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<p>10 As muitas faces do poder na p. 443 do Manual do Professor (Orientações gerais), você encontra sugestões para o desenvolvimento das A Garota e suas irmãs prestes a serem levadas para um orfanato, em cena do filme Tempos modernos. na seção Recursos e questões motivadoras, p. 444 do Manual do você encontra sugestões para trabalhar esta cena com a Em cena: A garota Há uma personagem de Tempos modernos que até porque não consegue emprego. A Garota distribui as agora não foi apresentada: uma adolescente descal- bananas, e todos comem alegremente. ça, vestida pobremente, que aparece pela primeira Na segunda sequência, enquanto a garota e as ir- vez roubando bananas no cais e distribuindo-as entre pegam pedaços de madeira no cais, certamente outras crianças pobres. entretítulo explica: "A Ga- para usá-los como lenha, trabalhadores desemprega- rota uma menina do cais que se recusa a passar dos protestam em uma rua próxima. Ouvem-se tiros, a E a ação começa: descobertas pelo dono da Garota se aproxima e vê o pai morto, caído no carga de bananas, as crianças e a Garota fogem em Sem mãe nem pai, as meninas passarão, então, à res- disparada. Ela chega ofegante a uma casa pobre onde ponsabilidade do Estado. Dois homens engravatados e estão duas meninas menores, e somos informados, um policial vão à casinha das examinam papéis e sempre pelo entretítulo, de que as três são irmãs e encaminham as duas pequenas para um abrigo de me- órfäs de mãe. Dali a pouco chega o pai, deprimido nores. Enquanto isso, mais uma vez, a Garota 148 Parte II A Sociologia vai ao cinema</p><p>Apresentando Michel Foucault pensador que convidamos para assistir a essas tamento? Em que lugares os ensinamentos sobre cenas, embora não fosse um sociólogo, marcou cam- que é socialmente aceitável e não aceitável são trans- po das Ciências Sociais com reflexões sobre a relação mitidos? Por que e por quem eles são cobrados? Para entre verdade e poder. Seu nome é Michel Foucault responder a questões como essas, Foucault investigou Para entender a complicada relação entre verda- a origem e o desenvolvimento de várias instituições de e poder, Foucault realizou pesquisas sobre temas de controle social, entre elas os abrigos, como aquele variados. Um dos pontos em que mais se deteve foi a para onde as pequenas órfäs de Tempos modernos fo- questão da disciplina. Como homens e mulheres ram enviadas, e as prisões, como aquela de onde Car- aprendem a se comportar? que acontece quando litos não queria Seguiremos, portanto, com Mi- não se comportam de acordo com o previsto? Em que chel Foucault, numa visita por algumas instituições tipo de justificativas baseiam-se as regras de compor- de controle e poder. Michel Foucault (Poitiers, França, 15 de outubro de 1926 Paris, França, 26 de junho de 1984) Michel Foucault foi um filósofo, crítico e ativista político francês que desenvolveu uma teoria e um método de pesquisa próprios, caracterizados por aproximar a História da Filosofia. Seus trabalhos abordam temas diversos, como poder, conhecimento, discurso, sexualidade, loucura. Foucault foi influenciado pela Filosofia da Ciência francesa, pela Psicologia e pelo Já sua atua- ção política foi determinada, sobretudo, pela desilusão com comunismo e pelo Movimento de Maio de 1968 na França. Sua experiência pessoal com tratamento motivou-o a estudar a loucura. Interessava-se pela relação entre poder, conhecimento científico e discurso, e pelas práticas a eles associadas na da loucura e no tratamento destinado classificados como Suas ideias inspiraram tanto críticas quanto apoios fervorosos e influenciaram diversas áreas, como Arte, Michel Foucault, Sociologia, Antropologia e muitas Entre suas obras destacam-se História da loucura na Idade Clássica (1961), As palavras e as coisas (1966), Arqueologia do saber (1969), Vigiar e punir (1975), Microfísica do poder (1979) e ainda projeto inacabado História da sexualidade, composto de A vontade de saber (1976), dos prazeres (1984) e cuidado de si (1984). Curar e adestrar, desses dispositivos por toda a sociedade levaram, se- gundo ele, à consolidação de um