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<p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 1</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>“A morte sempre chega pontualmente na hora incerta”.</p><p>(Mário Quintana)</p><p>“Quando menos se espera, a vida já ficou para trás”</p><p>1. Considerações iniciais</p><p>É sabido que a morte, fato jurídico de alta relevância, desencadeia uma série de efeitos que afetam</p><p>profundamente as relações jurídicas entre os indivíduos. No Brasil, como em grande parte dos países</p><p>ocidentais, evita-se falar sobre a morte porque traz “má sorte” e lembra sofrimento, dentre outros</p><p>aspectos. Entretanto, é preciso ser objetivo e encarar que o homem desaparece, mas os bens continuam.</p><p>O direito de herança é assegurado pela Constituição Federal no art. 5º, inc. XXX e o Código Civil</p><p>disciplina o Direito das Sucessões nos artigos 1.784 a 2.027.</p><p>1.1 Histórico</p><p>Tem-se informações históricas que o marco da sua existência manifesta-se muito antes do nascimento de</p><p>Cristo.</p><p>A origem deste ramo do direito diz respeito aos mais remotos tempos, ligada à idéia de comunidade da</p><p>família e religiosidade. Antigamente preocupava-se mais com ordem religiosa do que patrimonial em</p><p>proceder a transferência de bens e direitos. O Direito das Sucessões no passado esteve ligado a fatores</p><p>religiosos, quanto a família e a valores sociais e culturais.</p><p>Exemplo: em Roma, o titular do patrimônio era o pater familia, sendo que o herdeiro (filho mais velho)</p><p>substituía o falecido em todas as relações jurídicas (direitos e obrigações), assim como na religião, na</p><p>medida em que era o continuador do culto familiar. Não havia grau de parentesco, nem testamento.</p><p>QUADRO RESUMO</p><p>Fundamento Religioso</p><p>Fundamento exclusivo na</p><p>Religião</p><p>Fundamento Biológico</p><p>A transmissão hereditária dos</p><p>bens é de continuação</p><p>biológica e psicológica dos</p><p>progenitores</p><p>Fundamento Jurídico</p><p>A transmissão causa mortis</p><p>é a decorrência lógica do</p><p>direito de propriedade</p><p>O direito das sucessões ao longo dos tempos, tem se firmado como um ramo do direito alicerçado por</p><p>princípios constitucionais, tendo como fundamento principal o direito de propriedade. Todavia não</p><p>afastando da proteção da família de tempos passados.</p><p>2. CONCEITOS:</p><p>Direito das Sucessões: Conjunto de normas que disciplina a transferência do patrimônio de alguém,</p><p>depois da sua morte, ao herdeiro em virtude de lei ou de testamento.</p><p>Disposições que regem a transmissão de bens ou valores e dívidas do falecido, ou seja, a transmissão do</p><p>ativo e do passivo do de cujus ao herdeiro. O herdeiro insere-se na titularidade de uma relação jurídica</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2</p><p>advinda do falecido, assume direitos e obrigações do antigo titular.</p><p>O falecido é chamado autor da herança ou de cujus – esta expressão latina é a abreviatura da frase “de</p><p>cujus sucessione (ou hereditatis) agitur” – aquele de cuja sucessão (ou herança) se trata.</p><p>HERANÇA: É o conjunto de direitos e obrigações que se transmitem, em razão da morte, a uma pessoa</p><p>ou a um conjunto de pessoas, que sobrevivam ao falecido. Somatório em que se incluem os bens e as</p><p>dívidas, os créditos e os débitos, os direitos e as obrigações, as pretensões e as ações de que era titular</p><p>o falecido, e as que contra eles foram propostas, desde que transmissíveis.</p><p>ESPÓLIO: o acervo hereditário recebe o nome de espólio. Trata-se de massa patrimonial administrada e</p><p>representada pelo inventariante. Constitui-se em uma universalidade de bens de existência transitória.</p><p>Não tem personalidade jurídica, mas tem capacidade jurídica para demandar e ser demandado (art. 12, V,</p><p>CPC).</p><p>3. O VOCÁBULO SUCESSÃO:</p><p>Do latim succedere, traduz a ideia de alguém que assume o lugar de outra pessoa, passando a responder</p><p>pelos seus bens, direitos e obrigações.</p><p>A palavra sucessão, na acepção jurídica, apresenta dois sentidos:</p><p> em sentido amplo: ato pelo qual uma pessoa assume o lugar de outra, substituindo-a na</p><p>titularidade de determinados bens e direitos. Ato pelo qual alguém sucede a outrem, investindo-se</p><p>no todo ou em parte nos direitos que lhe pertenciam. Trata-se da sucessão intervivos. Ex: Numa</p><p>compra e venda, o comprador sucede ao vendedor; numa doação, o donatário sucede ao doador.