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Prof a Dra Maria Cristina Moreira de Oliveira 1º Ed. / Julho / 2010 Impressão em São Paulo - SP Editora Catalogação elaborada por Glaucy dos Santos Silva - CRB8/6353 O48t Oliveira, Maria Cristina Moreira de. Teatro para arte e educação / Maria Cristina Moreira de Oliveira. – São Paulo : Know How, 2010. 155p. : 21 cm. : il. Inclui Bibliografia ISBN: 978-85-63092-68-7 1. Teatro. 2. Arte. 3. Educação. I. Título. CDD – 371.3 Teatro para Arte e Educação Coordenação Geral Nelson Boni Coordenação de Projetos Leandro Lousada Professora Responsável Maria Cristina Moreira de Oliveira Coordenadora Pedagógica de Cursos EaD Profª. Me. Maria Rita Trombini Garcia Projeto Gráfico e Diagramação Patrícia Lé Anita Falchi Capa Wagner Boni Revisão Ortográfica Nádia Fátima de Oliveira Carlos Beltrão 1º Edição: Julho de 2013 Impressão em São Paulo/SP Copyright © EaD Know How 2013 Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição. Apresentação Parabéns! Você está recebendo o livro-texto da disciplina de Teatro para Arte e Educação, construído especialmente para este curso, baseado no seu perfil e nas necessidades da sua formação. A finalidade deste livro é disponibilizar aos alunos da EAD conceitos e exercícios referentes aos prin- cipais temas relacionados ao Teatro para Arte e Educação. Estamos constantemente atualizando e melhoran- do este material, e você pode nos auxiliar, encaminhando sugestões e apontando melhorias, via monitor, tutor ou professor. Desde já agradecemos a sua ajuda. Lembre-se de que a sua passagem por esta disciplina será também acompanhada pelo Sistema de Ensino EaD Know How, seja por correio postal, fax, telefone, e-mail ou Ambiente Virtual de Aprendizagem. Entre sempre em contato conosco quando surgir alguma dúvida ou dificuldade. Participe dos bate-papos (chats) marcados e envie suas dúvidas pelo Tira-Dúvidas. Toda equipe está à disposição para atendê-lo (a). Seu desenvolvimento intelectual e profissional é o nosso maior objetivo. Acredite no seu sucesso e tenha bons momentos de estudo! Equipe EaD Know How Roman Zaslonov é um dos mais célebres artistas do nosso tempo. Suas pinturas são impressionantes - visual, intelectual e emocionalmente cativantes. São preenchidas com a imaginação mais fantástica e sagacidade. Seu trabalho tem sido descrito como surrealista, fantástico, neo-romântico e teatral, mas desafia a categorização. Zaslonov vive em um mundo que é inteiramente seu. As imagens contidas nesse livro foram feitas por ele, um artista que soube representar o teatro na pintura, de uma forma magnífica. Sumário Unidade 1 Os Componentes das Artes Cênicas Unidade 2 O Teatro do Cultual ao Cultural Unidade 3 A Commedia Dell’Arte e o Teatro Popular Unidade 4 Da Tradição ao Teatro Moderno Experimental Unidade 5 O Teatro de Militância na Rota da Educação: Tendências Contemporâneas Unidade 6 O Teatro do GUTAC e Experiências Pedagógicas com o Teatro de Animação 09 35 49 65 87 105 Os Componentes das Artes Cênicas 11 Caro (a) aluno (a) Nesta unidade discorreremos sobre o teatro, a dança, a ópera e o circo, para que você adquira um co- nhecimento básico e uma noção sobre o significado de cada componente no conjunto das artes cênicas. Bom estudo! Objetivos da Unidade Ao final desta unidade você será capaz de: Identificar cada componente das artes cênicas e refletir sobre o papel de cada um neste procedimento artístico. Conceituar elementos que compõem as artes cênicas. Relacionar os elementos que compõem as artes cênicas. Comparar os elementos que compõem as artes cênicas como forma de comunicação. Conteúdos da Unidade 1 1. O Teatro. 2. A Dança. 3. A Ópera. 4. O Circo. As artes cênicas constituem-se em uma modali- dade artística que se manifesta sob forma de espetáculo, em que a expressão do intérprete integra-se à dinâmica das artes plásticas e da música, num espaço definido pela 12 presença do artista e do público, bem como pelo local de apresentação. Entre as formas de espetáculo mais divul- gadas temos o teatro, a dança, a ópera e o circo. 1. O Teatro 1 Palácio Garnier-Ópera nacional de Paris Fonte: www.google.com.br/ pt.wikipedia.org.wiki/opera A ideia que se costuma ter de teatro é sugerida pelas situações das mais concretas até á mais abstratas. Ortega Y Gasset (1999, p. 28), admitindo que o ser de uma coisa está sempre dentro da coisa concreta e singu- lar, busca a ideia de teatro a partir da construção arquite- tônica do Teatro Dona Maria1, e a sua verdade ali oculta, latente. Alega que a missão da arquitetura é construir um “dentro”, frente ao “fora” do grande espaço planetário. 