modelo peculiar de vigiar e punir organização social: as "sociedades disciplinares" dos sécu- los XIX e Nos capítulos anteriores, vimos como as transfor- A emergência desse novo formato de arranjo mações trazidas pela Revolução Industrial e pela Revo- cial, com suas lógicas de controle e penalização, cons- lução Francesa possibilitaram surgimento de novos titui tema central de uma das obras mais conhecidas hábitos e valores, novas estruturas de pensamento e de Foucault, que tem o sugestivo título Vigiar e práticas sociais. Michel Foucault também se voltou da prisão. Nesse livro, ele nos mostra como, para esse momento de profunda transformação, em a partir dos séculos XVII e XVIII, houve que chama de que as instituições sociais do Antigo Regime cederam um "desbloqueio tecnológico da produtividade do po- lugar a sistemas de organização inéditos. Seu interesse Esse desbloqueio teria resultado no estabeleci- se voltou, sobretudo, para as condições responsáveis mento de procedimentos de controle ao mesmo tempo pelo surgimento de novos saberes ciências como Bio- muito mais eficazes e menos dispendiosos. isso ocor- logia, Economia Política, Psiquiatria e a própria Sociolo- reu não apenas nas prisões mas também em várias ou- gia e novos dispositivos disciplinares. A influência tras instituições nas quais a vigilância dos indivíduos é progressiva desses novos saberes e a multiplicação constante e necessária. Capítulo 10 As muitas faces do poder 149</p><p>Obviamente, já havia mecanismos de disciplina Foucault lembra também que foi a partir do século e controle muito antes do surgimento de saberes XVIII que se iniciou um processo de organização e clas- como a Economia ou a Sociologia. Durante o Antigo sificação científica dos indivíduos, que veio a garantir Regime, lembra-nos Foucault, havia critérios para uma nova forma de disciplinar e controlar a sociedade. identificar os indivíduos que eram capazes de se Cada "anormalidade" passou a ser identificada em seus submeter às normas os "normais" e os que, inca- mínimos detalhes por um saber específico e a ser encai- pazes de respeitá-las, deveriam receber como castigo xada em um complexo quadro de "patologias a exclusão da vida em sociedade. Estamos tão acostumados a depender desses sabe- Nesse grupo dos que eram afastados do convívio res especializados e a conviver com espaços que lhes com os outros, estavam aqueles considerados são próprios que muitas vezes nos esquecemos de que "doentes" ou "monstros" qualquer um, por- nem sempre eles existiram. nascimento da Medicina tanto, que apresentasse "desvios de conduta", quer por Clínica e a criação do hospital tal como conhecemos, causa de sua de sua índole, de sua moléstia, por exemplo, são fenômenos historicamente recentes. quer de sua aparência. Durante a Idade Média, os que Foucault toma como exemplo projeto de criação de fossem considerados "dementes" eram confinados na hospitais que apareceu na França em fins do século XVIII, chamada nau dos insensatos. Todos os criminosos eram em que pela primeira vez foram expostas regras minu- condenados à pena de morte, quaisquer tipos de "defor- ciosas de separação dos vários tipos de doentes. médico mados" eram recolhidos aos mosteiros, e os que e não mais qualquer "curandeiro" passou a ser o res- friam de males físicos eram levados a hospitais que na ponsável por essa nova "máquina de que lembra- verdade eram "depósitos de va muito pouco aquele "depósito de doentes" medieval. Nau dos insensatos A ou representação figurativa, da "nau dos insensatos" surgiu no final da Idade Média e teve uma de suas mais famosas expressões artísticas no quadro, de mesmo de Hieronymus Bosch (de 1490), que nele faz uma profunda crítica aos costumes da época, denunciando a fragilidade dos princípios religiosos e a devassidão presente em todos os grupos sociais, inclusive no clero. Michel Foucault inspirou-se nessa imagem para escrever a introdução de sua História da loucura. Assim como as naus dos insensatos da Idade Média, navios que deslizavam pelos rios e mares com uma carga de loucos e sem rumo definido, 0 saber psiquiátrico desenvolvido no século XIX seria um mecanismo radical