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Apostila didática - Minicurso Primeiros Socorros Psicológicos

Apostila didática sobre Primeiros Socorros Psicológicos: fundamentos históricos e epistemológicos; exemplos e casos de aplicação; compreensões técnicas; atuação de profissionais de saúde; principais âmbitos de aplicação; inclui discussão sobre intervenção em catástrofes e modelo RAPID‑PFA.

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<p>PRIMEIROSPRIMEIROS</p><p>SOCORROSSOCORROS</p><p>PSICOLÓGICOSPSICOLÓGICOS</p><p>APOSTILA D IDÁTICAAPOSTILA D IDÁTICA</p><p>CONTEÚDO PROGRAMÁTICOCONTEÚDO PROGRAMÁTICO</p><p>FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E EPISTEMOLÓGICOSFUNDAMENTOS HISTÓRICOS E EPISTEMOLÓGICOS</p><p>DOS PRIMEIROS SOCORROS PSICOLÓGICOS (PSP);DOS PRIMEIROS SOCORROS PSICOLÓGICOS (PSP);</p><p>EXEMPLOS E CASOS DE SITUAÇÕES PARA AEXEMPLOS E CASOS DE SITUAÇÕES PARA A</p><p>APLICAÇÃO DE PSP;APLICAÇÃO DE PSP;</p><p>COMPREENSÕES TÉCNICAS DE PSP;COMPREENSÕES TÉCNICAS DE PSP;</p><p>ATUAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE EM PSP;ATUAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE EM PSP;</p><p>PRINCIPAIS ÂMBITOS DE APLICAÇÃO DE PSP.PRINCIPAIS ÂMBITOS DE APLICAÇÃO DE PSP.</p><p>125</p><p>PSYCHOLOGICA VOLUME 61 Nº 1 • 2018</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos:</p><p>Intervenção psicológica na catástrofe • pág. 125-142</p><p>DOI: https://doi.org/10.14195/1647-8606_61-1_7</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos:</p><p>Intervenção psicológica na catástrofe</p><p>Maria João Beja1, Alda Portugal2, Joana Câmara3, Cláudia Berenguer4,</p><p>Ana Rebolo5, Carlota Crawford6 e Dinis Gonçalves7</p><p>Psychological First Aid: Psychological intervention in disaster</p><p>Abstract</p><p>Catastrophes can be defined as traumatic incidents conducting to major life, health and</p><p>or material losses, affecting many individuals. The increasing occurrence and magnitude</p><p>of these incidents led to the consciousness of its impact on psychological functioning and</p><p>mental health have promoted the development of structured and organized interventions.</p><p>Psychological First Aid joints several principles and guidelines in an early catastrophe</p><p>intervention intending the promotion of emotional and psychological stability in indi-</p><p>viduals affected by critical incidents. This article intends to contribute to the theoretical</p><p>systematization in an emerging study field in Portugal.</p><p>Keywords: Disaster; Psychosocial intervention; Psychological first aid; RAPID-PFA model.</p><p>1 Universidade da Madeira. Email: mjoao@uma.pt</p><p>2 Universidade da Madeira. Email: alda.portugal@staff.uma.pt</p><p>3 Mestrado em Neuropsicologia da Universidade Católica Portuguesa. Email: joana.fcamara@gmail.com</p><p>4 Mestrado Integrado em Psicologia Clínica do ISPA. Email: claudia.berenguer@hotmail.com</p><p>5 Mestrado Integrado em Psicologia Clínica do ISPA. Email: catarinarebolo@hotmail.com</p><p>6 Mestrado da Educação da Universidade da Madeira. Email: carlota_mana_7@hotmail.com</p><p>7 Licenciatura em Psicologia da Universidade da Madeira. Email: dinis97live@gmail.com</p><p>Artigo recebido 03-03-2016 e aprovado a 25-06-2017</p><p>126 Maria João Beja, Alda Portugal, Joana Câmara, Cláudia Berenguer,</p><p>Ana Rebolo, Carlota Crawford e Dinis Gonçalves</p><p>Resumo</p><p>As catástrofes são acontecimentos traumáticos que provocam grandes perdas de vida,</p><p>com implicações na saúde e/ou materiais que podem afetar muitas pessoas. O incre-</p><p>mento da ocorrência e magnitude destes incidentes conduziu a uma consciencialização</p><p>crescente sobre o impacto das mesmas ao nível do funcionamento psicológico e da saúde</p><p>mental, assim como da importância do desenvolvimento de uma intervenção precoce</p><p>cuidadosamente estruturada e organizada. Os Primeiros Socorros Psicológicos foram</p><p>desenvolvidos como uma forma de intervenção de apoio psicossocial precoce e englo-</p><p>bam um conjunto de princípios e diretrizes orientadas para a promoção da estabilização</p><p>emocional em indivíduos afetados por incidentes críticos. Este artigo pretende contribuir</p><p>para a sistematização dos conhecimentos nesta área de estudos que se encontra numa</p><p>fase emergente em Portugal.</p><p>Palavras-chave: catástrofe; intervenção psicossocial; primeiros socorros psicológicos;</p><p>modelo RAPID-PFA</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>As catástrofes podem ser naturais ou provocadas pelo Homem, climáticas ou</p><p>tecnológicas, expetáveis ou imprevisíveis, e afetam necessariamente um vasto</p><p>leque de sujeitos a nível material, físico e psicológico (Franco, 2015). Os eventos</p><p>críticos, provavelmente mais frequentes nas atuais circunstâncias ambientais e</p><p>climáticas, por um lado, e sociopolíticas, por outro, apresentam-se como perío-</p><p>dos pautados pela instabilidade e desequilíbrio físico e psíquico. Acontecimentos</p><p>como catástrofes naturais, conf litos armados, terrorismo, epidemias suscitam uma</p><p>miríade de reações desadaptativas que podem vir a comprometer a integridade</p><p>biopsicossocial do ser humano, pelo que urge fazer face a esses fenómenos de</p><p>cariz multivariável e auxiliar os seres humanos que os vivenciam (Inter-Agency</p><p>Standing Commitee, 2007).</p><p>A intervenção na catástrofe contempla uma vasta panóplia de metodologias</p><p>e técnicas que operam no sentido de potenciar na vítima a resiliência através do</p><p>desenvolvimento de mecanismos protetores e de perceções de autoeficácia, que</p><p>lhe permitam: (a) lidar com o evento traumático, (b) promover a recuperação e</p><p>a reorganização do seu funcionamento nos diferentes contextos e (c) diminuir a</p><p>probabilidade de evolução para quadros psicopatológicos severos (Ohio Mental</p><p>Health & Addiction Services, 2013).</p><p>127</p><p>PSYCHOLOGICA VOLUME 61 Nº 1 • 2018</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>Os Primeiros Socorros Psicológicos constituem uma abordagem de intervenção</p><p>na catástrofe que visa ajudar os indivíduos na minoração do stress emocional,</p><p>no desenvolvimento e na adoção de estratégias de coping adaptativas que con-</p><p>cedam ao indivíduo a possibilidade de recuperar, ainda que parcialmente, o seu</p><p>funcionamento físico, cognitivo, emocional e social prévio ao acontecimento</p><p>catastrófico (National Child Traumatic Stress Network, 2006; Ohio Mental Health</p><p>& Addiction Services, 2013).</p><p>O presente trabalho tem como principais objetivos fazer um breve enqua-</p><p>dramento histórico sobre os Primeiros Socorros Psicológicos, identificar os seus</p><p>aspetos instrumentais e multidisciplinares, bem como os seus elementos nucleares</p><p>de operacionalização. Pretende-se, ainda, explorar os modelos de intervenção e</p><p>as suas vantagens, assim como aludir a algumas exigências de índole comporta-</p><p>mental, ética e deontológica que se colocam ao nível da prestação dos Primeiros</p><p>Socorros Psicológicos. Por fim, serão consideradas algumas questões associadas</p><p>à validação da eficácia dos Primeiros Socorros Psicológicos junto dos indivíduos</p><p>que experienciaram situações-limite.</p><p>Enquadramento Histórico</p><p>Não é possível identificar com exatidão o momento em que se iniciou a inter-</p><p>venção psicológica nas catástrofes, contudo, estima-se que tenha sido em meados</p><p>do século XX (Franco, 2015). Em 1909, Stierlin publicou um estudo intitulado</p><p>Psycho-neuropathology as a Result of a Mining Disaster, no qual apresentou a teoria</p><p>de intervenção em catástrofes aplicada numa ocorrência concreta: a explosão de</p><p>uma mina de carvão, em França, que havia ocorrido três anos antes (Mitchell &</p><p>Everly, 1995 citado por Franco, 2015). Em 1944, a partir do trabalho levado a cabo</p><p>com sobreviventes de um incêndio em Boston em 1943, fatal para 500 pessoas,</p><p>Lindemann foi o primeiro a explorar a intervenção psicológica nos momentos que</p><p>se sucedem a uma catástrofe. Intitulou a sua pesquisa The Sympthomatology of</p><p>Management of Acute Grief, na qual abordou elementos caracterizadores do luto</p><p>e possíveis reações típicas de um sobrevivente a uma catástrofe (Franco, 2015).</p><p>Porém, é apenas no final da 2ª Guerra Mundial que emerge pela primeira vez a</p><p>designação de Primeiros Socorros Psicológicos, não como a conhecemos hoje, mas</p><p>como técnica de debriefing psicológico, estratégia que se foca na expressão de sen-</p><p>timentos e no relato da situação traumática (Fox et al., 2012). Mais tarde, Thorne</p><p>(1952, citado por Everly, Perrin & Everly, 2008) assinalou que a capacidade para</p><p>reconhecer rápida e prontamente os indícios reveladores de sequelas psicológicas</p><p>disruptivas era um alicerce para uma intervenção psicológica eficaz. Este autor</p><p>128 Maria João Beja, Alda Portugal, Joana Câmara, Cláudia Berenguer,</p><p>Ana Rebolo, Carlota Crawford e Dinis Gonçalves</p><p>propôs que as intervenções, no contexto de incidentes críticos, devessem abarcar</p><p>técnicas como a estabilização, a catarse e o aconselhamento.</p><p>Já havia profissionais da saúde voluntários, funcionários da</p><p>segurança pública (bombeiros, policiais, etc.) e agentes da mídia trabalhando no local. Quando chegamos,</p><p>havia muita correria, filas, concentrações de pessoas e muitos familiares buscando informação.</p><p>Estabelecer um procedimento no meio de um acontecimento com essas características pode ser</p><p>extremamente difícil, pois diferentes instâncias atuam em várias frentes durante a operação. As forças</p><p>civis e o Corpo de Bombeiros instalaram postos de cadastramento de voluntários e esclarecimento de</p><p>dúvidas; profissionais da saúde voluntários instalaram um ambulatório de emergência; e muitos voluntários</p><p>se prontificaram a prestar auxílio às famílias. Idealmente, o contato dos agentes voluntários deve ser</p><p>monitorado e estruturado por profissionais, já que esse primeiro acolhimento pode ser decisivo para o</p><p>bem-estar dos sujeitos nas horas seguintes. Tais voluntários devem estar capacitados para reconhecerem</p><p>fatores de risco para o desenvolvimento de TEPT, reações psicóticas causadas pelo estresse, reações</p><p>dissociativas, bem como para o manejo de sujeitos com reações emocionais intensas. Nossa equipe buscou,</p><p>nesse primeiro momento, inserir-se na operação junto à Secretaria Municipal de Saúde de modo a estruturar</p><p>nossa ação junto a outros profissionais e voluntários.</p><p>Por mais bem equipado que um município esteja, dificilmente estará preparado para uma situação</p><p>desse porte. A busca por instâncias de auxílio prático (como agências funerárias externas ao município</p><p>para fornecimento de material) foi necessária nesse primeiro dia. Além disso, devido ao grande número</p><p>de instâncias agindo na operação (Polícia Civil, secretarias municipais, Conselho de Psicologia, Associação</p><p>de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, etc.), uma reunião emergencial foi realizada de forma a direcionar as</p><p>ações para os próximos dias.</p><p>A partir dessa primeira reunião geral, foi realizada uma divisão de equipes e designados seus</p><p>respectivos representantes. Cada equipe ficou responsável por cobrir diferentes locais estratégicos da</p><p>cidade (hospitais, centros de referência, unidades de saúde, funerais). Ficou estabelecido que seriam</p><p>realizadas reuniões diárias entre todos os coordenadores de equipe junto à Secretaria Municipal de Saúde</p><p>com o objetivo de monitorar as ações de cada grupo e planejar passos seguintes.</p><p>Além disso, ainda na primeira noite, nossa equipe buscou suporte da imprensa para difundir</p><p>informações necessárias. Em casos de desastres desse porte, o esclarecimento da população de forma</p><p>abrangente sobre as reações comuns ao estresse e como manejá-las é um meio importante para que as</p><p>PRIMEIROS SOCORROS PSICOLÓGICOS: RELATO DE INTERVENÇÃO EM CRISE EM SANTA MARIA</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>100</p><p>vítimas possam empreender ações a tempo de prevenir algumas consequências, como reações pós-</p><p>traumáticas desadaptativas. Uma vez que a imprensa é um meio efetivo para atingir o maior número de</p><p>sujeitos possível, programas de TV, rádios locais, jornais e sites foram acionados. Nesses meios de</p><p>comunicação, foram explicados para a população geral sintomas normais de reação ao estresse e formas</p><p>de manejo para os primeiros dias, sempre informando onde buscar ajuda em casos intensos ou de</p><p>persistência das reações.</p><p>Nesse primeiro dia, cerca de 300 voluntários cadastrados já estavam atuando e continuariam a</p><p>intervir nos dias seguintes. Mesmo considerando que esses voluntários tivessem formação em diferentes</p><p>áreas da saúde, grande parte poderia não estar habituada à intervenção em crise. As intervenções para as</p><p>situações de desastre desse porte são bastante específicas, e, por vezes, as graduações generalistas não</p><p>as contemplam. O NEPTE, por ser um núcleo especializado em abordagens a situações traumáticas,</p><p>prontificou-se a oferecer capacitações aos demais voluntários.</p><p>A partir do segundo dia, a própria equipe do NEPTE se dividiu em uma subequipe de capacitação e</p><p>uma subequipe de atendimento. A capacitação ocorreu em um espaço cedido por uma clínica de</p><p>psicoterapia particular de Santa Maria nos dias 28 e 29 de janeiro nos turnos da manhã e da tarde. Um total</p><p>de 172 voluntários foram capacitados para realizarem os primeiros socorros psicológicos. A capacitação foi</p><p>ministrada por um dos coordenadores do NEPTE (CHK) e teve como base dados epidemiológicos acerca de</p><p>desastres e informações sobre reações comuns ao estresse, fatores de risco, protocolos de intervenção</p><p>pós-desastre, intervenções para Transtorno do Estresse Agudo, avaliação e tratamento de TEPT. A subequipe</p><p>de atendimento cobriu três Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), um hospital do centro da cidade e</p><p>um posto de Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), conforme designado pelas Secretarias</p><p>Estadual e Municipal de Saúde (Força Nacional do SUS). A equipe realizou as atividades do dia 28/01 ao dia</p><p>05/02. Nos últimos dias, ações foram empreendidas para que se estruturasse uma rede na cidade de forma</p><p>a dar continuidade ao trabalho.</p><p>Durante os plantões, foram realizados atendimentos individuais, com duração variável (entre 15 e</p><p>30 minutos), de acordo com a necessidade de cada sujeito. Nesses atendimentos eram realizados</p><p>acolhimento e avaliação dos fatores que poderiam tornar necessário um encaminhamento imediato (por</p><p>exemplo: risco de suicídio, abuso de substâncias, sintomas psicóticos). Além disso, eram oferecidas</p><p>brevemente orientações para um enfrentamento saudável da situação, como manutenção da rotina,</p><p>busca por apoio emocional de confiança, busca por suporte comunitário e profissional se necessário. Tais</p><p>orientações eram também fornecidas em material impresso, organizado previamente pela equipe, baseado</p><p>no Guia de PSP (PFA, 2006). Por fim, para todos os atendidos, eram passados contatos de locais de referência</p><p>da rede municipal de saúde, caso os sujeitos atendidos sentissem necessidade de um acompanhamento</p><p>contínuo no futuro.</p><p>Os plantões realizados pela equipe visavam ao acompanhamento e intervenções preliminares no</p><p>maior número de sujeitos possíveis: vítimas, familiares e profissionais envolvidos, como enfermeiros,</p><p>THIAGO LORETO GARCIA DA SILVA, PATRICIA GASPAR MELLO, KARINE ALINE LAINI SILVEIRA, LAURA WOLFFENBÜTTEL, BEATRIZ DE OLIVEIRA</p><p>MENEGUELO LOBO, CARLA HERVÊ MORAM BICCA, RODRIGO GRASSI-OLIVEIRA,CHRISTIAN HAAG KRISTENSEN</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>101</p><p>médicos, socorristas, condutores de ambulância e demais funcionários das unidades de saúde. No caso</p><p>dos profissionais, o fato de estarem constantemente expostos a situações traumáticas, muitas vezes sem</p><p>o devido suporte psicológico, o que os torna um grupo de risco para o desenvolvimento de TEPT e Burnout²³,</p><p>justifica o atendimento. Por isso, durante os plantões, a equipe atendeu o maior número de profissionais</p><p>possível (inclusive os que não tinham tido relação direta com o evento), pois, mesmo que muitos não</p><p>estivessem expressando nenhuma sintomatologia naquele momento, poder-se-iam prevenir possíveis</p><p>prejuízos futuros14.</p><p>Apesar de as intervenções seguirem um protocolo padrão, cada local apresentou peculiaridades e</p><p>demandas próprias. Os profissionais das UPAs se mostraram mais mobilizados pelo fato de, durante a madrugada</p><p>do evento, terem tido de assumir atividades que não são usuais em suas rotinas, com um alto nível de pressão</p><p>e estresse (por exemplo, a contenção emocional de um elevado número de familiares ao mesmo tempo).</p><p>Além disso, mesmo que enfermeiros e médicos estejam habituados a intervir em situações de ferimento</p><p>humano extremo, a proporção de sujeitos que procuraram simultaneamente o pronto atendimento causou,</p><p>em alguns profissionais, a sensação de impotência e de estarem em um contexto de “guerra”.</p><p>Nas UPAs, nos dias de plantão, a equipe também recebeu vítimas e familiares que buscavam</p><p>algum auxílio médico. Esses sujeitos apresentavam diferentes reações de acordo com suas experiências</p><p>individuais em relação ao evento. Mesmo</p><p>familiares de sobreviventes, ou moradores da cidade que não</p><p>tinham presenciado o evento, mas que tinham perdido conhecidos, mostravam reações de luto. Esse</p><p>clima permeava toda a cidade, sendo compreendido como uma reação esperada para esse tipo de contexto.</p><p>Algumas pessoas apresentaram reações mais intensas, como flashbacks (ouvir barulhos de sirene e ter a</p><p>sensação de que algo de ruim estava acontecendo novamente), sentimentos fortes de culpa (por ter saído</p><p>de casa naquela noite, por não ter podido ajudar outras vítimas tanto quanto teria gostado) e humor</p><p>deprimido (vontade de não sair mais de casa ou de noite). Nesses casos, foi recomendado que se buscasse</p><p>acompanhamento contínuo, frisando o caráter preventivo de se procurar tratamento precoce.</p><p>O atendimento à equipe de socorristas do SAMU teve um enfoque similar ao do atendimento aos</p><p>profissionais das UPAs. Notou-se em nosso contato com tais profissionais que, frente às demandas, muitos</p><p>se submetem voluntariamente a uma carga horária intensa (alguns estavam de plantão havia mais de 40</p><p>horas). Tal alteração do ciclo circadiano é um fator que contribui para o desenvolvimento de reações pós-</p><p>traumáticas nesses profissionais²t . Portanto, frisou-se a necessidade de esses profissionais cuidadores</p><p>atentarem para o cuidado de si mesmos e buscarem suprir suas necessidades básicas. Além disso, os</p><p>profissionais relataram como um fator que contribuía para o estresse a pressão social que envolve o</p><p>trabalho do socorrista. Muitos nos relataram que se sentiam pressionados ao verem pessoas próximas e a</p><p>mídia colocando-os numa posição de heróis e exigindo que demonstrassem resistência. Isso torna difícil</p><p>a expressão do sofrimento que implica, para a maioria das pessoas, presenciar situações nas que se entra</p><p>em contato com cenas impactantes.