</p><p>Isto ocorre em todos os modos derivados de adquirir o domínio ou o direito. Não se verifica</p><p>apenas no direito das obrigações, ocorre também no direito das coisas (Ex: acessio possessionis),</p><p>e até no direito de família, quando os pais decaem do poder familiar e são substituídos pelo tutor</p><p>nomeado pelo juiz.</p><p> em sentido estrito: a palavra é usada para designar a sucessão decorrente da morte de alguém.</p><p>Designa a transferência parcial ou total de herança a um ou mais herdeiros. É a sucessão causa</p><p>mortis ou mortis causa.</p><p>4. PRINCÍPIO DA SAISINE (ou direito de saisine)</p><p>Em francês se pronuncia “cesíni”</p><p>Surgiu na Idade Média e foi instituído pelo direito costumeiro francês. Instituído na França desde o século</p><p>XIII, determina que a propriedade e a posse da herança passem aos herdeiros com a morte do de cujus.</p><p>O próprio falecido transmite ao sucessor o domínio e a posse da herança (le mort saisit le vif). Isto ocorre</p><p>por efeito direto da lei.</p><p>Encontra-se no art. 1784 do CC: Aberta a sucessão, a herança transmite-se, desde logo, aos herdeiros</p><p>legítimos e testamentários.</p><p>Embora a morte não se confunda com a transmissão da herança, já que a morte é pressuposto para a</p><p>transmissão da herança, a lei, por uma ficção, torna-as coincidentes em termos cronológicos, presumindo</p><p>que o próprio falecido investiu seus herdeiros no domínio e na posse indireta de seu patrimônio, porque o</p><p>patrimônio não pode ficar sem titular.</p><p>Por força desse princípio, no mesmo instante em que acontece a morte, abre-se a sucessão e transmite-</p><p>se a herança aos herdeiros legítimos e testamentários, ainda que ignorem o fato da morte.</p><p>Não há direito subjetivo sem titular, por isso os bens não podem ficar sem donos.</p><p>5.1. Consequências:</p><p>Deste princípio decorrem várias consequências, dentre elas podemos destacar:</p><p>- A legitimação para suceder é regulada pela lei vigente ao tempo da abertura da sucessão (art. 1787) Ex.</p><p>morte antes da CF/88 - o filho adotado nada herda se concorre com filhos consanguíneos do adotante,</p><p>mesmo que o inventário seja feito após a CF/88</p><p>- O herdeiro que sobrevive ao de cujus, mesmo que por um instante, herda os bens deixados e os</p><p>transmite aos seus sucessores, se falecer em seguida;</p><p>- é na ocasião da transmissão da herança (ou seja no momento da morte) que se deve verificar o valor</p><p>dos bens que compõem o acervo hereditário, de forma a determinar o monte partilhável e o valor do</p><p>imposto de transmissão causa mortis. (Súmula 112 do STF dispõe: O imposto de transmissão causa</p><p>mortis é devido pela alíquota vigente ao tempo da abertura da sucessão).</p><p>OBS: DIFERENÇA ENTRE MEAÇÃO E HERANÇA: Cabe lembrar que os institutos da meação e da</p><p>sucessão se diferenciam. A meação decorre do Direito de Família e se refere à divisão dos bens comuns,</p><p>dependendo do regime matrimonial de bens. Por outro lado, a sucessão ocorre sobre os bens deixados</p><p>pelo falecido, sendo deferida a transmissão causa mortis. Assim, excluída a meação há o patrimônio do</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 3</p><p>falecido, que é a herança a ser dividida legalmente entre os herdeiros.</p><p>6. DA SUCESSÃO EM GERAL</p><p>Art. 6º, CC. – “A existência da pessoa natural termina com a morte real.”</p><p>Exige-se a prova da morte real, mediante apresentação da certidão de óbito. Cabe ao médico atestar o</p><p>óbito, indicar a data e a hora em que ocorreu. É o registro do óbito que prova a morte (art. 9º, inc. I, CC).</p><p>A morte é o fato que transforma a mera expectativa do herdeiro em direito. Não há que se falar em</p><p>herança de pessoa viva, embora possa ocorrer a abertura da sucessão do ausente, presumindo-lhe a</p><p>morte.</p><p>6.1. Morte presumida: mais de uma circunstância enseja a declaração da morte presumida: ausência</p><p>(art. 6º); quando</p><p>o julgamento da última.</p><p> Transitada em julgado a sentença que declarou a vacância, o cônjuge, o companheiro, os</p><p>herdeiros e os credores só poderão reclamar o seu direito por ação direta.</p><p> Decorrido um ano da primeira publicação dos editais, sem que haja herdeiro habilitado ou</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 17</p><p>habilitação pendente, o juiz, após ouvir o MP e a Fazenda Pública, declarará, por sentença,</p><p>vacante a herança, ocasião em que os bens são entregues ao Poder Público, ainda que não</p><p>transferida a propriedade definitivamente.