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<p>A psicologia científica e seu processo de autonomização no Brasil N ovas e significativas transformações ocorreram, a partir do final do século XIX, tanto na sociedade brasileira quanto na Psicologia. O Brasil adotou o modelo republicano, ao mesmo tempo em que se consolidava e atingia pleno desenvolvimento a economia de base vinculada fundamental- mente à produção cafeeira, o que contribuiu para a geração de condições que possibilitaram a efetivação do processo de indus- trialização do país. Tais fatores concorreram para a expansão do processo de urbanização e para a definição do pólo econômico-políti- co-cultural do país na região Sudeste. Assistiu-se, nesse momento, à expansão do ideário liberal entre os intelectuais brasileiros, cuja participação política e cultural tornou-se intensa, trazendo à tona a preocupação com a "questão nacional" e a busca de caminhos para o progresso e a modernidade. A Psicologia, por sua vez, adquiriu no final do século pas- sado o estatuto de ciência autônoma; processo esse originado na Europa e seguido de acelerada evolução dessa ciência não apenas em seu solo original, mas também nos Estados Unidos. Na virada do século, ocorreu intenso desenvolvimento da ciência psicológica em todas as instâncias, quer no plano teórico destacando-se a di- versidade de abordagens surgidas nessa época e o aumento signi- ficativo da produção de pesquisas quer no plano prático, em que esta ciência penetrou e ampliou seu potencial de aplicação. A concomitância desses dois conjuntos de fatores e a possi- bilidade efetiva de estabelecimento de relações entre eles, em fun- ção da articulação entre potencialidades e necessidades, passíveis de serem mutuamente realizadas, permitiram um avanço sem precedentes na história da Psicologia no Brasil.</p><p>38 A Psicologia no Brasil Leitura histórica sobre sua constituição 39 Os problemas que o Brasil enfrentava no século XIX tende- podem ser considerados como os primeiros psicólogos brasileiros. ram, com a virada do século, a agravar-se e outros vieram a eles se Acrescentam-se a eles vários psicólogos estrangeiros que para cá somar, de tal maneira que o pensamento psicológico, já em franco vieram ministrar cursos, proferir palestras ou prestar assistências processo de desenvolvimento no país, encontrou terreno fértil para técnicas específicas, dos quais muitos aqui permaneceram e se radi- penetrar e estabelecer-se na sua dimensão científica e caminhando caram definitivamente no país. para sua autonomia teórica e prática em relação às áreas do saber no interior das quais havia se desenvolvido até então, como a Medici- Abordaremos, a seguir, a produção psicológica na Medicina, na e a Educação. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da ciência na Educação e na sua aplicação à organização do trabalho, no perío- psicológica e a ampliação de seu campo de ação maximizavam as do compreendido entre a última década do século XIX e as três possibilidades concretas de a Psicologia contribuir com possíveis primeiras décadas do século XX. respostas para as questões que se impunham. A Psicologia e outras áreas de conhecimento foram buscadas no sentido de contribuir com soluções para os problemas relaciona- dos à saúde, à educação e à organização de trabalho, no interior de uma formação social dependente e atrasada, em busca da mo- dernidade representada pela concretização do ingresso do Brasil no mundo industrializado. Nesse contexto e em face de tais problemas ocorreram im- portantes realizações da Psicologia no Brasil, cujas principais pro- duções são ainda oriundas das instituições médicas e educacionais. A partir dessa base e em seu interior é que a Psicologia se desenvol- veu, conquistando sua autonomia em relação às áreas do saber no interior das quais evoluíra até então, por meio da definição e da delimitação cada vez mais explícitas de seu objeto de estudo e de seu campo próprio de ação. Tentaremos demonstrar que a produção psicológica no interior de algumas instituições delineia-se cada vez com maior clareza, de um lado pela diferenciação gradativa de outras áreas de conhecimento, como a Psiquiatria por exemplo, e de outro lado pela penetração das idéias e práticas já constitutivas daquilo que, na Europa e nos Estados Unidos, era considerado como Psicologia científica. As personagens dessa história são principalmente médicos, educadores, bacharéis em direito e até engenheiros, sendo que mui- tos deles acabaram por dedicar-se exclusivamente à Psicologia e</p><p>Capítulo A psicologia em instituições médicas A tendência do século XIX manteve-se por algum tempo, dife- renciando-se gradativamente, sendo que as preocupações es- tritamente psiquiátricas foram se delineando com maior clareza e delimitando mais explicitamente suas fronteiras com a Psicolo- gia. Tais fatos ocorreram ainda no interior da Medicina, mas já caracterizada como especialidade psiquiátrica, particularmente nas instituições asilares e em seu correlatos, como a Medicina Legal ou a Higiene Mental. A principal evidência disso foi a criação de laboratórios de Psicologia em diversas instituições psiquiátricas, cuja produção foi principalmente de natureza psicológica. de- senvolvimento dos saberes psiquiátrico e psicológico e suas decor- rências práticas foram fatores fundamentais para que ambas as áreas adquirissem contornos mais nítidos e, uma maior delimitação entre si. O país encontrava-se ainda na mesma (e talvez pior) situação que no século anterior, no que diz respeito às precárias condições de saneamento e saúde do povo brasileiro. Intelectuais e políticos reclamavam da Medicina intervenções concretas por meio de um projeto profilático, com a finalidade de erradicar, ou pelo menos minimizar, as inúmeras doenças infecto-contagiosas que assolavam o país. Esse movimento, no âmbito da Medicina Geral, estava inti- mamente relacionado à questão da Higiene que, nos anos iniciais do século XX, estava revestido de ampla responsabilidade frente à realidade. É no bojo de tais fatos que tanto o pensamento psiquiátri- quanto o psicológico encontraram fértil terreno para seus estu- dos e para a aplicação de seus conhecimentos por meio da Higiene Mental, instância derivada da Higiene em sua expressão geral. As ligas de Higiene Mental foram, assim, importantes fontes de produ- ção de pesquisa e de práticas relacionadas à Psicologia.