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<p>Copyright © 2024 – Ana Roza</p><p>Todos os direitos reservados</p><p>É proibida a reprodução total e parcial desta obra</p><p>de qualquer forma ou quaisquer meios eletrônicos,</p><p>mecânico e processo xerográfico, sem a permissão da</p><p>autora. (Lei 9.610/98)</p><p>Essa é uma obra de ficção. Texto de acordo com as</p><p>novas regras ortográficas da Língua Portuguesa.</p><p>REVISÃO | LEITURA CRÍTICA</p><p>Luhana Andreoli</p><p>CAPA E ILUSTRAÇÕES</p><p>Ursula Gomes</p><p>DIAGRAMAÇÃO</p><p>Ana Roza</p><p>O Brilho do Sol e a Calmaria do Mar, Ana Roza — 1ª</p><p>Ed. 2024</p><p>Sumário</p><p>Sumário</p><p>Playlist</p><p>Prólogo</p><p>Capítulo 1</p><p>Capítulo 2</p><p>Capítulo 3</p><p>Capítulo 4</p><p>Capítulo 5</p><p>Capítulo 6</p><p>Capítulo 7</p><p>Capítulo 8</p><p>Capítulo 9</p><p>Capítulo 10</p><p>Capítulo 11</p><p>Capítulo 12</p><p>Capítulo 13</p><p>Capítulo 14</p><p>Capítulo 15</p><p>Capítulo 16</p><p>Capítulo 17</p><p>Capítulo 18</p><p>Capítulo 19</p><p>Capítulo 20</p><p>Capítulo 21</p><p>Capítulo 22</p><p>Capítulo 23</p><p>Capítulo 24</p><p>Capítulo 25</p><p>Capítulo 26</p><p>Capítulo 27</p><p>Capítulo 28</p><p>Capítulo 29</p><p>Capítulo 30</p><p>Capítulo 31</p><p>Capítulo 32</p><p>Capítulo 33</p><p>Capítulo 34</p><p>Capítulo 35</p><p>Capítulo 36</p><p>Epílogo</p><p>Agradecimentos</p><p>Sobre a Autora</p><p>“Brasileiro só aceita título se for de campeão.</p><p>E eu sou brasileiro.”</p><p>Ayrton Senna</p><p>Para minha Lilica.</p><p>Espero ser uma tia tão especial quanto a Jolie foi</p><p>para a Marie.</p><p>Playlist</p><p>Clique aqui para acessar a playlist ou escaneie o</p><p>QR code abaixo:</p><p>https://open.spotify.com/playlist/4JJtpF0OGzBVArdudE63ti?si=d3e8629dcea445a4</p><p>Prólogo</p><p>Nove anos antes.</p><p>Marie, 15 anos.</p><p>Gabriel, 16 anos.</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>— E aqui jaz o meu primeiro amor. Que Deus o leve</p><p>em segurança e o guarde. Muito obrigada pelos</p><p>momentos bons e pelas noites que passei em claro</p><p>imaginando como seria estar ao seu lado.</p><p>Marie jogou uma rosa em cima das centenas de</p><p>cartas que havia escrito para ele ao longo dos três anos</p><p>anteriores. Ao seu lado, em cima da mesa, apanhou a</p><p>caixa de fósforo, acendeu um palito e o jogou ali dentro.</p><p>O fogo subiu, e Marie tentou não se desesperar ao ver</p><p>todos aqueles papéis cheios de história sendo</p><p>consumidos pelas chamas.</p><p>Uma mão afagou seu ombro, e ela se sentiu um</p><p>pouco melhor por saber que não estava sozinha naquele</p><p>momento. Era bem mais fácil passar por tudo aquilo</p><p>tendo alguém por perto. As folhas coloridas, decoradas</p><p>com adesivos e preenchidas pela caligrafia rebuscada de</p><p>uma adolescente de treze anos, desapareceram aos</p><p>poucos, e Marie conseguiu sentir o coração se partir com</p><p>aquela visão.</p><p>— Você não precisava ter queimado todas elas,</p><p>sabe? Podia apenas ter enterrado em algum lugar ou</p><p>guardado longe de você — disse Gabriel, que também</p><p>encarava as chamas.</p><p>Marie pensou ter identificado uma tristeza na voz</p><p>dele, mas não deixou essa ideia entrar em seu coração.</p><p>Não. Qualquer sentimento que tivesse a ver com o</p><p>menino ao seu lado havia sido queimado junto àquelas</p><p>cartas idiotas.</p><p>— Você disse que era melhor não guardar nada que</p><p>tivesse a ver com isso. É o que estou fazendo.</p><p>Gabriel a puxou para mais perto e beijou o topo de</p><p>sua cabeça, apoiando sua bochecha ali.</p><p>— Eu sei. Mas ainda assim é estranho saber que a</p><p>sua história está sendo queimada.</p><p>Marie deu de ombros.</p><p>— Não importa. Eu disse que ia esquecer isso, e</p><p>este é o melhor jeito.</p><p>Ela não sabia o que estava pensando quando</p><p>admitiu seus sentimentos para Gabriel. Havia sido</p><p>idiotice desde o princípio, e tornou-se uma mancha na</p><p>amizade deles, nunca mais sumiria.</p><p>— Sinto muito, Marie. Eu não queria que</p><p>tivéssemos que passar por isso.</p><p>Marie assentiu. Ela sabia que a intenção dele não</p><p>era deixar aquilo acontecer, e escondeu seus</p><p>sentimentos em relação a ele o máximo que conseguiu,</p><p>mas aquele dia foi o último que aguentou guardar tudo</p><p>para si mesma.</p><p>Mais cedo naquele mesmo dia...</p><p>Marie sabia que ter Gabriel em casa durante as</p><p>férias seria difícil, mas não podia dizer não a ele. Quando</p><p>Gabriel a olhava com aqueles grandes olhos azuis, ela se</p><p>derretia por dentro e cedia a qualquer que fosse a</p><p>vontade louca dele.</p><p>Kalil, seu primo e melhor amigo de Gabriel – depois</p><p>dela, é claro –, estava viajando com os pais e Nathan</p><p>para o Havaí. Eles só voltariam na semana seguinte, e</p><p>nesse tempo Gabriel ficara sem lugar para se hospedar.</p><p>A ideia inicial era Gabriel ir para a casa de seu pai, mas</p><p>ele alegou que preferia morrer a ser obrigado a ir para lá.</p><p>Voltar para a casa de sua mãe não era uma opção, já que</p><p>a mulher estava do outro lado do oceano. Então, sua</p><p>última alternativa havia sido o bom coração de Marie e</p><p>de seus pais.</p><p>Ela não se importava de tê-lo em casa, nem um</p><p>pouco. Amava estar perto do amigo. O problema era que</p><p>Marie amava até demais estar perto dele. Quando</p><p>estavam no grid ou quando ele passava a noite na casa</p><p>de seu primo, ela não tinha tantos problemas. Mas</p><p>durante aquela semana, ele havia passado todos os</p><p>momentos do dia com ela.</p><p>Foram juntos para todos os lugares. À praia, ao</p><p>shopping, visitar os avós de Marie, até mesmo assistir a</p><p>um filme na sala de estar da casa dela.</p><p>Marie estava ficando desesperada para se afastar</p><p>dele, por um minuto que fosse. Ela não aguentava mais</p><p>aquele olhar e não poder tocar sua bochecha macia. Ou</p><p>ver seu cabelo caindo e não poder tirar de seus olhos. Ou</p><p>até mesmo observá-lo falar e não poder olhar para os</p><p>seus lábios por tempo demais.</p><p>Era demais para ela. Marie se sentia sufocada e</p><p>doida para gritar todas as vezes que Gabriel se</p><p>aproximava e ela sentia seu cheiro.</p><p>Então, sua amiga Stacy a chamou para uma festa</p><p>na piscina em sua casa. Marie quase pulou de alegria</p><p>com o convite. Seu apartamento era pequeno demais se</p><p>comparado à cobertura imensa da amiga. Poderia se</p><p>esconder em qualquer canto e não ver Gabriel durante</p><p>um dia inteiro.</p><p>Marie os arrastou para lá, mesmo com todos os</p><p>protestos de Gabriel. Ele repetiu várias vezes que</p><p>preferia passar o dia com o tio Dom a ir a uma festa na</p><p>piscina idiota. Mas ao chegarem, Gabriel se enturmou</p><p>rapidamente, como sempre fazia.</p><p>Ela agarrou sua bolsa e saiu na ponta dos pés para</p><p>encontrar um lugar calmo em que pudesse se acomodar.</p><p>Estava lendo um livro maravilhoso de fantasia e queria</p><p>muito terminar a história, mas não conseguia se</p><p>concentrar quando Gabriel estava por perto, então</p><p>aproveitaria aquele momento para isso.</p><p>Quando o relógio bateu três da tarde, Marie decidiu</p><p>parar de ler um pouco, só para ver como as coisas</p><p>estavam indo na festa. E essa foi a pior decisão que ela</p><p>poderia ter tomado.</p><p>Assim que colocou os pés no jardim, sentiu seu</p><p>coração se apertar, mas não entendeu o porquê. Foi</p><p>então que ela olhou para a piscina e... Lá... Na beira, de</p><p>frente para ela, estava Stacy, com a língua enfiada na</p><p>garganta de Gabriel.</p><p>Ao ver aquilo, Marie sentiu seus olhos começarem</p><p>a lacrimejar. Mas ela não queria fazer uma cena, porque</p><p>odiava cenas. Correu de volta para dentro do</p><p>apartamento e entrou num banheiro. Sentiu-se num filme</p><p>quando as lágrimas começaram a cair e ela se sentou no</p><p>chão, abraçando as pernas contra o peito.</p><p>Marie nunca havia chorado tanto por algo como</p><p>chorou por aquilo.</p><p>Sabia que Gabriel beijava algumas meninas, mas</p><p>nunca tinha presenciado tal acontecimento. Marie o</p><p>escutava conversar com Kalil sobre essas coisas, e de</p><p>vez em quando ele até comentava com ela, mas ver era</p><p>quinze mil vezes pior. Marie não sabia como olharia para</p><p>Gabriel mais tarde.</p><p>E sobre Stacy... Bem, a amiga não sabia sobre os</p><p>sentimentos que ela nutria por ele. Na verdade, todas as</p><p>vezes que a amiga perguntava para Marie sobre Gabriel,</p><p>ela respondia que os dois eram apenas amigos. Mas isso</p><p>não a impediu de sentir raiva da amiga. Ou talvez fosse</p><p>inveja.</p><p>Três anos haviam se passado desde que ela se dera</p><p>conta de que Gabriel talvez fosse o seu verdadeiro amor,</p><p>mas ele nunca tinha dado indícios de sentir o mesmo por</p><p>ela. Marie não entendia o porquê. Quer dizer, ela era a</p><p>pessoa que mais o conhecia no mundo, eles se divertiam</p><p>juntos e se davam muito bem. Além disso, Marie sabia</p><p>que era bonita. Diziam que ela era parecida com sua tia</p><p>Jolie, e a mulher era linda, o que fazia de Marie muito</p><p>bonita também. Mas talvez isso não importasse tanto</p><p>Seu pai é</p><p>apaixonado pela Isabela, e essa paixão deu origem a</p><p>você.</p><p>Marie inclinou a cabeça.</p><p>— Ainda não entendi.</p><p>— Não se pode entender o amor, pequena, nós</p><p>apenas o sentimos. E quando isso acontecer com você,</p><p>vai saber do que estou falando.</p><p>— Talvez... se eu lesse um desses livros, eu poderia</p><p>entender — disse, fazendo-se de inocente.</p><p>Fran percebeu a artimanha e beijou o pescoço da</p><p>neta, fazendo cosquinha na menina, que se revirou no</p><p>colo da avó, rindo.</p><p>— A senhorita é muito espertinha! — disse Fran. —</p><p>Quando chegar a hora, eu serei a primeira a dar a você</p><p>um desses livros. Eu prometo!</p><p>As férias na Ilha eram as melhores para Gabriel. Ele</p><p>passava o dia na praia. Surfava, nadava e brincava com</p><p>seus primos o dia inteiro. Seus pais gritavam com ele por</p><p>ir muito para o fundo, e sua mãe o arrastava até a areia</p><p>para passar o protetor solar nele, sempre o deixando</p><p>branco, o que Gabriel odiava.</p><p>Mas a sua parte favorita era quando, à noite, sua</p><p>família se reunia na área da churrasqueira e, enquanto</p><p>seus tios faziam o churrasco, ele ficava conversando com</p><p>os pais. O assunto com o pai sempre rodeava as corridas</p><p>de kart, e mesmo depois de ter assumido uma equipe de</p><p>Fórmula 1, Adam tirava um tempo para conversar com o</p><p>filho sobre o seu desempenho.</p><p>Gabriel adorava saber que seu pai era chefe de</p><p>uma equipe de Fórmula 1 e que conhecia os maiores</p><p>pilotos do mundo. Era uma ideia incrível para uma</p><p>criança de dez anos de idade. Depois que aquilo havia</p><p>acontecido, Gabriel passou a imaginar quando seria a</p><p>sua vez de estar lá.</p><p>É claro que ele e Kalil conversavam sobre esse</p><p>sonho. Muitas vezes. Nathan costumava sonhar com eles,</p><p>mas então parou de treinar kart e passou a sonhar por</p><p>eles. Gabriel gostava de pensar que um dia ele voltaria,</p><p>mas Nathan dizia que preferia ver os dois pilotando. Isso</p><p>sempre deixava Kalil com raiva, porque ele e Gabriel</p><p>sabiam que Nathan era muito melhor que os dois.</p><p>Marie... bem, ela sonhava por eles também. Mas</p><p>ainda odiava carros. Achava idiota a ideia de correr em</p><p>círculos. E ela até podia estar certa. Porém, a emoção de</p><p>estar dentro de um carro daqueles também fazia sua</p><p>ideia parecer ridícula. Era mais do que correr em círculos,</p><p>eles tinham de vencer. E Gabriel amava vencer.</p><p>E mais do que vencer, Gabriel amava como aquilo</p><p>o conectava com o pai. Eles sempre tinham algo sobre o</p><p>que conversar.</p><p>Entretanto, naquelas férias, seu pai não apareceu</p><p>na Ilha. Gabriel já o estava vendo menos desde que</p><p>Adam havia precisado se mudar para a Itália, onde ficava</p><p>a sede da equipe. Mas Adam prometera que eles</p><p>passariam as férias juntos. Gabriel e sua família já</p><p>estavam na Ilha fazia três dias, e nem sinal do pai. O</p><p>menino perguntava para a mãe todos os dias onde Adam</p><p>estava, mas ela sempre parecia se irritar com seus</p><p>questionamentos.</p><p>— Seu pai sabe o que faz, Gabriel! — ela</p><p>respondeu uma vez, com raiva. — Agora, vá brincar com</p><p>os seus primos!</p><p>E ele foi. Brincou com os primos o dia inteiro e</p><p>tentou afastar a ideia de que seu pai havia se esquecido</p><p>de sua promessa ou que estava bravo com ele. Mas</p><p>quando a noite chegou, Gabriel não suportou mais</p><p>segurar suas emoções. Ignorou a hora do jantar e, depois</p><p>do banho, foi para o quarto que estava dividindo com um</p><p>de seus primos.</p><p>Pedro entrou no quarto e viu que Gabriel estava</p><p>chorando. Ele se sentou ao lado do primo e ficou de</p><p>cabeça baixa, balançando as pernas no ar.</p><p>— Eu também fiquei assim quando a minha mãe e</p><p>o meu pai se separaram. Mas agora está tudo bem, e eu</p><p>gosto do tio Antônio. Ele é legal comigo, até me ensinou</p><p>a brincar de bolinha de gude.</p><p>Confuso, Gabriel olhou para o primo. Já não</p><p>chorava mais.</p><p>— Meus pais não se separaram! — disse, com</p><p>raiva.</p><p>Pedro se virou para ele e viu que seus olhos</p><p>pareciam tristes.</p><p>— Eles ainda não te contaram? Eu ouvi a mamãe</p><p>conversando com a vovó hoje. Lá embaixo.</p><p>Gabriel se levantou.</p><p>— Meus pais não se separaram! — gritou.</p><p>Pedro ficou de frente para ele.</p><p>— Está chamando a minha mãe de mentirosa?</p><p>— Só pode ser! Porque isso é mentira! —</p><p>respondeu Gabriel, batendo o pé no chão.</p><p>O rosto de Pedro ficou vermelho de raiva e ele</p><p>pulou em cima de Gabriel.</p><p>— Não chama a minha mãe de mentirosa! —</p><p>gritou, batendo no primo.</p><p>Os dois começaram a gritar insultos infantis um</p><p>para o outro e a trocar socos e chutes enquanto rolavam</p><p>pelo chão.</p><p>Gabriel estava com tanta raiva que nem viu</p><p>quando sua mãe e sua tia entraram no quarto e os</p><p>separaram. Ele olhava para o primo com indignação. Por</p><p>que Pedro estava mentindo sobre aquilo? Era cruel e</p><p>fazia Gabriel se sentir triste.</p><p>— Eu achava que você era meu amigo! — gritou</p><p>para Pedro.</p><p>— Eu também achava! — rebateu o primo,</p><p>enquanto sua mãe o segurava pelos braços.</p><p>— O que está acontecendo aqui? — tia Martina</p><p>perguntou.</p><p>— Ele chamou a senhora de mentirosa! — disse</p><p>Pedro, apontando para Gabriel.</p><p>— Ele disse que meus pais estão se separando! —</p><p>Gabriel se defendeu. E quando essas palavras saíram de</p><p>sua boca, ele teve vontade de chorar, mas se segurou o</p><p>máximo que pôde. Gabriel nunca mais choraria na frente</p><p>de Pedro, ele não era mais seu amigo.</p><p>Martina afrouxou o aperto nos braços do filho e</p><p>olhou para a irmã. Vera parecia desolada e prestes a</p><p>desabar. Gabriel não deveria ter ouvido aquilo. Ainda</p><p>não.</p><p>— Pedro, pede desculpa para o seu primo.</p><p>— Mas...</p><p>— Nada de mas! Pede desculpa. Agora!</p><p>— Desculpa — Pedro murmurou, contrariado.</p><p>— Vamos! — Martina puxou o filho para fora do</p><p>quarto, e Gabriel sentiu certa satisfação ao saber que ela</p><p>provavelmente daria alguma punição ao primo.</p><p>Quem sabe ele ficasse sem poder entrar no mar no</p><p>dia seguinte, ou então sem poder comer doce. O que</p><p>seria uma pena para Pedro e ótimo para Gabriel, porque</p><p>a mousse de maracujá da vovó era uma delícia.</p><p>— Gabe, temos que conversar — disse Vera,</p><p>levando o filho até a cama.</p><p>Gabriel, que já estava mais calmo, sentou-se de</p><p>frente para a mãe e a olhou. Ele odiou notar que sua mãe</p><p>estava chorando, mas Vera não o deixou ver por muito</p><p>tempo, já que limpou o rosto. No entanto, ela</p><p>permaneceu séria, o que deixou Gabriel ainda mais</p><p>nervoso.</p><p>— O que aconteceu, mamãe? — perguntou ele,</p><p>colocando a mão em cima da dela.</p><p>E quando a mãe respondeu, Gabriel quis nunca ter</p><p>perguntado. Foi quando ele viu seu mundo perfeito se</p><p>desfazer.</p><p>— Gabe, o papai e eu não estamos mais juntos,</p><p>meu amor.</p><p>Gabriel se sentia confuso.</p><p>— Por que não? Vocês não se amam mais?</p><p>Vera desviou o olhar do filho para as próprias</p><p>mãos.</p><p>— Não é isso, filho. É só um assunto de adulto, está</p><p>bem?</p><p>— Vocês não me amam mais?</p><p>Vera olhou para ele, chorando.</p><p>— É claro que te amamos, meu amor! Você é o</p><p>nosso anjinho! — disse, puxando Gabriel para mais perto</p><p>e o abraçando. — É só que... às vezes, é melhor os pais</p><p>estarem separados.</p><p>— Não, não é — disse Gabriel, com raiva. Então,</p><p>afastou-se da mãe. — Eu quero vocês juntos!</p><p>— Gabe, não faz isso. Eu sinto muito... — disse</p><p>Vera, balançando a cabeça.</p><p>— Eu não vou mais ver o papai? — Gabriel</p><p>perguntou.</p><p>— Você pode ver o seu pai quando quiser. Ele quer</p><p>que você vá para a casa dele depois do Ano-Novo. Você</p><p>quer ir?</p><p>— Você vai junto?</p><p>Vera negou com a cabeça.</p><p>— Não, Gabe. Não dessa vez.</p><p>Gabriel não respondeu. Ele se levantou e correu</p><p>para fora do quarto o mais rápido que conseguiu.</p><p>Enquanto descia as escadarias, esbarrou em alguém,</p><p>mas não se importou. Foi até a bolsa da mãe, pegou o</p><p>telefone dela e voltou a correr, ignorando a voz de Vera,</p><p>que gritava com ele. Gabriel não queria conversar com</p><p>ela. A mãe havia dito que ainda o amava, mas Gabriel</p><p>não conseguia ver outra razão para ela e seu pai não</p><p>estarem mais juntos, ou para ela não querer ir com ele</p><p>para a Itália.</p><p>Seus pais o odiavam. O que ele faria agora? Como</p><p>viveria sem os dois por perto? Com quem conversaria</p><p>sobre as corridas quando estivesse com a mãe? E com</p><p>quem faria bolo quando estivesse com o pai? Ele não</p><p>sabia, só conseguia pensar em como aquilo era horrível.</p><p>Então, sentou-se no píer e olhou para o mar. Tudo</p><p>estava escuro, ele não conseguia ver os animais que</p><p>ficavam ali durante a noite, mas sabia que existiam,</p><p>porque seu pai havia dito. E agora, quem diria coisas a</p><p>ele que não sabia? Será que sua mãe encontraria um tio</p><p>Antônio e teria outro filho? Isso faria com que ela se</p><p>esquecesse dele para sempre!</p><p>Gabriel apanhou o celular que colocara ao seu lado</p><p>e começou a discar o número do pai. Mas quando foi</p><p>apertar o botão para ligar, parou. Ele não queria falar</p><p>com o pai. Adam o odiava. Ele queria falar com alguém</p><p>que gostasse dele. Discou o número e apertou o botão</p><p>para ligar.</p><p>— Meus pais se separaram — contou, chorando</p><p>novamente.</p><p>— Eu sinto muito, Gabe — disse Marie.</p><p>Capítulo 5</p><p>Dias atuais.</p><p>Barcelona, Espanha.</p><p>5° GP da temporada.</p><p>Domingo de corrida.</p><p>Marie estava concentrada no carro laranja que</p><p>corria à frente de todos após ter subido seis posições em</p><p>vinte voltas sem trocar os pneus. Era o único que ainda</p><p>estava com os pneus do início da corrida, e o segundo</p><p>colocado estava colado nele, louco para ultrapassá-lo. O</p><p>coração da menina parecia prestes a pular pela garganta,</p><p>mas ela se segurou, pois não queria se descontrolar,</p><p>ainda mais quando estava no box rival.</p><p>Kalil estava em quarto lugar naquele momento,</p><p>brigando com William Davies pelo terceiro. Mas Marie</p><p>não se importava tanto quanto estava se importando</p><p>com Gabriel. Naquele fim de semana, ela estava</p><p>torcendo para o amigo, e quando decidia torcer para um,</p><p>ela se esquecia de que o outro também tinha o seu amor.</p><p>E conhecendo o seu primo, sabia que Kalil ultrapassaria</p><p>aquele carro em poucos segundos.</p><p>Mas Gabriel continuava brigando com Nathaniel</p><p>para se manter em primeiro, o que deixava Marie aflita.</p><p>Em determinado momento, o piloto da Mercedes se</p><p>aproximou tanto de seu antigo companheiro de equipe</p><p>que Marie jurou que ele iria conseguir ultrapassar. Porém,</p><p>ela sabia quem era Gabriel nas corridas, ele morreria</p><p>antes de deixar Nathaniel passar. Gabriel o fechou de</p><p>maneira violenta e quase inconsequente.</p><p>Aquele era o modo de Gabriel no volante. Ele</p><p>sempre dizia que, se não vencesse, nenhum dos dois</p><p>venceria. Preferia perder uma corrida com seu oponente</p><p>a deixá-lo ultrapassar. Naquele jogo, não existiam</p><p>amigos. Todos eram seus rivais. E ele chegaria em</p><p>primeiro lugar, não importasse o quê.</p><p>Marie, enlouquecida com o jeito do amigo, sentia-</p><p>se prestes a gritar todas as vezes que o via fazer uma</p><p>manobra louca contra seus oponentes. Ainda mais</p><p>quando eram Gabriel e Kalil competindo. Naqueles</p><p>momentos, ela se importava com os dois. Principalmente</p><p>quando pareciam prestes a se matar dentro da pista.</p><p>Ela sentiu alguém a cutucar, mas estava nervosa</p><p>demais para se importar. Odiava aquele sentimento.</p><p>Odiava Fórmula 1. E, principalmente, odiava quem</p><p>Gabriel se tornava quando entrava naquele carro.</p><p>— Marie? — Ela ouviu alguém a chamar.</p><p>Murmurou algo em reconhecimento, mas continuou</p><p>focada na tela da televisão.</p><p>Sentia o coração martelando contra as costelas, e</p><p>sua mente parecia tomada por ansiedade e nervosismo.</p><p>Quando Nathaniel se aproximou novamente de</p><p>Gabriel e levou uma fechada, Marie sentiu os olhos</p><p>arderem. Poderiam se passar mil anos e ela se sentiria da</p><p>mesma maneira sempre que o visse fazer aquilo.</p><p>— Marie?! — a pessoa gritou em seu ouvido.</p><p>Aquilo a despertou do transe com o monitor.</p><p>Balançou a cabeça e se virou para Mavi, que a estava</p><p>olhando, assustada.</p><p>— O quê? — indagou Marie, ainda ouvindo a</p><p>narração da corrida.</p><p>— Seu telefone — disse Mavi, apontando para a</p><p>bolsa de Marie.</p><p>Confusa, Marie olhou para a bolsa e ouviu o toque.</p><p>Suspirando, pegou o celular e o desligou logo em</p><p>seguida. Ela tinha visto o nome de Matheus nas</p><p>notificações, mas deu de ombros, jogando o celular</p><p>dentro da bolsa novamente.</p><p>— Depois eu ligo para ele — disse, voltando a olhar</p><p>para o monitor.</p><p>— Quando criou esse interesse tão grande pelas</p><p>corridas? — perguntou Mavi.</p><p>— Você não tinha que estar trabalhando?</p><p>Mavi Anne era uma das repórteres da emissora</p><p>inglesa que cobria a Fórmula 1.</p><p>— Não. Eu saí da emissora.</p><p>— Como assim? Quando? — Marie olhou para ela,</p><p>surpresa.</p><p>— Esta semana. A Jolie está precisando de ajuda no</p><p>canal dela e me contratou. Vai ser interessante, não</p><p>acha?</p><p>— Eu acho que seria mais interessante se fizesse</p><p>um canal para você.</p><p>Mavi deu um sorriso tímido e abaixou a cabeça.</p><p>— O Kal disse a mesma coisa. Eu vou aprender um</p><p>pouco com a Jolie primeiro, quem sabe isso me anime a</p><p>criar o meu um dia.</p><p>Marie sorriu para a amiga e pegou sua mão,</p><p>apertando firme, em apoio.</p><p>— Mas... me conta, por que está tão interessada na</p><p>corrida?</p><p>Marie deu de ombros, sem saber como responder</p><p>àquilo.</p><p>Ela não sabia por qual motivo estava tão focada.</p><p>Sim, sempre ficava nervosa com as corridas. Porém,</p><p>eram raras as vezes que assistia de fato. Quando estava</p><p>nos boxes, sempre levava um livro para ler enquanto</p><p>ouvia a narração, e só olhava para a tela quando parecia</p><p>que algo grande estava prestes a acontecer. Em casa,</p><p>fazia o mesmo. Entretanto, nas últimas corridas, Marie</p><p>sentira uma vontade maior de assistir, e isso só a</p><p>deixava ainda mais nervosa.</p><p>— O Gabriel anda afastado — desabafou, dando</p><p>vazão àquelas palavras pela primeira vez. — Eu não sei o</p><p>que está acontecendo, mas ele não parece mais o</p><p>mesmo.</p><p>Mavi a olhou, a cabeça inclinada.</p><p>— Ele anda afastado... ou você?</p><p>— Como assim? Ele te falou alguma coisa?</p><p>— Só disse que desde que você começou a</p><p>namorar, tem tido menos tempo para ele.</p><p>Marie abaixou o olhar, sentindo as bochechas</p><p>queimando. Será que era verdade? Será que, no fim de</p><p>tudo, era ela quem estava longe, não ele?</p><p>— Eu quase não vejo o Matheus — disse, como se</p><p>aquilo explicasse tudo.</p><p>— E você costuma ver muito o Gabriel?</p><p>— É diferente...</p><p>Mavi colocou a mão no ombro dela, confortando-a.</p><p>— Eu sei que sim. É que o Gabriel está acostumado</p><p>a ter você por perto. E você também. Mas agora você</p><p>está em uma fase diferente, não tem problema.</p><p>— Eu sei, mas parece que eu tenho que agarrar</p><p>cada segundo que temos juntos como se fosse o último.</p><p>— Marie olhou de novo para o monitor. — Até mesmo</p><p>quando ele está dentro de um carro correndo feito um</p><p>louco.</p><p>Mavi riu.</p><p>— Vocês são melhores amigos, se conhecem desde</p><p>crianças, é normal sentirem falta um do outro. Ainda</p><p>mais quando passam menos tempo juntos, como agora.</p><p>Marie tentou colocar aquilo em sua mente. Tentou</p><p>acreditar que estava tudo bem em se sentir daquele</p><p>jeito. Era normal, não era? Se Stacy começasse a</p><p>namorar e a abandonasse, ela também se sentiria</p><p>daquela maneira.</p><p>Mas ela não estava abandonando o Gabriel. Ou</p><p>estava?</p><p>Capítulo 6</p><p>Dias atuais.</p><p>Barcelona, Espanha.</p><p>Noite de domingo.</p><p>De repente 30 era o melhor filme que Gabriel já</p><p>havia assistido. A cena em que a personagem de Jennifer</p><p>Garner está indo para a casa dos pais depois de todas as</p><p>suas desilusões com a vida adulta nunca fizera sentido</p><p>para a sua cabeça de oito anos de idade. No entanto,</p><p>depois de crescido, sempre que assistia, Gabriel entendia</p><p>o que o filme queria trazer. Ele nunca admitiria, mas</p><p>costumava assistir àquela cena apenas para poder sentir</p><p>a mesma confusão que a personagem sentia.</p><p>Gabriel escutava Vienna, de Billy Joel, e arrepios se</p><p>apoderavam de sua pele. Quando finalmente entendeu a</p><p>letra da música, sentiu sua garganta embargar e seus</p><p>olhos começaram a arder, mas lutou contra as lágrimas.</p><p>Lembrava-se de onde havia sido. Estava em um</p><p>hotel em Nova York – mera coincidência – e olhava para o</p><p>Central Park. Ele nunca tinha se sentido tão sozinho</p><p>como naquele dia. Havia meses que estava longe de</p><p>casa, por causa das corridas, e aquela era uma pequena</p><p>escapada antes de ir para o Japão, onde teria um fim de</p><p>semana inteiro de trabalho.</p><p>Mas tudo o que Gabriel queria naquele dia era a</p><p>sua mãe e a sua casa.</p><p>Ligou para ela naquela noite e disse que sentia sua</p><p>falta, dessa vez, sem conseguir conter as lágrimas</p><p>teimosas que insistiam em cair. Chorou feito uma</p><p>criança. Vera, que não estava planejando ir à corrida do</p><p>Japão, cancelou todos os seus planos e pegou um voo de</p><p>um dia para estar perto do filho. Gabriel nunca se sentiu</p><p>tão grato pela mãe quanto naquele dia.</p><p>Ele amava seu trabalho e sabia que poderia fazer o</p><p>que quisesse. Amava sua vida e sabia que era</p><p>privilegiado por tê-la. Mas, naquele momento, Gabriel</p><p>estava cansado e não queria mais aquilo. Sua equipe não</p><p>estava em seu melhor, e ele estava perdendo o</p><p>campeonato por muitos pontos. Aquilo o desanimava, e</p><p>ele repetia para si mesmo que não era obrigado a</p><p>continuar.</p><p>O problema? Era ele!</p><p>Gabriel não podia simplesmente abandonar tudo só</p><p>porque estava difícil. Por isso gostava do filme, Jenna não</p><p>desistiu. Ela correu atrás do que queria, e quando</p><p>aprendeu que era aquilo que importava, voltou à sua</p><p>adolescência e viveu a vida que havia escolhido.</p><p>Três anos se passaram desde aquele lapso de</p><p>fraqueza, mas Gabriel ainda se lembrava daquela música</p><p>– se estivesse tocando em algum lugar, ele choraria. Mas</p><p>tornaram-se raros os momentos em que ele se sentia</p><p>sozinho.</p><p>Seu grupo de amigos havia crescido, e ele estava</p><p>feliz e realizado com seu trabalho. Sua equipe vinha se</p><p>saindo bem, eles já estavam no quinto grande prêmio, e</p><p>Gabriel havia vencido três. Liderava o campeonato e</p><p>esperava se manter assim. Tinha grandes chances de</p><p>vencer naquele ano, o que o deixava feliz.</p><p>Havia perdido as esperanças de um dia vencer.</p><p>Sim, ele tinha apenas 25 anos. Mas todos sabiam que</p><p>Kalil era a estrela das pistas e o mais talentoso. Gabriel</p><p>era irresponsável e inconsequente no volante. Às vezes,</p><p>perdia por erros tolos, e estava cansado disso. Naquele</p><p>ano, ele havia decidido continuar sendo inconsequente,</p><p>mas não tanto. Pensaria mais na hora de correr.</p><p>Controlaria seus instintos, assim, tudo poderia dar certo.</p><p>O mundo estava dentro das regras, e Gabriel</p><p>estava empolgado.</p><p>Era o vencedor do dia, e agora comemorava em</p><p>um bar com seu grupo de amigos. Mas, de repente, um</p><p>gosto amargo e ácido tomou sua boca. Ele olhou para o</p><p>copo em sua mão e viu apenas a mesma bebida de</p><p>antes. Porém, quando ergueu os olhos, percebeu por que</p><p>sentia aquilo.</p><p>Pela janela do bar, viu Marie com o celular no</p><p>ouvido. Sorrindo.</p><p>Ela havia ficado ao seu lado durante o dia, mas não</p><p>haviam conversado de fato. Gabriel estivera ocupado e</p><p>não conseguira lhe dar atenção. E quando saíram do</p><p>autódromo e foram para o bar, ele pensou que poderiam</p><p>finalmente conversar. Só que Marie parecia ter outros</p><p>planos...</p><p>Gabriel tomou mais um gole da bebida, que desceu</p><p>como faca por sua garganta, e ficou olhando pela janela.</p><p>Marie continuava ao telefone, falando.</p><p>— Não precisa parecer que está prestes a matar</p><p>alguém, sabe? Existem maneiras de disfarçar o ciúme.</p><p>Gabriel tirou os olhos da amiga e pegou sua irmã</p><p>olhando-o e sorrindo como um gato que acabara de</p><p>encontrar um novelo de lã.</p><p>— Do que está falando? — perguntou secamente.</p><p>Mavi apontou para a janela com a cabeça.</p><p>— Da Marie conversando com o namorado e você</p><p>com ciúmes.</p><p>Sua ênfase na palavra namorado não passou</p><p>despercebida, e aquilo, como ela queria, irritou demais</p><p>Gabriel.</p><p>— Eu não estou com ciúmes! — ele disse</p><p>entredentes.</p><p>Mavi riu.</p><p>— Não.</p><p>— Não. É só que... — Gabriel suspirou. — É</p><p>estranho dividir a atenção dela com um homem que não</p><p>é da família.</p><p>Mavi colocou a mão no braço dele e acariciou,</p><p>tentando confortá-lo.</p><p>— Sinto muito que se sinta assim, Gabe. Mas</p><p>deveria saber que um dia isso aconteceria.</p><p>Gabriel deu de ombros.</p><p>— Pensei que fosse demorar.</p><p>O que soava ridículo, e ele precisava admitir. Eles</p><p>não eram mais crianças, nem adolescentes. Marie estava</p><p>com 24 anos, por Deus! Estava mesmo na hora de ela</p><p>arrumar um namorado. Só porque Gabriel havia decidido</p><p>ser o solteiro do grupo, não significava que ela também</p><p>precisasse ser. Ele deveria parar de ser infantil e aceitar</p><p>que Marie havia encontrado alguém de quem realmente</p><p>gostava e que Matheus era uma boa pessoa.</p><p>Era um saco, mas era a verdade.</p><p>Capítulo 7</p><p>Dias atuais.</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>6° GP da temporada.</p><p>Sábado.</p><p>— Estou tão animado para o jogo de amanhã. O</p><p>outro time é bem forte e pode nos desafiar na luta pelo</p><p>título este ano, o que é muito bom. Eu estava de saco</p><p>cheio de sempre vencer fácil — Matheus falou para Marie</p><p>pelo telefone.</p><p>Seu coração se apertou ao ouvir a voz do</p><p>namorado. Ela estava com muitas saudades dele, e a</p><p>cada dia que passava, doía um pouco mais. Matheus</p><p>ligava para ela todos os dias, mesmo com o fuso-horário.</p><p>Ele se programava para ligar antes de dormir, dizia que</p><p>era porque queria ser o último pensamento dela do dia.</p><p>É claro que não era. Marie era ansiosa demais e</p><p>tinha o pensamento acelerado. Antes de dormir, sentia</p><p>que poderia fugir para o meio da selva e viver como o</p><p>Tarzan, ou que poderia lutar com os animais selvagens</p><p>como o Indiana Jones. Marie nunca se lembrava de seu</p><p>último pensamento, mas com certeza tinha a ver com ela</p><p>apresentando um programa de televisão e com o Chris</p><p>Evans sem camisa.</p><p>Não que contasse isso para o namorado. Para</p><p>Matheus, Marie dormia pensando em como seria a</p><p>próxima vez que se encontrassem. E o que ela também</p><p>não contava para ele era que estava morrendo de medo</p><p>de quando esse dia chegasse. Estava com medo de que</p><p>tudo aquilo que tinha sentido durante o verão tivesse ido</p><p>embora quando se vissem novamente.</p><p>— Eu queria que pudesse estar aqui — continuou</p><p>Matheus.</p><p>Marie suspirou.</p><p>— Eu também queria. Mas vamos nos ver logo.</p><p>— Quatro meses.</p><p>— Quatro meses.</p><p>— Você é incapaz de jogar o resto de comida no</p><p>triturador?</p><p>Marie se sobressaltou ao ouvir a voz da mãe</p><p>ecoando da cozinha. Ela gemeu, frustrada. De novo</p><p>não...</p><p>— Amor, tenho que ir. Amanhã nos falamos, ok?</p><p>— Ok. Te amo.</p><p>— Eu também.</p><p>Marie permitiu-se suspirar ao encerrar a ligação.</p><p>Ela se encolheu na cama e esperou pelo próximo grito.</p><p>— Eu já disse mais de mil vezes! Será que é</p><p>impossível? Você é um empresário que não pode limpar a</p><p>própria sujeira!</p><p>Marie ouviu o pai responder algo, mas sua voz saiu</p><p>contida e baixa, como sempre. Continuou ouvindo os</p><p>gritos de sua mãe por causa das sobras no prato e</p><p>esperou que aquele fosse o dia em que seu pai gritaria</p><p>de volta, em que ele reagiria. Mas ele apenas tentava</p><p>acalmá-la.</p><p>Fechou os olhos. Se ainda fosse adolescente,</p><p>pegaria seus fones de ouvido e fingiria que nada estava</p><p>acontecendo do lado de fora de seu quarto. Mas fazia</p><p>tempo que ela havia desistido de tentar isso.</p><p>Pegou o telefone em cima da cama e discou o</p><p>número de Gabriel.</p><p>— Está em casa? — perguntou assim que ele</p><p>atendeu.</p><p>— Sim. Pronto para capotar. Estou morto.</p><p>— Ah... tudo bem. Boa noite, Sol.</p><p>— Aconteceu alguma coisa, Mar?</p><p>Marie percebeu a preocupação na voz do amigo e</p><p>logo se arrependeu de ter ligado. Ele tinha uma corrida</p><p>no dia seguinte e precisava descansar. A última coisa que</p><p>precisava era ouvir os problemas de Marie.</p><p>— Não, pode ficar tranquilo.</p><p>— De novo? — perguntou Gabriel, com a voz cheia</p><p>de entendimento.</p><p>Marie fechou os olhos e apertou. Ela não queria</p><p>chorar, já estava crescida demais para chorar.</p><p>— Oui.</p><p>— Quer vir para cá? Je t'attends.</p><p>— Dez minutos — falou, desligando o telefone.</p><p>Marie estava na porta de casa quando ouviu passos</p><p>atrás de si. Ela parou assim que percebeu os passos</p><p>pararem. Respirou fundo e olhou para trás.</p><p>— Oi, mãe — disse, olhando para a mulher que a</p><p>encarava com as mãos na cintura, séria.</p><p>— Aonde você está indo a essa hora, Marie?</p><p>Marie queria dizer que não devia satisfação a ela.</p><p>Que já estava grandinha o suficiente para sair sem</p><p>avisar. Mas ao notar a mãe daquele jeito, ela não</p><p>conseguiu. Se desse uma resposta atravessada, Isabela</p><p>se viraria contra o seu pai e colocaria nele a culpa por</p><p>todos os pecados da filha.</p><p>— Gabe me chamou para dormir na casa dele.</p><p>Isabela olhou para ela com os olhos semicerrados.</p><p>— E acha certo dormir na casa de um homem com</p><p>quem não namora?</p><p>Marie sequer havia pensado sobre aquilo.</p><p>— É o Gabe, mãe!</p><p>— E o que o Matheus acha disso?</p><p>Marie deu de ombros.</p><p>— Eu não sei! Quer que</p><p>eu ligue para ele para</p><p>perguntar?</p><p>— Deixe de ser petulante, menina! A cada dia que</p><p>passa, mais fica igual ao seu pai.</p><p>Melhor do que ficar igual à senhora, Marie pensou,</p><p>mas logo se arrependeu. Ela odiava pensar essas coisas.</p><p>Sua mãe não era uma má pessoa. Longe disso. Mas</p><p>ela podia ser bem dura com as palavras.</p><p>— Posso sair? — Marie perguntou, apontando para</p><p>a porta atrás de si.</p><p>— Vá. Só não diga que eu não avisei.</p><p>Marie se virou, e estava prestes a sair quando</p><p>repassou na mente as palavras da mãe. O que ela estava</p><p>avisando, necessariamente? Marie perguntou isso para a</p><p>mulher, mas sem olhar para ela.</p><p>— Que você está brincando com fogo, Marie. E</p><p>quem brinca com fogo, se queima. Só não venha chorar</p><p>no meu ouvido depois. Odeio choro. — Então, saiu da</p><p>sala. Marie sentiu pena do pai, pois ouviria a mãe a noite</p><p>inteira.</p><p>Respirando fundo, Marie se preparou para bater à</p><p>porta. Quando o som do contato de sua mão com a</p><p>madeira ressoou em seus ouvidos, ela abaixou a cabeça</p><p>e limpou as lágrimas que haviam caído e embaçado sua</p><p>visão. Estava cansada de chorar pelo mesmo motivo.</p><p>A porta se abriu e o rosto preocupado de Gabriel a</p><p>encarou. Marie se viu chorando novamente e correu para</p><p>os braços abertos do amigo. Ele a pegou e a embalou</p><p>com seu cheiro almiscarado. Gabriel havia acabado de</p><p>sair do banho, ela tinha certeza. O cheiro da loção estava</p><p>forte, e ela conseguia sentir sua pele fresca.</p><p>Gabriel fechou a porta atrás de Marie, sem se</p><p>afastar. Acariciou suas costas e não disse nada. Ele</p><p>sequer pediu para que ela se acalmasse. Gabriel a</p><p>conhecia, nunca pediria a ela o impossível. Ele sabia que</p><p>Marie precisava colocar tudo para fora, e aquele era o</p><p>melhor jeito. Seu melhor amigo a entendia.</p><p>Muitos minutos se passaram. Marie finalmente</p><p>havia se acalmado o suficiente e se afastou de Gabriel,</p><p>limpando o rosto. Ele a olhou, e tinha um sorriso solidário</p><p>no rosto.</p><p>— O Serkan está te esperando — brincou.</p><p>Marie riu e andou até a sala de Gabriel. Na tela da</p><p>televisão de 75 polegadas, o rosto de um dos atores</p><p>turcos favoritos de Marie estava congelado. Havia um</p><p>pote cheio de pipoca em cima da mesinha de centro, e</p><p>dava para ver a fumaça saindo dele, ao lado de dois</p><p>copos de refrigerante.</p><p>Ela olhou para o amigo, que estava de pé perto da</p><p>porta, ainda com as mãos nos bolsos da calça, parecendo</p><p>incerto do que fazer em seguida. Marie então sorriu para</p><p>ele e caminhou até o sofá. Pegou o controle da televisão</p><p>e apertou o play.</p><p>— Não vai se sentar? — perguntou ela, pegando</p><p>um dos copos e o estendendo para ele.</p><p>O piloto suspirou, parecia aliviado. Andou até o</p><p>sofá e pegou o copo da mão dela.</p><p>Eles não falaram mais nada, apenas as vozes</p><p>recitando palavras turcas foram ouvidas pelo resto</p><p>daquela noite.</p><p>Capítulo 8</p><p>Marie, 11 anos.</p><p>Gabriel, 12 anos.</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Marie estava sentada no sofá, com as pernas</p><p>dobradas e um livro apoiado nas coxas. Ela havia</p><p>passado a maior parte da noite assim, e Gabriel já estava</p><p>irritado com aquilo. Ele sentia falta dela, mesmo que</p><p>tivessem curtido o dia juntos. A cada ano que passava,</p><p>menos tempo juntos eles tinham, já que seu pai e sua</p><p>mãe haviam se divorciado e Gabriel estava morando com</p><p>a mãe em Londres. Ele só ia para Mônaco quando Kalil o</p><p>chamava para passar alguns dias com sua família. Então,</p><p>os momentos que podia aproveitar com Marie eram os</p><p>melhores.</p><p>Gabriel deixou as cartas em cima da mesa e se</p><p>levantou, ignorando os protestos de Kalil, Nathan e</p><p>Edgar. Dom não havia ido passar a noite com eles, pois</p><p>dizia que estava velho demais para “coisas de crianças”,</p><p>e ainda tentou arrastar Edgar com ele. Mas Edgar,</p><p>mesmo estando com 15 anos, não tinha a aptidão para</p><p>festas como o tio. Por isso, pareceu confortado com o</p><p>fato de que os meninos estariam fazendo uma noite de</p><p>jogos na casa de Kalil.</p><p>— Você vai voltar? — perguntou Kalil.</p><p>Gabriel nem se deu ao trabalho de responder,</p><p>apenas caminhou até o sofá onde Marie estava e se</p><p>sentou. Puxou a perna dela para cima da sua e a fez</p><p>abaixar o livro.</p><p>Marie o olhou com olhos fumegantes, quase</p><p>fazendo-o se arrepender por aquilo.</p><p>— O que você quer? — indagou ela.</p><p>— Quero conversar com a minha amiga. Você olhou</p><p>só para esse livro a noite inteira.</p><p>— Você jogou cartas a noite inteira. Por acaso me</p><p>viu reclamar?</p><p>Gabriel olhou para Marie, tentando não demonstrar</p><p>o seu desapontamento por ela parecer tão indiferente</p><p>com a sua atenção.</p><p>— Você fica muito chata quando lê — disse,</p><p>cruzando os braços sobre o peito, irritado.</p><p>Gabriel odiava demonstrar quando queria afeto.</p><p>Achava pouco másculo e muito chato. Ele não queria ser</p><p>grudento, mas amava a atenção de Marie. Ela sempre</p><p>parecia saber o que ele queria ou no que estava</p><p>pensando. Quando Gabriel ficava triste com algo, Marie</p><p>era a primeira a saber e a tentar animá-lo. Mas era só um</p><p>livro aparecer e ela se esquecia dele, como um passe de</p><p>mágica.</p><p>Entretanto, para sorte de Gabriel, Marie pareceu</p><p>perceber isso, pois seus olhos se atenuaram.</p><p>— É que está muito bom, Gabe. Quando terminar</p><p>esse capítulo, eu me sento com vocês.</p><p>Isso não o acalmou.</p><p>— Sobre o que é? Não é possível que seja tão bom.</p><p>As bochechas de Marie coraram e ela puxou o livro</p><p>para o peito.</p><p>— Não é nada. Vai lá jogar. Depois eu falo com</p><p>você.</p><p>A ação da menina atiçou ainda mais a curiosidade</p><p>de Gabriel. Ele se aproximou dela e tentou arrancar o</p><p>livro de sua mão. Marie gritou e segurou o livro com mais</p><p>força contra o peito. Gabriel sorriu, sentindo certo prazer</p><p>em vê-la tão nervosa. Colocou uma mão na cintura dela</p><p>e começou a fazer cócegas. Marie se contorceu e</p><p>gargalhou tanto que acabou deitada no sofá, com Gabriel</p><p>em cima dela.</p><p>Ele enfim parou e conseguiu tirar o livro da mão</p><p>dela. Virou-o sobre o peito da menina e leu o título em</p><p>voz alta:</p><p>— Aconteceu no verão. — Então, riu. — Capa meio</p><p>brega.</p><p>Gabriel esperou por um estalar de língua de Marie</p><p>em protesto, ou por palavras afiadas, mas não recebeu</p><p>nada. Então, olhou para a amiga e percebeu que ela o</p><p>encarava de uma maneira muito estranha e nova. Ele</p><p>nunca havia sido encarado daquele modo. Pelo menos</p><p>não que se lembrasse.</p><p>— O que é? — perguntou em voz baixa, sem querer</p><p>chamar atenção de seus amigos.</p><p>Marie não respondeu, apenas o olhou, e parecia</p><p>quase confusa com a própria reação. Então, como se um</p><p>interruptor ligasse, Gabriel percebeu o que estava</p><p>acontecendo e se tocou de que estava em cima dela,</p><p>muito próximo.</p><p>Ele nunca se esqueceria daquele momento</p><p>enquanto vivesse. Aquele havia sido o divisor de águas</p><p>na vida de Gabriel. Ao olhar para Marie fitando-o com os</p><p>olhos verde-escuros tão brilhantes, percebeu que algo de</p><p>muito errado estava acontecendo com ele.</p><p>Gabriel pigarreou e se afastou dela. Marie pareceu</p><p>desnorteada quando se sentou, e ele percebeu que ela</p><p>estava insegura quando apertou o livro contra o peito</p><p>novamente.</p><p>— É sobre o quê? — perguntou, decidido a ignorar</p><p>aquele breve momento entre eles.</p><p>Marie afrouxou o aperto sobre o livro e o pousou</p><p>sobre as pernas.</p><p>— Uma menina que foi viajar com os pais para a</p><p>praia e conheceu um menino. Eles vão se apaixonar. É</p><p>fofo.</p><p>Gabriel fez cara de nojo. Marie adorava aquelas</p><p>coisas melosas. Havia sido aos poucos. Antes, ela lia</p><p>fantasias e o fazia ouvir sobre as histórias. Então, ela</p><p>começou a ler cada vez mais romances. E Gabriel</p><p>revirava os olhos sempre que ela tentava contar sobre</p><p>um livro para ele, e mesmo assim Marie contava.</p><p>— Sua mãe comprou para você?</p><p>Marie negou com a cabeça.</p><p>— Minha tia me deixou pegar qualquer livro na</p><p>estante dela.</p><p>Gabriel olhou para o livro de novo e tentou se</p><p>concentrar no que ela dizia, mas estava bem difícil.</p><p>Marie sempre tinha tido cheiro de frutas? Gabriel</p><p>balançou a cabeça. Aquilo era ridículo. Não era possível</p><p>que as pessoas cheirassem como frutas. Mas... ela</p><p>cheirava. E era tão doce! Gabriel a olhou novamente e</p><p>sentiu-se tonto, como se estivesse doente. O que estava</p><p>acontecendo com ele?</p><p>Gabriel se levantou do sofá e saiu de perto dela,</p><p>com</p><p>medo da própria reação. Marie não disse nada</p><p>quando ele se afastou, mas também não voltou a ler o</p><p>livro. Ela apenas o observou voltando para a mesa onde</p><p>os meninos jogavam. Gabriel pegou suas cartas</p><p>novamente e focou nelas. Seus amigos não disseram</p><p>nada sobre o jogo já estar adiantado e ele não ter mais</p><p>chances de ganhar. Não que Gabriel se importasse. Ele</p><p>estava doente demais para isso.</p><p>Mais tarde naquela noite, Gabriel não correu com</p><p>os meninos para pegar um pedaço da pizza que Ali e Jolie</p><p>haviam pedido. Esperou todos voltarem para os seus</p><p>lugares e olhou umas três vezes para ver se Marie estava</p><p>realmente longe de seu alcance. Foi então que se</p><p>levantou e caminhou até a bancada onde estava a pizza.</p><p>Ele não voltou para a mesa com os amigos, sentia-se</p><p>estranho perto deles. Os meninos só falavam sobre</p><p>esportes, e Gabriel não se importava, não ligava para</p><p>aquilo. Pelo menos não naquela noite.</p><p>Sentou-se na banqueta do balcão e pôs-se a comer</p><p>a pizza, sem nem sentir o gosto.</p><p>— Gabe, você está bem, filho?</p><p>Ele não se importou em levantar a cabeça para</p><p>olhar para Ali.</p><p>Gabriel nunca perdia uma oportunidade de</p><p>conversar com o pai de Kalil. Era seu ídolo, e ele amava</p><p>conversar com o ex-piloto, mas não tinha vontade</p><p>naquele instante. Porque tudo o que sentia era cheiro de</p><p>frutas e vontade de se levantar e ir até Marie, que estava</p><p>sentada lendo aquele livro idiota de verão.</p><p>— Quer conversar? — insistiu Ali, posicionando-se</p><p>ao lado do menino e colocando a mão em seu ombro.</p><p>Gabriel tirou os olhos de Marie, que ria de alguma</p><p>coisa que acabara de ler, e olhou para Ali.</p><p>— Acho que estou doente, tio Ali.</p><p>Ali pareceu preocupado no mesmo instante. Apoiou</p><p>as costas da mão na testa do garoto para sentir sua</p><p>temperatura.</p><p>— O que está sentindo?</p><p>— Estou um pouco zonzo. Eu não sinto o gosto da</p><p>pizza, meu coração está acelerado e não tenho vontade</p><p>de conversar com ninguém. Nem com os meninos, e eles</p><p>estão falando da corrida! — respondeu e tentou</p><p>demonstrar seu desespero pelo olhar. — O que eu tenho?</p><p>Antes que Ali pudesse responder, Jolie Faez entrou</p><p>na sala, e Gabriel observou quando a mãe de Kalil</p><p>caminhou até Marie e começou a conversar com a</p><p>sobrinha. Marie tirou os olhos do livro e olhou para</p><p>Gabriel por um segundo antes de se voltar para Jolie. Ele</p><p>sentiu os pelos de seu braço se arrepiarem e arregalou os</p><p>olhos ao vê-los em pé. Ergueu-se para frente de Ali,</p><p>sentindo-se ainda mais desesperado.</p><p>— Viu só?!</p><p>Ali assentiu, entendendo o que estava acontecendo</p><p>com Gabriel, que se animou ao perceber isso.</p><p>O ex-piloto se sentou na banqueta ao seu lado e</p><p>colocou os braços sobre a bancada.</p><p>— Gabriel, está na hora de termos uma conversa</p><p>de homens — disse, olhando para a esposa, que ainda</p><p>conversava com a sobrinha. — Quando somos novos,</p><p>descobrimos coisas novas sobre nós mesmos. E uma</p><p>dessas coisas é a atração por meninas.</p><p>Gabriel olhou para Ali, sem entender aonde o ex-</p><p>piloto queria chegar. Ele não sentia atração por garotas,</p><p>elas eram chatas e frescas demais.</p><p>— Eu não sinto isso — protestou.</p><p>— O que te fez ficar desse jeito, então?</p><p>— Marie está com cheiro de frutas — respondeu</p><p>baixinho, fazendo com que Ali precisasse abaixar a</p><p>cabeça para ouvir.</p><p>O ex-piloto sorriu.</p><p>— E percebeu isso do nada?</p><p>Gabriel assentiu, por algum motivo sentindo-se</p><p>envergonhado. Não era possível que aquilo fosse</p><p>atração. Quer dizer, era a Marie, sua amiga. A única</p><p>menina com quem ele tinha amizade e ninguém parecia</p><p>ligar. Não zoavam da amizade dos dois, nunca, e Gabriel</p><p>era amigo dela justamente por isso.</p><p>— Gabe, não há problema algum em gostar de</p><p>alguém. É normal.</p><p>— Mas ela é a Marie! Não faz sentido! Ela é minha</p><p>amiga!</p><p>— A Jolie e eu éramos amigos antes de</p><p>começarmos a namorar.</p><p>O estômago de Gabriel se revirou ao pensar em</p><p>namorar com qualquer pessoa. Beijar na boca e ficar de</p><p>carinho? Eca! Era nojento demais sequer pensar nessas</p><p>coisas.</p><p>— Eu não quero namorar com ela. Eu só percebi</p><p>que estava cheirosa hoje — falou, olhando de novo para</p><p>a menina sentada no sofá.</p><p>Marie mostrava para a tia o livro que havia</p><p>escolhido na biblioteca. As duas conversavam em voz</p><p>baixa e riam de vez em quando. Gabriel observou Marie</p><p>jogar a cabeça para trás ao gargalhar, então percebeu</p><p>quão bonito era o sorriso dela, mesmo de aparelho.</p><p>— E ela tem o sorriso bonito... — comentou,</p><p>olhando para o ex-piloto. — Quando isso vai passar?</p><p>Ali riu e balançou a cabeça.</p><p>— É difícil dizer. Talvez, daqui a um tempo você não</p><p>sinta mais nada. Ou, talvez, sinta para sempre, depende</p><p>dos seus sentimentos por ela.</p><p>Gabriel mordeu o interior da boca. Ali estava</p><p>confundindo-o demais.</p><p>— Quer dizer que eu controlo isso?</p><p>— Não, você não pode controlar a atração. Mas</p><p>pode controlar as suas ações.</p><p>— E o que eu tenho que fazer?</p><p>Ali deu de ombros.</p><p>— Você que tem que decidir. A Marie ficaria</p><p>honrada em saber que gosta dela, eu tenho certeza.</p><p>Gabriel balançou a cabeça.</p><p>— Somos amigos, eu não quero perdê-la.</p><p>Ali apertou o ombro do menino, tentando confortá-</p><p>lo.</p><p>— Você não vai perdê-la. Mas caso ela corresponda,</p><p>vai ganhar uma companheira.</p><p>Sentindo-se contrariado, Gabriel abaixou a cabeça.</p><p>— Meus pais não são mais amigos e nem</p><p>companheiros. Eu não quero que isso aconteça comigo e</p><p>com ela — disse.</p><p>O homem olhou para o perfil tristonho do menino e</p><p>assentiu.</p><p>— Então, já tomou sua decisão, Gabe.</p><p>Capítulo 9</p><p>Dias atuais.</p><p>Quatro meses depois.</p><p>Jericoacoara, Ceará, Brasil.</p><p>— Que lindo! É tudo de terra! — disse Stacy,</p><p>colocando a cabeça para fora da caminhonete.</p><p>— Areia — corrigiu Edgar, seco.</p><p>Stacy se virou para ele com raiva e revirou os</p><p>olhos.</p><p>— Vê se me esquece, cara!</p><p>— Ok. Fale isso na frente dos outros e passe</p><p>vergonha.</p><p>Marie olhou para o namorado e segurou o riso. Eles</p><p>haviam se encontrado no aeroporto poucas horas antes,</p><p>e Marie não poderia estar mais feliz. Ela nunca se</p><p>esqueceria da felicidade no rosto de Matheus quando ele</p><p>a viu atravessando o portão de desembarque.</p><p>Gabriel, Mavi Anne, Kalil, Nathan e Edgar também</p><p>estavam com eles. Mavi e Kalil se beijavam em um canto</p><p>da caminhonete, e todos os ignoravam – eles eram</p><p>nojentos. Enquanto isso, Nathan e Edgar conversavam</p><p>sobre como a profissão de Edgar era chata. E Gabriel...</p><p>bem, ele não vinha falando muito desde que chegaram.</p><p>Riu quando lhe contaram uma piada e foi simpático com</p><p>Matheus ao vê-lo, mas estava mais calado que o normal</p><p>desde que deixara a Europa.</p><p>O fim de semana anterior havia sido péssimo para</p><p>o piloto, já que viu seu companheiro de equipe subindo</p><p>ao pódio enquanto ele sequer conseguiu finalizar a</p><p>corrida, culpa do motor de seu carro, que parou na</p><p>metade da 45ª volta. Gabriel se manteve centrado e</p><p>calmo no autódromo, mas Marie viu o poder de sua fúria</p><p>ao chegar em seu quarto de hotel e ouvi-lo xingar todo</p><p>mundo do trabalho por pelo menos uma hora. No fim,</p><p>eles se sentaram e assistiram a um filme, na tentativa de</p><p>que Gabriel distraísse um pouco a mente.