1 13 Ao demarcar o espaço, dá-se a este uma forma espacial interior que informa, organiza os materiais do edifício, numa finalidade. Daí pergunta-se, em cada for- ma interior, qual é em cada caso, a sua finalidade. Ele observa o “dentro” e percebe o espaço teatral dividido em sala e cena, que implicará público e atores. Um re- lacionado à passividade, ver, ouvir, e outra à ação, mos- trar-se, fazer-se, ouvir. Na língua grega utilizam-se de uma grafia que significa miradouro para definir teatro.2 2 Teatro grego Epidauro, hoje. Fonte: www.google.com.br/ pt.wikipedia.org.wiki/teatro Uma definição para teatro como gênero, mais que literário, significando o visionário, o espetacular: “Teatro é por essência presença e potência de visão” (ibid., p. 32). O pensador adverte para que entenda- mos o teatro como uma realização conjunta: as obras 2 14 poéticas, os atores que as representaram, o palco em que foram executadas e o público que as presenciou. A inseparabilidade dos aspectos que compõe a realização teatral revela um gênero literário que não se completa no isolamento de uma leitura, tal como a que se faz nos romances e nos poemas. Temos que sair de um espa- ço residencial para um espaço coletivo para participar dessa realização. Sobre o ato de sair de casa, Ortega y Gasset vai construir a figura conotativa, a metáfora do teatro. Ao sair de nós, de nossa casa, para ir vê-lo, estamos saindo de nossa vida, da prisão na realidade circunstancial, de tudo que nos é imposto, da realidade, da obrigação de ter que fazer algo sempre, sem poder evadir-se dessa responsabilidade. Essa realidade torna pesada a vida e necessário o descanso do viver. Seria a necessidade de colocar-se fora desse mundo para um mundo irreal. Daí o homem in- venta o jogo, sua mais pura invenção para “dis-trair-se”, para colocar-se em contato, voltar-se para, ou verter-se em uma ultravida. A volta ou versão do nosso ser para o ultravital ou irreal, seria a diversão: “a distração, a diver- são é algo consubstancial à vida humana, não é um aci- dente, não é algo de que se possa prescindir” (ibid., p. 51). A diversão seria uma das grandes dimensões da cultura, e o jogo, entre suas formas hierarquizadas, te- ria nas belas artes a forma mais perfeita de evasão do mundo. O teatro estaria no cimo desses métodos de evasão. Ali o homem - ator se transfigura em Hamlet, e o homem - espectador se metamorfoseia em convi- vente com Hamlet. Ambos farsantes. Saem do seu ser habitual para o ser do ultramundo, o imaginário. Teixeira Coelho afirma que o imaginário é a re- 15 presentação que o individuo ou seu grupo faz de si mesmo e de suas relações de existência com o mundo: “simplesmente por existir, essa representação é tão real quanto o corpo físico de quem a gerou. É ela que orga- niza a vida desse individuo ou grupo, seus valores, seus projetos, sua produção (COELHO, 1991, p. 111). O crítico inglês, Eric Bentley (1969, p. 60), ques- tionando sobre a natureza do teatro, lança a questão sobre o que condições mínimas em que ele pode se co- locar, e também sobre “o máximo” que possa nos ofe- recer. Para desenvolver este pensamento, exclui a dança, bem como a pantomima, situandoo teatro dramático como a principal arte teatral. Falando em “o mínimo do teatro”, ele se dirige às origens primitivas3. No seu entendimento, as origens4 tanto da tragédia como da comédia, relacionam-se com “o máximo” do teatro. Vê o ponto alto do teatro nas tragédias com seus heróis trágicos e a necessidade do ho- mem tornar-se também um deus. Residiria o impulso do teatro, não só nas “canções caprinas” e nas “arenas para danças”, mas fundamentalmente na dramática convicção da religião de Dioníso: o fiel pode, não apenas adorar os deuses, mas também tornar-se o seu próprio deus. 3 Máscaras do antigo teatro grego. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980 3 16 4 Teatro grego Epidaurus. google.com.br/pt.wikipedia.org/teatro 5 Ésquilo. google.com.br/pt.wikipedia.org/teatro Na visão do estudioso, as comédias também contém esse máximo do teatro como derivação direta da celebração da fertilidade onde estaria presente uma profunda e altruísta aceitação da vida e da sexualidade como o centro da vida. Ainda que relacione “o máxi- mo” ao extático no teatro antigo, Bentley vai coroar a transformação do teatro pelo intelecto, e coloca Ham- let, de Shakespeare, como o primeiro protagonista do teatro mundial que se possa definir como intelectual. Situa O misantropo, comédia de Moliére, na mesma po- sição, aponta Os Pássaros, do comediógrafo Aristófanes e Oréstia, do autor trágico Ésquilo5, ambos da Grécia antiga, como as mais importantes obras teatrais e tam- 4 5 17 bém como lazer ou “o abastecimento do espírito”, as- sim consideradas pelo governante Péricles. Com estas considerações, o crítico confere à re- alização de todo e qualquer grande teatro, a existência da combinação dos aspectos da natureza humana – o espírito e o físico, o intelectual e o emocional - “por mais alto que se ergam os ramos do teatro, penetran- do nas nuvens do espírito, a árvore ainda tem as suas raízes primitivas” (BENTLEY, 1969, p. 62). Observa ainda que alguns consideram o prazer como a finalida- de do teatro e da arte em geral, e que outros preferem falar em conhecimento, e então menciona um texto de Aristóteles6 para reconhecer diferenças específicas en- tre os prazeres. Nessa investigação, o crítico deixa uma sugestão para o teatro: a busca da humanidade perdi- da, com as duas armas que vem sendo usadas desde as origens: “a audácia de Dioníso e a mão controladora de Apolo” (ibid., p. 65). O fenômeno teatral reúne pessoas e possui os dois aspectos que se completam, os quais justificamos através da cultura pagã grega, o apolíneo (oriundo do deus Apolo) e o dionisíaco (oriundo do deus Dioníso). O primeiro impõe o lado da razão humana, o segundo, a emoção. Toda cerimônia teatral deve conter os ingre- dientes apolíneos e dionisíacos. Muitas vezes ressalta- se um ou outro, conforme necessidades e objetivos. Contudo, o deus Dioníso é aquele mais reverenciado desde remotas origens teatrais do mundo ocidental. Costuma-se relacionar estas origens ao ditirambo, festa da colheita que homenageava Dioníso, um dos motivos que fazem os estudiosos situarem o teatro do cultual ao cultural (COUTY; REY, 1980, p. 10). 