</p><p>A Psicologia no Brasil Leitura histórica sobre sua constituição Como solução apresentava-se a necessidade de um efetivo controle Para expor essa linha de desenvolvimento histórico da Psicolo- sobre a massa urbana, com vistas à sua disciplinarização. Nesse gia, abordaremos a seguir as produções dos hospícios, incluindo a Liga contexto, ganha força a teoria da degenerescência. Brasileira de Higiene Mental; as produções relativas às intermediações entre Psiquiatria e Direito, que foi um importante veio de desenvolvi- Essas idéias são incrementadas na virada do século, com o mento da Psicologia, principalmente por meio da Medicina Legal, e agravamento dos problemas urbanos, de tal maneira que o controle das teses de doutoramento das Faculdades de Medicina. das massas impunha-se como premente necessidade para uma sociedade que almejava ingressar num efetivo processo de indus- trialização, sobretudo no que diz respeito ao proletariado. Assim, 1.1. Os hospícios e algumas instituições correlatas a articulação entre pensamento psiquiátrico e controle do processo produtivo revela-se explicitamente. sustentáculo das produções que serão apresentadas a seguir foi o alienismo. Surgiu este na Europa, como área que se autonomizou A preocupação com a "ordem" urbana e com o "progresso" em relação à Medicina tradicional, estabelecendo como seu objeto de baseia-se também nos princípios positivistas, ainda fortemente estudo a "razão", cuja compreensão não poderia, segundo seus defen- arraigados no ideário brasileiro. A questão da "ordem" assume gran- sores, situar-se na Anatomia ou na Fisiologia, pois teria aquela uma de importância nessa conjuntura, devendo o asilo excluir do conví- natureza diversa. Ao alienismo veio somar-se, mais tarde, o organicismo, vio social aqueles que não se adaptassem às normas estabelecidas, que trazia a concepção de loucura como organicamente determinada. isto é, os "desordeiros", estando incluídos nessa categoria os indiví- duos engajados nos movimentos sociais organizados. O pensamento psiquiátrico brasileiro da época tinha como prin- cipal característica o ecletismo, que conjugava o alienismo clássico, Tais concepções, embora majoritárias, não foram unânimes, especialmente de Pinel e Tuke, com o organicismo, em particular numa que demonstraremos adiante pela experiência de Ulysses de suas vertentes, a teoria da degenerescência, fortemente calcada na o Pernambuco em Recife. Além desta, apresentaremos a seguir algu- mas considerações sobre o Hospício do Juquery, o Hospital Nacio- concepção da determinação hereditária da loucura. nal de Alienados, a Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro e A teoria da degenerescência propunha ações que extrapolavam as Ligas de Higiene Mental. os muros asilares, propondo a higienização e a disciplinarização da sociedade. Considerava ainda a existência de uma hierarquia racial, estando no ápice a raça ariana e na base a raça negra; muitos teóri- Hospício do Juquery' cos acreditavam ser os negros mais propensos à degeneração por Os primórdios do Hospício do Juquery situam-se no Asilo sua inferioridade biológica. Provisório de Alienados da Cidade de São Paulo. Sua criação é obra No Brasil, essas duas correntes juntam-se numa só de Franco da Rocha, que empreendeu a reforma psiquiátrica em cia, em que a exclusão do "louco" deveria ser compartilhada com a São Paulo, denunciando a precariedade da assistência aos doentes prevenção "social" da loucura. O alienismo havia sido, no século anterior, expressão da Me- Sobre Hospício do Juquery, sugere-se a leitura do valioso estudo constante Janeiro, do livro: Paz dicina Social, que incluía em seu projeto profilático a preocupa- 9 CUNHA, o M. espelho do mundo: Juquery, a história de um asilo. Rio de ção com a pobreza, a marginalidade social, o crime e a loucura. e Terra, 1986.</p><p>A Psicologia no Brasil Leitura histórica sobre sua constituição 45 mentais e defendendo uma nova instituição, baseada em práticas científicas, sobretudo no "asilamento racional". socialmente importantes para o resguardo da ordem e da discipli- na, medicalizando comportamentos desviantes ( ...) e permitindo O Hospício do Juquery foi construído fora da zona urbana, que sua reclusão possa ser lida como um ato em favor do louco, e sendo seu projeto arquitetônico de autoria de Ramos de não contra ele" (Cunha, 1986, p. 80). Em 1898 já funcionavam as colônias agrícolas; e suas depen- dências foram várias vezes ampliadas ao longo do tempo, sendo O hospício vai gradativamente abandonando sua preocupa- ção com a individual e assumindo tarefas de ordem social. anexados o pavilhão para "crianças anormais". o laboratório histoquímico e o Manicômio sobretudo no que diz respeito ao controle da força de trabalho. Do ponto de vista prático, as técnicas "científicas" utilizadas Franco da Rocha e seu sucessor, Pacheco e Silva, defendiam consistiam, por exemplo, em: alternância de banhos frios e quentes, a centralização da assistência psiquiátrica como forma de gerar malarioterapia, traumaterapia, laborterapia e terapias medicamentosas. condições para o estudo da loucura, com base na descrição, com- paração e classificação, revelando concomitantemente a preocu- A produção do Juquery circunscreve-se especificamente no pação em demonstrar a pertinência da teoria da degenerescência âmbito da Psiquiatria, não trazendo contribuição direta para o conheci- mento e a prática da Psicologia. Entretanto, sua preocupação com a Segundo Cunha, a produção do hospício demonstrava que: loucura abarca, sem sombra de dúvidas, o fenômeno psicológico, "o interesse se desdobra a partir de quadros nosológicos já configu- embora sua maior contribuição seja a de demarcar mais nitidamen- rados e volta-se para a