</p><p>PRIMEIROS SOCORROS PSICOLÓGICOS: RELATO DE INTERVENÇÃO EM CRISE EM SANTA MARIA</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>102</p><p>Por fim, o atendimento a familiares no hospital exigiu um manejo diferente dos realizados nos</p><p>outros locais. Tal atendimento ocorreu nos corredores e salas de espera do hospital, enquanto os familiares</p><p>aguardavam por informações sobre o paciente internado ou pelo horário de visita. Considerando que</p><p>poucos foram expostos diretamente a cenas traumáticas e que muitos deles estavam em um momento de</p><p>apreensão por aguardarem respostas sobre o estado do paciente internado, a aproximação da equipe</p><p>teve um caráter mais voltado para o acolhimento de seu estado emocional naquele momento. Assim,</p><p>nesse caso, houve uma maior preocupação da equipe em não ser invasiva, já que, dentro dos grupos de</p><p>familiares, seus membros prestavam apoio uns aos outros. Consideramos esse suporte intrafamiliar, se</p><p>bem realizado, muito mais efetivo do que o suporte prestado por um profissional que pouca intimidade</p><p>tem com os sujeitos da família. Portanto, ao abordarmos os grupos de familiares, reforçávamos a</p><p>importância do apoio mútuo, colocando-nos à disposição para informações sobre trauma e luto e</p><p>fornecendo-as quando solicitados. Intervenções mais focadas eram realizadas apenas quando se notava</p><p>um familiar expressando reações intensas de ansiedade ou desamparo.</p><p>Nos dias finais de atuação, buscou-se estruturar redes que pudessem dar continuidade ao</p><p>atendimento realizado. Serviços públicos de saúde e profissionais residentes na cidade foram acionados.</p><p>Mesmo a equipe do NEPTE tendo encerrado sua atuação direta na cidade, capacitações continuaram a ser</p><p>oferecidas junto à Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Além disso, o serviço continuou a receber as</p><p>vítimas e familiares no ambulatório do NEPTE situado na PUCRS. Acreditamos que, mesmo com a realização</p><p>de atendimentos emergenciais e preventivos como os PSP, ações contínuas são de extrema importância,</p><p>pois é ao longo do tempo que os efeitos desse tipo de evento podem ser restaurados, devendo os profissionais</p><p>estarem preparados para lançarem mão de estratégias que potencializem tal processo.</p><p>Considerações finais</p><p>A atuação dos profissionais da saúde mental em situações de catástrofes é uma prática que vem</p><p>sendo estruturada em nosso país faz muito pouco tempo. As intervenções devem ser minuciosamente</p><p>planejadas considerando o impacto que esse tipo de evento pode ter nos sujeitos que o vivenciam. A</p><p>literatura internacional aponta que existem intervenções que não são efetivas, ou que podem ser até</p><p>mesmo prejudiciais, como o debriefing psicológico; entretanto, os Primeiros Socorros Psicológicos parecem</p><p>ser uma alternativa segura de intervenção preventiva nessas situações.</p><p>Até onde sabemos, nosso relato é o primeiro a expor a aplicação dos PSP no contexto brasileiro.</p><p>Em nossa experiência, tal intervenção possibilita o acolhimento emocional do sujeito de forma empática</p><p>e não invasiva, o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento (coping) adaptativas de forma conjunta</p><p>e a busca por apoio social. O esclarecimento de informações e o material informativo se destacam como</p><p>uma ferramenta necessária para a conscientização de que reações intensas nesse contexto são normais e</p><p>para a orientação quanto a como buscar ajuda nos casos em que a recuperação se mostrar difícil.</p><p>THIAGO LORETO GARCIA DA SILVA, PATRICIA GASPAR MELLO, KARINE ALINE LAINI SILVEIRA, LAURA WOLFFENBÜTTEL, BEATRIZ DE OLIVEIRA</p><p>MENEGUELO LOBO, CARLA HERVÊ MORAM BICCA, RODRIGO GRASSI-OLIVEIRA,CHRISTIAN HAAG KRISTENSEN</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>103</p><p>Ressalta-se, ainda, a necessidade de que estudos controlados e longitudinais possam testar o</p><p>impacto dessas intervenções no contexto brasileiro. Com o desenvolvimento desses estudos, tornar-se-</p><p>á possível o estabelecimento de rotinas e protocolos nacionais a serem aplicados em tais casos. Mesmo</p><p>em eventos desse porte, profissionais técnicos e de saúde precisam estar prontamente capacitados para</p><p>que, frente ao imprevisível, seja possível reduzir o impacto negativo acarretado por eles.</p><p>Referências</p><p>1. Valero SA. Emergência e psicologia desastre em uma nova especialidade. Estudo da psicanálise e</p><p>psicologia. 2007. Disponível em: http://psicopsi.com/pt/emergencia-e-psicologia-desastre-em-uma-</p><p>nova-especialidade. Acessado jun 2012.</p><p>2. Vieira NO, Vieira CMS. Transtorno de estresse pós-traumático: uma neurose de guerra em tempo de</p><p>paz. São Paulo: Vetor, 2005.</p><p>3. Melo CA, Santos FA. As contribuições da psicologia nas emergências e desastres. Psicólogo informação.</p><p>2011;15:169-181.</p><p>4. CFP - Conselho Federal de Psicologia. Emergências e Desastres: as contribuições da psicologia. Jornal</p><p>do Federal. 2009; 95:9.</p><p>5. Alvez RB, Lacerda MAC, Legal EJ. A atuação do psicólogo diante dos desastres naturais: uma revisão.</p><p>Psicologia em Estudo. 2012; 17(2): 307-315.</p><p>6. Guha-Sapir D, Vos F, Below R, Ponserre S. Annual Disaster Statistical Review 2011: The Numbers and</p><p>Trends. Brussels: CRED; 2012.</p><p>7. Castro, ALC. Glossário de defesa civil - estudos de riscos e medicina de desastres. 2nd ed. Brasília:</p><p>Ministério do Planejamento e Orçamento/Secretaria especial de Políticas Regionais / Departamento</p><p>de Defesa Civil; 1998.</p><p>8. Breslau N, Kessler RC, Chilcoat HD, Schultz LRP, Davis GC, Andreski P. Trauma and Posttraumatic Stress</p><p>Disorder in the Community. Arch Gen Psychiatry. 1998;55:626-632.</p><p>9. Friedman MJ. Posttraumatic Stress Disorder Among Military Returnees From Afghanistan and Iraq. Am</p><p>J Psychiatry. 2006;163:586-593.</p><p>10. Kessler RC, Sonega A, Bromet E, Hughes M, Nelson CB. Posttraumatic stress disorder in the national</p><p>comorbidity survey. Arch Gen Psychiatry 1995; 52:1048-1060.</p><p>11. Kessler RC, Chiu WT, Demler O, Walters EE. Prevalence, severity, and comorbidity of 12-month DSM-</p><p>IV disorders in the National Comorbidity Survey Replication. Arch Gen Psychiatry 2005;62:617-627.</p><p>12. Breslau N, Peterson EL, Schultz L. A Second Look at Prior Trauma and the Posttraumatic Stress Disorder</p><p>Effects of Subsequent Trauma: A Prospective Epidemiological Study . Arch Gen Psychiatry.</p><p>2008;65(4):431-437.</p><p>PRIMEIROS SOCORROS PSICOLÓGICOS: RELATO DE INTERVENÇÃO EM CRISE EM SANTA MARIA</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>104</p><p>13. Galea S, Vlahov D, Tracy M, Hoover DR, Resnick H, Kilpatrick D. Hispanic ethnicity and post-traumatic</p><p>stress disorder after a disaster: evidence from a general population survey after September 11, 2001.</p><p>Annals of Epidemiology. 2004; 14, 520-531.</p><p>14. Litz BT, Maguen S. Early Intervention for Trauma. In: Friedman MJ, Keane TM, Resick PA, editors.</p><p>Handbook of PTSD: Science and Practice. New York: Guilford Press; 2007. p. 306-329.</p><p>15. Yehuda R, LeDoux J. Response variation following trauma: a translational neuroscience approach to</p><p>understanding PTSD. Neuron. 2007;56:19–32</p><p>16. Norris FH, Foster JD, Weisshaar DL. The epidemiology of sex differences in PTSD across developmental,</p><p>societal, and research contexts. In: R. Kimerling, P. Ouimette, & J. Wolfe (Eds.), Gender and PTSD. New</p><p>York: Guilford Press; 2001. p. 3-42.</p><p>17. Kearns MC, Ressler KJ, Zatzick D, Rothbaum BO. Early interventions for PTSD: A review. Depress. Anxiety.</p><p>2012;29: 833–842.</p><p>18. La Greca AM, Silverman WK. Treatment and prevention of posttraumatic stress reactions in children</p><p>and adolescents exposed to disasters and terrorism: What is the evidence? Child Development</p><p>Perspectives. 2009;3: 4-10.</p><p>19. Litz BT, Gray MJ, Bryant RA, Adler AB. Early intervention for trauma: Current status and future directions.</p><p>Clinical Psychology: Science and Practice. 2002;9: 112-134.</p><p>20. van Emmerik AAP, Kamphuis JH, Hulsbosch AM, Emmelkamp PMG. Single session debrieûng after</p><p>psychological trauma: A meta-analysis. Lancet. 2002; 360:766-771.</p><p>21. Bugg A, Turpin G, Mason S, Scholes C. A randomised controlled trial of the effectiveness of writing as</p><p>a self-help intervention for traumatic injury patients at risk of developing post-traumatic stress disorder.</p><p>Behav Res Ther 2009;47:6-12.</p><p>22. National Child Traumatic Stress Network, National Center for PTSD. Psychological First Aid. Field</p><p>Operations Guide 2nd Edition. Disponível em: http://www.nctsn.org/content/psychological-first-aid.</p><p>Acessado em março 2013.</p><p>23. Mitani S, Fujita M, Nakata K, Shirakawa T. Impact of post-traumatic stress disorder and job-related</p><p>stress on burnout: A study of ûre service workers. Journal of Emergency Medicine. 2006;31(1):7-11.</p><p>24. Yehuda, R., Golier, J. A. & Kaufman, S. Circadian rhythm of salivary cortisol in Holocaust survivors with</p><p>and without PTSD. Am. J. Psychiatry. 2005; 162:998-1000.</p><p>Autor responsável para correspondência:</p><p>Thiago Loreto Garcia da Silva</p><p>E-mail: thiagoloreto@hotmail.com</p><p>Telefone: (51) 82404457/(51)33347137</p><p>Endereço: Av. Ipiranga, 6681 - Partenon - Porto Alegre/RS - CEP: 90619-900 - Prédio 11, 9º Andar, Sala 915.</p><p>THIAGO LORETO GARCIA DA SILVA, PATRICIA GASPAR MELLO, KARINE ALINE LAINI SILVEIRA, LAURA WOLFFENBÜTTEL, BEATRIZ DE OLIVEIRA</p><p>MENEGUELO LOBO, CARLA HERVÊ MORAM BICCA, RODRIGO GRASSI-OLIVEIRA,CHRISTIAN HAAG KRISTENSEN</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>PSP</p><p>PRIMEIROS</p><p>SOCORROS</p><p>PSICOLÓGICOS</p><p>PRIMEIROS SOCORROS PSICOLÓGICOS:</p><p>GUIA PARA ABORDAGEM A USUÁRIOS COM</p><p>TENTATIVA DE SUICÍDIO EM HOSPITAIS GERAIS</p><p>Cristina Camões Sampaio Neves</p><p>Ana Paula Cunha Pereira</p><p>Carlos Alberto Sanches Pereira</p><p>CENTRO UNIVERSITÁRIO DE VOLTA REDONDA</p><p>MESTRADO PROFISSIONAL EM ENSINO EM CIÊNCIAS DA SAÚDE E DO MEIO AMBIENTE</p><p>PRIMEIROS SOCORROS PSICOLÓGICOS:</p><p>GUIA PARA ABORDAGEM A USUÁRIOS COM TENTATIVA DE SUICÍDIO EM HOSPITAIS GERAIS</p><p>CRISTINA CAMÕES SAMPAIO NEVES</p><p>ANA PAULA CUNHA PEREIRA</p><p>CARLOS ALBERTO SANCHES PEREIRA</p><p>2</p><p>1. O suicídio como grave problema de saúde pública: fatos relevantes</p><p>2. Comportamento suicida</p><p>3. Definições</p><p>4. Estados mentais associados ao comportamento suicida</p><p>5. Multicausalidade do comportamento suicida</p><p>6. Mitos e verdades sobre o suicídio</p><p>7. Fatores de risco e fatores de proteção</p><p>8. Papel dos hospitais gerais na prevenção, cuidado e abordagem a</p><p>usuários com tentativa de suicídio</p><p>9. A Importância da qualificação do atendimento</p><p>10. Abordagem a usuários com tentativa de suicídio em hospitais gerais</p><p>11. Primeiros Socorros Psicológicos na abordagem a usuários com tentativa</p><p>de suicídio em hospitais gerais</p><p>12. Referências Bibliográficas</p><p>Anexo 1 - Plano de Segurança</p><p>Índice</p><p>PSP</p><p>PRIMEIROS</p><p>SOCORROS</p><p>PSICOLÓGICOS</p><p>11</p><p>14</p><p>16</p><p>18</p><p>21</p><p>23</p><p>26</p><p>31</p><p>34</p><p>37</p><p>39</p><p>51</p><p>4</p><p>Telefones importantes</p><p>Introdução 10</p><p>Lista de Siglas 08</p><p>Apresentação 06</p><p>55</p><p>57</p><p>PSP</p><p>PRIMEIROS</p><p>SOCORROS</p><p>PSICOLÓGICOS</p><p>Apresentação</p><p>Este manual foi desenvolvido como produto de ensino no Programa de Mestrado</p><p>Profissional em Ensino em Ciências da Saúde e do Meio Ambiente do Centro Universitário de</p><p>Volta Redonda – UniFOA.</p><p>Composto por material textual e vídeos em formato QR Code para abordar a temática do</p><p>suicídio, foi elaborado como ferramenta de Educação Permanente em Saúde, com vistas a</p><p>contribuir para a qualificação do atendimento a usuários com tentativa de suicídio em hospitais</p><p>gerais.</p><p>A proposta é disseminar conceitos e informações sobre o comportamento suicida,</p><p>apresentar estratégias possíveis de cuidado e, dessa forma, possibilitar a reflexão sobre o</p><p>processo de trabalho, favorecendo a construção de saberes e fazeres, individuais e coletivos,</p><p>em saúde.</p><p>6</p><p>PSP</p><p>PRIMEIROS</p><p>SOCORROS</p><p>PSICOLÓGICOS</p><p>Lista de siglas</p><p>CAPS Centro de Atenção Psicossocial</p><p>CVV Centro de Valorização da Vida</p><p>HIV/AIDS Vírus da Imunodeficiência Humana/Síndrome da Imunodeficiência</p><p>Adquirida</p><p>OMS Organização Mundial da Saúde</p><p>PSP Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>SAMU Serviço de Atendimento Móvel de Urgência</p><p>8</p><p>PSP</p><p>PRIMEIROS</p><p>SOCORROS</p><p>PSICOLÓGICOS</p><p>Introdução</p><p>O Hospital Geral é um dos principais dispositivos para a assistência em saúde e dentre ,</p><p>as demandas de atendimento encontram-se as relacionadas ao comportamento suicida. ,</p><p>Configurando-se como um grave problema de saúde pública, o suicídio afeta populações do</p><p>mundo todo, chegando a mais de 800 mil mortes por ano.</p><p>No entanto, uma parcela dessas mortes pode ser evitada por meio de um esforço</p><p>integrado entre diferentes setores da sociedade e da utilização correta de estratégias de</p><p>prevenção.</p><p>As portas de entrada hospitalares, os chamados Pronto-Atendimento, são de extrema</p><p>importância para a prevenção do suicídio, pois é para lá que essas pessoas são levadas para</p><p>obtenção dos primeiros cuidados, além de se constituírem como locais de busca de ajuda para</p><p>os comportamentos suicidas.</p><p>Uma tentativa de suicídio sempre deve ser levada a sério e atuar de forma adequada</p><p>nesse momento é uma das principais estratégias de prevenção, visto que uma tentativa prévia é</p><p>o maior fator de risco para o suicídio.</p><p>Frequentemente, a condução das demandas emocionais relacionadas ao</p><p>comportamento suicida é encaminhada aos psicólogos e psiquiatras. Entretanto, a prevenção</p><p>do suicídio é responsabilidade de todos. Apesar de esses profissionais disporem do</p><p>conhecimento específico para este tipo de atendimento, existem estratégias passíveis de</p><p>utilização por outros profissionais da saúde. Conhecê-las poderá contribuir para uma</p><p>assistência humanizada e mais adequada às necessidades desses usuários, que ultrapassam</p><p>as demandas físicas, possibilitando a diminuição das mortes autoinfligidas.</p><p>Pensando nisso, esse manual foi elaborado para profissionais que atuam em hospitais</p><p>gerais, em especial nas portas de entrada de urgência e emergência, com objetivo de ampliar a</p><p>compreensão sobre o fenômeno do suicídio e colaborar para a construção de abordagens mais</p><p>eficazes.</p><p>10</p><p>O SUICÍDIO COMO</p><p>GRAVE PROBLEMA DE</p><p>SAÚDE PÚBLICA:</p><p>FATORES RELEVANTES1</p><p>11</p><p>- Mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida todo ano no mundo, o que equivale a mais de 3000 mortes por dia e um</p><p>suicídio a cada 40 segundos.</p><p>- O número de tentativas supera entre 10 a 20 vezes o número de suicídios.</p><p>- Em geral, os homens cometem mais suicídio do que as mulheres, mas entre estas é maior o número de</p><p>tentativas</p><p>de suicídio.</p><p>- Estima-se que cerca de 90% dos indivíduos que se suicidam têm algum transtorno mental.</p><p>- Os métodos mais utilizados de suicídio se referem à ingestão de pesticidas, enforcamento e armas de fogo.</p><p>- O suicídio é a segunda principal causa de morte, no mundo, entre jovens com idade entre 15 e 29 anos, no entanto,</p><p>a incidência entre pessoas com mais de 70 anos é ainda mais elevada.</p><p>- O suicídio é um fenômeno que ocorre em todas as regiões do mundo, no entanto 79% dos suicídios ocorreram</p><p>em países de baixa e média renda.</p><p>Essas informações demonstram a seriedade e gravidade que envolve o fenômeno do suicídio,</p><p>apontando para necessidade de atuar sobre ele.</p><p>S</p><p>U</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>O</p><p>G</p><p>R</p><p>A</p><p>V</p><p>E</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>B</p><p>LE</p><p>M</p><p>A</p><p>D</p><p>E</p><p>S</p><p>A</p><p>Ú</p><p>D</p><p>E</p><p>P</p><p>Ú</p><p>B</p><p>LI</p><p>C</p><p>A</p><p>: F</p><p>AT</p><p>O</p><p>S</p><p>R</p><p>EL</p><p>EV</p><p>A</p><p>N</p><p>TE</p><p>S</p><p>A Organização Mundial de Saúde (2018) publicou em sua folha</p><p>informativa dados alarmantes sobre o comportamento suicida:</p><p>12</p><p>Propõe-se como ponto de partida, reflexões iniciais</p><p>em relação ao fenômeno do suicídio:</p><p>Você conhece alguém</p><p>que já tentou ou</p><p>pensou em suicídio?</p><p>Você já atendeu</p><p>alguém com essa demanda</p><p>no seu trabalho?</p><p>Essa realidade</p><p>faz parte do seu</p><p>cotidiano de trabalho?</p><p>Observe que, de alguma maneira, o fenômeno do suicídio pode se aproximar da sua realidade,</p><p>sendo essencial compreendê-lo para que consiga apoiar pessoas sob essa condição.</p><p>Reflexão</p><p>13</p><p>COMPORTAMENTO</p><p>SUICIDA 2</p><p>14</p><p>O suicídio pode ser considerado a pior das tragédias humanas, porque representa o auge de um sofrimento</p><p>insuportável para quem o comete, mas também significa abalo e questionamento torturante e infindável para os que ficam</p><p>(BERTOLOTE, 2012).</p><p>Desde a mais remota antiguidade, há relatos de eventos em que os seres humanos optaram pela própria morte. A</p><p>forma de tratar e de compreender esse fenômeno mudou, adquirindo significados e valores diversos, de acordo com as</p><p>peculiaridades de cada momento histórico. No entanto, essa “escolha” nunca foi percebida de forma corriqueira, sendo</p><p>aceita e aclamada, em poucas circunstâncias, e condenável, na maioria das vezes (MINOIS, 2018).</p><p>Etimologicamente, o termo suicídio deriva do latim e significa “morte de si mesmo” (sui- si mesmo / caedare – ação de</p><p>matar). Mas considera-se suicídio apenas a morte em que o indivíduo executa um ato, de forma consciente e intencional,</p><p>utilizando um meio que ele acredita que determinará sua morte (OMS, 1998). Dessa forma, existem outras atitudes que se</p><p>referem ao desejo ou ato pelo qual uma pessoa busca, propositalmente, causar lesão a si mesmo, que são os</p><p>comportamentos suicidas, e incluem desde a ideação suicida, ameaças, gestos, tentativas de suicídio, até o suicídio</p><p>consumado (BERTOLOTE et al., 2015).</p><p>Apesar de diversas definições e teorias acerca do tema, perpassando por correntes biológicas, psicológicas, sociais</p><p>e filosóficas, o suicídio ainda se figura como um enigma e não há uma explicação universal para compreendê-lo (MINAYO,</p><p>1998).</p><p>Independente do ponto de vista pelo qual é analisado, a dimensão central está relacionada ao sofrimento que este ato</p><p>causa, seja no indivíduo que externaliza o extremo de sua dor, no enfrentamento familiar e nas consequências sociais que</p><p>tal ato provoca.