de cuja maior expressão seria os manicômios. A alegoria da nau foi tomada por ele como de uma cultura a ocidental marcada pela não aceitação no corpo social daqueles con- siderados loucos. Se no início da Renascença a nau dos insensatos fazia parte do imaginário para Foucault isso expressava 0 crescente fascinio pela questão da loucura, que, a partir do século XV, passou a ganhar cada vez mais espaço entre as preocupações Hieronymus Bosch. Nau dos insensatos, sobre madeira, 58 cm 33 cm. Se a Medicina clássica trabalhava com concei- nesse padrão e a Medicina ganhou uma dimensão to vago de "saúde" e procurava "eliminar a doença", a política de controle. Hoje, mais do que nunca, vive- Medicina Clínica passou a ter como foco o corpo do mos em função de ter o corpo "normal", de acordo doente e como objetivo trazer esse corpo "de volta ao com todos os padrões, índices e prescrições que a Me- Surgiram então expressões como "tempera- dicina estabelece. Muitas vezes estamos nos sentindo tura normal", "pulsação normal", "altura e pesos nor- bem e vamos ao médico para um simples exame de mais". Esse padrão de normalidade passou a ser um rotina. médico nos examina e diz que há algo parâmetro para toda a sociedade é claro que há errado, algo "que não está normal". Saímos da con- componentes culturais que determinam variações sulta com uma lista de remédios que supostamente 150 Parte A Sociologia vai ao cinema</p><p>farão nosso corpo voltar à normalidade. Também nos que nos diz o médico. No entanto, ao fim e ao cabo, é apresentada uma longa lista de coisas que podemos acreditamos que a Medicina, como ciência, tem o po- ou não fazer e de alimentos que podemos ou não in- der de curar porque tem o poder de saber mais coisas gerir. É certo que nem sempre obedecemos a tudo sobre nosso corpo do que nós mesmos. II Um novo olhar sobre a loucura No livro História da loucura, de 1961, Foucault nos convida a questionar as noções tradicionais de sanidade e loucura. Ele defende que a doença mental não existe como uma realidade em si mesma, dizendo que só é considerada doença ou loucura conjunto de práticas legitimadas e reconhecidas como tal dentro de uma sociedade. No Brasil, uma das pessoas mais importantes na crítica ao discurso científico tradicional sobre a loucura foi a psiquiatra Nise da Nascida em Maceió, Alagoas, em 1905, Nise ingressou na Faculdade de Medicina de Salvador em 1921, sendo a única mulher de sua turma, bem como uma das primeiras médicas do Em 1933, passou no concurso público para Hospital Pedro II, no Rio de Por discordar dos tratamen- tos tradicionais, foi transferida para a Seção de Terapia Ocupacional, na qual revolucionou 0 tratamento clínico dos pacientes ao criar de pintura e modelagem. Defendendo 0 fim de tratamentos como 0 eletrocho- que, uso de drogas e confinamento clínico, Nise da Silveira revolucionou a maneira de tratar os doentes mentais utilizando técnicas artísticas pintura e desenho como terapia. Ela faleceu em aos 93 anos. Nise da Silveira, 1995. A ideia de uma educação que não está a cargo dos pais, e sim do Estado, que é oferecida a todos os cida- Para a escola é uma das de sequestro", dãos, que tem um conteúdo comum e necessita do es- como o hospital, o quartel e a prisão. "São aquelas instituições paço da escola também é fruto das transformações de que retiram compulsoriamente os indivíduos do espaço familiar que fala Foucault. Não por coincidência, a escola orga- ou social mais amplo e os internam, durante um período longo, para moldar suas condutas, disciplinar seus comportamentos, nizada de acordo com parâmetros pedagógicos é uma formatar aquilo que pensam [...]". Com o advento da Idade Mo- invenção do fim do século XVIII e início do XIX. Acredi- derna, tais instituições deixam de ser lugares de suplício, com tamos que a escola tem poder de ensinar porque tem castigos corporais, para se tornarem locais de criação de corpos o poder de saber quais são os comportamentos desejá- dóceis" A docilização do corpo tem uma vantagem social e polí- veis, quais são os conteúdos imprescindíveis e qual é a tica sobre o suplício, porque este enfraquece ou destrói os recur- didática