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<p>LITERATURA BRASILEIRA III</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Prezado aluno,</p><p>O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de</p><p>aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar,</p><p>interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida</p><p>uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para</p><p>todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em</p><p>perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão</p><p>respondidas em tempo hábil.</p><p>Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é</p><p>preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas.</p><p>A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso.</p><p>A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos</p><p>definidos para as atividades.</p><p>Bons estudos!</p><p>Portfólio</p><p>Leia, a seguir, os dois poemas, um de Carlos Drummond de Andrade e o outro de João Cabral de</p><p>Melo Neto.</p><p>Você consegue determinar em que medida essas produções se aproximam e se distanciam?</p><p>A LIÇÃO DE POESIA</p><p>1. Toda a manhã consumida</p><p>como um sol imóvel</p><p>diante da folha em branco:</p><p>princípio do mundo, lua nova.</p><p>Já não podias desenhar</p><p>sequer uma linha;</p><p>um nome, sequer uma flor</p><p>desabrochava no verão da mesa:</p><p>nem no meio-dia iluminado,</p><p>cada dia comprado,</p><p>do papel, que pode aceitar,</p><p>contudo, qualquer mundo.</p><p>2. A noite inteira o poeta</p><p>em sua mesa, tentando</p><p>salvar da morte os monstros</p><p>germinados em seu tinteiro.</p><p>Monstros, bichos, fantasmas</p><p>de palavras, circulando,</p><p>urinando sobre o papel,</p><p>sujando-o com seu carvão.</p><p>Carvão de lápis, carvão</p><p>da idéia fixa, carvão</p><p>da emoção extinta, carvão</p><p>consumido nos sonhos.</p><p>3. A luta branca sobre o papel</p><p>que o poeta evita,</p><p>luta branca onde corre o sangue</p><p>de suas veias de água salgada.</p><p>A física do susto percebida</p><p>entre os gestos diários;</p><p>susto das coisas jamais pousadas</p><p>porém imóveis — naturezas vivas.</p><p>E as vinte palavras recolhidas</p><p>nas águas salgadas do poeta</p><p>e de que se servirá o poeta</p><p>em sua máquina útil.</p><p>Vinte palavras sempre as mesmas</p><p>de que conhece o funcionamento,</p><p>a evaporação, a densidade</p><p>menor que a do ar.</p><p>A PROCURA DA POESIA - Carlos Drummond de Andrade</p><p>Não faças versos sobre acontecimentos.</p><p>Não há criação nem morte perante a poesia.</p><p>Diante dela, a vida é um sol estático,</p><p>não aquece nem ilumina.</p><p>As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.</p><p>Não faças poesia com o corpo,</p><p>esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.</p><p>Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro</p><p>são indiferentes.</p><p>Nem me reveles teus sentimentos,</p><p>que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.</p><p>O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.</p><p>Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.</p><p>O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.</p><p>Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.</p><p>O canto não é a natureza</p><p>nem os homens em sociedade.</p><p>Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.</p><p>A poesia (não tires poesia das coisas)</p><p>elide sujeito e objeto.</p><p>Não dramatizes, não invoques,</p><p>não indagues. Não percas tempo em mentir.</p><p>Não te aborreças.</p><p>Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,</p><p>vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família</p><p>desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.</p><p>Não recomponhas</p><p>tua sepultada e merencória infância.</p><p>Não osciles entre o espelho e a</p><p>memória em dissipação.</p><p>Que se dissipou, não era poesia.</p><p>Que se partiu, cristal não era.</p><p>Penetra surdamente no reino das palavras.</p><p>Lá estão os poemas que esperam ser escritos.</p><p>Estão paralisados, mas não há desespero,</p><p>há calma e frescura na superfície intata.</p><p>Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.</p><p>Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.</p><p>Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.</p><p>Espera que cada um se realize e consume</p><p>com seu poder de palavra</p><p>e seu poder de silêncio.</p><p>Não forces o poema a desprender-se do limbo.</p><p>Não colhas no chão o poema que se perdeu.</p><p>Não adules o poema. Aceita-o</p><p>como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada</p><p>no espaço.</p><p>Chega mais perto e contempla as palavras.</p><p>Cada uma</p><p>tem mil faces secretas sob a face neutra</p><p>e te pergunta, sem interesse pela resposta,</p><p>pobre ou terrível, que lhe deres:</p><p>Trouxeste a chave?</p><p>Repara:</p><p>ermas de melodia e conceito</p><p>elas se refugiaram na noite, as palavras.</p><p>Ainda húmidas e impregnadas de sono,</p><p>rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.</p><p>ESTUDOS DE</p><p>LITERATURA -</p><p>DRAMA</p><p>Manoela Wilhelms Wolff</p><p>O teatro e a literatura</p><p>dramática ao longo</p><p>da história</p><p>Objetivos de aprendizagem</p><p>Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:</p><p> Definir teatro e drama.</p><p> Analisar as influências sociais do teatro ao longo da história.</p><p> Identificar o drama como criação coletiva e os papéis de autor do</p><p>texto e do espetáculo.</p><p>Introdução</p><p>Definir teatro e drama é, certamente, o maior dilema que tem acompa-</p><p>nhado a evolução histórica e formal das artes do espetáculo. Isso porque</p><p>as próprias definições e significados de ambas as palavras têm mudado</p><p>muito ao longo do tempo. A arte teatral é uma das formas criativas mais</p><p>antigas que existem, remontando sua origem aos rituais que sempre</p><p>acompanharam a humanidade, suas crenças e mitologias, e reinventando-</p><p>-se sempre que sua comunidade produtora necessita.