18 6 Há o prazer inócuo, proporcionado por uma recreação ou um passatem- po; mas um passatempo é um fim em si, ele é o repouso de que o homem ocupado precisa antes de um novo esforço, e tem utilidade como um meio para o trabalho futuro; não existe no passatempo, o elemento desse bem- estar e felicidade que representa o objetivo supremo da vida... mas a arte, no seu conceito mais elevado, é uma daquelas atividades sérias da mente que constituem o bem-estar definitivo do homem. Seu objetivo é o prazer, mas um prazer próprio daquele estado de gozo racional no qual o repouso perfeito se associa à perfeita energia (ibid., ibidem). 2. A Dança A dança7 é uma expressão cênica ligada essencial- mente ao movimento do corpo e à música. Enquanto manifestação coletiva, bailarino e público tornam-se um só elemento, como no carnaval de rua, porém, quando se investe de um caráter de exibição, há o bailarino que representa o ato artístico para um público que o assis- 6 19 7 Dança com atores da commedia dell’arte. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980. 8 Dança cigana no Teatro Gil Vicente do Inecon, 1998. Fonte: Arquivo Inecon te8. Sua origem e história tem relação estreita com o teatro e se apresenta sob as mais diversas formas no tempo e no espaço, de acordo com a cultura em que se manifesta. Destacaremos duas formas desta expressão que muito interessam ao educador: 7 8 20 O Bailado Popular ou Dança Dramática Trata-se de um encadeamento de danças, com enredo e muitas vezes com representação dramática. Uma das manifestações mais divulgadas no país é o Bumba-meu-boi, forma de comunicação, na opinião de Luyten (1988, p. 35), além de expressiva, é também um dos mais conhecidos e importantes meios de diver- timento popular do país. Bailado, folguedo ou dança dramática, esta ma- nifestação do imaginário popular mistura três tipos de personagens: animais, humanos e entes fantásticos. Segundo Luyten (1988, p. 36), entre os animais sem- pre aparecem o cavalo-marinho, a burrinha, o bode, o cachorro, o sapo e o boi, figura principal do aconte- cimento. Os humanos, habitualmente, são o Capitão e seus ajudantes, Valentão e Catirina, o padre, o sa- cristão, o doutor, o delegado e o fazendeiro, dono do boi. Entre os entes fantásticos estão o Morto-Vivo, o Diabo, o Caipora, o Lobisomem e Mané-Pequenino. O enredo do Bumba-meu-boi apresenta alguém que deseja a morte do boi, geralmente para satisfazer o desejo de uma mulher grávida. Após muitas peripécias o boi é morto. Em algumas regiões ele é ressuscitado, em outras faz-se a partilha. Na repartição dos peda- ços do boi, o destino de cada um é que vai mostrar a importância relativa das pessoas envolvidas. Nas can- torias da dança dramática, costumam aparecer comen- tários críticos sobre questões ou fatos ocorridos, de importância para a comunidade. 21 A Dança-Teatro A dança-teatro ou teatro-dança é uma manifesta- ção erudita contemporânea. Rudolph Van Laban (Apud GREINER, 2006: 107) inicia a utilização deste termo a partir de experiências na Alemanha dos anos 1920 e 1930, uma tentativa de responder às transformações da vida mo- derna com um trabalho de corporeidade inédita, proveni- ência das conexões entre dança, palavra e ações cotidianas. Kurt Jooss prossegue a investigacão sobre a corporeidade, relacionando os princípios de Laban à sistematização de movimento proposta pelo balé clássico, aliada a uma pes- quisa de ação dramática em grupo, com temática sociopo- lítica. Pina Bausch, discípula de Jooss, entre as décadas de 1960 e 1970 destaca-se com produções que no palco ex- ploram a existência em todos os sentidos e através de uma linguagem metafórica, elabora princípios relacionados à tentativa de transformar sentimentos em conhecimento, rompendo a dualidade entre razão e emoção. Sem fórmulas ou modelos pré-estabelecidos, a síntese do teatro-dança emerge no corpo do intérprete- criador em vários países nos anos 1980. O coreógrafo Maurice Béjart destaca-se neste contexto, bem como as pesquisas de Alwin Nikolais que investiga a dramaturgia do corpo a partir do estudo das imagens. No Brasil a dança – teatro ganha expressão no de- cênio de 1970 através de Marilena Ansaldi, entre outros. A artista relaciona o movimento da dança com o teatro e denomina seu trabalho de “teatro total”. A produção Es- cuta, Zé! (1977) abordava teorias do biopsicólogo Wilhem Reich. Nos anos 1990, a produção Bonita Lampião (1994), parceria de investigações de Sandro Borelli e Renata Mello 22 com o diretor teatral José Rubens Siqueira, caracterizou bem a união do teatro e a dança, entre outras experiências. 3. A Ópera Ópera9 é um espetáculo teatral interpretado por cantores. Pode ser trágico, comico ou dramático. O tex- to, conhecido como libreto,letra da ópera, é cantado em lugar de ser falado. A música é executada por um grupo, às vezes até mesmo uma orquestra sinfônica completa. A classificacão dos cantores e seus personagens é feita de acordo com seus timbres vocais: os cantores mascu- linos dividem-se em baixo, baixo-barítono (ou baixo- cantor), barítono, tenor e contratenor. As cantoras fe- mininas, em contralto, mezzo-soprano e soprano. Cada 9 Falstaff, encenacão de Fussli. