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<p>Unidade 01</p><p>A reforma</p><p>psiquiátrica</p><p>no Brasil</p><p>Mariana Martins Garcia</p><p>Saúde Mental</p><p>e Assistência</p><p>Farmacêutica</p><p>Diretor Executivo</p><p>DAVID LIRA STEPHEN BARROS</p><p>Diretora Editorial</p><p>ANDRÉA CÉSAR PEDROSA</p><p>Projeto Gráfico</p><p>MANUELA CÉSAR ARRUDA</p><p>Autora</p><p>MARIANA MARTINS GARCIA</p><p>Desenvolvedor</p><p>CAIO BENTO GOMES DOS SANTOS</p><p>MARIANA MARTINS GARCIA</p><p>Olá. Meu nome é Mariana Martins Garcia. Sou formada em</p><p>Farmácia pela Universidade Federal do Paraná, mestre em Ciências</p><p>Farmacêuticas pela mesma instituição. Já atuei em farmácia de</p><p>dispensação, farmácia hospitalar, prática clínica e manipulação de</p><p>nutrição parenteral e quimioterapia, além de ser palestrante e professora.</p><p>Passei por empresas com a Droga Raia, Hospital da Policia Militar,</p><p>Stiefel, CEQNEP, Equilibra. Atualmente sou professora conteudista para</p><p>instituições como a São Braz e a própria Telesapiens. Sou apaixonada</p><p>pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que</p><p>estão iniciando em suas profissões. Por isso fui convidada pela Editora</p><p>Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou</p><p>muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho.</p><p>Conte comigo!</p><p>A AUTORA</p><p>Olá. Meu nome é Manuela César de Arruda. Sou a responsável pelo</p><p>projeto gráfico de seu material. Esses ícones irão aparecer em sua trilha</p><p>de aprendizagem toda vez que:</p><p>ICONOGRAFIA</p><p>INTRODUÇÃO:</p><p>para o início do desen-</p><p>volvimento de uma</p><p>nova competência;</p><p>DEFINIÇÃO:</p><p>houver necessidade</p><p>de se apresentar</p><p>um novo conceito;</p><p>NOTA:</p><p>quando forem</p><p>necessários obser-</p><p>vações ou comple-</p><p>mentações para o</p><p>seu conhecimento;</p><p>IMPORTANTE:</p><p>as observações es-</p><p>critas tiveram que ser</p><p>priorizadas para você;</p><p>EXPLICANDO</p><p>MELHOR:</p><p>algo precisa ser</p><p>melhor explicado</p><p>ou detalhado;</p><p>VOCÊ SABIA?</p><p>curiosidades e inda-</p><p>gações lúdicas sobre</p><p>o tema em estudo, se</p><p>forem necessárias;</p><p>SAIBA MAIS:</p><p>textos, referências</p><p>bibliográficas e links</p><p>para aprofundamento</p><p>do seu conhecimento;</p><p>REFLITA:</p><p>se houver a neces-</p><p>sidade de chamar a</p><p>atenção sobre algo</p><p>a ser refletido ou</p><p>discutido sobre;</p><p>ACESSE:</p><p>se for preciso aces-</p><p>sar um ou mais sites</p><p>para fazer download,</p><p>assistir vídeos, ler</p><p>textos, ouvir podcast;</p><p>RESUMINDO:</p><p>quando for preciso</p><p>se fazer um resumo</p><p>acumulativo das</p><p>últimas abordagens;</p><p>ATIVIDADES:</p><p>quando alguma ativi-</p><p>dade de autoaprendi-</p><p>zagem for aplicada;</p><p>TESTANDO:</p><p>quando o desen-</p><p>volvimento de uma</p><p>competência for</p><p>concluído e questões</p><p>forem explicadas;</p><p>SUMÁRIO</p><p>Conceito histórico sobre a reforma psiquiátrica</p><p>brasileira.................................................................11</p><p>Os transtornos mentais no passado....................11</p><p>Evolução da assistência à saúde mental........................15</p><p>Assistência à saúde mental no Brasil............................18</p><p>Procedimentos durante a antiguidade.......................22</p><p>As práticas psiquiátricas.....................................................22</p><p>Afogamento........................................................23</p><p>Cirurgia ginecológica..............................................23</p><p>Hidroterapia........................................................23</p><p>Berço de Utica.......................................................23</p><p>Cadeira giratória.....................................................24</p><p>Lobotomia........................................................24</p><p>Choque cardiazólico...............................................25</p><p>Eletroconvulsoterapia........................................................26</p><p>Insulinoterapia...................................................................26</p><p>Cubículo ou cela forte.......................................................27</p><p>Lençol de contenção e camisa de força...............................27</p><p>Praxiterapia.......................................................................28</p><p>Medicamentos....................................................................29</p><p>A legislação referente à reforma psiquiátrica brasileira...30</p><p>Era da institucionalização..................................................30</p><p>Processo de desinstitucionalização.....................................31</p><p>Portaria SAS/MS n° 224, de 29 de janeiro de 1992..32</p><p>Portaria MS/GM n.º 106, de 11/2/2000...............33</p><p>Lei Antimanicomial n.º 10.216, de 6 de abril de 2001..34</p><p>Portaria n 336/GM, de 19 de fevereiro de 2002..........35</p><p>Últimas legislações e o retrocesso da Luta antimanicomial..36</p><p>Decreto 7.179 20 de maio de 2010..........................36</p><p>Portaria 3.588/2017................................................36</p><p>Nota Técnica do Ministério da Saúde n. 11/2019...........37</p><p>Lei nº 13.840, de 5 de junho de 2019........................37</p><p>Analise dos impactos e debate sobre a reforma psiquiátrica</p><p>brasileira........................................................................38</p><p>Início do movimento...........................................................39</p><p>Movimento antimanicomial................................................39</p><p>Assistência à saúde mental nos últimos anos (2010-2019).....42</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica8</p><p>UNIDADE</p><p>01</p><p>A REFORMA PSIQUIÁTRICA NO BRASIL</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 9</p><p>Nessa aula vamos conhecer a história dos tratamentos para saúde</p><p>mental, pelos autores antigos é chama de loucura, pelos médicos atuais</p><p>chamada de transtornos mentais.</p><p>Inicialmente era vista, como todas as doenças, como manifestação</p><p>de maus espíritos sendo tratada como um mau adquirido ou como</p><p>castigo pelos pecados. Por isso, as pessoas eram tratadas com práticas</p><p>de exorcismos que, muitas vezes, levavam a morte do indivíduo.</p><p>Quando o foco deixa de ser religioso, a sociedade passa a acreditar</p><p>que esses indivíduos são um problema e devem ser excluídos do convívio,</p><p>por isso, a criação de manicômios para “limpar” a sociedade desse mal.</p><p>Inicia, então, a hospicialização dos pacientes e profissionais da</p><p>saúde começam a buscar tratamentos para curar essa doença. Por muitos</p><p>anos foram utilizados tratamentos físicos que, hoje, são considerados</p><p>desumanos e, por isso, os próprios profissionais da saúde começam</p><p>um movimento para humanização das condutas e começam a luta para</p><p>humanizar os tratamentos e minimizar as internações, deixando como</p><p>última opção e que seja feita pelo menor tempo possível.</p><p>Esses movimentos tiveram inúmeras conquistas em relação às</p><p>mudanças na assistência à saúde mental por meio de legislações para a</p><p>regulamentação desses procedimentos. Porém, nos últimos anos, novas</p><p>legislações são consideradas um retrocesso das conquistas. Ao longo</p><p>desta unidade letiva você vai mergulhar neste universo!</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica10</p><p>Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso propósito é auxiliar</p><p>você no desenvolvimento das seguintes objetivos de aprendizagem até o</p><p>término desta etapa de estudos:</p><p>1. Entender a evolução histórica da psiquiatria no Brasil.</p><p>2. Conhecer o funcionamento da Estratégia de Saúde da Família e da</p><p>atenção psicossocial.</p><p>3. Compreender as abordagens terapêuticas na atenção</p><p>psicossocial.</p><p>4. Entender o funcionamento do Centro e da Rede de Atenção</p><p>Psicossocial.</p><p>Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao</p><p>conhecimento? Ao trabalho!</p><p>OBJETIVOS</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 11</p><p>Conceito histórico sobre a reforma</p><p>psiquiátrica brasileira</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Ao final dessa aula você entenderá a evolução da</p><p>assistência à saúde mental no mundo e no Brasil. Vamos</p><p>conhecer os procedimentos que eram utilizados no</p><p>passado, majoritariamente relacionados à exclusão social,</p><p>como acontece, por meio de movimentações sociais e dos</p><p>próprios profissionais da saúde, a quebra de paradigmas</p><p>relacionados ao transtornos mentais e as mudanças nos</p><p>tratamentos utilizados. E então? Motivado para aprofundar</p><p>seus conhecimentos? Então, vamos lá!</p><p>DEFINIÇÃO</p><p>Quando você for aprofundar seus conhecimentos em</p><p>relação à história, você vai ver muitos textos sobre os</p><p>transtornos mentais.