identificação das formas particulares das te as fronteiras entre a Psicologia e a Psiquiatria e, naquela sociedade particular, como decorrência de uma demonstrar nesse caso um fator relevante para a compreensão do herança genética onde amalgamavam-se imigrantes, escravos e todo processo de autonomização da ciência psicológica. tipo de sangue degenerado: o impacto do crescimento urbano no É necessário reconhecer, entretanto, que ambas as áreas crescimento da sífilis, deflagradora de um tipo determinado de pato- tratam, sob enfoques e fundamentos diversos, fenômenos de uma logia mental (...); a loucura associada às caracteristicas raciais e o mesma natureza e que é inquestionável que, apesar das frontei- significado disto em sua apresentação na sociedade miscigenada do ras, há tanto do ponto de vista do objeto de estudo país; a correspondência entre loucura e crime; a relação entre as quanto do ponto de vista prático. Soma-se a isso que suas produ- formas de doença mental e os padrões culturais como ções situam-se numa dada realidade, sendo que cada uma, a seu (...) as religiões 'primitivas' dos negros e dos pobres" (1986, p. 77). modo, busca responder às suas demandas. Juquery representou em São Paulo o pensamento psiquiá- trico hegemônico no Brasil, nessa época. Sua prática articulou-se às necessidades trazidas pelo processo de industrialização que se Hospital Nacional dos Alienados acelerava na cidade e teve uma dimensão política que era a de Após a proclamação da república, o Hospício Pedro II passou a "conferir legitimidade à exclusão de indivíduos ou setores sociais ser chamado Hospital Nacional dos e sua administração não enquadráveis nos dispositivos penais; permitir a guarda (...) e a regeneração ou disciplinarização de ind/ resistentes às disci- plinas do trabalho, da família e da vida urbana; reforçar papéis 10 Sugere-se a leitura de: COSTA, História da Psiquiatria no Rio de Janeiro, Documentário, 1976.</p><p>A Psicologia no Brasil Leitura histórica sobre sua constituição 47 transferida ao Estado, em substituição à Santa Casa de tendo abrigado profissionais que, em seu laboratório ou fora dele, Em 1902, após a detecção de inúmeros problemas na instituição, foi produziram relevantes obras psicológicas, como Maurício de Medeiros nomeado para sua direção Juliano Moreira, cuja prática inaugura "uma e Plínio Olinto. Isso remete à questão de que a Psiquiatria no Brasil, psiquiatria cujos fundamentos teóricos, práticos e institucionais cons- em sua manifestação institucional, assumiu parcela da produção psi- tituíram um sistema psiquiátrico coerente" (Costa, 1976, p. 26). Esse cológica, vinda não somente da tradição passada, quando não havia hospício pode ser visto como o primeiro no Brasil que tratou a loucu- qualquer forma de delimitação entre as duas áreas de saber, mas tam- ra do ponto de vista eminentemente médico. Nomes consagrados como bém pelo fato de que a Psiquiatria necessita do intercâmbio com o Henrique Roxo, Afrânio Peixoto e Mauricio de Medeiros contribuíram conhecimento psicológico, fomentando e sediando sua pesquisa. com a constituição da prática psiquiátrica instalada na instituição. Por fim, deve-se dizer que a impossibilidade de acesso aos Em 1907, sob a direção de Juliano Moreira, é criado o prová- documentos que registram a produção do laboratório, pois esses vel segundo laboratório de Psicologia no Brasil (o primeiro teria sido encontram-se perdidos, compromete sobremaneira a avaliação no "Pedagogium", em 1906), denominado Laboratório de Psicologia mais profunda da participação desse hospício e de seu laboratório Experimental da Clínica Psiquiátrica do Hospital Nacional dos Aliena- na história da Psicologia no Brasil. Esse laboratório foi chefiado por Maurício de Medeiros, construído sob a influência de Georges Dumas, com quem Medeiros trabalhou.em Paris, no laboratório de Psicologia do Hospital de Saint' Anne. Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro e Nesse hospício, também sob a direção de Juliano Moreira, res- Fundada no Rio de Janeiro na década de 10, a Colônia produ- ponsabilizou-se Heitor Carrilho pelo setor que deveria abrigar os "cri- ziu extensa contribuição à Psicologia por meio de seu fértil labo- minosos loucos", gérmen do Manicômio Judiciário, criado em 1921. criado em 1923. Hospital Nacional dos Alienados foi, como o Juquery, um Esse laboratório foi transformado em Instituto de Psicologia, asilo modelo para o pensamento psiquiátrico da época, representando subordinado ao Ministério de Educação e Saúde Pública, em 1932. a tendência vigente em que o ecletismo tornou-se posição pratica- Em 1937 foi incorporado à Universidade do Brasil, para contribuir, mente hegemônica. Para ele confluíram médicos cariocas e baianos, segundo Penna, com as Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, representando as orientações de Teixeira Brandão e Raimundo Nina de Educação e de Política e Economia. Rodrigues respectivamente, sendo que ambas as tendências tiveram, Havia também na Colônia a Escola de Enfermagem, que con- apesar de suas particularidades, como seu principal fundamento a tinha em seu currículo a disciplina Psicologia, ministrada por Gustavo Medicina Social e seus motivos de natureza Rezende e Nilton Campos. Ao contrário do Juquery, no entanto, nesse hospício é explí- Criado por Gustavo Riedel, diretor da Colônia, o laboratório foi cito o vínculo com a Psicologia, concretizado na existência do labo- patrocinado pela Fundação Sua finalidade, juntamente ratório. Nesse sentido, o Hospital Nacional dos Alienados pode ser visto como uma instância produtora de conhecimento psicológico, 12 Sobre esse laboratório, ver: PENNA, A. G. Sobre a produção científica do Laboratório de Sobre isso, ver: PENNA, A. G. Apontamentos sobre as fontes e sobre algumas das figuras Psicologia da Colônia de Psicopatas, no Engenho de Dentro, in: História da Psicologia, 1, mais expressivas da Psicologia na cidade do Rio de Rio de Janeiro, FGV, 1986. Rio de Janeiro, FGV, 1985.