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980 9 23 uma destas classificações tem subdivisões. Um barítono pode ser um barítono lírico, um barítono de caráter ou um barítono bufo, os quais associam a voz do cantor com os personagens mais apropriados para a qualidade e o timbre de sua voz. No Brasil, século XVIII, as casas teatrais surgem sob o nome de Casas de Ópera. As primeiras foram cons- truídas em Salvador, o Teatro da Câmara Municipal (1729), A Casa da Ópera da Praia (1760), auditórios, onde além de óperas propriamente ditas, de Caldara, Cimarosa ou Scarlatti, eram apresentadas peças teatrais faladas, poden- do ser acompanhadas de canções, como as de Antonio José da Silva, “o Judeu”. Considerado o primeiro autor teatral brasileiro (COELHO, 2006), nascido no Rio de janeiro em 1705, fez grande sucesso no Teatro do Bairro Alto de Lisboa, mas seus espetáculos, geralmente satíri- cos, além de sua origem, levaram-no à tragédia pessoal. Perseguido pela Inquisicão, acabou garroteado e queima- do. Ele criava comédias de costumes, de temas frequen- temente mitologicos, recheadas de melodias extraídas de peças populares com presença de modinhas, lundus, fan- dangos e minuetos. Técnica semelhante à da ballad opera inglesa, segundo Luiz Heitor (apud COELHO, 2006, p. 214). Entre suas obras mais encenadas no Rio de janei- ro e Salvador estão A vida do grande Dom Quixote de La Mancha e do gordo Sancho Pança (1733), A esopaida (1734), Os encantos de Medeia (1735), O anfitrião (1736), Guerras do alecrim e do manjerona (1737). A partir do estabelecimento da família real por- tuguesa no Brasil, ocorreu a vinda de companhias de óperas italianas e francesas. As comédias italianas de Paisiello e Rossini apresentadas no Teatro Pedro de Al- 24 10 Artur de Azevedo, autor brasileiro produziu 5 óperas-cômicas, sendo 4 delas adaptação e uma original, A princesa dos cajueiros (1880), com música de Francisco de Sá Noronha, encenada no Rio de Janeiro, com significa- tivo sucesso. Rubens José Souza Brito (2006, p. 222) afirma que a ópera – cômica, do mesmo modo que a opereta, derivação do estilo bufo, da mesma procedência francesa, perde muito das peculiaridades estruturais com o advento da revista-de-ano e a carnavalesca, teatro que avulta no final do século XIX e início do século XX. Musicado com muito humor e crítica, passava em revista acontecimentos do ano que findava, o gênero veio das barracas das feiras de Saint- Laurente e Saint-Germain, de Paris do século XVIII. 11 O épico caracteriza-se pela presença de uma ação narrada no tempo passado ao público. O lírico, que na ciência da literatura, alicerça-se so- bre motivos de situações significativas e se desenvolve, não exatamente em ação como no genero dramático, mas como uma vivência interior da alma humana (KAYSER, 1985, p. 59), no teatro é referido como ópera (GUINSBURG et al., 2006). cântara, segundo Coelho, tornaram-se populares e es- timularam talentos locais como o baixo João de Reis, o regente Pedro Teixeira de Seixas, e foi bem recebida por todas as camadas de público, ocasionando o apa- recimento de melodias de cunho operístico na música sacra do século XIX. Os espetáculos franceses oriundos dos teatros ao ar livre (1715), opéra-comique en vaudevilles, eventos cenicos baseados em temas musicais preexistentes ou em diá- logos falados, chegam ao Brasil no século XIX conhe- cidos como ópera-cômica10, indicando o procedimento criativo de se misturar elementos cantados e dialogados. É semelhante à ópera, a qual, dentro da linha do teatro ocidental, segue alguns procedimentos do coro da tragé- dia e a comédia gregas, abrigando os elementos épicos e/ ou líricos11, mas distingue-se por conta da introducão do elemento cômico. Ainda temos a chamada ópera- 25 12 Ao tipo de espetáculo em que se distinguem encenadores como o bra- sileiro Gerald Thomas – uma associação de teatralidade visual e movi- mentação coreográfica à musicalidade vocal sem canto, com trilha sonora ritmando a execucão – atribui-se a denominacão de ópera seca, experi- mentação pós-moderna que já contou com significativa interpretação das atrizes Fernanda Montenegro, Fernanda Torres em The flash and the crash days (1991) e Bete Coelho em Carmem com filtro 2 (1988). 13 Pintura de Georges Seurat Artistas de circo-www.google.com.br/ pt.wikipedia.org.wiki/circo seca12 que se inscreve na invenção do pós-moderno. 4. O Circo13 O termo, do latim circu, remete ao grande anfi- teatro onde os antigos se reuniam para jogos públicos e outras apreciações. Em nossos dias tem o sentido de espaço físico que mantém a concepção de circularidade para se apresentar algo espetacular: acrobacia, equitação, equilibrismo, contorcionismo etc. Importantes compa- nhias circenses estrangeiras passam pelo Brasil exibin- do virtuosidade e luxo. Quanto à exibição de animais, outrora muito explorada, está cada vez mais restrita, devido à oposição dos ambien- talistas. A presença do palhaço, o clawn, é uma das tradições mantidas. Uma figura artística que une o teatro ao circo e independente do status 13 26 O Circo-Teatro Até a década de 1960 era mais comum a presença das lonas pobres de circos ou de acampamentos de ci- ganos nos campos abertos dos nossos vilarejos. Circos como o do Nhô Pai, o Brasília, entre outros, foram mar- cantes para o povo de periferia social. Os dramas ence- nados eram, muitas vezes, adaptação de romances ou espécie de versão das novelas de rádio da época ou ex- trações de folhetins veiculados pela literatura de cordel. circense, constitui-se na grande alegria do show14. 