?</p><p>— Não, Fernanda! Eu só não aguento mais! — exclamou, e</p><p>quando ficou devidamente calçado, saiu do quarto.</p><p>— Não aguenta mais o quê?</p><p>— Isso! A gente desse jeito! — parou no meio do cômodo e se</p><p>voltou para a mulher.</p><p>— E o que você quer que eu faça?</p><p>— Não tem nada que a gente possa fazer! Isso que tá me</p><p>enlouquecendo! — exclamou. — Não tem mais nada que possamos fazer,</p><p>Fernanda! O nosso casamento acabou! — ao proferir aquelas palavras,</p><p>tanto ele quanto ela ficaram estáticos, esperando que algo catastrófico</p><p>fosse</p><p>olhou para Alexandre.</p><p>— Chegamos inteiros! — comentou divertido.</p><p>— Chegamos sim… — falou devagar e um sorriso lento repuxou</p><p>seus lábios. — Caralho, faz anos que eu não fico bêbado assim…</p><p>— Deve tá bêbado mesmo, nunca te vi falando palavrão antes. —</p><p>retirou o cinto e saiu do carro.</p><p>Alexandre fez o mesmo e, juntos, eles entraram na casa que se</p><p>encontrava silenciosa. Caminharam lado a lado pelo corredor, mas</p><p>Alexandre cambaleava e, às vezes, acabava esbarrando em Luan.</p><p>— Cê tá ruinzinho mesmo, hein. — resmungou e o agarrou pelo</p><p>braço.</p><p>Devagar, ele guiou Alex até chegarem a porta entreaberta. Ao</p><p>entrarem no cômodo, Luan acendeu as luzes e Alex tropeçou nos próprios</p><p>pés outra vez, gargalhando como se fosse algo muito hilário.</p><p>Luan o ajudou a sentar na cama king-size e o assistiu pender para</p><p>trás, deitando-se completamente esparramado. Ele o observou com cuidado,</p><p>guardando na memória cada detalhe daquela cena. A camisa de mangas</p><p>compridas com os quatro botões abertos, a calça jeans gasta e presa por um</p><p>cinto de couro, os cabelos recém cortados e a barba aparada.</p><p>Cada pedacinho dele, sendo coberto pela roupa ou não, eram</p><p>magníficos.</p><p>— Vou te ajudar a ficar mais confortável. — falou com calma e se</p><p>ajoelhou para retirar as botas de seus pés.</p><p>— Luan… — chamou baixo.</p><p>— Hum? — grunhiu, concentrado em sua tarefa.</p><p>— Por que teu cabelo é tão bonito?</p><p>— Como assim? — perguntou confuso e quando se ergueu, o</p><p>encontrou escorado nos cotovelos.</p><p>— Por que os teus cabelos são tão bonitos?</p><p>— Você acha bonito? — sorriu de lado.</p><p>— Sim… são tão pretos, tão macios e parecem tão cheirosos.</p><p>— Cê tá bêbado, Alexandre.</p><p>— Eu sei… — riu e se moveu para sentar.</p><p>— Não sabe o que tá dizendo. — deu um passo à frente e Alex</p><p>ergueu a cabeça para fitá-lo. — Vem cá, deixa eu te ajudar a tirar essa</p><p>camisa apertada.</p><p>— Eu gosto de dormir sem roupa, sabia?</p><p>— Não, mas é bom saber. — murmurou enquanto desfazia o</p><p>restante dos botões. — Vamo lá, vamo tirar… por que cê gosta de camisa</p><p>tão apertada, hum?</p><p>Alexandre dificultou aquele processo, seus movimentos estavam</p><p>lentos e desajeitados, mas quando conseguiram, ele gargalhou um pouco</p><p>mais. Luan nunca tinha o visto sorrir tanto como naquela noite. Também</p><p>nunca tinha tido a oportunidade de olhar aquele peitoral malhado tão de</p><p>perto, então ele se atentou a cada pedaço de pele exposto com extrema</p><p>atenção.</p><p>Sobre o peito esquerdo, acima do coração, havia uma data de</p><p>nascimento e o nome de Heitor. Do lado do peito direito e descendo pelas</p><p>costelas, havia alguns ramos de rosas, mais abaixo tinha uma serpente e sua</p><p>cauda sumia na barra da calça jeans. Sua boca salivou pela vontade de</p><p>lambê-lo.</p><p>Luan sabia que Alex era incrivelmente gostoso, mas tê-lo ali, diante</p><p>de seus olhos daquela forma, o deixou ainda mais desejoso.</p><p>— Luan… — Alex tornou a chamar, tirando-o daquele transe.</p><p>— Sim?</p><p>Alex levantou ambas as mãos e as colocou nos quadris de Luan,</p><p>puxando-o em sua direção. Luan sentiu seus joelhos rasparem a beirada do</p><p>colchão, sentiu as mãos de Alex deslizarem pelo seu corpo até parar em</p><p>suas costas e prendeu a respiração em expectativa.</p><p>Ao abraçá-lo, Alex apoiou o queixo contra a barriga plana e mirou o</p><p>rosto confuso e ansioso.</p><p>— O que cê tá fazendo? — indagou nervoso.</p><p>— Cê é bonito demais pro próprio bem, sabia? — sussurrou.</p><p>— Alex…</p><p>— Luan… — ele raspou o nariz na camiseta preta que Luan usava e</p><p>inalou o cheiro doce do perfume, não o reconheceu, mas sabia que ficaria</p><p>gravado em sua mente por muito tempo, mesmo que naquele momento sua</p><p>mente estivesse nublada pelo álcool.</p><p>Seus olhos voltaram para o rosto de Luan, para os olhos negros</p><p>como a noite e para os lábios avermelhados como morangos.</p><p>Tão belo.</p><p>Tão cheiroso.</p><p>Luan engoliu em seco, seu coração retumbava contra a caixa</p><p>torácica e seu estômago parecia revirado, tamanho seu nervosismo. Se</p><p>inclinou vagarosamente, visto que Alex encontrava-se fissurado em seus</p><p>lábios e parecia muito querer prová-lo.</p><p>Mas, um brilho de confusão perpassou as íris verdes e quando Alex</p><p>se afastou, Luan sentiu seu corpo congelar.</p><p>— Luan, precisa sair daqui. — falou firme e afastou suas mãos do</p><p>corpo alheio.</p><p>— O quê?</p><p>— Eu… quero que saia, agora.</p><p>— Eu fiz algo errado? — se afastou completamente e passou ambas</p><p>as mãos pelos cabelos.</p><p>— Não, eu só… — se interrompeu e esfregou o rosto com</p><p>brusquidão. Sentia-se confuso e zonzo e suas emoções, principalmente o</p><p>desejo, pareciam fora de controle.</p><p>— Entendi, senhor. Não precisa se preocupar. — grunhiu, girou</p><p>sobre os sapatos e saiu do quarto sem olhar para trás.</p><p>— Luan… — Alex chamou, mas o barulho da porta batendo foi a</p><p>única resposta que teve. — Só quero… — se jogou para trás e fitou o teto.</p><p>— Só quero estar bem pra lembrar de tudo. Eu quero lembrar de cada</p><p>detalhe quando te beijar pela primeira vez… — sussurrou e fechou seus</p><p>olhos, então, rapidamente, ele foi embalado pelo sono.</p><p>CAPÍTULO OITO</p><p>Irritação tomou conta de Luan por toda aquela semana.</p><p>Ele não sabia o que havia feito de errado, o que havia mudado ou</p><p>por que Alexandre o havia expulsado de seu quarto daquela forma</p><p>Nada fazia sentido.</p><p>Em um instante, Alex parecia interessado, brincalhão e até devolvia</p><p>seus flertes. Por todo o momento em que eles ficaram na conveniência, ele</p><p>se manteve atento a cada movimento seu, preocupado e atencioso. No</p><p>quarto, Luan poderia jurar ter visto desejo nos olhos nublados pelo álcool,</p><p>ele tinha absoluta certeza de que, por um instante, Alexandre cogitou beijá-</p><p>lo. Mas , como se a consciência tivesse voltado, Alex recuou e o afastou.</p><p>O expulsou do quarto como se ele não fosse nada.</p><p>Era isso que ele era? Um completo nada?</p><p>Talvez fosse apenas uma necessidade, ou ele estava apenas curioso</p><p>para experimentar. Uma crise de idade ou de identidade, Luan não sabia, e</p><p>nem queria mais saber.</p><p>Sua raiva se metamorfoseou para culpa, pois ele achou que poderia</p><p>ter forçado demais a barra e ultrapassado os limites de Alex. No entanto,</p><p>chegou à conclusão de que ele havia simplesmente mudado de ideia e</p><p>quando esse pensamento surgiu e criou raízes em sua mente, Luan se sentiu</p><p>ridículo.</p><p>Uma piada.</p><p>A sensação de vergonha foi sua companheira durante toda a semana</p><p>e o motivo por trás do seu humor instável. Porém, ele se esforçou ao</p><p>máximo durante aqueles dias para esquecer o que tinha acontecido, se</p><p>esforçou mais ainda para se manter afastado de Alex.</p><p>Não tinha coragem de encará-lo e Alexandre não parecia disposto a</p><p>desfazer qualquer mal-entendido.</p><p>— O que é que cê tem? — Gustavo perguntou baixo. Ambos</p><p>estavam montados em cavalos e galopavam devagar. Mais a frente, alguns</p><p>peões, incluindo Gabriel e Alexandre, tocavam o gado em direção ao curral.</p><p>— Tá estressado já tem dias.</p><p>— Nada não.</p><p>— Qual é… a gente é amigo. Cê tá todo esquisito e não fala nada.</p><p>— Eu só tô com a cabeça cheia, Gustavo. Não é nada de mais.</p><p>— Teus velhos tão pegando no teu pé de novo?</p><p>— Não, eu só…</p><p>— Oh Luan! — Alexandre gritou de longe. Sua mão segurava a</p><p>rédea com firmeza enquanto a outra tentava manter o chapéu sobre sua</p><p>cabeça. — Esses bois não vão chegar no curral sozinhos não!</p><p>Luan mordeu o interior da bochecha para conter a vontade de soltar</p><p>uma resposta afiada. Havia tensão por todo o seu corpo e ficou ainda mais</p><p>evidente em sua mandíbula cerrada. Ao suspirar fundo, ele lançou uma</p><p>olhadela a Gustavo e forçou um sorriso.</p><p>— Acho que vou querer aquela cerveja depois do trabalho. —</p><p>informou e Gustavo assentiu.</p><p>— Assim que se fala… não gosto de te ver quieto desse jeito.</p><p>— Gustavo! Cê não é pago pra ficar conversando não, porra! —</p><p>Alexandre voltou a gritar. Quando teve a atenção dos dois, apontou para a</p><p>direção onde alguns bovinos se afastavam do rebanho. — Vão atrás</p><p>daqueles lá, agora!</p><p>— Parece que tem alguém estressado hoje. — Gustavo comentou.</p><p>— Vamo logo, antes que ele demita a gente.</p><p>No domingo, Alex e Luan ficaram novamente sozinhos.</p><p>Dona Maria e seu Joaquim foram para a cidade e como de costume,</p><p>ficariam todo o dia por lá.</p><p>Naquele momento, Luan encontrava-se deitado no meio da varanda,</p><p>sentindo o gelado da cerâmica que havia sido</p><p>recém lavada. Seus braços</p><p>estavam abertos e sua testa brilhava de suor. Na noite anterior ele havia</p><p>saído para comer e beber uma cerveja com Gustavo, mas exagerou e acabou</p><p>com uma ressaca severa.</p><p>— Que dor de cabeça do caralho! — sussurrou e esfregou a testa. —</p><p>Nunca mais vou beber…</p><p>— Ressaca? — Alexandre apareceu em seu campo de visão e</p><p>estendeu uma garrafa de água em sua direção.</p><p>— Das grandes. — resmungou ao se sentar.</p><p>Enquanto removia a tampa da garrafa, ele observou Alex sentar-se</p><p>em uma das cadeiras dispersas pelo espaço.</p><p>— Saiu pra beber ontem com o Gustavo?</p><p>— Uhum… — grunhiu ao sorver goles generosos de água.</p><p>— Voltou a ficar com ele?</p><p>— Com todo o respeito, isso não é da sua conta, senhor.</p><p>Alexandre meneou com a cabeça e fitou o espaço aberto diante da</p><p>casa. A menos de cem metros à frente ficavam as casas de seus</p><p>funcionários, mas para a direita ficavam o estábulo, o depósito e o curral.</p><p>Ele manteve o foco por alguns segundos e cerrou a mandíbula em completa</p><p>tensão.</p><p>Era óbvio que Luan ficaria chateado depois do que aconteceu.</p><p>Alexandre, levado pelo álcool, não soube se expressar naquela noite e</p><p>acabou causando uma confusão. E levando em conta como Luan passou a</p><p>tratá-lo, ele ficou extremamente receoso em se aproximar.</p><p>Ele sabia que merecia aquele tratamento, mas o desconforto que o</p><p>consumiu ao descobrir que Luan passou a noite com aquele garoto outra</p><p>vez, estava sobrepondo qualquer razão.</p><p>— Não é da minha conta? — voltou a olhar para Luan com</p><p>seriedade. — Tem certeza?</p><p>— Até onde eu sei, não devo explicação da minha vida pessoal pra</p><p>você, devo? — arqueou a sobrancelha em desafio.</p><p>Alexandre soltou uma risada tensa e passou a mão pela barba. Seu</p><p>interior se contorceu em nervosismo e expectativa. Um mix de sentimentos,</p><p>coisas que apenas Luan causava em si.</p><p>— Luan… — chamou baixo, tentando conter seu tom de voz.</p><p>— Não quero falar disso, senhor… — deixou a garrafa de lado e</p><p>voltou a deitar. — Não quero falar de nada. Esse calor infeliz vai derreter</p><p>meu cérebro. Porra de lugar quente! — exclamou exasperado.</p><p>Alexandre ficou por um minuto inteiro ouvindo Luan reclamar do</p><p>calor e mordeu o lábio inferior para conter a risada. Sem falar nenhuma</p><p>palavra, ele se levantou e entrou na casa. Foi rápido em sua busca por</p><p>alguns mantimentos na cozinha e organizou tudo em uma cesta que achou</p><p>no armário debaixo da pia.</p><p>Depois, foi no quarto e trocou a bermuda que usava por um short de</p><p>tecido maleável e permaneceu com a camisa simples. Quando surgiu na</p><p>varanda, Luan continuava na mesma posição.</p><p>— Vai vestir uma roupa de banho. — pediu e sorriu quando Luan</p><p>ergueu a cabeça em um rompante.</p><p>— O quê?</p><p>— Vai trocar de roupa, vamos dar um passeio.</p><p>— Não! Tá doido? — franziu o cenho e sentou de forma ereta.</p><p>— Cuida, vou te esperar aqui.</p><p>— Você é doido! — acusou, porém, se levantou do chão.</p><p>— E você tá com calor.</p><p>— Tô… espero que valha a pena. — resmungou e entrou em casa.</p><p>Aproveitando o momento, Alex deixou a cesta no chão perto da</p><p>porta e apressou o passo em direção ao galpão perto da casa dos</p><p>funcionários onde ficavam alguns maquinários e equipamentos agrícolas, lá</p><p>também tinha um quadriciclo que ele usava quando estava na fazenda.</p><p>Rapidamente, ele montou sobre o veículo e deu partida, então</p><p>pilotou em direção ao casarão. Quando parou em frente à varanda, Luan já</p><p>se encontrava lá e tinha seus olhos negros arregalados.</p><p>— Pega a cesta e vem. — indicou com o queixo e sorriu.</p><p>— Pra onde tá me levando? — perguntou ao pegar a alça da cesta e</p><p>caminhar animado.</p><p>— Surpresa, você vai gostar.</p><p>— Uhum, sei… — grunhiu.</p><p>Ao se acomodar na garupa do quadriciclo, Luan apoiou a cesta</p><p>sobre sua coxa e manteve certa distância do corpo de Alex. Mas quando ele</p><p>deu uma arrancada com o veículo fazendo-o se assustar, sua mão foi parar</p><p>na barriga dele quando agarrou o pano da camisa com força.</p><p>— Melhor se segurar. — Alex murmurou com divertimento.</p><p>— Cretino!</p><p>Foram poucos minutos de viagem, Luan teve de descer algumas</p><p>vezes para abrir os colchetes à medida que passavam pelos pastos cercados</p><p>e se aprofundavam na propriedade da fazenda. Mas, quando entraram em</p><p>uma extensa reserva de mata a uns três quilômetros da sede da fazenda,</p><p>Luan conseguiu ouvir o barulho distante.</p><p>— Não me diz que isso é…</p><p>— É sim. — Alex acelerou mais ainda e em poucos minutos eles</p><p>chegaram a uma enorme clareira. O barulho ali estava mais alto, a vista era</p><p>absurdamente linda e Luan quase perdeu o fôlego.</p><p>— Como foi que não me contaram que existia uma cachoeira aqui?!</p><p>— exclamou embasbacado e surpreso.</p><p>Desceu do veículo e deixou a cesta embaixo de uma das milhares de</p><p>árvores que cercavam aquela piscina de água natural. O verde da água era</p><p>tão cristalino que de onde Luan estava, conseguia ver vários peixinhos</p><p>nadando de um lado para o outro. Tudo, absolutamente tudo naquele lugar</p><p>era perfeito.</p><p>— Antigamente meu pai deixava que as pessoas viessem tomar</p><p>banho aqui nos fins de semana, mas depois de algumas confusões, ele</p><p>proibiu e o lugar ficou esquecido… acho que nem os peões sabem que</p><p>existe ou se sabem, não vêm muito aqui.</p><p>— Meu Deus! E eu tava pra derreter de calor por todos esses dias</p><p>quando tinha um paraíso bem aqui!</p><p>Animado, ele seguiu por uma pequena trilha que levava a uma</p><p>entrada na água cheia de pedras, haviam várias delas cercando o lago,</p><p>algumas eram bem planas e outras irregulares, mas quase todas eram</p><p>grandes.</p><p>— Toma cuidado pra não escorregar nas pedras, Luan! —</p><p>Alexandre avisou, acompanhando-o de perto.</p><p>— Tá, tá! Caralho! Esse lugar é incrível! — falou empolgado e</p><p>retirou a camisa e o short de tecido que usava, ficando apenas de cueca</p><p>boxer.</p><p>Alexandre congelou no lugar ao observar os gestos afoitos do</p><p>garoto. Incontrolavelmente, seus olhos deslizaram pelas costas estreitas,</p><p>escaneando cada pedaço de pele até alcançar a bunda pequena, porém</p><p>proporcional ao corpo dele e muito atrativa ao toque.</p><p>Entretanto, sua atenção foi completamente ofuscada quando Luan</p><p>soltou seus cabelos do elástico preto que os prendiam para trás e os</p><p>balançou para os lados. O cheiro pareceu atingir Alexandre em cheio,</p><p>inundando seu olfato e causando um arrepio tão intenso em sua nuca, como</p><p>ele nunca sentiu antes.</p><p>Flor de laranjeira.</p><p>O aroma floral era levemente doce e possuía tons suaves de cítrico.</p><p>Alex inalou profundamente, encheu seus pulmões com aquele cheiro</p><p>e acabou fechando os olhos. Era surreal e indescritível a sensação que ele</p><p>teve naquele momento.</p><p>— Alexandre? — quando abriu os olhos, se deparou com Luan</p><p>observando-o com um sorriso no rosto. — Tá tudo bem?</p><p>Alex pigarrou e passou a mão pela nuca em um gesto claro de</p><p>nervosismo.</p><p>— Tudo bem, sim…</p><p>— Mesmo? — arqueou a sobrancelha ao questionar.</p><p>— Mesmo.</p><p>— Tudo bem…</p><p>Luan voltou a vislumbrar a cachoeira, então deu um passo à frente,</p><p>se inclinou e pulou.</p><p>Alexandre assistiu tudo aquilo completamente hipnotizado. O</p><p>deslizar majestoso do corpo esbelto sob a água cristalina parecia cena de</p><p>um filme. Fissurado. Alexandre se viu fissurado nele, no cheiro que parecia</p><p>impregnado em seu nariz, no corpo que lembrava as esculturas</p><p>renascentistas, nos cabelos negros, tão macios e ondulados.</p><p>Gracioso.</p><p>Luan era gracioso.</p><p>Ao emergir, ele passou ambas as mãos pelos cabelos e os jogou para</p><p>trás. Seu rosto e corpo estavam inteiramente molhados, e o sorriso em seu</p><p>rosto brilhava mais que o reflexo do sol nas águas cristalinas.</p><p>— A água tá maravilhosa! — exclamou eufórico. — Não vai entrar?</p><p>— Vou… — respondeu e removeu a camisa de seu corpo.</p><p>Lentamente e com cuidado, ele sentiu o frio da água sobre as pedras cobrir</p><p>seus pés. — Sabe que poderia ter se machucado quando pulou daquele jeito,</p><p>né?</p><p>— Alexandre, olha essa água! Eu consigo ver as pedrinhas lá no</p><p>fundo. Como eu iria me machucar?</p><p>— Eu não sei, mas prefiro não arriscar. Tome mais cuidado, por</p><p>favor. — murmurou contido.</p><p>Quando a água alcançou seus quadris, Alex mergulhou. Luan estava</p><p>distante, então mesmo conseguindo vê-lo nadar bem no fundo, esperou com</p><p>expectativa o momento em que ele fosse aparecer.</p><p>Desde o início da conversa deles mais cedo,</p><p>ele não estava</p><p>compreendendo quais eram as intenções de Alex. Mas qualquer confusão</p><p>desapareceu no momento em que ele viu aquele paraíso na terra. Luan não</p><p>era de guardar mágoas de ninguém, então com aquele pequeno gesto, Alex</p><p>conseguiu desdobrá-lo facilmente.</p><p>Assim que emergiu, Alex estava bem perto de Luan e aquela</p><p>aproximação repentina deixou o mais novo nervoso. Com ambas as mãos,</p><p>Alexandre retirou o excesso de água de seus cabelos e rosto e deu mais um</p><p>passo.</p><p>Luan olhou ao redor para o espaço arborizado, tentando escapar das</p><p>esferas verdes focadas em si. Inquietação tomou seu estômago e o deixou</p><p>agoniado. Alexandre estava chegando mais perto e ele não sabia o que</p><p>aquilo significava.</p><p>— Pode olhar pra mim, Luan? — Alex pediu e Luan engoliu em</p><p>seco antes de fixar seu olhar no rosto alheio.</p><p>— O que foi? — franziu o cenho. — Por que tá chegando tão perto?</p><p>— Porque… — Alex ergueu a mão e a levou até a bochecha de</p><p>Luan. — Eu quero sentir você.</p><p>— Como quis da última vez? — mordiscou o lábio em um gesto</p><p>nervoso e, novamente, girou a cabeça para o lado. — Pensei que tinha se</p><p>arrependido, criou coragem de novo e quer testar?</p><p>— Olha pra mim. — soprou baixo. Luan não obedeceu. — Luan,</p><p>por favor… eu preciso que você esteja olhando nos meus olhos quando</p><p>ouvir o que eu tenho a dizer.</p><p>Não havia saída, e sentindo a quentura da mão de Alex contra seu</p><p>rosto, foi impossível se controlar. Por falta de explicações, Luan criou suas</p><p>próprias, mas naquele momento Alex estava dando a chance de se fazer</p><p>entender, e só por isso ele olhou.</p><p>— O que quer dizer?</p><p>Alex moveu sua outra mão e com ambas ele segurou o rosto de</p><p>Luan. Seus olhos percorreram cada milímetro daquela face angelical. Os</p><p>olhos grandes e negros, as sobrancelhas grossas e os cílios longos, o</p><p>piercing no nariz arrebitado e a boca carnuda.</p><p>E os cabelos… Alexandre era fascinado naqueles cabelos, secos ou</p><p>molhados, eles ficavam bonitos de qualquer forma.</p><p>— Eu não quis te despachar naquela noite… — confessou.</p><p>— Não? Pois foi o que pareceu. — rebateu afiado e Alex pôde notar</p><p>certa mágoa no tom de voz.</p><p>— Não, não quis… eu só tava bêbado demais. — moveu sua mão e</p><p>guardou uma mecha de cabelo molhado atrás da orelha enfeitada por</p><p>brincos. — Só que eu queria estar bem consciente pro que quero fazer, por</p><p>isso te mandei embora.</p><p>Luan projetou a língua para fora rapidamente e umedeceu o lábio</p><p>inferior.</p><p>— E o que cê quer fazer? — sua voz saiu trêmula.</p><p>— Eu queria estar consciente… — repetiu e deu um passo adiante,</p><p>menos de um palmo de distância separava seu corpo de Luan. — Pra</p><p>conseguir lembrar de cada detalhe… — se inclinou vagarosamente e focou</p><p>seu olhar nos lábios avermelhados. — De quando eu te beijasse pela</p><p>primeira vez.</p><p>Suave como uma brisa fresca, Alex encostou seus lábios aos de</p><p>Luan. A textura macia foi a primeira coisa que sentiu, assim como a</p><p>confusão daquele ato. Suas entranhas se contraíram e uma descarga de</p><p>adrenalina percorreu seu corpo.</p><p>Luan não estava muito diferente. Os pelos de sua nuca, mesmo</p><p>molhados, se arrepiaram. Debaixo d'água, seus dedos dos pés se</p><p>contorceram contra as pedrinhas e a forma como Alex segurava seu rosto</p><p>com tanta firmeza o fez engolir um gemido.</p><p>Só que tudo pareceu alcançar um nível mais alto quando Alex</p><p>pressionou com mais firmeza, quando pediu passagem com a língua e Luan</p><p>permitiu, quando sentiu a língua esperta se embolar na sua e o gosto dele</p><p>invadir seu paladar.</p><p>Era o nirvana.</p><p>Consumidos pela luxúria, seus movimentos se tornaram acelerados.</p><p>Uma das mãos de Alex deslizou para a nuca de Luan e a outra se retraiu um</p><p>pouco, segurando-o pelo queixo. Pressionou, ainda mais, seu corpo ao outro</p><p>e como se não estivessem grudados o bastante, suas mãos se afastaram só</p><p>para agarrá-lo pelos quadris e impulsioná-lo para que se pendurasse em seu</p><p>colo.</p><p>Luan enlaçou suas pernas na cintura de Alexandre e suas mãos</p><p>agarraram os cabelos da nuca dele. Sentia as mãos firmes apertando sua</p><p>bunda e gemeu grave contra a boca do outro.</p><p>— Porra, garoto! — Alex grunhiu e atacou o pescoço alheio,</p><p>deixando beijos e arranhando a pele com a sua barba. — Eu queria tanto</p><p>fazer isso!</p><p>— Xande... — Luan murmurou em súplica e pendeu a cabeça para</p><p>trás, dando total acesso a Alex.</p><p>— Cê não sabe as coisas que eu tenho pensado em fazer com você.</p><p>— soprou exasperado. Suas mãos pareciam descontroladas, tocando tudo o</p><p>que pudesse com firmeza e certa brutalidade. — Não sabe o quanto eu</p><p>pensei nisso, no quanto eu fantasiei com o sabor da sua boca!</p><p>Luan se afastou alguns centímetros e olhou para o rosto de</p><p>Alexandre. Os olhos verdes brilhavam de desejo e os lábios estavam</p><p>levemente inchados pelo beijo.</p><p>Ele só podia estar sonhando.</p><p>— Fantasiou comigo, foi? — perguntou com diversão.</p><p>— Demais, Luan… cê não faz ideia. — confessou ao sorrir.</p><p>— O que você pensou?</p><p>— Em coisas que não deveria… ainda mais com um garoto que tava</p><p>aprendendo a escrever o próprio nome quando eu já sabia foder.</p><p>Luan deslizou suas mãos pelo pescoço alheio e acariciou com</p><p>delicadeza a barba bem aparada. Seus dedos tocaram a boca de Alexandre</p><p>com cuidado e foi agraciado com um sorriso aberto.</p><p>— Eu também pensei nisso… no quanto seria bom te beijar. —</p><p>confessou em um fio de voz.</p><p>— E o que achou?</p><p>— Foi melhor do que imaginei…</p><p>— Foi, é? — provocou ao apertar um pouco mais a bunda alheia.</p><p>— Foi sim. — Luan sorriu e se inclinou novamente, deixando beijos</p><p>leves pela boca do outro. — Foi estranho pra você?</p><p>— Acha que se tivesse sido estranho, eu estaria contigo pendurado</p><p>no meu colo?</p><p>— Ué, pode ser coisa de momento.</p><p>— Não é. — afirmou com convicção. — Você não é coisa de</p><p>momento, Luan. Não pense isso de si mesmo, entendeu?</p><p>— Entendi.</p><p>— Ótimo, agora volta a me beijar, vai… eu não quero parar de</p><p>beijar você por nenhum segundo.</p><p>Luan obedeceu.</p><p>Seus lábios voltaram a fazer morada na boca de Alexandre.</p><p>Sentindo, conhecendo o terreno. Eles passaram minutos inteiros naquilo.</p><p>Deslizando suas mãos da forma que podiam, testando todas as formas que</p><p>seus rostos se encaixavam. Se deleitando com os gemidos baixos e o sabor</p><p>de suas bocas em uma dança majestosa.</p><p>Cercados pela paisagem exuberante do lugar e tendo como som de</p><p>fundo o barulho da cachoeira desaguando.</p><p>Depois de um tempo, Alex passou a caminhar com Luan ainda em</p><p>seu colo para uma parte mais rasa, quando alcançou uma das rochas planas</p><p>parcialmente submersas nas margens do lago, ele o colocou sentado com</p><p>cuidado e se manteve entre as pernas dele.</p><p>Suas mãos voltaram para o rosto delicado e sua boca pressionou a</p><p>testa coberta por fios negros molhados.</p><p>— Você é lindo demais… — sussurrou como se contasse um</p><p>segredo. Seus dedos acariciaram os traços delicados com carinho. — Porra,</p><p>Luan! Eu… — engoliu em seco e abriu um riso tenso. — Não consigo parar</p><p>de te olhar… de querer beijar você.</p><p>— É só não parar. Eu tô bem aqui.</p><p>— Posso fazer o que quiser com você?</p><p>— Deve.</p><p>— Luan, Luan… cuidado com o que você diz. — Alex se inclinou</p><p>sobre Luan, fazendo-o deitar completamente sobre a rocha plana e cobrindo</p><p>o corpo dele parcialmente com o seu.</p><p>— Vai fazer algo comigo, senhor? — sorriu safado e voltou a</p><p>enlaçar suas pernas ao redor da cintura de Alex.</p><p>— Não me chama de senhor. — grunhiu e cobriu a boca dele com a</p><p>sua. — Só me faz pensar no quão errado isso é. — prendeu o lábio inferior</p><p>de Luan entre seus dentes e o sugou para dentro de sua boca.</p><p>— Errado por quê? Cê mal tem idade de ser meu pai! Talvez um tio,</p><p>mas não um pai.</p><p>— Cala essa boquinha, cala? — sorriu e o beijou mais uma vez.</p><p>Os peitos desnudos estavam grudados, suas pelves permaneciam em</p><p>contato e as pernas de Luan apertavam e pressionavam Alex em sua direção</p><p>com vontade e certo desespero.</p><p>Naquele momento, um vento soprou de forma branda, balançando as</p><p>copas das árvores ao redor e acariciando as peles quentes de desejo. Flores</p><p>brancas flutuaram até caírem por todo o lago, caindo também sobre</p><p>Alexandre e Luan, que se afastaram minimamente para observar o</p><p>espetáculo. Alex estendeu o braço e pegou uma das flores que havia caído</p><p>sobre a pedra em que se encontravam, um sorriso</p><p>surpreso surgiu em seus</p><p>lábios avermelhados.</p><p>— Que foi? — Luan perguntou curioso.</p><p>— Uma flor de laranjeira. — mostrou para Luan.</p><p>— O que tem de mais?</p><p>— Seus cabelos têm o cheiro dessa flor. — contou e levou a flor até</p><p>seu nariz, inalando profundamente. Mas diferente daquele cheiro, os de</p><p>Luan pareciam ter uma pitada de seu próprio aroma natural e era isso que o</p><p>fazia ser tão singular.</p><p>— Tem, é? — arqueou a sobrancelha em surpresa e conteve o</p><p>sorriso.</p><p>— Tem sim, mas o seu é mais gostoso.</p><p>— Tudo em mim é gostoso, Xande. — brincou.</p><p>— Eu sei… — Alex também sorriu e levou a flor até o nariz</p><p>arrebitado de Luan para que ele pudesse sentir o cheiro, e quando ele o fez,</p><p>Alex moveu sua mão e colocou a flor atrás da orelha enfeitada. — Mas</p><p>além de gostoso, Luan, você é lindo como essa flor… — recuou poucos</p><p>centímetros e observou a imagem diante de si.</p><p>Água cristalina delineava o corpo de Luan sobre a rocha, flores</p><p>flutuavam ao seu redor, a flor branca e simples enfeitava os cabelos negros</p><p>e desgrenhados e Alexandre jurou que nunca tinha visto algo tão belo e</p><p>gracioso em toda a sua vida.</p><p>— Então eu sou uma flor? — Luan perguntou.</p><p>A imagem que tinha naquele momento era o rosto de Alexandre</p><p>emoldurado pelas copas das árvores e, mais ao fundo, o céu azul límpido.</p><p>Os olhos verdes brilhavam tanto que Luan sentiu-se nocauteado. Seu</p><p>coração batia tão rápido quanto as asas de um beija-flor, seu baixo ventre se</p><p>contraiu em antecipação à resposta que não tardou a vir.</p><p>— Sim… a minha flor… — confessou e pressionou seus lábios nos</p><p>de Luan cerca de três vezes seguidas. — Minha flor de laranjeira.</p><p>— Sendo assim, cê é o meu beija-flor. — respondeu simplista.</p><p>— Sou o que você quiser, garoto. — murmurou e voltou a beijá-lo.</p><p>Luan e Alexandre passaram toda a tarde na cachoeira.</p><p>Depois do primeiro beijo, os dois não se afastaram mais. Pareciam</p><p>necessitados um pelo outro, como se não conseguissem passar mais que</p><p>dois segundos sem se tocar e, por isso, ficaram o tempo todo grudados no</p><p>meio do lago, compartilhando beijos, toques e olhares que falavam mais</p><p>que palavras poderiam expressar.</p><p>Então, quando o estômago de Luan roncou alto a ponto de Alex</p><p>ouvir, eles saíram do lago e se sentaram embaixo de uma árvore. Alexandre</p><p>pegou a cesta esquecida e de lá retirou algumas vasilhas pequenas com</p><p>pedaços de bolo de cenoura e frutas cortadas, também tinham garrafas de</p><p>água e uma delas ele entregou a Luan.</p><p>— A gente tem que voltar antes que mainha chegue da cidade.</p><p>— Por quê? — inquiriu e depois mordeu um pedaço de bolo.</p><p>— Como a gente vai explicar pra ela onde tava e o que tava</p><p>fazendo?</p><p>— Só falarmos que viemos até a cachoeira, Luan, não tem nada de</p><p>mais nisso.</p><p>— Hum, melhor evitar.</p><p>— Você é quem sabe… agora come um pouco. — entregou uma das</p><p>vasilhas com bolo e observou com atenção enquanto ele se alimentava.</p><p>Passaram alguns minutos em silêncio, apenas trocando olhares</p><p>furtivos e sorrisos contentes. Quando acabaram a refeição, guardaram tudo</p><p>o que restou dentro da cesta e se prepararam para partir.</p><p>— Quero voltar aqui mais vezes… — Luan comentou depois de se</p><p>acomodar sobre o quadriciclo.</p><p>Alexandre o fitou por sobre o ombro e segurou a mão dele, então, o</p><p>puxou levemente para que ficasse mais próximo. Quando sentiu o peito dele</p><p>contra suas costas, um sorriso lento puxou seus lábios.</p><p>— Podemos voltar aqui quando você quiser, tudo bem?</p><p>— Tudo bem. — Luan respondeu e encostou seu rosto contra as</p><p>costas de Alex.</p><p>Em poucos minutos, eles saíram da clareira e depois da reserva de</p><p>mata. Quando se aproximaram do curral, Luan se afastou do corpo de Alex</p><p>e permaneceu assim até que ele parasse o veículo em frente ao casarão.</p><p>Da varanda, eles avistaram quando o carro de seu Joaquim surgiu na</p><p>entrada da fazenda, e para que não fossem vistos, eles se apressaram em</p><p>entrar na casa e seguir em direção aos seus quartos. Porém, antes que Luan</p><p>pudesse abrir a porta, Alex o segurou pelo braço e girou seu corpo,</p><p>pressionando-o contra a madeira.</p><p>— Xande! Meus pais estão chegando! — exclamou nervoso.</p><p>— Eu sei… — soprou em meio a um riso e grudou seu corpo ao</p><p>dele, grudando também ambas as bocas. — Só quero te beijar uma última</p><p>vez.</p><p>— Última vez?</p><p>— Última vez hoje, talvez… não sei se vamos ter mais</p><p>oportunidades, então quero aproveitar todas que eu tiver. — explicou.</p><p>Seus lábios brincaram com os de Luan antes que ele pudesse de fato</p><p>beijá-lo. Quando aconteceu, ele sentiu mais uma vez seu estômago se retrair</p><p>em expectativas e ansiedade. Mesmo que tivesse beijado tantas bocas antes,</p><p>a de Luan parecia ser tão diferente e macia, tão doce e apetitosa, parecia</p><p>encaixar com extrema perfeição na sua e aquilo lhe dava a sensação de que</p><p>o beijo dele era algo único.</p><p>Inexplicável.</p><p>— Alexandre… — Luan soprou baixo ao escutar as portas dos</p><p>carros batendo do lado de fora da casa. — A gente tem que...</p><p>— Eu sei, eu sei… — murmurou e segurou o rosto dele em suas</p><p>mãos. — Só mais um. — pediu e pressionou sua boca na do outro. —</p><p>Pronto!</p><p>Se afastou e um sorriso gigante se abriu em seu rosto.</p><p>— Até mais, Xande… — murmurou contido e abriu a porta.</p><p>— Até daqui a pouquinho, Luan.</p><p>Quando Luan fechou a porta do quarto e a imagem de Alexandre</p><p>sumiu completamente, ele escorou suas costas contra a madeira e levou os</p><p>dedos à boca que ainda formigava pelo contato recente.</p><p>A sensação em seu coração era algo da qual ele nunca havia sentido</p><p>antes. Era bom, mas incrivelmente apavorante. Luan sabia que não era tão</p><p>fácil assim se apaixonar, mas tinha plena certeza de que seus sentimentos</p><p>por Alexandre iam além de atração.</p><p>Entretanto, ele não se apegaria àquilo e deixaria que as coisas</p><p>acontecessem naturalmente. Não havia muito o que ele pudesse fazer e,</p><p>parar o que estava apenas começando, não era uma opção.</p><p>Sendo algo bom ou ruim, ele estava disposto a lidar com as</p><p>consequências.</p><p>CAPÍTULO NOVE</p><p>Durante todo o dia seguinte, Alexandre se sentiu atordoado.</p><p>Ficou quase a noite toda acordado pensando em tudo o que tinha</p><p>acontecido entre ele e Luan e ainda não parecia real.</p><p>Ele havia realmente beijado um cara.</p><p>Ele gostou muito de beijar um cara.</p><p>De beijar Luan.</p><p>A sensação de ter seus lábios grudados nos do garoto durante toda a</p><p>tarde parecia recente, como se ele estivesse sentindo naquele momento. A</p><p>maciez, o doce daquela boca, a forma como ele parecia ávido e necessitado,</p><p>o jeito que seu coração ficou batendo descontrolado por todas as horas em</p><p>que eles permaneceram na cachoeira, ainda estavam vividas em sua mente.</p><p>Alexandre nunca havia se sentido daquela forma em toda a sua vida.</p><p>Ele não sabia se aquilo se devia ao fato de ter passado tanto tempo em um</p><p>relacionamento ou se era por ser a sua primeira experiência com um cara.</p><p>Aquilo também era um dos motivos de sua insônia.</p><p>De modo geral, ele estava lidando bem com as recentes descobertas.</p><p>Não esperava que fosse se descobrir bissexual, mas não era algo que ele</p><p>abominava. Porém, se dissesse que estava compreendendo tudo com</p><p>facilidade, seria uma mentira.</p><p>Por toda a sua vida, Alex se envolveu exclusivamente com</p><p>mulheres, pois elas sempre foram alvo do seu interesse. Ele se casou com</p><p>Fernanda e aqueles foram os melhores anos de sua vida. Agora, ele se via</p><p>em uma situação da qual nunca imaginou que fosse estar, e mesmo que não</p><p>tivesse sido tão difícil entender que seu interesse por um homem havia sido</p><p>despertado, sendo que passou toda a sua vida gostando apenas de mulheres,</p><p>Alexandre ainda se questionava sobre muitas coisas.</p><p>Ele estava saindo de um casamento longo e sequer imaginou que</p><p>fosse começar a se relacionar com alguém tão rápido. Também tinha o fato</p><p>de Luan ser filho das pessoas que ajudaram seu pai a criá-lo.</p><p>E o pior em tudo aquilo: Luan só tinha vinte anos.</p><p>Alexandre nunca havia se envolvido com alguém tão novo, mesmo</p><p>antes de começar a namorar Fernanda, que tinha a sua idade, Alex nunca</p><p>gostou ou se interessou por alguém com uma diferença de idade tão grande.</p><p>Entretanto, Luan parecia ser uma exceção.</p><p>Desde o primeiro instante, ele sabia que Luan tinha algo único.</p><p>E tendo quinze anos de diferença</p><p>entre eles, Alex só conseguia ver</p><p>aquilo como sendo um grande obstáculo.</p><p>Luan era jovem, tinha uma vida inteira para aproveitar e curtir,</p><p>pessoas para se apaixonar e experiências para viver e, naquela equação, ele</p><p>não cabia. E não era como se Alexandre já estivesse pensando em um</p><p>relacionamento com Luan, mas bem, depois de tantos anos em uma relação</p><p>estável, ele não conseguia se ver tendo casos aleatórios ou se envolvendo</p><p>com pessoas de forma tão descompromissada como Luan fazia.</p><p>Tinham muitas questões e Alexandre estava entrando em colapso.</p><p>— O que é que você tem? — Alexandre saiu de seus pensamentos</p><p>quando Rafael chamou sua atenção.</p><p>— O quê? Por quê?</p><p>— Alex, cê tá aéreo desde que cheguei aqui. Derrubou café na mesa</p><p>duas vezes… — se interrompeu quando Alex derrubou a caneca de café</p><p>novamente sobre a mesa, sujando alguns papéis. — Três vezes! O que foi</p><p>que te deu?</p><p>— Nada, eu não tenho nada. — resmungou e tentou evitar que o</p><p>líquido quente caísse em suas roupas. — Merda!</p><p>— Tá até xingando? O b.o foi grande mesmo! — acusou.</p><p>— Rafael, vai procurar um quintal pra capinar e me deixa em paz!</p><p>Rafael abriu um sorriso largo e cruzou os braços enquanto fitava seu</p><p>amigo.</p><p>— Se eu não te conhecesse, diria que cê tá assim por causa do</p><p>Luan… mas eu acho que não, né? Cê é hétero e não se envolve com caras.</p><p>— debochou e recebeu um olhar afiado.</p><p>— Vai se foder!</p><p>— Uou! Acho que não te ouço xingar assim desde que o Heitor</p><p>nasceu! — surpreso, ele se moveu sobre a poltrona e mudou suas</p><p>expressões. — Falando sério, o que aconteceu?</p><p>Alexandre se levantou e caminhou pelo escritório, agitado. Passou</p><p>ambas as mãos por seus cabelos e suspirou fundo algumas vezes para</p><p>acalmar as batidas do seu coração. Não havia cogitado contar para ninguém</p><p>sobre aquilo, mas sentia que se não falasse, ficaria louco.</p><p>— E-eu… — iniciou, mas como se tivesse um nó bloqueando sua</p><p>garganta, ele não conseguia falar.</p><p>— Você? — incentivou.</p><p>Depois de mais uma respiração profunda, Alexandre passou a mão</p><p>pelo rosto de forma exasperada e fitou o teto em seguida.</p><p>— Eu fiquei com o Luan! — soltou de uma vez.</p><p>O riso no rosto de Rafael diminuiu vagarosamente, seus olhos se</p><p>arregalaram à medida que ele processava o que Alex havia dito e surpresa</p><p>inundou seu rosto.</p><p>— Você ficou com o… — engoliu em seco e pigarreou. — Você</p><p>transou com o Luan?</p><p>— Não! A gente não transou… só nos beijamos. — confessou</p><p>acanhado. — Nos beijamos pra caralho!</p><p>— Sério? Quando? Como foi?</p><p>Alexandre parou diante da janela do escritório e dali ficou</p><p>observando os trabalhadores ao longe no curral.</p><p>— Naquela noite do bar, eu quase pedi pra ele me beijar, mas estava</p><p>bêbado demais e mandei ele sair do meu quarto. O zangadinho entortou o</p><p>bico pro meu lado a semana toda e ontem eu levei ele pra cachoeira. — se</p><p>virou lentamente e vislumbrou um riso divertido no rosto de Rafael. — Eu</p><p>beijei ele, Rafa… beijei ele e foi a melhor sensação do mundo.</p><p>— Jura? Cê não tá se sentindo estranho com isso?</p><p>— Luan me perguntou a mesma coisa, mas acontece que não. Foi</p><p>diferente, eu nunca tinha beijado um cara na minha vida, mas com ele</p><p>pareceu certo, encaixou. Eu não sei explicar, só… foi bom demais.</p><p>— E o que tá te deixando agitado? Não pode nem falar que é por</p><p>conta do café porque cê mais derramou do que bebeu.</p><p>Alex voltou a sentar em sua poltrona e passou a mão pela barba. Seu</p><p>olhar vagou pela mesa e paralisou na fotografia de Fernanda e Heitor.</p><p>— Eu tô saindo de um relacionamento de anos, nunca fiquei com</p><p>um cara antes e ele é… porra, ele é quinze anos mais novo que eu, Rafael!</p><p>Quinze anos!</p><p>— O que tem de mais nisso?</p><p>— O que tem de mais nisso? Ele é só um garoto! O que eu vou fazer</p><p>com um garoto? O que eu, que sou acostumado a um relacionamento</p><p>tranquilo e detalhe, monogâmico, vou fazer me envolvendo com um garoto</p><p>de vinte anos cheio de amor pra dar?</p><p>— Cê tem razão, ele realmente tem muito amor pra dar. — implicou</p><p>e caiu na risada quando Alex fechou a cara. — Mas cara, cê tem que</p><p>relaxar. Eu sei que deve tá sendo complicado isso da separação, mas cê não</p><p>tá traindo ninguém, não tá fazendo nada de errado e ele tem vinte anos, mas</p><p>já é um adulto, é bem grandinho e sabe o que tá fazendo.</p><p>— Eu sei.</p><p>— Sabe por que cê tá assim? Porque cê tá perdendo o controle. Não</p><p>sabe em que pé está e não sabe o que vai acontecer. Luan tá te tirando da</p><p>sua zona de conforto e você não sabe lidar. É normal, Alex, seria estranho</p><p>se você estivesse cem por cento ok com tudo o que tá acontecendo. —</p><p>comentou com calma e Alex assentiu, seu cenho estava franzido e os lábios</p><p>crispados. — Mas se eu posso te dar um conselho, tenta relaxar mais, fica</p><p>tranquilo e aproveita o momento. O Luan é um cara bacana e vocês podem</p><p>se dar bem, mas se não der… — deu de ombros e sorriu. — Não deu, cê</p><p>segue em frente e parte pra outra.</p><p>— Eu não sou esse tipo de homem, Rafael. Eu não fico pulando de</p><p>galho em galho como se estivesse desesperado! Eu não tô desesperado!</p><p>— Não tá?</p><p>— Tá, eu posso tá desesperado pelo garoto, mas não tô querendo</p><p>isso com mais ninguém, eu nem queria isso agora, não tava com cabeça</p><p>nenhuma pra me envolver, mas agora eu tô… — engoliu as palavras e</p><p>suspirou fundo.</p><p>— Tá envolvido. Muito, muito envolvido. — apontou e apoiou uma</p><p>perna sobre a outra. — Eu percebi isso no dia em que saímos todos juntos.</p><p>Alexandre encostou o cotovelo no braço da poltrona e pressionou os</p><p>dedos contra seus lábios secos. Ansiedade borbulhava em seu peito,</p><p>causando uma constante sensação gélida e pesada em seu estômago. Ao</p><p>mesmo tempo em que ele se sentia confuso com tudo, a expectativa de</p><p>quando veria Luan outra vez, o deixava nervoso e com as mãos suando as</p><p>poças.