</p><p>Neste capítulo, você conhecerá as principais noções de teatro e drama</p><p>ao longo da história ocidental e aprenderá a localizá-las historicamente e</p><p>relacioná-las com seus respectivos contextos. Você analisará a estrutura do</p><p>feitio teatral, que abrange escrita, produção, encenação e recepção, bem</p><p>como suas origens e as transformações que esses elementos sofreram</p><p>ao longo do tempo.</p><p>Entre noções: o que é teatro e o que é drama?</p><p>Com certeza você já ouviu as seguintes expressões: “Você está sendo muito</p><p>dramático!”, ao se referir a alguém que faz muito barulho por nada, ou “Você é</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 1 22/02/2019 15:02:46</p><p>um ótimo ator!”, a algum amigo que inventa desculpas e mentiras para se livrar de</p><p>algo que não queira fazer, ou ainda “Você é um excelente comediante”, referindo-</p><p>-se àquele amigo que tem sempre uma piada na manga para contar ao grupo.</p><p>Os adjetivos dramático, cômico ou teatral costumam aparecer no nosso</p><p>cotidiano nas mais diversas formas. No Brasil, comumente usamos a palavra</p><p>drama em oposição à comédia. Aquilo que não é alegre e jocoso torna-se,</p><p>portanto, triste, reflexivo, exagerado e... dramático. Apesar de serem atual-</p><p>mente popularizadas e pautadas pelos meios da televisão e do cinema, estas</p><p>características (e gêneros) têm, no entanto, origens bem mais antigas, que</p><p>fazem parte das bases dos nossos conhecimentos ocidentais.</p><p>Por isso, definir as noções de teatro e drama seria impossível sem retornar</p><p>à Grécia Antiga, o período civilizatório do qual praticamente toda a nossa</p><p>concepção filosófica, política e artística deriva. O teatro se estabelece, en-</p><p>quanto forma e instituição, como o conhecemos, nesse momento da história.</p><p>Obviamente, o teatro não nasce sendo o teatro com prédio, palco, luzes, diretor,</p><p>texto escrito, atores e cenário. Assim como o teatro não é uma exclusividade</p><p>do Ocidente e também não é uniformizado: não há apenas um jeito certo de</p><p>se fazer teatro e drama. E isso não apenas hoje, mas desde sempre. É neces-</p><p>sário remontar à história para que você compreenda as transformações nos</p><p>conceitos de drama e teatro.</p><p>Do rito ao texto: da oralidade ao gênero literário</p><p>O teatro tem suas origens nas práticas rituais das civilizações primitivas.</p><p>Do momento em que a humanidade começa a interpretar deuses e fi guras</p><p>mitológicas em diante, começa a instauração de diferenças entre o fi ccional e</p><p>o real. No entanto, para as comunidades primitivas, estas linhas</p><p>eram muito</p><p>mais tênues do que as nossas pós-iluministas separações entre crenças e</p><p>realidade concreta. O teatro sempre habitou esse limiar e cumpriu um papel</p><p>de comunicação entre esses dois mundos.</p><p>É assim que ele se ergue, na Grécia Antiga, como um dos pilares da de-</p><p>mocracia grega. Os nossos conceitos ocidentais de drama e teatro derivam</p><p>principalmente da era de ouro das tragédias gregas e, principalmente, de um</p><p>tratado filosófico e artístico cunhado por Aristóteles, chamado de Poética.</p><p>No século V a.C, Atenas era uma cidade em polvorosa devido às Grandes</p><p>Dionisíacas, festivais de tragédias que ocupavam os principais auditórios da</p><p>pólis, ou cidade-Estado. Assistir às tetralogias, conjuntos de três tragédias</p><p>e uma sátira, nos festivais competitivos era uma obrigação e um deleite do</p><p>cidadão ateniense.</p><p>O teatro e a literatura dramática ao longo da história2</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 2 22/02/2019 15:02:46</p><p>Antes de Aristóteles conceituar os elementos da tragédia, Platão já havia</p><p>comentado sobre a poesia em seu livro X, da República. Para Platão, a po-</p><p>esia (e por poesia, entende-se a arte) deveria ser banida da pólis grega, por</p><p>ser catalisadora de emoções (irracionalidade) e louvar imitadores, o que não</p><p>serve aos preceitos da cidade, anteriormente estabelecidos por ele também na</p><p>República. Platão (1965) diz que, na cidade, apenas devem ser permitidos os</p><p>hinos aos deuses e os elogios às pessoas de bem. Para ele, a poesia imitativa</p><p>distancia o cidadão da verdade divina, corrompendo-o, sempre, e apenas se</p><p>ela conseguir mostrar-se valorosa e útil, poderá ser recebida na cidade bem</p><p>policiada. Nem Homero, autor da Odisséia, escapa das críticas platônicas,</p><p>que, assim, contraria a maioria de seus contemporâneos sobre a importância</p><p>da extensa narrativa épica.</p><p>De Platão, Aristóteles herda certos conceitos que são por ele desenvolvidos</p><p>mais positivamente, entre eles, um dos mais caros ao teatro: o conceito de</p><p>mimesis. Mimesis é a palavra que significa imitar no grego antigo. Enquanto</p><p>para Platão imitar era algo artificial e representativo das coisas exteriores</p><p>(não-verdadeiras), para Aristóteles (1986) o imitar é congênito no homem.</p><p>Para ele, imitar é parte do processo de aprendizagem do homem, e nisso ele</p><p>difere de todos os outros seres viventes. Dessa forma, a imitação por si só</p><p>não é algo corruptível e desprezível, uma vez que ela representa os homens e</p><p>as suas histórias, mas possui variáveis níveis de nobreza e baixeza, conforme</p><p>o objeto imitado. É desta ideia inicial que Aristóteles parte para descrever e</p><p>classificar os variados tipos de poesia e seus elementos constitutivos.