14 Grande Parada, de Léger. Mestres da Pintura. São Paulo: Abril, 1980. 14 27 Nestas misturavam-se Camões, Bocage, Vitor Hugo, Alexandre Dumas etc., mas também apareciam nomes de autores brasileiros. O repertório não se diferenciava muito dos demais circos que mambembavam pelo país: “O filho bastardo”, “ Maconha, a erva do diabo”, “Ma- mãe Dolores”, “O céu uniu dois corações”, de Antenor Pimenta, “Escrava Isaura”, “A marca da ferradura” de Tonico (parceiro do Tinoco), “A Cabana do Pai Tomás” etc. (MOURA, 2006, p. 82). Quando não eram ciganos que cantavam e dan- çavam ao pé da fogueira, com ciganas que liam nossas mãos, era a chegada de estrelas trapezistas, malabaristas, contorcionistas, palhaços e principalmente, o ator de te- atro de repertório, “um tipo de gente diferente” que che- gava e atiçava o imaginário do povo, preenchendo suas noites pacatas de parca iluminação e de pouca diversão das cidades interioranas. Fascinação que faz lembrar algo como o clima que as visitas dos ciganos em Macondo, cidade da ficção de Gabriel Garcia Marques em “Cem anos de solidão”, causavam naquela população. A estrutura social do circo consistia numa tradi- ção que abrigava duas classes distintas: a família dos em- pregados e a família dos artistas proprietários. O modo como se estabeleciam na cidade refletia as categorias sociais. Os proprietários, habitualmente se hospedavam em hotéis e os empregados, que ao mesmo tempo eram artistas e trabalhadores braçais da empresa, ou habita- vam as precárias acomodações das próprias casas-con- duções, ou alugavam temporariamente pequenas casas populares, ou apenas dormitórios, para permanecerem durante alguns meses no local. O importante, para o frisson da população de periferia social é que chegavam 28 magnificamente vestidos e ornamentados com inten- sos brilhos, esbanjando virtuoses nas suas conduções, (quase carroças medievaisdo século XV) prenunciando bons momentos de vida ultra-real. Sob o olhar ansioso dos curiosos, levantavam rapidamente o mágico acam- pamento, fincando no chão o mastro que sustentava a lona, abrigo de sonhos e fantasias. Começava a função. Tratava-se de um generoso espetáculo, que nos dias principais (de sexta a domin- go) cumpriam três partes: a do palhaço, do malabaris- mo, contorcionismo, equilibrismo e outros, mas sempre culminando com o trapézio sem rede de proteção. A segunda parte era reservada para apresentação de du- plas sertanejas, momento em que os palhaços se mistu- ravam na função, dando um toque de alegria às músicas de lamentações sentimentais. Esta espécie de entremez medieval circense, provocava a interação com a pla- teia, ocasião em que cantores e tocadores locais tinham oportunidade de se expressar com suas modinhas. Por último, o mais esperado momento. O drama ou a co- média teatral. Aquela convivência durava meses. Tempo suficiente para interpretarem uma série de dramas que ganhavam fama, inspirando crianças e jovens sonhado- res. Mais do que as técnicas providas de seus ingênuos “clichês”, aquela geração de espectadores reaproveitaria a estética do sentimento e da pobreza para o teatro “po- pular-erudito” do presente, ou seja, um teatro que aduz elementos puros da cultura popular e os trabalha na encenação alicerçada em cuidadosa pesquisa teatral. A tradicão dos elementos cênicos do circo-teatro tem sido bem aproveitada na construção da linguagem de grupos de teatro que se dedicam à pesquisa e à militância do 29 teatro popular. Estes grupos mostram a indestrutível relação que deve existir entre o circo e o teatro, como registra o Teatro Popular União e Olho Vivo (TUOV), de São Paulo. Para a realização de um espetáculo, O Evangelho segundo Zebedeu, apoiaram-se na pesquisa sobre o circo. Visitaram dezenas de circos no Estado de São Paulo e estabeleceram vivência com artistas circences, suas aspirações, seus conflitos e dificuldades15. O espetáculo “O Evangelho segundo Zebedeu” misturou este universo ao drama histórico real vivido pelo povo na Guerra de Canudos, na Bahia, sob a lide- rança messiânica do sebastianista Antônio Conselhei- ro. É uma das mais importantes histórias de rebelião camponesa do país. A obra, chamada pelo próprio autor, de um “ Evangelho Sertanejo”, traz um enredo 15 O circo que se buscou foi o circo brasileiro, não “o circo” superdesen- volvido, bem alimentado, luxuoso, holyoodiano. Convivemos com o circo cheirando a arroz com feijão. Com o circo autêntico que mambemba pelos bairros pobres, pelas vilas do interior. Cigano, itinerante, das lonas rasga- das, das famílias de artistas, puro, nosso, da pipoca e do amendoim, de arquibancada bamboleante, do drama popular, do “Mártir do calvário”. E sentimos toda aquela simplicidade, toda aquela pureza – uma apelação para o sentimental ingênua e sincera – uma forma de comunicação autêntica, através do gesto, da palavra, quase sempre em rima, rima pobre talvez...e aprendemos a admirar essa gente. A varar noites com o Bibi, na madru- gada fria de Cubatão, virando conhaques e sabendo que os bons circos brasileiros foram o “Sarrasan”, o “Oito Irmãos Mello”, o “Circo – Teatro Zizi” e o “Pula-Pula” (...) e