</p><p>Ele não via a hora de poder beijá-lo outra vez.</p><p>Não via a hora de sentir o cheiro dos cabelos dele mais de perto.</p><p>Aqueles cabelos. Ele era louco naqueles cabelos.</p><p>— Eu tô doido pra beijar ele outra vez… e de novo, e de novo, até</p><p>ficar com a boca dormente. — gesticulou a mão, e ergueu o olhar,</p><p>encontrando o rosto de Rafael que expressava clara zombaria e</p><p>divertimento. — Eu tô ferrado, não tô?</p><p>— Meu amigo… se você ficou assim por uns beijos, vai ficar doido</p><p>quando provar todo o amor que o Luan pode te dar.</p><p>— Rafael… tem certeza que nunca ficou com o Luan? — arqueou a</p><p>sobrancelha ao questionar.</p><p>— Certeza, certeza eu não tenho… uma vez a gente saiu pra uma</p><p>festa, ficamos bêbados e pode ter rolado algo, cê sabe que eu não lembro</p><p>muito das coisas quando tomo um porre.</p><p>— Rafael! — exclamou irritado.</p><p>— Tô brincando, tô brincando! Quando ele chegou aqui eu já estava</p><p>com o Gabriel e como eu disse, ele não faz meu tipo.</p><p>— Acho bom.</p><p>Batidas na porta chamaram sua atenção e quando Alex autorizou a</p><p>entrada, dona Maria apareceu com um sorriso radiante.</p><p>— O almoço tá pronto, fiz galinha caipira.</p><p>Rafael pulou da cadeira e se apressou até a porta, onde parou e</p><p>deixou um beijo nos cabelos de dona Maria.</p><p>— A senhora é a melhor, Nona! Tava com saudade da sua comida.</p><p>— Tu não vem comer aqui porque não quer. Só quer saber de comer</p><p>no galpão com os peões. A comida do teu primo é melhor que a minha por</p><p>acaso?</p><p>— Não, Nona… ninguém tem uma comida melhor que a sua.</p><p>Ao se levantar, Alexandre pegou o chapéu branco sobre a mesa e o</p><p>colocou sobre seus cabelos. Um sorriso canalha repuxou seus lábios e</p><p>Rafael cerrou o olhar em sua direção.</p><p>— Se a senhora soubesse o porquê dele ir comer lá. — dedurou.</p><p>— E qual é?</p><p>— Nada, Nona… Alexandre tá ficando doido. — guiou a senhora</p><p>pela sala, mas deixou que ela seguisse na frente e esperou pelo amigo. — O</p><p>que ela acharia se soubesse que a sua loucura tem o nome do filho dela?</p><p>— Cala a boca!</p><p>Luan trabalhou o dia inteiro no pasto. Havia uma quantidade</p><p>absurda de bovinos perdidos em uma parte afastada e Gabriel recrutou</p><p>alguns dos peões para que pudessem trazê-los de volta para os pastos mais</p><p>vigiados.</p><p>Só viu Alexandre rapidamente durante o almoço, onde trocaram</p><p>olhares furtivos e sorrisos cúmplices, mas por todo aquele dia seus</p><p>pensamentos permaneceram nele.</p><p>A lembrança de suas bocas grudadas, dos suspiros ofegantes e a</p><p>sensação de</p><p>ter aquelas mãos brutas tocando seu corpo com toda firmeza do</p><p>mundo, ainda estavam frescas demais em sua mente, fazendo-o se perder</p><p>em pensamentos enquanto revivia cada segundo.</p><p>Foi incrível de tantas formas que Luan não conseguiu pontuar.</p><p>Ele não queria, mas acabou comparando seus momentos com</p><p>Alexandre a todos os outros caras com quem já se envolveu, e nada chegava</p><p>aos pés dele ou do que ele o fazia sentir. Alexandre possuía um</p><p>magnetismo, uma imponência, uma aura intensa que afetava Luan de tantas</p><p>formas que eram difíceis de explicar.</p><p>Luan não havia ficado com muitos homens mais velhos que ele,</p><p>embora fizessem parte dos seus gostos pessoais. E com todos os outros,</p><p>sempre foi algo carnal, momentâneo. Mas com Alexandre, não era assim.</p><p>Mesmo que Luan quisesse mais que tudo se perder no corpo de Alex,</p><p>aquele desejo não era algo que ficava em primeiro plano. De alguma forma</p><p>que ele desconhecia, suas vontades iam muito além do carnal. Ele tinha</p><p>desejo, mas também tinha curiosidade.</p><p>Alexandre, apesar de ser uma pessoa aparentemente simples e</p><p>transparente, era uma incógnita. E aquilo se tornou atrativo para Luan de</p><p>tantas formas que ele não conseguia entender. Tudo o que ele queria era</p><p>estar com ele, nos braços dele, beijando aquela boca experiente e sentindo</p><p>as mãos dele tocando-o de várias maneiras possíveis. Queria ouvir a risada</p><p>gostosa, a voz rouca e grave falando baixinho no pé do seu ouvido e</p><p>arrepiando sua pele só com aquele gesto.</p><p>Luan queria tantas coisas com Alexandre, e aquilo o deixava</p><p>apavorado, apesar de não demonstrar.</p><p>— Luan! — Gustavo chamou quando o avistou caminhar devagar</p><p>em direção ao estábulo. Luan parou e esperou por ele. — O que você tem</p><p>hoje? Tá tão calado.</p><p>— Não tenho nada, só tô cansado. — respondeu.</p><p>— É aquele problema de novo?</p><p>— Qual?</p><p>— Da semana passada, cê tava assim tirando o estresse.</p><p>— Ah… não. Não é nada de mais, só tô casando mesmo.</p><p>— Tudo bem… quer ir tomar uma cerveja na cidade e comer um</p><p>lanche?</p><p>Luan abriu a porta do estábulo e entrou com Gustavo em seu</p><p>encalço. Os cavalos e éguas relincharam ao ver os humanos lá, mas o foco</p><p>de Luan era a última baía onde seu potrinho ficava sozinho.</p><p>— Não vou sair, Guto… só quero tomar um banho, comer e dormir.</p><p>— respondeu, um sorriso se abriu quando ele entrou na baía e se agachou.</p><p>— Oi, meu filhote. O papai tava com saudade de você.</p><p>Relâmpago Marquinhos relinchou e bufou em direção a Luan, seu</p><p>focinho foi parar na mão estendia, onde recebeu um afago carinhoso em sua</p><p>pelagem amarronzada.</p><p>— Você tá mesmo apegado a esse potrinho, hein. — Gustavo</p><p>comentou. — Será que o patrão vai vender ele?</p><p>— Vender? Por que ele venderia? — franziu o cenho e fitou seu</p><p>amigo por sobre o ombro.</p><p>— Ué, os filhotes da Tempestade são todos de raça pura, o Rafa</p><p>disse que o patrão vende eles pra um haras que tem aqui perto. — cruzou os</p><p>braços e se escorou em uma coluna de madeira.</p><p>— Eles não vão vender o meu potro, o Alexandre me deu ele. —</p><p>falou incisivo.</p><p>— Ele te deu?</p><p>— Sim, por que a surpresa?</p><p>— Luan, cê tem noção de quanto custa um cavalo de raça?</p><p>— Não? — grunhiu e voltou sua atenção para o potro.</p><p>— Esse daí é da raça quarto de milha, um potro desses vale no</p><p>mínimo uns dez mil reais.</p><p>— Tá de sacanagem?! — Luan arregalou os olhos em completa</p><p>surpresa.</p><p>— Bem que eu queria… mas é esse valor mesmo. O potrinho aí é de</p><p>raça pura, acho que agora só tem ele, o Tornado e mais uns dois que são de</p><p>raça, os outros são mestiços.</p><p>Relâmpago deu alguns passos e esfregou seu focinho no rosto de seu</p><p>dono que sorriu contente. Uma sensação gostosa se espalhou por seu peito</p><p>com aquele gesto carinhoso, mas saber que Alex havia lhe dado algo tão</p><p>valioso sem se importar foi algo que de fato mexeu com ele.</p><p>— Pois o Alexandre deve ter ficado doido. Mas agora que ele é</p><p>meu, ninguém vai vender… não é bebê do papai? — afinou a voz ao falar</p><p>com o bicho.</p><p>— Você pode vender ele com o tempo, não disse que ia juntar</p><p>dinheiro pra voltar pra capital? Com ele cê conseguiria uma boa grana.</p><p>— Tá chapado, Guto? Eu não vou vender o meu potro não. —</p><p>afirmou ao se levantar.</p><p>— Tá bom, não tá mais aqui quem falou. — ergueu as mãos em um</p><p>gesto de rendição e sorriu.</p><p>— Luan? — a voz de Alexandre soou próxima e ele logo apareceu</p><p>na entrada do estábulo. Seus olhos deslizaram de Luan para Gustavo e no</p><p>mesmo instante suas feições mudaram. — Trouxe o leite do potro. —</p><p>mostrou a garrafa pet em sua mão.</p><p>— Ah, eu já tava indo buscar.</p><p>— Eu já vou indo, Luan… se quiser ir comer na rua me liga que eu</p><p>venho te buscar.</p><p>— Beleza, vai com cuidado.</p><p>— Pode deixar. — Gustavo murmurou e se afastou, ao passar por</p><p>Alexandre, acenou e depois saiu do estábulo.</p><p>Alexandre se aproximou de Luan com os olhos semicerrados.</p><p>— Por que ele tava aqui contigo? — arqueou uma sobrancelha e</p><p>parou bem perto do mais novo.</p><p>— Ué, ele só veio me acompanhar. — murmurou com diversão e</p><p>pegou a garrafa, mas quando foi se afastar, Alex segurou seu braço e o</p><p>puxou de volta.</p><p>Uma de suas mãos o segurou pela cintura e a outra foi parar em sua</p><p>nuca. Luan engoliu a vontade de sorrir e fitou os olhos verdes com</p><p>intensidade.</p><p>— Luan, Luan… — soprou baixo e inclinou seu rosto</p><p>vagarosamente. — Não gosto de dividir. — confessou e pressionou seus</p><p>lábios nos de Luan de forma superficial. — Nunca, de jeito nenhum,</p><p>entendeu?</p><p>— Dividir o quê se a gente não tem nada? — inquiriu. — Somos</p><p>solteiros, senhor.</p><p>— Sim, somos solteiros, mas isso não significa que você possa ficar</p><p>com outras pessoas. — mordeu o lábio inferior de Luan e o chupou devagar.</p><p>Luan se deixou ser beijado, com a mão desocupada ele agarrou o</p><p>braço musculoso e o apertou, assim como as mãos em seu corpo o</p><p>apertavam. Sua língua se embolou na experiente e um gemido baixo</p><p>escapou de sua boca.</p><p>Quando o grunhido do potrinho soou alto, Luan separou seus lábios</p><p>e girou a cabeça para observar o bicho. Um sorriso rasgou seu rosto e um</p><p>arrepio percorreu seu corpo quando Alex passou a beijar seu pescoço.</p><p>— Alexandre, eu tô todo fedido…</p><p>— Você nunca tá fedido, garoto.</p><p>— Eu tô sim, e o Marquinhos tá com fome. — falou e deu um passo</p><p>para trás, caminhou em direção ao potro e logo o bicho estava sugando o</p><p>leite pelo bico de silicone.</p><p>— Eu falei sério.</p><p>— Sobre? — perguntou sem se virar.</p><p>— Sobre ficar com outras pessoas.</p><p>Alexandre passou a mão pela barba e sorriu de lado enquanto</p><p>assistia Luan alimentar o potro.</p><p>— Eu não vejo problemas nisso, você vê?</p><p>— Eu vejo muitos problemas.</p><p>— Pensei que você fosse aproveitar sua vida de solteiro ficando com</p><p>outras pessoas. Tem muito tempo que cê é casado, não tem vontade de ficar</p><p>com mais alguém?</p><p>— Não, Luan. Eu não quero ficar com mais ninguém além de você.</p><p>— Ainda… — respondeu e quando a garrafa em suas mãos ficou</p><p>completamente vazia, ele se virou e encarou Alex observando-o. — Nada</p><p>garante que cê não vá mudar de ideia.</p><p>— Eu não vou.</p><p>— Isso é o que você diz. — saiu da baía e parou de frente a ele.</p><p>— Não… — deu um passo à frente e o segurou pelo rosto. — Eu</p><p>tenho certeza.</p><p>Beijou os lábios rosados mais uma vez e sentiu borboletas</p><p>levantaram voo em sua barriga. Sentia-se como um adolescente tendo suas</p><p>primeiras experiências e de certa forma estava. Luan era o primeiro homem</p><p>com quem se envolvia e tudo que fizesse com ele seria uma primeira vez</p><p>também.</p><p>— Tudo bem… se você diz. — raspou seus lábios na boca de Alex e</p><p>seguiu beijando até alcançar a bochecha coberta pela barba. — Agora</p><p>vamos pra casa, preciso tomar banho e comer.</p><p>— Certo. — Alex se afastou e caminhou ao lado de Luan. — Quer</p><p>ir comer na rua? Posso te levar. — ofereceu ao lembrar das últimas palavras</p><p>de Gustavo antes de sair.</p><p>— Não vai ser estranho?</p><p>— Por que seria? A gente só vai comer.</p><p>— As pessoas podem falar alguma coisa, Alexandre. Não é como se</p><p>todos soubessem sobre mim, mas eu não assino um termo de</p><p>confidencialidade quando fico com alguém.</p><p>— Foram tantos assim? — franziu o cenho e quando Luan abriu um</p><p>sorriso descarado, ele ergueu a mão. — Não, não me conta, não quero saber.</p><p>— Cavalheiros nunca contam, Xande. — murmurou ousado. — Mas</p><p>se você quer</p><p>tanto assim sair comigo, vamos lá.</p><p>CAPÍTULO DEZ</p><p>Os estalos dos beijos ecoavam pelo corredor. Luan estava sendo</p><p>pressionado contra a parede e tinha sua boca sendo devorada por</p><p>Alexandre, que agarrava seus cabelos com força, enquanto se esfregava</p><p>com desespero.</p><p>— Xande… meus pais podem ver. — soprou ofegante.</p><p>— Não podem não… seu Joaquim tá dando comida pras galinhas e</p><p>a Nona tá preparando o café. Ainda temos tempo.</p><p>— Temos, mas eu não aguento mais ir trabalhar com tesão. Cê</p><p>precisa parar de me atacar tão cedo.</p><p>— Tá com tesão agora? — soprou a pergunta contra os lábios</p><p>alheios e esfregou sua pelve na de Luan, sentindo a protuberância em sua</p><p>calça jeans.</p><p>— Morrendo. — grunhiu de forma irritadiça, mirou seus olhos nos</p><p>verdes e passou suas mãos pela barba de Alexandre. — Amo a sua barba, já</p><p>disse isso?</p><p>— Não, não disse. — murmurou e aproximou seu rosto dos cabelos</p><p>pretos e bagunçados. Aspirou profundamente e sentiu o cheiro do shampoo.</p><p>Flor de laranjeira. — Eu amo o seu cabelo.</p><p>— Tava pensando em cortar. — informou. Seus dedos deslizaram</p><p>até alcançar o peito coberto pela camisa de botões.</p><p>Alex recuou alguns centímetros e franziu o cenho.</p><p>— Por quê?</p><p>— Me atrapalha quando eu tô trabalhando. Quando tô suado, o</p><p>cabelo fica grudando por todo lado, sem contar que, com esse calor, ele fica</p><p>preso o tempo todo. — comentou enquanto colocava os quatro botões em</p><p>suas casas.</p><p>— Se o trabalho é o problema, então tá demitido. — respondeu com</p><p>simplicidade e deu uma bitoca na boca do garoto.</p><p>— Canalha!</p><p>— Tô brincando, mas não corte seu cabelo, por favor.</p><p>— Vou pensar no teu caso. — se colocou na ponta dos pés para</p><p>poder beijar Alexandre. Quando se afastou, sorriu e deu dois tapinhas</p><p>contra o peito alheio. — Agora, vamos comer, antes que mainha venha aqui</p><p>me chamar de novo.</p><p>Alexandre assentiu e caminhou ao lado de Luan até a cozinha,</p><p>quando chegaram lá, se depararam com dona Maria e Manuela.</p><p>— Bom dia. — Luan cumprimentou e ocupou um espaço vago no</p><p>banco diante da mesa.</p><p>— Bom dia, Luanzinho… bom dia, senhor. — Manu saudou.</p><p>— Bom dia… a Nona já te passou o que tem de fazer?</p><p>— Sim senhor.</p><p>— Não deixe que ela faça nada que não deva. Essa mulher é cheia</p><p>de teimosia. — comentou e serviu uma dose generosa de café em uma</p><p>xícara preta.</p><p>— Eu não sou teimosa, menino. Eu sei cuidar de uma casa desde</p><p>antes de tu nascer. — resmungou. Se virou ao enxugar as mãos em um pano</p><p>de prato pendurado em seu ombro e observou Luan e Alex. — Vão querer</p><p>cuscuz de arroz ou de milho?</p><p>— Arroz, mainha.</p><p>— Eu só vou tomar um café.</p><p>— Precisa comer direitinho, Xandinho. Olha só pro meu menino, tá</p><p>ficando forte e mais bonito porque tá comendo direito.</p><p>— É, ele tá mesmo. — Alexandre murmurou e escondeu o sorriso</p><p>atrás da caneca.</p><p>— Precisa comer bem pra ficar igual eu, Xandinho… — Luan</p><p>replicou e prendeu a risada quando Alex engasgou com o café.</p><p>A troca de olhares entre os dois foi interrompida quando Manuela os</p><p>observou enquanto guardava as louças.</p><p>— Luan, a Nicole te mandou mensagem? — perguntou.</p><p>— Mandou ontem.</p><p>Alexandre franziu o cenho ao ouvir aquela informação.</p><p>— E aí? Aceitou sair com ela?</p><p>— Ela não me convidou ainda… — respondeu e recebeu um olhar</p><p>afiado de Alex.</p><p>— Essa Nicole é a filha da dona Rosa? — dona Maria perguntou</p><p>enquanto colocava uma cuscuzeira sobre a mesa e Manu assentiu. — Tá aí,</p><p>uma boa garota pra tu namorar, Luan. Muito melhor que ficar com várias</p><p>meninas nas festas que tu vai.</p><p>— Verdade, mainha… preciso achar uma garota bacana pra me</p><p>aquietar. — murmurou em provocação e Alexandre arqueou a sobrancelha e</p><p>soltou um bufar irritado. — Mas como é que a senhora sabe que eu pego</p><p>várias meninas? — questionou ao servir um pouco de cuscuz em seu prato.</p><p>— Oxe, tu acha que eu não vejo essas marcas no teu pescoço? Olha</p><p>o tamanho disso! — chegou perto e apontou um pequeno hematoma</p><p>arroxeado sob a carótida que pulsava com intensidade. Os olhos negros de</p><p>Luan brilhavam com diversão ao observar como o rosto de Alex ficava cada</p><p>vez mais vermelho. — Essa pouca-vergonha só pode ser obra dessas</p><p>meninas assanhadas. E tu é ainda pior que deixa elas fazerem isso! — deu</p><p>um pescotapa na nuca do filho e se afastou. — Tá vendo isso, menino? —</p><p>perguntou a Alexandre. — Esses jovens de hoje em dia… — lastimou com</p><p>pesar.</p><p>— O quê? Vai me dizer que no tempo do senhor Xandinho não tinha</p><p>pegação? — Luan inquiriu depois de engolir uma quantidade de comida.</p><p>— Enquanto morou aqui, Xandinho nunca apareceu com essas</p><p>marcas feias no pescoço.</p><p>Luan prendeu a risada e rapidamente pegou o aparelho celular</p><p>dentro do bolso da calça velha que usava.</p><p>LUAN:</p><p>“o que cê acha que ela pensaria do menino Xandinho se soubesse</p><p>que foi ele quem fez essas marcas no meu pescoço?”</p><p>Mandou a mensagem e voltou a ouvir as coisas que sua mãe e Manu</p><p>falavam.</p><p>Alexandre sentiu o seu próprio aparelho vibrar em seu bolso e o</p><p>pegou. Quando conferiu a mensagem, seus olhos verdes focaram por dois</p><p>segundos no rosto de Luan e depois voltaram para o visor.</p><p>ALEXANDRE:</p><p>“Ela provavelmente ficaria decepcionada comigo.”</p><p>“Então quer dizer que você ficava com várias garotas?”</p><p>“Tem quanto tempo que você tá aqui? Uns dois meses?”</p><p>LUAN:</p><p>“um pouco mais que isso”</p><p>“e bem, a maioria das pessoas que eu fiquei aqui foram caras, não</p><p>garotas”</p><p>“mas vamos manter essa info em off pra não destruir o sonho de</p><p>mainha”</p><p>ALEXANDRE:</p><p>“Caras???”</p><p>“De quantos caras estamos falando, Luan?”</p><p>LUAN:</p><p>“cê quer um número exato ou pode ser uma estimativa?</p><p>“foram muitos e acabei perdendo as contas”</p><p>ALEXANDRE:</p><p>“Muitos? Como assim muitos?</p><p>Alexandre estava se remoendo por dentro com aquelas informações.</p><p>Ele sabia que Luan era um garoto jovem e muito bonito, então era certo que</p><p>ele fosse bem desenrolado quanto a casos amorosos. Porém, saber tudo isso</p><p>e aceitar eram coisas totalmente diferentes.</p><p>LUAN:</p><p>“acho que foram uns quinze”</p><p>Luan respondeu e observou os olhos de Alexandre tomarem uma</p><p>coloração avermelhada, o lábio inferior foi preso entre os dentes e a veia em</p><p>sua testa estava dilatada.</p><p>“talvez, vinte”</p><p>“eu realmente não lembro de um número exato”</p><p>ALEXANDRE:</p><p>“VINTE????”</p><p>“VINTE CARAS, LUAN???”</p><p>“PORRA”</p><p>“VINTE CARAS EM UM MÊS?”</p><p>LUAN:</p><p>“sabe como é…”</p><p>“cheguei aqui meio necessitado”</p><p>“e os caras chegaram em mim por todos os lados”</p><p>“foi difícil recusar”</p><p>ALEXANDRE:</p><p>“Eu…”</p><p>“Sei que você é jovem e gosta de curtição.”</p><p>“Mas vinte caras, Luan? Isso é um pouco demais”</p><p>LUAN:</p><p>“eu tô brincando”</p><p>“não foi tudo isso”</p><p>“mas agr eu não vou falar quantos foram”</p><p>“não quero você me julgando com o olhar como tá fazendo agora”</p><p>Alexandre soltou uma risada fraca, então, moveu sua atenção do</p><p>celular para Luan que havia jogado, de qualquer jeito, o próprio aparelho</p><p>sobre a mesa. Ele evitou o olhar de Alex e pegou o copo com achocolatado.</p><p>Quando seu Joaquim surgiu pela porta dos fundos, ele se empertigou</p><p>no lugar e manteve seu olhar focado na xícara de café.</p><p>— Luan, termina de comer e vem comigo colocar sal nos cochos. O</p><p>Gabriel vai ficar ocupado com o gado hoje.</p><p>— Tá bom, painho… vou só colocar meu celular pra carregar. —</p><p>respondeu, se levantou e saiu da cozinha.</p><p>— E eu vou pro escritório conferir as notas fiscais, daqui a pouco o</p><p>pessoal do frigorífico chega. — Alexandre comentou e bebeu o último gole</p><p>de café, então pegou o celular e se levantou.</p><p>Ele seguiu pelo corredor até a sala, mas tomou o caminho contrário</p><p>ao do seu escritório e se dirigiu para os quartos. Luan estava saindo do</p><p>cômodo quando foi surpreendido pelo mais velho.</p><p>— Oi…</p><p>— Oi. — respondeu seco e tentou passar, mas o corpo bem</p><p>construído o impediu como uma muralha. — Me deixa passar.</p><p>— Tá chateado comigo? — segurou o queixo definido e ergueu a</p><p>cabeça para que pudesse olhar em seus olhos.</p><p>— Não.</p><p>— Luan… eu não te julguei. Eu só… fiquei surpreso.</p><p>— Surpreso por quê? Por eu ter uma lista extensa de companheiros?</p><p>Por que eu tenho uma vida sexual muito ativa?</p><p>— Não! Não é isso! — respondeu ponderado. — Eu só fiquei</p><p>surpreso porque vinte pessoas em um mês é muito, pelo menos pra mim.</p><p>— Não foi tudo isso. — resmungou e projetou um bico chateado. —</p><p>E mesmo que tivesse sido, isso não diz nada sobre mim como pessoa.</p><p>— Eu sei, desculpa. — Alex alisou a bochecha corada. — Eu não te</p><p>julguei, tá legal? Você é livre pra fazer o que bem quiser.</p><p>— Sou, é? — os olhos negros focaram nos verdes e um sorriso</p><p>lateral se abriu. — Então eu posso ficar com quem eu quiser?</p><p>— Eu não quis dizer isso, Luan. — Alexandre suspirou fundo e</p><p>passou uma das mãos pelo rosto e barba. — Mas se é o que você quer… —</p><p>engoliu em seco para tentar desfazer o nó incômodo que bloqueava sua</p><p>garganta e deu um passo atrás. — Eu não posso fazer nada sobre isso.</p><p>Luan escaneou o rosto bonito, uma sensação esmagadora invadiu</p><p>seu peito e o deixou quente por dentro. Era desconhecida, mas fazia suas</p><p>entranhas se contorcerem de forma gostosa. E mesmo sendo estranho, ele</p><p>não se deixou afetar. Sabia que as coisas que Alexandre o fez sentir durante</p><p>aqueles dias eram emoções novas, e por mais que fosse algo que ele nunca</p><p>sentiu antes, ele não temeu.</p><p>Ele ansiou por mais.</p><p>— Não se preocupe, senhor. Eu não quero ficar com outras pessoas.</p><p>— deu um passo à frente e se inclinou na ponta dos pés. — Só quero você.</p><p>— confessou e pressionou seus lábios nos de Alex. — Mas eu ainda tô</p><p>chateado! — murmurou e seguiu pelo corredor, deixando Alexandre com</p><p>um frio na barriga e um sorriso no rosto.</p><p>Luan passou todo o dia com um bico manhoso e chateado enquanto</p><p>ignorava Alexandre de propósito, o que ele achou extremamente engraçado.</p><p>Em alguns momentos durante o dia, ele tentou falar com Luan, mas como</p><p>um bicho arisco, o garoto se esquivou e o manteve longe como pôde.</p><p>Alexandre se sentia bem-humorado, pois mesmo sendo punido por</p><p>algo que sequer fazia sentido, assistir Luan agindo de forma dengosa era</p><p>algo totalmente novo e ele achou fascinante.</p><p>Eram situações novas que o deixavam eufórico como nunca se</p><p>sentiu antes.</p><p>— Tá com esse sorrisão aí por quê? — Rafael parou ao seu lado</p><p>com uma prancheta na mão e um cigarro aceso preso entre os dedos da</p><p>outra.</p><p>— Não foi nada. — Alex negou com a cabeça e estendeu a mão,</p><p>quando o maço foi entregue a si, ele o pegou e logo prendeu o filtro entre os</p><p>lábios enquanto o acendia.</p><p>— E por que o bonitinho lá tá de bico pro teu lado? — acenou com</p><p>a cabeça em direção a Luan, que pegava alguns sacos de ração da</p><p>caminhonete e levava para o galpão.</p><p>— É só manha, ele tá emburrado com uma coisa que eu disse. —</p><p>deu de ombros e soprou a fumaça para o alto, mas o sorriso em seu rosto era</p><p>expressivo.</p><p>Rafael soltou uma risada, seus olhos vasculharam o ambiente ao</p><p>redor e ele avistou Gabriel se aproximando, suado e todo sujo.</p><p>— Patrão, amanhã o pessoal do frigorífico vem de novo, né?</p><p>— Sim, vão buscar a segunda remessa de gado bem cedo.</p><p>— Certo, então não vou prender as vacas, não vai dar pra tirar o</p><p>leite com tanto gado no galpão — informou e olhou de relance para Rafael,</p><p>que o observava com extrema atenção.</p><p>— Avise o laticínio pra não virem buscar o leite.</p><p>— Eu faço isso. — Rafael se prontificou e sacou o celular do bolso</p><p>da calça.</p><p>Alexandre e Gabriel esperaram Rafael fazer a ligação, e enquanto</p><p>isso, Alex observou Luan limpar as mãos sujas na calça e balançar a cabeça</p><p>para retirar alguns dos fios de cabelo de seu rosto. As bochechas estavam</p><p>coradas e sua testa brilhava de suor.</p><p>Ele parou por alguns segundos e conversou com Gustavo, e aquilo</p><p>foi algo que o deixou desconfortável, como sempre acontecia.</p><p>— Pronto, na sexta eles vêm.</p><p>— Perfeito.</p><p>Os trabalhadores ao redor se dispersaram à medida que o expediente</p><p>se encerrava. Alex voltou a olhar para Luan, que caminhava em sua direção</p><p>com Gustavo ao seu lado.</p><p>— Rafa, terminamos de guardar a ração, precisa de mais alguma</p><p>coisa? — Luan perguntou.</p><p>— Não, terminamos por hoje.</p><p>Luan fitou Alexandre tragar uma última lufada de fumaça e jogar a</p><p>bituca do cigarro no chão. E aquele simples ato o tirou do eixo, pois</p><p>novamente ele subestimou a capacidade daquele homem em se tornar ainda</p><p>mais gostoso e atraente.</p><p>— Tranquilo, vamos indo? — chamou o amigo e sem dar muita</p><p>atenção a Alexandre, ele se virou e seguiu em direção à casa grande.</p><p>— Eu vou indo também. — Gabriel murmurou e se afastou.</p><p>Rafael e Alexandre permaneceram no mesmo lugar, admirando os</p><p>homens pelos quais passaram a nutrir sentimentos desconhecidos. Pareciam</p><p>dois idiotas, com sorrisos em seus rostos e um brilho avassalador nos olhos.</p><p>— Cara… — Rafa colocou a prancheta sobre uma viga do curral e</p><p>cruzou os braços.</p><p>— Eu sei… — suspirou fundo e passou a mão pela barba. —</p><p>Estamos ferrados.</p><p>À noite, Luan saiu de seu quarto com o celular em mãos. Seus</p><p>cabelos úmidos foram penteados para trás e exalavam um cheiro levemente</p><p>cítrico e doce. Suas roupas consistiam em uma bermuda de tecido e uma</p><p>camiseta preta e básica, nos pés, havaianas novas que sua mãe havia</p><p>comprado em sua última ida ao mercado.</p><p>Distraído com o jogo no aparelho, ele passou pela sala sem olhar</p><p>para seus pais que assistiam ao jornal, chegou a cozinha e ocupou um lugar</p><p>no banco de madeira diante da mesa. Passou alguns minutos concentrado no</p><p>que fazia, mas parou quando seu estômago roncou alto. Ao olhar ao redor</p><p>do ambiente, estranhou o fato de não haver panelas sobre o fogão, então ele</p><p>se levantou e voltou para a sala.</p><p>— Oh mainha, não fez o jantar?</p><p>— Não, Xandinho disse que ia na cidade comprar pizza pra comer.</p><p>Fiz só um mingau de milho pro teu pai e comi pão com queijo e café. —</p><p>desviou seu olhar da TV e fitou o filho. — Vem aqui, querido… — chamou</p><p>e sorriu de forma carinhosa.</p><p>Luan caminhou devagar e acabou sentando no chão sobre o carpete</p><p>felpudo ao lado das pernas de sua mãe, que passou a afagar os cabelos</p><p>cheirosos.</p><p>— Tô tão cansado, mainha. — soprou e fechou os olhos ao deitar a</p><p>cabeça na coxa de sua mãe.</p><p>— Eu sei que tá, querido. Tu tá trabalhando muito.</p><p>— Preciso de férias. — resmungou de forma mimada.</p><p>— Só tem dois meses de trabalho, menino, deixa de preguiça.</p><p>— Preguiça nada, trabalho braçal é cansativo pra porra.</p><p>— Olha essa boca suja! — repreendeu e deu um tapinha no ombro</p><p>do garoto.</p><p>O ronco alto chamou a atenção de ambos, que fitaram o mais velho</p><p>com a cabeça pendida sobre o encosto do sofá em um sono profundo.</p><p>— O painho chegou na idade que encosta e dorme, né?</p><p>— Ele tem sessenta e três anos, tá velho.</p><p>— E a senhora não tá?</p><p>— Eu só tenho cinquenta e oito anos, ainda tô nova. — brincou e</p><p>voltou a fazer carinho nos cabelos do filho.</p><p>— Ainda dá um caldo.</p><p>— Tu não tem um pingo de respeito por mim, garoto!</p><p>— Eu amo a senhora, minha velha. — murmurou e sorriu.</p><p>Naquele momento, Alexandre apareceu na sala com os cabelos</p><p>loiros molhados e usando apenas uma camiseta e bermuda jeans.</p><p>Normalmente ele usava calça e camisas de botões, mas a mudança em suas</p><p>vestimentas foi algo que Luan reparou com atenção e aprovou em silêncio.</p><p>— Vou à cidade comprar pizza, quer ir comigo, Luan? — perguntou</p><p>contido.</p><p>Luan ficou em silêncio, como fez durante todo o dia quando Alex</p><p>tentou falar consigo. Ele não ficou chateado de verdade, mas ver Alex</p><p>buscando sua atenção o deixou com uma sensação estranha e gostosa e por</p><p>isso ele continuou.</p><p>— Vai com ele, querido. — Maria deu dois tapinhas nas costas do</p><p>filho. — Vou colocar seu pai na cama.</p><p>— Hum, tá bom. — falou com desinteresse e se levantou.</p><p>Ambos seguiram lado a lado até a caminhonete estacionada em</p><p>frente à casa. Quando entraram no veículo e fecharam as portas, Alex se</p><p>inclinou e segurou Luan pelo braço.</p><p>— Ei… ainda tá chateado? — sua voz soou baixa e rouca.</p><p>— Não. — cruzou os braços e manteve os olhos no para-brisa.</p><p>— E por que tá com esse bico imenso pro meu lado o dia todo?</p><p>— Eu não tô com bico pro teu lado, Alexandre.</p><p>— Tá sim. — segurou o queixo e o fez olhar em seu rosto. — Não</p><p>fica assim comigo, Luan.</p><p>— Tá bom.</p><p>— Jura? — franziu o cenho. Luan assentiu. — Então vem cá,</p><p>preciso de um beijo.</p><p>— Não quero beijar. — girou a cabeça para o lado.</p><p>Alexandre arqueou a sobrancelha em surpresa, mas afastou as mãos</p><p>de Luan e assentiu de forma ponderada.</p><p>— Tudo bem então.</p><p>Deu a partida e manobrou para sair do lugar, em pouco tempo eles</p><p>pegaram a estrada</p><p>de terra. Luan ficou concentrado no celular e Alex se</p><p>manteve em silêncio. Quando chegaram à pizzaria no centro da cidade,</p><p>Alexandre foi rápido em descer, deixando o mais novo dentro do carro e,</p><p>cinco minutos depois, ele surgiu com uma caixa grande e uma garrafa de</p><p>refrigerante de dois litros.</p><p>— Isso foi rápido. — comentou depois que Alex colocou a caixa e o</p><p>refrigerante no banco de trás e ocupou o banco do motorista.</p><p>— Eu já tinha pedido antes.</p><p>— Hum…</p><p>— Agora só vamos passar pra abastecer e voltamos pra casa, já</p><p>notei que cê não tá a fim de papo comigo hoje. — falou com calma e voltou</p><p>a dirigir.</p><p>Luan não respondeu, desbloqueou a tela do seu celular e manteve o</p><p>foco ali.</p><p>A cidade era pequena e por isso foi rápido até Alexandre parar</p><p>diante de uma bomba de combustível no posto que havia ido beber com</p><p>Luan e os amigos há alguns dias.</p><p>— Boa noite. — a frentista cumprimentou quando a janela se abriu.</p><p>— Oi, Alexandre! — sua voz subiu algumas oitavas quando notou quem era</p><p>o motorista.</p><p>— Boa noite, Juliana.</p><p>— Faz tempos que não aparece por aqui. — comentou, e a forma</p><p>como ela falava atraiu a atenção de Luan.</p><p>— Eu vim na conveniência esses dias. Mas acho que cê não tava</p><p>trabalhando. — Alex escorou o braço na janela e sorriu de lado.</p><p>— Deve ter sido na minha folga. — contou ao passar as mãos pelas</p><p>mechas de cabelo que escapavam do rabo de cavalo. — E como tá a</p><p>Fernanda e o seu filho? Heitor, não é?</p><p>— Sim, eles estão bem, estão na capital. O Heitor esteve aqui esses</p><p>dias.</p><p>— Ele deve tá muito bonito… lembro como ele parecia com você.</p><p>— falou de forma sugestiva. Alexandre ouviu um bufar irritado vindo do</p><p>passageiro ao lado e conteve a vontade de sorrir.</p><p>— Sim, ele está.</p><p>— Gostaria de vê-lo em breve.</p><p>— Eu trago ele aqui quando tiver uma oportunidade. — comentou.</p><p>Um pigarro alto chamou a atenção de ambos, a mulher crispou os lábios ao</p><p>olhar para Luan sentado com cara de poucos amigos. Alexandre umedeceu</p><p>o lábio e depois sorriu. — Completa o tanque pra mim com s10, por favor.</p><p>— É pra já.</p><p>Alexandre fechou a janela e passou as mãos pelos cabelos, sentiu o</p><p>peso do olhar de Luan, mas o ignorou e se manteve impassível.</p><p>— É sério isso?</p><p>— O quê?</p><p>— Vai ficar flertando com essa garota na minha frente?</p><p>— Eu não flertei com ninguém.</p><p>— Não? E o que foi isso então? — jogou o celular sobre o painel do</p><p>carro e cruzou os braços com irritação.</p><p>— Só tava sendo educado, Luan. — olhou de esguelha e avistou o</p><p>semblante fechado e a mandíbula tensionada. Engoliu a vontade de sorrir</p><p>porque Luan parecia extremamente adorável com ciúmes.</p><p>— Educado? Tá falando sério?!</p><p>— O que mais seria?</p><p>Luan o fuzilou com o olhar e engoliu a vontade de rebater ao que foi</p><p>dito, quando a mulher bateu na janela escura, ele mordeu o interior de sua</p><p>bochecha e fitou a rua através do para-brisa.</p><p>— Prontinho, Alex. Deu 100 litros e o valor ficou 525 reais, qual vai</p><p>ser a forma de pagamento?</p><p>— Cartão de débito. — falou e se moveu para pegar a carteira no</p><p>bolso de sua bermuda.</p><p>— Ok. — Juliana digitou rapidamente na máquina e a estendeu para</p><p>Alex. — Pode inserir o cartão ou aproximar. — Alex retirou o cartão da</p><p>carteira e o aproximou da máquina, quando o bipe anunciou a aprovação do</p><p>pagamento, Juliana sorriu e retirou o comprovante. — Vai querer o teu</p><p>comprovante?</p><p>— Não precisa, Ju… obrigado.</p><p>— De nada, Alex, eu que agradeço, boa noite!</p><p>Alexandre acenou e deu a partida na caminhonete, então manobrou</p><p>pelo pátio do posto e pegou a rodovia.</p><p>Luan se sentia consumido pelo ciúme, suas entranhas se retraíram e</p><p>seu sangue corria em suas veias de forma descontrolada. Ter aquele</p><p>sentimento era novidade e ele não estava conseguindo esconder muito bem,</p><p>tanto que Alexandre notou.</p><p>— O que você tem?</p><p>— Nada, Alex. — debochou.</p><p>— Tem certeza? — desviou o olhar por dois segundos e fitou o rosto</p><p>emburrado.</p><p>— Não sei, pergunta pra Ju, talvez ela saiba.</p><p>— Cê tá sendo irracional. Eu não fiz nada de mais.</p><p>— Ah, claro! Flertar com aquela sirigaita oferecida não foi nada de</p><p>mais!</p><p>— Sirigaita? O que é isso? — franziu o cenho em confusão.</p><p>— Não importa! Por que você fez isso?</p><p>— Luan, eu não fiz nada! — tornou a repetir e apertou o couro do</p><p>volante, porém, manteve a concentração ao passar por uma ponte. — Cê</p><p>passou o dia chateado comigo por nada e agora vai procurar briga porque eu</p><p>fui educado com uma conhecida?</p><p>— Então é isso? — gesticulou de forma exasperada. — Fez tudo</p><p>isso pra se vingar?</p><p>— Uma coisa não tem nada a ver com a outra. — suspirou fundo. —</p><p>Cê tá com ciúme de mim? — inquiriu.</p><p>— Óbvio que não.</p><p>— Então não tem motivo nenhum pra brigar. Como você gosta tanto</p><p>de dizer, a gente não tem nada, e até onde eu lembro você não quis nem me</p><p>beijar hoje, então não tem por que ficar bravo com quem eu falo! —</p><p>exclamou com seriedade.</p><p>— Encosta o carro. — pediu calmo.</p><p>— Luan, a gente já tá chegando.</p><p>— Encosta o carro agora! — ordenou e foi obedecido. — Se você</p><p>quer tanto assim me beijar, agora vai!</p><p>Alexandre sequer teve tempo de acionar o freio de mão, pois Luan</p><p>se moveu com agilidade e em segundos montou sobre seu colo. Alex</p><p>agradeceu internamente pelo espaço que deu a Luan a possibilidade de se</p><p>mover sem impedimento.</p><p>Sem dizer uma palavra, Luan segurou o rosto másculo com precisão</p><p>e tomou sua boca em um beijo afoito e necessitado. As mãos experientes</p><p>agarraram sua bunda com firmeza e a língua se embolou com a sua,</p><p>devorando e degustando como se fosse muito saboroso.</p><p>Como se estivesse fora de controle, Luan agarrou os cabelos da nuca</p><p>de Alex e os puxou, inclinando a cabeça dele e expondo o pescoço grosso e</p><p>bronzeado pelo sol. Seus lábios tomaram o trajeto até alcançar a veia</p><p>carótida que pulsava descontrolada e ali ele lambeu e sugou com</p><p>intensidade. Os movimentos do seu quadril aumentaram e um gemido grave</p><p>escapou da boca de Alex e ecoou pelo espaço confinado.</p><p>— Caralho, garoto! Você vai me deixar louco!</p><p>— Que bom. Talvez assim você aprenda a não ficar de conversinha</p><p>com qualquer uma! — resmungou.</p><p>Alexandre soltou uma risada entrecortada por arfares. As mãos</p><p>espertas de Luan tocavam sua barriga por baixo da camisa e seguiu em</p><p>direção ao cós da bermuda. Parecia querer seguir adiante em suas</p><p>investidas, mas por algum motivo estava se contendo.</p><p>— Tudo isso porque eu troquei umas palavras com uma amiga? —</p><p>incitou provocativo.</p><p>— Amiga um caralho, Alexandre! — pressionou seu quadril contra</p><p>a pelve de Alex e aumentou os movimentos. Agarrou o queixo alheio em</p><p>um aperto firme e olhou no fundo dos olhos verdes que brilhavam com a</p><p>pouca iluminação do painel do carro. — Ela não é sua amiga, entendeu?</p><p>— Não é?</p><p>— Claro que não! Ela quer dar pra você! Mas é uma pena porque a</p><p>única pessoa que vai ter essa porra de privilégio sou eu. — grunhiu irritado</p><p>e sem nenhum pudor apertou o membro duro de Alex sob a bermuda.</p><p>— Luan… porra, que gostoso. — sussurrou e fechou os olhos.</p><p>— Tá gostando? — Luan perguntou ansioso. Seus olhos arregalados</p><p>permaneceram fixos no rosto de Alex, tentando absorver qualquer</p><p>expressão em resposta ao que ele fazia.</p><p>— Tô, põe pra fora, vai. — pediu em um fio de voz, pois sentia que</p><p>iria ficar maluco.</p><p>Luan, movido pela adrenalina e desejo, deslizou pelas pernas</p><p>musculosas até ter espaço entre seu corpo e o dele, seus dedos ágeis</p><p>alcançaram o botão e zíper da bermuda jeans. Ele estava nervoso, mas</p><p>escondeu aquele sentimento debaixo das várias camadas de tesão e enfiou</p><p>sua mão dentro da cueca onde sentiu o membro duro pulsar contra o contato</p><p>de sua pele.</p><p>Quando o libertou do confinamento, a primeira coisa que Luan</p><p>notou foi a grossura; as pontas de seus dedos mal se tocavam por causa da</p><p>circunferência exagerada. Depois, ele sentiu as veias saltadas e o calor que</p><p>emanava do nervo tensionado. Mas quando deslizou a mão da base até a</p><p>ponta, Luan constatou e deu razão a uma fala de Alexandre dias antes: ele</p><p>era grande.</p><p>— Cacete, é grande mesmo. — murmurou com tesão.</p><p>— Eu disse. — gemeu grave quando sentiu o dedão acariciar a</p><p>ponta umedecida com pré-gozo. — Mas você disse que dava conta, lembra?</p><p>— Lembro… — mordeu o lábio inferior e</p><p>aumentou gradativamente</p><p>o movimento de sua mão. — E pode apostar que eu dou conta de você, sim,</p><p>mas a pergunta aqui, é… você dá conta de mim?</p><p>— Acha que eu não dou? — seus dedos esmagaram as coxas</p><p>cobertas pelo tecido da bermuda com força, descontando em Luan tudo que</p><p>ele o fazia sentir.</p><p>— Eu tô torcendo pra que dê, mas antes, acho que precisamos de</p><p>alguns testes, você não acha?</p><p>— Faço o que você quiser, contanto que continue me tocando assim.</p><p>— escorou a cabeça no encosto do assento. — Eu tô estourando de tesão</p><p>por você, garoto.</p><p>— E você acha que eu não tô? — se inclinou e voltou a beijar o</p><p>pescoço exposto, mas os movimentos de sua mão continuaram. — Acho</p><p>que consigo gozar só me esfregando em você. — confessou em um sussurro</p><p>manhoso.</p><p>— Porra!</p><p>Alexandre segurou Luan pelo rosto e tomou a boca dele em um</p><p>beijo desesperado. A maciez da mão acariciando seu pau com precisão</p><p>causava arrepios em sua pele e deixava seu corpo em combustão.</p><p>Ele nunca imaginou que ter um cara sentado sobre seu colo e</p><p>tocando-o de forma tão íntima fosse despertar tanto desejo. Ele também</p><p>nunca imaginou que fosse implorar para tocar o pau de outro cara, mas</p><p>bem, era o que ele estava prestes a fazer.</p><p>— Luan. — chamou baixo ao afastar seu rosto. — Quer gozar</p><p>também?</p><p>Luan respirou fundo, seus lábios entreabertos brilhavam por causa</p><p>dos beijos e seus olhos, mesmo no escuro, expressavam um nível de luxúria</p><p>que deixou suas pupilas dilatadas.</p><p>— Quero… quero demais.</p><p>Afoito, Alex assentiu freneticamente e alcançou o botão e o zíper da</p><p>bermuda de Luan e o desfez. Em segundos, ele tocou o membro de outro</p><p>homem pela primeira vez. A sensação não era de fato estranha, mas a noção</p><p>de que aquilo era um acontecimento inédito pareceu aumentar seu tesão em</p><p>níveis estratosféricos</p><p>— Você é grande também… — murmurou ao sentir a textura e o</p><p>calor contra a palma de sua mão.</p><p>— Sou, mas não tanto quanto você. E nem tão grosso também.</p><p>— É perfeito. Tudo em você é perfeito.</p><p>— Acha meu pau perfeito? — perguntou com diversão.</p><p>— Eu acho, apesar de não estar vendo da forma que gostaria.</p><p>— Queria ver o meu pau, senhor?</p><p>— Demais, e não me chame de senhor, ainda mais comigo te</p><p>segurando dessa forma. — expressou e Luan se contorceu quando Alex</p><p>apertou a ponta do seu pau com mais força que o necessário. Um gemido</p><p>sôfrego escapou de sua boca e atingiu Alex em cheio.</p><p>— Olha só… a gente vai ter tempo pra ver e brincar do jeito que</p><p>quiser, mas agora, eu preciso muito, muito, muito gozar, ok?</p><p>— Ok.</p><p>Com agilidade, Luan agarrou seu próprio membro e o pressionou</p><p>junto ao de Alex. Estavam quentes e melados, o que facilitou os</p><p>movimentos de sobe e desce e aumentaram ainda mais o prazer de ambos.</p><p>Luan havia feito aquilo muitas vezes, mas naquele momento pareceu ser a</p><p>primeira. Ele só não sabia se era pelos sentimentos que criavam raízes em</p><p>seu peito ou se era por ser com Alexandre.</p><p>Ele optou por se apegar à segunda opção, era o mais seguro.</p><p>Alexandre estava inebriado de prazer. O cheiro dos cabelos de Luan</p><p>parecia inundar seu olfato ao ponto de deixá-lo desnorteado. Ele se sentia</p><p>quente como um vulcão e o pau de Luan esfregando contra o seu daquela</p><p>forma tão deliciosa o deixava prestes a entrar em erupção.</p><p>— Eu vou gozar… — grunhiu quando um arrepio eriçou os pelos de</p><p>sua nuca e seu baixo ventre se contraiu. — Luan, eu vou gozar! Cacete!</p><p>— Goza comigo, Alexandre. — se inclinou e grudou sua testa na de</p><p>Alex, seus lábios rasparam uns nos outros e suas respirações ofegantes se</p><p>misturaram. O delírio causado pelo frenesi do momento os alimentavam</p><p>como combustíveis altamente inflamáveis.