</p><p>Depois disso, eles não se falaram muito. Gabriel</p><p>vinha se mantendo afastado, muito concentrado na</p><p>grande chance que tinha de vencer o campeonato. Isso</p><p>causava tristeza em Marie, pois sentia falta do amigo. Ela</p><p>odiava essa época do campeonato.</p><p>— Gabriel, você já esteve aqui? — perguntou</p><p>Matheus, enquanto seu braço rodeava os ombros de</p><p>Marie e ele lhe fazia carinho.</p><p>Assim que Gabriel olhou para eles, Marie conteve a</p><p>vontade de afastar-se de Matheus. Era ridículo, ela sabia,</p><p>mas ainda era muito estranho namorar e ser amiga de</p><p>Gabriel ao mesmo tempo. Levaria um tempo para se</p><p>acostumar.</p><p>Gabriel observou os dois juntos e apenas balançou</p><p>a cabeça, voltando a olhar pela janela. Matheus olhou</p><p>para Marie como se perguntasse “qual é o problema com</p><p>ele?”, e ela apenas deu de ombros, porque realmente</p><p>não fazia ideia.</p><p>Chegaram ao hotel alguns minutos depois e</p><p>decidiram ir descansar. Matheus não deixou Marie pegar</p><p>nenhuma de suas malas, carregou as dele para dentro do</p><p>hotel e depois voltou para pegar a dela. Marie estava</p><p>ansiosa</p><p>para chegar ao seu quarto e tomar um belo</p><p>banho antes de ir dormir.</p><p>Mesmo após todas as suas viagens, Marie</p><p>continuava desacostumada com o fuso-horário; sempre</p><p>desregulava o seu sono.</p><p>Ela iria dividir um quarto com Stacy e Mavi. Sentia</p><p>que estava prestes a voltar no tempo, para quando tinha</p><p>15 anos e fazia festa do pijama com suas amigas nos fins</p><p>de semana. Seria incrível!</p><p>Subiram as escadarias do hotel com decoração</p><p>praiana, todo em cor de areia. Se Marie fosse um pouco</p><p>mais sonhadora, pensaria que aquele hotel era</p><p>realmente feito de areia. O chão era de pedra, e quadros</p><p>de praias em molduras de madeira tomavam conta das</p><p>paredes. Marie estava completamente apaixonada.</p><p>Ao entrar no quarto, ela viu três camas de solteiro</p><p>dispostas lado a lado. Uma porta de madeira escura,</p><p>onde devia ser o banheiro, e uma outra, que dava para a</p><p>varanda. O lugar era lindo.</p><p>— Quem fica em qual? — perguntou, parada entre</p><p>as duas amigas.</p><p>— Tanto faz — disse Mavi, em um tom</p><p>despreocupado.</p><p>Stacy, no entanto, correu para a do meio e se</p><p>jogou, bagunçando toda a roupa de cama.</p><p>— Que maravilhoso! — exclamou, rodando na</p><p>cama como se fosse um gato.</p><p>Marie amava a amiga por ser daquele jeito. Não</p><p>importava o tempo ou a situação, Stacy sempre estava</p><p>feliz e tinha algo bom para dizer.</p><p>Mavi andou até a cama perto da varanda e se</p><p>sentou, controlada como sempre. Então, Marie colocou</p><p>suas coisas sobre a cama que ficava perto da porta.</p><p>Poucos segundos depois, seu celular tocou, e ela</p><p>viu o nome de Matheus brilhar na tela.</p><p>— Oi, amor! — cumprimentou, não conseguindo</p><p>esconder o sorriso.</p><p>Era ótimo estar perto dele. Marie não queria</p><p>desgrudar do namorado por um segundo sequer. Mas</p><p>precisava tanto descansar naquele momento que só a</p><p>ideia de ele estar prestes a chamá-la para sair já a fazia</p><p>sentir vontade de bocejar.</p><p>Marie realmente odiava fuso-horário.</p><p>Gabriel olhou para a porta por onde seus três</p><p>amigos haviam acabado de passar. Então, fungou.</p><p>Aquele clima estava fazendo mal a ele. Era muito quente,</p><p>muito abafado, e, por algum motivo, Gabriel tinha</p><p>começado a se sentir claustrofóbico. Por muito pouco não</p><p>correu atrás dos amigos.</p><p>— Mano, não vai entrar, não? — perguntou</p><p>Matheus, parado no vão da porta do quarto que eles</p><p>iriam dividir pelos próximos quatro dias.</p><p>Gabriel, que estava de costas para ele, revirou os</p><p>olhos. Será que aquele cara não calava a boca em</p><p>nenhum momento? Como poderia tê-lo chamado de</p><p>amigo um dia?</p><p>Mas ao se virar, forçou um sorriso e entrou no</p><p>quarto. Socaria os outros depois por terem feito aquilo</p><p>com ele. Uma parte sua, a parte egoísta e insensível,</p><p>queria ir até a recepção e pedir um quarto só para si,</p><p>mas Gabriel sabia que isso magoaria Marie. E,</p><p>infelizmente, ele se importava demais com os</p><p>sentimentos dela.</p><p>Gabriel não falou nada para Matheus quando</p><p>entrou. Foi até a cama perto da janela, colocou sua mala</p><p>em cima dela e começou a procurar uma roupa mais</p><p>fresca.</p><p>Por que o Brasil tem que ser tão quente até no</p><p>inverno? Seria melhor que nem falassem que tem</p><p>inverno aqui. Poderiam falar algo como: “Em alguns dias,</p><p>temos frio, mas é muito esporádico”. Agora, inverno?,</p><p>resmungava em pensamento.</p><p>Sentia que seu jeans estava grudado na pele e que</p><p>precisava tirar aquilo naquele mesmo instante. Por isso,</p><p>pegou uma das bermudas floridas e ridículas que sua</p><p>mãe tinha dado a ele no Natal anterior e uma regata</p><p>qualquer.</p><p>— Vou usar o banheiro — avisou para Matheus.</p><p>— Ok. Vou ligar para a Marie.</p><p>Gabriel parou no meio do caminho e olhou para o</p><p>jogador, que já caminhava para a varanda. Ainda bem,</p><p>porque se ele ainda estivesse olhando para Gabriel, teria</p><p>visto sua cara de nojo.</p><p>Sentindo-se raivoso, Gabriel suspirou. Precisava se</p><p>acalmar.</p><p>Entrou no banheiro e tomou um banho rápido. Até</p><p>a água não é gelada o suficiente, droga! Gabriel estava</p><p>passando shampoo no cabelo quando reparou no</p><p>pensamento que havia acabado de ter.</p><p>Meu Deus! Eu estou me tornando o Kalil!</p><p>Sentiu arrepios descerem por seu corpo. Quando</p><p>isso tinha acontecido? Em um momento, ele era bem-</p><p>humorado e via as coisas boas da vida. No outro, havia</p><p>se transformado no Kalil, seu amigo pessimista e velho.</p><p>E já bastava um dele, o mundo não precisava de</p><p>outro.</p><p>Gabriel se enxaguou e desligou o chuveiro. Saiu do</p><p>box e parou em frente ao espelho.</p><p>— Você é legal! Pare de ser chato! — disse ao seu</p><p>reflexo.</p><p>Respirou fundo e vestiu sua roupa. Saiu do</p><p>banheiro com o maior sorriso que conseguiu. Ele era feliz</p><p>e bem-humorado. Que se ferrasse William Davies!</p><p>Gabriel não o deixaria acabar com as suas férias!</p><p>Matheus já havia desligado o celular, então Gabriel</p><p>sorriu para ele.</p><p>— Vamos à praia agora? — perguntou, tentando</p><p>parecer sociável.</p><p>— Estou com fome — disse Matheus, batendo na</p><p>tela do telefone. — A gente podia sair para comer.</p><p>Merda!</p><p>— O que foi? — indagou Gabriel, assustando-se</p><p>com o súbito de Matheus.</p><p>O jogador ergueu os olhos para ele.</p><p>— Meu treinador está desconfiado.</p><p>Gabriel franziu o cenho.</p><p>— De quê?</p><p>Matheus suspirou.</p><p>— Eu deveria estar treinando hoje. Mas falei que</p><p>minha avó estava no hospital, quase morrendo, e que eu</p><p>precisava voltar para Londrina correndo —contou, sem</p><p>parecer nem um pouco culpado pela mentira.</p><p>Gabriel piscou várias vezes, sem conseguir</p><p>acreditar no que estava ouvindo. Era um absurdo</p><p>Matheus falar aquilo com tanta calma.</p><p>— E por que fez isso?</p><p>O jogador olhou para ele como se a resposta fosse</p><p>óbvia e o piloto fosse um idiota.</p><p>— Para poder vir!</p><p>Gabriel balançou a cabeça, desacreditado.</p><p>— E arriscou o seu emprego?</p><p>— Marie é mais importante.</p><p>Gabriel sentiu a pontada em seu coração e deu um</p><p>passo para trás.</p><p>— Do que o seu emprego?</p><p>— Do que qualquer coisa.</p><p>— Até mesmo sua avó? — Gabriel achava que não</p><p>estava mais conseguindo respirar.</p><p>— Eu amo a minha vó, mas eu a vejo muito mais</p><p>do que vejo a Marie. Eu não podia perder a chance de vê-</p><p>la. — O telefone na mão de Matheus tocou, ele olhou</p><p>para a tela e sorriu. — É ela — disse antes de atender. —</p><p>Oi, vida?</p><p>Vida?</p><p>Gabriel precisava sair dali.</p><p>— O que você está fazendo aqui? — Nathan</p><p>perguntou a Gabriel ao vê-lo sentado no meio-fio, na</p><p>entrada da cidade.</p><p>— O que você está fazendo aqui? — Gabriel</p><p>perguntou de volta, colocando a mão sobre a testa para</p><p>impedir que o sol batesse em seus olhos, assim,</p><p>conseguindo ver o amigo.</p><p>Nathan estava ofegante e suado, foi quando</p><p>Gabriel reparou nas roupas de ginástica e na garrafa</p><p>plástica de água.</p><p>— Sabe o quanto isso faz mal para o meio</p><p>ambiente? — indagou, apontando para a garrafa.</p><p>O amigo revirou os olhos e não rebateu sua</p><p>acusação.</p><p>— Estou indo até a Pedra Furada. Pelas fotos,</p><p>parece ser um lugar muito bonito. Mas me disseram que</p><p>a caminhada é bem longa — disse Nathan, antes de</p><p>apontar para a placa de papelão em frente a Gabriel. —</p><p>O que é isso?</p><p>Gabriel desviou o olhar, muito envergonhado para</p><p>explicar aquilo.</p><p>— Não sabe ler?</p><p>Nathan balançou a cabeça.</p><p>— Está em português, amigo. Eu não sou o</p><p>poliglota aqui.</p><p>O piloto sequer se preocupou em pedir desculpas,</p><p>estava com muita raiva para isso. Ele ainda conseguia</p><p>ouvir a voz irritante de Matheus falando, e falando, e</p><p>falando... Achava um milagre que não estivesse na</p><p>delegacia de polícia naquele momento, porque tinha</p><p>certeza de que quase cometera um crime.</p><p>Nathan se inclinou em direção à placa e tentou lê-</p><p>la.</p><p>— For-forta-le-le-za. Fortaleza! — Confuso, olhou</p><p>para Gabriel, a testa franzida. — Fortaleza? Por que você</p><p>escreveu o nome da cidade na placa?</p><p>Gabriel arregalou os olhos e se conteve para não</p><p>gritar com Nathan. Focou na ideia de que o amigo não</p><p>tinha nada a ver com o fato de que ele estava tendo uma</p><p>péssima semana e que até mesmo o respirar do</p><p>namorado de Marie o irritava profundamente.</p><p>— Eu quero ir embora, você entendeu? — falou</p><p>pausadamente, como se o amigo fosse um idiota.</p><p>Nathan o fitou, como se o idiota fosse ele.</p><p>— Por quê? E por que você simplesmente não</p><p>pediu um carro?</p><p>Gabriel bufou, irado.</p><p>— Porque eu não quero mais ficar</p><p>aqui. E eu não</p><p>pedi um carro porque iria demorar muito e eu quero ir</p><p>embora agora!</p><p>Nathan parecia prestes a rir, mas se conteve, e</p><p>Gabriel agradeceu por isso.</p><p>Ele sabia que parecia ridículo sentado ali com uma</p><p>placa, como se estivesse fugindo. Mas estava</p><p>desesperado, e era comum ele fazer coisas ridículas</p><p>quando estava desesperado. Odiava essa sua maneira de</p><p>agir, mas era como era.</p><p>— Levante-se daí e venha caminhar comigo.</p><p>Quando voltarmos, você vê se quer ir embora ainda —</p><p>disse Nathan, como se Gabriel fosse uma criança que</p><p>precisava de um tempo para se acalmar.</p><p>Gabriel olhou para si mesmo e balançou a cabeça.</p><p>Ainda vestia o calção de banho e uma regata qualquer.</p><p>Saíra tão apressado do hotel que sequer havia pegado</p><p>sua carteira.</p><p>Suspirando, ele se levantou e começou a seguir</p><p>Nathan, carregando a placa, como precaução.</p><p>Eles começaram a caminhar pelas ruas de areia,</p><p>em direção ao início da trilha. Era um morro alto, coberto</p><p>por terra e um pouco de grama. Ao longo do caminho,</p><p>viram cactos e algumas carroças puxadas por burros que</p><p>ficavam disponíveis para levar os turistas. Gabriel olhou</p><p>para a frente e respirou fundo. Ele era um atleta, não</p><p>deixaria que uma trilha até uma pedra com um furo no</p><p>meio o abalasse.</p><p>— Conta — Nathan falou simplesmente.</p><p>— É idiotice, deixa para lá.</p><p>— Não é idiotice se te fez querer fugir — disse</p><p>Nathan, sério.</p><p>Gabriel olhou para o perfil do amigo e estranhou</p><p>sua maneira de falar, como se o fato de ele contar o que</p><p>se passava fosse algo realmente importante.</p><p>— Pensei que este ano eu conseguiria o título —</p><p>disse em voz baixa, como se tivesse medo de que</p><p>alguém o ouvisse.</p><p>Ele não havia contado aquilo a ninguém, nem</p><p>mesmo à Marie. Ela estava tão empolgada por ver</p><p>Matheus que sequer notara que Gabriel estava estranho.</p><p>Isso o magoou, ele não iria negar. Queria compartilhar</p><p>aquele sentimento com a amiga, mas ela parecia tão</p><p>longe...</p><p>— E por que acha que não vai conseguir?</p><p>— O William está correndo bem e tem uma chance</p><p>maior que a minha. Acho que a equipe vai focar nele.</p><p>Nathan riu, o que atraiu o olhar de Gabriel para ele.</p><p>Aquilo não era engraçado. Só se Nathan tivesse um</p><p>humor tão ácido que considerasse a desgraça de seu</p><p>amigo algo engraçado.</p><p>— Desculpa — pediu Nathan ao notar o olhar</p><p>indagador no rosto de Gabriel. — Mas parece meio</p><p>ridículo quando você fala desse jeito. Gabe, nós só</p><p>estamos na metade da temporada, ainda tem muita</p><p>corrida pela frente. E você precisa de apenas 50 pontos</p><p>para bater o William, tem mais chances de vencer do que</p><p>o Kalil.</p><p>Gabriel suspirou. Estava cansado de pensar</p><p>naquilo. Ele não queria mais se cobrar tanto, e cada vez</p><p>que pensava que poderia esquecer tudo e ter um verão</p><p>perfeito, a realidade o assolava e ele se sentia</p><p>desesperado. A cada ano que passava, mais perto ele</p><p>estava de se tornar um piloto quase. Quase fez uma pole.</p><p>Quase venceu uma corrida. Quase ganhou um</p><p>campeonato.</p><p>Sabia de seu esforço e sabia de seu talento, mas</p><p>questionava se os dois vinham sendo o suficiente. Talvez,</p><p>ele tivesse que se esforçar mais e treinar mais. Ou,</p><p>talvez, fosse melhor ele se tornar um escudeiro para</p><p>William Davies.</p><p>Só de cogitar a ideia, Gabriel sentiu arrepios.</p><p>— Você poderia ter nos vencido — disse, tentando</p><p>tirar seus pensamentos de si. — Sabe disso, não é?</p><p>Nathan balançou a cabeça, com um sorriso</p><p>saudoso no rosto.</p><p>— Essa vida não era para mim. Vocês nasceram</p><p>para estar nas pistas, e eu fico melhor no box.</p><p>Aquilo não era verdade, e os dois sabiam.</p><p>— Por que deixou o hotel? — Nathan perguntou,</p><p>mudando de assunto, como sempre fazia. Gabriel não</p><p>sabia por que pensara que daquela vez seria diferente.</p><p>Mas como explicaria que a voz do namorado de sua</p><p>melhor amiga o irritava além da conta? Como diria aquilo</p><p>sem parecer louco, ciumento e possessivo?</p><p>— Eu não me senti à vontade dividindo o quarto</p><p>com o Matheus — explicou, tentando ser o mais sucinto</p><p>possível.</p><p>Nathan o olhou de soslaio.</p><p>— E tem algum motivo específico para isso?</p><p>— Você está andando muito com o Dom.</p><p>O personal balançou a mão, dispensando o</p><p>comentário.</p><p>— Já basta o Kalil me enchendo com isso, eu não</p><p>preciso de você falando a mesma coisa — arrematou,</p><p>parecendo evasivo. — Mas pare de me enrolar! Por que</p><p>você não se sente à vontade com o Matheus?</p><p>Gabriel mordeu a bochecha, pensando em como</p><p>sairia daquela situação, mas duvidando de que fosse</p><p>possível. Olhou para os lados, como se a qualquer</p><p>momento Matheus, ou pior, Marie pudesse pular do meio</p><p>dos cactos e gritar com ele.</p><p>— A voz dele me irrita — contou ao perceber que</p><p>não tinha ninguém além dos dois ali. Então, olhou para a</p><p>estrada de terra. — Eu não sei por que, eu só... não</p><p>aguento mais ouvir a voz dele.</p><p>— Está com ciúmes? — perguntou Nathan.</p><p>Gabriel retorceu o rosto, brigando internamente por</p><p>aquela ser a impressão que estava passando.</p><p>— É claro que não! Eu só não estou em uma boa</p><p>semana, e ele fala demais.</p><p>— Stacy fala demais. Ela não calou a boca desde</p><p>Mônaco. Mas você não fugiu dela.</p><p>Gabriel o encarou.</p><p>— Por que acha que eu passei meia hora no</p><p>banheiro?</p><p>Nathan o encarou de volta, como um pai.</p><p>— Porque estava fugindo da Marie.</p><p>O piloto da McLaren levou a mão ao peito, como</p><p>uma maneira de demonstrar sua indignação.</p><p>— E por que eu fugiria da minha melhor amiga?</p><p>Nathan deu de ombros.</p><p>— Eu não sei, diga-me você.</p><p>Gabriel queria responder, mas era um péssimo</p><p>mentiroso.</p><p>Capítulo 10</p><p>Marie, 13 anos.</p><p>Gabriel, 14 anos.</p><p>Faenza, Itália.</p><p>As férias de verão haviam chegado, e ao contrário</p><p>da maioria das crianças, essa era a época do ano que</p><p>Gabriel mais odiava. Férias significavam que ele ficaria</p><p>longe de sua mãe ou longe de seu pai. E mesmo que</p><p>quatro anos tivessem se passado, Gabriel ainda não</p><p>havia se acostumado com o fato de seus pais estarem</p><p>separados.</p><p>Gabriel foi para a casa de seu pai, em Faenza, na</p><p>Itália. Ele passaria um mês ali e depois iria para a casa</p><p>de Kalil, pois eles iriam para a Disney. Gabriel já estivera</p><p>lá antes, mas nunca com seus amigos. E estava animado.</p><p>Todos iam. Kalil, Nathan, Marie, Theo, Edgar e até mesmo</p><p>Dom.</p><p>Mesmo que o campeonato de Fórmula 1 também</p><p>estivesse em período de férias, seu pai estava</p><p>trabalhando. Adam sempre havia trabalhado muito, e</p><p>Gabriel sempre soubera disso, mas depois do divórcio, o</p><p>menino tinha a sensação de que seu pai havia</p><p>aumentado a quantidade de tempo que passava no</p><p>escritório. Não que se importasse muito, já que Adam o</p><p>levava para a sede com ele sempre que Gabriel queria.</p><p>Adam já havia levado o filho ao trabalho durante</p><p>aquelas férias, mas mesmo amando tudo aquilo, Gabriel</p><p>se sentia entediado depois de algum tempo. Ele não</p><p>podia ficar com os engenheiros na oficina e era obrigado</p><p>a ouvir o pai falando sobre assuntos burocráticos. Foi</p><p>quando percebeu que o ofício de chefe de equipe era</p><p>bem chato. Ele preferia só pilotar.</p><p>Era uma segunda-feira quando Gabriel ficou</p><p>sozinho em casa com a empregada. Ela não falava muito,</p><p>e o menino não se incomodava, já que a língua da</p><p>mulher era a italiana e ele ainda não entendia muito</p><p>bem, pois tinha começado a ter aulas havia pouco</p><p>tempo. Gabriel precisava se esforçar muito para</p><p>entender e acabava se cansando.</p><p>Preferia ficar do lado de fora, jogando bola, ou</p><p>dentro de casa, assistindo a algum filme. Mas não sentia</p><p>vontade de fazer nenhuma das duas coisas naquele dia.</p><p>Por isso, aproveitou que estava praticamente sozinho</p><p>para se aventurar pela casa e fuçar nos pertences de seu</p><p>pai.</p><p>Sua mãe sempre dizia que a curiosidade de Gabriel</p><p>ainda seria a causa de sua morte, mas ele nunca levava</p><p>a sério. E quando pensava que poderia realmente</p><p>acontecer, imaginava-se tendo contato com mafiosos,</p><p>até que um dia eles apontariam uma arma para a sua</p><p>cabeça e diriam:</p><p>— Você sabe demais. É um perigo para nós.</p><p>Então, atirariam. Mas já seria tarde demais, porque</p><p>Gabriel já teria ligado para a polícia. E mesmo que</p><p>estivesse morto, ele seria lembrado por ter entregado a</p><p>maior gangue mafiosa do mundo.</p><p>Só que a chance</p><p>de aquilo acontecer era mínima, o</p><p>que o fez chegar à conclusão de que a sua curiosidade</p><p>nunca o mataria. Mas... naquele dia... ela o matou. Pelo</p><p>menos uma parte dele.</p><p>Gabriel estava mexendo nas coisas da sala, mas</p><p>elas não pareciam nem um pouco interessantes. Ele</p><p>decidiu, então, que no quarto do pai teriam coisas mais</p><p>legais. Chegando ao cômodo, encontrou muitas coisas.</p><p>Roupas velhas que não deveriam sequer existir, uma</p><p>gaveta cheia de bugigangas que não pareciam nem um</p><p>pouco úteis, um armário com várias caixas de sapatos</p><p>vazias...</p><p>Gabriel percebeu que o pai era um acumulador</p><p>nato.</p><p>Quando chegou à última caixa de sapato, uma</p><p>antiga e meio acabada, ele encontrou milhares de cartas</p><p>dentro. Sabia que não deveria ler nenhuma delas. Era</p><p>algo muito pessoal e com certeza não era da conta dele.</p><p>Mas a sua curiosidade não o deixou colocar aquela caixa</p><p>de volta em seu lugar.</p><p>Pegou a que estava no topo. Não parecia muito</p><p>antiga. O envelope continha o nome de Adam e seu</p><p>endereço. Mas Gabriel estranhou, já que aquele endereço</p><p>era na França, e não se lembrava de seu pai ter morado</p><p>na França em algum momento depois que ele nascera.</p><p>Viveram em muitos lugares antes de seus pais se</p><p>divorciarem. O trabalho de Adam exigira isso. Viveram na</p><p>Inglaterra durante grande parte da primeira infância de</p><p>Gabriel, porque era mais perto da família de seu pai.</p><p>Quando ele completou sete anos, sua família se mudou</p><p>para Mônaco, onde Gabriel começou a andar de kart com</p><p>Kalil e Nathan. Depois daquilo, seu pai conseguiu a vaga</p><p>de chefe de equipe da AlphaTauri, que na época ainda</p><p>era Toro Rosso, e mudou-se para a Itália. Gabriel</p><p>estranhou quando ele e a mãe não foram com Adam.</p><p>Mas mesmo com a pouca maturidade que tinha aos 14</p><p>anos, ele já entendia que naquele tempo seus pais já</p><p>deviam estar separados. Naquele período, Gabriel e Vera</p><p>passaram seu tempo no Brasil, onde a família da mãe</p><p>morava.</p><p>Depois do Brasil, sua mãe achou que seria melhor</p><p>para ele morar na Europa, onde aconteciam os maiores</p><p>campeonatos de automobilismo. Foi quando eles</p><p>voltaram para a Inglaterra. Vera e Gabriel moravam</p><p>próximos à avó paterna do menino. Mesmo com o fim do</p><p>casamento de Vera e Adam, sua avó amava sua mãe, e</p><p>elas sempre saíam juntas. E era muito mais fácil para</p><p>Gabriel ir visitar seus amigos e seu pai.</p><p>Mas não, eles nunca haviam vivido na França.</p><p>Então, por que aquela carta, tendo seu pai como</p><p>destinatário, estava endereçada para lá?</p><p>Gabriel abriu a carta, mesmo seu coração avisando</p><p>que ele iria se arrepender.</p><p>“Paris, França.</p><p>Adam, meu amor,</p><p>Quando o conheci naquele bar tantos anos atrás,</p><p>eu não achei que fosse o meu verdadeiro amor. Olhei</p><p>para você e percebi que era o homem mais lindo que eu</p><p>já tinha visto. Mesmo parecendo cansado, você irradiava</p><p>beleza e charme. Acho que eu nunca senti tanta atração</p><p>por um homem antes daquele dia. E eu te amei pouco</p><p>tempo depois, quando você pediu que eu levasse whisky</p><p>para você. A maneira como falou comigo foi tão doce e</p><p>gentil. É claro que eu posso estar sendo ridícula e só</p><p>tenha visto daquele jeito porque estava atraída por você,</p><p>mas eu prefiro pensar que é verdade.</p><p>Precisei insistir para te ter, mas cada momento que</p><p>investi em você valeu a pena. Todos os dias, minutos e</p><p>segundos que passamos juntos valeram a pena. Eu te</p><p>amei mais do que amei qualquer outra pessoa no mundo,</p><p>acho até que te amei mais do que amei a mim mesma.</p><p>Mas agora, você se foi, e é como se o meu amor</p><p>pela vida tivesse ido embora também. Eu não sei o que</p><p>fazer, Adam, estou tão perdida e sem esperança. Nada</p><p>do que você deixou para trás faz sentido para mim.</p><p>Nenhum dos presentes, nenhuma das pessoas.</p><p>O que eu devo fazer, meu amor?</p><p>Não importa o quanto eu tente mentir sobre você,</p><p>quantas vezes eu tente mudar o seu nome, o seu</p><p>trabalho ou a sua origem, nada disso muda o fato de que</p><p>eu te amo. E eu sei que você também me ama. Tem que</p><p>amar!</p><p>Por favor, Adam, largue-a e volte para mim, eu</p><p>preciso de você!</p><p>Para sempre, sua Louise.”</p><p>Primeiro, o sentimento de alívio tomou conta de</p><p>Gabriel. Ele estava certo, nunca haviam vivido na França.</p><p>Mas levou apenas alguns segundos para ele</p><p>entender que estava certo somente sobre ele mesmo e</p><p>sua mãe, pois, ao que parecia pela carta em suas mãos,</p><p>seu pai havia, sim, vivido naquele país.</p><p>Seus olhos voltaram para o início da carta, e ele a</p><p>releu várias e várias vezes, sem querer acreditar no que</p><p>estava escrito naquele papel. Quem era Louise? E por</p><p>que ela havia chamado seu pai de amor?</p><p>As perguntas rodavam em sua mente, enquanto a</p><p>confusão gritava em seu ouvido. Gabriel olhou para a</p><p>caixa novamente, onde outras cartas estavam dispostas.</p><p>Pegou mais uma. Estava endereçada para o mesmo</p><p>lugar, mas a data era diferente, três anos antes da</p><p>primeira que havia lido.</p><p>“Adam,</p><p>Novamente, eu precisei me despedir de você. É tão</p><p>duro olhar para as suas costas enquanto se afasta e</p><p>saber que está voltando para ela. Saber que terei que</p><p>esperar tanto tempo até finalmente vê-lo outra vez.</p><p>Mas eu não me arrependo dos momentos que</p><p>passamos juntos. Em nenhum desses anos eu me</p><p>arrependi. Todos os beijos, abraços e sentimentos, todos</p><p>são reais, e não importa que você não seja apenas meu</p><p>no momento, eu sei que logo seremos uma família. Sua</p><p>única família.</p><p>Você é meu, Adam, da mesma maneira que eu sou</p><p>sua.</p><p>Eu te amo, meu amor. Por favor, não demore para</p><p>voltar.</p><p>Sua Louise.”</p><p>O estômago de Gabriel se revirou. Ele queria</p><p>vomitar todos os salgadinhos que tinha comido mais</p><p>cedo, mas se conteve.</p><p>O menino não conseguia acreditar no que tinha</p><p>lido. Aquelas cartas eram para o seu pai, e pelas datas</p><p>que foram escritas, a “ela” a quem a tal Louise se referia</p><p>só podia ser sua mãe. Ele não foi mais a fundo naquela</p><p>caixa, não queria ler mais declarações de amor que o pai</p><p>havia recebido daquela mulher.</p><p>Estava com raiva. Seu coração borbulhava de ódio</p><p>e sua mente se enchia de imagens de seu querido pai</p><p>com outra mulher que não era sua adorável mãe. Sua</p><p>mãe, que ainda estava sofrendo pelo divórcio, que fazia</p><p>de tudo para que seu pai não se sentisse excluído de sua</p><p>criação. E enquanto ela o levava para o colégio, para os</p><p>cursos e para o kart, seu pai se envolvia com outra</p><p>mulher.</p><p>O nojo penetrou o cérebro do menino. Ele colocou a</p><p>caixa onde a havia encontrado e saiu do quarto do pai,</p><p>louco para ver a mãe e tentar entender o que estava</p><p>acontecendo. Tentou respirar e se acalmar, mas sempre</p><p>que fechava os olhos, aquelas palavras se repetiam em</p><p>sua mente.</p><p>Conseguiu caminhar até o telefone fixo, que ficava</p><p>na sala. Queria ligar para a mãe e pedir para ir embora</p><p>daquele lugar o mais rápido possível. Mas quando</p><p>colocou as mãos no telefone, algo o lembrou dos filmes</p><p>que costumava assistir com sua mãe na Sessão da Tarde</p><p>quando passavam os verões no Brasil.</p><p>Nas comédias românticas que assistia, sempre</p><p>acontecia alguma coisa com o mocinho, onde contavam</p><p>mentiras sobre ele e a mocinha acreditava. A mocinha</p><p>não conversava com o mocinho sobre o que havia</p><p>acontecido e ia embora achando que ele não a amava.</p><p>Será que era aquilo que havia acontecido com seu</p><p>pai? Será que aquelas cartas eram apenas mentiras e</p><p>que ele ainda amava sua mãe?</p><p>Gabriel não queria ser como as mocinhas tolas dos</p><p>filmes. Ele não queria se deixar enganar. Por isso, decidiu</p><p>que ficaria até o pai chegar e poder explicar aquelas</p><p>cartas. E resolveu que não iria nem mesmo falar com a</p><p>mãe, porque ela também poderia ter sido enganada.</p><p>Sentou-se no sofá e tentou não deixar suas</p><p>emoções tomarem conta de si. Precisava ser racional</p><p>naquele momento. Seu pai era um bom homem. Ele</p><p>nunca tratava as pessoas mal, sempre dava dinheiro aos</p><p>mendigos na rua, levava-o para passear, fazia-o rir e</p><p>amava-o. Adam nunca trairia sua esposa, a mãe de seu</p><p>filho. Aquele não era seu pai.</p><p>Mas... Gabriel lembrou-se de seu avô. Seu avô,</p><p>Stuart Sinclair, era um bom homem com os outros e era</p><p>um ótimo avô, o que não o impediu de trair sua avó</p><p>repetidas vezes. Nunca haviam contado</p><p>ao menino</p><p>diretamente, só que Gabriel escutava quando sua mãe</p><p>conversava com a avó e com as irmãs. Não era nenhum</p><p>segredo quão mulherengo seu avô podia ser.</p><p>E seu pai, Adam, poderia ser do mesmo jeito.</p><p>Não! Não pense assim!, Gabriel gritou para si</p><p>mesmo.</p><p>Ele iria esperar até o pai chegar.</p><p>A noite chegou e, antes do jantar, Adam entrou</p><p>pela porta da frente, com sua maleta na mão e um rosto</p><p>cansado. Gabriel observou o pai deixar as chaves em</p><p>cima do aparador e largar a maleta em uma das</p><p>poltronas.</p><p>O menino estava escondido no corredor que dava</p><p>para a sala, observando o pai e temendo a hora de</p><p>enfrentá-lo. Ele se sentiu mal pelo que estava prestes a</p><p>fazer. Adam parecia tão cansado e sobrecarregado. Mas</p><p>Gabriel sentia-se ansioso, e odiava ficar ansioso.</p><p>Andou até o campo de visão do pai e tentou não</p><p>parecer estar com raiva quando disse:</p><p>— Sua benção, pai.</p><p>Sua voz saiu firme, e ele agradeceu ao agente do</p><p>autocontrole que atuava dentro dele naquele momento.</p><p>No instante em que olhou para o filho, Adam não</p><p>pareceu mais tão cansado. Seu semblante relaxou e ele</p><p>até mesmo sorriu. Gabriel percebeu aquilo e pensou:</p><p>“Como um homem que sorri quando vê o filho pode fazer</p><p>algo daquele tipo?”. Seu coração estava acelerado e</p><p>parecia martelar seu peito, ele quase se sentia capaz de</p><p>ouvir as batidas.</p><p>— Deus te abençoe, Gabe! — respondeu Adam,</p><p>indo até o filho e bagunçando seu cabelo. — Como foi</p><p>seu dia?</p><p>Gabriel se virou e observou o pai indo em direção à</p><p>cozinha. Ele o seguiu.</p><p>— Não muito bom — disse, sendo bastante sincero.</p><p>Adam parou no mesmo segundo em que as</p><p>palavras de Gabriel findaram e virou-se para o filho.</p><p>Preocupação marcava sua expressão.</p><p>— O que aconteceu?</p><p>O menino respirou fundo e se preparou para o que</p><p>estava prestes a descobrir. Orava para que fosse apenas</p><p>um engano, para que aquelas cartas não fossem para o</p><p>seu pai, mas sim para outro homem que também se</p><p>chamava Adam.</p><p>Colocou a mão no bolso e retirou dali uma das</p><p>cartas. Gabriel não teve coragem de olhar para o pai</p><p>enquanto fazia isso. Deu mais um passo à frente e</p><p>respirou fundo, afastando qualquer vontade de chorar.</p><p>— Achei isso no seu armário — disse, sua voz</p><p>parecendo estrangulada e sofrida.</p><p>O menino tomou coragem e fitou o rosto do pai.</p><p>Adam estava com os olhos arregalados e parecia triste,</p><p>mas não com raiva. Gabriel só não sabia se era triste</p><p>com ele, por ter mexido nas suas coisas, ou se era triste</p><p>consigo mesmo, por ter feito algo tão baixo.</p><p>— É verdade, pai? — conseguiu perguntar.</p><p>Adam não respondeu, apenas olhou para o filho</p><p>com um semblante sofrido. Aquilo deixou o menino com</p><p>mais raiva. Ele não queria sofrimento! Ele queria a</p><p>verdade!</p><p>— É verdade? — indagou mais alto. Brigou consigo</p><p>mesmo por ter gritado com o pai, mas estava</p><p>desesperado, pois tudo em sua vida parecia prestes a</p><p>desmoronar. E se aquilo fosse verdade?</p><p>Não, não podia pensar naquilo. Ainda não.</p><p>Adam suspirou e olhou para baixo ao responder:</p><p>— Eu sinto muito, Gabe.</p><p>Gabriel deu um passo para trás instintivamente,</p><p>afastando-se daquele homem.</p><p>— Foi algo que nunca deveria ter acontecido e uma</p><p>decisão estúpida — continuou Adam, aproximando-se do</p><p>filho e estendendo a mão.</p><p>Gabriel se desviou de seu toque.</p><p>— Eu não quero que encoste em mim — disse, não</p><p>conseguindo reconhecer a própria voz. Parecia mais firme</p><p>e grossa. Ele não falava daquele jeito.</p><p>Suas palavras atingiram o cérebro do pai</p><p>fortemente. Adam parou, apenas olhando para o filho.</p><p>— Eu me arrependo, Gabe. Não existe um só dia</p><p>em que eu não me arrependa do que fiz.</p><p>Gabriel balançou a cabeça.</p><p>— É mentira! — gritou. — Você se afastou da</p><p>gente! Você se mudou para outro país e nem me avisou!</p><p>— Sentiu as lágrimas caindo, mas não se importou. Que</p><p>aquele homem visse o que havia feito com ele. Com eles.</p><p>— Eu passei dias te esperando na Ilha e você não foi, pai.</p><p>Depois daquilo, você não esteve em nenhuma das</p><p>minhas corridas. Você nos esqueceu.</p><p>— Não, Gabe, não foi isso! Eu estava trabalhando,</p><p>não pude ir. Mas eu queria, filho! Só Deus sabe o quanto</p><p>eu queria! — falou Adam, parecendo desesperado.</p><p>Gabriel não respondeu. Correu para o seu quarto e</p><p>trancou a porta. Ouviu Adam bater e pedir para ele abrir,</p><p>mas fingiu não ouvir.</p><p>Gabriel andou de um lado para o outro, tentando</p><p>reunir seus pensamentos e conectá-los em sua mente,</p><p>mas não conseguia. Aquilo não fazia sentido. Seu pai</p><p>havia traído sua mãe, por isso os dois se separaram. Não</p><p>tinha sido porque fizera algo errado, mas sim porque</p><p>Adam havia traído. Assim como seu avô. Eles haviam</p><p>traído suas esposas.</p><p>Tentava se lembrar das vezes em que os pais</p><p>estiveram juntos no mesmo lugar. Como não havia</p><p>percebido antes o estremecimento entre eles? Sua mãe</p><p>nem olhava para Adam; aliás, se pudesse, ela evitava</p><p>dizer algo a ele. E sua avó e seu avô sequer ficavam no</p><p>mesmo ambiente.</p><p>O que aquilo queria dizer?</p><p>Gabriel sabia a resposta.</p><p>Seu coração se apertou e ele se olhou no espelho.</p><p>Todos sempre diziam que ele era igual ao pai. Seu</p><p>cabelo era castanho-escuro e cheio, como o de Adam,</p><p>que já estava com cabelos brancos aparecendo nas</p><p>têmporas. Seus olhos eram azuis e seus cílios eram</p><p>longos, assim como os do pai. Eles realmente eram</p><p>iguais, apenas com idades diferentes.</p><p>Foi naquele momento que Gabriel se permitiu</p><p>aceitar que não havia como escapar. Nenhum homem em</p><p>sua vida havia escapado, por que ele conseguiria? Mas</p><p>iria se prevenir.</p><p>Gabriel nunca trairia. E para isso acontecer, ele</p><p>nunca namoraria, muito menos se casaria.</p><p>Parecia um futuro triste e bem solitário, mas</p><p>Gabriel não seria a causa do sofrimento de uma mulher.</p><p>Nunca!</p><p>Capítulo 11</p><p>Marie, 13 anos.</p><p>Gabriel, 14 anos.</p><p>Nice, França – 29 km de Mônaco.</p><p>Quando crianças, o mundo é lindo, com luzes,</p><p>brilhos e glitters. Tudo sempre termina bem depois de um</p><p>dia inteiro brincando de boneca ou pega-pega com os</p><p>primos, mesmo que eles sejam três brutamontes sem</p><p>educação que estão sempre preparados para jogar a</p><p>menina indefesa para fora do caminho como se</p><p>estivessem jogando futebol americano.</p><p>Não que Marie se importasse. A menina havia</p><p>aprendido a lidar com eles, e quando Theo estava por</p><p>perto, ela o usava como escudo humano. Funcionava</p><p>bem, já que os três pareciam mais do que dispostos a</p><p>maltratar o caçula quando se esqueciam de Marie.</p><p>Mas, então, tudo mudou.</p><p>Quando alcançou certa idade, Marie se preocupou</p><p>com o fato de que talvez sua mãe a odiasse. Não, ela não</p><p>pensou que o sentimento de Isabela chegasse ao ódio,</p><p>mas que talvez fosse algo parecido. Porque parecia que</p><p>tudo o que Marie fazia era motivo para sua mãe brigar</p><p>com ela. Isabela nunca estava satisfeita com as decisões</p><p>da filha, que na maior parte das vezes se tratava sobre a</p><p>roupa que Marie iria usar no dia.</p><p>A menina passou a ficar cada vez mais na casa da</p><p>tia Jolie, com quem tinha as melhores conversas.</p><p>Finalmente, sua avó e Jolie haviam permitido que ela</p><p>lesse alguns romances, mas só os que tinham</p><p>classificação para a sua idade e que elas já tivessem lido</p><p>antes. Eram histórias lindas e tão irreais! Marie amava se</p><p>sentar para ler a todo instante. Sentia-se em outro</p><p>mundo, e os personagens se transformavam em seus</p><p>melhores amigos durante o tempo da leitura.</p><p>Ela amava ver como o mocinho e a mocinha se</p><p>apaixonavam, e sua parte favorita era quando eles</p><p>percebiam que estavam apaixonados um pelo outro.</p><p>Marie achava incrível o modo como seus sentimentos</p><p>mudavam e davam lugar à paixão. E passou a sonhar</p><p>com o dia em que se apaixonaria. Algumas de suas</p><p>amigas já haviam começado a sentir algo pelos meninos</p><p>mais velhos do colégio, mas nenhum deles parecia</p><p>interessante o suficiente para ela. Marie pensava que o</p><p>primeiro amor de uma garota deveria ser algo importante</p><p>e inesquecível.</p><p>Anos se passariam e ela ainda se lembraria do</p><p>primeiro menino que havia feito o seu coração palpitar.</p><p>Marie se lembraria de olhar para ele e de se sentir</p><p>nervosa sempre que o visse fazer o mesmo. Quando o</p><p>menino viesse conversar com ela, sentiria a mão</p><p>suar e</p><p>borboletas voarem em seu estômago. Seria...</p><p>extraordinário!</p><p>Por isso, Marie não tinha pressa que acontecesse.</p><p>Se tivesse que esperar alguns anos até que o</p><p>inesquecível se tornasse real, ela esperaria. Era paciente</p><p>e tinha esperanças.</p><p>E nem tinha muito tempo para romances naquele</p><p>momento, pois estava prestes a ir para o aeroporto para</p><p>buscar seu melhor amigo, a quem ela não via havia</p><p>meses. Marie não tinha tido tempo de ir às corridas com</p><p>o primo, já que a escola estava ocupando toda a sua</p><p>vida, e sempre que ela e Gabriel tentavam se ver, algo</p><p>acontecia.</p><p>Seis meses desde que o vira pela última vez,</p><p>quando foi passar as férias na Ilha. Porém, desde então,</p><p>apenas ligações telefônicas os conectavam. Marie se</p><p>sentia mais do que animada para ir para o aeroporto. No</p><p>dia seguinte, estariam todos indo para a Disney. E seria</p><p>incrível!</p><p>Marie estava no carro com Kalil, que relaxava no</p><p>banco traseiro enquanto escutava uma música altíssima</p><p>em seu IPod, fazendo os ouvidos da prima doerem, e</p><p>nem era ela quem estava com os fones. Se fosse outro</p><p>dia qualquer, Marie brigaria com ele, mas não naquele.</p><p>Aquele dia seria perfeito. Depois de pegarem Gabriel no</p><p>aeroporto, iriam todos almoçar no restaurante do avô</p><p>dela, o lugar favorito de Gabe em Mônaco. Então, iriam</p><p>para a sorveteria que ficava ao lado, que era o segundo</p><p>lugar favorito de Gabe em Mônaco.</p><p>Os pés de Marie batiam animados no assoalho do</p><p>carro, e ela ficava tentando imaginar o quanto Gabriel</p><p>havia crescido naqueles últimos meses. Ele dizia que</p><p>havia sido muito, mas Marie não conseguia acreditar,</p><p>porque não havia crescido absolutamente nada, e ele</p><p>não poderia estar tão mais alto do que ela.</p><p>— Marie, você vai acabar pisando no meu pé! —</p><p>Kalil gritou, colocando a mão sobre uma perna da prima.</p><p>Ela bateu na mão do primo, que a afastou gritando</p><p>um “ai” esganiçado. E continuou mexendo a perna, já</p><p>que era a única maneira que conhecia para tentar</p><p>diminuir sua ansiedade.</p><p>— Já estamos chegando? — perguntou, inclinando-</p><p>se para a frente e colocando a cabeça entre sua tia e seu</p><p>tio.</p><p>Jolie olhou para ela e sorriu.</p><p>— Marie, relaxa! O avião do Gabe sequer pousou —</p><p>disse calmamente, mesmo que a menina tenha feito a</p><p>mesma pergunta mais de dez vezes durante os cinco</p><p>minutos passados.</p><p>Marie suspirou, triste, e se recostou no banco do</p><p>carro. Cruzou os braços sobre o peito, e seus pés</p><p>continuaram batucando o assoalho.</p><p>— Você está com algum problema? — Kalil</p><p>perguntou em voz baixa, tirando os fones do ouvido.</p><p>Ela olhou para ele com raiva.</p><p>— O quê?</p><p>— Você. Está. Com. Algum. Problema? — repetiu</p><p>ele.</p><p>— Eu entendi! Mas o que você quer dizer com isso?</p><p>Kalil deu de ombros.</p><p>— Parece estar. Nós só vamos ver o Gabe, não é</p><p>como se fosse a primeira vez que o encontramos.</p><p>— É fácil para você dizer isso, você o viu no mês</p><p>passado. Eu não o vejo há muito tempo.</p><p>— Você deveria ter ido com a gente — disse Kalil,</p><p>animado. — Deveria ter visto a hora que eu ultrapassei o</p><p>Gabriel. Foi tão legal!</p><p>Marie revirou os olhos. Já havia perdido a conta de</p><p>quantas vezes Kalil contara aquela mesma história. E</p><p>também já havia aceitado o seu entendimento sobre</p><p>automobilismo: era um E.T. dentro da própria família e</p><p>odiava carros correndo em círculos. Era idiota e perigoso.</p><p>— Não dava para eu viajar com vocês, sabe disso</p><p>— respondeu ao primo, com raiva.</p><p>— Mesmo assim, não precisa ficar tão animada, o</p><p>Gabe continua a mesma pessoa que sempre foi — falou</p><p>Kalil, voltando a colocar os fones nos ouvidos.</p><p>Marie sorriu. Ela realmente esperava que Gabriel</p><p>fosse a mesma pessoa. Tanta coisa havia acontecido</p><p>desde que se viram pela última vez, e ela queria poder</p><p>contar tudo ao amigo. Além de sentir saudades de suas</p><p>piadas e palhaçadas.</p><p>Era engraçado como havia passado a perceber</p><p>aquilo. Antes, Gabriel era apenas o seu amigo que</p><p>aparecia esporadicamente e com quem ela se sentia</p><p>segura para contar o que estava havendo quando</p><p>chorava. Mas nos últimos meses, Marie começara a</p><p>perceber o quanto ele fazia falta quando não estava por</p><p>perto. As ligações não pareciam mais o suficiente. E</p><p>quanto mais se aproximavam do aeroporto, mais ansiosa</p><p>e feliz ela ficava.</p><p>Quando Ali finalmente parou o carro no</p><p>estacionamento e disse que eles podiam descer, Marie</p><p>correu para fora o mais rápido que pôde e ficou</p><p>apressando todo mundo. Dias antes, já havia perguntado</p><p>ao tio em que portão Gabriel iria desembarcar e gravou o</p><p>número, então pesquisou no computador que dividia com</p><p>Theo onde ficava o portão, para não correr o risco de se</p><p>perder, mesmo sabendo que os tios estariam com ela.</p><p>Assim que pisou no aeroporto, Marie começou a</p><p>guiar o caminho para eles, que a seguiram sem</p><p>questionar. Podia jurar ter ouvido Ali e Jolie rirem, mas</p><p>ignorou. E Kalil reclamou que ela estava indo muito</p><p>rápido, mas não desacelerou.</p><p>— Você quer que ele fique esperando? Sozinho? —</p><p>indagou enquanto andava a passos largos rumo ao</p><p>portão.</p><p>— Eu já disse, ele ainda não desembarcou! — Kalil</p><p>exclamou.</p><p>— Você não sabe disso. O avião pode ter</p><p>adiantado.</p><p>— Só porque você quer... — murmurou o primo.</p><p>Marie parou de andar e virou-se para Kalil, pronta</p><p>para bater nele, mas sua tia foi mais rápida e a parou</p><p>antes que se aproximasse o suficiente.</p><p>— Parem, vocês dois! — disse, segurando o ombro</p><p>de Marie. — Kalil, pare de implicar com a sua prima —</p><p>arrematou, olhando para o filho.</p><p>Jolie virou a sobrinha para a frente novamente e a</p><p>forçou a andar. Quando Marie espiou por cima do ombro,</p><p>viu Kalil mostrando a língua para ela e fez o mesmo.</p><p>— Vocês já estão velhos demais para essas coisas,</p><p>não? — Jolie indagou.</p><p>Marie voltou-se para a frente.</p><p>— Foi ele que começou — resmungou.</p><p>Jolie balançou a cabeça.</p><p>— Marie, precisa entender que os meninos, apesar</p><p>de mais velhos, serão sempre mais infantis que você —</p><p>disse a mulher, acariciando seu ombro. — Isso quer dizer</p><p>que você deve ignorar quando agirem com implicâncias</p><p>bobas.</p><p>A menina franziu o cenho.</p><p>— Mesmo quando a implicância deles for maldosa?</p><p>— Eles têm sido maldosos com você? — Jolie</p><p>perguntou, com a preocupação gravada na voz.</p><p>— Não! — Marie respondeu com convicção. — Eles</p><p>só são chatos. Mas estou perguntando sobre os meninos</p><p>em geral.</p><p>Jolie soltou um suspiro, aliviada.</p><p>— Que bom! — disse. — Marie, quando um menino</p><p>for maldoso com você, desrespeitá-la ou machucá-la, não</p><p>tem a ver com infantilidade, ele é um mau-caráter. Mas</p><p>pode acontecer de um menino estar interessado em você</p><p>e não saber demonstrar, então ele partirá para</p><p>implicâncias idiotas, como cutucões chatos, mexer no</p><p>seu cabelo ou fazer idiotices para chamar sua atenção.</p><p>Marie tentou se lembrar de algum menino que já</p><p>tivesse feito alguma daquelas coisas com ela, mas não</p><p>conseguiu pensar em nenhum.</p><p>— E se nenhum menino fizer isso comigo, quer</p><p>dizer que ninguém gosta de mim?</p><p>— É claro que não! Cada um age de maneira</p><p>diferente com esse tipo de sentimento. Alguns a tratarão</p><p>bem, enquanto outros não falarão nada.</p><p>Marie guardou todas aquelas informações para</p><p>poder processá-las e entendê-las quando fosse para a</p><p>cama naquela noite. Então, voltou sua atenção para os</p><p>números dos portões, que estavam cada vez maiores, e</p><p>percebeu que faltavam apenas dois até o de Gabriel.</p><p>Passou pelo primeiro portão, e quando o segundo se foi,</p><p>ela correu em direção ao portão seguinte, que já estava</p><p>aberto. Mais tarde, ela iria jogar aquilo na cara de Kalil.</p><p>Várias pessoas saíam daquele portão. Homens e</p><p>mulheres de todos os tipos. Mas foi em um homem de</p><p>terno com um broche que ela focou. Ele caminhava para</p><p>fora do portão, e ao seu lado estava um menino de</p><p>cabelo castanho-escuro e olhos azuis. Os dois riam de</p><p>algo que, Marie suspeitava, Gabriel havia dito.</p><p>Marie sorriu mais do que havia sorrido em qualquer</p><p>momento daquele dia, então gritou o nome do amigo,</p><p>chamando a atenção dele para si, e correu até ele.</p><p>Os dois se encontraram no meio do caminho, e</p><p>Marie iria abraçá-lo, estava prestes a fazer isso, mas seu</p><p>corpo hesitou e ela parou</p><p>para Gabriel como importava para outros meninos. Doía,</p><p>mas poderia ser a verdade.</p><p>Marie levantou-se do chão, foi até a pia e jogou</p><p>água no rosto, torcendo para não ficar com os olhos</p><p>inchados quando saísse e se encontrasse com Gabriel.</p><p>Saiu do banheiro, com sua bolsa no ombro, e</p><p>andou até o terraço novamente. Todos os seus colegas</p><p>estavam ali, mas não se importaram com a sua</p><p>presença. Marie não era alguém que fazia a diferença no</p><p>meio deles. Ela sempre preferia ficar sentada sozinha</p><p>com um livro na mão durante os intervalos a se sentar</p><p>perto deles. Suspeitava que só a incluíam nas listas das</p><p>festas por causa de seu primo e de seu tio. Era uma das</p><p>vantagens de ter um tio tricampeão mundial de Fórmula</p><p>1.</p><p>Do outro lado da piscina, agora sozinho, Gabriel</p><p>ergueu a cabeça. Assim que a viu, um sorriso nasceu em</p><p>seus lábios. O sorriso mais lindo que Marie conhecia.</p><p>Quando ele sorria de verdade, daquele jeito, seus olhos</p><p>se fechavam e as covinhas em suas bochechas</p><p>apareciam. O coração de Marie sempre errava uma</p><p>batida nesses momentos.</p><p>Gabriel se levantou e começou a caminhar até ela.</p><p>Marie se forçou a sorrir, mas quanto mais perto ele</p><p>chegava, mais ela sabia que não o estava enganando. O</p><p>sorriso do amigo foi desaparecendo aos poucos, e seus</p><p>olhos a observaram com apreensão.</p><p>— O que aconteceu? — perguntou Gabriel,</p><p>colocando uma mão no braço dela e a afastando do meio</p><p>de todos. O tom de sua voz transbordava preocupação, e</p><p>Marie se sentiu mal por 1hama-lo assim.</p><p>Ela balançou a cabeça.</p><p>— Nada. Só bati a canela no sofá. Doeu muito, eu</p><p>comecei a chorar.</p><p>Gabriel ergueu as sobrancelhas, sem acreditar</p><p>nela. Os olhos dele foram até as canelas de Marie, e</p><p>quando percebeu que não estavam nem ao menos</p><p>vermelhas, ele a olhou de novo.</p><p>— Me conte a verdade, Mar.</p><p>Marie balançou a cabeça mais uma vez.</p><p>— Estou cansada. Acho que vou para casa.</p><p>— Eu vou com você. Só tenho que pegar meu</p><p>celular na mesa.</p><p>Gabriel começou a caminhar, mas Marie colocou</p><p>uma mão no braço dele.</p><p>— Não precisa. Você parece estar se divertindo,</p><p>pode ir embora mais tarde.</p><p>Gabriel a olhou como se ela estivesse louca.</p><p>— Cheguei aqui com você e vou embora com você.</p><p>Eu não vou te deixar andando sozinha na rua.</p><p>— Eu sempre ando sozinha, Sol — Marie disse</p><p>sorrindo, para tentar tranquilizá-lo. — Não se preocupe.</p><p>Ele não devolveu o sorriso, só a olhou sério, com os</p><p>olhos azuis sem nenhum brilho.</p><p>— Eu disse que só vou pegar meu celular e vou</p><p>com você, Marie. Espere aqui, por favor! — Gabriel falou</p><p>a última frase como se temesse que ela fosse embora</p><p>sem ele.</p><p>Marie assentiu e o observou se afastar até a mesa.</p><p>Ela precisava aprender a dizer não a ele. Urgentemente.</p><p>Aquilo estava ficando patético.</p><p>Ela viu as meninas olhando para Gabriel enquanto</p><p>ele passava e não conseguiu deixar de rir. Achava</p><p>incrível como ele conseguia ser lindo mesmo quando seu</p><p>cabelo estava encharcado de cloro e vestia uma</p><p>bermuda carimbada com vários Bob Esponja.</p><p>Maldito fosse o dia em que Marie havia reparado na</p><p>beleza de Gabriel. O dia em que tinha reparado no cabelo</p><p>escuro, ondulado e cheio... Nos olhos azuis como o mar e</p><p>nos cílios grossos que os emolduravam... Mas o pior para</p><p>ela havia sido quando o apresentaram à academia; cinco</p><p>meses após aquele dia, Marie havia percebido quão</p><p>perdida estava. Além do charme natural de Gabriel, que</p><p>ela sabia que só aumentaria ao longo dos anos.</p><p>Ele tinha apenas dezesseis e conseguia fazer um</p><p>estrago quando olhava para as meninas. Marie ficava</p><p>imaginando como seria quando ele chegasse aos vinte e</p><p>poucos. Ela não sabia o que aconteceria consigo mesma.</p><p>Gabriel pegou o celular e voltou a caminhar em</p><p>direção à Marie, mas foi interceptado por Stacy no meio</p><p>do caminho. Ela parou na frente dele, impedindo-o de</p><p>seguir em frente, e Marie virou o rosto para o outro lado,</p><p>não querendo ver o que estava prestes a acontecer. Mas</p><p>sua curiosidade venceu e ela se virou a tempo de ver</p><p>Gabriel dizer algo para Stacy e apontar em sua direção. A</p><p>amiga a olhou e sorriu, solidária.</p><p>Ótimo, agora ela era a amiga chata que estava</p><p>acabando com a festa dos dois.</p><p>Será que o dia poderia piorar?</p><p>Stacy beijou a bochecha de Gabriel antes de sair</p><p>de seu caminho.</p><p>— Vamos? — ele perguntou ao se aproximar o</p><p>suficiente de Marie.</p><p>Ela não respondeu, só começou a caminhar para</p><p>dentro do apartamento, em direção ao elevador. Marie</p><p>não falou nada durante o trajeto, nem enquanto eles</p><p>aguardavam o elevador. E esperava que continuasse</p><p>assim lá dentro, mas Gabriel tinha outros planos.</p><p>Assim que entraram no elevador, Gabriel apertou o</p><p>botão do térreo. Marie ficou segurando a alça da bolsa</p><p>como se fosse seu colete salva-vidas. Sentiu os olhos de</p><p>Gabriel sobre ela, mas se recusou a olhar de volta. Sabia</p><p>que, se olhasse, perderia a guerra e mostraria tudo o que</p><p>estava sentindo.</p><p>— Mar, o que aconteceu? — Gabriel perguntou,</p><p>falando devagar, como se estivesse com medo de que</p><p>ela enlouquecesse se ele falasse normalmente.</p><p>Marie olhou para o visor com os andares passando.</p><p>Só faltavam dez até que chegassem ao térreo. Talvez ela</p><p>pudesse ignorá-lo durante esse tempo. Engoliu em seco</p><p>e continuou quieta.</p><p>— Marie?! — Gabriel a chamou em um tom mais</p><p>urgente.</p><p>Ela balançou a cabeça de leve e esperou que ele</p><p>desistisse.</p><p>— Marie, por favor, me fala o que aconteceu.</p><p>— Nada — ela respondeu entredentes.</p><p>Gabriel não insistiu, mas Marie ainda sentia seu</p><p>olhar sobre ela.</p><p>Quando o elevador chegou ao térreo, ela</p><p>praticamente correu para fora. Começou a andar rumo</p><p>ao portão e sequer viu o porteiro o abrindo, só continuou</p><p>andando pela calçada em direção à sua casa. Ela ouviu</p><p>Gabriel a chamando, mas o ignorou, apenas continuou</p><p>andando.</p><p>— Marie?! Para!</p><p>Um puxão em seu braço a fez parar, então, virou-</p><p>se para ele. Marie não ousou olhar nos olhos de Gabriel,</p><p>manteve-se focada em sua camiseta de um tom azul-</p><p>claro. Aquela camiseta ficava tão bem nele. Contrastava</p><p>com seu tom bronzeado pelos dias de praia que eles</p><p>vinham tendo. Era linda.</p><p>Só isso já a deixou com vontade de chorar</p><p>novamente, mas ela se deteve. Chorar, sozinha, em um</p><p>banheiro, era uma coisa. Agora, chorar na frente dele era</p><p>totalmente diferente, ainda mais no meio da rua.</p><p>— Olhe para mim — Gabriel pediu em voz baixa.