</p><p>brasileira</p><p>Início do movimento</p><p>Movimento antimanicomial</p><p>Assistência à saúde mental nos últimos anos (2010-2019)</p><p>Esses textos têm características</p><p>filosóficas e chamam esse transtorno de loucura, por isso,</p><p>vamos usar esse termo no decorrer do texto.</p><p>Os transtornos mentais no passado</p><p>Os primeiros relatos sobre problemas psicossociais são</p><p>encontrados na antiguidade grega e romana. Nessa época tanto os</p><p>transtornos físicos como os mentais eram tratados como manifestações</p><p>sobrenaturais, tendo forte influência religiosa.</p><p>Essa influência religiosa se manteve forte durante a</p><p>Inquisição, nessa época, a loucura era entendida como</p><p>manifestações demoníacas e satânicas, eram considerados</p><p>uma expressão de bruxaria. Devido à alta influência da</p><p>Igreja, os indivíduos que não concordavam com a ideologia</p><p>cristã, chamados de hereges, eram considerados loucos,</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica12</p><p>bruxos ou feiticeiros, sendo todos perseguidos pela</p><p>própria Igreja. (MILLANI & VALENTE, 2008; FIQUEIREDO,</p><p>DELEVATI, & TAVARES, 2014; TILIO, 2007).</p><p>Percebam que, pessoas com transtornos mentais não recebiam</p><p>tratamento, mas eram perseguidas como se fizessem parte de seitas e,</p><p>muitas vezes, mortas da mesma forma que as pessoas que iam contra a</p><p>ideologia cristã da época.</p><p>Nos transtornos mentais associados a uma possessão demoníaca,</p><p>utilizavam-se técnicas de exorcismo para livrar o indivíduo do obsessor.</p><p>Dentre elas estava a trepanação, que consistia em fazer uma perfuração</p><p>no crânio com uma pedra pontiaguda abrindo um buraco no crânio por</p><p>onde os demônios abandonariam o corpo. A figura 1, quadro retratado</p><p>por Hieronymus Bosh, chamado de “A extração da pedra da loucura”</p><p>mostra o procedimento de trepanação. Vale ressaltar que nessa época</p><p>não existia anestesia para nenhum tipo de procedimento.</p><p>Figura 1: “A extração da pedra da loucura”, por Hieronymus Bosh.</p><p>Fonte: Wikimedia Commons</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 13</p><p>Com o declínio da supremacia da Igreja, esse enfoque diabólico</p><p>se extingue prevalecendo a teoria patológica na qual o delírio era marca</p><p>da insanidade, influenciada por Hipócrates.</p><p>No período Renascentista, existiam os Nau dos Loucos, eram</p><p>embarcações que os indivíduos eram colocados e lançados ao mar,</p><p>sendo considerado como um ritual para libertar a sociedade dos</p><p>“doidos”, evitando que ficassem vagando pelas cidades. Dessa forma,</p><p>tornavam-se prisioneiros de sua própria partida tendo como sua prisão</p><p>seu próprio mundo.</p><p>A loucura se insere no universo moral no século XV, sendo muitas</p><p>vezes representadas em obras de arte e na literatura. Porém, devido</p><p>às mudanças que ocorrem com o crescimento das cidades, no século</p><p>XVII com a industrialização e o poder das relações políticas volta-se ao</p><p>modelo de exclusão do indivíduo.</p><p>Dessa forma são criados, primeiramente na Europa,</p><p>estabelecimentos para a internação onde se aprisionavam não apenas</p><p>pessoas com transtornos mentais, mas também pessoas com de</p><p>doenças venéreas, libertinos, bandidos, enfim, todos aqueles que eram</p><p>considerados fonte de desorganização moral da sociedade. Assim,</p><p>foi fundado em 1656 o Hospital Geral, em Paris, não tendo caráter de</p><p>tratamento médico, mas sim, uma estrutura semijurídica. Em 1676 são</p><p>criadas instituições por toda a França a partir de uma ordem real, dessa</p><p>forma cada cidade tinha seu Hospital Geral, esse período foi conhecido</p><p>como a Grande Internação.</p><p>Os tratamentos começam para os indivíduos que se submetiam</p><p>ao tratamento no século XVIII, no chamado Hotel-Dieu. Nessa instituição</p><p>os indivíduos eram separados por sexo sem condições adequadas</p><p>e sem assistência médica e, os tratamentos eram banhos, sangrias e</p><p>purgações para buscar a cura. (MILLANI & VALENTE, 2008; FIQUEIREDO,</p><p>DELEVATI, & TAVARES, 2014; TILIO, 2007).</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica14</p><p>Figura 2: Hotel-Dieu, França</p><p>Fonte: Wikimedia Commons</p><p>Um dos hospitais mais antigos da Europa o Hotel Dieu, é datado de</p><p>cerca de 651 d.C. Era uma instituição polivalente que atendia os pobres</p><p>e doentes, oferecendo comida e abrigo, bem como cuidados médicos.</p><p>Foi danificado pelo fogo em 1772 e não totalmente reconstruído até o</p><p>reinado de Napoleão. As camas eram colocadas em todos os quartos</p><p>disponíveis e às vezes havia até seis pacientes em uma cama de solteiro.</p><p>Tornou-se o hospital mais insalubre e desconfortável da França, talvez</p><p>até da Europa. O número de leitos no Hotel Dieu permaneceu inalterado</p><p>até 1400, mas, com a criação de novos hospitais, começou a receber</p><p>menos pacientes, de modo que todos agora tinham sua própria cama.</p><p>Hoje, continua sendo o primeiro centro de atendimento a casos de</p><p>emergência em Paris, com aproximadamente 350 leitos. O Hotel Dieu</p><p>era popular entre os médicos, pois admitia casos interessantes. Embora</p><p>transformada em uma instituição médica científica, sua natureza religiosa</p><p>original é mantida viva em seu nome, a "Hospedaria de Deus"</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 15</p><p>Evolução da assistência à saúde mental</p><p>A tentativa de tratamento humanizado acontece com a fundação</p><p>de asilos cujo objetivo era de reconstruir uma de família fictícia para os</p><p>internos, porém ainda com característica de controle social e moral.</p><p>Dentre os estudiosos da época podemos destacar Phillippe</p><p>Pinel, pela característica humanitária de seu tratamento baseado em</p><p>estudos e observações a partir do comportamento. Por meio de seus</p><p>estudos, Pinel constatou que os transtornos mentais eram resultado de</p><p>tensões sociais e psicológicas excessivas, podendo ter como causa a</p><p>hereditariedade ou, ainda, acidentes físicos extinguindo a crença de</p><p>possessão demoníaca. Dessa forma ele rompe paradigmas descrevendo</p><p>a existência de vários tipos de psicose e seus sintomas e, inclui o contato</p><p>próximo e amigável ao indivíduo como parte da terapia.</p><p>Os médicos que se dedicavam a conhecer as doenças mentais e</p><p>acompanhar esses pacientes eram chamados de alienistas.</p><p>Figura 3: Phillippe Pinel – o alienista</p><p>Fonte: Wikimedia Commons</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica16</p><p>Pinel separava os indivíduos em alas de acordo com o</p><p>perfil do transtorno mental, começando a reconhecer,</p><p>nomear e estudar essas doenças. Esse foi o começo de</p><p>uma mudança e evolução da medicina em relação a esses</p><p>transtornos. (MILLANI & VALENTE, 2008; FIQUEIREDO,</p><p>DELEVATI, & TAVARES, 2014; TILIO, 2007).]]</p><p>Apesar da rápida disseminação da doutrina de Pinel, ela foi</p><p>ofuscada por tratamentos inadequados em manicômios, deixando de</p><p>ser recurso terapêutico e volta a ser instrumento de segregação social.</p><p>Dessa forma, mesmo a loucura passando ao domínio da ciência</p><p>o tratamento não ficou mais humanizado. Pois, segundo estudiosos</p><p>da época, o que diferencia o ser humano dos animais é a razão, por</p><p>isso, esses indivíduos eram considerados animais e eram tratados com</p><p>ameaças, algemas, bofetadas e muita disciplina. Dessa forma, o medo</p><p>desses castigos funcionava como mecanismos de controle.</p><p>Essas instituições eram chamadas de manicômios, asilos ou</p><p>hospitais, mas devido seus tratamentos eram ambientes de verdadeiro</p><p>terror, pois além dos tratamentos, considerados hoje desumanos, eram</p><p>ambientes extremamente precários. Com a justificativa de estarem</p><p>fazendo uma limpeza da sociedade, por retirarem dela indivíduos</p><p>considerados desprezíveis e desajustados com comportamentos</p><p>indesejáveis. Esses pacientes eram infantilizados, tendo como castigo</p><p>viver com sua culpa e excluídos da sociedade.</p><p>Dentre os tratamentos estavam confinamento em salas escuras</p><p>acorrentados injeção de metrazol para provocar convulsão, esterilização,</p><p>nas mulheres retirada de útero castração, privação da alimentação,</p><p>violência mental e física, indução de coma provocado por insulina,</p><p>cadeira giratória, eletrochoque, berço de Utica (você verá do que se</p><p>trata no subitem 2.1.4), hibernação, uso de camisa de força e até mesmo</p><p>assassinato pelos próprios funcionários das instituições.</p><p>“Apesar da brutalidade, novas instituições eram abertas e</p><p>as que já existiam eram superlotadas, piorando cada</p><p>vez</p><p>mais as condições de saúde do indivíduo” Isso causava</p><p>certo alívio às famílias que não teriam mais que lidar com</p><p>esses indivíduos, pois os abandonavam nessas instituições</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 17</p><p>deixando-os esquecidos até a morte. (MILLANI & VALENTE,</p><p>2008; FIQUEIREDO, DELEVATI, & TAVARES, 2014; TILIO,</p><p>2007).