</p><p>A Psicologia no Brasil Leitura histórica sobre sua constituição 49 com uma exposição de motivos e até mesmo uma definição da Merece referência também a contribuição do laboratório à função do psicólogo, foi assim expressa por Osvaldo N. de Sou- organização do trabalho, que se mostra claramente definida, parti- za Guimarães: "atualmente todo Instituto destinado ao estudo, cularmente no que se refere à utilização de testes para fins de sele- cura e profilaxia das moléstias mentais deve ter, auxiliar ção e orientação profissional. Foram realizados estudos e pesquisas indispensável, um laboratório de psicologia, a cargo de um sobre fadiga em "trabalhadores menores", seleção de candidatos à psicólogo profissional. Este torna-se, então, valioso colabora- aviação militar, psicometria e questões profissionais etc. Além disso, dor do médico, para eficiência. de tal Instituto" apud é necessário dizer que o trabalho no laboratório, junto com outros Penna, 1985, p. 28). Para a direção do laboratório foi chamado o que se realizavam em outras instituições, traz uma nova caracterís- psicólogo polonês Waclaw Radecki. tica às contribuições que até então as instituições psiquiátricas da- laboratório, que contava com sofisticados equipamentos vam à problemática do trabalho, cuja principal finalidade era exer- vindos de Paris e Leipzig, "funcionava como instituição auxiliar cer o controle e a disciplinarização do proletariado urbano fora dos médica; (2) como auxiliar das necessidades sociais e práticas; (3) muros da fábrica. A partir daí, a Psicologia penetra no interior como núcleo de pesquisas científicas; (4) como centro didático para processo produtivo, com um caráter estritamente técnico-científico, formação de (Penna, 1985, p. 30). por meio da intervenção direta nos processos seletivos e no estabe- lecimento de contingências e normas nas relações de produção, com A extensa produção do laboratório demonstra, em relação aos base no saber psicológico. asilos já estudados, um imenso avanço em direção ao reconheci- mento da autonomia científica e prática da Psicologia no Brasil. Um destaque especial deve ser dado à importância da presen- Explicita-se aí, com clareza, que a Psicologia é vista como campo ça de Radecki nesse laboratório e, por decorrência, na história da próprio de conhecimento e ação, ao mesmo tempo em que é reco- Psicologia no Brasil. Foi ele o autor de grande parte dos trabalhos inhecida sua íntima relação com a Psiquiatria. produzidos no laboratório, quando não ou orientador. Foi ele quem ministrou inúmeros cursos e conferências, com influência Do ponto de vista da produção do laboratório, além da quan- significativa na divulgação e difusão da Psicologia no país. Suas tidade de pesquisas e ensaios, três elementos apresentam-se como realizações constituem-se na quase totalidade da produção do labo- particularmente significativos: a preocupação com a formação de ratório, devendo-se a ele também, provavelmente, a marcante cultura psicólogos e a difusão do conhecimento psicológico; o trabalho clí- psicológica presente nos trabalhos produzidos, em que são frequen- nico e a aplicação da Psicologia a questões relativas ao trabalho. tes citações e referências a: Ribot, Claparède, William James, Janet, O laboratório da Colônia contribuiu com uma das primeiras Forel, Babinski, Bernheim, Kräepelin, Bleuler, Minkowski e referências, no Brasil, da perspectiva psicoterápica, num momento Kretschemer, dentre outros, devendo-se salientar a significativa em que tal campo de ação, quando existia, limitava-se à Psiquiatria. presença da Psicanálise. É possível tomar como hipótese que esse tipo de trabalho, ainda que Finalmente, deve-se reafirmar que a Colônia de Psicopatas do incipiente, tenha lançado algumas bases para, mais tarde, tornar-se Engenho de Dentro foi uma das mais importantes instituições que um dos mais importantes campos de atuação da Psicologia no país, geraram condições para o estabelecimento da Psicologia no Brasil, o qual só nas décadas seguintes viria a ter contornos mais definidos quer pela consolidação desta área do saber como ciência, quer em como possibilidade de aplicação psicológica. relação ao reconhecimento de sua autonomia teórica e prática.</p><p>A Psicologia no Brasil Leitura histórica sobre sua constituição 51 Liga Brasileira de Higiene Mental Brasília Leme Lopes. Além disso, a Liga propôs em 1932, ao Mi- e instituições correlatas racis nistério da Educação e Saúde Pública, a presença obrigatória de gabi- A Liga Brasileira de Mental foi fundada em 1923, netes dè Psicologia" junto às clínicas psiquiátricas, sendo a proposta por Gustavo Riedel, tendo em seus quadros os mais eminentes acolhida em instruções do referido ministério. Anualmente a Liga psiquiatras e intelectuais da época. Segundo Jurandir Freire Costa, realizava as "Jornadas Brasileiras de Psicologia", cujo objetivo era o objetivo inicial da Liga idealizada por Riedel era a melhoria da difundir pesquisas puras e aplicadas nessa área do assistência ao doente mental. Preocupação com a Psicologia teve também a Liga Paulista de A partir de 1926, porém, esse objetivo foi cedendo lugar ao Higiene Mental, fundada em 1926, por Pacheco e Silva, funcionando ideal à profilaxia e à educação dos indivíduos. A preo- em moldes semelhantes à sua correspondente Na Liga cupação transferiu-se do indivíduo "doente" para o "normal", da Paulista, a Psicologia aparecia explicitamente articulad4a às questões cura para a prevenção, ampliando seu raio de ação para a sociedade relativas à organização do trabalho, como instrumento de obtenção como um todo, definindo a ação psiquiátrica como prática higiênica, de conhecimento a respeito das funções psicológicas presentes no apoiada na noção de eugenia. exercício profissional, tais comó: funções psicomotoras, memória, atenção e julgamento; tais elementos articulavam-se, na prática, à apli- Essa concepção contribuiu para uma interpretação racista da cação da Psicologia à seleção e orientação profissional. Como ilus- sociedade brasileira, que tendia a atribuir os problemas tração, vale a pena citar um trecho de Bonifácio Castro cos às questões