</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>P</p><p>O</p><p>R</p><p>TA</p><p>M</p><p>EN</p><p>TO</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ID</p><p>A</p><p>15</p><p>DEFINIÇÕES3</p><p>16</p><p>É normal, em algum momento da vida, diante de uma dificuldade, pensar-se em resolver determinada situação</p><p>morrendo. Mas quando isso se torna frequente e a pessoa passa a considerá-la seriamente, surgem ideias de morte, de</p><p>estar morto ou de se suicidar, que são caracterizadas como IDEAÇÃO SUICIDA (BARRERO, 1999).</p><p>Para além dos pensamentos de morte, podem surgir falas que demonstram a intenção de cometer o ato suicida,</p><p>configurando as AMEAÇAS DE SUICÍDIO. No entanto, se a pessoa começa a fazer um plano, considerando quando, como</p><p>e onde consumaria o ato e toma providências para concretizar, estamos nos referindo a elaboração de um PLANO SUICIDA</p><p>(SIMONETTI, 2018).</p><p>As TENTATIVAS DE SUICÍDIO estão relacionadas a passagem ao ato, ou seja, quando a pessoa apresenta um</p><p>comportamento autolesivo com um desfecho não fatal, no qual há alguma evidência da intenção de se matar (O'CARROLL</p><p>et al., 1996). Podem ocorrer de maneiras bastante diversas, sendo algumas planejadas com cuidado enquanto outras são</p><p>feitas de maneira impulsiva.</p><p>Já o SUICÍDIO se refere ao ato realizado pela pessoa com o propósito de tirar a própria vida. Shneidman (1993),</p><p>considerado pai da suicidologia moderna, se refere ao suicídio como a resposta a uma necessidade psíquica urgente diante</p><p>de um sofrimento existencial intenso, insuportável e intolerável, sendo compreendido também como tentativa de comunicar</p><p>algo e pedido de ajuda.</p><p>Existem ainda os COMPORTAMENTOS AUTOLESIVOS SEM INTENÇÃO SUICIDA, definidos como ato de ferir a si</p><p>mesmo, deliberadamente, resultando em dano imediato a parte do corpo, sem intenção suicida e não aprovado socialmente</p><p>dentro da própria cultura (QUESADA et al., 2020). Na prática, é alternativa encontrada para aliviar momentaneamente o</p><p>sofrimento, a dor psíquica. Embora se distancie em muitos aspectos do comportamento suicida, existem evidências de que</p><p>indivíduos que se autolesionam apresentam risco aumentado para tentar suicídio posteriormente (FRANKLIN et al., 2017).</p><p>Todas essas formas devem ser exploradas, uma vez que são importantes oportunidades para prevenção do suicídio.</p><p>D</p><p>EF</p><p>IN</p><p>IÇ</p><p>Õ</p><p>ES</p><p>17</p><p>ESTADOS MENTAIS</p><p>ASSOCIADOS AO</p><p>COMPORTAMENTO</p><p>SUICIDA4</p><p>18</p><p>ES</p><p>TA</p><p>D</p><p>O</p><p>S</p><p>M</p><p>EN</p><p>TA</p><p>IS</p><p>A</p><p>SS</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>D</p><p>O</p><p>S</p><p>A</p><p>O</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>P</p><p>O</p><p>R</p><p>TA</p><p>M</p><p>EN</p><p>TO</p><p>S</p><p>U</p><p>IC</p><p>ID</p><p>A</p><p>Existem algumas características que frequentemente estão presentes no comportamento suicida. Compreender e</p><p>atuar sobre elas poderá contribuir para uma abordagem mais adequada e eficiente.</p><p>Ambivalência</p><p>Estado afetivo que se refere ao conflito entre o desejo de morrer e de viver ao mesmo</p><p>tempo. Por isso, é muito comum pessoas com tentativa de suicídio emitirem sinais ou</p><p>informarem sua atitude (BERTOLOTE; MELLO-SANTOS; BOTEGA, 2010).</p><p>Em muitos casos isso pode ser compreendido, equivocadamente, como forma de</p><p>chamar atenção ou haver a desqualificação da real intenção, já que houve a busca por ajuda.</p><p>É importante que a atuação profissional busque fortalecer a parte que deseja viver.</p><p>São reações rápidas e não planejadas de pôr fim ao sofrimento, sem avaliação</p><p>adequada das consequências, normalmente desencadeadas por vivências consideradas</p><p>negativas (BRASIL, 2005; BOTEGA, 2015).</p><p>Essas respostas são passageiras, podendo durar minutos ou horas. Acalmando a</p><p>crise e ganhando tempo, o profissional da saúde pode ajudar a diminuir o risco de suicídio.</p><p>Estado cognitivo em que há falta de flexibilidade e</p><p>perspectiva, pois os pensamentos, sentimentos e ações estão</p><p>rígidos, supervalorizando as dificuldades sem visualizar outras</p><p>soluções para os problemas, encontrando no suicídio a única</p><p>solução (Brasil, 2006). Esse aspecto deve ser levado em</p><p>consideração na hora em que se busca fazer acordo para que a</p><p>pessoa não tente suicídio, já que devido a esse estado mental a</p><p>pessoa pode não conseguir cumprir o combinado. O profissional</p><p>poderá estimular a reflexão para outras formas de solução e</p><p>superação, que não o suicídio.</p><p>Impulsividade</p><p>Constrição</p><p>Mental</p><p>19</p><p>Reflexão</p><p>Você já parou para pensar por que uma pessoa pensa, tenta ou se suicida?</p><p>Muitas vezes, nos deparamos com situações em que as pessoas verbalizam</p><p>um sofrimento que as levou àquele momento. Apenas isso é capaz de explicar</p><p>porque um comportamento suicida acontece?</p><p>20</p><p>MULTICAUSALIDADE</p><p>DO COMPORTAMENTO</p><p>SUICIDA5</p><p>21</p><p>M</p><p>U</p><p>LT</p><p>IC</p><p>A</p><p>U</p><p>SA</p><p>LI</p><p>D</p><p>A</p><p>D</p><p>E</p><p>D</p><p>O</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>P</p><p>O</p><p>R</p><p>TA</p><p>M</p><p>EN</p><p>TO</p><p>S</p><p>U</p><p>IC</p><p>ID</p><p>A</p><p>O suicídio é reconhecido como um fenômeno complexo e multideterminado, isso significa que engloba o papel de</p><p>fatores biológicos, psicológicos, sociais, ambientais e culturais, afetando indivíduos de diferentes origens, classes sociais,</p><p>idades e orientações sexuais (BOTEGA; WERLANG, 2004).</p><p>São diversas as variáveis que se interpenetram, interferindo</p><p>umas nas outras de diferentes maneiras e de acordo com cada pessoa.</p><p>Os motivos aparentes são apenas a gota d'água, o gatilho, o elo final de uma longa cadeia de eventos que interagiram</p><p>entre si, relacionados a situações da vida e com a sensibilidade própria de cada pessoa lidar com as experiências</p><p>vivenciadas (CASSORLA, 2017). Muitas vezes, a própria pessoa sabe pouco sobre seus reais motivos ou nem mesmo</p><p>consegue encontrar explicações e motivações externas para explicar o sofrimento que sente.</p><p>Reduzir o suicídio apenas a um determinado fato (como, por exemplo, porque terminou com a namorada, perdeu</p><p>emprego, ou devido a um transtorno mental) é desconsiderar a complexidade do fenômeno e a história de vida individual e</p><p>social da pessoa que sofre. Por isso, hoje se fala em suicídios, no plural, porque cada um responde ao sofrimento à sua</p><p>maneira, revelando sua forma singular de enfrentamento dos problemas e adversidades (FUKUMITSU, 2019).</p><p>22</p><p>MITOS E</p><p>VERDADES</p><p>SOBRE O</p><p>SUICÍDIO6</p><p>23</p><p>M</p><p>IT</p><p>O</p><p>S</p><p>E</p><p>V</p><p>ER</p><p>D</p><p>A</p><p>D</p><p>ES</p><p>SO</p><p>B</p><p>R</p><p>E</p><p>O</p><p>S</p><p>U</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>EI</p><p>O</p><p>Quando se depara com um comportamento suicida, é muito comum ouvirem-se opiniões sobre a forma de</p><p>compreender esse fenômeno. Existem algumas ideias que são disseminadas e podem levar a uma compreensão</p><p>equivocada acerca desse fato. Por isso, quanto mais se conhece, mais se pode atuar e ajudar pessoas que vivenciam essa</p><p>situação.</p><p>MITOS VERDADES</p><p>Quem quer se matar não avisa. FALSO. A maioria das pessoas dão sinais de suas intenções.</p><p>Pessoas que falam sobre suicídio só</p><p>querem chamar atenção.</p><p>FALSO. A expressão do desejo pelo suicídio sempre deve ser</p><p>levada a sério, pois chama atenção para uma vida que não está</p><p>bem vivida.</p><p>FALSO. Falar sobre suas intenções alivia a angústia e tensão que esses</p><p>pensamentos trazem. A maneira que se aborda é que será o diferencial.</p><p>Fonte: Adaptado de OMS, 2006.</p><p>Suicídio não pode ser prevenido.</p><p>FALSO. Nem todos os suicídios podem ser prevenidos, mas</p><p>reconhecer sinais de alerta e oferecer apoio, ajuda na prevenção da maioria.</p><p>A pessoa que supera uma crise ou sobrevive</p><p>a tentativa de suicídio está fora do perigo.</p><p>FALSO. Muitos suicídios podem ocorrer inclusive no período de melhora.</p><p>Uma vez suicida, sempre suicida. FALSO. Pensamentos podem voltar, mas eles não são permanentes.</p><p>VERDADE. Mas apenas de 7 a 10% das pessoas que pensam em suicídio se matam.</p><p>Suicídio é um ato de coragem.</p><p>Suicídio é um ato de covardia.</p><p>Quem comete suicídio é louco.</p><p>FALSO. Quem tenta ou comete suicídio está em intenso sofrimento existencial.</p><p>Falar sobre suicídio pode estimular o ato</p><p>Pensar em suicídio é comum.</p><p>24</p><p>Reflexão</p><p>É possível prevenir um suicídio?</p><p>É possível atuar para evitar que uma pessoa tire a própria vida?</p><p>25</p><p>7FATORES DE RISCO E</p><p>FATORES DE PROTEÇÃO</p><p>26</p><p>Conhecer os fatores de risco para o suicídio pode auxiliar os profissionais de saúde na</p><p>identificação de situações de perigo e crise, assim como os fatores de proteção contribuem</p><p>para o enfrentamento do risco, potencializando os recursos que a pessoa já possui.</p><p>FATORES DE RISCO</p><p>Os fatores de risco associados ao comportamento suicida não são determinantes, mas encontram-se presentes com</p><p>maior frequência em pessoas que cometeram o ato. Embora esta relação esteja bem estabelecida, diversos suicídios</p><p>ocorrem de maneira impulsiva e em situações de crise, diante da dificuldade em lidar com situações de estresse e</p><p>sofrimento. Os principais fatores de risco para o suicídio são: tentativa de suicídio prévia e transtorno mental (BRASIL,</p><p>2006).</p><p>TENTATIVA DE SUICÍDIO PRÉVIA</p><p>Pessoas com histórico de tentativas de suicídio possuem cinco a seis vezes mais chances de repetir esse</p><p>comportamento (BOTEGA et. al, 2006; BOTEGA, 2015), sendo o perigo maior durante os primeiros meses e anos,</p><p>tendendo a diminuir ao longo do tempo. Por isso, intervir nesse momento é uma das principais estratégias de prevenção.</p><p>TRANSTORNO MENTAL</p><p>Estudos têm demonstrado que grande parcela dos suicídios estava associado a transtornos mentais, sendo os mais</p><p>comuns depressão, transtorno bipolar do humor, alcoolismo/dependência de outras drogas, transtornos de personalidade e</p><p>esquizofrenia (BERTOLOTE; FLEISCHMANN, 2002; SANTOS et. al, 2009). Os casos de comorbidades aumentam ainda</p><p>mais o risco, como por exemplo, depressão e alcoolismo.</p><p>FA</p><p>TO</p><p>R</p><p>ES</p><p>D</p><p>E</p><p>R</p><p>IS</p><p>C</p><p>O</p><p>E</p><p>FA</p><p>TO</p><p>R</p><p>ES</p><p>D</p><p>E</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>TE</p><p>Ç</p><p>Ã</p><p>O</p><p>27</p><p>Figura 2 – Fluxograma referente aos fatores de risco para o suicídio</p><p>- Gênero masculino para</p><p>suicídio e feminino para tentativas;</p><p>- Idade entre 15 e 29 anos e acima</p><p>de 70 anos;</p><p>- Sem filhos;</p><p>- Moradores de áreas urbanas;</p><p>- Desempregados ou aposentados;</p><p>- Isolamento social;</p><p>- Estado civil solteiro, separado</p><p>ou viúvo;</p><p>- Populações especiais: indígenas,</p><p>adolescentes, LGBT e outros.</p><p>- Perdas recentes;</p><p>- Pouca resiliência;</p><p>- Personalidade impulsiva, agressiva</p><p>ou humor instável;</p><p>- Abuso físico ou sexual na infância;</p><p>- Desesperança, desespero e</p><p>desamparo.</p><p>- Doenças orgânicas incapacitantes;</p><p>- Dor crônica;</p><p>- Lesões desfigurantes;</p><p>- Doenças neurológicas (como</p><p>epilepsia e Parkinson);</p><p>- Trauma medular;</p><p>- Tumores malígnos;</p><p>- HIV / AIDS.</p><p>FATORES DE RISCO</p><p>SOCIODEMOGRÁFICO PSICOLÓGICOS CONDIÇÕES CLÍNICAS</p><p>INCAPACITANTES</p><p>Fonte: Adaptado Brasil, 2006</p><p>FA</p><p>TO</p><p>R</p><p>ES</p><p>D</p><p>E</p><p>R</p><p>IS</p><p>C</p><p>O</p><p>E</p><p>FA</p><p>TO</p><p>R</p><p>ES</p><p>D</p><p>E</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>TE</p><p>Ç</p><p>Ã</p><p>O</p><p>28</p><p>Avaliação de Risco para o suicídio</p><p>FA</p><p>TO</p><p>R</p><p>ES</p><p>D</p><p>E</p><p>R</p><p>IS</p><p>C</p><p>O</p><p>E</p><p>FA</p><p>TO</p><p>R</p><p>ES</p><p>D</p><p>E</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>TE</p><p>Ç</p><p>Ã</p><p>O</p><p>Esta é uma importante ferramenta utilizada na abordagem ao comportamento suicida, uma vez que poderá conduzir com um</p><p>melhor direcionamento do caso. Nes e processo, analisa-se a persistência de ideação ou planejamento suicida, se há acesso à s</p><p>forma como planejou, se houve tentativas prévias, presença de comorbidades (transtorno mental ou uso de álcool/ outras drogas),</p><p>se considera que tem razão para viver e se organizou pendências para o caso de sua morte. Deve-se, ainda, atentar para demais</p><p>fatores de risco para o suicídio (BOTEGA, 2015).</p><p>C</p><p>A</p><p>R</p><p>A</p><p>C</p><p>TE</p><p>R</p><p>ÍS</p><p>TI</p><p>C</p><p>A</p><p>S</p><p>RISCO BAIXO RISCO MÉDIO RISCO ALTO</p><p>Não há histórico de tentativas prévias;</p><p>Ideias e pensamentos de morte e suicídio são</p><p>passageiras, mas perturbadoras;</p><p>Não há planejamento.</p><p>Há histórico de tentativa de suicídio;</p><p>Ideação frequente e persistente;</p><p>Não há planejamento.</p><p>Há tentativa prévia e pensamentos persistentes;</p><p>Há planejamento para o suicídio e acesso à forma</p><p>como planejou.</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>Neste caso, é importante abordar os sentimen-</p><p>tos relacionados ao suicídio, conversando com</p><p>do paciente para diminuir a confusão emocio-</p><p>nal. Focar em aspectos positivos da sua perso-</p><p>nalidade e em problemas já enfrentados e</p><p>resolvidos pode restabelecer a confiança.</p><p>A atuação deverá construir alternativas ao</p><p>suicídio na solução dos problemas</p><p>enfrentados.</p><p>Demanda intervenção de emergência, pois é</p><p>considerada uma situação grave.</p><p>Deve-se atentar para objetos perigosos que possam</p><p>ser utilizados contra si e permanecer em leito (local) de</p><p>fácil observação, além de comunicar a equipe envolvida</p><p>nos cuidados e proteção sobre o risco.</p><p>EN</p><p>C</p><p>A</p><p>M</p><p>IN</p><p>H</p><p>A</p><p>M</p><p>EN</p><p>TO</p><p>S</p><p>O usuário deve ser atendido por profissional de</p><p>saúde mental, seja no próprio hospital pelo psi-</p><p>cólogo, ou encaminhado ao serviço de saúde</p><p>mental municipal, com prioridade. Considera-se</p><p>importante verificar a possibilidade de acesso a</p><p>familiares e reforçar este apoio e/ou outros</p><p>suportes sociais (como amigos).</p><p>Nestes casos, faz-se necessário a aborda-</p><p>gem de profissional de saúde mental no</p><p>hospital. Primeiramente o psicólogo realizará</p><p>a abordagem e poderá acionar a rede de</p><p>saúde mental para encaminhamentos con-</p><p>juntos. A família deverá ser comunicada</p><p>sobre os riscos e medidas de prevenção e</p><p>proteção (manter-se perto, evitar acesso a</p><p>meios como armas e medicamentos), de</p><p>preferência com autorização do paciente. A</p><p>internação psiquiátrica não está descartada.</p><p>A psicologia hospitalar deverá realizar abordagem e</p><p>acionar a rede de saúde mental, assim como psiquiatra.</p><p>A família será informada e abordada sobre gravidade</p><p>do quadro. O paciente poderá ser encaminhado para:</p><p>internação psiquiátrica, que em caso de recusa do</p><p>paciente, poderá ser involuntária (ou seja, contra sua</p><p>vontade), devido ao risco de morte em que o mesmo</p><p>pode se colocar; internação domici l iar e/ou</p><p>acompanhamento intensivo em serviço de referência</p><p>em saúde mental. Esses encaminhamentos deverão</p><p>ser discutidos com familiares e, se possível, com o</p><p>usuário, sendo conduzidos pela equipe de saúde.</p><p>Fonte: Elaborado pelos autores com base em Brasil, 2006. 29</p><p>Fatores de proteção</p><p>FA</p><p>TO</p><p>R</p><p>ES</p><p>D</p><p>E</p><p>R</p><p>IS</p><p>C</p><p>O</p><p>E</p><p>FA</p><p>TO</p><p>R</p><p>ES</p><p>D</p><p>E</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>TE</p><p>Ç</p><p>Ã</p><p>O Associado a isso, os fatores de proteção evidenciam que, ao serem reforçadas determinadas ações, observam-se</p><p>menores taxas de comportamento suicida. Estas se referem aos aspectos que conduzem a uma vida saudável e produtiva,</p><p>levando a sensação de bem-estar, pois relacionam-se a habilidades cognitivas, flexibilidade emocional e integração social,</p><p>fornecendo mais recursos e subsídios para lidar com sensação de estresse, o que, consequentemente, leva à redução do</p><p>risco de suicídio (BERTOLOTE, 2012; BOTEGA, 2015; QUESADA, et. al, 2020). equipe de saúde.</p><p>ESTILO COGNITIVO E</p><p>PERSONALIDADE</p><p>ESTILO COGNITIVO E</p><p>PERSONALIDADE</p><p>FATORES DE PROTEÇÃO</p><p>PARA O SUICÍDIO</p><p>FATORES CULTURAIS</p><p>E SOCIAIS</p><p>FATORES</p><p>AMBIENTAISPADRÃO FAMILIAR FATORES DE PROTEÇÃO</p><p>PARA O SUICÍDIO</p><p>Fonte: Elaborado pelos autores</p><p>30</p><p>PAPEL DOS HOSPITAIS GERAIS</p><p>NA PREVENÇÃO, CUIDADO E</p><p>ABORDAGEM A USUÁRIOS</p><p>COM TENTATIVA DE SUICÍDIO8</p><p>31</p><p>PA</p><p>P</p><p>EL</p><p>D</p><p>O</p><p>S</p><p>H</p><p>O</p><p>SP</p><p>IT</p><p>A</p><p>IS</p><p>G</p><p>ER</p><p>A</p><p>IS</p><p>N</p><p>A</p><p>P</p><p>R</p><p>EV</p><p>EN</p><p>Ç</p><p>Ã</p><p>O</p><p>, C</p><p>U</p><p>ID</p><p>A</p><p>D</p><p>O</p><p>E</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>A</p><p>U</p><p>SU</p><p>Á</p><p>R</p><p>IO</p><p>S</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>T</p><p>EN</p><p>TA</p><p>TI</p><p>VA</p><p>D</p><p>E</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO O suicídio é morte imprevisível. Não existe um perfil</p><p>específico de pessoas que se matarão, a não ser, ser humano,</p><p>que em situação de desespero, tem potencial suicida</p><p>(FUKUMITSU, 2019).</p><p>Mas o suicídio pode ser prevenido. Em Saúde Pública,</p><p>prevenção é considerada qualquer medida que vise impedir</p><p>uma doença antes que ela atinja algum indivíduo, evitando,</p><p>então, sua ocorrência (BERTOLOTE, 2012). A prevenção do</p><p>suicídio terá o objetivo de reduzir os comportamentos suicidas,</p><p>diminuindo a chance de um desfecho letal, o que significa</p><p>oferecer outras possibilidades de enfrentamentos das</p><p>dificuldades que levam os indivíduos a buscar neste ato a</p><p>solução para seu sofrimento (BOTEGA et al., 2006).</p><p>Uma das principais estratégias de prevenção do suicídio</p><p>está relacionada à assistência em saúde realizada pelos</p><p>profissionais diante do comportamento suicida, que se encontra</p><p>associada à sua percepção e à sua compreensão sobre esses</p><p>atos.</p><p>Como as tentativas de suicídio estão inseridas nas</p><p>emergências de saúde, o objetivo inicial nessa abordagem</p><p>deve ser a prestação dos primeiros socorros como forma de</p><p>aplacar o risco de morte ou de agravamento do quadro clínico.</p><p>No entanto, apesar do aspecto biológico ser primordial, após</p><p>estabilização clínica, a abordagem de tentativas de suicídio</p><p>deverá incluir a atenção aos outros fatores da vida do paciente,</p><p>buscando compreender o sujeito como um todo, articulado ao</p><p>seu contexto familiar, ao meio ambiente e à sociedade na qual</p><p>está inserido.