</p><p>OBS: Se surge herdeiro no período da jacência, os efeitos desta desaparecem e a procedência da</p><p>habilitação do herdeiro converte a arrecadação em inventário, excluindo a possibilidade de vacância (art.</p><p>741, §3º, NCPC)</p><p>OBS2: Se houver credor do falecido e este se habilitar, o juiz, ouvido o MP, o curador e a Fazenda</p><p>Pública, se julgar procedente a habilitação, determinará o pagamento do débito até o limite das forças da</p><p>herança.</p><p>OBS3: Cabe lembrar que o CC dispõe no art. 1823 que quando todos os sucessores renunciarem à</p><p>herança, ela será desde logo declarada vacante (para evitar o desnecessário processo de arrecadação).</p><p>10.2.1 Efeitos da declaração de vacância - Art. 1822</p><p>Põe fim à imprecisão que caracteriza a situação de jacência, estabelecendo a certeza jurídica de que o</p><p>patrimônio hereditário não tem titular. Promove a transferência dos bens para o Poder Público (não em</p><p>caráter definitivo). O prazo de aquisição definitiva se conta da abertura da sucessão – 05 anos.</p><p>A declaração de vacância não impede que herdeiros necessários reivindiquem a herança enquanto não</p><p>decorrido o prazo de 05 anos, contado da abertura da sucessão (art. 1822, caput)</p><p>Afasta da sucessão os colaterais que não se habilitarem até a declaração de vacância (art. 1822, p.</p><p>único) - Art. 1821 – É reconhecido aos credores o direito de pedir o pagamento das dívidas reconhecidas,</p><p>nos limites das forças da herança.</p><p>A sentença que converte a herança jacente em herança vacante promove a transferência dos bens, ainda</p><p>que de forma resolúvel, para o Poder Público. O curador é obrigado a entregar os bens após um ano da</p><p>primeira publicação dos editais, mas o prazo de aquisição definitiva (05 anos) não se conta deste fato e</p><p>sim da abertura da sucessão.</p><p>Lembrar: A declaração de vacância defere a propriedade dos bens arrecadados ao ente público, mas</p><p>ainda não em caráter definitivo – propriedade resolúvel.</p><p>OBS: O STJ tem admitido a aquisição por usucapião de bem da herança jacente se ainda não houve</p><p>declaração de vacância (REsp 73458/SP e REsp 36959). “CIVIL. USUCAPIÃO. HERANÇA JACENTE. O</p><p>Estado não adquire a propriedade dos bens que integram a herança jacente, até que seja declarada a</p><p>vacância, de modo que, nesse interregno, estão sujeitos à usucapião. Recurso especial não conhecido”.</p><p>(Terceira Turma, Resp 36959-SP, Rel. Min. Ari Pargendler, j. 24.04.2001, DJ 11.06.2001, p. 196).</p><p>“USUCAPIÃO. Herança jacente. O bem integrante de herança jacente só é devolvido ao Estado com a</p><p>sentença de declaração da vacância, podendo, até ali, ser possuído ad usucapionem. Precedentes.</p><p>Recursos não conhecidos.” (Quarta Turma. REsp 253719-RJ, Rel. Min, Ruy Rosado de Aguiar, j.</p><p>26.09.2000)</p><p>11. SUCESSÃO LEGÍTIMA</p><p>11.1. Considerações Iniciais</p><p>A sucessão dá-se por lei ou ato de última vontade (art. 1786). É a sucessão deferida por determinação</p><p>legal.</p><p>CONCEITO: Sucessão legítima ou ab intestato é a sucessão que ocorre quando não há testamento; ou</p><p>ainda em caso de invalidade ou caducidade do testamento, além também da sucessão em relação aos</p><p>bens não contemplados no testamento. Em razão disso, se diz que a sucessão legítima tem caráter</p><p>subsidiário (art. 1788, CC).</p><p>OBS: A sucessão testamentária pode ocorrer simultaneamente à sucessão legítima, em havendo herdeiro</p><p>necessário a quem a lei assegura o direito à legítima ou quando o testador dispõe apenas de parte dos</p><p>seus bens no testamento.</p><p>Herdeiros legítimos: pessoas indicadas pela lei em ordem preferencial. Este gênero se subdivide em</p><p>duas espécies:</p><p> - herdeiros necessários (legitimários ou reservatários) – descendentes, ascendentes e o cônjuge.</p><p>A existência desses herdeiros impede a disposição por ato de última vontade, dos bens</p><p>constitutivos da legítima ou reserva (art. 1789)</p><p> - herdeiros facultativos (colaterais) – herdam na falta de herdeiros necessários e na falta de</p><p>testamento. Para serem excluídos da sucessão, basta que o testador disponha de seu patrimônio</p><p>por inteiro, sem contemplá-los. (Havendo só herdeiros facultativos, a liberdade de testar é plena).</p><p> Todo herdeiro necessário é legítimo, mas nem todo herdeiro legítimo é necessário.</p><p>Herdeiro testamentário: herdeiro nomeado em testamento a título universal.