</p><p>Marie balançou a cabeça.</p><p>— Vamos para casa, por favor.</p><p>— Me diz o que aconteceu lá, Marie. Eu preciso</p><p>bater em alguém? Algum idiota mexeu com você?</p><p>Ela não conseguiu deixar de rir.</p><p>— Não. Não precisa. Só vamos. — Marie tentou</p><p>desvencilhar seu braço da mão dele, mas não conseguiu.</p><p>— Sol, por favor...</p><p>Gabriel não a soltou. Ergueu a outra mão e</p><p>sustentou o queixo de Marie, erguendo seu rosto para</p><p>que o olhasse. Mas ela se forçou a abaixar os olhos, já</p><p>que havia perdido a batalha contra as lágrimas e elas</p><p>cairiam a qualquer momento.</p><p>— Olhe para mim, Mar.</p><p>O desespero na voz do amigo fez Marie ceder,</p><p>então ela ergueu os olhos e encontrou os dele, que</p><p>estavam cheios de preocupação. Mas Marie logo se</p><p>arrependeu, pois, ao olhar para ele, todo o seu</p><p>autocontrole desapareceu e ela começou a chorar.</p><p>— Meu Deus, Mar! Você está chorando?</p><p>— Podemos ir para casa agora? — pediu ela, quase</p><p>implorando a ele para parar com aquilo. Afastou-se do</p><p>menino e cuidou de limpar as lágrimas com força.</p><p>Começou a caminhar, quase correndo, em direção ao seu</p><p>prédio, que ficava a uma quadra do prédio em que Stacy</p><p>morava.</p><p>Gabriel não tentou falar mais nada pelo restante do</p><p>caminho, nem quando eles entraram no elevador. Assim</p><p>que entrou em casa, Marie foi direto para o banho, sem</p><p>esperar para ver se Gabriel iria querer ir primeiro. Ela</p><p>não foi a brilhante anfitriã de sempre, mas sabia que ele</p><p>entenderia.</p><p>Marie tomou seu banho com calma, deixando a</p><p>água quente bater em seu corpo e tentando relaxar,</p><p>enquanto as lágrimas continuaram caindo.</p><p>A imagem de Gabriel e Stacy se beijando não parou</p><p>de passar pela sua mente, e ela sentiu o coração se</p><p>quebrando novamente. Aquilo era horrível! Por que os</p><p>livros e os filmes não a</p><p>antes que o fizesse. Olhou para</p><p>Gabriel, que também havia hesitado, e respirou fundo. O</p><p>coração da menina acelerou quando ela percebeu quão</p><p>alto ele estava, quase dois palmos a mais que Marie. Os</p><p>olhos dele a fitavam, brilhando, mais azuis do que antes.</p><p>O sorriso dele estava enorme e mais lindo do que nunca.</p><p>E o cabelo bagunçado parecia o mesmo, só que</p><p>diferente.</p><p>Foi quando a coisa mais louca aconteceu com</p><p>Marie. Um vento pairou dentro de seu estômago, como</p><p>se algo balançasse dentro dele, e logo esse vento se</p><p>transformou em vários ventos e ela sentiu várias asas</p><p>batendo, causando uma grande comoção em seu interior.</p><p>Seu coração batia acelerado, e as borboletas levantavam</p><p>voo dentro dela com muito entusiasmo. Marie não</p><p>conseguia parar de sorrir, mesmo que sentisse medo do</p><p>que acontecia com ela naquele momento.</p><p>— Oi — disse Gabriel. Sua voz parecia mais grossa</p><p>do que meses antes. — Sentiu saudades?</p><p>Marie pensou que nunca mais deixaria de sentir.</p><p>Capítulo 12</p><p>Dias atuais.</p><p>Jericoacoara, Ceará, Brasil.</p><p>— Onde vocês estavam? — Marie perguntou ao ver</p><p>o primo e seu melhor amigo entrando no hotel.</p><p>Os dois pareciam felizes da vida, e Gabriel nem</p><p>parecia ser o mesmo de antes.</p><p>— Fomos até a Pedra Furada — Nathan respondeu.</p><p>— Sem a gente?! — indagou Kalil, parecendo</p><p>verdadeiramente magoado.</p><p>Gabriel e Nathan olharam um para o outro e depois</p><p>para os amigos, sem parecer sequer culpados por aquilo.</p><p>— É — responderam em uníssono.</p><p>Marie ficou feliz por ver que o amigo estava mais</p><p>feliz do que quando chegaram, mas não poderia dizer</p><p>que não estava magoada por ele ter saído sem chamá-la.</p><p>Quando foi até o quarto dos meninos, ficou decepcionada</p><p>ao ouvir o namorado contar que Gabriel havia saído sem</p><p>chamar ninguém. Ela achava que aquela viagem poderia</p><p>ajudar na relação entre os dois.</p><p>Mesmo após a noite que passaram juntos depois da</p><p>briga com sua mãe, Gabriel se mantivera distante. Marie</p><p>foi a todas as corridas que pôde, mas não parecia</p><p>adiantar. Até que, em Silverstone, depois de ele sair com</p><p>os outros pilotos apenas para evitá-la, Marie desistiu. Ela</p><p>não correria atrás quando era óbvio que ele a estava</p><p>evitando. Mesmo considerando Gabriel a pessoa mais</p><p>especial em sua vida, ela ainda tinha algum amor-próprio</p><p>e sabia que logo ele voltaria.</p><p>Matheus se aproximou dela e passou os braços ao</p><p>redor de sua cintura. Marie fechou os olhos e sorriu ao</p><p>sentir o aroma doce do namorado.</p><p>— Estou louco para ir à Pedra Furada — disse ele,</p><p>então aproximou a boca do ouvido de Marie. — Acho que</p><p>devemos ir. Só nós dois — sussurrou, mas não baixo o</p><p>suficiente para que os outros não pudessem ouvir.</p><p>Gabriel, que estava com os olhos grudados nos</p><p>dois, pigarreou.</p><p>— Infelizmente, isso não é possível — avisou.</p><p>— Por quê? — Marie e Matheus perguntaram,</p><p>virando-se para ele.</p><p>— É, Gabriel, por quê? — questionou Nathan,</p><p>cruzando os braços sobre o peito.</p><p>Marie olhou para o amigo, que parecia subitamente</p><p>sem palavras. As pontas das orelhas de Gabriel ficaram</p><p>vermelhas, então ela soube, naquele momento, que</p><p>qualquer coisa que saísse de sua boca era mentira. Por</p><p>algum motivo, o coração da menina acelerou ao notar</p><p>isso.</p><p>— Porque... Você não viu a placa que dizia que só é</p><p>permitido turistas até às três? — Gabriel fingiu lembrar a</p><p>Nathan, que ergueu as sobrancelhas, mas depois</p><p>concordou com a cabeça.</p><p>— Nós éramos os últimos — disse Nathan,</p><p>ajudando Gabriel a mentir.</p><p>Marie, com raiva pelos dois estarem mentindo,</p><p>estalou a língua e se virou para o namorado, passando os</p><p>braços por seu pescoço.</p><p>— Eu acho que devíamos tentar ir, sim — falou,</p><p>sequer se importando em abaixar a voz. — Vocês</p><p>também querem ir? — perguntou aos outros.</p><p>Stacy e Edgar, que haviam passado os últimos</p><p>minutos calados, apenas encarando um ao outro com um</p><p>olhar raivoso, pareceram se animar. Mavi e Kalil apenas</p><p>olharam de Gabriel para Marie.</p><p>— Vamos! — Mavi disse primeiro, puxando o braço</p><p>de Kalil. — Acho que devíamos ir, vida.</p><p>Kalil ainda estava olhando para a prima com um</p><p>olhar desconfiado, mas ao ouvir a namorada o chamar de</p><p>vida, logo se esqueceu de todos ali e olhou para ela,</p><p>como se Mavi tivesse criado um mundo inteiro.</p><p>— Eu também acho — disse, por fim, com a voz</p><p>melosa.</p><p>Marie revirou os olhos e começou a caminhar para</p><p>fora do hotel, com Matheus ao seu lado, segurando sua</p><p>mão.</p><p>Todos caminharam juntos pelas ruas de areia da</p><p>pequena cidade praiana. Marie ainda estava</p><p>embasbacada com quão lindo era aquele lugar. Parecia</p><p>cenário de filme, com as pessoas vestidas para mais um</p><p>dia de verão. Morar naquele lugar devia ser incrível.</p><p>— Math, eu posso roubar a Marie de você um</p><p>minutinho? — Marie olhou para o lado e viu sua futura</p><p>prima sorrindo para o seu namorado.</p><p>— É claro! — disse Matheus, soltando a mão de</p><p>Marie. — Vou conversar um pouco com o Kalil.</p><p>Ele se afastou e caminhou até o primo de Marie,</p><p>que estava conversando com Stacy e Edgar.</p><p>Mavi entrelaçou seu braço ao de Marie e começou</p><p>a andar mais rápido, querendo se afastar dos amigos.</p><p>Elas já estavam a uma boa distância de seus</p><p>companheiros de viagem quando Mavi voltou a andar</p><p>mais devagar.</p><p>— O que está acontecendo entre você e o meu</p><p>irmão? — perguntou olhando para a frente, como se sua</p><p>pergunta não significasse nada.</p><p>As duas já tinham chegado à entrada da trilha e</p><p>estavam começando a subir. Marie conseguia ouvir as</p><p>vozes dos amigos atrás delas, mas sabia que estavam</p><p>longe demais para ouvir o que diziam.</p><p>— Eu não sei — respondeu, triste. Aquela pergunta</p><p>a corroía por dentro havia meses. — A nossa amizade</p><p>não é mais como antes, mas eu não sei o que aconteceu.</p><p>A amiga assentiu e suspirou.</p><p>— Ele está com ciúmes.</p><p>Marie olhou para trás e viu Gabriel e Nathan ao</p><p>fundo, com raiva por terem que fazer aquele caminho</p><p>novamente com eles. Depois, ela olhou para a amiga e</p><p>riu.</p><p>— Até parece!</p><p>— Estou te dizendo! — insistiu Mavi. — Ele está se</p><p>corroendo de ciúmes, você sabe disso.</p><p>Marie parou de sorrir no mesmo instante. Sim, ela</p><p>sabia, mas preferia continuar ignorando, porque</p><p>reconhecer aquilo a faria se lembrar de sentimentos e</p><p>pensamentos que escondera havia muito tempo.</p><p>— Não importa — disse, tentando manter a voz</p><p>estável. — Ele vai ter que se acostumar, porque eu acho</p><p>que o Matheus estará por perto por muito tempo.</p><p>Mavi não respondeu, e quando Marie olhou para</p><p>ela, viu que estava sorrindo. Mas não perguntou o porquê</p><p>e não mostrou que reconheceu esse ato da amiga.</p><p>Porém, em seu íntimo, sua alma se alegrou um pouco</p><p>com aquele fato, e Marie precisou deter a vontade de</p><p>brigar consigo mesma.</p><p>A descida até a praia era terrível, mas ao chegarem</p><p>ao lugar, fazia valer a pena. Era lindo! O mar se estendia</p><p>por quilômetros de distância à frente deles. Uma pedra</p><p>imensa ficava localizada ao lado direto. Ela mais se</p><p>parecia com um arco, devido ao furo no meio. Era</p><p>magnífica. As ondas do mar entravam por ela, molhando</p><p>a areia.</p><p>Havia uma fila de pessoas para tirar foto dentro da</p><p>pedra, e Marie não perdeu tempo, correu para a fila e</p><p>começou a pular de um pé para o outro, animada. O sol</p><p>estava escaldante, mas quando ela conseguiu ficar</p><p>debaixo da pedra, quase sentiu frio.</p><p>— Mavi, tire uma foto! — pediu, entregando o</p><p>celular para a amiga. Olhou para o grupo, que ainda</p><p>estava descendo, e viu o namorado desviando das</p><p>pessoas que o abordavam, tentando fugir dos holofotes</p><p>dos turistas que o reconheciam. Aquilo era um saco.</p><p>Mavi pegou o celular e começou a tirar várias fotos</p><p>dela. Marie viu seus primos se aproximando e os chamou</p><p>para tirar fotos com ela. A princípio, não iria postar</p><p>nenhuma, apenas queria ter muitas para se lembrar</p><p>daquele dia. Fotos eram, em teoria, eternas. Ela amava</p><p>fotografar tudo para poder guardar.</p><p>— Sol, vem! Vamos tirar uma juntos! — gritou para</p><p>Gabriel, que estava longe, só observando a todos.</p><p>Ele pareceu hesitar por um segundo, mas logo foi.</p><p>Mesmo que o amigo estivesse estranho, Marie</p><p>ainda queria estar com ele.</p><p>— Sorria! — falou quando ele chegou ao lado dela.</p><p>O piloto</p><p>passou o braço por sua cintura, fazendo-a</p><p>segurar a respiração quando sentiu a pressão da mão</p><p>dele. Fazia anos que Marie não reparava no toque de</p><p>Gabriel daquela maneira. Maldita fosse Mavi Anne por</p><p>lembrá-la daquilo!</p><p>— Você está feliz? — Gabriel perguntou em voz</p><p>baixa perto de seu ouvido.</p><p>Marie olhou para ele, sem entender. Gabe a</p><p>encarava, com o olhar buscando uma resposta para a</p><p>sua pergunta. Seus olhos estavam mais claros, por causa</p><p>do sol, e suas bochechas começavam a corar um pouco.</p><p>Gabriel tinha o péssimo hábito de esquecer o protetor</p><p>solar. Mesmo seu pai sendo branco como a neve, Gabe</p><p>tinha a pele morena da mãe. Era difícil que se</p><p>queimasse, como acontecia com Marie, mas ele sempre</p><p>ficava bronzeado.</p><p>Nos anos em que nutrira uma paixão por Gabriel,</p><p>Marie havia aprendido a amar o verão, porque sabia que</p><p>ele estaria daquele jeito. E ela o amava daquele jeito.</p><p>Gabe era lindo, mas quando estava na beira da praia,</p><p>Marie perdia totalmente o controle de seu coração.</p><p>Porém, anos haviam se passado desde a última vez que</p><p>reparara naquilo, mais uma coisa que colocaria na conta</p><p>de Mavi.</p><p>— Por que pergunta?</p><p>Gabriel estava sério, e Marie entendeu que aquela</p><p>resposta importava muito para ele.</p><p>— Porque eu preciso ouvir a sua resposta.</p><p>Marie abriu a boca para responder, mas não</p><p>conseguiu que nada saísse. Queria dizer que sim, porque</p><p>realmente acreditava que sim. Só que ela lembrou quão</p><p>afastados eles estavam e como aquilo a deixava insegura</p><p>e sem um lugar para chorar. E, talvez, aquele detalhe</p><p>fosse maior do que qualquer outra coisa que estivesse</p><p>acontecendo para deixá-la.</p><p>Ela desviou os olhos, e Gabriel afastou sua mão.</p><p>Marie andou até Mavi, louca para se desvencilhar</p><p>daquela sensação. Sequer reparou no namorado vindo</p><p>em sua direção para pegá-la no colo.</p><p>Matheus a tirou do chão e a girou. Marie não</p><p>conseguiu deixar de sorrir com aquilo. Até que ele parou</p><p>e ficou olhando-a, sorrindo.</p><p>— Você é linda! — disse ele.</p><p>Marie sentiu a culpa bater no mesmo instante.</p><p>Poucos segundos antes, ela estava reparando no toque</p><p>de outro homem, enquanto tinha um namorado que a</p><p>adorava e que fazia questão de elogiá-la o tempo todo.</p><p>Ela olhou para o lado e viu Gabriel os observando.</p><p>Ele parecia ter mágoa nos olhos. E que Deus a</p><p>perdoasse, pois Marie sentiu que o estava traindo.</p><p>Capítulo 13</p><p>Marie, 18 anos.</p><p>Gabriel, 19 anos.</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Domingo, depois da corrida.</p><p>Gabriel Pires Sinclair tinha sido criado em uma bela</p><p>família, até onde sabia. Mas quando completou 14 anos</p><p>de idade, tudo mudou. Seu pai, que era presente e</p><p>dedicado, tornou-se um babaca traidor para quem ele</p><p>não ligava. E sua mãe, sempre forte e decidida, havia</p><p>passado os anos seguintes fragilizada devido a todo o</p><p>drama que se seguiu após o divórcio.</p><p>Mesmo depois de passar anos pensando naquela</p><p>situação, Gabriel ainda se sentia culpado por tudo o que</p><p>havia acontecido à Vera. Chegara à conclusão de que sua</p><p>mãe tinha se mantido casada com seu pai por causa dele</p><p>e nada mais. Era impossível que ela ainda amasse um</p><p>homem que a traía. Se aquela fosse a realidade, Gabriel</p><p>iria admitir que realmente não sabia nada sobre o amor.</p><p>O piloto entrou na sala do apartamento alugado de</p><p>seu pai, que o havia convidado para jantar depois da</p><p>corrida daquele dia. Ele não queria aceitar o convite, mas</p><p>sua mãe o obrigara a pelo menos tentar ser mais</p><p>amigável com seu progenitor. Gabriel caminhou até a</p><p>mesa, que já estava posta, e se sentou, sem direcionar</p><p>uma palavra sequer ao seu pai, que também não fez</p><p>questão de dizer nada.</p><p>Desde aquela manhã, o homem permanecia</p><p>calado, e Gabriel, por sua própria experiência, sabia que</p><p>aquilo não era normal. Adam odiava o silêncio, dizia que</p><p>o fazia lembrar enterros. Então, mesmo que não tivesse</p><p>pessoas conversando, teria uma música tocando. Mas</p><p>não naquela noite. Tudo estava quieto, e o rosto de Adam</p><p>parecia assustado.</p><p>Gabriel sentiu-se tentado a perguntar o que havia</p><p>acontecido, mas por algum motivo, estava com medo</p><p>demais para isso. Ele não sabia lidar com situações</p><p>difíceis, tampouco queria aprender com aquele homem, o</p><p>responsável por tê-lo colocado na maior parte das coisas</p><p>difíceis pelas quais já havia passado.</p><p>Por isso, Gabriel apenas se empenhou em prestar</p><p>atenção na comida que seu pai havia encomendado para</p><p>o jantar e se serviu. De vez em quando, olhava para o pai</p><p>de rabo de olho, mas o homem nem parecia notar sua</p><p>presença. Gabriel pegou o celular e começou a ler as</p><p>mensagens, mas parou ao sentir a atenção do pai sobre</p><p>ele.</p><p>Sentiu-se nervoso no mesmo momento e engoliu a</p><p>comida antes de olhar para Adam.</p><p>— Oi — disse, como se tivesse acabado de chegar</p><p>ao apartamento.</p><p>Seu pai o olhou com os mesmos olhos azuis que</p><p>ele via no espelho todos os dias, mas estavam tão</p><p>perdidos que não pareciam enxergá-lo realmente.</p><p>— Pai, você está bem? — o menino resolveu</p><p>perguntar, preocupado. Porque se Adam morresse na sua</p><p>frente, Gabriel não tinha dúvidas de que seria acusado</p><p>de assassinato.</p><p>Seu pai assentiu, mas ele sabia que não era</p><p>verdade.</p><p>Adam pegou a garrafa de vinho e encheu sua taça,</p><p>virando-a de uma só vez. Gabriel assistiu à cena de olhos</p><p>arregalados, assustado. Então, voltou-se para o próprio</p><p>prato.</p><p>— Tem certeza? — insistiu, em um tom de voz mais</p><p>baixo.</p><p>O homem apenas grunhiu em resposta, mas não</p><p>disse nada. Gabriel tentou relaxar, mas a tensão não saiu</p><p>de cima de seus ombros. Adam continuou enchendo a</p><p>taça e bebendo o vinho, sem sequer respirar.</p><p>Gabriel tentou não se importar e comeu o que</p><p>havia colocado no prato. Adam não havia sequer se</p><p>servido, mas seu filho também não se preocupou com</p><p>isso. Levantou-se e foi para o sofá da sala, tentando se</p><p>lembrar de quanto tempo havia prometido à sua mãe</p><p>que ficaria ali.</p><p>Adam achou que seria uma boa ideia fazer o</p><p>mesmo e se sentou ao lado do filho, com a garrafa em</p><p>uma mão e a taça na outra. Ele já havia bebido mais da</p><p>metade e não parecia disposto a parar.</p><p>— Eu tenho uma filha — disse depois de um tempo.</p><p>Gabriel se sentou mais ereto e não ousou olhar</p><p>para o pai.</p><p>— O quê?</p><p>— Você tem uma irmã.</p><p>O menino balançou a cabeça, sem acreditar no que</p><p>estava ouvindo, e soltou uma risada seca.</p><p>— Eu tenho uma irmã?</p><p>— E eu tenho uma filha.</p><p>Gabriel olhou para o pai, que encarava o nada com</p><p>um semblante triste.</p><p>— Quem está grávida? — perguntou, mesmo que</p><p>aquilo não tivesse sido processado em sua mente.</p><p>Uma expressão de dor tomou o rosto de Adam, e</p><p>quando ele olhou para o filho, seus olhos brilhavam com</p><p>as lágrimas.</p><p>— Ninguém está grávida.</p><p>Gabriel o encarou e balançou a cabeça.</p><p>— Não... — disse, com o medo transparecendo em</p><p>sua voz. — Não... Você não fez o que eu acho que fez...</p><p>Uma lágrima caiu dos olhos do pai, que logo a</p><p>enxugou e se levantou. Caminhou até a mesa e deixou</p><p>ali a taça e a garrafa.</p><p>— Ela deve estar com 18 anos agora.</p><p>Os olhos de Gabriel já não viam mais nada, apenas</p><p>água e vermelho.</p><p>— Você está dizendo que tem uma filha um ano</p><p>mais nova que eu?</p><p>Nem ele mesmo reconheceu sua voz, que saíra</p><p>rouca.</p><p>Ele não viu mais o pai, porque a raiva não permitia.</p><p>Se ainda era possível, a raiva de Gabriel pelo homem</p><p>apenas aumentava mais e mais a cada segundo que</p><p>passava.</p><p>Adam nem mesmo tentou se explicar, apenas</p><p>repetiu pedidos de desculpa, várias e várias vezes.</p><p>Gabriel fechou os olhos e tentou entender o que estava</p><p>acontecendo.</p><p>— Você traiu a minha mãe quando ela estava</p><p>grávida de mim? — indagou aos gritos.</p><p>— Desculpa, filho! Me desculpa! — repetiu o</p><p>homem.</p><p>— Não me chame de filho, seu babaca egoísta! —</p><p>vociferou o piloto, andando para o lado contrário da sala.</p><p>— Ela teve uma gravidez de risco, sofreu durante meses!</p><p>Enquanto isso, você estava na rua transando com outra?</p><p>Adam balançou a cabeça.</p><p>— Não, não! — respondeu, desesperado. — Eu não</p><p>saí do lado dela enquanto estava em risco.</p><p>Gabriel bateu palmas algumas vezes.</p><p>— Ah! Que lindo da sua parte! — disse com</p><p>sarcasmo. — Esperou até ela se recuperar e correu atrás</p><p>de outra. Muita consideração,</p><p>Adam. Realmente.</p><p>Colocou as mãos na cabeça, tentando se segurar</p><p>para não fazer algo de que pudesse se arrepender.</p><p>Então, foi até o quarto de hóspedes, onde estava sua</p><p>mochila.</p><p>— Aonde você vai, Gabriel? — Adam perguntou,</p><p>indo atrás dele.</p><p>— Para longe de você!</p><p>— Você precisa me ouvir, Gabe.</p><p>Ouvir o pai chamá-lo pelo seu apelido de infância</p><p>machucou ainda mais. Virou-se para ele e o encarou.</p><p>— O que aconteceu com ela? Você também a</p><p>abandonou?</p><p>Sem entender, Adam olhou para o filho.</p><p>— Quem?</p><p>— Minha irmã! — Gabriel gritou.</p><p>Aquelas palavras soavam muito estranhas aos seus</p><p>ouvidos.</p><p>— Eu nunca abandonaria a minha própria filha.</p><p>As lágrimas de Gabriel desciam tão rápidas que ele</p><p>era incapaz de secá-las.</p><p>— Por que não? Você abandonou o seu próprio</p><p>filho.</p><p>Pegou a mochila e, antes que Adam pudesse dizer</p><p>qualquer coisa, andou depressa até a porta e saiu.</p><p>Gabriel não parou de andar, nem mesmo quando Adam</p><p>gritou seu nome da porta do apartamento. Ele não quis</p><p>esperar o elevador chegar, correu para as escadarias e</p><p>desceu o mais rápido que pôde, sem querer dar chance</p><p>para que o pai pudesse alcançá-lo.</p><p>Saiu do prédio sem sequer se lembrar de falar com</p><p>o porteiro. Sua mente ainda girava e gritava todas as</p><p>palavras que seu pai havia jogado em cima dele pouco</p><p>antes. Por que contar naquele momento? Não fazia</p><p>sentido. Anos haviam se passado e ele nunca</p><p>pronunciara uma palavra sobre aquilo.</p><p>E o menino, pobre iludido, achando que as coisas</p><p>não podiam piorar entre os dois.</p><p>Eram onze horas da noite quando Marie caminhou</p><p>até a porta de casa. Seus pais e seu irmão já estavam</p><p>dormindo, e ela terminava de se aprontar para seguir o</p><p>exemplo deles quando ouviu uma batida desesperada à</p><p>porta de entrada. Marie não pretendia atender, mas</p><p>percebeu que o porteiro não havia interfonado para</p><p>avisar sobre um visitante, e eram poucas as pessoas que</p><p>subiam sem aviso.</p><p>Marie abriu a porta, e assim que viu Gabriel de pé à</p><p>sua frente, com os olhos vermelhos e assustados, soube</p><p>que algo estava errado. No mesmo instante, foi até ele e</p><p>passou os braços pelos seus ombros. Gabriel a agarrou</p><p>como se ela fosse seu bote salva-vidas e, caso a soltasse,</p><p>morreria. Marie se segurou para não chorar quando ouviu</p><p>os soluços do amigo em seu pescoço.</p><p>Esperou até ele se acalmar o suficiente e o puxou</p><p>para dentro do apartamento, guiando-o até o seu quarto.</p><p>Ao entrarem, Marie não se importou pelo cômodo estar</p><p>uma bagunça, importava-se somente com o seu menino</p><p>choroso, que parecia completamente devastado.</p><p>Gabriel se sentou na cama e observou a porta</p><p>fechada.</p><p>— Quer conversar? — Marie perguntou em voz</p><p>baixa.</p><p>Ele balançou a cabeça para os lados e passou a</p><p>fitá-la, os olhos brilhando, com mais lágrimas prestes a</p><p>cair.</p><p>Marie se aproximou e passou a mão em seu cabelo.</p><p>O piloto fechou os olhos, como um gato ao receber</p><p>carinho. Ela se abaixou e beijou sua testa.</p><p>— Vai ficar tudo bem, Sol.</p><p>Gabriel abriu um pequeno sorriso, mas não</p><p>pareceu acreditar nela.</p><p>— Tire esses sapatos. Eu vou pegar água para você</p><p>— disse Marie, já caminhando para a porta.</p><p>— Mar? — Gabriel chamou.</p><p>A menina virou-se para ele, já com a porta aberta</p><p>atrás de si.</p><p>— Obrigado — completou.</p><p>Ela sorriu e saiu do quarto, indo até a cozinha.</p><p>Quando voltou, Gabriel já estava deitado de lado</p><p>na cama, com os olhos fechados. Marie deixou o copo de</p><p>água sobre a mesinha de cabeceira e se ajoelhou.</p><p>Suspirou e observou o rosto agora calmo do menino.</p><p>Estendeu a mão e acariciou seu cabelo, permitindo-se</p><p>chorar pela primeira vez desde que ele havia chegado à</p><p>sua casa.</p><p>— Eu odeio te ver assim e não poder fazer nada —</p><p>disse, sua voz não passando de um sussurro.</p><p>Levantou-se, antes que ele acordasse e a visse</p><p>observando-o. Deitou-se do outro lado da cama e tentou</p><p>dormir, mas não conseguia deixar de imaginar o que</p><p>podia tê-lo deixado daquela maneira. Na verdade, Marie</p><p>tinha uma ideia de quem havia feito aquilo.</p><p>Virou-se e olhou para as costas de Gabriel. Era</p><p>incrível como um homem tão grande e sempre tão forte</p><p>podia desabar daquele jeito, e ela amava ser a pessoa</p><p>para quem ele corria quando isso acontecia.</p><p>O sol entrava pela janela na manhã seguinte, e</p><p>Marie brigou consigo mesma por ter se esquecido de</p><p>fechar as cortinas. Abriu os olhos e se virou para o outro</p><p>lado, para ver se Gabriel ainda estava dormindo, mas</p><p>quando viu que ele sequer estava na cama, rapidamente</p><p>se sentou.</p><p>Ficou o mais quieta que pôde, levantou-se da cama</p><p>e caminhou até a porta. Abriu-a e colocou a cabeça para</p><p>fora para tentar ouvir algo. Quando as vozes da cozinha</p><p>chegaram até ela, Marie gemeu e encostou a cabeça na</p><p>porta. Seus pais o pegaram ali.</p><p>O estrago já estava feito, então ela não viu motivos</p><p>para correr até lá. Foi ao banheiro, escovou os dentes,</p><p>lavou o rosto e respirou fundo, decidida a ir até a</p><p>cozinha, mas se preparando para os comentários de seus</p><p>pais.</p><p>— Então, você quer mesmo que eu acredite que</p><p>vocês não têm nada? — perguntou Isabela, mãe de</p><p>Marie, para Gabriel.</p><p>A menina não esperou para ouvir a resposta do</p><p>amigo, adentrou a cozinha com o maior sorriso fingido</p><p>que conseguiu.</p><p>— Bom dia, família! — cumprimentou.</p><p>Gabriel estava sentado na banqueta do balcão, ao</p><p>lado de Theo, irmão de Marie, que tinha os olhos presos</p><p>ao celular. Seu pai estava no fogão, preparando algo</p><p>muito gostoso, Marie tinha certeza. E sua mãe estava de</p><p>pé em frente a Gabriel, com os braços cruzados sobre o</p><p>peito, olhando para ele como se conseguisse ver todos os</p><p>seus pecados estampados em sua testa.</p><p>Ninguém respondeu, a não ser o pequeno Aslan,</p><p>que passou o rabo em sua perna e miou.</p><p>— Não, senhora — disse Gabriel.</p><p>— Não... porque vocês não têm nada ou porque</p><p>vocês têm alguma coisa?</p><p>— Não porque não temos nada — explicou Gabriel,</p><p>hesitante.</p><p>Marie não pôde deixar de rir do nervosismo do</p><p>amigo, e isso atraiu o olhar dele para si. Gabriel a olhou</p><p>com os olhos arregalados, como se implorasse por ajuda.</p><p>— Mamãe, não o perturbe! — pediu Marie, então</p><p>caminhou até o pai e se pôs na ponta dos pés para dar</p><p>um beijo em sua bochecha. — Bom dia, pai. O que está</p><p>fazendo?</p><p>— Bom dia, princesa. Suas panquecas preferidas.</p><p>Não que esteja merecendo.</p><p>Marie olhou para ele em choque.</p><p>— O que foi que eu fiz?</p><p>Seu pai se virou para ela.</p><p>— Trouxe um homem para casa na surdina —</p><p>respondeu com seriedade.</p><p>— Não, papai. Eu trouxe o Gabriel para casa na</p><p>surdina — disse Marie, de maneira bem explicativa, como</p><p>se o pai não estivesse entendendo.</p><p>Ele lançou um olhar mortal para a menina, que se</p><p>virou para a mãe. Isabela continuava interrogando</p><p>Gabriel.</p><p>— Por que você viria até aqui durante a noite, se</p><p>vocês não têm nada?</p><p>Gabriel olhou para a mulher com um olhar</p><p>pesaroso, como se já não aguentasse mais aquilo.</p><p>— Porque ela é minha amiga.</p><p>Isabela levantou o dedo indicador e o apontou para</p><p>o menino.</p><p>— E você quer que eu acredite que passou a noite</p><p>na cama com essa mulher linda e que nada aconteceu?</p><p>— Mamãe! — Marie exclamou, entrando na frente</p><p>de Gabriel e tampando a visão de sua mãe. — Nada</p><p>aconteceu!</p><p>Isabela olhou para a filha.</p><p>— Marie, acha que eu sou idiota? Eu já tive a sua</p><p>idade!</p><p>A menina revirou os olhos. Sua mãe sempre repetia</p><p>a mesma coisa.</p><p>— Eu sei, mãe. Mas eu juro que nada aconteceu</p><p>entre nós dois — disse, ignorando o toque da mão de</p><p>Gabriel nas suas costas, tentando tirá-la da frente dele.</p><p>— Senhora... — começou ele, levantando-se e</p><p>ficando muito mais alto e muito mais perto de Marie, que</p><p>prendeu a respiração. — Acha que se algo tivesse</p><p>acontecido, eu teria esperado que vocês acordassem</p><p>para sair? Eu também não sou um idiota.</p><p>O pai de Marie colocou a última panqueca no prato</p><p>e se virou.</p><p>— Vocês não têm mais dez anos, Gabriel — disse,</p><p>levando o prato até a mesa. — Nós não podemos pensar</p><p>que estão apenas tirando um cochilo juntos. Os</p><p>hormônios gritam, sabe?</p><p>Marie olhou para o pai e virou-se para Gabriel,</p><p>fingindo que iria começar a chorar. Ele riu ao ver sua</p><p>reação.</p><p>— E se nós prometermos que se algum dia</p><p>algo</p><p>acontecer, contaremos para vocês? — propôs o piloto,</p><p>voltando a olhar para os pais da amiga.</p><p>Marie também se virou para os pais, com grande</p><p>expectativa.</p><p>August e Isabela se olharam e suspiraram.</p><p>— Tudo bem — disse seu pai. — Mas nada de</p><p>dormirem juntos! Nem de ficarem no quarto com a porta</p><p>fechada!</p><p>— Sabe que o Gabriel mora sozinho, não é? —</p><p>soltou Theo, falando pela primeira vez em toda a</p><p>conversa, sem levantar os olhos do telefone.</p><p>Marie deu um tapa na cabeça do irmão, que olhou</p><p>para ela e mostrou a língua, feito uma criança.</p><p>August olhou para a filha com olhos raivosos.</p><p>— Saibam que se algo acontecer, eu vou saber e</p><p>não vou dizer, só vou olhar para vocês... muito</p><p>decepcionado!</p><p>— Ótimo saber que eu sou maior de idade! — Marie</p><p>comentou com sarcasmo.</p><p>— More sozinha e decida a sua vida! — disse sua</p><p>mãe, sorrindo.</p><p>Todos ali sabiam que Marie não iria morar sozinha</p><p>tão cedo.</p><p>Ela tinha pavor da ideia de viver sozinha. Parecia</p><p>solitário e quieto demais. E odiava não ter com quem</p><p>conversar. Então, até se casar ou aparecer alguém com</p><p>quem tivesse vontade de morar, ela estava presa</p><p>naquela casa, com seus pais e suas regras, que</p><p>secretamente amava. A maior parte de seus amigos</p><p>reclamava que os pais não ligavam para o que faziam, e</p><p>Marie agradecia sempre por seus pais serem do jeito que</p><p>eram.</p><p>Eles impunham limites, e ela não se importava</p><p>tanto quanto fingia. Ainda mais se tratando de Gabriel.</p><p>Marie sabia que nada aconteceria entre os dois, e</p><p>passaria muito tempo sozinha com ele mesmo assim.</p><p>Não que seus pais ficassem desavisados quando ela</p><p>estava no apartamento dele, mas era engraçado que</p><p>alguém tivesse suspeitas sobre eles. Pelo menos alguém</p><p>tinha...</p><p>Capítulo 14</p><p>Dias atuais.</p><p>Jericoacoara, Ceará, Brasil.</p><p>Eram oito horas da noite. Marie e Matheus</p><p>passeavam pela praça de Jericoacoara, que ainda estava</p><p>bastante movimentada. A menina já havia perdido a</p><p>conta de quantas vezes foram parados com pedidos de</p><p>autógrafo ou fotos com o seu namorado. Não que ela se</p><p>importasse, já estava acostumada com aquilo. Havia</p><p>crescido vendo fãs pedindo o mesmo ao seu tio e seus</p><p>amigos. Quando criança, até se disponibilizava para tirar</p><p>as fotos.</p><p>Ao se despedirem de mais um torcedor, Matheus</p><p>guiou Marie até um belo restaurante de frutos do mar,</p><p>um típico restaurante praiano. Aquele lugar era</p><p>primoroso, em todos os sentidos. Marie estava amando</p><p>aquela viagem.</p><p>Ela já estivera no Brasil muitas vezes antes, mas</p><p>suas viagens haviam se limitado ao Rio de Janeiro, onde</p><p>a família de Gabriel vivia, e São Paulo, onde as corridas</p><p>aconteciam. Marie nunca vira algo como aquele país</p><p>antes, achava o Brasil singular. A cultura rica, as</p><p>paisagens únicas, as pessoas, que, em grande maioria,</p><p>tratavam-na muito bem, e a língua. Ela amava o</p><p>português. A mãe de Gabriel, tia Vera, era uma excelente</p><p>professora de literatura e lecionava na melhor</p><p>universidade do país. Havia ensinado português à Marie</p><p>de muito bom grado quando a menina pediu, aos 13</p><p>anos de idade.</p><p>Já que passava as férias com a família de Gabriel,</p><p>Marie não via motivos para não aprender a se comunicar</p><p>com os avós do amigo, que não falavam inglês ou</p><p>francês. E aprender uma nova língua também a ajudou</p><p>muito durante a faculdade, onde ela se especializou em</p><p>literatura brasileira. O Brasil fazia parte de sua vida, de</p><p>certa maneira.</p><p>Matheus abriu a porta de madeira do restaurante, e</p><p>quando entraram, Marie percebeu que não havia mais</p><p>ninguém no salão, apenas eles e um garçom.</p><p>Ela olhou para o namorado, surpresa.</p><p>— O que é isso? — indagou.</p><p>— Esta noite, nós não seremos incomodados.</p><p>Teremos o restaurante só para nós.</p><p>— E o resto do pessoal, não vêm?</p><p>Tinham saído antes de seus amigos, porque</p><p>Matheus dissera que queria um tempo a sós com ela,</p><p>mas que se encontrariam no restaurante para jantar.</p><p>— Não. Eles foram comer em outro lugar —</p><p>respondeu e a olhou. Matheus parecia com medo de sua</p><p>reação.</p><p>E Marie... bem, ela não pôde acreditar que aquilo</p><p>estivesse realmente acontecendo. Mais cena de filme</p><p>que aquilo... era impossível! Então, continuou olhando</p><p>para o namorado com um sorriso cravado no rosto.</p><p>— Você é o melhor! — disse.</p><p>As bochechas de Matheus ficaram vermelhas.</p><p>— Obrigado.</p><p>— Ela me implorou para levá-la até lá de novo —</p><p>disse Matheus, bebendo um gole de sua bebida.</p><p>— A Alana é uma fofa. Temos que voltar e passar</p><p>mais tempo com a sua família. Eles devem sentir sua</p><p>falta.</p><p>— Nem tanto. O clube não fica muito longe de</p><p>casa, eu consigo ir pelo uma vez por semana visitá-los.</p><p>Marie sorriu. Aquilo era tão fofo! Mesmo</p><p>trabalhando muito, passando horas treinando todos os</p><p>dias, Matheus sempre arranjava tempo para sua irmã e</p><p>seus pais. Era algo muito admirável, e Marie havia</p><p>reparado naquilo assim que começaram a namorar.</p><p>— Mas é horrível não poder ver a minha namorada</p><p>tanto quanto eu gostaria — declarou Matheus,</p><p>entrelaçando seus dedos sobre a mesa. Ele acariciou a</p><p>mão de Marie, e ela sentiu o coração palpitar pela</p><p>intensidade com que a olhava.</p><p>Durante os seis meses de namoro, só haviam tido</p><p>tempo para se ver quatro vezes. Marie havia conseguido</p><p>uma folga no trabalho em fevereiro e passara uma</p><p>semana com a família de Matheus, em São Paulo, e</p><p>outras três vezes, quando Matheus conseguira escapar</p><p>para encontrá-la em Mônaco. Foram tão poucos</p><p>encontros que Marie sentia que nem se conheciam tanto.</p><p>Ela não negaria que era difícil quase nunca ver o</p><p>namorado, mas sabia como era a vida de um atleta, por</p><p>isso não seria egoísta de cobrar dele algo impossível.</p><p>— Eu sei. Mas logo o campeonato acaba e vamos</p><p>poder nos ver mais. Além disso, em novembro, vou</p><p>passar um fim de semana aqui.</p><p>Matheus balançou a cabeça.</p><p>— Mas não será o suficiente. Você vai passar a</p><p>maior parte do tempo com o seu primo.</p><p>— Não vou! No sábado, estarei livre durante a</p><p>noite.</p><p>— E no domingo, você vai embora — arrematou</p><p>Matheus.</p><p>Marie assentiu, sentindo o coração se apertar.</p><p>— Precisarei ir, eu não poderei faltar no trabalho.</p><p>No próximo ano, a diretora quer me promover a</p><p>professora titular. Tenho que estar lá.</p><p>— Eu sei disso. E não quero que falte. Só que é</p><p>frustrante não te ver todos os dias.</p><p>Marie puxou a mão dele para mais perto e a beijou.</p><p>— Eu sei. Sinto muito por isso.</p><p>— Imagina se pudéssemos nos ver sempre que</p><p>quiséssemos? Acordar todos os dias um ao lado do outro?</p><p>Só termos que nos despedir para irmos ao trabalho?</p><p>Ela sorriu ao imaginar aquilo.</p><p>— Seria um sonho — concordou.</p><p>— E pode ser real!</p><p>No mesmo instante, o sorriso de Marie se apagou.</p><p>— Como assim?</p><p>Matheus afastou a cadeira da mesa, levantou-se e</p><p>deu um passo para o lado. Marie o acompanhou com os</p><p>olhos, o coração acelerado. Observou quando ele se</p><p>abaixou para pegar algo debaixo da mesa. Quando ele se</p><p>levantou, estava com uma caixinha turquesa na mão.</p><p>Marie arregalou os olhos, com a respiração presa na</p><p>garganta. O jogador se ajoelhou à sua frente, com um</p><p>sorriso nos lábios, parecendo tão lindo. Ele pegou sua</p><p>mão e a beijou.</p><p>— Marie Martin, eu nunca pensei que fosse estar</p><p>ajoelhado na frente de uma mulher com um anel na mão</p><p>antes dos 30 anos, mas no momento que te vi, eu soube</p><p>que isso iria acontecer. Porque você mudou a minha</p><p>maneira de ver o mundo, o seu sorriso me trouxe de</p><p>volta aos eixos, e meu coração, hoje, é totalmente seu.</p><p>Eu te amo mais do que tudo, Marie, e quero um dia poder</p><p>te chamar de minha esposa. Por isso, eu te pergunto:</p><p>Marie Martin, você aceita se casar comigo?</p><p>Marie olhou para ele, ainda sem conseguir</p><p>acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Aquele</p><p>homem lindo estava pedindo-a em casamento, o que</p><p>mais ela poderia querer? É claro que diria sim!</p><p>Mas... seus olhos se fecharam e ela tentou</p><p>imaginar seu futuro com o jogador. Filhos correndo atrás</p><p>de uma bola de futebol em um campo enorme. Nada de</p><p>kart aos domingos, mas peladas. Os capacetes sendo</p><p>substituídos por chuteiras. E... eles não teriam mais olhos</p><p>azuis como o mar, e sim olhos castanhos. Aquele</p><p>pensamento específico a</p><p>surpreendeu e a desesperou.</p><p>Aquela mudança enorme não agradou nem um pouco o</p><p>seu coração.</p><p>Marie olhou para o homem ajoelhado à sua frente,</p><p>que parecia cada vez mais confuso, e abriu a boca para</p><p>dizer sim ou não, ou qualquer outra coisa, mas não</p><p>conseguiu. Ela queria se levantar e correr para longe</p><p>daquele lugar o mais rápido possível.</p><p>— Matheus, eu... — começou a dizer, mas parou,</p><p>impedindo a si mesma.</p><p>Ele era uma ótima pessoa, não era? Era bom com</p><p>ela e tinha um dos corações mais generosos que</p><p>conhecia. Ele era bonito, educado e abria as portas para</p><p>ela. Marie poderia ser feliz com ele. Muito feliz, na</p><p>verdade. Ela poderia aprender a amá-lo mais do que já</p><p>havia amado qualquer outra pessoa.</p><p>Mas era aquilo que ela queria? Aprender a amar</p><p>alguém? O amor não deveria ser algo natural, que</p><p>apenas acontece?</p><p>“Se eu tivesse ouvido a minha razão, eu não teria</p><p>me casado com o seu pai e você não estaria aqui, Marie.</p><p>O amor é maior do que a razão, minha filha.”, a voz da</p><p>mãe ecoou em seu ouvido.</p><p>Foi quando Marie entendeu.</p><p>Quando fosse pedida em casamento pelo amor de</p><p>sua vida, ela não hesitaria em aceitar. Entendia quem</p><p>hesitava, já que aquela era uma pergunta muito séria e</p><p>que não poderia ser respondida somente pela emoção.</p><p>Mas ela não se lembrava de sequer ter cogitado a ideia</p><p>de se casar com Matheus.</p><p>— Matheus, eu te amo. Muito! — continuou,</p><p>cuidadosamente. — Mas eu não posso.</p><p>Ele abaixou os olhos e fechou a caixinha turquesa.</p><p>Devagar, levantou-se e guardou-a em seu bolso.</p><p>— Eu sinto muito — disse Marie.</p><p>Mas Matheus continuou sem dizer nada. Ele passou</p><p>a andar de um lado para o outro perto da mesa, com os</p><p>ombros tensos.</p><p>— Não é você! Você é incrível! O melhor primeiro</p><p>namorado que uma menina poderia pedir! Mas eu...</p><p>simplesmente não posso.</p><p>O jogador parou e a encarou, com a mágoa exibida</p><p>e brilhando em seus olhos.</p><p>— É ele, não é?</p><p>Marie ficou confusa com a pergunta.</p><p>— Ele quem?</p><p>— Gabriel. Você gosta dele. É isso?</p><p>Ela se levantou e balançou a cabeça.</p><p>— Não! Isso não tem nada a ver com ele!</p><p>Marie se lembrou do pensamento que tivera</p><p>poucos segundos antes.</p><p>Sim, talvez tenha um pouco a ver com ele.</p><p>Mas ela não diria isso a Matheus.</p><p>— É, sim. Você é apaixonada pelo Gabriel, e eu fui</p><p>um idiota por não perceber — disse ele, abrindo os</p><p>braços. — Estava óbvio! Bem na minha cara! E eu</p><p>ignorei!</p><p>— Do que você está falando? — indagou Marie.</p><p>— Você para a sua vida por ele! É só o Gabriel</p><p>chamar e... não importa o que está fazendo, você para e</p><p>dá toda a atenção do mundo para ele!</p><p>— Nós nem temos nos falado direito nos últimos</p><p>tempos. Mas o Gabriel é o meu melhor amigo, é claro</p><p>que se ele precisar de mim, eu vou fazer de tudo por ele.</p><p>— E eu sou seu namorado, Marie! Quantas vezes,</p><p>em menos de um ano, você rodou o mundo para vê-lo</p><p>correr, enquanto não fez questão de vir em nenhum dos</p><p>meus jogos?</p><p>— Meu primo também pilota, Matheus. Você está</p><p>sendo injusto.</p><p>Ele soltou uma risada fria.</p><p>— Injusto? Você foi para Singapura, Marie. Para</p><p>Singapura!</p><p>— Era uma corrida importante...</p><p>— Os meus jogos também são importantes para</p><p>mim, Marie, mas você não se deslocou de Mônaco para</p><p>assistir a nenhum deles.</p><p>A menina cruzou os braços sobre o peito, como</p><p>uma maneira de se proteger.</p><p>— Você nunca me disse que fazia questão de me</p><p>ter neles — disse, sentindo-se uma idiota.</p><p>— Você é minha namorada, é claro que eu te</p><p>queria lá! — Matheus respirou fundo e balançou a</p><p>cabeça. — Mas isso já não importa, acabou! — disse e</p><p>saiu do restaurante, sem sequer olhar para trás,</p><p>deixando Marie totalmente atordoada.</p><p>Ela olhou ao redor e viu o garçom observando-a.</p><p>— Uma festa, não é?</p><p>O homem apenas assentiu, mas não respondeu.</p><p>— O jantar já foi pago? — Marie perguntou, e o</p><p>homem assentiu novamente. Ela duvidava de que ele</p><p>fosse dizer algo.</p><p>Marie caminhou até a cadeira e pegou sua bolsa.</p><p>Agarrou sua carteira e tirou todo o dinheiro que tinha</p><p>nela. Foi até o garçom e sorriu, tentando parecer</p><p>simpática.</p><p>— Não conte nada do que viu aqui, por favor! —</p><p>pediu, esticando a mão com o dinheiro para ele.</p><p>O garçom balançou a cabeça.</p><p>— Não precisa, senhorita, eu não vou contar nada</p><p>— garantiu. — Sinto muito!</p><p>Marie sorriu com tristeza e guardou o dinheiro.</p><p>— Obrigada... — Leu o nome no crachá do</p><p>funcionário. — Senhor Carlos!</p><p>Virou-se e saiu do restaurante, pensando em como</p><p>explicaria aos outros o que tinha acabado de acontecer.</p><p>Aquilo já não se parecia com uma comédia</p><p>romântica, estava mais para um dramalhão.</p><p>Capítulo 15</p><p>Marie, 19 anos.</p><p>Gabriel, 20 anos.</p><p>Melbourne, Austrália.</p><p>Primeiro GP da temporada.</p><p>Os motores eram aquecidos quando Gabriel entrou</p><p>no box. Todos olharam para ele e o observaram caminhar</p><p>até onde suas coisas estavam. O piloto não olhou para</p><p>ninguém, pois temia que, se olhasse, poderiam ver a</p><p>tensão que se acumulava sobre os seus ombros.</p><p>Continuou repetindo para si mesmo que não devia ter</p><p>medo. Ele sabia que não poderia entrar naquele carro se</p><p>estivesse com medo. Trezentos quilômetros por hora</p><p>adicionado ao medo era a fórmula para o fracasso. Aquilo</p><p>não iria acontecer.</p><p>Gabriel se aproximou de suas coisas, abaixou a</p><p>cabeça e observou o capacete na prateleira. Era aquilo.</p><p>Havia conseguido o que sempre sonhara. E não poderia</p><p>parar agora.</p><p>Respirou fundo, segurou os fones e os colocou nos</p><p>ouvidos. Pegou a balaclava em cima do capacete e a</p><p>colocou. Quando pousou as mãos sobre o capacete,</p><p>hesitou. Não tinha mais volta. Não naquele momento.</p><p>— Gabe?</p><p>O piloto fechou os olhos. Aquilo era a última coisa</p><p>que precisava, mas ninguém ao redor precisava saber.</p><p>Virou-se, sentindo-se ridículo só com o pano branco</p><p>cobrindo o seu rosto. Olhou para o lado de fora do box,</p><p>onde seu pai estava, de pé, esperando por ele. Gabriel</p><p>pensou em não ir até lá. A última coisa que queria</p><p>naquele momento era ouvir palavras falsas de Adam.</p><p>Mas todos ao redor estavam olhando e esperando algo</p><p>acontecer. Não era segredo para ninguém a falta de</p><p>afinidade entre pai e filho.</p><p>Porém, se havia algo que Gabriel odiava mais que o</p><p>pai, era fazer cena e ser o centro de uma fofoca, por isso</p><p>andou até o lado de fora do box, com seu capacete na</p><p>mão, e parou em frente ao homem.</p><p>— Pai!</p><p>Adam se aproximou e sorriu para o filho, com</p><p>lágrimas nos olhos.</p><p>— Você está tão bonito vestindo esse uniforme.</p><p>Gabriel tentou não deixar o sentimentalismo do pai</p><p>ter voz sobre ele.</p><p>— Obrigado.</p><p>Sem hesitar nem por um instante, Adam o abraçou.</p><p>Gabriel não retribuiu de imediato, mas quando</p><p>olhou para os lados, viu que algumas pessoas ainda</p><p>estavam olhando, então passou os braços ao redor dos</p><p>ombros do pai e suspirou.</p><p>Adam se afastou e abaixou a cabeça, Gabriel</p><p>poderia jurar tê-lo visto limpar os olhos.</p><p>— Está muito nervoso? — perguntou Adam,</p><p>olhando novamente para o filho.</p><p>Para se estar muito nervoso, antes era preciso</p><p>estar nervoso, e Gabriel nunca admitiria a ninguém que</p><p>sequer estava um pouco nervoso.</p><p>Ele balançou a cabeça para os lados.</p><p>— Bom, bom — disse o pai, colocando uma mão</p><p>em seu ombro. — Vai lá e arrasa com todo mundo!</p><p>— É antiético dizer isso quando você é o chefe de</p><p>outra equipe — Gabriel se dispôs a dizer.</p><p>Adam deu de ombros.</p><p>— Antes de tudo, eu sou seu pai.</p><p>O piloto não respondeu, e Adam não esperou por</p><p>uma resposta. Apenas olhou para o filho mais uma vez,</p><p>abriu um breve sorriso e saiu rumo ao box da própria</p><p>equipe.</p><p>Então, Gabriel pôde respirar novamente.</p><p>Desde o dia em que Adam contou a ele sobre sua</p><p>filha, Gabriel tentou tratá-lo com indiferença. Não fora</p><p>mais à casa dele e o evitara a todo o custo durante a pré-</p><p>temporada. Recusara cada convite para jantar e ignorara</p><p>sua mãe sempre que Vera dizia que ele não podia tratar</p><p>o pai daquela maneira. Gabriel não contara a ela o</p><p>motivo de sua recusa e nunca havia contado sobre a</p><p>irmã desaparecida. Odiava ter que mentir para a mãe,</p><p>mas não queria fazê-la sofrer de novo. Não quando tudo</p><p>estava indo tão bem em sua vida.</p><p>Depois de oito anos da separação de seus pais, sua</p><p>mãe finalmente</p><p>tinha voltado a namorar. Ela estava</p><p>encantada por um contador no Brasil, e mesmo achando</p><p>o cara um pouco chato, Gabriel estava feliz por Vera.</p><p>— Gabriel?</p><p>O piloto se virou novamente e viu Marie</p><p>caminhando até ele com um sorriso no rosto.</p><p>— Mar! — exclamou, abrindo os braços para</p><p>recebê-la. A menina apoiou a cabeça em seu peito e</p><p>retribuiu o abraço.</p><p>— Desculpe-me pelo atraso — pediu a amiga. — O</p><p>Kalil me prendeu no box dele dizendo que eu sou uma</p><p>traidora do próprio sangue — contou, rindo. — A tia Jolie</p><p>precisou convencê-lo a me deixar ir.</p><p>— Ele é um ciumento — brincou Gabriel, beijando o</p><p>topo de sua cabeça e se afastando. — Como estou? —</p><p>perguntou, girando para se exibir.</p><p>Marie sorriu para ele.</p><p>— Está lindo! Acho que esse azul combina com</p><p>você.</p><p>— Realça os meus olhos — respondeu, piscando os</p><p>olhos para ela várias vezes.</p><p>Marie riu e bateu de leve no ombro dele.</p><p>— Você é um idiota — disse, com a luz do box</p><p>deixando o verde de seus olhos ainda mais evidente. Ela</p><p>se ergueu na ponta dos pés e beijou a bochecha do</p><p>piloto. — Mas eu te amo mesmo assim.</p><p>Gabriel sorriu. Ele sorriu tanto que pensou ser</p><p>impossível conseguir sorrir mais. Olhou para ela e</p><p>colocou a mão em seu rosto.</p><p>— Eu também te amo, Marie.</p><p>Virou-se para onde estava seu capacete e o pegou.</p><p>Ajustou-o na cabeça e voltou a olhar para a amiga. Marie</p><p>estava com o celular na mão, e um clique soou do</p><p>aparelho.</p><p>— Depois me manda essa.</p><p>— Já está no Instagram — disse ela.</p><p>— Gabriel, está na hora.</p><p>Ele ouviu a voz de Brendon, seu engenheiro, e</p><p>assentiu.</p><p>— Tenho que ir — disse para a amiga, como se ela</p><p>fosse incapaz de entender o que o homem havia acabado</p><p>de falar.</p><p>Marie sorriu, mas dessa vez parecia mais nervosa.</p><p>Então, abraçou novamente o amigo.</p><p>— Você vai ser incrível lá, Sol!</p><p>Gabriel se afastou sem responder.</p><p>Repetiu para si mesmo que precisava ser incrível,</p><p>ou estaria muito ferrado. E ele não queria estar ferrado.</p><p>“Alex Thomas continua segurando a primeira</p><p>colocação, mas Fernandez chega, querendo acabar com</p><p>o reinado do inglês. Ele força para cima de Thomas,</p><p>acelera o máximo que consegue, tenta pela direita, e ele</p><p>está se aproximando do carro da Mercedes. Está quase,</p><p>quase, quase... E não conseguiu. Thomas fechou o carro</p><p>da Ferrari e conseguiu manter a distância na curva</p><p>seguinte, Léo!”</p><p>“Mark, parece que estamos tendo uma briga e</p><p>tanto no meio do pelotão! Faez e Pires estão brigando</p><p>pela oitava posição do grid, que está sendo ocupada por</p><p>Kalil, filho do tricampeão mundial Ali Faez. O piloto de</p><p>vinte anos está fazendo seu debut pela equipe italiana</p><p>AlphaTauri. Enquanto ele tenta se manter na oitava</p><p>posição, Gabriel Pires, da Williams, ataca o piloto. Está</p><p>sendo algo bem interessante de se ver, Mark.”</p><p>“Quem acompanha a Fórmula 2, já sabe que os</p><p>dois pilotos são osso duro de roer. No último ano,</p><p>brigaram pelo título na categoria, e este ano, debutam</p><p>juntos. Quem você acha que irá levar a melhor, Léo?”</p><p>“É difícil dizer, Mark. Os dois têm bons carros nas</p><p>mãos e são pilotos excelentes. Acho que Kalil é mais</p><p>equilibrado e controlado do que Pires. Isso pode ser uma</p><p>vantagem para o jovem piloto.”</p><p>“É bom lembrar também que Gabriel Pires é filho</p><p>do chefe de equipe da AlphaTauri, Adam Sinclair.</p><p>Imaginem que loucura é competir com o pai tão de</p><p>perto.”</p><p>“Definitivamente, uma experiência única, Mark.”</p><p>Gabriel finalizou a corrida em oitavo lugar, e foi</p><p>glorioso!</p><p>A sensação de pontuar em sua primeira corrida na</p><p>Fórmula 1 foi inexplicável. Ele gostaria de conseguir</p><p>colocar em palavras o que sentiu quando cruzou a linha</p><p>de chegada, com a bandeira quadriculada balançando e</p><p>seu engenheiro gritando em seu ouvido. Havia chegado</p><p>na frente de seu companheiro de equipe, que não</p><p>conseguiu pontuar, infelizmente. Gabriel e Kalil tiveram</p><p>um bom embate na pista, e o piloto brasileiro estava</p><p>muito satisfeito por ter saído vitorioso daquela prova.</p><p>Pulou para fora do carro e foi andando para a</p><p>pesagem. Quando desceu da balança, esperou Kalil, que</p><p>estava atrás dele. O amigo também fez a pesagem, e</p><p>quando o viu ainda ali, abraçou-o tão forte que os dois</p><p>cambalearam.</p><p>— Nós conseguimos, cara! — exclamou Kalil,</p><p>animado.</p><p>— E eu venci! — Gabriel o provocou.</p><p>Os dois se afastaram, e Kalil não parecia</p><p>minimamente afetado pela provocação do amigo. Era</p><p>assim, eles sempre conseguiam se entender.</p><p>— Na próxima, eu não vou facilitar para você —</p><p>disse Kalil, com um sorriso que não queria sair de seu</p><p>rosto.</p><p>E Gabriel entendia, já que também não conseguia</p><p>parar de sorrir.</p><p>Para muitos, era difícil existir uma amizade entre</p><p>rivais. Mas Gabriel e Kalil sempre souberam separar o</p><p>esporte da amizade. Em muitos momentos, Gabriel se</p><p>viu querendo desistir. Sim, era seu sonho estar ali, e ele</p><p>sabia que se tivesse desistido, teria se arrependido. Mas</p><p>o caminho para chegar àquele ponto era muito árduo.</p><p>Gabriel não sabia se teria continuado sem Kalil ao seu</p><p>lado. E sentia que era o mesmo para o amigo. Ele sabia</p><p>quão afetado Kalil ficava com os comentários sobre ser</p><p>um piloto pagante, mesmo que não demonstrasse isso.</p><p>Mas sempre que ele pareceu prestes a jogar tudo para o</p><p>alto, Gabriel tentou reerguê-lo.</p><p>Era para isso que os amigos existiam, e Gabriel</p><p>agradecia todos os dias por ter encontrado um em meio</p><p>a todas as confusões que cercavam o mundo</p><p>automobilístico.</p><p>— Vamos comemorar essa noite? — perguntou,</p><p>colocando a balaclava dentro do capacete.