adequada. vitais. Já a docilização torna os corpos produtivos. Michel Foucault: um crítico da instituição escolar. ÉCOLES POUR MUTUEL Nova Escola Disponível em: Acesso em: maio 2016. de mesmo ocorre com conjunto das instituições de justiça e punição, que se concretiza nas prisões. grupo dos "maus" desdobra-se em uma série de subgru- pos de "personalidades criminosas", que passam a ser objeto de um saber específico: a Criminologia. A reclu- são por tempo determinado no presídio substituiu, na maioria dos países do Ocidente, a morte punitiva. Foucault nos lembra que, até o século XVIII, a pena ORDRE GENERAL DE de morte era precedida por um detalhado suplício do corpo torturas, esquartejamentos, queimaduras, en- Orientações aos alunos sobre a postura corporal: escola francesa de Litografia de Hippolyte Lecomte, 1818. forcamentos realizado em praça pública para a glória Capítulo 10 As muitas faces do poder 151</p><p>do soberano. Atualmente, mesmo em um estado como o Texas, nos Es- tados Unidos, onde vigora a pena de morte, há também uma série de princípios que buscam garantir uma "morte humanizada" para o conde- nado, sem torturas ou humilhações. Acreditamos que o sistema judiciá- rio tem poder de vigiar e punir (com a morte, se necessário) porque tem o poder de saber distinguir en- tre os inocentes e os criminosos. Foucault fez uma "arqueolo- gia" uma investigação minuciosa da origem e do desenvolvimento his- tórico de todos estes saberes: Medi- cina Clínica, Psiquiatria, Criminolo- gia etc.; e também se encarregou de formular uma crítica incisiva das práticas disciplinadoras de contro- le e adestramento de cada uma das instituições nas quais esses saberes Operárias na fabricação de munição, Inglaterra, 1915. são praticados e reproduzidos. Em uma linha de produção, 0 trabalho é disciplinado, os corpos são e tudo é supervisionado por técnicos que conhecem ritmo adequado ("normal"), produto de qualidade ("normal") e a produtividade esperada ("normal"). Os corpos Professor, sugerimos o desenvolvimento das atividades 2 e 3 de Monitorando a aprendizagem. dóceis e O saber perpassam toda a sociedade. Leia um trecho da entre- vista que Foucault concedeu ao brasileiro Alexandre interessado Fontana, na qual resumiu sua posição. As formas de curar, educar e punir não foram as Para dizer as coisas mais simplesmente: o internamento psi- únicas a ter seus princípios alterados na modernidade. quiátrico, a normalização mental dos indivíduos, as institui- Foucault nos mostra como as maneiras de produzir e ções penais têm, sem uma importância muito limita- os lugares da produção também passaram por um pro- da se se procura somente sua significação econômica. Em cesso cuidadoso de especialização e controle. As fábri- contrapartida, no funcionamento geral das engrenagens do cas, por exemplo, reproduzem a estrutura da prisão ao poder, eles são, sem dúvida, essenciais. Enquanto se colocava colocar os indivíduos, separados segundo suas diferen- a questão do poder subordinando-o à instância econômica e tes funções, sob um rígido sistema de vigilância. Lem- ao sistema de interesse que garantia, se dava pouca impor- bremo-nos da fábrica de Carlitos: disciplinados e sob o tância a estes problemas. olhar vigilante do capitalista, os operários produzem Michel Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 6. A indisciplina e o descontrole de Carlitos atrapa- lham a produção. Ele é levado ao manicômio para que Foucault disse exatamente? Em primeiro aprender a se comportar como os demais e novamente lugar, que não podemos entender as relações de poder se tornar apto a produzir. reduzindo-as a sua dimensão econômica ou à esfera Podemos observar que, ao se voltar para a produ- do Para ele, as estruturas de poder extrapolam ção, Foucault não reduz a questão ao aspecto pura- o Estado e permeiam, ainda que de forma difusa e mente econômico. Mesmo nesse contexto, diferente- pouco evidente, as diversas práticas sociais cotidianas. mente de Marx, ele está interessado não tanto na Ouvimos dizer que os governantes detêm o poder. Sim, dominação econômica, mas nas relações de poder que mas apenas até certo ponto. Governantes