além do texto famoso de Eduardo Garrido, “o maior espetáculo circense de todos os tempos” que é o “Mártir do Calvá- rio” ou “Vida Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, conhecemos muitos dramas (drama é coisa séria, com morte, dor, paixão, etc.): “Riacho Fundo”; “A Morta Virgem”; “A marca da Ferradura”; “O céu uniu dois corações” (uma espécie de Romeu e Julieta caboclo) e algumas comédias (comédia é leve, irônica, cheia de siuações familiares simples e jocosas) – “ O maluco do segundo andar”, “São Miguel-são Miguelito”, “O sapo en- cantado e “O Tio do Soldado”. (VIEIRA, 1981, p.18) 30 narrado e vivido por artistas de um circo, o “Gran Cir- co Irmãos Tibério”. Numa técnica metalinguística, o autor envolve as figuras do drama central de Canudos, com as do circo, que interpretam o episódio histórico. Desvelam conflitos que colocam num mesmo patamar, tanto a realidade do líder da rebelião e de seus segui- dores, quanto a realidade dos atores descamisados de um circo: a história real ocorrida no sertão baiano, ou foi escamoteada ou esquecida; a história dos atores do circo e seus dramas cotidianos, nunca examinadas sob o ponto de vista social. Realidade do passado e ficção dentro de uma realidade presente. Este espetáculo, ins- talado num circo, no coração do Ibirapuera (SP), além de preencher o vazio cultural dos imigrantes nordes- tinos, sem perspectivas, nos parques da grande capi- tal paulista, nas tardes de domingo, foi também muito cotado pela crítica teatral e recebeu muitos prêmios. O sucesso popular fez com que fosse convidado para representar o Brasil no Festival Mundial de Teatro em Nancy, França, em 1971. 31 Síntese da Unidade Conforme vimos, a prática dos grupos teatrais con- temporâneos estreita laços entre a cultura circence e o te- atro, em tudo que possa cada um oferecer de seu gênero. Ocorre processo semelhante com a dança que se mistura ao teatro e à literatura, introduzindo a poética da palavra no movimento do corpo. A ópera, embora mantenha o seu gênero incólume, dilui-se com o tempo quando se trata da cômica, bem como surge o termo ópera – seca, na pratica teatral contemporânea e pós-moderna. Os componentes das artes cênicas ocupam, cada vez mais, um espaço de integração na concepção artística atual. Exercícios Propostos Após ter estudado sobre o conceito de teatro, dança, ópera e circo, como você faria uso do apolíneo e do dionisíaco na invenção de um pequeno espetáculo para a sala de aula, integrando estas modalidades cênicas. Deixe fluir a imaginação, em seguida organi- ze uma sequência, e divirta-se com os alunos! 32 Referências Bibliográficas BENTLEY, Eric. O teatro engajado. Tradução de Yan Michalski. Rio de Janeio: Zahar, 1969. COELHO, Lauro Machado. Ópera no Brasil. In: GUINSBURG, J. et al. (Orgs.). Dicionário do teatro brasileiro: temas, formas e conceitos. São Paulo: Pers- pectiva, 2006. COELHO,Teixeira. O imaginário da morte/organiza- dor. In: Novaes, Adauto (Org.). Rede Imaginária TV e Democracia. São Paulo: Cia de Letras, 1991. COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bor- das, 1980. GREINER, Christine. Dança-teatro. In: GUINSBURG, J. et al. (Orgs.). Dicionário do teatro brasileiro: temas, formas e conceitos. São Paulo: Perspectiva, 2006. KAYSER, Wolfgang. Análise e interpretação da obra literária. Revisao de Paulo Quintela. 7 ed. Coimbra: Arménio Amado, Editora, 1985. LUYTEN, Joseph M. Sistemas de comunicação po- pular. São Paulo: Ática, 1988. MOURA, Carlos Eugenio de. Circo-teatro. In: GUINS- BURG, J. et al. (Orgs.). Dicionário do teatro brasilei- ro: temas, formas e conceitos. São Paulo: Perspectiva, 2006. 33 Ortega y Gasset, José. A ideia do Teatro. São Paulo: Editora Perspectiva S.A, 1999 VIEIRA, Cesar. Em busca de um teatro popular. 2. ed. São Paulo: CONFENATA/COTAESP, 1981. O Teatro do Cultual ao Cultural 37 Caro (a) aluno (a) Nesta unidade discorreremos sobre o teatro, des- de a origem, apresentando-se como tradição para que você adquira uma noção dos componentes que, do cul- tual ao cultural (COUTY; REY, 1980), constituem o te- atro popular. Bom estudo! Objetivos da Unidade Ao final desta unidade você será capaz de: • Identificar elementos que compõem a tradicão teatral e refletir sobre a sua relação com a sociedade; • reconhecer elementos do teatro popular; • relacionar e comparar no tempo e no espaço a atuação do teatro popular na sociedade; • conceituar o teatro popular. Conteúdos da Unidade 2 1. O Conceito de Teatro Popular. 2. Do Cultual ao Teatro de Shakespeare. O teatro, um dos componentes das artes cênicas, caracteriza-se através dos tempos, desde as origens, como uma manifestação artística em que a corporeidadeconsti- tui-se em fundamental elemento de sua natureza. Distin- gue-se portanto, das formas mais abstratas de expressão e reúne em si componentes físicos e psíquicos do ser huma- no em processo de interação na sociedade. Vamos estudar 38 1. O Conceito De Teatro Popular O teatro categorizado como “popular”1, é um ter- mo que tem sofrido diversas apropriações e por isso tem se revestido de diversos conceitos (BRITO, 2006, p. 247), o que nos faz verificar, pelo menos, os mais evidentes. Servimo-nos da compilação de Guinsburg (2006) em alguns momentos, embora remanejando agrupa- mentos ou mesmo reexaminando tendências aponta- das, com o intuito de fazê-las úteis na construção de categorias para o estudo da linguagem teatral. nesta unidade, componentes teatrais que se constituem como elementos do teatro popular enquanto tradição e referência para a prática e a teoria contemporânea. 