</p><p>Mais do que os elementos que compõem o texto trágico (como prólogo e</p><p>episódio) ou as ações sofridas pelo herói (peripécia, reconhecimento, entre</p><p>outros), você precisa conhecer principalmente os conceitos de drân, mythos</p><p>e verossimilhança. Para Aristóteles, o público apenas pode ter prazer com a</p><p>arte imitativa se ela representar aquilo que é conhecido. No entanto, o poeta</p><p>não deve narrar a realidade, mas um de seus possíveis, do contrário, ele estaria</p><p>construindo a história. Isso porque, ao contrário de Platão, Aristóteles concebe</p><p>a poesia como um espaço de purgação coletiva de emoções (catharsis), e, para</p><p>a purgação, é necessário um salto criativo, desde que respeitadas certas regras.</p><p>Uma das mais importantes noções, e que repercute ao longo da história, é a</p><p>ideia de imitação das ações, em vez do caráter humano. Uma tragédia deve</p><p>ser composta de várias ações (drâns) que sigam uma lógica de linearidade e</p><p>verossimilhança, as quais irão compor o mythos, conhecido também como</p><p>fábula. Dessa forma, é necessário que se respeite a unidade de ação, que</p><p>determina que os atos não sejam intercambiáveis entre si, de modo que a</p><p>troca da ordem das ações afete o resultado total; assim como a unidade de</p><p>3O teatro e a literatura dramática ao longo da história</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 3 22/02/2019 15:02:46</p><p>tempo, que determina que a tragédia deve transcorrer no período de um sol</p><p>(um dia), e a unidade de espaço, devendo manter-se em um local, tendo os</p><p>acontecimentos narrados, em vez de mostrados ao público.</p><p>Você pode perceber que a tragédia se compõe, então, de um universo</p><p>fechado em si mesmo que dialoga continuamente com as crenças do público</p><p>grego. Este é outro detalhe importante da Poética aristotélica: os mitos não</p><p>devem ser alterados, o poeta apenas deve usá-los artisticamente. Dessa forma,</p><p>as fábulas sempre ecoam a ética e moral da pólis.</p><p>Há, ainda, uma característica especial que transformou a tragédia na mais</p><p>importante arte grega na época: a elocução. Diferentemente da epopeia, que</p><p>costuma ser um longo poema, a tragédia deve ser ouvida, e não lida. Numa</p><p>Grécia em que apenas cidadãos homens sabiam ler, mas na qual todos preci-</p><p>savam ser moralizados, a tragédia ocupou este espaço, uma vez que era aberta</p><p>a todos os cidadãos, inclusive mulheres e escravos (quando autorizados). A</p><p>comédia, ao contrário, não era de livre acesso, sendo proibida às mulheres</p><p>devido à baixeza de suas temáticas.</p><p>Para saber mais sobre a democracia grega neste período, leia o artigo da Prof. Dra. Maria</p><p>Dulce Reis, “Democracia grega: a antiga Atenas (séc. V a.C.)”, disponível no link a seguir.</p><p>https://goo.gl/8JukiA</p><p>Esta característica se relaciona diretamente com as origens do teatro</p><p>grego, que vem dos rituais ao deus Dionísio (VI a.C), chamados de diti-</p><p>rambos. Estes rituais circulares constituíam-se por um coro vestido com</p><p>máscaras de bode e entoando cantos ao deus da embriaguez e da fertilidade,</p><p>até que, no ano de 534 a.C (BERTHOLD, 2004), o ator Téspis, vindo de</p><p>Icária, foi convidado a participar de uma dionisíaca em Atenas. Ele teve</p><p>a criativa ideia de se desvencilhar do coro como solista e criou o papel do</p><p>hypokrites, ou “respondedor”, construindo os primeiros diálogos. Etimo-</p><p>logicamente, a palavra tragédia deriva de tragos, que significa “bode”, e</p><p>ode, que significa “canto”, referindo-se diretamente aos rituais a Dionísio.</p><p>Sabe-se que Téspis circulou pelas cidades gregas, e, com a maior popula-</p><p>O teatro e a literatura dramática ao longo da história4</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 4 22/02/2019 15:02:46</p><p>ridade do gênero e o auge da democracia atingido no governo de Péricles,</p><p>iniciaram-se as construções dos grandes e famosos edifícios teatrais gregos</p><p>e os grandes festivais.</p><p>Essas construções eram compostas por várias estruturas que a subdividiam,</p><p>cada uma com um propósito, e é de umas delas que deriva a palavra teatro.</p><p>Theatron é a palavra grega que designa o local de onde se vê o espetáculo,</p><p>logo, o espaço ocupado pelos espectadores (PAVIS, 2008). O teatro só se</p><p>referirá ao edifício inteiro muito mais tarde, sendo chamados, na época, de</p><p>auditórios ou arenas; assim como só será concebida a obra dramática como</p><p>teatro também mais adiante na história.</p><p>As palavras theatron e drân são as mais importantes no que tange às</p><p>definições de teatro e drama, uma vez que são, respectivamente, suas origens</p><p>etimológicas. No entanto, você pode perceber a transformação destas desde as</p><p>suas primeiras concepções no ambiente da Grécia Antiga até o uso cotidiano</p><p>contemporâneo. Após conhecer suas origens, será que ainda cabe chamar</p><p>alguém de dramático?</p><p>O drama, que na Grécia Antiga se referia ao conjunto de ações realizadas</p><p>em uma fábula, escrita por um tragediógrafo e encenada segundo regras</p><p>de representação bastante restritas, mudou tanto de concepção quanto as</p><p>sociedades evoluíram ao longo do tempo. No entanto, no que concerne a</p><p>Aristóteles (1986, p. 111), o elemento mais importante da tragédia é o drama:</p><p>“[...] a trama dos fatos, pois a tragédia não é imitação de homens, mas de</p><p>ações e de vida, de felicidade [...]”. Logo, o que mais importa ao drama e à</p><p>tragédia é a ação.</p><p>E como se dá a ação no texto teatral? Como você já viu, o teatro surge a</p><p>partir da evolução do ritual que passa de um coro que conta toda a história</p><p>para um coro com um solista.