</p><p>Pura utopia.</p><p>Os movimentos aumentaram, os barulhos da fricção em ambos os</p><p>membros se mesclaram aos gemidos graves e murmúrios desconexos e</p><p>juntos eles chegaram ao ápice do prazer.</p><p>— Puta que pariu! Que delícia, garoto! — Alexandre conteve o grito</p><p>que queimou sua garganta e agarrou um punhado dos cabelos da nuca de</p><p>Luan. Sua boca atacou o pescoço alheio enquanto seu corpo se contorcia.</p><p>— Tô gozando, amor… porra, tô vindo pra você!</p><p>Luan não conseguiu falar absolutamente nada, pois seus sentidos</p><p>estavam afetados e seus nervos clamavam por alívio. Mas acima de tudo</p><p>isso, a voz rouca ao pé do seu ouvido chamando-o de amor, o aperto firme</p><p>em seu cabelo e o pau grande e grosso pulsando contra o seu o fez chegar</p><p>ao orgasmo.</p><p>Como se estivessem sincronizados, os dois gozaram juntos.</p><p>Gemendo palavras desconexas na boca um do outro, enquanto alcançavam</p><p>o mais alto nirvana.</p><p>Era o paraíso.</p><p>Luan sentia o líquido espesso e quente sujando sua mão, seu coração</p><p>batia acelerado e sua respiração estava descompassada. Um sorriso lento</p><p>repuxou seus lábios inchados e aos poucos seu corpo foi consumido por</p><p>uma letargia. Porém, aquela palavrinha ainda ecoava em sua cabeça, pensou</p><p>que poderia ter sido algo de momento e por isso não ousou tocar no assunto.</p><p>Afinal, não era a primeira vez que um cara o chamava de amor enquanto</p><p>gozava.</p><p>— Isso foi gostoso. — Alex sussurrou e sorriu de lado. Seus dedos</p><p>moveram os cabelos que, minutos antes, foram puxados com certa</p><p>brutalidade, colocando-os, com carinho, atrás de suas orelhas enfeitadas</p><p>com brincos. — Muito gostoso.</p><p>— Eu sei, cê precisa ver o que mais eu faço gostoso. — aproximou</p><p>seu rosto e deixou alguns beijinhos contra a boca de Alex.</p><p>Alexandre sorriu, como fazia com qualquer coisa que fosse</p><p>relacionada a Luan.</p><p>— Eu nem posso imaginar, mas confesso que tô ansioso pra</p><p>descobrir. — alisou a bochecha quente e cheirou os cabelos dele.</p><p>— Minha mão tá suja… e acho que a tua camisa também.</p><p>— Eu sei, mas tô tão relaxado que nem ligo.</p><p>— Cê queria muito isso?.. Comigo? — Luan manteve seus olhos</p><p>baixos e sua voz saiu contida e talvez até envergonhada.</p><p>Ele sabia que não fazia sentido sentir algo daquele tipo depois do</p><p>que haviam feito, mas por alguma razão, ser dono das primeiras vezes de</p><p>Alexandre lhe dava aquela sensação de insegurança, como se o muito que</p><p>ele pudesse oferecer fosse pouco para alguém como Alexandre, que era</p><p>mais velho e muito experiente, apesar de nunca ter se relacionado com um</p><p>homem.</p><p>— Cê não sabe quantas vezes eu fantasiei com isso, Luan. Não sabe</p><p>quantas noites eu acordei excitado depois de ter sonhado com você, com as</p><p>tuas mãos me tocando, com a sua boca me marcando… eu pareço um</p><p>maluco viciado em você, no teu cheiro, no teu corpo, no teu beijo. —</p><p>confessou e ergueu a cabeça de Luan com a ponta dos dedos. — Então, sim,</p><p>eu queria muito fazer isso com você, assim como quero fazer várias outras</p><p>coisas. Tudo bem?</p><p>— Tudo bem. — deu um sorriso ladino e o beijou de forma</p><p>superficial. — Agora vamos indo… eu tô com fome. — murmurou</p><p>manhoso e Alexandre sorriu.</p><p>— Vamos pra casa, meu garoto.</p><p>CAPÍTULO ONZE</p><p>— Escuta, vou precisar ir até a capital com o Rafael pra comprar</p><p>umas coisas aqui pra fazenda, mas amanhã eu volto, tudo bem? — com</p><p>cuidado, Alexandre passou a mão pelas mechas de cabelo de Luan enquanto</p><p>fitava o rosto inchado pelo sono. — Vou aproveitar pra ver o Heitor</p><p>também. Tô com saudade do meu filho.</p><p>— Com saudade da sua esposa também? — perguntou baixo, seus</p><p>olhos escuros permaneceram focados no potrinho preso na baía.</p><p>— Luan… não é assim. — falou com calma e moveu a cabeça dele</p><p>para que pudesse fitar seu rosto. — Não estamos juntos, eu já te disse.</p><p>Fernanda e eu somos pais e, é óbvio que vamos ficar na vida um do outro,</p><p>sem contar que temos o escritório de advocacia também, então, não pode</p><p>esperar que eu não tenha mais contato com ela</p><p>— Eu sei, não quero que você tenha uma relação ruim com ela e</p><p>nem nada. O pequeno herdeiro não merece isso. — expressou com cuidado.</p><p>— Eu só fico pensando que talvez você possa mudar de ideia quanto a…</p><p>voltar com ela.</p><p>— Ei… — ergueu a cabeça dele e aproximou seu rosto, beijando</p><p>com carinho os lábios naturalmente avermelhados. — Não tem mais volta, a</p><p>gente não se ama mais, ok? Não precisa se preocupar com isso.</p><p>— Você fala como se fosse fácil. Eu não me envolvo com pessoas</p><p>comprometidas, Alexandre.</p><p>— E eu não sou. Cê não acredita em mim, é isso?</p><p>Luan deu um passo atrás e seguiu</p><p>acontecer.</p><p>Entretanto, nada aconteceu, o único som audível naquele quarto</p><p>eram as suas respirações ruidosas.</p><p>Fernanda permaneceu de braços cruzados, o lábio inferior tremeu</p><p>e ela o prendeu entre os dentes. Parecia chateada e Alexandre acabou se</p><p>recriminando por ter descontado suas frustrações nela.</p><p>Não era culpa dela. Não era culpa de ninguém.</p><p>— Cê quer continuar com isso? — questionou sério.</p><p>— Com o quê?</p><p>— Isso… — gesticulou como se pudesse apontar o grande</p><p>problema, como se ele estivesse ali no quarto com eles. — Nosso</p><p>casamento desse jeito… eu não aguento mais viver assim. — confessou,</p><p>sua voz saiu mais rouca que o normal.</p><p>— Você quer se divorciar?</p><p>— Eu não vejo outra solução, a gente tá tentando há mais de um</p><p>ano, mas nós dois sabemos que não vai adiantar.</p><p>— Eu sei, Alex. — murmurou com a voz embargada.</p><p>— Acho que devemos aceitar o fim e seguir com as nossas vidas.</p><p>— É isso que você quer? — questionou.</p><p>— Óbvio que não! Mas o que vamos fazer? Viver juntos, mas sem</p><p>estar casados? Dormir na mesma cama, mas sem ao menos nos tocar? A</p><p>gente mal se beija, nossa última transa foi há uns quinze dias e, antes</p><p>disso, passamos meses sem nos tocar! Não temos momentos que um casal</p><p>deveria ter e só conversamos sobre os negócios e sobre o Heitor. A gente</p><p>se tornou amigos, Nanda… deixamos de ser um casal há muito tempo.</p><p>Fernanda abaixou a cabeça e fitou seus pés descalços. Seus olhos</p><p>estavam marejados e um nó sufocante bloqueava sua garganta.</p><p>Por muitos anos, ela amou Alexandre e isso era incontestável.</p><p>Mas, em algum momento naquela trajetória, as coisas haviam mudado, e</p><p>doía aceitar. Doía entender que não teria mais um homem incrível ao seu</p><p>lado, e apesar de saber que ele continuaria sendo um pai maravilhoso</p><p>para o seu filho, ela acabaria perdendo o seu companheiro e amigo.</p><p>Encontrar outra pessoa que chegasse aos pés dele seria quase impossível.</p><p>Alexandre era único.</p><p>Só que por mais que doesse, ela sabia que ele tinha razão.</p><p>— Ei… — ele chamou de forma branda ao se aproximar. Quando</p><p>tocou o queixo trêmulo da mulher que amou por tantos anos e o ergueu,</p><p>se deparou com os olhos castanhos brilhando com lágrimas grossas. Seu</p><p>coração pareceu comprimir contra a caixa torácica e movido pela</p><p>emoção, ele a abraçou apertado. — Não chora, por favor… — sussurrou</p><p>contra os cabelos cheirosos e apertou os olhos para conter suas próprias</p><p>lágrimas. — Eu sei que tá sendo difícil, a gente tem quase quinze anos</p><p>juntos, temos um filho e uma história… mas eu não quero ser infeliz,</p><p>Nanda, e acima de tudo, não quero te fazer infeliz, nunca quis.</p><p>— Você não me faz infeliz… — soprou com a voz embargada.</p><p>— Mas você quer permanecer nessa relação? Quer continuar</p><p>presa a um homem que não ama mais? Que não sente nem mesmo</p><p>atração? — perguntou, mas quando Fernanda tentou se afastar, ele a</p><p>prendeu ainda mais em seus braços. — Eu sei que cê não me deseja como</p><p>antes, consigo ver nos teus olhos…</p><p>— Se isso te faz pensar que eu te traí, pode esquecer. Eu não traí</p><p>você, Alexandre… — murmurou afoita, até porque, aquele havia sido um</p><p>pensamento seu quando notou como as coisas estavam estranhas entre</p><p>eles.</p><p>Fernanda pensou que Alexandre poderia estar tendo um caso com</p><p>outra mulher, mas depois percebeu que ele só tinha deixado de amá-la.</p><p>Assim como ela.</p><p>— Eu sei, Fernanda, eu sei… nunca duvidei da sua lealdade. — ao</p><p>acariciar as costas pequenas, ele sentiu o corpo dela relaxar contra o seu.</p><p>— Eu não queria que fosse assim, o meu sonho sempre foi envelhecer do</p><p>teu lado. Mas se não tem amor, não tem mais nada. E eu não quero viver</p><p>o resto da vida achando que tô te privando de ser feliz de verdade. Nós</p><p>merecemos viver plenamente, Nanda… eu só desejo o melhor pra você e,</p><p>infelizmente, esse melhor não sou mais eu.</p><p>— Não quero te perder, Alex… — sussurrou ao apertar seus</p><p>braços em volta da cintura dele.</p><p>— E não vai… nós temos um filho juntos, temos um laço que nos</p><p>liga pelo resto das nossas vidas. E nós ainda vamos ser amigos, Nanda,</p><p>nada disso vai mudar.</p><p>— Tem certeza? — ela se afastou, apoiou o queixo contra o peito</p><p>dele e o fitou com os olhos molhados.</p><p>— Sim, eu tenho certeza. É melhor arrancar esse band-aid de uma</p><p>vez. Vai doer, mas vai passar. — Fernanda assentiu e se afastou.</p><p>— Você tem razão… só é difícil assimilar o fato de que não</p><p>estamos mais juntos, de que você não vai ser mais o meu marido.</p><p>— Eu sei que não é fácil assim, Nanda. Cê pensa que tá sendo</p><p>fácil pra mim? Você esteve do meu lado por catorze anos. — sorriu</p><p>pequeno, mesmo que não tivesse vontade alguma de sorrir. — Foram os</p><p>melhores anos da minha vida e eu sempre vou ser grato por te conhecer,</p><p>por ter compartilhado a vida contigo e por termos sido abençoados para</p><p>sermos os pais do Heitor.</p><p>— Uma pena que não veio a Heloísa. — brincou.</p><p>— Uma pena. — murmurou triste, afinal, eles haviam tentado por</p><p>tanto tempo ter um segundo filho, mas parecia que nada mais daria certo</p><p>entre eles.</p><p>Fernanda limpou as bochechas molhadas e abriu um sorrisinho</p><p>nervoso.</p><p>— Então é isso…</p><p>— É isso… — repetiu.</p><p>Estavam sendo consumidos por emoções extremas. Uma parcela</p><p>de medo, outra de tristeza, uma pequena de saudade e outra, talvez a mais</p><p>predominante, alívio.</p><p>Era óbvio que aquela separação doeria, que ambos seriam</p><p>imensamente afetados, pois foram vários anos de um relacionamento</p><p>saudável e feliz. Mas depois do último ano que tiveram, após viverem</p><p>com uma constante sensação de angústia e medo, aquilo era como uma</p><p>brisa fresca sendo soprada contra seus rostos cansados. Eles já esperavam</p><p>por aquilo, haviam se preparado para aquilo e sequer notaram.</p><p>Seria doloroso, mas, ao mesmo tempo, seria libertador.</p><p>Alexandre suspirou fundo e seguiu novamente em direção ao</p><p>closet, quando voltou com uma mochila pendurada no ombro, Fernanda</p><p>desviou seus olhos do chão e focou nele.</p><p>— Por que não deixa pra ir à fazenda amanhã? — murmurou</p><p>acanhada.</p><p>— Rafael precisa de mim lá cedinho… eu ia sair pela madrugada,</p><p>mas é melhor ir agora, vai me dar tempo pra pensar.</p><p>— Pensar no que vai fazer agora que é solteiro? — arqueou a</p><p>sobrancelha bem feita e sorriu de lado.</p><p>— Claro que não. Só… pensar. Digerir essa conversa, enfiar na</p><p>cabeça que a mulher mais bonita da capital agora tá solteira. — brincou.</p><p>— Idiota! — ela sorriu e se aproximou. Suas mãos alcançaram os</p><p>botões abertos da camisa dele e logo se moveram para colocá-los em suas</p><p>casas. — Você e essa mania de sair com a camisa aberta... — repreendeu</p><p>em um tom calmo. — Heitor vai sentir sua falta. Vamos precisar</p><p>conversar com ele sobre isso, também vamos precisar tratar sobre o</p><p>divórcio, sobre a guarda dele e sobre… — derramou. Alexandre sorriu e</p><p>colocou um dedo contra os lábios dela.</p><p>— Ei, calma… um assunto difícil de cada vez. Cê quer tanto</p><p>assim se ver livre de mim? — provocou e recebeu um revirar de olhos e</p><p>um bufar irritado. — A gente pode esperar mais um tempinho pra falar</p><p>com ele e quando eu voltar conversamos sobre o divórcio.</p><p>— Cê vem ainda essa semana?</p><p>— Eu não sei, vou te manter atualizada. Mas se eu for demorar</p><p>mais que o esperado, mando buscarem ele pra ficar uns dias comigo.</p><p>— Ele vai gostar de passar um pouco das férias lá.</p><p>— Vai sim…</p><p>Fernanda deslizou as mãos pelo peito largo, que tantas vezes</p><p>serviu de travesseiro, e suspirou. Seus olhos marejaram e um sorriso triste</p><p>repuxou seus lábios.</p><p>— Toma cuidado, por favor…</p><p>— Eu sempre tomo, qualquer coisa me liga que eu venho no</p><p>mesmo instante. — murmurou e acariciou a bochecha corada. Seus olhos</p><p>deslizavam pela face angelical, gravando cada pedaço dela na mente e</p><p>por impulso, ele acabou se inclinando e a beijando. Assim como antes, a</p><p>sensação foi esmagadora. Era estranho. Indiferente. Recuou e, sem</p><p>encará-la, ele deu um passo atrás. — Se cuida, quando chegar lá, te aviso</p><p>e amanhã eu ligo pra falar com o Heitor.</p><p>— Tudo bem…</p><p>Alex sorriu pequeno e saiu do quarto, sendo seguido por Fernanda</p><p>até a porta da enorme casa que eles viveram por tantos anos. Ele se</p><p>despediu e entrou na Dodge Ram estacionada na garagem, logo</p><p>manobrou e pegou a rua arborizada de um dos condomínios residenciais</p><p>em direção à baía onde</p><p>Relâmpago aguardava pela refeição matinal. A mamadeira improvisada o</p><p>esperava e ele não tardou a pegá-la do suporte no canto para amamentar seu</p><p>filhote.</p><p>Suas emoções naqueles últimos dias poderiam se igualar a um</p><p>furacão desgovernado; chegou de forma branda, mas ao tomar forma, fez</p><p>uma bagunça que estava sendo difícil controlar. Luan não era uma pessoa</p><p>insegura, mas desde que aqueles sentimentos passaram a fazer morada em</p><p>seu peito, ele começou a se questionar sobre muitas coisas.</p><p>— Não acredita no que eu digo, Luan? — Alexandre se aproximou</p><p>devagar e parou atrás do garoto. Aspirou profundamente, e mesmo com o</p><p>cheiro de feno e dos animais impregnados no ambiente, o que predominou</p><p>em seu olfato foi o cheiro de laranjeira dos cabelos de Luan.</p><p>— Não é questão de acreditar. Eu sei que a gente não vai assumir o</p><p>que temos, mas não é por isso que eu vou aceitar ser a segunda opção,</p><p>Alexandre. Tenta ver isso pelo meu ponto de vista.</p><p>— Você não é uma segunda opção, Luan! Nunca foi! — deu um</p><p>único passo que grudou seu peito nas costas eretas. Ele o segurou pelos</p><p>braços e enfiou seu nariz nos cabelos dele. Tão macios. Tão cheirosos. Ele</p><p>era louco por aqueles cabelos. — Você não é um teste, não é uma</p><p>experiência, eu não tô te usando. Eu sei que a minha situação é complicada</p><p>e que eu posso não estar passando confiança pra você, mas só estamos</p><p>adiando tudo isso pelo Heitor, não queremos que isso afete ele de alguma</p><p>forma.</p><p>— Não quero que faça nada que possa te prejudicar.</p><p>— Eu sei que não quer isso… você tem sido tão bom comigo,</p><p>garoto. Eu só peço um pouco mais de paciência, prometo que tudo vai se</p><p>ajeitar. — deixou um beijo carinhoso contra os cabelos e alisou os braços</p><p>expostos pela regata. — Mas não pense que eu tô te enganando, nem que tô</p><p>usando você. Eu tô gostando demais disso que a gente tá tendo.</p><p>— Tudo bem, Xande… — engoliu em seco e acariciou o focinho do</p><p>potro.</p><p>Quando a garrafa se esvaziou, Luan girou e encarou Alexandre. Seu</p><p>coração errou a batida e seus olhos analisaram cada detalhe do rosto bonito.</p><p>Quando reparou na camisa que Alex usava, ele deixou a garrafa cair ao seu</p><p>lado e levou suas mãos para os botões, colocando cada um em suas casas.</p><p>— Estamos bem? — seus dedos acariciaram a bochecha corada e</p><p>um sorriso singelo pintou os lábios de Luan.</p><p>— Contanto que deixe esses botões fechados, estamos sim. — deu</p><p>dois tapinhas contra o peito largo e se inclinou minimamente para beijá-lo.</p><p>— Alex! — a voz alta chegou antes mesmo de seu dono. Luan se</p><p>afastou de Alex e pegou a garrafa do chão. Rafael surgiu pelas portas do</p><p>estábulo e sorriu quando os viu tão próximos. — O casalzinho tá se</p><p>despedindo? — Luan revirou os olhos para a provocação e saiu da baía.</p><p>Alex parou ao seu lado e passou a mão pela barba, escondendo o sorriso e</p><p>negando com a cabeça levemente. — Tá pronto pra ir? — Rafael indagou</p><p>ao colocar suas mãos dentro dos bolsos da calça.</p><p>— Eu tô, espero que não tenha chorado muito pro Gabriel. A gente</p><p>volta amanhã.</p><p>— Vai se ferrar, eu não choro por homem.</p><p>— Mas fica choramingando igual um bebê. — Luan acusou ao</p><p>passar por ele.</p><p>— Tá ficando ousado, hein.</p><p>Alexandre sorriu e os acompanhou até que saíssem do estábulo. O</p><p>tempo estava fresco, o sol da manhã deslizava pelo céu azul com suavidade</p><p>e ao redor da propriedade todos os trabalhadores se moviam em busca de</p><p>seus afazeres.</p><p>— Vemos uma evolução, diferente de você, que continua o mesmo</p><p>pé no saco.</p><p>— Alex, vai deixar ele falar assim com o teu melhor amigo?</p><p>— Não, vou te dar um socão pra parar de encher o saco dele. —</p><p>ameaçou.</p><p>— Quem te viu, quem te vê! — acusou.</p><p>— Rafael? — Gabriel chamou ao sair do curral. Suas roupas</p><p>estavam sujas de lama e as botas em seus pés estavam cobertas por esterco</p><p>de vaca. — Posso falar contigo?</p><p>— Claro, meu rei… tudo o que você quiser. — falou em tom de</p><p>brincadeira, mas Gabriel ficou claramente contido.</p><p>Os dois se afastaram e seguiram para a Dodge Ram estacionada ali</p><p>perto. Novamente, Luan e Alexandre ficaram sozinhos, mas por estarem</p><p>onde todos poderiam ver, mantiveram certa distância.</p><p>— Dirige com cuidado, tá?</p><p>— Pode deixar, garoto. Eu conheço essa estrada como a palma da</p><p>minha mão.</p><p>— Eu sei que conhece, Alexandre. Mas isso não me impede de ficar</p><p>preocupado. — grunhiu com irritação e pegou o elástico em seu pulso para</p><p>prender os cabelos. — Me avisa quando chegar…</p><p>— Sim, senhor. — Alexandre se virou e analisou Luan</p><p>completamente. Ele era lindo. Tão lindo que Alex se perguntava se era real.</p><p>— Vai sentir a minha falta?</p><p>— Cê volta amanhã!</p><p>— Mas isso não vai me impedir de sentir saudade de você. —</p><p>ajeitou o chapéu branco sobre sua cabeça e fitou suas botinas de couro.</p><p>Luan acabou sorrindo, pois nunca o tinha visto tão acanhado quanto</p><p>naquele momento.</p><p>— Eu também vou sentir saudade, Alexandre. — confessou.</p><p>— Ok… então, até amanhã.</p><p>— Até, senhor.</p><p>Alexandre acenou e sorriu, caminhou despreocupado até sua</p><p>caminhonete onde Rafael ainda conversava com Gabriel. Quando os dois</p><p>entraram no veículo, o vaqueiro voltou e parou ao lado de Luan.</p><p>— Finalmente vamo ter um pouco de paz. — Gabriel comentou.</p><p>— Quer ir beber na cidade hoje?</p><p>— Claro.</p><p>— Beleza! Até à noite.</p><p>Luan já havia bebido cinco doses de tequila e estava na sua oitava</p><p>cerveja quando seu celular vibrou no bolso de sua bermuda jeans. Ao</p><p>conferir o visor, um frio gostoso percorreu suas entranhas e um sorriso bobo</p><p>repuxou seus lábios molhados de álcool.</p><p>— Vou ali e já volto. — informou a Gabriel, que assentiu sem</p><p>encará-lo, pois estava focado demais em mandar mensagens em seu próprio</p><p>smartphone.</p><p>Tão rápido quanto pôde, ele caminhou pela calçada em busca de um</p><p>lugar mais calmo, mas por incrível que pudesse parecer, os bares que</p><p>cercavam a praça local estavam agitados, mesmo em uma quarta-feira.</p><p>Antes que a ligação caísse, ele deslizou o dedo pela tela e levou o</p><p>aparelho ao ouvido.</p><p>— Oi!</p><p>— Oi, pensei que não fosse me atender.</p><p>— E por que não?</p><p>— Não sei… já tá deitado?</p><p>— Não.</p><p>— E onde você tá? — Alexandre perguntou ao notar o barulho ao</p><p>fundo na ligação.</p><p>— Tô na rua com o Gabriel.</p><p>— Aconteceu alguma coisa?</p><p>— Não, a gente só saiu pra beber. — informou.</p><p>— No meio da semana?</p><p>— Ué, não pode?</p><p>— C-claro que pode, cê pode fazer o que quiser.</p><p>— Eu sei… e como tá por aí? Tudo bem com o pequeno herdeiro?</p><p>— Sim, ele voltou a estudar e passou as últimas duas horas me</p><p>contando sobre os coleguinhas que fez no colégio. — contou e Luan</p><p>poderia jurar que havia um sorriso no rosto dele. — Ele falou que tá com</p><p>saudade de você e do potro.</p><p>— Fala pra ele que o Relâmpago e eu também estamos com saudade</p><p>dele.</p><p>— Pode deixar… — pigarreou e suspirou fundo algumas vezes. —</p><p>Cê vai pra casa que horas?</p><p>— Acho que mais tarde, ainda não sei. Por quê?</p><p>— Nada… cê tem como voltar pra casa?</p><p>— Sim, o Gabriel não tá bebendo nada e a gente tá com o carro do</p><p>meu pai.</p><p>— E tá só vocês dois aí? — Luan soltou um risinho porque Alex</p><p>não sabia ser sutil. Estava claro como a água que ele se incomodava com a</p><p>sua saída repentina.</p><p>— Bom, tem um monte de gente aqui também. — provocou.</p><p>— Luan…</p><p>— Se vai te fazer dormir bem essa noite, a gente tá sozinho…</p><p>— Hum… obrigado.</p><p>Luan observou o movimento com atenção, havia carros passando,</p><p>pais com suas crianças caminhando pela praça e jovens ocupando mesas de</p><p>bares. Porém, ele não viu quando Gustavo se aproximou por trás de forma</p><p>sorrateira.</p><p>— Oi, bebê!</p><p>— Nossa, que susto! — exclamou alto e se virou.</p><p>— Quem tá aí? — Alexandre questionou.</p><p>— Tá devendo algo? Por que se assustou?</p><p>— Tô numa ligação, Gustavo… já falo contigo. O Gabriel tá numa</p><p>mesa ali no bar do Nestor.</p><p>— Beleza, vou te esperar lá.</p><p>— Luan?! — Alex o chamou de forma exasperada.</p><p>— Oi, tô aqui, pode falar.</p><p>— Quem chegou aí?</p><p>— O Guto.</p><p>— E por que ele tava te chamando de bebê?</p><p>— Não foi nada de mais.</p><p>— Sério?</p><p>— Ué, ele é meu amigo.</p><p>— S-seu amigo? — gaguejou nervoso. — Jura? Todos os teus</p><p>amigos te chamam de bebê?</p><p>— Não, só ele. — focou seu olhar no chão e chutou uma pedrinha</p><p>na calçada.</p><p>— Exatamente! E ele te chama assim porque já dormiu contigo.</p><p>Luan sentiu</p><p>o estômago contrair em expectativa, sua mente</p><p>alcoolizada o fez imaginar com precisão o rosto de Alexandre; sério e</p><p>delicioso.</p><p>— Tá com ciúmes de mim? — sua voz saiu lenta por causa do</p><p>sorriso torto que ostentava.</p><p>— Óbvio que tô! O cara com quem eu tô ficando acabou de ser</p><p>chamado de bebê por outro cara com quem tinha um caso!</p><p>— Xande, fica tranquilo, ok? Não rola mais nada entre a gente.</p><p>— Eu só… — suspirou mais uma vez, e novamente, Luan o</p><p>imaginou passando a mão pelo cabelo e barba. — Olha, isso não é fácil pra</p><p>mim, beleza? Você falou sobre isso mais cedo e eu entendo os teus motivos,</p><p>mas tenta me entender também!</p><p>— Eu entendo, e já disse que não tem nada pra se preocupar. A</p><p>gente tá ficando e eu não sou um traidor. Se em algum momento não der</p><p>mais certo ou se eu me interessar por outra pessoa, pode ter certeza que eu</p><p>vou te falar. E eu espero que você faça a mesma coisa. — explicou resoluto.</p><p>— Eu farei, mas espero não precisar… — sussurrou.</p><p>— Nem eu.</p><p>— Certo, então vai lá se divertir. Amanhã eu tô aí.</p><p>— Ok… tô com saudade. — falou baixo, quase envergonhado.</p><p>— Eu também, Luan. Mais do que imagina.</p><p>— Então, se prepara, porque quando você chegar aqui, vou fazer</p><p>muitas coisas contigo. — prometeu em um tom sugestivo.</p><p>— Que tipo de coisas? — o timbre rouco arrepiou a pele de Luan. E</p><p>naquele momento ele constatou que mesmo distante, Alexandre possuía o</p><p>poder de deixá-lo completamente aceso.</p><p>— Coisas bem gostosas…</p><p>Quando o silêncio se estendeu por alguns segundos e a respiração</p><p>ruidosa passou a ser a única coisa que ele ouvia, Luan prendeu o lábio</p><p>inferior entre os dentes para conter um sorriso devasso.</p><p>— Eu tô ansioso por isso, Luan.</p><p>— Eu também, Xande… agora vou desligar.</p><p>— Tudo bem… boa noite, garoto.</p><p>— Boa noite, senhor.</p><p>Luan desligou e guardou o celular no bolso. Com um sorriso largo,</p><p>ele voltou para o bar e para a sua cerveja. Mas por dentro, a ansiedade pela</p><p>volta de Alexandre queimava em seu peito. Ele não via a hora de poder</p><p>beijá-lo de novo. Não via a hora de poder fazer todas as coisas que sua</p><p>mente fantasiosa planejou.</p><p>Alexandre dirigia pelas avenidas movimentadas com Rafael do seu</p><p>lado. Ambos estavam em busca de equipamentos e suprimentos que só</p><p>encontravam na capital, então passaram todo o dia dirigindo de um lado</p><p>para o outro.</p><p>Rafael se manteve em silêncio pela maior parte da manhã, o que não</p><p>era do seu feitio, e por isso, Alexandre estranhou o comportamento.</p><p>— Cê tá legal? — perguntou ao parar em um semáforo.</p><p>— Tô sim, por quê?</p><p>— Tá calado desde que a gente saiu e você não é assim. Não sabe</p><p>ficar de boca fechada por nem um minuto.</p><p>— Só tô bolado com umas coisas, não é nada. — tirou o chapéu da</p><p>cabeça e passou uma de suas mãos pelos fios castanhos.</p><p>— É o Gabriel?</p><p>— E tem outro homem atormentando a minha vida além dele? —</p><p>questionou de forma exasperada, suspirando fundo.</p><p>— Quer me contar o que tá acontecendo? Desde que vocês</p><p>começaram com isso, a gente nunca falou muito sobre ele.</p><p>Mais uma vez, um suspiro ruidoso foi proferido, Rafael botou o</p><p>chapéu de volta em sua cabeça e escorou seu braço na janela do carro.</p><p>— O Gabriel tem problemas com a família… eles moram na cidade,</p><p>mas ele não fala com ninguém há uns cinco anos, eu acho.</p><p>— E por que disso?</p><p>— Ele me contou uma vez que quando fez dezenove anos, ele se</p><p>envolveu pela primeira vez com um cara. Os pais dele descobriram, o pai</p><p>mandou o irmão mais velho dar uma surra nele ao ponto de quebrar um</p><p>braço, a mãe dele parou de falar com ele e tudo isso porque, segundo eles, o</p><p>que o Gabriel tava fazendo era abominável e eles não iriam permitir que ele</p><p>se perdesse dessa forma. Depois de uns meses, ele saiu de casa e nunca</p><p>mais falou com nenhum deles.</p><p>— Isso me lembra alguém, tirando a parte da agressão.</p><p>— É, pois é. Acho que posso dizer que tive sorte com meus pais,</p><p>eles foram contra no início, mas depois me deixaram viver a minha vida em</p><p>paz. Com o Gabi não é assim. Ele não fala muito sobre o passado, mas ele</p><p>já sofria desde novinho com essa pressão de que gostar de homem era</p><p>errado e depois do que rolou quando teve a primeira experiência, ele se</p><p>fechou completamente.</p><p>— Não tem como culpar ele por isso, Rafa. Imagina como é, você</p><p>crescer tendo que reprimir as coisas que sente, ter medo de contar pras</p><p>pessoas que deveriam te amar que você está apaixonado, sofrer esse tipo de</p><p>violência por causa de preconceito mascarado de boas intenções, não ter</p><p>ninguém pra desabafar.</p><p>— Eu sei, eu sei! — exclamou. — É por isso que eu ainda tô nessa.</p><p>Eu sei que é difícil deixar a vergonha pra trás e aceitar que não tem nada de</p><p>errado em ser gay, mas pro Gabriel, as coisas que a família dele disse,</p><p>parece que ficou gravado na cabeça dele. É algo que atormenta ele o tempo</p><p>todo. — comentou e suspirou derrotado. — Quando a gente tá na cama, ele</p><p>fica completamente diferente… fica mais tranquilo, conversa com</p><p>facilidade, ele sorri muito e até tem surtos de carinho, mas dura pouco</p><p>tempo. Como um passe de mágica, ele muda e fica recluso, não me deixa</p><p>tocar nele e às vezes nem me beija… e sempre, sempre me manda embora.</p><p>As únicas vezes em que eu já dormi com ele por toda a noite foram quando</p><p>eu tava bêbado e acabava batendo na porta dele.</p><p>Alexandre assentiu enquanto processava as coisas que seu amigo</p><p>disse. Ele estava passando por um processo complicado com a separação e a</p><p>descoberta sobre sua bissexualidade, sem contar o seu envolvimento com</p><p>Luan, que tirava suas noites de sono e o deixava louco. Mas, bem, diferente</p><p>da forma como Rafa e Gabriel se descobriram, ele já era um homem adulto,</p><p>dono de sua própria vida e sem a menor intenção de agradar alguém e</p><p>mesmo que Luan tivesse mencionado que eles não iriam expor sua relação,</p><p>Alexandre não se importaria nem um pouco caso fosse preciso.</p><p>Entretanto, a situação de Gabriel e seu amigo era totalmente</p><p>diferente.</p><p>— O que você vai fazer quanto a isso? — Alex inquiriu com calma.</p><p>— Eu não sei… eu tô tão apaixonado por ele, Alex. — confessou ao</p><p>soltar um riso fraco. — Tão apaixonado que tô agindo como um idiota.</p><p>Ontem a gente brigou porque ele voltou a dizer que era melhor</p><p>terminarmos, eu pedi pra não fazer isso, pedi pra ele me esperar pra gente</p><p>poder conversar com calma. Parece que ele usa qualquer distância entre a</p><p>gente pra terminar, mas no final não consegue. E eu fico igual um otário</p><p>esperando que ele mude, que pare de ver maldade no que fazemos e</p><p>sentimos, que apenas aceite que pode gostar de mim, tanto quanto eu gosto</p><p>dele. — engoliu em seco e massageou o peito. — Eu sei que ele gosta de</p><p>mim, mas eu também sei, eu sinto que… ele vai partir a droga do meu</p><p>coração e me quebrar no meio. — lançou um olhar para Alex e um riso</p><p>triste se abriu. — Ele não vai mudar e eu vou me foder bem bonito no final</p><p>dessa história.</p><p>— Cara, não vai por esse lado… — tentou amenizar a tristeza de</p><p>Rafael. — Não seja negativo, ele tem os problemas dele, mas talvez só</p><p>precise de tempo mesmo. Vai com calma, vai mostrando a ele como você se</p><p>sente e converse com ele sobre esses problemas que ele tem. Eu sei que não</p><p>é fácil pra você ficar se escondendo dessa forma, mas como me disse antes,</p><p>ele não tá preparado pra assumir que gosta de um cara. Talvez só precise de</p><p>um voto de confiança e ter paciência, e nisso você é bom.</p><p>Rafael não disse nada por alguns minutos, ficou mordiscando o</p><p>lábio inferior até arrancar a pele ressecada e retorcendo seus dedos em um</p><p>gesto claro de nervosismo.</p><p>— Vai ficar tudo bem. E se não ficar, vida que segue, não posso</p><p>fazer muita coisa quanto a isso.</p><p>— Esse é o meu amigo… não se deixa abalar por nada. —</p><p>murmurou com animação e Rafael soltou uma risada.</p><p>— Mas me fala de você e o Luan… tá indo tudo bem?</p><p>— A gente tá bem sim. — um sorriso safado tentou crescer, mas ele</p><p>o conteve e passou a batucar seus dedos contra o couro do volante.</p><p>— Tão só nos beijinhos iguais dois adolescentes, ou já passaram pro</p><p>nível dos adultos? — indagou com curiosidade.</p><p>— Eu não vou falar sobre isso com você! — grunhiu e gesticulou</p><p>com as mãos. Rafa o encarou com um riso brincalhão. — Rafael, não me</p><p>olha</p><p>assim! A gente só… — chiou e passou a mão pela barba. — Fez umas</p><p>coisas.</p><p>— Umas coisas, é? — falou sugestivo. — Então quer dizer que</p><p>ainda não transaram…</p><p>— Não…</p><p>— Mas você quer, não quer?</p><p>— Quero. — confessou.</p><p>— E o que tá te impedindo? Eu sei que não é por causa do Luan.</p><p>Alexandre pensou por um segundo. Seu estômago esfriou e suas</p><p>mãos ficaram pegajosas.</p><p>— Eu não sei o que fazer. — encolheu os ombros de forma contida.</p><p>— Como assim? Não sabe mais transar, é isso?</p><p>— Não, não é isso. — umedeceu os lábios e lançou uma olhadela</p><p>para o amigo. — Eu nunca dormi com um cara… não sei se é a mesma</p><p>coisa que dormir com uma mulher.</p><p>— Cara, não tem muito segredo não.</p><p>O silêncio tomou conta do veículo, deixando Alexandre ainda mais</p><p>ansioso. Ele esperou por mais palavras e quando elas não vieram, lançou</p><p>um olhar cerrado ao amigo.</p><p>— Se não tem segredo, então me conta, ué.</p><p>— Tava só esperando você pedir! — esfregou as mãos em um gesto</p><p>animado e se acomodou melhor no assento. — Mas, primeiro, seria bom</p><p>você assistir uns vídeos, sabe? Pra se familiarizar com outro brinquedinho</p><p>que não seja o teu.</p><p>— Acho que não preciso disso… — comentou. Era certo que ele</p><p>ainda não tinha visto o pau de Luan, mas ele o sentiu e, mesmo sendo</p><p>estranho no início, fora algo que o deixou muito excitado.</p><p>— Você já viu, não é?</p><p>— Não vi, ainda… mas eu toquei.</p><p>— Safado!</p><p>— Para de me provocar! Eu tô enlouquecendo porque quero fazer</p><p>tantas coisas, mas não sei se tô pronto, ou se vou saber como fazer. Ele já</p><p>tem experiência nisso e eu não.</p><p>— Fica calmo, cara… vocês vão ter tempo. Mas veja bem, transar</p><p>com um cara não tem muita diferença, o corpo dele é igual ao teu. Mas na</p><p>hora do vamo ver, não é como uma mulher que tem lubrificação natural, cê</p><p>precisa ter cuidado pra não machucar, porque depois pode ficar</p><p>desconfortável pra ele. De resto, tudo é questão de atração, toque, estímulo.</p><p>Se você estiver no clima, vai saber o que fazer. Deixe os teus instintos te</p><p>guiarem… e bem, como você disse, o Luan tem experiência, ele pode ser o</p><p>teu professor.</p><p>— Certo… — meneou com a cabeça e engoliu em seco. — Posso te</p><p>fazer uma pergunta pessoal?</p><p>— Claro, cara… sou um livro aberto.</p><p>— Você é… como funciona com você e o Gabriel?</p><p>— Cê quer saber se eu sou passivo ou ativo? — perguntou e Alex</p><p>assentiu. — Sou ativo e passivo quando necessário. Com o Gabriel eu já fui</p><p>ativo, mas como ele não curte muito, normalmente eu sou passivo e bem</p><p>recompensado, já que ele sabe foder muito bem.</p><p>— E-eu não precisava saber disso!</p><p>— Até dois minutos atrás você queria saber como foder com um</p><p>cara, agora vai bancar o puritano?</p><p>— Não é isso… esquece. — grunhiu e estacionou em frente a uma</p><p>revendedora de máquinas agrícolas. — Vamos comprar logo esse trator,</p><p>preciso passar na Fernanda pra ver o Heitor antes de voltar pra fazenda.</p><p>— Tá doido pra voltar pro teu novinho, né? Querendo colocar os</p><p>meus ensinamentos em prática? — provocou.</p><p>— Vai se foder! — exclamou e saiu da caminhonete.</p><p>Ele não negou, afinal, era a mais pura verdade. Estava doido para</p><p>voltar, e ansioso para que Luan cumprisse com as promessas que fizera.</p><p>CAPÍTULO DOZE</p><p>Depois de um dia de trabalho movido por uma ressaca infernal,</p><p>Luan chegou em casa, tomou um banho e nem se deu ao trabalho de comer,</p><p>acabou capotando em sua cama, completamente esgotado.</p><p>Quando acordou, era por volta das onze horas da noite. Mesmo</p><p>sonolento, ele saiu de seu quarto e seguiu até a cozinha em busca de</p><p>comida. Porém, ao passar pela sala, viu um par de botinas perto da porta,</p><p>então seguiu até a janela e avistou a caminhonete de Alexandre estacionada</p><p>do lado de fora.</p><p>Ele havia chegado.</p><p>Esquecendo o que iria fazer, ele deu meia volta e se apressou até</p><p>parar diante da porta de Alex. Nervoso como há muito tempo não ficava,</p><p>seu punho foi de encontro a madeira e bateu duas vezes seguidas.</p><p>— Já vou! — a voz abafada e passos pesados soaram dentro do</p><p>cômodo. Segundos depois, a visão de Alexandre com uma toalha pendurada</p><p>nos quadris, o torso tatuado e molhado e uma toalha na mão enquanto</p><p>secava os cabelos loiros escuros, encheram os olhos de Luan. — Oi, dormiu</p><p>bem?</p><p>— Sim … chegou a muito tempo?</p><p>— Há umas duas horas. A Nona disse que você tava dormindo e não</p><p>quis te acordar. — passou a toalha pelo peito e se afastou devagar, um</p><p>sorriso ladino se abriu e seus olhos vasculharam o corpo magro. — Quer</p><p>entrar?</p><p>— Pensei que não fosse convidar. — sorriu de forma divertida e</p><p>pela segunda vez, entrou no quarto de Alexandre.</p><p>Ao fechar a porta, ele escorou contra a madeira, seus olhos</p><p>percorreram todo o corpo bem construído a sua frente e sua boca ficou</p><p>subitamente seca. Alexandre era extremamente grande. Devido à água, seus</p><p>cabelos estavam meio encaracolados, os olhos verdes brilhavam desejosos e</p><p>aquele corpo; Luan não via a hora de poder colocar suas mãos em cada</p><p>pedaço de pele.</p><p>— Tá olhando o quê? — Alex deixou a toalha cair de sua mão e deu</p><p>dois passos à frente, ficando a poucos centímetros do garoto.</p><p>— Você.</p><p>— É? — encostou seu antebraço contra a porta e se inclinou</p><p>devagar. — E tá gostando do que tá vendo?</p><p>— Cê não sabe o quanto. — ergueu a cabeça e vislumbrou as esferas</p><p>verdes totalmente dilatadas, depois, deslizou seus olhos e focou na boca</p><p>entreaberta. Sem conseguir se controlar, ele levou suas mãos até o peito</p><p>musculoso e o tocou.</p><p>Alexandre fechou os olhos em reação ao contato, sua respiração</p><p>ficou errática e sua pele se arrepiou. Movido por uma saudade avassaladora,</p><p>ele colou seu corpo ao de Luan e grudou sua boca na dele. Os lábios se</p><p>moveram em sincronia, as línguas duelavam em uma dança sensual e as</p><p>mãos afoitas tocavam tudo o que podiam. Ambos sentiam seus corpos</p><p>queimando de desejo, as mentes nubladas por pensamentos tão obscenos</p><p>que os faziam agir de forma irracional.</p><p>Luan agarrou a nuca de Alex com as duas mãos e sentiu quando o</p><p>corpo grande o prensou contra a porta. O toque de Alexandre era bruto,</p><p>como se não conseguisse se conter, seus movimentos eram desajeitados e</p><p>por pouco a toalha em seus quadris não caiu.</p><p>Quando precisaram de ar, afastaram seus rostos, mas não o bastante.</p><p>A boca de Alexandre foi parar no pescoço de Luan, que cedeu o corpo</p><p>contra a madeira e se deixou ser tocado como fantasiou por muito tempo.</p><p>— Eu preciso de mais. — Luan sussurrou afoito.</p><p>— O que você quiser. — respondeu e o segurou pelos quadris,</p><p>erguendo-o para que se pendurasse em seu colo. — Vamos pra cama.</p><p>Em poucos passos, Luan foi colocado contra o colchão, o corpo de</p><p>Alex o cobriu e se encaixou entre as suas pernas. Sua calça de moletom lhe</p><p>dava a chance de sentir o membro duro contra o seu, que também dava sinal</p><p>de vida, o que o fez morder os lábios para conter um gemido manhoso.</p><p>Novamente, seu pescoço foi atacado pela boca experiente, a barba o</p><p>arranhava e causava-lhe uma sensação gostosa, as mãos apertavam sua</p><p>cintura como se fosse parti-lo ao meio e os quadris estocavam contra sua</p><p>pelve com desespero, o que provocava uma fricção deliciosa em seu</p><p>membro.</p><p>— Lembra do que eu te prometi? — Luan questionou ao acariciar a</p><p>nuca alheia.</p><p>— Se eu lembro? — Alex o fitou e abriu um sorriso gigante. — Eu</p><p>não parei de pensar nisso por nenhum momento.</p><p>— Então deixa eu começar. — apoiou os pés contra o colchão e fez</p><p>força para poder girar ambos os corpos, ficando por cima e montado em</p><p>Alex. — Tenho pensado muito nas coisas que quero fazer contigo. —</p><p>espalmou suas mãos contra o peito e se maravilhou com a visão dele</p><p>embaixo de si. — No quanto eu quero tocar em você, te beijar inteiro,</p><p>lamber e… — se curvou e manteve a boca a milímetros de distância da</p><p>boca de Alex. Olhos negros focados nos olhos verdes. — Chupar você até</p><p>te fazer gozar na minha boca.</p><p>— Caralho, garoto! — Alexandre exclamou, suas mãos agarraram a</p><p>bunda empinada e apertaram com força. — Eu quero isso, quero muito isso.</p><p>— O quanto você quer? — beijou o pescoço cheiroso enquanto seus</p><p>dedos tocavam a barriga sarada.</p><p>— Demais, Luan! Você vai me deixar louco.</p><p>— Eu gosto de te deixar louco, Alexandre. — comentou e deslizou</p><p>seus lábios sobre a pele morna até alcançar</p><p>os mamilos eriçados, onde ele</p><p>lambeu e mordiscou com seus dentes.</p><p>Alexandre gemeu grave e rouco. Suas mãos agarraram os cabelos de</p><p>Luan e o pressionaram para que continuasse. Ele nunca havia sido tocado</p><p>naquela área, então não imaginava que pudesse ser algo tão prazeroso.</p><p>— Porra! Que delícia! — grunhiu ao jogar a cabeça para trás. —</p><p>Isso, continua assim.</p><p>Luan obedeceu. Projetou a língua para fora e lambeu vagarosamente</p><p>o mamilo esquerdo, se deliciando com o sabor da pele e com os gemidos</p><p>roucos e abafados pelo punho.</p><p>Ainda concentrado no que fazia, sua mão serpenteou em direção à</p><p>toalha que cobria a nudez de Alexandre. Ele afastou o pano, agarrou o</p><p>membro ereto e o apertou com precisão.</p><p>— Cê gosta de ser chupado assim, Xande? — soprou a pergunta, e o</p><p>calor do seu hálito contra a pele molhada pela saliva causou um arrepio na</p><p>pele de Alex.</p><p>— Gosto sim… gosto demais.</p><p>— E aqui? — perguntou e desceu mais um pouquinho. — Gosta de</p><p>ser beijado aqui?</p><p>— Sim.</p><p>— E aqui? — pressionou seus lábios contra os gominhos da barriga</p><p>chapada e lambeu a cabeça da serpente tatuada na lateral e sua barriga.</p><p>— Você tá tentando me enlouquecer?</p><p>— Tô tentando te dar prazer, senhor. — murmurou e desceu mais</p><p>um pouco, deslizando a língua pelo comprimento da cobra até ficar de</p><p>frente para o membro duro e pulsando contra sua mão. — Posso te beijar</p><p>aqui? — passou o polegar sobre a glande que expelia pré-gozo e apertou a</p><p>ponta rosada.</p><p>— Deve! Você… — mordeu o punho e jogou a cabeça para trás. —</p><p>Você deve me beijar aí, Luan… por favor. — suplicou em completo</p><p>desespero.