</p><p>Como já dito, falecendo o de cujus ab intestato (sem deixar testamento) a herança é deferida a</p><p>determinadas pessoas. O chamamento dos sucessores é feito de acordo com uma sequência,</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 18</p><p>denominada ORDEM DE VOCAÇÃO HEREDITÁRIA.</p><p>11.2. Ordem de Vocação Hereditária</p><p>Para Sílvio Rodrigues, trata-se da relação preferencial, estabelecida pela lei, das pessoas que são</p><p>chamadas a suceder ao finado.</p><p>Consiste na distribuição dos herdeiros em classes preferenciais, baseadas na proximidade com o de</p><p>cujus e nas relações de família e de sangue, conforme se vê pelo disposto no art. 1829, CC.</p><p>Pode-se dizer que todos os parentes são herdeiros em potencial.</p><p>Para a ordem de vocação hereditária, a lei se inspirou na vontade presumida do autor da herança – Já</p><p>que na ordem das afeições familiares, o amor primeiro desce, depois sobe e em seguida dilata-se.</p><p>Se o de cujus quisesse beneficiar pessoa diferente dos herdeiros legítimos teria feito testamento; se não</p><p>o fez se presume que gostaria que os bens passassem às pessoas da família na ordem de vocação</p><p>hereditária.</p><p>O chamamento dos sucessores é feito por classes, e uma classe só é chamada a suceder se não houver</p><p>herdeiros da classe precedente. Há uma hierarquia de classes, obedecendo a uma ordem, por isso se diz</p><p>que a ordem é preferencial. A existência de herdeiros de uma classe exclui o chamamento dos herdeiros</p><p>da classe subsequente.</p><p>Somente na hipótese da classe estar vazia é que se chamam os integrantes da classe subsequente. A</p><p>presença de um único herdeiro de uma classe, afasta as demais classes.</p><p>São quatro classes (art. 1829):</p><p> 1º lugar – descendentes (filhos, netos, bisnetos, etc) em concorrência com o cônjuge sobrevivente</p><p> 2º lugar – ascendentes (pais, avós, bisavós, trisavós, etc.) em concorrência com o cônjuge</p><p>sobrevivente.</p><p> 3º lugar – cônjuge sobrevivente</p><p> 4ª lugar- colaterais (irmãos, sobrinhos, tios, primos, sobrinhos-netos e tios-avós).</p><p>Logo, se o autor da herança deixar descendentes e ascendentes vivos, só os primeiros herdarão. Na</p><p>ausência de herdeiros ou se todos renunciarem à herança, esta jaz sem dono – é recolhida como jacente</p><p>e devolvida ao ente público em que os bens estão localizados. O ente público não é herdeiro, recebe os</p><p>bens em razão da declaração de vacância.</p><p>OBS: A omissão do companheiro no art. 1829 é uma falha legislativa, que pode ser suprida pelo art. 1844.</p><p>Embora reconhecidos, os seus direitos são disciplinados em local inadequado, no capítulo das</p><p>disposições gerais (art. 1790, CC).</p><p>OBS2: A ordem de vocação hereditária se restringe ao rol do art. 1829, não incluindo parentes por</p><p>afinidade ou dependentes.</p><p>No CC/1916 a ordem de vocação tinha caráter absoluto – estabelecia uma sequência de vocação</p><p>essencialmente compartimentada, sem qualquer espécie de concorrência entre as classes.</p><p>O CC/02 estabeleceu a concorrência dos cônjuges ou companheiros supérstites sem prejudicar a ordem</p><p>de vocação tradicionalmente aceita pelo ordenamento jurídico.</p><p>O cônjuge além de concorrer com descendentes ou ascendentes só herdará a totalidade da herança se</p><p>não houver descendente e ascendentes, e os colaterais só herdarão se não houver, descendentes,</p><p>ascendentes e cônjuge sobrevivente.</p><p>OBS: O CC/02 trouxe importantes mudanças na ordem de vocação hereditária:</p><p> excluiu o município, o DF e a União (Poder Público) do rol de herdeiros legítimos, vez que estes</p><p>não adquirem os bens com a morte do de cujus pelo Princípio da Saisine e sim somente após a</p><p>declaração de vacância.</p><p> Colocou o cônjuge no rol dos herdeiros necessários e em concorrência com os descendentes e</p><p>ascendentes.</p><p>OBS2: A sucessão que não obedece a ordem de vocação hereditária é considerada anômala ou irregular.</p><p>Ex: Lei 6858/80 - alvará para levantamento de valores devidos pelos empregadores aos empregados,</p><p>saldos de contas vinculadas do FGTS e PIS/PASEP e de contas bancárias, poupanças e fundos de</p><p>investimentos. Serão pagos em quotas iguais aos dependentes habilitados perante a previdência social,</p><p>não havendo outros bens sujeitos a inventário.</p><p>11.2.1. Sucessão dos descendentes</p><p>A Lei privilegia a classe dos descendentes colocando-os em primeiro plano no rol dos herdeiros</p><p>sucessíveis. Tal fato tem como fundamento a continuidade da vida humana e a vontade presumida do</p><p>autor da herança.