</p><p>O que acontece quando temos dois elementos</p><p>trocando informações? Diálogo. A forma das ações no drama e na tragédia</p><p>se dá por meio dos diálogos, o que é uma maneira bem mais imediata de</p><p>transmissão de mensagens do que os versos de uma epopeia. A elocução, o</p><p>diálogo, a verossimilhança e a fábula de ações reconhecíveis é o que torna a</p><p>tragédia, na Grécia Antiga, uma expressão puramente democrática.</p><p>Ao longo da história, os elementos e conceitos da tragédia foram fi-</p><p>cando obsoletos. Unidade de tempo, ação e espaço se tornaram requisitos</p><p>dispensáveis, e o texto teatral escrito foi se reinventando. Após um longo</p><p>período de proibição na Idade Média, o texto teatral retoma toda sua força</p><p>no Renascimento. E é aí que a maioria dos teóricos concorda ter nascido</p><p>a noção de drama moderno. No Renascimento, o drama deixa de ter estes</p><p>elementos da tragédia e passa, além disso, a representar, de forma escrita,</p><p>5O teatro e a literatura dramática ao longo da história</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 5 22/02/2019 15:02:46</p><p>histórias que não são mitos conhecidos por toda a sociedade, mas sim cria-</p><p>ções livres sobre as relações humanas. O principal exemplo desse período</p><p>é Shakespeare.</p><p>Podemos dizer, então, que o drama moderno é um texto literário com-</p><p>posto principalmente por diálogos, que propõe uma sequência de ações e</p><p>que é produzido especialmente para a elocução, respeitando uma lógica de</p><p>mundo interno absoluta. Dos elementos trágicos, o principal remanescente é</p><p>a ação. No entanto, o fim do século XIX marca uma série de crises no texto</p><p>dramático e na instituição teatral, dentre elas, a crise da ação. Os textos</p><p>não necessariamente precisam mais ter uma sequência lógica de ações,</p><p>nem unidades de tempo, nem uma fábula reconhecível. Logo, os diálogos</p><p>também são dispensáveis. No século XX, o teatro das vanguardas histórias</p><p>e os épicos brechtianos rompem totalmente com o resto dessa estrutura.</p><p>Samuel Beckett cimenta a não-ação e as formas pós-Segunda Guerra Mundial</p><p>tornam o texto dramático o gênero talvez mais livre dentro da literatura.</p><p>Mas como definir, então, o drama?</p><p>O drama, na concepção contemporânea, relaciona-se exclusivamente com a</p><p>intenção da expectação. Assim como os gregos construíram uma arquibancada</p><p>nos auditórios, que se chamava theatron, para que o público pudesse ver e ouvir</p><p>o espetáculo (e nisso se constitui a diferença entre o teatro e o ritual), o que</p><p>diferencia um texto dramático de qualquer outro texto literário é a expectativa</p><p>de encenação (de que o texto seja encenado) e, logo, a expectativa de possíveis</p><p>novas camadas de recepção.</p><p>Dessa forma, o drama e suas derivações nominais (dramaturgia, texto</p><p>dramático) referem-se ao texto escrito que pretende ser mais do que apenas</p><p>lido, ao passo que o teatro é o nome que se dá a esta arte que não funciona</p><p>sem a interlocução com o público.</p><p>Quando dizemos que alguém está sendo dramático e usamos o adjetivo com essa</p><p>conotação, estamos nos referindo principalmente às heranças do melodrama. As</p><p>representações exageradas e a glorificação dos atores na época construíram essa</p><p>noção. A estética do melodrama é a base da televisão e do cinema contemporâneos,</p><p>ou seja, ser dramático não tem nada a ver com os gregos e as concepções de drama</p><p>de Aristóteles, mas sim com uma forma de teatro dos séculos XVIII e XIX.</p><p>O teatro e a literatura dramática ao longo da história6</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 6 22/02/2019 15:02:46</p><p>Um panorama das relações entre teatro</p><p>e sociedade</p><p>Como você já viu, as características do teatro são extremamente moldadas</p><p>pela sociedade na qual ele é criado. Para os gregos, a tragédia era a máxima</p><p>representação do espírito democrático. Além de entretenimento, ela deveria</p><p>ajudar na manutenção do espírito coletivo e da moral da pólis. No entanto,</p><p>mulheres não podiam atuar e nem assistir às comédias; a cidadania excluía</p><p>estrangeiros, mulheres e escravos.</p><p>A arte é produto de seu tempo, mas também sua matéria-prima. Apesar</p><p>das expressões institucionalizadas de teatro, sempre houve, durante toda a</p><p>história, as expressões populares – e ambas influenciaram uma a outra. Na</p><p>Atenas do século de ouro das tragédias, também estavam perambulando pelas</p><p>comunidades os saltimbancos e os mimos, que, em oposição ao teatro que</p><p>glorificava deuses, prestava atenção ao povo anônimo e às suas estereotipias.</p><p>Estes espetáculos, normalmente improvisados, também contaram com registros</p><p>escritos, como é o caso de fragmentos de uma peça de Sófron (430 a.C.) que,</p><p>aparentemente, serviu de inspiração para o personagem de Bottom em Sonho</p><p>de uma noite de verão, de Shakespeare. Além disso, nos mimos e nas danças</p><p>populares, as mulheres não eram proibidas de participar, e várias ficaram</p><p>conhecidas como grandes performers.</p><p>Antes do teatro grego, as civilizações egípcias e mesopotâmicas já tinham</p><p>formas de teatro. No ano 610, com a instauração do islamismo e sua subsequente</p><p>divisão entre sunitas e xiitas, surge no Irã uma forma de paixão, chamada</p><p>de ta’zya. Na Índia, o “manual” das artes do espetáculo hindu, chamado de</p><p>Natyasastra, composto por Bharata Muni (datado entre 200 a.C e 200 d.C), faz</p><p>inveja à poética aristotélica: ele é composto por tantas partes quanto é possível</p><p>imaginar, as quais vão desde a concepção das histórias a serem encenadas</p><p>até como se compõe o palco. A tradução em inglês (não há versão em língua</p><p>portuguesa) tem quase mil páginas de explicações. Os códigos de gestos que</p><p>compõem as formas de teatro indianos servem também para explicitar as</p><p>castas hindus. Tudo está muito bem classificado por Bharata. A relação entre</p><p>religião, rito e teatro é ainda primordial. Os teatros chinês e japonês também</p><p>não ficam para trás em história. Nos séculos XIII e XIV, o teatro celebrou</p><p>seus triunfos nos livros impressos. Os espetáculos chineses contam com uma</p><p>tradição de 5 mil anos.