não têm o 152 Parte - A Sociologia vai ao cinema</p><p>poder, por exemplo, de determinar qual será a nova como esta, ele nos leva a refletir sobre os mecanismos de moda que mobilizará os jovens e fará circular uma manutenção, aceitação e reprodução do poder. poder, quantidade incalculável de dinheiro no próximo inver- tal como Foucault concebe, não equivale à dominação, no. Será, então, que são os ricos que detêm o poder? Os à soberania ou à lei. É um poder aceito porque está asso- ricos certamente têm muito poder, mas não todo po- ciado ao conceito de verdade: "Somos submetidos pelo der. Nem eles, nem ninguém. Ninguém é titular do po- poder à produção da verdade e só podemos exercer o der, porque ele se espalha em várias direções, em dife- poder mediante a produção da verdade", afirma ele. Es- rentes instituições, na rua e na residência, no mundo tamos acostumados a pensar a verdade como indepen- público e nas relações afetivas. dente do poder porque acreditamos que ela de nada de- Em segundo lugar, Foucault insiste em uma ideia pende, é única e absoluta. Desse modo, temos dificuldade característica de toda sua obra e que vimos destacan- em aceitar a ideia de que o "verdadeiro" é "apenas" aqui- do até aqui: há uma forte correlação entre saber e po- lo que os próprios seres humanos definem como tal. Para der. Instituições como a escola, o hospital, a prisão, o Foucault, é a crença nessa verdade que independe das abrigo para menores etc. nem são politicamente neu- decisões humanas que nos autoriza a julgar, condenar, tras, nem estão simplesmente a serviço do bem geral classificar, reprimir e coagir uns aos da sociedade. Nós é que julgamos que elas são neutras, sugerimos desenvolvimento da atividade de Olhares sobre a sociedade legítimas e eficazes porque acreditamos na neutralida- de, na legitimidade e na eficácia dos saberes científicos Indivíduos e populações como a Pedagogia, a Medicina, o Direito, o Serviço Em seus últimos escritos, Foucault dedicou-se a Social que lhes dão sustentação. Foucault nos ajuda examinar como o poder, surgido no século XVIII e fun- a perceber, portanto, que há relações de poder onde damentado no conceito de disciplina, foi se sofistican- elas não eram normalmente percebidas. conheci- do e adquirindo ainda mais complexos no mento não é uma entidade neutra e abstrata; ele ex- decorrer do século XX. Ao poder disciplinar veio somar- pressa uma vontade de poder. Se a ciência moderna se -se que ele chamou de "biopoder". Enquanto o primeiro apresenta como um discurso objetivo, acima das cren- tem como alvo corpo de cada indivíduo, o biopoder ças particulares e das preferências políticas, alheio aos dirige-se à massa, ao conjunto da população e a seu preconceitos, na prática, ela ajuda a tornar os "corpos hábitat a sobretudo. Isso ocorre porque o dóceis", para usar outra de suas expressões. "Se poder fosse somente repressivo, se não fizesse processo de especialização, deflagrado com a divisão do trabalho, exige cada vez mais que a população como outra coisa a não ser dizer não", provoca Foucault, "você um todo seja racionalmente classificada, educada e acredita que seria obedecido?". Por meio de perguntas controlada para, então, ser transformada em força pro- dutiva. objeto do biopoder são fenômenos coletivos, como os processos de natalidade, longevidade e morta- lidade, que são medidos e controlados por meio de no- vos dispositivos, como os censos e as estatísticas. biopoden mede, calcula, prevê e por fim esta- belece, por exemplo, que é preciso diminuir a taxa de natalidade de determinado Como alcançar tal objetivo? Controlando o número de nascimen- tos, ou seja, intervindo diretamente na vida do con- junto da população. Isso não precisa ser feito por meio de uma lei específica e punitiva, como na Chi- na. processo de controle não depende necessaria- mente da repressão direta do Estado. Muitas outras instâncias de poder podem ser mobilizadas, como as instituições de educação e de saúde ou os meios de comunicação de massa. Essas instâncias pas- Pessoas se exercitando em academia na cidade de Londres (Inglaterra), 2016. sam a produzir discursos sobre as