</p><p>Em meados do século XIX, o médico Jean-Martin Charcot assume</p><p>a direção do hospital La Salpêtrière tornando-o um cetro de estudos</p><p>psiquiátrico. O hospital recebia estudantes de todo o mundo para assistir</p><p>suas aulas sobre doenças mentais e para assistir seus experimentos.</p><p>Dentre esses estudantes estava Sigmund Freud, especializado em</p><p>neurologia, conheceu a terapia de hipnose com Charcot e a partir desse</p><p>momento trabalha na evolução da psicanálise.</p><p>A partir do século XX começou-se a busca por entender a fala da</p><p>loucura, a partir de construções teóricas complexas, o diálogo entre o</p><p>indivíduo transtornado e o indivíduo pesquisador, desde que esse fosse</p><p>capaz de desvendar e interpretar o mistério da fala do louco, por meio</p><p>de uma linguagem especializada.</p><p>Nesse momento as escolas se dividem em duas vertentes,</p><p>a psicanalista e a organicista, sendo a primeira a que entendendo os</p><p>transtornos metais como psicológicos enquanto a segunda relacionada</p><p>à fisiologia e a anatomia.</p><p>A psicanálise inicia primeiramente com a hipnose, mas,</p><p>posteriormente, Freud percebe que a não utilização dessa técnica</p><p>permitindo que o paciente falasse livremente sobre o que vinha à</p><p>memória, chamado de associação livre, traria a reconstrução do trauma</p><p>original e com acesso ao inconsciente, criando o conceito de cura pela</p><p>fala.</p><p>Em contrapartida, estudiosos organicistas buscam</p><p>medicamentos capazes de atuar no tratamento dos</p><p>transtornos mentais. Na década de 50 o primeiro</p><p>medicamento conhecido e utilizado foi a clorpromazina</p><p>que acalmava os pacientes psicóticos. Posteriormente,</p><p>outros medicamentos antidepressivos e benzodiazepínicos</p><p>começaram a ser utilizados e a eficácia comprovada leva a</p><p>uma mudança na psiquiatria. (MILLANI & VALENTE, 2008;</p><p>FIQUEIREDO, DELEVATI, & TAVARES, 2014; TILIO, 2007).</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica18</p><p>Assistência à saúde mental no Brasil</p><p>O primeiro hospital psiquiátrico fundado no Brasil foi o Hospício</p><p>de Pedro II, inaugurado em 1852 na cidade do Rio de Janeiro. Em seguida</p><p>no número de instituições cresce, mas acaba saindo do planejado e as</p><p>instituições se tornam superlotadas e insalubres.</p><p>Sua estrutura grandiosa representa a fortaleza simbólica para</p><p>enfrentar as forças desagregadoras do jogo político do início da</p><p>independência do Brasil.</p><p>O Brasil se torna o primeiro país da América Latina a fundar uma</p><p>instituição com base no alienismo, nome dado ao estudo dos transtornos</p><p>mentais na França.</p><p>Esse hospício demonstra de forma clara para o mundo que no</p><p>Brasil começava a cultivar a ciência. Em 1838, na França, é promulgada</p><p>uma Lei que coloca hospícios e asilos na posição de vanguarda da</p><p>medicina hospitalar, dessa forma, exibir um hospício de tamanha</p><p>grandeza demonstrava a modernidade científica e tecnológica de</p><p>uma nação. Além disso, na época, eram valorizadas as causas morais</p><p>da loucura, sendo considerada que a própria civilização era fonte do</p><p>adoecimento mental. Dessa forma, o Hospício de Pedro II anuncia a</p><p>participação do Brasil no mundo civilizado da época.</p><p>Posteriormente, foi renomeado como Hospício Nacional</p><p>dos Alienados, quando se desvencilha da administração</p><p>da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e fica</p><p>subordinado a administração pública. (RAMOS & TEIXEIRA,</p><p>2012)</p><p>O Hospício Nacional dos Alienados passou pela administração</p><p>de vários diretores, dentre eles podemos destacar Juliano Moreira,</p><p>psiquiatra baiano, teve seu foco no combate intelectual ao racismo</p><p>científico, contestando a ideia da época que as doenças mentais</p><p>estavam relacionadas à origem racial e à miscigenação. Acreditava que</p><p>os transtornos mentais tinham origens em fatores físicos e psicossociais</p><p>relacionadas à dignidade humana, como condições precárias de higiene</p><p>e dificuldade de acesso à educação.</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 19</p><p>Figura 4J :uliano Moreira</p><p>Fonte: Wikimedia Commons</p><p>Esse estudioso, conhecido pela abordagem humanitária, exclui o</p><p>aprisionamento dos indivíduos e inclui nos hospitais laboratórios e novas</p><p>técnicas de diagnóstico e tratamento, inserindo a psicanálise de Freud</p><p>aos estudos de medicina no Brasil. Moreira fundou o primeiro Manicômio</p><p>Judiciário do Brasil em 1911, direcionado ao tratamento de indivíduos que</p><p>cometeram crimes após surtos psicóticos. (ODA & DALGALARRONDO, 2000)</p><p>Você já ouviu a expressão “ficou pinel!”. Em geral, usamos essa</p><p>frase em tom de brincadeira, mas algumas vezes utilizamos para dizer</p><p>que a pessoa está agindo como louca. Consegue imaginar por que surgiu</p><p>esse termo? Se respondeu por causa de Phillipe Pinel, você acertou!</p><p>O Hospício de Pedro II foi batizado com outros nomes no decorrer</p><p>da história e, em 1965 passa a se chamar, pela segunda vez, Instituto</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica20</p><p>Philippe Pinel, em homenagem ao psiquiatra. Por ser um sobrenome</p><p>curto e diferente rapidamente entra na lista de expressões populares]]</p><p>Há o surgimento de outros hospícios e em todos as formas de</p><p>tratamento iniciavam com a reclusão, entendendo a necessidade de</p><p>retirar da sociedade esses indivíduos. A medicalização fazia parte</p><p>importante do tratamento dessas pessoas, porém, além de haver</p><p>excesso de medicação, há relatos de tratamentos como o eletrochoque,</p><p>hidroterapia e até a lobotomia, hoje considerados desumanos.</p><p>No Brasil, também acontece a internação não apenas de</p><p>indivíduos com transtornos mentais, mas indigentes, mães</p><p>solteiras e até criminosos, ou seja, indivíduos que eram</p><p>caracterizados como problema para a sociedade como</p><p>aconteceu nos países da Europa. (FIQUEIREDO, DELEVATI,</p><p>& TAVARES, 2014; TILIO, 2007)</p><p>Outra personagem marcante na história da assistência à saúde</p><p>mental do Brasil é a médica Nise da Silveira. A médica tem uma história</p><p>relacionada à luta social e feminista chegando até a ser presa na ditadura</p><p>Vargas. Mas é em 1944 que assume seu cargo no Centro Psiquiátrico em</p><p>Engenho de Dentro, onde se depara com tratamentos comuns como</p><p>eletrochoque, coma induzido por insulina, e a lobotomia, além das altas</p><p>doses de psicofármacos em todos os pacientes. A médica acreditava</p><p>que o tratamento medicamentoso deveria ser utilizado em surtos agudo</p><p>e discordava dos tratamentos físicos por consideram maus tratos.</p><p>Discordar dos tratamentos convencionais procurou por alternativas</p><p>restando o setor de terapia ocupacional. Buscou conhecimento nos</p><p>tratados convencionais europeus como psicanálise, filosofia, literatura,</p><p>artes plásticas e a terapia ocupacional além da psicologia analítica.</p><p>Encontrou fundamentos teóricos necessários para capacitar monitores</p><p>para o setor de terapia ocupacional, a qual cresceu rapidamente dentro</p><p>dessa instituição, e começou a ter atividades como costura, jardinagem,</p><p>teatro, sapataria, salão de beleza, carpintaria e atividades expressivas</p><p>como modelagem em argila, pintura etc. A partir desse crescimento,</p><p>foi possível organizar mostras dos trabalhos feitos pelos pacientes em</p><p>todo o país e no exterior. (CARVALHO & AMPARO, 2006; FIQUEIREDO,</p><p>DELEVATI, & TAVARES, 2014; TILIO, 2007)</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 21</p><p>Denúncias contra a violência em hospícios e as péssimas</p><p>condições de trabalhos nas instituições psiquiátricas no final da década</p><p>de 1970, inicia o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental</p><p>(MTSM). Isso para combater as internações que eram realizadas de forma</p><p>arbitrária e automática privando o paciente da liberdade e mantendo-o</p><p>em cativeiro, como um sequestro autorizado. Com as reivindicações,</p><p>inicia-se a multiprofissionalidade nas instituições com a inserção da</p><p>psicologia na saúde</p><p>pública, mas ainda incapaz de iniciar o processo de</p><p>desospitalização.</p><p>As propostas de reforma chegam ao governo levando a criação</p><p>de Diretrizes para a área da Saúde Mental no final da década de 1980,</p><p>defendendo o limite de internação, reintegração familiar, tratamento</p><p>fora do hospital e pesquisas epidemiológicas.