</p><p>Quando voltou a olhar para o rosto dele, Alexandre viu a cena que</p><p>provavelmente ficaria gravada em sua mente para sempre.</p><p>Luan inclinou seu rosto, projetou a língua para fora e a deslizou da</p><p>base à ponta. Naquele momento, a satisfação que brilhava em seus olhos</p><p>aumentou quando alcançou a ponta e confiscou um pouco do pré-gozo. Um</p><p>gemido gutural escapou de ambas as gargantas, mas o de Luan provocou</p><p>uma vibração tão forte em seu corpo que ele perdeu o fôlego.</p><p>Ele abriu um sorriso provocativo, mas Alex sequer pôde devolver,</p><p>pois foi abocanhado por inteiro pela boca aveludada e quentinha.</p><p>— Porra, porra! — chiou e apertou os lençóis em punhos cerrados.</p><p>O sabor daquele pau era algo que Luan havia fantasiado por muito</p><p>tempo, mas tê-lo ali, sentindo-o pesado contra a sua língua e enchendo sua</p><p>boca ao ponto de sufocá-lo o deixou pingando de desejo e satisfação. Era</p><p>melhor do que ele poderia imaginar.</p><p>Sua mão masturbava o que ficava de fora, sua língua delineava os</p><p>nervos e veias saltadas e seus lábios sugavam a ponta, arrancando</p><p>xingamentos e gemidos de Alexandre.</p><p>— Tão gostoso, Xande. — murmurou baixo e arrastado. Seus olhos</p><p>se prenderam por alguns segundos no rosto contorcido de prazer, depois,</p><p>notaram as mãos agarradas nos lençóis. — Tá incomodado com algo?</p><p>— Você tá me chupando como se quisesse arrancar a minha vida</p><p>pelo pau e acha que eu tô incomodado? — riu soprado e arqueou as</p><p>sobrancelhas.</p><p>— Cê não quer me tocar? Me mostrar como gosta?</p><p>— Não preciso… parece que você conhece o meu corpo melhor do</p><p>que eu.</p><p>Um sorriso delicado pintou os lábios rosados e inchados, porém, ele</p><p>queria mais de Alex.</p><p>— Vou tomar isso como elogio, mas eu ainda quero que você me</p><p>mostre… quero que faça comigo o que você sabe. — pediu acanhado.</p><p>Alexandre ficou surpreso com o pedido, mas o obedeceu</p><p>prontamente. Em poucos segundos, ele escapou das mãos espertas e se</p><p>arrastou pelo colchão, ficando parcialmente sentado. Suas costas pesaram</p><p>contra a cabeceira da cama e um sorriso lascivo repuxou seus lábios.</p><p>Longe das mãos e da boca de Luan, seu membro duro descansava</p><p>contra a barriga, então ele o agarrou e começou uma masturbação lenta.</p><p>— Vem cá… — chamou calmo e Luan assentiu e se aproximou, se</p><p>colocando entre as pernas torneadas. — Me chupa. — ordenou.</p><p>Ao curvar seu corpo, Luan sentiu a mão pesada sobre sua cabeça.</p><p>Seus olhos permaneceram no rosto bonito e sua boca tocou a ponta do pau</p><p>com delicadeza. Ele arfou alto, pois o aperto em seus cabelos ficou ainda</p><p>mais forte. Quando engoliu a glande, Alexandre empurrou sua cabeça ainda</p><p>mais, fazendo-o levar tudo o que podia em sua boca.</p><p>— Me engole inteiro, Luan! Me engole até onde puder!</p><p>Quando sentiu sua garganta ser cutucada, Luan engasgou e babou.</p><p>Saliva escorreu pela extensão grossa, deixando tudo melado. Alexandre o</p><p>fez engasgar algumas vezes. Seus olhos não desviaram um do outro por</p><p>nenhum segundo e a tensão que compartilhavam apenas com o contato</p><p>visual era delirante.</p><p>Visceral.</p><p>Sua mão esperta deslizou até alcançar as bolas vermelhas, com a</p><p>outra, ele cobriu a de Alex e o ajudou a masturbar o que não cabia no</p><p>pequeno confinamento.</p><p>Era óbvio que aquele pau não caberia por completo em sua boca.</p><p>Vinte e três centímetros de nervo duro e grosso nunca se acomodariam em</p><p>um espaço tão pequeno, mas Luan estava ansioso para saber como se</p><p>encaixaria dentro de si.</p><p>— Deixa eu foder a sua boca?</p><p>— Te deixo fazer o que quiser comigo, Alexandre. Só… faz.</p><p>— Você não sabe o quanto me deixa louco te ouvir falando isso. —</p><p>murmurou baixo, sua mão firme agarrou o queixo delineado e acariciou a</p><p>bochecha corada com o polegar. — O quanto eu sinto vontade de te quebrar</p><p>inteiro quando se entrega de bandeja assim pra mim.</p><p>Ele guiou novamente a cabeça de Luan até seu membro e o fez</p><p>engoli-lo por inteiro, mas naquele momento ele não o deixou tomar a rédea</p><p>da situação. Como havia pedido, Alex agarrou um punhado dos cabelos</p><p>negros para mantê-lo no lugar e moveu seus quadris, estocando contra a</p><p>boca alheia.</p><p>Luan sentiu seu corpo, que já se encontrava quente, começar a suar</p><p>em alguns pontos.</p><p>Pelos minutos seguintes, Alexandre fodeu sua boca de todas as</p><p>formas. O fez engasgar várias e várias vezes, bateu seu membro duro e</p><p>melado contra os lábios inchados e o fez chupá-lo até sentir seus dedos dos</p><p>pés se contraírem, até seu baixo ventre formigar e até seu corpo inteiro se</p><p>arrepiar em antecipação ao que viria.</p><p>Seu saco era massageado com cuidado por uma das mãos, assim</p><p>como um de seus mamilos que era maltratado por dedos espertos. A junção</p><p>daquelas duas ações com a boca molhada que o chupava de forma</p><p>ensandecida, empurrava o orgasmo que ele tentou com muito afinco manter,</p><p>que tentou como um louco prolongar.</p><p>E obviamente, todos os seus esforços foram por água abaixo.</p><p>— Eu vou gozar, Luan! Se afasta se não quiser que eu jogue tudo na</p><p>sua garganta! — exclamou. O gemido prolongado que escapou de sua</p><p>garganta e ecoou pelo quarto foi uma reação à resposta de Luan, que apenas</p><p>intensificou ainda mais seus atos.</p><p>Sem conseguir se controlar, Alexandre sentiu uma descarga de</p><p>adrenalina percorrer todo seu corpo quando o orgasmo o atingiu. O primeiro</p><p>jato de esperma inundou a garganta de Luan, que logo foi preenchida com</p><p>quantidades abundantes.</p><p>Luan tentou, de todas as formas, não engasgar naquele momento,</p><p>mas o pau inchado jorrando como uma cascata quase o sufocou. Seu</p><p>próprio membro estava duro devido ao nível extremo de excitação. Ele</p><p>também queria muito gozar, mas ter Alexandre gemendo como um lunático,</p><p>ter o corpo dele tremendo sob suas mãos e ser o causador de tamanho tesão</p><p>e prazer, ofuscou suas próprias vontades.</p><p>Naquele momento, dar prazer estava sendo melhor que receber.</p><p>Alex não desviou seu olhar dele por nem um segundo e a visão de</p><p>sua porra branca escapando da boca inchada e deslizando pelo seu pau o</p><p>deixou maluco. Ele sequer terminou de gozar quando puxou Luan pelos</p><p>cabelos, o fez montar sobre suas pernas e chocou sua boca na dele. Seu</p><p>próprio gosto invadiu seu paladar ao embolar as línguas e o gemido gutural</p><p>que escapou de sua garganta encheu os pulmões do garoto. Suas mãos</p><p>agarraram a bunda coberta pela calça de moletom e apertaram com força,</p><p>depois, ele a pressionou contra seu próprio membro duro.</p><p>Durante os minutos seguintes, eles se mantiveram presos naquele</p><p>beijo, a adrenalina do momento diminuía e aos poucos seus movimentos se</p><p>acalmavam. Quando precisaram de ar, Luan se afastou e vislumbrou o rosto</p><p>de Alexandre. As pupilas</p><p>dilatadas cobriam a maior parte das íris verdes, a</p><p>pele de sua bochecha, que não estava coberta pela barba bem aparada,</p><p>encontrava-se corada e os lábios pareciam ter sido picados por abelhas de</p><p>tão inchados.</p><p>Entretanto, o sorriso de satisfação que ele ostentava foi o motivo</p><p>que o deixou com um frio na barriga.</p><p>— Você gostou?</p><p>— Se eu gostei? Eu estourei como um champanhe agitado. Cê acha</p><p>mesmo que eu não gostei?</p><p>— Ué… isso pode ser apenas tesão, algo biológico.</p><p>— Luan… — chamou ao segurá-lo pelo queixo. — Não pensei que</p><p>você fosse um cara inseguro.</p><p>— E eu não sou. — umedeceu os lábios e fitou os olhos verdes com</p><p>intensidade.</p><p>— Então por que cê fica me perguntando essas coisas?</p><p>— Me responde algo antes? — perguntou e Alex assentiu. — Já fez</p><p>qualquer coisa sexual com outro cara?</p><p>— Não! Nunca me senti atraído por nenhum cara, nunca nem pensei</p><p>que isso fosse acontecer. — falou convicto.</p><p>— Então, tá aí a minha resposta. Eu tô sendo o teu primeiro cara,</p><p>isso é incrível na mesma medida que é apavorante! Eu só tenho medo de</p><p>fazer algo que te deixe desconfortável ou que você não goste. Sei lá, com</p><p>toda a tua bagagem, acho que fico esperando que em algum momento cê vai</p><p>se arrepender de tudo isso.</p><p>Alexandre acabou gargalhando alto, pois nunca imaginaria uma</p><p>resposta como aquela.</p><p>— Luan, isso não vai acontecer. — afirmou. — Olha, eu passei</p><p>trinta e cinco anos convicto de que gostava apenas de mulher, mas as coisas</p><p>mudaram, eu sei que ainda preciso entender muitas coisas, mas tem algo</p><p>que eu já entendi e aceitei sem contestar… eu sou louco por você.</p><p>Sua confissão pegou Luan desprevenido. E não era o que ele havia</p><p>falado de fato, pois noventa e nove por cento das palavras que Alexandre</p><p>dizia eram como ficaria louco por sua causa. O que o deixou sem palavras</p><p>foi todo o conjunto de ações quando aquela pequena frase foi dita; a</p><p>intensidade e certeza no tom de voz, o brilho nos olhos verdes e os braços</p><p>que estavam em volta de seu corpo como se tentasse impedi-lo de se afastar.</p><p>— Isso que a gente tem pode acabar em algum momento, mesmo</p><p>que não seja algo que eu queira, pode acontecer. Só que as coisas que eu</p><p>tenho descoberto sobre mim mesmo e o que eu sou agora não vão mudar.</p><p>Isso não tem volta. — explicou com cuidado ao colocar uma mecha de</p><p>cabelo atrás da orelha enfeitada. — Quero que saiba que se tiver algo que</p><p>eu não queira fazer, eu vou te falar, ok?</p><p>— Ok.</p><p>— Mas eu tenho certeza que isso não vai acontecer, porque eu quero</p><p>fazer tudo contigo, garoto. Absolutamente tudo.</p><p>— Que bom, porque isso aqui foi só uma preliminar… ainda tem</p><p>muitas coisas pra gente experimentar. — sorriu de lado e moveu lentamente</p><p>seus quadris.</p><p>Alexandre também sorriu e esmagou a carne da bunda alheia com</p><p>suas mãos.</p><p>— Quer tomar um banho comigo? — sugeriu esperançoso.</p><p>Luan arqueou as sobrancelhas em surpresa, seu baixo ventre se</p><p>contraiu em expectativa e seu membro, adormecido dentro da calça,</p><p>despertou. Ele riu com aquilo, pois constatou que o de Alexandre ainda se</p><p>mantinha duro mesmo depois de gozar.</p><p>— Quero… quero sim.</p><p>Luan assistiu Alexandre caminhar com confiança pelo quarto em</p><p>direção ao banheiro. O corpo grande encontrava-se inteiramente nu e com</p><p>uma leve camada de suor cobrindo a pele queimada pelo sol. Seus olhos se</p><p>demoraram mais que o necessário na bunda durinha e um sorriso lascivo se</p><p>abriu em seu rosto.</p><p>Quando ficou sozinho, ele retirou a camisa e calça de moletom</p><p>devagar. Excitação percorria seu corpo como uma descarga elétrica e seu</p><p>estômago pesava pela ansiedade. Obviamente aquela não era a sua primeira</p><p>vez em um banheiro com um cara, mas era a primeira vez com Alexandre.</p><p>E todas as suas primeiras vezes com ele pareciam ainda mais intensas e</p><p>marcantes que as suas próprias.</p><p>Ele estava nervoso com o que poderia acontecer, mas deixou de lado</p><p>qualquer vergonha que ainda possuía e caminhou até o banheiro. Ao entrar</p><p>no cômodo, encontrou Alex dentro do box e debaixo do jato forte de água.</p><p>Em passos calmos, ele se aproximou e entrou no pequeno espaço, seus</p><p>olhos deslizaram pelas costas largas até pararem na bunda, em um impulso,</p><p>ele deu um tapa estalado e depois sorriu.</p><p>Alexandre girou e o fitou com um sorriso divertido.</p><p>— O que foi isso?</p><p>— Nada… só checando. — murmurou.</p><p>Em poucos segundos, ele entrou embaixo do fluxo de água gelada e</p><p>sentiu um arrepio percorrer seu corpo quente pelo choque térmico.</p><p>Rapidamente, suas mãos deslizaram pelos cabelos escuros que caíam sobre</p><p>seus olhos e os jogou para trás, então, observou Alexandre, que parecia</p><p>devorar todo seu corpo com os olhos.</p><p>De forma provocativa, Luan virou e pegou o frasco de shampoo no</p><p>suporte. Depois de despejar uma quantidade de produto em sua mão, ele o</p><p>espalhou por seus cabelos e esfregou seu corpo lentamente.</p><p>Euforia tomava conta de si a cada vez que via aquele brilho nos</p><p>olhos de Alex, porque eram emoções tão viscerais que ele temia ser partido</p><p>ao meio quando transassem de fato.</p><p>Quando terminou de esfregar todo seu corpo, ele voltou para a água</p><p>e retirou a espuma. Seus olhos estavam fechados, mas seu corpo entrou em</p><p>alerta quando as mãos fortes o agarraram pela cintura, grudando ambos os</p><p>corpos.</p><p>— Você é tão lindo, Luan… tão gostoso. — Alexandre sussurrou. —</p><p>Quero te comer inteirinho…</p><p>Luan sentiu seu baixo ventre contrair com aquelas palavras, porém,</p><p>sequer teve tempo de responder. Com extrema agilidade, Alexandre o</p><p>segurou pela cintura e girou seu corpo, prensando-o contra a parede com</p><p>certa brutalidade. Luan arfou, seu corpo esquentou porque o corpo de Alex</p><p>estava quente e grudado no seu de tal forma que ele não saberia onde um</p><p>começava e o outro terminava. O pau duro pressionava entre as bandas de</p><p>sua bunda, as mãos fortes esmagaram sua cintura e a boca fazia um bom</p><p>trabalho ao beijar sua nuca e ombros.</p><p>Alexandre delineou as curvas do corpo magro até alcançar a bunda</p><p>arrebitada, seus olhos focaram naquele ponto e a visão de seu pau contra as</p><p>nádegas branquinhas provocou pensamentos tão obscenos que seu membro</p><p>pulsou em reação.</p><p>Seu maior desejo era se enfiar inteirinho naquele rabo, mas o que ele</p><p>fez foi deslizar seus lábios pelas costas molhadas lentamente enquanto</p><p>distribuía beijos e mordidas.</p><p>— O-o que você tá fazendo? — Luan soprou. Sua boca entreaberta</p><p>expelia lufadas de ar, seu coração batia fora de ritmo. Sua mente já havia</p><p>traçado todo o caminho que Alex estava percorrendo e o final era o que o</p><p>deixava completamente tenso.</p><p>— Tô provando você… — contou. Seus joelhos foram ao encontro</p><p>do chão e seu rosto ficou na altura da lombar de Luan. Seus dedos</p><p>apertaram mais um pouco a carne farta, como se estivesse brincando com a</p><p>comida antes de devorá-la. — Quero saber se você é gostoso em todos os</p><p>lugares.</p><p>— Não precisa fazer isso, eu sei que… — Luan interrompeu a fala</p><p>quando um gemido escapou de sua garganta ao sentir a língua de Alexandre</p><p>tocando-o naquele ponto. — Porra, Alexandre!</p><p>O barulho da água caindo contra as costas de Alex junto aos</p><p>gemidos de Luan, eram os únicos sons audíveis naquele banheiro. Luan</p><p>tentava se conter ao morder seu punho com força, mas Alex estava</p><p>chupando-o e lambendo-o tão bem que ele não conseguia se controlar.</p><p>Instintivamente, sua mão foi para trás, agarrando os cabelos</p><p>molhados e forçando a cabeça contra sua bunda. Com a outra mão, ele</p><p>agarrou seu pau e passou a se masturbar freneticamente. Desde o momento</p><p>que entrou naquele quarto e colocou seus olhos sobre Alexandre, seu corpo</p><p>despertou em completo desejo, mas ali, tendo-o prostrado e lambendo-o de</p><p>uma forma tão deliciosa, o fez chegar ao nível máximo de luxúria e prazer.</p><p>Ele queria tanto gozar que poderia morrer naquele momento.</p><p>— Xande… — chamou, gemendo manhoso. — Continua assim que</p><p>eu vou gozar.</p><p>Alexandre estava com o próprio membro em uma mão se</p><p>masturbando devagar. Forçou a língua na entrada apertada, lambeu e</p><p>chupou como se estivesse faminto e de fato estava. Seu desejo por Luan era</p><p>insaciável.</p><p>Ao arrastar sua boca por uma das bandas, ele chupou a pele alva e</p><p>mordeu com força, deixando a marca de seus dentes contra a carne. O</p><p>gemido</p><p>gutural que ecoou pelo banheiro soou como música para seus</p><p>ouvidos.</p><p>— Meu garoto quer gozar? — perguntou ao virar o corpo molhado.</p><p>— Quer gozar em mim?</p><p>— Caralho, Alexandre! — chiou baixo e jogou a cabeça para trás.</p><p>— Quero que olhe pra mim. — pediu, e quando foi obedecido,</p><p>agarrou o membro duro apontado para o seu rosto. Sua língua lambeu a</p><p>ponta e confiscou um pouco de pré-gozo acumulado. Era levemente</p><p>salgado, a textura era pegajosa, mas nada que o impedisse de envolver seus</p><p>lábios em torno da glande.</p><p>— Eu quero gozar. — choramingou.</p><p>— Vou te fazer gozar, amor… — murmurou e sugou a ponta, mas</p><p>logo o engoliu até onde pôde. Alexandre não sabia como fazer um boquete,</p><p>mas era experiente em receber e por isso ele se dedicou ao máximo,</p><p>tentando dar prazer para Luan assim como ele havia lhe dado minutos antes.</p><p>Ele teve cuidado com os dentes e deslizou sua língua pelos nervos,</p><p>sua mão trabalhava incessantemente no que ficava fora de sua boca e a</p><p>outra ainda estava se movendo em seu próprio membro.</p><p>Luan se forçava a manter seus olhos abertos, pois o tesão que sentia</p><p>o impelia a fechá-los, mas a visão de ter Alexandre ajoelhado aos seus pés,</p><p>fazendo mágica no seu pau enquanto se masturbava, era indescritível ao</p><p>ponto de que ele temia que se parasse de ver, a imagem sumiria como uma</p><p>fumaça. Ele precisava gravar cada detalhe daquele momento em sua mente</p><p>e, precisava acima de tudo, olhar dentro daquelas esferas verdes quando</p><p>gozasse na boca dele. O que não demorou para acontecer.</p><p>Seus dedos dos pés se contraíram, seu interior se contorceu e seu</p><p>coração bateu ensandecido. De forma irracional, ele agarrou os cabelos de</p><p>Alex com as duas mãos e estocou contra a boca dele.</p><p>— Xande… — gemeu ofegante e sentiu o orgasmo o consumir por</p><p>inteiro.</p><p>Alexandre sentiu sua boca se encher do prazer de Luan. Seu próprio</p><p>prazer sujava seus dedos e escorria pela água em direção ao ralo.</p><p>Ambos estavam consumidos por emoções tão conflitantes e</p><p>confusas que não conseguiam processar o que de fato havia acabado de</p><p>acontecer. Alex deu uma última sugada na glande de Luan que estremeceu</p><p>por estar tão sensível. Um sorriso letárgico repuxou seus lábios e seus olhos</p><p>negros brilharam com pura satisfação.</p><p>— Delicioso, Luan. Como eu imaginei que seria. — Alexandre</p><p>comentou com um riso divertido.</p><p>— Não sinto as minhas pernas… — confessou ao ceder seu corpo</p><p>de encontro à parede.</p><p>— Eu te seguro. — se ergueu e o agarrou pela cintura. Fitou o rosto</p><p>corado e molhado e se demorou nos lábios inchados, esse que ele fez</p><p>questão de beijar. — Você gostou?</p><p>— Pra uma primeira vez, você se saiu muito bem. — sussurrou.</p><p>— Também achei. — sorriu de lado e tornou a beijá-lo mais uma</p><p>vez. — Agora vamos tomar um banho de verdade. Eu tô cansado da</p><p>viagem, com sono e você drenou todas as minhas forças.</p><p>— Qual é, a idade tá te afetando?</p><p>— Vai implicar com a minha idade agora? — arqueou a sobrancelha</p><p>de forma provocativa. — Não te ouvi reclamar quando eu tava ajoelhado e</p><p>com o teu pau na boca.</p><p>— Cala a boca! — grunhiu e jogou um pouco de água contra o rosto</p><p>alheio.</p><p>— Mas é sério. Eu tô muito cansado.</p><p>— Eu sei, vamos acabar logo com isso pro meu velho poder dormir</p><p>de uma vez.</p><p>— Tá muito engraçadinho, garoto… a gozada te fez bem.</p><p>— Você não sabe o quanto, Xande. — sorriu e se apressou no</p><p>banho.</p><p>Quando saíram do banheiro, Alex secou todo o seu corpo enquanto</p><p>assistia Luan vestir as roupas esquecidas sobre a cama.</p><p>— Não vai vestir uma roupa? — Luan inquiriu quando Alex, ainda</p><p>nu, se acomodou sobre o colchão espaçoso.</p><p>— Eu gosto de dormir sem roupas. — respondeu displicente e bateu</p><p>sua mão no espaço ao lado. — Deita aqui comigo um pouco.</p><p>— Preciso voltar pro meu quarto, Xande.</p><p>— Eu sei, deita só um pouquinho, depois cê vai.</p><p>Luan mordiscou o lábio inferior enquanto ponderava sobre o que</p><p>fazer. Mas aquele debate interno não durou mais que cinco segundos. Ver</p><p>Alexandre com aquele sorriso satisfeito, com os olhos baixos de sono e</p><p>completamente relaxado o fez querer prolongar um pouco mais o momento.</p><p>Ao se acomodar sobre o colchão, ele foi envolvido por um dos</p><p>braços musculosos e arrastado até estar deitado contra o peito largo. A mão</p><p>grande acariciava suas costas sobre a camisa e a sua passou a traçar as</p><p>linhas das tatuagens pintadas no corpo alheio.</p><p>— Você gostou de tudo o que a gente fez hoje? — perguntou</p><p>envergonhado.</p><p>— Eu amei tudo o que a gente fez hoje, Luan. — afirmou.</p><p>O aroma dos cabelos molhados inundou seu olfato e causou certo</p><p>desconforto. O cheiro de shampoo era diferente. Luan estava com o seu</p><p>cheiro e não com o cheiro da flor de laranjeira e por algum motivo aquilo o</p><p>deixou incomodado.</p><p>Quando ouviu a resposta, Luan se lembrou da forma como Alex o</p><p>chamou no banheiro. Novamente, aquela palavrinha ficou martelando em</p><p>sua mente, assim como aconteceu na primeira vez. E da mesma forma de</p><p>antes, ele optou por acreditar que aquilo havia sido induzido pelo tesão.</p><p>Era óbvio, já que não faria o menor sentido se fossem sentimentos</p><p>reais.</p><p>— Não gosto do cheiro dos teus cabelos. — Alex comentou baixo.</p><p>— O quê? — franziu o cenho em confusão.</p><p>— Tá diferente, você usou o meu shampoo. Não gosto desse cheiro,</p><p>gosto do teu cheiro.</p><p>— E qual é o meu cheiro? — ergueu a cabeça e fitou as íris verdes</p><p>brilhando intensamente.</p><p>— Flor de laranjeira. — falou calmo. — O meu cheiro favorito em</p><p>todo o mundo.</p><p>Luan sentiu seu coração errar a batida. Desviou o olhar, pois não</p><p>queria que Alex notasse a vergonha em seus olhos e muito menos o sorriso</p><p>idiota que surgiu em seus lábios.</p><p>Era surreal tudo o que ele estava sentindo em tão pouco tempo. Não</p><p>dava para acreditar que, em pouco mais de um mês, Alexandre estivesse</p><p>despertando sentimentos que nenhuma outra pessoa havia conseguido.</p><p>Contudo, ele empurrou aqueles pensamentos sobre sentimentos e emoções</p><p>para o mais fundo em sua mente.</p><p>Com o tempo, Alexandre perceberia que existia um mundo inteiro</p><p>de novas possibilidades e depois de passar tantos anos com a mesma</p><p>pessoa, ele provavelmente iria querer aproveitar.</p><p>Sem contar que Luan nunca durava muito tempo com alguém. A</p><p>animação e euforia do início acabaria e logo ele estaria deslumbrado com</p><p>outro cara ou garota.</p><p>Nada durava para sempre.</p><p>— Quero que deixe um frasco do seu shampoo e condicionador no</p><p>meu banheiro, Luan. — Alexandre murmurou sonolento.</p><p>— Por quê?</p><p>— Porque sempre que você tomar banho comigo, quero sentir o teu</p><p>cheiro nesses cabelos, e quero que ele fique impregnado no meu travesseiro</p><p>assim como tá na minha mente.</p><p>Surpreso com o que ouviu, Luan ficou alguns segundos calado, mas</p><p>quando o nó se dissipou de sua garganta e ele se preparou para responder,</p><p>um ronco baixo vibrou no peito largo e escapou pela boca entreaberta.</p><p>Alexandre havia dormido, e Luan se perguntou o que de tão</p><p>impressionante tinha em seu shampoo ou nos seus cabelos para que ele</p><p>fosse tão fascinado quanto demonstrava ser. Porém, aquela era mais uma</p><p>das perguntas que ele não teria uma resposta.</p><p>Pelo menos por enquanto.</p><p>CAPÍTULO TREZE</p><p>Luan havia acabado seus serviços do dia. Era sábado, ele estava</p><p>cansado e queria muito relaxar tomando uma cerveja. Porém, não se daria</p><p>ao luxo, já que precisava economizar o máximo que pudesse. Então ele se</p><p>contentaria em pedir alguma comida no limitado aplicativo de delivery da</p><p>cidade e ficaria em casa assistindo alguns episódios de Criminal Minds em</p><p>seu notebook e talvez, quando seus pais estivessem dormindo, ele escapasse</p><p>para o quarto de Alexandre.</p><p>— Tá a fim de tomar umas cervejas? — Gustavo, que o</p><p>acompanhava de perto, convidou.</p><p>— Não posso, tenho que economizar se quiser ir embora no fim do</p><p>ano. Já estamos quase em setembro, então eu não tenho muito tempo.</p><p>— Entendi, mas não me importo em pagar hoje. Só queria sair</p><p>contigo e depois… talvez você possa dormir lá em casa.</p><p>Luan interrompeu o passo no mesmo instante e observou seu amigo,</p><p>que ostentava um sorriso ladino e tinha o rosto vermelho por causa do sol</p><p>quente.</p><p>— Olha, eu sei que a gente teve um rolo quando eu cheguei aqui e</p><p>depois nos pegamos em umas festas e tal. Mas</p><p>eu não tô mais no clima pra</p><p>isso, me entende? Eu gosto muito de você e ainda quero manter a nossa</p><p>amizade. — tentou explicar com cuidado. — Mas isso da gente dormir</p><p>junto, não vai mais rolar.</p><p>Gustavo franziu o cenho, confusão tomou conta de si por dois</p><p>segundos, contudo ele sorriu e assentiu.</p><p>— Cê tá ficando com outra pessoa. — constatou.</p><p>— Não é isso, eu só…</p><p>— Tá tudo bem, cara, sério mesmo. Ainda somos amigos e nada vai</p><p>mudar. — apertou o ombro de Luan que soltou uma respiração de alívio. —</p><p>Espero que ele não te magoe.</p><p>Dessa vez, foi Luan quem ficou confuso, seu corpo congelou e um</p><p>sorriso nervoso repuxou seus lábios.</p><p>— Não tem ninguém, Guto.</p><p>— Eu sei que tem, e eu espero que você não saia magoado dessa</p><p>história, Luan. Cê é um cara legal e merece muito mais do que ser o segredo</p><p>dele. — apertou o ombro alheio mais uma vez e se afastou. — Até segunda!</p><p>Se mudar de ideia sobre a cerveja, me manda uma mensagem. A gente</p><p>ainda pode sair pra beber junto, certo?</p><p>— Certo. — soprou baixo.</p><p>Gustavo assentiu e Luan o observou se afastar.</p><p>Aquela conversa ocupou um espaço vago em sua mente que não</p><p>deveria. Ele não deu nenhuma bandeira sobre o seu caso com Alexandre,</p><p>mas de algum modo Gustavo notou. Ele só não sabia que Alex estava se</p><p>divorciando, e por isso imaginou que Luan havia ocupado o papel de</p><p>amante.</p><p>O que não era verdade.</p><p>Luan nunca se envolveria com Alexandre se soubesse que ele era</p><p>comprometido, e apesar dele ainda ser um homem casado no papel, ele e a</p><p>esposa não eram mais um casal. Alex o assegurou de que não existia mais</p><p>nada entre eles. Ele acreditou, afinal, Alexandre não deu indícios de que</p><p>fosse um homem que não poderia confiar.</p><p>Ao chegar em casa, encontrou sua mãe na sala fazendo crochê</p><p>enquanto assistia a uma novela na TV. Seu pai continuava no campo,</p><p>fiscalizando os últimos serviços feitos no pasto e por isso ainda não havia</p><p>chegado.</p><p>— Oi, mainha…</p><p>— Oi, querido. Fiz pão de queijo, tá quentinho ainda.</p><p>— Vou tomar banho, depois eu como.</p><p>— Xandinho quer falar contigo, ele tá no escritório. — ela falou</p><p>sem desviar os olhos da TV.</p><p>— Ok. — murmurou e seguiu até a porta perto do corredor que</p><p>levava ao seu quarto. Depois de duas batidas contra a madeira, Alexandre</p><p>autorizou a entrada. — Oi, queria falar comigo?</p><p>— Sim, pode entrar.</p><p>Luan fechou a porta e caminhou devagar até uma das cadeiras de</p><p>frente à mesa. Ao se sentar, ele observou o rosto de Alexandre com atenção.</p><p>As expressões sérias e os óculos de armação o deixavam ainda mais</p><p>atraente. O que era uma loucura porque Alexandre já era irresistível por si</p><p>só.</p><p>— O que queria falar?</p><p>— Estava conferindo aqui os relatórios de pagamento e vi que, nos</p><p>últimos dois meses, você pediu pra transferir mil e quinhentos reais do seu</p><p>pagamento pro seu Joaquim. Isso te deixa com pouco mais de quinhentos</p><p>reais. — comentou ao desviar seus olhos dos papéis e focar no rosto corado.</p><p>— O que tem de mais nisso? — perguntou aflito.</p><p>— Nada, mas eu queria entender o porquê disso.</p><p>Luan entortou os lábios e fitou a paisagem através das janelas</p><p>abertas. Não queria comentar sobre aquilo com Alexandre, com ninguém,</p><p>na verdade, mas acabou cedendo.</p><p>— Meu pai gastou uma grana comigo antes de me trazer pra cá.</p><p>— Eu lembro que o Rafael me ligou perguntando se poderia</p><p>adiantar um dinheiro pra ele por causa de uma fiança. O que foi que</p><p>aconteceu?</p><p>— Bati com o carro de um amigo depois de quase atropelar uma</p><p>pessoa. Eu tava bêbado e chapado, fui levado pra delegacia e meu pai teve</p><p>de pagar a fiança e o advogado que cuidou do meu caso. — confessou sem</p><p>encarar Alex. — Agora, eu tô pagando de volta o que ele gastou.</p><p>— E quanto foi?</p><p>— Acho que uns seis mil… a fiança ficou em torno de uns três mil,</p><p>mas juntando os honorários do advogado e o conserto do carro, o valor</p><p>aumentou. Meu pai deixou tudo pago antes da gente voltar pra cá.</p><p>— Isso é muito… ele te pediu pra pagar de volta?</p><p>— Não, mas não gosto de dever nem favor, quem dirá dinheiro.</p><p>Mesmo que seja pro meu pai.</p><p>— Entendo isso, Luan.</p><p>— Era só isso?</p><p>— Não. Queria saber se você permite que eu pague essa dívida pra</p><p>você.</p><p>— O quê?! Por quê?!</p><p>— Ainda falta muito dinheiro, Luan, e não tá te sobrando quase</p><p>nada.</p><p>— Daí vou transferir a dívida que tenho com meu pai pra você?</p><p>Não, obrigado!</p><p>— Por quê?</p><p>— Alexandre, eu vou me sentir em dívida contigo e eu não quero</p><p>isso! Como é que eu vou explicar pros meus pais sobre esse dinheiro? —</p><p>questionou e passou as mãos pelos cabelos.</p><p>— Não precisa explicar, eu digo que…</p><p>— Não! Cê não vai dizer nada! E a gente já tem muita coisa pra</p><p>manter escondido, não quero acrescentar mais um item à lista. — rebateu</p><p>irritado.</p><p>— Ei, calma. Eu já entendi. — ergueu a mão em um gesto</p><p>apaziguador. — Tá tudo bem?</p><p>— Tudo bem, Alexandre, só… deixa esse assunto pra lá, entendeu?</p><p>— perguntou ao se levantar.</p><p>— Entendi.</p><p>— Beleza. Vou tomar banho.</p><p>— Luan? — chamou e o observou parar e se virar. — Tem certeza</p><p>que tá bem?</p><p>— Tenho.</p><p>Luan não esperou por mais questionamentos. Saiu do escritório de</p><p>Alex e seguiu até seu quarto, de onde não saiu pelo resto da noite.</p><p>Era pouco depois das nove da noite quando Alexandre bateu à porta</p><p>de Luan. Havia uma sacola de papel em suas mãos que cheirava</p><p>divinamente, tanto que o fez salivar mesmo tendo jantado ainda a pouco.</p><p>Quando Luan apareceu na porta, seu rosto estava inchado e parecia</p><p>sonolento. Ele cruzou os braços e manteve seus olhos baixos.</p><p>— Acabaram de entregar isso aqui pra você. — mostrou a sacola e</p><p>sorriu de lado.</p><p>— Valeu… fiquei distraído e nem vi que tinha saído pra entrega.</p><p>— Por que não saiu pra jantar? Ou me falou que queria comer fora?</p><p>— Não queria sair, e tô com um pouco de dor de cabeça.</p><p>— Quer que eu pegue um remédio?</p><p>— Não precisa, vou comer e dormir. Obrigado por ter recebido a</p><p>entrega pra mim. — agradeceu e apertou o saco de papel em suas mãos.</p><p>Quando fez menção de fechar a porta, Alex o impediu.</p><p>— O que você tem?</p><p>— Nada, Alexandre. Eu já disse.</p><p>— E por que tá agindo assim? — perguntou. Luan deu de ombros</p><p>como o garoto petulante que era. — É por causa do que eu disse sobre o</p><p>dinheiro?</p><p>— Só esquece isso.</p><p>— Olha, eu só queria ajudar, tá legal? Não pense que tive algum</p><p>interesse por trás disso. Só quis te agradar.</p><p>— Achou que me agradaria me dando dinheiro como se seu fosse</p><p>alguém que se vende? Ou como se eu fosse o teu amante que você precisa</p><p>bancar? — grunhiu com chateação.</p><p>Alexandre arregalou os olhos e deu um passo para trás. Foi pego</p><p>completamente de surpresa com aquela resposta e no quão agressiva ela</p><p>soou. Ele nunca imaginou que Luan pudesse ter aquele tipo de pensamento</p><p>sobre si ou sobre o que eles estavam tendo. Apesar da situação em que</p><p>estava, ele não era um mentiroso e muito menos um traidor, e esperava que</p><p>Luan acreditasse em sua palavra.</p><p>— Amante, Luan? De onde você tirou isso? — Luan desviou o olhar</p><p>e suspirou profundamente. — Você ainda não acredita em mim, não é?</p><p>— Olha, eu não quero brigar ou descontar meu estresse em você,</p><p>ok? Só me deixa quieto no meu canto, depois a gente conversa.</p><p>— Tudo bem. Quando quiser conversar, a minha porta é do lado da</p><p>tua. — respondeu calmo.</p><p>Em poucos segundos, cada um deles se isolou em seus espaços</p><p>pessoais. Suas mentes tentavam processar os acontecimentos recentes, seus</p><p>corpos pareciam clamar pelo contato um do outro e seus corações batiam</p><p>fora de sincronia. E a cada minuto em que passavam pensando um no outro,</p><p>eles se aproximavam mais e mais dos sentimentos profundos que tentavam</p><p>ignorar e esconder.</p><p>Estava estampado diante dos seus olhos, eles só se negavam a ver.</p><p>No domingo, Luan passou todo o dia dentro do seu quarto.</p><p>Alexandre perambulou pela casa na esperança de que em algum momento</p><p>ele fosse aparecer, o que não aconteceu. E para que não fosse bater na porta</p><p>dele e provocasse mais uma discussão, ele convidou Rafael para almoçar</p><p>em uma churrascaria na cidade, depois, eles foram para um bar de esquina e</p><p>passaram a tarde jogando sinuca.</p><p>Quando chegou em casa, já havia passado das nove da noite, achou</p><p>estranho o fato de não ter encontrado dona Maria e seu Joaquim</p><p>assistindo à</p><p>novela, mas lembrou que era domingo e eles sempre iam dormir mais cedo.</p><p>Após retirar suas botinas, ele caminhou até a cozinha em busca de um copo</p><p>de água. Deixou seu chapéu branco sobre a mesa e se aproximou do filtro</p><p>de barro sobre a bancada perto da pia. Encheu um copo grande com o</p><p>líquido transparente e bebeu devagar, enquanto isso, seus olhos</p><p>visualizaram através da janela uma sombra debaixo do pé de goiaba.</p><p>Agindo por impulso, ele deixou o copo sobre a pia e saiu porta</p><p>afora. A primeira coisa que viu foi um ponto avermelhado, depois, a densa</p><p>camada de fumaça branca escapou pela boca que ele tanto amava beijar e se</p><p>dissipou com a brisa da noite.</p><p>Luan encontrava-se deitado na espreguiçadeira de pano, ambas as</p><p>pernas se mantinham cruzadas em uma posição confortável e seus olhos</p><p>estavam focados na lua cheia que brilhava em toda a sua opulência.</p><p>Quando chegou perto o bastante, Alex cruzou os braços e o fitou</p><p>com atenção.</p><p>— Vai continuar me evitando? — inquiriu, calmo e controlado,</p><p>apesar de tudo em seu interior está colapsando pelo silêncio que o castigou</p><p>por todo o dia.</p><p>— Não tô evitando ninguém.</p><p>— Não? Tem certeza disso?</p><p>— Alexandre, eu não tô com cabeça pra conversar agora.</p><p>Alexandre riu soprado, mesmo que não achasse a menor graça</p><p>naquilo. Passou as mãos pelos cabelos e esfregou os olhos. Chateação o</p><p>consumia por inteiro. Um medo irracional o deixou com um nó na garganta</p><p>desde o dia anterior. Ele não sabia mais o que fazer. Não sabia o que tinha</p><p>feito de errado porque Luan não falava.</p><p>— Cê quer terminar comigo? É isso?</p><p>— Terminar o quê? — rebateu afiado. Alex engoliu em seco e</p><p>desviou o olhar.</p><p>— Me escuta… se eu te ofendi de alguma forma, me desculpa,</p><p>beleza? Não foi a minha intenção. Mas se tem uma coisa que eu aprendi</p><p>depois de passar quase quinze anos em um relacionamento, é que as coisas</p><p>só são resolvidas se a gente conversar. Eu não sei o que eu fiz pra te deixar</p><p>tão chateado assim, Luan! E se você não me contar, eu não vou saber e não</p><p>vou poder resolver.</p><p>— Não tenho nada pra falar. — falou apático. Sem se dar ao</p><p>trabalho de olhar na direção de Alex, ele tragou uma grande lufada de</p><p>fumaça do cigarro e a soprou para o céu pintando de estrelas.</p><p>— Tudo bem. Acho que é melhor a gente dar um tempo. Cê parece</p><p>precisar esfriar a cabeça e eu não quero te aborrecer ainda mais. —</p><p>exprimiu derrotado. Quando não obteve nenhuma fração da atenção do mais</p><p>novo, Alexandre deu meia volta e entrou na casa.</p><p>Cercado pela escuridão e pelo silêncio, Luan engoliu a vontade de</p><p>chorar com uma nova tragada no cigarro. Não queria parecer tão imaturo,</p><p>mas as coisas que Gustavo havia dito no dia anterior ficaram martelando em</p><p>sua mente sem parar e juntando a conversa que teve com Alex logo em</p><p>seguida, ele não soube como reagir.</p><p>O que era contraditório de sua parte porque, primeiro: ele não tinha</p><p>a menor intenção de assumir qualquer relacionamento, especialmente com</p><p>um cara mais velho que era o chefe dos seus pais. Segundo: ele não se</p><p>importava com opiniões. Era a sua vida e ele vivia do jeito que queria.</p><p>Terceiro e mais importante: assim que pudesse, ele iria embora daquele</p><p>lugar, então sua aventura com Alexandre se tornaria apenas uma das</p><p>melhores lembranças que ele iria colecionar. Ele não pensava em um futuro</p><p>com ele, não pensava em relacionamento com ele. Não pensava neles a</p><p>longo prazo. Luan era pragmático quanto a relações amorosas. Ele absorvia</p><p>o que queria, dava o que precisavam e no fim, cada um seguia o seu</p><p>caminho.</p><p>Fora assim com todas as pessoas antes de Alexandre e seria assim</p><p>com ele também.</p><p>Tinha que ser.</p><p>Só que, por mais que dissesse aquilo para si mesmo de forma</p><p>ininterrupta, a voz de Gustavo dizendo que ele merecia mais que ser um</p><p>segredo, ecoava em sua mente sobrepondo qualquer razão. Ele nunca se</p><p>importou em ser o segredo de alguém, até porque, ele também teve muitos</p><p>segredos.</p><p>Alexandre era um dos seus maiores segredos. Talvez o maior.</p><p>Então, por que ele se sentiu tão afetado com o que seu amigo disse,</p><p>sendo que ele nem sabia tudo o que estava acontecendo? Por que se deixar</p><p>abalar por algo que ele sabia que iria acabar tão rápido quanto começou? E</p><p>por que ele sentiu seu coração errar a batida e seus olhos marejaram quando</p><p>Alexandre sugeriu dar um tempo?</p><p>Porra!</p><p>Eles não tinham nada. Assim como Luan, que também não tinha</p><p>resposta para nenhum dos questionamentos feitos em silêncio.</p><p>Sentido-se esgotado, ele jogou a bituca de cigarro no chão, esfregou</p><p>os olhos com força e se levantou.</p><p>Quando deitou em sua cama, ficou olhando as sombras no teto.</p><p>Inevitavelmente, uma lágrima rolou por sua têmpora e teve seu destino final</p><p>no travesseiro debaixo de sua cabeça.</p><p>E aquela foi a primeira vez que ele chorou por alguém.</p><p>Alexandre e Luan não se falaram por dois dias. Nos momentos em</p><p>que se encontravam durante o trabalho, eles se mantiveram em silêncio e só</p><p>falavam quando necessário. E isso deixou Alexandre transtornado. Ele não</p><p>sabia o que fazer para que Luan se abrisse e contasse o que de fato estava</p><p>incomodando-o. E não havia nada no mundo que mexesse mais com a sua</p><p>mente do que o silêncio.</p><p>Era tarde, Alexandre havia dispensado o jantar e ficou em seu</p><p>quarto desde que chegou do curral. Tomou um banho longo e depois de</p><p>vestir apenas uma cueca boxer, deitou em sua cama espaçosa e passou os</p><p>últimos minutos falando com seu filho.</p><p>— Papai, quando o senhor volta pra casa? — Heitor perguntou</p><p>sonolento.</p><p>— Eu ainda não sei, filho… o papai tem muita coisa pra resolver</p><p>aqui na fazenda.</p><p>— Tô com saudade.</p><p>— Eu também, meu amor. O que acha de vir pra cá no fim de</p><p>semana? O Rafael vai aí na sexta e pode te trazer.</p><p>— Eu quero!</p><p>— Vou falar com a sua mãe pra combinar, ok? Agora tá na hora de</p><p>dormir, amanhã você tem aula cedo.</p><p>— Tá bom, papai. Bença?</p><p>— Deus te abençoe, meu príncipe. Eu amo você mais que tudo</p><p>nesse mundo, ok?</p><p>— Também amo o senhor, boa noite.</p><p>— Boa noite.</p><p>Alexandre ouviu o farfalhar e a voz de seu filho soando abafada,</p><p>logo uma respiração ruidosa ecoou através da chamada.</p><p>— Oi, ainda tá aí? — Fernanda questionou. — Heitor, você tá</p><p>ficando pesado, meu filho. — resmungou e Alex soltou uma risada ao</p><p>imaginar sua ex-esposa levando o garoto em seu colo.</p><p>— Tô sim! Você vai entortar a coluna carregando esse menino, ele</p><p>tá quase do teu tamanho.</p><p>— Eu sei, mas ele ainda é o meu bebê.</p><p>— Ele nunca vai deixar de ser o nosso bebê.</p><p>— Exatamente! Ah, espera um segundo, quero falar com você sobre</p><p>um assunto. — ela pediu e em seguida a ligação ficou muda. Alex</p><p>tamborilou os dedos sobre a própria barriga e fitou o teto. Estava ansioso e</p><p>com uma sensação pesada e congelante no estômago. — Pronto.</p><p>— Colocou ele na cama?</p><p>— Sim.</p><p>— E o que queria falar?</p><p>— Quando você vai voltar? A gente precisa resolver os papéis do</p><p>divórcio.</p><p>— Eu sei, Nanda… tem algumas coisas que preciso pensar e ficar</p><p>aqui tem me ajudado.</p><p>— Sério? E você tem aproveitado a solteirice? Lembro que aquela</p><p>frentista do posto da rodovia era caidinha por você.</p><p>— Ela ainda é. — sorriu de lado.</p><p>— Sabia! Então quer dizer que você…</p><p>— Não! Eu nunca tive nenhum interesse por ela.</p><p>— Aham. — suspirou fundo. — Olha, eu sei que você sempre amou</p><p>a fazenda e deve tá sendo um sonho ficar aí sem se preocupar em voltar,</p><p>mas a gente precisa resolver tudo, Alex. E precisamos contar pro Heitor</p><p>também.</p><p>— Eu sei. Desculpe estar adiando tudo isso, sei que você gosta de</p><p>resolver as coisas de uma vez, sem deixar pontas soltas. Prometo que assim</p><p>que der eu vou aí pra gente dar entrada no divórcio.</p><p>— Tudo bem, não tô te apressando nem nada, só não consigo</p><p>controlar a minha ansiedade, sabe? A gente não tá junto, mas estamos</p><p>mantendo esse casamento como se fossemos um casal feliz e eu não sei</p><p>como lidar com isso.