desvantagens da Capítulo 10 As muitas faces do poder 153</p><p>maternidade precoce ou as dificuldades enfrentadas algo visto com maus olhos. Durante o longo período por famílias muito numerosas, e o fato é que em que a expectativa de vida não chegava a ultrapas- como população, somos afetados por essas In- sar 50 anos, era desejável que as jovens começassem trojetamos esses discursos como verdades absolutas, a procriar tão logo ocorresse a primeira menstruação. e não como convenções históricas e socialmente es- Além das políticas de controle da natalidade, as tabelecidas. Mas não custa lembrar, por exemplo, políticas de habitação social ou de higiene pública que para muitas pessoas que vivem em contextos ru- são exemplos do biopoder, que é acionado para ga- rais ter uma família numerosa é desejável, porque a rantir a resolução e o controle dos problemas da cole- mão de obra mobilizada na produção é de base fami- tividade. Nem sempre, porém, tais políticas surtem o liar. Ou que nem sempre ter filhos aos 15 anos foi efeito desejado. Revolta da Vacina Um dos episódios mais polêmicos do início do Período Republicano no Brasil pode nos ajudar a refletir sobre 0 conceito de biopoder e as formas de controle que ele articula. Em 1904, 0 Rio de Janeiro começava a passar pelo processo de reformas urbanas, levado a cabo pelo então prefeito, Pereira Passos, mas ainda conserva- va muito da estrutura colonial que 0 governo busca- va eliminar. Ruas estreitas, pessoas amontoadas em cortiços e noções de higiene precárias compunham a paisagem carioca. Tuberculose, sarampo, tifo e han- faziam parte do cotidiano de muitos cidadãos, que sofriam principalmente com grandes epidemias de febre amarela, variola e peste bubônica. Foi diante desse quadro que Oswaldo Cruz, médico sanitarista convocado pelo presidente, Rodrigues Alves, para higienizar a cidade e a população carioca, tomou algumas medidas para conter doenças. preciso sa- espeto obrigatório, charge publicada no periódico A out 1904. near para Entre as muitas propostas apresentadas pelo médico, uma causou especial polêmica: a da vacinação obrigatória, que se tornou lei em 31 de outubro de 1904. De acordo com a lei, brigadas sanitárias, acompanhadas de policiais, deveriam entrar nas casas para aplicar, de bom grado ou à a vacina contra a varíola em toda a população. Grande parte da população e setores da oposição se revoltaram contra 0 autoritarismo da medida. Lojas foram saqueadas, bondes depredados, lampiões quebrados: era a Revolta da Vacina, uma reação violenta ao disciplinamento sanitário imposto pelo governo à população, legitimado pela posse de um saber - 0 higienismo aplicado como forma de controle em nome do ideal de A reação popular levou à suspensão da obrigatoriedade da vacina e à declaração do estado de sítio por parte do governo. A rebelião terminou em dez dias, deixando cinquenta mortos e mais de cem feridos, além de centenas de Pouco depois, 0 processo de vacinação foi reiniciado; e a rapidamente erradicada da capital da ao desta seção desenvolva a atividade 3 da seção De olho no Enem Professor sugerimos desenvolvimento das atividades 5 O poder da resistência de Monitorando a aprendizagem e da atividade 1 de Assimilando conceitos inadequados em tantos aspectos, eles também introje- Vimos que Carlitos e a Garota são, em gran- tam os valores de sua sociedade e, como veremos, aspi- de medida, "personagens indisciplinados". ram a viver de maneira Os dois resistem a muitas convenções e estão à Na imagem a seguir podemos ver nosso convida- margem da sociedade. Mas isso não quer dizer que não do, Michel Foucault, no passeio público usando um estejam não façam parte dos jogos de poder megafone. que ele estaria fazendo ali? O que estaria e controle de que fala Foucault. Apesar de socialmente dizendo? 154 Parte - A Sociologia vai ao cinema</p><p>Filósofos Michel Foucault e Jean-Paul Sartre durante protesto em tributo à morte do operário Pierre Overney na greve de uma A fotografia nos mostra "Foucault fazendo aquilo que ele considerava uma possibilidade de enfrentamento do poder no Em seus escritos mais ele enfatizou papel do e das coletividades nas lutas para as estruturas de poder vigentes. 