</p><p>— O Alex bem que podia nos convidar para a festa</p><p>de comemoração dele, não é? — respondeu Kalil,</p><p>olhando para o piloto vencedor do dia, que estava em</p><p>frente ao telão dando uma entrevista.</p><p>Gabriel riu.</p><p>— Acha que ele vai fazer uma?</p><p>Kalil deu de ombros.</p><p>— Provavelmente. Devia perguntar.</p><p>— Por que eu?</p><p>— Porque você está mais perto de ser da Mercedes</p><p>do que eu, oras! — Kalil respondeu como se fosse óbvio.</p><p>Gabriel assentiu. Realmente era verdade. Nenhuma</p><p>promessa havia sido feita, mas ele estava em uma das</p><p>equipes filiadas à Mercedes, e isso tinha grande</p><p>influência no seu futuro na categoria.</p><p>— Vou parabenizá-lo. Se ele me falar de alguma</p><p>festa, eu te aviso.</p><p>— Sim, senhor! — brincou Kalil.</p><p>Eles se voltaram para os três pilotos no pódio. A</p><p>chuva de champanhe já havia começado. Gabriel amava</p><p>aquela parte. Sempre que era convidado por uma equipe</p><p>de Fórmula 1 para assistir à corrida do box, ele fazia</p><p>questão de escapar no final para ver aquela cena.</p><p>Na Fórmula 2, eles também comemoravam com</p><p>uma chuva de champanhe, mas como tudo na Fórmula 1,</p><p>parecia maior ali. Mais divertido e muito mais</p><p>empolgante.</p><p>Era a parte mais fútil e divertida da corrida. O</p><p>sorriso no rosto dos pilotos fazia toda a diferença no final.</p><p>E mesmo que não fosse Gabriel ali, ele sabia que aqueles</p><p>homens tinham trabalhado duro e arriscado suas vidas</p><p>para estar praticando aquela futilidade naquele</p><p>momento. Eles mereciam.</p><p>Pelo menos era o que Gabriel pensava quando</p><p>estava na Fórmula 2. Agora, competindo na Fórmula 1 e</p><p>sabendo que também tinha a chance de estar lá em</p><p>cima, ele queria agarrá-la. Queria estar naquele pódio e</p><p>explodir aquela garrafa de champanhe.</p><p>— Daqui a algum tempo, seremos nós lá — disse</p><p>Kalil.</p><p>Gabriel olhou para o amigo e viu o desejo</p><p>estampado em seu rosto, e sabia que devia estar do</p><p>mesmo jeito.</p><p>Tinham se dado bem na primeira corrida, era hora</p><p>de irem para o próximo desafio. Queriam o pódio, e ele</p><p>não tinha dúvidas de que fariam de tudo para consegui-</p><p>lo.</p><p>Capítulo 16</p><p>Dias atuais.</p><p>Jericoacoara, Ceará, Brasil.</p><p>Marie não olhou para Gabriel desde que voltou do</p><p>restaurante. Sozinha.</p><p>Gabriel não sabia onde Matheus estava, apenas</p><p>que a mala do jogador não estava mais no quarto e que</p><p>ele não tinha voltado na noite anterior.</p><p>Mavi Anne e Stacy haviam se trancado no quarto</p><p>com Marie, e parecia que Gabriel tinha sido</p><p>provisoriamente proibido de vê-la, já que quando bateu à</p><p>porta do quarto delas, foi convidado a se retirar por sua</p><p>irmã.</p><p>Ele repassou na mente tudo o que havia</p><p>acontecido no dia anterior milhares de vezes,</p><p>tentando</p><p>se lembrar se fizera algo tão errado para Marie o ignorar.</p><p>Mas não conseguiu encontrar uma resposta. Quando o</p><p>dia seguinte chegou, Gabriel subiu as escadarias rumo ao</p><p>local onde o café da manhã seria servido. Eram seis</p><p>horas da manhã e o sol já brilhava. Do terraço do</p><p>restaurante, ele conseguia ver toda a cidade e o mar, um</p><p>pouco mais afastado.</p><p>Era lindo como o sol nascia atrás daquelas casas, e</p><p>naquele momento parecia tocar o mar. Gabriel estava tão</p><p>entretido com aquela vista que sequer reparou quando</p><p>Marie parou ao seu lado. Ele sentiu a leve brisa do</p><p>amanhecer tocando o seu rosto e trazendo o aroma de</p><p>morango que apenas ela tinha.</p><p>— Bom dia — murmurou, com medo de que, caso</p><p>falasse muito alto, pudesse assustá-la e lembrá-la de que</p><p>estava o evitando.</p><p>— Bom dia — respondeu Marie, tão baixo quanto</p><p>ele.</p><p>Eram poucos os hóspedes tomando café da manhã</p><p>ali, então os dois estavam praticamente sozinhos. Gabriel</p><p>não estava mais acostumado a ficar sozinho com a</p><p>amiga.</p><p>Riu desse pensamento.</p><p>— O que foi? — perguntou Marie, olhando para ele</p><p>com um sorriso curioso no rosto.</p><p>— Perto da Ilha existem algumas empresas —</p><p>Gabriel começou a dizer. — Essas empresas atraem</p><p>navios de carga do mundo inteiro, e isso polui o mar ao</p><p>redor. Alguns peixes morrem por causa da poluição, mas</p><p>outros se acostumam com o novo ambiente e</p><p>conseguem sobreviver.</p><p>Marie inclinou a cabeça, ainda olhando para ele.</p><p>— Isso é triste, não? Eles se acostumarem com</p><p>algo ruim?</p><p>Gabriel deu de ombros e voltou a olhar para o sol,</p><p>que já havia subido um pouco mais.</p><p>— É. Mas o engraçado é que somos como os</p><p>peixes. Nós nos acostumamos com a nossa realidade, por</p><p>mais triste que ela seja, e não fazemos nada para mudar</p><p>isso. A diferença é que não somos peixes indefesos.</p><p>— Deixou ainda mais triste, Sol.</p><p>O piloto sorriu ao ouvir Marie o chamar daquele</p><p>jeito. Sentia saudades daquilo.</p><p>— Eu não queria isso — disse, olhando para ela.</p><p>Marie também o fitou. O sol nascente já clareava</p><p>bem o dia, e Gabriel conseguia ver as sardinhas no rosto</p><p>da amiga, que compunham sua beleza com o par de</p><p>olhos verdes e o cabelo castanho.</p><p>Quando eles eram adolescentes, Gabriel gravou</p><p>cada detalhe do rosto de Marie. Ele passava horas a</p><p>observando em segredo, sem jamais a deixar o pegar.</p><p>Sabia como ela ficava quando estava com vergonha,</p><p>feliz, com medo... Mas também sabia como ela ficava</p><p>quando estava triste. E naquele momento, Marie o</p><p>olhava com as pupilas dilatadas, não de paixão, e sim de</p><p>tristeza.</p><p>— O que aconteceu, Mar?</p><p>Ela abaixou os olhos e engoliu em seco.</p><p>— O Matheus me pediu em casamento — soltou de</p><p>uma vez.</p><p>Gabriel piscou repetidamente, tentando assimilar a</p><p>novidade.</p><p>— Uau! — exclamou, sem saber o que dizer.</p><p>— É só isso? Você não vai falar mais nada? — Marie</p><p>perguntou.</p><p>— Eu não sei o que dizer — Gabriel admitiu. Então,</p><p>olhou para a mão da amiga, procurando por um anel</p><p>diferente. — Você aceitou?</p><p>Marie imediatamente escondeu a mão atrás do</p><p>corpo. Gabriel ergueu os olhos e a viu colocando o cabelo</p><p>atrás da orelha.</p><p>— Não — respondeu ela, olhando para longe dele.</p><p>— Eu não aceitei.</p><p>O piloto não sabia o porquê, mas aquela resposta</p><p>acalmou seu coração.</p><p>— Vocês terminaram?</p><p>A amiga assentiu.</p><p>— É por isso que está triste?</p><p>Marie hesitou por um segundo, mas assentiu</p><p>novamente.</p><p>— E o que ele disse?</p><p>Marie balançou a cabeça.</p><p>— Eu não quero falar sobre isso agora.</p><p>— Por que você não aceitou? — Gabriel não</p><p>conseguiu evitar que a pergunta voasse de sua boca.</p><p>Marie olhou para ele, os olhos cheios de lágrimas.</p><p>Gabriel se sentiu péssimo por saber que ela estava</p><p>sofrendo. Queria socar a cara de Matheus por ele ter feito</p><p>aquilo com a sua amiga, mas, principalmente, queria</p><p>socar a si mesmo por ter apresentado os dois. E queria</p><p>abraçá-la e sugar toda a tristeza e dor que Marie estava</p><p>sentindo. Mas não podia fazer isso, só podia a olhar e</p><p>tentar mostrar que era isso o que sentia. Porque, mesmo</p><p>tendo as melhores intenções, ele não podia dar a ela</p><p>tudo o que queria.</p><p>— Realmente... eu não quero falar sobre isso —</p><p>respondeu Marie, afastando o olhar novamente.</p><p>Gabriel assentiu e não perguntou mais nada.</p><p>Voltaram a olhar para o horizonte.</p><p>Você não pode fazer isso. Com ninguém. Muito</p><p>menos com ela.</p><p>Gabriel entrou no bugue com Nathan e Edgar. Atrás</p><p>deles, em outro bugue, estavam Mavi, Marie, Stacy e o</p><p>pobre Kalil. Ele tentara trocar de lugar com Edgar, mas o</p><p>primo disse que preferia morrer a estar em um bugue</p><p>com Stacy dando gritinhos afetados todas as vezes que</p><p>descessem uma duna. E esse seu comentário causou</p><p>uma briga de 20 minutos entre os dois.</p><p>Mas, finalmente, todos estavam em seus lugares.</p><p>Eles passaram pela costa da cidade, indo em direção às</p><p>dunas, montanhas de areia com piscinas naturais em</p><p>certos pontos. Algumas tinham tirolesas ou lonas que</p><p>eram usadas como tobogãs. Gabriel estava mais do que</p><p>animado para ir em todas.</p><p>— Com emoção, senhores? — perguntou Vanderlei,</p><p>o guia deles.</p><p>Gabriel traduziu para os amigos.</p><p>— Sim! — os três gritaram.</p><p>— Pode colocar pressão nesse negócio, amigo! —</p><p>Gabriel falou para o guia, em português.</p><p>Eles já estavam alcançando as dunas. Gabriel tinha</p><p>certeza de que nada se aproximava da sensação de</p><p>pilotar um carro a 300 quilômetros por hora, mas achava</p><p>que se algo podia chegar perto disso, era descer dunas</p><p>de quase 30 metros. Seria uma experiência interessante.</p><p>— Você conversou com a Marie hoje? — perguntou</p><p>a Nathan, que estava ao seu lado.</p><p>O amigo olhou para ele de soslaio.</p><p>— Sim, por quê?</p><p>Gabriel deu de ombros.</p><p>— Por nada.</p><p>— Aí vem uma! — avisou o guia.</p><p>O outro bugue parou ao lado deles e Kalil gritou por</p><p>Gabriel.</p><p>Ele olhou para o amigo, que estava sorrindo.</p><p>— Se o seu chegar lá primeiro, eu te deixo me</p><p>passar na Bélgica — desafiou Kalil.</p><p>Gabriel riu.</p><p>— Para isso, vai precisar me passar primeiro —</p><p>respondeu, depois olhou para Vanderlei e gritou: — Vai,</p><p>vai!</p><p>O guia pisou no acelerador e o bugue desceu a</p><p>duna. Por um segundo, Gabriel pensou que eles iriam</p><p>capotar e morrer. Seu coração acelerou e ele gritou a</p><p>plenos pulmões, esperando que aquilo aliviasse o frio em</p><p>sua barriga. Quando finalmente chegaram ao fim da</p><p>descida, ele respirou fundo e olhou para cima, onde o</p><p>outro bugue ainda estava.</p><p>Quando parou ao lado deles, Gabriel viu o rosto do</p><p>amigo totalmente risonho.</p><p>— Vai ter que parar na pista, Faez!</p><p>Kalil olhou para ele.</p><p>— Se esse for o preço para ter vivido isso aqui, está</p><p>ótimo. Eu consigo conquistar aquela posição de novo.</p><p>Gabriel adorava ter amigos assim.</p><p>Gabriel cresceu com o nome de Ayrton Senna em</p><p>sua mente, gravada com ferro quente em sua pele.</p><p>Ouvira aquele nome todos os dias durante a sua infância</p><p>e adolescência. Sabia quão grande e magnífico o piloto</p><p>tinha sido para o seu país. Ayrton Senna era a sua</p><p>inspiração, Gabriel queria ser como ele, apesar de todos</p><p>dizerem que era impossível alguém chegar aos pés do</p><p>Rei de Mônaco.</p><p>Quando finalmente entrou na Fórmula 1 e mostrou</p><p>que tinha a chance de brigar pelo título mundial, Gabriel</p><p>percebeu o que isso traria ao seu país: um novo piloto</p><p>para amar e torcer. E ele adorava a sensação de seu país</p><p>o apoiar e gritar o seu nome nas arquibancadas. Era</p><p>incrível!</p><p>Desde que pisaram no restaurante em que</p><p>pararam para almoçar naquele dia, Gabriel ouviu</p><p>milhares de vezes a frase: “Este ano é seu, Pires!”. Ele</p><p>amava ouvir isso, porque era o desejo do seu coração.</p><p>Sua família e seu país eram as coisas mais importantes</p><p>para Gabriel. Havia sido criado com a euforia e o amor</p><p>brasileiro. Era o seu país, e ele queria levar o título para</p><p>casa. Mas estava tão nervoso com a ideia de não</p><p>conseguir e de decepcionar a todos que, cada vez que</p><p>ouvia aquilo, ele se sentia mais pressionado.</p><p>Depois da décima pessoa que o parou naquele dia</p><p>e disse aquela frase, Gabriel desligou seus ouvidos para</p><p>qualquer coisa. Aceitava as fotos e dava autógrafos, mas</p><p>não ouvia o que diziam a ele. Sabia que não faziam por</p><p>mal, mas estava muito frustrado por ter</p><p>abandonado a</p><p>última corrida, e a lembrança daquele domingo parecia</p><p>um pesadelo.</p><p>— O papai falou que está tentando falar com você</p><p>desde ontem — disse Mavi, colocando carne em seu</p><p>prato.</p><p>Era só o que me faltava!</p><p>Gabriel não olhou para a irmã. Ele se afastou do</p><p>bufê e andou até a mesa que havia sido reservada para</p><p>eles. Mavi o seguiu de perto, segurando o prato cheio na</p><p>mão.</p><p>— Gabe, você não pode o ignorar.</p><p>O piloto não respondeu. Sentou-se à mesa e</p><p>começou a comer. Quando pegou a comida com o garfo,</p><p>pensou no quanto ela parecia gostosa, mas naquele</p><p>momento, sentia como se tivessem trocado a polenta por</p><p>lama.</p><p>— Ele quer que a gente vá até Faenza antes do fim</p><p>das férias. Francesca quer nos conhecer — Mavi</p><p>continuou dizendo, sem parecer se importar por estar</p><p>sendo ignorada.</p><p>Os outros começaram a caminhar para a mesa, e</p><p>Gabriel agradeceu aos céus por aquele assunto estar</p><p>prestes a morrer.</p><p>Kalil se sentou em frente à namorada, e Nathan em</p><p>frente a Gabriel.</p><p>— O que aconteceu, mataram o seu gato? —</p><p>Nathan perguntou a Gabriel enquanto tirava os talheres</p><p>do plástico.</p><p>Gabriel balançou a cabeça.</p><p>— O Adam quer que a gente vá para a Itália, e o</p><p>Gabriel está me ignorando enquanto eu falo isso —</p><p>contou Mavi, olhando para todos.</p><p>Ela era a pessoa mais calada que Gabriel conhecia,</p><p>mas parecia que uma vitrola havia sido colocada em sua</p><p>garganta desde que chegaram ao Brasil. Gabriel tinha</p><p>que lembrar que ele não podia mandá-la calar a boca,</p><p>eles não eram crianças.</p><p>— Não ignore a minha namorada, idiota! — disse</p><p>Kalil, com os olhos semicerrados.</p><p>— Ela é minha irmã, bonitão! — Gabriel respondeu,</p><p>sério. — E eu não vou para a Itália para ver aquele</p><p>homem. Se quiser, pode ir sozinha.</p><p>Mavi o olhou como se ele tivesse matado o seu</p><p>gato. Gabriel não conseguia entender a paixão dela pelo</p><p>pai deles. O cara era um idiota, tinha abandonado os dois</p><p>na maior cara de pau, mas depois que Mavi apareceu na</p><p>vida deles, decidiu que queria ser o pai do ano. No</p><p>entanto, ao contrário da irmã, Gabriel não queria ter</p><p>nada a ver com ele.</p><p>— Vocês precisam se resolver — Mavi disse em voz</p><p>baixa, como se lhe doesse falar aquilo.</p><p>Gabriel riu com sarcasmo. Abriu a boca, pronto</p><p>para rebater, mas antes que conseguisse dizer algo, uma</p><p>voz doce soou do outro lado da mesa:</p><p>— Me falaram que aquelas redes são ótimas para</p><p>tirar fotos. — Era Marie, parecendo empolgada.</p><p>E ele nunca se sentiu tão grato quanto naquele</p><p>momento.</p><p>Capítulo 17</p><p>Marie, 17 anos.</p><p>Gabriel, 18 anos.</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Gabriel odiava aquelas festas idiotas em iates,</p><p>principalmente quando se tratava do iate de Michel, o</p><p>maior idiota de Mônaco. O que ele mais queria era voltar</p><p>para casa e se jogar no sofá para assistir a uma série de</p><p>comédia na televisão, ou então passar um tempo</p><p>treinando em seu novo simulador. Mas não podia</p><p>abandonar seus amigos, ainda mais quando eles quase</p><p>nunca se viam.</p><p>O piloto havia acabado de debutar na Fórmula 2, e</p><p>isso o fez se afastar de grandes amigos que ainda</p><p>corriam na Fórmula 3. Mas eram as férias de verão, e</p><p>alguns deles estavam em Mônaco. Quando o chamaram</p><p>para ir à festa, ele nem parou para pensar, seria</p><p>divertido passar um tempo com os caras.</p><p>Estava sentado na proa do iate, tentando se</p><p>manter o mais afastado possível da multidão. Observava</p><p>o mar, sem se importar com a festa rolando ao seu redor.</p><p>Havia sido largado por seus amigos, que foram atrás de</p><p>moças bonitas na pista de dança, e ele estava bem</p><p>pouco interessado naquilo.</p><p>Pegou seu telefone novamente e verificou se</p><p>chegara alguma resposta de Marie. Ela havia</p><p>desaparecido, e Gabriel não estava nem um pouco</p><p>satisfeito com essa situação.</p><p>“A gente podia assistir quando eu voltar.”</p><p>A mensagem dele brilhava na tela, mas ainda não</p><p>havia sido recebida.</p><p>Gabriel esperava que quando voltasse para casa,</p><p>Marie estivesse lá e eles pudessem fazer alguma coisa</p><p>juntos. Essa era uma das grandes vantagens de ter ido</p><p>morar em Mônaco. Ele podia ver Marie quando quisesse,</p><p>e ela sempre arrumava uma desculpa para ir até o seu</p><p>apartamento. Gabriel adorava isso.</p><p>— Oi!</p><p>Ele se segurou para não revirar os olhos ao ouvir a</p><p>voz feminina atrás de si. Já era a quarta que se</p><p>aproximava.</p><p>— Oi — respondeu, colocando seu melhor sorriso</p><p>no rosto.</p><p>Mesmo que não estivesse interessado naquela</p><p>noite, poderia estar em um outro dia, então não queria</p><p>que aquelas garotas espalhassem que ele era uma</p><p>pessoa pouco receptiva. Por isso, apenas enrolou uma</p><p>conversa antes de dispensá-la discretamente. A fama de</p><p>difícil era melhor que a de babaca.</p><p>Suspirou, levantou-se da proa e começou a</p><p>caminhar para a saída do iate, louco para bater à porta</p><p>de Marie e pedir para ela lhe contar sobre qualquer que</p><p>fosse a história que estivesse lendo naquele dia. Era a</p><p>melhor parte do seu dia, fosse por ligação ou</p><p>pessoalmente.</p><p>Ele estava chegando à saída quando ouviu alguém</p><p>gritar. Olhou para dentro da cabine e viu um homem</p><p>enorme forçando o corpo contra a parede, então correu</p><p>para dentro ao ouvir o grito novamente.</p><p>— Me solta, seu babaca! — Marie gritou,</p><p>debatendo-se, tentando fazer Michel soltar seu braço. —</p><p>Você é um idiota!</p><p>— Uma pena que nenhum dos seus pilotinhos</p><p>esteja aqui para te salvar, pequena — provocou ele, com</p><p>um sorriso na voz.</p><p>Maldita fosse a hora em que Stacy a convenceu de</p><p>ir àquela festa. Ela deveria saber que algo daria errado,</p><p>ainda mais com Michel por perto. Ele tinha o talento de</p><p>fazer besteira.</p><p>— Não importa se eles estão por perto ou não,</p><p>você não vai fazer nada! — Marie disse com convicção.</p><p>Michel a olhou.</p><p>— Como pode ter tanta certeza?</p><p>— Porque você é um idiota, mas não é burro. E</p><p>pode ter certeza de que eu contaria. Isso acabaria com a</p><p>sua festa, fofo!</p><p>Talvez ela tivesse errado a mão com a afronta, já</p><p>que depois de dizer isso, Michel forçou seus braços para</p><p>baixo e tentou beijá-la. Marie virou o rosto e gritou</p><p>novamente, xingando-o dos piores nomes que podia</p><p>pensar.</p><p>Um segundo depois, o peso dele havia sumido de</p><p>cima dela, e o braços de Marie não sentiram mais a força</p><p>dele. Abriu os olhos e viu outro homem em cima de</p><p>Michel, socando seu rosto, o que arrancou outro grito</p><p>dela. Mas Marie não fez o mínimo esforço para tirar quem</p><p>quer que fosse de cima do idiota.</p><p>— Meu Deus! Só não o mate, por favor! —</p><p>exclamou.</p><p>Michel começou a se debater para se defender,</p><p>mas o homem era bem maior, bem mais forte e mais</p><p>rápido. Os reflexos do cara eram incríveis. Marie se</p><p>encostou na parede, não querendo que algo acontecesse</p><p>com ela, mas quando gritou, o homem parou e se virou.</p><p>Marie arregalou os olhos quando percebeu que</p><p>aquele era Gabriel, e notou quando ele percebeu que era</p><p>ela, pois a raiva dele aumentou. Os socos e chutes</p><p>ficaram ainda mais fortes quando o piloto se concentrou</p><p>novamente em Michel, e dessa vez Marie também foi</p><p>para cima dele.</p><p>— Gabriel, para! — gritou ela, puxando sua camisa.</p><p>— Escuta a sua namorada, Pires — Michel teve a</p><p>coragem de dizer.</p><p>— Cala a boca, Michel! — Marie ordenou. O homem</p><p>era burrinho mesmo.</p><p>— Você é um porco! — gritou Gabriel, largando</p><p>Michel no chão e se levantando. — Nunca mais toque</p><p>nela, ouviu? — esbravejou ao se afastar.</p><p>Michel, que ainda estava no chão, gemeu um</p><p>pouco ao tentar se sentar.</p><p>— Você não vai estar perto sempre — provocou,</p><p>olhando para Gabriel com raiva.</p><p>O piloto avançou para cima dele novamente, mas</p><p>Marie correu e parou à sua frente.</p><p>— Não, não vale a pena — murmurou para ele.</p><p>Gabriel estava ofegante e com os olhos brilhando</p><p>de ódio, mas quando a olhou, toda a sua raiva</p><p>desapareceu, sendo substituída por preocupação.</p><p>— Você está bem? — perguntou e colocou as mãos</p><p>nas bochechas dela. — Ele fez alguma coisa?</p><p>Marie balançou a cabeça, sentindo-se nervosa pela</p><p>primeira vez em toda a situação.</p><p>— Eu só quero ir embora daqui — disse em um</p><p>sussurro.</p><p>Gabriel assentiu e começou a guiá-la para fora da</p><p>cabine, mas quando estavam atravessando a porta,</p><p>Michel o chamou. Gabriel se virou, e um segundo depois,</p><p>Marie ouviu um</p><p>urro de dor. Ela viu o piloto colocar a mão</p><p>no rosto e entendeu o que havia acontecido. O babaca o</p><p>tinha socado.</p><p>— Você não cansa? — perguntou ao idiota e correu</p><p>até Gabriel.</p><p>— Não venha ao meu iate se vai me bater! —</p><p>Michel falou antes de sair da cabine.</p><p>Dois anos haviam se passado desde que Marie e</p><p>Gabriel tinham se beijado. E apesar de eles ignorarem</p><p>aquele episódio, sempre que Marie se afastava ou</p><p>recusava o seu toque, Gabriel se lembrava daquilo. Mas</p><p>se ele soubesse que só precisava entrar em uma briga</p><p>para que Marie tocasse nele novamente, teria feito</p><p>antes, com certeza.</p><p>Assim que chegaram ao seu apartamento, Marie o</p><p>levou até o banheiro para cuidar de seu olho, que pela</p><p>manhã estaria roxo. Ela estava passando uma pomada, e</p><p>ele focou nos dedos dela, sem querer encarar seus olhos,</p><p>que deviam estar tristes.</p><p>Gabriel odiava ver Marie triste ou chorando. Nas</p><p>poucas vezes que tinha acontecido, ele queria matar</p><p>quem a deixara daquela maneira. Quando entrou na</p><p>cabine, ele não sabia quem era a menina com quem</p><p>Michel estava mexendo, e mesmo assim sua raiva</p><p>transbordou. Mas quando viu que a menina era Marie...</p><p>Ele nunca havia sentido tanto ódio quanto naquele</p><p>momento. Se ela não o tivesse parado, Gabriel</p><p>suspeitava de que fosse estar atrás das grades</p><p>esperando por seu advogado.</p><p>— O que você estava fazendo lá? — ele conseguiu</p><p>perguntar.</p><p>Marie não gostava de festas, era raro vê-la em</p><p>uma, e normalmente Gabriel era o responsável por levá-</p><p>la.</p><p>— Stacy. Ela me convenceu a ir — respondeu Marie,</p><p>com a voz embargada.</p><p>Gabriel ergueu os olhos e viu que ela parecia</p><p>prestes a chorar. No mesmo instante, passou os braços</p><p>pela sua cintura e a puxou para mais perto, apoiando a</p><p>cabeça em seu estômago.</p><p>— E por que não me disse que estava indo?</p><p>— Eu não queria que pensasse que deveria cuidar</p><p>de mim — respondeu Marie, passando os braços pelas</p><p>costas do piloto e o abraçando de volta.</p><p>— Mas isso se provou necessário, não acha?</p><p>Ela riu.</p><p>— Não. O Michel não iria fazer nada. Ele é covarde</p><p>demais para isso.</p><p>Gabriel ergueu a cabeça e a olhou. Ele não</p><p>conseguia entender como Marie podia ser tão corajosa e</p><p>tão calma, mesmo em situações como aquela.</p><p>— Como pode saber?</p><p>Marie suspirou e passou as mãos pelo cabelo dele.</p><p>Gabriel sentira muita falta disso.</p><p>— Porque eu já fui a vários lugares em que ele</p><p>estava e nunca aconteceu nada. Hoje, provavelmente ele</p><p>te viu lá e quis te provocar.</p><p>— Ele saiu na pior... — comentou Gabriel, abrindo</p><p>um sorriso sarcástico.</p><p>Marie passou o dedo sobre seu olho machucado.</p><p>— Não que você esteja muito melhor, não é? Como</p><p>vai posar para as belas fotos durante o verão com esse</p><p>olho roxo?</p><p>Gabriel dispensou o comentário com um gesto de</p><p>cabeça.</p><p>— O que importa é que o Michel está pior.</p><p>Marie riu novamente.</p><p>— Eu não posso nem brigar com você por dizer</p><p>isso.</p><p>— Não mesmo.</p><p>Gabriel sorriu e ficou observando o rosto de Marie.</p><p>As sardinhas no nariz estavam mais aparentes pelo sol</p><p>do verão, suas bochechas estavam um pouco</p><p>avermelhadas, os lábios também estavam queimados,</p><p>ficando inchados e vermelhos, ainda mais bonitos do que</p><p>eram normalmente.</p><p>Ele engoliu em seco, observando quando ela os</p><p>abriu em um breve suspiro e se abaixou um pouco,</p><p>aproximando-se. Gabriel sentiu o coração acelerar e a</p><p>excitação pelo que estava prestes a acontecer, mas</p><p>então seu cérebro entrou em ação e o lembrou das</p><p>cartas queimadas dois anos antes.</p><p>Ela é seu mar, Gabriel, não deixe isso acontecer.</p><p>Gabriel não podia beijá-la de novo. Não quando</p><p>tudo estava indo bem.</p><p>Marie deve ter visto a confusão nos olhos do piloto,</p><p>já que se desvencilhou de seus braços e andou até o</p><p>outro lado do banheiro. Apoiou as mãos no mármore da</p><p>bancada e abaixou a cabeça, respirando fundo. Gabriel</p><p>pôde sentir a frustração emanando dela, mas não sabia</p><p>se era pelo beijo não ter acontecido ou se por mais uma</p><p>vez esses sentimentos aflorarem.</p><p>— Marie, eu...</p><p>— Eu tenho que ir — ela o cortou.</p><p>Marie virou-se para ele com o sorriso mais falso</p><p>que Gabriel já tinha visto.</p><p>— Prometi ao Theo que iria dar comida para o</p><p>peixe dele esta noite, acabei me esquecendo — disse,</p><p>guardando os remédios que tinha usado no machucado</p><p>dele. — Você sabe como ele ama aquele peixe. Se eu</p><p>deixá-lo morrer, ele vai me matar e me enterrar junto —</p><p>continuou, nervosa.</p><p>Gabriel se levantou, andou até ela e segurou suas</p><p>mãos. Marie parou por um momento e fixou seus olhos</p><p>no toque dele.</p><p>— Mar, olhe para mim.</p><p>Marie balançou a cabeça.</p><p>— Para, ok?! Para com isso! — pediu, soltando-se</p><p>da mão dele e andando para o mais longe que podia</p><p>dentro do cômodo pequeno. — Eu não preciso de outro</p><p>momento “a gente se ama, mas não vai rolar”. Um foi</p><p>mais do que o suficiente.</p><p>Gabriel se sentiu vacilar ao ouvir aquilo. E pior,</p><p>Marie estava certa.</p><p>— Sol, é melhor ignorarmos isso, como fizemos da</p><p>outra vez — concluiu ela, saindo do banheiro.</p><p>Ele a seguiu. Marie foi até a sala para pegar a sua</p><p>bolsa.</p><p>— Momentos assim vão acontecer, temos que</p><p>aprender a ignorar. É isso... ou nunca mais falarmos um</p><p>com o outro — ponderou Marie, de costas para ele.</p><p>Gabriel parou no meio da sala e não conseguiu se</p><p>mexer. Ficar sem falar com Marie para sempre? Aquilo</p><p>estava fora de questão em muitos sentidos!</p><p>— A gente se vê no Kalil amanhã — disse ela,</p><p>abrindo a porta. — Boa noite, Sol. — E saiu. Sem olhar</p><p>para trás.</p><p>Idiota! Idiota! Idiota!</p><p>Gabriel sentou-se no sofá e colocou as mãos no</p><p>cabelo, com a raiva por Michel sendo substituída pela</p><p>raiva por si próprio. Porque ele soube assim que Marie</p><p>saiu que o nível de raiva que ela ficara de Michel não se</p><p>comparava ao nível de mágoa dele naquele momento.</p><p>Capítulo 18</p><p>Dias atuais.</p><p>Jericoacoara, Ceará, Brasil.</p><p>Marie deveria tê-lo evitado ao máximo, mas não</p><p>conseguiu. Era como se seu corpo e sua mente</p><p>estivessem programados para correr para Gabriel sempre</p><p>que se sentisse com medo ou triste. A cada minuto que</p><p>passava, ela tinha mais certeza de que talvez Matheus</p><p>estivesse certo.</p><p>Mas estava com tanto medo disso... Por que tinha</p><p>que ser tão complicado?</p><p>Já era tarde quando todos voltaram de um belo</p><p>restaurante na cidade, onde haviam jantado. Stacy e</p><p>Mavi já estavam dormindo, mas Marie não conseguia. Ela</p><p>continuava se revirando na cama e repassando cada</p><p>momento de seu namoro. Será que era uma namorada</p><p>tão ruim, a ponto de não se importar em estar presente</p><p>quando Matheus precisou?</p><p>Aquilo a estava corroendo, Marie sentia-se prestes</p><p>a sufocar com aqueles pensamentos. Sentou-se na cama</p><p>e respirou fundo, buscando acalmar seus sentidos. Ela</p><p>não podia dormir muito tarde, pois no dia seguinte</p><p>acordariam cedo para algum passeio do qual não</p><p>conseguia se lembrar.</p><p>Olhou para o lado, na esperança de que uma de</p><p>suas amigas ainda estivesse minimamente acordada,</p><p>mas as duas já estavam mortas para o mundo havia</p><p>muito tempo.</p><p>Puxou as pernas para o peito e apoiou a cabeça</p><p>nos joelhos, suspirando, cansada. Em nenhum momento</p><p>do dia tinha conseguido relaxar. Sempre que Gabriel se</p><p>aproximava dela, Marie segurava a respiração e tentava</p><p>não deixar seu corpo se jogar sobre o dele. Era cansativo.</p><p>Sentia como se tivesse voltado a ter 15 anos. E já tinha</p><p>superado aquilo, ela não precisava de mais anos</p><p>apaixonada por alguém que não a correspondia.</p><p>Marie ouviu seu celular vibrar sobre a mesa de</p><p>cabeceira e logo o pegou, esperando que pudesse ter</p><p>recebido a notificação de alguma distração.</p><p>“Está acordada?”</p><p>Era a mensagem de Gabriel que brilhava na tela.</p><p>Marie sorriu.</p><p>Ela estava ferrada!</p><p>A lua brilhava com intensidade, já anunciando o</p><p>nível de sol que viria no dia seguinte. Mas para o alívio</p><p>de Marie, uma brisa suave bateu em seu rosto quando</p><p>ela e Gabriel entraram no terraço e caminharam, lado a</p><p>lado, até a mesa de piquenique. Ele se sentou com uma</p><p>perna de cada lado do banco, ficando de frente para ela.</p><p>Marie não olhou para Gabriel, manteve sua visão</p><p>direcionada ao horizonte, onde o mar estava localizado.</p><p>Sentia que, caso o olhasse, não iria conseguir esconder</p><p>nenhum de seus sentimentos. Ela estava tão confusa e</p><p>com tanto medo. Sentimentos adolescentes eram fáceis</p><p>de superar, mas e se aquilo que havia se acendido</p><p>dentro dela não fosse como da última vez? Marie não</p><p>sabia como poderia seguir com a amizade entre eles e</p><p>agir como se nada estivesse acontecendo.</p><p>Ousou olhar para o amigo por um segundo e</p><p>flagrou um pequeno sorriso marcando o rosto bronzeado</p><p>de Gabriel.</p><p>— Por que está sorrindo?</p><p>Gabriel balançou a cabeça, sendo despertado de</p><p>qualquer lugar em que estivesse, e olhou para ela,</p><p>confuso.</p><p>— O quê?</p><p>— Você estava sorrindo. O que aconteceu?</p><p>Ele voltou a sorrir, mas dessa vez olhando para</p><p>Marie.</p><p>— Lembra quando você quis aprender a falar</p><p>português?</p><p>Marie abriu um sorriso saudoso.</p><p>— Lembro. Eu queria te impressionar — confessou,</p><p>com a voz tão baixa que Gabriel quase teve que se</p><p>aproximar mais para ouvir. — Quando a sua avó</p><p>entendeu o que eu estava falando, senti que tinha</p><p>conseguido.</p><p>— Você queria me impressionar? — perguntou o</p><p>piloto, embasbacado.</p><p>Marie olhou para ele, um pouco envergonhada por</p><p>ter admitido aquilo em voz alta.</p><p>— Como se você não soubesse...</p><p>— Eu não sabia. Para mim, você queria apenas</p><p>parar de depender de mim ou da minha mãe para se</p><p>comunicar com a minha avó.</p><p>Marie riu.</p><p>— Você era mesmo desligado — concluiu. — Eu</p><p>amo a sua avó, e me comunicar com ela era um dos</p><p>objetivos, com certeza. Mas eu também queria que você</p><p>visse que eu fazia questão de estar por perto, que eu</p><p>realmente queria que a sua família gostasse de mim.</p><p>Gabriel se aproximou um pouco e a olhou como se</p><p>Marie tivesse revelado que sabia a solução para todos os</p><p>problemas do mundo. Ele parecia tão impressionado que</p><p>ela precisou desviar o olhar.</p><p>— Por que nunca me contou?</p><p>— Porque não é algo que se chega contando para o</p><p>garoto de quem gosta — respondeu Marie, dando de</p><p>ombros. — A maior parte das coisas que fiz na</p><p>adolescência quando você estava por perto foi porque eu</p><p>sabia que atrairia a sua atenção.</p><p>Foi a vez de Gabriel rir.</p><p>— Mar, você poderia passar o dia inteiro calada e</p><p>ainda assim atrairia a minha atenção.</p><p>Marie soltou um suspiro e sentiu as borboletas</p><p>voarem em seu estômago. Tentou não demonstrar isso</p><p>para ele, mas tinha certeza de que estava falhando.</p><p>— Verdade?</p><p>Gabriel assentiu, aproximando-se ainda mais, com</p><p>os olhos focados nos seus.</p><p>— O que está sentindo pelo término?</p><p>Marie teve seus pensamentos nublados por um</p><p>instante.</p><p>— Eu seria uma péssima pessoa se dissesse que</p><p>não pensei nisso nos últimos minutos?</p><p>O piloto abriu um pequeno sorriso e balançou a</p><p>cabeça.</p><p>— Não, não seria.</p><p>— Que bom — respondeu ela, soltando um suspiro.</p><p>Sentiu a respiração de Gabriel mais próxima de seu</p><p>rosto e engoliu em seco, com medo do que poderia dizer.</p><p>Observou aquele rosto bronzeado pelos últimos dias de</p><p>sol. A barba por fazer mostrava que ele não se</p><p>preocupara com a própria aparência desde que</p><p>chegaram ali, e Marie não conseguiu deter sua mão</p><p>quando tocou o maxilar dele. Acariciou a bochecha e se</p><p>deixou sorrir um pouco. Era tão certo.</p><p>Levou os dedos até os lábios de Gabriel e acariciou</p><p>de leve. Ainda eram tão macios quanto ela se lembrava.</p><p>Tomou coragem e aproximou os próprios lábios dos dele,</p><p>que não fugiu. E quando seus lábios se tocaram, Marie</p><p>não sentiu vontade de estar em qualquer outro lugar.</p><p>Gabriel colocou uma mão na nuca de Marie e a</p><p>outra em sua cintura, puxando-a para si e</p><p>correspondendo ao beijo.</p><p>O cérebro de Marie dizia para ela correr para longe</p><p>dele, mas ela não ligou, assim como quando tinha 15</p><p>anos. Marie só queria aproveitar cada segundo de</p><p>proximidade com Gabriel e curtir aquela sensação</p><p>incrível. Imaginar que ele era dela e que ficariam daquela</p><p>maneira para sempre.</p><p>Mas para sempre era muito tempo, e eles não</p><p>tinham aquilo nas mãos para ficar. Gabriel despertou de</p><p>qualquer que fosse o transe que o permitira ceder e se</p><p>afastou de Marie com a mesma rapidez com que havia se</p><p>aproximado.</p><p>Ele se levantou e andou para longe da mesa. E não</p><p>olhou para Marie em nenhum momento. Se olhasse, iria</p><p>ver a confusão e o devastamento nos olhos dela.</p><p>Marie virou-se para a frente e voltou a olhar para o</p><p>mar. Ela não queria ver Gabriel se arrependendo daquele</p><p>beijo. Isso só a machucaria ainda mais.</p><p>— Eu... — ele começou a dizer, com a voz rouca.</p><p>Marie fechou os olhos e abaixou a cabeça. Você não vai</p><p>chorar. Não aqui. Não agora. — Eu vou descer.</p><p>Marie não respondeu, apenas continuou sentada</p><p>ali, em silêncio.</p><p>Ouviu os passos de Gabriel se afastando. Ouviu</p><p>quando ele abriu a porta e a fechou. Então, permitiu-se</p><p>chorar. Chorar pelo seu relacionamento fracassado,</p><p>chorar pelo seu amor não correspondido, chorar pelo seu</p><p>orgulho ferido e, principalmente, pela única pessoa para</p><p>quem queria pedir um ombro para chorar ser a causa de</p><p>sua tristeza.</p><p>Marie sentia o coração doendo. Doía tanto que seu</p><p>peito parecia prestes a ser perfurado. Ela não sabia o que</p><p>fazer, não sabia como agir. Naquele momento, ela se</p><p>sentiu muito sozinha. Era desesperador. Ela queria correr</p><p>para a porta e pedir para Gabriel voltar, mas não podia.</p><p>Porque, se ele quisesse ficar ali, com ela, ele teria ficado.</p><p>Ele a teria chamado e dito que a queria.</p><p>E que Marie se perdoasse, mas aquilo doeu mil</p><p>vezes mais do que quando Matheus virou as costas para</p><p>ela.</p><p>Sentia-se tola por ter voltado à estaca zero. Fechou</p><p>os olhos bem apertados e respirou fundo. E não percebeu</p><p>quando Gabriel se aproximou novamente e se sentou ao</p><p>seu lado, nem quando os braços fortes dele a rodearam e</p><p>o cheiro dele, tão familiar, tomou conta do casulo que</p><p>formaram, muito menos quando o piloto sussurrou “eu</p><p>estou aqui, Mar” repetidas vezes. Marie não queria ligar</p><p>para nada daquilo, não queria se importar por ele estar</p><p>ali, nem prestar atenção em como seu coração havia se</p><p>acalmado ao perceber que ele estava tão presente.</p><p>Aquele capítulo seria muito pior do que o da</p><p>adolescência.</p><p>Capítulo 19</p><p>Dias atuais.</p><p>Uma semana depois.</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>— Nós somos homens clássicos, Pires, tenha</p><p>ciência disso — falou Nathan, andando na frente de</p><p>Gabriel.</p><p>Os olhares de todos no bar foram atraídos para os</p><p>dois, mas principalmente para Nathan, que andava como</p><p>se fosse o dono do lugar. Ele olhava para algumas</p><p>pessoas, mas não por muito tempo, fazendo parecer que</p><p>elas não eram interessantes o suficiente para que</p><p>olhasse novamente.</p><p>Gabriel nunca havia reparado naquelas coisas até</p><p>aquele momento, e achava que Nate estava forçando</p><p>mais as suas ações para que ele reparasse.</p><p>Sentiu seu cenho franzir com a fala do amigo.</p><p>— Do que você está falando? — perguntou Gabriel,</p><p>já se arrependendo.</p><p>Nathan virou-se para ele e apontou para si mesmo</p><p>vestindo um terno Armani que devia ter custado uma</p><p>pequena fortuna.</p><p>— Nossas roupas, o que bebemos e como agimos</p><p>dizem muito sobre nós, amigo. Temos que fazer jus ao</p><p>nosso nome e ao nosso mundo.</p><p>O piloto olhou para sua calça jeans surrada e sua</p><p>camisa polo preta.</p><p>— Eu sou piloto de Fórmula 1, cara, já fiz jus ao</p><p>meu nome.</p><p>Nate riu.</p><p>— Temos que cuidar dessas suas roupas — disse</p><p>com certo desdém. —Mas o ponto agora é outro, você se</p><p>deixou cair nos encantos de uma mulher, Gabe.</p><p>O piloto revirou os olhos. Maldita fosse a hora em</p><p>que se abrira para Nathan!</p><p>— Mas por que estamos em um bar?</p><p>Nathan o olhou como se ele fosse um idiota.</p><p>— Porque é aqui que começa a sua nova história.</p><p>Seus dias vestindo jeans surrados e polos desbotadas</p><p>acabaram. Você está prestes a entender que um homem</p><p>que se preza não pode se deixar levar pelas suas</p><p>emoções. E é por isso que eu vou te apresentar ao meu</p><p>mentor, o tio Dom! — esclareceu, apontando para o</p><p>homem sério que estava do outro lado do bar,</p><p>supervisionando os dois.</p><p>Gabriel olhou para Dom, confuso. Ele não havia</p><p>reparado que o homem estava ali, e isso só reafirmava</p><p>como Nathan hipnotizava as pessoas com a sua</p><p>maluquice.</p><p>Dominique Martin era enorme. Quase dois metros</p><p>de altura e uma presença invejável – que apenas Nathan</p><p>era capaz de combater,</p><p>avisaram sobre aquela parte?</p><p>Ela saiu do banho e trocou de roupa. Vestiu o</p><p>conjunto de moletom mais confortável que tinha. Estava</p><p>triste e não quis mais se arrumar naquele dia. Pouco se</p><p>importou com o fato de que Gabriel a veria daquele jeito,</p><p>sem maquiagem, com algumas espinhas rebeldes que</p><p>haviam aparecido durante a semana e de cabelo</p><p>molhado. Até porque, ele era o motivo de ela estar</p><p>daquele jeito, mesmo que não soubesse.</p><p>Marie seguiu para o seu quarto, ansiosa para se</p><p>jogar na cama e dormir o máximo que pudesse, e feliz</p><p>em deixar que Gabriel lidasse com Theo, seu irmão</p><p>caçula, e o novo videogame. Mas, como sempre, ele não</p><p>respeitou seu plano.</p><p>Assim que entrou no quarto, Gabriel bateu à porta.</p><p>Marie deu permissão e ele entrou, já de banho tomado e</p><p>roupa trocada. Seu cabelo estava molhado e uma</p><p>bagunça, caindo na testa. Marie fechou os olhos com</p><p>força e gritou para si mesma que deveria se controlar. Ela</p><p>não podia descontar nele algo que o menino nem sabia</p><p>que era culpa sua.</p><p>Gabriel fechou a porta atrás de si e se virou para</p><p>Marie. Seus olhos ainda pareciam preocupados, e Marie</p><p>desviou os seus para o outro lado. Ela caminhou até a</p><p>penteadeira, pegou sua loção pós-banho e a passou. O</p><p>cheiro de morango tomou o ar ao seu redor, o que a</p><p>deixou um pouco feliz. Ela adorava sentir o perfume</p><p>daquela loção tanto quanto adorava 1hama-la pelos seus</p><p>braços.</p><p>Caminhou até a sua cama e se sentou ao lado de</p><p>Gabriel, que havia se acomodado na beirada. Uniu as</p><p>mãos no colo e ficou olhando para elas.</p><p>— Mar, eu sei que você não quer falar, mas eu</p><p>preciso saber... O que aconteceu? — Gabriel foi o</p><p>primeiro a quebrar o silêncio.</p><p>Marie já estava um pouco cansada daquela</p><p>insistência. Ela não queria mentir, mas falar a verdade</p><p>não parecia uma boa opção.</p><p>— Nada, Gabriel. Está tudo bem. Eu só estou</p><p>cansada — respondeu, o tom de sua voz transparecendo</p><p>toda a sua impaciência.</p><p>— Mas você estava chorando! — retrucou ele,</p><p>triste.</p><p>— Estou chorando muito ultimamente. Não tem</p><p>nada de errado, de verdade.</p><p>Gabriel não pareceu acreditar nela.</p><p>— Eu fiz alguma coisa? — perguntou.</p><p>Marie respirou fundo, tentando manter o controle e</p><p>lembrar-se de que o menino não sabia de nada.</p><p>— Cara, esquece isso! — exclamou, com raiva. —</p><p>Não tem nada que você possa fazer, ok? — Você podia</p><p>me amar como eu te amo, mas... — Eu vou descansar e</p><p>tudo vai voltar ao normal.</p><p>Sempre volta, ela pensou com pesar.</p><p>— Não, Marie! Alguma coisa aconteceu, e eu quero</p><p>saber o que foi! — disse Gabriel, também ficando</p><p>irritado.</p><p>Ela se levantou e passou a mão pelo cabelo,</p><p>aborrecida.</p><p>— Não tem nada a ver com você, então, não</p><p>importa! Esquece isso, Gabriel.</p><p>Ele também se levantou.</p><p>— Eu não vou esquecer, Mar! Alguém te fez chorar,</p><p>e eu odeio quando você chora.</p><p>Marie riu.</p><p>— Muitas pessoas vão me fazer chorar ainda, você</p><p>não pode ficar com raiva de todas elas — respondeu,</p><p>colocando as mãos na cintura. — A vida é assim!</p><p>Gabriel balançou a cabeça.</p><p>— Eu não só posso... como vou! Ninguém pode te</p><p>magoar, não enquanto eu estiver por perto. E pode ter</p><p>certeza de que qualquer um que fizer isso, vai pagar!</p><p>Marie evitou olhar para ele, não querendo voltar a</p><p>chorar.</p><p>Gabriel se aproximou e pegou suas mãos.</p><p>— Me conta o que aconteceu, Mar.</p><p>O sangue de Marie esquentou, colocando-a em seu</p><p>limite. Ela puxou as mãos com força e falou quase</p><p>gritando:</p><p>— Você, Gabriel! Você aconteceu! Eu te vejo todos</p><p>os dias, e no único momento em que eu saio de perto de</p><p>você, para tentar não pensar em você, você beija a</p><p>minha amiga! — Sim, ela estava chorando de novo. — E</p><p>então, eu preciso pensar em como agir, como se isso não</p><p>me matasse por dentro, e tentar esconder todos esses</p><p>mil sentimentos que eu tenho por você por mais algum</p><p>tempo, mas eu não aguento mais!</p><p>Marie se afastou e se virou para a parede,</p><p>querendo esconder seu rosto, vermelho de raiva e</p><p>tristeza. Ela não conseguia acreditar no que acabara de</p><p>fazer. No que acabara de dizer! Como olharia para</p><p>Gabriel depois daquilo?</p><p>— Mar...?</p><p>Ela voltou-se para ele.</p><p>— Não. Nada de Mar. Eu estou cansada, Gabriel.</p><p>Estou cansada demais de tudo isso. Eu não espero uma</p><p>declaração sua, porque sei que não vou ganhar. Mas</p><p>estou cansada de guardar isso para mim.</p><p>Gabriel se aproximou dela e colocou uma mão em</p><p>sua bochecha, secando as lágrimas que estavam caindo.</p><p>— Eu não acho que qualquer declaração minha</p><p>chegaria aos pés daqueles caras dos seus livros.</p><p>Marie ficou com ainda mais raiva dele por fazê-la</p><p>rir naquele momento.</p><p>— Eu não quero que faça isso, já disse que não</p><p>espero.</p><p>Gabriel assentiu.</p><p>— Eu ouvi. E não vou fazer isso.</p><p>Ela sabia, mas ainda assim doeu ouvir da boca</p><p>dele.</p><p>— Mas não porque eu não quero... — Gabriel se</p><p>apressou em dizer. — Eu quero, Mar. Muito. Mas eu não</p><p>posso.</p><p>Surpresa, Marie olhou para ele, sem entender o</p><p>que queria dizer com aquilo.</p><p>— Mar, você é a pessoa mais importante da minha</p><p>vida. Mesmo quando tudo está uma bagunça, eu sei que</p><p>posso olhar para você e encontrar o meu mar calmo. Eu</p><p>te amo demais, só que eu não posso correr o risco de</p><p>perder isso. Nunca. Eu preciso de você.</p><p>Marie fechou os olhos e tentou não deixar o</p><p>coração doer ainda mais. Sentiu a ponta dos dedos de</p><p>Gabriel passearem por sua bochecha e seu polegar</p><p>passar por seus lábios. Percebeu quando ele se</p><p>aproximou mais dela, passou o braço ao redor de sua</p><p>cintura e a puxou para mais perto. Marie abriu os olhos e</p><p>viu um brilho diferente de todos que já tinha visto nos</p><p>olhos dele.</p><p>Quando Gabriel finalmente encostou seus lábios</p><p>nos dela, Marie não conseguiu acreditar que estava</p><p>mesmo acontecendo. Era exatamente como ela havia</p><p>imaginado. Ele a abraçava com carinho, e, mesmo sem</p><p>saber o que devia fazer, ela sentia que era certo estar</p><p>beijando-o. Agarrou-se àquilo e deixou que ele a guiasse,</p><p>sentindo o coração acelerado e a sensação estranha de</p><p>ter alguém colocando a língua em sua boca. Mas era</p><p>bom.</p><p>Marie amou aquilo. Amou como Gabriel não parecia</p><p>desconfortável ao puxá-la para mais perto e acariciar sua</p><p>bochecha. Amou como pôde tocar no cabelo dele, tão</p><p>macio... Era o que passara três anos sonhando, só que</p><p>ainda melhor, porque estava mesmo acontecendo. Ela</p><p>não estava lendo sobre aquilo, estava vivendo.</p><p>Passaram algum tempo se beijando, Marie não</p><p>sabia quanto. Então, Gabriel parou, abaixou a cabeça e</p><p>lhe deu um beijo no pescoço. Ela queria que ele voltasse</p><p>a beijá-la, pois temia que nunca mais fosse sentir aquilo,</p><p>mas um barulho alto soou pelo quarto e eles se</p><p>afastaram um do outro. Quando olhou para verificar o</p><p>que havia acontecido, Marie reparou que estava</p><p>encostada na penteadeira e que um de seus batons</p><p>havia caído no chão.</p><p>Ela focou no batom e respirou fundo, tentando</p><p>recuperar o fôlego, sem entender o que acabara de</p><p>acontecer. Então, olhou para Gabriel, que passava a mão</p><p>pelo cabelo, parecendo atordoado. O menino se abaixou,</p><p>pegou o batom e o estendeu para ela. Marie agradeceu</p><p>com um sussurro e o colocou de volta no lugar.</p><p>O que aconteceria depois? Ela nunca havia vivido</p><p>aquilo. E não precisava admitir que era seu primeiro</p><p>beijo, porque Gabriel sabia disso, e o desempenho dela</p><p>devia ter demonstrado.</p><p>— Mar, eu... Me desculpa. — A voz do menino saiu</p><p>estrangulada e mais grossa que o normal. — Eu não</p><p>deveria ter feito isso.</p><p>Marie olhou para ele.</p><p>— Foi ruim? — perguntou, sentindo-se insegura.</p><p>Gabriel a fitou como se aquilo fosse a coisa mais</p><p>ridícula que já tivesse ouvido.</p><p>— Foi perfeito! O melhor beijo que eu já tive e o</p><p>melhor que eu vou ter. Mas... eu não posso fazer isso</p><p>com a gente.</p><p>— Mas eu quero isso! — disse Marie, como uma</p><p>criança mimada.</p><p>Gabriel se aproximou dela e acariciou sua</p><p>bochecha. Marie viu a tristeza nos olhos dele, a confusão,</p><p>a raiva e a paixão. Parecia tão louco o quanto ela o</p><p>conhecia e como era capaz de saber tudo aquilo.</p><p>— Eu também quero, amor — sussurrou ele,</p><p>encostando a testa na dela.</p><p>Um arrepio subiu pelo corpo de Marie ao ouvi-lo</p><p>1hama-la de amor. Parecia um sonho se tornando</p><p>ao que tudo indicava.</p><p>— O que você faz aqui? — Gabe perguntou ao</p><p>homem.</p><p>Foi a vez de Dom o olhar como se ele fosse um</p><p>idiota. Gabriel sentia que em poucos minutos realmente</p><p>passaria a ser um idiota.</p><p>— Eu sou o dono deste lugar! — respondeu Dom,</p><p>com o olhar arrogante de sempre no rosto.</p><p>— Você não tinha uma boate? — indagou Gabriel.</p><p>Dom o olhou com seriedade.</p><p>— E tenho. Só que agora eu tenho um bar, também</p><p>— esclareceu.</p><p>Gabriel assentiu. Um homem de negócios. Ok. Ele</p><p>sabia lidar com aquilo.</p><p>— O que estou fazendo aqui mesmo? — perguntou</p><p>a Nathan.</p><p>— Primeiro, você está todo errado. Eu pedi para</p><p>você usar roupa social!</p><p>O piloto deu de ombros.</p><p>— Este é o meu social — rebateu, indicando suas</p><p>roupas.</p><p>— O que a FIA ensina para vocês? — Nathan</p><p>murmurou, olhando para Gabriel, que se sentiu ofendido.</p><p>— Que seja! Vamos lidar com isso depois.</p><p>Nate virou-se para o bar, dispensando Gabriel.</p><p>— Rafe, duas doses de whisky — pediu para o</p><p>barman, com quem parecia ter bastante intimidade. —</p><p>Tio Dominique, temos um problema. E dos grandes!</p><p>Dom, parecendo nada mais do que entediado,</p><p>olhou para os dois.</p><p>— Vão para a mesa, já estou indo para lá — ele</p><p>disse, apontando com a cabeça para uma das mesas</p><p>vazias no salão clássico e sofisticado.</p><p>Clássico e sofisticado não deveriam ser palavras</p><p>usadas para descrever um bar, e Gabriel sabia disso. Mas</p><p>eram as palavras que aquele lugar transmitia. Não</p><p>parecia um bar de rua, como os que ele ia em</p><p>Copacabana, mas sim um ambiente aberto, com móveis</p><p>caros e requintados. No meio do salão, havia uma</p><p>bancada redonda, onde as pessoas podiam ir para</p><p>solicitar suas bebidas. Era realmente clássico e</p><p>sofisticado.</p><p>Nathan pegou as bebidas e guiou Gabriel até a</p><p>mesa para qual tio Dom havia apontado.</p><p>— O Kalil estava falando sério quando disse que</p><p>você e o Dom são amigos agora?</p><p>O personal tomou sua bebida e olhou para Gabriel.</p><p>— O Kalil está sendo um fofoqueiro chato que quer</p><p>saber tudo sobre a minha vida.</p><p>— Mas ele estava certo sobre você e o Dom serem</p><p>amigos agora, não?</p><p>Nathan suspirou.</p><p>— Já estou me arrependendo de te ajudar — disse,</p><p>exasperado.</p><p>— Eu já me arrependi há muito tempo, e eu nem</p><p>pedi a sua ajuda — Gabriel o lembrou.</p><p>— Não mesmo. Você praticamente implorou por ela</p><p>— rebateu Nathan, girando seu copo e o líquido âmbar</p><p>que estava dentro. Quando Gabriel começou a negar o</p><p>fato, Nate o interrompeu: — E o Dom é meu mentor. Mas</p><p>eu gosto de deixar o Kalil pensar que perdeu o posto de</p><p>melhor amigo. Ele se dedica mais a fazer esse papel.</p><p>Tio Dom chegou e se sentou ao lado de Nathan.</p><p>— O que aconteceu? — o homem perguntou, com</p><p>sua voz grossa que fazia todos o temerem.</p><p>A situação de Dom era muito complicada. Ele era o</p><p>mais novo da família Martin. Seus irmãos eram cerca de</p><p>20 anos mais velhos do que ele. Dom havia passado</p><p>muito tempo se sentindo deslocado ali dentro. Mas</p><p>conforme os sobrinhos foram nascendo, ele passou a ter</p><p>companhia. Eram sete sobrinhos no total, e dois tinham</p><p>quase a mesma idade que ele; Edgar, que estava com</p><p>29, e Nathan, que estava com 28. Porém, nenhum deles</p><p>havia se mantido próximo ao longo dos anos.</p><p>Então, Nathan mudou radicalmente, e sua amizade</p><p>com Dom era uma dessas mudanças. Gabriel, ao</p><p>contrário de Kalil, não estava preocupado. Dom era um</p><p>dos homens mais centrados e maduros que conhecia,</p><p>apesar de sua fama de fanfarrão e galinha. E o piloto</p><p>suspeitava de que a implicância de Kalil com a amizade</p><p>do tio e do primo era muito mais ciúmes do que</p><p>preocupação genuína.</p><p>— O Gabriel não sabe se vestir — Nathan contou ao</p><p>tio, que assentiu como se aquilo fosse óbvio. — E caiu</p><p>nos encantos de uma mulher.</p><p>O homem se virou para Gabe com os olhos</p><p>arregalados.</p><p>— Como pôde? — indagou, parecendo realmente</p><p>ferido.</p><p>O piloto se sentiu acuado e por pouco não se</p><p>desculpou.</p><p>— Quem é a Dalila? — Dom voltou a questionar.</p><p>Gabriel levantou o olhar para Dom novamente;</p><p>com raiva, dessa vez. Mas antes que pudesse defender</p><p>Marie, Nathan tomou a frente:</p><p>— É a Marie, portanto, é da família, nós não</p><p>podemos xingá-la.</p><p>Dom pareceu relaxar por um segundo, mas logo</p><p>virou-se novamente para Gabriel, inquirindo:</p><p>— Vocês não eram amigos?</p><p>— Nós somos — respondeu Gabe.</p><p>— Bem que o August me disse que suspeitava de</p><p>algo... — Dom contou. — E eu te defendi, garoto!</p><p>Gabriel abaixou a cabeça.</p><p>— Isso não importa agora — Nate se apressou em</p><p>dizer. — Ele precisa da nossa ajuda. — O personal olhou</p><p>para o tio como se aquela situação fosse caso de vida ou</p><p>morte. Gabriel se sentiu como uma criança vendo os pais</p><p>tentando resolver um problema do filho.