</p><p>— Fernanda, a única coisa que ainda nos liga é uma certidão de</p><p>casamento e o nosso filho. Você é livre pra sair com outros caras e fazer o</p><p>que quiser de sua vida, não precisa se apegar a isso. Nós ainda somos</p><p>amigos e eu quero que você seja feliz.</p><p>— Eu sei… desculpa ficar te apressando. Vamos resolver isso com</p><p>calma,</p><p>quando tiver um tempo você vem aqui e a gente faz o que tem de</p><p>fazer.</p><p>— Certo, vou dormir agora, acordei cedo e tô cansado.</p><p>— Você e esse espírito de velho. — ela brincou, o que arrancou uma</p><p>risada de Alex. Entretanto, o riso em seu rosto diminuiu ao lembrar de Luan</p><p>fazendo piadas daquele tipo.</p><p>— Você me conhece… até amanhã, Nanda.</p><p>— Boa noite, Alex.</p><p>Alexandre desligou e deixou o celular sobre a mesa de cabeceira.</p><p>Seu peito despido subiu com a lufada de ar que inalou e se esvaziou quando</p><p>ele o deixou escapar de seus pulmões. Sentia saudade de Luan e eles só</p><p>estavam há dois dias sem se falar, e aquela reação só mostrava o quanto ele</p><p>estava apegado aquele garoto. Mais apegado do que achou que ficaria em</p><p>tão pouco tempo estando solteiro.</p><p>Conformado com sua situação, ele se levantou para ir até o banheiro</p><p>escovar os dentes. Após finalizar sua higiene, voltou ao quarto e quando</p><p>estava se preparando para retirar sua cueca, uma batida suave foi desferida</p><p>contra a porta. Alexandre procurou por algo para se vestir e encontrou uma</p><p>bermuda jeans jogada sobre uma cadeira no canto do quarto.</p><p>Depois de ficar minimamente apresentável, ele abriu a porta e se</p><p>deparou com Luan escorado no batente e com os braços cruzados. Seus</p><p>cabelos estavam parcialmente presos para trás, os olhos pareciam inchados</p><p>e o lábio inferior era mordiscado em um gesto claro de nervosismo.</p><p>— Tá tudo bem, Luan?</p><p>— Oi, tá sim… a gente pode conversar?</p><p>— Claro, pode entrar. — deu espaço e o deixou entrar.</p><p>Quando fechou a porta, ele cruzou os braços numa tentativa falha de</p><p>esconder seu corpo. Luan caminhou até a cama e se sentou, entrelaçou as</p><p>mãos sobre o colo e observou todo o quarto, evitando ao máximo olhar para</p><p>o homem grande e imponente parado como uma estátua.</p><p>Ambos ficaram em silêncio por alguns segundos, Luan sentia seu</p><p>estômago revirado, suas mãos suavam as poças e sua mente super acelerada</p><p>dava claros indícios de que entraria em curto-circuito a qualquer momento.</p><p>Ele nunca havia feito aquilo. Nunca se prestou ao papel de ir conversar com</p><p>alguém ou se desculpar por alguma coisa, mesmo que ele fosse a pessoa</p><p>errada. Luan não sabia ter conversas sérias porque nunca se importou o</p><p>suficiente para tê-las. Mas ele se importava mais do que devia com</p><p>Alexandre e por isso estava ali.</p><p>— Cê vai falar alguma coisa? — Alex perguntou.</p><p>— Eu queria… conversar com você sobre o que aconteceu.</p><p>— Estou ouvindo, Luan.</p><p>— Primeiro, quero me desculpar pela forma que agi naquele dia</p><p>quando você ofereceu ajuda, mas eu não gosto mesmo de dever ninguém e</p><p>não gosto de ser dependente.</p><p>— Isso eu entendi, Luan, não vai mais acontecer.</p><p>— Certo. — murmurou baixo. Seu pé cutucava o carpete e seus</p><p>olhos se mantiveram naquele ponto. — E me desculpa por ter explodido. Eu</p><p>acredito em você, só fiquei bolado com uma coisa…</p><p>— Com o quê? — franziu o cenho em confusão.</p><p>— Nada de mais. Eu só…</p><p>— Isso é porque eu ainda tô casado no papel? — Luan não</p><p>respondeu, mas moveu sua cabeça lentamente. — Luan, o que eu vou</p><p>precisar fazer pra você entender que eu não tô mais casado?</p><p>— Eu não sei, Alexandre!</p><p>— Cê foi o primeiro a dizer que não queria assumir isso que a gente</p><p>tem. Mas é isso que você quer, não é? Quer assumir e por isso o meu</p><p>divórcio tá te incomodando.</p><p>— Não, eu não quero assumir nada, mas também não quero ser</p><p>amante de ninguém. Eu já disse várias vezes que eu não sou amante! Não</p><p>vou ser o teu segredo sujo!</p><p>Alexandre passou ambas as mãos pelos cabelos ainda úmidos do</p><p>banho e soltou uma risada nasalada.</p><p>— Você não quer ser um segredo, mas não quer assumir a gente?</p><p>Onde que isso faz sentido?</p><p>— Uma coisa é eu me envolver no sigilo sabendo que você é um</p><p>cara solteiro. Outra coisa é eu me envolver no sigilo sabendo que você tem</p><p>uma mulher e um filho esperando por você na capital. São duas coisas</p><p>completamente diferentes, Alexandre.</p><p>— Meu anjo, por favor… — suspirou fundo e fitou o teto. — Me</p><p>diz o que eu tenho que fazer pra te provar que eu não tenho ninguém na</p><p>minha vida além de você? — Luan não disse nada, sua aflição o consumia</p><p>ao ponto de sequer deixá-lo olhar para Alex por muito mais tempo. —</p><p>Espera, eu vou te provar.</p><p>Em passos confiantes, ele se aproximou da mesa de cabeceira e</p><p>pegou seu celular. Luan franziu o cenho e o observou com atenção.</p><p>— O que vai fazer? — inquiriu, mas Alex não respondeu, apenas</p><p>levou o celular ao ouvido e esperou. — Alexandre, o que cê tá fazendo?</p><p>— Tô ligando pra Fernanda, ela vai te falar que a gente não tá mais</p><p>junto.</p><p>— Tá ficando doido?! — em um pulo, Luan se levantou da cama e</p><p>se apressou até alcançar Alexandre. Rapidamente, ele tomou o celular e</p><p>desligou a chamada. — O que você tem na cabeça?</p><p>— Uma vontade absurda de te provar que eu não tô mentindo! Me</p><p>devolve o celular, eu vou ligar pra Fernanda e ela vai te falar a verdade. —</p><p>estendeu a mão e esperou.</p><p>— Não! Você não vai ligar pra ninguém! Não precisa me provar</p><p>nada, Alexandre, você não é casado, já entendi.</p><p>— Agora acredita em mim?</p><p>— Sim, porque só se você fosse doido ao ponto de ligar pra sua</p><p>esposa pra falar com o seu amante.</p><p>— Você não é o meu amante, garoto.</p><p>— Já entendi!</p><p>Alexandre o observou sentar novamente e mordeu um sorriso que</p><p>tentou escapar.</p><p>— Fico feliz.</p><p>— Mas agora eu quero te falar uma coisa…</p><p>— Pode falar.</p><p>— Eu tô gostando de você. — confessou sem encará-lo.</p><p>O coração de Alexandre bateu descompassado e seus olhos verdes</p><p>brilharam como esmeraldas.</p><p>— Eu também tô gostando de você.</p><p>— Mas isso não vai durar muito tempo.</p><p>— Como assim? — questionou e acabou sentando-se ao lado dele.</p><p>— Eu vou embora no começo do ano que vem. Vou voltar pra</p><p>capital.</p><p>— Mas o que isso tem a ver com a gente? Não precisa ser um</p><p>impedimento, Luan.</p><p>Luan levantou e caminhou de um lado para o outro. Estava nervoso,</p><p>e sentir o peso do olhar de Alex era sufocante.</p><p>— Acontece que eu não sou do tipo que namora, eu não fico com</p><p>alguém por tanto tempo e não me apego rápido, mas por algum motivo eu</p><p>tô me apegando a você e eu não posso! Você é o chefe dos meus pais, tá</p><p>enrolado nisso do divórcio, e até um mês atrás era o modelo perfeito de</p><p>hétero! Eu não posso me apegar a você, não posso continuar com isso, e eu</p><p>não quero te dar esperanças de algo que não vai rolar.</p><p>— Ei, ei, ei… calma. — se levantou e segurou Luan pelos braços.</p><p>Grudou seus olhos aos dele e sorriu contido. — Olha, eu te entendo… juro</p><p>que te entendo. Eu também não esperava me apegar tão rápido a alguém</p><p>enquanto passo por um divórcio, mas aconteceu. — moveu sua mão e</p><p>acariciou a bochecha corada. — A gente não precisa rotular o que temos,</p><p>Luan. Ainda estamos nos conhecendo, então não tem pressa, vamos só</p><p>viver um dia de cada vez, vamos nos curtir, aproveitar o tempo juntos, e se</p><p>for pra ser, vai ser. Se não, a gente termina e segue a vida.</p><p>— Você não se importa de ficar comigo em segredo? — ergueu a</p><p>cabeça e mirou seus olhos negros e arregalados no rosto másculo.</p><p>— Eu não me importo, contanto que eu esteja com você e que fique</p><p>confortável também. Mas não tenho problema nenhum em assumir o que a</p><p>gente tem.</p><p>— Você faz parecer tão fácil… — projetou um bico manhoso que</p><p>Alex se conteve para não beijar.</p><p>— A vida é fácil, garoto, a gente que complica tudo.</p><p>— Certo… então estamos bem? Cê ainda quer dar um tempo?</p><p>— Não, eu não quero. Só quero me deitar naquela cama e te beijar</p><p>até cair no sono.</p><p>— Acho que posso fazer isso. — Luan envolveu o pescoço de</p><p>Alexandre com seus braços e o beijou devagar. Ele não viu, mas sentiu</p><p>quando a mão de Alex agarrou seus cabelos e removeu o elástico que os</p><p>prendia. Os dedos deslizaram pelas mechas com suavidade e um arrepio</p><p>gostoso percorreu sua pele.</p><p>— Amo o teu cabelo solto… — soprou ao se afastar minimamente.</p><p>— Já notei.</p><p>— Vem, vamos deitar um pouco. Esses últimos dois dias foram um</p><p>inferno, agora só quero aproveitar meu tempo contigo.</p><p>— Tá bom… mas só um pouquinho, depois eu tenho que voltar pro</p><p>meu quarto.</p><p>Alexandre assentiu e caminhou com Luan até a cama, quando se</p><p>acomodaram sobre o colchão, Luan se agarrou ao torso nu e aspirou o</p><p>cheiro amadeirado da pele alheia.</p><p>Alex fez o mesmo, inalou o cheiro dos</p><p>cabelos de Luan e sentiu seu corpo relaxar e seu coração bater controlado.</p><p>Sincronizado com o do garoto em seus braços.</p><p>— Eu gosto muito de você, Luan…</p><p>— Eu também gosto muito de você, Alexandre.</p><p>CAPÍTULO CATORZE</p><p>Depois da conversa que tiveram, Alexandre e Luan ficaram mais</p><p>confortáveis na companhia um do outro, como se a relação que eles</p><p>possuíam se estreitasse conforme passavam as noites juntos.</p><p>Aqueles momentos se tornaram extremamente significativos e</p><p>importantes para ambos, pois eram quando não precisavam fingir que não</p><p>se gostavam mais do que era o sensato, quando eles conversavam sobre</p><p>tudo o que vinha à mente, onde podiam demonstrar carinho, onde se</p><p>beijavam até as bocas ficarem dormentes, ou se tocavam até que os gemidos</p><p>guturais ressoassem pelas paredes do quarto e o prazer escorresse por suas</p><p>mãos experientes.</p><p>Luan passava quase todas as noites no quarto de Alexandre, já havia</p><p>se tornado um ritual. Ele chegava do trabalho, tomava banho e depois de</p><p>jantar, esperava apenas o momento em que seus pais fossem dormir, então</p><p>ele escapava para o quarto ao lado do seu. Às cinco da manhã, seu telefone</p><p>soava com o despertador programado, então ele sabia que era hora de voltar</p><p>para a própria cama e esperar que sua mãe fosse acordá-lo às seis para</p><p>trabalhar.</p><p>Naquele instante, Luan esfregava os olhos para espantar o sono</p><p>enquanto comia um pedaço de beiju, havia uma caneca cheia de</p><p>achocolatado ao lado de seu prato que ele não tardou a pegar para sorver</p><p>um gole generoso.</p><p>— Luan, cê vai na festa que vai ter na cidade no fim de semana? —</p><p>Manu perguntou. Guardava a louça que havia lavado ainda a pouco, mas</p><p>fitou o garoto por sobre o ombro.</p><p>— Não sei, acho que não.</p><p>— Por quê? Nunca mais te vi em uma festa, nem no bar do Nestor.</p><p>— Eu tô precisando economizar, e não tô com muito pique pra sair.</p><p>— desconversou.</p><p>— Entendi. Mas se mudar de ideia, me avisa. O Pedro e o Gustavo</p><p>vão também, a gente tá combinando já tem dias e o Guto me pediu pra te</p><p>chamar.</p><p>— Ah, eu vou ver, qualquer coisa eu te aviso.</p><p>— Tudo bem.</p><p>Luan voltou a ficar em silêncio, um incômodo pesou em seu</p><p>estômago e o fez deixar a refeição de lado. Desde a fatídica conversa que</p><p>teve com Gustavo há algumas semanas, eles não estavam se falando como</p><p>era de costume. De alguma forma, Luan sentia certo julgamento no olhar de</p><p>seu amigo e por isso se manteve distante. Gustavo não tocou mais no</p><p>assunto e, nas poucas vezes que conversaram, foram assuntos banais e que</p><p>os deixaram desconfortáveis um com o outro. Luan estava disposto a mudar</p><p>sua relação com ele, mas ainda não sabia como fazê-lo.</p><p>— Bom dia! — Alexandre cumprimentou ao entrar na cozinha.</p><p>Disfarçadamente e enquanto mastigava um pedaço do beiju, Luan</p><p>deslizou seus olhos pelo corpo grande e bem construído. Alex usava botinas</p><p>marrons, uma calça jeans gasta e uma camisa xadrez de botões, sobre seus</p><p>cabelos loiros, o chapéu branco e grande completava as vestimentas,</p><p>deixando-o incrivelmente atraente e com cara de quem tinha milhares de</p><p>alqueires de terra, bovinos no pasto e dinheiro na conta.</p><p>O que não era uma mentira.</p><p>— Bom dia, patrão. Vai querer comer cuscuz ou beiju? — Manu</p><p>perguntou.</p><p>— Só vou tomar um pouco de café, obrigado. — respondeu e se</p><p>acomodou no seu lugar de costume, de frente para Luan. — Dormiu</p><p>comigo, Luan? Não vai me dar bom dia? — indagou ao servir uma</p><p>quantidade generosa do líquido fumegante em uma caneca.</p><p>— Canalha… — Luan sussurrou para que apenas Alex pudesse</p><p>ouvir. — Bom dia, senhor, desculpe a minha falta de educação. Não dormi</p><p>bem de noite, sabe?</p><p>— Entendi… espero que tenha aproveitado a noite.</p><p>— Ah, eu aproveitei sim.</p><p>— Saiu com o Guto ontem, Luan? — Manu perguntou, permaneceu</p><p>de costas para os dois e por isso não via os sorrisos provocativos em seus</p><p>rostos. — Ele chamou o Pedro pra beber, mas ele tava cansado e não foi.</p><p>— Hum, não, a gente não se falou ontem.</p><p>— Saquei. O Pedro disse que ele tá com alguém, achei que fosse…</p><p>— Manuela! Olha a boca! — repreendeu e Manu girou e o encarou</p><p>com os olhos arregalados.</p><p>— Puta merda, desculpa!</p><p>— Tá tudo bem, só… cuidado com o que fala, principalmente perto</p><p>de mainha.</p><p>— Foi mal, mesmo, Luan.</p><p>— Tranquilo.</p><p>Alexandre tomou seu café em silêncio, observando como o garoto a</p><p>sua frente ficou tenso e nervoso em questão de segundos. Ele tinha ciência</p><p>de que os pais de Luan não sabiam sobre sua sexualidade, mas pela forma</p><p>que ele sempre agia, não imaginava que aquilo fosse algo do qual ele</p><p>tivesse tanto medo.</p><p>— Eu te falei que o milho ia acabar, não falei? — dona Maria entrou</p><p>pela cozinha com seu Joaquim a seguindo de perto.</p><p>— Tu disse sim, Maria. — resmungou e sentou em um banco menor</p><p>na cabeceira da mesa. — Vamo ter de comprar milho pras galinhas.</p><p>— Vou mandar o Rafael trazer da cidade. — Alex respondeu.</p><p>— Essa semana tem de fazer a compra daqui e dos peões. — Maria</p><p>informou.</p><p>— Vou falar pro Rafael passar no mercado ainda hoje pra liberar a</p><p>compra.</p><p>— Rafael deveria receber um aumento, o coitado faz tudo nessa</p><p>fazenda. — Luan comentou divertido.</p><p>— Ele ganha o suficiente pra ser pau-mandado. — brincou, mas a</p><p>risada que Luan soltou encheu seu peito com um calor reconfortante.</p><p>— Vou fazer uma galinha com pequi pro almoço.</p><p>— Oh, vou mandar o Rafael trazer o refrigerante da cidade. —</p><p>Alexandre falou, e dessa vez, todos soltaram risadas.</p><p>Cerca de dez minutos depois, Luan e seu pai saíram porta afora e</p><p>Alex se dirigiu ao escritório. Passou toda a manhã resolvendo pendências e</p><p>contratos de compra e venda de gado. Quando morava na capital, a maioria</p><p>daquelas questões era Rafael que resolvia, Alex só era contatado quando</p><p>surgia algo que Rafael precisava de algum tipo de autorização ou</p><p>direcionamento, e a cada quinze dias, ele ia até ali para verificar o</p><p>andamento de tudo.</p><p>Ele apreciava tudo o que Rafael fazia, mas admitia que gostava</p><p>demais de tomar conta de suas terras e tudo o que a envolvia. Era</p><p>apaixonado pelo campo, por viver na fazenda e por trabalhar com o que</p><p>amava. Sem contar que aquele era o legado que seu pai havia deixado e que</p><p>ele deixaria para Heitor um dia.</p><p>Ele se sentia em casa. Aquelas terras e aquele lugar eram o seu lar.</p><p>Batidas animadas ecoaram pelo cômodo, e depois de autorizar,</p><p>Rafael surgiu com um chapéu preto sobre a cabeça e um sorriso enorme em</p><p>seu rosto.</p><p>— A Nona disse que o almoço tá pronto. Eu trouxe a Coca-Cola!</p><p>Luan perambulava pelo curral, ajudando Gabriel, seu pai e os peões</p><p>na vacinação contra a brucelose. Era algo importante e aplicado apenas nas</p><p>bezerras entre três a oito meses. Por isso, ele permaneceu ali, não sabia</p><p>muito sobre vacinação então só fazia o que lhe era mandado.</p><p>Quando fizeram uma pausa, ele caminhou em direção ao seu amigo</p><p>sentado em um canto mais afastado do curral. Ocupou um pequeno espaço</p><p>ao lado de Gustavo e suspirou fundo.</p><p>— Cê tá bem? — indagou.</p><p>— Eu tô, e você?</p><p>— Tô legal.</p><p>— Vai na festa no fim de semana?</p><p>— Ainda não sei.</p><p>— Entendi…</p><p>Luan olhou ao redor enquanto batia a botina contra a madeira abaixo</p><p>de seus pés.</p><p>— Escuta, a gente não tá bem esses dias, mas eu não quero manter</p><p>esse clima estranho. Você foi a primeira pessoa que eu fiz amizade aqui e</p><p>apesar de tudo, ainda quero ser teu amigo.</p><p>— Eu também, Luan. — ele removeu o boné de sua cabeça e passou</p><p>uma das mãos sobre seus cabelos castanhos. — Olha só, desculpa pelo que</p><p>eu te disse naquele dia. Não sei como as coisas funcionam entre vocês dois,</p><p>mas não tenho o direito de me meter ou falar sobre o que eu não sei.</p><p>— É complicado, Guto.</p><p>— Tudo bem, não precisa me explicar nada.</p><p>— Certo. — abriu um sorriso lateral e fitou o perfil bonito. — Cê tá</p><p>saindo com alguém?</p><p>— Tô… como é que você soube?</p><p>— Um passarinho fofoqueiro me contou.</p><p>— A Manu? — inquiriu e Luan assentiu. — Ela e o Pedro não</p><p>sabem ficar de boca fechada.</p><p>— Realmente. Mas, e aí? Não vai me contar quem é?</p><p>— A Renata.</p><p>— Tá de brincadeira?! — exclamou surpreso. — Aquela que</p><p>trabalha na conveniência?</p><p>— Sim, ela mesmo. Conhece?</p><p>— Conheci no dia que sai com o pessoal.</p><p>— Pois é, a gente tá saindo</p><p>mais caros daquela região. Quando pegou a estrada de chão e foi cercado</p><p>pelo breu da noite, seus olhos arderam pela súbita vontade de chorar.</p><p>Sua história de amor com Fernanda havia chegado ao fim, e</p><p>mesmo que fosse doloroso colocar um ponto final, ela havia terminado da</p><p>mesma forma que iniciou; com calma, respeito e carinho.</p><p>Uma história sempre tinha um início, meio e fim, e Alexandre</p><p>finalmente se permitiu admitir que estava ansioso para os próximos</p><p>capítulos de sua jornada.</p><p>CAPÍTULO DOIS</p><p>Alexandre chegou à fazenda Serra Dourada por volta das três horas</p><p>da manhã.</p><p>Uma chuva fraca caía quando ele passou pelas cancelas de madeira</p><p>e ao estacionar em frente ao casarão, olhou ao redor e viu as luzes acesas</p><p>nas varandas das casas de seus funcionários. Avistou também um carro</p><p>prata parado numa parte mais escura perto do curral, porém, ele sequer se</p><p>preocupou, pois se estavam ali, então eram funcionários da fazenda.</p><p>Ansioso para descansar na cama confortável em seu quarto, ele</p><p>pegou a pistola embaixo do banco do motorista, que usava para se proteger</p><p>de possíveis assaltos na estrada, e a escondeu dentro de sua mochila, pegou</p><p>seu chapéu e depois de colocá-lo sobre sua cabeça, abriu a porta da Dodge</p><p>Ram e desceu.</p><p>Caminhando apressadamente, ele alcançou a varanda espaçosa que</p><p>ficava em frente à enorme construção. Bateu seus pés contra o capacho para</p><p>livrar suas botas da sujeira e entrou na casa. A porta estava aberta, como</p><p>sempre ficava, e ele tentou ao máximo não fazer barulho. No entanto,</p><p>parecia impossível passar despercebido por Maria, a governanta da casa e a</p><p>mulher que ajudou a criá-lo desde bebê.</p><p>— Isso é hora de pegar a estrada Xandinho? — a senhora, que tinha</p><p>cinquenta e oito anos e vários fios brancos enrolados em um coque folgado</p><p>sobre sua cabeça, apareceu no corredor que levava para os quartos dos</p><p>funcionários.</p><p>— Desculpa, Nona. Rafael me ligou dizendo que estava com</p><p>problemas e eu já queria tá aqui pra resolver no cantar do galo. Não quis</p><p>acordar a senhora. — ele se aproximou, a abraçou de lado e deixou um</p><p>beijo em sua testa levemente enrugada. — Tava com saudade.</p><p>— Eu também tava com saudade tua, menino…</p><p>— O que tá fazendo acordada a essa hora? Não me diz que seu</p><p>Joaquim tá doente de novo?</p><p>— Não, meu véio tá bem de saúde. Eu tô esperando aquele</p><p>irresponsável do meu filho chegar da cidade. — comentou chateada.</p><p>— Seu filho? — Alex franziu o cenho e caminhou em direção à</p><p>cozinha com a senhora em seu encalço.</p><p>— Sim, o Luan… ele chegou mês passado, aprontou lá na capital e</p><p>o Joaquim decidiu trazer ele de volta. — explicou de forma superficial.</p><p>Alexandre ocupou um dos bancos de madeira enquanto observava o</p><p>bolo de milho em uma bandeja de vidro. Seu estômago roncou alto e dona</p><p>Maria acabou rindo. Se lembrou de ter recebido uma ligação de Rafael no</p><p>mês anterior falando sobre um dinheiro para a fiança do filho de seu</p><p>caseiro, Joaquim. Porém, estava tão imerso em seus problemas conjugais</p><p>que sequer se atentou àquele acontecimento.</p><p>— Ele morava lá há muito tempo, né? — perguntou enquanto servia</p><p>um pedaço generoso do bolo no prato que a senhora colocou diante de si. —</p><p>Não me lembro de ter visto ele por aqui.</p><p>— Sim, ele foi morar na capital com a minha comadre com uns</p><p>quinze anos pra estudar naquelas escolas chiques, ficou lá até começar na</p><p>faculdade de administração, mas aprontou e a gente trouxe ele de volta. —</p><p>informou de forma calma enquanto servia uma caneca de café com leite que</p><p>deixou ao lado do prato de Alexandre. — Tu não via ele porque o Joaquim</p><p>não trazia ele pra cá antes, quando ele veio, tu já morava na capital.</p><p>— E ele tá com quantos anos agora?</p><p>— Vinte, fez no início do ano.</p><p>— Entendi.</p><p>O assunto mudou para os acontecimentos recentes na fazenda e</p><p>enquanto a ouvia, Alexandre devorou dois pedaços de bolo. Quando se</p><p>sentiu satisfeito, ele se despediu da mulher e seguiu em direção ao corredor</p><p>onde ficavam os quartos de hóspedes e o seu.</p><p>Sentindo seu corpo completamente esgotado da viagem, ele mandou</p><p>uma mensagem a Fernanda avisando que havia chegado em segurança,</p><p>tomou um banho rápido, ligou o ar condicionado e ainda nu, se deitou sobre</p><p>a enorme cama de casal.</p><p>Em poucos minutos ele adormeceu.</p><p>Às seis e meia da manhã, Luan estava sentado no banco em frente à</p><p>mesa de madeira e quase cochilando sobre o prato com cuscuz.</p><p>Seus olhos pesavam e uma dor de cabeça irritante, pela falta de uma</p><p>boa noite de sono, o incomodava. Tudo o que ele queria naquele momento</p><p>era poder voltar até o seu quarto e dormir até o meio-dia, mas tinha plena</p><p>consciência de que não podia.</p><p>— Aqui, toma um pouco de café pra espantar o sono. — sua mãe</p><p>falou e colocou uma xícara com o líquido fumegante sobre a mesa. — Eu</p><p>disse pra tu voltar cedo e tu me chega aqui quase quatro horas da manhã,</p><p>Luan? Isso lá é hora de chegar pra casa?</p><p>— Foi mal, mainha… acabei perdendo a hora, não vai mais</p><p>acontecer. — falou baixo.</p><p>— Tu disse isso na semana passada, garoto.</p><p>Luan não respondeu, fitou por mais alguns segundos a comida e</p><p>quando se sentiu minimamente desperto, comeu em silêncio e bebeu o café</p><p>forte e amargo que sua mãe havia preparado.</p><p>— Acabou o açúcar?</p><p>— Não, mas o menino Xandinho gosta de café amargo, ele já vai</p><p>descer pra comer com a gente. — murmurou sem olhar para o filho, estava</p><p>mais concentrada em preparar o café da manhã de seu marido e de</p><p>Alexandre.</p><p>— A vida desse cara deve ser um inferno ou ele se odeia demais pra</p><p>querer tomar café amargo na primeira hora da manhã. — resmungou,</p><p>porém, sentiu um arrepio na espinha quando ouviu passos firmes soando</p><p>atrás de si.</p><p>— Tenha mais respeito, Luan! — dona Maria repreendeu e assim</p><p>que avistou Alexandre entrar na cozinha, abriu um sorriso amarelo. — Não</p><p>ligue pras bobagens que esse menino diz, Xandinho. — gesticulou afoita.</p><p>Alexandre sorriu de lado e desviou o olhar da senhora para o garoto</p><p>sentado diante da mesa.</p><p>— Bom dia. Cê deve ser o famoso Luan. — estendeu a mão e</p><p>observou atentamente quando o garoto se moveu e ergueu a mão,</p><p>envolvendo-a na sua em um aperto firme.</p><p>— Famoso eu não sei, mas Luan é meu nome, senhor. — respondeu</p><p>baixo. — Desculpa aí pelo que eu disse, não quis ofender.</p><p>— Tudo bem, garoto. — Alexandre se afastou e ocupou um assento</p><p>vago de frente para Luan.</p><p>Seus olhos vasculharam o rosto jovem e bonito, emoldurado por</p><p>alguns fios de cabelos escuros que escapavam do elástico que os prendiam</p><p>para trás. O nariz dele era arrebitado e enfeitado por um piercing, sua</p><p>mandíbula bem desenhada e a boca era pequena, mas seus lábios eram</p><p>volumosos e pareciam naturalmente rosados. Quando ele virou o rosto de</p><p>lado, Alexandre pôde notar uma tatuagem em números romanos na diagonal</p><p>atrás da orelha que possuía alguns brincos.</p><p>Luan era um rapaz muito, muito bonito, ele pensou.</p><p>— Eu já disse que não precisa fazer o café assim só porque eu gosto,</p><p>Nona. — murmurou divertido enquanto servia um pouco do líquido preto</p><p>em uma xícara.</p><p>— Não tem problema, menino…</p><p>Luan se manteve calado, seus olhos permaneceram focados no prato</p><p>com cuscuz, mas sua mente estava trabalhando a todo vapor.</p><p>Ele não imaginava que o chefe dos seus pais fosse um homem tão</p><p>novo e tão bonito. Esperava por alguém mais velho, com uma aparência</p><p>desleixada e talvez desprovido de beleza.</p><p>Definitivamente, ele não imaginava que fosse conhecer um deus</p><p>grego em pessoa.</p><p>Quando era adolescente, Luan foi para a capital na intenção de</p><p>estudar e, durante os cinco anos em que passou fora, ele só voltava para</p><p>casa uma ou duas vezes ao ano. Levando em conta que ele não frequentava</p><p>a fazenda quando criança e seus pais só haviam se mudado para lá há um</p><p>ano, ele nunca teve a oportunidade de conhecer Alexandre.</p><p>Entretanto, agora ele conheceu, e se repreendeu mentalmente por</p><p>nunca ter procurado saber sobre ele.</p><p>Joaquim apareceu logo depois, e conversando sobre o trabalho que</p><p>teriam naquele dia, os quatro tomaram café da manhã.</p><p>— Tu chegou tarde de novo ontem, Luan? — Joaquim perguntou</p><p>quando se levantaram da mesa.</p><p>— Sim, painho… acabei perdendo a hora, desculpa.</p><p>Alexandre bebeu o que restava</p><p>há uma semana.</p><p>— E você tá gostando dela?</p><p>Gustavo girou a cabeça e observou o rosto de Luan, que mantinha</p><p>um riso ladino e os olhos negros brilhando com curiosidade.</p><p>— Eu tô. — ele hesitou, Luan percebeu. — Ela é bacana.</p><p>— Entendi… fico feliz que vocês estejam se dando bem.</p><p>— Eu também, Luan, eu também. Vamos trabalhar?</p><p>— Vamos sim… — os dois se levantaram, mas quando Gustavo</p><p>tentou se afastar, Luan o segurou pelo pulso. — Guto, a gente tá bem, não</p><p>tá?</p><p>Gustavo focou seu olhar no toque singelo da mão fria em sua pele e</p><p>sentiu um embrulho em seu estômago.</p><p>— A gente tá bem, Luan. — abriu um sorriso tenso.</p><p>— Certo.</p><p>Luan sorriu ao sentir como se um peso tivesse saído de seus ombros</p><p>e alívio tomou conta de suas expressões. Mas quando olhou por cima do</p><p>ombro de Gustavo, seu olhar cruzou com esferas verdes e afiadas</p><p>completamente focados em si.</p><p>Alexandre estava mais ao longe com a médica veterinária ao seu</p><p>lado. A postura ereta o deixava maior do que já era, a mandíbula coberta</p><p>pela barba bem aparada estava tensionada e suas mãos se abriam e</p><p>fechavam em punhos cerrados há cada dois segundos.</p><p>Ele estava irritado, e Luan sentiu seu baixo ventre contrair em</p><p>expectativa.</p><p>Entretanto, ao se aproximar com o amigo ao seu lado, ele notou algo</p><p>que havia passado despercebido. Os quatro botões da camisa de Alexandre</p><p>estavam fora de suas casas, expondo de forma parcial o torso musculoso.</p><p>Aquilo nem era algo que o incomodava de fato, e sim os olhos de águia de</p><p>Verônica que pareciam não saber se focavam no rosto estupidamente bonito</p><p>ou no peito largo sendo quase esfregado contra seu rosto.</p><p>Em um gesto discreto, ele levou a mão a própria camisa e moveu</p><p>seus dedos, demonstrando para Alexandre exatamente o que deveria fazer.</p><p>Fechar aqueles malditos botões.</p><p>Alexandre arqueou a sobrancelha grossa de forma desafiadora. Para</p><p>provocar, ele cruzou seus braços, tensionando ainda mais seus bíceps</p><p>enquanto acenava para o que a médica veterinária dizia.</p><p>À medida que chegava perto, uma súbita onda de ciúmes começou a</p><p>percorrer seu corpo, o sorriso que havia em seu rosto sumiu e seus olhos se</p><p>estreitaram. Ao passar pelos dois, Luan olhou fixamente para Alex, a</p><p>escuridão em seus olhos expressavam com clareza o que ele queria tanto</p><p>falar. Alexandre entendeu, mas ignorou e virou de costas.</p><p>Quando se afastaram o bastante, Gustavo soltou uma risada e negou</p><p>com a cabeça.</p><p>— Do que tá rindo? — questionou irritado.</p><p>— Cê não sabe ser sutil.</p><p>— O quê?</p><p>— Tá se mordendo de ciúmes dele por causa da Verônica.</p><p>— Não tô não!</p><p>— Aham.</p><p>— Me erra. — grunhiu e se afastou.</p><p>Pelo restante da tarde, Luan manteve seus olhos atentos em</p><p>Alexandre. Se perguntou o que tanto ele conversava com aquela mulher e o</p><p>porquê de não ter abotoado aquela maldita camisa.</p><p>Quando o fim de tarde chegou, seu Joaquim e Gabriel foram tocar as</p><p>bezerras recém-vacinadas para um pasto próximo. Ele ficou responsável por</p><p>guardar no depósito as seringas e todos os utensílios usados e, quando</p><p>terminou, voltou a se aproximar do curral.</p><p>Alexandre ficou parado ao lado de Rafael e Verônica enquanto</p><p>conversavam sobre o bem-estar dos bovinos. Novamente, Luan o encarou e</p><p>gesticulou para que ele fechasse sua camisa, o que ele não fez.</p><p>Ciúmes era um sentimento desconhecido, era pesado e ao mesmo</p><p>tempo pegajoso. Luan estava o sentindo em toda a sua opulência,</p><p>retorcendo suas entranhas, sufocando sua garganta e nublando seus</p><p>pensamentos e visão. Tudo o que ele enxergava era Alexandre com aqueles</p><p>botões desfeitos e aquela mulher devorando-o com o olhar e tocando em</p><p>seu braço musculoso a cada dois segundos.</p><p>Luan nunca pensou que fosse o tipo de cara que veria alguém com</p><p>quem ele tem um caso como posse, ou que se incomodaria tanto ao vê-lo</p><p>interagindo com outra pessoa. Mas pelo que descobriu, ele era exatamente</p><p>aquele tipo de cara. E Alexandre não parecia nenhum pouco afetado com</p><p>aquilo.</p><p>— Fecha esses botões! — murmurou sem emitir som e Alex apenas</p><p>sorriu.</p><p>Vendo que não teria suas vontades atendidas, Luan abriu um sorriso</p><p>perverso e arqueou a sobrancelha em desafio. De forma confiante, ele</p><p>caminhou até uma torneira baixa com uma mangueira acoplada perto do</p><p>depósito, depois, retirou a camisa de mangas compridas que usava para</p><p>proteger seus braços do sol e a deixou pendurada numa estaca ali perto.</p><p>Antes de se inclinar para ligar o registro da torneira, ele deu uma olhadinha</p><p>em direção a Alex e o flagrou observando-o com extrema atenção.</p><p>O sorriso em seu próprio rosto cresceu ainda mais, e quando a água</p><p>gelada escapou da mangueira, ele se manteve de costas para os três e passou</p><p>a se refrescar. Após molhar o rosto, ele soltou os cabelos do elástico que os</p><p>prendia e os umedeceu. O frio gostoso refrescou seu couro cabeludo e seu</p><p>corpo quente. A regata branca e velha que usava ficou transparente à</p><p>medida que a água escorria, amenizando o calor de um dia quente. Quando</p><p>ficou inteiramente encharcado, ele deixou a mangueira cair e retirou a</p><p>regata.</p><p>Um assovio alto provocou uma risada em si. Ele girou a cabeça e</p><p>observou os três. Veronica o encarava com o cenho franzido, Rafael</p><p>mantinha um sorriso enorme e Alexandre tinha suas expressões fechadas e</p><p>furiosas.</p><p>— Quê isso, hein novinho? — Rafael gracejou. — Luanzinho tá</p><p>pegando corpo trabalhando no campo!</p><p>Luan não respondeu, mas manteve o sorriso lateral e ficou de frente</p><p>para eles. Voltou a pegar a mangueira e molhar seu corpo, esfregou o peito</p><p>magro e levemente definido e observou Alexandre com cuidado.</p><p>Naquele momento, Gustavo saiu do curral e o viu ali, molhado e</p><p>uma delícia. Ele não conseguiu evitar, parou no lugar de forma abrupta e</p><p>passou a observá-lo. Seu coração bateu descompassado e um nó o impediu</p><p>de engolir em seco.</p><p>Alexandre notou e não gostou nenhum pouco. De forma instintiva,</p><p>ele deu um passo à frente e fuzilou seu funcionário, que estava alheio à</p><p>fúria direcionada a si.</p><p>— Oh Gustavo! Seu horário acabou!</p><p>— S-sim, senhor! — assentiu de forma frenética e desviou o olhar.</p><p>— Vai gastar a água do mundo todo, Luan? — Alex indagou</p><p>irritado.</p><p>— Não, senhor. Só tô me refrescando, tá muito calor. O senhor não</p><p>tá achando?</p><p>— Já tá bom, pode ir se refrescar em casa.</p><p>— Sim senhor, mas antes, vou visitar meu filhote relâmpago. —</p><p>desligou a torneira e deixou a mangueira cair no chão, depois de jogar os</p><p>cabelos molhados para trás, ele pegou as duas peças de roupas e as jogou</p><p>em seu ombro.</p><p>— Vai agora não, Luan! Deixa a gente aproveitar mais um</p><p>pouquinho! — Rafael atiçou, adorando ver como seu amigo parecia prestes</p><p>a explodir de ciúmes.</p><p>— Deixa pra outro dia. — Luan respondeu e seguiu em direção ao</p><p>estábulo.</p><p>Alexandre apoiou as duas mãos na cintura e suspirou fundo.</p><p>Acompanhou cada passo de Luan até que ele sumisse de vista.</p><p>Quando sentiu um aperto em seu ombro, olhou para o lado e fitou</p><p>seu melhor amigo com um sorriso tão grande que poderia iluminar uma</p><p>cidade inteira.</p><p>O canalha estava amando cada segundo daquilo.</p><p>— A vida é uma maravilha, não é?</p><p>— A minha tá um inferno, e tudo por causa daquele garoto.</p><p>Após o banho, Alexandre vestiu roupas simples, passou seu perfume</p><p>habitual e depois de pegar o celular sobre a mesa de cabeceira, saiu do</p><p>quarto e bateu na porta ao lado.</p><p>Luan apareceu logo em seguida, com os cabelos úmidos e</p><p>desgrenhados, usando apenas uma calça de moletom com o cós baixo sobre</p><p>os ossos da pelve e com o peito exposto. Seu abdômen exibia um pacote de</p><p>quatro gominhos e os poucos pelos abaixo do umbigo traçavam um</p><p>caminho para a felicidade que Alexandre gostava muito de percorrer.</p><p>Alex voltou a observar o rosto do garoto à sua frente, que parecia</p><p>mais interessado em algum jogo no celular em suas mãos.</p><p>— A gente pode conversar?</p><p>— Vai conversar com aquela veterinária. — resmungou sem encará-</p><p>lo.</p><p>— Sério? Não era eu que estava praticamente pelado tomando</p><p>banho na frente de todo mundo! Que merda foi aquela, Luan?!</p><p>— Eu tava com calor. — deu de ombros.</p><p>— E não podia vir pra casa e tomar um banho aqui? Precisava fazer</p><p>toda aquela cena na frente daquele garoto?</p><p>Luan desviou o olhar do jogo e focou em Alexandre,</p><p>seu rosto</p><p>expressava desdém e certa apatia, o que era bem diferente de seu estado</p><p>comum.</p><p>— Não fiz nada de mais.</p><p>— Luan…</p><p>— Não sei porque tá encucado com isso, não era eu que tava quase</p><p>esfregando o peito na cara daquela veterinária! — exclamou.</p><p>— Não, mas tava pegando na mão daquele garoto!</p><p>— A gente só tava conversando.</p><p>— Eu também estava só conversando!</p><p>— Qual é? A gente vai ficar nesse chove e não molha? Eu tenho que</p><p>voltar pro jogo! — informou e gesticulou com o celular em sua mão.</p><p>— Voltar pro jogo nada! — instintivamente, Alex tomou o celular</p><p>da mão de Luan e entrou no quarto com ele, fechando a porta em seguida.</p><p>— Você vai conversar comigo, agora!</p><p>— Não quero conversar com você, Alexandre!</p><p>— Quer, você quer sim.</p><p>Alexandre jogou o aparelho sobre a cama, deu um passo à frente e</p><p>segurou o rosto jovem em suas mãos calejadas. Seu olhar escaneou cada</p><p>traço exageradamente esculpido, demorando mais que o necessário nos</p><p>lábios avermelhados e entreabertos.</p><p>— Por que tá fazendo isso? Tá com ciúmes de mim?</p><p>— Vai sonhado!</p><p>— Eu acho que tá sim. — acusou e Luan girou o rosto para o lado.</p><p>— Olha pra mim! Tá morrendo de ciúmes de mim com a Verônica.</p><p>Luan agarrou os punhos alheios e abriu um sorriso debochado, deu</p><p>um passo à frente e grudou seu corpo ao maior. Por estar tão próximo e pela</p><p>diferença de dez centímetros de altura, ele teve que erguer a cabeça para</p><p>observá-lo melhor. Sua mão deslizou pelo braço exposto devido à camisa</p><p>simples, sentindo os músculos dos bíceps e o calor da pele.</p><p>— Cê tá doido pra eu falar que tô com ciúmes, não é? — provocou.</p><p>Com a outra mão, ele acariciou o peito largo sob a camisa.</p><p>— Não precisa dizer, meu anjo… eu sei que tá. Aquele teu</p><p>showzinho foi só pra me provocar porque você não se aguentou de ciúmes.</p><p>— prendeu uma mecha do cabelo rebelde atrás da orelha enfeitada de</p><p>brincos. — E quer saber o melhor? Eu gostei da sua crise de ciúmes. No</p><p>entanto, sabe o que eu não gostei nadinha? — escorregou a mão e o segurou</p><p>pelo queixo, com força. — De ver você exibindo esse corpo gostoso para</p><p>aquele garoto!</p><p>— E o que cê vai fazer a respeito disso? — indagou com confiança.</p><p>Alexandre raspou seu polegar pelos lábios de Luan vagarosamente.</p><p>Envolveu o pescoço esguio e o apertou. Em alguns passos, eles se</p><p>aproximaram da cama. Alex aumentou a pressão de seus dedos. Ele</p><p>esfregou os lábios de Luan com força, deixando-o ainda mais vermelho e</p><p>inchado.</p><p>— O que eu vou fazer? — umedeceu os lábios e abriu um sorriso</p><p>ladino. — Eu vou te ensinar que… a única pessoa pra quem deve mostrar</p><p>esse corpo delicioso, é pra mim. — com habilidade, ele empurrou o corpo</p><p>de Luan sobre a cama de casal. — Eu vou te foder até você entender a quem</p><p>pertence.</p><p>— Eu pertenço a você, Alexandre?</p><p>Luan teve seu corpo completamente coberto pelo de Alex e quando</p><p>o rosto dele ficou a centímetros de distância do seu e o brilho de desejo</p><p>nublou as íris verdes, seu coração se descontrolou e uma queimação</p><p>deliciosa percorreu suas entranhas.</p><p>— Inteiramente, Luan! — sussurrou com firmeza. — Você é todo</p><p>meu.</p><p>CAPÍTULO QUINZE</p><p>Luan esperou por aquele momento como se fosse sua primeira vez.</p><p>O desejo que brilhava nos olhos verdes, focados em seu rosto, eram</p><p>hipnotizantes. O corpo grande e bem construído parecia um escudo que o</p><p>protegia de tudo à sua volta. Alex estava acomodado entre suas pernas, os</p><p>braços apoiados firmemente sobre o colchão e ao redor de sua cabeça,</p><p>impedindo-o de ir a qualquer lugar. Como se ele quisesse estar em qualquer</p><p>lugar que não fosse debaixo daquele homem gostoso.</p><p>Por muitos dias, eles fizeram todos os tipos de coisas que pudessem</p><p>pensar. Alex e Luan passaram a conhecer o corpo um do outro como a</p><p>palma de suas mãos. Haviam se tornado experientes na arte de provocar e</p><p>instigar, e, principalmente, na arte de analisar as nuances e o</p><p>comportamento em tudo o que faziam.</p><p>Alexandre sabia que conseguia arrancar gemidos manhosos e suaves</p><p>de Luan quando beijava seu pescoço esguio e cheiroso. Luan sabia que</p><p>aqueles mesmos gemidinhos manhosos serviam como combustível para</p><p>acender o tesão de Alex, então, mesmo que em alguns momentos ele</p><p>precisasse se conter, acabava fazendo o contrário e os deixava escapar.</p><p>Ambos haviam se tornado veneradores um do outro e seus corpos</p><p>eram os templos sagrados ao qual adoravam.</p><p>— Sabe o que eu mais gosto em você? — Alexandre questionou</p><p>baixo. Luan inclinou a cabeça minimamente e esperou. — Cê gosta tanto de</p><p>me provocar, de me deixar louco, mas quando eu te pego de jeito... —</p><p>agarrou o pescoço alheio e apertou com firmeza. — Você se derrete todinho</p><p>pra mim.</p><p>Quando tentou beijá-lo, Luan relutou e girou o rosto para o lado.</p><p>Alex agarrou seu queixo e o fez encará-lo de volta.</p><p>— Não quero te beijar.</p><p>Alexandre recuou e arqueou a sobrancelha em um gesto claro de</p><p>desafio.</p><p>— Essa é a segunda vez que você me nega um beijo, Luan. —</p><p>proferiu com aspereza. — Não repita uma terceira vez!</p><p>De forma abrupta, seus lábios grudaram nos de Luan, sua língua</p><p>pediu passagem como se impusesse uma ordem, que foi atendida</p><p>prontamente. Com destreza, ele deslizou uma de suas mãos pelas costelas</p><p>até alcançar a barra da calça de moletom. Desviou da boca e passou a beijar</p><p>o pescoço esguio, e como se apertasse os botões corretos, logo aqueles</p><p>gemidinhos manhosos ecoaram.</p><p>— Me diz, Luan… por que você se entrega tão facilmente pra mim?</p><p>— Porque você é um filho da puta gostoso.</p><p>— Sou, é? E você gosta de ter esse filho da puta entre as suas</p><p>pernas?</p><p>— Para de falar… — pediu em um tom de voz arrastado.</p><p>— Se eu parar de falar, o que mais vou fazer?</p><p>— Faz o que você prometeu.</p><p>Alexandre soltou uma risada divertida, sua mão adentrou a calça e</p><p>seus dedos tocaram o membro duro a qual estava tão familiarizado.</p><p>— Quer que eu te foda, Luan?</p><p>— Quero… — sussurrou ao inclinar a cabeça para trás.