</p><p>O espaço das emergências, como as portas de entrada</p><p>hospitalares, é considerado local privilegiado para o cuidado e</p><p>prevenção do suicídio, pois uma assistência adequada poderá</p><p>contribuir para a identificação do risco, prevenção de recidivas</p><p>e continuidade do tratamento após alta hospitalar (VIDAL;</p><p>CONTIJO, 2013; GUTIERREZ, 2014; GONÇALVES, SILVA;</p><p>FERREIRA, 2015).</p><p>Qualquer profissional de saúde poderá realizar a</p><p>abordagem inicial a um comportamento suicida, desde que</p><p>possua os conhecimentos adequados para isso. Na maioria</p><p>das vezes são esses profissionais, não especialistas, que</p><p>realizam os primeiros atendimentos e permanecem a maior</p><p>parte do tempo com os usuários, estando em uma posição</p><p>privilegiada de aproximação para atuar de maneira</p><p>significativa. Dessa forma, capacitar profissionais para realizar</p><p>uma abordagem adequada neste momento poderá salvar</p><p>vidas.</p><p>32</p><p>Reflexão</p><p>Quais aspectos devem ser abordados em uma tentativa de suicídio?</p><p>Posso atuar nesse momento? Posso salvar uma vida?</p><p>33</p><p>A IMPORTÂNCIA DA</p><p>QUALIFICAÇÃO DO</p><p>ATENDIMENTO9</p><p>34</p><p>Estudos apontam o reflexo direto do aumento dos casos de suicídio no cotidiano de trabalho dos profissionais de saúde,</p><p>em especial dos que atuam nos serviços de urgência e emergência, como hospitais gerais, pois é para lá que essas pessoas</p><p>são levadas para obtenção dos primeiros socorros, além de funcionarem como espaços de busca por ajuda (FREITAS;</p><p>BORGES, 2014).</p><p>Promover atenção especial a quem tentou suicídio é uma das principais estratégias de prevenção, isso porque dificil-</p><p>mente a pessoa tenta uma única vez, sendo uma tentativa anterior o maior fator de risco para o suicídio (BOTEGA et al., 2006).</p><p>Daí advém a relevância de uma atuação adequada e eficiente neste momento.</p><p>Considerando-se que uma parcela desses usuários permanece internada nos hospitais gerais, é responsabilidade de</p><p>todos os profissionais a realização de uma abordagem de acordo com suas necessidades de saúde, que, no comportamento</p><p>suicida, ultrapassam as demandas apenas físicas e biológicas, devendo alcançar os aspectos psicossociais.</p><p>Além disso, pesquisas demonstram que a incidência de suicídios em hospitais gerais é alta, sendo de 3 a 5 vezes maior</p><p>que na população geral, estando o preparo da equipe dentre os fatores de proteção para esta condução (MARTELI; AWAD;</p><p>HARDY, 2010). Isso se deve ao fato de que esses pacientes estão sujeitos a diversas causas situacionais de aumento de ansi-</p><p>edade e depressão relacionadas a hospitalização e adoecimento, como: reações ao diagnóstico, agravamento de condições</p><p>clínicas preexistentes, discussões sobre prognóstico, espera por resultados, medo da dor e da morte, medo de recorrência</p><p>após a completude de um determinado tratamento e eventuais conflitos com família e equipe, e outros (BOTEGA; RAPELI;</p><p>CAIS, 2012).</p><p>Apesar de muitos hospitais contarem com profissionais especialistas para realizar esses atendimentos, o suicídio</p><p>extrapola os limites da psicologia e da psiquiatria de tal forma que todos profissionais de saúde são essenciais para sua</p><p>prevenção (BOTEGA, 2005).</p><p>A</p><p>IM</p><p>P</p><p>O</p><p>R</p><p>TÂ</p><p>N</p><p>C</p><p>IA</p><p>D</p><p>A</p><p>Q</p><p>U</p><p>A</p><p>LI</p><p>FI</p><p>C</p><p>A</p><p>Ç</p><p>Ã</p><p>O</p><p>D</p><p>O</p><p>A</p><p>TE</p><p>N</p><p>D</p><p>IM</p><p>EN</p><p>TO</p><p>35</p><p>Reflexão</p><p>Nesse momento, propomos uma reflexão diferente.</p><p>Imagine ou recorde um momento em que você ou um</p><p>familiar / alguém próximo foi atendido em um hospital ou</p><p>outro serviço de saúde.</p><p>Procure lembrar o que você vivenciou, como você se sentiu...</p><p>O que você esperava do atendimento e como foi realizado...</p><p>Lembre-se das pessoas que cuidaram de você, quem eram elas.</p><p>Você se sentiu cuidado?</p><p>36</p><p>ABORDAGEM A USUÁRIOS COM</p><p>TENTATIVA DE SUICÍDIO EM</p><p>HOSPITAIS GERAIS10</p><p>37</p><p>O primeiro contato com o usuário é considerado de extrema importância, pois a forma como essa abordagem é</p><p>realizada poderá contribuir para uma condução efetiva do caso.</p><p>Neste sentido, dois conceitos vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS) poderão contribuir para reflexão sobre o</p><p>atendimento ao paciente com comportamento suicida no hospital geral, além de possibilitar o fortalecimento de atitudes</p><p>voltadas para a humanização deste cuidado ao favorecer a organização do processo de trabalho em saúde, são eles: a</p><p>integralidade do cuidado e o acolhimento.</p><p>Considerado um dos mais importantes princípios do SUS, a integralidade do cuidado está relacionada à</p><p>compreensão integral do ser humano, que significa entender o usuário inserido em seu contexto social e, a partir daí,</p><p>atender às demandas e necessidades específicas desta pessoa. A ação integral em saúde está associada à escuta</p><p>qualificada, cuidado, acolhimento, tratamento digno e respeitoso, por meio do olhar ao ser humano como um todo,</p><p>substituindo o foco na doença pela atenção à pessoa, com sua história de vida e seu modo próprio de viver e adoecer</p><p>(PINHEIRO, 2009).</p><p>Já o acolhimento, diretriz da Política Nacional de Humanização, é compreendido como uma ferramenta tecnológica</p><p>relacional (relação estabelecida entre profissional e usuário), para a qual não há local e hora para acontecer e nem</p><p>profissional específico para realizar, e implica na escuta do usuário em suas queixas, na construção de vínculos, garantia e</p><p>acesso com responsabilização e resolutividade dos serviços (BRASIL, 2003). Pode ser considerada a mais importante</p><p>tecnologia de um serviço de emergência, pois possibilita a escuta ativa e qualificada pelo profissional, favorecendo a</p><p>empatia, a construção de vínculos e oferecendo-lhe cuidado integral com respostas adequadas e resolutivas (GUTIEREZ,</p><p>2014).</p><p>Compreender o usuário como um ser integral e realizar o acolhimento poderá ser um grande diferencial, pois, ao</p><p>contrário do que se imagina, falar com o paciente sobre suicídio não o incentiva a se matar, podendo, inclusive, ter efeito</p><p>protetor, já que pode favorecer o sentimento de segurança e conforto por poder conversar sobre assuntos que lhe causam</p><p>incômodo (DAUTD et al., 2014). Sendo assim, é importante reservar tempo, estar presente e se disponibilizar a ouvir</p><p>atentamente o paciente, mostrando empatia e respeito por seus valores e atos, sem fazer julgamentos.</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>A</p><p>U</p><p>SU</p><p>Á</p><p>R</p><p>IO</p><p>S</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>T</p><p>EN</p><p>TA</p><p>TI</p><p>VA</p><p>D</p><p>E</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO</p><p>E</p><p>M</p><p>H</p><p>O</p><p>SP</p><p>IT</p><p>A</p><p>IS</p><p>G</p><p>ER</p><p>A</p><p>IS</p><p>38</p><p>PRIMEIROS SOCORROS</p><p>PSICOLÓGICOS (PSP) NA ABORDAGEM</p><p>A USUÁRIOS COM TENTATIVA DE</p><p>SUICÍDIO EM HOSPITAIS GERAIS11</p><p>39</p><p>P</p><p>R</p><p>IM</p><p>EI</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>SO</p><p>C</p><p>O</p><p>R</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>O</p><p>LÓ</p><p>G</p><p>IC</p><p>O</p><p>S</p><p>(P</p><p>SP</p><p>) N</p><p>A</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>A</p><p>U</p><p>SU</p><p>Á</p><p>R</p><p>IO</p><p>S</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>T</p><p>EN</p><p>TA</p><p>TI</p><p>VA</p><p>D</p><p>E</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO</p><p>E</p><p>M</p><p>H</p><p>O</p><p>SP</p><p>IT</p><p>A</p><p>IS</p><p>G</p><p>ER</p><p>A</p><p>IS</p><p>Assim como existem os primeiros socorros destinados à prestação de cuidados imediatos a pessoas com</p><p>desestabilização do estado físico, existem os primeiros socorros psicológicos. Ambos podem ser realizados por qualquer</p><p>pessoa, desde que obtenha os conhecimentos necessários para isso.</p><p>O que é?</p><p>É um cuidado psicológico precoce e imediato, com a proposta de aliviar uma situação de sofrimento agudo da pessoa</p><p>em crise, com desestabilidade emocional ou em estresse agudo. É um cuidado empático e não invasivo, ou seja, possibilita</p><p>a expressão da dor da forma como a pessoa quiser e puder, diante de uma situação de sofrimento (OMS, 2015).</p><p>Quem pode aplicar?</p><p>Qualquer pessoa pode oferecer esse acolhimento, desde que tenha os conhecimentos necessários, além de</p><p>condições físicas e psicológicas (OMS, 2015).</p><p>O que não é?</p><p>Não é feito somente por profissionais</p><p>Não é atendimento psicológico</p><p>Não é imposição de ajuda</p><p>Quando oferecer?</p><p>Em situações de emergências e/ou crises, que podem ser comunitárias ou individuais,</p><p>como em desastres, atentados, pandemias, acidentes, perdas significativas, violência e crises</p><p>individuais, como nas tentativas de suicídio.</p><p>40</p><p>P</p><p>R</p><p>IM</p><p>EI</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>SO</p><p>C</p><p>O</p><p>R</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>O</p><p>LÓ</p><p>G</p><p>IC</p><p>O</p><p>S</p><p>(P</p><p>SP</p><p>) N</p><p>A</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>A</p><p>U</p><p>SU</p><p>Á</p><p>R</p><p>IO</p><p>S</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>T</p><p>EN</p><p>TA</p><p>TI</p><p>VA</p><p>D</p><p>E</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO</p><p>E</p><p>M</p><p>H</p><p>O</p><p>SP</p><p>IT</p><p>A</p><p>IS</p><p>G</p><p>ER</p><p>A</p><p>IS</p><p>PASSOS PARA ATUAÇÃO DOS PRIMEIROS</p><p>SOCORROS PSICOLÓGICOS (OMS, 2015; COUTO; SANTOS, 2011).</p><p>O primeiro passo no atendimento ao comportamento suicida deve ser o cuidado físico, com objetivo de cessar o risco</p><p>de morte ou de agravamento do estado físico. Após isso, é possível abordar os demais aspectos envolvidos, devendo</p><p>verificar se o usuário se encontra em condições de receber os PSP. Em caso positivo, inicia-se a abordagem após acessar</p><p>os atendimentos e cuidados ofertados até o momento, assim como dados sobre o que o levou àquele momento.</p><p>Ao se deparar com uma pessoa em sofrimento psíquico, pode-se encontrar diferentes atitudes, desde a expressão</p><p>de emoções como tristeza, choro, ansiedade, medo, como pessoas com recusa à abordagem e comportamento</p><p>agressivo/hostil, pessoas com comportamento incongruente, ou até mesmo pessoas que não conseguem expressar suas</p><p>emoções e pensamentos. Assim sendo, torna-se essencial a observação sobre a situação que ocorre. Nesse processo, a</p><p>comunicação é importante ferramenta, isso porque a forma como ela se desenvolve poderá contribuir para que a pessoa se</p><p>sinta compreendida, segura, protegida e respeitada, favorecendo o processo de cuidado.</p><p>Os passos apresentados a seguir se referem, de forma didática, à ideia geral da estratégia PSP. Portanto, não</p><p>precisam ser seguidos sequencialmente, assim como realizados em sua totalidade. A intenção é que possibilite a reflexão</p><p>sobre formas de abordar os aspectos subjetivos e sociais, presentes em todo processo de desestabilização, seja de ordem</p><p>física ou psíquica.</p><p>41</p><p>P</p><p>R</p><p>IM</p><p>EI</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>SO</p><p>C</p><p>O</p><p>R</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>O</p><p>LÓ</p><p>G</p><p>IC</p><p>O</p><p>S</p><p>(P</p><p>SP</p><p>) N</p><p>A</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>A</p><p>U</p><p>SU</p><p>Á</p><p>R</p><p>IO</p><p>S</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>T</p><p>EN</p><p>TA</p><p>TI</p><p>VA</p><p>D</p><p>E</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO</p><p>E</p><p>M</p><p>H</p><p>O</p><p>SP</p><p>IT</p><p>A</p><p>IS</p><p>G</p><p>ER</p><p>A</p><p>IS</p><p>OBSERVAR</p><p>1. Observe e avalie a situação (verifique se a pessoa está em condições de abordagem).</p><p>O primeiro passo no atendimento ao comportamento suicida deve ser o cuidado físico, com objetivo de cessar o</p><p>risco de morte ou de agravamento do estado físico. Após isso, é possível abordar os demais aspectos envolvidos.</p><p>Observe se o usuário se encontra em condições de receber os PSP.</p><p>2. Esteja atento para singularidade da pessoa e suas necessidades mais imediatas.</p><p>A preparação inicial se refere ao respeito pelo ser humano, na sua dor, nos seus atos e na sua forma de expressar.</p><p>Deve-se respeitar sua falta de sentido, sua condição emocional e a situação de vida que o levou até ali, sem</p><p>julgamentos e sem minimizar o sofrimento. Neste momento, é importante trazer para reflexão os sentimentos que o</p><p>atendimento à pessoa com tentativa de suicídio desperta em você, de forma que eles não interfiram em sua</p><p>abordagem. Diante do sentimento de raiva, por exemplo, posso não conseguir compreender que há sofrimento</p><p>existencial, ao passo que se sinto pena, posso desqualificar a capacidade de superação do outro.</p><p>42</p><p>P</p><p>R</p><p>IM</p><p>EI</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>SO</p><p>C</p><p>O</p><p>R</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>O</p><p>LÓ</p><p>G</p><p>IC</p><p>O</p><p>S</p><p>(P</p><p>SP</p><p>) N</p><p>A</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>A</p><p>U</p><p>SU</p><p>Á</p><p>R</p><p>IO</p><p>S</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>T</p><p>EN</p><p>TA</p><p>TI</p><p>VA</p><p>D</p><p>E</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO</p><p>E</p><p>M</p><p>H</p><p>O</p><p>SP</p><p>IT</p><p>A</p><p>IS</p><p>G</p><p>ER</p><p>A</p><p>IS ESCUTAR</p><p>3. Apresente-se, explicando quem é e o que faz. Comunique-se de forma adequada, com calma e</p><p>tranquilidade, sem usar termos técnicos.</p><p>Diga seu nome e sua função no hospital.</p><p>Ex: Boa tarde. Eu sou Cristina, psicóloga do hospital.</p><p>4. Ofereça sua escuta. Faça perguntas respeitosas e simples (não por curiosidade), e não pressione a</p><p>falar:</p><p>Ex.: “Você gostaria de conversar?”</p><p>“Como você se sente?”</p><p>“Você gostaria de falar sobre o que aconteceu?”</p><p>Atos comuns de cortesia podem facilitar a aproximação, como oferecer um copo d'água ou um lenço de papel</p><p>quando estiver chorando.</p><p>5. Escute os sentimentos e pensamentos sem emitir opiniões pessoais e julgamentos.</p><p>Disponibilizar-se a escutar o outro exige presença, acolhimento e ausência de julgamento. Isso por si só já é</p><p>terapêutico. É preciso deixar de lado preconceitos, crenças e valores pessoais e estar aberto ao que a pessoa quer falar e</p><p>transmitir naquele momento de vida.</p><p>43</p><p>P</p><p>R</p><p>IM</p><p>EI</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>SO</p><p>C</p><p>O</p><p>R</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>O</p><p>LÓ</p><p>G</p><p>IC</p><p>O</p><p>S</p><p>(P</p><p>SP</p><p>) N</p><p>A</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>A</p><p>U</p><p>SU</p><p>Á</p><p>R</p><p>IO</p><p>S</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>T</p><p>EN</p><p>TA</p><p>TI</p><p>VA</p><p>D</p><p>E</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO</p><p>E</p><p>M</p><p>H</p><p>O</p><p>SP</p><p>IT</p><p>A</p><p>IS</p><p>G</p><p>ER</p><p>A</p><p>IS ESCUTAR</p><p>Falar não provoca suicídio, porque o sofrimento é existencial e está na pessoa que sente, mas a fala reduz a ansiedade e a</p><p>angústia, promovendo alívio e sensação de conforto.</p><p>Realize a avaliação de risco.</p><p>6. Escute os sentimentos e pensamentos sem emitir opiniões pessoais e julgamentos.</p><p>Disponibilizar-se</p><p>a escutar o outro exige presença, acolhimento e ausência de julgamento. Isso por si só já é</p><p>terapêutico. É preciso deixar de lado preconceitos, crenças e valores pessoais e estar aberto ao que a pessoa quer</p><p>falar e transmitir naquele momento de vida.</p><p>É essencial dar importância e demonstrar interesse, preocupação e desejo de ajudar. Isso já é um fator de</p><p>proteção para o suicídio e facilita a construção do vínculo e adesão ao tratamento durante a hospitalização e após alta.</p><p>Falar não provoca suicídio, porque o sofrimento é existencial e está na pessoa que sente, mas a fala reduz a</p><p>ansiedade e a angústia, promovendo alívio e sensação de conforto.</p><p>Realize a avaliação do risco durante esta etapa.</p><p>44</p><p>P</p><p>R</p><p>IM</p><p>EI</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>SO</p><p>C</p><p>O</p><p>R</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>O</p><p>LÓ</p><p>G</p><p>IC</p><p>O</p><p>S</p><p>(P</p><p>SP</p><p>) N</p><p>A</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>A</p><p>U</p><p>SU</p><p>Á</p><p>R</p><p>IO</p><p>S</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>T</p><p>EN</p><p>TA</p><p>TI</p><p>VA</p><p>D</p><p>E</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO</p><p>E</p><p>M</p><p>H</p><p>O</p><p>SP</p><p>IT</p><p>A</p><p>IS</p><p>G</p><p>ER</p><p>A</p><p>IS ESCUTAR</p><p>7. Não fale de você, não ofereça solução. Pergunte como pode ajudar. Às vezes, a única coisa que a pessoa</p><p>precisa é desabafar ou compartilhar seus sentimentos e frustrações.</p><p>Cuidar envolve atenção às necessidades do outro. Não se ajuda levando em conta nossa maneira, mas sim a forma</p><p>como a pessoa se sente à vontade e necessita. Se quer ajudar, pergunte como a pessoa deseja ser ajudada. Se quer</p><p>cuidar, pergunte como a pessoa precisa ser cuidada.</p><p>Ex.: “Como posso te ajudar?”</p><p>“Tem algo de que você precisa neste momento que eu possa ajudar? “</p><p>45</p><p>P</p><p>R</p><p>IM</p><p>EI</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>SO</p><p>C</p><p>O</p><p>R</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>O</p><p>LÓ</p><p>G</p><p>IC</p><p>O</p><p>S</p><p>(P</p><p>SP</p><p>) N</p><p>A</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>A</p><p>U</p><p>SU</p><p>Á</p><p>R</p><p>IO</p><p>S</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>T</p><p>EN</p><p>TA</p><p>TI</p><p>VA</p><p>D</p><p>E</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO</p><p>E</p><p>M</p><p>H</p><p>O</p><p>SP</p><p>IT</p><p>A</p><p>IS</p><p>G</p><p>ER</p><p>A</p><p>IS ESCUTAR</p><p>8. Procure tranquilizar de forma realista. Não tente remediar ou dar falsas esperanças.</p><p>EVITE</p><p>“isso vai passar logo”</p><p>“eu no seu lugar faria...”</p><p>“as coisas não são tão ruins”</p><p>“você tem que se esforçar”</p><p>PREFIRA</p><p>“estou aqui com você”</p><p>“eu imagino que não deva ser</p><p>fácil enfrentar isso”</p><p>“posso fazer algo por você?”</p><p>“o que você precisa?”</p><p>APROXIMAR</p><p>9. Verifique outras necessidades (ofereça assistência prática como alimentação, água,</p><p>informações, contatos).