raciais, especialmente à presença de "raças inferiores", numa explícita referência aos negros que, junto com o clima quente, "A higiene mental nas oficinas e nas profissões em geral é um fator eram responsabilizados pelo atraso do país. Essas idéias desemboca- de grande prosperidade para a indústria, porque assegura um me- ram na defesa do "embranquecimento da raça brasileira" e, posterior- lhor rendimento. Ela pode ser realizada pela orientação profissio- mente, na busca da "pureza racial". nal e pela seleção psicológica dos operários, tendo por No bojo dessa discussão, a problemática educacional ocupou 1°) a eliminação nas oficinas de certas classes de profissionais psi- lugar privilegiado, sendo que a ignorância era vista como uma das copatas que constituem um peso morto e um grave prejuízo para a mais graves doenças sociais. Juntamente com essa questão e a coletividade; relacionada integra-se a problemática das relações de traba- 2°) colocar os indivíduos em seus devidos lugares, de acordo com lho; temas que estiveram diretamente articulados ao pensamento as aptidões mentais, condições que favorecem êxito do trabalho" da Liga e constituíram-se em objetos de estudo e alvos de ação. (Castro Filho, apud Cunha, 1986, p. 189). A Liga reconhecia a Psicologia como ciência afim à Psiquia- tria e estimulava sua produção. Nesse sentido, foi criado um Essas idéias buscavam na Psicologia não apenas fundamen- rio de Psicologia, cuja direção foi inicialmente confiada ao francês tação teórica e corpo de técnicas úteis às suas finalidades de Alfred Fessard e posteriormente a Plínio Olinto, que foi sucedido por higienização social do trabalho e da família, como também prenun- ciavam um outro tipo de prática que se aproximava da prática clínica 13 Eugenia, conceito criado por Galton, significa estudo dos fatores responsáveis pela ou rebaixamento das características raciais, do ponto de vista físico e mental. 14 CASTRO FILHO, B. Higiene Mental nas fábricas, apud CUNHA, obra citada,</p><p>A Psicologia no Brasil Leitura histórica sobre sua 53 da Psicologia no momento subsequente, pelas denominadas Movimento Psiquiátrico de Recife nicas de higiene mental". cuja finalidade era de origem profilática e, portanto, voltada para o indivíduo "normal". Esse movimento erigiu-se sobre o alicerce representado pelas e ações de Ulysses Pernambucano, caminhando na contra- A isso deve-se acrescentar o papel desempenhado pelo Institu- mão do pensamento psiquiátrico corrente na época e contribuindo to de Higiene de São Paulo, cuja ação foi semelhante à da Liga Brasi- significativamente para a Educação (que será especificamente abor- leira de Higiene Mental. Esse instituto foi dirigido, a partir de 1926, por dada no próximo capítulo). Geraldo Paula Sousa, que organizou um grupo de estudos de Psicolo- gia Aplicada, do qual participaram médicos, educadores e engenhei- Formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, ros; os estudos aí realizados versaram sobre a Psicologia do Trabalho Pernambucano foi discípulo de Juliano Moreira; porém, sua prática e deram também origem ao "Serviço de Inspeção Médico-Escolar", no distanciou-se da Psiquiatria organicista préponderante nos meios qual foi criada uma escola especial para crianças com deficiência men- acadêmicos e institucionais de então. Nomeado, em 1924, diretor tal e, em 1938, uma clínica de orientação infantil, provavelmente uma do Hospital de Doenças Nervosas e Mentais de Recife, aboliu os das primeiras no país, chefiada por Durval Marcondes. calabouços e as camisas-de-força, implantou a praxiterapia, criou o Pavilhão de Observações, o Laboratório de Análises e o Pavilhão de A concepção psiquiátrica das Ligas de Higiene Mental, em- Hidroterapia, tendo também criado o sistema de "internato acadê- bora fortemente arraigada nas idéias correntes na Psiquiatria brasi- mico" para os jovens médicos estagiarem. leira, não era contudo unânime. Segundo Freire Costa, Teve Pernambucano participação fundamental na implanta- "na mesma época, Odilon Galotti, no Rio, James Ferraz Alvim, em ção da "Assistência a Psicopatas de Pernambuco", assim composta: São Paulo, e Ulisses Pernambucano em Recife (...) orientavam suas serviços para doentes mentais não alienados, com ambulatório e pesquisas numa direção totalmente oposta à higiene social da raça. hospital aberto; serviços para doentes mentais alienados, com hos- Para esses psiquiatras, que mantinham também ligações com a pital para doentes agudos e colônia para doentes crônicos; L.B.H.M., a higiene mental continuava a ser aquilo que Riedel havia mio Judiciário; Serviço de Higiene Mental, com Serviço de Preven- desejado que fosse: melhoramento e humanização da assistência ção das Doenças Mentais e Instituto de Psicologia. Sobre o Serviço objeti aos doentes mentais" (1976, p. 63). de Higiene Mental, afirma João Marques de pensamento e a ação das ligas são expressões de uma concep- "Creio mesmo que o Serviço de Higiene Mental foi responsável pela ção autoritária de mundo, representada na Psiquiatria principalmente suspensão da interferência da polícia sobre os cultos afro-brasileiros. pelo pensamento nas figuras de Rudin, Hoffmann e Meggen- As seitas africanas tiveram em Ulysses e no mestre Gilberto Freyre os dorfer, do organicismo de Kräepelin. Pretendia-se, em mais ardentes defensores, passando a receber certo grau de controle nome da ciência, abarcar o controle da sociedade e, para tal, defendia- científico do serviço de Higiene Mental" (1978, p. 20). se e estimulava-se a pesquisa e a aplicação da Psicologia como meio A referência acima a "controle científico" relaciona-se prova- auxiliar para seus fins. É interessante notar que a Psicologia encon- velmente aos estudos realizados por Pernambucano sobre os africanos tra-se, nesse contexto, como detentora de um saber e de um corpo de técnicas, particularmente a psicometria, relacionada às práticas es- 15 SÁ, J. M. Abertura do Ciclo de Estudos Ulysses Pernambucano, in: Ciclo de Estudos pecificamente psicológicas, numa versão bastante próxima das atuais. Ulysses Pernambucano. Recife, Academia Pernambucana de Medicina, 1978.