</p><p>Ele olhou por debaixo dos cílios e viu Dom o</p><p>encarando, pensativo.</p><p>— E ela gosta de você? Explique como foi que isso</p><p>aconteceu.</p><p>Gabriel suspirou fundo e pôs-se a explicar como</p><p>havia entrado naquela situação. Contou do beijo que</p><p>ocorrera na viagem, mas não expôs que não havia sido o</p><p>primeiro. Ainda sentia que aquele momento era apenas</p><p>dele e de Marie. Preferia que ficasse assim.</p><p>— Então, ela recusou o pedido de casamento por</p><p>sua causa? — Dom mais afirmou do que perguntou.</p><p>Imediatamente, o piloto ficou na defensiva. Essa</p><p>possibilidade já tinha passado pela sua cabeça, mas ele</p><p>logo a descartou. Marie e Gabe não conversavam sobre</p><p>aquela situação entre eles fazia anos, não era possível</p><p>que ela recusasse a se casar com um cara de quem</p><p>parecia realmente gostar só por causa dele. Ou era?</p><p>Não, não era. Por isso, o piloto balançou a cabeça</p><p>em negação.</p><p>Dom o observou, não parecendo acreditar muito no</p><p>que ele dizia.</p><p>— Você tem duas opções... — o homem começou.</p><p>— Ou fica com ela, vocês se casam e têm vários filhos...</p><p>— Gabriel começou a balançar a cabeça para os lados</p><p>novamente. — Ou você se afasta dela!</p><p>Capítulo 20</p><p>Marie, 22 anos.</p><p>Gabriel, 23 anos.</p><p>Londres, Inglaterra.</p><p>Férias de verão.</p><p>Durante os quatro anos anteriores, Gabriel passara</p><p>horas pensando em como seria encontrar sua irmã.</p><p>Imaginava cenários impossíveis e inexplicáveis apenas</p><p>para poder lidar com a falta que sentia daquela parte de</p><p>sua vida que nunca conhecera. Era engraçado como</p><p>antes de saber sobre ela, Gabe simplesmente vivia. Mas</p><p>quando seu pai revelou a existência de uma irmã, ele</p><p>sentiu que precisava encontrá-la e conhecê-la.</p><p>Porém, como encontraria alguém de quem sequer</p><p>sabia o nome? Por isso, escolheu deixar aquele detalhe</p><p>de sua vida cair no esquecimento. Gabriel era assim,</p><p>quando não podia resolver algo, preferia esquecer que</p><p>aquilo acontecera e seguia em frente.</p><p>Só que mesmo tendo esquecido, seu subconsciente</p><p>imaginava aquele momento repetidas vezes, o momento</p><p>em que o piloto colocaria os olhos na pessoa por quem</p><p>ele havia passado tanto tempo esperando. Gabriel não</p><p>podia explicar por que pensara que aquela mulher era</p><p>sua irmã. Talvez, fosse a foto de seu perfil ou o tom de</p><p>sua voz quando ligou para ele o convidando para dar</p><p>uma entrevista. Ou ele apenas experimentou um fato</p><p>sobrenatural.</p><p>Enquanto caminhava por aquele café até a mesa</p><p>em que ela estava sentada, Gabriel sentiu o coração</p><p>acelerar. E quando a viu pessoalmente, suas pernas</p><p>tremeram e suas mãos pareciam torneiras, de tão</p><p>suadas. Ele precisou se forçar a andar muitas vezes</p><p>durante aquele curto caminho. E não soube o que fazer</p><p>quando parou em frente a ela.</p><p>Aquela mulher o olhava com confusão cravada nos</p><p>olhos castanhos. O cabelo ondulado e escuro, como o</p><p>dele, fez com que Gabriel se sentisse impedido de falar.</p><p>Ele não conseguia acreditar no que seus olhos estavam</p><p>vendo. Tentou segurar as lágrimas, que queimavam para</p><p>descer, mas acabou se esquecendo dessa guerra. Queria</p><p>abraçá-la para saber se ela era real. E sentir seu cheiro,</p><p>para ter algo para se lembrar caso ela desaparecesse</p><p>novamente.</p><p>Mas Gabriel não fez nada disso. Ele apenas se</p><p>sentou na cadeira em frente a ela.</p><p>— Mavi Anne? — conseguiu perguntar, com a voz</p><p>rouca pelo esforço que continuava fazendo para não</p><p>chorar.</p><p>— Sim, sou eu — respondeu ela, sem sorrir ou</p><p>demonstrar qualquer coisa além de confusão. — Gabriel,</p><p>eu... eu sinto muito por tê-lo feito vir até aqui.</p><p>Poderíamos ter feito a entrevista por ligação.</p><p>Gabriel não disse nada, apenas olhou para ela com</p><p>a maior atenção que pôde. Aquela era Mavi Anne. A Mavi</p><p>Anne que havia destruído o coração de seu melhor</p><p>amigo. Mas naquele instante, Gabriel não conseguia</p><p>pensar em Kalil ou em como se sentia mal pelo seu</p><p>sofrimento. Ele apenas se agarrava àquela luz de</p><p>esperança que brilhava dentro dele dizendo que aquela</p><p>era quem procurava.</p><p>O piloto balançou a cabeça. Não havia nada que</p><p>pudesse tirá-lo daquele lugar naquele momento. Ele</p><p>queria saber tudo sobre ela.</p><p>— Eu quero dar essa entrevista. Mas foi por isso</p><p>mesmo que você me ligou? — indagou.</p><p>Por alguma razão, ele sabia que ela estava</p><p>mentindo sobre o motivo de tê-lo chamado até ali. Os</p><p>olhos dela não pareciam sinceros, e quando disse que</p><p>queria fazer uma entrevista, ela não olhou diretamente</p><p>para ele.</p><p>Mavi Anne fitou-o, surpresa. Ela aguardou que ele</p><p>dissesse mais alguma coisa, mas Gabriel não diria nada</p><p>até ela assumir para que tinha o chamado.</p><p>— Na verdade, não — confessou ela. — O que eu</p><p>vou dizer pode parecer loucura para você, mas eu acho</p><p>que podemos ter algo em comum.</p><p>Gabriel assentiu, mas continuou calado,</p><p>esperando-a concluir. Seu coração bateu gravemente</p><p>contra as suas costelas, mostrando a ele quão nervoso e</p><p>ansioso estava.</p><p>— Adam Sinclair é meu pai — ela soltou. Tão rápido</p><p>que, se Gabriel não soubesse, teria que pedir para ela</p><p>repetir.</p><p>— Meu também. Bem-vinda ao clube! — Foi a</p><p>primeira coisa que saiu de sua boca.</p><p>Mavi o olhou, sem acreditar que ele estava fazendo</p><p>piada com aquela situação tão dramática e confusa, e</p><p>um sorriso surgiu em seu rosto.</p><p>— Desculpe-me por isso. Sou sarcástico quando</p><p>estou nervoso — disse Gabriel, mordendo o interior da</p><p>bochecha, tentando se calar.</p><p>— Você não parece surpreso.</p><p>Gabriel balançou a cabeça.</p><p>— Ele me contou há alguns anos que eu tinha uma</p><p>irmã.</p><p>E como se soubesse que estavam liberadas, as</p><p>lágrimas caíram de seus olhos. Gabriel ficou tão feliz ao</p><p>ver que o mesmo acontecia com Mavi. Colocou a mão</p><p>sobre a mesa e esperou que ela a pegasse. Mavi o fez. E</p><p>quando suas mãos se tocaram... Gabriel não se lembrava</p><p>de ter se sentido mais completo.</p><p>Ele tinha uma irmã, e ela estava ali, à sua frente,</p><p>viva e bem.</p><p>Levantou-se e a puxou para que ficasse de pé,</p><p>então a abraçou. O mais forte que pôde.</p><p>— Estou tão feliz por ter te encontrado — revelou,</p><p>com a voz embargada.</p><p>— Tecnicamente, eu te encontrei — retrucou ela.</p><p>Ele riu. Gabriel não se importava com quem havia</p><p>encontrado quem, o importante era que estavam juntos.</p><p>Afastou-se dela e beijou o topo de sua cabeça.</p><p>— Preciso que me conte tudo. Sobre você, sobre a</p><p>sua vida... tudo!</p><p>Foi a vez de Mavi rir. Eles voltaram a se sentar.</p><p>— Isso pode levar um tempo.</p><p>— Então, vamos precisar de café — disse ele, sem</p><p>conseguir parar de sorrir. — Vou pegar para nós.</p><p>Ele se levantou e foi até o balcão, mas não</p><p>conseguiu deixar de olhar para ela. Gabriel nem a</p><p>conhecia, mas não se importava com isso. Ela era sua</p><p>irmã, e... céus, ele amou ter uma irmã!</p><p>Capítulo 21</p><p>Dias atuais.</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Marie se sentou em frente aos pais com as mãos</p><p>unidas sobre o colo e sem olhar para eles</p><p>verdadeiramente. Havia passado dias evitando-os e</p><p>fugindo de suas perguntas sobre Matheus.</p><p>Depois da noite do beijo, Marie se desligou. Eram</p><p>muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, ela</p><p>precisava colocar as ideias no lugar. Dois dias depois</p><p>daquela noite, todos voltaram para Mônaco, e Marie fez</p><p>um ótimo trabalho evitando Gabriel até o fim das férias –</p><p>não que ele tenha feito muito esforço para conversar</p><p>com ela.</p><p>Os pais de Marie perceberam que algo estava</p><p>estranho, e nem mesmo a chegada de Theo, que estava</p><p>morando em Paris, trabalhando em um dos restaurantes</p><p>mais renomados da Cidade Luz, nublou seus olhos para a</p><p>maneira como a filha andava agindo.</p><p>Então, quando Marie saía de seu quarto para ir</p><p>buscar um pouco de água na cozinha, já querendo voltar</p><p>para a sua leitura, seus pais a encurralaram. Eles a</p><p>arrastaram para a mesa de jantar e a fizeram se sentar.</p><p>— O que está acontecendo? — August perguntou,</p><p>sendo bem direto, como sempre.</p><p>Marie não olhou para eles, porque sabia que os</p><p>dois viam até a sua alma quando ela os encarava.</p><p>— Mãe, pai... o Matheus e eu não estamos mais</p><p>juntos — revelou, por fim, querendo arrancar aquele</p><p>curativo de uma vez.</p><p>Seus pais não responderam de imediato, nem</p><p>mesmo com ruídos. Isso a fez levantar os olhos para eles,</p><p>que se entreolhavam, sorrindo.</p><p>— O que é isso? — Marie indagou. — Pensei que</p><p>gostassem dele!</p><p>August e Isabela olharam para ela e tiveram a</p><p>decência de parecer minimamente culpados.</p><p>— Nós gostávamos — disse Isabela, estendendo a</p><p>mão e pegando a da filha. — Ele é um bom menino e</p><p>sempre foi muito educado conosco. Mas... — Ela parou de</p><p>falar e cutucou a costela do marido com o cotovelo.</p><p>August hesitou um pouco antes de finalmente</p><p>dizer:</p><p>— Não achávamos que ele era para você.</p><p>Marie piscou algumas vezes, sem acreditar no que</p><p>estava ouvindo.</p><p>— E por que não?</p><p>August estava incerto se devia dizer algo a ela,</p><p>mas Isabela pareceu bem segura de si.</p><p>— Porque ele era muito intenso, e você não parecia</p><p>gostar tanto assim dele.</p><p>Marie balançou a cabeça, em choque com o</p><p>absurdo que estava ouvindo, e se levantou da cadeira.</p><p>— Eu o amava, mãe! — exclamou, mas aquilo não</p><p>parecia sincero nem mesmo aos seus próprios ouvidos.</p><p>— Se o amava tanto assim, por que não parece</p><p>triste com o término? — Isabela perguntou, elevando o</p><p>tom de voz e também se colocando de pé.</p><p>— Porque... porque... — Marie realmente não sabia</p><p>o porquê, mas não poderia deixar sua mãe saber disso.</p><p>— Porque cada um reage de uma maneira às situações.</p><p>Isabela riu.</p><p>— Marie, eu sou sua mãe e te conheço mais do que</p><p>pensa. Quando você está triste, gosta de ficar perto de</p><p>nós e está sempre choramingando. Nos últimos dias, a</p><p>única coisa que fez foi ficar irritada e fugir de nós. Então,</p><p>não venha me dizer que amava aquele garoto, porque é</p><p>mentira, e você sabe disso.</p><p>Marie olhou para as duas pessoas à sua frente</p><p>como não olhava havia muito tempo, e as viu como seus</p><p>pais, e não como um casal que discutia mais do que</p><p>devia. Ela sentiu um grande alívio tomando o seu corpo e</p><p>seus olhos se encheram de lágrimas.</p><p>— Oh, meu bem... Não precisa chorar... — disse</p><p>August, indo se sentar ao lado da filha e a abraçando.</p><p>Isabella se sentou do outro lado e a abraçou</p><p>também.</p><p>— Sinto que o enganei, sabe? Eu queria ter</p><p>percebido que não gostava dele o suficiente — Marie</p><p>desabafou. — Ele era tão bom comigo.</p><p>— Quando somos jovens, tentamos nos enganar,</p><p>Marie — disse Isabella, de um jeito maternal, de um jeito</p><p>que Marie não se lembrava de já ter ouvido a mulher se</p><p>expressar. — Mas uma hora vemos a verdade, e ainda</p><p>bem que você viu antes que fosse tarde demais.</p><p>Marie chorou e se permitiu ser acolhida por seus</p><p>pais, que apesar de seus defeitos, ainda cuidavam dela.</p><p>Sentia que havia estado tão perdida escolhendo lados na</p><p>relação dos pais que se esquecera de que era filha deles.</p><p>Permitiu-se ser abraçada e absorveu os conselhos de</p><p>ambos.</p><p>Enquanto olhava para a parede oposta da sala,</p><p>onde havia uma fotografia dela com seus pais e seu</p><p>irmão, Marie pensava no tempo que passara sentindo</p><p>falta da relação que nunca tivera com sua mãe, quando</p><p>poderia ter se esforçado para ser sua amiga. Passando a</p><p>vida toda querendo que Jolie fosse sua mãe, ela nunca</p><p>havia ponderado sobre como sua verdadeira mãe se</p><p>sentia a respeito daquilo.</p><p>— Mãe, quer assistir a um filme comigo?</p><p>Isabela não respondeu de imediato, mas Marie</p><p>tinha quase certeza de que ela havia prendido a</p><p>respiração. E quando voltou, Marie ouviu um suspiro e</p><p>viu sua mãe sorrir.</p><p>— Eu iria adorar, minha filha!</p><p>Naquela noite, depois de apresentar as novelas</p><p>turcas para a mãe, que ficou totalmente apaixonada por</p><p>Can Yaman, Marie foi se deitar, feliz. Apesar de toda a</p><p>história com Matheus e Gabriel,</p><p>ela sentia que finalmente</p><p>havia feito algo certo e dado um passo à frente em sua</p><p>vida – mesmo que tivesse dado dois para trás na semana</p><p>anterior.</p><p>Nem tudo poderia ser perfeito...</p><p>Na noite seguinte, Marie tinha chegado à conclusão</p><p>de que sorvete de morango com creme de avelã deveria</p><p>ser proibido. Era bom demais e cheio de calorias. Poderia</p><p>colocar em seu Facebook que estava em um</p><p>relacionamento sério com aquele pote de sorvete.</p><p>Na televisão de seu quarto passava um filme da</p><p>princesa Grace Kelly. Marie amava filmes antigos e</p><p>estava empenhada em fazer Mavi, que tinha ido passar a</p><p>noite com ela, apaixonar-se por eles também.</p><p>Mas a amiga parecia ter outros planos: pegou o</p><p>controle da televisão e abaixou o volume até que fosse</p><p>impossível ouvir qualquer ruído. Virou-se para Marie e a</p><p>encarou, soltando:</p><p>— Você tem falado com o Gabriel?</p><p>Marie gemeu, frustrada. É claro que aquela noite</p><p>poderia ser estragada. Ela conseguira passar exatamente</p><p>uma hora sem pensar em Gabriel ou em qualquer coisa</p><p>relacionada a ele.</p><p>— Um pouco — respondeu.</p><p>— Você contou para ele por que terminou com o</p><p>Matheus?</p><p>— Não.</p><p>— Não vai contar?</p><p>— Talvez um dia.</p><p>— E vai contar que está apaixonada por ele?</p><p>— Não.</p><p>— Nunca?</p><p>— Nunca.</p><p>Mavi encostou-se na cabeceira da cama e suspirou</p><p>alto.</p><p>— É muito tempo.</p><p>Marie abaixou os olhos para o pote de sorvete em</p><p>seu colo.</p><p>— Eu sei.</p><p>Capítulo 22</p><p>Dias atuais.</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Na cabeça de Marie, se dissessem que o mundo</p><p>acontece para quem assiste, os espectadores fugiriam.</p><p>Uma vez, em uma das muitas novelas turcas que amava,</p><p>ela ouviu a personagem principal dizer que três maçãs</p><p>caíram do céu: uma para quem assistia à história, uma</p><p>para quem a contava, e uma para quem a vivia. Marie</p><p>nunca chegou a comentar com ninguém sobre como</p><p>aquela frase a marcara, mas a citação a fazia pensar</p><p>sobre a sua vida e sobre como a estava levando.</p><p>Nascera em um lugar onde tudo era possível.</p><p>Mônaco era o lugar dos sonhos, um lugar que ninguém</p><p>conseguia imaginar que pudesse existir no mundo real.</p><p>Bailes, festas, glamour e luxo. Tudo do bom e do melhor</p><p>se podia encontrar ali. E Marie amava aquele mundo.</p><p>Mas ela não o vivia.</p><p>Será que isso era entendível?</p><p>Como ela podia amar algo que não vivia? Ou</p><p>melhor, como podia estar em um lugar e não viver o que</p><p>ele a proporcionava?</p><p>Era bem simples, na verdade.</p><p>Marie ia aos bailes com a sua família. Os príncipes</p><p>e as princesas de Mônaco estavam lá, famosos do mundo</p><p>inteiro marcavam presença, e ela... bem, ela estava lá e</p><p>assistia enquanto eles viviam.</p><p>Havia dias em que Marie acordava e se preparava</p><p>para aquelas festas com a intenção de vivê-las, de</p><p>conversar com as pessoas que lá estariam, de criar</p><p>vínculos e histórias das quais sentiria prazer em contar.</p><p>Histórias que lhe arrancariam sorrisos ao se lembrar. Mas</p><p>quando Marie chegava aos salões e olhava para todas</p><p>aquelas pessoas, sentia-se uma farsa. Ela não conseguia</p><p>ser daquele jeito, a não ser que forçasse.</p><p>Isabela agarrava o seu braço e a fazia dar uma</p><p>volta pelo salão para cumprimentar todos os conhecidos</p><p>da família, que sempre diziam as mesmas frases: “Como</p><p>ela está grande! Parece que foi ontem que ela estava</p><p>correndo por aí com os meus filhos.”.</p><p>Marie sequer se lembrava de quem eram os filhos</p><p>daquelas pessoas, porque não se importava. Mas ela</p><p>assentia e sorria, agradecendo pelos elogios que</p><p>costumavam tecer para cair nas graças de seus pais e</p><p>tios. Observava essas pessoas adulando a sua família, e</p><p>quando pareciam compenetradas demais para notar sua</p><p>presença, ela fugia para longe de suas garras bajuladoras</p><p>e de seus olhares cobiçosos.</p><p>E era por isso que Marie estava sentada em uma</p><p>das varandas do Hôtel de Paris olhando para os carros</p><p>que paravam na porta e para os lindos vestidos das</p><p>mulheres que saíam deles com um sorriso imenso no</p><p>rosto. Elas pareciam estar olhando para a coisa mais</p><p>linda que já haviam visto em suas vidas, e Marie não as</p><p>julgava. Tudo aquilo era lindo e fabuloso, quem seria</p><p>louco de desvalorizar? Nem o marxista mais fervoroso</p><p>poderia desconsiderar o sonho que aquele paraíso</p><p>representava.</p><p>Marie só desejava aprender a valorizar mais</p><p>aqueles momentos.</p><p>— Eu não a vi a noite inteira — disse a voz</p><p>masculina que ela conhecia muito bem.</p><p>Mas Marie não tirou os olhos da linda loira que</p><p>acabara de sair de uma Mercedes preta. Segurava no</p><p>braço do belo homem com quem estava e olhava para o</p><p>hotel com um olhar presunçoso. Aquela mulher tinha</p><p>atingido o seu objetivo e estava observando a sua</p><p>conquista. Ela estava vivendo aquilo!</p><p>— Está mais cheio do que no último ano — Marie</p><p>respondeu, ainda sem tirar os olhos do casal.</p><p>— Achei que preferisse ficar do outro lado, olhando</p><p>para o mar — disse Gabriel, puxando uma cadeira da</p><p>mesa ao lado e sentando-se próximo a ela.</p><p>Assim que sentiu o cheiro almiscarado emanando</p><p>dele, tão perto, Marie desviou os olhos do casal</p><p>hollywoodiano e olhou para o amigo. Ele estava lindo,</p><p>como sempre. Seus cabelos, normalmente bagunçados,</p><p>estavam domados e penteados para trás. Gabriel vestia</p><p>um smoking preto feito sob medida, o que destoava</p><p>totalmente de sua aparência de surfista do dia a dia.</p><p>— Eu gosto — confirmou ela. — Mas este ano</p><p>pensei que seria legal mudar. Acho que estou ficando</p><p>previsível.</p><p>O piloto abriu um pequeno sorriso de lado.</p><p>— Você pode ser qualquer coisa, Marie, mas</p><p>previsível não é uma delas.</p><p>Marie virou o rosto, querendo esconder o sorriso</p><p>que teimou em aparecer em seus lábios.</p><p>— É bom saber disso — conseguiu responder sem</p><p>parecer afetada. — Mas o que você está fazendo aqui</p><p>fora?</p><p>— A Charlotte conseguiu me encontrar.</p><p>Qualquer resquício de sorriso que sobrara no rosto</p><p>de Marie desapareceu assim que ela ouviu o nome da</p><p>mulher.</p><p>Charlotte era uma das muitas admiradoras de</p><p>Gabriel, a diferença dela para as outras era que ele, de</p><p>fato, saíra com ela por alguns meses. Fora o mais</p><p>próximo de um relacionamento que o piloto havia tido</p><p>durante toda a sua vida. Um dia, eles estavam juntos, e</p><p>no outro... não mais.</p><p>Gabriel nunca fizera questão de contar à Marie o</p><p>que havia acontecido para ocasionar o término do</p><p>relacionamento relâmpago, e Marie nunca fizera questão</p><p>de saber. Mas ela tinha quase certeza de que a decisão</p><p>havia partido de Gabe, já que Charlotte, em todas as</p><p>oportunidades que tinha, jogava-se em cima dele.</p><p>— Fugiu antes de ela falar com você?</p><p>Gabriel suspirou.</p><p>— Infelizmente, não. Mas eu estava com o Nate.</p><p>Pedi licença para ir ao banheiro e não tenho qualquer</p><p>intenção de voltar.</p><p>— Jogou o meu primo na cova dos leões, Sol? Isso</p><p>não é legal!</p><p>— Ele sabe como lidar com as mulheres, Mar, não</p><p>precisa se preocupar.</p><p>Marie riu. Era verdade, se tinha alguém que sabia</p><p>como se safar de qualquer coisa em relação às mulheres,</p><p>esse alguém era Nathan.</p><p>— E agora, o que vai fazer? — perguntou ela.</p><p>— Vou esperar alguns minutos, entrar e torcer para</p><p>ela não me encontrar.</p><p>Marie assentiu e olhou para as mãos em cima do</p><p>colo.</p><p>Um silêncio caiu sobre os dois, e Marie tinha a</p><p>estranha sensação de que ele a estava olhando, mas não</p><p>quis verificar.</p><p>Semanas haviam se passado desde a Noite Fatídica</p><p>Parte 2. Eles se falaram no máximo três vezes durante</p><p>aquele período, e talvez fosse melhor assim, já que Marie</p><p>não sabia como agir. Ela continuava afirmando que</p><p>estava tudo bem, que Gabe havia correspondido ao beijo</p><p>e que ele queria aquilo, mas sabia que não estava.</p><p>Marie não tinha orgulho de dizer que havia</p><p>pensado em Matheus pouquíssimas vezes ao longo</p><p>daqueles dias. Perguntava-se se ele estava bem e</p><p>esperava que sim, mas ainda não havia tido coragem de</p><p>enviar uma mensagem para ter certeza. Sentia-se uma</p><p>idiota por tê-lo enganado durante tanto tempo e por ter</p><p>terminado o namoro daquele jeito, mas sabia que havia</p><p>sido melhor. Porque Marie tinha certeza de que teria dito</p><p>não e teria sido muito pior.</p><p>— Marie, você...?</p><p>— Acho que já está seguro para você entrar — ela</p><p>o interrompeu, pois não queria ouvir o que ele tinha a</p><p>dizer.</p><p>Conhecia</p><p>Gabriel. Ele iria querer conversar e</p><p>resolver as coisas, mas ela estava cansada de conversar</p><p>e tentar resolver o irresolvível. Eles haviam tentado anos</p><p>antes e não conseguiram, não adiantava tentar</p><p>novamente.</p><p>E antes que Gabriel pudesse tentar de novo, Marie</p><p>se levantou.</p><p>— Vou olhar um pouco o mar.</p><p>O piloto também se levantou e colocou as mãos</p><p>para trás.</p><p>— Achei que este ano quisesse mudar.</p><p>— Tem coisas que nunca vão mudar, Gabe — Marie</p><p>respondeu, olhando para ele.</p><p>Se Gabriel reparou na ambiguidade daquela</p><p>sentença, ele não demonstrou, apenas abaixou os olhos</p><p>para os pés e mordeu o interior da bochecha.</p><p>Marie suspirou e começou a caminhar para longe</p><p>dele. Estava na metade do caminho para o outro lado da</p><p>varanda, que dava vista para o mar, quando sentiu a</p><p>mão de Gabriel em seu braço, puxando-a de encontro ao</p><p>peito. Ela arfou ao sentir o contato de seus corpos, mas</p><p>se recusou a olhar nos olhos dele. Porque ela sabia que,</p><p>se olhasse, veria a guerra que o piloto travava consigo</p><p>mesmo naquele momento, e Marie estava cansada</p><p>daquela guerra.</p><p>— O que você está fazendo? — perguntou olhando</p><p>para a gravata borboleta em seu pescoço.</p><p>Sentiu o calor da respiração de Gabriel em sua</p><p>bochecha, por isso fechou os olhos.</p><p>— Tirando-a para uma dança — ele respondeu em</p><p>um sussurro.</p><p>Só então Marie notou o som da orquestra dentro do</p><p>salão. Olhou pela janela e viu as dezenas de casais que</p><p>dançavam em sintonia com a música, sorrindo um para o</p><p>outro. Fechou os olhos e voltou-se para frente. De</p><p>repente, sentiu as mãos de Gabriel descendo para a sua</p><p>cintura e não conseguiu dizer nada. Ela não podia dizer</p><p>nada.</p><p>Deixou-se levar pelo leve balançar de seus corpos.</p><p>Fechou os olhos e encostou o rosto no peito de Gabriel,</p><p>ouvindo as batidas de seu coração, aceleradas, e</p><p>sentindo o próprio coração a mil.</p><p>Esse era o seu maior erro. Marie se deixava levar</p><p>pelos momentos roubados, pelos olhares e pelos toques.</p><p>Sempre fora assim com Gabriel. Ela conseguira fugir por</p><p>alguns meses enquanto esteve com Matheus, e tentara</p><p>se enganar durante anos dizendo a si mesma que não</p><p>sentia nada por Gabe. Mas era mentira, e ela precisava</p><p>fugir daquilo, porque se entregar não era uma opção.</p><p>Assim que a última nota da música soou, as mãos</p><p>de Gabriel afrouxaram seu aperto e Marie se afastou. Ela</p><p>não o olhou, apenas sussurrou um agradecimento, virou-</p><p>se e voltou a andar para longe. Pois não queria sofrer</p><p>mais do que já estava sofrendo. E a culpa não era dele.</p><p>Era dela. Única e exclusivamente dela.</p><p>No dia seguinte ao baile, Marie se jogou no sofá da</p><p>sala de sua tia. Estava com a cabeça doendo pelas</p><p>poucas horas de sono, já que passara a noite revirando-</p><p>se na cama. As férias de verão seguiam animadas para</p><p>quem as curtia, mas ela estava entediada.</p><p>As aulas voltariam em três semanas, e Marie</p><p>estava empolgada com a ideia de ocupar a mente com</p><p>seus alunos e escutar as incríveis histórias que eles</p><p>teriam para contar sobre o verão. Mas ela ainda tinha</p><p>três longas semanas pela frente, então precisava se</p><p>dedicar a procurar algo para fazer que a afastasse de seu</p><p>próprio sofrimento e de seu coração partido.</p><p>Por isso, naquela manhã, Marie saiu cedo para</p><p>correr. Quando voltou para casa, ela se viu sozinha, já</p><p>que Theo estava passando as manhãs com o avô. Eles</p><p>até a chamaram, mas Marie andava tão compenetrada</p><p>em sofrer que recusara a oferta. Só que, a partir daquele</p><p>dia, ela não queria mais sofrimento em sua vida.</p><p>Ligou para sua tia após tomar um banho e</p><p>perguntou se podia ir até lá. Jolie, como sempre fazia,</p><p>disse que adoraria a visita de Marie. Então, naquele</p><p>momento, ela estava na bela casa de Jolie e Ali, lendo</p><p>seu livro em frente à enorme janela que dava para o</p><p>lindo jardim e para a área da piscina.</p><p>Marie procurou focar no romance em suas mãos</p><p>enquanto aguardava Jolie terminar de preparar um</p><p>pequeno lanche para elas. Mas não estava ajudando.</p><p>Nem um pouco. Porque Marie se via mais romântica e</p><p>pensava ainda mais em Gabriel e em como seu peito</p><p>estava apertado.</p><p>— Marie, querida, quer suco de laranja? — Jolie</p><p>perguntou da cozinha.</p><p>— Sim, tia, por favor — respondeu ela, erguendo os</p><p>olhos do livro e observando as fotos na parede.</p><p>Vários porta-retratos exibiam fotografias de seus</p><p>tios ainda jovens, assim que começaram a sair. Havia</p><p>também uma do casamento deles, na Turquia, e outra</p><p>dos dois com Kalil nos braços. Marie achava lindo como</p><p>aquelas fotos contavam uma história e sentia-se ansiosa</p><p>pelo dia em que teria uma parede daquelas em sua casa.</p><p>Marie suspirou. Talvez tivesse sido um erro negar o</p><p>pedido de Matheus, pensou.</p><p>Odiava como aquele pensamento invadia a sua</p><p>mente naquela manhã. Ela não estava tão desesperada</p><p>assim. Ou estava?</p><p>Marie não sabia responder. Apenas sentia que</p><p>talvez tivesse cometido um grande erro.</p><p>Ouviu quando Jolie voltou para a sala e olhou para</p><p>a bandeja em suas mãos. Colocou o livro de lado e correu</p><p>para ajudar a tia.</p><p>— Não quer ir lá para fora? Eu ainda não peguei a</p><p>quantidade de sol necessária pela manhã — sugeriu Jolie,</p><p>entregando a bandeja para Marie.</p><p>— É claro. — Marie caminhou até a porta, que já</p><p>estava aberta, e seguiu até a mesa onde a família</p><p>costumava tomar café da manhã.</p><p>Era à beira da piscina, com uma estrutura de</p><p>madeira coberta por um tecido fino, proporcionando uma</p><p>sombra fresca. Marie colocou a bandeja em cima da</p><p>mesa e começou a distribuir os utensílios pela superfície.</p><p>Jolie a auxiliava, contando sobre as últimas postagens</p><p>em seu perfil do Instagram, que já tinha mais de um</p><p>milhão de seguidores, fãs de Fórmula 1 e automobilismo.</p><p>Mas era óbvio para qualquer um que a visse que</p><p>Marie não prestava atenção, por isso Jolie parou de falar</p><p>e ficou observando a sobrinha com um olhar de</p><p>preocupação.</p><p>— O Kalil me contou que você e o Gabe estão</p><p>brigados.</p><p>Marie suspirou. O primo já tinha praticamente</p><p>implorado para que ela parasse de ignorar o Gabriel, o</p><p>que não estava fazendo. Só não tinha tido tempo para</p><p>respondê-lo na última semana, já que andara muito</p><p>ocupada maratonando séries na Netflix e tentando não</p><p>pensar nele.</p><p>— Seu filho é um fofoqueiro!</p><p>Jolie sorriu e deu de ombros.</p><p>— Ele está preocupado — disse, em defesa de seu</p><p>filho. — E o Kalil também me contou que o Gabe está</p><p>saindo muito com o Nathan e o Dom.</p><p>— Tia, o Gabriel é bem crescidinho, não vai se</p><p>deixar influenciar por aqueles dois. Não precisa se</p><p>preocupar — Marie falou, tentando acalmar Jolie.</p><p>Aquela era a melhor/pior qualidade de Jolie. Ela</p><p>adotava as pessoas como suas. Fora assim com Marie,</p><p>com Nathan – principalmente após a morte de tia</p><p>Marieta. Que Deus a tenha! – com Gabriel e agora com</p><p>Mavi Anne. Mas o problema disso era que ela estava</p><p>sempre preocupada com todos e tentava fazer todo</p><p>mundo feliz, esquecendo-se de si mesma. Ali sempre</p><p>apontava essa característica para a esposa, mas ela era</p><p>tão cabeça-dura quanto Kalil em grande parte do tempo.</p><p>Jolie olhava para a sobrinha como se ela tivesse</p><p>dito o pior absurdo de todos. Quer dizer, Marie sabia que</p><p>seu tio Dom e seu primo Nathan eram terríveis. Mas o</p><p>Gabriel já estava com 25 anos, podia muito bem cuidar</p><p>de si mesmo e não se deixar levar pelas loucuras</p><p>daqueles dois – dando destaque a Nathan, que era o</p><p>mais doido da dupla.</p><p>Nathan fazia Marie acreditar naquele velho ditado:</p><p>“O aprendiz supera o mestre!”.</p><p>— Mas por que vocês brigaram? — Jolie perguntou,</p><p>enfim.</p><p>Marie balançou a cabeça. Ela não queria conversar</p><p>sobre aquilo. Com ninguém. Mavi vinha tentando fazê-la</p><p>falar desde que voltaram do Brasil, mas Marie sempre</p><p>fugia. Ela nunca havia contado a qualquer pessoa sobre o</p><p>beijo na adolescência e não acreditava que contar sobre</p><p>o último seria prudente.</p><p>— Querida, você pode me contar qualquer coisa!</p><p>Marie sorriu com tristeza para a tia. Ela sabia que</p><p>podia, mas isso não a impedia de hesitar.</p><p>— Foi por causa do Matheus? — insistiu Jolie.</p><p>— Quem me dera... — Marie respondeu em tom</p><p>baixo. Suspirou e olhou nos olhos da tia, que pareciam</p><p>muito carinhosos e</p><p>preocupados. — O Matheus me pediu</p><p>em casamento — confessou e esperou pela surpresa da</p><p>tia, mas Jolie não demonstrou emoção alguma.</p><p>Kalil era mesmo um tremendo fofoqueiro!</p><p>— Mas você não aceitou. Por quê? — questionou</p><p>Jolie.</p><p>— Porque não parecia certo eu me casar com ele.</p><p>Nós mal nos conhecíamos, e a vida dele é uma loucura.</p><p>— Marie respirou fundo e colocou uma mecha de cabelo</p><p>atrás da orelha. — Só que na hora que ele me pediu, eu</p><p>travei, e isso o fez pensar que eu estava negando por</p><p>outro motivo.</p><p>— E qual motivo seria esse? — Jolie perguntou</p><p>pacientemente.</p><p>— Ele disse que eu sou apaixonada pelo Gabriel —</p><p>contou Marie, sentindo o coração acelerar.</p><p>— E você é?</p><p>Marie balançou a cabeça.</p><p>— Eu não posso ser.</p><p>— Por que não?</p><p>Marie tentou se segurar, mas logo estava chorando</p><p>no ombro da tia. Jolie sussurrou palavras que não faziam</p><p>sentido para ela, mas sentiu-se confortada pelo abraço</p><p>da tia.</p><p>Sentia-se bem por ter contado a ela. Talvez as</p><p>coisas começassem a fluir a partir daquele momento.</p><p>Capítulo 23</p><p>Dias atuais.</p><p>Dia seguinte.</p><p>— Marie, levanta!</p><p>Seus olhos tremularam por alguns segundos antes</p><p>de finalmente abri-los. Viu Stacy e Mavi Anne de pé ao</p><p>lado de sua cama, olhando diretamente para ela.</p><p>— O que aconteceu? — perguntou com voz</p><p>sonolenta.</p><p>— Sabe que horas são? — indagou Stacy.</p><p>Marie não sabia. Tinha passado a noite revisando</p><p>seus planos de aula. Quando se dera conta, já eram duas</p><p>da manhã. Fazia séculos que não dormia tão tarde.</p><p>— Não — respondeu. — Que horas?</p><p>— Onze da manhã! — Stacy exclamou. — Vai! Está</p><p>na hora de levantar!</p><p>Ela gemeu e girou na cama, passando a encarar o</p><p>teto. Em momentos como aquele, odiava ter amigos.</p><p>— Estamos fazendo uma intervenção! — avisou</p><p>Mavi Anne, séria.</p><p>Marie respirou fundo mais uma vez. Maldito fosse o</p><p>dia em que pusera Mavi para assistir How I Met Your</p><p>Mother!</p><p>Levantou-se e sentou-se na cama.</p><p>— Qual é o motivo da intervenção? — perguntou.</p><p>— Cansamos de vê-la sofrer por aquele babaca! —</p><p>revelou Stacy.</p><p>— Ei?! Ele é meu irmão! — Mavi disse, visivelmente</p><p>ofendida.</p><p>Stacy sequer olhou para ela, apenas deu de</p><p>ombros e pegou o caderno de notas de Marie em cima da</p><p>cabeceira.</p><p>— Chega para lá — pediu, empurrando Marie para</p><p>o meio da cama.</p><p>Mavi não perdeu tempo em dar a volta e se sentar</p><p>do outro lado. Stacy abriu o caderno de notas em uma</p><p>página em branco, escreveu algo na primeira linha e o</p><p>colocou em frente à Marie.</p><p>Ali, no topo da página, estava escrito: “O que estou</p><p>fazendo de errado?”.</p><p>Marie encarou o caderno, leu e releu o título, mas</p><p>não entendeu absolutamente nada.</p><p>— Ok, o que é isso? — questionou, olhando de uma</p><p>amiga para a outra.</p><p>— Lembra-se do Jack? — Stacy perguntou.</p><p>Marie assentiu. É claro que ela se lembrava do ex</p><p>de dois anos de sua amiga. Eles haviam terminado um</p><p>ano antes, e Stacy havia chegado ao fundo do poço.</p><p>Marie nunca vira sua amiga tão triste quanto naquela</p><p>época.</p><p>— Então, você se lembra quão mal eu fiquei. Eu</p><p>passei quase duas semanas enfurnada dentro de casa,</p><p>sem saber o que fazer com a minha vida sem ele estar</p><p>nela. Mas, amiga, eu tinha vivido anos da minha vida</p><p>sem ele antes, por isso me levantei da cama, peguei um</p><p>caderno e fiz uma lista igual à que você vai fazer agora!</p><p>Stacy colocou a mão no bolso e tirou um pedaço de</p><p>papel de dentro. Esticou a mão e o entregou para Marie,</p><p>que o abriu e começou a ler.</p><p>— Eu tenho que escrever esse tipo de coisa na</p><p>lista? — perguntou, não querendo fazer aquilo.</p><p>A modelo assentiu.</p><p>— Em um relacionamento, nós também erramos, e</p><p>é importante perceber onde para podermos crescer.</p><p>— Mas eu não estive em um relacionamento com o</p><p>Gabe, Stacy!</p><p>Mavi estalou a língua.</p><p>— Para com isso! — quase gritou, deixando a raiva</p><p>transparecer em sua voz. — Vocês são apaixonados um</p><p>pelo outro desde sempre e quase nunca estiveram com</p><p>outras pessoas. Quando você tentou, não conseguiu.</p><p>Chegou a hora de se desprender, Marie!</p><p>Era uma surpresa ver a reação de Mavi. Sempre</p><p>tão centrada e imparcial, vê-la daquele jeito era algo</p><p>quase que inacreditável.</p><p>Marie olhou para a folha em branco à sua frente e</p><p>respirou fundo. Mesmo que não tivesse dormido até tarde</p><p>por causa de Gabriel, talvez fosse mesmo importante</p><p>fazer aquela lista.</p><p>Pegou a caneta que Stacy ofereceu a ela e</p><p>começou a pontuar todos os erros que cometera ao longo</p><p>dos anos em que estivera apaixonada pelo piloto.</p><p>Queimar as cartas anos antes não tinha adiantado muito,</p><p>talvez aquilo adiantasse e ela pudesse, finalmente,</p><p>seguir em frente.</p><p>O que estou fazendo de errado?</p><p>1. Estou parando a minha vida para sofrer;</p><p>2. Estou pensando nele mais do que em mim;</p><p>3. Não estou cuidando de mim mesma;</p><p>4. Estou ocupada demais sentindo pena de mim</p><p>mesma;</p><p>5. ...</p><p>— Por que parou? — Stacy perguntou.</p><p>— Estava indo bem — disse Mavi.</p><p>Marie fechou o caderno e engatinhou para o outro</p><p>lado da cama, ficando de frente para as amigas.</p><p>— Eu amo vocês e sei que querem o melhor para</p><p>mim. Sério! Só de ter escrito essas quatro linhas já me</p><p>ajudou muito, mas eu acho que preciso terminar sozinha,</p><p>tudo bem?</p><p>Mavi e Stacy se entreolharam, parecendo se</p><p>comunicar profundamente apenas com aquele olhar.</p><p>Quando aquela amizade havia acontecido? Marie</p><p>sequer tinha reparado, mas não se importava, era bom</p><p>saber que as duas estavam se dando bem.</p><p>Capítulo 24</p><p>Faenza, Itália.</p><p>Uma semana depois.</p><p>Faltava uma semana para a próxima corrida, que</p><p>aconteceria na Bélgica. Gabriel precisava estar lá na</p><p>terça-feira, onde teria dez milhões de reuniões, treinos e</p><p>entrevistas. Sua vida estaria de volta ao normal, à sua</p><p>louca rotina.</p><p>Ele amava o seu trabalho. Era o seu sonho se</p><p>realizando ali, bem na sua frente. Sempre que subia ao</p><p>pódio, era como uma cena de filme. Todas aquelas</p><p>pessoas o olhando, admiradas, enquanto ele erguia o</p><p>troféu o mais alto que conseguia. Elas gritavam e se</p><p>emocionavam com o piloto. E Gabriel adorava ainda mais</p><p>quando os três vencedores explodiam as garrafas de</p><p>champanhe e levavam um banho. Era o banho da vitória,</p><p>e ele amava aquilo.</p><p>Mas nem só de momentos como aquele era</p><p>constituída a sua carreira. Gabriel trabalhava todos os</p><p>dias que antecediam as corridas. As reuniões poderiam</p><p>ser cansativas, ser simpático com os jornalistas o tempo</p><p>todo era maçante, e os treinos conseguiam ser bem</p><p>exaustivos. E caso ele não ganhasse o pódio ou, pelo</p><p>menos, alguns pontos no fim de semana, seria como se</p><p>todo o seu trabalho ao longo da semana não tivesse</p><p>valido de nada.</p><p>Em determinados momentos, Gabriel sentia-se tão</p><p>cansado de tudo aquilo que a única coisa que queria era</p><p>abandonar a sua carreira. Mas ele tinha objetivos e</p><p>sonhos para realizar, e seu amor pela Fórmula 1 ainda</p><p>conseguia ser maior do que o seu cansaço. Porém,</p><p>também sabia que quando chegasse a hora de dizer</p><p>adeus às pistas, poderia fazê-lo sem olhar para trás.</p><p>Aposentado, iria se esconder na Ilha e só sairia de lá</p><p>quando alguém fosse se casar ou tivesse morrido –</p><p>aniversários não eram tão importantes, Gabriel não via</p><p>sentido em viajar para um evento que aconteceria todos</p><p>os anos.</p><p>Contudo, naquele instante, seu cansaço era a</p><p>última coisa passava por sua mente, já que, bem à sua</p><p>frente, estava a namorada de seu pai, que parecia a</p><p>Cindy Crawford, olhando-o como se ele fosse um</p><p>alienígena.</p><p>— Então, Gabe... — ela começou a falar, com uma</p><p>voz suave. — Você está em segundo no campeonato este</p><p>ano, não é?</p><p>Gabriel não se deu ao trabalho de responder,</p><p>apenas murmurou em confirmação e voltou a olhar para</p><p>a comida em seu prato. Sentiu o pé de Mavi chutando-o</p><p>por debaixo da mesa, mas ignorou. Sua irmã já o</p><p>cutucara e chutara incontáveis vezes desde que</p><p>chegaram a Faenza, naquela manhã.</p><p>— Estella, meu pai me contou que você é uma</p><p>florista muito talentosa — Mavi comentou, animada,</p><p>tentando desviar a atenção da falta de educação de seu</p><p>irmão mais velho.</p><p>— Sério, amor?! — Estella colocou a mão sobre a</p><p>de Adam e a acariciou. Gabriel precisou desviar o olhar</p><p>rapidamente para não correr o risco de vomitar.</p><p>— Que</p><p>fofo da sua parte! — continuou dizendo, voltada para o</p><p>homem. Depois, olhou para Mavi Anne. — Eu comecei a</p><p>estudar sobre flores há alguns anos. No ano passado,</p><p>decidi abrir uma floricultura. Estou fazendo algum</p><p>sucesso, mas nada extraordinário.</p><p>Adam balançou a cabeça em negação.</p><p>— Não seja modesta, linda — disse em tom meloso.</p><p>— Ela está fazendo arranjos para a elite de Faenza. Todos</p><p>a adoram!</p><p>— Ah, que fofo! — murmurou Gabriel, sarcástico,</p><p>abrindo e fechando um sorriso falso.</p><p>Aquilo era demais para ele. Ver seu pai, com a</p><p>maior cara lavada, tratar uma qualquer melhor do que</p><p>tratara os próprios filhos e a ex-esposa por anos era</p><p>demais.</p><p>— Está tudo bem, Gabriel? — perguntou Adam,</p><p>sério.</p><p>O piloto abriu seu melhor sorriso de tubarão para o</p><p>seu progenitor.</p><p>— Excelente, Adam! — respondeu.</p><p>As orelhas de Adam ficaram vermelhas no mesmo</p><p>instante. Gabriel sabia que estava irritando-o, mas não</p><p>se importava. Quanto mais rápido o pai explodisse, mais</p><p>rápido poderiam acabar com aquela palhaçada e ele</p><p>poderia voltar para o seu lindo apartamento em Mônaco.</p><p>E o mais importante: ficar o mais longe possível de</p><p>Adam.</p><p>— A comida está boa? Fui eu que fiz — disse</p><p>Estella, fingindo empolgação e querendo amenizar o</p><p>clima pesado.</p><p>Imaturidade! Era o que havia gritado dentro de</p><p>Gabriel e o fizera ter vontade de vomitar toda a comida</p><p>que já havia ingerido.</p><p>— Está muito boa, Estella. Obrigada por ter</p><p>preparado tudo para nós — Mavi respondeu, sorrindo</p><p>para a mulher.</p><p>O piloto não entendia como a irmã conseguia.</p><p>— Au! Au! Au!</p><p>O cachorro de Adam entrou na sala de jantar</p><p>fazendo uma festa. Aquilo irritou ainda mais Gabriel.</p><p>Após a separação de seus pais, Lila e Miles,</p><p>cachorros que Gabriel ganhou em seu aniversário de</p><p>cinco anos, foram separados. Lila foi levada para a Itália,</p><p>com Adam, enquanto Miles ficou na Inglaterra, com Gabe</p><p>e sua mãe. Mas os cachorros eram tão familiarizados um</p><p>com o outro que não suportaram a separação e</p><p>acabaram morrendo. Gabriel odiou seu pai ainda mais</p><p>quando soube disso.</p><p>— Ayrton, não pode ficar aqui, filho. Você sabe —</p><p>disse Adam, em um tom extremamente carinhoso.</p><p>Gabriel olhou para Mavi Anne e viu nos olhos dela</p><p>que ela entendia. Sua irmã sabia o que era aquele misto</p><p>de raiva, rancor e tristeza que transbordava dentro dele.</p><p>E por algum motivo, olhar para ela e constatar aquilo o</p><p>acalmou. Ele não estava sozinho naquela situação. Mavi</p><p>havia perdoado Adam, então a dor que sentia não era tão</p><p>grande quanto a dele, mas ainda estava ali.</p><p>Às vezes, Gabe queria ser mais parecido com Mavi.</p><p>Queria conseguir perdoar o pai e seguir em frente. Mas</p><p>como? Como poderia perdoar o homem que abandonara</p><p>sua mãe e os dois filhos?</p><p>Ele não conseguia. Até mesmo estar no mesmo</p><p>ambiente que Adam o deixava sufocado. Gabriel voltou a</p><p>olhar para o macarrão em seu prato e prometeu a si</p><p>mesmo que não iria brigar. Estava cansado de brigar.</p><p>Talvez a hora de se calar tivesse chegado.</p><p>— Filho? — Ou talvez não.</p><p>Gabriel olhou para o pai e viu quando ele percebeu</p><p>o que acabara de fazer.</p><p>— Nós temos o costume de chamá-lo assim —</p><p>Estella se apressou em dizer, tentando defender Adam.</p><p>Gabriel sorriu, com a raiva borbulhando dentro de</p><p>si.</p><p>— Que bom que tem o costume de chamar alguém</p><p>assim, pai — disse olhando para o homem.</p><p>— Desculpa, Gabriel — falou Adam, com a sua</p><p>melhor pronúncia para o nome do filho. Seu primogênito,</p><p>que nunca havia sido tratado como um.</p><p>Gabriel se sentia um idiota por ainda ter uma parte</p><p>sua esperando aquilo. Parecia que cada vez que passava</p><p>um tempo com Adam, ele conseguia usar aquele tempo</p><p>para frustrar Gabe um pouco mais.</p><p>O piloto pegou o guardanapo que estava no colo e</p><p>o jogou em cima da mesa.</p><p>— Fico feliz que pelo menos se lembre do meu</p><p>nome, Adam. — Colocou-se de pé e se virou para a irmã.</p><p>— Vou te esperar no hotel para irmos para o aeroporto.</p><p>Mavi o fitou com os olhos implorando para que ele</p><p>ficasse.</p><p>— Gabe...? — murmurou ela, desesperada. —</p><p>Sente-se.</p><p>— Não, Mavi! Eu estou cansado desse teatro! —</p><p>respondeu Gabriel, extrapolando. — Esse homem pode</p><p>ser o seu pai, mas não é o meu. Então, eu não vou ficar</p><p>aqui o escutando chamar uma modelo de linda, quando</p><p>deixou a minha mãe, e a sua, sofrendo! Ou um vira-lata</p><p>de filho, quando não tratou o próprio filho como um!</p><p>Mavi olhou para Adam, implorando por uma</p><p>reação, mas Gabriel estava realmente cansado daquilo.</p><p>Cansado de esperar o pai reagir ou dizer algo.</p><p>— Gabriel, sente-se! — Adam ordenou com voz</p><p>cortante.</p><p>O piloto olhou para ele e ergueu as sobrancelhas,</p><p>desafiando-o.</p><p>— Você está mandando?</p><p>Adam se levantou e encarou o filho. Tão parecidos,</p><p>mas tão distintos. Os olhos azul-escuros como o mais</p><p>profundo mar caribenho estavam injetados de ira e dor</p><p>em ambas as partes. Enquanto o filho pedia, implorava,</p><p>pelo mínimo de seu pai, Adam apenas o olhava e</p><p>demandava que ele não o humilhasse na frente de sua</p><p>namorada.</p><p>— Estou! Sente-se! Pare de fazer uma cena! —</p><p>Adam voltou a ordenar.</p><p>Gabriel riu. Ele simplesmente riu.</p><p>— Vai à merda, pai! — disse e se virou.</p><p>Ele não se importou se Mavi iria atrás dele. Apenas</p><p>saiu.</p><p>Entrar em batalhas que não se podia ganhar às</p><p>vezes se tornava um tormento.</p><p>Capítulo 25</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Dia seguinte.</p><p>Na opinião de Marie, correr era uma atividade</p><p>superestimada. Grande parte de seus amigos corria</p><p>alguns quilômetros todos os dias, e ela apenas sorria e</p><p>assentia quando eles contavam como aquilo lhes fazia</p><p>bem.</p><p>Então, Marie tentou.</p><p>E, bem, ela estava gostando o suficiente para</p><p>entender o porquê de seus amigos gostarem tanto.</p><p>Estava saindo de casa às seis da manhã todos os</p><p>dias para correr na orla. Já tinha conseguido alcançar o</p><p>primeiro quilômetro direto e sentia-se muito feliz por isso.</p><p>Depois que corria, Marie ia para a praia e mergulhava.</p><p>Aquela rotina a estava ajudando muito, além de ser</p><p>quase tão prazerosa quanto tomar sorvete ou ler um</p><p>bom romance.</p><p>Ela tirou seus tênis e meias e, descalça, caminhou</p><p>pela areia, sentindo-a ainda fresca naquela manhã. Tirou</p><p>sua roupa, arrumou tudo junto ao seu relógio, correu</p><p>para o mar e mergulhou.</p><p>Uma semana havia se passado desde o baile,</p><p>quando falou com Gabriel pela última vez. Marie sabia</p><p>que o amigo estava em Faenza naquele momento, com</p><p>Mavi, e se segurara para não enviar uma mensagem a</p><p>ele desejando boa sorte em seu encontro com o pai. Mas</p><p>como tinha prometido a si mesma, iria se colocar em</p><p>primeiro lugar daquela vez.</p><p>Não falar com Gabriel era o seu primeiro passo.</p><p>Marie sabia que ele estava bem, pois havia perguntado à</p><p>Mavi como tinha sido o jantar. A amiga respondeu um</p><p>“Bem!” em vez de mandar um convite para o enterro de</p><p>Adam. Então, tudo estava sob controle.</p><p>Marie continuou nadando enquanto tentava</p><p>relaxar, até decidir boiar um pouco, sentindo a brisa</p><p>suave do oceano. Ficou assim por quase um minuto,</p><p>antes de sentir muita água em cima dela. Levou um</p><p>susto e se virou, respirando fundo após quase ter sido</p><p>afogada.</p><p>Olhou ao redor para ver quem havia sido o</p><p>responsável por aquilo. Encontrou um homem um pouco</p><p>mais à frente, jogando o cabelo molhado para trás. Marie</p><p>o observou secar os olhos e olhar para o sol, tudo</p><p>parecendo uma cena em câmera lenta de algum filme de</p><p>romance brega.</p><p>Então, o homem em questão a olhou e abriu um</p><p>sorriso de lado, muito branco, deixando Marie com as</p><p>bochechas coradas. Logo ela reconheceu aquele sorriso</p><p>de menino que sabia que era bonito. Era Hunter Cornell,</p><p>piloto da AlphaTauri.</p><p>— Oi. Desculpa se eu joguei água em você — disse</p><p>ele, não parecendo nada arrependido.</p><p>Marie assentiu, tentando demonstrar simpatia.</p><p>— Tudo bem. Se está na água, é para se molhar,</p><p>certo?</p><p>Ele sorriu e deu de ombros.</p><p>Marie deu um breve aceno, despedindo-se, e</p><p>começou a nadar para fora do mar. Quando colocou os</p><p>pés na areia seca, percebeu que o piloto estava logo</p><p>atrás dela.</p><p>Ele foi até onde estavam suas roupas, enquanto ela</p><p>pegava as dela. Mas Marie sentiu que estava sendo</p><p>observada.</p><p>— Licença...? — Ela o</p><p>ouviu dizer, aproximando-se,</p><p>já de bermuda. — Eu te conheço? — indagou o piloto.</p><p>— Sou prima do Kalil Faez.</p><p>Hunter inclinou o rosto e a observou, tão</p><p>profundamente que Marie sentiu suas bochechas</p><p>corarem novamente.</p><p>— Ah, sim! Eu sabia que já tinha te visto em algum</p><p>lugar — disse ele. — Estou há dias tentando lembrar. —</p><p>Então, estendeu a mão para Marie. — Sou Hunter.</p><p>Marie apertou sua mão.</p><p>— Que bom que tem boa memória, Cornell —</p><p>respondeu. — Tenho que ir agora, mas foi um prazer te</p><p>ver — disse, andando de volta para a orla.</p><p>— Espera!</p><p>Hunter foi atrás dela.</p><p>— Está vindo correr por esse horário sempre?</p><p>Marie sentiu-se confusa.</p><p>— Como sabe que eu vim correr?</p><p>— Por causa dos tênis — respondeu ele, apontando</p><p>para as mãos de Marie, que se sentiu uma boba por ter</p><p>perguntado. — Mas eu também tenho te visto por aqui</p><p>nos últimos dias.</p><p>— Ah, claro. Desculpa se pareci na defensiva —</p><p>falou Marie. — Bom, até a próxima corrida, então.</p><p>Ela se virou para voltar a andar, mas Hunter a</p><p>seguiu novamente.</p><p>— Ou... você poderia me dar a honra de me</p><p>acompanhar até uma cafeteria para tomarmos um café</p><p>— convidou o piloto, com seu sorriso fácil que devia fazê-</p><p>lo sempre conseguir o que queria.</p><p>Marie abriu a boca para negar. Ela não queria que</p><p>ele pensasse que estava a fim dele. Mas, então, sua</p><p>barriga roncou só com a ideia de comer um delicioso</p><p>croissant. E, bem, ela não tinha nada a perder, não é?</p><p>— Prometo que não vou te sequestrar! — brincou</p><p>Hunter.</p><p>Não, ela não teria nada a perder por acompanhar</p><p>um lindo homem de corpo esculpido até um café.</p><p>Bom, não foi uma catástrofe.</p><p>Hunter era tudo o que Marie já tinha ouvido falar e</p><p>um pouco mais. Ele era charmoso, educado, inteligente,</p><p>engraçado e muito, muito lindo. Marie estava tentando</p><p>não o encarar demais, para não parecer estranho, mas</p><p>sempre se pegava admirando a beleza daquele homem.</p><p>Ela sempre o achara lindo, mas nunca havia estado</p><p>tão perto dele como naquele momento, com apenas uma</p><p>mesa os separando. Era sempre o paddock inteiro entre</p><p>os dois, e Hunter não era próximo o suficiente de seus</p><p>primos e amigos para ser convidado para os jantares, o</p><p>que era uma pena.</p><p>Já fazia horas que eles tinham saído da praia e ido</p><p>àquela cafeteria, e o papo fluía de maneira muito</p><p>agradável. Hunter não deixava a conversa morrer,</p><p>contava muitas histórias e ouvia as histórias de Marie. E</p><p>sempre a deixava toda envergonhada quando sorria para</p><p>ela.</p><p>O piloto não era um tolo que falava apenas sobre</p><p>Fórmula 1. Hunter conversava sobre política, filosofia,</p><p>saúde e até mesmo jardinagem.</p><p>— Essa é a vantagem e a desvantagem de ser o</p><p>caçula, sou obrigado a ser o companheiro da minha mãe</p><p>em tudo, incluindo jardinagem — disse após explicar algo</p><p>sobre adubos.</p><p>— É isso o que conta para todas? — perguntou</p><p>Marie, provocando-o.</p><p>Hunter fingiu estar indignado e colocou a mão</p><p>sobre o peito.</p><p>— Assim você me ofende, Marie! — Então, sorriu e</p><p>balançou a mão no ar. — Tudo bem, você está certa. Sou</p><p>o caçula por pouco, minha irmã gêmea, Dana, nasceu</p><p>cinco minutos antes de mim. E talvez eu tenha me</p><p>interessado por jardinagem porque tive uma queda pela</p><p>filha do dono da floricultura quando adolescente.</p><p>Ele mordeu mais um pedaço de seu croque</p><p>monsieur.</p><p>— Em minha defesa, eu realmente passei a gostar</p><p>de jardinagem depois que ela me deu um fora. Mas o que</p><p>eu posso dizer? Homens pesquisam sobre os interesses</p><p>das mulheres que acham bonitas — falou olhando para</p><p>Marie.</p><p>Ela sentiu um arrepio descer pela coluna e não</p><p>conseguiu se impedir de corar. Era ridículo o que um</p><p>rosto angelical com barba e um bom papo podia fazer</p><p>com a estrutura de uma mulher.