</p><p>Estas expressões eventualmente se cruzam nos trânsitos do mundo. A</p><p>maioria delas, como as do Oriente próximo e da Ásia, ficam conhecidas pelos</p><p>7O teatro e a literatura dramática ao longo da história</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 7 22/02/2019 15:02:46</p><p>ocidentais com as expedições de comércio e dominação. Um movimento</p><p>similar ao que acontece na literatura, de expansão e colonização, acontece no</p><p>teatro. Por exemplo, durante o período imperial britânico na Índia, as formas</p><p>tradicionais de teatro foram proibidas, o que criou na região centros urbanos</p><p>em que o teatro é idêntico – em forma – ao ocidental.</p><p>Enquanto isso, na Europa, a república romana começava a expandir seus</p><p>territórios, dominando vários dos povos ao seu redor. No século II a.C, os</p><p>romanos finalmente ocuparam os territórios gregos, dentre eles Atenas, e,</p><p>com isso, apropriam-se muito de sua cultura. O panteão politeísta grego é</p><p>então adaptado para o latim, e os teatros gregos são reconfigurados pelos</p><p>dominadores. A república romana e o período de sua expansão dura apro-</p><p>ximadamente 500 anos, e, em função de inúmeras revoltas populares, acaba</p><p>sendo implantado o império. Durante o império, para desviar a atenção da</p><p>população de escândalos de corrupção, é criada a política de “pão e circo”, e</p><p>o teatro tem um caráter de entretenimento, na maioria das vezes sanguinário e</p><p>satírico, muito distante do equilíbrio moral pretendido pelas tragédias gregas.</p><p>Os principais anfiteatros, como o Coliseu, foram palco de batalhas e inclusive</p><p>de inundações (ele possuía um sistema de drenagem para isso), e, muitas vezes,</p><p>pessoas eram executadas durante os espetáculos. A barbárie romana começa</p><p>a prever seu fim quando o império deixa de perseguir os cristãos que viviam</p><p>em seu território e acatam o cristianismo como religião oficial. A queda do</p><p>império romano e a entrada sucessiva no Período Medieval, ou Idade das</p><p>Trevas, vêm em conjunto com a demonização da arte teatral.</p><p>Nem tudo no teatro romano era pura barbárie. Os mimos, que antes eram trupes</p><p>itinerantes, tornaram-se uma das formas mais adoradas pelos romanos. Inclusive,</p><p>há registros de</p><p>mulheres mimos. Elas eram muito malvistas, assim como os atores</p><p>em geral. Uma delas era Teodora, que se tornou a esposa de Justiniano, imperador</p><p>do período Bizantino (500 d.C). A história a representa como prostituta, e não como</p><p>atriz. No entanto, ela foi a única mulher a governar lado a lado com o imperador, e foi</p><p>responsável pela construção de uma das mais importantes obras arquitetônicas da</p><p>época, a Hagia Sofia, hoje na cidade que chamamos de Istambul.</p><p>A implantação do cristianismo foi gradual, mas extremamente opressiva.</p><p>Os atores sofreram extrema perseguição. A arte de atuar, que andava tão</p><p>O teatro e a literatura dramática ao longo da história8</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 8 22/02/2019 15:02:46</p><p>próxima das “baixezas morais”, só encontrou espaço na Idade das Trevas</p><p>quando a representação fosse de temas bíblicos. Os mistérios medievais são</p><p>uma das principais formas do período, sendo um gênero que sempre enfatiza</p><p>a grandiosidade de Deus. Eles eram interpretados apenas por homens que não</p><p>podiam ser atores, que representavam as próprias ocupações. Os mistérios</p><p>eram encenados normalmente em formato circular, em uma praça, com vários</p><p>carrinhos, cada um com uma cena de alguma história bíblica.</p><p>Nem por isso o teatro popular deixou de existir. Apesar de perseguidos,</p><p>o teatro profano seguia, nômade, perambulando entre as comunidades, e o</p><p>teatro de corte misturava temas circenses e bíblicos. O teatro de catequiza-</p><p>ção, dentro dos seminários, desenvolveu os autos sacramentais. Aos poucos,</p><p>esta distinção entre sacro e profano foi se acentuando, principalmente com a</p><p>profissionalização do teatro profano. Com a igreja perdendo força para uma</p><p>filosofia mais antropocêntrica e cética, os avanços científicos e a arte voltaram</p><p>a florescer, em um retorno à Antiguidade Clássica, à Grécia Antiga.</p><p>O Renascimento é um período de difícil definição temporal, mas há um</p><p>consenso de que sua duração abrangeu o período entre os séculos XIV e</p><p>XVI. Suas ressonâncias e criações se estendem por toda a Europa. Quanto ao</p><p>teatro, suas manifestações são especialmente importantes na Itália, Espanha e</p><p>Inglaterra. A popularização do teatro, a profissionalização de companhias, a</p><p>transição do centro de importância das peças da mera representação de ações</p><p>para o conflito individual são algumas de suas características. A Inglaterra</p><p>tem, por meio de Shakespeare, uma explosão linguística e artística. O teatro</p><p>italiano vê a Comédia Erudita coexistir com a Commedia dell’arte. A Espanha</p><p>usa o teatro para a difusão da língua espanhola e ainda sofre mais que os outros</p><p>territórios com as heranças medievais: primeiramente, mulheres não assistiam,</p><p>e, depois, ganham uma ala separada nos espaços de encenação. Passam a</p><p>existir e serem nomeados os gêneros da tragicomédia e drama histórico. O</p><p>teatro floresce lindamente durante o Renascimento.