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ANTUNES, M.A.M. Psicologia em Instituições Educacionais. In. A Psicologia no Brasil Leitura Histórica sobre a sua constituição. São Paulo: Educ. 2014. Capítulo 2 A Psicologia em Instituições Educacionais Aconquista de autonomia pela Psicologia no Brasil teve na Educação um dos mais importantes substratos para sua realização. As transformações históricas da sociedade brasileira impuseram uma maior preocupação com as questões educacionais e, conseqüentemente, com a problemática pedagógica. Nesse âmbito, a Psicologia tornou-se necessária como ciência básica e instrumental para a Pedagogia, o que acarretou seu desenvolvimento, quer no plano teórico, quer no plano prático. Esse desenvolvimento foi de tal maneira relevante que, da Educação, ampliou-se para outras áreas, como a organização do trabalho e o atendimento clínico nos Serviços de Orientação Infantil. Desde o final do século passado a preocupação com o sistema educacional do país ocupou vários setores da sociedade. Tal preocupação não foi homogênea e seus motivos guardavam diferenças fundamentais, articulando-se a interesses diversos e diferentes concepções sobre a sociedade brasileira e seus rumos. Nos anos iniciais da república permaneceu grande a influência das idéias positivistas e liberais sobre o pensamento brasileiro em geral e sobre o pensamento educacional em especial. Essas idéias fizeram-se presentes no plano educacional, sucessivamente no cientificismo e no humanismo, tendo penetrado largamente nos fundamentos e na organização escolar. Os defensores do positivismo tinham como objetivo difundir suas idéias por meio da educação escolarizada, que deveria organizar-se segundo seus princípios. Assim, foi realizada, em 1890, a Reforma Benjamim Constant, que levou o nome do titular do então Ministério da Instrução Pública, Correios e Telégrafos. Essa reforma propunha a liberdade, a laicidade e a gratuidade do ensino primário, em consonância com a orientação constitucional. Sua tônica foi a substituição da tendência humanista clássica pela tendência cientificista, que introduziu disciplinas de natureza científica na seqüência determinada pela orientação positivista. Merece destaque nessa reforma a substituição da disciplina Filosofia pelas disciplinas Psicologia e Lógica. A essa reforma seguiram-se outras que se caracterizaram pela oscilação entre a tendência humanista clássica e a tendência cientificista, fundamentadas em idéiaseuropéias e norte-americanas, freqüentemente divorciadas das necessidades concretas da realidade brasileira, caracterizando-se como meros transplantes culturais. Os grandes problemas educacionais, no entanto, permaneceram: o índice de analfabetismo não sofreu alterações percentuais e aumentou em número absoluto; dois terços da população brasileira em idade escolar permaneciam fora da escola primária; a ampliação do ensino secundário deu-se basicamente na rede particular, mantendo seu caráter propedêutico e sua vocação aristocrática, da mesma maneira que o ensino superior, cujo crescimento ocorreu também apenas na rede privada, sendo que em 1900 havia apenas 0,05% de matrículas nesse grau de ensino, em relação à população do país (Ribeiro, 1979). Todavia, as primeiras décadas do século XX foram marcadas por um maior desenvolvimento urbano-industrial, que se constituiu na base para o incremento da industrialização massiva que viria a seguir e que teve, mais tarde, a finalidade de substituir importações. Tais condições exigiam indivíduos capacitados nas técnicas escolares mínimas: ler, escrever e contar. Nesse contexto, emergiu uma veemente defesa da instrução, que reivindicava a ampliação do número de escolas elementares e o combate ao analfabetismo; posteriormente surgiram os primeiros “profissionais da educação”, ligados principalmente ao ideário escolanovista. Ocorreu, nesse período, uma ampla e rica profusão de idéias, que objetivavam a solução dos problemas educacionais brasileiros e até, por essa via, a solução de todos os problemas nacionais. Foi nessa época que as teorias pedagógicas, preocupadas com o processo ensino-aprendizagem, sobretudo o escolanovismo, tiveram uma penetração sistemática no Brasil e, junto com elas, as teorias e técnicas da Psicologia, produzidas nos centros europeus e norte-americanos de pesquisa e aplicação. É possível destacar, nesse período, dois grandes movimentos educacionais: o movimento pela difusão da educação e a influência escolanovista no pensamento pedagógico. O movimento em defesa da difusão da educação teve em Manoel Bonfim seu provável precursor, de um lado pelo fato de suas idéias terem sido anteriores ao momento em que esse movimento eclodiu com força e, por outro lado, por terem sido elas incorporadas pelos seus mais eminentes representantes. Bomfim, num esforço de análise sobre a sociedade brasileira, adotou uma perspectiva em que procurava demonstrar que os problemas enfrentados pelo país deveriam ser buscados em suas raízes históricas, particularmente na sua formação colonial, baseada na exploração imposta rudemente pela metrópole. Em sua análise, considera que uma das mais nefastas conseqüências da exploração sobre a colônia incidiu sobre a cultura e aponta nessa direção a possibilidade de superação dos problemas nacionais; para o autor, um dos principais determinantes do atraso do país era a ignorância historicamente imposta pelas classes dominantes ao povo brasileiro, estando na difusão da educação a solução para os problemas, não apenas como remédio para o atraso econômico mas, principalmente, como meio de conquista da liberdade pelo povo brasileiro, caminhando de fato para a democratização da sociedade. Em outras palavras, a educação deveria