</p><p>Só que Marie não se deixaria levar por todo aquele</p><p>charme. Ela estava decidida a seguir seu primeiro</p><p>pensamento de se priorizar. E esse pensamento não</p><p>incluía homens como distração. Marie tinha outras</p><p>prioridades e precisava prezar por elas. Mas nenhuma</p><p>dessas prioridades impedia que fizesse amigos...</p><p>Capítulo 26</p><p>Spa, Bélgica.</p><p>GP da Bélgica.</p><p>Uma semana depois.</p><p>Faltavam cinco pontos. Gabriel olhava para aquele</p><p>mesmo placar fazia pelo menos uma hora. E contava</p><p>aquele mesmo número todas as vezes. Cinco. Ele</p><p>precisava de cinco pontos para realizar o seu sonho. Para</p><p>alcançar o seu objetivo.</p><p>Recostou-se na cadeira de couro do quarto do hotel</p><p>e inspirou profundamente o ar gelado causado pelo</p><p>refrigerador. Já havia passado da sua hora de ir para a</p><p>cama e ele precisava estar descansado para viajar no dia</p><p>seguinte, mas nem aquele pensamento fez seus olhos se</p><p>desviarem da tela.</p><p>Ouviu um som ao seu lado. Aos poucos, Gabriel</p><p>despertou do transe em que se encontrava e olhou para</p><p>a cômoda. Seu celular tocava e o nome de sua mãe</p><p>brilhava na tela. Pegou o aparelho, arrastou o polegar</p><p>sobre a tela e o levou ao ouvido.</p><p>— Sua benção, mãe! — disse, tentando parecer</p><p>animado, não querendo que Vera ficasse preocupada.</p><p>Mas sua voz parecia tão cansada quanto ele se sentia.</p><p>— Deus te abençoe, meu filho. Como você está</p><p>hoje?</p><p>Sempre que ele chegava ao hotel depois de um fim</p><p>de semana de corrida, sua mãe ligava. E sempre era a</p><p>mesma pergunta que fazia, não importava se ele tinha</p><p>vencido ou não.</p><p>— Eu estou... cansado — respondeu sinceramente,</p><p>com um suspiro.</p><p>— Imagino que sim, meu amor. Mas está feliz com</p><p>o resultado de hoje?</p><p>— Sim! — exclamou o piloto, tentando ficar um</p><p>pouco mais animado. — Eu consegui me aproximar do</p><p>William. Faltam só cinco pontos para empatarmos. Estou</p><p>no caminho certo.</p><p>— Fico feliz de ouvir isso, Gabe — falou Vera.</p><p>Porém, sua voz não transparecia nem um pouco a sua</p><p>felicidade.</p><p>— O que aconteceu, mãe?</p><p>— O Kalil me disse que você não foi comemorar a</p><p>sua vitória hoje.</p><p>Gabe colocou a mão no rosto e suspirou. Precisaria</p><p>ter uma conversa séria com Kalil sobre as suas fofocas,</p><p>principalmente para a sua mãe.</p><p>— Estou muito cansado, por isso eu não quis ir, só</p><p>isso.</p><p>Vera murmurou algo que Gabe não conseguiu</p><p>entender.</p><p>— Falando nisso, eu já estava me preparando para</p><p>dormir. Boa noite, mãe. Eu te amo!</p><p>— Gabe, por favor, não deixe isso te dominar. Fica</p><p>com Deus, meu amor. Eu também te amo.</p><p>Gabriel afastou o celular do ouvido e desligou.</p><p>Era tarde demais, aquilo já o tinha dominado.</p><p>Na manhã seguinte, Gabriel ainda sentia que um</p><p>caminhão havia passado por cima dele, mas se obrigou a</p><p>se arrastar da cama e ir para o restaurante onde o café</p><p>da manhã estava sendo servido.</p><p>— O que aconteceu com você ontem à noite? —</p><p>Mavi perguntou ao irmão enquanto se serviam.</p><p>O piloto se ocupou em pegar ovos mexidos,</p><p>tentando ignorar o sono que sentia.</p><p>— Eu estava cansado, fui para o meu quarto —</p><p>respondeu em tom sonolento.</p><p>Ele percebeu que a irmã o olhava com preocupação</p><p>e que tentava se segurar para não falar nada, e torcia</p><p>para que ela não falasse nada mesmo, já que estava com</p><p>sono demais para se concentrar em algo.</p><p>Quando terminaram de se servir – Gabriel pegou</p><p>uma grande xícara de café –, foram para a mesa que</p><p>dividiriam com Kalil e Nathan, que já se encontravam</p><p>sentados.</p><p>Gabriel focou em sua comida e não se esforçou</p><p>para conversar com os amigos, que papeavam sobre</p><p>qualquer futilidade.</p><p>— Que bicho te mordeu? — Ouviu Kalil perguntar.</p><p>Ergueu os olhos do prato e viu os três o olhando.</p><p>Limpou a boca com o guardanapo e aproveitou</p><p>para esconder um grande bocejo.</p><p>— O que quer dizer? — indagou.</p><p>— Você não falou nada desde que se sentou. E está</p><p>de cara feia — Nathan respondeu.</p><p>— Só estou...</p><p>— Cansado! — cantarolaram os três, juntos.</p><p>— Sim, cara, nós sabemos — disse Kalil. — Você</p><p>devia dormir um pouco mais, o voo é só à tarde.</p><p>— Eu sei, mas tenho que treinar. Acham que</p><p>mantenho este corpo dormindo até tarde?</p><p>— Mas você precisa estar descansado para</p><p>carregar esse corpo! — advertiu Nathan, com o ar de</p><p>superioridade de quem entendia do assunto.</p><p>Gabriel balançou a cabeça e começou a responder,</p><p>mas a sua atenção foi desviada para uma mesa próxima.</p><p>Hunter...</p><p>Em frente ao piloto da AlphaTauri, rindo de algo</p><p>que ele havia dito, estava sentada ninguém</p><p>menos que...</p><p>Marie?</p><p>— Desde quando aquilo está acontecendo? —</p><p>questionou indicando a mesa com a cabeça.</p><p>— Estava demorando... — murmurou Nathan,</p><p>olhando para o amigo, que parecia exasperado.</p><p>— O que estava demorando? — Gabe voltou a</p><p>perguntar.</p><p>— Você reparar que a Marie está com alguém —</p><p>respondeu Nate.</p><p>Gabriel sentiu seu semblante cair e sua testa se</p><p>enrugar.</p><p>— Ela está com o Hunter?</p><p>— Ela não está com o Hunter! — Mavi Anne disse</p><p>com veemência. — Eles estão se conhecendo, só isso —</p><p>continuou, gesticulando com as mãos. — E parem de</p><p>falar sobre isso, não é da conta de vocês!</p><p>Gabriel olhou para a irmã, assustado com sua</p><p>reação. Fazia um tempo que ele não falava com Marie e</p><p>que não perguntava sobre ela para ninguém. Achava que</p><p>era melhor assim, e talvez Mavi pensasse o mesmo, já</p><p>que não parecia inclinada a responder a simples</p><p>pergunta que fizera. Aliás, ela só havia colocado ainda</p><p>mais dúvidas em sua cabeça.</p><p>Suspirou e desviou o olhar da irmã de volta para a</p><p>amiga, que conversava com seu colega de trabalho com</p><p>grande empolgação e intimidade. Algo estava</p><p>acontecendo ali, mas não cabia a ele descobrir. Tinha</p><p>outras coisas com que devia ocupar sua mente.</p><p>— Voltam para Mônaco hoje? — perguntou para os</p><p>amigos, tentando socializar um pouco.</p><p>Com a cena de Marie e Hunter deixada para trás,</p><p>os outros voltaram a atenção para a própria mesa.</p><p>— Eu não — disse Mavi. — Vou para Londres. Tenho</p><p>uma reunião com a Dafne amanhã.</p><p>— Por quê? — Gabriel perguntou.</p><p>Era no mínimo estranho Mavi ter uma reunião com</p><p>sua ex-chefe depois de tantos meses de sua saída da</p><p>emissora.</p><p>— Ela quer tentar me convencer a voltar.</p><p>— Mas você não vai — Kalil arremeteu.</p><p>Mavi suspirou e olhou para o namorado, parecia</p><p>estressada.</p><p>— Eu não decidi nada ainda.</p><p>— Você não pode voltar, está trabalhando com a</p><p>Jolie agora — disse Gabriel, como se a irmã tivesse se</p><p>esquecido daquele grande fato.</p><p>Ela balançou a cabeça, mostrando que não queria</p><p>mais falar sobre aquele assunto. Gabriel queria poder se</p><p>intrometer, mas sabia que Mavi precisava resolver suas</p><p>coisas antes de falar com qualquer pessoa, a não ser</p><p>Kalil.</p><p>— E você, volta para Mônaco, Gabe? — perguntou</p><p>Mavi, apenas confirmando que queria desviar o assunto</p><p>de si mesma.</p><p>— Não. Vou para a sede hoje. Tenho reuniões por lá</p><p>esta semana. De lá, vou direto para a Holanda.</p><p>— A Vera tinha dito que você iria para Mônaco esta</p><p>semana — comentou Kalil.</p><p>— E você deve realmente saber, não é? — indagou</p><p>Gabe.</p><p>Kalil o olhou, confuso.</p><p>— O que quer dizer com isso?</p><p>— Que você tem conversado muito com a minha</p><p>mãe ultimamente.</p><p>— Eu estava preocupado com você. — O amigo</p><p>sequer teve a decência de parecer culpado.</p><p>— E quis deixá-la preocupada também? Ela está do</p><p>outro lado do mundo, Kalil, não pode fazer nada!</p><p>Apesar do cansaço, Gabriel não podia adiar mais</p><p>aquela conversa.</p><p>— Não brigue com ele! — Mavi entrou em defesa</p><p>do namorado. — O Kalil só estava tentando ajudar, Gabe.</p><p>— Muito ajuda quem não atrapalha! — respondeu</p><p>Gabriel, logo se arrependendo por ter sido grosso com os</p><p>amigos.</p><p>— Desculpa, cara. Eu só me importo com você.</p><p>Gabriel assentiu.</p><p>— Estamos preocupados com você, Gabe, e você</p><p>não está nos escutando — falou Mavi.</p><p>— Eu sinto muito que esteja deixando todos vocês</p><p>assim, mas sou bem grandinho e sei me cuidar —</p><p>garantiu Gabriel, afastando sua cadeira da mesa. — Vou</p><p>me arrumar para treinar. — E se levantou.</p><p>Tomou cuidado para atravessar o salão sem olhar</p><p>em direção à mesa onde Marie ainda conversava com</p><p>Hunter sem parecer reparar nele e tentou ignorar o</p><p>sentimento que se apoderava de seu peito.</p><p>Capítulo 27</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Uma semana depois.</p><p>— Então, o que você acha que precisa mudar,</p><p>Marie?</p><p>Ela olhou para o doutor Matthews e deu de ombros.</p><p>— Se eu soubesse, eu não estaria aqui com o</p><p>senhor, doutor — respondeu, exasperada. — Só preciso</p><p>de uma resposta, de uma direção.</p><p>Doutor Matthews, ou Liam, como ele pedira que</p><p>Marie o chamasse – havia explicado que psicólogos</p><p>deviam ser como pessoas normais para os pacientes,</p><p>como amigos, assim eles poderiam se abrir com mais</p><p>facilidade, e Marie ainda estava se acostumando com</p><p>aquilo –, colocou o bloco de notas de lado e olhou para</p><p>ela.</p><p>— Marie, estou aqui para tentar te ajudar com</p><p>todas as suas questões, mas até agora não falamos</p><p>muito sobre você. Falamos sobre os seus pais, sobre o</p><p>Gabriel, mas nada sobre você. Preciso que me conte</p><p>quem você é!</p><p>Marie o encarou, sem entender aonde ele queria</p><p>chegar.</p><p>— Como assim, doutor? Falar sobre essas pessoas</p><p>já deveria dizer quem eu sou, não?</p><p>Liam assentiu e anotou algo em seu caderno.</p><p>— Marie, você está colocando os outros em</p><p>primeiro lugar, mas se esquece de que também é</p><p>alguém que precisa de atenção. Pelo que me contou,</p><p>está melhorando nisso, mas acho que podemos avançar</p><p>um pouco mais.</p><p>Marie assentiu. Ela sabia que podia melhorar, mas</p><p>não sabia mais o que poderia fazer. Terapia havia sido</p><p>uma de suas ações para se colocar no topo de suas</p><p>prioridades.</p><p>— Eu sei que preciso melhorar, mas não sei como</p><p>fazer isso, por isso vim até o senhor.</p><p>— Tudo bem — respondeu o psicólogo, olhando</p><p>para as anotações em seu caderno. — Quando está</p><p>prestes a explodir, o que você faz?</p><p>— Eu me controlo.</p><p>— Quando você sente medo, qual é a sua solução?</p><p>— Tento pensar em outra coisa.</p><p>— E quando se sente insegura?</p><p>— Faço de tudo para me esquecer.</p><p>Liam assentiu e tirou os olhos de seu caderno, o</p><p>que estava deixando Marie estressada.</p><p>— Já se deu conta de que você foge, Marie? Foge</p><p>de todas as emoções que a tornam humana.</p><p>— Eu não senti que estava fugindo quando passei</p><p>uma semana inteira assistindo Netflix e chorando.</p><p>— O nosso corpo é como uma máquina, Marie.</p><p>Quando o seu celular descarrega, o que ele faz?</p><p>— Ele desliga.</p><p>— Exatamente. Mas ao contrário dos celulares,</p><p>temos diferentes maneiras de reagir à exaustão. Chorar é</p><p>uma delas.</p><p>Marie continuava sem entender.</p><p>— Mas por que eu estaria exausta?</p><p>— Porque você passou anos guardando muitos</p><p>sentimentos, sem saber como expressá-los, sempre se</p><p>preocupando em como os outros iriam reagir, sempre</p><p>colocando os outros na frente.</p><p>Marie suspirou.</p><p>— Você passou a primeira sessão inteira falando</p><p>sobre os problemas de seus pais. Na segunda sessão,</p><p>você falou somente de Gabriel e dos problemas dele. Mas</p><p>em nenhum momento você falou sobre como os</p><p>problemas dessas pessoas te afetam.</p><p>Marie ficou em silêncio. Ela não precisava falar</p><p>nada. Na verdade, ela não tinha nada para falar.</p><p>— Conte para mim, Marie, como os problemas</p><p>deles te afetam?</p><p>Marie respirou fundo. Sentiu seus olhos se</p><p>encherem de lágrimas e o coração acelerar. Ela se</p><p>levantou.</p><p>— Eu não posso fazer isso — disse, andando até a</p><p>porta. — É muito...</p><p>— Você precisa falar sobre isso, Marie. Se quer</p><p>mesmo se priorizar, precisa desabafar.</p><p>Ela parou em frente à porta.</p><p>— Eu não quero desabafar! — rebateu, virando-se</p><p>para o psicólogo. — Eu não quero falar sobre mim, não</p><p>quero pensar em mim, e não quero resolver os meus</p><p>problemas se isso vai deixar os outros preocupados</p><p>comigo. Eu não quero ser um peso para eles, você</p><p>entende isso, doutor? Eu só quero que os problemas</p><p>desapareçam e que tudo fique bem.</p><p>Liam se levantou e a olhou com o semblante mais</p><p>calmo do mundo, o que a irritou ainda mais.</p><p>— E o que acha de falar sobre esses problemas?</p><p>Talvez, assim, eles desapareçam.</p><p>— Quer que eu fale o quê? Que eu fui uma péssima</p><p>filha? Que eu fiz a minha mãe pensar que ela não era o</p><p>suficiente? Que eu passei a vida fugindo das brigas dos</p><p>meus pais? Que eu preciso fingir ter uma vida perfeita</p><p>todos os dias por medo de que descubram que a minha</p><p>família não é perfeita?</p><p>“E a única pessoa que sabe a verdade e que me</p><p>abraçava quando eu precisava era o meu melhor amigo,</p><p>por quem eu sou apaixonada desde os oito anos de idade</p><p>e que não me corresponde, pois tem medo de ser como o</p><p>imbecil do pai dele. Eu estou sozinha, doutor!”</p><p>Liam assentiu, empático.</p><p>— Sente-se, Marie.</p><p>Ela curvou os ombros, sentindo-se</p><p>derrotada, e</p><p>voltou para o sofá.</p><p>— Obrigado. — O psicólogo apanhou novamente o</p><p>bloco e verificou suas anotações. — Vamos começar do</p><p>princípio. Seus pais. Eles brigaram nessas últimas</p><p>semanas?</p><p>Marie negou com a cabeça.</p><p>— Desde que comecei a tentar me aproximar da</p><p>minha mãe, ela parece mais feliz. Eu acho que isso ajuda</p><p>a não brigarem.</p><p>— Foi sua mãe quem disse que você a fazia não se</p><p>sentir o suficiente?</p><p>Marie negou mais uma vez.</p><p>— Eu apenas deduzi.</p><p>— Mas você sabe que isso pode não ser verdade,</p><p>certo?</p><p>— Então, por que ela parece mais feliz agora?</p><p>— Pode ser coincidência. Sinceramente, isso não</p><p>importa, já que você está fazendo a sua parte como filha.</p><p>A relação dos seus pais é algo que diz respeito apenas a</p><p>eles — respondeu o psicólogo. — E o Gabriel, você ainda</p><p>não falou com ele?</p><p>— Não. Eu não acho que estou pronta.</p><p>Liam assentiu.</p><p>— Então, vamos resolver o que você se sente</p><p>pronta.</p><p>Capítulo 28</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Um dia antes do aniversário de Kalil.</p><p>Yoga não era para Marie. Ela havia passado quatro</p><p>dias tentando, mas não conseguia se concentrar no</p><p>próprio corpo, não importava quantas vezes a instrutora</p><p>dissesse para fazer isso. Sua mente sempre fugia para</p><p>outra dimensão, fazendo-a se desconcentrar e cair.</p><p>Então, Marie mudou para pilates. Conseguiu fazer a</p><p>maior parte dos exercícios e se viu mais concentrada.</p><p>Talvez, fosse por haver mais movimento. Mas ela</p><p>prometeu a si mesma que tentaria o yoga mais tarde.</p><p>Marie se deu muito bem praticando pilates, na</p><p>verdade. Estava sempre empolgada para a próxima aula</p><p>e adorava conversar com suas colegas – todas já com a</p><p>idade de Fran, algumas até eram amigas da avó.</p><p>Outra coisa que Marie estava tentando fazer era</p><p>conversar mais com sua mãe. Havia decidido não</p><p>perguntar a verdadeira razão de Isabela ser tão</p><p>estressada, apenas amá-la. E Isabela parecia muito</p><p>satisfeita com isso, estavam se dando muito bem. Era</p><p>bom ser amiga de sua mãe.</p><p>Mas Marie ainda sentia falta de Gabriel. Sentia falta</p><p>de falar com ele, de contar sobre a sua vida e de escutá-</p><p>lo contando sobre a dele. E não iria negar que sempre</p><p>que seu celular vibrava, ela torcia para que fosse uma</p><p>mensagem do amigo. Queria que ele perguntasse como</p><p>ela estava, que dissesse que sentia sua falta, que a</p><p>amava.</p><p>Porém, nada de contato.</p><p>Marie sentia a escuridão naquela área de sua vida</p><p>e tentava buscar qualquer coisa que a impedisse de</p><p>pensar naquilo – indo contra tudo o que Liam havia dito</p><p>para ela fazer. Mas... passos de tartaruga. Ocupava sua</p><p>mente com o trabalho, com o pilates e tentando escrever</p><p>sobre o que estava sentindo durante aquele processo.</p><p>Quando o fim de semana chegava, Marie já estava com</p><p>ele todo planejado. Normalmente, saía com Stacy e Mavi.</p><p>Ou ia à praia e ficava lendo um livro.</p><p>Naquele momento, ela estava em uma loja de</p><p>roupas com Stacy. A amiga provava milhares de vestidos</p><p>para a festa de aniversário de Kalil, que seria na noite</p><p>seguinte.</p><p>— Você devia experimentar alguns — disse Stacy,</p><p>com a cortina do provador fechada.</p><p>Marie revirou os olhos.</p><p>— Não devia, não — respondeu. — Estou com</p><p>tantas roupas no meu armário que nem sei se cabe mais</p><p>alguma. E eu sequer as uso.</p><p>Stacy abriu a cortina e saiu usando um lindo</p><p>vestido azul.</p><p>— Ficou lindo! — elogiou Marie, sentada no pufe</p><p>em frente ao provador. — Você deveria levar.</p><p>A modelo foi para a frente do espelho e fez várias</p><p>poses para ver se gostava do vestido.</p><p>— Acho que vou usar este na festa do Kalil — disse</p><p>e voltou-se para Marie. — O que você vai usar?</p><p>Marie olhou para ela, séria.</p><p>— Eu já disse, um dos vários vestidos que tenho no</p><p>meu armário.</p><p>Stacy a olhou, chocada.</p><p>— Você é muito controlada. Qualquer oportunidade</p><p>que tenho de comprar roupas, eu compro.</p><p>— Você as usa muito mais que eu — disse,</p><p>voltando a folhear a revista Vogue em seu colo. — Como</p><p>vai para a festa?</p><p>— Eu ainda não sei — respondeu Stacy, ainda</p><p>admirando o vestido. — Mas o importante não é com</p><p>quem você chega à festa, e sim com quem você sai —</p><p>concluiu, piscando para Marie, antes de fechar a cortina</p><p>do provador para experimentar outra peça. — E você?</p><p>— O Hunter se ofereceu para me levar — contou</p><p>enquanto analisava uma foto de Zendaya usando um</p><p>lindo vestido Velentino e fazendo pose de modelo. — Mas</p><p>acho que não vou aceitar. Eu não vou fazê-lo gastar</p><p>tempo, já que meus pais também vão.</p><p>Stacy abriu a cortina – trajava um midi tomara que</p><p>caia vermelho muito sexy – e encarou Marie como se a</p><p>amiga fosse louca.</p><p>— Um dos caras mais gatos do grid te chama para</p><p>acompanhá-lo a uma festa... e você acha melhor ir com</p><p>os seus pais?</p><p>Marie deu de ombros.</p><p>— Eu não vou encontrá-lo lá, de qualquer maneira?</p><p>Stacy soltou um “Pff!”, como se Marie tivesse dito</p><p>algo completamente ridículo.</p><p>— O cara está caidinho por você, Marie! Negar é</p><p>como dar um fora nele!</p><p>Marie desdenhou do comentário de Stacy.</p><p>— Ele não está caidinho por mim.</p><p>— Ah, não! Eu é que estou! — respondeu Stacy,</p><p>revirando os olhos. — Marie, olhe-se no espelho. Todos os</p><p>homens são caidinhos por você!</p><p>Nem todos...</p><p>Stacy sentou-se ao lado da amiga e pegou suas</p><p>mãos.</p><p>— Aceite, Marie. Vai ser divertido! Consegue</p><p>imaginar a cara de você-sabe-quem quando você chegar</p><p>à festa com aquele homem?</p><p>Marie revirou os olhos, mas não podia negar que</p><p>ficara curiosa com a reação de Gabriel ao vê-la chegando</p><p>ao aniversário de Kalil com um de seus colegas. Talvez</p><p>ela aceitasse o convite, no fim das contas.</p><p>Capítulo 29</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Dia do aniversário de Kalil.</p><p>Gabriel estava sentado na recepção da academia</p><p>respondendo um e-mail do trabalho, que havia sido</p><p>enviado às três da manhã, enquanto aguardava Nathan</p><p>chegar para irem treinar. O personal já estava 20 minutos</p><p>atrasado, e Gabriel já queria desistir de esperar por ele.</p><p>Terminava de responder o e-mail do louco que</p><p>trabalhava às três da manhã quando viu Nathan</p><p>chegando.</p><p>— Desculpa o atraso, cara.</p><p>Gabriel pensou em chamar a sua atenção, mas não</p><p>o fez. Era cedo demais para já se indispor com alguém.</p><p>— Tudo bem. Hoje é sábado, você tem licença</p><p>poética para isso — respondeu, levantando-se e</p><p>guardando o celular.</p><p>— Quantas horas dormiu essa noite? — perguntou</p><p>Nathan.</p><p>Após um longo discurso na noite anterior sobre</p><p>como era importante o piloto dormir o suficiente, com a</p><p>ameaça de que, caso não dormisse, não treinaria, Nathan</p><p>conseguiu convencer Gabriel de não burlar a regra.</p><p>— Oito horas.</p><p>— Bom... — disse Nathan. Seguiram para a área de</p><p>alongamento, e o personal apontou para o chão. —</p><p>Vamos começar com 100 flexões.</p><p>Nate se abaixou, pronto para o exercício, mas Gabe</p><p>o puxou pelos ombros, para que ficasse de pé.</p><p>— Estamos no exército, Nathan?</p><p>— Infelizmente... não. Os homens do exército são</p><p>bem mais treinados que você — desdenhou o amigo.</p><p>— Eles não são cachorros.</p><p>— Cachorros são bem mais treinados que você.</p><p>Cem. Flexões. Senhor Pires. Vamos!</p><p>Gabriel revirou os olhos, então começaram a fazer</p><p>as flexões.</p><p>Eles treinaram por cerca de uma hora.</p><p>Em teoria, Gabriel não treinava nos fins de semana.</p><p>E tinha certeza de que seu treinador ficaria irritado se</p><p>soubesse que ele estava na academia naquele momento.</p><p>Mas Nathan o chamara na noite anterior, e o piloto sabia</p><p>que o amigo não passaria nenhum treino que</p><p>prejudicasse o seu desempenho.</p><p>Estavam se alongando quando viram Kalil</p><p>chegando, com uma garrafa na mão e um enorme</p><p>sorriso.</p><p>— O aniversariante do dia! — Nathan recebeu o</p><p>primo de braços abertos. — Feliz aniversário, cara!</p><p>— Já estou até vendo os cabelos brancos aqui, ó —</p><p>brincou Gabriel, apontando para a cabeça do amigo, que</p><p>deu um tapa em sua mão. Mas os pilotos também se</p><p>abraçaram e Gabe o parabenizou.</p><p>— Obrigado, gente! — disse Kalil. — E aí, como foi</p><p>o treino?</p><p>— Acho que o Nate foi expulso da cama de alguém</p><p>na noite passada. Ele está cheio de raiva hoje...</p><p>Nathan revirou os olhos.</p><p>— Você é que está muito mole hoje, Gabe!</p><p>Gabriel ignorou seu comentário e voltou a olhar</p><p>para Kalil.</p><p>— Empolgado para a festa de hoje?</p><p>Kalil deu de ombros.</p><p>— Não muito. Estou fazendo mais pela minha mãe.</p><p>Ela é quem gosta dessas coisas grandes e</p><p>espalhafatosas. Por mim, ficaríamos em casa comendo</p><p>pizza e batendo papo.</p><p>Gabriel assentiu. Kalil sempre fora o mais recluso</p><p>de todos eles, não gostava de holofotes, apesar de</p><p>sempre os atrair por onde passava.</p><p>— Roupa nova? — perguntou Kalil, referindo-se às</p><p>roupas de Gabe.</p><p>Gabriel deu uma volta para se exibir.</p><p>— Gostou? Uma marca esportiva me enviou. A</p><p>cada foto postada com elas, entra uma grana. O dinheiro</p><p>vale a pena.</p><p>— As roupas também — disse Nathan. — São</p><p>melhores que as que você costuma usar.</p><p>— São roupas de academia, cara! — Gabriel se</p><p>defendeu. — Não precisam ser bonitas.</p><p>Nathan e Kalil se entreolharam.</p><p>— O quê? — indagou Gabriel, sentindo que estava</p><p>perdendo alguma coisa.</p><p>— Você fala ou eu falo? — Kalil perguntou ao primo.</p><p>— Você fala. É seu aniversário, ele não vai te bater.</p><p>— Por que eu bateria em alguém? — questionou</p><p>Gabe, já intrigado.</p><p>— Tudo bem, eu vou falar. — Kalil suspirou e olhou</p><p>para o amigo. — Você tem um péssimo gosto para se</p><p>vestir.</p><p>— Falou o cara do kimono do Naruto! — respondeu</p><p>Gabriel, na defensiva.</p><p>— Foi só uma vez! — Kalil rebateu. — Eu nunca</p><p>mais usei, mas você continua usando só roupa velha e</p><p>rasgada.</p><p>— É moda!</p><p>— É feio!</p><p>Gabe ergueu os braços, rendendo-se.</p><p>— Ok, e o que vocês querem que eu faça, contrate</p><p>um stylist?</p><p>Nathan sorriu como uma criança ganhando</p><p>presente de Natal.</p><p>— Não precisa gastar com isso, eu posso te ajudar.</p><p>Gabriel gemeu em arrependimento. Por que ele</p><p>sempre se metia nessas furadas?</p><p>Capítulo 30</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Início da festa de aniversário do Kalil.</p><p>As noites depois de um dia ensolarado eram lindas.</p><p>Marie adorava a brisa suave e fresca que fluía do mar até</p><p>o seu rosto e o aroma doce das flores ao seu redor. Ela</p><p>era uma grande admiradora de flores naturais, estava</p><p>sempre em uma floricultura comprando flores para a sua</p><p>casa.</p><p>Mas, naquela noite, Marie apenas as observava. Do</p><p>outro lado da rua.</p><p>O salão de festa na cobertura de um edifício baixo</p><p>em Mônaco ficava de frente para uma de suas</p><p>floriculturas favoritas, e Marie estava tentada a ir até lá</p><p>apenas para olhar a vitrine. Sentia-se mais feliz só por</p><p>fazer isso, mas mesmo com esse desejo em seu coração,</p><p>ela se manteve na festa recém-iniciada.</p><p>Poucos eram os convidados que haviam chegado.</p><p>Marie conhecia a maior parte das pessoas presentes.</p><p>Alguns artistas hollywoodianos e uns pilotos de</p><p>automobilismo. Além de sua família, é claro.</p><p>O aniversariante estava conversando com um ator</p><p>de algum filme de super-herói, enquanto Mavi, ao seu</p><p>lado, observava o famoso, apaixonada. Nathan</p><p>conversava com uma mulher que Marie não conhecia,</p><p>mas que tinha certeza de que logo estaria em um canto</p><p>agarrada com o primo. E Edgar estava no bar, trocando</p><p>olhares raivosos com Stacy, que dançava com algum</p><p>modelo.</p><p>Marie achava uma graça aquela guerra entre eles e</p><p>não via a hora em que finalmente perceberiam que eram</p><p>feitos um para o outro – não que ela fosse contar isso</p><p>para qualquer um dos dois.</p><p>Tudo estava indo bem, mesmo que o coração de</p><p>Marie ainda sentisse que faltava algo. Ela olhou pelo</p><p>salão e viu todos os seus amigos mais próximos ali, mas</p><p>ainda assim não se sentia completa.</p><p>Voltou a olhar pela janela e respirou fundo. Estava</p><p>cansada daquela tristeza e de sua luta interior. A cada</p><p>segundo, Marie queria mandar mensagem para ele, pedir</p><p>para conversar e implorar para que ele a escolhesse,</p><p>mas sabia que não iria adiantar. E estava cansada de ser</p><p>rejeitada.</p><p>— O que está olhando? — Marie não se assustou</p><p>com a voz profunda e mansa que ouviu ao seu lado.</p><p>Hunter estendeu uma taça de champanhe para ela.</p><p>— Só pensando — respondeu ela, bebendo um gole</p><p>na bebida.</p><p>— Eu já disse que você está linda esta noite?</p><p>Ele já havia dito. Muitas vezes.</p><p>Hunter havia ido buscar Marie em sua casa para</p><p>irem juntos para a festa e tecera elogios a ela desde que</p><p>a vira sair pelo portão de seu prédio. No fim das contas,</p><p>Marie havia escutado o conselho de Stacy e aceitado a</p><p>oferta de Hunter.</p><p>Mas logo se arrependeu.</p><p>Fora impulsiva e imatura, aceitando apenas para</p><p>fazer ciúmes em Gabriel. E de nada havia adiantado, já</p><p>que ele ainda não tinha chegado à festa quando ela</p><p>chegou. Agora, sentia-se mal por ter dado falsas</p><p>esperanças a Hunter. Ele era um ótimo amigo, muito</p><p>galanteador, mas Marie não estava muito animada com a</p><p>perspectiva de ficar com alguém só por ficar.</p><p>— Obrigada. — Marie se virou para ele. — E</p><p>obrigada pelo champanhe.</p><p>Hunter sorriu para ela. Era um sorriso lindo e</p><p>charmoso que derreteria qualquer coração, mas que por</p><p>algum motivo Marie era imune.</p><p>Eles observaram o salão em silêncio, até que Marie</p><p>viu sua tia acenando para ela.</p><p>— Com licença, Hunter, minha tia está me</p><p>chamando.</p><p>Ele assentiu, não parecendo nem um pouco</p><p>afetado pela dispensa óbvia.</p><p>— Tudo bem, vou falar com os meninos. — E saiu,</p><p>indo em direção ao grupo de pilotos.</p><p>Marie viu algumas mulheres virando a cabeça em</p><p>direção a ele e sentiu uma tristeza no peito por não</p><p>sentir a mesma atração.</p><p>Começou a caminhar até sua tia, quando ouviu a</p><p>voz de Nathan, que praticamente gritou:</p><p>— Você chegou!</p><p>Olhou para Nathan e acompanhou o olhar do primo</p><p>até o objeto de sua raiva e desejo. Ele estava lindo, como</p><p>sempre. O cabelo macio e ondulado, a barba marcando o</p><p>maxilar, os olhos azuis brilhando... Marie esqueceu tudo</p><p>o que havia progredido nas semanas anteriores. Ela</p><p>queria correr até ele e abraçá-lo. Chorar por estar com</p><p>saudades dele e brigar pelo mesmo motivo.</p><p>Gabriel caminhou até Nathan e apertou a mão do</p><p>amigo, com um sorriso nem um pouco convincente.</p><p>Ainda assim, parecia mais feliz do que da última vez que</p><p>Marie o vira, e ele não tinha olheiras embaixo dos olhos,</p><p>o que era um bom sinal.</p><p>— Alguém resolveu mudar de roupa em cima da</p><p>hora — o piloto respondeu e apontou para atrás de si,</p><p>onde estava tio Dom, sério, caminhando até eles.</p><p>— Qual é o humor hoje, Dom? — indagou Nathan,</p><p>sorrindo para o tio.</p><p>Dom não respondeu, apenas o olhou com sua cara</p><p>de “tanto faz” usual e saiu para falar com alguém mais</p><p>importante.</p><p>Assim que viram Gabriel, Kalil e Mavi Anne foram</p><p>até ele. Logo Edgar e Stacy também se aproximaram, e</p><p>quando viu, Marie estava de frente para Gabe, olhando</p><p>para ele.</p><p>— Oi — cumprimentou.</p><p>— Oi — ele respondeu.</p><p>Marie ainda o olhava, sem saber mais o que falar.</p><p>Semanas haviam se passado desde o baile do príncipe.</p><p>Nem uma palavra sequer havia sido dita em sua direção.</p><p>Sentia o olhar dele sobre ela e sentia vontade de</p><p>perguntar o que ele esperava que ela fizesse, que ela</p><p>falasse. Queria entender o que estava acontecendo com</p><p>ele, mas tinha medo de que isso fosse fazê-la se sentir</p><p>mal, e justamente quando estava conseguindo melhorar,</p><p>conseguindo superar aquele jogo infantil entre os dois.</p><p>— Comprou roupas novas? — Mavi Anne perguntou</p><p>ao irmão.</p><p>Marie analisou o terno que Gabriel estava vestindo.</p><p>Novo ou não, ficava muito bem nele. Quando ergueu os</p><p>olhos para o rosto dele de novo, percebeu que ele já a</p><p>encarava, seu olhar penetrante, como se visse tudo o</p><p>que ela escondia. Marie sentiu as bochechas corarem e</p><p>desviou o olhar. Maldito fosse ele por ter aquele poder</p><p>sobre ela.</p><p>Sem dizer nada, Marie se afastou e começou a</p><p>caminhar para o mais longe que pudesse dele. Decidida</p><p>a evitá-lo pelo resto da noite, se necessário.</p><p>Gabriel olhou para as costas de Marie e a observou</p><p>se afastar sem fazer nada. Ele sentia tanta saudade da</p><p>amiga, de estar perto dela, de abraçá-la. Era muito difícil</p><p>agir como se ela fosse apenas uma conhecida.</p><p>Caminhou até o bar e pegou a bebida mais forte</p><p>que estavam oferecendo. Sentou-se no banco ali mesmo</p><p>e ficou bebendo, sozinho, enquanto observava as</p><p>pessoas na festa. Conhecia a maioria, mas nenhuma com</p><p>quem fizesse questão de conversar naquele momento.</p><p>— Como você está, maninho? — perguntou Mavi</p><p>Anne, chegando de repente e sentando-se ao lado dele.</p><p>— O Nate disse que está</p><p>realidade.</p><p>— Mas eu preciso de você na minha vida para</p><p>sempre, e é muito mais seguro isso acontecer se</p><p>continuarmos apenas como amigos.</p><p>Marie balançou a cabeça, tentando negar o fato.</p><p>Mas ela entendia, não precisava ser muito</p><p>inteligente para entender. Eles eram pessoas fixas na</p><p>vida um do outro, e um namoro poderia acabar com isso.</p><p>Só que Marie não queria aceitar, porque isso significaria</p><p>nunca mais beijá-lo, e essa ideia parecia horrível.</p><p>— Eu queria poder te beijar sempre, Mar — disse</p><p>Gabriel, como se lesse seus pensamentos enquanto</p><p>passava o polegar em seus lábios. — Mas eu não posso</p><p>correr o risco de te perder.</p><p>Marie assentiu e o abraçou, tentando esconder que</p><p>estava prestes a chorar. Gabriel a segurou firme e apoiou</p><p>o queixo no topo de sua cabeça. Ela se deliciou com as</p><p>batidas do coração dele em seu ouvido e sentiu uma</p><p>lágrima solitária cair.</p><p>— Eu não queria que se sentisse assim — falou</p><p>com a voz embargada.</p><p>— Eu sei que não. Me perdoa.</p><p>Mais tarde naquele mesmo dia...</p><p>Colocar fogo nas cartas pareceu a melhor saída.</p><p>Gabriel sabia disso, mas ainda assim doeu assistir. Era a</p><p>história deles que estava sendo queimada. Mesmo que</p><p>fosse uma história que não daria certo, ele gostava de</p><p>saber que Marie teria algo guardado sobre o tempo que o</p><p>havia amado mais do que um simples amigo. Mas... com</p><p>o fogo, aquilo tinha ido embora.</p><p>Gabriel estava deitado na cama do quarto de</p><p>hóspedes da casa de Marie e não conseguia parar de</p><p>pensar no dia louco que tivera. Todas as suas fantasias</p><p>haviam se tornado realidade e sido destruídas em</p><p>questão de horas. Por um minuto, ele teve Marie em seus</p><p>braços, e se sentiu o dono do mundo quando isso</p><p>aconteceu. Mas, então, seus sensores tocaram e ele se</p><p>viu obrigado a se afastar. Precisaria agir como se aquilo</p><p>não tivesse afetado a amizade dos dois, como se Marie</p><p>não tivesse dito que o amava e ele não tivesse dito isso</p><p>de volta.</p><p>De quem tinha sido a brilhante ideia de passar</p><p>duas semanas na casa dela? Ah, sim... Dele! Gabriel fazia</p><p>de tudo para fugir do pai egocêntrico, mesmo que isso</p><p>ocasionasse ficar hospedado sob o mesmo teto que</p><p>Marie e não poder tocá-la. E parecia que ele teria que se</p><p>acostumar com isso mais do que nunca.</p><p>Capítulo 1</p><p>Dias atuais.</p><p>Marie, 24 anos.</p><p>Gabriel, 25 anos.</p><p>Angra dos Reis, Brasil.</p><p>O sol estava alto quando o helicóptero pousou.</p><p>Marie se pôs de pé, reuniu todas as suas coisas e correu</p><p>para fora, para terra firme. Ela odiava helicópteros e</p><p>sempre odiara, mas a outra coisa que mais odiava eram</p><p>barcos, então, precisava enfrentar seus medos, porque</p><p>ela amava aquele lugar como se fosse a sua própria</p><p>casa. Era isso, mesmo odiando, ela encarava aquele</p><p>monstro aéreo pelo menos duas vezes ao ano – ida e</p><p>volta – e quase sentia prazer nisso, já que sabia que seu</p><p>destino seria maravilhoso.</p><p>Assim que colocou os pés no chão, Marie respirou</p><p>fundo a brisa fresca do mar. Aquele cheiro era o que</p><p>assombrava as suas noites de saudade, e o azul daquele</p><p>oceano imenso estava gravado tão forte em sua mente</p><p>que ela achava difícil um dia conseguir esquecer. E</p><p>morreria feliz se fosse sua última visão em vida.</p><p>— Marie, sua mala!</p><p>Ela olhou para onde chamaram o seu nome e viu</p><p>Kalil, que colocava a mala de Mavi Anne ao lado da dela.</p><p>Ele desceu e estendeu a mão para dentro do helicóptero,</p><p>onde a namorada ainda estava.</p><p>— Desculpa, eu me esqueci de pegar — disse</p><p>Marie, agarrando sua mala de mão.</p><p>Kalil estalou a língua em desdém e puxou Mavi</p><p>para fora. No mesmo instante em que saiu, Mavi sorriu</p><p>para o namorado e o abraçou, completamente</p><p>apaixonada.</p><p>Aqueles dois chegavam a dar enjoo, mas eram</p><p>fofos.</p><p>— Hora da festa! — gritou Nathan, primo de Marie,</p><p>ao sair do helicóptero, com sua mala em um ombro e um</p><p>cooler na mão.</p><p>Ele havia insistido em parar para comprar aquilo</p><p>antes de pegarem o helicóptero, mesmo depois de todos</p><p>repetirem quinze mil vezes que não era necessário, já</p><p>que estavam indo para uma casa onde teria tudo.</p><p>Nathan passou por eles e foi andando, sem ligar</p><p>para os primos, que ficaram para trás.</p><p>— Ele é lindo... — Stacy sussurrou no ouvido de</p><p>Marie, que olhou para a amiga com a testa franzida.</p><p>— Ele é meu primo!</p><p>— E logo serei sua prima também.</p><p>Marie não pôde deixar de rir.</p><p>— Quero ver você tentar a sorte.</p><p>Com um sorriso malicioso nos lábios, Stacy desviou</p><p>o olhar das costas de Nathan para Marie.</p><p>— Eu não preciso de sorte, tenho os dotes</p><p>necessários para conseguir um homem daqueles.</p><p>— E esses dotes seriam, por acaso, falta de</p><p>vergonha na cara, pouca roupa e libertinagem, Stacy? —</p><p>perguntou uma voz inexpressiva atrás delas.</p><p>Marie olhou por cima do ombro e viu seu outro</p><p>primo, Edgar, com uma mala de couro pendurada no</p><p>ombro e olhando para a sua amiga com grande</p><p>indiferença. Ao contrário de Stacy, que parecia prestes a</p><p>pular no pescoço dele.</p><p>— É isso que usa para roubar o meu dinheiro,</p><p>Edgar? — provocou ela, apontando para a mala cara do</p><p>primo da amiga.</p><p>— Eu não roubo o dinheiro de ninguém —</p><p>respondeu ele, dando de ombros.</p><p>— Todos os políticos roubam.</p><p>— Ainda bem que eu não sou político, então, Gisele</p><p>— arrematou Edgar, passando por elas e seguindo</p><p>Nathan, que já estava muito afastado deles naquele</p><p>momento.</p><p>Stacy murmurou algo, mas Marie nem fez questão</p><p>de entender. Provavelmente estava xingando Edgar de</p><p>nomes muito inapropriados. Marie sabia que a amiga</p><p>odiava quando o primo a superestimava por causa de</p><p>sua profissão. Stacy era uma das maiores modelos da</p><p>alta moda dos últimos tempos.</p><p>— Tanta beleza desperdiçada em uma casca... —</p><p>Stacy disse alto o suficiente para Marie ouvir.</p><p>Ela, no entanto, não respondeu. Era engraçado ver</p><p>a implicância entre os dois. E defender um dos lados</p><p>seria estupidez, todos sabiam disso.</p><p>Marie puxou sua mala e começou a caminhar pelo</p><p>heliponto, logo depois ouviu Stacy a seguindo. Enquanto</p><p>isso, Kalil e Mavi continuavam perto do helicóptero</p><p>fazendo só Deus sabia o quê.</p><p>O último ano a havia acostumado a vê-los daquela</p><p>maneira, grudados o tempo inteiro. Diziam que logo</p><p>aquela paixão acabaria e eles seriam apenas um casal</p><p>normal, mas Marie tinha suas dúvidas. Seus tios estavam</p><p>juntos havia 25 anos e continuavam apaixonados, assim</p><p>como seus avós. Marie esperava que Mavi e o primo</p><p>tivessem a mesma dádiva. E quem sabe um dia ela</p><p>mesma ganhasse aquilo...</p><p>Apesar de Marie ter cada vez menos esperança de</p><p>um dia encontrar o cara certo, ela sabia que ele estava</p><p>em algum lugar. Precisava estar, ou então ela sentaria e</p><p>choraria até que seus ossos atrofiassem e ela morresse.</p><p>Viver sem amor e paixão parecia ser a coisa mais chata e</p><p>infeliz que ela conseguia imaginar. Se não tivesse isso</p><p>em sua vida, Marie se sentiria castigada. E sem sequer</p><p>saber o motivo.</p><p>Mas enquanto seu grande amor não chegava,</p><p>Marie poderia se contentar com os romances de sua</p><p>família. Além disso, ela tinha ótimos amigos que a</p><p>ajudavam a distrair a mente da espera.</p><p>— Mar?! — Marie ouviu alguém gritar.</p><p>Ela sorriu assim que o viu caminhando em sua</p><p>direção com um sorriso enorme no rosto. Gabriel parou</p><p>na frente dela e abriu os braços, e Marie correu para</p><p>entrar no melhor abraço que conhecia. Ela o abraçou o</p><p>mais forte que pôde, inspirando o cheiro almiscarado</p><p>presente em sua roupa. Gabriel era tão alto que, mesmo</p><p>ela tendo 1,70m de altura, sentia-se coberta por ele.</p><p>— Sentiu saudades? — perguntou Gabriel,</p><p>apoiando a bochecha na cabeça dela.</p><p>— Nem um pouco — Marie respondeu, mesmo que</p><p>conseguisse sentir seus olhos queimando.</p><p>Fazia seis meses desde a última vez que se viram,</p><p>durante as férias de verão. Marie não tinha conseguido ir</p><p>à final da temporada, o que a deixou muito triste. Havia</p><p>planejado tudo para que outra pessoa assumisse sua</p><p>turma durante os dias em que ela estaria fora, mas a</p><p>professora substituta precisara fazer uma cirurgia às</p><p>pressas, o que impediu Marie de ir a Abu Dhabi naquele</p><p>ano.</p><p>Ela odiava Fórmula 1, mas odiava ainda mais não</p><p>estar presente nos momentos especiais para a sua</p><p>família. Havia sido a última</p><p>dormindo melhor.</p><p>— O Nathan é um pé no saco — Gabriel respondeu.</p><p>Mavi riu.</p><p>— É bom saber que ainda consegue fazer piadas.</p><p>Gabriel revirou os olhos, mas sorriu.</p><p>— Por que está aqui, e não com o seu lindo</p><p>namorado?</p><p>Mavi deu de ombros.</p><p>— Estou com saudade de você. Ainda é meu irmão,</p><p>não é?</p><p>Gabriel a olhou, surpreso com a pergunta.</p><p>— Como assim?</p><p>— Você está estranho comigo desde Faenza —</p><p>disse ela, parecendo chateada.</p><p>Gabriel brigou consigo mesmo por fazer a irmã</p><p>pensar que ela era o problema.</p><p>— Mavi, eu só estava ocupado com a volta do</p><p>trabalho. Eu nem percebi que estava agindo estranho,</p><p>peço desculpas — disse ele, passando o braço ao redor</p><p>da irmã. — Eu te amo, maninha.</p><p>— Sério? — Ela o olhou com seus olhos grandes de</p><p>gato, o que arrancou um sorriso de Gabe. — E vai</p><p>continuar me amando quando eu disser que o papai está</p><p>aqui?</p><p>O sorriso do piloto desapareceu no mesmo</p><p>instante.</p><p>— Ah, não, Mavi. Por quê?</p><p>— Porque ele é sogro do Kalil, ficaria chato não</p><p>chamar — explicou ela, parecendo um pouco culpada. —</p><p>Gabe, por favor, não faz uma cena.</p><p>Gabriel sentiu aquilo no fundo do peito e não</p><p>conseguiu evitar de ficar bravo.</p><p>— Contanto que ele não seja um babaca...</p><p>— Por mim, Gabe! Por favor!</p><p>— Ok — respondeu a contragosto. — Só o</p><p>mantenha longe de mim.</p><p>Mavi Anne sorriu.</p><p>— Pode deixar, eu vou ficar atrás dele a noite toda!</p><p>— garantiu e se afastou.</p><p>Gabriel suspirou, virando-se para o barman.</p><p>— Outro desse, por favor. A noite vai ser longa...</p><p>Capítulo 31</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Auge da festa de aniversário do Kalil.</p><p>O estilista que desenhara o vestido vermelho justo</p><p>que Marie estava usando com toda certeza odiava</p><p>Gabriel. Duas horas haviam se passado desde que</p><p>chegara à festa. Ele estava em um canto da pista de</p><p>dança observando Marie dançar com Stacy e Mavi Anne.</p><p>Marie estava tão linda! E parecia extremamente sensual</p><p>naquele vestido.</p><p>Gabriel tentava desviar o olhar, mas não</p><p>conseguia. Estava se segurando para não se aproximar</p><p>dela e pegá-la para si. Morria um pouco por dentro ao</p><p>perceber que não era o único que a olhava. Outros</p><p>homens também acompanhavam com admiração cada</p><p>passo que Marie dava de acordo com a batida da música,</p><p>e Gabe se deteve o máximo que pôde para não dar um</p><p>de macho alfa, ainda mais quando ela não era dele para</p><p>cuidar.</p><p>O piloto já estava no seu terceiro drink da noite, o</p><p>que não era suficiente para embebedá-lo, mas era o</p><p>máximo que ele se permitia por festa. Virou o último gole</p><p>da bebida e colocou o copo na bandeja de um dos</p><p>garçons.</p><p>— Oi, Gabe. — Era só o que faltava... — Está</p><p>aproveitando a festa?</p><p>Gabriel olhou para o pai, parado ao seu lado com</p><p>um copo de whisky na mão. Adam levara a namorada</p><p>modelo para a festa, mas ela não estava com ele</p><p>naquele momento, e Gabe não tinha a mínima</p><p>curiosidade de saber onde a mulher se encontrava.</p><p>— Sim, estava.</p><p>Caso se importasse, Gabriel teria se incomodado</p><p>com o lampejo de chateação que viu nos olhos do pai.</p><p>Mas ele não se importava.</p><p>— Gabriel, eu sei que temos as nossas diferenças...</p><p>— Adam começou a dizer.</p><p>— Pai, não...</p><p>— Gabe, por favor! — O tom de Adam era cortante.</p><p>— Eu sei que fiz muitas coisas que o magoaram, e só</p><p>Deus sabe o quanto eu me arrependo. Mas eu queria que</p><p>pudéssemos deixar tudo isso de lado e reconstruir a</p><p>nossa relação.</p><p>— Deus pode até saber, mas não acha que deveria</p><p>contar a mais alguém? — devolveu Gabriel.</p><p>— Como assim? — O pai o olhou, confuso.</p><p>Gabriel não sabia se eram os anos aguentando</p><p>tudo aquilo ou se eram os drinks subindo para o seu</p><p>cérebro, mas sentia-se mais furioso do que nunca com</p><p>aquele homem.</p><p>— Em todos esses anos, você só me pediu</p><p>desculpa na noite em que me contou que abandonou a</p><p>Mavi Anne, mas nunca disse o quanto sentia muito por</p><p>ter me abandonado.</p><p>Adam parecia um peixe, abria e fechava a boca,</p><p>mas nada dizia. Gabriel se virou novamente para Marie,</p><p>que continuava dançando, sem perceber a cena que ali</p><p>acontecia.</p><p>— Você tem razão, filho.</p><p>— É claro que eu tenho — Gabriel arremeteu, ainda</p><p>observando Marie.</p><p>— Já disse a ela o que sente? — perguntou Adam.</p><p>Gabriel não pôde deixar de rir daquilo.</p><p>— É sério? Você vem aqui para tentar se resolver</p><p>comigo e quer se meter na minha vida amorosa?</p><p>Adam deu de ombros.</p><p>— Eu só queria saber. Você é apaixonado por ela</p><p>desde... sempre.</p><p>— Não contei, Adam. Uma das coisas que você me</p><p>ensinou foi que a nossa família não nasceu para ter finais</p><p>felizes.</p><p>O pai o observou, com o rosto rígido.</p><p>— Gabe, preste atenção, você não é igual a mim.</p><p>Nós podemos nos parecer fisicamente, mas as nossas</p><p>semelhanças acabam aí. Você é um homem muito</p><p>melhor do que eu jamais fui, e não ouse pensar o</p><p>contrário. — Adam colocou a mão no braço do filho e o</p><p>olhou, parecendo preocupado. — Não deixe que os meus</p><p>erros ditem a sua vida, Gabriel. Não se impeça de amar</p><p>só porque eu não soube amar a sua mãe. Aproveite a</p><p>festa, filho. — Então, afastou-se, deixando o piloto</p><p>apenas com seus pensamentos.</p><p>Talvez três drinks não fossem o suficiente naquela</p><p>noite.</p><p>O verão já tinha acabado, dando lugar ao outono e</p><p>ao vento frio. Marie não havia levado um casaco para a</p><p>festa, já que não esperava se ver na varanda. Sim, lá</p><p>estava ela novamente. Em sua defesa, passara muito</p><p>tempo na pista de dança com suas amigas e precisava</p><p>respirar um pouco de ar fresco. Quando chegou, viu dois</p><p>casais se beijando de um lado da varanda, enquanto uma</p><p>figura solitária estava sentada perto do parapeito, de</p><p>costas para ela, do outro lado.</p><p>Marie caminhou até o parapeito e apoiou os</p><p>cotovelos, observando a noite estrelada. Respirou o ar</p><p>fresco e sorriu um pouco com a brisa suave.</p><p>— Mar?</p><p>Ela se assustou e olhou para o lado. Era Gabriel</p><p>sentado ali, com um copo na mão, olhando-a como se</p><p>não a visse havia muito tempo.</p><p>— Gabe? O que está fazendo aqui? — perguntou,</p><p>nervosa.</p><p>O piloto deu de ombros e não respondeu, apenas</p><p>bebeu mais um gole de sua bebida.</p><p>De repente, Marie se sentiu nervosa. Havia se</p><p>desacostumado a estar na presença dele. Fazia meses</p><p>desde a última vez que conversaram, e ela não estava</p><p>nem um pouco a fim de fingir que nada tinha acontecido.</p><p>Gabriel se levantou da cadeira e caminhou para o</p><p>lado de Marie. Ela voltou seu olhar para o salão de festa,</p><p>onde todos aproveitavam, ninguém se importando com a</p><p>presença deles ali.</p><p>Então, Marie olhou para Gabriel de rabo de olho e o</p><p>viu parado, com o copo na mão, como se fosse o James</p><p>Bond. Ela logo desviou o olhar, porque achá-lo atraente</p><p>era a última coisa que precisava naquele momento.</p><p>O piloto ficou tanto tempo em silêncio que fez</p><p>Marie pensar que a sua presença ali o estava</p><p>incomodando e começou a se afastar para ir embora,</p><p>mas, então, Gabriel estendeu a mão e pegou a dela,</p><p>eletrizando todo o corpo da menina.</p><p>— Fique — ele pediu em um sussurro.</p><p>Marie sentiu o coração acelerar. Ela estava tão</p><p>perto de sair daquela situação, podia apenas ir embora,</p><p>não precisava sequer olhar para ele. Mas... ela olhou. E</p><p>ao olhar, viu o homem que amava. Desesperadamente. E</p><p>por mais que aquilo fosse doloroso, Marie não o deixaria</p><p>quando ele pedia para ela ficar.</p><p>Por isso, voltou a se encostar no parapeito.</p><p>— Você veio com o Hunter, né? — perguntou</p><p>Gabriel, com o ciúme transparecendo em sua voz.</p><p>Mas Marie decidiu ignorar aquilo. Ela não queria</p><p>que seu coração tolo criasse qualquer resquício de</p><p>esperança.</p><p>— E se eu dissesse que não é da sua conta? —</p><p>questionou.</p><p>Gabriel ergueu as sobrancelhas e olhou para o</p><p>copo em sua mão.</p><p>— Acho que eu iria merecer — respondeu. — Quer</p><p>dizer, você tem razão, eu não tenho o direito de ficar</p><p>com ciúmes.</p><p>Marie soltou um riso amargo.</p><p>— Está falando sério? Eu não consigo acreditar que</p><p>depois de tudo o que aconteceu, você tem a coragem de</p><p>me dizer que está com... — Mas antes que pudesse</p><p>terminar a frase, Marie foi interrompida pelo braço de</p><p>Gabriel puxando-a para si e sua boca calando-a.</p><p>O corpo do piloto era a única coisa que impedia</p><p>Marie de cair no chão, pois com aquela sua pegada, ela</p><p>havia perdido</p><p>totalmente o equilíbrio. Naquele momento,</p><p>Marie entendeu o que Mia sentira em O Diário da</p><p>Princesa 2 quando Nicholas a beijou na fonte.</p><p>Havia algo de diferente no beijo de Gabe. Daquela</p><p>vez, ele parecia decidido, ciente do que estava fazendo.</p><p>A raiva e o desejo se misturaram dentro de Marie,</p><p>e quando percebeu isso, ela afastou sua boca da de</p><p>Gabriel, sentindo-se assustada e ofegante, e olhou para</p><p>os lábios dele, não conseguindo encará-lo. E assim como</p><p>ela, Gabe também estava ofegante.</p><p>— Gabe, eu não...</p><p>— Eu te amo! — finalmente declarou Gabriel,</p><p>também parecendo assustado, mas aliviado.</p><p>Marie paralisou. Ela o olhava sem saber o que</p><p>responder. Ele a encarava de volta, com fogo</p><p>transbordando de seu olhar. Sem saber como reagir,</p><p>Marie pegou o copo da mão dele e virou o que restava da</p><p>bebida. Precisaria de álcool no organismo para o que</p><p>viria a seguir.</p><p>— O quê? — conseguiu perguntar, olhando-o como</p><p>se ele fosse louco. Ou será que era ela que estava</p><p>ficando louca?</p><p>Gabriel passou a mão pelos cabelos.</p><p>— Mar, eu sou um idiota — disse com voz rouca.</p><p>Marie assentiu, com os olhos arregalados e o</p><p>coração parecendo prestes a sair do peito.</p><p>— Sei que sou o maior de todos os idiotas. Eu te fiz</p><p>sofrer durante anos, sabia que me amava e não tive</p><p>coragem de admitir que sentia o mesmo. Mas eu te amo,</p><p>Marie! Eu te amo tanto que meu coração até dói! Eu te</p><p>amo mais do que poderia dizer. E estou com medo, Mar.</p><p>Marie ainda não sabia como reagir. Gabriel</p><p>continuava encarando-a, lindo como sempre, e agora</p><p>com aquele olhar ardente que a fazia sentir calafrios.</p><p>— Por que está dizendo isso agora? Por que agora,</p><p>depois de tanto tempo?</p><p>Gabriel se aproximou dela, não deixando de olhar</p><p>em seus olhos nem por um segundo.</p><p>— Porque eu encontrei o meu pai hoje e me vi nele.</p><p>Mar, eu fiquei com tanto medo de ser como ele... Eu não</p><p>quero ser assim, não quero ser um covarde que se</p><p>esconde quando as coisas ficam difíceis. Eu quero</p><p>enfrentar, e quero enfrentar com você!</p><p>Marie olhou para seus saltos e contou suas</p><p>respirações. Seu corpo e sua alma queriam se jogar em</p><p>cima de Gabe e dizer “SIM! Mil vezes sim!”. Mas seu</p><p>cérebro gritava “COMO?”. Como ela poderia confiar que</p><p>quando acordasse no dia seguinte, ele já não teria</p><p>mudado de ideia?</p><p>Levantou o rosto para responder, mas antes que</p><p>pudesse dizer algo, Gabriel começou a falar:</p><p>— Sabe por que eu comecei a te chamar de Mar?</p><p>— Porque meu nome é Marie?</p><p>O piloto balançou a cabeça em negação.</p><p>— Porque por mais tumultuada que a minha vida</p><p>estivesse, eu sempre encontraria um mer calme en toi.</p><p>Eu sabia que poderia correr para você e tudo ficaria bem.</p><p>— Ele estendeu a mão e acariciou a bochecha de Marie.</p><p>— Mar, eu morro de medo de perder isto. De perder o</p><p>meu mar calmo.