</p><p>46</p><p>P</p><p>R</p><p>IM</p><p>EI</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>SO</p><p>C</p><p>O</p><p>R</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>O</p><p>LÓ</p><p>G</p><p>IC</p><p>O</p><p>S</p><p>(P</p><p>SP</p><p>) N</p><p>A</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>A</p><p>U</p><p>SU</p><p>Á</p><p>R</p><p>IO</p><p>S</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>T</p><p>EN</p><p>TA</p><p>TI</p><p>VA</p><p>D</p><p>E</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO</p><p>E</p><p>M</p><p>H</p><p>O</p><p>SP</p><p>IT</p><p>A</p><p>IS</p><p>G</p><p>ER</p><p>A</p><p>IS APROXIMAR</p><p>10. Estimule a conexão com a rede de apoio: família, amigos e comunidade.</p><p>Relacionamentos familiares e sociais são considerados fatores de proteção para o suicídio sendo importante</p><p>estimulá-los. Em muitos momentos o usuário pode não conseguir reconhecer incialmente pessoas em quem sente</p><p>confiança, sendo necessário ajudá-lo a identificar.</p><p>11. Ajude a encontrar estratégias para enfrentar a situação vivenciada, tentando remeter a mecanismos</p><p>usados no passado pela pessoa e não o que você considera que será bom ou o que é bom para você.</p><p>Devido à rigidez de pensamento, é comum as pessoas com comportamento suicida não conseguirem visualizar</p><p>outras possibilidades em sua vida. Estimular essa reflexão poderá contribuir para o enfrentamento da dor. Lembre-a de</p><p>situações difíceis já vivenciadas e que ela superou e a forma como realizou isso. Reforce os fatores de proteção. Nesta</p><p>etapa, pode-se recorrer a utilização do Plano de segurança (Anexo 1)</p><p>12. Conecte com serviços disponíveis necessários no momento ou no futuro, como especialistas.</p><p>Algumas pessoas precisarão de apoio especializado, para além do PSP.</p><p>Considerando-se que uma tentativa de suicídio anterior é o maior fator de risco para o suicídio, deve-se</p><p>encaminhar para o atendimento com especialista, seja no próprio serviço de saúde em que se encontra em atendimento</p><p>(psicologia ou psiquiatria) ou para serviços ambulatoriais, como CAPS e Unidades de Saúde da Família. Forneça contato</p><p>de centros e serviços de emergência também podem ser úteis para situações futuras (CVV, SAMU, Corpo de Bombeiros).</p><p>47</p><p>P</p><p>R</p><p>IM</p><p>EI</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>SO</p><p>C</p><p>O</p><p>R</p><p>R</p><p>O</p><p>S</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>O</p><p>LÓ</p><p>G</p><p>IC</p><p>O</p><p>S</p><p>(P</p><p>SP</p><p>) N</p><p>A</p><p>A</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>G</p><p>EM</p><p>A</p><p>U</p><p>SU</p><p>Á</p><p>R</p><p>IO</p><p>S</p><p>C</p><p>O</p><p>M</p><p>T</p><p>EN</p><p>TA</p><p>TI</p><p>VA</p><p>D</p><p>E</p><p>SU</p><p>IC</p><p>ÍD</p><p>IO</p><p>E</p><p>M</p><p>H</p><p>O</p><p>SP</p><p>IT</p><p>A</p><p>IS</p><p>G</p><p>ER</p><p>A</p><p>IS</p><p>13. Deixe-se disponível.</p><p>Em muitos momentos o que a pessoa precisa é se sentir acolhido e compreendido. A simples presença e a</p><p>disponibilidade ajudam na reorganização interna, dão conforto e referência. Quanto mais se demonstra</p><p>compreensão, mais é organizativo e terapêutico.</p><p>48</p><p>APROXIMAR</p><p>Caso 1- Pedro tem 25 anos, conheceu Ana e estão apaixonados. Iniciaram o namoro, mas mesmo sem razões</p><p>aparentes, ele se mostra inseguro e sente ciúmes de suas amigas e atividades. Diante dessas atitudes, após algumas</p><p>tentativas e conversas, Ana decide por romper o relacionamento. Pedro entra em desespero e não se conforma,</p><p>chegando a utilizar todos os recursos para tentar reconquistá-la. Sem sucesso, o tempo vai passando e a persistência</p><p>de sentimentos se mantém, atrapalhando suas rotinas de estudo e suas relações com amigos e família, já que se</p><p>isolou de tudo. Pedro começa a pensar que a morte poderia aliviar seu sofrimento. Com o passar dos dias, inicia</p><p>pensamentos de como poderia se suicidar, até que realiza um plano e tenta suicídio por meio da ingestão de calmantes</p><p>naturais. Ao tomar essa atitude, Pedro envia uma mensagem para uma amiga, despedindo-se dela e agradecendo por</p><p>ter lhe dado apoio nesse período difícil. Desconfiada, a amiga resolve ir à casa de Pedro, porém o encontra sonolento e</p><p>decide levá-lo ao hospital da cidade.</p><p>Após atendimento no hospital, Pedro foi encaminhado para continuidade do tratamento no CAPS da cidade.</p><p>Durante esse acompanhamento, descobriu-se que Pedro foi uma criança rejeitada na infância. Filho de pais</p><p>separados, aos 2 anos foi abandonado pela mãe, que nunca mais apareceu. O pai, diante do abandono, distanciou-se</p><p>de Pedro, que acabou sendo criado pela avó. Apesar dos cuidados e carinhos recebidos por esta familiar, Pedro não se</p><p>sentia desejado por seus pais, sentindo-se rejeitado e inseguro com o medo do abandono. Assim, de maneira</p><p>inconsciente, reproduzia em seus relacionamentos os sentimentos vivenciados e internalizados na infância, o que</p><p>acabava por interferir negativamente nas relações estabelecidas.</p><p>Lembrando dos conceitos sobre o comportamento suicida e da multicausalidade presente no suicídio, propõe-se a</p><p>reflexão desta situação.</p><p>Para refletir</p><p>49</p><p>Caso 2- Henrique chegou ao hospital levado pelo SAMU após chamado da família. Encontrava-se alcoolizado e</p><p>com cortes nos braços. Ainda agitado, referia desejo de morrer e, expressando-se de forma agressiva, falava para que</p><p>ninguém chegasse perto dele pois não queria nenhum tipo de ajuda. Estava acompanhado da irmã, mas pedia pela</p><p>mãe que se encontrava nervosa do lado de fora. Já passava de 20h. Como poderíamos conduzir esse caso, nos</p><p>remetendo ao aprendizado relacionado ao Primeiros Socorros Psicológicos?</p><p>Caso 3 – Fernanda tem 21 anos e já é acompanhada pelo CAPS há muitos anos. Seu diagnóstico ainda é</p><p>impreciso, tendo como hipótese transtorno bipolar do humor e transtorno de personalidade. Fernanda é atendida com</p><p>frequência no hospital, com tentativas de suicídio. Geralmente trazida pelo SAMU, ela ameaça se jogar da ponte da</p><p>cidade. Nunca chegou a fazê-lo. Seu afeto encontra-se incongruente com a situação, pois falava de sua intenção de se</p><p>matar sorrindo. Ao ser questionada sobre o ocorrido, dizia que queria morrer pois havia tido uma briga com a mãe.</p><p>Disse que sempre que se depara com situações difíceis entra em crise e acaba agindo sem pensar muito, vendo no</p><p>suicídio uma forma de reduzir seu sofrimento. Ela não planeja, mas já é a quinta vez que tenta e diz que na hora da</p><p>crise não consegue pensar em outras alternativas.</p><p>Refletindo sobre as características do comportamento suicida, os primeiros socorros psicológicos e considerando a</p><p>avaliação de risco e o plano de segurança na abordagem do comportamento</p><p>suicida, de que forma essas estratégias</p><p>poderiam contribuir com a condução inicial do caso?</p><p>Para refletir</p><p>50</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BIBLIOGRÁFICAS12</p><p>51</p><p>ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA. Suicídio: informando para prevenir. Brasília: CFM/ABP, 2014.</p><p>BARRERO, S.A.P. El suicidio, comportamiento y prevención. Rev Cubana Med Gen Integr, CIDADE, v.15, n.2, p. 196-217,</p><p>1999.</p><p>BERTOLOTE, J.M; FLEISCHMANN, A. Suicide and psychiatric diagnosis: A worldwide perspective. World Psychiatry, v.1, p.</p><p>181-185, 2002.</p><p>BERTOLOTE, J. M; MELLO-SANTOS, C.; BOTEGA, N.J. Detecção do risco de suicídio nos serviços de emergência</p><p>psiquiátrica. Revista Brasileira de psiquiatria [on line], vol 32, suppl. 2, p. S87-S95, 2010.</p><p>BERTOLOTE, J.M. O suicídio e sua prevenção. São Paulo: Unesp, 2012.</p><p>BOTEGA, J.N et al. Comportamento suicida na comunidade: prevalência e fatores associados à ideação suicida. Rev. Bras.</p><p>Psiquiatr. [online]. 2005, vol.27, n.1, pp.45-53</p><p>BOTEGA, J. N. et al. Prevenção do comportamento suicida. Psico, Porto alegre, vol. 37, n 3, p. 213-220, set/dez., 2006.</p><p>BOTEGA, N.J.; RAPELI, C.B.; CAIS, C.F.S. Comportamento suicida. In: BOTEGA, N.J (Org). Prática Psiquiátrica no</p><p>hospital geral: interconsulta e emergência. 3.ed. Porto Alegre: Artmed, 2012, p.335-355.</p><p>BOTEGA, N. J. Crise Suicida. Avaliação e manejo. Porto Alegre: Artmed, 2015.</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde. HumanizaSUS. Política Nacional de Humanização. Brasília: Ministério da Saúde, 2003.</p><p>BRASIL, Ministério da Saúde. Prevenção do suicídio. Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental.</p><p>Universidade Estadual de campinas, 2006.</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual instrutivo de preenchimento da ficha de</p><p>notificação/investigação de violência doméstica, sexual e outras violências. Brasília, 2009.</p><p>BRYAN, C.J; RUDD, M.D. Brief Cognitive Behavioral Therapy for suicide prevention. Omega-Journal of death an dying, p. 1-</p><p>4, 2019.</p><p>52</p><p>CASSORLA, R.M.S. Suicídio. Fatores inconscientes e aspectos socioculturais: uma introdução. São Paulo: Blucher, 2017.</p><p>COUTO, M.H; SANTOS, R.C. Cartilha de Apoio Psicossocial Cruz Vermelha Brasileira. Disponível em:</p><p>< >. www.ifrc.org/psychosocial</p><p>DAUDT, A.D., et al. Manejo em emergência do paciente suicida. 2014.</p><p>FRANKLIN, J.C., NOCK, M.K. Nonsuicidal self-injury and its relation to suicidal behavior. New York: Oxford University Press.</p><p>2017.</p><p>FREITAS, A.P.A; BORGES, L.M. Do acolhimento ao encaminhamento: O atendimento às tentativas de suicídio nos</p><p>contextos hospitalares. Estud. psicol., vol.22, n.1, p. 50-60, mar. 2017.</p><p>FUKUMITSU, K. O. Programa RAISE. Gerenciamenro de crises, prevenção e pósvenção do suicídio em escolas. São Paulo:</p><p>Phorte, 2019.</p><p>GONÇALVES, P.I.E; SILVA, R.A.; FERREIRA, L.A. Comportamento suicida: percepções e práticas de cuidado? Psicol.</p><p>hosp., vol. 13, n. 2, p. 64 - 87, ago. 2015.</p><p>GUTIERREZ, B.A.O. Assistência hospitalar na tentativa de suicídio. Psicol. USP [online], vol.25, n.3, p.262-269, 2014.</p><p>HENRIQUES, G.; BECK, A.T; BROWN, G.K. Cognitive therapy for adolescente and Young adult suicide attempters.</p><p>American Behavioral Scientist, v. 46, p. 1258-1268.</p><p>MARTELLI, C. AWAD, H.; HARDY, In-patients suicide: epidemiology and prevention. Encephale, v. 32, n. 5, p. 351-359.</p><p>MINAYO, M. C. S. A autoviolência, objeto da sociologia e problema de saúde pública: a sociological concern and a public</p><p>health problem. Caderno de Saúde Pública [on line], v.14, n. 2, p. 421-428, 1998.</p><p>MINOIS, G. História do suicídio. A sociedade ocidental diante da morte voluntária. São Paulo: Unesp, 2018.</p><p>O'CARROLL, P.W., et al. Beyond the tower of Babel: A nomenclature for suicidology. Suicide and Life-Threatening Behavior,</p><p>v. 26, n. 3, 1996.</p><p>ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS). Prevenção do suicídio: um manual para médicos clínicos gerais. Genebra,</p><p>2000.</p><p>ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. War Trauma Fundation e Visão Global Internacional. Primeiros Cuidados</p><p>Psicológicos: guia para trabalhadores de campo. Genebra: OMS. 2015</p><p>53</p><p>http://www.ifrc.org/psychosocial</p><p>ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. OPAS/OMS Brasil, 2018. Folha informativa – Suicídio. Disponível em:</p><p><https: / /www.paho.org/bra/ index.php?opt ion=com_content&view=art ic le&id=5671:folha- informat iva-</p><p>suicidio&Itemid=839>. Acesso em: 20 jun 2019.</p><p>PINHEIRO, R. Integralidade. In: Dicionário da Educação Profissional em Saúde. Disponível em:</p><p>< >.http://www.epsjv.fiocruz.br/dicionário/verbetes/intsau.html</p><p>QUESADA, A.A., et al. Noções gerais sobre automutilação. Fortaleza: Fundação Demétrio Rocha, 2020.</p><p>SHNEIDMAN, E.S. Suicide as psycache. The jornal of nervous and mental disease, v 181, p. 147-149, 1993.</p><p>SCHREIBER, J., CULPEPPER, L. Suicidal ideation and behavior in adults. Waltham: UptoDate, 2019.</p><p>SIMONETTI, A. Manual de psicologia hospitalar: o mapa da doença. São Paulo: Casa do psicólogo, 2016.</p><p>VIDAL, C.E.L.; GONTIJO, E. D. Tentativas de suicídio e o acolhimento nos serviços de urgência: a percepção de quem</p><p>tenta. Cad. saúde colet. [online], vol.21, n.2, p.108-114, 2013.</p><p>WENZEL, A.; BROWN, G.K; BECK, A.T. Terapia cognitivo-comportamental para pacientes suicidas. Porto Alegre: Artmed.</p><p>WERLANG, B.S.G., BOTEGA, N. J. (Orgs.). Comportamento suicida. Porto Alegre: Art-Med, 2004.</p><p>54</p><p>http://www.epsjv.fiocruz.br/dicion�rio/verbetes/intsau.html</p><p>Anexo 1</p><p>Plano de Segurança - Uma estratégia</p><p>possível para salvar vidas</p><p>O plano de segurança se refere a uma estratégia da teoria psicológica cognitivo-comportamental, baseado na ideia</p><p>de que a crise é passageira, buscando, por meio de atividades estruturadas, criar tempo para que a pessoa em sofrimento</p><p>possa lidar com o momento crítico (SCHREIBER; CULPEPPER, 2019).</p><p>Construído em conjunto pelo profissional e usuário, este deve ser auxiliado a descobrir e registrar no papel,</p><p>preferencialmente à mão, maneiras positivas de reagir diante de uma situação de crise (HENRIQUES; BECK; BROWN,</p><p>2003; WENZEL; BROWN; BECK, 2010). O documento deve permanecer com o usuário e estar em local facilmente</p><p>acessível para momentos de angústia e de risco, como uma foto no celular ou guardado na carteira, tendo sua aplicação</p><p>incentivada diante de pensamentos e comportamentos suicidas.</p><p>A utilização efetiva do plano de segurança, poderá contribuir com a redução em até 76% na realização de uma nova</p><p>tentativa de suicídio nos próximos seis meses (BRYAN; RUDD, 2018).</p><p>Para iniciar a construção do plano de segurança, é importante que o profissional primeiramente procure estabelecer</p><p>uma relação de confiança com o paciente, mantendo-se próximo e disponível, buscando compreender seus sentimentos e</p><p>não expressar julgamentos e opiniões pessoais (BOTEGA, 2015).</p><p>55</p><p>ITENS QUE COMPÕE O PLANO DE SEGURANÇA (HENRIQUES et al., 2003; WENZEL et al., 2010; BOTEGA, 2015)</p><p>1- Sinais de alerta (listar situações e/ou gatilhos que costumam desencadear ideação suicida).</p><p>Questionamentos possíveis:</p><p>Você consegue identificar o que acontece quando a crise se aproxima?</p><p>O que é gatilho para iniciar uma crise?</p><p>2- Identificação de formas de enfrentamento (como lidar com pensamentos e momentos de angústia)</p><p>Questionamentos possíveis:</p><p>Quando a crise chega, o que você faz para lidar com ela?</p><p>Observação 1- Estimule a pensar em formas de relaxar e distrair, mas que não seja algo negativo.</p><p>Observação 2- Lembrete para afastar meios que possam ser utilizados para autoagressão.</p><p>3- Razões para viver (registrar uma ou mais razões para continuar vivo)</p><p>Questionamentos possíveis:</p><p>O que te faz se manter vivo?</p><p>O que te motiva a ainda estar aqui?</p><p>4- Rede de apoio pessoal (registrar nome e telefone de duas ou mais pessoas que costuma dar apoio)</p><p>Questionamentos possíveis:</p><p>Em quem você confia que você possa ligar ou procurar em momentos ruins?</p><p>(Caso a pessoa não identifique a princípio, ajude-a a encontrar. Não deixe este item em branco).</p><p>5- Rede de apoio profissional (informações sobre como contactar o médico, psicólogo ou profissional de referência)</p><p>6- Registro de</p><p>telefones de centros de crise, como CVV, e serviços de emergência, como SAMU e Corpo de</p><p>Bombeiros.</p><p>O profissional deve incentivar o paciente a seguir os passos do plano de segurança, de forma que cada passo possa trazer</p><p>alívio que o possibilite ultrapassar a crise, muitas vezes sendo possível controlá-la sem nem mesmo utilizar todos os recursos</p><p>descritos.</p><p>56</p><p>CVV - 188</p><p>TELEFONES ÚTEIS PARA CHAMAR</p><p>CORPO DE BOMBEIROS - 193</p><p>SAMU - 192</p><p>57</p><p>Posteriormente, em</p><p>1954, os Primeiros Socorros Psicológicos foram referenciados numa monografia</p><p>publicada pela Associação Americana de Psiquiatria (Everly, Barnett & Links, 2012).</p><p>A partir de então seguiu-se um período em que foram praticamente inexistentes</p><p>as pesquisas no âmbito dos Primeiros Socorros Psicológicos. Nas décadas de 70</p><p>e 80 foi desenvolvido, em contexto militar, um modelo amplamente adotado por</p><p>profissionais de saúde, bombeiros e polícias para fazer face a situações de catás-</p><p>trofe e emergência, o Critical Incident Stress Management (CISM), que albergava</p><p>uma componente designada Critical Incident Stress Debriefing (CISD) (Uhernik &</p><p>Husson, 2009; Van Emmerik, Kamphuis, Hulsboch & Emmelkamp, 2002). A partir</p><p>da década de 80, assistiu-se a uma forte tendência para explorar novas formas e</p><p>estratégias de intervenção psicológica no quadro das catástrofes. Foi em meados</p><p>da década de 90 que começaram a surgir investigações que aludiam à diminuta</p><p>eficácia do CISD e às repercussões negativas associadas à sua implementação.</p><p>Considerava-se que esta ferramenta de intervenção não só não reduzia a sintoma-</p><p>tologia característica da Perturbação de Stress Pós-Traumático e da Perturbação</p><p>Depressiva Major, como poderia potenciar a “retraumatização” dos sobreviventes</p><p>e prestadores de apoio dado a sua exposição à “ventilação catártica” de sentimen-</p><p>tos e emoções (Raphael, Meldrum & McFarlane, 1995; Rose, Bisson, Churchill &</p><p>Wessely, 2005; Van Emmerik et al., 2002).</p><p>Em 1991 foi desenvolvido pela Cruz Vermelha o Centro de Apoio Psicológico</p><p>de Copenhaga, constituindo-se como um centro de referência ao nível do trabalho</p><p>desenvolvido na área das catástrofes. Um dos seus principais objetivos consistia no</p><p>fornecimento de orientações à Federação Internacional e às Sociedades Nacionais da</p><p>Cruz Vermelha (Cherpitel, 2001 citado por Franco, 2015). Em 1991 a Inter-Agency</p><p>Standing Committee (IASC) foi fundada com o propósito basilar de dar resposta a</p><p>situações de catástrofe e emergência (Fox et al., 2012; Everly et al., 2012). Em 1992,</p><p>a IASC foi aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas com a finalidade</p><p>de estabelecer a coordenação entre as agências de ajuda humanitária, promovendo</p><p>a eficácia da ajuda humanitária, nomeadamente através da partilha de recursos e</p><p>conhecimentos na área do apoio psicossocial em situações de emergência (Fox et al.,</p><p>2012; Everly et al., 2012; IASC, 2007). Mais tarde, a comunidade internacional dedicou-</p><p>-se à construção e implementação de diretrizes respeitantes aos Primeiros Socorros</p><p>Psicológicos, gradualmente consagrados como dimensão central de intervenção junto</p><p>de vítimas de incidentes críticos. Com os atentados de 11 de Setembro de 2001 em</p><p>Nova Iorque, verificou-se um novo e mais intenso impulso a nível das investigações,</p><p>desenvolvimento de diretrizes e operacionalização dos Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>no quadro da intervenção psicológica na crise (Shultz & Forbes, 2014).