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Apostila_Introdução à Criminologia

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com Zaffaroni esta proposta deve basear-se na maximização do 
sistema de garantias legais, colocando os direitos humanos como objeto e limite da 
intervenção penal. O propósito é diminuir a quantidade de condutas típicas procurando 
penalizar somente as mais danosas, prescindindo bagatelas e fazendo cumprir 
rigorosamente as garantias legais. Segundo ele “o direito penal mínimo, é, de maneira 
inquestionável, uma proposta a ser apoiada por todos os que deslegitimam o sistema 
penal, não como meta insuperável e, sim, como passagem ou trânsito para o 
abolicionismo, por mais inalcançável que este hoje pareça” (ZAFFARONI, Eugenio Raul. 
Em busca das penas perdidas. Ob.Cit.. Pg. 106) 
 
Sobre a defesa do direito penal mínimo também escreve Ferrajoli, que defende o que 
ficou conhecido como Garantismo. Segundo ele a mínima intervenção significa que o 
 
 
 
 
 
 
 
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Estado deve intervir unicamente nos casos mais graves, protegendo os bens jurídicos 
mais importantes, sendo o direito penal o último recurso quando já cessaram as 
alternativas restantes. 
 
Concebe-se o programa político-criminal minimalista como estratégia para maximizar os 
direitos e reduzir o impacto penal na sociedade, diminuindo o volume de pessoas nos 
cárceres através de processos de descriminalização e despenalização. Trata-se de um 
critério de economia que procura obstaculizar a expansão penal, legitimando proibições 
somente quando absolutamente necessárias. Os direitos fundamentais, neste caso, 
corresponderiam aos limites do direito penal. 
 
Ferrajoli indica três classes de delitos que deveriam ser amplamente descriminalizadas 
sob o amparo constitucional. Em termos quantitativos, deveriam ser excluídos os delitos 
de bagatela (contravenções, delitos punidos com penas pecuniárias ou restritivas de 
direitos) que não justificariam o processo penal e muito menos a pena. Ao versar sobre 
as tipificações de condutas que não afetam bens jurídicos, como por exemplo, o consumo 
de drogas, o incesto, a sodomia e/ ou homossexualismo, Zaffaroni afirma que estas 
normas penais tutelam pautas éticas, normas morais, e não bens jurídicos. Confrontando 
com o pressuposto da laicização do direito penal, o autor se opõe a junção da moral com 
direito, e ainda a imposição de uma moral determinada. 
 
Para Ferrajoli, a deslegitimação do sistema penal não corresponde à idéia de 
irracionalidade de nossos sistemas penais vigentes e operantes, e a impossibilidade 
radical de legitimar qualquer sistema penal. Ele recusa essa radicalização afirmando que 
mesmo em uma sociedade mais democratizada e igualitária seria necessário um direito 
penal mínimo como meio de serem evitados danos maiores. O direito penal mínimo 
legitima-se unicamente através de razões utilitárias, ou seja, pela prevenção de uma 
reação formal ou informal mais violenta contra o delito, funcionando esse direito penal 
como um instrumento impeditivo de vingança. 
 
Esse pensamento se opõe à corrente de pensamento orientada para abolição das penas e 
dos sistemas penais. O grupo de pensadores que pode ser adstrito a essa orientação não 
se interessa por uma política criminal alternativa, mas sim, por uma alternativa à política 
criminal. O abolicionismo nega a legitimidade do sistema penal tal como atua na 
realidade social contemporânea e, como princípio geral, nega a legitimação de qualquer 
 
 
 
 
 
 
 
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outro sistema penal que se possa imaginar no futuro como alternativa a modelos formais 
e abstratos de solução de conflitos, postulando a abolição radical dos sistemas penais e a 
solução dos conflitos por instâncias ou mecanismos informais. 
 