ser antes um instrumento contra a opressão e não simplesmente meio para superar o atraso econômico em relação aos outros países, o que seria defendido alguns anos depois por outros intelectuais. Paralelamente, deve-se acrescentar que, para alguns intelectuais, o atraso do país devia-se à diversidade de raças, sobretudo à presença da raça negra, considerada inferior, porque, segundo eles, ela trazia em si os germes da apatia, da indolência e da preguiça, além de sua propensão à degeneração psíquica e, assim sendo, constituía-se como entrave ao progresso. Diametralmente oposta era a concepção de Bomfim, para quem essas idéias eram equivocadas e, ao contrário de contribuírem para a solução dos problemas do país, tendiam a perpetuá-los. A defesa da educação foi compartilhada por muitos intelectuais e políticos, sustentada entretanto por outras idéias e vinculadas a interesses diferentes. Salientam-se nesse movimento figuras como Miguel Couto e Mário Pinto Serva, que identificavam a ignorância como causa do atraso do Brasil e o analfabetismo como vergonha nacional. Buscava-se a formação de uma nação forte, baseada num “povo forte mental e fisicamente”, o que se aproxima dos ideais eugênicos e do pensamento psiquiátrico vigente em busca da higienização da raça. Tais idéias articulavam-se à pregação nacionalista, à defesa do fortalecimento militar e ao anticomunismo. Havia também o interesse em tornar o analfabeto eleitor, com finalidade de reverter o quadro político a favor dos grupos alijados do poder e que almejavam tomá-lo das mãos da oligarquia cafeeira; projeto este que só mais tarde e por outros meios viria a se realizar. Antonio Carneiro Leão defendia a idéia de que não deveria ser difundida qualquer instrução e sim a instrução profissional ligada ao comércio e à indústria, cujo desenvolvimento poderia elevar o Brasil ao mesmo patamar das nações prósperas. A mera alfabetização, segundo ele, poderia até ser perigosa, pois aqueles que até então estavam conformados com suas condições de vida, alfabetizados, poderiam almejar melhor situação e gerar problemas sociais. Sampaio Dória partilhava dessa idéia, defendendo a instrução técnica do operariado juntamente com a organização científica do trabalho. Isso se relacionaà sua preocupação com a Psicologia, sobretudo na ênfase dada às relações entre processo produtivo e diferenças individuais, assim como a Higiene, que deveria preservar a saúde e o vigor físico do operariado, que se vinculava ao ideal de melhoria da raça, incluindo a preservação do caráter e da capacidade mental. É explícita a articulação entre a defesa da instrução e as forças industriais emergentes, sobretudo no pensamento de Carneiro Leão e Sampaio Dória, para quem a instrução deveria ser um meio para suprir a indústria com uma força de trabalho preparada e racionalizada, com vistas à produtividade, sendo Taylor freqüentemente citado. O tripé Educação-Trabalho-Psicologia fazia-se necessário para o processo de industrialização massiva que se planejava para a sociedade brasileira, sob a égide da modernidade que se almejava para o país. Nesse quadro, um outro movimento educacional, em verdade um movimento mais propriamente pedagógico, ganhou força e estabeleceu-se como pensamento hegemônico: o escolanovismo. Essa concepção não se contrapunha à defesa da difusão da instrução, mas vinha dar-lhe sustentação teórico-prática. O escolanovismo fazia parte de um projeto de sociedade, baseado nas idéias de modernidade, em que se fazia necessário um “homem novo”, esculpido pela educação. Soma-se a isso o fato de que, no escolanovismo, a Psicologia constituía-se como uma das mais importantes ciências que fundamentavam sua pretensão de ser Pedagogia Científica. Nesse panorama, mudanças substantivas ocorreram na organização escolar brasileira, principalmente por meio das reformas estaduais do ensino realizadas na década de 20, em que foi o escolanovismo o principal substrato pedagógico. Surgiram os primeiros profissionais voltados especialmente para a Educação, como Lourenço Filho, Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira e outros. Não por acaso, Lourenço Filho pode também ser considerado um dos primeiros psicólogos brasileiros e um dos mais importantes protagonistas do processo que levou ao estabelecimento definitivo da Psicologia científica e da profissão de psicólogo no Brasil. A Psicologia tornou-se, então, exigência vital para a Educação, principalmente na vertente escolanovista, pois esta ciência deveria ser capaz de fornecer muitos dos subsídios teóricos e todo um arsenal técnico para instrumentalizar a ação educativa. É possível afirmar que a Psicologia foi o pilar de sustentação científica para essa concepção pedagógica, pois era ela que cuidava do indivíduo e das diferenças individuais (representada pela Psicologia Diferencial e suas técnicas, principalmente a psicometria), do processo de desenvolvimento psíquico, da aprendizagem, da dinâmica das relações interpessoais, da personalidade, das vocações, aptidões, motivações etc. Nesse quadro da Educação brasileira, a Psicologia ganhou seu mais importante alicerce para se estabelecer na condição de ciência, explicitar-se como área específica de saber e de prática e, conseqüentemente, definir-se como campo profissional específico. Procuraremos demonstrar tais fatos, expondo brevemente a produção psicológica no “Pedagogium”, no Instituto de Psicologia de Pernambuco, na Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico de Belo Horizonte, nas Escolas Normais e nos conteúdos de algumas obras editadas no período. 