</p><p>Acontecem grandes eventos para discussão do tema, mas o</p><p>Movimento da Luta Antimanicomial no Brasil surge de forma clara, em</p><p>1987, no I Encontro Nacional de Trabalhadores da Saúde Mental com lema</p><p>“por uma sociedade sem manicômios” com o intuito de reestabelecer a</p><p>relação do indivíduo com o próprio corpo, direito e capacidade do uso</p><p>da palavra, entre outros, para a reinserção do indivíduo à sociedade.</p><p>Nessa época, o Brasil está em mudanças com movimentos sociais</p><p>que acontecem em várias áreas e em especial da saúde por meio de</p><p>conferencias. Na área da Saúde Mental, dentre as discussões e novas</p><p>experiências um dos pontos defendidos é o trabalho interdisciplinar com</p><p>a valorização desses profissionais.</p><p>No final da década de 80, surgem serviços como Centros</p><p>de Atenção Psicossocial (CAPS) e os Núcleos de Atenção</p><p>Psicossocial (NASP) proporcionando consultas médicas,</p><p>atendimentos com psicólogos, serviço social, terapia</p><p>ocupacional entre outros, sendo o início da Reforma</p><p>Psiquiátrica Brasileira, mas esse assunto aprofundaremos</p><p>em outra aula. (CARVALHO & AMPARO, 2006; FIQUEIREDO,</p><p>DELEVATI, & TAVARES, 2014; TILIO, 2007)</p><p>Vimos a evolução dos tratamentos psiquiátricos no mundo e no</p><p>Brasil. Com a evolução da própria humanidade os tratamentos da época</p><p>são considerados desumanos e, por isso, os movimentos dos próprios</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica22</p><p>profissionais da saúde e da sociedade foram de extrema importância</p><p>para a mudança, não apenas dos tratamentos mas também na visão</p><p>da sociedade em relação ao indivíduo com transtornos mentais. E</p><p>então? Qual sua impressão sobre as formas de tratamento nos séculos</p><p>passados? Consegue perceber a importância dessa evolução?</p><p>As práticas psiquiátricas</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Vimos a história da psiquiatria no Brasil e no mundo, agora</p><p>vamos conhecer a evolução das práticas psiquiátricas,</p><p>desde as primeiras, hoje consideradas desumanas, até as</p><p>atuais e como chegamos até aqui. Motivado para mais essa</p><p>aventura? Então, vamos lá!</p><p>Procedimentos durante a antiguidade</p><p>Como já vimos, na antiguidade as doenças físicas e as doenças</p><p>mentais eram vistas como atuação de forças externas, geralmente</p><p>demônios, no indivíduo e, por isso, eram tratadas pela Igreja com</p><p>métodos de exorcismo e, quando não curadas dessa forma, a morte era</p><p>a solução.</p><p>Com a instituição dos hospícios o foco do tratamento</p><p>não era a pessoa, mas sim a doença. Dessa forma, as</p><p>instituições tinham por responsabilidade eliminar os</p><p>sintomas de desordem mental. Para isso, os tratamentos</p><p>utilizados iniciavam com a internação e exclusão</p><p>da sociedade. Dentro das instituições utilizavam-se</p><p>métodos como hidroterapia, administração excessiva de</p><p>medicamentos, até aplicação de estímulos elétricos ou o</p><p>uso de procedimentos cirúrgicos. Vamos conhecer alguns</p><p>desses tratamentos. (GUIMARÃES & al, 2013; BORENSTEIN,</p><p>2007)</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 23</p><p>Afogamento</p><p>O paciente era colocado em um caixão com furos e</p><p>submerso em água, esperava-se todo o ar sair de dentro</p><p>do caixão, observando quando não apareciam mais bolhas,</p><p>depois o paciente era retirado e reanimado. Acreditava-se</p><p>que, quando as funções vitais cessavam, a reanimação</p><p>possibilitava que o paciente voltasse a vida de forma</p><p>mais adequada e ajustada perante a moral da sociedade.</p><p>(GUIMARÃES & al, 2013; BORENSTEIN, 2007)</p><p>Cirurgia ginecológica</p><p>Por acreditar que clitóris e útero estavam relacionados</p><p>com a histeria feminina, eram realizadas amputação</p><p>desses órgãos como tratamento. (GUIMARÃES & al, 2013;</p><p>BORENSTEIN, 2007)</p><p>Hidroterapia</p><p>Para os psiquiatras da época o banho prolongado induziria</p><p>à fadiga psicológica e estimularia secreções dos rins e</p><p>da pele podendo reestruturar as funções cerebrais. O</p><p>tratamento consistia em enrolar o paciente em uma rede</p><p>e mantê-lo em uma banheira apenas com a cabeça de</p><p>fora e coberto por uma lona, podendo permanecer por</p><p>horas ou até mesmo dias em água gelada e fervente</p><p>alternadamente. (GUIMARÃES & al, 2013; BORENSTEIN,</p><p>2007)</p><p>Berço de Utica</p><p>Na cidade de Utica, no estado de Nova York, os pacientes</p><p>eram forçados a ficar em um berço de madeira ou metal</p><p>fechado de todos os lados, sem possibilidade de se</p><p>movimentar, isso para evitar a interação com outros</p><p>indivíduos. Era usado apenas em pacientes agressivos.</p><p>(GUIMARÃES & al, 2013; BORENSTEIN, 2007)</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica24</p><p>Cadeira giratória</p><p>Na época era considerado um tratamento humanizado</p><p>e por isso, esse tratamento era sempre complementado</p><p>com as outras terapias como hidroterapia e a lobotomia</p><p>frontal, por exemplo. A cadeira era girada até o paciente</p><p>desmaiar, pois acreditava-se que ao rodar poderia curar a</p><p>esquizofrenia por “embaralhar” o cérebro. (GUIMARÃES &</p><p>al, 2013; BORENSTEIN, 2007)</p><p>Lobotomia</p><p>Já vimos no tópico anterior sobre a trepanação na antiguidade para</p><p>a “retirada dos maus espíritos” sendo um método de exorcismo, porém</p><p>esse procedimento perdurou por anos nas instituições. Foi aprimorado</p><p>e se torna um procedimento cirúrgico chamado de Lobotomia. O</p><p>procedimento consiste em fazer inicialmente uma abertura na parte</p><p>frontal do crânio e posteriormente utilizando-se a cavidade ocular</p><p>para chegar até os lobos frontais utilizando o orbitoclast (instrumento</p><p>semelhante ao picador de gelo) e um martelo.</p><p>Figura 5: Procedimento de lobotomia</p><p>Fonte: Wikimedia Commons</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 25</p><p>Nesse procedimento se cortava a conexão dos lobos frontal do</p><p>restante do cérebro. Apesar da maioria dos procedimentos terminarem</p><p>em morte ou em estado vegetativo, os sobreviventes se tornavam</p><p>pessoas apáticas devido desligamento da resposta cerebral das</p><p>emoções e adquiriam problemas motores.</p><p>O estudo desse procedimento gerou, na época, um prêmio</p><p>Nobel de medicina para o médico português António Egas</p><p>Moniz, por isso, essa prática perdurou como tratamento</p><p>por séculos. (FIQUEIREDO, DELEVATI, & TAVARES, 2014;</p><p>TILIO, 2007).</p><p>Choque cardiazólico</p><p>Utilizava-se o medicamento cardiozol via endovenoso</p><p>levando o paciente a convulsão de forma rápida e violeta a</p><p>ponto de causar fraturas graves, entre elas fratura espinhal.</p><p>Por esse motivo foi utilizada por pouco tempos, sendo</p><p>substituída pela eletroconvulsoterapia. (GUIMARÃES & al,</p><p>2013; BORENSTEIN, 2007)</p><p>SAIBA MAIS</p><p>O uso de convulsões para o tratamento da loucura iniciou</p><p>com Paracelsus no século XVI, o qual usava cânfora via oral.</p><p>Essa prática foi esquecida por muitos anos sendo retomada</p><p>em 1934 pelo neuropsiquiatra húngaro Ladislas von</p><p>Meduna que utilizou a cânfora, inicialmente intramuscular</p><p>e posteriormente passou para uma substância menos</p><p>tóxica, o metrazol, também conhecido como cardiazol,</p><p>intravenosa.</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica26</p><p>Eletroconvulsoterapia</p><p>Desde o início de sua utilização foi vista como eficaz para diminuir</p><p>a agitação e amenizar os sintomas psicóticos. Também chamada</p><p>de eletrochoque, a eletroconvulsoterapia (ECT) era utilizada para o</p><p>tratamento da esquizofrenia, consistindo na passagem de uma corrente</p><p>alternada através da caixa craniana do paciente provocando convulsões</p><p>imediatas. Durante a passagem da corrente elétrica há perda da</p><p>consciência e espasmos musculares generalizados, características</p><p>de uma crise convulsiva, posteriormente o sono de alguns minutos e,</p><p>em seguida, o paciente acorda espontaneamente de forma tranquila e</p><p>observa-se a saída do quadro psiquiátrico agudo, sem recordar o que</p><p>aconteceu.</p><p>Essa técnica era utilizada para conter o paciente e apagar suas</p><p>memórias sendo uma experiência traumatizante para os indivíduos, por</p><p>isso, em alguns casos,</p><p>era usada para castigar e controlar os internos da</p><p>instituição.</p><p>Com o início do uso de psicofármacos, o ECT teve um declínio</p><p>em seu uso, porém, nos últimos anos sua prática volta a ganhar</p><p>destaque para alguns tratamentos específicos, utilizando anestésicos,</p><p>consentimento do paciente ou do seu responsável. Esse procedimento</p><p>é normatizado pelo Conselho Federal de medicina com a Resolução n.