0 modo pelo qual essas lutas de resistência ocorriam conferia aos pequenos e múltiplos movimentos de contestação que correm à margem dos partidos políticos e de outras ações institucionalizadas papel decisivo na vida política Recapitulando 0 olhar dos cientistas sociais pode se voltar para muitas direções. No capítulo anterior vimos Tocqueville interessado no tema da Neste, tomamos contato com Michel Foucault, um observador da sociedade que desvendou as minúcias da disciplina e do controle As mudanças trazidas pelos tempos modernos foram, sem dúvida alguma, de ordem econômica e política. Nesses domínios, já estamos acos- tumados a operar com a noção de poder. Foucault, no entanto, foi além. Buscou em outras instituições modernas os mecanismos por meio dos quais poder é exercido. A Medicina, a Pedagogia, a Criminologia, a Engenharia etc. serviram-lhe como É curioso constatar que esses saberes são chamados de "disciplinas". 0 que eles disciplinam? Eles constroem padrões de normalidade que circulam pela sociedade como um Ao classificar que é normal e que é eles se valem da noção de Os especialistas se tornaram autoridades e por isso exercem poder dizendo-nos 0 que É difícil resistir, porque acreditamos em suas verdades. Foucault entendia que poder é um conceito muito mais amplo do que parece. Não diz respeito apenas à enunciação explícita de uma regra ou lei a que devemos obedecer, já que há comandos aos quais obedecemos sem perceber. Ele também nos lembra que poder circula em várias direções na estrutura social. No Período Pré-Moderno não havia "sociedades disciplinares" Aqueles que fossem considerados anormais eram banidos do convívio A sociedade moderna incorporou esses indivíduos, mas confinou-os em espaços nos quais podiam ser controlados de Desse surgiram os hospitais, os abrigos e muitas outras instituições disciplinadoras, como orfanatos, escolas e Foucault quis nos fazer entender que 0 poder se espalha por diferentes domínios sociais, atua nos indivíduos e também nas 0 biopoder, por exemplo, é exercido toda vez com base na dos especialistas, é feito um controle do comportamento da Ele não se preocupou em dizer se esse controle é positivo ou negativo. Interessou-se pelo processo que levou as pessoas a depositar con- fiança nessas vozes especializadas e pela maneira com a qual isso alterou desenho das Aprendemos com Foucault que poder nos impele a agir e, quando 0 fazemos, é em conformidade com 0 poder. Para nosso 0 poder seria parecido com uma na qual figuramos, em alguns como indivíduos sujeitados pelo poder e, em somos sujeitos de poder em nossas relações com os outros. Se poder está em toda parte e se nós 0 vivenciamos, como seria possível enfrentá-lo? Por meio de uma revolução ou da tomada de poder? De acordo com Foucault, Se 0 poder não tem "quartel-general", seu enfrentamento não advém de outro "quartel-general Os indivíduos podem, por meio de lutas pontuais de resistência e da crítica, tornar-se mais livres e emancipados dos poderes Essas lutas seriam permanentes e sem vitória final. Muitos viram nas reflexões de Foucault sobre poder a inspiração para diversas frentes de luta de emancipação e para surgimento de vários movimentos de transformação social no final do século passado, como 0 ambientalismo, feminismo, grupo LGBT. as minorias étnicas etc. na 445 do do Professor uma proposta de atividade para desenvolver com Capítulo 10 As muitas faces do poder 155</p><p>Leitura complementar O panóptico seus efeitos, mesmo se é descontínua em sua que a perfeição do poder tenda a tornar inútil a atualidade de Panóptico de Bentham [...] é na perife- seu que esse aparelho arquitetural seja uma ria, uma construção em anel: no uma esta é máquina de criar e sustentar uma relação de poder inde- vazada de largas janelas que se abrem sobre a face inter- pendente daquele que o que os detentos se na do a construção periférica é dividida em encontrem presos numa situação de poder de que eles cada uma atravessando toda a espessura da construção; mesmos são os portadores. Para isso, é ao mesmo tempo elas têm duas janelas, uma para o interior corresponden- excessivo