</p><p>De forma precisa, Alex envolveu seus dedos ao redor do pau de</p><p>Luan e o apertou devagar. Sua boca deslizou do pescoço para o torso,</p><p>deixando uma trilha de beijos até alcançar os mamilos amarronzados.</p><p>Desbravar o corpo de Luan havia se tornado seu passatempo</p><p>favorito. Por muitos dias, ele aproveitou cada descoberta que havia feito;</p><p>delimitou seus limites, mesmo que eles fossem quase nulos, aprendeu novas</p><p>coisas, pois Luan era muito bom em ensinar e também demonstrou com</p><p>afinco cada coisa que sabia. Entretanto, eles nunca haviam chegado a</p><p>transar. Aos poucos, seus receios quanto a ter momentos íntimos com um</p><p>homem, foram dissipados e a cada vez que chegava ou fazia Luan chegar ao</p><p>orgasmo, seu desejo por possuí-lo da forma mais carnal que conhecia,</p><p>aumentou. E naquele momento, ele deixaria seus instintos lhe guiarem e</p><p>daria a Luan a melhor noite de toda a sua vida.</p><p>De forma calma, ele se afastou e se manteve ajoelhado, observou a</p><p>bagunça que era Luan sobre aquela cama e abriu um sorrisinho.</p><p>— Vou me odiar muito por perguntar isso, mas você tem camisinha</p><p>e lubrificante?</p><p>— Tenho. — apontou para a mesa de cabeceira ao lado.</p><p>— Me dá palpitação imaginar você e camisinha na mesma cena,</p><p>mas agradeço por ter. — se inclinou e pegou o que precisava. Luan</p><p>observou os três pacotes laminados jogados sobre o colchão junto ao</p><p>pequeno tubo de lubrificante com cheiro de morango.</p><p>— Eu sou bem responsável, Xande. Proteção em primeiro lugar.</p><p>— Se essa proteção não for usada comigo, não quero saber. —</p><p>grunhiu irritado.</p><p>— E depois eu que sou ciumento. — brincou, mas a risada em seu</p><p>rosto sumiu quando seu membro foi masturbado com aspereza. — Ah,</p><p>caralho! Alexandre!</p><p>— Isso: Alexandre! Esse é o nome que você tem de gemer. É a</p><p>quem você pertence! — afirmou e voltou a cobrir o corpo de Luan,</p><p>raspando seus lábios nos dele.</p><p>— Acho que ainda não aprendi a lição, vai precisar ser mais</p><p>persuasivo.</p><p>— Ah, é? Tá me desafiando, garoto?</p><p>— Não, só acho que preciso de…</p><p>Luan não terminou a fala, pois Alexandre se moveu tão rápido ao se</p><p>afastar e girar seu corpo de bruços que ele só teve tempo de ofegar. As</p><p>mãos fortes agarraram seus quadris e o ergueram, deixando sua bunda para</p><p>o alto. Um tapa estalado foi desferido naquele ponto e um</p><p>arquejo baixo</p><p>escapou de sua boca.</p><p>— Você dizia alguma coisa? — Alex perguntou com deboche.</p><p>— Eu te odeio. — soprou contra o colchão.</p><p>— Odeia? — devagar, Alex engatou seus polegares na barra da</p><p>calça de moletom e a arrastou pela pele alva. Por não estar usando cueca,</p><p>logo a bunda ficou exposta. Alexandre sentiu seu membro pulsar contra a</p><p>bermuda, necessitado e desejoso. — Tem certeza que me odeia, Luan?</p><p>Seu polegar raspou entre a bunda farta, tocando em uma parte</p><p>sensível a qual estava bastante familiarizado. Luan se contorceu em busca</p><p>de mais contato, seus dedos apertaram o lençol com força e seu corpo</p><p>vibrou com expectativas que logo foram atendidas.</p><p>A língua experiente deslizou por uma das bandas e serpenteou até</p><p>alcançar a região onde era esperada. Luan gemeu grave com o primeiro</p><p>contato, depois, passou a gemer manhoso enquanto Alex o devorava da</p><p>forma mais deliciosa que conhecia.</p><p>— Não ouvi sua resposta, meu anjo… — falou e voltou a chupá-lo.</p><p>— E-eu te odei… — novamente, ele não pôde responder, porque</p><p>Alexandre mordeu um pedaço da carne de sua bunda enquanto o penetrava</p><p>com o polegar. — Filho da puta!</p><p>Alexandre sorria, ao passo que deixava mordidas e chupões por toda</p><p>a bunda de Luan. Aquilo havia se tornado um hábito que ele nunca</p><p>imaginou que teria, também nunca havia imaginado que em algum</p><p>momento de sua vida fosse se tornar tão possessivo, ainda mais por outro</p><p>cara, como havia se tornado com Luan. Mas a sensação que inflava seu</p><p>peito sempre que via uma marca sua no garoto era indescritível.</p><p>Ele se sentia o homem mais extraordinário do mundo por marcar e</p><p>possuir o melhor homem do mundo.</p><p>— Eu acho que você não me odeia… — murmurou ao se afastar,</p><p>pegou o pequeno tubo de lubrificante e despejou uma quantidade razoável</p><p>na ponta dos dedos. — Acho que você gosta até demais de mim, ainda mais</p><p>quando… — sem pedir permissão, ele espalhou o líquido com cheiro de</p><p>morango e logo forçou dois dedos, introduzindo-os por inteiro no aperto</p><p>caloroso. — Eu faço isso com você.</p><p>Luan soltou um grunhido alto que foi abafado pelos lençóis. Seus</p><p>quadris se moveram em busca de mais, porém, sua empolgação foi</p><p>reprimida quando mais um tapa foi desferido contra sua bunda.</p><p>— Alexandre… — gemeu grave. — Por favor.</p><p>Sua súplica soou como músicas para os ouvidos de Alexandre. Seus</p><p>dedos deslizavam lentamente, sentindo, provocando e alargando aquele</p><p>ponto tão pequeno para que o abrigasse melhor, mesmo que ele soubesse</p><p>que não iria adiantar muita coisa.</p><p>— Por favor, o quê?</p><p>— Por favor, para de me provocar desse jeito e me dê logo o que eu</p><p>quero! — expressou exaltado.</p><p>— Tão impaciente…</p><p>— E você tá tão lento, deve ser a idade.</p><p>Segurando a risada, Alexandre observou o perfil de Luan; olhos</p><p>cerrados, rosto vermelho, lábio inferior preso entre os dentes e as mãos</p><p>agarrando os lençóis amarelos com tanta força que poderiam rasgá-los. Ele</p><p>não respondeu, estava mais disposto a quebrar Luan ao ponto dele esquecer</p><p>o próprio nome.</p><p>Rapidamente, ele se afastou e retirou suas roupas, também tirou a</p><p>calça de Luan que estava presa nos joelhos e o empurrou para que ficasse</p><p>completamente deitado.</p><p>Ao desenrolar a camisinha em seu membro, seus olhos passearam</p><p>pelas costas delgadas até alcançar a bunda marcada por suas mãos e boca.</p><p>Um sorriso perverso pintou seus lábios e uma fome latente ferveu em suas</p><p>veias como larvas de um vulcão.</p><p>Com uma mão, ele apoiou seu corpo sobre o de Luan. Enquanto</p><p>beijava a nuca queimada pelo sol e sentia o cheiro de laranjeira dos cabelos</p><p>pretos, a ponta de seu pau raspou na entrada estreita. De forma cuidadosa,</p><p>seus quadris se moveram devagar, e a cada centímetro vencido naquele</p><p>aperto quentinho, sua respiração começava a ficar ruidosa e seu corpo</p><p>esquentar.</p><p>Luan mordeu o punho para conter o grito que tentou escapar de sua</p><p>garganta. O pau de Alexandre era tão grande e grosso que parecia rasgá-lo</p><p>ao meio. Mesmo com o preparativo, ele ainda conseguia senti-lo em todo o</p><p>seu esplendor.</p><p>— Tá doendo? — Alex questionou preocupado.</p><p>— Pra caralho! — ofegou e apertou os olhos. — Mas não para… se</p><p>parar eu te mato.</p><p>— Se eu parar, pode ter certeza que meu coração para junto. —</p><p>sussurrou a brincadeira. — Mas não quero que seja desconfortável pra você,</p><p>se tiver doendo, eu…</p><p>— Alexandre, olha o tamanho do teu pau! Isso vai me rasgar no</p><p>meio, eu tenho certeza. — exclamou ofegante. — Eu só preciso me</p><p>acostumar, ok?</p><p>— Ok. — concordou e deslizou para dentro dele mais um pouco,</p><p>sua boca não o deixou por nenhum segundo. Ele beijava cada parte que</p><p>alcançava, desde a nuca, os ombros e as costas bonitas. Seus dentes</p><p>arranharam a derme, sua língua lambeu o suor que brotava e aos poucos seu</p><p>pau alcançava mais e mais fundo.</p><p>— Isso é tão gostoso. — Luan confessou.</p><p>Ter o corpo enorme de Alexandre sobre o seu enquanto o pau dele ia</p><p>fundo dentro de si era como o nirvana. Era tão bom que a ardência se</p><p>tornava um mero detalhe. Ele queria gritar a plenos pulmões, queria gemer</p><p>o nome de Alexandre tão alto que seria ouvido até na cidade. Mas não</p><p>podia, por vários motivos que ele não pensaria naquele momento. Então,</p><p>acabou fazendo a única coisa que podia e começou a gemer baixinho,</p><p>chamando o nome de Alexandre como se fosse um mantra.</p><p>Quando a pelve encostou contra sua bunda, seu corpo pareceu entrar</p><p>em combustão. A forma que aquele pau o preenchia com tanta precisão o</p><p>fez cogitar a hipótese de ter sido moldado para caber em si e fazê-lo</p><p>enlouquecer. Ele sentia que se Alex não se movesse, acabaria</p><p>enlouquecendo</p><p>— Luan, o que você tá fazendo? — inquiriu quando o sentiu</p><p>contrair ao seu redor. Os quadris começaram a se mover em busca de mais,</p><p>ele precisou se conter como nunca em sua vida. — Eu não quero te</p><p>machucar.</p><p>— Eu quero que você me foda. — suplicou. — Me come com força,</p><p>Alexandre.</p><p>O som desesperado daquela voz despertou o monstro adormecido</p><p>em Alexandre. Ele estava lutando contra a vontade absurda de estocar</p><p>contra aquela bunda, estava tentando ser cuidadoso já que aquela era a sua</p><p>primeira vez e temia fazer algo errado. Mas como esperado, nada com</p><p>aquele garoto saía como planejado.</p><p>De forma ágil, ele agarrou a coxa direita e a ergueu, deixando-a</p><p>flexionada, se acomodou melhor e voltou a penetrar. O arquejo que escapou</p><p>da boca de Luan e a forma que ele movia seu corpo de encontro ao seu</p><p>causou-lhe uma descarga de adrenalina.</p><p>Suas estocadas aumentaram de intensidade, uma de suas mãos</p><p>agarrou um punhado dos cabelos cheirosos enquanto a outra o mantinha</p><p>aberto para recebê-lo melhor.</p><p>— É isso que você quer? — ofegou, grave e rouco. — Queria meu</p><p>cacete te fodendo desse jeito?</p><p>— Sim… porra!</p><p>— Eu vou te dar o que você quer, Luan! Vou te dar exatamente o</p><p>que quer.</p><p>Alexandre girou o rosto de Luan da melhor forma que pôde e tomou</p><p>a boca dele em um beijo furioso e descontrolado. Seus quadris não paravam</p><p>de se mover por nenhum segundo e a cada vez que saía e entrava, aquele</p><p>aperto parecia ceder mais ao seu tamanho e grossura.</p><p>— Esse rabo é tão apertado, amor… tão delicioso.</p><p>Luan engoliu o xingamento, pois aquela pequena palavra teve o</p><p>poder de arrebatá-lo mais que o pau que o fodia com descontrole. Mais uma</p><p>vez, ele não pensou demais, apesar de se sentir afetado. Decidiu acreditar</p><p>que aquilo era apenas pelo tesão, e por isso, ele também se deixou levar.</p><p>— Então fode bem gostoso, amor. — desafiou.</p><p>Não parecia possível, mas Alexandre sentiu seu tesão elevar a um</p><p>nível estratosférico ao ponto de seu pau endurecer ainda mais dentro de</p><p>Luan. Em completo descontrole, ele se ajoelhou entre as pernas alheias e o</p><p>agarrou pelos quadris mais uma vez. Quando o posicionou de quatro, seus</p><p>olhos focaram na mágica que a bunda de Luan fazia ao engolir seu pau por</p><p>inteiro. Era hipnotizante, o jeito que seu membro entrava e saia tão rápido,</p><p>como a pele da bunda dele estava tão vermelha e como ele gemia feito um</p><p>louco pedindo por mais.</p><p>Alexandre estava o comendo como um animal e Luan ainda pedia</p><p>por mais.</p><p>Ele era perfeito.</p><p>— Seu filho da puta! — um estalo de tapa ecoou, misturando-se aos</p><p>gemidos e ao barulho da cabeceira batendo</p><p>contra a parede. Ele agarrou os</p><p>cabelos pretos com uma mão e o ergueu. Seu peito se chocou contra as</p><p>costas suadas e sua mão desocupada envolveu o pescoço esguio como um</p><p>colar. — Você tá tentando me enlouquecer, Luan! Mas antes disso, eu vou</p><p>te quebrar inteiro.</p><p>Luan não conseguia respirar direito, mas não pediu para que o</p><p>aperto em sua garganta diminuísse. Depois das experiências que tiveram,</p><p>ele descobriu que amava até demais quando Alexandre ficava bruto daquela</p><p>forma. Descobriu também que amava além da conta a forma que Alex se</p><p>mostrava desinibido na cama e como não parecia restringir seus atos por</p><p>vergonha ou inexperiência, apesar de que essa última fosse algo limitado</p><p>apenas ao sexo masculino.</p><p>Naquele momento, enquanto sentia sua próstata ser acertada</p><p>duramente e de forma ininterrupta, seu pau ereto foi envolto pela mão</p><p>calejada que passou a masturbá-lo com habilidade.</p><p>— Você é tão bom com as mãos, amor. — gemeu soprado pela falta</p><p>de ar.</p><p>— E você é um puto do caralho! Para de me atormentar!</p><p>— Você pode me chamar assim enquanto geme pra mim e eu não</p><p>posso?</p><p>— O quê? — a voz de Alex soou confusa, mas Luan não se apegou</p><p>aquilo.</p><p>Rapidamente, ele se afastou de Alex e removeu o membro duro de</p><p>si. Retirou também a camisinha e passou a chupá-lo com desespero,</p><p>sugando aquele pau como se fosse a coisa mais saborosa do mundo.</p><p>— Puta merda! Que boca gostosa do caralho! — gemendo</p><p>entrecortado, Alex agarrou um tufo dos cabelos de Luan e estocou contra</p><p>sua boca.</p><p>Luan se empinou ainda mais, se dedicando naquele boquete como se</p><p>sua vida dependesse disso. Porém, quando sentiu a mão grande de Alex</p><p>delineando suas costelas até alcançar sua bunda, ele afastou sua boca do pau</p><p>duro e gemeu baixo. Quando os dedos longos o penetraram, seu interior se</p><p>contraiu em expectativa.</p><p>— Não para de me chupar! — ordenou exaltado. — Continua me</p><p>chupando enquanto eu fodo esse rabo gostoso com os meus dedos.</p><p>Como um servo obediente, Luan voltou a chupar Alexandre. Ainda</p><p>sentia os dedos dele deslizando e massageando-o por dentro, e a vontade de</p><p>gozar crescia como um monstro que o devorava de dentro para fora.</p><p>Alexandre não sabia que era capaz de suportar tanto prazer, mas ao</p><p>olhar para o rosto corado, para os lábios inchados ao redor do seu pau e</p><p>vislumbrar aqueles olhos negros brilhando de forma tão intensa, ele</p><p>entendeu que aguentaria qualquer coisa por Luan.</p><p>Quando olhou mais para baixo, ele analisou seus dedos entrando e</p><p>saindo no meio daquela bunda marcada por sua boca e mãos. E o tesão que</p><p>sentia ao perceber que estava fazendo aquilo com um homem e que aquele</p><p>homem era o Luan, era algo indescritível.</p><p>Alex nunca imaginou que após catorze anos em um relacionamento</p><p>estável, ele fosse viver tantas experiências em tão pouco tempo, ainda mais</p><p>com um garoto quinze anos mais novo. Mas depois de tudo o que haviam</p><p>feito nas últimas semanas, sua insegurança quanto a diferença de idade se</p><p>extinguiu.</p><p>Ele não sabia o que seria deles no futuro, mas não estava ansioso</p><p>para o fim.</p><p>— Chega! — rosnou quando sentiu a queimação em seu baixo</p><p>ventre. — Coloca uma camisinha em mim, quero voltar a te comer.</p><p>Luan obedeceu. Pegou mais um pacote laminado e retirou o</p><p>preservativo. Com um sorriso safado, ele prendeu a ponta entre seus lábios</p><p>e voltou a se inclinar, segurou o pau duro e deslizou a camisinha pela</p><p>extensão com sua boca.</p><p>Alex fechou os olhos por alguns segundos. Mas como se fosse um</p><p>dependente, ele precisava ver cada passo do que Luan faria. E ele foi rápido</p><p>em agir.</p><p>Se pôs à frente do corpo grande, segurou o membro duro e o</p><p>encaixou em si, depois, apoiou suas mãos sobre o colchão e ficou</p><p>completamente de quatro. Do jeito mais provocativo que sabia, ele rebolou</p><p>devagar, pressionando seu corpo para trás e fazendo-o penetrá-lo até o fim.</p><p>Um gemido gutural reverberou contra as paredes daquele quarto.</p><p>Alexandre não conseguia processar suas emoções corretamente, e quanto</p><p>mais olhava para o seu membro entrando em Luan, mais ele sentia que</p><p>perdia a sanidade.</p><p>— Luan.</p><p>— Tá gostando?</p><p>— Eu tô a ponto de gozar, caralho!</p><p>— E por que tá se segurando?</p><p>— Porque eu ainda não acabei com você. — rosnou e apoiou um pé</p><p>sobre a cama.</p><p>Com brutalidade, Alexandre o agarrou pela cintura e estocou sem</p><p>parar. Suor escorria pela sua testa e pingava nas costas de Luan. Ambos</p><p>gemiam devido ao desejo que nutriam um pelo outro e pela forma sublime</p><p>que seus corpos estavam conectados. Era surreal. Alexandre e Luan sentiam</p><p>que ficariam loucos a qualquer momento.</p><p>— Quero gozar. — Luan confessou em um arquejo baixo.</p><p>— Eu sei, você tá me apertando tão gostoso. — agarrou as bandas e</p><p>as abriu, vendo de forma nítida seu cacete entrando em Luan. Era tão</p><p>gostoso. Luan era tão gostoso. — Esse rabo foi feito pra aguentar meu pau,</p><p>não foi? Você nem tá reclamando mais.</p><p>— Tudo em mim foi feito pra aguentar tudo de você, Alexandre. —</p><p>confessou.</p><p>Não foi preciso muito mais do que aquilo. Alexandre estava na beira</p><p>do precipício e Luan o empurrou sem remorso algum. Compartilhando tudo</p><p>naquela conexão tão carnal, eles chegaram ao orgasmo.</p><p>Luan enfiou seu rosto contra o colchão e gritou o nome de</p><p>Alexandre enquanto jorrava sobre os lençóis. Alexandre por sua vez,</p><p>curvou seu corpo e mordeu as costas de Luan, o preservativo que os</p><p>protegia se encheu com seu esperma e vazou, fazendo uma bagunça imensa.</p><p>Quando seus movimentos cessaram, Alexandre respirou de forma</p><p>ruidosa. Seu coração batia tão acelerado que ele achou que fosse infartar</p><p>naquele momento. Quando observou Luan mais atentamente, um sorriso</p><p>divertido rasgou seus lábios. Suas mãos alisaram as costas até a bunda</p><p>marcada, essa que ele acariciou de forma terna enquanto olhava a sujeira</p><p>que havia feito. Seu pau continuava duro e preso no aperto quente e Luan</p><p>não se mexia.</p><p>— Luan?</p><p>— Hum? — respondeu sem se mover.</p><p>— Tudo bem?</p><p>— Não.</p><p>— Tá doendo?</p><p>— Isso é o de menos… eu não consigo me mexer. Minha coluna tá</p><p>travada.</p><p>— E depois eu que sou o velho. — debochou ao soltar uma</p><p>gargalhada gostosa.</p><p>— Você é. — resmungou.</p><p>Devagar, Alexandre tentou manter a camisinha no lugar e se retirou</p><p>de Luan, depois, a removeu de seu membro, deu um nó e o descartou no</p><p>chão ao lado da cama. Com cuidado, ele segurou o garoto pelos quadris e o</p><p>ajudou a se deitar de lado. A careta no rosto corado lhe causou mais uma</p><p>risada, porém, ele tentou se conter.</p><p>Havia alguns fios de cabelo grudados no suor da testa e bochechas</p><p>de Luan e Alexandre os afastou com carinho. O garoto se manteve de olhos</p><p>fechados por todo o tempo, mas seu peito subia e descia rápido,</p><p>demonstrando que ainda não havia se acalmado o suficiente.</p><p>— Vamos tomar um banho?</p><p>— Não quero.</p><p>— Vai ficar sujo assim?</p><p>— Vou.</p><p>— Vamos lá, meu anjo… prometo que vou cuidar de você.</p><p>Luan abriu os olhos e o fitou de forma desconfiada.</p><p>— Como vai cuidar de mim?</p><p>— Como você quiser.</p><p>Se esticando sobre a cama como um gato preguiçoso, Luan grunhiu</p><p>algo que Alex não entendeu e depois se levantou devagar. Quando pisou no</p><p>chão, uma dor irritante percorreu suas pernas e sua lombar. Alexandre</p><p>prendeu o riso depois do olhar fulminante que recebeu, seus olhos</p><p>acompanharam os movimentos incertos do garoto até que ele chegou na</p><p>porta do banheiro e parou.</p><p>— Se quiser cuidar de mim, vai precisar dessa última camisinha aí.</p><p>— apontou para o pacote laminado sobre a cama e sorriu. — Ou ainda</p><p>precisa de dez minutos pra recobrar as energias?</p><p>Alexandre trocou os lençóis da cama enquanto Luan vestia outra</p><p>calça de moletom. Depois da transa no banheiro, Luan ficou em silêncio.</p><p>Alex sabia que não havia nada de mais naquilo porque o que eles haviam</p><p>feito contra o box fora algo que ambos gostaram muito. Então, ele entendeu</p><p>aquele silêncio como cansaço. Ele também estava cansado, e por isso não</p><p>iniciou uma conversa.</p><p>Quando terminou de arrumar os lençóis, ele foi até Luan e o segurou</p><p>pelas mãos, o levou até a cama e o fez se sentar. De forma carinhosa, ele</p><p>tomou a escova da mão alheia e passou a pentear os cabelos no qual era tão</p><p>fissurado.</p><p>— Você disse aquilo… — comentou contido.</p><p>— Você também disse… mais</p><p>de uma vez.</p><p>Alexandre mordeu o interior da bochecha e assentiu, ainda</p><p>concentrado no que fazia. Agradeceu por Luan não estar olhando para o</p><p>seu rosto, ou iria ver a confusão estampada em cada uma de suas</p><p>expressões. Ele não percebeu quando o chamou de amor em nenhuma das</p><p>vezes, mas parecia haver algo em seu subconsciente que tentava emergir, só</p><p>que com todas as coisas que estavam acontecendo em sua vida em tão</p><p>pouco tempo, ele não sabia se estava pronto para entender.</p><p>— Tá tudo bem, Alexandre, sério. — murmurou e segurou as mãos</p><p>experientes que o tocavam com carinho. Quando obteve a atenção que</p><p>desejava, abriu um sorriso e pendeu a cabeça para o lado. — Foi coisa de</p><p>momento, causado pelo tesão, eu entendo.</p><p>Alex engoliu a vontade de perguntar se havia sido apenas tesão para</p><p>ele também, pois sabia o que ele diria e não queria ouvir a resposta. Então,</p><p>ele apenas assentiu, deixou a escova de cabelos sobre a mesa de cabeceira</p><p>ao lado do seu smartphone e depois de conferir as horas, ele se deitou e deu</p><p>duas batidinhas no espaço ao lado.</p><p>— Vem deitar…</p><p>Luan sorriu mais aberto e se arrastou pelos lençóis limpos.</p><p>Acomodou sua cabeça contra o braço musculoso e o abraçou pelo tronco.</p><p>Alexandre tinha o seu cheiro, e por mais que não quisesse admitir, ele</p><p>gostou muito daquilo.</p><p>— Tô tão cansado. — comentou manhoso.</p><p>— Agora cê pode descansar. — seus dedos começaram a fazer um</p><p>carinho gostoso nos cabelos úmidos, esses que ele ficou cheirando como</p><p>um viciado. — Não sabia que gostava de livros e quadrinhos… —</p><p>comentou ao observar melhor o quarto.</p><p>— Não é quadrinho, é mangá.</p><p>— Mangá?</p><p>— Você é velho mesmo, não sabe o que é mangá? — Alex sorriu e</p><p>negou. Luan não viu, mas acabou sorrindo também. — Depois eu te explico</p><p>a diferença, mas sim, eu gosto de ler… achou que eu só servia beleza e</p><p>gostosura?</p><p>— Não achei, mas não imaginei que você gostasse de ler.</p><p>— Eu gosto, assim como gosto de jogar, assistir séries criminais e</p><p>outras coisas.</p><p>— Cê é tipo um nerd?</p><p>— Sim, e um nerd bem gostoso, né?</p><p>— Muito gostoso. — concordou e deixou um beijo contra a testa</p><p>exposta. — Do que mais você gosta? Quais os teus tipos de músicas</p><p>favoritas?</p><p>— Gosto de tudo um pouco. Mas amo o pop internacional. E você?</p><p>— Sertanejo, MPB, rock dos anos oitenta adiante e Jão.</p><p>— Você gosta do Jão? — Luan perguntou surpreso.</p><p>— Sim? O que tem de mais nisso?</p><p>— Nada, só que cê não tem cara de quem gosta do Jão. Eu também</p><p>gosto dele.</p><p>— E bandas antigas?</p><p>— Guns N’ Roses, e você?</p><p>— Guns N’ Roses também e vários outros. Bandas atuais?</p><p>Luan prendeu o riso e observou seus poucos livros em uma</p><p>prateleira improvisada.</p><p>— Não é banda, é um grupo. BTS.</p><p>— Não acredito que goste de BTS?</p><p>— Vai julgar meus gostos agora?</p><p>— Não! O Heitor adora eles, eu já ouvi algumas músicas e também</p><p>gosto.</p><p>— Quando eles fizerem uma turnê de novo, eu vendo o meu rim,</p><p>mas vou.</p><p>Alexandre inalou o cheiro da flor de laranjeira nos cabelos úmidos e</p><p>sentiu certa paz inundar seu peito. Ter aqueles momentos com Luan, mesmo</p><p>depois de ter acabado de sair de um relacionamento longo, parecia tão certo</p><p>que o deixava atordoado. Era inevitável, mas ele se pegava fazendo planos</p><p>com o garoto, como fazia naquele momento.</p><p>— Se quiser, posso levar você e o Heitor.</p><p>Com o coração acelerado, Luan engoliu em seco e fechou os olhos.</p><p>— Quem sabe, né?</p><p>— É… quem sabe.</p><p>Depois daquilo, eles voltaram a ficar em silêncio, logo Luan</p><p>adormeceu. Alexandre ficou ali por mais algum tempo e lá pelas duas da</p><p>manhã, ele o deixou dormindo e saiu do quarto. Quando Luan acordou pela</p><p>manhã, encontrou o espaço vazio em sua cama. Ao pegar o celular sobre a</p><p>mesa de cabeceira para desligar o despertador, esbarrou sua mão em um</p><p>papel, quando leu, um sorriso idiota pintou seus lábios inchados.</p><p>“Voltei pro meu quarto porque fiquei com medo da Nona me flagrar</p><p>na cama do filho dela. Mas acabei roubando um travesseiro seu pra sentir</p><p>o teu cheiro e conseguir dormir melhor, espero que não se importe.</p><p>Tenha um bom dia, minha flor de laranjeira.</p><p>Alexandre.”</p><p>CAPÍTULO DEZESSEIS</p><p>Na manhã de sábado, Alexandre aproveitou que Luan estava</p><p>trabalhando no pasto com Gabriel e seu Joaquim e resolveu fazer-lhe uma</p><p>surpresa. Ele saiu logo depois do café da manhã para a cidade, procurou em</p><p>várias lojas e quando finalmente encontrou o que queria, comprou e dirigiu</p><p>de volta para casa.</p><p>Ao entrar na sala com a enorme caixa, ele foi parado por dona</p><p>Maria, que tinha um sorriso em seu rosto e um pano de prato sobre o ombro</p><p>direito.</p><p>— Mas o que é isso, menino?</p><p>— Oi, Nona… comprei uma TV nova. — ele apoiou a caixa sobre o</p><p>encosto do sofá e a observou com atenção.</p><p>— E por que tu não pegou essa da sala?</p><p>— Porque eu sei que a senhora e o seu Joaquim amam assistir às</p><p>novelas, sem contar que eu quase não vou usar, é só pra quando o Heitor vir</p><p>pra cá ou quando bater a vontade de assistir algo. — comentou, o que era</p><p>parcialmente verdade, afinal. Mas sua intenção era agradar Luan, e não</p><p>seria apenas com a TV.</p><p>— E essa TV é de quantas polegadas?</p><p>— Setenta e duas… foi a maior que eu achei na loja.</p><p>— Deve ter custado caro, menino. Eu não me importo de deixar o</p><p>Heitor assistir os desenhos, e se tu queria tanto assim, podia ter levado essa.</p><p>— indicou a TV de tela plana sobre o rack e sorriu.</p><p>— Tá tudo bem, Nona, não se preocupe.</p><p>— Tu tá sentindo alguma coisa? Tá doente? — ela perguntou com</p><p>preocupação. Alexandre franziu o cenho em confusão. — Comprou</p><p>remédios. — apontou para a sacola de farmácia que ele mantinha pendurada</p><p>em seu braço. — Eu tenho vários remédios na caixa lá na cozinha, era só ter</p><p>me falado. Tá gripado?</p><p>Alex engoliu em seco e sentiu todo o seu corpo congelar. Agradeceu</p><p>internamente pela sacola ser discreta ao ponto de não revelar seu conteúdo,</p><p>ou ele estaria em apuros para explicar o porquê de ter comprado vários</p><p>pacotes de camisinhas e tubos de lubrificante.</p><p>— Ah, é só uns remédios pra dor de cabeça e umas vitaminas que o</p><p>meu médico receitou, nada com o que se preocupar. — abriu um sorriso</p><p>amarelo.</p><p>— Então tá bom, mas se precisar de um cházinho, é só me falar que</p><p>eu faço. — dona Maria falou e logo se pôs a voltar para a cozinha.</p><p>Sentindo-se como um adolescente que quase foi pego em flagrante,</p><p>Alex sorriu de forma descarada e soltou a respiração que segurava.</p><p>— Não precisa se preocupar, Nona… seu filho já tá me dando um</p><p>chá muito bem dado. — sussurrou e seguiu para o seu quarto com a enorme</p><p>caixa.</p><p>Durante o almoço, todos se acomodaram em volta da mesa de</p><p>madeira da cozinha. Luan, sentado de frente para Alexandre, mastigava e</p><p>sorria de algo que Rafael havia dito ao seu lado.</p><p>— Eu tô falando sério! Quando ele chegou aqui, mal sabia montar</p><p>num cavalo. Eu pensei que ele fosse cair na primeira vez que tentou porque</p><p>esse cabeça dura escolheu o Aquiles. Cê tem ideia disso? — perguntou</p><p>exaltado.</p><p>Alexandre gargalhava enquanto observava Luan fuzilando seu</p><p>amigo com o olhar. Ele adorava escutar histórias sobre a chegada de Luan</p><p>na fazenda e no quanto ele aprontou até se adaptar ao trabalho no campo.</p><p>— Eu acredito. — comentou.</p><p>— Você me desafiou! Esqueceu dessa parte? Disse que eu não daria</p><p>conta de montar num animal, muito menos no Aquiles. Se eu tivesse</p><p>morrido a culpa era todinha tua!</p><p>— Agora a culpa de você ser um teimoso é minha?</p><p>— Sim, porque você me provoca.</p><p>— Chega! Não vão começar uma picuinha logo agora! — dona</p><p>Maria repreendeu. — Se eu não tivesse certeza de que só pari um filho,</p><p>diria que vocês dois são irmãos!</p><p>— Eu mesmo que não queria ser irmão desse idiota. — Luan</p><p>resmungou com um bico chateado.</p><p>— E eu não queria ser nem parente distante dessa besta ambulante.</p><p>— Rafael rebateu contrariado.</p><p>— Eles brigam como irmãos, mesmo. — Manu comentou divertida.</p><p>Havia acabado de comer e por isso, levantou e retirou seu prato.</p><p>— Depois que lavar a louça do almoço, pode ir pra casa, querida.</p><p>— Tá bom. Já vou começar com as panelas pra adiantar o serviço.</p><p>— E eu vou descansar um tantinho. Tenho que ir mexer no cercado</p><p>e no poleiro das galinhas. — seu Joaquim comunicou.</p><p>— Eu ajudo o senhor, painho.</p><p>— Tá bom, deixa</p><p>só eu tirar uma meia-horinha de sono ali na rede e</p><p>depois a gente vai.</p><p>— Sim senhor…</p><p>Quando terminou a refeição, Alexandre se levantou e Rafael fez o</p><p>mesmo. Ambos seguiram até o escritório, e quando Alex se sentou em sua</p><p>poltrona, ele sentiu o peso do olhar acusatório e divertido de Rafael.</p><p>— O que é? — perguntou sem encará-lo de volta.</p><p>— Você transou com o Luan.</p><p>Alex parou seus movimentos sobre o teclado do computador e fitou</p><p>o rosto do amigo.</p><p>— O quê?</p><p>— Você e aquele garoto foguento fizeram sapecagem a noite inteira.</p><p>— Por que acha isso?</p><p>— Você tá radiante como o sol do verão. E o Luan tá mancando,</p><p>cara! Não sei o que você fez com ele, mas foi brutal.</p><p>Alexandre não conseguiu se conter, acabou soltando uma risada alta</p><p>e escorou suas costas contra o encosto da poltrona. Ele havia notado, pela</p><p>manhã, que Luan estava mancando, fez até uma brincadeira sobre e recebeu</p><p>um soco forte em seu peito, também ficou sem seu beijo, mas valeu a pena</p><p>brincar com ele.</p><p>— É, ele tá mancando mesmo.</p><p>— E você foi o causador disso?</p><p>— Sim, Rafael… a gente transou ontem.</p><p>— Eu sabia! — Rafael comemorou com animação.</p><p>— Não é pra tanto.</p><p>— Não é? Cara, você teve sua primeira transa com um homem, e</p><p>pelo jeito que o Luan tá, você se saiu muito bem.</p><p>— Sim, mas isso não é motivo pra comemorar.</p><p>— Me diz, como foi?</p><p>— Foi bom, a gente se entendeu bem. Eu fiquei com medo de</p><p>machucar ele, mas ele não pareceu muito preocupado.</p><p>— É claro que não pareceu. Ele tava doido pra transar contigo.</p><p>— Eu também estava, não nego. — sorriu ladino e passou a mão</p><p>pela barba.</p><p>— Mas e agora? Vocês vão levar isso a sério?</p><p>— Luan não quer. Ele disse que vai embora ano que vem, disse que</p><p>não quer nada sério e que não quer assumir o que temos.</p><p>Rafael arqueou as sobrancelhas em um gesto de surpresa.</p><p>— Sério? E o que cê tá achando de tudo isso?</p><p>— Não tem nada que eu possa fazer, é a decisão dele. Eu pensei que</p><p>fosse ser mais complicado isso de me envolver, com ele sendo tão novo e</p><p>com a vida que leva, mas a gente entrou em um acordo, vamos aproveitar o</p><p>momento e vamos ficar exclusivamente. — explicou.</p><p>— Tá, mas eu sei que isso tá te incomodando. Me diz o que tá</p><p>pensando?</p><p>Alex suspirou fundo e esfregou os lábios com os dedos. Ele lembrou</p><p>do que havia dito na noite anterior quando sugeriu levar Luan a um show.</p><p>Estava pensando a longo prazo e fazendo planos, mesmo sabendo que não</p><p>podia e aquilo era a única coisa que o incomodava naquele arranjo.</p><p>— Você me conhece… mesmo quando era mais novo, eu nunca tive</p><p>casos de uma noite e essas coisas. Não tive namoradas antes da Nanda, mas</p><p>todas as mulheres com quem me envolvi foram relações fixas, algo que</p><p>poderia ter evoluído. Com Luan não é diferente… eu não consigo me</p><p>impedir de pensar num futuro com ele.</p><p>— Tipo namoro? Acha que tá pronto pra isso?</p><p>— Não, eu não tenho pressa, mas eu poderia me esforçar pra fazer</p><p>dar certo num futuro próximo, entende? Só que ele já colocou um ponto</p><p>final nisso antes mesmo de acontecer.</p><p>— Pelo menos você sabe com o que tá lidando.</p><p>Rafael suspirou fundo e passou as mãos pelo rosto.</p><p>— Você e o Gabriel não se acertaram ainda?</p><p>— Estamos numa boa, por enquanto.</p><p>— Isso é bom… o que acha de chamar ele pra ir até a cachoeira</p><p>amanhã? Podemos fazer algo pra comer aqui e depois do almoço a gente</p><p>vai.</p><p>— Eu já convenci ele a ir pra festa de hoje a noite comigo, não sei</p><p>se ele vai querer ir amanhã.</p><p>— É verdade, ainda tem essa festa. Acho que o Luan vai querer ir.</p><p>— E você vai?</p><p>— Se ele quiser. — deu de ombros. — Não curto muito essas festas,</p><p>prefiro bar.</p><p>— Cara, você é o cachorro dele. Tá igual o Relâmpago Marquinhos</p><p>que vai sempre que ele assobia.</p><p>— Não enche… não é como se você não fosse igual com o Gabriel.</p><p>— Não nego… amo ser mandado por homem gostoso.</p><p>— Por isso que eu mando em você. — brincou.</p><p>— Deus me livre, você é tipo meu irmão. — grunhiu com uma</p><p>careta.</p><p>— Mas isso não me impede de ser gostoso e de mandar em você. —</p><p>apontou e sorriu. — Agora vamos acabar com essa conversinha e trabalhar.</p><p>Tem um fazendeiro a cinquenta quilômetros daqui que tá querendo comprar</p><p>alguns bovinos. Preciso fazer o orçamento das vendas e preciso checar</p><p>umas coisas sobre o contrato com o frigorífico.</p><p>— Beleza, patrão… vamos trabalhar.</p><p>Suor escorria pela testa de Luan e pingava na camiseta que ele</p><p>usava. O sol sobre sua cabeça brilhava em todo seu esplendor e queimava</p><p>sua pele, deixando-a avermelhada. Mas com o tempo, ele estava se</p><p>acostumando com aquela situação.</p><p>Seu pai ajeitava os arames do cercado que mantinha as galinhas</p><p>presas. Luan o observou com atenção e sorriu. A idade avançada era clara</p><p>devido aos cabelos brancos e rugas de expressão que marcavam sua pele.</p><p>Seu pai era um homem trabalhador, que havia feito de tudo para dar-lhe o</p><p>melhor. Luan era grato por isso, era grato por tudo o que seus pais faziam</p><p>para vê-lo bem. Mas desde que chegou na fazenda, a relação deles não</p><p>estava legal, e ele sabia que era culpa sua.</p><p>— Deixa que eu pego, painho. — falou quando o viu tentar pegar</p><p>uma bola de arame no chão. — Onde quer que eu coloque?</p><p>— Ali, perto do poleiro.</p><p>— Tá… — se apressou e quando colocou o objeto onde solicitado,</p><p>passou uma mão pela testa para afastar os fios de cabelo grudado e fitou o</p><p>mais velho. — Escuta, eu queria falar uma coisa com o senhor…</p><p>— Pode falar.</p><p>— Ano que vem eu vou voltar pra capital.</p><p>Seu Joaquim parou o que fazia e franziu o cenho ao olhar para o</p><p>filho.</p><p>— Vai voltar pra capital? Por quê?</p><p>— Eu quero voltar a estudar, então vou voltar pra lá e tentar isso. Tô</p><p>juntando um dinheiro pra ter um canto, não quero voltar pra casa da</p><p>madrinha. Vou arranjar um emprego lá pra me manter e voltar pro meu</p><p>curso.</p><p>— Tem certeza disso?</p><p>— Tenho sim. Vocês se esforçaram e sacrificaram muito pra me dar</p><p>uma educação decente, não vou deixar que todo o esforço tenha sido em</p><p>vão.</p><p>— Você quem sabe, Luan. Já é um homem adulto e sabe o que faz.</p><p>— ele se voltou para o que fazia e suspirou fundo. — Contou pra sua mãe?</p><p>— Ainda não.</p><p>— Pois conte, pra dar tempo dela se acostumar com você longe de</p><p>novo… — expressou sério, então, ele girou e voltou a olhar para o filho. —</p><p>Olha só, eu sei que tô sendo duro contigo, mas as coisas que tu fez me</p><p>deixou muito decepcionado. Eu não te criei pra ser um irresponsável que</p><p>coloca a vida dos outros em perigo, tua mãe e eu te educamos pra ser um</p><p>bom rapaz e um homem digno.</p><p>— Eu sei, painho. Não tive coragem de falar antes, mas eu sinto</p><p>muito por ter decepcionado vocês dois. E também sinto muito pelas coisas</p><p>que fiz, pode ter certeza que me arrependo demais. — confessou, baixo e</p><p>contido.</p><p>— Eu sei que sente, também sei que é um bom garoto e que</p><p>aprendeu com os seus erros. Espero que dê tudo certo quando voltar pra</p><p>capital, mesmo que eu queira que tu fique aqui.</p><p>— Eu preciso voltar, ainda tenho a bolsa que consegui e posso</p><p>retomar o curso.</p><p>— Certo… e não precisa me pagar pelo dinheiro que gastei com o</p><p>que aconteceu. E o que tu já me mandou tá guardado na conta da tua mãe,</p><p>ela vai te devolver, então tu vai ter uma boa grana pra se virar por lá.</p><p>— Não precisa, painho.</p><p>— O dinheiro é teu, Luan, não preciso dele.</p><p>— Se o senhor quer assim, eu agradeço.</p><p>— Eu te amo, meu filho. E apesar de tudo, eu tenho muito orgulho</p><p>de tu.</p><p>— Obrigado. Também amo o senhor. — agradeceu, sua voz soou</p><p>entrecortada e seus olhos arderam pela vontade de chorar. Porém, ele não</p><p>chorou. Pegou um martelo na caixa de ferramentas e se colocou ao lado de</p><p>seu pai, então, eles começaram a martelar.</p><p>À noite, Luan se aprontou para sair. Decidiu de última hora que iria</p><p>até a festa que seus amigos haviam o convidado e por isso nem teve tempo</p><p>de falar com Alexandre. Então, quando bateram em sua porta, o frio em sua</p><p>barriga e o arrepio nos pelos de sua nuca lhe informaram exatamente quem</p><p>era.</p><p>— Oi. — cumprimentou ao abrir a porta.</p><p>— Oi, vai sair?</p><p>— Sim, vou na festa de hoje. Decidi de última hora e já ia te falar.</p><p>— sorriu, notando que Alex olhava para suas roupas, que consistiam em</p><p>uma calça jeans justa e camisa de mangas compridas. — Gostou?</p><p>— Adorei, você tá lindo.</p><p>— Obrigado… cê vai também?</p><p>— Não fui convidado. — deu de ombros e escondeu as mãos nos</p><p>bolsos.</p><p>— Sério? Pois eu tô te convidando agora. — deu um passo à frente e</p><p>alisou o peito largo coberto por uma camisa de algodão. — Vamo comigo</p><p>pra festa? Por favor?</p><p>Alex moveu seus braços e entrelaçou seus dedos atrás das costas de</p><p>Luan, que sorriu de lado e se inclinou para deixar um beijinho contra sua</p><p>boca.</p><p>— Vamos. Deixa só eu trocar de roupa.</p><p>— Tudo bem, vou te esperar aqui.</p><p>— Não, quero te mostrar uma coisa antes. Pode vir comigo até o</p><p>meu quarto?</p><p>— Claro… mas os meus pais ainda estão acordados, então a gente</p><p>não pode fazer nada arriscado.</p><p>— Não vamos, você só pensa em safadeza? — acusou.</p><p>— Com você? Sempre!</p><p>— Engraçadinho… — beijou os lábios rosados mais uma vez e se</p><p>afastou. — Vem, tô esperando por isso o dia todo.</p><p>Luan o acompanhou até o quarto, seus olhos permaneceram na mão</p><p>que agarrava a sua de forma possessiva e por isso não viu nada ao redor. Só</p><p>quando Alex parou que ele ergueu seu olhar.</p><p>— O que foi?</p><p>— Olha… — apontou para a parede diante da cama.</p><p>Ao observar melhor, Luan se surpreendeu ao ver uma TV imensa</p><p>acoplada à parede, mas o que fez seus olhos quase saltarem de suas órbitas</p><p>foi encontrar uma caixa branca com um videogame de última geração sobre</p><p>uma cômoda.</p><p>— Caralho, Xande! Você comprou tudo isso hoje?</p><p>— Sim, você gostou?</p><p>— Gostei, mas por que comprou? Cê nem gosta de videogame.</p><p>— Bom, eu sei que você gosta de assistir séries, gosta de jogar,</p><p>então eu comprei a TV e o videogame pra você fazer isso aqui, quando vier</p><p>ficar comigo a noite. Sei que se tivesse comprado pra te presentear cê não ia</p><p>aceitar, então eu trouxe tudo pra cá. Você pode usar na hora que quiser e</p><p>quando o Heitor vier pra cá, ele brinca contigo também.</p><p>— Caramba, cê sabe que não precisava disso, né? Eu jogo pelo</p><p>celular e assisto no meu notebook numa boa.</p><p>— Eu sei… — Alex se moveu e o abraçou por trás. Deixou um</p><p>beijo contra os cabelos com cheiro de flor de laranjeira e sorriu. — Mas eu</p><p>quis te agradar… e mesmo que não aceite, o videogame é seu, tudo bem?</p><p>— Tudo bem. Poxa, agora eu quero ficar aqui e jogar a noite toda.</p><p>— Amanhã você joga… eu vou trocar de roupa e a gente sai.</p><p>— Tá bom… posso abrir o videogame enquanto te espero? —</p><p>questionou esperançoso.</p><p>— Claro, fica à vontade.</p><p>Luan esfregou as mãos em um gesto animado e se apressou para</p><p>pegar a caixa branca. Ele a levou para a cama e depois de se sentar, se pôs a</p><p>abrir como se fosse o presente mais incrível do mundo.</p><p>Enquanto trocava de roupas, Alexandre observava o garoto</p><p>analisando cada peça do videogame. Parecia uma criança na manhã de natal</p><p>ao ganhar o presente dos sonhos e aquilo o fez sorrir como um bobo.</p><p>— Caramba! Olha como é lindo! — exclamou ao mostrar o joystick.</p><p>Após fechar todos os botões da camisa que vestia, Alex caminhou</p><p>até Luan e se inclinou para beijá-lo.</p><p>— Lindo é você.</p><p>Luan encolheu os ombros e sentiu suas bochechas esquentarem. Ele</p><p>estava envergonhado.</p><p>— Eu juro que poderia dormir abraçado com ele.</p><p>— Eu prefiro que você durma abraçado comigo, acho que sou mais</p><p>quentinho e gostoso de apertar que esse videogame, não?</p><p>— Também acho…</p><p>— Agora que estamos de acordo, vamos indo? Cê vai ter tempo pra</p><p>jogar depois.</p><p>Luan assentiu e guardou tudo de volta na caixa, depois a deixou</p><p>sobre a cômoda.</p><p>— Deixa só eu calçar os sapatos.</p><p>Quando finalmente chegaram na sala, dona Maria assistia à novela</p><p>enquanto seu Joaquim dormia ao seu lado.</p><p>— Estamos saindo, Nona…</p><p>— Tome cuidado e fique de olho no meu menino, Xandinho.</p><p>— Pode deixar.</p><p>— Não preciso de babá, mainha. — resmungou.</p><p>— Precisa sim e não voltem tarde, ou vou puxar a orelha dos dois.</p><p>— Sim senhora. — Luan bateu continência como um soldado e</p><p>esperou que Alex pegasse o chapéu branco sobre o aparador perto da porta.</p><p>— Boa noite, minha vida… amo a senhora. — se despediu e saiu de casa</p><p>acompanhado de Alex.