</p><p>Marie fechou os olhos enquanto absorvia aquelas</p><p>palavras e sentia a mão dele afagando seu rosto.</p><p>Será que ela estava sonhando? Será que logo</p><p>acordaria com Theo gritando na porta de seu quarto e</p><p>tudo acabaria?</p><p>Marie sentiu quando uma lágrima caiu e molhou</p><p>seu rosto, assim como sentiu quando Gabriel se</p><p>aproximou ainda mais e beijou essa lágrima teimosa,</p><p>secando-a.</p><p>— Mar, eu sei que estou despejando tudo em você</p><p>de uma hora para a outra e peço perdão por isso, mas</p><p>eu... eu precisava que soubesse a verdade — disse perto</p><p>do ouvido dela.</p><p>— Sol, eu não sei o que dizer...</p><p>— Diz que também me ama. Diz que quer ficar</p><p>comigo e que vamos dar um jeito em tudo — pediu ele,</p><p>apoiando a testa na dela e fechando os olhos, com medo</p><p>de não ver o que queria no olhar de Marie.</p><p>— Você sabe que eu te amo, Sol — disse ela, com o</p><p>coração doendo. Gabriel abriu os olhos e um sorriso</p><p>triste. — Mas... eu não sei se posso esquecer tudo o que</p><p>aconteceu. Eu fiquei muito magoada.</p><p>Gabriel se afastou de Marie, que logo sentiu frio.</p><p>— Eu entendo, Mar. Mas caso mude de ideia,</p><p>estarei aqui. Eu vou te esperar, leve o tempo que for.</p><p>E como se não tivesse jogado uma bomba no colo</p><p>de Marie, Gabriel entrou no salão novamente.</p><p>Capítulo 32</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Quatro meses depois.</p><p>Meses haviam se passado desde a festa de</p><p>aniversário de Kalil na cobertura em Monte Carlo. Marie</p><p>continuava evitando Gabriel, mesmo depois da</p><p>declaração que ele havia feito. Ela estava realmente</p><p>decidida quanto à sua posição em relação ao piloto, e ele</p><p>parecia ter entendido isso. Ainda assim, Gabe a havia</p><p>procurado algumas vezes. Ligações não atendidas e</p><p>mensagens na caixa postal, as quais Marie ouvira</p><p>diversas vezes e sentira uma imensa vontade de</p><p>retornar.</p><p>Porém, mais forte que a sua vontade de ligar,</p><p>estava o seu orgulho, ferido pelos anos de rejeição. Marie</p><p>não queria arriscar saber que Gabriel já se sentia</p><p>arrependido pelo que havia dito, porque se recusava a</p><p>continuar com aquele jogo. E ela não queria passar o</p><p>resto de sua vida fingindo não estar apaixonada por ele,</p><p>mesmo que isso significasse perder o seu melhor amigo.</p><p>Marie sentia-se a própria Elizabeth Bennet dizendo</p><p>à sua irmã Jane que perdoaria o orgulho de Gabriel... se</p><p>ele não tivesse ferido o seu.</p><p>Mas Gabriel parecia estar sobrevivendo sem o</p><p>perdão de Marie. Ele seguia com a sua vida, apesar da</p><p>desilusão. Estava super focado no trabalho, como</p><p>sempre, e vinha ganhando a maior parte das corridas.</p><p>Sua McLaren estava bem mais rápida e equilibrada que a</p><p>de Davies, que parecia muito irritado com isso.</p><p>Marie continuava assistindo às corridas, apesar de</p><p>evitar o paddock com maestria. Mavi havia insistido para</p><p>que ela fosse ao GP do Brasil, mas Marie se negou,</p><p>alegando ter muito trabalho na escola, agora que</p><p>assumira uma turma.</p><p>Não era bem uma verdade...</p><p>Sim, Marie precisava dar aulas, mas tinha certeza</p><p>de que a diretora da escola lhe daria dois dias de folga</p><p>caso ela dissesse que eram para ir à corrida. Era de</p><p>conhecimento absoluto em Mônaco que a família Martin</p><p>era uma das mais influentes do principado. Ninguém</p><p>negaria algo a eles, ainda mais sabendo que outros</p><p>Martins estariam envolvidos, como em um fim de</p><p>semana de Fórmula 1.</p><p>Mas Marie estava evitando tudo o que tinha a ver</p><p>com Gabe. Até mesmo a família dele, de quem sentia</p><p>muitas saudades.</p><p>No entanto, o fim do ano havia se aproximado, e o</p><p>GP de Abu Dhabi, o último da temporada, aconteceria</p><p>naquele fim de semana. Tudo estava muito louco, como</p><p>em todos os outros anos naquela época, mas a tensão</p><p>era ainda maior para a família de Marie naquele</p><p>momento, porque mesmo que Kalil não fosse ganhar o</p><p>título, Gabriel tinha grandes chances, e seria o seu</p><p>primeiro.</p><p>Todos estavam animados e torcendo pelo piloto, e</p><p>todos contavam à Marie que ele estava com sangue nos</p><p>olhos para essa última corrida. Tudo estava a favor de</p><p>Gabriel, mas ainda existia a mínima chance de William</p><p>ganhar. Ele precisava do fim de semana perfeito: fazer a</p><p>pole position, ganhar a corrida e ter a melhor volta ao</p><p>final.</p><p>Apesar de estar evitando Gabe, Marie precisou se</p><p>segurar algumas vezes ao longo daquela semana para</p><p>não ligar para ele. Procurou focar toda a sua atenção no</p><p>trabalho e em ficar linda para o fim de semana. Foi ao</p><p>salão de beleza com Mavi e Stacy, onde retocou as luzes</p><p>e fez as unhas. No dia seguinte, foi às compras. Mavi</p><p>tinha se mostrado uma ótima parceira de compras, e</p><p>Stacy continuava animando as duas com as suas</p><p>loucuras e o seu incrível gosto por moda.</p><p>Marie não era a típica patricinha que fazia compras</p><p>nas lojas mais caras toda semana, mas quando decidia</p><p>gastar, gostava de aproveitar. Ela foi às melhores lojas de</p><p>grife e renovou o seu “guarda-roupa de Fórmula 1”,</p><p>como gostava de chamar.</p><p>Porque, apesar de querer que seu amigo Gabriel</p><p>ganhasse naquele fim de semana, ela queria que o</p><p>homem Gabriel a olhasse e visse tudo o que tinha</p><p>perdido. Poderiam chamar de infantilidade, e talvez</p><p>fosse, mas Marie se sentia cansada de ser uma adulta</p><p>séria e responsável o tempo inteiro e estava pronta para</p><p>sensualizar em uma pista de dança com vários pilotos se</p><p>fosse necessário, mesmo que não soubesse sensualizar.</p><p>Capítulo 33</p><p>GP de Abu Dhabi.</p><p>Noite de</p><p>sexta-feira.</p><p>Abu Dhabi era como uma Mônaco no meio do</p><p>deserto, Marie sempre se impressionava quando chegava</p><p>à cidade, e daquela vez não tinha sido diferente. Os</p><p>hotéis eram absurdamente lindos, pareciam cenários de</p><p>filmes, e os desfiles de carros esportivos de luxo davam o</p><p>toque final naquele fim de semana de Grande Prêmio.</p><p>Marie estava sentada à mesa do restaurante do</p><p>hotel com Mavi e Stacy, admirando o pedido da mesa ao</p><p>lado, carne adornada com folhas de ouro. Ela não queria</p><p>sair naquela noite, porque o dia seguinte seria um</p><p>grande dia e teria que acordar cedo, mas Mavi havia</p><p>insistido para que pelo menos se juntasse a elas para</p><p>jantar.</p><p>Então, ali estava ela, sentada naquela cadeira</p><p>confortável, vestindo um Saint Laurent que havia</p><p>comprado especialmente para aquele fim de semana.</p><p>Marie estava tão concentrada na carta de vinhos</p><p>que o garçom havia deixado na mesa para elas que</p><p>sequer notou quando quatro homens se aproximaram.</p><p>— Podemos nos juntar a vocês? — Ergueu os olhos</p><p>ao ouvir a voz de Kalil e sorriu para o primo.</p><p>— É claro! — disse Mavi, empolgada com a</p><p>chegada repentina do namorado.</p><p>Marie começou a observar o grupo que estava com</p><p>Kalil e sentiu seu sorriso se apagar ao ver Gabriel, em</p><p>pessoa, olhando-a como se nunca a tivesse visto antes</p><p>daquele dia. Ela sentiu seu coração errar uma batida,</p><p>mas tratou logo de se recuperar, pois não queria que ele</p><p>visse que ainda a afetava.</p><p>Os quatro tomaram seus assentos à mesa. Marie</p><p>olhou para as amigas, que estranhamente pareciam</p><p>triunfantes. Mavi Anne e Stacy se entreolhavam com</p><p>cumplicidade, então Marie entendeu tudo, não podendo</p><p>acreditar que havia sido tão ingênua de cair na história</p><p>das duas de “terem um jantar só de meninas”. Com</p><p>raiva, chutou a canela de Mavi, que a olhou com um</p><p>sorriso descarado, sem parecer querer pedir desculpas.</p><p>Um silêncio ensurdecedor tomou conta da mesa,</p><p>mas Marie não fez a mínima questão de preenchê-lo,</p><p>tamanha era a sua ira naquele momento.</p><p>— Mavi, o Kalil veio com um papo muito louco</p><p>sobre aulas de dança para nós. Eu não entendi muito</p><p>bem o que ele quis dizer — disse Nate, apoiando os</p><p>cotovelos sobre a mesa e, então, sua cabeça sobre as</p><p>mãos entrelaçadas. — Gostaria de me explicar?</p><p>— Como vão poder dançar, se não sabem? — ela</p><p>devolveu a pergunta, como se fosse algo óbvio.</p><p>Marie olhou para ela. Algo estava acontecendo...</p><p>— E por que precisaríamos saber dançar? — Edgar</p><p>faz a pergunta de milhões.</p><p>Mavi e Kalil trocaram um olhar, aquele olhar que</p><p>apenas parceiros conseguem ter, um olhar de</p><p>comunicação, como se lessem os pensamentos um do</p><p>outro. E depois daquela conversa silenciosa entre os dois,</p><p>Mavi olhou novamente para os amigos, com um enorme</p><p>sorriso estampado no rosto.</p><p>— Para poderem dançar no... — Ela suspirou,</p><p>parecendo ansiosa. — Nosso casamento!</p><p>Marie e Stacy gritaram, empolgadas. Os garotos</p><p>também ficaram animados, mas suas reações foram</p><p>mais contidas que as das meninas. Todos desejaram</p><p>parabéns ao casal, sorrindo, felizes pelos amigos. Então,</p><p>Marie pegou a mão esquerda de Mavi Anne, que estava</p><p>nua.</p><p>— Ué, e o anel? — Stacy indagou.</p><p>Mavi pegou sua bolsa e tirou uma caixinha</p><p>turquesa lá de dentro, arrancando suspiros das amigas.</p><p>— Eu queria que fosse uma surpresa, mas se</p><p>viesse com ele no dedo, estragaria tudo — explicou,</p><p>abrindo a caixinha, pegando o anel de noivado e o</p><p>colocando no dedo.</p><p>Era uma joia linda, pequena e delicada o suficiente</p><p>para não ser brega, mas grande o suficiente para que</p><p>todos soubessem que era digna de uma futura Faez.</p><p>O coração de Marie esquentou ao ver a amiga com</p><p>o anel no dedo. Virou-se para Kalil, que olhava para a</p><p>agora noiva, totalmente encantado pela beleza dela.</p><p>Marie os amava e estava mais do que feliz por eles. Ela</p><p>estava estonteante. E por algum motivo, isso a fez</p><p>buscar o olhar de Gabriel, que também olhava para o</p><p>casal com um sorriso no rosto.</p><p>Gabe sentiu que estava sendo observado, procurou</p><p>e encontrou Marie o encarando com aqueles lindos olhos</p><p>verdes, que brilhavam de felicidade. Aquilo apertou seu</p><p>coração. Ele estava se saindo bem em fingir que ela não</p><p>estava ali, mas quando Marie o olhava daquele jeito,</p><p>tornava tudo mais difícil. O piloto sentia vontade de</p><p>arrancá-la daquela cadeira e levá-la para longe de todos,</p><p>para algum lugar onde pudesse beijá-la até tirar todo o</p><p>batom vermelho que marcava seus lábios.</p><p>Mas ele não faria isso.</p><p>— Ok! — disse Ed, roubando a atenção de Gabriel.</p><p>— Mas eu ainda não entendi por que vamos precisar</p><p>saber dançar.</p><p>— Porque queremos que tenha a dança com os</p><p>padrinhos no nosso casamento — esclareceu Kalil,</p><p>olhando para os amigos e esperando pela reação de cada</p><p>um.</p><p>Stacy bateu palmas e voltou a gritar. Marie parecia</p><p>ainda mais feliz.</p><p>— Vamos ser seus padrinhos? — perguntou Gabriel,</p><p>como cara de bobo.</p><p>Aquilo não era nenhuma novidade, na verdade.</p><p>Todos naquela mesa eram amigos próximos do casal,</p><p>então já era meio que esperado. Mas já ser esperado não</p><p>queria dizer que não era extremamente emocionante.</p><p>Então, após o anúncio, todos se alegraram e</p><p>começaram a perguntar como havia sido o pedido de</p><p>casamento. De acordo com Mavi, Kalil a levara à praia de</p><p>Mônaco onde eles se apaixonaram, na noite anterior</p><p>àquela viagem, e fizera o pedido à luz das estrelas e ao</p><p>som das festas dos iates.</p><p>Tudo parecia ter acontecido da maneira mais linda</p><p>possível para os dois, o que deixava a todos muito</p><p>felizes.</p><p>Ao amenizar da euforia e passadas todas as</p><p>informações referentes ao casamento necessárias, o</p><p>grupo voltou sua atenção para o evento mais próximo, o</p><p>Grande Prêmio de Abu Dhabi.</p><p>Gabriel evitava se manifestar sobre o assunto,</p><p>fazendo poucos comentários. Estava muito nervoso e</p><p>ansioso. Sentia que seu coração iria pular sobre a mesa a</p><p>qualquer momento, mas não diria isso a ninguém. A</p><p>quem importava, sabia. Ele! O único que poderia ajudá-lo</p><p>naquele momento. Ninguém poderia pilotar por ele ou</p><p>vencer por ele.</p><p>— Amigos, não vamos falar sobre isso, por favor —</p><p>disse Kalil, de repente. — É muito triste saber que eu não</p><p>vou ganhar o campeonato, não precisam ficar me</p><p>lembrando disso o tempo inteiro — completou, com um</p><p>sorriso no rosto.</p><p>Gabe sabia que o amigo havia pedido aquilo por</p><p>ele. Se tinha alguém que entendia o nervosismo pré-</p><p>corrida, era Kalil. Com dois títulos mundiais nas costas, o</p><p>amigo era bastante experiente no assunto, e Gabe o</p><p>agradeceu com um aceno de cabeça.</p><p>— Eu proponho um brinde! — disse Mavi, erguendo</p><p>sua taça de vinho.</p><p>Todos ergueram suas taças.</p><p>— Aos amores das nossas vidas e às vitórias que</p><p>iremos conquistar juntos!</p><p>O tilintar das taças foi ouvido, juntamente à saúde</p><p>desejada por todos ao redor da mesa.</p><p>Naquele momento, Gabriel entendeu algo. Não</p><p>importava a vitória que obtivesse no domingo, se ele não</p><p>tivesse sua família, aquela família, nada daquilo valeria a</p><p>pena. E foi impossível que seus olhos não se dirigissem</p><p>para o seu primeiro amor quando aquele pensamento o</p><p>despertou. Gabe estivera tão perdido em</p><p>arrependimentos e tristezas que não conseguira enxergar</p><p>a única coisa que importava de verdade: com quem iria</p><p>compartilhar as suas conquistas.</p><p>Marie, focada em beber seu vinho, sequer poderia</p><p>imaginar o turbilhão de sentimentos que consumia</p><p>Gabriel por dentro. Mas isso não o impediu de olhar para</p><p>ela, que estava tão linda quanto sempre fora. Desde a</p><p>primeira vez que a viu, quando eram apenas duas</p><p>crianças e ela lhe ensinou a ver as horas no relógio de</p><p>ponteiro, Gabe soube que a queria por perto. Agora,</p><p>queria ficar ao lado dela a cada segundo de sua vida, e</p><p>abriria mão de si mesmo se isso significasse que a teria</p><p>em seus braços para sempre.</p><p>Finalmente os olhos mais lindos que Gabriel já vira</p><p>voltaram-se para ele. Marie abaixou a taça e o encarou.</p><p>Parecia confusa. Seus lábios estavam entreabertos, como</p><p>se ela quisesse dizer algo, mas não soubesse se</p><p>expressar. E parecia capaz de ver sua alma apenas com</p><p>aquele olhar. Gabriel não conseguia compreender como</p><p>olhos poderiam enxergar a alma</p><p>de alguém, mas sabia</p><p>que se existisse aquela possibilidade, queria que apenas</p><p>Marie conseguisse tal feito.</p><p>O piloto abriu um pequeno sorriso para ela, mas</p><p>Marie não retribuiu. De repente, os olhos verdes</p><p>investigativos ganharam um tom escuro, e Gabe viu a</p><p>tristeza tomando lugar da curiosidade. Ele odiou aquilo.</p><p>Marie abaixou a cabeça e colocou a taça de vinho</p><p>sobre a mesa de modo suave e preciso. Ergueu</p><p>novamente o rosto, mas não olhou para Gabriel. Um</p><p>sorriso pequeno e simpático se desenhou em seu rosto.</p><p>— Gente, eu ainda estou muito cansada da viagem,</p><p>vou para o meu quarto — anunciou.</p><p>Todos soltaram reclamações.</p><p>— Você não pode ir! Pensei que fôssemos à festa</p><p>com o Nate — protestou Stacy, quase miando.</p><p>— Desculpa, amiga. — Algo no olhar de Marie</p><p>mostrou para Stacy que ela estava chateada, porque a</p><p>modelo não disse mais nada.</p><p>Marie levantou-se, parabenizou Mavi e Kalil mais</p><p>uma vez, virou-se e saiu.</p><p>Capítulo 34</p><p>GP de Abu Dhabi.</p><p>Mais tarde naquela noite.</p><p>Os olhos embaçados eram sinal de que o coração</p><p>estava quebrado. Marie estava na varanda do grande</p><p>hotel, observando a cidade correndo abaixo. Era uma</p><p>sensação estranha perceber que, apesar de sua tristeza,</p><p>o mundo continuava girando e a vida de todos</p><p>continuava acontecendo.</p><p>Marie sabia que não poderia evitar Gabriel para</p><p>sempre, mas não estava preparada para vê-lo naquela</p><p>noite. Ele estava lindo, como sempre. Parecia mais forte,</p><p>o cabelo estava mais comprido e seu semblante estava</p><p>mais leve. E ela ficara feliz por isso.</p><p>Sabia também quão nervoso o piloto devia estar,</p><p>mesmo ele tendo mostrado tranquilidade. Entretanto, o</p><p>que Marie não esperava era que Gabe a olhasse como a</p><p>olhou. Que fosse parecer tão envolvente e sedutor como</p><p>nunca parecera antes. Ela esperava que quando o visse,</p><p>Gabe fosse ser apenas um amor do passado, mas talvez</p><p>quatro meses não tenham sido suficientes.</p><p>Marie passou mais um tempo observando a cidade</p><p>antes de voltar para o seu quarto. Ela não esperava que</p><p>Stacy chegasse tão cedo, por isso não se surpreendeu</p><p>quando se viu sozinha.</p><p>Tirou os sapatos e seguiu até a cama. Estava</p><p>prestes a se deitar quando viu uma caixa de sapatos</p><p>velha em cima do travesseiro.</p><p>Aquilo não era dela, e duvidava que fosse de Stacy.</p><p>Em cima da caixa havia um bilhete destinado a ela.</p><p>“Por favor, leia.</p><p>Sol.”</p><p>Marie sentiu as mãos tremerem enquanto abria a</p><p>caixa, e lágrimas caíram de seus olhos quando ela viu</p><p>uma pilha de cartas com o seu nome.</p><p>Pegou a do topo e abriu, agora com o corpo inteiro</p><p>tremendo.</p><p>A data era do dia em que ela havia confessado que</p><p>amava Gabriel e eles queimaram suas cartas. A letra</p><p>pouco floreada do amigo estava marcada na folha de</p><p>papel que Marie reconheceu ser de um de seus cadernos</p><p>de quando era adolescente.</p><p>“Mar,</p><p>De quem foi mesmo a brilhante ideia de passar</p><p>duas semanas na sua casa? Ah, foi minha. Eu fiquei</p><p>desesperado com a ideia de ficar com Adam por um</p><p>tempo longo assim, e é claro que ficar com você é</p><p>sempre muito melhor. Mas, na prática, está sendo</p><p>bastante torturante, Mar.</p><p>Todos os dias em que acordo e me dou conta de</p><p>que você está dormindo a poucos metros de distância,</p><p>meu coração acelera. O primeiro pensamento que tenho</p><p>é de quão ansioso estou para te ver sorrindo. Uma das</p><p>coisas que eu mais amo em você é o fato de ser tão</p><p>cheirosa em todos os instantes do dia, mas</p><p>principalmente pela manhã, quando você sai do banheiro</p><p>após o banho e seu perfume me persegue pela casa.</p><p>É torturante estar tão perto de você, sozinho, e não</p><p>poder te abraçar ou te beijar. E acho que esse foi um dos</p><p>motivos por eu ter beijado a Stacy.</p><p>Mar, sei que é uma desculpa idiota, mas é a única</p><p>compreensível para mim. Eu estava desesperado e fiz a</p><p>escolha errada. E me arrependi no momento que olhei</p><p>nos seus olhos e vi a mágoa cravada neles. Na hora, eu</p><p>não sabia que estava chateada por isso, mas eu estava</p><p>me sentindo um traidor, mesmo que não estejamos em</p><p>um relacionamento. Eu sinto muito, Mar.</p><p>Tenho 16 anos, eu não sei como amar alguém, mas</p><p>se tivesse que aprender, eu queria que fosse com você.</p><p>Estou no quarto de hóspedes da sua casa me</p><p>controlando para não ir até o seu quarto te abraçar e</p><p>sentir seus lábios de novo nos meus.</p><p>Você tem o melhor beijo do mundo! E não tem</p><p>noção do quanto eu amei ter sido o seu primeiro. Eu</p><p>queria que você também tivesse sido a minha primeira.</p><p>Para todos os efeitos, você foi. Porque foi a primeira</p><p>menina que eu beijei que eu amo.</p><p>Eu te amo, Marie!</p><p>Mas caso você diga isso para mim, talvez eu não</p><p>diga de volta. E isso não quer dizer que eu não estou de</p><p>coração partido.</p><p>Com amor, Sol.”</p><p>“Mar,</p><p>Quando pequeno, eu me lembro de achar cafona</p><p>os homens que escreviam cartas para as mulheres que</p><p>eles amavam. Quer dizer, por que alguém vai escrever</p><p>uma carta, sendo que existe e-mail? Só mulheres fariam</p><p>uma coisa dessas.</p><p>Mas hoje eu os entendo. Escrever esses</p><p>pensamentos que vêm me sufocando por tantos anos me</p><p>ajuda a não enlouquecer.</p><p>Marie, sabia que você cheira a morango? Eu amo</p><p>isso em você. Desde que eu percebi isso, eu nunca mais</p><p>pude negar esse fato. Seu cheiro vem até mim mesmo</p><p>quando eu estou fechando os olhos para dormir, e em</p><p>meus sonhos eu sou agraciado com o seu sorriso, lindo</p><p>como a praia no verão.</p><p>Sinto que tenho muitos arrependimentos em</p><p>relação a você, Mar. Você parece tão perfeita e tão</p><p>inatingível que eu temo te sujar apenas com o</p><p>pensamento de estar com você.</p><p>Meses se passaram desde que você decidiu dar seu</p><p>coração para outro, e eu sei que é injusto, mas sinto que</p><p>meu coração se despedaçou nesse período. Agora estou</p><p>aqui, criando coragem para ir ao seu encontro. Mas eu</p><p>sou medroso, Mar.</p><p>Enfrentar pistas em alta velocidade, saltar de</p><p>paraquedas e escalar montanhas me parecem ideias</p><p>muito menos assustadoras do que encarar o fato de que,</p><p>talvez, eu esteja te perdendo para sempre.</p><p>Eu não sei quem sou sem você na minha vida, Mar,</p><p>e não vejo isso como algo ruim, porque eu não quero ser</p><p>alguém sem você. Você é o meu mar calmo. Você é a luz</p><p>nos dias difíceis. Eu te amo, Marie!</p><p>Mas isso não é uma carta de amor.</p><p>Sem amor romântico, Sol.”</p><p>Havia no mínimo 20 cartas naquela pilha.</p><p>Marie se sentou na cama e leu uma por uma.</p><p>Repetidas vezes. Processando cada uma das palavras.</p><p>Eram cartas de quando Gabriel descobrira que</p><p>Mavi Anne era sua irmã, de quando ele e Marie foram</p><p>viajar juntos, de quando ele começara a pilotar na</p><p>Fórmula 1. De todos os momentos importantes que</p><p>tinham passado juntos.</p><p>Ao terminar de ler a última carta, Marie olhou para</p><p>o fundo da caixa e viu sua própria letra de adolescente.</p><p>Era um envelope vermelho, com corações desenhados e</p><p>o nome de Gabriel floreado. Era uma das cartas que</p><p>deveria ter sido queimada junto às outras tantos anos</p><p>antes.</p><p>Marie a pegou e suspirou, sentindo todas aquelas</p><p>emoções de sua adolescência novamente. Leu a carta e</p><p>chorou com a inocência daquelas palavras.</p><p>Ao finalizar, Marie olhou para a sua carta e para as</p><p>cartas de Gabriel. E que Deus a ajudasse, mas ela o</p><p>perdoou. Gabe era apenas um garoto quando descobriu</p><p>que seu pai, seu herói, era alguém de quem não se</p><p>orgulhava. Enquanto as cartas dela transbordavam um</p><p>amor puro de infância, as dele pareciam as de um adulto</p><p>que já tinha visto muito na vida.</p><p>Marie sentiu o coração se apertar pelo pobre</p><p>menino que precisara amadurecer tão rápido. Pegou o</p><p>celular e enviou uma mensagem para ele:</p><p>“Está acordado?”</p><p>Alguns segundos se passaram antes de a resposta</p><p>vir:</p><p>“No autódromo.”</p><p>Rapidamente, Marie decidiu:</p><p>“Estou indo até aí.”</p><p>As luzes do local estavam apagadas, apenas as</p><p>garagens brilhavam, indicando que os mecânicos tinham</p><p>ficado até mais tarde para preparar os carros para a</p><p>classificação na manhã seguinte.</p><p>Marie caminhou até o box da McLaren. Ela sequer</p><p>havia mudado de roupa depois do jantar, continuava com</p><p>o seu vestido e seus saltos, destoando dos trajes que via</p><p>ali naquele momento.</p><p>Os mecânicos estavam debruçados sobre os carros,</p><p>já com os uniformes desalinhados</p><p>e um pouco</p><p>descabelados. Marie procurou por Gabe, mas ele não</p><p>parecia estar em lugar nenhum.</p><p>— Com licença? — ela chamou um homem da</p><p>equipe que estava mais próximo. — Sabe onde o Gabriel</p><p>está?</p><p>O mecânico parecia ocupado demais para olhar</p><p>para ela, então apenas apontou para o carro do piloto.</p><p>Marie agradeceu e foi até lá, procurando por Gabe,</p><p>mas não estava preparada para vê-lo saindo de debaixo</p><p>do carro, só de camiseta regata e meio sujo. Ela engoliu</p><p>em seco e precisou lutar para não encarar aqueles</p><p>braços fortes e desnudos por muito tempo.</p><p>Gabriel pegou uma toalha e foi até ela.</p><p>— Oi — disse ele, limpando as mãos.</p><p>Marie olhou para atrás dele, onde estava seu carro.</p><p>— O que estava fazendo?</p><p>— Verificando se está tudo certo.</p><p>— Pensei que você não pudesse se enfiar debaixo</p><p>do carro assim.</p><p>Gabriel sorriu, um sorriso maroto e de tirar o</p><p>fôlego.</p><p>— Tenho os meus privilégios — respondeu, dando</p><p>de ombros. — Vamos?</p><p>Marie assentiu.</p><p>— Eu só vou pegar minhas coisas — disse Gabe,</p><p>caminhando até a mesa do outro lado do box. Quando</p><p>voltou, guiou Marie para a parte onde ficavam os</p><p>escritórios das equipes.</p><p>Marie se esforçou tanto para ignorar a mão de</p><p>Gabriel em sua lombar e os arrepios que aquele toque</p><p>lhe causava que acabou não reparando no caminho que</p><p>fizeram até as arquibancadas. Sentaram-se lado a lado</p><p>no ponto mais alto, onde conseguiam ver a reta principal,</p><p>com a largada.</p><p>Gabriel não parecia prestes a dizer nada, e Marie</p><p>não sabia por onde começar. Tantas coisas tinham</p><p>acontecido entre os dois naquele ano... Ela quase havia</p><p>ficado noiva de outro cara!</p><p>— Como está se sentindo? — Marie perguntou,</p><p>reunindo coragem.</p><p>Gabriel não olhou para ela, permaneceu encarando</p><p>a pista.</p><p>— Como se tudo estivesse prestes a mudar —</p><p>respondeu.</p><p>Marie assentiu. Ela entendia o que ele queria dizer.</p><p>— Você quer falar sobre isso?</p><p>Gabriel soltou um suspiro audível.</p><p>— Eu quero isso há tanto tempo, Mar — disse</p><p>apontando para a pista. — Quero ser bom o suficiente</p><p>para ser o primeiro. Eu me esforcei tanto este ano para</p><p>isso acontecer. Estou acordando na hora que devo,</p><p>fazendo dieta, treinando como um louco, até virei</p><p>mecânico!</p><p>— Está com medo de não conseguir?</p><p>O piloto assentiu.</p><p>— Eu não sei se vou aguentar mais um ano</p><p>tentando.</p><p>Marie estendeu a mão e a colocou sobre a dele.</p><p>Gabe pareceu se assustar com o toque, mas logo</p><p>relaxou, então, entrelaçaram seus dedos.</p><p>— Sol, sabe por que eu comecei a te chamar</p><p>assim?</p><p>Gabriel balançou um pouco a cabeça para os lados.</p><p>— Porque você é como o Sol. Mesmo quando tudo</p><p>está nublado, você ainda está lá, pronto para brilhar.</p><p>Você é persistente e radiante. Eu tenho certeza de que</p><p>não importa o que aconteça neste fim de semana, você</p><p>vai continuar brilhando e sendo incrível.</p><p>— Obrigado, Mar. — Gabriel se virou para ela e se</p><p>sentou com uma perna de cada lado do banco,</p><p>aproximando seus corpos.</p><p>Marie olhou para ele, para os olhos azuis mais</p><p>lindos que já vira, e respirou fundo.</p><p>— Você estava falando sério nas cartas?</p><p>— Muito sério. Eu te amo, Marie! — respondeu</p><p>Gabe, colocando a mão na bochecha dela. — Peço</p><p>desculpas por ter demorado tanto para admitir. Eu queria</p><p>poder recuperar esse tempo...</p><p>— Tudo bem, Gabe. Eu entendo.</p><p>— Você me perdoa?</p><p>— É claro que sim — Marie respondeu.</p><p>Um sorriso que ela não via fazia muito tempo se</p><p>abriu no rosto de Gabriel, e ele a olhou com tanta</p><p>adoração que Marie sentiu o coração tropeçar nas</p><p>batidas.</p><p>— Eu também te amo, Gabe.</p><p>Com um suspiro de alívio, o piloto se aproximou</p><p>ainda mais dela e a beijou. Ele a beijou como nunca tinha</p><p>beijado antes. Faminto, desesperado e apaixonado. Marie</p><p>sentiu o beijo por todo o seu corpo. O desejo reprimido</p><p>por tantos anos sendo despejado naquele momento. Ela</p><p>não teve vergonha de aprofundar mais o beijo, de beijar</p><p>Gabriel com toda a vontade que tinha e com todo o amor</p><p>que sentia.</p><p>Passou a mão pela barba por fazer e pelo cabelo</p><p>comprido de Gabriel, que era tão macio quanto um</p><p>novelo de lã. Marie não queria sair dali, não queria deixar</p><p>de sentir as mãos dele a acariciando e os braços fortes a</p><p>mantendo protegida. Mas por um breve momento,</p><p>Gabriel se afastou e apoiou a testa na sua. Marie sentiu</p><p>medo de que ele fosse dizer que se arrependia, por isso o</p><p>puxou para si e o beijou novamente, com mais vontade e</p><p>mais desejo. Ela não o deixaria ir. Não mesmo!</p><p>— Mar... — Gabriel disse entre o beijo. — Por que</p><p>não vamos para outro lugar? — E a beijou mais uma vez.</p><p>— Um lugar mais confortável?</p><p>Então, ele não pretendia afastá-la de novo?</p><p>Marie assentiu, não conseguindo disfarçar o sorriso</p><p>imenso que insistia em aparecer. Ela estava vivendo um</p><p>sonho.</p><p>Capítulo 35</p><p>GP de Abu Dhabi.</p><p>Sábado.</p><p>Dia de classificação.</p><p>A luz do lindo dia em Abu Dhabi estava brilhando, e</p><p>Gabriel sabia disso, mesmo com os olhos fechados.</p><p>Acomodou-se na cama, sentindo-se mais confortável do</p><p>que deveria logo cedo. Normalmente, Gabe acordava no</p><p>automático, mas naquele dia em específico, acordara</p><p>feliz. Inclinou a cabeça para voltar a dormir, mas algo em</p><p>seu subconsciente gritou e ele sentiu cheiro de morango,</p><p>como tomado por uma brisa suave de verão.</p><p>Abriu os olhos devagar e viu que estava com os</p><p>braços ao redor de Marie, que parecia muito confortável</p><p>com o rosto encostado em seu peito e abraçando sua</p><p>cintura. Ele a observou dormir, parecendo tão calma, e</p><p>se lembrou da noite anterior. Voltaram para o hotel, para</p><p>o quarto do piloto, e ficaram até tarde conversando e se</p><p>beijando. Gabriel não pôde deixar de sorrir. Levantou a</p><p>mão e tirou uma mecha de cabelo que estava tampando</p><p>os olhos de Marie. Os longos cílios que os emolduravam</p><p>tremiam levemente, e ele sentiu uma vontade</p><p>desesperada de saber com o que ela estava sonhando.</p><p>Dando-se conta disso, sorriu novamente.</p><p>Marie era muito bonita, e Gabriel se perguntava</p><p>como conseguira fingir que não se importava com isso</p><p>por tantos anos. Ele se sentia tão feliz que não conseguia</p><p>parar de sorrir ao perceber que não precisava mais fingir.</p><p>Pegou o celular sobre a mesa de cabeceira e</p><p>verificou a hora, o que logo tirou sua cabeça da mulher</p><p>deitada sobre ele. Precisava se levantar e se arrumar</p><p>para ir para o grid.</p><p>— Mar? — sussurrou, tentando não a assustar. —</p><p>Marie? — chamou novamente, cutucando de leve a linda</p><p>mulher.</p><p>Marie resmungou um pouco e abriu os olhos</p><p>devagar.</p><p>— Bom dia — disse, com um sorriso sonolento.</p><p>Gabe acariciou sua bochecha rosada.</p><p>— Você é a mulher mais linda do mundo, sabia?</p><p>Marie sorriu para ele e se aconchegou mais em seu</p><p>peito. O cabelo dela estava no braço do piloto, as pernas,</p><p>ao redor de sua cintura, e Gabriel pensou em como era o</p><p>homem mais sortudo do mundo naquele momento.</p><p>Ele passou a mão na cintura dela e olhou para</p><p>onde sua mão tocava.</p><p>— Sua pele é tão macia... — disse, hipnotizado. —</p><p>Você é perfeita!</p><p>Quando voltou a olhar para Marie, viu seus olhos</p><p>marejados e logo se sentiu preocupado por ter feito algo</p><p>errado.</p><p>— Por que está chorando?</p><p>Marie deu de ombros.</p><p>— Você não tem ideia de quanto tempo eu sonhei</p><p>em ouvir essas coisas...</p><p>Gabe voltou a sorrir, aliviado.</p><p>— E você não tem ideia de quanto tempo eu sonhei</p><p>em dizê-las.</p><p>Marie sorriu e se aproximou dele, dando-lhe um</p><p>beijo breve, mas que aqueceu todo o seu corpo.</p><p>Aquele seria um dia perfeito.</p><p>Marie deixou Gabriel se arrumando e foi para o seu</p><p>quarto, mesmo que ele tivesse insistido para que ela</p><p>ficasse. Fazia poucas horas que estavam juntos como um</p><p>casal, mas o piloto já havia se mostrado um parceiro</p><p>bastante grudento. E Marie não seria hipócrita de dizer</p><p>que não estava gostando da atenção e de todos os</p><p>elogios que Gabe havia atribuído a ela e de todos os</p><p>beijos que haviam trocado.</p><p>Ele beijava tão bem... Ela se sentia nas nuvens só</p><p>de lembrar.</p><p>Aquela tinha sido a melhor noite de sua vida, e</p><p>Marie não conseguia parar de pensar em cada momento.</p><p>Por mais que tivesse acabado de se despedir de Gabriel,</p><p>ela já estava com saudades e ansiosa para vê-lo</p><p>novamente.</p><p>Chegou à porta de seu quarto,</p><p>colocou o cartão na</p><p>fechadura e abriu. Quando entrou, encontrou Mavi e</p><p>Stacy se maquiando no banheiro.</p><p>— Oi, baladeira! — disse Stacy, com o lápis de olho</p><p>na mão e olhando para Marie com um sorriso. — Onde</p><p>você estava?</p><p>Marie abriu um sorriso maior ainda ao ver as duas</p><p>amigas a olhando e esperando que ela contasse.</p><p>— Que carinha feliz é essa? — Stacy indagou,</p><p>deixando o lápis de olho sobre a bancada da pia e indo</p><p>até Marie. Mavi a acompanhou.</p><p>As duas a puxaram pelo braço e a sentaram na</p><p>cama.</p><p>— Conta tudo! — exigiu Mavi, quase gritando.</p><p>— Tem a ver com aquela caixa de sapatos velha,</p><p>não tem? — perguntou Stacy, apontando para a caixa</p><p>ainda na cama de Marie. — Eu queria abrir, mas a Mavi</p><p>não deixou — confessou, revirando os olhos e</p><p>empurrando a amiga com o ombro.</p><p>— Você é muito fofoqueira! — comentou Mavi.</p><p>Marie não pôde deixar de rir.</p><p>— As duas são — disse, olhando para as amigas,</p><p>divertindo-se. — Por que não está no seu quarto</p><p>aproveitando o seu lindo noivo?</p><p>— Ele já saiu para o trabalho — respondeu Mavi. —</p><p>Mas não mude de assunto! O que aconteceu ontem à</p><p>noite? O que tem naquela caixa? Por que você está com</p><p>esse sorrisinho bobo no rosto?</p><p>Marie gargalhou com o interrogatório. Talvez, em</p><p>outro dia, ela ficasse chateada, mas estava tão feliz</p><p>naquele momento que achava que nada pudesse a</p><p>chatear.</p><p>— Só tem uma pessoa que poderia a deixar</p><p>assim... — disse Stacy, como um gato ronronando. —</p><p>Começa com Ga e termina com Be.</p><p>As duas amigas gritaram ao mesmo tempo quando</p><p>Marie assentiu.</p><p>— Conta tudo! — disseram ao mesmo</p><p>tempo, sentando-se na cama de Stacy, logo à frente.</p><p>Marie então começou a contar tudo o que tinha</p><p>acontecido na noite anterior, e as amigas ficaram a</p><p>escutando como se estivessem lendo um romance best-</p><p>seller. Marie era grata por ter as melhores amigas do</p><p>mundo.</p><p>“Estamos na última volta do último treino</p><p>classificatório da temporada. Pires já iniciou a sua última</p><p>volta. Ele precisa superar o tempo de Davies caso queira</p><p>ter a chance de ganhar este campeonato.”</p><p>“Pires completa o primeiro setor e está a caminho</p><p>do segundo. Davies termina sua última volta com</p><p>1.24.209. Vai ser difícil Pires bater essa, Mark.”</p><p>“Talvez seja, mas ele ainda tem chance. Pires está</p><p>indo para o terceiro setor. Passa pela curva 14 e está</p><p>prestes a alcançar a linha de chegada... Ele está</p><p>chegando, chegando, chegando e... ELE CONSEGUIU!”</p><p>“Gabriel Pires conquista a última pole position do</p><p>ano fazendo um tempo incrível de 1.24.160.”</p><p>“Com essa pole, Pires pode estar garantindo a sua</p><p>vitória no campeonato deste ano. Amanhã será um dia</p><p>de grandes emoções aqui em Abu Dhabi.”</p><p>O box da McLaren foi à loucura. O piloto Gabriel</p><p>Pires tinha conseguido! O primeiro lugar na classificação.</p><p>Os mecânicos se abraçavam, totalmente empolgados, e</p><p>logo depois correram para a grade, onde Gabriel iria</p><p>passar.</p><p>Marie olhou para Vera, que estava sentada ao seu</p><p>lado, e a abraçou. A mãe de Gabe estava muito feliz,</p><p>seus olhos brilhavam de orgulho do filho. As duas riram e</p><p>se abraçaram.</p><p>— Ele conseguiu, tia!</p><p>— Eu sabia que iria conseguir — disse a mulher,</p><p>afastando-se de Marie. — Obrigada por estar aqui,</p><p>querida.</p><p>Marie assentiu, muito feliz por estar ali.</p><p>— Vamos lá para vê-lo? — chamou tia Vera,</p><p>estendendo a mão para ela.</p><p>As duas caminharam juntas até a grade, e as</p><p>pessoas que já estavam lá foram abrindo caminho para</p><p>elas. Logo ficaram de frente para o lugar onde Gabriel</p><p>agora dava uma entrevista. Ele falava sobre a pole e</p><p>sobre as suas expectativas para a corrida, no dia</p><p>seguinte.</p><p>Marie o olhava, encantada. Sabia que parecia</p><p>abobada, mas não conseguia evitar. Gabe estava</p><p>radiante! E ainda lindo, mesmo suado. Aquele macacão</p><p>laranja ficava perfeito em seu corpo, e o piloto parecia</p><p>bastante confortável nele.</p><p>Ela continuou o observando, até que ele também a</p><p>viu. Gabriel prosseguiu com a entrevista, mas não tirou</p><p>os olhos dela. Marie sentiu que começava a atrair olhares</p><p>curiosos, suas bochechas até esquentaram, mas ela não</p><p>mudou seu foco.</p><p>Terminada a entrevista, Gabriel correu até onde</p><p>Marie e Vera estavam. Abraçou a mãe, que murmurou</p><p>quão orgulhosa estava dele, e então se virou para Marie.</p><p>Ele a olhou e abriu um imenso sorriso de felicidade.</p><p>— Você conseguiu, Sol! — disse Marie, com a voz</p><p>embargada.</p><p>— Nós conseguimos, Mar! — ele respondeu,</p><p>colocando as mãos nas bochechas dela e lhe tascando</p><p>um beijo digno de cinema. Marie ouviu os gritos ao redor,</p><p>mas não se importou.</p><p>Ela se importava apenas com o homem lindo que a</p><p>beijava naquele momento.</p><p>Gabriel se afastou e a olhou.</p><p>— Eu te amo — declarou.</p><p>— Eu também te amo.</p><p>Então, o piloto se afastou, indo cumprimentar as</p><p>outras pessoas. Marie ficou ali o observando, até sentir</p><p>alguém a cutucando. Olhou para o lado e viu tia Vera</p><p>sorrindo para ela, com lágrimas nos olhos.</p><p>— Finalmente! — disse a mulher, abrindo os braços</p><p>para Marie.</p><p>Marie também sentiu lágrimas se formando em</p><p>seus olhos e riu, abraçando a mulher.</p><p>Finalmente!</p><p>Capítulo 36</p><p>GP de Abu Dhabi.</p><p>Domingo.</p><p>Dia da corrida.</p><p>“Encontre-me no restaurante, por favor.”</p><p>Gabriel encarou a mensagem que acabara de</p><p>brilhar na tela de seu celular e suspirou.</p><p>— O que foi? — perguntou Marie, olhando para ele.</p><p>Eles estavam no quarto dela, deitados na cama,</p><p>assistindo a um filme antes de Gabriel ter que se arrumar</p><p>para ir para o autódromo. Marie estava deitada em seu</p><p>peito, tão aconchegada que Gabe teve vontade de</p><p>ignorar a mensagem. Deixou o celular de lado e a</p><p>abraçou mais forte.</p><p>— Meu pai. Quer que eu o encontre no restaurante</p><p>— respondeu, fechando os olhos e respirando o aroma de</p><p>morango que vinha dela.</p><p>— Você não vai?</p><p>Gabriel gemeu, frustrado.</p><p>— Eu não quero sair daqui.</p><p>Marie se afastou do aconchego de seu corpo e o</p><p>olhou, parecendo séria.</p><p>— Sol, eu sei que a sua relação com o Adam é</p><p>difícil, mas não acha que ele está tentando?</p><p>— Ele deveria ter tentado quando eu era</p><p>adolescente e precisava dele, agora é tarde demais.</p><p>Marie balançou a cabeça, parecendo decepcionada.</p><p>— Eu acho que todos merecem uma segunda</p><p>chance, amor.</p><p>Gabriel sabia que ela estava falando algo sério,</p><p>mas não conseguiu deixar de sorrir ao ouvi-la chamá-lo</p><p>de amor.</p><p>— O que você disse? — perguntou, provocando-a.</p><p>Marie ficou corada e abriu um sorriso tímido.</p><p>— Meu amor — disse em um sussurro.</p><p>Gabriel a puxou de volta para si e a beijou.</p><p>— Você é perfeita!</p><p>— Eu te amo — declarou-se Marie. — Mas, Gabe,</p><p>por favor, vá até lá falar com ele. Eu acho que os dois</p><p>precisam disso. Por mim? — apelou, sabendo que o piloto</p><p>não negaria nada se fosse por ela, mesmo ele sabendo</p><p>que não era.</p><p>Gabriel suspirou e assentiu.</p><p>— Por você, eu faço qualquer coisa, meu amor.</p><p>O restaurante estava vazio quando Gabriel chegou,</p><p>então foi fácil encontrar Adam sentado a uma mesa</p><p>afastada, perto da janela que dava vista para a cidade.</p><p>Gabe caminhou até lá prometendo a si mesmo que não</p><p>iria se irritar. Não naquele dia.</p><p>Adam olhava pela janela e não percebeu a chegada</p><p>do filho. Gabe puxou uma cadeira e se sentou em frente</p><p>ao pai, que abriu um sorriso ao vê-lo ali.</p><p>— Você veio — disse Adam.</p><p>Gabriel quase se sentiu mal ao perceber o alívio</p><p>tomando conta dos olhos do homem.</p><p>— Você pediu por favor.</p><p>Adam sorriu ainda mais com o sarcasmo do filho.</p><p>— Obrigado por ter vindo. Já comeu? — perguntou,</p><p>apontando para o cardápio em cima da mesa. — Por</p><p>minha conta!</p><p>Gabriel pegou o cardápio e o analisou, viu o prato</p><p>mais caro e o pediu. Adam não protestou, aquela era</p><p>uma atitude que ele já esperava do filho mais velho.</p><p>Quando o garçom se afastou, Gabriel colocou as mãos</p><p>entrelaçadas em cima da mesa e olhou para o pai.</p><p>— Posso saber o motivo de ter me chamado aqui?</p><p>Adam assentiu e se empertigou na cadeira.</p><p>— Gabe, eu sei que a nossa relação não é das</p><p>melhores e entendo o porquê disso, mas eu acho que</p><p>está na hora de começarmos a nos entender.</p><p>— Ah, você acha?</p><p>Adam assentiu novamente.</p><p>— O meu maior erro foi pensar que as</p><p>consequências dos meus atos se limitariam</p><p>somente a</p><p>mim, Gabe. Quando fiz o que fiz, eu era tolo e egoísta. Eu</p><p>não tinha maturidade o suficiente para pensar em como</p><p>aquilo afetaria a sua mãe. Ou afetaria a você. E eu me</p><p>arrependo profundamente disso, filho.</p><p>“Sinto muito por tudo o que fiz. Eu me arrependo</p><p>todos os dias pelas minhas escolhas e por ter feito a sua</p><p>mãe sofrer tanto. Sei que errei e peço desculpas por você</p><p>ter pagado pelos meus pecados. Mas, por favor, filho,</p><p>você e a sua irmã são as coisas mais importantes da</p><p>minha vida. Eu quero vocês por perto.”</p><p>Gabe analisou o semblante de Adam, procurando</p><p>por algum sinal de que ele estava tentando o enganar.</p><p>Mas o que viu foram as rugas ao redor dos olhos do pai e</p><p>o semblante de alguém verdadeiramente arrependido de</p><p>seu passado.</p><p>— Por que agora? — indagou.</p><p>— Porque só agora eu percebo o quanto perdi da</p><p>sua vida — disse Adam, com a voz rouca. — Eu sempre</p><p>me contentei em trabalhar perto de você, pois eu podia</p><p>saber como estava, mas agora você está prestes a</p><p>realizar o seu sonho, e eu não sinto que posso te apoiar.</p><p>Gabriel desviou os olhos para a janela, temendo</p><p>que Adam percebesse que um nó havia se formado em</p><p>sua garganta.</p><p>— Eu não consigo fingir que nada aconteceu —</p><p>avisou.</p><p>— E eu não quero que faça isso, Gabe. Quero</p><p>apenas que me deixe participar da sua vida como seu pai</p><p>— pediu Adam, parecendo desesperado. — Eu sei que</p><p>não posso recuperar o tempo que perdi, mas posso</p><p>transformar os próximos momentos em bons momentos.</p><p>Por favor, filho! — O homem praticamente implorava por</p><p>aquilo.</p><p>Gabriel queria dizer não e sair do restaurante, mas</p><p>ele não conseguia. Havia errado com Marie tantas vezes</p><p>e, mesmo assim, ela o perdoara e lhe dera uma nova</p><p>chance. Por que ele não poderia fazer o mesmo com</p><p>aquele pobre homem que se deixara levar pela</p><p>arrogância?</p><p>Olhou para o pai e pensou em tudo o que poderiam</p><p>viver juntos se aceitasse aquela trégua. Poderiam ter</p><p>momentos pai e filho, como sonhara por tanto tempo?</p><p>Poderiam se conhecer de verdade? Gabriel não sabia,</p><p>mas, caso tentasse, não tinha muito a perder.</p><p>Por isso, abriu um pequeno sorriso e assentiu para</p><p>o pai, que pareceu o homem mais feliz da Terra quando</p><p>obteve a sua resposta.</p><p>Adam se levantou e puxou Gabriel pelo braço,</p><p>abraçando-o forte. Gabriel se permitiu corresponder.</p><p>— Eu tenho muito orgulho de você, filho! — disse</p><p>Adam, com a voz embargada.</p><p>— Obrigado, pai.</p><p>Mais tarde, Gabriel chegou ao paddock de mãos</p><p>dadas com Marie. Vários fotógrafos tiraram fotos deles, o</p><p>que o piloto estranhou. Ele nunca havia namorado antes,</p><p>portanto, nunca tinham tirado fotos dele com alguém ao</p><p>lado. Mas gostou da sensação de estar acompanhado</p><p>naquele dia, apesar de se sentir tão nervoso com a</p><p>corrida que não sabia como não tinha vomitado ainda.</p><p>Despediu-se de Marie, que sabia que ele gostava</p><p>de ficar sozinho antes das corridas, para se concentrar, e</p><p>foi se trocar. Durante o tempo que passou sozinho, Gabe</p><p>só pensava no quanto queria ganhar. Estava</p><p>desesperado para conquistar aquele título. Queria aquela</p><p>vitória mais do que qualquer coisa. E depois que a</p><p>conseguisse, finalmente se sentiria mais livre dentro da</p><p>Fórmula 1.</p><p>Depois de se vestir, Gabriel foi para a pista e ficou</p><p>parado perto de seu carro, ouvindo música em seu fone e</p><p>treinando seu reflexo com bolinhas de tênis, que seu</p><p>treinador segurava acima de suas mãos. Seu cérebro</p><p>estava afiado, Gabe observava quando o homem fingia</p><p>largar uma das bolinhas, mas largava outra, e conseguia</p><p>pegá-la.</p><p>Concentrou-se no exercício por uns dez minutos,</p><p>então foi se sentar na beira da pista. Observou alguns</p><p>pilotos conversando, membros de equipes dando</p><p>entrevistas, e alguns famosos andando pela largada.</p><p>Mas, naquele momento, nada daquilo importava para</p><p>ele. Queria estar focado em sua vitória.</p><p>Alguns minutos depois, Gabriel finalmente entrou</p><p>no carro. Seu coração acelerou ao ver todos se retirando</p><p>da pista, e a adrenalina invadiu seu sangue. Se</p><p>perguntassem para ele se estava com medo, a resposta</p><p>seria não, porque sequer tinha tempo para pensar em ter</p><p>medo.</p><p>A volta de aquecimento foi tenebrosa. Cinco carros</p><p>se envolveram em um acidente, do qual Gabriel</p><p>conseguiu escapar por pouco. Então, cinco carros já</p><p>estavam fora da última corrida do ano naquele momento,</p><p>e ela sequer havia começado. Precisaram esperar ainda</p><p>mais para que pudessem limpar a pista, e a ansiedade</p><p>aumentou no peito de Gabe.</p><p>Ele respirou fundo quando voltou para o carro.</p><p>As luzes vermelhas começaram a acender.</p><p>1... preparar, 2... respirar, 3... concentrar, 4...</p><p>acelerar, 5... e... apagou.</p><p>Vai!</p><p>“A última volta é sempre a mais empolgante, não</p><p>acha, Mark?”</p><p>“Com certeza, Jack. É ela que decide o vencedor, e</p><p>hoje, decide também o campeão mundial.”</p><p>“Gabriel Pires segue em primeiro, com sua</p><p>McLaren. Logo atrás dele, está Kalil Faez, o último</p><p>campeão mundial. O ano de Kalil não foi tão bom quanto</p><p>os anteriores, mas ele não parece abalado, Mark.”</p><p>“Às vezes, o amor nos tira a atenção, Jack.”</p><p>“Atrás de Kalil vem William Davies, que também</p><p>está lutando pelo título e pode tirá-lo do companheiro de</p><p>equipe caso consiga a melhor volta agora, o que eu acho</p><p>difícil, já que Gabriel está a agarrando muito firme.”</p><p>“E lá vem ele, Gabriel Pires, o primeiro a ver a</p><p>bandeira quadriculada. Ele se aproxima da chegada e</p><p>está prestes a totalizar o seu tempo.”</p><p>“Será que ele vai vencer, Mark?”</p><p>“Parece que sim, Jack. Lá vem ele! Gabriel Pires</p><p>conquista seu primeiro título mundial de Fórmula 1, com</p><p>a melhor volta de 1.24.207.”</p><p>“A equipe da McLaren comemora a vitória na grade</p><p>da pista! Este realmente foi um ano inesquecível para a</p><p>equipe laranja!”</p><p>“O melhor em muito tempo, Mark.”</p><p>— Você é o campeão mundial, Gabe! — O grito de</p><p>felicidade de seu engenheiro foi totalmente audível no</p><p>rádio.</p><p>Gabriel repetiu aquelas palavras diversas vezes em</p><p>sua mente até conseguir processá-las. A felicidade e o</p><p>alívio se apoderaram dele.</p><p>— Nós conseguimos, Gabe! Você conseguiu!</p><p>O piloto não conseguia parar de gritar e chorar. Ele</p><p>não se lembrava de como havia terminado a volta,</p><p>apenas sabia que estava ali, de pé em seu carro, com os</p><p>braços para o alto, comemorando a vitória em cima de</p><p>Davies, comemorando o seu primeiro título na Fórmula 1.</p><p>Depois de muitos anos, vencia um brasileiro.</p><p>Gabriel pegou a bandeira do Brasil que alguém</p><p>entregava para ele e a balançou no ar. Ouviu a multidão</p><p>gritar em resposta. Ali, em Abu Dhabi, ele havia vencido.</p><p>Desceu do carro e correu para onde seus amigos o</p><p>esperavam. Retirou o capacete e viu Kalil com um</p><p>enorme sorriso no rosto. Gabe abraçou o amigo o mais</p><p>forte que conseguiu.</p><p>— Você venceu, cara! — Kalil gritou, abraçando</p><p>Gabriel com toda a força.</p><p>— Finalmente!</p><p>Kalil riu e se afastou, deixando Gabriel correr até a</p><p>sua família. Ele abraçou sua mãe e seu pai, depois correu</p><p>para ver Marie, que o esperava com um sorriso</p><p>emocionado. Só aquilo podia o deixar mais feliz. Gabriel</p><p>a beijou, sentindo o coração explodir de alegria.</p><p>Epílogo</p><p>Um mês depois.</p><p>Angra dos Reis, Brasil.</p><p>Marie e Gabriel estavam sentados no píer da Ilha,</p><p>observando o horizonte. Eles tinham passado o dia na</p><p>praia com os amigos, que agora se arrumavam para o</p><p>jantar. Queriam aproveitar o pouco tempo que ainda</p><p>tinham sozinhos antes da chegada dos convidados para a</p><p>festa anual de Gabriel.</p><p>De dedos entrelaçados e com Marie apoiando a</p><p>cabeça no ombro de Gabriel, respiravam a brisa que</p><p>vinha do mar calmo.</p><p>— Sabe quando acontecem os tsunamis? —</p><p>indagou Gabe.</p><p>O sol estava se pondo, findando a tarde. Os últimos</p><p>raios batiam em seus rostos, e Marie, que estava com os</p><p>olhos fechados, tentando relaxar e aproveitar aquela</p><p>calmaria depois da confusão que fora aquele ano, abriu-</p><p>os e olhou para Gabriel, que a observava.</p><p>— O que tem? — perguntou ela.</p><p>— Quem está na superfície, vê o tsunami chegar e</p><p>não tem para onde fugir — respondeu Gabe. — Mas</p><p>quem está fazendo mergulho, bem abaixo da superfície,</p><p>não é afetado. De maneira nenhuma. O máximo que a</p><p>pessoa sente</p><p>é o balanço do mar.</p><p>Ele sorriu e se virou para o mar.</p><p>— Quando eu descobri sobre a traição do meu pai,</p><p>foi como se tudo na minha vida virasse de ponta-cabeça.</p><p>Tudo o que eu acreditava e que eu pensava saber havia</p><p>sido destruído. Parecia que uma onda enorme estava me</p><p>levando embora e que eu morreria afogado. Mas, então,</p><p>eu fui passar as férias na casa do Kal e contei a você o</p><p>que tinha acontecido.</p><p>Marie se lembrava daquele dia, quando viu Gabriel</p><p>chorar pela primeira vez. E também foi naquele dia que</p><p>descobriu que estava o amando de uma maneira</p><p>totalmente diferente. Ao voltar para casa, chorou no colo</p><p>da mãe pelo amigo, e mesmo Isabela implorando para</p><p>ela contar o que tinha acontecido, Marie se calou e</p><p>somente soluçou durante horas.</p><p>— Você não tentou me fazer encarar a situação ou</p><p>me convencer de que eu devia perdoar o meu pai. Ou</p><p>qualquer coisa que fosse me deixar com mais raiva. Você</p><p>apenas... você esteve ali e me abraçou. — Gabe sorriu,</p><p>lembrando-se da sensação de ser compreendido. — Foi</p><p>tão louco o que eu senti quando você me abraçou. Era</p><p>como se eu tivesse, finalmente, conseguido fugir da</p><p>onda. Eu tinha mergulhado e parecia calmo. Foi quando</p><p>percebi que você era o meu mar.</p><p>Marie levantou a cabeça e beijou a bochecha do</p><p>namorado.</p><p>— Fico feliz por tê-lo ajudado naquele momento,</p><p>Sol.</p><p>— Não só naquele momento, Mar. Você me ajudou</p><p>em mais momentos do que qualquer outra pessoa. Você</p><p>me mostrou qual é o verdadeiro significado de parceria.</p><p>Você me amou nos meus piores momentos e esteve ao</p><p>meu lado. Eu acho que nunca vou poder ser grato o</p><p>suficiente por isso.</p><p>Marie achava impossível. No último mês, Gabriel</p><p>havia se dedicado apenas em demonstrar amor e</p><p>gratidão. Ele a elogiava sempre que podia, e a beijava,</p><p>abraçava e presenteava. Cuidava dela. Quando ia ao</p><p>mercado, sempre trazia o seu doce favorito. Mandava</p><p>flores toda semana e sempre a levava para sair. Além de</p><p>ser seu melhor amigo da vida, com quem ela podia</p><p>compartilhar tudo.</p><p>— Mar, eu passei anos da minha vida com medo.