</p><p>1.640/2002 e com estudos, como o realizado pelo Instituto de Psicologia</p><p>da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostrando ser um bom</p><p>método para a remissão de sintomas graves. (GUIMARÃES & al, 2013;</p><p>BORENSTEIN, 2007)</p><p>Insulinoterapia</p><p>A introdução da insulinoterapia acontece em 1933 pelo médico</p><p>polonês Manfred Sakel, o qual causa convulsão com uma dose excessiva</p><p>de insulina acidentalmente, porém percebe que era um tratamento</p><p>eficaz para pacientes com psicose e com esquizofrenia. Porém, entra</p><p>em desuso quando os estudos mostraram que não levava a cura dos</p><p>transtornos, apenas a melhora momentânea. (GUIMARÃES & al, 2013;</p><p>BORENSTEIN, 2007)</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 27</p><p>Figura 5: Paciente em choque insulínico</p><p>Fonte: Wikimedia Commons</p><p>Cubículo ou cela forte</p><p>Quando os pacientes se encontravam em quadros extremos de</p><p>agitação e agressividade eles eram levados para um quarto ou cela</p><p>individual muito pequeno com portas reforçadas e abertura para que</p><p>os profissionais pudessem observar o paciente, quando necessário</p><p>e entregar comida. No ambiente havia um lugar para que o indivíduo</p><p>fizesse suas necessidades fisiológicas. Não havia um tempo delimitado</p><p>podendo ser de poucas horas até dias e, em alguns casos, os</p><p>profissionais utilizavam como castigo aos pacientes. (GUIMARÃES & al,</p><p>2013; BORENSTEIN, 2007)</p><p>Lençol de contenção e camisa de força</p><p>Tanto o lençol de contenção quanto a camisa de força serviam</p><p>para conter pacientes agressivos, porém, havia risco de machucar o</p><p>paciente, no momento de colocar o lençol e, no caso da camisa, riscos</p><p>de queda do paciente. Introduzido nas instituições por Pinel, no século</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica28</p><p>XIX, para substituir algemas e celas fortes utilizadas em manicômios por</p><p>ser considerada uma contenção física menos dolorosa. (GUIMARÃES &</p><p>al, 2013; BORENSTEIN, 2007)</p><p>Outro método de contenção utilizado era a contenção no leito</p><p>com faixas de tecido de algodão que, em casos extremos, é utilizado até</p><p>hoje, porém, como proteção do próprio paciente e de outros indivíduos.</p><p>Contudo é necessário muito cuidado no momento da aplicação da</p><p>técnica para não machucar o paciente. A verificação dos sinais vitais</p><p>deve ser constantemente monitorada. A utilização deve acontecer</p><p>como último recurso, ou depois de esgotadas todas as alternativas para</p><p>acalmar o paciente.</p><p>Praxiterapia</p><p>É o desenvolvimento de tarefas laborais como trabalho agrícola</p><p>e criação de galináceos e suínos. Era utilizada como ocupação integral</p><p>do tempo dos pacientes como prática terapêutica. Essas práticas eram</p><p>desenvolvidas de acordo com condições físicas e aptidões de cada</p><p>indivíduo, sendo considerado o tratamento mais indicado nos casos de</p><p>esquizofrenia.</p><p>Dentre os métodos empregados, esse é o único feito de forma</p><p>coletiva, incentivando o convívio e o exercício físico dos pacientes sendo</p><p>supervisionados pelos profissionais da enfermagem.</p><p>Atividades em outras áreas também eram desempenhadas pelos</p><p>pacientes como a serraria, olaria, carpintaria, moinhos de trigo, engenho</p><p>de cana e produção de mandioca, destilaria, lavanderia, costura, cozinha</p><p>e limpeza.</p><p>Essas atividades tinham como objetivos:</p><p>• Reencaminhar o paciente para a via do trabalho;</p><p>• Sublimar seus impulsos (sob a ótica da psicanálise);</p><p>• Manter controle sobre os pacientes internados.</p><p>Outro recurso utilizado era a assistência hetero-familiar, a qual</p><p>consistia em encaminhar o paciente ao convívio com famílias de</p><p>empregados das colônias, dependendo do seu desempenho o indivíduo</p><p>poderia ser considerado apto para voltar ao convívio na sociedade</p><p>recebendo alta hospitalar.</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 29</p><p>Mas, essas atividades não eram apenas de trabalho, existiam</p><p>atividades de lazer e recreação, como assistir filmes leves</p><p>de agrado dos pacientes e dos funcionários, sessões</p><p>de teatro, pequenas festas religiosas e até atividades</p><p>esportivas. (GUIMARÃES & al, 2013; BORENSTEIN, 2007)</p><p>Medicamentos</p><p>O início da medicalização acontece nos anos 50, com</p><p>psicofármacos empregados no tratamento dos pacientes. Esses</p><p>medicamentos não substituíam os métodos tradicionais. Eram utilizados</p><p>como coadjuvantes. Os primeiros sintetizados foram:</p><p>• Cloropromazina (amplictil);</p><p>• Levopromazina (neozine);</p><p>• Haloperidol (haldol).</p><p>Por não existirem muitas opções e essas não serem tão eficazes</p><p>para minimizar sintomas, os psicofármacos eram utilizados de forma</p><p>excessiva principalmente para induzir o sono no paciente.</p><p>A clorpromazina foi a substancia estudada em 1952 pelos</p><p>pesquisadores Jean Delay e Pierre G. Deniker, que obtiveram sucesso</p><p>por reduzir a agitação psicomotora, alucinações e delírios.</p><p>Atualmente a psicoterapia e as atividades comunitárias</p><p>dão lugar à exclusão da sociedade herdada do modelo</p><p>manicomial. E são de extrema importância a avaliação</p><p>do uso racional e acompanhamento farmacoterapêutico</p><p>desses pacientes. Existem muitos psicofármacos que</p><p>podem ser utilizados para os vários transtornos mentais</p><p>diagnosticados nos dias de hoje, mas teremos uma aula</p><p>para falar mais sobre medicalização. (GUIMARÃES & al,</p><p>2013; BORENSTEIN, 2007)</p><p>Vimos até aqui as práticas utilizadas nos tratamentos de</p><p>transtornos mentais desde a antiguidade, com tratamentos meramente</p><p>físicos com pouco ou nenhum resultado até os tempos atuais onde</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica30</p><p>vemos a evolução dos tratamentos a ponto de ser possível a inclusão</p><p>desses indivíduos na sociedade.</p><p>A legislação referente à reforma</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Como podemos perceber nos tópicos anteriores, os</p><p>tratamentos existentes eram considerados eficazes, porém,</p><p>nos dias atuais, esses tratamentos e, principalmente, a</p><p>forma de utilizá-los são considerados brutais e desumanos.</p><p>Nesse tópico vamos conhecer as legislações relacionadas</p><p>à mudança na estrutura da atenção à saúde mental e toda</p><p>a reforma psiquiátrica que aconteceu no Brasil.</p><p>Era da institucionalização</p><p>Em 1840 o provedor da Santa Casa do Rio de Janeiro, José</p><p>Clemente Pereira, faz um pedido para criação de um hospital específico</p><p>para os pacientes com transtornos mentais, alegando que essa</p><p>separação facilitaria a cura desses pacientes. Por isso, em 1841, com o</p><p>Decreto nº 82, de 18 de julho de 1841, Dom Pedro II atende esse pedido</p><p>e inicia a construção do Hospício de Pedro II cuja inauguração acontece</p><p>em 8 de dezembro de 1852.</p><p>Já em 1890, o Decreto nº 206-A/1890 desvincula o Hospício</p><p>de Pedro II da Santa Casa, o qual passa a denomina-lo como Hospício</p><p>Nacional dos Alienados e o Decreto nº 791, de 27 de setembro de 1890</p><p>institui a escola profissional de enfermeiros dentro desse hospital.</p><p>Outra legislação de importância da época foi o Decreto nº</p><p>1.132, de 22 de dezembro de 1903, a qual descreve que</p><p>indivíduos, por moléstia mental, congênita ou adquirida,</p><p>que possa comprometer a ordem pública ou a segurança</p><p>das pessoas, deverão ser recolhidos a um estabelecimento</p><p>de alienados. Porém, só permaneceria no estabelecimento</p><p>por meio de comprovação de seu estado mental. Isso para</p><p>evitar que indivíduos considerados não aptos ao convívio</p><p>da sociedade como ladrões, indigentes, mães solteiras,</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 31</p><p>entre outros, fossem internados apenas para “limpar” a</p><p>sociedade. (SAIOL, 2016)</p><p>Esse decreto é revogado durante o governo provisório de</p><p>Getúlio Vargas pelo Decreto 24.559 de 1934, o qual “Dispõe</p><p>sobre a profilaxia mental, a assistência e a proteção à</p><p>pessoa e aos bens dos psicopatas, a fiscalização dos</p><p>serviços psiquiátricos</p><p>(...)” retirando o termo alienados,</p><p>sendo referido como psicopata, considerado um termo</p><p>mais amplo. Reafirma a incapacidade do doente mental</p><p>facilitando a internação por qualquer motivo que dificulte a</p><p>convivência do psicopata em sua residência, considerando</p><p>a internação como regra e o tratamento domiciliar uma</p><p>exceção. (SAIOL, 2016)</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Há outras legislações interessantes dessa época, e</p><p>principalmente as discussões entre os profissionais sobre</p><p>elas. Mas, nessa aula, vamos focar nas legislações mais</p><p>atualizadas e relacionadas à reforma psiquiátrica. Mesmo</p><p>assim, vale a busca por esse conhecimento!</p><p>Processo de desinstitucionalização</p><p>O questionamento sobre os procedimentos para tratamento dos</p><p>transtornos mentais começa na década de 60 no mundo e na década</p><p>de 70 no Brasil.