</p><p>Alexandre dirigia com tranquilidade pela estrada de terra. Uma de</p><p>suas mãos descansava sobre a coxa de Luan, alisando a pele pelo rasgo do</p><p>jeans com carinho.</p><p>— A gente vai manter distância? — Luan indagou.</p><p>— Se é o que você quer.</p><p>— Você não quer?</p><p>— Eu não me importo de ser visto com você, Luan.</p><p>— Mas o teu divórcio ainda não aconteceu, podem pensar que você</p><p>tá traindo a tua mulher comigo.</p><p>— Não ligo pro que falam de mim, meu anjo. Você liga?</p><p>— Não, mas não quero que falem da gente.</p><p>— Tudo bem. Vai ser uma luta e tanto, mas manterei minhas mãos</p><p>longe de você. — apertou a coxa de Luan e abriu um riso divertido.</p><p>— Obrigado.</p><p>— Não precisa me agradecer, faço o que você quiser.</p><p>Quando chegaram em frente à boate no centro da cidade, Alexandre</p><p>estacionou em uma das poucas vagas restantes e desligou o carro.</p><p>— O pessoal tá esperando a gente. — Luan comentou após conferir</p><p>a mensagem que havia acabado de chegar.</p><p>— Com pessoal, você quer dizer quê?</p><p>— Manu, Pedro, Rafa, Gabi… aquela tua amiga Renatinha e o Guto.</p><p>— Preciso me preocupar com aquele garoto perto de você? — Alex</p><p>arqueou a sobrancelha ao perguntar.</p><p>— E eu preciso me preocupar com a tal da Ju? Soube que ela tá aí</p><p>com a amiguinha da conveniência.</p><p>— Não precisa, Luan. Eu já te disse várias vezes que não quero</p><p>ninguém além de você. — afirmou.</p><p>— Que bom. Também não precisa se preocupar com o Guto. Eu não</p><p>quero nada com ele e até onde eu sei, ele tá com a Renatinha. — murmurou</p><p>o nome com deboche.</p><p>— Isso é ciúme?</p><p>— Seria ciúme se ela tivesse contigo. — rebateu, se inclinou e</p><p>deixou um beijo estalado nos lábios dele, então, saiu do carro.</p><p>Alexandre não pôde conter o sorriso de satisfação ao descer do</p><p>veículo e fitar Luan parado na calçada e de braços cruzados. Ele estava tão</p><p>lindo que Alex tinha dificuldade em assimilar com clareza.</p><p>— Vamos lá, coisa linda. — chamou baixo e se manteve a uma certa</p><p>distância dele. Quando chegaram à portaria, Alex comprou duas pulseiras</p><p>que daria passagem para que entrassem na boate. — Aqui, se quiser</p><p>qualquer coisa lá dentro, é só me falar, combinado?</p><p>— Combinado. Mas cerveja tá de bom tamanho e acho que é o que</p><p>todo mundo tá tomando.</p><p>Ao entrar no espaço parcialmente escuro e fechado, Luan se</p><p>aproximou instintivamente de Alex ao ponto de suas mãos se tocarem.</p><p>Lembrou do contato que suas mãos tiveram mais cedo e sentiu uma súbita</p><p>vontade de repetir, mas logo afastou aquele pensamento assim como se</p><p>afastou do corpo grande.</p><p>O lugar era iluminado por globos de luzes e alguns pequenos</p><p>refletores posicionados em pontos estratégicos. Havia muitas pessoas</p><p>naquele ambiente, algumas dançavam e outras se mantinham com seus</p><p>grupos de amigos ao redor de mesas altas e sem bancos ou cadeiras.</p><p>Eles foram rápidos em encontrar Rafael e o pessoal em uma dessas</p><p>mesas perto do bar. Ao chegarem, cumprimentaram os conhecidos e se</p><p>mantiveram um pouco afastados.</p><p>— Achei que você não fosse vir — Rafael soprou a pergunta perto</p><p>do ouvido de Alex.</p><p>— Luan me convenceu. — respondeu, como se Luan tivesse feito</p><p>mais que apenas lhe dar alguns beijos para convencê-lo a estar ali.</p><p>— Se querem manter o rolo de vocês às escondidas, é melhor parar</p><p>de olhar pra eles como se fosse partir a cabeça do Gustavo ao meio.</p><p>O comentário de Rafael o fez desviar os olhos de Luan que parecia</p><p>estar tendo uma conversa animada com o amigo. Ele sabia que algo daquele</p><p>tipo aconteceria e já havia prometido a si mesmo que não se deixaria afetar.</p><p>Não causaria uma nova briga porque a última que tiveram se tornou um</p><p>lembrete constante do que deveriam evitar. E, definitivamente, ele não</p><p>queria Luan chateado outra vez.</p><p>Nas próximas horas, eles se mantiveram distantes, apenas trocando</p><p>olhares furtivos e sorrisos bobos na direção um do outro. Alex se manteve</p><p>focado em cada movimento de Luan, e na última hora, ele teve de conter o</p><p>ciúme quando três pessoas diferentes vieram falar com o garoto. Luan era</p><p>popular, e pelo que Alex pôde notar, era o desejo de todos naquela cidade,</p><p>tanto homens quanto mulheres.</p><p>Aquela era uma situação a qual ele não passava há muito tempo. No</p><p>seu último relacionamento, o ciúme era pouco predominante, mas com</p><p>Luan,</p><p>ele não sabia o que acontecia, não sabia que feitiço Luan havia</p><p>jogado para deixá-lo tão fora de controle como ele se encontrava. Aquela</p><p>sensação era sufocante, o deixava com um peso no peito e a cabeça</p><p>fervilhando. Não era algo comum e, claramente, estava fora do seu</p><p>comportamento habitual, mas era o que ele havia se tornado.</p><p>Um homem de trinta e cinco anos com ciúmes de um cara de vinte.</p><p>Animadinho pelas cervejas que havia consumido, Luan se</p><p>aproximou e se inclinou em direção a Alex.</p><p>— Vou ao banheiro… — murmurou e se afastou.</p><p>Alex o acompanhou até que ele sumisse no meio da multidão em</p><p>direção aos banheiros masculinos. Escondeu o sorriso atrás do copo de</p><p>uísque e sorveu um gole, ainda estava na primeira dose e não tinha a menor</p><p>intenção de passar para a segunda.</p><p>Passados dois minutos, ele deixou o copo sobre a mesa e seguiu na</p><p>mesma direção que Luan. Ao entrar no banheiro, havia um homem saindo</p><p>de um dos cubículos. Alex se dirigiu até a pia e disfarçou ao lavar suas</p><p>mãos, quando se viu sozinho, ele caminhou até a única cabine com a porta</p><p>fechada e deu duas batidas contra a madeira.</p><p>— Pensei que não fosse vir. — foi a primeira coisa que Luan disse</p><p>ao abrir a porta e puxar Alexandre para dentro do espaço confinado.</p><p>— E eu pensei que você não queria que a gente…</p><p>— Cala a boca. — resmungou e o agarrou pela nuca. — Você tá tão</p><p>gostoso, Xande.</p><p>— Eu tô?</p><p>— Tá sim… aquela sirigaita não para de olhar pra você, e tudo o</p><p>que eu queria fazer, era te beijar bem na frente dela. — expressou e grudou</p><p>seus lábios aos de Alex.</p><p>A boca deles se moviam como se fossem moldadas para encaixar</p><p>com precisão. As mãos de Alex apertaram a cintura de Luan, puxando-o em</p><p>sua direção para que ficassem ainda mais grudados. Sua nuca era arranhada,</p><p>sua língua massageada e os gemidinhos de prazer que Luan deixava escapar</p><p>estavam deixando-o excitado.</p><p>— Sabe… cê pode fazer isso, se quiser. A única coisa que tá te</p><p>impedindo é você mesmo. — comentou quando se afastou em busca de ar.</p><p>— Não podemos! — grunhiu e voltou a beijá-lo.</p><p>— Podemos sim.</p><p>— Só me beija, Alexandre. Aqui, agora. Eu preciso beijar você.</p><p>Não precisou pedir mais de uma vez, Alex levou sua mão até a nuca</p><p>de Luan e agarrou um punhado dos fios sedosos. Tomou a boca dele com a</p><p>sua com mais brutalidade, seu estômago se retorceu em expectativa e,</p><p>naquele momento, tudo o que ele queria era levar Luan para casa e se</p><p>perder no corpo dele como o maluco viciado que havia se tornado, mas com</p><p>o tesão que sentia, talvez só tivessem tempo de chegar até a caminhonete.</p><p>— Se continuar com esses gemidinhos, eu vou te comer bem</p><p>gostoso nesse banheiro imundo. — soprou, seus olhos desviaram para o</p><p>sorriso na boca inchada.</p><p>— Então é melhor parar.</p><p>— Só mais um. — pediu. Luan se inclinou e deixou alguns</p><p>beijinhos em seus lábios. — Cê tá a coisa mais linda nessa roupa… tô doido</p><p>pra te deixar sem ela.</p><p>— Quando a gente tiver em casa, cê vai poder fazer o que quiser</p><p>comigo.</p><p>— Pode apostar que eu vou.</p><p>Quando voltaram para a mesa, os dois permaneceram lado a lado.</p><p>Alex bebeu o que restava do uísque em seu copo e Luan pegou o cigarro</p><p>eletrônico oferecido por Gustavo, depois de tragar umas duas vezes, ele o</p><p>devolveu para o dono.</p><p>Alexandre mordeu o interior da bochecha ao observar aquela cena,</p><p>então se afastou e caminhou até o bar.</p><p>— Oi, quanto custa um cigarro eletrônico daquele ali? — perguntou</p><p>ao barman e apontou para as embalagens expostas ao lado das garrafas de</p><p>bebidas caras.</p><p>— Tá falando do pod? Custa cento e vinte.</p><p>— Beleza, me dê um.</p><p>— Qual sabor?</p><p>— Tem de morango?</p><p>— Tem. — Alex assentiu e retirou a carteira do bolso. — Aqui.</p><p>Depois de pagar, Alex voltou para a mesa e quando parou ao lado de</p><p>Luan, colocou o pod na mão dele e se inclinou em direção ao ouvido</p><p>enfeitado por brincos de prata.</p><p>— Me faça o favor de não colocar mais essa boca gostosa no mesmo</p><p>lugar que aquele garoto pôs a dele, entendeu?</p><p>— Qual o problema?</p><p>— O problema é que você tá beijando ele por tabela, não notou que</p><p>só vocês dois estão usando essa porcaria? — grunhiu, parecendo quase</p><p>irritado.</p><p>— Tá, entendi… — abriu um sorrisinho de lado e tragou a fumaça</p><p>saborizada do novo cigarro. — Obrigado por isso.</p><p>— Se queria tanto um, era só pedir.</p><p>Luan assentiu, então voltou a beber e a mexer seu corpo de acordo</p><p>com a batida da música. Um tempo depois, Manuela o agarrou pelo braço e</p><p>o puxou em direção a uma garota que ele conhecia apenas de vista.</p><p>— Luan, lembra da amiga que eu te falei? A Nicole? — perguntou</p><p>próximo ao seu ouvido.</p><p>— Sim.</p><p>— Ela quer falar contigo, pode ser?</p><p>— Claro.</p><p>Manu sorriu animada e chamou a garota com um gesto de cabeça,</p><p>depois de apresentá-los, ela voltou para o namorado e os deixou sozinhos.</p><p>— Então, a Manu disse que cê tá solteiro…</p><p>— Eu tô sim. E você?</p><p>— Também…</p><p>— Uma garota tão bonita assim, deve tá chovendo na tua horta.</p><p>— Nem tanto… e os que aparecem são muito sem graça.</p><p>— Uma pena mesmo… — murmurou ao abrir um sorriso ladino.</p><p>— Mas de todos os caras daqui, você é o único por quem eu tô</p><p>interessada... — expressou com firmeza, olhando-o nos olhos.</p><p>Eles estavam bem próximos enquanto conversavam, o que não</p><p>passou despercebido por Alexandre, que os observava de longe como um</p><p>gavião espreitando sua presa.</p><p>— O que foi? — Rafael questionou ao notar como Alex estava</p><p>tenso.</p><p>— Eu juro que nunca mais saio com esse garoto pra uma festa de</p><p>novo. Juro por Deus. — grunhiu irritado. — Perdi as contas de quantas</p><p>pessoas chegaram nele essa noite. E agora, ele tá ali conversando com</p><p>aquela garota e sorrindo daquele jeito safado e com segundas intenções. Ele</p><p>deve tá tentando me enlouquecer, é isso.</p><p>— Cara, é sempre assim quando ele sai. Vai se acostumando.</p><p>— Nunca mais. Prefiro morrer a passar por essa tortura.</p><p>— Oi, Alex! — quando sentiu seu braço ser agarrado, ele girou e se</p><p>deparou com Juliana, a frentista que Luan não gostava. — Não esperava te</p><p>ver aqui…</p><p>— Oi, Ju. Pois, é, não sou muito de boates, gosto mesmo de um</p><p>barzinho.</p><p>— Mas não é por isso que eu tô surpresa em te ver aqui. Você não é</p><p>muito de sair, e agora tá aqui, sem a tua esposa. — comentou sugestiva.</p><p>Alexandre desviou sua atenção de Luan e focou em Juliana. Ela era</p><p>uma mulher bonita, Alex a conhecia desde sempre, pois cresceu naquela</p><p>cidade e conhecia a maioria das pessoas dali. Ele sempre soube que ela</p><p>tinha interesse, mas como havia dito para Fernanda várias vezes, ela não</p><p>fazia seu tipo.</p><p>— Só vim me divertir um pouco. — deu de ombros e sorriu.</p><p>— Entendi… — ela se aproximou e voltou a tocar seu braço. —</p><p>Como você quer se divertir? Notei que não tá bebendo muito, nem</p><p>dançando… tá só aí, parado.</p><p>— Acredite, é assim que me divirto.</p><p>— Ou talvez não tenha achado uma diversão a altura.</p><p>Alex sentiu o peso do olhar de Luan e, por isso, manteve sua</p><p>atenção na mulher.</p><p>— Talvez…</p><p>— Olha, se quiser aproveitar a noite, a gente pode…</p><p>— Não vai rolar… — interrompeu. — Desculpa, não é nada com</p><p>você, só não vai rolar.</p><p>— Tudo bem… sempre soube da sua reputação quanto a ser fiel,</p><p>mas achei que algo tinha mudado, até porque você não é de sair quando tá</p><p>por aqui.</p><p>— Pois é, algumas coisas mudaram, mas não isso. A minha</p><p>reputação, como você diz, é verdadeira. Eu sou completamente fiel à pessoa</p><p>com quem eu tô.</p><p>— Entendi. Tudo bem, Alex.</p><p>Juliana se afastou e Alexandre suspirou fundo. Estava farto daquela</p><p>festa e só queria ir embora. Luan parecia ter a mesma ideia, porque logo se</p><p>aproximou e o segurou pela barra da camisa.</p><p>— Vamos embora!</p><p>— Já não era sem tempo. — grunhiu. Quando virou para avisar a</p><p>Rafael, se deparou com ele falando no ouvido de Gabriel que sorria</p><p>achando graça do que era dito. — Estamos indo embora. — informou alto.</p><p>— Tão cedo?</p><p>— Essa festa já deu o que tinha que dar. — retirou a carteira do</p><p>bolso, pegou algumas notas e deixou debaixo do balde de cerveja sobre a</p><p>mesa. — Amanhã tá de pé?</p><p>Rafael voltou a falar com Gabriel, e depois de receber um aceno</p><p>seguido de um sorriso ladino, ele se voltou para Alex e assentiu.</p><p>— Amanhã a gente se vê.</p><p>— Beleza.</p><p>Luan foi rápido em se despedir dos amigos, quando passou</p><p>por</p><p>Juliana, a encarou com um ar debochado e seguiu adiante, com Alex em seu</p><p>encalço. Ao entrarem na caminhonete, Luan cruzou os braços e manteve</p><p>uma carranca emburrada.</p><p>— Vai me dizer o que você tem? — Alex questionou.</p><p>— O que você tava conversando com aquela mulher?</p><p>— Eu é quem pergunto! O que você tava conversando com aquela</p><p>garota? Aliás, quem era aquela garota? — rebateu.</p><p>— Não muda de assunto, Alexandre!</p><p>— Eu não tô mudando. Acho que cê não tem o direito de ficar</p><p>irritado comigo quando fui eu que tive de passar a droga da festa toda</p><p>vendo todo mundo tentando ficar com você. — exclamou.</p><p>— Eu não queria ninguém, Alex. Eu disse pra Nicole quando ela</p><p>veio falar comigo.</p><p>— Eu também disse isso pra Juliana.</p><p>— Então ela realmente foi tentar ficar contigo? Mesmo pensando</p><p>que você é casado? Que sem-vergonha!</p><p>— É, ela finalmente tentou.</p><p>— Como assim finalmente?</p><p>— Eu sempre soube que ela era a fim de mim.</p><p>— Sempre soube e nunca fez nada?</p><p>— O que queria que eu fizesse? — inquiriu confuso. — Eu nunca</p><p>quis ficar com ela, ainda mais casado.</p><p>— Agora você não tá casado.</p><p>— Mas eu tô com você, Luan, só com você! — expressou</p><p>seriamente, olhando-o de lado.</p><p>— Eu também tô só com você, então não tem porque ficar com</p><p>ciúmes de mim.</p><p>— Digo o mesmo. — respondeu, mesmo que gostasse até demais</p><p>quando ele ficava com ciúmes. Descobriu que amava as emoções que Luan</p><p>lhe despertava e por mais que não fosse um homem com emoções afloradas</p><p>ou extremas, depois que conheceu Luan, aqueles sentimentos tão</p><p>incontroláveis e intensos o faziam sentir-se vivo.</p><p>— Odiei sair com você, todas as mulheres daquela festa ficaram</p><p>babando por ti.</p><p>Alex sorriu com a reclamação.</p><p>— Como se tivesse sido uma maravilha pra mim, não é? Só saio</p><p>contigo de novo quando puder te manter do meu lado, grudado em mim o</p><p>tempo todo.</p><p>— Também tive vontade de fazer isso. — resmungou. — Será que</p><p>toda vez que sairmos juntos, vamos brigar por ciúme desse jeito?</p><p>— Confesso que não sou de brigar por ciúmes. Na verdade, eu não</p><p>brigo por quase nada. Você desperta isso em mim.</p><p>— Ah é? E o que mais eu desperto em você? — Luan se moveu em</p><p>direção a Alex e beijou o pescoço dele enquanto alisava o peito largo.</p><p>— Além do ciúme? Meu lado possessivo. — ofegou quando sentiu</p><p>sua jugular sendo sugada com pressão. — Eu fico louco quando você tá</p><p>perto de alguém, sei que é irracional, mas se pudesse, te manteria preso</p><p>dentro do nosso quarto.</p><p>— Nosso quarto, é? — soprou baixo e lambeu o lóbulo da orelha</p><p>alheia. Alex assentiu. — E o que mais?</p><p>— Eu fico excitado o tempo todo. — confessou. — Tão duro que</p><p>penso que vou explodir. Desde que senti você, desde que te comi gostoso e</p><p>você ficou todo manhoso gemendo pra mim, eu não paro de pensar nisso…</p><p>no quanto eu quero de novo.</p><p>Luan sentiu o membro de Alexandre duro sob a calça jeans. Seu</p><p>próprio pau pulsava em busca de alívio e seu corpo estava queimando de</p><p>desejo por tudo o que Alex poderia fazer.</p><p>— Então acelera, amor… tô cheio de tesão e doido pra repetir a</p><p>noite.</p><p>— Porra, Luan! — exclamou, mas pressionou seu pé ainda mais no</p><p>acelerador. — Você vai me deixar louco.</p><p>CAPÍTULO DEZESSETE</p><p>O barulho da cachoeira desaguando no lago predominava naquele</p><p>ambiente. O cheiro era o mesmo de antes: flores e terra molhada. Luan era</p><p>apaixonado por aquele lugar, porém, não sabia se essa paixão se dava pela</p><p>beleza estonteante ou se era pelo significado que aquele pedaço de paraíso</p><p>possuía. Foi ali que tudo entre ele e Alexandre começou, e aquela</p><p>constatação parecia deixar o lugar ainda mais bonito. Particular. Algo que</p><p>era somente deles.</p><p>— Então… quando começou isso entre você e o patrão? — Gabriel</p><p>perguntou. Ele e Luan estavam sentados em algumas pedras na beira do</p><p>lago enquanto bebiam de suas garrafas de cerveja.</p><p>Os quatro haviam almoçado juntos, então Luan não ficou surpreso</p><p>pela pergunta. Alex não era nada discreto quando se sentia à vontade.</p><p>— Tem uns dois meses, mais ou menos… foi depois daquele dia que</p><p>a gente saiu pra beber na conveniência. — comentou. Seus olhos se</p><p>mantiveram focados em Alex na água junto a Rafael. — Mas vamos fingir</p><p>que você não sabia disso…</p><p>— Eu não sabia. Rafael só me contou que o patrão tinha se separado</p><p>e tava a fim de você. A gente não conversa sobre essas coisas.</p><p>— Essas coisas? Tipo, dois caras se envolvendo? — questionou com</p><p>curiosidade.</p><p>— Não! Quer dizer, não falamos sobre vocês, nem sobre ninguém.</p><p>Na verdade, a gente não fala sobre quase nada.</p><p>— Por quê?</p><p>— É culpa minha, eu assumo. Eu não dou muita abertura pro Rafa e</p><p>ele não me pressiona.</p><p>— E você queria que ele te pressionasse mais? — brincou ao</p><p>perguntar.</p><p>— Não sei… acho que não. As coisas já são complicadas demais,</p><p>não quero que isso entre a gente fique pior.</p><p>— Cê tem medo que, ao dar espaço pra conversas cotidianas, acabe</p><p>se apegando ainda mais, não é?</p><p>— Eu já tô apegado. Só tenho medo de me apaixonar.</p><p>— Eu te entendo. Olha, se você contar que eu disse isso, eu nego até</p><p>a morte, mas o Rafa é um cara legal. E eu acho, mas só acho mesmo, que</p><p>ele já tá apaixonado por você.</p><p>— Eu sei de tudo isso, Luan. Mas também sei que eu não posso</p><p>fazer ele feliz.</p><p>— E por que não?</p><p>— Eu tenho uma bagagem muito pesada. — comentou contido. —</p><p>O Rafael é incrível em todos os aspectos. Ele merece alguém que não tenha</p><p>vergonha de andar com ele de mãos dadas, que não tenha medo de ser</p><p>julgado. Merece o prazer de ser amado da mesma forma intensa que ama…</p><p>e eu não posso dar isso pra ele.</p><p>— Não pode ou não quer? — Luan pendeu a cabeça para o lado e o</p><p>observou com atenção. A melancolia no tom de voz de Gabriel o tocou</p><p>profundamente.</p><p>— Não consigo. — deu de ombros e bebeu um gole generoso de</p><p>cerveja, na intenção de desfazer o nó em sua garganta. — É o meu fardo,</p><p>não o dele.</p><p>— Então você tem de deixar ele livre, Gabriel…</p><p>— Eu sei… e eu vou. Só tô aproveitando antes que tudo vire de</p><p>ponta a cabeça. É egoísmo da minha parte, mas eu… só preciso de mais um</p><p>pouquinho dele antes de abrir mão de uma vez.</p><p>Luan não respondeu, mas acabou se vendo naquela fala de Gabriel.</p><p>Ele estava aproveitando o tempo que tinha com Alexandre, porque sabia</p><p>que aquele caso chegaria ao fim. A diferença entre eles era que Rafael</p><p>parecia não saber o que o aguardava, enquanto Alex estava ciente daquilo,</p><p>tanto que decidiu por conta própria embarcar naquela situação sem medir as</p><p>consequências. Eles sabiam que aquilo teria um fim, mas estavam</p><p>aproveitando cada segundo que podiam.</p><p>Entretanto, ao pensar naquilo, um incômodo invadiu o peito de</p><p>Luan, deixando-o angustiado e com a sensação de que estava perdendo algo</p><p>importante.</p><p>— Ei, vocês dois! Parem de fofocar e venham pra cá! — Rafael</p><p>gritou. Havia um sorriso bonito em seu rosto e Luan pôde ver nos olhos</p><p>brilhantes de Gabriel o quanto ele se sentiu afetado apenas com aquilo e o</p><p>quanto ele também estava apaixonado.</p><p>— Vai lá aproveitar. Não se importe com a gente, nós não vamos te</p><p>julgar, nem nada disso. Só curte ele como vocês merecem. — Luan</p><p>encorajou.</p><p>— Obrigado, Luan.</p><p>Após beber o que restava em sua garrafa, Gabriel retirou a camisa,</p><p>mas manteve a bermuda de tecido que usava. Quando Rafael assobiou alto e</p><p>bateu palmas exageradas, ele sorriu contente, mesmo que suas bochechas</p><p>estivessem queimando de vergonha.</p><p>Luan o seguiu logo depois, mas foi interceptado por Alexandre antes</p><p>que pudesse ficar só de cueca.</p><p>— Nem pensar, pode manter essa bermuda no lugar. — ordenou.</p><p>— Qual é, Xande!</p><p>— Sem fazer bico. Agora vem cá, com cuidado pra não escorregar.</p><p>— estendeu a mão e o ajudou a entrar na água. Depois, ele o abraçou pela</p><p>cintura e beijou seus lábios com carinho. — Por que tava parecendo tão</p><p>sério? O Gabriel disse algo que te incomodou?</p><p>— Não foi nada… a gente tava batendo um papo de homem pra</p><p>homem.</p><p>— E eu não posso saber sobre o que era?</p><p>Luan girou a cabeça e observou Rafael e Gabriel à distância. Eles</p><p>estavam próximos, se tocando e sorrindo um para o outro.</p><p>— Não pode, sinto muito.</p><p>— Tudo bem. Vou conter a minha curiosidade. — Alexandre</p><p>analisou as expressões de Luan, e pelo tempo que passaram juntos ao longo</p><p>daqueles</p><p>dois meses, ele aprendeu a decifrar quando algo o deixava</p><p>pensativo. — Quer me falar o que te deixou com essa ruguinha de</p><p>expressão aqui? — alisou a testa franzida e sorriu.</p><p>— Se fosse preciso, você me assumiria pro mundo? — seu</p><p>questionamento fez com que Alex arregalasse os olhos em total surpresa.</p><p>Por breves segundos, ele se perdeu na imensidão daquelas esferas verdes e</p><p>reluzentes.</p><p>— Com certeza. Faria isso sem pestanejar. — respondeu cheio de</p><p>convicção. — Por que isso agora? Tá repensando sobre a gente?</p><p>A pergunta escapou antes que Alex pudesse se controlar. Ele sabia</p><p>que não devia alimentar qualquer esperança, mas havia se tornado algo</p><p>inevitável. Inconscientemente, ele torcia para que Luan mudasse de ideia.</p><p>— Não é isso. Só penso como é difícil pra algumas pessoas</p><p>deixarem o medo de lado e assumirem o que sentem ou por quem sentem.</p><p>— Você tem medo? — exprimiu a pergunta. — De assumir alguém?</p><p>— Eu não tenho medo de assumir o que sinto. — falou baixo, tão</p><p>envergonhado que precisou desviar o olhar.</p><p>— Mas tem medo que as pessoas saibam?</p><p>— Não, eu não ligo pro que as pessoas pensam de mim. É claro que</p><p>eu não dou saltos de alegria sempre que rola uma fofoca com o meu nome,</p><p>mas também não vou morrer por isso.</p><p>— E quanto aos seus pais?</p><p>— Com eles as coisas são diferentes. — murmurou ponderado. —</p><p>Eu sei que não faço nada de errado, mas tenta explicar isso pra dois idosos</p><p>que cresceram num fim de mundo como esse e com o pensamento tão</p><p>fechado? Só acho que não preciso falar sobre a minha vida particular ou</p><p>sobre com quem eu durmo, não é da conta de ninguém.</p><p>— Você se importa com a opinião deles, por isso não conta. —</p><p>afirmou. Quando Luan cerrou o olhar, ele se inclinou e deixou um beijo</p><p>casto nos lábios rosados. — Não tem problema em admitir que se importa,</p><p>Luan.</p><p>— Você se importaria caso os seus pais estivessem vivos?</p><p>— Com a idade que eu tenho? Com certeza não. Se eu fosse novo,</p><p>poderia considerar a opinião deles ou o que eles pensariam de mim. Mas,</p><p>hoje em dia, não. Já tenho cabelo branco na cabeça, um filho pra criar e</p><p>passei quase quinze anos casado, não tenho idade pra me impedir de fazer</p><p>algo me baseando na opinião de outras pessoas, principalmente sendo algo</p><p>tão pessoal quanto isso.</p><p>— Queria ter a sua confiança…</p><p>— Ei… fica tranquilo. — Alex ergueu o rosto de Luan pelo queixo.</p><p>— Cê só tem vinte anos, ainda mora com seus pais, é normal que tenha</p><p>receio. Mas com o tempo as coisas vão mudar, cê tem a sorte de ter bons</p><p>pais e quando decidir assumir alguém, eu sei que eles vão te entender.</p><p>Luan assentiu e ficou em silêncio. Abraçou Alexandre pelo pescoço</p><p>e deitou sua cabeça no ombro alheio. Após a conversa com Gabriel, ele</p><p>estava se sentindo entristecido e manhoso, mesmo sem saber o motivo.</p><p>— Meu anjo… tá tudo bem? — Alex acariciou os cabelos com</p><p>cheirinho de flor de laranjeira e deslizou seus dedos pela linha da coluna.</p><p>— Eu tô bem. — sussurrou.</p><p>— Tudo bem, não vou ficar te enchendo perguntando a mesma coisa</p><p>toda hora. Se quiser me falar algo, sabe que eu sempre vou te ouvir, ok?</p><p>— Ok.</p><p>— Que bom, agora quero um beijo.</p><p>Luan desgrudou e moveu seu rosto para beijá-lo, mas de repente,</p><p>seu corpo foi erguido pela cintura e arremessado no meio do lago.</p><p>De longe, Gabriel e Rafael gargalharam pelo grito esganiçado que</p><p>Luan deixou escapar. Alexandre manteve o sorriso radiante em seu rosto até</p><p>quando Luan emergiu, tossindo e xingando até sua décima geração.</p><p>— Eu vou te matar, seu canalha! — gritou irritado.</p><p>— Desculpa, meu anjo… precisava te animar.</p><p>— E não sabia contar uma piada?!</p><p>Luan jogou uma grande quantidade de água no rosto de Alex, tentou</p><p>fugir das mãos espertas, mas foi agarrado pela cintura e abraçado por trás.</p><p>— Desculpa…</p><p>— Eu vou te deixar sem sexo por uma semana… — ameaçou em</p><p>voz baixa.</p><p>— Por que você é tão cruel comigo?</p><p>— Porque você é um canalha! — brigou, mas ao fitar a cara de</p><p>coitado que Alex estava fazendo naquele momento, ele acabou sorrindo. —</p><p>Idiota! Quase me matou afogado.</p><p>— Você me desculpa?</p><p>— Tá, não precisa se tornar o rei da coitadolândia não. Eu ainda</p><p>vou te dar.</p><p>— Não tem graça quando você fala assim.</p><p>Luan aproveitou que a água os cobria até a cintura e se pendurou</p><p>pelos ombros largos, enlaçou a cintura estreita com suas pernas e encostou</p><p>sua bunda contra o membro adormecido. Quando moveu seus quadris</p><p>devagar, Alex gemeu baixinho e fechou os olhos.</p><p>— Quando a gente chegar em casa, eu vou ficar completamente nu,</p><p>deitadinho no meio daquela cama imensa, esperando você vir me comer</p><p>bem gostoso. — explicou com cuidado e baixo o bastante para não ser</p><p>ouvido pelos outros, mesmo que estivessem distantes.</p><p>— Tá me deixando de pau duro… — grunhiu.</p><p>— E se a gente tentar aqui? — mordiscou o lóbulo da orelha de</p><p>Alex. — Acha que dá pra ver esse seu pau gostoso me fodendo dentro da</p><p>água?</p><p>— Chega! Vamos embora! — exclamou excitado.</p><p>— Mas agora que comecei.</p><p>Luan estava há quatro dias sem ver o Alexandre. No domingo à</p><p>noite, Fernanda havia ligado para informar que Heitor estava doente e Alex</p><p>não pensou muito antes de tomar um banho rápido, vestir suas roupas e</p><p>pegar a estrada até a capital. Luan não negaria que estava com saudades</p><p>dele, mesmo com o pouco tempo, mas aqueles dias distantes serviram para</p><p>fazê-lo pensar.</p><p>Em momentos aleatórios, Luan se pegava pensando o que</p><p>aconteceria caso ele cogitasse mudar de ideia quanto a começar um</p><p>relacionamento com Alexandre. Antes, aquilo era algo que sequer passaria</p><p>pela sua cabeça, mas de alguma forma, as coisas haviam mudado. E bem,</p><p>ele começou a pensar.</p><p>Era bom quando ele estava com Alex. Quando ficavam juntos na</p><p>cama conversando bobagens. Quando os dedos espertos alisavam suas</p><p>costas com carinho ou quando as mãos experientes tocavam seu corpo nos</p><p>lugares certos. As sensações que Alex lhe causava eram de outro mundo e,</p><p>devido a isso, os sentimentos que vieram, estavam enchendo sua mente e</p><p>seu peito.</p><p>Luan esperava que com o passar dos dias seu interesse por Alex</p><p>fosse diminuir, mas ao contrário do que imaginou, ele estava desenvolvendo</p><p>sentimentos, confusos e intensos sentimentos. Ele nunca havia chegado</p><p>naquela fase, então não sabia como lidar ou o que pensar a respeito. Tudo o</p><p>que ele queria, era estar nos braços de Alex. Queria estar agarrado naquele</p><p>corpo grande e bem construído e queria poder beijá-lo do jeito que gostava,</p><p>com calma e desejo. E querer aquilo falava muito mais do que ele poderia</p><p>expressar.</p><p>A saudade era tanta que ele até cogitou ir dormir no quarto de Alex,</p><p>mas depois de descartar a ideia, ele apenas roubou um travesseiro com o</p><p>cheiro amadeirado e dormiu agarrado a ele.</p><p>Naquele momento, ele estava deitado em sua cama abraçado ao</p><p>travesseiro roubado e sentindo o cheiro gostoso impregnado na fronha.</p><p>Passava da meia-noite e ele havia ficado até tarde no quintal, fumando e</p><p>observando as estrelas, mas quando notou que nada daquilo amenizaria a</p><p>saudade, ele voltou para o seu quarto e tentou dormir.</p><p>Entretanto, um zumbido alto o fez abrir os olhos. O brilho do celular</p><p>sobre a mesa de cabeceira iluminou o quarto escuro. Ele foi rápido em</p><p>pegar o celular e atender.</p><p>— Oi.</p><p>— Oi, meu anjo… te acordei?</p><p>— Não, ainda não tinha dormido. Tá tudo bem com o pequeno</p><p>herdeiro?</p><p>— Tá sim, ele acordou bem melhor hoje.</p><p>— Fico feliz com isso. Espero que ele fique bem de uma vez.</p><p>— Ele vai… mas, e você? Tá legal? Tô achando sua voz estranha.</p><p>— Não é nada de mais. Acho que só tô com saudade de você.</p><p>— Tá?</p><p>— Sim. — sussurrou</p><p>— O quanto cê tá com saudade de mim?</p><p>— Muita saudade. Tipo, até a lua e voltando.</p><p>— Caramba! Isso é muito. — Luan pôde notar um traço de sorriso</p><p>naquela resposta. — E o que você acha de matar toda essa saudade?</p><p>— Não tem como, Xande! Só quando você voltar, mas cê nem sabe</p><p>quando vem.</p><p>— Hum… alguém parece chateado. O que acha de ir até sua porta?</p><p>Tem um presente pra você.</p><p>Em um rompante, Luan afastou os lençóis e se levantou.</p><p>— Se você tiver brincando comigo, eu juro que…</p><p>— Para de me ameaçar com sexo e vai logo.</p><p>Luan se apressou até a porta, e quando a abriu, se deparou com Alex</p><p>escorado</p><p>de café em sua xícara e observou</p><p>atentamente o garoto, que arregalou os olhos escuros ao olhar para o pai.</p><p>Cansado demais da viagem na madrugada, ele sequer fez a ligação de que</p><p>era Luan quem estava naquele carro estacionado em sua propriedade. Mas</p><p>ao que parecia, era ele sim, e Alexandre se perguntou por um segundo com</p><p>quem ele poderia estar, porém, afastou o pensamento ainda mais rápido</p><p>porque aquilo não era de sua conta.</p><p>Ele não deveria se importar.</p><p>— Não apronte uma dessas de novo, entendeu? Tua mãe não dorme</p><p>te esperando, tenha mais responsabilidade que tu não tá mais na capital não.</p><p>— repreendeu.</p><p>— Sim, senhor. — Luan respondeu e abaixou a cabeça. Sua mão foi</p><p>parar em um dos brincos que enfeitava suas orelhas e Alexandre pôde ver</p><p>traços de mais tatuagens em seu pulso escapando da manga da camisa</p><p>xadrez que ele usava.</p><p>Quando seu telefone vibrou no bolso da calça jeans surrada, ele o</p><p>pegou e pediu licença antes de sair da cozinha. Joaquim saiu pelas portas do</p><p>fundo e Luan focou seus olhos em sua mãe, que o observava com atenção.</p><p>— Não zanga com o teu pai, tu sabe que tá errado.</p><p>— Eu sei, mainha, mas painho não precisava me fazer essa</p><p>vergonha na frente do seu Alexandre. — resmungou.</p><p>— Seu pai é desse jeito mesmo, é só não dá motivo pra ele brigar,</p><p>que ele não vai brigar. — ela jogou o pano de prato que segurava sobre seu</p><p>ombro e se virou para a pia. — Agora vai trabalhar, cuida.</p><p>— Tô indo. — grunhiu baixo e seguiu pela mesma direção que o seu</p><p>pai.</p><p>Naquele dia, Luan e seus colegas de trabalho mexiam nas cercas da</p><p>propriedade. Seu pai, por ser mais velho, ocupava o posto de liderança e</p><p>fiscalizava o serviço que os peões faziam.</p><p>Era por volta das dez horas da manhã quando Alexandre apareceu</p><p>acompanhado de Rafael. Cada um deles estava montado em um cavalo e</p><p>tinha chapéus enormes sobre suas cabeças.</p><p>— Puta merda, eu não sabia que o patrão era um gostoso… — Luan</p><p>murmurou baixo para que apenas Gustavo ouvisse.</p><p>Gustavo era um dos peões que morava na cidade que ficava a cinco</p><p>quilômetros da fazenda e o primeiro cara com quem se envolveu quando</p><p>chegou ali. Os dois tiveram um breve caso que não passou de uma semana,</p><p>depois, acabaram se tornando amigos e, de certa forma, confidentes. Afinal,</p><p>Luan não tinha nenhum amigo de infância que ainda morasse lá e havia</p><p>perdido o contato com todos os seus colegas da capital.</p><p>— Ele é sim, mas é casado, cê deve saber.</p><p>— Eu sei. — seus olhos se mantiveram por mais alguns minutos em</p><p>Alexandre, admirando a beleza do homem e sua postura imponente sobre o</p><p>cavalo. A camisa que ele usava parecia velha e estava com quatro botões</p><p>abertos, expondo um pouco do peito largo e alguns rabiscos do que</p><p>pareciam serem tatuagens.</p><p>— Tira o olho, Luan, ele é hétero. — Gustavo murmurou e esbarrou</p><p>seu ombro no do amigo.</p><p>— Tô fazendo nada não, oxe… olhar não tira pedaço. — brincou,</p><p>mas quando os olhos verdes de Alexandre se voltaram em sua direção, ele</p><p>disfarçou e focou em seu trabalho.</p><p>O arrepio em sua nuca o deixou incomodado.</p><p>— Tá fazendo tudo errado, Luan! — Rafael exclamou de onde</p><p>estava e sorriu quando o mais novo ergueu a mão e mostrou-lhe o dedo do</p><p>meio.</p><p>— Vem fazer no meu lugar então, idiota.</p><p>— Luan! — seu pai gritou em forma de repreensão, estava mais</p><p>afastado, mas atento a cada coisa que seu filho fazia.</p><p>— Deixa ele, seu Joaquim, gente teimosa aprende fazendo o serviço</p><p>duas vezes pra deixar de ser um jumento.</p><p>Luan apenas revirou os olhos para as provocações de Rafael, mas</p><p>logo estava sorrindo. Os dois haviam estabelecido aquele tipo de dinâmica</p><p>desde que Luan havia chegado, e nenhum deles se incomodava de fato com</p><p>as ofensas.</p><p>— Cuidem logo com isso que tem muita coisa pra fazer hoje. — seu</p><p>Joaquim avisou alto, então, se aproximou de Alexandre e Rafael, ainda</p><p>montado em seus cavalos, e passou a conversar com eles.</p><p>— Mainha brigou comigo porque cheguei tarde ontem. — Luan</p><p>comentou.</p><p>— Mas cê saiu cedo da festa…</p><p>— Sim, mas eu fui pra casa daquele carinha lá e depois ele veio me</p><p>deixar em casa, a gente ficou no carro dele um pouco e depois eu entrei.</p><p>— Se tiver ficando muito ruim pro teu lado com os teus coroas,</p><p>pode ir morar lá na kitnet comigo. É pequena e só tem uma cama, mas a</p><p>gente dá um jeito. — ofereceu, pois ele sabia dos problemas que Luan</p><p>estava tendo com seus pais desde que havia chegado ali.</p><p>— Se você quer dormir comigo de novo, é só pedir. — implicou e</p><p>sorriu quando Gustavo revirou os olhos. — Mas tá tranquilo. Vou ficar aqui</p><p>só até juntar uma grana boa, depois volto pra capital. — comentou.</p><p>— Cê que sabe…</p><p>— Eu pensei que o seu Alexandre fosse bater na janela do carro</p><p>quando chegou.</p><p>— Seu Alexandre chegou de madrugada?</p><p>— Sim.</p><p>— Estranho…</p><p>— O que é estranho? — Luan parou o serviço e passou o braço</p><p>coberto pela manga da camisa em sua testa para limpar o suor.</p><p>Naquele dia fazia um calor infernal e mesmo com a chuva que havia</p><p>caído durante a madrugada, a temperatura permaneceu alta. O clima</p><p>naquela região era algo imprevisível, e como ele não estava habituado a</p><p>ficar tanto tempo debaixo do sol daquela forma, sua pele ficava facilmente</p><p>avermelhada e até irritada.</p><p>— Ele quase não vem pra cá e quando vem é durante o dia.</p><p>— E por que ele não vem?</p><p>— Pelo que eu soube, a mulher dele não gosta daqui, eles vivem na</p><p>capital e seu Alexandre só vem aqui pra resolver B.O e logo volta.</p><p>— Ah, lembro de mainha falando disso…</p><p>— Cê não conhecia ele? — Gustavo questionou ao fitar o rosto</p><p>vermelho de Luan.</p><p>— Não… meus pais moravam na cidade, então eu quase não vinha</p><p>pra cá. Quando fiquei maior e passei a vir, ele já tinha ido pra capital</p><p>estudar.</p><p>— É estranho vocês nunca terem se conhecido antes, mesmo com os</p><p>teus pais trabalhando aqui a vida toda.</p><p>Luan ergueu a cabeça e voltou a fitar Alexandre. Se surpreendeu</p><p>por flagrá-lo com os olhos fixos em si e sentiu um friozinho esquisito tomar</p><p>conta de sua barriga.</p><p>— Acho que só não era o momento. — deu de ombros. — Espero</p><p>que ele vá embora logo. Não aguento ficar perto de homem gostoso sem me</p><p>meter em problema. — debochou e Gustavo gargalhou.</p><p>— Deixa de ser abestalhado e vamo trabalhar.</p><p>Luan também sorriu, mas pelo tempo que Alexandre ficou ali, ele</p><p>sentiu o peso do seu olhar.</p><p>Alexandre tentou arduamente manter seus olhos longe daquele</p><p>garoto. Mas como se possuísse um ímã que atraísse sua atenção, ele passou</p><p>todo o tempo em que ficou perto dos trabalhadores observando Luan.</p><p>O garoto destoava completamente daquele cenário, como se ali não</p><p>fosse seu lugar. Mesmo com as roupas surradas e os cabelos pretos</p><p>amarrados para trás, ele tinha certa graciosidade que não condizia com a de</p><p>uma pessoa que trabalhava no campo.</p><p>Seu corpo era magro, diferente dos outros homens ao seu redor que</p><p>eram extremamente musculosos devido ao trabalho braçal. Sua pele era</p><p>alva, mas estava incrivelmente avermelhada devido ao sol e a sua postura</p><p>era ereta demais, delicada demais. Ele sequer parecia saber manejar uma</p><p>cavadeira manual, mas demonstrava esforço e atenção com o que fazia.</p><p>Alexandre sorriu quando viu uma careta tomar forma em seu rosto,</p><p>como se ele tivesse se irritado por ter sido repreendido. Acabou entendendo</p><p>o porquê de Rafael chamá-lo de teimoso.</p><p>Ele realmente era teimoso e parecia não gostar quando alguém</p><p>chamava sua atenção.</p><p>Ainda o observando, Alex notou quando ele puxou o arame liso de</p><p>forma errada e resmungou quando não teve o efeito desejado.</p><p>— Tá fazendo tudo errado… — murmurou baixo e Rafael ouviu,</p><p>porém, não disse nada.</p><p>— Isso tá errado, Luan! — o rapaz que trabalhava junto com ele</p><p>gritou irritado.</p><p>— Então faz sozinho, seu babaca!</p><p>Rafael sorriu ao observar a discussão dos dois, pois aquilo sempre</p><p>acontecia quando Luan trabalhava com alguém. Ele era genioso e detestava</p><p>quando não conseguia fazer as mesmas coisas que os outros, mesmo que</p><p>não tivesse qualquer experiência.</p><p>— Vamo indo? — Alexandre desviou o olhar e focou no amigo ao</p><p>seu lado. — O pessoal do frigorífico se atrasou, mas avisaram que já</p><p>estavam chegando.</p><p>Rafael assentiu e guiou as rédeas do cavalo na direção do casarão.</p><p>Os dois galopavam</p><p>na parede à frente, com roupas simples, cabelos úmidos e o celular</p><p>pressionado contra o ouvido.</p><p>— Caralho! Quando você chegou? — exclamou, desligando a</p><p>chamada e guardando o celular no bolso da calça de moletom.</p><p>— Há uns dez minutos… — guardou seu próprio celular e abriu os</p><p>braços. — Pensei que estivesse com saudade.</p><p>— E eu tô! — grunhiu manhoso e se chocou contra o corpo de Alex,</p><p>abraçando-o apertado e aspirando o cheiro dele. — Porra!</p><p>— Eu também estava com saudade de você, garoto. Muita saudade</p><p>mesmo. — confessou. Suas mãos alisaram os cabelos bagunçados e o</p><p>cheiro do shampoo que tanto amava encheu seus pulmões. — Quer ir pro</p><p>quarto comigo?</p><p>— Quero. — respondeu, entretanto, não ousou se afastar.</p><p>— Vamos lá… quando a gente deitar, cê vai poder se agarrar em</p><p>mim do jeito que quiser.</p><p>Luan assentiu, deu certo espaço, mas ainda se manteve agarrado ao</p><p>corpo de Alex. Quando entraram no quarto, Alex fechou a porta e caminhou</p><p>com ele até a cama. Ambos se acomodaram sobre o colchão, mas Luan</p><p>usou o peito largo como travesseiro.</p><p>Alexandre não esperava por uma recepção como aquela. Ele</p><p>também sentiu saudade de Luan e pensou nele por todo o tempo em que</p><p>passou longe, o que era esperado, dado ao fato de que eles estavam</p><p>passando muito tempo juntos. Só que, de alguma forma, Alex sentia que</p><p>algo havia mudado em Luan.</p><p>— Tá tudo bem, meu anjo?</p><p>— Agora tô bem. Mas eu realmente tava com saudade.</p><p>— Acredito. — sorriu ladino e continuou com o cafuné.</p><p>— O pequeno herdeiro ficou bem?</p><p>— Ficou sim, saudável como nunca. Foi só um resfriado.</p><p>— Que bom… quando ele vai vir aqui de novo?</p><p>— Em breve. Ele gostou de ter passado aquele fim de semana aqui,</p><p>perguntou sobre você e sobre o relâmpago.</p><p>— Ele gosta muito do meu filhote.</p><p>— Ele gosta muito de você também. — assim como o pai dele, Alex</p><p>quis expressar, mas se manteve calado.