e muito pouco que o prisioneiro seja observado do às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, per- sem cessar por um vigia: muito pouco, pois essencial é mite que a luz atravesse a cela de lado a Basta então que ele se saiba vigiado; porque ele não tem ne- colocar um vigia na torre e em cada cela trancar cessidade de sê-lo efetivamente. Por isso Bentham colo- um um um um operário ou cou o princípio de que o poder devia ser visível e inverifi- um escolar. Pelo efeito da contraluz, pode-se perceber da cável. Visível: sem cessar o detento terá diante dos olhos a torre, recortando-se exatamente sobre a claridade, as pe- alta silhueta da torre central de onde é espionado. Inveri- quenas silhuetas cativas nas celas da periferia. Tantas ficável: o detento nunca deve saber se está sendo observa- jaulas, tantos pequenos teatros, em que cada ator está mas deve ter certeza de que sempre pode sê-lo. Para sozinho, perfeitamente individualizado e constantemen- tornar indecidível a presença ou ausência do vigia, para te visível. o dispositivo panóptico organiza unidades es- que os prisioneiros, de suas celas, não pudessem nem per- paciais que permitem ver sem parar e reconhecer ceber uma sombra ou enxergar uma contraluz, previu diatamente. Em suma, o princípio da masmorra é Bentham, não só persianas nas janelas da sala central de invertido: ou de suas três funções trancar, privar vigia, mas, por dentro, separações que a cortam em ângu- de luz e esconder só se conserva a primeira e supri- lo reto para passar de um quarto a outro, não portas, mem-se as outras A plena luz e o olhar de um vigia mas biombos: pois a menor batida, a luz entrevista, uma captam melhor do que a sombra, que finalmente prote- claridade numa abertura trairiam a presença do gia. A visibilidade é uma armadilha. [...] Panóptico é uma máquina de dissociar par ver-ser vis- Daí o efeito mais importante do Panópticos induzir to: no anel periférico, se é totalmente sem nunca no detento um estado consciente e permanente de visi- ver: na torre central, vê-se tudo, sem nunca ser visto. bilidade que assegura o funcionamento automático do Vigiar e nascimento da prisão ed. poder. Fazer com que a vigilância seja permanente em p. ESTADO Penitenciária Estadual de Illinois em forma de Stateville, Illinois Sala de monitoramento do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) na (Estados Unidos), 2012. cidade de São Paulo (SP), 2015. Panópticos espalhados nas representados pelas tecnologias informacionais de monitoramento, rastreamento e segurança: "Ver, sem jamais ser no Manual do Professor (Leitura complementar), encontra comentários e sugestões para utilização desse texto nas Explore com os alunos questão 4 da seção De olho no 156 Parte II A Sociologia vai ao cinema</p><p>atento! Definição dos conceitos sociológicos estudados neste capítulo. Biopoder: na página 153. Controle social: na seção Conceitos sociológicos, página 366. Poder: na seção Conceitos sociológicos, página 374. Resistência: na página 154. Sociedade disciplinar: na página 149. Valores: na seção Conceitos sociológicos, página 377. Professor na 445 do Manual do Professor (Sessão de cinema) você encontra sugestões para trabalhar os filmes indicados Sessão de cinema Brasil, 2007, 90 min. Direção de Maria Augusta A trajetória de jovens pobres infratores com menos de 18 anos é acompanhada desde o instante da prisão até o julgamento. PINO SEM PENA Brasil, 2014, 83 min. Direção de Eugenio Puppo. SEM PENA Nenhuma população carcerária cresce como a brasileira, que já é a quarta maior do mundo. filme mostra a precária vida nas prisões do país e os medos, preconceitos e que cercam o NISE - o CORAÇÃO DA LOUCURA Brasil, 2016, 108 min. Direção de Roberto Berliner. NIS Nise da Silveira propõe uma nova forma de tratamento aos pacientes que sofrem de esquizofrenia: eliminar o eletrochoque e a lobotomia. Os colegas de trabalho discordam de seu meio de tratamento e a isolam, restando a ela assumir abandonado Setor de Terapia Ocupacional, em que dá início a uma nova forma de lidar com os pacientes por meio do amor e da arte. Capítulo 10 As muitas faces do poder 157</p>