2.1. Algumas instituições educacionais “Pedagogium” O “Pedagogium” foi constituído inicialmente como Museu Pedagógico, cuja idéia inicial partiu de Rui Barbosa. Criado em 1890, sua finalidade seria a de funcionar como “centro propulsor das reformas e melhoramentos de que carecesse a educação nacional” (Penna, 1986, p. 7). Em 1897, Medeiros e Albuquerque foi nomeado diretor da Instrução Pública do Distrito Federal, promovendo uma mudança na natureza do “Pedagogium”, passando este a ser um “centro de cultura superior aberto ao público”. Foi nessa condição que, em 1906, foi aí criado um Laboratório de Psicologia Experimental, muito provavelmente o primeiro laboratório de psicologia no país. Planejado por Alfred Binet e Manoel Bomfim, em Paris, o laboratório foi organizado e dirigido por este último, que aí permaneceu por doze anos. Os mais importantes dados a respeito da produção do Laboratório provêm das obras de Bomfim, que não os apresenta sistematicamente, mas são antes elementos que o autor insere em suas discussões sobre a Psicologia. Nessas obras fica demonstrada a singularidade desse autor, incluída a crítica que faz às pesquisas realizadas em laboratórios, sobretudo quando se estuda o pensamento. Sobre isso, afirma Bomfim: “Durante 12 anos, tive a minha disposição um laboratório de psychologia; nas pastas, ainda estão acumuladas anotações, traçados, fileiras de cifras (...) e nunca tive coragem para organisar uma parte qualquer desses dados, e de os publicar, porque nunca obtive uma elucidação satisfactória” (1923, p. 27). Encontra-se nessa citação a discussão sobre as possibilidades de um laboratório ser capaz de dar conta do estudo dos fenômenos psicológicos. O longo texto do autor, a seguir, demonstra suas inquietações: “A dynamica do pensamento humano não poderia conter-se na estreiteza do laboratorio; deforma-se, annula-se. Mesmo as simples associações de ideias: melhor as conhecemos na analyse de uma obra qualquer, naturalmente pensada e escripta, do que nos milhares de pesquizas que, para esse fim, se fizeram. Tomem do albatroz, ou mesmo do tico-tico, atem-n’o, já encerrado numa gaiola, e, agora, tentem estudar-lhe a dynamica do vôo! (...) Pois, foi mil vezes mais insensata a pretensão de conhecer o conjuncto do espirito, pelo que se obtem nas simples pesquizas a lapis e apparelhos. (...) o mais complexo a que se pode dedicar a mente humana, tem de ser apurado à luz de todos os methodos, com a contribuição de todos os recursos; mas evidentemente, dos methodospossiveis e applicaveis, o mais insufficiente será sempre este: tomar um individuo, consideral-o isoladamente, impor-lhe as condições restrictas e artificiaes do laboratorio, para inferir da sua consciencia deturpada o regimen normal no commum das consciencias (...) o espirito humano, complexo, essencialmente activo e instavel como é, tem de ser estudado e comprehendido nas formas normaes e completas da sua realização natural. Elle existe, e produz, e se manifesta, como actividadeconjuncta e collectiva; assim tem de ser comprehendido e estudado. A introspecção, somente, pura observação individual, que seja, ou não, trabalho de laboratorio, nunca poderia dar a base completa das leis do espirito” (1923, pp. 26 e 27). Essa concepção de Bomfim diferenciava-se radicalmente da concepção de pesquisa de outros brasileiros, que defendiam o laboratório como expressão máxima de produção de conhecimento psicológico. Em Manoel Bomfim, menos que o êxtase provocado pela possibilidade de controle e rigor científico que o laboratório representava, pareciam mais importantes os limites impostos por este tipo de pesquisa. Buscava ele compreender determinados fenômenos em outras bases, considerando a importância da natureza social do psiquismo em sua complexidade e concreticidade. Posteriormente, vários estudiosos da Psicologia empreenderam críticas semelhantes às de Bomfim, assim como elaboraram concepções de Psicologia e de fenômeno psíquico muito próximas daquelas que esse autor brasileiro formulou pioneiramente. O laboratório do “Pedagogium”, embora não tenha registros sistemáticos de sua produção, pode ser considerado um celeiro riquíssimo de reflexões sobre a Psicologia, por meio das obras publicadas por seu genial diretor. O “Pedagogium” funcionou até 1919, quando foi extinto por decreto municipal. Segundo Penna, essa instituição perpetuou-se com a criação em 1938, do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos — INEP. Instituto de Psicologia de Pernambuco Essa instituição foi criada em 1925, por Ulysses Pernambucano, como diretor da Escola Normal Oficial de Pernambuco. Foi transferido, em 1929, para o Setorde Educação, anexo à Secretaria de Justiça e Instrução de Pernambuco, passando a chamar-se Instituto de Seleção e Orientação Profissional – ISOP. Em 1931, era Pernambucano o diretor do Hospital de Alienados de Recife, quando o ISOP foi anexado ao Serviço de Higiene Mental do referido hospital. Muitos estudos foram aí realizados, devendo ser ressaltadas as produções referentes a: testes psicológicos de nível mental, aptidão e outros, assim como sua padronização para a realidade brasileira; vocabulário das crianças das escolas primárias de Recife; elaboração de testes pedagógicos; revisão da escola Binet-Simon para aplicação em Recife; técnicas projetivas; padronização do teste coletivo de inteligência de Ballard, para utilização na Escola Normal com finalidade de seleção de alunos, além de muitas pesquisas experimentais e de iniciação à pesquisa com o objetivo de formar pesquisadores em Psicologia. Sob a orientação de Pernambucano, muitos pesquisadores se formaram, sendo que muitos deles tornaram-se eminentes em seus campos de atuação, como Nelson Pires, Anita Paes Barreto, Silvio Rabello e vários outros. A esse trabalho devem ser somadas as realizações de Ulysses Pernambucano no campo da educação para