</p><p>Durante o Neoclassicismo Francês, o teatro volta a ter um caráter sepa-</p><p>ratista: a elite assiste ao teatro institucionalizado, ao passo que as classes</p><p>mais baixas criam suas próprias formas. No século XVIII, a França instaura</p><p>a Comédie Française, por decreto do rei Luís XV, e se torna uma das princi-</p><p>pais instituições teatrais da modernidade. Com o Iluminismo e a Revolução</p><p>Francesa, a monarquia entra em colapso, e a Europa vê surgir um novo modelo</p><p>social e humano. Há uma nova classe emergindo, que se firma com a Revolução</p><p>Industrial e Científica: a burguesia.</p><p>O drama burguês, do qual deriva o teatro de boulevard e o melodrama,</p><p>torna-se a principal vertente popular do teatro. De modo paralelo, o movi-</p><p>9O teatro e a literatura dramática ao longo da história</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 9 22/02/2019 15:02:47</p><p>mento Romântico alemão traz à tona a importância dos sentimentos, com uma</p><p>expressividade grandiloquente, não importando mais tanto a forma de sua</p><p>exposição, mas sim a sua efetiva comunicação. Além das movimentações locais</p><p>na Europa, o mundo todo recebia suas influências, devido à movimentação</p><p>colonizadora do século XV. Os conceitos filosóficos, literários e artísticos</p><p>viajavam nas malas de aristocratas e estadistas, e o teatro popular circulava</p><p>nos porões dos navios. É importante que você perceba que, a partir do Re-</p><p>nascimento, não há apenas uma história sendo contada, mas sim múltiplas</p><p>narrativas coabitando um tempo.</p><p>Aos poucos, não interessa mais ao público a ficção, e o teatro deve re-</p><p>presentar puramente a realidade. Daí decorrem as correntes Naturalistas e</p><p>Realistas, sendo a primeira a exacerbação do realismo, recriando cenários</p><p>com detalhes excruciantemente reais. O Naturalismo, além disso, tem um</p><p>caráter determinista (raça, hereditariedade e meio social), além de uma crítica</p><p>explícita à sociedade. O Realismo encontra muita ressonância na Rússia, de</p><p>onde surgirá uma das principais correntes de técnica de atuação: o método de</p><p>Stanislavski. Nele, pela primeira vez no teatro institucionalizado, o ator passa</p><p>a vivenciar as situaçõesem vez de representá-las, de forma mais intimista,</p><p>criando uma noção de realidade.</p><p>Todas essas correntes se perturbam na virada do século XIX com a consti-</p><p>tuição dos sistemas capitalista e socialista. Nada mais serve àqueles que fazem</p><p>a arte, tudo precisa ser revisto. Aí temos uma sequência de movimentos de</p><p>extrema importância, que também são conhecidos como vanguardas históricas:</p><p>Simbolismo, Expressionismo, Futurismo, Construtivismo, Dadaísmo, Surrea-</p><p>lismo, entre outras. As primeiras duas décadas do século XX são extremamente</p><p>movimentadas e muito impulsionadas pela Primeira Guerra Mundial.</p><p>A criação de uma crítica cada vez mais forte ao teatro e à arte como um</p><p>todo leva ao derradeiro fim da ideia do teatro como purgação de emoções e de</p><p>arte ficcionalmente envolvente. Entre 1920 e 1930, Bertolt Brecht começa seus</p><p>trabalhos na Alemanha pós-guerra e pré-nazista. De posicionamento político</p><p>abertamente Marxista, Brecht é reconhecido como o precursor do teatro épico.</p><p>Para ele, o teatro é uma forma de construir o pensamento reflexivo-crítico</p><p>nas massas, e precisa debater as dinâmicas de poder sociais. Por meio de</p><p>canções, máscaras, narrações, Brecht atinge o público e transforma o fazer</p><p>teatral institucionalizado no Ocidente. Uma de suas principais contribuições</p><p>foi o rompimento da, até então, importante quarta parede. A quarta parede é</p><p>como se chama a instauração de uma parede imaginária entre atores e público,</p><p>com a intenção de tornar o teatro um mundo fechado em si mesmo, do qual</p><p>os espectadores não participam.</p><p>O teatro e a literatura dramática ao longo da história10</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 10 22/02/2019 15:02:47</p><p>Nas vanguardas históricas e nas formas populares de teatro, a quarta parede</p><p>não era instituída. A performance dos artistas, em ambas, dependia muito da</p><p>interação com a plateia. No entanto, Brecht estava fazendo teatro em edifícios</p><p>teatrais, e dirigir-se ao público nesses casos era uma ruptura bastante grande</p><p>– sem o rompimento, ele não poderia promover a reflexão que pretendia.</p><p>Na época da Segunda Guerra Mundial, com uma Europa arrasada, as</p><p>artes e os exilados políticos perseguidos pelo regime nazista acabaram se</p><p>refugiando nos Estados Unidos. O drama norte-americano, os musicais de</p><p>Broadway e o cinema do país se tornam uma corrente própria, a qual, depois,</p><p>foi extensamente exportada pelo mundo.</p><p>Com a derrota de Hitler, o sentimento de devastação e o contexto da Guerra</p><p>Fria propulsionam uma nova forma de teatro, representada pelo francês Samuel</p><p>Beckett: o teatro do absurdo. Já não havia realismo, paixões ou moralidades</p><p>a serem representadas, e ninguém melhor que Beckett reproduziu em texto o</p><p>vazio da época. Os movimentos por direitos civis negros nos Estados Unidos,</p><p>a independências de várias nações colonizadas, a liberação sexual e o femi-</p><p>nismo, a Guerra do Vietnã, os regimes ditatoriais na América Latina, o avanço</p><p>científico e bélico, o desenvolvimento tecnológico iminente e o estruturalismo</p><p>francês são apenas alguns dos temas</p><p>e das disciplinas que passam a influenciar</p><p>o teatro e a arte no pós-guerra. A representação desses movimentos no plano</p><p>estético passa a se dar de variadas formas concomitantes. De um lado, o teatro</p><p>antropológico, de outro, a performance, mais tarde as novas formas de drama</p><p>e, inclusive, um audacioso possível teatro pós-dramático.