</p><p>O silêncio tomou conta do quarto. Luan fechou os olhos e se deixou</p><p>apreciar aquele simples contato com o corpo de Alex e no quanto ele havia</p><p>sentido falta dele. Acabou pensando em como seria quando aquilo acabasse,</p><p>quando ele fosse embora e não tivesse mais o prazer de ter Alex ao alcance</p><p>de suas mãos.</p><p>Luan não costumava sofrer por antecedência e era muito provável</p><p>que essa indiferença viesse do fato de que ele nunca amou algo ou alguém</p><p>ao ponto de temer a perda. Ele nunca teve nada a perder. Mas agora, ele</p><p>tinha o Alexandre. E por algum motivo escondido em seu subconsciente,</p><p>ele tinha medo de perdê-lo.</p><p>— Você tava fumando? — Alex perguntou depois de um tempo.</p><p>— Sim, mais cedo, como sabe?</p><p>— Senti o cheiro quando você me abraçou.</p><p>— Não consegui dormir, fiquei lá fora um pouquinho e depois voltei</p><p>pro quarto.</p><p>— Tá tudo bem, agora eu tô aqui e você vai poder dormir.</p><p>Alexandre pressionou seus lábios contra a testa coberta por alguns</p><p>fios de cabelo e se acomodou melhor sobre o colchão. Luan parecia ter sido</p><p>moldado para encaixar, com extrema perfeição, em seus braços. A junção</p><p>de seus corpos e a forma como se completavam sempre o deixava com o</p><p>coração acelerado. Na verdade, tudo relacionado a Luan deixava seu</p><p>coração acelerado; desde um mero sorriso, ao toque dos dedos espertos.</p><p>Durante os dias que passou distante, ele pensou em Luan de forma</p><p>exaustiva. Queria tanto que ele mudasse de ideia quanto a terminar a</p><p>relação que eles estavam construindo, queria poder fazer planos que o</p><p>incluísse, queria passear com ele sem precisar fingir que não tinham nada,</p><p>mostrar para o mundo que eles estavam juntos. Alexandre era um cara bem</p><p>romântico, esforçado e dedicado. E ele sabia que faria tudo ao seu alcance</p><p>para fazer Luan feliz.</p><p>Levando em conta o pouco tempo em que ele estava solteiro e o</p><p>quão improvável aquilo seria, ele se apaixonou por Luan. E a intensidade e</p><p>magnitude daquele sentimento fora algo que ele nunca sentiu em todos os</p><p>seus trinta e cinco anos de vida.</p><p>Era arrebatador.</p><p>Entretanto, Luan sequer cogitou dar-lhe uma chance de tentar. E não</p><p>havia muito o que Alexandre pudesse fazer além de tentar podar o</p><p>sentimento que crescia em seu peito como uma erva daninha.</p><p>Ele precisava se contentar com o tempo que ainda tinha. Novembro</p><p>estava chegando e, em menos de três meses, Luan iria embora e o deixaria</p><p>para trás, com a mente cheia de lembranças e o coração sangrando</p><p>sentimentos.</p><p>Ao constatar o quão pouco faltava para aquilo acontecer, Alex sentiu</p><p>seu peito arder, assim como seus olhos. Acabou se virando de lado e</p><p>prendendo Luan em seus braços e apertando-o com força. Queria tanto</p><p>poder mantê-lo ali, queria tanto poder impedir que ele partisse, queria pelo</p><p>menos ser um pouco mais egoísta e pedir que ele ficasse. Mas como ele</p><p>teria coragem de fazer isso, sendo que o seu garoto havia começado a viver</p><p>agora, quando ele já tinha uma bagagem longa e tinha vivido tudo o que</p><p>queria?</p><p>Alexandre não podia pedir aquilo a ele.</p><p>Ele não sabia o que doeria mais, se era vê-lo partir ou lidar com as</p><p>lembranças do que tiveram e as fantasias do que poderia ter se tornado.</p><p>De qualquer forma, doeria. Nos dois.</p><p>Naquela noite, Luan dormiu em seus braços, mas Alexandre sequer</p><p>conseguiu pregar os olhos.</p><p>CAPÍTULO DEZOITO</p><p>Luan encarava o copo de cerveja à sua frente como se as respostas</p><p>que procurava fossem surgir magicamente no líquido amarelo, tal qual um</p><p>caldeirão fervente de uma bruxa.</p><p>Durante aquela semana, muitas coisas haviam acontecido. Ele e</p><p>Alexandre estavam cada vez mais próximos, se é que era possível. E aquela</p><p>aproximação, apesar de ser diferente de tudo o que ele já viveu, parecia</p><p>bom, parecia certo.</p><p>Ele sempre foi cético demais quanto aos seus próprios sentimentos.</p><p>Mesmo sendo tão novo, ele nunca achou que fosse se apegar tanto a uma</p><p>pessoa em sua vida ao ponto de cogitar mudar seus planos, ou mudar sua</p><p>visão quanto a se entregar de uma vez.</p><p>Luan estava percorrendo um terreno desconhecido e perigoso, mas</p><p>parecia tão certo que ele não temia. Qualquer medo que ele pudesse ter</p><p>sentido quando começou a se relacionar com Alexandre foi exterminado.</p><p>Aos pouquinhos, Alexandre o conquistou.</p><p>Primeiro, ele tomou o controle da sua mente, depois, tomou posse</p><p>do seu corpo e, só então, ele se infiltrou em seu coração da forma mais</p><p>covarde e arrebatadora que podia.</p><p>Luan estava inegavelmente apaixonado.</p><p>Pela primeira vez em sua vida, ele foi nocauteado pela paixão e o</p><p>ganhador daquela luta era o homem que não saía de sua cabeça por nem um</p><p>segundo. E descobrir a imensidão daquele sentimento o fez questionar se</p><p>realmente valia o risco de perdê-lo ao partir para a capital como estava em</p><p>seus planos.</p><p>Era algo tão genuíno e tão único que ele temia não encontrar mais.</p><p>Luan acreditava que existiam várias formas e intensidades de amar. Ele</p><p>também sabia que existia aquele amor, o mais intenso, o que te deixa louco,</p><p>que mexe com a sua cabeça e marca seu coração para sempre.</p><p>Alexandre era aquele tipo de amor.</p><p>De forma fugaz, Alexandre marcou sua pele, pintou seus lábios com</p><p>o doce sabor do amor e encheu seu coração de sentimentos e emoções ao</p><p>ponto de fazê-lo acreditar que nunca encontraria algo igual.</p><p>Nada seria igual. Nunca.</p><p>— O que você tem? — a pergunta foi feita por Gustavo, que estava</p><p>sentado ao seu lado e também mantinha um copo de cerveja em suas mãos.</p><p>Luan suspirou fundo e bebeu um gole do líquido amarelo e gelado.</p><p>Seus olhos percorreram a extensão da praça municipal, mirando em vários</p><p>rostos, mas não se atentando a nenhum. Durante aquela semana, ele ouviu</p><p>aquela pergunta mais vezes do que gostaria. No entanto, o que mais o</p><p>irritava naquilo era não ter uma resposta.</p><p>Ele estava bem?</p><p>Descobrir que estava apaixonado era uma coisa boa, mas por que ele</p><p>se sentia tão confuso ao ponto de sequer conseguir formular uma resposta?</p><p>— Tô tranquilo. — mentiu.</p><p>Ele também mentiu muito durante aquela semana.</p><p>— Cara, eu te conheço. Sei que tem algo te incomodando. A gente é</p><p>amigo, pode desabafar comigo se quiser.</p><p>Luan não respondeu de imediato. Deixou o copo de cerveja de lado</p><p>e pegou o cigarro eletrônico que Alex havia comprado. Só depois de tragar</p><p>uma grande lufada de fumaça e soltá-la para o céu enegrecido,</p><p>devagar e em silêncio. Rafael observou os</p><p>arredores à medida que se aproximavam do curral e viu o vaqueiro Gabriel</p><p>montado em um cavalo e tocando o gado em direção ao galpão para que os</p><p>compradores pudessem vê-los. E como sempre, foi claramente ignorado</p><p>pelo outro.</p><p>— Aquele menino não sabe trabalhar na roça. — Alexandre</p><p>comentou baixo, atraindo a atenção do amigo.</p><p>— Quem? — franziu o cenho e segurou o chapéu que cobria seus</p><p>cabelos curtos para que não caísse quando o vento soprou mais forte.</p><p>— Luan… ele não sabe trabalhar no pesado.</p><p>— Ele dá conta sim. É teimoso, quer fazer tudo do jeito dele, mas</p><p>quando não consegue, a gente ensina e ele aprende rápido, sem contar que</p><p>dois minutos depois ele já tá tranquilo. Não é de ficar brigado com</p><p>ninguém.</p><p>Alexandre assentiu, mas uma dúvida surgiu em sua mente.</p><p>— O que foi aquilo entre você e ele? — arqueou a sobrancelha ao</p><p>questionar.</p><p>— Bobagem. Eu gosto de implicar porque ele pega ar facinho. —</p><p>comentou e sorriu.</p><p>— Implicar, é? Na minha terra isso tem outro nome.</p><p>— Na sua terra héterolândia? — debochou e recebeu um olhar</p><p>cerrado de Alexandre. — Mas não é assim. O Luan é muito novo pra mim</p><p>e, até onde eu sei, ele tava com o Gustavo.</p><p>— Aquele que tava trabalhando com ele na cerca?</p><p>— Sim.</p><p>— Então quer dizer que ele é gay? — perguntou, mas tentou manter</p><p>a curiosidade que borbulhava dentro de si oculta.</p><p>— Até onde eu sei ele é bi, isso não é algo que falamos muito e acho</p><p>que os pais dele não sabem também.</p><p>— Entendi, ontem, quando eu cheguei, tinha um carro prata parado</p><p>lá no escuro perto do curral, provavelmente eram os dois.</p><p>— Ah, então ele já tá com outro, porque o Gustavo não tem carro.</p><p>— murmurou e sorriu. — Aquele moleque é fogo demais, uma pena que</p><p>não faz o meu tipo.</p><p>— Sei, seu tipo é um vaqueiro que mal olha na tua cara. — caçoou.</p><p>— Vai se lascar! Não tenho culpa se eu gosto de quem me despreza.</p><p>— comentou e voltou a olhar para Gabriel ao longe.</p><p>— Coitadinho dele… — Alexandre zombou, porém, quando viu</p><p>duas caminhonetes se aproximarem da casa principal, seu sorriso diminuiu</p><p>e sua postura relaxada mudou. — Vamos cuidar dos nossos afazeres porque</p><p>dinheiro não dá em árvore não.</p><p>Assim que o pessoal do frigorífico, junto ao corretor de gado, saíram</p><p>de sua sala com um acordo de negócios fechado, Alexandre suspirou fundo,</p><p>retirou o chapéu de sua cabeça e passou ambas as mãos pelos cabelos. Seus</p><p>olhos pousaram na fotografia de Fernanda e Heitor sobre sua mesa e uma</p><p>pontada aguda irradiou em seu peito.</p><p>— Fernanda não quis vir contigo? — Rafael perguntou ao sentar em</p><p>uma das cadeiras dispostas em frente à mesa.</p><p>— Não… — respondeu, ainda focado naquela foto.</p><p>Sua família.</p><p>— O que rolou? Quer falar?</p><p>— A gente meio que se separou. — confessou, exausto.</p><p>— Tá falando sério? — Rafael arregalou os olhos com espanto e se</p><p>aprumou melhor no assento.</p><p>— Sim, Fernanda e eu não estamos bem há muito tempo, a gente já</p><p>tentou de tudo, mas não funcionou. Ontem conversamos antes de eu vir pra</p><p>cá e decidimos que era melhor separar…</p><p>— Cara, isso é foda pra caralho.</p><p>— Demais e isso tem me deixado angustiado, mas eu espero que</p><p>passe logo. É melhor do que ficar num casamento que não nos faz feliz.</p><p>— Cê tá certo, mas é bem difícil imaginar vocês dois separados.</p><p>— Você acha? — resmungou. — É difícil desapartar porque temos</p><p>uma relação sólida, uma rotina estável, e imaginar continuar minha vida</p><p>sem ter ela do meu lado é estranho demais.</p><p>— É uma vida, né? Não dá pra esquecer ou deixar pra lá como se</p><p>não fosse nada. — murmurou e Alexandre assentiu. — Mas cê acha que</p><p>tem volta?</p><p>— Sinceramente? Não. Fernanda e eu não nos amamos mais…</p><p>tentamos por mais de um ano fazer com que desse certo, mas não adiantou.</p><p>— Isso é complicado. Mas vocês vão conseguir superar.</p><p>— Vamos sim… — Alexandre se levantou da poltrona e pegou o</p><p>chapéu. — Agora vamo parar com a fofoca e ir comer, tô morrendo de</p><p>fome!</p><p>— Será que o Gabriel deixa eu ir comer com ele? — Rafael</p><p>perguntou e Alexandre caiu na risada.</p><p>— Vai lá tentar, vou adorar ver ele te enxotando igual cachorro.</p><p>CAPÍTULO TRÊS</p><p>Durante a madrugada, Alexandre levantou e foi procurar algo para</p><p>comer na cozinha. Havia jantado cedo e ido para a cama logo em seguida,</p><p>mas como aquilo não era um hábito comum, ele acordou à uma da manhã</p><p>com muita fome.</p><p>O barulho dos grilos e sapos ecoando do lado de fora eram os únicos</p><p>sons audíveis e em meio aquela calmaria, ele comeu um pedaço de pão</p><p>caseiro que achou dentro do micro-ondas. Então, um barulho de uma</p><p>música baixa soou do lado de fora da casa.</p><p>Em poucos passos, ele fitou o quintal pela janela de vidro e se</p><p>deparou com a sombra de um corpo deitado em uma espreguiçadeira de</p><p>pano embaixo de um pé de goiaba. A pontinha vermelha que se acendeu em</p><p>meio ao breu deu-lhe um bom indício de que alguém estava fumando lá</p><p>fora.</p><p>Depois de comer, Alexandre limpou as mãos em um pano de prato</p><p>sobre a mesa e saiu porta afora. O céu estava pontilhado de estrelas, mas a</p><p>lua não deu o ar de sua graça.</p><p>Um vento fresco soprava e balançava os galhos das árvores que</p><p>arborizavam aquela parte do quintal e arrepiou os pelos de seu peito</p><p>desnudo. Com o hábito de sempre dormir nu, Alexandre só vestiu um short</p><p>fino antes de sair do seu quarto.</p><p>— Tá fazendo o quê aqui fora sozinho, garoto? — perguntou ao se</p><p>aproximar o bastante para ter um vislumbre do rosto de Luan, que fumava</p><p>um cigarro comum.</p><p>— Nada, senhor… só matando o tempo. — respondeu e desligou a</p><p>música que tocava baixinho em seu celular.</p><p>Quando a claridade do aparelho refletiu em seu rosto, Alexandre</p><p>pôde ver os lábios avermelhados do garoto e seus cabelos pretos soltos,</p><p>quase roçando seus ombros. Era bonito e parecia ser muito macio.</p><p>Alexandre assentiu e cruzou os braços na intenção de se proteger do</p><p>frio da noite. Seus olhos desviaram de Luan e vasculharam ao redor,</p><p>perdendo-se no espaço aberto e escuro da propriedade.</p><p>Sua mente estava calma, o que não era muito comum, pois só</p><p>acontecia quando ele estava na fazenda. O barulho da cidade, as luzes e</p><p>todo o caos que era morar longe do campo era algo que sempre o</p><p>incomodava, porém, ele teve de se acostumar quando ele e Fernanda</p><p>decidiram morar na capital para que pudessem abrir um escritório de</p><p>advocacia.</p><p>Entretanto, ele não negaria o quanto amava a paz que viver no</p><p>campo lhe proporcionava, e quando resolvesse todos os trâmites do seu</p><p>divórcio, ele, definitivamente, voltaria a morar ali.</p><p>— O senhor quer sentar? Posso pegar uma cadeira se quiser. —</p><p>Luan perguntou com educação, mesmo não sabendo o motivo do homem</p><p>estar ali fora tão tarde da noite e sem camisa.</p><p>Luan estava tendo certa dificuldade em manter seus olhos afastados</p><p>do peitoral definido de Alexandre e das tatuagens que ele possuía naquela</p><p>região, que mesmo com a pouca iluminação, ficaram bem evidentes. Seus</p><p>braços cruzados deixavam os músculos ainda mais tensionados e Luan</p><p>mentiria se dissesse que não se sentia afetado com aquela visão.</p><p>Ele tinha um fraco por caras musculosos.</p><p>Acabou se repreendendo quando um pensamento safado surgiu em</p><p>sua mente ao olhar para o homem porque além de ser o patrão dos seus</p><p>pais, Alexandre também era hétero e casado.</p><p>— Não precisa, e também não precisa me chamar de senhor… eu só</p><p>sou uns quinze anos mais velho que você.</p><p>— Desculpa, não quis te ofender, só tava sendo educado. —</p><p>murmurou e tragou o que restava do cigarro entre seus dedos, depois, jogou</p><p>a bituca no chão e pisou em cima com a havaiana.</p><p>Alexandre observou quando Luan ergueu a cabeça para o alto e</p><p>soprou a fumaça esbranquiçada para o céu. Estando mais perto e com os</p><p>olhos acomodados com a pouca luz, ele conseguiu visualizar com extrema</p><p>perfeição o perfil delineado e o nariz arrebitado, assim como o pescoço</p><p>longo e o pomo de Adão proeminente.</p><p>— Você é muito novo pra ter um vício tão nocivo quanto esse… —</p><p>ele comentou.</p><p>— Eu não fumo com tanta frequência, só quando não consigo</p><p>dormir ou quando fico ansioso.</p><p>— E qual dos motivos te fizeram fumar agora? — perguntou com</p><p>curiosidade.</p><p>Luan desviou seu olhar de Alexandre e fitou a escuridão</p><p>que os</p><p>cercava.</p><p>Desde que voltou a morar com seus pais, as coisas não estavam indo</p><p>muito bem. Seu pai continuava chateado com os problemas que ele havia</p><p>causado na capital, então a convivência entre eles não estava sendo das</p><p>melhores.</p><p>— Um pouco dos dois, eu acho… não tenho o hábito de dormir</p><p>cedo e ainda não me acostumei a ir pra cama às nove horas da noite.</p><p>— Eu também não durmo cedo quando tô na capital, meu filho</p><p>Heitor parece ter uma bateria infinita e mesmo que a mãe dele controle os</p><p>horários dele dormir, às vezes a gente extrapola. — comentou e sorriu ao</p><p>lembrar do filho. — Mas eu gosto daqui, gosto da calma que sinto quando</p><p>tô aqui e gosto de dormir cedo.</p><p>— Deve ser coisa da idade… — Luan murmurou baixo, mas</p><p>Alexandre ouviu.</p><p>— Tá me chamando de velho, garoto? — arqueou a sobrancelha</p><p>grossa ao questionar.</p><p>— Não! Cê é um coroa bem conservado! — falou a primeira coisa</p><p>que veio a mente e Alexandre sorriu ainda mais. — Quer dizer… não se</p><p>sinta ofendido, é só que, geralmente, quem gosta de dormir cedo é mais</p><p>velho, como os meus pais… — grunhiu a resposta e passou a mão pelo</p><p>rosto.</p><p>— Sou um coroa bem conservado, é?</p><p>Luan franziu o cenho ao ouvir aquela pergunta. Tentou ignorar o</p><p>tom sugestivo na entonação rouca da voz, mas sua mente venceu o combate</p><p>e o pensamento de que Alexandre havia gostado do que ele disse se</p><p>enraizou.</p><p>— Com todo o respeito, sim. Dá de dez a zero em muito novinho</p><p>por aí. — respondeu sincero.</p><p>Alexandre negou com a cabeça e passou a mão pela barba grande</p><p>em seu rosto. Conteve o sorriso e ignorou completamente a sensação que</p><p>sentiu ao ouvir aquele comentário sobre si.</p><p>— Acho que isso é bom.</p><p>— Pode ter certeza que sim… — Luan sussurrou e quando sentiu o</p><p>peso do olhar de Alexandre, acabou desviando sua atenção.</p><p>— Acho que é melhor você ir dormir, amanhã tem muito trabalho</p><p>pra fazer.</p><p>— Tem razão. — concordou e se levantou da espreguiçadeira.</p><p>Depois de guardar o maço de cigarros, o isqueiro e o celular no bolso da</p><p>calça de moletom que usava, ele seguiu em direção à porta. Alexandre</p><p>também foi, e juntos, eles caminharam devagar até ao corredor que levava</p><p>aos quartos.</p><p>Luan não deveria estar naquela ala da casa, mas o quarto na ala dos</p><p>funcionários estava cheio de tralha e enquanto sua mãe não resolvia aquela</p><p>questão, ela decidiu colocá-lo em um dos quartos de hóspedes.</p><p>— Minha mãe disse que o quarto dos funcionários tá bagunçado e</p><p>me colocou aqui, espero que não tenha problema. — falou ao parar diante</p><p>da porta.</p><p>— Não me importo. Boa noite, Luan. — Alexandre comentou e</p><p>seguiu até o cômodo ao lado.</p><p>— Boa noite, senhor.</p><p>Alexandre o fitou e sorriu pequeno, então, entrou em seu quarto.</p><p>Quando bateu a porta atrás de si, Luan mordeu um sorriso que quis</p><p>escapar e negou com a cabeça.</p><p>— Não mexe com quem tá quieto, Luan… não caça problema pro</p><p>teu rabo.</p><p>— Luan, ajuda o Gustavo a pegar os sacos de sal da caminhonete.</p><p>— Rafael pediu enquanto conferia na prancheta em sua mão se todos os</p><p>itens que ele havia solicitado tinham sido comprados.</p><p>— Tá. — Luan respondeu e seguiu em direção à picape quatro por</p><p>quatro que Rafael dirigia. Haviam cerca de dez sacos de sal na carroceria e</p><p>Gustavo já carregava um em seus ombros.</p><p>Alexandre encontrava-se ao lado do amigo, ambos perto do curral</p><p>enquanto observavam os peões trabalharem. Naquela tarde, o tempo estava</p><p>fechado e um vento frio soprava contra seus rostos. As nuvens negras</p><p>ameaçavam desabar sobre suas cabeças e todos os trabalhadores estavam</p><p>ansiosos em encerrar o expediente antes que a chuva caísse.</p><p>— Seu Alexandre, saiu o calendário de vacinação contra a febre</p><p>aftosa. Precisa pedir as vacinas pra gente poder vacinar o gado semana que</p><p>vem. — Gabriel comentou ao se aproximar.</p><p>Rafael ergueu a cabeça por cerca de dois segundos e fitou o</p><p>vaqueiro, depois, voltou sua atenção para a prancheta e mordeu um sorriso</p><p>que quis escapar.</p><p>— Rafael vai providenciar isso ainda essa semana. — informou. —</p><p>E aquela égua que tava prenha, nada de parir?</p><p>— Não, Tempestade tá numa baía sozinha, os cavalos e até as outras</p><p>éguas tavam brigando com ela, daí a gente decidiu deixar ela só.</p><p>— Fale com a Verônica pra que ela venha ver a égua essa semana</p><p>também, tá demorando demais pra esse potro nascer. — falou para Rafael.</p><p>Então, quando ouviu vozes alteradas, ele girou a cabeça e se</p><p>deparou com Luan e Gustavo discutindo. Dois sacos de sal estavam caídos</p><p>no chão e um deles havia sido rasgado.</p><p>— Presta atenção por onde cê anda, Luan! Que merda!</p><p>— Vai se foder, seu babaca! Você que entrou na minha frente! —</p><p>exclamou furioso.</p><p>— Eu te disse pra não pegar mais de um saco de sal de uma vez! Por</p><p>que você tem de ser tão teimoso?</p><p>— Se você é um frouxo e não consegue pegar mais de um, a culpa</p><p>não é minha!</p><p>— Bora ver quem estragou um saco de sal à toa! Pelo menos eu não</p><p>sou afobado igual você.</p><p>— Ei, bora parar com essa discussão besta? Cês tem cinco anos por</p><p>acaso? — Rafael repreendeu os dois. — Terminem isso aí logo, que a chuva</p><p>tá chegando. — ordenou.</p><p>Luan pegou um dos sacos que havia derrubado e o colocou no</p><p>depósito perto do curral, depois, tentou salvar o que restava do sal no saco</p><p>rasgado e conseguiu juntar a metade. Ele o levou para o depósito e</p><p>continuou com a descarga. Gustavo se manteve calado, vez ou outra eles se</p><p>encaravam, mas não ousaram falar uma palavra sequer.</p><p>Quando acabaram, Luan se afastou em direção ao curral.</p><p>Havia alguns bovinos presos em um dos galpões que mugiram</p><p>quando Luan caminhou pelo corredor de madeira. Quando encontrou um</p><p>lugar tranquilo, ele se sentou e observou os animais. Estava sujo, suado e</p><p>com seus músculos doloridos e cansados. O serviço braçal que fazia ali na</p><p>fazenda era algo novo, porém, em pouco mais de um mês fazendo todo tipo</p><p>de trabalho, ele já havia se acostumado.</p><p>Entretanto, seu temperamento sempre o colocava em problemas.</p><p>Luan nunca soube trabalhar em grupo porque gostava de fazer tudo</p><p>sozinho e odiava quando tentavam ensiná-lo ou quando o repreendiam.</p><p>Teve problemas com aquilo na escola, nos poucos locais que trabalhou na</p><p>capital e estava tendo problemas ali também. Não gostava de ser tão</p><p>irritadiço, muito menos de provocar desavenças entre seus colegas de</p><p>trabalho, mas às vezes ele não conseguia se controlar.</p><p>Mesmo que soubesse ser algo necessário.</p><p>— Cê tá legal? — Luan se assustou ao ouvir a voz de Alexandre tão</p><p>perto. Olhou ao redor e o avistou caminhar devagar e sentar a alguns</p><p>centímetros de distância.</p><p>— Tô sim, desculpa pelo que rolou ali. — murmurou baixo e</p><p>envergonhado.</p><p>— Tá tudo bem, mas você precisa ser mais paciente se quiser</p><p>continuar trabalhando aqui. — comentou devagar.</p><p>— O senhor vai me demitir? — Luan arregalou os olhos ao fitar</p><p>Alexandre.</p><p>— Não! Não foi isso que eu quis dizer, Luan. — exclamou e Luan</p><p>respirou fundo. — Só disse que se você não quiser ter problemas com esses</p><p>peões, deve ter mais paciência. Tenho certeza que não vai querer sair no</p><p>soco com nem um deles.</p><p>— Acha que eu não dou conta? — arqueou a sobrancelha em</p><p>desafio.</p><p>— Não sei, você dá? — questionou com diversão.</p><p>Luan umedeceu vagarosamente o lábio inferior com a língua, seus</p><p>olhos escuros deslizaram por todo o rosto dele, analisando as pequenas</p><p>rugas nos cantos dos olhos verdes, os pelos da barba espessa, os lábios finos</p><p>e um pouco rosados, porém, muito convidativos.</p><p>Por um segundo, Luan se perguntou como seria beijá-lo.</p><p>— Eu dou, sim, senhor… pode apostar que eu dou. — murmurou</p><p>lentamente e sorriu de lado.</p><p>Alexandre engoliu em seco e desviou o olhar. Incontrolavelmente,</p><p>seu coração começou a bater acelerado, e ele agradeceu por sua barba está</p><p>grande, assim poderia esconder o rubor que tomou suas bochechas.</p><p>Luan era lindo e Alexandre poderia admitir isso, até porque, não</p><p>havia nada de mais em reconhecer que outro homem é bonito. Entretanto,</p><p>ele passou todo o dia procurando por Luan, mesmo estando distante, e</p><p>aquilo definitivamente não era algo normal.</p><p>Por alguns segundos, os dois se mantiveram presos naquele contato.</p><p>Verdes intensos fixos em esferas escuras como a noite. Era confuso para</p><p>ambos. Luan</p><p>se sentia inegavelmente atraído por Alexandre, afinal, ele era</p><p>seu tipo ideal de homem. Já Alexandre não entendia os motivos que o</p><p>impediam de desviar seus olhos de Luan, porque mesmo que fosse</p><p>absurdamente lindo, ele era um homem e Alexandre não gostava de</p><p>homens.</p><p>— Luan! — a voz de Gustavo soando ao longe causou a quebra do</p><p>contato visual.</p><p>Alexandre desviou sua atenção e se levantou, ansioso e um pouco</p><p>nervoso também. Luan continuou a olhar para Alex, que passou a mão</p><p>esquerda pela barba em um gesto claro de nervosismo. Naquele momento, a</p><p>aliança no dedo anelar pareceu reluzir e chamou sua atenção. Luan se</p><p>lembrou que Alexandre era casado e acabou se repreendendo mentalmente</p><p>por seu comportamento.</p><p>— Desculpa pelo o que eu disse. — expressou com certa timidez.</p><p>Alexandre estava pronto para sair dali, mas parou e olhou</p><p>diretamente para Luan.</p><p>— Não precisa pedir desculpa, tenho certeza que você realmente dá</p><p>conta. — deu uma piscadela e se afastou.</p><p>— Luan! — novamente, Gustavo chamou.</p><p>— Tô aqui! — gritou a resposta enquanto assistia Alexandre</p><p>caminhar de forma confiante na mesma direção que Gustavo surgiu. — Puta</p><p>que me pariu, que homem gostoso do caralho! — sussurrou.</p><p>— Ficou doido de vez? Falando sozinho… — Gustavo se sentou no</p><p>mesmo lugar que Alex estava e sorriu ao observar o rosto do amigo.</p><p>— Provavelmente… — meneou com a cabeça, mas manteve o</p><p>sorriso no rosto. — O que quer falar comigo?</p><p>— Queria me desculpar por causa do que eu disse mais cedo.</p><p>— Tá tudo bem, já passou. — comentou e deu de ombros como se a</p><p>discussão que tiveram ainda há pouco não fosse nada. — Foi mal por ter me</p><p>irritado contigo.</p><p>— Tá tranquilo. A gente é amigo, não vamo criar birra um com</p><p>outro por bobagem.</p><p>— Maneiro.</p><p>— Quer ir pra cidade tomar uma cerveja? — perguntou.</p><p>Naquele momento, um raio cortou o céu que escurecia rapidamente</p><p>e um trovão soou alto sobre suas cabeças.</p><p>— Não, tô cansado demais. Só vou tomar banho, comer e cair na</p><p>cama.</p><p>— Se quiser cair na minha cama, ela tem espaço pra você.</p><p>— Seu puto, sabia que ainda queria meu corpo nu.</p><p>Luan brincou, então, ao se levantar, sentiu o vento frio soprar contra</p><p>seu rosto e balançar alguns dos fios de seus cabelos que haviam escapado</p><p>do elástico.</p><p>— Uma foda boa não se dispensa. — Gustavo comentou e sorriu.</p><p>— Eu sei que sou gostoso, mas não vou transar contigo de novo.</p><p>— E por que não? — inquiriu ao se levantar.</p><p>— Ou a gente transa, ou a gente é amigo, Gustavo.</p><p>— A gente pode ser os dois. — Gustavo se aproximou de Luan e o</p><p>segurou pela cintura. — Nunca ouviu falar de amizade colorida? —</p><p>perguntou e deixou um beijo contra a mandíbula bem desenhada.</p><p>— Já tive isso e não deu certo no final. — confessou e fechou os</p><p>olhos por um segundo quando sentiu os lábios de Gustavo rasparem nos</p><p>seus. — Gustavo, qualquer um pode ver a gente aqui.</p><p>— E daí? — soprou contra a boca do outro.</p><p>— E daí, gostosão, que meu pai pode ver. Cê quer mesmo que ele</p><p>veja o filhinho dele, que se meteu em problema na capital, agarrado a outro</p><p>cara? — falou e deu um passo para trás, se afastando do corpo de Gustavo e</p><p>do contato de suas mãos. — Não quero mais problemas pro meu rabo, então</p><p>facilita pra mim, falou?</p><p>— Falou. — ergueu ambas as mãos em um gesto de rendição.</p><p>— Agora vamo indo… tô com fome e cê precisa se mandar antes de</p><p>chover. Andar de moto embaixo de chuva nunca é bom.</p><p>Os dois caminharam pelos corredores de madeira em direção à saída</p><p>do curral. Alexandre continuava por ali e em seu campo de visão e quando</p><p>Luan olhou para ele e o flagrou encarando-o com expressões fechadas e</p><p>intensas, se questionou por um segundo se ele tinha visto seu pequeno</p><p>momento com Gustavo.</p><p>Torceu internamente para que ele não criasse problemas devido à</p><p>sua sexualidade.</p><p>Ainda sob a mira daquele olhar frio, Luan sentiu novamente aquele</p><p>arrepio estranho percorrer sua pele, contudo, ele sequer ousou pensar sobre,</p><p>pois não era nada demais.</p><p>— Seu Alexandre, pode descontar o saco de sal que o Luan</p><p>derrubou do meu salário, a culpa foi minha. — Gustavo informou, mas</p><p>Alexandre não fez a menor questão de olhar em sua direção.</p><p>— Não precisa, pode deixar que eu pago. — Luan disse, ainda</p><p>observando seu patrão.</p><p>— Não foi nada… não se preocupa com isso. — Alexandre</p><p>respondeu.</p><p>O garoto assentiu e se afastou com o amigo ao seu lado. Quando</p><p>estavam distantes o suficiente, Gustavo comentou:</p><p>— Acho que o patrão não gosta de mim.</p><p>— Por quê?</p><p>— Ele não olhou na minha cara quando eu falei, tava focado demais</p><p>em você.</p><p>— Ele deve tá me odiando por ter estragado um saco de sal.</p><p>— Se você diz… — Gustavo esbarrou seu braço no de Luan e</p><p>sorriu. — Já vou indo, se mudar de ideia, me manda uma mensagem que eu</p><p>venho te buscar.</p><p>— É ruim que eu saio da minha caminha quentinha pra ir ficar</p><p>contigo debaixo do pé d’água que vai cair.</p><p>— Como cê é cruel, Luan… não te conheci assim.</p><p>— Vai embora logo, Gustavo. — Luan o empurrou e o assistiu</p><p>seguir em direção ao galpão onde ficavam os veículos dos funcionários da</p><p>cidade.</p><p>Quando olhou para trás, avistou Alexandre ainda próximo ao curral</p><p>com Rafael ao seu lado, ele permanecia observando-o.</p><p>Com um sorriso no rosto, Luan negou com a cabeça e aumentou o</p><p>passo rumo à casa grande.</p><p>Alexandre entrou no banheiro do seu quarto completamente nu.</p><p>Enquanto a água caia sobre seu corpo, ele escorou seus braços</p><p>contra a parede e tentou inutilmente relaxar, mas, seu maior esforço,</p><p>embora evidentemente falho, era o de tentar esquecer o que tinha</p><p>testemunhado acontecer em seu curral</p><p>Luan e aquele outro garoto perto demais. Tocando. Beijando.</p><p>Alexandre não conseguia entender o motivo de se sentir tão afetado</p><p>com o que viu, afinal, assistir dois homens em um momento romântico não</p><p>era algo incomum para si.</p><p>Ele era amigo de Rafael desde criança e esteve com ele em todos os</p><p>momentos no processo da descoberta sobre sua orientação sexual. Rafael</p><p>sempre foi muito seguro de si, mas quando foi julgado por sua família ao se</p><p>assumir gay, Alexandre foi uma das poucas pessoas a ficar ao seu lado e</p><p>apoiá-lo. Então, ao permanecer ao lado de seu amigo sendo seu único</p><p>confidente, Alex sabia sobre os casos que ele tinha com outros caras e até</p><p>presenciou alguns encontros casuais.</p><p>Ver dois caras se beijando nunca havia sido um problema, mas por</p><p>que assistir Luan com aquele garoto o deixou tão afetado?</p><p>Ele sabia que algumas das coisas que Luan falou, tinham um tom</p><p>notável de flerte e segundas intenções, mas o que o deixava incrivelmente</p><p>confuso era o fato de gostar daquilo.</p><p>Por que ele gostou de ouvir Luan dizer que ele era atraente? E por</p><p>que ele gostou, mais ainda, de saber que ele dava conta de algo?</p><p>— Que porra tá acontecendo comigo? — sussurrou e passou as</p><p>mãos pelos cabelos longos.</p><p>Era uma pergunta inútil, até porque ele não teria uma resposta. Mas</p><p>era algo que ele necessitava extravasar para aliviar seus pensamentos ou</p><p>ficaria louco. Estava na fazenda há apenas dois dias e aquele garoto , que</p><p>ele mal conhecia, já ocupava seus pensamentos como se fosse alguém por</p><p>quem ele pudesse se interessar.</p><p>Não fazia sentido. Não fazia o menor sentido e ele sabia disso, mas</p><p>não conseguia entender o que se passava em sua mente.</p><p>Sentindo-se frustrado, ele terminou o banho e depois se vestiu. Saiu</p><p>do quarto e seguiu em direção à sala, onde Joaquim e Maria assistiam à</p><p>novela das oito.</p><p>— O jantar tá pronto, Xandinho…</p><p>— Obrigado, Nona, mas vou comer só um bolo e tomar um café</p><p>com leite. — respondeu e seguiu em direção à cozinha, onde encontrou</p><p>Luan sentado no banco da mesa enquanto jogava algum joguinho em seu</p><p>celular. O prato com comida estava diante dele e completamente intocado.</p><p>Em silêncio, ele seguiu até o armário e pegou um prato de vidro,</p><p>caminhou até a mesa e ocupou um lugar de frente para Luan. Cortou uma</p><p>fatia generosa de bolo de cenoura e serviu um pouco de café e leite em uma</p><p>caneca.</p><p>— Sua comida vai esfriar, Luan…</p><p>— Já tô acabando aqui. — murmurou sem desviar sua atenção.</p><p>Alexandre começou a se alimentar, mas seus olhos se mantiveram</p><p>no garoto o tempo todo. Os cabelos de Luan estavam úmidos e soltos,</p><p>algumas mechas caiam sobre seu rosto e a cada dois segundos ele movia a</p><p>mão rapidamente para afastá-los. Os lábios rosados estavam presos entre os</p><p>dentes e os olhos escuros se mantiveram focados na tela do celular.</p><p>— Ah, seu filho da puta, não ferra! — grunhiu irritado e Alexandre</p><p>sorriu. — Cê não tá me vendo aqui não, seu corno?! — em um rompante,</p><p>ele deixou o celular cair sobre a mesa com um estrondo e, com brusquidão,</p><p>passou as mãos pelo rosto.</p><p>— Esse jogo parece divertido. — Alexandre falou.</p><p>— Ele é, quando o teu parceiro não entrega a tua localização. —</p><p>resmungou chateado.</p><p>— Precisa achar parceiros melhores, então.</p><p>Luan arqueou a sobrancelha e olhou diretamente para o rosto de</p><p>Alexandre.</p><p>— Preciso é? E o que sugere? — questionou e sorriu de lado quando</p><p>Alex deu de ombros. — Você seria um bom parceiro?</p><p>— Talvez… — murmurou ao focar seus olhos no prato vazio.</p><p>— Talvez?</p><p>— Não sou muito bom com jogos.</p><p>— E no que o senhor é bom? — Luan pendeu a cabeça para o lado</p><p>enquanto o observava.</p><p>— Em muitas coisas, acredito eu. — apoiou seus braços sobre a</p><p>mesa e focou seu olhar no rosto jovial e nos olhos que refletiam diversão.</p><p>— Posso saber quais?</p><p>— Elas não tem nada a ver com jogos de videogames.</p><p>— Hum, agora atiçou a minha curiosidade. — soprou baixo e</p><p>prendeu o lábio inferior entre os dentes. Alexandre focou seus olhos</p><p>naquele movimento e sentiu um frio incômodo invadir sua barriga. — Vai</p><p>me contar no que é bom, senhor?</p><p>— Acredito que não vem ao caso, Luan.</p><p>— Uma pena… — soprou e projetou um bico manhoso.</p><p>— Por quê?</p><p>— Gostaria de saber todas as coisas nas quais o senhor é bom. —</p><p>respondeu afiado, seus olhos brilhavam com uma intensidade da qual Alex</p><p>não estava acostumado.</p><p>— Você tá flertando comigo, garoto?</p><p>— E o senhor tá devolvendo os meus flertes, senhor?</p><p>— Acho melhor a gente mudar de assunto…</p><p>— Realmente, um homem comprometido não pode andar por aí</p><p>flertando com outras pessoas. — divagou e sorriu com deboche.</p><p>Alexandre afastou o prato com os farelos do bolo e apoiou seu</p><p>queixo nos punhos. Seus olhos verdes queimaram em Luan de uma forma</p><p>intensa, como se pudesse ver através dele. Luan sustentou aquele olhar de</p><p>maneira quase desafiadora, seu estômago parecia embrulhado e uma leve</p><p>pressão comprimia seu baixo ventre.</p><p>Era tensão.</p><p>Ambos estavam consumidos de uma tensão que surgiu de forma</p><p>instantânea. Seus olhos, grudados, sequer piscavam, e suas respirações,</p><p>apesar de calmas, enchiam seus pulmões, fazendo seus peitos se moverem</p><p>de forma perceptível.</p><p>— Eu não sou um homem comprometido, Luan. — Alexandre</p><p>confessou, sua voz soou baixa e levemente rouca.</p><p>— Não é? — naquele momento, Luan parecia surpreso. — E essa</p><p>aliança no teu dedo? E a tua esposa? — indagou.</p><p>— Estamos nos divorciando…</p><p>— Jura?</p><p>— Sim, Fernanda e eu não estamos mais juntos.</p><p>— E por que tá me contando isso? — seu questionamento saiu</p><p>baixo, como se eles estivessem compartilhando segredos.</p><p>E de fato, estavam.</p><p>— Eu não sei…</p><p>Alexandre realmente não sabia os motivos de estar comentando</p><p>sobre sua vida particular daquela forma para alguém que ele mal conhecia,</p><p>ainda mais se levasse em conta o quanto ele era discreto. Porém, ele estava</p><p>falando para Luan algo que disse apenas para seu melhor amigo. Algo que</p><p>ninguém precisava saber antes que tivesse uma resolução.</p><p>— Acho que o senhor quer que eu saiba disso… mas por quê?</p><p>— Não sei, Luan.</p><p>— O senhor não é hétero? Por que quer que eu saiba disso? —</p><p>insistiu, pois sua mente estava o levando para um caminho confuso.</p><p>Ele não queria alimentar falsas esperanças, não queria deixar que</p><p>um interesse real crescesse para, no fim, descobrir que foi um engano. Ele</p><p>queria a certeza de que o brilho nos olhos verdes de Alexandre eram</p><p>realmente de interesse.</p><p>— Não sei! — falou de forma exasperada. — E não me chame de</p><p>senhor!</p><p>— Sua resposta serve pra qual das minhas perguntas, senhor? —</p><p>inquiriu de forma provocativa.</p><p>Alexandre não respondeu.</p><p>Com uma descarga de adrenalina percorrendo seu corpo ao ouvir</p><p>seu nome soar de forma tão aveludada, ele se levantou e se afastou sem</p><p>olhar para trás. Sua mente estava a mil, seu corpo parecia querer voltar para</p><p>a cozinha e sua garganta ardia, mas ele sequer sabia quais palavras</p><p>tentavam escapar.</p><p>— Tá tudo bem, Xandinho? — Maria perguntou ao vê-lo passar</p><p>apressado.</p><p>— Tá sim, Nona… — respondeu e seguiu em direção ao seu quarto.</p><p>— Merda! — grunhiu ao fechar a porta com certa força. — Que merda tá</p><p>acontecendo comigo? — passou as mãos pelos cabelos loiros escuros e</p><p>cruzou os dedos atrás de sua nuca.</p><p>Alexandre não entendia o que estava sentindo, sequer conseguia</p><p>desvendar seus pensamentos obscuros ou o porquê de ter falado aquelas</p><p>coisas. Ele tinha certeza sobre a sua sexualidade, estava convicto de que era</p><p>hétero.</p><p>Mas, por que ele quis que Luan soubesse que ele estava se</p><p>divorciando?</p><p>Por que ele não conseguia esquecer o que viu no curral?</p><p>E o mais confuso… por que ele gostou tanto de flertar com um</p><p>garoto quinze anos mais novo?</p><p>— Porra! Tô ficando louco!</p><p>CAPÍTULO QUATRO</p><p>Durante os três dias seguintes, Luan quase não teve contato com o</p><p>seu patrão. Mesmo se vendo ocasionalmente nos horários das refeições e</p><p>em alguns momentos durante o dia de trabalho, eles não ficaram mais</p><p>sozinhos na presença um do outro ou sequer trocaram duas palavras.</p><p>Alexandre estava evitando-o de propósito.</p><p>E isso era algo que Luan não entendia e achava bem contraditório</p><p>até, se levasse em conta, o fato de que ele sentia o peso dos olhos verdes</p><p>sobre si onde quer que fosse. Não importava o que estivesse fazendo, não</p><p>importava onde estivesse ou quantas pessoas pudessem estar presentes,</p><p>parecia que os olhos de Alexandre não conseguiam desviar e só acontecia</p><p>quando ele olhava de volta.</p><p>Luan achou ter entendido a conversa que eles tiveram há três dias</p><p>como uma retribuição.</p><p>Naquela noite, Alexandre parecia estar se divertindo, entrou em sua</p><p>brincadeira e até pareceu retribuir seus flertes, também contou sobre seus</p><p>problemas no casamento como se quisesse que ele soubesse. Luan pensou</p><p>por um segundo que ele pudesse estar interessado em si, mesmo que não</p><p>fizesse sentido, já que ele era hétero. Mas depois do afastamento abrupto,</p><p>ele chegou a conclusão de que poderia ter ultrapassado os limites e que por</p><p>isso Alexandre estava evitando-o.</p><p>Todavia, se Alexandre ficou realmente chateado com seus flertes,</p><p>por que não parava de observá-lo?</p><p>— Além de gostoso, ainda tem que comer o meu juízo… —</p><p>resmungou e soprou a fumaça branca para o alto.</p><p>O barulho dos grilos cantando ao redor eram os únicos sons</p><p>audíveis. O vento soprava mais forte à medida que as nuvens se formavam</p><p>sob sua cabeça. Não havia estrelas e nem lua, apenas uma massa densa e</p><p>cinza que, vez ou outra, era iluminada por relâmpagos. Estava onde</p><p>costumava ficar durante a madrugada quando não conseguia dormir, no</p><p>quintal, embaixo de um pé de goiaba e sentado em uma espreguiçadeira de</p><p>pano.</p><p>Mesmo tendo morado no interior até os quinze anos, Luan ainda não</p><p>havia se readaptado com a vida no campo, no entanto, ele apreciava aqueles</p><p>momentos de silêncio, onde se perdia em seus pensamentos e confusões.</p><p>Sendo um jovem com pouca experiência de vida e muito impulsivo,</p><p>era certo que ele erraria muitas vezes ainda, afinal, ele só tinha vinte anos,</p><p>mas seus erros recentes decepcionaram as duas pessoas às quais ele mais se</p><p>preocupava e amava no mundo, também acabou com a confiança que eles</p><p>tinham em si e jogou na lama anos de trabalho e esforço.</p><p>Ele se culpava pelas decisões erradas, mas como sua mãe costumava</p><p>falar, não adiantava chorar pelo leite derramado.</p><p>O que está feito, está feito.</p><p>Cansado do dia exaustivo de trabalho, ele jogou a bituca de cigarro</p><p>no chão e se levantou. Caminhou devagar até a porta dos fundos e entrou na</p><p>casa, ao passar pela sala, ouviu uma movimentação estranha do lado de fora</p><p>e, em questão de segundos, batidas fortes foram desferidas contra a porta.</p><p>— Já vai…</p><p>Luan guardou o celular no bolso da calça de moletom e passou a</p><p>mão pelos cabelos bagunçados. Ao abrir a porta, se deparou com Gabriel, as</p><p>expressões</p>