crianças com deficiência mental, cujo pioneirismo é inconteste, sendo reconhecido pela própria Helena Antipoff, a quem muitos atribuíam as ações pioneiras nessa área. Criou ele a “Escola para Anormais”, anexa ao Curso de Aplicação da Escola Normal, na qual surgiram as primeiras pesquisas com testes de aptidão, pedagógicos e mentais, implantação de processos pedagógicos com base na Psicologia e formação de professores e pesquisadores. Além dessa escola, Ulysses Pernambucano criou várias outras instituições de ensino para crianças com deficiência mental. Uma das finalidades do Instituto era subsidiar o trabalho nessas escolas e formar pessoal especializado para elas. O Instituto contribuiu também para o serviço psiquiátrico de Recife, em especial no que se refere ao emprego de técnicas psicológicas em questões de psicopatologia clínica que, segundo Anita Paes Barreto, acabou por tornar-se tal prática uma das marcas da “Escola Psiquiátrica do Recife”. Do ponto de vista teórico da Psicologia, Ulysses Pernam-bucano foi assim retratado por José Lucena: “a psicologia que adotava, buscava predominantemente modelos objetivos. Embora houvesse manifestado simpatia pela reflexologia estrita de Pavlov e Bechterew, não se filiou a qualquer behaviorismo, preferindo antes a psicologia do comportamento, como a entendia H. Pierón, e sobretudo a orientação dita funcionalista que representavam então (...) Claparède, James, Dewey, etc. e a produção dos experimentadores rigorosos que punham em marcha o movimento dos testes mentais: Binet, Terman, Yerkes, Burt e outros” (1978, p. 156). Embora fique patente a forte presença da psicometria na produção do Instituto, é de se notar também que sua finalidade vinculava-se à educação de “deficientes mentais”, ao subsídio à ação psiquiátrica, às questões escolares e à formação de professores, o que contrastava com o que ocorria em outros laboratórios de instituições psiquiátricas. A tudo isso deve-se acrescentar que Ulysses Pernambucano sofreu muitas perseguições políticas, tendo sido preso várias vezes, sob a acusação de subversão, por sua luta por melhorias nas condições de assistência ao doente mental. Em 1935, com Gilberto Freyre, Olivio Montenegro e Sílvio Rabelo, assinou um manifesto que solicitava um inquérito social sobre as condições de vida dos trabalhadores brasileiros, sobretudo aqueles do campo. Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico de Belo Horizonte Embora já no limite do período em estudo, a apresentação da produção dessa instituição é importante por demonstrar a conquista da autonomia da Psicologia no Brasil. Fundada no final da década de 20, tornou-se ela referência para a caracterização dos rumos que a Psicologia tomou posteriormente. A Escola de Aperfeiçoamento foi uma realização pertinente à Reforma do Ensino de Minas Gerais, empreendida por Francisco Campos. Nessa reforma, a Psicologia assumiu papel de destaque, em que a Escola de Aperfeiçoamento deveria tornar-se o principal núcleo difusor das bases pedagógicas que deveriam ser implementadas no estado. Antes de sua criação, já a preocupação com a Psicologia e suas técnicas faziam-se presentes nos meios educacionais de Belo Horizonte. Cursos ministrados por C. A. Baker, Iago Pimentel, Alberto Álvares e Alexandre Drummond abordavam assuntos como Psicologia Educacional e testes, temas estes também presentes em artigos da “Revista do Ensino”. A Escola de Aperfeiçoamento promoveu vários cursos, para os quais foram chamados como docentes personalidades eminentes da Psicologia na época, como Th. Simon (colaborador de Binet), Léon Walther e Helena Antipoff (assistente de Claparède). Helena Antipoff permaneceu no Brasil e aqui realizou extensa obra em Educação e Psicologia, abrangendo pesquisa, ensino e prática educacional. Sob a responsabilidade de Antipoff, foi criado um Laboratório de Psicologia para subsidiar os rumos educacionais de Minas Gerais, fundamentalmente pela formação docente. Esse laboratório produziu um extenso rol de pesquisas, abordando uma ampla variedade de assuntos: inteligência; relações entre produção escolar e meio social da criança; relações entre inteligência e vocabulário; seleção e orientação profissional; homogeneização de classes escolares; personalidade e tipos de crianças; memória, aprendizagem e testemunho; motricidade e fadiga; julgamento moral e social, além de revisão e adaptação de testes de inteligência e aptidão e preparação de testes originais para medida psicológica e verificação do rendimento escolar. A perspicácia da análise de Antipoff sobre os resultados que obtinha nas pesquisas lançou novas luzes sobre a realidade social brasileira e sua relação com os fenômenos de natureza psicológica, como por exemplo, a relação entre condições de vida e desenvolvimento psicológico. Vale dizer que suas concepções guardam evidente atualidade. É interessante notar, pela descrição de Regina Helena de Freitas Campos (1980), que as pesquisas realizadas por Antipoff foram fundamentalmente pesquisas de campo, cujos dados foram coletados em situação ordinária de sala de aula; além disso, grande importância era dada à consideração do meio social do qual provinham as crianças. Para caracterizar seu trabalho, Campos bem o qualifica quando denomina um item de sua dissertação assim: “O Laboratório de Psicologia vai conhecer as crianças de Belo Horizonte”. Anexa à Escola de Aperfeiçoamento foi criada uma classe especial para “deficientes mentais”, germe de várias escolas desse tipo e da Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais. Helena Antipoff prestou a esse campo de atuação uma das maiores contribuições realizadas no Brasil, não apenas participando da criação de várias instituições, mas também