1 Atores do grupo GUTAC no espetáculo Balada de Amor no Sertão – 2006. Fonte Arquivo GUTAC. 1 39 Se o teatro engajado da fase populista, para atin- gir as massas, aproximou o termo “popular” da sua mais antiga acepção, expondo a antinomia “popular–erudi- to”, para opor-se às produções consumidas pela bur- guesia, bem como aos espaços teatrais por ela frequen- tados, por outro lado, as entidades patronais ligadas à organização do SESI atingiram milhares de trabalha- dores com um teatro profissional, popularizando esta arte, mas sem os mesmos propósitos. Numa outra via, entidades sindicais simultaneamente investiam no tea- tro operário, com objetivos políticos de luta de classe, a exemplo do grupo Forja, atuante em São Bernardo do Campo e em Diadema (SP). Vemos assim, no percurso histórico, ambos, patrões e operários, apropriando-se do teatro para dele tirar efeitos do termo “popular”. Uma outra atribuição deste vocábulo também cabe ao teatro dos profissionais dos circuitos tradicio- nais, particularmente os conhecidos pela mídia, os quais atingem também, ou muito mais que as entidades pa- tronais, um grande público com suas produções. “Po- pular” aqui é praticamente sinônimo de famoso, daquilo ou daquele que é muito conhecido e também simpático, agradável, sem necessariamente possuir qualquer cará- ter ideológico ou cunho crítico-social. Sem uma devida atenção às controvertidas concei- tuações que envolvem o teatro popular, seria praticamen- te impossível estabelecer parâmetros estéticos para nosso estudo, sem cairmos na superficialidade. Por este motivo, a referência do teatro popular que adotamos para nosso estudo abriga duas pontas desta variedade conceitual. Uma seria proveniente das categorias institucio- nalizadas pelo Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, 40 integrante do Teatro Arena, SP (BOAL, 1979). Sob a ideologia da luta do oprimido contra o opressor, o mi- litante arenista categorizou o teatro popular, não sem antes deixar claro o seu conceito de povo, restringin- do-o para aqueles que alugam a sua força de trabalho. Primeiramente, encaixou o teatro popular em três ca- tegorias, nas quais é o artista que protagoniza: “a do povo para o povo; a do teatro de perspectiva popular para outro destinatário que não o povo; o teatro de perspectiva anti-povo e cujo destinatário, infelizmente é o povo” (BOAL, 1979, p. 25). Em seguida, elaborou uma quarta categoria, na qual o protagonista é o povo, que fabrica e consome teatro. A antinomia teatral não seria mais entre o popular e o erudito, mas sim entre o “popular e o não-popular”. A última categoria, a qual Boal denominou “nova cate- goria” e que inclui o Teatro Jornal. Através da leitura de jornal, os atores desmontam tudo que está escamoteado ou embutido no discurso, aplicando diferentes técnicas de dramatização, para uma leitura mais profunda dos fatos. A outra ponta conceitual vem de espetáculos que aduzem elementos da cultura popular brasileira, mais propriamente os referentes à dramaturgia do paulista Carlos Alberto Soffredini. Segundo Rubens José Sou- za, estas encenações apresentam singular configuração estética, utilizando caracteres de nossa cultura popular de uma forma sofisticada na sua construção. Um trata- mento que pode provir, entre outras fontes, “da con- cepção de direção, do arranjo dramatúrgico, da técnica de interpretação, do tratamento visual, coreográfico ou musical, do diálogo com recursos da cena internacional, tradicional ou contemporânea” (BRITO, 2006, p. 249). 41 Este tratamento cênico que aduz elementos po- pulares, numa perspectiva universalizada, é defendido, para o desenvolvimento da linguagem, no discurso de Ilo Krugli, diretor do Ventoforte, para o qual a cultura po- pular não se reduz às raízes do seu quintal, mas sim diz respeito à metáfora que trabalha a universalidade do ser humano e está em todas as partes e em todos os tempos (KRUGLI, 2009). Enfim, o termo “teatro popular” em nosso estudo terá a síntese destas duas pontas conceitu- ais, postuladas como essência universal por Ilo Krugli. Acrescenta-se a predominância de algumas das atitudes técnicas de encenação2 que con- substanciam a estética do popular: a propensão a generalizar, sinte- tizar, acentuar determinados tra- ços de personagens, objetivando a criação de figuras teatrais estili- zadas, através da máscara, da ma- quiagem ou do figurino; a utiliza- ção dos acessórios de forma que, desempenhando um papel secundário, permitam ao ator mostrar sua arte de lidar com os objetos; o uso do figu- rino não decorativo, de maneira que situe o personagem com leveza e agilidade (MEYERHOLD, 1969, p. 151). Feita a nossa concepção de teatro popular, va- mos fornecer neste capítulo alguns resíduos históricos teatrais para que você também, no final, possa cons- truir a sua concepção. 