</p><p>Ocorreram vários movimentos sociais para reduzir a exclusão</p><p>desse indivíduo da sociedade, buscando um modelo assistencial com</p><p>a promoção da saúde mental, não apenas o tratamento dos doentes.</p><p>Dentre os profissionais da saúde esse movimento antimanicomial</p><p>inicia com o Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM),</p><p>com o lema “Por uma sociedade sem manicômios" no qual se debate</p><p>sobre as péssimas condições do sistema de saúde e da legislação</p><p>vigente, propondo modificações.</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica32</p><p>Portaria SAS/MS n° 224, de 29 de janeiro de 1992</p><p>Essa portaria institui a criação dos Centros de Atenção Psicossocial</p><p>(CAPS) juntamente com os Núcleos de Assistência Psicossocial (NAPS).</p><p>Tem como princípios e diretrizes os mesmos do Sistema Único</p><p>de Saúde (SUS) principalmente a universalidade, a hierarquização, a</p><p>regionalização e integralidade das ações e serviços de saúde, garantindo</p><p>a continuidade da atenção em vários níveis. Utilizando a diversidade de</p><p>métodos e técnicas terapêuticas junto com uma equipe multiprofissional</p><p>juntamente com a participação social desde a formulação das políticas</p><p>de saúde mental até o controle de sua execução.</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Conforme descrito nessa legislação os NAPS/CAPS são</p><p>unidades de saúde locais/regionalizadas que contam</p><p>com uma população adscrita definida pelo nível local e</p><p>que oferecem atendimento de cuidados intermediários</p><p>entre o regime ambulatorial e a internação hospitalar, em</p><p>um ou dois turnos de 4 horas, por equipe multiprofissional.</p><p>Podem constituir-se também em porta de entrada da</p><p>rede de serviços para as ações relativas à saúde mental,</p><p>considerando sua característica de unidade de saúde</p><p>local e regionalizada. Atendem também a pacientes</p><p>referenciados de outros serviços de saúde, dos serviços de</p><p>urgência psiquiátrica ou egressos de internação hospitalar.</p><p>Deverão estar integrados a uma rede descentralizada e</p><p>hierarquizada de cuidados em saúde mental.</p><p>É possível observar nessa portaria as normas para o atendimento</p><p>ambulatorial, além dos recursos humanos que devem ser empregados</p><p>relacionados aos atendimentos individuais, atendimentos em grupo e</p><p>as atividades comunitárias. Também traz as normas relacionadas aos</p><p>atendimentos hospitalares, chamado de hospital dia, sendo considerado</p><p>um recurso intermediário entre a internação e o atendimento</p><p>ambulatorial. Além disso, existe a modalidade de serviço de Urgência</p><p>Psiquiátrica em Hospital Geral para casos de emergência em prontos-</p><p>socorros disponíveis 24 horas com leito de internação de, no máximo, 72</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 33</p><p>horas também com equipes multiprofissionais. (BRASIL, Portaria SAS/</p><p>MS n 224, de 29 de janeiro de 1992, 1992)</p><p>Essa legislação necessitou de atualizações que acontece em</p><p>2002 com a Portaria n 336/GM, de 19 de fevereiro de 2002</p><p>Portaria MS/GM n.º 106, de 11/2/2000</p><p>Essa legislação vem para suprir algumas necessidades como:</p><p>• Reestruturação do modelo de atenção ao portador de</p><p>transtornos mentais, no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS;</p><p>• Garantir uma assistência integral em saúde mental e eficaz para</p><p>a reabilitação psicossocial;</p><p>• Humanização do atendimento psiquiátrico no âmbito do SUS,</p><p>visando à reintegração social do usuário;</p><p>• Implementação de políticas de melhoria de qualidade da</p><p>assistência à saúde mental, objetivando a redução das internações em</p><p>hospitais psiquiátricos.</p><p>Para isso é criado os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) em</p><p>Saúde Mental, no âmbito do Sistema Único de Saúde. Essas residências</p><p>são moradias ou casas inseridas, preferencialmente, na comunidade,</p><p>destinadas a cuidar dos indivíduos com transtornos mentais, egressos</p><p>de internações psiquiátricas de longa permanência, que não possuam</p><p>suporte social e laços familiares e, que viabilizem sua inserção social</p><p>sendo uma modalidade que substitui a internação prolongada. (BRASIL,</p><p>Portaria n106 de 11 de fevereiro de 2000, 2000)</p><p>No artigo 2 dessa legislação, observa-se o início da redução de</p><p>leitos em hospícios, pois nela se descreve que para cada transferência</p><p>do hospital especializado para o serviço de residência terapêutica, deve</p><p>ocorrer a redução ou descredenciamento do SUS do mesmo número</p><p>de leitos naquele hospital e, dessa forma, o recurso também deve ser</p><p>realocado para os tetos orçamentários do estado ou município que se</p><p>responsabilizará pela assistência ao paciente e pela rede substitutiva de</p><p>cuidados em saúde mental.</p><p>Os SRT são divididos em modalidades:</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica34</p><p>• SRT Tipo I: são moradias destinadas a pessoas com transtorno</p><p>mental em processo de desinstitucionalização, devendo acolher no</p><p>máximo oito moradores;</p><p>• SRT Tipo II: são modalidades de moradia destinadas às pessoas</p><p>com transtorno mental e acentuado nível de dependência, especialmente</p><p>em função do seu comprometimento físico, que necessitam de cuidados</p><p>permanentes específicos, devendo acolher no máximo dez moradores.</p><p>Cada tipo de SRT deve se enquadrar nas características descritas</p><p>no anexo da Portaria, e o repasse é feito para as residências que tenham,</p><p>no mínimo quatro moradores além de se enquadrarem nos princípios e</p><p>diretrizes destacadas nessa legislação.</p><p>Lei Antimanicomial n.º 10.216, de 6 de abril de</p><p>2001</p><p>“Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos</p><p>mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental”</p><p>Essa Lei começa falando sobre o direito das pessoas com</p><p>transtornos mentais de terem acesso ao modelo assistencial de saúde</p><p>mental sem discriminação em relação à raça, cor, sexo, orientação</p><p>sexual, religião, opção política, nacionalidade, idade, família, recursos</p><p>econômicos e ao grau de gravidade ou tempo de evolução de seu</p><p>transtorno, ou qualquer outra.</p><p>O desenvolvimento de Políticas de Saúde Mental é de</p><p>responsabilidade do Estado e a internação, seja ela voluntária, involuntária</p><p>ou compulsória, só será realizada se os recursos extra-hospitalares</p><p>forem insuficientes e a internação deve ser o mais curta possível.</p><p>Os direitos das pessoas com deficiência intelectual estão descritos</p><p>na Lei da seguinte forma:</p><p>Ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, coerente</p><p>às suas necessidades;</p><p>Ser tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo</p><p>de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção</p><p>na família, no trabalho e na comunidade;</p><p>Ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração;</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 35</p><p>Ter garantia de sigilo nas informações prestadas;</p><p>Ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para</p><p>esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária;</p><p> Ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis;</p><p> Receber o maior número de informações a respeito de sua</p><p>doença e de seu tratamento;</p><p> Ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos</p><p>invasivos possíveis;</p><p> Ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de</p><p>saúde mental.</p><p>Além disso, para o desenvolvimento de pesquisas com</p><p>esses pacientes tanto de fins diagnósticos quanto fins</p><p>terapêuticos devem ser consentidos pelo paciente ou</p><p>pelo</p><p>responsável legal e, devem ser comunicadas aos</p><p>conselhos profissionais competentes e ao Conselho</p><p>Nacional de Saúde o qual criará uma comissão nacional</p><p>para acompanhar a implantação dessa Lei. (BRASIL, Lei n</p><p>10.216, de 6 de abril de 2001, 2001)</p><p>Portaria n 336/GM, de 19 de fevereiro de 2002</p><p>Com os CAPS já instituídos, essa portaria Estabelece que poderão</p><p>constituir-se nas seguintes modalidades de serviços: CAPS I, CAPS II</p><p>e CAPS III, definidos por ordem crescente de porte/complexidade e</p><p>abrangência populacional. Devendo estar capacitadas para realizar</p><p>prioritariamente o atendimento de pacientes com transtornos mentais</p><p>severos e persistentes em sua área territorial, em regime de tratamento</p><p>intensivo, semi-intensivo e não-intensivo.</p><p>Vale ressaltar que essa legislação descreve quando o CAPS</p><p>se encontrar em áreas físicas hospitalares ou instituições</p><p>universitárias de saúde, deve ter acesso privado e equipe</p><p>multiprofissional própria. (BRASIL, Portaria n 336, de 19 de</p><p>fevereiro de 2002, 2002)</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica36</p><p>Últimas legislações e o retrocesso da Luta</p><p>antimanicomial</p><p>Nos últimos 10 anos, entraram em vigor legislações relacionadas</p><p>principalmente sobre drogas de abuso, com ênfase no crack, mas</p><p>em outras drogas também. Porém, essas legislações vão de encontro</p><p>ao movimento de desinstitucionalização conquistado pela luta</p><p>antimanicomial iniciada nos anos 70, vamos conhecê-las e, discuti-las</p><p>melhor no próximo tópico.