</p><p>A história do teatro sempre esteve ligada à sociedade na qual ele se de-</p><p>senvolve, principalmente por partir de um princípio muito básico durante</p><p>quase 2 mil anos: o teatro a reflete, diretamente. Nos séculos XIX e XX, o</p><p>teatro passa a contestar essa sociedade de forma aberta – a contestação, no</p><p>nível subjetivo, sempre houve, em todos os tempos. Entretanto, a liberdade</p><p>de criticar as determinações sociais vem em conjunto com as liberdades de</p><p>crença, ideologia, sexualidade.</p><p>O teatro no panorama contemporâneo tem se tornado interessante. Ele-</p><p>mentos clássicos coexistem com movimentos pós-coloniais e emergentes.</p><p>Nunca nos estudos teatrais tem se falado tanto de outras narrativas e de novas</p><p>dramaturgias. Depois da década de 1980, na qual o corpo e as dramaturgias</p><p>construídas em sala de ensaio se tornaram regra no fazer teatral, temos um</p><p>renascer dramatúrgico com diversos movimentos sincrônicos despontando nos</p><p>anos 1990. Um deles, o inglês in-yer-face, alçou a dramaturga Sarah Kane,</p><p>que é responsável por alguns dos textos mais desconstruídos do contempo-</p><p>râneo. Em sua peça, Crave, não há personagens, ordem ou história, apenas</p><p>11O teatro e a literatura dramática ao longo da história</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 11 22/02/2019 15:02:47</p><p>letras enunciando monólogos. Temáticas como a opressão feminina e LGBT,</p><p>ancestralidade negra e problemas imperialistas têm surgido em todo o mundo.</p><p>O teatro, que por muito tempo serviu para uma aristocracia e foi ensinado e</p><p>vendido a partir de uma visão eurocêntrica, tem começado a levantar sua voz</p><p>e se feito ouvir em todos os cantos do planeta.</p><p>O fazer teatral</p><p>Se há uma arte que não existe sem o fazer coletivo, ela é o teatro. Como você</p><p>pôde observar, a arte teatral passou por formas tão múltiplas quanto podemos</p><p>imaginar. Nesta refl exão que o teatro faz de seu tempo, não é possível presumir</p><p>que o fazer teatral tenha permanecido o mesmo ao longo dos milênios.</p><p>Todavia, há, entre os papéis de uma produção, alguns que aparecem e</p><p>reaparecem com funções similares, mesmo que com nomes distintos. Entre</p><p>eles, estão as nossas noções contemporâneas de dramaturgos e diretores, ou</p><p>autores do texto e do espetáculo, respectivamente.</p><p>A palavra alemã dramaturg viria a nomear a noção de dramaturgo moderno. Ela</p><p>aparece com Lessing, em 1767, em uma coletânea de escritos produzidos por ele para</p><p>a encenação de um espetáculo. Dessa forma, o dramaturg é uma pessoa que prepara</p><p>as peças para a sua encenação, ao passo que o dramatiker é aquele que escreve a</p><p>peça. O alemão distingue os dois termos, diferentemente do francês. Hoje, a noção</p><p>de dramaturgo, além de incorporar aquele que escreve a peça, pode servir também</p><p>àquele que prepara o texto para a encenação, normalmente em conjunto com o diretor,</p><p>e o aconselha literariamente. Há, no português, ainda duas distinções possíveis: a de</p><p>dramaturgo e a de dramaturgista, que seria a pessoa que acompanha e registra os</p><p>ensaios, transformando-os em texto escrito registrado.</p><p>Além dessas duas figuras, temos uma infinidade de possíveis funções a</p><p>serem preenchidas: atrizes e atores, técnicos de som e luz, operadores de som</p><p>e luz, designers ou criadores de luz, compositores da trilha, músicos, produtor,</p><p>assessor de vendas, bilheteiro, figurinistas, cenógrafos, assistentes de dire-</p><p>ção, maquiadores, operadores e designers de vídeo, coreógrafos, tradutores,</p><p>dramaturgistas, assistentes de palco, entre outros. Assim como um espetáculo</p><p>O teatro e a literatura dramática ao longo da história12</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 12 22/02/2019 15:02:47</p><p>pode necessitar de todas essas funções ocupadas, você também pode fazer</p><p>um espetáculo solo, no qual uma atriz ou ator está sozinho no palco (também</p><p>chamado de monólogo).</p><p>As configurações do fazer teatral variam muito, conforme o meio em que</p><p>ele está inserido. No Brasil, há poucas grandes companhias que conseguem</p><p>sobreviver financeiramente neste modelo acima citado, portanto, a maior</p><p>parte da produção teatral se dá de forma mais modesta. A máxima de que a</p><p>necessidade ensina a ser criativo é uma realidade.</p><p>Contudo, estas duas figuras, de diretor e dramaturgo, apesar de não</p><p>serem pré-requisitos para a existência do teatro, são figuras persistentes</p><p>na história dessa arte. Na Grécia Antiga, como você já viu, Téspis foi o</p><p>primeiro ator, criando a figura do hypokrites, ou “respondedor”. O primeiro</p><p>tragediógrafo do qual se tem registro foi Ésquilo, porém se sabe que ele</p><p>não ganhou seu primeiro festival de teatro em Atenas. Pelo contrário, ele</p><p>participou de vários espetáculos até ser premiado. Na época, os concursos</p><p>eram responsabilidade do arconte, que, depois de selecionar suas peças</p><p>favoritas, indicava a cada poeta um corega, um patrocinador que arcava</p><p>com todos os custos da produção. Era uma grande honra ser um corega,</p><p>e aquele que fosse premiado recebia uma boa quantia de dinheiro e uma</p><p>coroa de louros. No entanto, inicialmente, o próprio tragediógrafo era seu</p><p>corega, diretor e ator principal.</p><p>Este modelo de dupla função existe até hoje; não é incomum que os próprios</p><p>dramaturgos encenem seus espetáculos, de forma que consigam passar na obra</p><p>exatamente o que esperavam com o texto.</p><p>No período que se estende do Renascimento até o século XIX, considera-se</p><p>que o principal elemento do teatro era o texto dramático e que ele importava</p><p>mais que qualquer outro elemento na cena. Os atores e as atrizes precisavam</p><p>declamar os textos com grande talento, e o dramaturgo normalmente os dirigia</p><p>para que isso funcionasse. Nesta época, o teatro, apesar de ser uma obra de</p><p>encenação, ainda dava muita importância ao seu caráter literário.