2 Grupo Bread and Puppet em cena. Fonte: www.breadandpuppet.org 2 42 As origens teatrais estão fundamentalmente liga- das aos chamados cultos cerimoniais que, segundo Jac- 2. Do Cultual ao Teatro de Shakespeare Vimos que Ortega y Gasset convenciona tanto o espaço quanto o elemento humano em duas categorias para situar a ideia de teatro: o dentro e o fora, o palco e a plateia, o ator e o público. Concentra-se na reflexão sobre o teatro enquanto dramaturgia para comprender este gênero. Vimos também Eric Bentley fornecer ar- gumentos que mostram do mínimo ao máximo naquilo que esta arte possa nos oferecer, com o objetivo de le- vantar o seu significado. Percebemos que esta reflexão, não abandona a importância do teatro primitivo, en- quanto fonte espontânea religiosa e popular3, que deu origem inclusive, à tragédia e à comédia. 3 Antigo vaso grego – representação dos satyros. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980. 3 43 ques Lacarriére (apud COUTY; REY, 1980) continham elementos pré ou para-teatrais. Ritos festivos, entre eles, o culto ao deus da orgia e fecundidade, Dioníso, assim como os ritos funerários pontuaram as origens teatrais, evidenciando o homem às voltas com o problema exis- tencial vida-morte. O altar dos deuses ou referencias fu- nerárias marcavam o espaço teatral. O verbo e o gesto configuravam-se em linguagem simbólica para exprimir a relação deus/homem e natural/sobrenatural. No entanto o ato teatral se afasta gradativamente do culto. Surgem neste contexto obras imortais como Os Persas, de Ésquilo (525-456 a.C) e As Bacantes, de Eurípedes (480-406 a.C)4, que instauram o heroísmo, momento em que o ato teatral pas- sa a ser mais o cultural que o cultual, na medida em que o tirano Pisístrato (534 a.C) institui os pilares da política pedagógica ateniense, através do pro- tocolo cívico do concurso dramatúr- gico. Na historia do teatro reserva- -se também a grandeza teatral ao te- atro elisabetano e ao século de ouro do teatro espanhol. Atribui-se a este período na Espanha, o renascimento do teatro profano após uma ativida- de teatral medieval exclusivamene re- ligiosa. Destacam-se as obras Fuente Ovejuna, de Lope de Veja (1532-1635), O grandeteatro do mundo, de 4 Eurípedes. Fonte: www.google.com.br/pt.wikipedia.wiki/tragedias 4 44 5 Espaço teatral no século de ouro espanhol. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980. Calderón de La Barca (1600-1681) A Celestina (1499- 1403), de Fernando Rojas (1475-1538), encenadas nos espaços teatrais denominados “corrales”5. O teatro elisabetano6 refere-se ao início do século XVI, Inglaterra, quando os humanistas, particularmente influenciados por Sêneca (4 a.C-65 d.C), redescobrem a Poética, da Aristóteles (1559). Sêneca usava largamente os horrores do trágico e testemunharia mais a busca moral que a ideologia religiosa. Considera-se a geração seguinte como a da idade de ouro do período elisabetano: Geor- ge Peele (1558-1597), John Lyly (1554-1606), Christophe Marlowe (1564- 1593), entre outros. William Shakespeare (1564-1616) coroa o período com suas obras imortais. A adequação de linguagem poética e dramática, bem como o amplo debate do jogo humano colocado nas suas cria- ções, a verdade de cada personagem e o humor fazem do 5 45 6 Espaco teatral elisabetano. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980. seu teatro uma obra aberta que acolhe todas as interpre- tacões. Hamlet (1600-1601), Otelo (1603-1604), Macbe- th e Rei Lear (1606) são as obras teatrais mais encenadas no Brasil. Tanto o teatro elisabetano quanto o século de ouro espanhol constituem-se em fontes para pesquisa cênica dramatúrgica ligada ao popular dos modernos encenadores e do teatro contemporâneo. Mas estes pes- quisadores buscam também fontes mais antigas. 6 46 Síntese da Unidade Vimos nesta unidade que o popular e o erudito ganham peso para compor essências teatro, desde as sátiras dionisíacas até o aparecimento das tragédias e comédias clássicas gregas, ao teatro de Shakespeare. O teatro atinge um glorioso momento, também na Espa- nha, com o chamado século de ouro, estágios teatrais importantes para a história do teatro. Exercícios Propostos Organize alguns elementos básicos que compõe a dança dramática Bumba-meu-boi ou um folguedo equi- valente de sua região e introduza alguma situação que acontece no seu cotidiano de realidade local, extraindo daí algum humor ou crítica. Faça a brincadeira e de- pois reflita com os alunos, tentando identificar o que há de erudito ou popular na brincadeira, apoiando-se nos conceitos do teatro popular levantados nesta unidade. Divirta-se e tente identificar a brincadeira com um dos conceitos apresentados. 47 Referências Bibliográficas BRITO, Rubens José Souza. Popular (Teatro). In: GUINSBURG, J. et al. (Orgs.). Dicionário do teatro brasileiro: temas, formas e conceitos. São Paulo: Pers- pectiva, 2006. GUINSBURG, J. et al. (Orgs.). Dicionário do teatro brasileiro: temas, formas e conceitos. São Paulo: Pers- pectiva, 2006. BOAL, Augusto. Técnicas latino-americanas de tea- tro popular. São Paulo: Hucitec, 1979. COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bor- das, 1980. DEGAINE, André. Histoire du theatre dessiné. Saint Genouph: Nizet, 2002. KRUGLI, Ilo. Do grupo Cocuyo ao Ventoforte. São Paulo, 6 nov. 2009. MP3 (60 min). Entrevista concedida a Maria Cristina Moreira de Oliveira, na sede do Ven- toforte. MEYERHOLD, V. O teatro de Meyerhold. Tradução, apresentação e organização de Aldomar Conrado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. RAMOS, Luiz Fernando. Farsa (Teatro). In: GUINS- BURG, J. et al. (Orgs.). Dicionário do teatro brasileiro: temas, formas e conceitos. São Paulo: Perspectiva, 2006.