</p><p>54 A Psicologia no Brasil Leitura histórica sobre sua constituição 55 no Brasil e que o fez conhecido também como antropólogo. Esses denominação de "Psiquiatria Humanista", conferida por Jamesson estudos foram inicialmente influenciados por Nina Rodrigues, cujo Freire Lima ao trabalho de Pernambucano. teor era marcadamente racista, considerando as manifestações cultu- rais negras como sintomas da degenerescência mental, em função da Do ponto de vista da produção especificamente psicológica, inferioridade racial. Ulysses Pernambucano, entretanto, distanciou-se o movimento de Recife veio contribuir em particular com seu Insti- dessa concepção, passando a repudiá-la e dirigindo seus estudos para tuto de Psicologia, mais tarde denominado Instituto de Seleção e caminhos opostos ao pensamento de Raimundo Nina Rodrigues. Orientação Profissional. Do que foi aqui exposto, é possível apontar elementos que se ligam direta ou indiretamente à Psicologia propria- Pernambucano fundou a Liga de Higiene Mental de Pernam- mente dita, devendo destacar-se a preocupação de Ulysses buco que, segundo Freire Costa, teve caráter bastante diferente das Pernambuco com a formação de profissionais na área psicológica demais ligas, sendo essa fiel aos objetivos inicialmente propostos que, inclusive, teve relação com seus propósitos educacionais. por Riedel para a Liga Brasileira de Higiene Mental, ou seja, a busca centa-se a isso a preocupação educacional em geral e psicológica de melhoria na assistência aos doentes mentais. Na Liga, Pernambucano em especial que teve com crianças com deficiência mental. criou uma "Escola para Anormais" que, em 1964, passou a ser dirigida pela APAE. Em 1936, ele criou o Sanatório de Recife, no De forma geral, podemos dizer que esse psiquiatra adotou qual foi também instalada uma "Escola para Anormais". em seu trabalho uma perspectiva muito próxima à Psicologia na sua maneira de conceber e atuar sobre a doença mental. Preocupou-se também Pernambucano com a formação de pro- fissionais da área de saúde mental, tendo realizado vários cursos inten- Seus estudos sobre a cultura afro-brasileira foram não ape- sivos de especialização, com a finalidade de promover a formação prá- nas contribuições à Antropologia, mas podem ser também admiti- tica de "monitores de saúde mental" e "auxiliares psicólogos", sendo dos como Psicologia Social, na medida em que buscaram articular essa última função ocupada principalmente por professoras diplomadas cultura e psiquismo. pela Escola Normal. Acrescenta-se a isso o serviço de estágio que le- inúmeros discípulos de Ulysses à atuação na área de saúde mental. 1.2. Medicina Legal, Psiquiatria Forense Pernambucano pode ser considerado como pioneiro do movi- e Criminologia do mento que mais tarde veio a ser conhecido como Anti-Psiquiatria, dividualise muito embora a pouca divulgação sobre seu pensamento e obra, A concepção psiquiátrica vigente na época, como já visto, em seu próprio país, não tenha permitido que tal movimento pu- pretendia abarcar as questões sociais e sobre elas exercer seu desse reconhecê-lo. controle, com vistas ao estabelecimento da ordem no espaço ur- A doença mental era por ele concebida como situação exis- bano, costumeiramente palco de conflitos, o que implicava na tencial, resultante da dinâmica do processo psicológico, conside- eliminação da "desordem" que, por sua vez, significava identifi- car e envidar meios efetivos de controle sobre os elementos rando o sujeito como agente desse processo e admitindo os fatores sociais como co-determinantes. Opunha-se esta visão ao orga- "desordeiros". É por esse motivo que o combate ao alcoolismo, nicismo, que via a doença mental como causada pela constituição jogo, prostituição e crime ganharam terreno no interior da Psi- orgânico-genética do sujeito, e que era antes determinante que quiatria, que procurou articular doença mental e determinada pelas condições sociais. Essa concepção justifica a com base na teoria da degenerescência.</p><p>56 A Psicologia no Brasil Leitura histórica sobre sua constituição 57 Assim, Psiquiatria e Direito integraram-se por meio da Medi- cina Legal, da Psiquiatria Forense e da Criminologia, sob a influên- mental, mostrando a fatalidade biológica que os à prática de cia do organicismo, além das idéias de Spencer, Darwin, Galton, reações anti-sociais, desvendando-lhe a constituição, temperamento Comte, Wundt e, especialmente, de e caracter, para a obra admiravel da regeneração de que lhes care- cem, em benefício próprio e no da collectividade" (Carrilho, apud Médicos como Oscar Freire, Afrânio Peixoto, Artur Ramos e Fry, 1985, p. 123). o jurista Evaristo de Moraes são alguns daqueles que dedicaram grande parte de seus trabalhos à Medicina Legal, com significativa Essa interpretação psicologizada do crime articulava-se às produção bibliográfica. Deve-se destacar o papel de Heitor Carrilho, idéias correntes, imputando ao criminoso a etiologia da criminalidade cuja contribuição foi não apenas teórica, mas fundamentalmente no e isentando de responsabilidade as condições sociais; a sociedade campo da prática institucional da Psiquiatria Forense. era vista como vítima do indivíduo criminoso, com isso referen- Carrilho iniciou seu trabalho como psiquiatra no Hospital dando a noção de saneamento da sociedade pela exclusão dos Nacional dos Alienados, encarregando-se da Seção Lombroso, que "desordeiros" e pela regeneração dos indivíduos. abrigava os "criminosos loucos". Por seu esforço, foi criado em Carrilho desenvolveu em seus uma série de elementos 1921, no Rio de Janeiro, o Manicômio Judiciário, do qual foi dire- necessários para a prática do Direito Positivo, particularmente no que tor; além disso, contribuiu com a criação de outras instituições diz respeito à interpretação psicológica e psiquiátrica do crime, tais semelhantes em vários pontos do país. Foi ainda membro do Con- como: taxonomias, categorias e classificações das doenças mentais, selho Penitenciário, diretor do Serviço Nacional de Doenças