</p><p>Durante o século XIX, Constantin Stanislavski inaugura a concepção</p><p>moderna de diretor. Ele não escrevia textos dramáticos, mas produzia textos</p><p>teóricos sobre a arte do ator e como encenar um espetáculo. Stanislavski</p><p>trabalhou muito próximo do autor russo Anton Chekhov, autor de A Gaivota.</p><p>O trabalho deles consistia em um grande estudo prévio à encenação, o que</p><p>hoje é chamado de trabalho de mesa. Antes mesmo de pedir aos atores que</p><p>improvisem ou criem sobre o texto, o diretor e o dramaturgo se reúnem para</p><p>conversar sobre o texto dramático, entendendo seu contexto, subtexto e demais</p><p>itens necessários à concepção estética do espetáculo.</p><p>13O teatro e a literatura dramática ao longo da história</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 13 22/02/2019 15:02:47</p><p>A concepção geral do espetáculo costuma ficar a cargo do diretor, que tem</p><p>o controle de como os processos serão conduzidos. Há várias maneiras de se</p><p>conduzir um processo de produção teatral. Um deles baseia-se nesta concepção</p><p>stanislavskiana. Contudo, cada diretor tem preferências formais e estéticas</p><p>específicas, que influenciam diretamente no resultado final.</p><p>Na virada do século XIX, vários diretores que não eram dramaturgos, mas</p><p>sim críticos e teóricos, surgiram. Entre eles estão o russo Vsevolod Meyerhold</p><p>(1874-1940), que desenvolveu um método de atuação chamado de biomecâ-</p><p>nica; o alemão Erwin Piscator (1893-1966), que usava de todos os meios para</p><p>fazer um teatro político que engajasse as massas; o simbolista inglês Edward</p><p>Gordon Craig (1872-1966), que criou a noção do ator como supermarionete;</p><p>e o não bem-sucedido diretor, mas importantíssimo teórico francês, Antonin</p><p>Artaud (1896-1948), que desenvolveu a teoria do teatro da crueldade. Todos</p><p>eles inauguraram uma época de diretores que se tornaram pensadores sobre</p><p>o fazer teatral, o que antes estava era trabalho dos críticos.</p><p>Outro fato que você precisa conhecer é que a presença feminina na</p><p>direção e dramaturgia é recente. As mulheres sempre escreveram, sim, até</p><p>mesmo</p><p>durante a idade média: a freira da ordem das Canonesas, chamada</p><p>Hrosvitha (935-973), conhecida em língua portuguesa como Rosvita de</p><p>Gandersheim, escrevia teatro dentro de um mosteiro alemão. No entanto,</p><p>durante muito tempo, as mulheres foram proibidas de aprender a ler e escrever,</p><p>principalmente aquelas que não pertenciam a uma classe alta na sociedade</p><p>de sua época. Além disso, elas também foram impedidas de publicar e ter</p><p>uma profissão pública. Até a primeira onda feminista e a luta pelo sufrágio</p><p>universal, a mulher era relegada ou à domesticidade ou a uma vida de “perdi-</p><p>ção”. Apesar de mulheres atuarem no teatro “oficial” desde o Renascimento,</p><p>o papel de gestor e criador de espetáculos foi predominantemente masculino</p><p>até a metade do século passado.</p><p>A noção de diretor-crítico se estendeu por todo o século XX e permanece</p><p>no século XXI. As formas de fazer teatro e as configurações da equipe mudam</p><p>conforme a produção e as inclinações estéticas dos envolvidos. As funções,</p><p>após a Segunda Guerra, com o advento da performance, dos happenings e</p><p>de novas formas de fazer dramaturgia, tornaram-se cada vez mais flexíveis</p><p>e abrangentes. De qualquer forma, o teatro sempre será um fazer coletivo,</p><p>mesmo que o espetáculo seja composto por uma pessoa encenando e diri-</p><p>gindo a si mesma: não há teatro sem o espectador. Logo, mesmo que todas</p><p>O teatro e a literatura dramática ao longo da história14</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 14 22/02/2019 15:02:47</p><p>as configurações teatrais sejam esgotadas, o palco, a rua ou onde quer que</p><p>seja que o teatro seja feito, precisa de alguém que o veja, e, dessa forma, já é</p><p>essencialmente coletivo.</p><p>A performance é um conceito que viaja através das disciplinas. Ela surge em uma</p><p>mistura de artes visuais e arte teatral, na década de 1960, colocando o teatro fora das</p><p>margens do edifício teatral, muito como era o antigo teatro popular, mas auxiliada por</p><p>tecnologias e pela noção de arte conceitual. Muitas vezes, o objetivo da performance</p><p>é chocar o espectador, para que ele atente a alguma situação crítica. A performance</p><p>costuma ter um caráter muito político e simbólico, similar aos happenings, que foram</p><p>cunhados no fim da década de 1950 pelo norte-americano Allan Kaprow.</p><p>ARISTÓTELES. Poética. 7. ed. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 1986.</p><p>BERTHOLD, M. História mundial do teatro. São Paulo: Perspectiva, 2004</p><p>PAVIS, P. Dicionário de teatro. São Paulo: Perspectiva, 2008.</p><p>PLATÃO. A república. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1965. v. 2.</p><p>Leituras recomendadas</p><p>ARTAUD, A. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.</p><p>CARLSON, M. Teorias do teatro: estudo histórico-crítico, dos gregos à atualidade. São</p><p>Paulo: UNESP, 1997.</p><p>REIS, M. D. Democracia grega: a antiga Atenas (séc. V a. c.). Sapere Aude, Belo Horizonte,</p><p>v. 9, n. 17, p. 45-66, jan./jun. 2018.</p><p>RYNGAERT, J-P. Introdução à análise do teatro. São Paulo: Martins Fontes, 1996.</p><p>SARRAZAC, J-P. (org.). Léxico do drama moderno e contemporâneo. São Paulo: Cosac</p><p>Naify, 2012.</p><p>SZONDI, P. Teoria do drama moderno. São Paulo: Cosac Naify, 2011.</p><p>15O teatro e a literatura dramática ao longo da história</p><p>C01_O_teatro_lit_dramatica.indd 15 22/02/2019 15:02:47</p><p>Página em branco</p><p>Página em branco</p><p>Página em branco</p>