</p><p>Decreto 7.179 20 de maio de 2010</p><p>O Decreto 7.179 de 2010, que institui o Plano Integrado de</p><p>Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas cria o seu Comitê Gestor, e</p><p>dá outras providências. Com esse decreto é instituído o Plano Integrado</p><p>de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas para a prevenção do uso,</p><p>ao tratamento e à reinserção social de usuários e ao enfrentamento do</p><p>tráfico de crack e outras drogas ilícitas.</p><p>As ações devem ser executadas de forma descentralizada</p><p>e integrada entre as três esferas de governo de forma intersetorial,</p><p>interdisciplinas, integrada com participação da sociedade civil e o</p><p>controle social.</p><p>Com objetivo de estruturar, ampliar e fortalecer as redes</p><p>de atenção à saúde e de assistência social para usuários de</p><p>crack e outras drogas, por meio da articulação das ações</p><p>do Sistema Único de Saúde (SUS) para capacitar de forma</p><p>continuada atores governamentais e não governamentais</p><p>envolvidos nas ações. (BRASIL, DECRETO Nº 7.179, DE 20</p><p>DE MAIO DE 2010., 2010)</p><p>Portaria 3.588/2017</p><p>Descreve sobre Rede de Atenção Psicossocial e dá outras</p><p>providências tendo como objetivo atender pessoas de todas as faixas</p><p>etárias proporcionando serviços de atenção contínua durante vinte</p><p>quatro horas incluindo feriados e finais de semana e ofertar assistência a</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 37</p><p>urgências e emergências, contando com leitos de observação.</p><p>Define as características da equipe multiprofissional</p><p>envolvida no cuidado dos pacientes, reforça o conceito</p><p>dos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) e relata</p><p>como deve ser o funcionamento, a estrutura física e a</p><p>implantação. (BRASIL, PORTARIA Nº 3.588, DE 21 DE</p><p>DEZEMBRO DE 2017, 2017)</p><p>Nota Técnica do Ministério da Saúde n. 11/2019</p><p>No dia 04 de fevereiro de 2019, Quirino Cordeiro Junior,</p><p>Coordenador Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério</p><p>da Saúde institui a Nota Técnica 11/2019 intitulada “Esclarecimentos</p><p>sobre as mudanças na Política Nacional de Saúde Mental e nas Diretrizes</p><p>na Política Nacional sobre Drogas”.</p><p>Abrange uma série de mudanças que, a despeito de</p><p>serem descritas como “processo evolutivo de reforma do</p><p>modelo de assistência em saúde mental, que necessitava</p><p>de aprimoramentos, sem perder a essência de respeito à</p><p>lei 10.216/2001”. Descreve como característica uma nova</p><p>reforma na assistência à saúde mental. (BRASIL, NOTA</p><p>TÉCNICA Nº 11/2019-CGMAD/DAPES/SAS/MS, 2019)</p><p>Lei nº 13.840, de 5 de junho de 2019</p><p>Essa Lei foi sancionada durante a produção desse material,</p><p>por isso podemos encontrar muitas discussões sobre ela nas mídias</p><p>promovendo algumas mudanças na Lei de Drogas (Lei nº 11.343/2006)</p><p>e, consequentemente no Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre</p><p>Drogas (SISNAD).</p><p>Essa legislação descreve o SISNAD como “conjunto ordenado</p><p>de princípios, regras, critérios e recursos materiais e humanos que</p><p>envolvem as políticas, planos, programas, ações e projetos sobre drogas,</p><p>incluindo-se nele, por adesão, os Sistemas de Políticas Públicas sobre</p><p>Drogas dos Estados, Distrito Federal e Municípios”.</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica38</p><p>Discorre sobre as políticas sobre drogas, acompanhamento</p><p>e avaliação, as diretrizes, entre outras providências, mas o ponto</p><p>em debate é a possibilidade de internação compulsória por meio do</p><p>pedido dos familiares os responsáveis,por escrito, feito pelo médico</p><p>psiquiatra (internação involuntária) ou determinada pelo juiz competente</p><p>(internação compulsória), ambos já descritos em legislação vigente.</p><p>Porém, essa nova legislação traz medidas para o</p><p>cumprimento dessa legislação, pois, a indicação por</p><p>indicação médica for pela internação compulsória, muitas</p><p>vezes, a emissão da ordem judicial é demorada impedindo</p><p>a equipe médica atuar de forma rápida. O processo</p><p>continuará o mesmo, porém, representantes do Judiciário</p><p>farão plantão em um equipamento médico, dessa forma,</p><p>o paciente é avaliado no primeiro atendimento e, caso o</p><p>paciente não queira se internar, o juiz de plantão, pode</p><p>acelerar esse processo. (BRASIL, LEI Nº 13.840, DE 5 DE</p><p>JUNHO DE 2019, 2019).</p><p>Podemos observar que as mudanças que acontecem no Brasil,</p><p>estão relacionadas com as mudanças da sociedade, que está cada vez</p><p>mais buscando pelos seus direitos em relação ao cuidado da saúde pelo</p><p>Estado. Além disso, os próprios profissionais da saúde perceberam que</p><p>os tratamentos utilizados eram brutais e exigiam melhoras para devolver</p><p>aos pacientes sua dignidade. E as legislações em vigor estão baseadas</p><p>nos princípios e diretrizes do SUS.</p><p>Analise dos impactos e debate sobre a</p><p>reforma psiquiátrica brasileira</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Vamos entender como aconteceram os movimentos</p><p>sociais para a reforma psiquiátrica no Brasil. Os encontros</p><p>mais relevantes e suas discussões que deram base para as</p><p>legislações estudadas no tópico anterior.</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 39</p><p>Início do movimento</p><p>Como podemos ver, grande parte dos tratamentos para</p><p>transtornos mentais, hoje, são considerados desumanos, dentre eles a</p><p>exclusão da sociedade a partir da internação e a separação da família.</p><p>Juntamente com a superlotação dos hospícios e o alto custo para se</p><p>manter esses indivíduos hospitalizados por grandes períodos geraram</p><p>uma movimentação social, que iniciam na década de setenta que está</p><p>relacionada aos direitos e à dignidade humana no tratamento da saúde</p><p>mental.</p><p>Esse movimento inicia em um momento peculiar da</p><p>história do Brasil, que após vinte anos de ditadura o país</p><p>começa um movimento de redemocratização e ascensão</p><p>de movimentos sociais por um sistema de saúde de</p><p>qualidade, universal, gratuito e igualitário. (AMARANTE &</p><p>NUNES, 2018; BEZARRA, 2007; BARBOSA & al, 2012; MELO,</p><p>2012)</p><p>Movimento antimanicomial</p><p>O movimento antimanicomial inicia com o Movimento dos</p><p>Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM), constituído em 1978, com</p><p>o propósito de reformulação da assistência psiquiátrica no Brasil. O I</p><p>Congresso de Saúde Mental aconteceu em 1979 na cidade de São Paulo</p><p>e foi organizado pelo MTSM, mesmo sem qualquer apoio financeiro.</p><p>Em 1986 muitos participantes do MSTM participaram da 8ª</p><p>Conferência Nacional de Saúde a qual revolucionou a forma de</p><p>participação social para elaboração de políticas públicas relacionadas</p><p>à saúde como direito, reformulação do sistema nacional de saúde e</p><p>financiamento do setor. Devido à complexidade da discussão sobre</p><p>os transtornos mentais, foi decidido realizar, nesse mesmo ano, a I</p><p>Conferência</p><p>Nacional de Saúde Mental em Brasília, porém sem muito</p><p>êxito, pois o setor de Saúde Mental do Ministério da Saúde era contrário</p><p>às reformulações propostas.</p><p>Franco Basaglia, médico psiquiatria, iniciou o processo de reforma</p><p>na psiquiatria na Itália e influenciou todo o movimento de reformas no</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica40</p><p>mundo e o Brasil. Assumiu a direção de um hospital em 1961, onde</p><p>iniciou mudanças para transformá-lo em uma comunidade terapêutica.</p><p>Ele percebeu que a simples humanização não seria suficiente por isso</p><p>critica a postura tradicional dos médicos por acreditar que a psiquiatria</p><p>não era capaz de dar conta do fenômeno complexo que é a loucura.</p><p>Basaglia viajou pelo mundo para levar as suas ideias e esteve algumas</p><p>vezes no Brasil realizando seminários e conferências contribuindo,</p><p>assim, para o movimento pela Reforma Psiquiátrica no país.</p><p>Sem a anuência do governo federal, o MTSM decide convocar o II</p><p>Congresso Nacional, em 18 de maio 1987, realizado na cidade de Bauru</p><p>com o lema “Por uma sociedade sem manicômios”, esse momento o</p><p>movimento ganha força com outros ativistas de direitos humanos.