Men- com base na idéia de que cada caso é singular e único, devendo assim tais, presidente da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquia- ser individualmente estudado e, da mesma maneira, sua pe- tria e Medicina Legal e catedrático de Clínica Psiquiátrica na nalidade. Defendia ele a elaboração de um "psychobiogramma" isto Faculdade Fluminense de Medicina. uma ficha de informações bio-psíquicas, para cada preso; indo mais Heitor Carrilho foi contundente crítico do Direito Clássico e gran- longe, defendeu a idéia de que todo cidadão deveria ter essa ficha, de defensor do Direito que procurava crime sob justificando a medida como meio de prevenção da criminalidade, sendo foco da determinação individual e não social. Dessa maneira, o Direi- que esta, junto com a ficha datiloscópica, poderia servir como ele- to Positivo acabava, em última instância, psicologi-zando ou indivi- mento de identificação do indivíduo criminoso. dualizando o ato criminoso e sua interpretação. Nas palavras de Carrilho: Carrilho contribuiu também no exame e no relatório que damentaram o primeiro caso de inimputabilidade de um criminoso, "Não é possível fazer direito penal sem concurso dos médicos e Febrônio Índio do Brasil, por ter sido este considerado "louco". dos psychiatras que, com os seus conhecimentos de bio-anthropologia e de psychologia, podem penetrar toda a personalidade dos delin- Grande contribuição a essas áreas do saber veio também de exhaminando-lhes as differentes taras, definindo-lhes o feito Afrânio Peixoto. Sua tese de doutoramento já apontava para essa temática: "Epilepsia e Crime", orientada por Nina Rodrigues. Do vasto e amplo conjunto de obras de Peixoto, destacam-se: "Elemen- 16 Sobre isso, ver: FRY, P. Direito Positivo Direito Clássico: a psicologização do crime no tos de Medicina Legal" (1910); "Psicopatologia Forense" (1916); Brasil no pensamento de Heitor Carrilho, in: FIGUEIRA, A. (org.) Cultura da Psicaná- lise. São Paulo, Brasiliense, 1985. "Sexologia Forense" (1934) e "Novos Rumos da Medicina Legal" e "Criminologia", ambos sem referência precisa de data.</p><p>58 A Psicologia no Brasil Leitura histórica sobre sua constituição 59 den Pode-se dizer, em termos gerais, que a Medicina Legal, a Psi- mais objetivamente os dados e por utilizar-se de uma linguagem quiatria Forense e a Criminologia demonstram a importância da Psi- mais rigorosa que as demais. cologia como uma de suas ciências auxiliares e, nesse sentido, A tese de Odilon Goulart, "Estudo psicoclínico da afasia", de contribuíram para seu desenvolvimento. Entretanto, apesar do 1891 é talvez o primeiro estudo relacionado à Psicologia Clínica, reconhecimento, a Psicologia permanecia como instância pertinente segundo Pessotti. à Psiquiatria; pode-se dizer que, se de um lado, a Psicologia desen- volveu-se no interior dessas áreas, por outro lado, só indiretamente De Alberto Seabra, a tese "A memória e a personalidade", de essas aplicações contribuíram para o processo de auto-nomização da constituiu-se num estudo pioneiro sobre a memória, anunciando prática psicológica, tanto que só recentemente a Psicologia e o psicó- a preocupação com uma temática que seria largamente pesquisada nos logo têm sido reconhecidos no âmbito do poder judiciário. anos particularmente pelos laboratórios de Psicologia. Nesse contexto, não se pode deixar de fazer referência à figura de Raimundo Nina Rodrigues, médico baiano, professor da Faculda- 1.3. Teses de Doutoramento das Faculdades de de Medicina da Bahia e grande produtor de pesquisas, que fez com de Medicina que essa faculdade fosse considerada, na época, como um dos mais importantes centros de pesquisa do país. Exerceu ele forte influência Muitas teses vistas na parte I deste trabalho, as quais trata- sobre toda uma geração de médicos, os quais, de uma maneira ou de vam de temas psicológicos, foram gradativamente aumentando em outra, contribuíram para o desenvolvimento da Psiquiatria e Psicolo- número com a aproximação do final do século. Nelas, salientam-se gia no Brasil, dentre eles: Afrânio Peixoto, Juliano Moreira, Oscar temas como: inteligência, emoção e psicofisiologia. Freire de Carvalho, Flamínio Fávero e Artur Ramos. Foi Nina Esse aumento no número de teses que tratavam de questões Rodrigues um dos mais importantes e veementes defensores da teo- psicológicas ocorreu principalmente a partir de 1890, quando já se ria da degenerescência, tendo produzido uma vasta obra em que percebem claramente delineadas as tendências da Psicologia da época, procurava demonstrar as articulações entre inferioridade racial e de- nesse momento já considerada ciência autônoma. generação psíquica, abordando, dentre uma grande amplitude de te- mas, as manifestações religiosas de base afro-brasileira, que eram vis- Em 1890, foi apresentada a tese "Psicofisiologia da percep- tas como manifestação de primitivismo, inferioridade e ção e das representações", por José Estelita Tapajós, em que a ten- dência psicofisiológica da época aparece evidenciada. Nessa linha, e orientada por Nina Rodrigues, encontra-se a Pelo menos três teses são apresentadas com a denominação tese de Oscar Freire, defendida em 1902, denominada "Etiologia das formas concretas da religiosidade do norte do Brasil". "Das Emoções", apresentadas por Veríssimo Dias de Castro (1890), Manuel Pereira de Melo Morais (1891) e Adolfo Porchat Assis A tese de Henrique Roxo, "Duração dos atos psíquicos (1892). Segundo a primeira delas destaca-se por tratar tares", de 1900, traz a defesa da Psicologia como propedêutica da Psi quiatria, o que mostra o reconhecimento da autonomia entre as duas áreas de conhecimento, além de estabelecer um parâmetro 17 PESSOTTI, I. Dados para uma História a Psicologia no Brasil, in: Psicologia, ano 1, 1, das relações entre elas. Essa idéia justifica a presença de laboratórios maio de 1975. Sobre esse assunto, ver também: LOURENÇO FILHO, M. A Psicologia no Brasil, in: Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, 23, n° 3, setembro de 1971. de Psicologia nos hospícios, o que viria a ocorrer logo depois.