</p><p>Genericamente, contemplam-se todos os descendentes (filhos, netos, bisnetos), porém os de grau mais</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 19</p><p>próximo excluem os mais remotos, salvo os chamados por direito de representação (art. 1833)</p><p>Assim, em primeiro lugar são chamados os filhos do falecido (sucedem por cabeça e por direito próprio),</p><p>recebendo cada um quota igual da herança, porque se acham à mesma distância do pai como parentes</p><p>em linha reta.</p><p>Na falta de filhos, chamam-se os netos, e posteriormente os bisnetos, ressalvada a possibilidade de haver</p><p>representação.</p><p>Direito de representação – benefício da lei, em virtude do qual os descendentes de uma pessoa falecida,</p><p>são chamados a substituí-la na qualidade de herdeira legítima, exercendo o direito hereditário que a ela</p><p>cabia. Se houver filho morto antes do de cujus (filho pré-morto), os filhos do filho pré-morto (netos do</p><p>autor da herança) serão chamados a suceder (sucessão por estirpe ou por representação) – art. 1835.</p><p>Ex: Joselito morre e deixa três filhos; um já falecido (pré-morto), que deixou dois filhos (netos de Joselito),</p><p>a sucessão se dá por representação e a herança será dividida em três partes iguais: duas atribuídas aos</p><p>dois filhos vivos e a última parte aos dois netos, subdividida em partes iguais.</p><p>Diz-se que os filhos sucedem por cabeça e os netos por cabeça ou por estirpe. SE, NO ENTANTO, não</p><p>houver diversidade de graus, ou seja, se todos os filhos forem pré-mortos, os netos receberão quotas</p><p>iguais por direito próprio, pois todos se encontram no mesmo grau.</p><p>OBS: Art.1834, CC – reforça a igualdade sucessória dos descendentes – dispositivo desnecessário em</p><p>razão da igualdade entre os filhos, estabelecida pela CF/88 (art. 227, § 6º). A CF proibiu a distinção entre</p><p>filhos legítimos, ilegítimos, adotivos. O artigo visa reforçar que filho é filho, e os filhos herdam em</p><p>igualdade de condições.</p><p>11.2.1.1. Concorrência do Cônjuge com os Descendentes</p><p>O CC/1916 dispunha que somente na falta de descendentes e ascendentes a herança seria deferida ao</p><p>cônjuge sobrevivente, se ao tempo da morte do outro, não estava dissolvida a sociedade conjugal</p><p>(separação ou divórcio). Assim, mesmo separado de fato, herdaria. Isso podia ser evitado se o autor da</p><p>herança fizesse testamento, dispondo de toda a herança em favor de outros, já que o cônjuge não era</p><p>herdeiro necessário.</p><p>O CC/02 alterou profundamente esse contexto, trazendo importante modificação na ordem de vocação</p><p>hereditária. Incluiu o cônjuge como herdeiro necessário, na ordem de vocação hereditária, concorrendo</p><p>com os descendentes e com os ascendentes, não mais sendo excluído por estas classes.</p><p>O cônjuge permanece em 3º lugar na ordem de vocação hereditária, mas passa a concorrer com os</p><p>descendentes do falecido, salvo quando já tenha direito à meação em face do regime de bens do</p><p>casamento. Via de regra, existindo meação, não haverá concorrência sucessória do cônjuge. Sobre os</p><p>bens que houver meação, não haverá herança.</p><p>O art. 1.829, inc. I - estabelece como regra a concorrência do cônjuge supérstite com os descendentes</p><p>desde que:</p><p> ao tempo da morte não estivesse separado judicialmente nem separado de fato há mais de 02</p><p>anos, exceto prova, neste caso, de que a convivência se tornou impossível sem culpa sua – art.</p><p>1830</p><p> não seja casado sob o regime da comunhão universal (porque é meeiro de tudo) ou da separação</p><p>obrigatória de bens (art. 1641, CC – casamento contraído com causa suspensiva, por maiores de</p><p>70 anos e que necessitou de suprimento judicial).</p><p> haja bens particulares do autor da herança, se casado sob o regime da comunhão parcial de bens.</p><p>Desta forma, o cônjuge sobrevivente não herda em concorrência com os descendentes:</p><p> se separado judicialmente ou administrativamente (Lei 11441/07) do de cujus;</p><p> se separado de fato há mais de dois anos, não conseguir provar que a convivência se tornou</p><p>insuportável sem culpa sua;</p><p> se casado pelo regime da comunhão universal;</p><p> se casado pelo regime da separação obrigatória de bens;</p><p> se casado pelo regime da comunhão parcial, o autor da herança não houver deixado bens</p><p>particulares;</p><p>Por outro lado, o cônjuge herda em concorrência com os descendentes:</p><p> se casado no regime da separação convencional: "No regime de separação convencional de</p><p>bens, o cônjuge sobrevivente concorre com os descendentes do falecido, sendo apenas</p><p>afastada a concorrência quanto ao regime de separação legal de bens previsto no art.