Os chamados “abolicionistas” afirmam que o sistema penal só tem servido para legitimar 
e reproduzir as desigualdades e injustiças sociais, e o direito penal é considerado uma 
instância seletiva e elitista. São muitas as suas razões para abolir o sistema penal Aqui 
são listadas algumas delas: - vivemos numa sociedade sem direito penal, porque a cifra 
negra é altíssima; - o sistema é anômico, e o direito penal não protege a vida, a 
propriedade e nem as relações sociais, não atingindo seu intento; - o sistema é seletivo e 
estigmatizante, e visivelmente cria e reforça as desigualdades, é discriminatório; - o 
sistema penal é uma máquina para produzir dor inutilmente, a execução da pena é um 
meio de sofrimento e dor moral e física; - a pena de prisão é ilegítima, só se pode falar 
em pena quando há “acordo entre as partes”. Ela não reabilita o preso, ao contrário, 
causa efeitos devastadores sobre sua personalidade. 
 
Hulsman conclui ser o sistema penal um problema em si mesmo e, diante de sua 
crescente inutilidade na solução de conflitos, torna-se preferível aboli-lo totalmente como 
sistema repressivo. Sua proposta é substituição direta do sistema penal não por um 
macro-nível estatal, mas sim por instâncias intermediárias ou individualizadas de solução 
de conflitos que atendam às necessidades reais das pessoas envolvidas. Para ele os 
conflitos podem encontrar soluções efetivas entre as partes envolvidas através de 
modelos de solução de conflitos (mediação, conciliação) e propõe uma reconstrução de 
vínculos solidários de simpatias horizontais ou comunitárias, que permitam a resolução 
dos conflitos sem a necessidade de apelar para o modelo punitivo formalizado 
abstratamente. 
 
Importante citar ainda outros autores desta tendência: Mathiesen e Nils Christie. O 
primeiro vincula a existência do sistema penal à estrutura produtiva capitalista, sua 
proposta parece aspirar não apenas a abolição do sistema penal, como também a 
abolição de todas as estruturas repressivas da sociedade. Já Nils Christie acredita que a 
possibilidade de substituição dos indivíduos/papéis no sistema “orgânico”, torna os 
excluídos do mercado os candidatos ideais para o sistema punitivo, deste modo, 
centraliza sua argumentação em fundamentos éticos orientados a reduzir o sistema penal 
como sofrimento imposto às pessoas de modo intencional. 
 
 
 
 
 
 
 
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Essas teorias críticas surgidas no campo da criminologia, ainda que tenham representado 
importante avanço na discussão acerca dos sistemas penais, estiveram nos últimos anos 
circunscritas ao campo acadêmico e pouco poder de influência tiveram na alteração ou 
reformulação de leis penais nos últimos anos no Brasil. O único movimento que no Brasil 
ganhou notoriedade nos anos 90 por propor reavaliar a atuação do sistema jurídico foi o 
Movimento do Direito Alternativo. Este movimento propõe uma ruptura com o direito 
liberal/positivista que estrutura o “direito burguês” e mantém o esquema de dominação 
na sociedade capitalista. 
 
O que se pode notar no caso brasileiro, é que os argumentos na defesa de ideais de 
despenalização ou deslegitimação do direito penal assumidos por pesquisadores, juristas 
ou intelectuais são desconstruídos sob a tese da alta criminalidade brasileira. Frases do 
tipo “quem defende isso, nunca passou por um assalto!” ou “depois que você passar por 
isso você vai defender a pena de morte!” pode ser facilmente ouvida; pois esse é o tipo 
de discurso que constrói o medo e se confronta com todas as propostas 
descriminalizadoras e despenalizadoras que nos últimos anos foram produzidas, mas que 
surtiram pouco efeito na discussão e na produção da legislação penal brasileira. 
 
A importante contribuição das pesquisas nas ciências sociais de Cohen, Sutherland e 
Becker se reproduziram no Brasil em muitas outras pesquisas e trabalhos reveladores 
das formas criminalizadoras e seletivas que opera o sistema penal brasileiro (polícia, 
tribunais e cárceres), que atua na verdade sob