</p><p>129</p><p>PSYCHOLOGICA VOLUME 61 Nº 1 • 2018</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>Atualmente, os Primeiros Socorros Psicológicos têm vindo a ser alvo de um</p><p>amplo escrutínio, sendo amplamente recomendados por múltiplas organizações e</p><p>entidades internacionais de renome, como a Organização Mundial de Saúde (OMS),</p><p>a Federação Internacional da Cruz Vermelha, o National Center for Post Traumatic</p><p>Stress Disorder (NCPTS), o Disaster Mental Health Institute of the University of</p><p>South Dakota, as Red Crescent Societies, entre outras (Fox et al., 2012; McCabe et</p><p>al., 2014). Além disto, as crescentes ameaças e ataques terroristas (e.g., Nova Iorque,</p><p>Londres, Madrid), veiculados ou difundidas pelos serviços de comunicação social,</p><p>vieram reforçar a necessidade de aprofundar esta temática (Fischer & Ali, 2008).</p><p>Aspetos instrumentais e multidisciplinaridade dos Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>Os Primeiros Socorros Psicológicos representam uma abordagem de apoio</p><p>psicossocial dirigida a grupos de indivíduos e/ou comunidades afetadas por</p><p>situações de catástrofe, de origem natural ou humana (National Child Traumatic</p><p>Stress Network, 2006). Pretende-se que a atuação, ao nível dos Primeiros Socorros</p><p>Psicológicos junto das vítimas, seja o mais precoce possível, no sentido de reduzir</p><p>o stress causado pelos eventos traumáticos e, assim, promover um funcionamento</p><p>adaptativo a curto e a longo prazo (National Child Traumatic Stress Network, 2006).</p><p>Os Primeiros Socorros Psicológicos incluem a recolha de informação básica, que</p><p>permita a realização de avaliações rápidas sobre as necessidades e preocupações</p><p>imediatas dos sobreviventes; compreendem o conjunto de estratégias de sinalização</p><p>precoce de indícios reveladores de disfunção despoletados pelo episódio crítico,</p><p>tendo por objetivo a inviabilização ou, pelo menos, a mitigação da progressão de</p><p>tais indícios para condições crónicas; consistem, ainda, numa resposta de cariz</p><p>humanitário, marcada pela compaixão e solidariedade, cujo enfoque reside na</p><p>prestação de auxílio e suporte psicossocial não intrusivo e consentido (Australian</p><p>Psychological Society, 2013; Bradel & Bell, 2014; National Child Traumatic Stress</p><p>Network, 2006; The Sphere Project, 2011; World Health Organization, 2013).</p><p>De facto, os Primeiros Socorros Psicológicos mobilizam aspetos básicos e fundamentais</p><p>da experiência humana, podendo ser concetualizados como uma forma de opera-</p><p>cionalização do “bom senso comum” (Shultz & Forbes, 2014).</p><p>Os Primeiros Socorros Psicológicos não constituem um método de diagnóstico,</p><p>uma intervenção psicoterapêutica, uma forma de tratamento, nem tão pouco um</p><p>modo de debriefing psicológico ou alguma espécie de interrogatório de caráter</p><p>mais invasivo; em suma, não almejam substituir a intervenção terapêutica. Por</p><p>isso mesmo, não se colocam exigências rígidas quanto à seleção dos agentes que</p><p>procedem à aplicação dos Primeiros Socorros Psicológicos, pelo que esta pode ser</p><p>130 Maria João Beja, Alda Portugal, Joana Câmara, Cláudia Berenguer,</p><p>Ana Rebolo, Carlota Crawford e Dinis Gonçalves</p><p>realizada tanto por equipas de profissionais que intervêm em situações de crise,</p><p>como por indivíduos com formações de base variadas, desde que devidamente trei-</p><p>nados (Ohio Mental Health & Addiction Services, 2013; World Health Organization,</p><p>World Vision International & The United Nations Children’s Fund, 2014).</p><p>Um aspeto fulcral a ter em consideração é o local e as características das</p><p>infraestruturas onde os Primeiros Socorros Psicológicos são providenciados.</p><p>Idealmente, estas devem ser seguras, minimamente confortáveis, espaçosas e res-</p><p>guardadas, i.e., distantes de quaisquer estímulos visuais ou sonoros provenientes</p><p>do episódio crítico (Australian Psychological Society, 2013). Se nem sempre for</p><p>possível reunir as condições enunciadas, devem ser ressalvados pelo menos os</p><p>atributos da segurança e da distância mínima em relação ao local afetado. Alguns</p><p>dos locais mais recorrentes para a prestação dos Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>são os centros comunitários, centros de saúde, escolas e outras instituições (World</p><p>Health Organization, War Trauma Foundation & World Vision International, 2011).</p><p>Um dos pressupostos subjacentes aos Primeiros Socorros Psicológicos é o de que</p><p>todos os seres humanos são detentores de aptidões intrínsecas de coping que lhes</p><p>permitem fazer face às adversidades, bem como superar os desafios impostos pelos</p><p>eventos iminentemente traumáticos. Assim, a existência de um contexto favorável</p><p>que reúna as condições requeridas para a satisfação das necessidades elementares</p><p>do indivíduo, consonante com as suas especificidades, acaba por revelar-se como</p><p>condição indispensável para o fomento e o desenvolvimento de tais capacidades</p><p>(Snider, Chehil, & Walker, 2012; World Health Organization, 2013).</p><p>No contexto específico da intervenção psicológica em circunstâncias de catás-</p><p>trofe, Erra e Mouro (2014) reforçam a importância de um compromisso entre as</p><p>diferentes entidades públicas e privadas, assim como a necessidade de</p><p>elaboração de</p><p>um plano nacional de atuação especificamente concebido para fazer face a situações</p><p>desta natureza. As autoras consideram fulcral que haja uma intervenção sistémica</p><p>e articulada entre os diferentes organismos, nomeadamente a proteção civil, os</p><p>bombeiros, as forças policiais e de segurança, as equipas médicas e psicossociais</p><p>e a segurança social (Autoridade Nacional de Proteção Civil, 2013; Erra & Mouro,</p><p>2014). A intervenção multidisciplinar, pautada pela interdependência e complemen-</p><p>taridade, conduz à edificação de uma resposta consolidada e eficaz no domínio das</p><p>situações-limite. Suplementarmente, a definição e planeamento de uma resposta</p><p>de emergência que compreenda estas particularidades requer um conhecimento</p><p>prévio dos recursos locais preexistentes, aliado à aferição da sua acessibilidade por</p><p>parte dos elementos integrantes da comunidade envolvente (Erra & Mouro, 2014).</p><p>Deste modo, na sequência de uma catástrofe é necessário adotar como ponto de</p><p>referência um conjunto de procedimentos operacionais padronizados que conste</p><p>de um plano nacional de emergência que, por sua vez, contemple seis estádios de</p><p>131</p><p>PSYCHOLOGICA VOLUME 61 Nº 1 • 2018</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>intervenção indispensáveis, designadamente: a mobilização de equipas médicas e de</p><p>apoio psicossocial para os locais afetados; a prestação de suporte socio emocional</p><p>individualizado a par da administração de Primeiros Socorros Psicológicos (às</p><p>vítimas primárias, secundárias e terciárias); a evacuação da população de risco e</p><p>de especial vulnerabilidade, mais concretamente crianças, adolescentes, grávidas,</p><p>idosos, pessoas com necessidades especiais e doentes; a disponibilização de apoio</p><p>logístico à população-alvo por via da distribuição de bens de primeira necessi-</p><p>dade (mantimentos, agasalhos, abrigo) e do suprimento das suas necessidades</p><p>elementares (fisiológicas e de segurança) e, se necessário, da prestação de cuidados</p><p>médicos imediatos; a realização de operações de busca e/ou de reencaminhamento</p><p>de pessoas desaparecidas para os seus familiares; e, por fim, o reconhecimento de</p><p>vítimas mortais e subsequente prestação de suporte psicológico particularizado</p><p>aos familiares das vítimas (Autoridade Nacional de Proteção Civil, 2013; Erra &</p><p>Mouro, 2014; IASC, 2007; World Health Organization, War Trauma Foundation</p><p>& World Vision International, 2011).</p><p>Em suma, podemos constatar que os Primeiros Socorros Psicológicos se tra-</p><p>duzem num processo complexo, multifacetado e transdisciplinar de resposta em</p><p>situações de catástrofe em que se torna fundamental a articulação da intervenção</p><p>estritamente psicológica com as demais vertentes disciplinares e operacionais, quer</p><p>no cenário pós-catástrofe, quer no domínio da prevenção (Autoridade Nacional</p><p>de Proteção Civil, 2013).</p><p>Operacionalização da Intervenção</p><p>Elementos nucleares dos Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>Segundo Uhernik e Huson (2009) e Allen et al. (2010), os princípios e técnicas</p><p>que subjazem aos diversos modelos de Primeiros Socorros Psicológicos atendem a</p><p>quatro pré-requisitos centrais: (a) serem consistentes com as evidências empíricas</p><p>em matéria de risco e resiliência no seguimento de experiências traumáticas; (b)</p><p>serem passíveis de implementação em contextos distintos; (c) adequarem-se a diversas</p><p>faixas etárias; (d) e, finalmente, incorporarem na sua intervenção as especificidades</p><p>culturais por forma a serem administrados de modo f lexível.</p><p>Foram identificados por Hobfoll et al. (2007) cinco elementos nucleares dos</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos: segurança, estabilização emocional, união, autoe-</p><p>ficácia e esperança. No que concerne à segurança, é fulcral minimizar ou evitar</p><p>a exposição a ameaças de natureza diversa daquela que deu azo à situação crítica,</p><p>132 Maria João Beja, Alda Portugal, Joana Câmara, Cláudia Berenguer,</p><p>Ana Rebolo, Carlota Crawford e Dinis Gonçalves</p><p>intervindo aqui as componentes da assistência logística, médica e psicológica,</p><p>referidas anteriormente. Relativamente à estabilização emocional, esta poderá ser</p><p>atingida através da disponibilidade para ouvir a história singular de cada indiví-</p><p>duo afetado e para compreender as emoções que o episódio crítico desencadeou,</p><p>sendo importante que a partilha seja voluntária e não forçada. Quanto à união, é</p><p>necessário ajudar as vítimas a entrarem em contacto com o seu núcleo familiar e</p><p>amigos próximos, fornecer informações precisas e pertinentes, além de direcionar</p><p>as vítimas para os serviços de apoio disponíveis. O técnico de Primeiros Socorros</p><p>Psicológicos deve, também, promover as competências de autoeficácia do sobrevi-</p><p>vente, envolvendo-o ativamente na tomada de decisão e na definição de prioridades</p><p>ao nível da resolução imediata dos problemas. Por fim, os prestadores de Primeiros</p><p>Socorros Psicológicos devem transmitir uma perspetiva positiva, otimista e realista</p><p>sobre a recuperação pós-evento traumático (Hobfoll et al., 2007).</p><p>A administração dos Primeiros Socorros Psicológicos deve reger-se por oito</p><p>princípios centrais aos quais subjazem três componentes basilares da atuação,</p><p>nomeadamente, a observação, a escuta e a aproximação (Uhernik & Husson, 2009;</p><p>World Health Organization, War Trauma Foundation & World Vision International,</p><p>2011), Assim, o prestador de Primeiros Socorros Psicológicos deve, em primeira</p><p>instância, identificar os indivíduos que experienciaram o evento traumático e</p><p>iniciar o contacto de forma compassiva e não invasiva, considerando que alguns</p><p>indivíduos poderão não procurar ou consentir este tipo de ajuda. Neste primeiro</p><p>contacto, o provedor de Primeiros Socorros Psicológicos deve fazer uma nota intro-</p><p>dutória sucinta acerca do seu papel e funções de que está incumbido. Em seguida,</p><p>afigura-se crucial prover segurança e conforto físico e estabilizar as emoções do</p><p>sobrevivente, por via da sinalização das necessidades que requerem satisfação prio-</p><p>ritária e da normalização do seu sofrimento (explicitação da inevitabilidade das</p><p>reações e comportamentos despoletados pelo episódio crítico), algo que contribui</p><p>para o decréscimo dos níveis de stress e preocupação e pode auxiliar em termos da</p><p>adoção de algumas estratégias de coping. A recolha de informação permite que seja</p><p>possível priorizar, ou seja, triar e hierarquizar a população que se encontra mais</p><p>vulnerável, por forma a ser possível intervir com prontidão. A assistência prática</p><p>consiste na delineação de um plano de ação que faculte ferramentas ao indivíduo</p><p>para lidar com o acontecimento potencialmente traumático. Através da conexão</p><p>com a rede social de suporte, é possível auxiliar o indivíduo a estabelecer contacto</p><p>com os seus familiares e grupo de pares. Em virtude das situações de crise terem</p><p>um caráter confuso e desorientador passível de obstaculizar as competências que</p><p>permitem que o indivíduo enfrente as dificuldades, os técnicos que aplicam os</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos devem facultar informação verbal e escrita acerca</p><p>das estratégias de coping, por forma a munir o indivíduo de ferramentas que lhe</p><p>133</p><p>PSYCHOLOGICA VOLUME 61 Nº 1 • 2018</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>permitam lidar com o problema, fomentar um processo resiliente e predispor para</p><p>um funcionamento adaptativo e integrativo. Se eventualmente as informações</p><p>partilhadas pelo técnico de Primeiros Socorros Psicológicos forem insuficientes,</p><p>urge reencaminhar o indivíduo para serviços que lhe facultem um suporte mais</p><p>especializado (Bradel & Bell, 2014; Uhernik & Husson, 2009).</p><p>Modelos de Intervenção: o modelo RAPID-PFA</p><p>Uma miríade de modelos de Primeiros Socorros Psicológicos, desenhados e estru-</p><p>turados com base numa variedade de critérios e pontos de referência, encontra-se</p><p>disponível, sendo que, em boa medida, a diferenciação de tais modelos resulta da</p><p>diferente valorização dos elementos nucleares apresentados anteriormente (Hobfoll</p><p>et al., 2007; Shultz & Forbes, 2014). Para além disso, cada modelo é detentor de um</p><p>conjunto de linhas orientadoras e de ações</p><p>principais que norteiam a intervenção</p><p>propriamente dita (Shultz & Forbes, 2014).</p><p>Everly et al. (2012) contribuíram para o desenvolvimento de um dos modelos</p><p>mais relevantes de Primeiros Socorros Psicológicos intitulado RAPID-PFA (isto</p><p>é, Ref lective Listening, Assessment, Prioritization, Intervention and Disposition</p><p>– Psychological First Aid). Este modelo contempla cinco estádios primordiais de</p><p>atuação: o estabelecimento da relação, a avaliação, a priorização, a intervenção</p><p>e, por fim, a monitorização do progresso ou acompanhamento. Segundo Everly</p><p>e Flynn (2005), o RAPID-PFA apresenta oito objetivos fundamentais: (1) ampliar</p><p>a capacidade de compreensão de uma situação problemática e ouvir ativamente;</p><p>(2) avaliar e priorizar as necessidades básicas das pessoas; (3) reconhecer reações</p><p>comportamentais e psicológicas benignas em circunstâncias de crise; (4) reconhecer</p><p>reações comportamentais e psicológicas severas, potencialmente desestabilizadoras</p><p>e incapacitantes; (5) mitigar o stress agudo com recurso a determinados tipos de</p><p>intervenções; (6) reconhecer quando é necessário facultar e/ou facilitar o acesso a</p><p>apoio suplementar ao nível da saúde mental; (7) reduzir potenciais riscos adversos</p><p>advindos da intervenção e (8) promover a auto-preservação.</p><p>O estabelecimento de uma relação empática e harmoniosa entre o técnico de</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos e o sobrevivente, por via da escuta ref lexiva e ativa</p><p>da narrativa do indivíduo afetado, é fundamental na medida em que permitirá a</p><p>identificação dos aspetos mais relevantes da experiência traumática do indivíduo</p><p>(McCabe et al., 2014). Assim, o prestador de Primeiros Socorros Psicológicos deve,</p><p>num primeiro momento, procurar colocar questões abertas e exploratórias que</p><p>conduzam à compreensão do sucedido e do estado atual do indivíduo (reações</p><p>associadas) e parafrasear o que é verbalizado pela vítima, de modo a validar e</p><p>normalizar as suas reações, sentimentos e emoções mais imediatas após o episó-</p><p>134 Maria João Beja, Alda Portugal, Joana Câmara, Cláudia Berenguer,</p><p>Ana Rebolo, Carlota Crawford e Dinis Gonçalves</p><p>dio (Everly, McCabe, Semon, Thompson & Links, 2014). A avaliação, por sua vez,</p><p>consiste na identificação das necessidades idiossincráticas do indivíduo, na análise</p><p>das reações pós-traumáticas expressas, na averiguação da sua natureza funcional</p><p>ou disfuncional e no apaziguamento do sofrimento e dor agudas. É nesta fase que o</p><p>prestador de Primeiros Socorros Psicológicos reúne informações pertinentes a respeito</p><p>dos fatores que podem facilitar ou obstaculizar a recuperação e restabelecimento</p><p>de um funcionamento adaptativo, como por exemplo as capacidades do indivíduo</p><p>para compreender e seguir orientações, expressar emoções de um modo saudável</p><p>e construtivo, adaptar-se ao contexto e aceder a recursos interpessoais (Everly et</p><p>al., 2014). Importa referir que, para que tal seja possível, o prestador de Primeiros</p><p>Socorros Psicológicos deverá colocar questões diretivas e específicas por forma a</p><p>clarificar potenciais ambiguidades e, deste modo, moldar a sua atuação em virtude</p><p>das particularidades do indivíduo (McCabe et al., 2014). A priorização afigura-se</p><p>como uma extensão da avaliação, reportando-se à triagem e hierarquização dos</p><p>indivíduos mais vulneráveis e que devem ser intervencionados com maior prontidão.</p><p>De um modo geral, trata-se de uma forma de identificar e distinguir as reações</p><p>benignas e naturais de eventuais reações disfuncionais e mal-adaptativas. Esta</p><p>priorização é realizada com base numa multiplicidade de indícios, expressos pela</p><p>vítima, ao nível da sua capacidade cognitiva (dificuldade em recordar os eventos e</p><p>resolver problemas), comportamental (incapacidade de discernir as consequências</p><p>dos seus atos e agir impulsivamente, isto é, autof lagelando-se ou causando dano a</p><p>outrem), expressão emocional e afetiva, adaptabilidade social, recursos interpes-</p><p>soais (competência para funcionar no quotidiano e realizar tarefas elementares,</p><p>como tratar da higiene e alimentar-se, cuidar de si e daqueles que dependem de si,</p><p>trabalhar) e a sua disponibilidade e consentimento para ser intervencionada (Everly</p><p>et al., 2012; McCabe et al., 2014). No que concerne à intervenção, o prestador de</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos deve mitigar o stress agudo, tentar restabelecer</p><p>as capacidades funcionais do indivíduo por via da adoção de estratégias de coping</p><p>adaptativas (e.g., técnicas de relaxamento, de respiração, de controlo da raiva e de</p><p>outras emoções negativas) e da promoção da resiliência, do suporte da sua rede de</p><p>apoio social e do esclarecimento e antecipação das emoções e sentimentos que o</p><p>indivíduo irá experienciar nos dias subsequentes ao evento limite. Afirma-se igual-</p><p>mente crucial infundir esperança e uma perspetiva temporal de futuro nos indivíduos</p><p>afetados, uma vez que em circunstâncias de catástrofe existe uma tendência para</p><p>agir impulsivamente e tomar decisões precipitadas. De acordo com Everly e Lating</p><p>(2002, citados por Everly et al., 2012), as metodologias de intervenção cognitivo-</p><p>-comportamentais parecem ter um impacto positivo na diminuição do stress agudo</p><p>e no restabelecimento da calma. Os autores adiantam que modelos educacionais e</p><p>exploratórios, como por exemplo o modelo de Cannon designado ‘Fight – Flight’,</p><p>135</p><p>PSYCHOLOGICA VOLUME 61 Nº 1 • 2018</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>contribuem para diminuir o impacto nefasto das catástrofes. McCabe et al. (2014)</p><p>acrescentam que o prestador de Primeiros Socorros Psicológicos pode recorrer a</p><p>técnicas simples para reduzir o stress agudo, tais como aconselhar, distrair e orientar</p><p>o indivíduo, e que em função do nível de disfuncionalidade podem ser adotadas</p><p>abordagens de autorregulação psicofisiológica (isto é, respiração diafragmática)</p><p>e de reenquadramento cognitivo. Tal permite ao indivíduo estar mais apto a rea-</p><p>ver o controlo sobre a sua vida e retomar os seus hábitos quotidianos (Everly et</p><p>al., 2008; Everly et al., 2014). Finalmente, para estes autores, a monitorização ou</p><p>acompanhamento afigura-se central para elucidar o técnico de Primeiros Socorros</p><p>Psicológicos a respeito do quão bem sucedida foi a sua atuação. Uma das formas de</p><p>avaliar algum do progresso do indivíduo intervencionado consiste no estabelecimento</p><p>de um contacto posterior e análise do seu funcionamento básico, direcionado para</p><p>a avaliação da sua capacidade e disponibilidade para levar a cabo as tarefas diárias</p><p>mais elementares, prosseguir a sua atividade laboral e estabelecer contacto assíduo</p><p>com os seus amigos e familiares. Se o indivíduo retomar a sua vida de forma bem</p><p>sucedida, a intervenção do técnico termina (Everly et al. 2012; McCabe et al., 2014).