</p><p>Com esse lema, fica claro que a luta não é apenas contra a violência, a</p><p>discriminação e segregação, mas também pela extinção das instituições</p><p>e concepções manicomiais, a partir de então se transforma em um</p><p>Movimento da Luta Antimanicomial. Com isso o movimento ganha</p><p>força contando com profissionais da saúde, instituições acadêmicas,</p><p>representantes políticos, usuários e familiares além de outros segmentos</p><p>da sociedade, todos questionando o modelo clássico de internações em</p><p>hospícios como assistência à saúde mental denunciando as violações</p><p>aos direitos dos pacientes e propondo reorganização do modelo de</p><p>atenção à saúde mental utilizando serviços abertos e comunitários</p><p>buscando a garantia da dignidade de usuários e familiares.</p><p>Dia 18 de maio é chamado de Dia Nacional da Luta Antimanicomial,</p><p>o qual representa o dia do Movimento da Reforma Psiquiátrica no Brasil.</p><p>A denominação Reforma Psiquiátrica foi adotada em 1989 a</p><p>partir da aproximação do Movimento Sanitarista e da Reforma Sanitária</p><p>que deram origem ao Sistema Único de Saúde (SUS). O termo reforma</p><p>reflete a necessidade de uma mudança no modelo biomédico em</p><p>psiquiatria buscando destacar que a reforma psiquiátrica necessária não</p><p>era apenas em relação aos serviços e tecnologias de cuidado, mas sim</p><p>a necessidade de uma estratégia para desinstitucionalização.</p><p>A II Conferência Nacional de Saúde Mental acontece em 1992</p><p>convocada pelo então presidente Fernando Collor (cinco anos após a</p><p>primeira), e a III em 2001 convocada por Fernando Henrique Cardoso</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 41</p><p>(quase dez anos após a primeira). A quarta edição da Conferência,</p><p>acontece no último ano do segundo mandato do governo Lula da Silva,</p><p>em 2010, após grande pressão popular. (AMARANTE & NUNES, 2018;</p><p>BEZARRA, 2007; BARBOSA & al, 2012; MELO, 2012)</p><p>Com a autonomia e descentralização do proposta pelo SUS,</p><p>acontece o desenvolvimento das políticas municipais de saúde, em</p><p>Santos/SP os gestores apressam a instalação do SUS e realizam</p><p>intervenção em hospital psiquiátrico onde ocorriam graves violações dos</p><p>direitos humanos criando uma rede substitutiva composta por serviços</p><p>focados não apenas no tratamento terapêutico mas que pudessem</p><p>contemplar outras dimensões e demandas da vida, como moradia, lazer,</p><p>trabalho, etc. Foram criados cinco NAPS para egressos do hospital, uma</p><p>cooperativa de trabalho além de outros programas. Em pouco tempo,</p><p>outros municípios criam seus NAPS e CAPS que, posteriormente, entram</p><p>para tabela do SUS e a Portaria 224/1992 define as unidades de saúde</p><p>como responsáveis por oferecer os cuidados intermediários entre a</p><p>rede ambulatorial e a internação hospitalar.</p><p>A III Conferência Nacional de Saúde Mental construindo um</p><p>cenário favorável para a saúde mental no SUS quando a política de</p><p>Saúde Mental é regulamentada pela Lei 10.216 de 2001 após muita</p><p>pressão social. É importante ressaltar que o Projeto de Lei 3.657/89</p><p>tramitou pelo Congresso por quase 12 anos e, mesmo sem aprovação,</p><p>tornou-se base para esse substitutivo aprovado em 2001.</p><p>Dos encontros nacionais relacionados a essa luta surgiram</p><p>conquistas consideráveis a cada novo encontro. Dentre elas a criação</p><p>dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e os Núcleos de Atenção</p><p>Psicossocial (NAPS) que vamos entender melhor em outra aula. Com</p><p>essa estrutura é possível tratar o paciente em seu domicílio e, quando</p><p>necessário, interna-lo por um período curto apenas reestruturar esse</p><p>indivíduo e recoloca-lo no convívio de seus familiares. (AMARANTE &</p><p>NUNES, 2018; BEZARRA, 2007; BARBOSA & al, 2012; MELO, 2012)</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica42</p><p>Assistência à saúde mental nos últimos</p><p>anos (2010-2019)</p><p>A partir de 2010, apesar dos estudos mostrarem o consumo de</p><p>álcool de forma abusiva sendo o principal problema de drogas no país,</p><p>os recursos do governo são investidos na “epidemia do crack”, com esse</p><p>pretexto, as legislações tratam sobre o abuso de drogas.</p><p>Em 2011, a inserção das Comunidades Terapêuticas na Rede</p><p>de Atenção Psicossocial (RAPS) como substitutivo sem atender às</p><p>exigências para ser considerado um serviço de saúde, pois atua na</p><p>perspectiva manicomial, tendo cunho religioso e sem uma equipe</p><p>técnica para compor a rede de saúde mental.</p><p>Propostas conservadoras e neoliberais geram mudanças na</p><p>gestão da Política Nacional de Saúde Mental em 2015. Logo depois,</p><p>houve mudanças no indicador de avaliação de saúde mental sendo</p><p>substituído pelas ações de matriciamento realizadas por CAPS com</p><p>equipes de Atenção Básica e as Comunidades Terapêuticas (CT) são</p><p>consideradas estabelecimentos de saúde capacitando-as a receberem</p><p>recursos do SUS.</p><p>Dois pontos são importantes nesse momento: primeiro, já</p><p>vimos que as CTs não contam com equipe técnica, segundo que a</p><p>verba pública é transferida para o serviço privado, como terceirização</p><p>do serviço, porém, essas CTs não têm as mesmas características de</p><p>universalidade e integralidade do SUS, tendo por vezes restrições</p><p>no atendimento como, por exemplo, não permitirem pacientes com</p><p>orientação sexual considerada “desviante” por pautarem sua intervenção</p><p>predominantemente na religião, gerando uma divisão de trabalho entre</p><p>CTs e os CAPS.</p><p>No Governo Temer, a Portaria 3.588/2017 foi aprovada a qual</p><p>gerou significativas mudanças na Política Nacional de Saúde Mental,</p><p>caminhando contra a Reforma Psiquiátrica no Brasil que, até então,</p><p>preconizava a desinstitucionalização e a reabilitação psicossocial, dessa</p><p>forma, essa política retrocede os avanços das três décadas da Reforma</p><p>Psiquiátrica.</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 43</p><p>Dentre os elementos dessa Portaria, podemos destacar a</p><p>remanicomialização da saúde mental através de investimento financeiro</p><p>dos recursos do Governo Federal, aumentando o valor da diária nos</p><p>manicômios sem aumento do repasse para os CAPS levando a um</p><p>serviço cada vez mais precário. O aumento da capacidade dos leitos</p><p>de Hospitais Gerais para alas psiquiátricas, levando, na prática, a</p><p>presença de mini-hospícios nos hospitais gerais, ou seja, multiplicação</p><p>de internações dos pacientes, além de outras alterações relacionadas a</p><p>repasse.</p><p>Com essas mudanças geradas pelas novas legislações e novas</p><p>formas de repasse fica nítido que a internação em CTs e o modelo</p><p>manicomial se tornam o foco central do cuidado ao paciente.</p><p>Por fim, em fevereiro de 2019, Nota Técnica de n.º 11/2019 vem</p><p>para esclarecer os motivos dessas mudanças no perfil de atendimento</p><p>ao paciente com transtorno mental. Conselhos dos profissionais de</p><p>saúde lançaram notas e cartas discordando dessas decisões, em muitas</p><p>delas, aparece o repudio a internação de crianças e adolescentes em</p><p>hospitais psiquiátricos, podendo acontecer em alas de adultos, além</p><p>do redirecionamento</p><p>do financiamento público. Além disso, a nova</p><p>visão do Ministério da Saúde em relação aos CAPS’s, deixando de</p><p>serem considerados serviços sendo substitutos de outros, deixando de</p><p>lado o fechamento de leitos em hospícios para a redução dos leitos</p><p>psiquiátricos. (GUIMARÃES & ROSA, 2019)</p><p>A Lei nº 13.840, de 5 de junho de 2019 foi sancionada durante</p><p>a produção desse material, por isso não há dados para embasar uma</p><p>discussão mais profunda, mas é nítido que ela vai de encontro ao</p><p>movimento antimanicomial, pois, considerando o abuso de drogas um</p><p>transtorno mental, a exclusão desse paciente da sociedade de forma</p><p>involuntária, remete aos procedimentos psiquiátricos antigos. Se ela irá</p><p>trazer benefícios ou traumas mais graves a esses pacientes apenas o</p><p>tempo dirá.</p><p>Conhecemos as lutas do movimento antimanicomial, todas</p><p>as conquistas em relação à redução de internações e o tempo delas</p><p>quando consideradas necessárias através de legislações instituídas</p><p>após conferencias e congressos com movimentos não apenas dos</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica44</p><p>profissionais da saúde, mas com outros atores como pacientes e</p><p>familiares e ativistas dos direitos humanos simpatizantes a essa causa.</p><p>Mas percebemos que toda essa luta está retrocedendo, mas esse</p><p>movimento não foi abalado, por isso, podemos acreditar que ainda</p><p>haverá muitas mudanças nos próximos anos.</p><p>Saúde Mental e Assistência Farmacêutica 45</p><p>BIBLIOGRAFIA</p><p> AMARANTE, P., & NUNES, M. (2018). A reforma psiquiátrica no SUS e a luta por</p><p>uma sociedade sem manicômios. cIÊNCIA & sAPUDE coLETIVA, 23(6), 2067-</p><p>2074. 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