lutando pela melhoria do atendimento a essa população. Propôs ela a denominação “indivíduo excepcional” em lugar de “deficiente mental”, por considerar esta última expressão inadequada. Partindo dos resultados das pesquisas que realizou, Helena Antipoff propôs o conceito de “inteligência civilizada”, pois considerava a inteligência como algo mais complexo do que aquilo que aparecia nas definições correntes; a inteligência seria multideterminada e, junto com disposições intelectuais inatas e maturidade biológica, também os fatores sociais e culturais presentes no ambiente em que a criança se desenvolve e a ação pedagógica seriam fatores determinantes. Assim como o Instituto de Psicologia de Recife, o Laboratório da Escola de Aperfeiçoamento trabalhou com testes mentais, pedagógicos e de aptidão, além de outra semelhança: a preocupação educacional com o sujeito com deficiência mental. A psicometria foi aí estudada em contraste com o que ocorria no resto do país. Em Belo Horizonte, foi utilizada como um instrumentopara coleta de dados nas pesquisas, sendo seus resultados relacionados com outros provenientes das condições de vida dos sujeitos, o que permitiu uma visão mais totalizadora das funções psicológicas estudadas. É possível até dizer que Antipoff avançou a partir do ponto em que Pernambucano parou, dando continuidade a suas preocupações. Na década de 40, a Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte fundiu-se com a Escola Normal, gerando o Instituto de Educação, ao qual foi incorporado também o Laboratório de Psicologia. Escolas Normais A produção das Escolas Normais consistiu, provavelmente, numa das mais importantes contribuições para o estabelecimento da Psicologia científica no Brasil, quer no âmbito teórico, quer no âmbito da aplicação prática de seus conhecimentos. Sua importância reside também no fato de muitos dos primeiros profissionais da Psicologia terem iniciado sua formação nessas escolas e terem sido elas incentivadoras da publicação das primeiras obras específicas de Psicologia no país. Para Annita Cabral: “Foi nestas que se formaram os primeiros núcleos de estudiosos das teorias gerais e aplicadas, que os primeiros ‘laboratórios’ de psicologia se fundaram e que professores nacionais receberam de Th. Simon, Ed. Claparède, HélèneAntipoff, H. Piéron, Fauconnet, L. Walther, Köhler e outros estrangeiros, curtos mas estimulantes cursos de conferências. A formação dos mais destacados psicólogos educacionais brasileiros da atualidade [1950] tem suas raízes naquelas escolas normais” (1950, p. 31). As primeiras Escolas Normais surgiram no Brasil na primeira metade do século XIX, sendo que somente no século XX a disciplina Psicologia apareceu de maneira mais sistemática em seus currículos, com o desdobramento da disciplina Pedagogia em Pedagogia e Psicologia. Esse desdobramento não foi, porém, generalizado, nem definitivamente incorporado; sendo certo, no entanto, que a Escola Normal de São Paulo o adotou em 1912, e que o mesmo ocorreu no Rio de Janeiro, mas de forma descontínua. Em 1928, por decreto, a disciplina Psicologia foi inserida no currículo das Escolas Normais, juntamente com Pedagogia, História da Educação, Didática, Sociologia, Higiene e Puericultura. Podemos com isso afirmar, sem sombra de dúvidas, que o ensino sistemático da Psicologia ocorreu originalmente nas Escolas Normais. Essas escolas contribuíram também com a produção de conhecimento, por meio de pesquisas e estudos realizados em seus laboratórios, e com as experiências postas em prática nas salas de aula. A isso somam-se as obras psicológicas publicadas para uso da disciplina, no início em geral compêndios e traduções de clássicos estrangeiros e, mais tarde, obras sobre assuntos específicos da Psicologia. Das Escolas Normais brasileiras merecem destaque as de Belo Horizonte, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Fortaleza e São Paulo, pela significativa acolhida às questões psicológicas. As Escolas Normais de Belo Horizonte e Recife tiveram grande relevância pela articulação, respectivamente, com a Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico e com o Instituto de Psicologia já vistos anteriormente. A Escola Normal de Salvador teve em Isaias Alves um dos mais expressivos representantes da Psicologia na época; foi ele um dos pioneiros na difusão, aplicação, revisão e adaptação de testes pedagógicos e psicológicos no Brasil, sendo um dos principais difusores da nova técnica, quer pela publicação de livros ou realização de cursos sobre esse tema. Da mesma maneira, a Escola Normal do Rio de Janeiro teve sua produção psicológica intimamente ligada a seu professor de Pedagogia e Psicologia, Manoel Bomfim, cujas idéias e, conseqüentemente, os conteúdos abordados em seus cursos, encontram-se registrados em seus livros: “Lições de Pedagogia” e “Noções de Psychologia”, especialmente elaborados para uso de seus alunos normalistas, além de outras obras por ele publicadas, dentre as quais a já mencionada “Pensar e Dizer: estudo do symbolo no pensamento e na linguagem”. Vale ressaltar que muitos elementos apresentados pelo autor nessas obras guardam surpreendente atualidade. A Escola Normal de Fortaleza trouxe uma contribuição especial à Psicologia por sua participação no contexto da Reforma do Ensino do Ceará, empreendida por Lourenço Filho, entre os anos de 1922 e 1923, quando essa escola assumiu importante tarefa e nela foi criado um laboratório de Psicologia. A Escola Normal deveria cuidar da formação dos professores, que seriam os principais protagonistas das transformações que Lourenço Filho idealizara para o cotidiano das salas de aula. A Psicologia exerceu função central nessa reforma que pode ser considerada como a primeira