</p><p>Porém, se o funcionamento do indivíduo continuar a manifestar-se inadaptativo,</p><p>poder-se-á seguir um segundo follow-up, sendo que a partir do terceiro deverá ser</p><p>disponibilizado outro tipo de cuidados mais particularizados e que redefinam a</p><p>abordagem à vítima (Everly et al., 2014).</p><p>Benefícios da prestação de Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>Inúmeras investigações científicas têm vindo a sublinhar o relevo e os benefícios</p><p>dos Primeiros Socorros Psicológicos nas etapas iniciais da resposta psicossocial</p><p>a episódios de catástrofe (McCabe et al., 2014). De facto, segundo Bradel e Bell</p><p>(2014), os indivíduos expostos a catástrofes naturais (e.g., terramotos, furacões,</p><p>inundações, deslizamentos de terra) e humanas (e.g., atentados terroristas) estão</p><p>mais suscetíveis de desenvolver determinados quadros psicopatológicos, sendo os</p><p>mais recorrentes a Perturbação Depressiva Major e as Perturbações de Ansiedade.</p><p>Além disso, existem outros fatores que precipitam a manifestação destes e outros</p><p>quadros psicopatológicos, nomeadamente o grau de exposição e magnitude (seve-</p><p>ridade) do evento traumático, a necessidade de evacuação e deslocação para um</p><p>local desconhecido, a perda de um ente querido ou de indivíduos conhecidos (luto</p><p>que se pode tornar complicado), a ausência de uma rede social</p><p>de apoio, a presença</p><p>de problemas de saúde pré-existentes, algumas variáveis sociodemográficas especí-</p><p>ficas (e.g., género e nível socioeconómico), determinados traços de personalidade</p><p>(e.g., neuroticismo) e mecanismos de atribuição de significado ao acontecimento</p><p>traumático menos adaptativos (Bradel & Bell, 2014; Franco, 2012; Slaikeu, 1990).</p><p>136 Maria João Beja, Alda Portugal, Joana Câmara, Cláudia Berenguer,</p><p>Ana Rebolo, Carlota Crawford e Dinis Gonçalves</p><p>Paralelamente, Bradel e Bell (2014) realçam que os incidentes críticos de caráter</p><p>ansiógeno e stressante desencadeiam frequentemente alterações bioquímicas singu-</p><p>lares, por exemplo, o aceleramento do ritmo cardíaco e a libertação de adrenalina</p><p>após a estimulação do sistema nervoso simpático, que predispõem o ser humano</p><p>para a reação profícua ( fight), ou para a fuga ( f light). As circunstâncias propicia-</p><p>doras de stress agudo podem induzir reações de índole fisiológica (e.g., espasmos</p><p>e dores musculares, comprometimento do sistema imunitário), comportamental</p><p>(e.g., perturbações alimentares e do sono, fobias) cognitiva (e.g., declínio da atenção</p><p>seletiva, estados de confusão, incapacidade de resolução de problemas), emocional</p><p>(e.g., tristeza, raiva, medo), e espiritual (e.g., emergência de questões existenciais</p><p>multitemáticas: o significado da vida, a intervenção de entidades superiores, o</p><p>destino) que, por vezes, obstaculizam o desempenho do indivíduo na sua vida</p><p>quotidiana (Bradel & Bell, 2014; National Child Traumatic Stress Network, 2006).</p><p>Neste sentido, e para colmatar toda esta diversidade de impactos potenciais do</p><p>episódio crítico, os Primeiros Socorros Psicológicos têm como finalidade munir o</p><p>indivíduo de competências úteis que lhe permitam aprender e desenvolver padrões</p><p>de resposta adaptativos perante circunstâncias stressantes, por forma a fomentar a</p><p>resiliência e a perseverança (Autoridade Nacional de Proteção Civil, 2013; Chan, Chan,</p><p>& Kee, 2012). Neste sentido, o constructo de autoeficácia, proposto por Bandura,</p><p>desempenha um papel central no que diz respeito à eficácia das intervenções. Trata-se</p><p>de um constructo microanalítico referente às crenças e perceções que um indivíduo</p><p>tem a respeito das suas competências para desempenhar eficientemente uma tarefa e,</p><p>por conseguinte, atingir o resultado ambicionado independentemente dos obstáculos</p><p>que possam surgir. As crenças de autoeficácia revelam-se cruciais para a manutenção</p><p>da continuidade do esforço e da perseverança em circunstâncias funestas e, como</p><p>tal, são determinantes na gestão pessoal das consequências da situação traumática</p><p>(Graham & Weiner, 1996). Com efeito, segundo a Australian Psychological Society</p><p>(2013), as crenças de autoeficácia predizem desfechos mais favoráveis, sendo que os</p><p>indivíduos mais otimistas, detentores de pensamentos mais positivos, que creem</p><p>ser capazes de ultrapassar as contrariedades que se interpõem na sua jornada, estão</p><p>aptos a recuperar mais facilmente das repercussões nefastas advindas da situação</p><p>traumática. A promoção da autoeficácia de cada indivíduo afigura-se, então, como</p><p>uma tarefa central para a potenciação da intervenção (Hobfoll et al., 2007).</p><p>Considerações deontológicas e perfil do prestador de Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>A prestação de auxílio em momentos críticos deve ser baseada num conjunto</p><p>de diretrizes e princípios orientadores de natureza ética e deontológica. No qua-</p><p>137</p><p>PSYCHOLOGICA VOLUME 61 Nº 1 • 2018</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>dro da necessária salvaguarda da dignidade e dos direitos individuais das pessoas</p><p>afetadas, urge que o técnico de Primeiros Socorros Psicológicos se despoje de</p><p>todo o tipo de preconceitos e se iniba de qualquer espécie de condenação ou cen-</p><p>sura relativamente a sentimentos, emoções e atitudes experienciados aquando da</p><p>situação-limite (Australian Psychological Society, 2013; National Child Traumatic</p><p>Stress Network, 2006). Outro aspeto a considerar é a confidencialidade e o sigilo</p><p>das informações partilhadas. Sublinhe-se ainda que a prestação dos Primeiros</p><p>Socorros Psicológicos deve estar alinhada com as matrizes socioculturais especí-</p><p>ficas da população afetada, devendo adaptar-se ao contexto sociocultural e étnico</p><p>em que a intervenção decorre, por exemplo, na adequação da indumentária, no</p><p>domínio da língua predominante nas populações intervencionadas, na sensibilidade</p><p>em relação a hábitos e costumes locais e a rituais comportamentais (e.g., perceber</p><p>se existe alguma objeção no que toca a determinadas formas de contacto corporal,</p><p>como segurar a mão) e no conhecimento das crenças culturais e religiosas de cada</p><p>grupo étnico. Estas considerações poderão facilitar ao técnico uma intervenção</p><p>válida e não invasiva (World Health Organization, War Trauma Foundation &</p><p>World Vision International, 2011; Ohio Mental Health & Addiction Services, 2013;</p><p>The Sphere Project, 2011).</p><p>Os prestadores de Primeiros Socorros Psicológicos devem deter alguns atributos</p><p>individuais singulares e obedecer a certos requisitos em termos de perfil pessoal.</p><p>Em primeiro lugar, devem estar preparados para se submeterem a circunstâncias</p><p>físicas, emocionais e psicologicamente desafiantes e para intervir em cenários caó-</p><p>ticos, pautados pela desolação, destruição, ferimentos alheios e/ou perdas humanas</p><p>(McCabe et al., 2014; World Helath Organization, World Vision International & The</p><p>United Nations Children’s Fund, 2014). Consequentemente, teste tipo de ambiente</p><p>hostil pode revelar-se potencialmente desestabilizador e pernicioso, afetando de</p><p>modo direto ou indireto tanto o técnico quanto o seu sistema familiar. Como tal, é</p><p>fundamental que o prestador de Primeiros Socorros Psicológicos goze de boa saúde</p><p>física e mental e não tenha sido alvo de tratamentos, cirurgias ou restrições dieté-</p><p>ticas que comprometam o seu desempenho, nem tenha estado sujeito a experiên-</p><p>cias de vida emocionalmente exigentes e impactantes (McCabe et al., 2014; World</p><p>Health Organization, War Trauma Foundation & World Vision International, 2011).</p><p>O técnico de Primeiros Socorros Psicológicos deve reagir profícua e adaptativamente</p><p>aos acontecimentos stressantes e desgastantes com os quais se depara, contrariando</p><p>estados como a fadiga, a frustração, a resignação, a desmoralização, a alienação e o</p><p>alheamento, entre outros. Para que isso seja possível, é fundamental autopreservar-se,</p><p>algo que se torna particularmente exequível através de atributos como a tolerância,</p><p>a f lexibilidade, a paciência e a sensatez, e de hábitos quotidianos promotores da</p><p>saúde e bem-estar, designadamente ter uma alimentação equilibrada, hábitos de sono</p><p>138 Maria João Beja, Alda Portugal, Joana Câmara, Cláudia Berenguer,</p><p>Ana Rebolo, Carlota Crawford e Dinis Gonçalves</p><p>saudáveis, praticar exercício físico, investir nas relações familiares e interpessoais</p><p>de modo a desenvolver vínculos sólidos e inquebrantáveis, procurar ter experiências</p><p>pessoais enriquecedoras e gratificantes, reservar algum tempo para a reflexão, entre</p><p>outros (Ohio Mental Health & Addiction Services, 2013; World Health Organization,</p><p>2013). Saliente-se, por fim, que a organização que enquadra a intervenção do técnico</p><p>de Primeiros Socorros Psicológicos tem um papel ativo e determinante na sua satis-</p><p>fação, equilíbrio e bem-estar, pelo que esta deve providenciar formação profissional</p><p>ao nível da gestão do stress, facultar informações de vária ordem a respeito dos</p><p>benefícios da função que está a ser desempenhada, encorajar as pausas e promover a</p><p>rotatividade (World Health Organization, War Trauma Foundation & World Vision</p><p>International, 2011; National Child Traumatic Stress Network, 2006).</p><p>Evidência Científica da Eficácia</p><p>Ramirez et al. (2013) levaram a cabo uma investigação que consistiu na conceção</p><p>de uma modalidade de intervenção alternativa radicada nos Primeiros Socorros</p><p>Psicológicos, denominada Listen Protect Connect (LPC). Esta abordagem foi imple-</p><p>mentada em contexto escolar, sob administração dos professores, com</p><p>o objetivo de</p><p>sinalizar crianças (vítimas de ou alvo de um evento catastrófico) que manifestassem</p><p>sintomas depressivos e indicativos de Perturbação de Stress Pós-traumático e de</p><p>Perturbação Depressiva Major, no sentido de atuar ulteriormente para fomentar o</p><p>desenvolvimento de estratégias de coping adaptativas e mobilizar recursos de saúde</p><p>mais especializados suscetíveis de inibir a progressão do trauma. Os resultados obti-</p><p>dos demonstraram que a LPC foi uma intervenção eficaz na redução do sofrimento</p><p>psicológico e incrementou a união e suporte interpessoal no contexto escolar. Porém,</p><p>é de assinalar que a LPC requer sustentação empírica que estabeleça a sua eficácia</p><p>e validade, tanto a curto quanto a longo prazo, nos diversos contextos de atuação.</p><p>Dieltjens, Moonens, Van Praet, De Buck e Vandekerckhove (2014) efetuaram</p><p>uma revisão sistemática da literatura com o propósito de identificar o quão válidas</p><p>e profícuas eram as diretrizes, orientações e modalidades de intervenção realiza-</p><p>das com recurso aos Primeiros Socorros Psicológicos no domínio das catástrofes,</p><p>situações de emergência e outros eventos de caráter traumático. Os resultados</p><p>reportaram a insuficiência de evidências científicas fidedignas passíveis de com-</p><p>provar os benefícios e eficácia dos Primeiros Socorros Psicológicos a longo prazo.</p><p>Saliente-se que a recolha da evidência empírica relativa à eficácia dos Primeiros</p><p>Socorros Psicológicos se revela problemática em função da própria natureza das</p><p>situações de crise, que dificilmente configuram um campo de observação controlado</p><p>e propício a operações de recolha sistemática de elementos empíricos.</p><p>139</p><p>PSYCHOLOGICA VOLUME 61 Nº 1 • 2018</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>A escassez de evidências científicas passíveis de ilustrar a eficácia dos Primeiros</p><p>Socorros Psicológicos não inibe inúmeros especialistas e entidades internacionais</p><p>de relevo, para além de diversas revisões da literatura, de enfatizar as suas van-</p><p>tagens e benefícios e defender a sua aplicação. Ainda assim, parecem inequívocas</p><p>as fragilidades dos Primeiros Socorros Psicológicos do ponto de vista da sua</p><p>validade e sustentabilidade empírica, sendo sobretudo nesse campo que se mani-</p><p>festam atualmente maiores lacunas a nível da pesquisa e investigação adicional</p><p>(Fox et al., 2012). Um dos pouco exemplos deste tipo de pesquisa é o estudo de</p><p>Allen et al. (2010), em que foram avaliadas as percepções da eficácia dos Primeiros</p><p>Socorros Psicológicos por parte dos próprios prestadores de Primeiros Socorros</p><p>Psicológicos, nos casos em que sucederam os furacões Katrina, Gustav e Ike, e</p><p>baseados no manual National Child Traumatic Stress Network/National Center for</p><p>Post Traumatic Stress Disorder Psychological First Aid. Os resultados indicaram</p><p>que as suas perceções eram predominantemente positivas e que, para além do</p><p>mais, os técnicos de Primeiros Socorros Psicológicos se sentiram mais confiantes</p><p>na prestação de cuidados a adultos do que a crianças, o que sugere a necessidade</p><p>de se diferenciarem modelos de intervenção para as crianças.</p><p>Shultz e Forbes (2014) abordam o problema da mensuração da eficácia dos</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos e propõem uma análise comparativa diacrónica</p><p>dos percursos de indivíduos intervencionados e não intervencionados, por forma a</p><p>estabelecer um paralelo entre si e identificar as principais divergências. No âmbito</p><p>da sua tentativa de fixação de procedimentos suscetíveis de consagrar a validação</p><p>empírica da eficácia dos Primeiros Socorros Psicológicos, os autores realçam a</p><p>necessidade de assegurar a comparabilidade dos dados (os estudos comparativos</p><p>devem incidir em indivíduos submetidos aos mesmos estímulos e expostos às mesmas</p><p>catástrofes), bem como de diversificar os instrumentos de avaliação/mensuração.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Os Primeiros Socorros Psicológicos inscrevem-se num complexo interdisciplinar,</p><p>sistémico e complementar de resposta orientado para intervir em cenários de crise,</p><p>catástrofe e emergência. A singularidade destes contextos de intervenção faz com</p><p>que seja crucial cultivar competências que habilitem os prestadores de Primeiros</p><p>Socorros Psicológicos a maximizar a eficácia da sua resposta. Neste quadro, os</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos adquirem configurações sempre distintas em função</p><p>da especificidade da situação em concreto e das necessidades da população-alvo</p><p>o que, por sua vez, apela a uma capacidade basilar de modulação e adaptação da</p><p>140 Maria João Beja, Alda Portugal, Joana Câmara, Cláudia Berenguer,</p><p>Ana Rebolo, Carlota Crawford e Dinis Gonçalves</p><p>intervenção, de resto igualmente imposta pelo imperativo deontológico que apela ao</p><p>seu enquadramento no ambiente cultural prevalecente nos locais intervencionados.</p><p>Apesar de os Primeiros Socorros Psicológicos serem amplamente defendidos por</p><p>toda uma diversidade de agentes e instituições especializadas, subsistem limitações</p><p>ao nível da mensuração e aferição da sua eficácia e repercussões benéficas a longo</p><p>prazo, pelo que investigações científicas adicionais afirmam-se determinantes para a</p><p>sustentação empírica e validação desta ferramenta humanitária. No contexto portu-</p><p>guês, salienta-se o importante papel que a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP)</p><p>desempenhou ao criar e disponibilizar uma formação sobre Intervenção Psicológica</p><p>em Situações de Catástrofe, iniciada no ano de 2014. O objetivo da OPP é colocar à</p><p>disposição das entidades de proteção civil, uma bolsa de psicólogos, a nível nacional,</p><p>formados na intervenção em situação de catástrofe, disponíveis para dar um contributo</p><p>cívico e que são chamados a atuar quando necessário. No entanto, para além deste</p><p>esforço assinalável, continua a ser central que a comunidade científica se dedique</p><p>a este tópico, no sentido de identificar modelos de intervenção eficazes para atuar na</p><p>população portuguesa. Urge alertar para o aumento da magnitude e da frequência das</p><p>catástrofes, bem como consciencializar para a necessidade de um auxílio estruturado e</p><p>premeditado às comunidades afetadas, a um nível quer psicossocial, quer psicopatológico.</p><p>Podemos retratar o provedor de Primeiros Socorros Psicológicos como uma espécie</p><p>de espelho, que reflete e prolonga o universo cultural e intrapsíquico do ser humano</p><p>em sofrimento, mas que também de algum modo o transforma e molda. Este exercício</p><p>de reverberação e reenquadramento de uma realidade estilhaçada cumpre um fim</p><p>último: a integração e regeneração do próprio eu. Neste sentido, os Primeiros Socorros</p><p>Psicológicos configuram-se como veículos promotores da catarse, do autoconhecimento</p><p>e da metamorfose da narrativa do indivíduo, concedendo-lhe a possibilidade de retomar</p><p>– mesmo que de forma periclitante, hesitante e árdua – a vida quotidiana de outrora.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>Allen, B., Brymer, M. J., Steinberg, A. M., Vernberg, E. M., Jacobs, A., Speier, A. H., & Pynoos, R.</p><p>S. (2010). Perceptions of psychological first aid among providers responding to Hurricanes</p><p>Gustav and Ike. Journal of Traumatic Stress, 23(4), 509-513. doi: 10.1002/jts.20539</p><p>Australian Psychological Society (2013). Psychological first aid: An australian guide to supporting</p><p>people affected by disaster. Retrieved from http://www.redcross.org.au/files/Psychologi-</p><p>cal_First_Aid_An_Australian_Guide.pdf</p><p>Autoridade Nacional de Proteção Civil. (2013). 