</p><p>1.641, do Código Civil" (STJ, REsp 1.382.170/SP, Rel. Min. MOURA RIBEIRO, Rel. p/ Acórdão</p><p>Min. JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, SEGUNDA SEÇÃO, j. 22/04/2015, DJe 26/05/2015). Existia</p><p>um posicionamento antigo contrário do STJ entendendo que o cônjuge não herda em concorrência</p><p>com filhos na separação convencional (REsp 992479/MS).</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 20</p><p> quando casado no regime da comunhão parcial e o de cujus possuía bens particulares (herda</p><p>somente nos bens particulares);</p><p> quando casado no regime de participação final nos aquestos (porque neste há meação e bens</p><p>particulares) – herdará sobre os bens particulares.</p><p>- RESERVA DA QUARTA PARTE DA HERANÇA EM FAVOR DO CÔNJUGE SOBREVIVENTE NA</p><p>CONCORRÊNCIA COM OS DESCENDENTES (ART. 1832) Se os descendentes forem comuns (filhos do</p><p>falecido e do cônjuge sobrevivente), cabe ao cônjuge quinhão igual aos dos filhos, não podendo sua</p><p>quota ser inferior à quarta parte da herança. Ex: o casal tem três filhos, falece o marido, a herança será</p><p>dividida em partes iguais entre a viúva e os filhos (25% para cada). Porém se tiver 04 filhos ou mais,</p><p>deve-se reservar ao cônjuge ¼ da herança, repartindo-se os ¾ restantes entre os filhos. Se houver</p><p>descendentes exclusivos do falecido, a herança será dividida em partes iguais – o cônjuge terá quinhão</p><p>igual ao que couber a cada um dos filhos.</p><p>OBS: o art. 1832 não prevê a hipótese de haver filhos do de cujus com o cônjuge sobrevivente e filhos do</p><p>de cujus com outra pessoa. Há nesse caso a concorrência do cônjuge sobrevivente com os descendentes</p><p>comuns e exclusivos do autor da herança – filhos de origem híbrida. Há dúvidas quanto à reserva da</p><p>quarta parte, dando origem a três correntes diferentes para solucionar a questão:</p><p> 1ª) o cônjuge somente tem direito à quota mínima quando for ascendente de todos os filhos do de</p><p>cujus, ou seja, quando houver só filhos comuns. Se houver filhos comuns e exclusivos, todos</p><p>receberão quotas iguais. Essa corrente prevalece, porque é considerada mais justa, visto que, se</p><p>os filhos são comuns, a reserva da quarta</p><p>parte não acarreta maiores prejuízos, já que o montante</p><p>a maior recebido pelo cônjuge sobrevivente reverterá aos filhos com a morte deste.</p><p> 2ª) todos os herdeiros seriam tratados como comuns e haveria a reserva da quarta parte da</p><p>herança para o cônjuge. Neste caso, haveria prejuízo aos descendentes exclusivos do falecido.</p><p>Porque os filhos comuns teriam em seu benefício à quota do cônjuge sobrevivente quando este</p><p>falecesse.</p><p> 3ª) haveria a divisão proporcional – quarta parte em relação à herança dos filhos comuns e parte</p><p>igual na herança dos filhos exclusivos. Críticas a essa corrente pq a conta seria muito difícil e os</p><p>filhos não receberiam quotas iguais, ferindo o Princípio da igualdade entre os filhos.</p><p>11.2.2 Sucessão dos Ascendentes (art. 1836)</p><p>Somente não havendo herdeiros da classe dos descendentes é que são chamados à sucessão os</p><p>ascendentes, em possível concorrência com o cônjuge sobrevivente. A sucessão dos ascendentes</p><p>orienta-se por dois princípios:</p><p>a) o grau mais próximo exclui o mais remoto, sem distinção de linhas;</p><p>b) havendo igualdade em grau e diversidade em linha, os ascendentes da linha paterna herdam a</p><p>metade, cabendo a outra metade aos ascendentes da linha materna.</p><p>Importante também a regra do art. 1852 : o direito de representação dá-se na linha reta descendente,</p><p>mas nunca na ascendente.</p><p>Assim, se não há filhos, os pais do falecido herdam em partes iguais, por direito próprio.</p><p>Se apenas um dos genitores está vivo, recebe a totalidade da herança, ainda que estejam vivos os pais</p><p>do outro genitor falecido (avós do de cujus), pois na linha ascendente, como mencionado, não há direito</p><p>de representação.</p><p>Se ambos os genitores não forem vivos, herdarão os avós da linha paterna e materna; na falta deles os</p><p>bisavós, e assim sucessivamente.