</p><p>Com medo de ser como o Adam, de não ser um bom</p><p>homem e repetir os erros dele. Eu morria de medo de</p><p>estragar a vida de outra pessoa, como ele fez com a</p><p>minha mãe e com a mãe da Mavi. E meu medo era tanto</p><p>que eu quase perdi a única pessoa que viu todos os</p><p>meus defeitos e mesmo assim conseguiu me amar. Eu</p><p>quase perdi você.</p><p>Gabriel se levantou de repente.</p><p>— O que você está fazendo? — Marie perguntou,</p><p>confusa.</p><p>Ele mexeu em seu bolso e tirou uma caixinha</p><p>turquesa. Marie o encarou, os olhos arregalados. Ela</p><p>colocou a mão na boca e sentiu lágrimas começarem a</p><p>cair de seus olhos.</p><p>— Sol...</p><p>Gabriel se ajoelhou ao lado dela.</p><p>— Mar, levou muito tempo para eu perceber quão</p><p>idiota estava sendo. Muito tempo tendo medo de te</p><p>amar. Mas meu medo de te perder foi muito maior, e eu</p><p>não quero passar mais nenhum instante da minha vida</p><p>sem você. E aqui, hoje, no nosso lugar favorito em todo o</p><p>mundo, eu quero te prometer que vou ser um bom</p><p>marido para você. Que vou tratá-la com amor, carinho e,</p><p>acima de tudo, com respeito...</p><p>Gabriel abriu a caixinha, e dentro dela havia um</p><p>lindo solitário azul-turquesa. Marie olhou do anel para</p><p>Gabriel, que parecia prestes a chorar.</p><p>— ...caso você aceite se casar comigo.</p><p>Marie assentiu, sem conseguir dizer nada, mas com</p><p>as lágrimas rolando livremente por seu rosto. Ela</p><p>estendeu a mão e percebeu que tremia.</p><p>— Sério? — Gabriel perguntou.</p><p>— Sim, Sol! Isso é tudo o que eu mais quero! —</p><p>respondeu Marie.</p><p>Gabriel tirou o anel da caixinha e o colocou em seu</p><p>dedo. Marie sequer olhou para a joia, abraçou Gabriel</p><p>com tanta força que quase o fez se desequilibrar. Ele a</p><p>beijou, riu e a abraçou, tudo ao mesmo tempo.</p><p>A felicidade foi ainda maior quando eles olharam</p><p>para o lado e viram todos os seus amigos e a família de</p><p>Gabriel os observando a uma certa distância do píer.</p><p>Quando perceberam que haviam sido notados,</p><p>todos começaram a bater palmas e a rir com o mais novo</p><p>casal de noivos.</p><p>Marie não queria se desgrudar de Gabriel e não</p><p>parava de sorrir. Ela não conseguia entender como tudo</p><p>havia mudado em apenas um ano. Se alguém dissesse</p><p>no início daquele ano que no fim ela estaria noiva de</p><p>Gabriel, seu amor de infância, Marie iria rir. Mas ali</p><p>estava ela, vivendo o seu sonho.</p><p>E algo dentro dela dizia que aquele era apenas o</p><p>início da história mais emocionante que iria viver.</p><p>Agradecimentos</p><p>Escrever este livro foi um desafio tremendo. Quem</p><p>esteve ao meu lado desde o lançamento do meu primeiro</p><p>livro, Só (não) Me Deixe, sabe que muitas coisas</p><p>aconteceram na minha vida nesses últimos dois anos. Foi</p><p>uma luta, mas estou em constante evolução e com meu</p><p>coração cheio de gratidão.</p><p>Primeiramente, quero agradecer ao mais</p><p>importante de todos, Deus, meu Pai. Sem o Senhor, eu</p><p>não estaria aqui. Muito obrigada por ter me sustentado e</p><p>me guiado nesses dois últimos anos, assim como tem me</p><p>guiado desde que eu nasci. Obrigada pela imensa</p><p>misericórdia. É tudo sobre o Senhor. O Senhor foi quem</p><p>me deu o dom e a inspiração. Meu trabalho tem como</p><p>objetivo enaltecer a sua Glória. Por isso, sou muito grata</p><p>por tudo o que passei, porque isso me trouxe para onde</p><p>estou hoje, lançando o meu segundo livro.</p><p>Quero agradecer aos meus pais, que estiveram ao</p><p>meu lado por toda a minha vida, cuidaram de mim e me</p><p>ensinaram tudo o que sei. Vocês são a minha base, eu os</p><p>amo demais! Obrigada por, quando eu não tinha nem</p><p>forças para me levantar da cama ou para comer, vocês</p><p>me lembrarem o quanto eu sou importante e o quanto as</p><p>pessoas gostaram do meu primeiro trabalho. É por causa</p><p>de vocês que eu consegui terminar esta história.</p><p>Meu irmão, meu segundo pai, o homem que</p><p>assinou os gibis da Turma da Mônica para mim e sempre</p><p>me amou tanto, eu o perdoo por não ter lido o meu</p><p>primeiro livro (ainda kkk). Você é o melhor irmão mais</p><p>velho do mundo. Eu te amo! E muito obrigada pela nossa</p><p>Lilica, a princesa mais linda do mundo.</p><p>Meu parceiro de vida, meu melhor amigo, meu</p><p>namorado, essas são as definições para o melhor homem</p><p>que eu já conheci. Meu amor, eu nem tenho palavras</p><p>para agradecê-lo por tudo o que fez e faz por mim. Muito</p><p>obrigada por ter me ouvido falar sobre o Gabriel e a</p><p>Marie por quase dois anos. Muito obrigada por ter lido Só</p><p>(não) Me Deixe só para ter assunto comigo quando nos</p><p>conhecemos. Muito obrigada por ter entregado</p><p>marcadores e cards do livro na Bienal, mesmo que eu</p><p>estivesse morrendo de vergonha. Você é o meu sonho!</p><p>Luhana, minha mãezona na vida literária, você é a</p><p>melhor revisora e leitora crítica do Universo inteiro. Muito</p><p>obrigada por todas as noites revisando, por todos os</p><p>momentos que dedicou à Marie e ao Gabriel. Eu</p><p>agradeço muito a Deus pela sua vida.</p><p>Ursula, a ilustradora perfeita que fez a capa LINDA</p><p>deste livro. Muito obrigada por tornar a minha</p><p>imaginação real. Você sabia o que eu queria mais do que</p><p>eu mesma. Você é incrível!</p><p>Minhas assessoras da MV Assessoria, Mari e Vivian,</p><p>muito obrigada pelas horas dedicadas ao meu trabalho,</p><p>vocês foram sensacionais.</p><p>A todas as meninas que divulgaram e publicaram</p><p>resenhas de O Brilho do Sol e a Calmaria do Mar, muito</p><p>obrigada pela dedicação de vocês e pelo empenho em</p><p>fazer outras pessoas conhecerem o meu livro.</p><p>Ao meu querido leitor, muito obrigada por ter</p><p>escolhido, entre tantas opções, ler o meu livro. Espero</p><p>que tenha gostado da história e que ela tenha feito</p><p>sentido para você. E que possamos compartilhar muitas</p><p>outras.</p><p>Quando eu decidi contar a história do Gabriel e da</p><p>Marie, tive muito medo da reação dos leitores às atitudes</p><p>de Gabriel. Ele pode ter tomado decisões que muitos de</p><p>vocês julgaram egoístas, mas espero que tenham o</p><p>perdoado no final.</p><p>E caso você se culpe por alguma decisão que seus</p><p>pais, ou alguém da sua família, tomaram, perdoe-as. Eu</p><p>sei que falar é muito fácil, mas, por experiência própria,</p><p>às vezes perdoar é o melhor remédio para a dor. Você</p><p>tem essa opção, e espero que um dia a escolha.</p><p>Uma nota especial à maior inspiração de</p><p>Gabriel,</p><p>Ayrton Senna. O melhor piloto que a Fórmula 1 já teve.</p><p>Muito obrigada por ter trazido tanta felicidade e orgulho</p><p>para a nossa nação. Você jamais será esquecido!</p><p>Muito obrigada por ter chegado até aqui. Que Deus</p><p>cubra a sua vida com muito amor e o encha de</p><p>esperança. A vida é boa, e você é importante!</p><p>Sobre a Autora</p><p>Ana Roza tem 20 anos. Escreve desde os 12 e é</p><p>apaixonada por livros de romance e fantasia. Publicou</p><p>seu primeiro livro, Só (não) Me Deixe, aos 18. É viciada</p><p>em Taylor Swift, The Sims, novelas coreanas e</p><p>turcas. Romântica incurável, carioca apaixonada pelo seu</p><p>Rio de Janeiro e estudante de psicologia.</p><p>Redes sociais:</p><p>Instagram: @autoraanaroza</p><p>TikTok: @autoraanaroza</p><p>Sumário</p><p>Playlist</p><p>Prólogo</p><p>Capítulo 1</p><p>Capítulo 2</p><p>Capítulo 3</p><p>Capítulo 4</p><p>Capítulo 5</p><p>Capítulo 6</p><p>Capítulo 7</p><p>Capítulo 8</p><p>Capítulo 9</p><p>Capítulo 10</p><p>Capítulo 11</p><p>Capítulo 12</p><p>Capítulo 13</p><p>Capítulo 14</p><p>Capítulo 15</p><p>Capítulo 16</p><p>Capítulo 17</p><p>Capítulo 18</p><p>Capítulo 19</p><p>Capítulo 20</p><p>Capítulo 21</p><p>Capítulo 22</p><p>Capítulo 23</p><p>Capítulo 24</p><p>Capítulo 25</p><p>Capítulo 26</p><p>Capítulo 27</p><p>Capítulo 28</p><p>Capítulo 29</p><p>Capítulo 30</p><p>Capítulo 31</p><p>Capítulo 32</p><p>Capítulo 33</p><p>Capítulo 34</p><p>Capítulo 35</p><p>Capítulo 36</p><p>Epílogo</p><p>Agradecimentos</p><p>Sobre a Autora</p><p>corrida de Kalil pela Red Bull,</p><p>e ele vencera a temporada. Uma festa explodia nos</p><p>Emirados Árabes enquanto Marie planejava as aulas do</p><p>dia seguinte em sua sala de estar. Naquele dia, ela odiou</p><p>seu trabalho, e foi por pouco que não pediu demissão.</p><p>Marie esteve presente para comemorar com Kalil</p><p>um momento especial, seu terceiro mundial, e não</p><p>esteve presente para consolar seu melhor amigo em um</p><p>momento complicado. Gabriel perdera o título por</p><p>pouquíssimos pontos. Se tivesse ganhado aquela última</p><p>corrida, ele teria vencido o campeonato.</p><p>Ela nunca escolhia lados, sempre sorteava, assim,</p><p>torcia igualmente para os dois. Mas admitia que queria</p><p>que Gabriel tivesse vencido naquele ano. Ele merecia.</p><p>Embora ela também estivesse feliz pelo primo.</p><p>— Como esteve aqui sem mim? — perguntou ao se</p><p>afastar dele, apenas o suficiente para que Gabriel</p><p>pegasse sua mala e passasse o braço por seu ombro,</p><p>guiando-a em direção à casa.</p><p>Ela deveria ter se preocupado com Stacy, sabia</p><p>disso, mas quando olhou para trás, viu a amiga</p><p>conversando com um dos amigos de Gabriel que havia</p><p>ido com ele buscá-los. Stacy ficaria bem.</p><p>— Um saco! — respondeu Gabriel. — Esses caras</p><p>não gostam de silêncio.</p><p>Marie conseguiu entender o que ele quis dizer</p><p>assim que se aproximaram da casa. O som alto de caixas</p><p>gigantes soava pelos arredores, com uma música que</p><p>Marie não conseguia identificar o gênero. Provavelmente,</p><p>um sertanejo.</p><p>— Eles nunca gostaram — comentou ela.</p><p>Gabriel riu.</p><p>— É verdade. Acho que eu me esqueço disso no</p><p>decorrer do ano.</p><p>Ela assentiu. Ele esquecia. Depois do Réveillon,</p><p>quando todos tivessem ido embora da Ilha, Gabriel se</p><p>deitaria no colo dela e diria que nunca mais faria uma</p><p>festa como aquela. Então, quando o fim do ano se</p><p>aproximasse, Marie iria perguntar o que eles fariam, e</p><p>Gabriel responderia que já havia chamado todo mundo</p><p>para a Ilha.</p><p>Fora assim nos cinco anos anteriores e não</p><p>mudaria tão cedo.</p><p>— Quantas pessoas este ano? — Marie perguntou,</p><p>elevando um pouco o tom de voz, por causa da música.</p><p>— Oitenta, eu acho.</p><p>— Você acha?</p><p>— Alguns trouxeram amigos... — explicou Gabriel,</p><p>parecendo receoso.</p><p>Marie semicerrou os olhos e parou, fazendo com</p><p>que Gabriel também parasse.</p><p>— Quantas, Gabriel?</p><p>— Cento e vinte — murmurou ele.</p><p>— Quantas? — Marie não conseguiu acreditar.</p><p>Gabriel a olhou como se ela fosse sua mãe e ele</p><p>estivesse com medo de levar uma bronca.</p><p>— Cento e vinte — voltou a dizer, alto e claro.</p><p>— Você é louco? Onde essa gente toda vai dormir?</p><p>Não tem nem colchonete para todo mundo, Gabriel!</p><p>— Eu não sabia que viria tanta gente — disse ele,</p><p>evitando olhar para ela.</p><p>— Você precisa ter um controle, Sol — avisou</p><p>Marie, tentando abrandar a voz. — O que vamos fazer?</p><p>Gabriel balançou a cabeça.</p><p>— Não se meta nisso. Eu vou resolver — garantiu.</p><p>Marie riu.</p><p>— Não mesmo! — respondeu, já pegando o</p><p>telefone e seguindo em frente. — Eu vou dar um jeito</p><p>nisso.</p><p>Gabriel não perguntou nem mesmo se ou como ele</p><p>poderia ajudar. Marie sabia que era porque ele confiava</p><p>nela, e adorava que fosse assim.</p><p>Gabriel dava aquela festa todos os anos. Primeiro,</p><p>havia sido apenas para comemorar o seu aniversário de</p><p>18 anos, dia 31 de dezembro. Convidara apenas os</p><p>amigos mais chegados, que não eram muitos na época. A</p><p>festa recebeu cerca de 40 convidados, e sua mãe se</p><p>descabelou para fazer todos caberem na casa.</p><p>Ao decorrer dos anos, no entanto, sua fama havia</p><p>aumentado e sua festa de aniversário na Ilha havia se</p><p>transformado em um evento onde apenas pessoas</p><p>selecionadas eram convidadas. Ou pelo menos essa era</p><p>a ideia.</p><p>As maiores fofocas e confusões saíam daquela</p><p>festa. Casais eram formados e separados, a mídia toda</p><p>ficava de olho, e pessoas do mundo inteiro se reuniam</p><p>ali, de pilotos a estrelas de Hollywood.</p><p>Gabriel se orgulhava de seu vasto círculo social,</p><p>mas, naquele ano, havia estourado um pouco a conta.</p><p>Cento e vinte pessoas nunca caberiam dentro daquela</p><p>casa. Sim, era uma casa enorme, com mais de dez</p><p>quartos. Mas como todas aquelas pessoas dormiriam ali?</p><p>Sempre que um barco aportava ou um helicóptero</p><p>pousava na Ilha naquela manhã, Gabriel sentia o rosto</p><p>pingar de suor e nervoso. Ele teria que enfiar todos</p><p>debaixo das árvores e torcer para não chover.</p><p>Então, Marie chegou. Assim que o helicóptero dela</p><p>pousou, Gabriel sentiu todo o seu nervosismo sumir, pois</p><p>se tinha alguém que podia resolver aquilo, era ela.</p><p>Como? Ele não fazia ideia.</p><p>Mas Marie conseguiu dar um jeito.</p><p>Antes do meio-dia, um barco aportou no píer da</p><p>Ilha com dezenas de colchonetes, travesseiros e roupas</p><p>de cama. Gabriel não sabia como agradecer a ela por</p><p>aquilo. Marie tirou uma grande preocupação de seus</p><p>ombros, agora ele poderia respirar aliviado.</p><p>— Como conseguiu tudo isso?</p><p>Marie deu de ombros, mas Gabriel não deixou</p><p>escapar o sorriso convencido no rosto dela.</p><p>— Na Internet... tem tudo — respondeu,</p><p>caminhando até o barco para ajudar a tirar as coisas.</p><p>Gabriel não pôde deixar de rir. Ela havia resolvido.</p><p>É claro que sim.</p><p>Marie havia sumido fazia muito tempo, e Gabriel</p><p>começou a se preocupar. A Ilha era privada, e todos que</p><p>estavam ali se conheciam, nada aconteceria com eles.</p><p>Mas aquilo não diminuiu sua tensão de não saber onde</p><p>ela havia se metido. Andou até onde Kalil estava, em</p><p>uma roda com Nathan e outros amigos deles, e puxou o</p><p>piloto para um canto.</p><p>— Viu a Marie? — perguntou.</p><p>Kalil olhou ao redor e balançou a cabeça.</p><p>— Não. Ela saiu com o Matheus já faz um tempo.</p><p>Eu não a vi voltar.</p><p>Gabriel semicerrou os olhos. Matheus? Por que ela</p><p>tinha saído com ele?</p><p>— Ele é gente boa, cara. E a Marie sabe se cuidar</p><p>— disse Kalil, com o braço ao redor de Mavi Anne.</p><p>Gabriel se forçou a não retirar o braço do amigo da</p><p>cintura de sua irmã, mas precisava se acostumar com</p><p>aquilo. Eles já estavam juntos havia quase um ano, e</p><p>Gabriel ainda sentia um ciúme idiota. Sim, Mavi estava</p><p>passando mais tempo com Kalil, mas essa era a ideia de</p><p>se ter um namorado, não?</p><p>— Onde está a Yasmin? Achei que estava rolando</p><p>um clima — Mavi falou.</p><p>E estava. Mas a mulher ficou muito desinteressante</p><p>depois que abriu a boca e começou a falar. Só saíram</p><p>coisas chatas dali, e Gabriel logo perdeu qualquer</p><p>resquício de curiosidade sobre ela.</p><p>— Não estou mais na dela — respondeu.</p><p>— Tem várias outras garotas aqui — disse Kalil. —</p><p>Deixe a Marie aproveitar um pouco. Ela parecia</p><p>interessada no cara, sabe como é difícil isso acontecer...</p><p>Era verdade. Gabriel nunca tinha visto Marie</p><p>verdadeiramente interessada em alguém. Havia se</p><p>tornado algo comum. E ele poderia ser um babaca</p><p>egoísta, mas gostava daquilo. Namoros complicavam</p><p>tudo, ainda mais sendo amigo dela. Quando Marie</p><p>finalmente começasse a namorar, ela se afastaria dele, e</p><p>Gabriel odiaria cada segundo daquilo.</p><p>Parecia algo meio que subentendido entre os dois.</p><p>Ele não namorava, e ela também não. Assim, mantinham</p><p>as coisas tranquilas em sua relação. Sim, eles tinham</p><p>seus casos. Gabriel gostava de flertar. Era uma coisa</p><p>legal e ajudava a passar o tempo, mas compromisso</p><p>sério causava-lhe arrepios.</p><p>Gabriel não respondeu ao amigo ou à irmã, apenas</p><p>saiu da casa, não deixando de reparar em Nathan se</p><p>atracando com uma blogueira brasileira de quem ele</p><p>tinha esquecido o nome. Sim, Gabriel precisava ter mais</p><p>controle sobre aquela festa.</p><p>Caminhou em direção à praia, que estava</p><p>praticamente deserta. Todos estavam dentro da casa, na</p><p>festa, e os poucos que estavam do lado de fora eram</p><p>casais procurando lugares privados. Respirou fundo, o</p><p>cheiro do mar invadiu seus pulmões, acalmando-o.</p><p>Seguiu pela areia, para o mais longe que pudesse do som</p><p>alto.</p><p>Subiu no píer e andou até quase o final, quando viu</p><p>uma sombra solitária sentada ali. Ele a reconheceu sem</p><p>sequer uma palavra, e não hesitou a andar até onde ela</p><p>estava e se sentar ao seu lado. Gabriel não precisou</p><p>cumprimentá-la, e Marie não precisou olhar para saber</p><p>que era ele. Marie apenas suspirou, e Gabriel percebeu</p><p>que ela estava pensando em algo que só compartilharia</p><p>com</p><p>ele.</p><p>— Não é assustador? — perguntou ela, como se</p><p>todos os seus pensamentos estivessem expostos em</p><p>uma tela na frente de Gabriel.</p><p>— O quê?</p><p>— Amar. Sentar, olhar para alguém e pensar que</p><p>quer passar o resto da vida com aquela pessoa.</p><p>— Mas não é com isso que sonha? — perguntou</p><p>Gabriel, passando o braço pelo ombro da amiga e a</p><p>puxando para perto.</p><p>O cheiro de morango do perfume de Marie chegou</p><p>até ele, fazendo-o sentir-se completo naquele momento.</p><p>Seis meses longe de sua amiga havia sido tempo demais,</p><p>e ele esperava que nunca mais acontecesse.</p><p>— Eu sonho com muitas coisas, mas não espero</p><p>que sequer metade delas se realizem — respondeu</p><p>Marie, dando de ombros. — Encontrar o amor é o que</p><p>todos esperam, e eu não vou ser estúpida de dizer que</p><p>não espero o mesmo. Só que... — Ela se deteve, e</p><p>Gabriel percebeu que era porque estava reorganizando</p><p>seus pensamentos antes de os exprimir. — Não é como</p><p>nos livros ou nos filmes. As pessoas não são assim. Eu</p><p>não posso acordar um belo dia e esperar que o homem</p><p>que amo venha se desculpar cantando “I can’t take my</p><p>eyes off you”. Ou que alguém levante uma caixa de som</p><p>debaixo da minha janela apenas para me alegrar porque</p><p>me ama. Ninguém vai se aproximar e dizer que me ama</p><p>ardentemente, nem construir uma casa de bonecas para</p><p>mim. O mundo não é assim, e eu estou cansada de</p><p>esperar que seja.</p><p>Ela apoiou a cabeça no ombro dele. E parecia tão</p><p>infeliz...</p><p>Gabriel odiava ver Marie triste, e era muito difícil</p><p>ela demonstrar esse tipo de emoção para alguém, até</p><p>mesmo para ele. Mas quando demonstrava, era porque</p><p>estava realmente chateada.</p><p>— Mar, às vezes o amor percorre o caminho mais</p><p>longo, mas ele chega. Para todo mundo. Alguns, tolos,</p><p>apenas o ignoram. Ou nem reparam nele. Mas outros o</p><p>olham e o abraçam tão forte que se sentem incapazes de</p><p>soltar. Você encontrará o amor um dia, Marie. De todas</p><p>as pessoas no mundo, você é a melhor candidata para</p><p>ele. E se eu, que sou um idiota, sei disso, imagine o lindo</p><p>homem inteligente que irá te conquistar e dizer que te</p><p>ama ardentemente...</p><p>Mesmo não acreditando que o amor era para ele,</p><p>Gabriel desconhecia alguém que merecesse encontrá-lo</p><p>mais do que Marie. Ela era boa e tinha um coração</p><p>imenso. Era a melhor candidata para um romance digno</p><p>de filmes e livros.</p><p>— Você também poderia encontrar, sabe? Já que</p><p>todos podem, você também pode — disse Marie.</p><p>— Toda regra tem sua exceção, Mar — respondeu</p><p>Gabriel, sorrindo.</p><p>Ela deu uma cotovelada nele, e isso o fez</p><p>gargalhar.</p><p>Gabriel sabia que Marie era apaixonada pela ideia</p><p>de se apaixonar, mas esperava que ela nunca deixasse</p><p>isso tomar todo o resto de sua vida. Ele queria que ela</p><p>vivesse tudo o que podia, mas morria de medo de pensar</p><p>que ela poderia se magoar.</p><p>Quanto a ele...</p><p>Eu não posso fazer isso. Com ninguém.</p><p>Marie estava sentada na beira da piscina, nos</p><p>fundos da casa, bem longe do mar, para onde todos iam</p><p>durante o dia. Tinha um livro aberto em seu colo, e ela o</p><p>lia, completamente apaixonada pela história. Sequer</p><p>percebeu quando alguém se aproximou e se sentou na</p><p>cadeira ao seu lado. Ou quando um drink foi colocado em</p><p>cima da mesa entre as duas cadeiras.</p><p>— Não pode ficar debaixo desse sol sem se hidratar</p><p>— disse o homem que se sentara ali.</p><p>Isso tirou a atenção de Marie do livro, e ela ficaria</p><p>com muita raiva se fosse alguém com quem tivesse</p><p>intimidade, mas não brigou quando viu Matheus.</p><p>Eles haviam se conhecido no dia anterior. Marie</p><p>logo reparou nele. Era um dos novos amigos de Gabriel e</p><p>um verdadeiro gato. Os cabelos negros lisos, os olhos</p><p>castanho-escuros e seu lindo corpo eram um conjunto e</p><p>tanto. Marie sentiu aquele nervosismo quando o viu</p><p>caminhar até ela cheio de confiança. Permitiu-se</p><p>conversar com ele por horas a fio e acabou gostando do</p><p>papo.</p><p>— Ainda é o livro da babá? — perguntou Matheus,</p><p>apontando com o copo para o livro no colo de Marie.</p><p>— Já estou quase terminando — respondeu ela. —</p><p>Como foi o jogo?</p><p>— Ganhamos — disse ele, com o convencimento</p><p>em sua voz.</p><p>Não que ela esperasse que fosse ser diferente.</p><p>Matheus era amigo de Gabriel por um motivo. Ele</p><p>também era atleta, jogava no time de futebol para o qual</p><p>Gabriel torcia. Era a estrela revelação do time, e haviam</p><p>vencido o campeonato que tinha acabado de terminar.</p><p>Mas se perguntassem o que Marie entendia de futebol,</p><p>ela passaria vergonha. Ela só odiava um esporte mais do</p><p>que Fórmula 1, e esse esporte era o futebol. Marie não</p><p>via o menor sentido em correr atrás de uma bola e tentar</p><p>acertá-la em uma rede.</p><p>É claro que ela não expressou isso para o homem à</p><p>sua frente. Matheus parecia muito orgulhoso de seu</p><p>trabalho, e eles não tinham intimidade o suficiente para</p><p>Marie anunciar sua falta de interesse naquilo que ele</p><p>fazia para viver.</p><p>— Você é linda, sabia? — disse Matheus. Marie</p><p>virou-se e viu que ele estava observando-a atentamente.</p><p>Sentiu as bochechas queimarem e um sorriso bobo</p><p>nascer em seus lábios. Abaixou a cabeça, tentando</p><p>esconder a expressão dele.</p><p>— Obrigada — respondeu.</p><p>Então, colocou o livro em cima da mesa ao lado e</p><p>pegou a bebida que ele havia levado para ela.</p><p>— Quando volta para casa? — Matheus perguntou.</p><p>— Logo depois do Ano-Novo. Os meninos precisam</p><p>voltar para as reuniões com as equipes, e eu tenho que</p><p>voltar para o trabalho.</p><p>— Vocês são muito grudados, não é?</p><p>Marie assentiu.</p><p>— Eles são minha família.</p><p>— Até o Gabriel? — indagou Matheus, mas sua</p><p>expressão revelava que ele queria saber se algo mais</p><p>estava acontecendo entre os dois.</p><p>— Até ele. Nós nos conhecemos desde crianças.</p><p>Matheus não pareceu satisfeito com a resposta,</p><p>mas não podia esperar que Marie fosse revelar sua</p><p>relação com o amigo para ele. Quer dizer, não era bem</p><p>da conta dele. Marie e Gabriel eram amigos, e já passava</p><p>da hora de as pessoas entenderem isso. Até ela mesma</p><p>já tinha entendido. Havia levado um tempão, mas</p><p>finalmente tinha entendido.</p><p>Marie sorriu para ele, mostrando que não diria mais</p><p>nada, e colocou o copo de lado.</p><p>— Que tal um mergulho? — propôs Matheus, talvez</p><p>para mudarem de assunto.</p><p>Marie olhou para a piscina e começou a balançar a</p><p>cabeça, para dizer que não estava muito a fim, quando</p><p>se sentiu arrancada da cadeira. Olhou para baixo e viu as</p><p>costas de Matheus. Gritou pedindo para ele a soltar,</p><p>rindo, e a próxima coisa que sentiu foi a água quando ele</p><p>pulou com ela.</p><p>Emergiu e passou a mão no rosto, tentando secar</p><p>os olhos. Virou-se para o lado e o viu olhando para ela,</p><p>com o cabelo molhado jogado para trás, esperando por</p><p>sua reação, se gritaria, brigaria ou ficaria chateada.</p><p>Marie não fez nenhuma dessas coisas. Em vez disso, ela</p><p>jogou água e pulou em cima dele, tentando afundá-lo de</p><p>novo. Matheus segurou seus braços, rindo, e os passou</p><p>por seu pescoço, puxando-a para mais perto.</p><p>Marie sentiu o coração acelerar quando percebeu</p><p>quão perto dele estava. Os olhos de Matheus brilhavam</p><p>sob o sol, parecendo ainda mais bonitos. Ela colocou a</p><p>mão no maxilar dele, sobre a barba por fazer, e sorriu.</p><p>Ele sorriu de volta e colou os lábios nos dela. E foi</p><p>simplesmente incrível.</p><p>Capítulo 2</p><p>Marie, 7 anos.</p><p>Gabriel, 8 anos.</p><p>Monte Carlo, Mônaco.</p><p>Marie odiava ir às corridas de kart com seus tios e</p><p>primos. Era chato, monótono e perigoso. Ela não</p><p>entendia o que Kalil e Nathan viam de tão incrível</p><p>naquele lugar, porque só via vários minicarros correndo</p><p>em círculos, com o grande risco de se chocarem uns</p><p>contra os outros.</p><p>Mas sua tia sempre a chamava para ir, e, por</p><p>algum motivo, Marie não conseguia dizer não à Jolie. Ela</p><p>era tão bonita e inteligente que Marie sentia que negar</p><p>um pedido dela seria como se despedir de qualquer outro</p><p>momento que pudessem ter juntas. E parecia muito ruim</p><p>precisar passar o resto da vida sem ter momentos a sós</p><p>com sua tia só porque kart era a coisa mais idiota do</p><p>mundo.</p><p>Por isso, toda vez que a família ia ao kartódromo,</p><p>Marie ia com eles. Mas era um saco também porque</p><p>sempre acontecia a mesma coisa: um grupo enorme se</p><p>reunia perto deles, tentando fazer amizade</p><p>com seu tio</p><p>ou pedindo uma foto e um autógrafo. E não havia sido</p><p>diferente daquela vez, várias pessoas estavam reunidas</p><p>ao redor deles, bajulando seu tio.</p><p>Marie sabia que era perda de tempo e que ele</p><p>odiava isso, sendo assim, nenhuma daquelas pessoas</p><p>seria sua amiga. Mas ela também sabia que seu tio era</p><p>educado demais para mandar que todos fossem embora.</p><p>Só que ela não era obrigada a ser simpática também. Ela</p><p>nem era filha dele.</p><p>Então, Marie agarrou sua bolsa de tom azul-claro</p><p>com olhinhos de gato desenhados, que sua mãe havia</p><p>comprado para ela na última vez que foram ao shopping,</p><p>levantou-se devagar, para que sua tia não percebesse</p><p>que estava saindo, e começou a andar para o outro lado</p><p>do kartódromo, afastando-se da multidão. Sentou-se no</p><p>banco debaixo da sombra, abriu a bolsa e pegou o livro</p><p>que havia levado consigo.</p><p>Seu pai costumava dizer que a melhor maneira de</p><p>passar o tempo era com um bom livro em uma mão e</p><p>uma deliciosa barra de chocolate na outra. E apesar de</p><p>ela amar chocolate, assim como seu pai, conhecido como</p><p>o maior chocólatra da família, Marie não havia levado</p><p>nenhum. Ficara com medo de derreter, já que o dia</p><p>estava ensolarado e quente. Por isso, colocou algo quase</p><p>tão bom quanto chocolate em sua bolsa: balas</p><p>gelatinosas. Sim, ela era apaixonada por balas</p><p>gelatinosas, e era com elas que passaria a próxima hora,</p><p>enquanto visitava Nárnia e esperava o pesadelo do dia</p><p>de kart acabar.</p><p>— Oi.</p><p>Marie desviou o olhar do livro e encarou o menino</p><p>parado à sua frente. Os lábios do garoto se curvaram</p><p>numa espécie de tentativa de sorriso.</p><p>— Oi — Marie respondeu, tentando parecer</p><p>educada, mesmo que estivesse doida para chutá-lo para</p><p>o outro lado só por ter atrapalhado a sua leitura. —</p><p>Precisa de ajuda? — Era o que sua mãe sempre</p><p>perguntava quando alguém que não conhecia puxava</p><p>conversa com ela.</p><p>O menino colocou a mão na nuca.</p><p>— Estou fugindo da minha mãe. Ela quer que eu</p><p>tome um remédio que eu não gostei quando tomei</p><p>ontem. Pensei em me esconder aqui, já que é longe.</p><p>Marie olhou para a roupa do garoto. O macacão</p><p>verde-escuro e as luvas combinando revelavam que ele</p><p>estava ali para pilotar, então ela olhou para o seu rosto</p><p>de novo.</p><p>— Deveria estar entrando no kart, já está na hora.</p><p>— Verificou o relógio de pulso de ponteiros que seu avô</p><p>tinha dado a ela em seu último aniversário, então</p><p>mostrou para ele. — Viu só?</p><p>O menino se aproximou e encarou o relógio por</p><p>tempo demais. Marie duvidava que estivesse mesmo</p><p>conseguindo ver as horas.</p><p>— Não sabe ver a hora em relógio assim? —</p><p>perguntou.</p><p>Um tom vermelho pintou as bochechas do menino,</p><p>que ergueu os olhos azuis para ela, balançando a cabeça.</p><p>— Eu não uso muitos desses.</p><p>Marie mordia o interior da bochecha enquanto</p><p>pensava.</p><p>— Tudo bem. Eu vou te ensinar. Senta aqui. — Ela</p><p>bateu em um espaço livre ao seu lado no banco.</p><p>O menino se sentou ali, e Marie guardou o livro na</p><p>bolsa, com medo de que amassasse.</p><p>Esticou o pulso para perto dele e apontou para o</p><p>ponteiro menor.</p><p>— Este aqui aponta para as horas. — E continuou:</p><p>— E este aqui aponta para os minutos. As horas são a</p><p>mesma coisa que o número apontado, mas os minutos,</p><p>você tem que contar de cinco em cinco sempre que o</p><p>ponteiro mudar de direção.</p><p>Ela olhou para o menino.</p><p>— Entendeu?</p><p>Ele a olhou e piscou algumas vezes antes de</p><p>balançar a cabeça discretamente.</p><p>— Vou explicar de novo. Quando o ponteiro menor</p><p>aponta para o número um, ele quer dizer um mesmo.</p><p>Agora, quando o ponteiro maior aponta para o número</p><p>um, ele quer dizer cinco. Aí, quando aponta para o dois,</p><p>quer dizer dez; no três, quinze; no quatro, vinte; no cinco,</p><p>vinte e cinco; no seis, trinta, que também chamamos de</p><p>meia. Tipo... quatro e meia. É porque o ponteiro menor</p><p>está no quatro e o maior está no seis. E se o maior</p><p>estiver no doze, é porque a hora é exata. Por exemplo,</p><p>três horas em ponto. O menor está no três, enquanto o</p><p>maior está no doze, que no relógio digital pode ser</p><p>representado por dois zeros. Entendeu?</p><p>O menino franziu o cenho por um momento.</p><p>— Então, agora são nove e... nove e cinquenta? —</p><p>Ele a olhou com os olhos brilhando de expectativa.</p><p>Marie assentiu, animada.</p><p>— Isso! Viu? Você aprendeu rápido.</p><p>Ela abaixou o pulso e pegou mais uma balinha de</p><p>gelatina, então estendeu o pacote para o menino.</p><p>— Não posso. Já comi demais. Pode fazer mal na</p><p>hora da corrida.</p><p>Marie suspirou.</p><p>— Que pena. Estas balinhas estão muito boas. —</p><p>Ela fechou o pacote e o guardou na bolsa, para não</p><p>deixar o menino passando vontade.</p><p>— Qual é o seu nome? — ele perguntou.</p><p>— Marie. E o seu?</p><p>O menino sorriu.</p><p>— Gabriel.</p><p>Eles continuaram conversando sobre quão difícil e</p><p>chato era ele não poder comer as balinhas e sobre como</p><p>ele ia se exibir para a sua mãe por saber ver as horas,</p><p>mesmo depois de ela ter tentado ensinar a ele milhares</p><p>de vezes antes. Marie ficou feliz por saber que agora o</p><p>menino conseguia fazer isso por sua causa. Era incrível</p><p>poder ensinar alguma coisa para alguém.</p><p>— Gabriel, vem aqui agora! Não foge assim de</p><p>mim, filho, você me deixa preocupada.</p><p>Uma mulher alta e de longos cabelos escuros</p><p>ondulados se aproximou deles, com o rosto sério.</p><p>O sorriso de Gabriel murchou um pouco e ele</p><p>encolheu os ombros.</p><p>— Eu não quero tomar aquele remédio ruim.</p><p>— Remédio é remédio, você não tem que gostar —</p><p>disse a mulher, soltando um profundo suspiro. — Mas</p><p>agora não dá mais tempo. Depois da corrida, você vai</p><p>tomar! Vamos.</p><p>— Mamãe, essa é a Marie.</p><p>A mulher olhou para onde o filho apontava e suas</p><p>bochechas coraram um pouco.</p><p>— Me perdoe, princesa, eu não tinha te visto aí. —</p><p>Então, estendeu a mão. — Sou Vera, mãe de Gabriel.</p><p>Marie sorriu para ela.</p><p>— Tudo bem, senhora.</p><p>A mulher a olhou por mais um momento antes de</p><p>se voltar para o filho.</p><p>— Gabriel, precisamos ir. Está quase na hora.</p><p>Os olhos de Gabriel se iluminaram e ele pulou do</p><p>banco rapidamente.</p><p>— Vamos! — Começou a correr para longe, mas</p><p>parou por um instante e olhou para Marie. — Obrigado</p><p>por ter me ensinado a ver as horas. Você é a minha nova</p><p>melhor amiga.</p><p>Marie odiaria mentir sobre o que aconteceu depois</p><p>que ele disse aquilo. Seu tolo coração infantil acelerou e</p><p>ela não conseguiu voltar a se concentrar na leitura, só</p><p>pensava em quando poderia conversar com o lindo</p><p>menino de olhos azuis novamente.</p><p>Gabriel colocou a mochila no pé da escadaria e</p><p>correu para a sua parte favorita da casa. Lila e Miles</p><p>correram atrás dele, latindo e pulando aos seus pés. Mas</p><p>sua mãe sempre brigava com ele quando brincava com</p><p>os cachorros assim que chegava em casa, dizia que</p><p>poderia prejudicá-los. Por isso, Gabriel tentava esquecer</p><p>que eles estavam por ali. Ele correu, fazendo o caminho</p><p>que tanto conhecia, e parou na porta. Estendeu a mão e</p><p>bateu, apressado.</p><p>— Entre — disse Adam, com a voz firme soando do</p><p>interior do escritório.</p><p>Gabriel abriu e entrou, com um enorme sorriso no</p><p>rosto.</p><p>— Eu não posso falar muito agora, Clifford, meu</p><p>filho chegou.</p><p>O menino andou pelo cômodo, observando os</p><p>carros de corrida em miniatura do pai que eles tanto</p><p>amavam. Ouviu a risada do pai e olhou para ele.</p><p>— Oito anos. Sim, sim. Ele adora. — Adam riu</p><p>novamente. — Isso mesmo. Até breve, Clifford. —</p><p>Desligou o telefone e olhou para o filho, sorrindo.</p><p>Esta era a segunda parte favorita do dia de Gabriel.</p><p>Ele corria até o escritório do pai, que sempre estava lá</p><p>esperando por ele. Adam parava seus afazeres e focava</p><p>sua atenção no filho, interessado no dia que o menino</p><p>tivera.</p><p>— E aí, campeão, como foi?</p><p>Gabriel estendeu o troféu para o pai.</p><p>— Ganhei do Kalil e do Matt hoje!</p><p>Os olhos de Adam se nublaram e seu sorriso</p><p>vacilou por um segundo. Ele pegou o troféu e bagunçou o</p><p>cabelo de Gabriel, agachando-se e dando um beijo em</p><p>sua cabeça.</p><p>— Eu sinto muito por não ter estado lá, campeão.</p><p>Gabriel deu de ombros.</p><p>— Você tinha trabalho, papai. Tudo bem. Você</p><p>sempre vai às corridas.</p><p>Adam sorriu e olhou para o filho com os olhos</p><p>brilhando de tristeza.</p><p>— Sim, filho, eu tinha trabalho. — Suspirou.</p><p>— Mas</p><p>me conta, como foi que você derrotou os dois?</p><p>Capítulo 3</p><p>Dias atuais.</p><p>Dois meses depois das férias de verão.</p><p>Melbourne, Austrália.</p><p>Primeiro GP da temporada.</p><p>Gabriel sabia o que estava por vir. Respirou fundo,</p><p>preparando-se para começar. Mesmo que tivesse</p><p>aproveitado ao máximo a temporada de testes, não era</p><p>como aquilo. A pressão para ver quem se daria bem era</p><p>grande demais. Ainda mais quando ele estava em uma</p><p>nova equipe e se entrosando com todos.</p><p>A McLaren sempre havia sido o seu sonho. Ayrton</p><p>Senna, seu maior ídolo, havia corrido por eles e ganhado</p><p>dois mundiais. Era uma equipe antiga, só não tanto</p><p>quanto a Ferrari, e importante. Gabriel estava doido para</p><p>conseguir o assento vago no ano anterior, mas havia</p><p>perdido a chance quando William Davies deixou a Ferrari</p><p>e entrou para a equipe. Só que ninguém esperava que o</p><p>CEO da McLaren estivesse querendo renovar os dois</p><p>pilotos, e foi uma surpresa para todos quando, na</p><p>segunda parte da temporada anterior, Gabriel anunciou</p><p>que estava deixando a Mercedes.</p><p>Era esperado que, com a saída de Kalil da Red Bull,</p><p>Gabriel fosse permanecer na Mercedes e finalmente</p><p>ganhar o título. No entanto, ele não poderia perder a</p><p>chance de entrar na sua equipe dos sonhos. Seria infiel</p><p>consigo mesmo e com a Mercedes se permanecesse com</p><p>eles pensando em como poderia ter sido pilotar pela</p><p>McLaren.</p><p>Nem todos haviam apoiado a sua ida, mas Gabriel</p><p>não se importava. Estava animado para experimentar</p><p>novos ares. Passara três temporadas na Mercedes e não</p><p>levara um único título. Quem sabe em uma nova equipe</p><p>ele conseguisse vencer.</p><p>O carro da McLaren estava ótimo naquela</p><p>temporada; leve, equilibrado e, o mais importante, veloz.</p><p>Gabriel tinha chance de vencer, e seria incrível se fizesse</p><p>isso logo em sua primeira temporada na equipe.</p><p>Ele caminhou até a estante onde suas coisas se</p><p>encontravam. Já trajava seu macacão e as sapatilhas,</p><p>mas deixava todo o resto por último, como os outros</p><p>pilotos. Mas faltavam apenas alguns minutos para o</p><p>início dos treinos, e sairiam dos boxes. Por isso, ele logo</p><p>colocou os fones de ouvido, que já estavam pendurados</p><p>no macacão. Em seguida, pegou a balaclava branca com</p><p>o símbolo da McLaren gravado na parte inferior e a</p><p>vestiu, então colocou o capacete. Por fim, calçou as luvas</p><p>e caminhou para o carro, que já estava arrumado, só</p><p>esperando por ele.</p><p>— Boa sorte, garoto! — disse Brian, o chefe de</p><p>equipe.</p><p>Gabriel assentiu em agradecimento, mas não disse</p><p>nada. Era raro ele conversar com alguém depois de estar</p><p>totalmente uniformizado. Sentia que estando pronto para</p><p>correr, precisava conversar apenas com uma pessoa: seu</p><p>engenheiro. Ele era seu melhor amigo durante as</p><p>corridas e o único que poderia ajudá-lo.</p><p>Pulou para dentro do carro e respirou fundo. Estava</p><p>prestes a começar o jogo, e ele não conseguia controlar</p><p>seu entusiasmo.</p><p>Gabriel havia conseguido a pole. A primeira pole</p><p>position do ano era dele, e não poderia estar mais</p><p>realizado. Era tão bom vencer e estar na frente. Parar o</p><p>carro atrás da placa com o grande número 1 gravado era</p><p>uma satisfação, e Gabriel sentia que, mesmo que não</p><p>vencesse no dia seguinte, já estaria satisfeito consigo</p><p>mesmo por ter conseguido largar em primeiro lugar.</p><p>Mesmo que horas tivessem se passado desde que</p><p>saíra do grid, Gabriel ainda estava empolgadíssimo com</p><p>a ideia de ter a chance de vencer a primeira corrida do</p><p>ano. Ele nunca havia conseguido. Na temporada anterior,</p><p>ficara em segundo lugar, logo atrás de Kalil. E na</p><p>temporada anterior a essa, ele nem chegara ao pódio.</p><p>Então, estava muito empolgado por ter a chance de</p><p>vencer no domingo.</p><p>Quase perdera a pole para o seu companheiro de</p><p>equipe, William Davies. Eles não haviam se acostumado</p><p>um com o outro até aquele momento, o que era bem</p><p>estranho para Gabriel, que costumava se dar bem com</p><p>todos os pilotos. Mas Davies era metido demais, e isso</p><p>irritava Gabriel. Sentia saudades de seu antigo</p><p>companheiro de equipe, Nathaniel Smith. Eles tinham</p><p>uma química tão boa em frente às câmeras que todos os</p><p>fãs adoravam vê-los juntos. Além disso, conseguiam se</p><p>dar bem fora do grid, o que era muito bom e diminuía a</p><p>tensão durante as corridas.</p><p>A diferença também era que Nathaniel já havia</p><p>aceitado que era o segundo piloto, por mais chato que</p><p>isso fosse. Em contrapartida, Gabriel e William haviam</p><p>acabado de começar a disputar, e levaria um tempo até</p><p>que esse detalhe fosse decidido, se é que seria. Para a</p><p>equipe, o ideal era que os dois fossem capazes de</p><p>competir pelo título, e caso isso realmente acontecesse,</p><p>Gabriel teria um longo ano pela frente.</p><p>— Ao Gabriel, que mesmo sendo o pior piloto do</p><p>mundo, conseguiu a pole! — brindou Kalil, erguendo a</p><p>taça de vinho e sorrindo para o amigo.</p><p>— Eu sou o melhor, irmão, não precisa ter</p><p>vergonha de admitir isso — respondeu Gabriel, batendo</p><p>sua taça na dos amigos.</p><p>Bebeu um gole do vinho e apoiou a taça na mesa</p><p>novamente.</p><p>— É ótimo que o carro esteja tão bom este ano,</p><p>Gabe — falou Mavi, ignorando a implicância entre o</p><p>namorado e o irmão.</p><p>Gabriel assentiu. Estava tão feliz com aquilo que,</p><p>se pudesse, sairia pulando e cantando pelas ruas de</p><p>Melbourne.</p><p>— Eu só espero que ele permaneça assim com os</p><p>desenvolvimentos.</p><p>Marie, que estava sentada ao lado dele, acariciou</p><p>seu braço em um gesto reconfortante.</p><p>— Vai ficar ainda melhor, eu tenho certeza.</p><p>Gabriel olhou para a mão dela e tentou ignorar o</p><p>anel prateado em seu dedo anelar. Levantou os olhos e</p><p>sorriu, apesar do desconforto que sentiu no estômago.</p><p>— Kalil, fale sobre a sensação de ter que escalar o</p><p>pelotão amanhã — brincou Nathan, olhando para o</p><p>primo, que parecia tranquilo, mesmo que o resultado</p><p>daquele dia não tivesse sido favorável, como ele estava</p><p>acostumado.</p><p>Mavi entrelaçou uma das mãos com a do</p><p>namorado.</p><p>— Ele se saiu muito bem hoje. Amanhã, vai</p><p>conseguir subir algumas posições. E... se não conseguir,</p><p>está tudo bem também. Não é, Kal?</p><p>Kalil deu de ombros.</p><p>— Tanto faz — disse calmamente. — Acho que vai</p><p>ser legal ter que lutar pelas posições um pouco. As</p><p>ultrapassagens vão dar uma boa história no final.</p><p>— Sem dúvidas, colega — respondeu Nathan,</p><p>sorrindo para o primo.</p><p>Kalil havia feito o sexto melhor tempo. Para</p><p>qualquer um vendo de fora, era um bom resultado, mas</p><p>para um tricampeão mundial... Bem, poderia ter sido</p><p>melhor. O carro da Ferrari estava bom. Não tão</p><p>equilibrado como poderia estar, mas veloz e potente.</p><p>Entretanto, depois de tantos anos correndo pela Red Bull,</p><p>Kalil levaria um tempo até se acostumar com o jeito da</p><p>nova escuderia.</p><p>Todos sabiam disso, mas às vezes era difícil não</p><p>colocar todas as expectativas em um único piloto. Kalil</p><p>não parecia se importar, havia feito muito para</p><p>conquistar seus títulos; a cada dia que passava, ele</p><p>estava mais próximo de terminar o seu trabalho. Gabriel</p><p>sabia dos planos de Kalil e Nathan, sabia que logo o</p><p>amigo deixaria o esporte, mas realmente não entendia.</p><p>Gabriel não conseguia se imaginar longe das</p><p>pistas, era algo tão natural para ele. Caminhar pelo</p><p>asfalto toda quinta-feira para fazer o reconhecimento do</p><p>trajeto... Entrar no carro nas sextas e completar dois</p><p>treinos... Mais um treino no sábado e a classificação... E,</p><p>no domingo, competir para chegar em primeiro lugar e</p><p>aproveitar a chuva de champanhe em cima dele.</p><p>Essa era a sua vida. Nascera para aquilo. Deixar a</p><p>Fórmula 1 seria como perder uma parte de si, e Gabriel</p><p>não conseguia imaginar coisa pior.</p><p>— Ele queria ter vindo, mas tinha jogo... — Gabriel</p><p>ouviu Marie dizer à Mavi.</p><p>Balançou a cabeça e olhou para a amiga, tentando</p><p>entender sobre quem ela estava falando.</p><p>— Quem? — perguntou, por fim.</p><p>— Matheus — respondeu a menina.</p><p>Ele deteve a tempo a sua vontade de revirar os</p><p>olhos e se forçou a sorrir.</p><p>— Ele me enviou uma mensagem me desejando</p><p>boa sorte — contou.</p><p>Isso pareceu deixar Marie empolgada.</p><p>— Que bom que está tudo bem! Eu estava com</p><p>medo de que o meu relacionamento com o Matheus</p><p>acabasse atrapalhando a amizade de vocês.</p><p>Gabriel</p><p>balançou a cabeça mais uma vez, mas não</p><p>respondeu.</p><p>Sentia-se feliz por Marie estar feliz com Matheus. O</p><p>jogador era uma boa pessoa e parecia realmente a fim</p><p>dela, o que era o mínimo. Mas... sim, o relacionamento</p><p>dos dois afetou a amizade de Gabriel e Marie. Os</p><p>momentos livres, ela geralmente passava conversando</p><p>com o namorado. Os planos antigos dos dois agora</p><p>sequer eram mencionados. Tudo era “Matheus e eu</p><p>estamos pensando em fazer isso”, “Matheus e eu</p><p>estamos pensando em fazer aquilo”, “Matheus e eu</p><p>estamos assistindo a uma série muito legal”.</p><p>Tudo o que antes era “Gabriel e Marie”, agora</p><p>havia se transformado em “Matheus e Marie”.</p><p>Eles eram amigos desde que Gabriel tinha oito</p><p>anos de idade, então, poderia dizer que estava sofrendo</p><p>por uma espécie de Síndrome do Ninho Vazio. Sentia</p><p>saudades de Marie, mas, ao contrário das outras vezes,</p><p>ele parecia ser o único a se sentir assim, e pensava que</p><p>era um chato por ser daquele jeito.</p><p>— Ele ainda tem que ganhar muitos campeonatos</p><p>para mim, e eu não vou deixar que você atrapalhe isso —</p><p>disse Gabriel, que era totalmente fanático pelo seu time</p><p>de futebol.</p><p>— Eles venceram ontem — falou Marie, ignorando</p><p>sua última frase.</p><p>— Graças a Deus! — Gabriel murmurou, sentindo-</p><p>se vitorioso.</p><p>— Sabe o que devíamos fazer? — indagou Mavi,</p><p>empolgada. Todos olharam para ela com expectativa. —</p><p>Devíamos viajar nas férias de verão. Todos juntos!</p><p>— Todos quem? — perguntou Gabriel, como um</p><p>idiota.</p><p>Mavi olhou para ele como se realmente fosse um</p><p>idiota.</p><p>— Hum... Kal e eu, você, Marie e Matheus... —</p><p>Aquilo de novo... argh! — Nathan, Stacy, Dom e Ed.</p><p>— Duvido que o Dom e o Ed queiram ir — disse</p><p>Nathan, voltando a comer seu pedaço de pizza.</p><p>— Por que não? O Ed passou o Ano-Novo com a</p><p>gente — Marie expôs.</p><p>Nathan riu.</p><p>— Sim, porque você sequer lhe deu opção —</p><p>constatou o personal, como se fosse algo óbvio. — O que</p><p>acha, Kalil?</p><p>Kalil deu de ombros.</p><p>— Acho que não custa nada chamar. Além disso,</p><p>você e o Dom estão muito mais próximos este ano.</p><p>Nathan parou de comer no mesmo instante e olhou</p><p>para Kalil com os olhos semicerrados.</p><p>— Nem tanto — disse, parecendo desconfortável e</p><p>sem o deboche de sempre na voz.</p><p>— Vocês vivem juntos quando estamos em Mônaco,</p><p>Nate. Eu não sou idiota — Kalil respondeu.</p><p>Gabriel não sabia o que era, mas algo estava</p><p>acontecendo ali e ele sentia que estava perdendo.</p><p>Precisara de algum tempo para se acostumar com o fato</p><p>de que a relação entre Kalil e Nathan nunca seria igual à</p><p>que os dois tinham. Porque, além de amigos, eles eram</p><p>primos, e isso aumentava muito o tempo deles juntos.</p><p>Era como Gabriel e seu primo, Pedro. Mas, ao</p><p>contrário de Kalil e Nathan, Gabriel via Pedro apenas uma</p><p>ou duas vezes ao ano. Quando crianças, eles eram mais</p><p>próximos, porém, após uma pequena briga, aos dez anos</p><p>de idade, eles acabaram se afastando muito e nunca</p><p>mais voltaram a ser como antes.</p><p>— Mas para onde iríamos? — Marie perguntou.</p><p>— Não sei — respondeu Mavi, feliz por alguém ter</p><p>topado a sua ideia. — Podíamos ir para o Brasil. Eu ainda</p><p>não conheço muitos lugares de lá, e seria legal saber</p><p>mais sobre o país do meu irmãozinho, não acha? —</p><p>sugeriu, aproximando sua mão da de Gabriel e a</p><p>apertando.</p><p>Ele não pôde deixar de sorrir com aquilo.</p><p>— Isso é muito genérico, aquele país é enorme —</p><p>disse Nathan.</p><p>— Eu nunca fui à Bahia — falou Kalil, enquanto</p><p>pegava mais um pedaço de pizza e evitava</p><p>descaradamente o olhar fulminante de Nathan, que,</p><p>além de primo, era seu personal trainer.</p><p>— Minha tia mora lá — Gabriel adicionou à</p><p>conversa, mas sem qualquer vontade de realmente fazer</p><p>aquela viagem em grupo. — Acho que podíamos ir para</p><p>outro lugar. Eu nunca fui para Fortaleza.</p><p>Marie pulou na cadeira, animada.</p><p>— Legal! Lá tem um parque aquático que parece</p><p>ser lindo! Vamos! Vamos! Vamos! — tagarelou,</p><p>parecendo uma criança pedindo algo aos pais.</p><p>E foi assim que os amigos decidiram onde</p><p>passariam as férias de verão. Iriam para o Ceará.</p><p>Capítulo 4</p><p>Marie, 9 anos.</p><p>Gabriel, 10 anos.</p><p>O amor era algo para Marie Martin. Ele estava por</p><p>toda parte em sua vida. Seus pais se amavam e a</p><p>amavam, assim como amavam seu irmão mais novo,</p><p>Theodore. Seus tios se amavam e amavam seus</p><p>cônjuges; tio Ali e tia Jolie, tio Marcelus e tia Ágata... E</p><p>seu tio Julian amara sua tia Marieta. Seu tio Dom... bem,</p><p>ele tinha 17 anos, e seu pai dizia que o irmão não</p><p>pensava direito. Marie acreditava que, para amar, era</p><p>preciso pensar, então concluiu que o tio Dom nunca</p><p>amaria. O que, para ela, era uma ideia bem triste. Mas</p><p>quando a repetiu em voz alta para ele, Dom a olhou, e</p><p>Marie chegou a pensar ter visto um sorriso nos lábios do</p><p>tio, mesmo que ela nunca soubesse quando ele sorria.</p><p>Dom era um garoto estranho. Além de não pensar</p><p>direito, ele não sabia demonstrar seus sentimentos.</p><p>Ninguém nunca sabia o que estava se passando na</p><p>mente do garoto, apenas o pai de Dom, o vovô René. Ele</p><p>havia combinado com Dom uma tabela de cores de</p><p>camisas. Quando Dom estava triste, usava tal cor;</p><p>quando estava feliz, usava outra tonalidade. E era assim</p><p>para todas as emoções.</p><p>Marie sempre se perdia naquela tabela e acabava</p><p>não ligando para aquilo, ainda mais nos últimos tempos,</p><p>em que sempre que se encontrava com o tio, ele estava</p><p>sem camisa. Seu pai dizia que era por Dom ter começado</p><p>a malhar e querer se exibir. Marie não entendia o que</p><p>havia para exibir, e seus pais não se preocuparam em</p><p>dizer.</p><p>No mais, isso tudo não importava. O fato era: Marie</p><p>conhecia o amor e vinha de uma família amorosa. Até</p><p>mesmo Dom tinha seus momentos amorosos.</p><p>Os momentos em que Marie mais entendia sobre</p><p>isso eram como os que estava presenciando naquele</p><p>exato instante. Ela estava sentada no sofá da casa de</p><p>sua avó, que lia ao seu lado, com o livro no colo. Marie</p><p>sabia o que encontraria naquelas páginas se lesse por</p><p>cima do ombro da avó, coisa que fazia regularmente. Ela</p><p>encontraria uma história de amor arrebatadora, que,</p><p>mais tarde, Fran comentaria com Jolie, e Marie ouviria</p><p>enquanto fingia ler o seu próprio livro ou brincar com</p><p>seus primos.</p><p>— Foque em sua leitura, Marie — disse sua avó,</p><p>assustando-a.</p><p>Fran levantou os olhos do livro e fitou a neta com</p><p>um sorriso amável no rosto.</p><p>— O que você está lendo hoje, querida?</p><p>Marie olhou para o livro, que estava apoiado no</p><p>braço do sofá, fechado, e passou a mão pela linda capa.</p><p>— Percy Jackson. E a senhora?</p><p>— Nada que seja para o seu bico, posso garantir.</p><p>A menina cruzou os braços em cima do peito e fez</p><p>cara de brava.</p><p>— A senhora e a titia sempre dizem isso!</p><p>Fran riu.</p><p>— Quando você crescer, vai entender.</p><p>— Mas, vovó, os livros não são sobre o amor? Por</p><p>que eu não posso ler?</p><p>Fran fechou o livro e o depositou em cima da</p><p>mesinha de centro, então abriu os braços e chamou</p><p>Marie para achegar-se a ela. A menina engatinhou até a</p><p>avó e se sentou no colo da senhora, encolhendo-se para</p><p>caber. Fran fechou os braços e a puxou para mais perto.</p><p>— O amor é algo que exige tempo para ser</p><p>entendido. Se eu te desse um desses livros hoje, você</p><p>não o entenderia, então, não valeria a pena.</p><p>— Mas eu também amo, vovó.</p><p>— Ama? — perguntou Fran, olhando para ela com</p><p>um sorriso travesso no rosto.</p><p>— Sim! Eu amo você, amo o vovô, a mamãe, o</p><p>papai, as titias... — Marie respondeu contando nos dedos.</p><p>— Os titios, o Theo, o Kalil, o Edgar, o Nate, o Gabe...</p><p>— Minha nossa! — exclamou Fran. — Você ama</p><p>muitas pessoas, minha neta, de fato.</p><p>Marie sorriu, orgulhosa de si mesma por isso.</p><p>— Mas não é desse tipo de amor que estou falando.</p><p>O sorriso de Marie morreu em seu rosto e a</p><p>confusão tomou seu cérebro limitado.</p><p>— Estou falando do amor que eu sinto pelo seu</p><p>avô, que a sua mãe sente pelo seu pai... Esse tipo de</p><p>amor é diferente do que sentimos pelos nossos pais,</p><p>primos, tios e amigos.</p><p>— Como assim, vovó?</p><p>Fran não a respondeu de imediato, observou o</p><p>rosto da neta, com um sorriso suave, e acariciou sua</p><p>bochecha.</p><p>— Marie, o amor que seu pai sente por você é</p><p>diferente do amor que ele sente pela sua mãe.</p>