realização de vulto do escolanovismo no país; nesse sentido, podemos afirmar que, em busca de implementar a Escola Nova, baseada numa Pedagogia científica, a Psicologia assumiu papel fundamental, pois seu domínio deveria ser o principal instrumental do professor em sala de aula. Lourenço Filho procurou dar continuidade no Ceará ao seu trabalho na Escola Normal de Piracicaba, em que era catedrático de Psicologia, tendo aí pesquisado atenção, maturidade para a leitura e a escrita e emprego de testes. Retornando a São Paulo, continuou sua atuação na Escola Normal dessa cidade, vindo a assumir aí a cátedra de Psicologia e a direção de seu laboratório que, por sua importância, serão, a seguir, especialmente tratados. A Escola Normal de São Paulo As principais contribuições dessa escola sustentam-se no ensino – pela cátedra de Pedagogia e Psicologia e pelos cursos ministrados por especialistas estrangeiros – e na produção de seu laboratório. Segundo Pessotti, em 1932 a responsabilidade sobre o laboratório e a cátedra passa a Noemi Silveira Rudolfer, assistente de Lourenço Filho; dois anos depois, o laboratório foi incorporado à cátedra de Psicologia da então criada Universidade de São Paulo; em 1936, Rudolfer foi nomeada catedrática de Psicologia Educacional da referida universidade. No que diz respeito ao ensino de Psicologia, a Escola Normal foi responsável pela divulgação das teorias psicológicas em voga na Europa e nos Estados Unidos e, por decorrência, das técnicas delas derivadas, em especial, a psicometria. Em 1914, a cátedra de Pedagogia e Psicologia foi assumida por Sampaio Dória que, para subsidiar suas aulas, publicou um volumoso compêndio de Psicologia, baseado nas idéias de Spencer, Bain e Stuart Mill e divulgando os pensamentos de William James, Binet e Van Biervliet. Em 1925, Lourenço Filho sucedeu Sampaio Dória na cátedra, realizando um relevante trabalho na escola: revitalizou o Laboratório de Psicologia, que estava praticamente abandonado, contando com a colaboração de vários professores, dentre eles Noemi Silveira Rudolfer, que viria mais tarde sucedê-lo nessa cátedra. O laboratório foi criado na gestão de Oscar Thompson na direção da Escola Normal, em 1914, tendo recebido ao longo do tempo várias denominações: “Gabinete de Psychologia e Anthropologia Pedagógica”, “Laboratorio de Pedagogia Experimental” e “Laboratorio de Psychologia Experimental”. Para organizar e dirigir o laboratório, foi contratado o psicólogo italiano Ugo Pizzoli, catedrático da Universidade de Módena e diretor da Escola Normal da mesma cidade. Além da organização e da direção do laboratório, Pizzoli realizou outros trabalhos na escola, dos quais destacam-se: curso teórico e prático de Psicologia, orientação de pesquisas e elaboração da “carteira biographica escolar” para ser adotada pelas escolas do Estado de São Paulo. Em 1914, o laboratório edita o livro “O Laboratório de Pedagogia Experimental”, o qual expõe detalhadamente as atividades realizadas, tendo como elemento introdutório uma palestra proferida por Thompson, denominada “O futuro da pedagogia é scientifico”, tendo aí a Psicologia posição privilegiada como ciência que deveria dar base à Pedagogia; nesse contexto, a palestra é finalizada com a justificativa dacriação da cadeira de Psicologia Experimental Aplicada à Educação e do Laboratório de Pedagogia Experimental. Diz Thompson: “Entendeu, por isso, o Governo actual a conveniencia de se ampliarem os estudos theoricos e praticos da pedagogia, para o que a cadeira de psychologia experimental applicada à educação. Iniciou ainda, annexo à Escola, a organisação de um gabinete de anthropologia e psychologiapedagogica” (1914, p. 17). O “Gabinete” era constituído de duas salas, sendo uma destinada aos exames “somato-anthropologicos” e aos de natureza “esthesiometrica e esthesioscopica” e a outra sala ao exame psicológico das funções mentais elevadas. Na primeira sala realizavam-se exames antropométricos e sensoriais; na segunda sala estudavam-se atenção, tempo de reação, imaginação, associações, perspicácia intelectual, movimento, memória, raciocínio etc. Esses estudos objetivavam subsidiar a ação educacional, preocupados muito mais com a classificação das crianças do que com a busca de meios mais efetivos para a melhoria do processo de ensino e aprendizagem, conforme se apreende pela descrição dos aparelhos e dos estudos realizados. Articulado aos fins do laboratório, Pizzoli ministrou o curso denominado “Curso de Cultura Pedagógica”, destinado a professores de Pedagogia, inspetores escolares e diretores de Grupos Escolares. Vinculado ao curso, os alunos realizaram pesquisas no laboratório, sob a forma de teses, dentre as quais “Contribuição para os methodos de estudo do raciocinio nas creanças”, de Ruy de Paula Souza; “Notas sobre o graphismo infantil”, de Adalgiso Pereira; “Experiencias sobre a memória cinética nas creanças”, de Carlos A. Gomes Cardim; “Subsidios para o estudo da memoria”, de Roldão Lopes de Barros; “O raciocinio nas creanças”, de Clemente Quaglio; “Contribuição experimental e classificação dos typosintellectuaes”, de SaverioCristofaro, e “Notas sobre a associação de ideias”, de Joaquim A. de Sant’Anna. O programa do curso abordou os exames: anamnéstico, físico, antropológico, fisiológico e psicológico; neste último, foram trabalhados os conteúdos referentes a: sensibilidade interna e externa, audição, tato e senso muscular, gosto e olfato, atenção, memória, associação e volição. Pela exposição sobre o Laboratório da Escola Normal de São Paulo, especialmente pelos conteúdos tratados no curso ministrado por Pizzoli, pelos equipamentos e pesquisas realizadas, dá para apreender a orientação que teve sua produção, vinculada