</p><p>No momento em que são chamados os ascendentes de grau mais distante, deve-se atentar à linha de</p><p>ascendência. Como as pessoas têm ascendência paterna e materna (avós por parte de pai e avós por</p><p>parte de mãe), a divisão da herança obedece essa circunstância: metade destina-se aos ascendentes</p><p>maternos e metade aos ascendentes paternos. Os avós, bisavós, trisavós, herdam por linha de</p><p>ascendência e não por cabeça.</p><p>Se concorrerem à herança avós de linhas diversas (paterna e materna) em número de quatro, divide-se a</p><p>herança em parte iguais entre as duas linhas e os quatro receberão quotas iguais. Se são três os avós</p><p>(igualdade de graus), sendo dois paternos e um materno (diversidade em linha), reparte-se a herança</p><p>entre as duas linhas meio a meio, cabendo metade para os dois avós paternos (de uma linha) e metade</p><p>para o único avô materno (da outra linha).</p><p>OBS: Os ascendentes concorrem com o cônjuge sobrevivente sem qualquer limitação quanto ao regime</p><p>matrimonial de bens.</p><p>A concorrência do cônjuge supérstite com os ascendentes dá-se nas proporções estabelecidas pelo art.</p><p>1837, CC.</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 21</p><p>Concorrendo com ascendentes em primeiro grau (pai e mãe), terá direito a 1/3 da herança.</p><p>Concorrendo com um dos pais do de cujus, terá direito à metade da herança.</p><p>Se concorrer com avós ou ascendentes de maior grau terá direito à metade da herança. A outra metade</p><p>será dividida de acordo com a linha de ascendência.</p><p>OBS2: Se o de cujus deixar ascendentes e companheiro sobrevivente, o companheiro terá direito a 1/3</p><p>da herança, na forma do art. 1790, III, CC. Porém houve mudança em Goiás abaixo.</p><p>OBS3: Em recente julgado do TJGO, de 22/04/2015, a(o) companheira(o) também herda nas mesmas</p><p>condições do cônjuge, sendo declarar a inconstitucionalidade material do inciso III, do artigo 1.790 do</p><p>Código Civil, “ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE EM APELAÇÃO CÍVEL. ART. 1.790, INCISO</p><p>III, DO CÓDIGO CIVIL. DIREITO SUCESSÓRIO DO COMPANHEIRO DIFERENCIADO EM RELAÇÃO</p><p>AO CÔNJUGE SUPÉRSTITE. UNIÃO ESTÁVEL EQUIPARADA AO CASAMENTO PELA</p><p>CONSTITUIÇÃO. OFENSA AO ART. 226, § 3º, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. 1. O tratamento conferido</p><p>aos companheiros e aos cônjuges deve seguir os ditames sociais da Constituição de 1988 e respeitar,</p><p>efetivamente, todos os direitos fundamentais nela previstos pois, sendo todas as formas de entidade</p><p>familiar entendidas no conceito de família, não há como se estabelecer qualquer compreensão restritiva</p><p>de direitos fundamentais a qualquer uma delas. 2. Tendo a Constituição Federal, em seu artigo 226, § 3º,</p><p>equiparado a união estável ao casamento, o disposto o artigo 1.790, inciso III, do Código Civil vigente</p><p>colide com a norma constitucional prevista, afrontando os princípios da igualdade e da dignidade da</p><p>pessoa humana, resguardados na Carta Constitucional, razão pela qual há de ser negada vigência ao</p><p>dispositivo legal mencionado. INCIDENTE JULGADO PROCEDENTE. RECONHECIDA A</p><p>INCONSTITUCIONALIDADE DO INCISO III, DO ARTIGO 1.790 DO CÓDIGO CIVIL/02.” (TJGO, Corte</p><p>Especial, ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI Nº 342562-37 (201493425625), Rel. Des.</p><p>Jeová Sardinha de Moraes, julgado em 22/04/2015).</p><p>OBS4: União Estável e Direito das Sucessões! “O relator, ministro Paulo de Tarso Sanseverino, afirmou</p><p>que o Supremo Tribunal Federal já havia reconhecido como inconstitucional a diferenciação dos regimes</p><p>sucessórios do casamento e da união estável, ao julgar o RE 878.694”. Fonte: STJ (RESP: 1617501/RS)</p><p>11.2.3. Sucessão do Cônjuge Sobrevivente</p><p>Na falta de descendentes e ascendentes, a herança será deferida por inteiro ao cônjuge sobrevivente –</p><p>art.1838.</p><p>O cônjuge sobrevivente ocupa sozinho a 3ª classe da ordem de vocação hereditária (art. 1829, III).</p><p>Para que receba a herança devem ser observados os requisitos do art. 1830:</p><p> não estar separado judicial ou administrativamente ao tempo da morte do outro;</p><p> não estar separado de fato há mais de dois anos, e se estiver, conseguir provar que o fim do</p><p>casamento não se deu por culpa sua.</p><p>OBS1: este artigo abre margem a discussões judiciais. Cria uma zona de conflitos. O morto podia estar</p><p>separado de fato, por exemplo, há dez anos e vivendo em união estável com outra pessoa, que mesmo</p><p>assim, o cônjuge sobrevivente poderia provar que a separação de fato não se deu por culpa sua e</p><p>reivindicar a herança dos bens adquiridos durante a separação de fato.