</p><p>A Psicologia no Brasil Leitura histórica sobre sua constituição 61 Defendida em 1907, a tese de Maurício Campos de Medeiros, período colonial e ao mesmo tempo a superando. A evolução do pen- "Métodos em Psicologia", veio demonstrar a penetração da Psico- samento psicológico no interior da Medicina até o século XIX prepa- logia científica no país e a preocupação metodológica com a produ- rou o terreno para que o conhecimento e a prática da Psicologia se ção de conhecimento nos patamares do rigor científico. desenvolvessem a tal ponto que fizeram delinear-se com maior A tese de Plínio Olinto, de 1911, denominada "Associação clareza seus contornos, tendo assim contribuído para a penetração de idéias". é demonstrativa da já indubitável produção científica da da Psicologia científica e sua definição como campo autônomo de Psicologia no Brasil. conhecimento e ação, o que veio a se concretizar nas décadas ini- ciais do século XX. Em 1931 findou a obrigatoriedade da defesa de teses de dou- toramento em Medicina, sendo que do início do século até essa data, A criação de laboratórios de Psicologia nos hospícios é uma foram apresentadas pelo menos vinte e duas teses referentes a das mais importantes evidências desse processo, sendo que estes, temas psicológicos só na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. na condição de instâncias auxiliares à Psiquiatria, vieram a ser rele- vantes produtores de estudos e pesquisas eminentemente psicológi- Deve-se também destacar, dentre essas teses, o primeiro tra- cos. Esse fato demonstra que a Medicina, produzindo conhecimento balho fundamentado na Psicanálise, que foi a tese "Da Psicanálise: psicológico em seu interior, veio contribuir para que a Psicologia a sexualidade nas de Genserico Aragão de Sousa Pinto, construísse seu próprio espaço. defendida em 1914. Essas teses, particularmente após 1890, constituem-se numa das À produção dos hospícios somam-se as teses de douto mais importantes evidências da conquista gradativa de autonomia da ramento das Faculdades de Medicina, muitas das quais foram de produção psicológica no Brasil, assim como explicita o caráter científi- autoria de médicos que se dedicaram, mais tarde, à pesquisa psi- de que são revestidas. Embora produzidas como teses em Medicina, cológica nos referidos A contribuição trazida pelas pode-se dizer que muitas delas constituíram-se em estudo de natureza teses foi, com efeito, muito semelhante à dos hospícios, na me- estritamente psicológica, diferenciadas da psiquiatria e, mais que isso, dida em que, por dentro da Medicina, trabalhos cada vez mais contribuindo para a defesa da Psicologia e para o esforço de demons- característicos da Psicologia foram produzidos.- Isso se revela, trar sua especificidade, estabelecendo os meios para produzi-la. por exemplo, pelas preocupações específicas com as condições que definiram a autonomia científica da Psicologia, dentre elas, Muitos dos autores dessas teses, como Maurício Campos de a questão metodológica. e Plínio Olinto, tornaram-se, posteriormente, reconheci- dos pela vasta contribuição teórica e prática para o estabelecimento Por outro lado, percebe-se a importância dada ao conheci- da Psicologia como ciência e profissão no Brasil. mento psicológico como instrumental para a Medicina Legal, a Psiquiatria Forense e a Criminologia. Entretanto, se aí a Psicolo- gia foi considerada por sua contribuição, não se a vê, contudo, 1.4. À Guisa de Síntese como área autônoma em relação à Medicina, particularmente na sua dimensão prática. Do ponto de vista global, é possível dizer que a Medicina veio a ser, nesse período, um importante substrato para o desenvolvimento Podemos dizer, portanto, que a Psicologia produzida no in- da Psicologia no Brasil, mantendo uma tradição iniciada no fim do terior da Medicina o foi essencialmente sob o enfoque de ciência</p><p>auxiliar à Psiquiatria; todavia, nesse contexto, já ficava reconhe- cida, pelo menos em tese, sua condição de ciência e, Capítulo 2 temente, sua autonomia. Não se pode afirmar que a conquista de autonomia da Psicologia em relação à Medicina tenha ocorrido A Psicologia em por um projeto estabelecido "a priori"; antes, foi seu próprio de- Instituições Educacionais e sua adequação às necessidades geradas pelos problemas sociais brasileiros que estabeleceram as condições para que tal ocorresse. A conquista de autonomia pela Psicologia no Brasil teve na Edu- cação um dos mais importantes substratos para sua realiza- ção. As transformações históricas da sociedade brasileira impuse- ram uma maior preocupação com as questões educacionais e, con- com a problemática pedagógica. Nesse âmbito, a Psicologia tornou-se necessária como ciência básica e instrumental para a Pedagogia, o que acarretou seu desenvolvimento, quer no pla- no teórico, quer no plano prático. Esse desenvolvimento foi de tal maneira relevante que, da Educação, ampliou-se para outras áreas, como a organização do trabalho e o atendimento clínico nos Serviços de Orientação Infantil. Desde o final do século passado a preocupação com o siste- ma educacional do país ocupou vários setores da sociedade. Tal pre- ocupação não foi homogênea e seus motivos guardavam diferenças fundamentais, articulando-se a interesses diversos e diferentes concepções sobre a sociedade brasileira e seus rumos. Nos anos iniciais da república permaneceu grande a influên- cia das idéias positivistas e liberais sobre o pensamento brasileiro em geral e sobre o pensamento educacional em especial. Essas idéias fizeram-se presentes no plano educacional, sucessivamente no cientificismo e no humanismo, tendo penetrado largamente nos fun- damentos e na organização escolar. Os defensores do positivismo tinham como objetivo difundir suas idéias por meio da educação escolarizada, que deveria organi- zar-se segundo seus princípios. Assim, foi realizada, em 1890, a Reforma Benjamim Constant, (que levou o nome do titular do então Ministério da Instrução Pública, Correios e Telégrafos. Essa re- forma propunha a liberdade, a laicidade e a gratuidade do ensino</p>