essencialmente à medida das funções psicológicas, sendo destas o fenômeno perceptivo o mais estudado. Essa concepção de Psicologia e de pesquisa psicológica, corrente na época, trouxe para o ensino paulista o conhecimento científico que a Pedagogia reclamava como base de sustentação e que lhe permitisse proclamar-se “Pedagogia Científica”. Esses fatos inserem-se claramente no contexto educacional da época, em que a defesa da ampliação da escolarização começava a ceder lugar à defesa da melhoria qualitativa do ensino, definida logo em seguida pela incorporação das idéiasescolanovistas. Nessa perspectiva, essa melhoria relacionava-se com a modernização das técnicas e dos métodos empregados na escola, em que a Psicologia poderia vir a contribuir para o estatuto científico que a Pedagogia almejava, ao mesmo tempo em que a colocava em evidência. A produção da Escola Normal de São Paulo foi, em todos os aspectos, fundamental para a autonomização da Psicologia no Brasil, na medida em que, por meio dela, vê-se com clareza a penetração das teorias e práticas da Psicologia então vigentes nos centros avançados de produção do saber, percebe-se a busca de definição do papel profissional dos especialistas em Psicologia e a marca da presença paulista nos esforços para dar lugar a esta ciência; tudo isso ocorrendo a par com o desenvolvimento urbano-industrial que, por sua vez, viria a necessitar de seus conhecimentos. São Paulo tornar-se-ia um dos mais importantes centros para o desenvolvimento da Psicologia. Percebe-se, pelo exposto, que a Psicologia encontrou nas Escolas Normais o mais fértil terreno para seu desenvolvimento, não somente por serem estas campos potenciais de aplicação de conhecimentos e técnicas derivadas da ciência psicológica, mas também por permitirem a produção de pesquisas. É possível dizer que essas escolas foram uma das principais portas para a penetração da Psicologia científica no país e para a definição do perfil dos profissionais que se tornariam especialistas em Psicologia, além de, no caso da Escola Normal de São Paulo, ter sido ela uma das mais importantes bases para que a Psicologia se tornasse mais tarde disciplina universitária. 2.2. A Psicologia nas obras pedagógicas e psicológicas As obras que tratam da Psicologia estão relacionadas ao ensino normal, sendo seus autores muitas vezes professores que as escreveram para uso dos normalistas. Essas obras são fontes importantes para a compreensão da Psicologia no Brasil, pois constituem-se em documentos preciosos sobre as idéias psicológicas que eram aqui difundidas. Do conjunto de obras editadas no período, distinguem-se: traduções de obras estrangeiras e obras de autores brasileiros, quer de caráter pedagógico que abordam a Psicologia, quer de caráter especificamente psicológico. No que diz respeito às traduções, encontram-se obras clássicas do pensamento escolanovista, em que a Psicologia é considerada como um dos mais importantes sustentáculos do processo pedagógico e, a estas relacionadas, encontram-se também obras eminentemente psicológicas. Destacam-se nesse grupo obras de Claparède, Binet-Simon, Piéron e Léon Walther, sendo estas pertencentes à “Biblioteca de Educação”, criada em 1927, pela Cia. Melhoramentos, e dirigida por Lourenço Filho, que também foi tradutor de muitas delas. Outro grupo, constituído de obras pedagógicas de caráter geral, de autores brasileiros, tem como principal característica expor questões gerais sobre a Educação, sendo, portanto, expressão de determinadas concepções sobre o processo educativo. Sua tônica é a proposição de mudanças no processo pedagógico, em busca de sua modernização. São obras geralmente de tendência escolanovista ou que, expondo certos princípios, antecipam ou preparam o terreno para sua inserção futura no contexto educacional brasileiro; essa característica já define, de certa maneira, a importância dada à Psicologia como ciência de base para a ação pedagógica que se pretendia difundir. Deve-se salientar, todavia, que, dentre essas obras, as de Manoel Bomfim não podem ser consideradas como expressão do pensamento escolanovista, embora seja patente a importância dada à Psicologia como fundamento do processo pedagógico, o que as torna especialmente importantes como objeto de análise. O outro grupo compõe-se de obras que podem ser consideradas como explicitamente psicológicas, não apenas por seus títulos, mas principalmente pelos conteúdos tratados. Foram muitas as obras produzidas, dentre elas: “Compendio de Paidologia” e “Educação da Infancia Anormal de Intelligencia no Brasil”, de Clemente Quaglio, editadas em 1911 e 1913 respectivamente; “Noções de Psychologia”, de Manoel Bomfim, 1916 e, do mesmo autor, “Pensar e Dizer”, de 1923; “Tests”, de Medeiros e Albuquerque, de 1924; Psychologia”, de Sampaio Dória, 1926; “Joazeiro de Padre Cícero”, de Lourenço Filho, 1926; “Teste Individual de Intelligencia”, de autoria de Isaias Alves, de 1927; “Psychologia e Psychotechnica”, Piéron, 1927; “O método dos testes”, de Manoel Bomfim, 1928; “Tratado de Psychologia”, de WaclawRadecki, 1928; “Psicoterapia e suas modalidades”, Maurício Campos de Medeiros, 1929; “Tese sobre Supranormais”, também de Maurício Campos de Medeiros, 1930; “Os testes e a reorganização escolar”, de Isaias Alves, 1930; há ainda algumas obras publicadas logo após 1930: “O teste ABC”, de Lourenço Filho, 1933; “Psicologia”, de Plínio Olinto, 1934; “Psicologia Social”, de Raul Briquet, 1935 e “Psicologiado Desenho Infantil”, de Silvio Rabelo, 1935. A estas devem ser acrescentadas algumas obras cujas datas não puderam ser identificadas, a saber: “O facto psychico” e “O respeito à criança”, ambas de Bomfim. Essa imprecisão deve-se ao lamentável fato dessas obras encontrarem-se perdidas. 