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World Health Organization: Geneva.</p><p>93</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos: relato de intervenção em</p><p>crise em Santa Maria</p><p>Thiago Loreto Garcia da Silva *</p><p>Patricia Gaspar Mello **</p><p>Karine Aline Laini Silveira***</p><p>Laura Wolffenbüttel ****</p><p>Beatriz de Oliveira Meneguelo Lobo *****</p><p>Carla Hervê Moram Bicca******</p><p>Rodrigo Grassi-Oliveira*******</p><p>Christian Haag Kristensen********</p><p>* Graduando de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, membro do</p><p>Núcleo de Estudo e Pesquisa em Trauma e Estresse.</p><p>** Psicóloga, doutoranda em Cognição Humana pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da</p><p>Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa</p><p>em Trauma e Estresse.</p><p>*** Graduanda de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, membro do</p><p>Núcleo de Estudo e Pesquisa em Trauma e Estresse.</p><p>**** Graduanda de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, membro do</p><p>Núcleo de Estudo e Pesquisa em Trauma e Estresse.</p><p>***** Psicóloga, mestranda em Cognição Humana pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da</p><p>Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa</p><p>em Trauma e Estresse.</p><p>****** Médica psiquiatra, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do</p><p>Sul, membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Trauma e Estresse.</p><p>15 1 3</p><p>94</p><p>******* Médico psiquiatra, doutor em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do</p><p>Sul, professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica</p><p>do Rio Grande do Sul, coordenador do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Trauma e Estresse.</p><p>******** Psicólogo, doutor em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande</p><p>do Sul, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade</p><p>Católica do Rio Grande do Sul, membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Trauma e Estresse.</p><p>Departamento e instituição: Núcleo de Estudo e Pesquisa</p><p>em Trauma e Estresse (NEPTE) - Pontifícia</p><p>Universidade Católica do Rio Grande do Sul - Porto Alegre - RS.</p><p>Resumo</p><p>No Brasil, a psicologia das emergências e desastres é concebida como uma área de estudo e</p><p>intervenção em fenômenos que envolvem situações de catástrofe. Nesse contexto, as intervenções em</p><p>crise objetivam aumentar o percentual de sujeitos que se recuperam da tragédia e acelerar esse processo</p><p>de reconstrução. Os Primeiros Socorros Psicológicos (PSP) são protocolos de intervenção que visam</p><p>padronizar o atendimento às vítimas com base em evidências sobre reações agudas ao estresse. No presente</p><p>artigo, é relatada a experiência de aplicação do referido protocolo em vítimas do incêndio da boate Kiss</p><p>em Santa Maria. Ressalta-se que a intervenção possibilitou o acolhimento emocional dos sujeitos de</p><p>forma empática e não invasiva, o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento (coping) adaptativas</p><p>de forma conjunta e a busca de apoio social. Aponta-se para a necessidade de aprimoramento técnico e</p><p>profissional para futuras intervenções em crise no contexto brasileiro.</p><p>Palavras chave: intervenção em crise, prevenção pós-desastre, primeiros socorros psicológicos.</p><p>Abstract</p><p>In Brazil, the Psychology of Emergencies and Disasters is conceived as a field of study and</p><p>performance in phenomena involving disaster. In this context, crisis interventions aimed at increasing the</p><p>percentage of subjects who recover from this tragedy and accelerate the reconstruction process.</p><p>Psychological First Aid (PFA) intervention protocols are aiming to standardize the care victims based on</p><p>evidence of acute reactions to stress. This article aims to report the experience of implementing this</p><p>protocol in victims of the Kiss nightclub fire in Santa Maria. It is noteworthy that the intervention enabled</p><p>the host of emotional subjects empathetically and noninvasive, developing coping strategies (coping)</p><p>adaptive jointly and search for social support. It points to the need for technical improvement and</p><p>professional crisis for future interventions in the Brazilian context.</p><p>Palavras chave: crisis intervention, post disaster intevention, psychological first aid</p><p>THIAGO LORETO GARCIA DA SILVA, PATRICIA GASPAR MELLO, KARINE ALINE LAINI SILVEIRA, LAURA WOLFFENBÜTTEL, BEATRIZ DE OLIVEIRA</p><p>MENEGUELO LOBO, CARLA HERVÊ MORAM BICCA, RODRIGO GRASSI-OLIVEIRA,CHRISTIAN HAAG KRISTENSEN</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>95</p><p>Introdução</p><p>A atuação do psicólogo nas situações de emergências e desastres vem sendo delineada a partir de</p><p>intervenções que facilitem a reabilitação e a reconstrução de comunidades e indivíduos atingidos por</p><p>qualquer condição que os exponha a ameaças à vida ou a perdas traumáticas¹. Assim, visa-se a redução de</p><p>respostas disfuncionais e a diminuição do sofrimento nos sujeitos afetados durante e/ou após o evento².</p><p>No Brasil, a psicologia das emergências e desastres é concebida como uma área de estudo e</p><p>intervenção em fenômenos que envolvem situações de catástrofe (natural ou provocada pelo homem)</p><p>que resultem em grande número de mortos ou feridos e cujas consequências tendam a produzir sequelas</p><p>nos indivíduos afetados que possam se prolongar por toda a vida3,4. Ressalta-se a escassez de estudos</p><p>científicos que explorem as intervenções no contexto brasileiro5.</p><p>Epidemiologia dos desastres</p><p>Os desastres podem ser definidos como situações ou eventos que superam a capacidade de</p><p>assistência local, requerendo, por isso, apoionacional ou internacional. Trata-se de acontecimentos</p><p>imprevistos e frequentemente repentinos, que causam grandes danos, destruição e sofrimento humano6.</p><p>Os desastres classificados como humanos são aqueles que acontecem devido a ações ou omissões</p><p>humanas, relacionando-se com o próprio homem, como agente e autor. Há, ainda, uma subcategoria,</p><p>dentro da classe dos desastres humanos, correspondente aos chamados “desastres tecnológicos”. Eles</p><p>decorrem do uso de artefatos criados pelo homem, tais como meios de transporte, produtos perigosos,</p><p>explosões, entre outros7.</p><p>Neste ano, foi contabilizado o maior prejuízo econômico já registrado no mundo devido a desastres:</p><p>US$ 366,1 bilhões. Em total, 101 países foram atingidos. O Brasil ocupou a 7ª posição no ranking de número</p><p>de desastres naturais registrados e a 9ª, no ranking de vítimas de desastres, atingindo o número de 3,7</p><p>milhões de mortos6.</p><p>Reações ao trauma</p><p>Estudos sugerem que cerca de 90% da população vai passar por ao menos um evento estressor</p><p>potencialmente traumático ao longo da vidax . Os principais eventos estressores traumáticos descritos na</p><p>literatura se referem a violência interpessoal (assaltos, sequestros, agressão física, acidentes de trânsito</p><p>e abuso sexual) e catástrofes naturais (enchentes, terremotos, erupções vulcânicas, epidemias, ataques</p><p>de animais, avalanches e tornados).</p><p>Durante a exposição a esse tipo de situação, é natural que o indivíduo apresente reações</p><p>interpretadas como negativas. Tais respostas fazem parte de um sistema de autopreservação que auxilia</p><p>PRIMEIROS SOCORROS PSICOLÓGICOS: RELATO DE INTERVENÇÃO EM CRISE EM SANTA MARIA</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>96</p><p>o indivíduo quando em situação de perigo. Especialmente nas primeiras 48 horas, o sujeito tende a</p><p>apresentar diversos sintomas, que podem ser de ordem física, emocional, cognitiva e/ou interpessoal. Os</p><p>principais sintomas físicos observados se referem a problemas de insônia, fadiga, tensão muscular,</p><p>alterações no desejo sexual, reações de sobressalto, taquicardia, náuseas e perda de apetite. O surgimento</p><p>de tais sintomas representa uma tentativa do organismo de manter-se preparado para um novo evento</p><p>traumático. As reações emocionais comuns após a exposição a um evento traumático consistem em medo,</p><p>raiva, ressentimento, choque, luto, culpa, vergonha, desesperança, desamparo e entorpecimento. Essas</p><p>emoções adaptam o sujeito à nova realidade e demonstram uma avaliação do ocorrido e suas</p><p>consequências. As reações cognitivas apresentadas são: confusão, desorientação, dificuldade na</p><p>concentração e tomada de decisão, deficits de memória, etc. Por fim, as reações interpessoais</p><p>desenvolvidas na tentativa de acomodar os pensamentos sobre o trauma e lidar com as emoções costumam</p><p>levar as vítimas ao isolamento e à reclusão ou, mesmo, à necessidade extrema de controle9.</p><p>Mesmo apresentando as reações esperadas, cerca de 30% das vítimas não se recuperam após a</p><p>manifestação dessa sintomatologia, nem sequer muitos meses após o ocorrido. Essas vítimas correm o</p><p>risco de desenvolvimento de transtornos mentais, tais como transtornos relacionados a substâncias,</p><p>transtornos de humor e transtornos de ansiedade. Dentre os transtornos de ansiedade, o transtorno de</p><p>estresse agudo (TEA) e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) parecem ser os mais associados à</p><p>exposição a eventos estressores, afetando cerca de 6,8% das vítimas10,11,12.</p><p>Das vítimas envolvidas em desastres e tragédias que já desenvolveram TEPT, sabe-se que entre 30</p><p>e 40% eram vítimas diretas do evento, enquanto de 10 a 20% faziam parte de equipes de resgate e de 5 a</p><p>10% faziam parte da população geral¹³. Há, ainda, um grupo de pessoas que não exibem sintomas iniciais</p><p>intensos, mas, tardiamente, desenvolvem TEPT14,15.</p><p>Embora um percentual importante das vítimas de desastres e tragédias não se recuperem após um</p><p>evento estressor e necessitem de acompanhamento especializado, o percentual que se recupera e retorna</p><p>à rotina com o passar do tempo é ainda maior. A estimativa é a de que as reações agudas ao estresse</p><p>(emocionais, físicas, interpessoais ou cognitivas) sejam transitórias e decresçam em 42% das vítimas já no</p><p>primeiro mês e em mais 23% até o final do primeiro ano posterior ao evento16. O objetivo de intervenções</p><p>em crise é o de aumentar o percentual de sujeitos que se recuperam da tragédia e acelerar o referido</p><p>processo de recuperação.</p><p>Primeiros Socorros Psicológicos</p><p>A literatura apresenta uma lacuna</p><p>quanto à eficácia de intervenções precoces, ou seja, aquelas</p><p>realizadas durante o primeiro mês após a exposição traumática, que atuem na prevenção de reações pós-</p><p>traumáticas desadaptativas17. As intervenções conduzidas no período inicial devem ser breves, focadas</p><p>no presente e devem ter o objetivo de reduzir ou prevenir dificuldades psicológicas a longo prazo18.</p><p>THIAGO LORETO GARCIA DA SILVA, PATRICIA GASPAR MELLO, KARINE ALINE LAINI SILVEIRA, LAURA WOLFFENBÜTTEL, BEATRIZ DE OLIVEIRA</p><p>MENEGUELO LOBO, CARLA HERVÊ MORAM BICCA, RODRIGO GRASSI-OLIVEIRA,CHRISTIAN HAAG KRISTENSEN</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>97</p><p>Dentre as intervenções primárias, a literatura apresenta intervenções realizadas imediatamente após o</p><p>trauma, a curto e a longo prazo.</p><p>O debriefing psicológico é uma intervenção conduzida nos primeiros dias após a exposição</p><p>traumática, focada na expressão de sentimentos e relato da situação traumática e na psicoeducação sobre</p><p>as reações esperadas¹y . Apesar de serem amplamente utilizadas, as intervenções baseadas em debriefing</p><p>psicológico não apresentam sustentação empírica para a redução de sofrimento ou prevenção de reações</p><p>pós-traumáticas desadaptativas, podendo, segundo alguns estudos, prejudicar o processo de recuperação</p><p>esperado após a exposição a traumas e apresentar efeitos prejudiciais a longo prazo²p . Outras intervenções</p><p>de cunho exclusivamente psicoeducativo e informativo, ou mesmo o recurso de escrever sobre a situação</p><p>traumática, foram investigados, mas não apresentam evidências quanto à eficácia²¹.</p><p>Os Primeiros Socorros Psicológicos (PSP) são protocolos de intervenção propostos pelo National</p><p>Center for PTSD com o objetivo de padronizar o atendimento às vítimas com base em evidências sobre</p><p>reações agudas ao estresse. Tais intervenções podem ser iniciadas imediatamente após a ocorrência de</p><p>desastres, direcionadas a crianças, adultos ou famílias afetadas direta ou indiretamente²². Os PSP objetivam</p><p>reduzir o estresse inicial causado pelos eventos potencialmente traumáticos e engajar os sujeitos em</p><p>estratégias de enfrentamento funcionais de curto e longo prazo. Além disso, é importante ressaltar que</p><p>os PSP podem ser aplicados por qualquer profissional na área da saúde mental, mas especialmente por</p><p>psicólogos e psiquiatras.</p><p>Não se espera que todas as vítimas desenvolvam transtornos mentais, porém se sabe que os</p><p>sujeitos afetados irão vivenciar diferentes reações agudas que podem causar estresse o suficiente que</p><p>justifique a necessidade de apoio. Assim, tais intervenções devem ser consideradas como de suporte e</p><p>aconselhamento e não como um tratamento psicoterápico. Não se deve visar um processamento emocional</p><p>como em uma terapia de exposição, mas responder às necessidades agudas daqueles que querem</p><p>compartilhar de suas experiências e respeitar a opção dos que preferem não discutir o fato ocorrido19.</p><p>Os PSP são divididos conceitualmente em nove etapas: (1) preparação: desenvolvimento de</p><p>estratégias adequadas de acordo com a população afetada, manejando os focos de intervenção de acordo</p><p>com os sujeitos de maior risco; (2) primeiros contatos: procedimentos nos quais o profissional se apresenta</p><p>às vítimas de maneira não intrusiva, além de atender a suas necessidades básicas e imediatas (necessidades</p><p>fisiológicas, abrigo e proteção, etc.); (3) segurança e conforto: promoção de rede de apoio social, auxílio</p><p>nas questões de luto, promoção de informações necessárias acerca do ocorrido (evitando a exposição a</p><p>informações traumáticas), acompanhamento no reconhecimento de corpos. Visa prover o máximo de</p><p>estabilidade e segurança física e emocional; (4) estabilização: esta etapa torna-se necessária apenas para</p><p>vítimas que estejam emocionalmente sobrecarregadas ou no limite. Nesses casos, deve-se orientar os</p><p>sujeitos para o acompanhamento e supervisão profissional contínuo, podendo se fazer necessário o uso</p><p>de medicações; (5) busca de informações: após garantidas as etapas anteriores, deve-se, com cuidado,</p><p>PRIMEIROS SOCORROS PSICOLÓGICOS: RELATO DE INTERVENÇÃO EM CRISE EM SANTA MARIA</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>98</p><p>buscar informações que possam ser úteis para o manejo futuro dos sujeitos acompanhados, como histórico</p><p>de traumas anteriores, ideação suicida, saúde física, sentimentos como culpa, raiva, ou vergonha,</p><p>preocupações sobre circunstâncias pós-desastre; (6) assistência prática: esta etapa reforça o papel do</p><p>profissional na execução dos planos de ação para o atendimento de necessidades imediatas dos</p><p>sobreviventes (busca por serviços de saúde, assistência com documentações necessárias); (7) contato</p><p>com apoio social: compreende a busca por ajudas que possam dar continuidade ao acompanhamento das</p><p>vítimas (familiares, serviços sociais, instituições de saúde ou espirituais, centros comunitários); (8)</p><p>estratégias de manejo: promoção de informações básicas sobre reações ao estresse, reações psicológicas</p><p>comuns ao trauma e perdas, informações sobre formas de enfrentamento (emoções negativas, problemas</p><p>com sono, questões relacionadas ao álcool). Nesta etapa, podem se ensinar técnicas simples de</p><p>relaxamento; (9) contato com serviços de colaboração: após o primeiro acolhimento, os profissionais a</p><p>serviço das vítimas devem manter contato contínuo com serviços de referência para um seguimento nas</p><p>relações de auxílio²².</p><p>Incêndio na boate Kiss em Santa Maria</p><p>Santa Maria é uma cidade do interior do estado do Rio Grande do Sul com cerca</p><p>de 261.031 habitantes. A cidade é conhecida regionalmente pelo número de universitários que lá residem</p><p>por estudarem na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).</p><p>Na madrugada do dia 27 de janeiro, em uma festa direcionada à população universitária na boate</p><p>Kiss, ocorreu um incêndio onde 241 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas. Em alguns dos casos,</p><p>as vítimas sobreviveram ao momento da tragédia, mas foram a óbito dias depois, nos hospitais nos que</p><p>estavam internadas devido à inalação de gás tóxico. Algumas vítimas ficaram internadas nos hospitais de</p><p>Santa Maria, e alguns casos graves foram levados para hospitais de Porto Alegre.</p><p>Em decorrência das grandes proporções, considerando o elevado número de mortos e feridos, a</p><p>tragédia teve imediata e grande repercussão midiática no âmbito nacional e internacional. Em virtude,</p><p>também, da limitação de recursos do município para lidar com uma situação de tal dimensão, os órgãos</p><p>responsáveis passaram a solicitar profissionais da saúde voluntários – como médicos, enfermeiros e</p><p>psicólogos – para ajudarem a atender as vítimas e os familiares.</p><p>Relato de experiência</p><p>Na manhã seguinte à madrugada em que o evento ocorreu, as notícias percorriam a mídia nacional</p><p>e internacional. A partir de tal repercussão, os membros do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e</p><p>Estresse (NEPTE) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) se mobilizaram para ir</p><p>a Santa Maria. O NEPTE é um centro de pesquisa e atendimento a vitimas de eventos estressores</p><p>THIAGO LORETO GARCIA DA SILVA, PATRICIA GASPAR MELLO, KARINE ALINE LAINI SILVEIRA, LAURA WOLFFENBÜTTEL, BEATRIZ DE OLIVEIRA</p><p>MENEGUELO LOBO, CARLA HERVÊ MORAM BICCA, RODRIGO GRASSI-OLIVEIRA,CHRISTIAN HAAG KRISTENSEN</p><p>REVISTA BRASILEIRA DE PSICOTERAPIA 2013;15(1):93-104</p><p>99</p><p>potencialmente traumáticos que visa investigar fatores sociais, psicológicos e neurobiológicos</p><p>predisponentes e preponderantes a reações pós-traumáticas desadaptativas, bem como o</p><p>desenvolvimento de estratégias terapêuticas eficazes para o tratamento dos sujeitos.</p><p>A equipe chegou à cidade ainda no final da tarde do dia 27 de janeiro. Nesse dia, as operações se</p><p>concentraram em pavilhões de um centro desportivo em que estavam ocorrendo o reconhecimento dos</p><p>corpos, o acompanhamento dos familiares e o encaminhamento para funerais que ocorreriam em</p><p>diferentes locais da cidade, alguns no próprio pavilhão. Estimamos que, ao todo, naquele dia, mais de</p><p>duas mil pessoas estiveram nos pavilhões.</p>

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