2.3. À Guisa de Síntese A Educação foi, sobretudo nas décadas iniciais do século XX, fundamental para o desenvolvimento da Psicologia no Brasil. Foi ela a principal base sobre a qual a Psicologia emergiu na condição de ciência, tendo sido por seu intermédio que, em grande parte, os conhecimentos produzidos na Europa e nos Estados Unidos chegaram ao Brasil e, por suas características, foi no seu interior que mais claramente a Psicologia revelou-se na sua autonomia teórica e prática. Na Medicina e principalmente na Psiquiatria esse processo não foi tão explícito como o foi na Educação. Isso pode ser explicado, provavelmente, pelas naturezas diversas desses campos. A Educação, como conjunto de práticas sociais que visam à formação dos homens e a Pedagogia, sistematização teórico-prática que busca fundamentar, subsidiar e orientar as ações educativas, não podem ser consideradas como ciências específicas. Buscam elas as ciências afins que possam dar-lhes base de sustentação, como é o caso da Psicologia, considerada “a priori” como ciência autônoma que tem grande potencial de contribuição, o que lhe permite mostrar-se plenamente como área específica de saber. Com a Psiquiatria, no entanto, o tipo de relação que se estabelece é de natureza diversa. São ambas, Psiquiatria e Psicologia, não apenas campos de saber e de prática, mas também seus objetos de estudo e de intervenção não são, até hoje, claramente definidos e delimitados. Entretanto, pode-se perceber já nesse período a definição de contornos mais nítidos entre o que viria a ser estabelecido como áreas da Psiquiatria e da Psicologia. Outro fato a ser salientado é que a Educação trouxe, por meio das Escolas Normais, dos Institutos, de seus laboratórios e de seus intelectuais, uma produção a par com o que se realizava nos grandes centros culturais do mundo. Houve, para isso, grandes investimentos, como pode ser constatado em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, em que laboratórios foram montados, cursos foram organizados e eminentes psicólogos da época para cá vieram ministrá-los e contribuir com a criação de condições para que aqui também houvesse possibilidade de produção de pesquisa e, sobretudo, ampliação do raio de ação da Psicologia. Esses fatos guardam íntima relação com o escolanovismo que, nesse momento, se estabelecia com força no país e viria a tornar-se pensamento hegemônico na Educação. As relações entre o escolanovismo e a Psicologia, particularmente no Brasil, são imensas; a Psicologia deveria subsidiar as transformações da escola: as relações entre professor e aluno, o processo de ensino-aprendizagem, a modernização metodológica, a organização das classes, o conhecimento e o respeito ao desenvolvimento da criança, enfim, deveria a Psicologia tornar-se o mais importante braço científico e técnico da nova concepção de Educação. Vistos sob o prisma de uma concepção mais ampla da sociedade, escolanovismo e Psicologia foram, em verdade, manifestações de um projeto social para o Brasil, calcado no ideal da modernização e da elevação do país ao patamar das nações ricas e poderosas. Em outras palavras, escolanovismo e Psicologia eram, no seu próprio âmbito, manifestações de modernidade e sinais de avanço social e cultural, capazes de colaborar com a formação de um “homem novo” para uma “nova sociedade”. A formação desse “homem novo” estava, portanto, condicionada a uma “nova escola”, baseada nos princípios de racionalização e organização científica, a qual trazia, por seu turno, um novo conceito de disciplina, já não mais baseada nos pressupostos coercitivos da Medicina e da Hi-giene, mas determinada por fatores interiores ao indivíduo, cabendo à Psicologia instrumentalizar a Educação para que esta pudesse desenvolver tal processo; essa disciplina baseava-se, por sua vez, na concepção política de “colaboração de classe”, eliminando as contradições e conflitos presentes na relação entre capital e trabalho. Essa relação explicita-se plenamente na aplicação da Psicologia às questões relativas ao trabalho, que veremos a seguir e quando então poderemos completar o quadro aqui iniciado. Entretanto, é necessário reiterar que nem tudo o que a Psicologia produziu e tampouco todas as iniciativas foram homogeneamente articuladas ao processo acima citado; é possível afirmar que, no interior desse quadro geral, havia iniciativas de natureza diversa, como foram aquelas relativas ao Instituto de Psicologia de Recife e as concepções de Educação e Psicologia representadas por Manoel Bomfim e por Helena Antipoff. Sobre esse assunto, ver: RIBEIRO, M. L. S. História da Educação Brasileira. São Paulo, Cortez e Moraes, 1979. BOMFIM, M. A. América Latina: males de origem. Rio de Janeiro, Topbooks, 1993. PENNA, A. G. Apontamentos sobre as fontes e sobre algumas das figuras mais expressivas da Psicologia na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, FGV, 1986. Dentre as várias obras de BOMFIM, vale a pena ver: Bomfim, M. Pensar e Dizer: estudo do symbolo no pensamento e na linguagem. Rio de Janeiro, Casa Electros, 1923. Sobre Ulysses Pernambucano, ver: AA.VV. Ciclo de Estudos Ulysses Pernambucano. Recife, Academia Pernambucana de Medicina, 1978. Sobre a Escola de Aperfeiçoamento e a produção de Helena Antipoff, ver: CAMPOS, R. H. de F. Psicologia e Ideologia: um estudo da formação da Psicologia Educacional em Minas Gerais. Belo Horizonte, UFMG, dissertação de mestrado, 1980. CABRAL, A. de C. M. A Psicologia no Brasil, in: Psicologia, nº 3, Boletim, CXIX, pp. 9/51. USP, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, São Paulo, 1950. Escola Normal de São Paulo. O Laboratório de Pedagogia Experimental. São Paulo, Typ. Siqueira, 1914.