</p><p>OBS2: O STJ já havia firmado entendimento, antes mesmo da entrada em vigor do CC/02, de que o</p><p>regime de bens cessava com a prolongada separação de fato, não se comunicando os bens adquiridos</p><p>por um deles nesse tempo, sem qualquer esforço ou colaboração do outro, com quem não mais</p><p>coabitava.</p><p>O IBDFAM já encaminhou sugestão de alteração do art. 1830 ao Congresso Nacional, propondo que</p><p>estando separado de fato o casal, desapareçam os direitos sucessórios (sem referência a prazo mínimo e</p><p>questionamento de culpa).</p><p>No CC/1916, o cônjuge não era herdeiro necessário, podendo ser afastado da sucessão por testamento.</p><p>Além disso, a separação de fato não excluía o cônjuge sobrevivente da sucessão (mas ele só herdava se</p><p>não houvesse descendentes nem ascendentes).</p><p>MEAÇÃO NÃO É HERANÇA: A existência da meação e a sua extensão dependem do regime de</p><p>bens do casamento. Ex: na comunhão parcial comunicam-se os bens adquiridos a título oneroso</p><p>na constância do casamento (são os chamados aquestos).</p><p>Quando morre uma pessoa casada, há que se apurar o que pertencia ao morto e o que pertence</p><p>ao cônjuge sobrevivente (pertence não porque o outro cônjuge morreu e sim porque aquela</p><p>porção ideal do patrimônio já lhe pertencia). É como na dissolução de uma sociedade entre duas</p><p>pessoas, com o fim da sociedade, os bens comuns devem ser divididos.</p><p>O CC/02 quis proteger o cônjuge quando não houver meação.</p><p>Concorrência com descendentes – art. 1829, I c/c art.1832 (reserva da quarta parte).</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 22</p><p>Não concorre com descendentes no regime da comunhão universal e no regime da separação</p><p>obrigatória. Também não concorre com descendentes no regime</p><p>da comunhão parcial se o morto</p><p>não tiver deixado bens particulares (porque é nesses que herda em concorrência com</p><p>descendentes).</p><p>Concorrência com ascendentes – art. 1837 (independentemente do regime de bens)</p><p>DIREITO REAL DE HABITAÇÃO – art.1831 - Independentemente do regime de bens, o cônjuge</p><p>sobrevivente fará jus ao direito real de habitação, relativamente ao imóvel destinado à residência</p><p>da família, desde que seja o único desta natureza a inventariar. Direito de moradia e não de</p><p>usufruto. Visa preservar as condições de vida do cônjuge sobrevivente.</p><p>Entende-se que o direito real de habitação só existirá enquanto durar a viuvez, ainda que a lei</p><p>assim não disponha, ou seja, se o cônjuge sobrevivente se casar novamente ou constituir união</p><p>estável perde esse direito.</p><p>Para a doutrina moderna, o novo casamento ou união estável não impedem a continuidade do</p><p>direito real de habitação.</p><p>Em caso de casamento nulo ou anulado, o cônjuge sobrevivente será chamado a herdar se o</p><p>contraiu de boa-fé (casamento putativo – art. 1561, § 1º) e desde que a morte aconteça antes da</p><p>sentença declaratória de nulidade ou anulatória.</p><p>Se houver reconciliação (restabelecimento de sociedade conjugal- art.1.577) após a separação</p><p>judicial ou administrativa), o cônjuge sobrevivente sucederá o cônjuge falecido.</p><p>Se houver somente reconciliação de fato, não herdará, mas instaurar-se-á entre o casal uma</p><p>união estável, partilhando-se os bens adquiridos durante a convivência e herdando nos termos do</p><p>art. 1790 em relação aos bens adquiridos onerosamente na união estável.</p><p>Esclareça-se que o direito real de habitação do cônjuge sobrevivente é garantido</p><p>independentemente de ele possuir outros bens em seu patrimônio pessoal. Com esse</p><p>fundamento, a Terceira Turma negou provimento ao REsp 1.582.178, que questionava a</p><p>permanência de uma viúva no imóvel familiar com a alegação de que ela possuía outros imóveis.</p><p>Para o ministro Villas Bôas Cueva, relator, a única condição que o legislador impôs para assegurar</p><p>o direito real de habitação é que o imóvel destinado à residência do casal seja o único daquela</p><p>natureza a inventariar.</p><p>O direito real de habitação tem caráter gratuito (artigo 1.414 do Código Civil), razão pela qual os</p><p>herdeiros não podem exigir remuneração do companheiro sobrevivente pelo uso do imóvel, nem a</p><p>extinção do condomínio e a alienação do bem enquanto perdurar esse direito.</p><p>No julgamento do AgRg no REsp 1.436.350, o ministro Paulo de Tarso Sanseverino também</p><p>destacou não terem sido revogadas as disposições da Lei 9.278/1996, "subsistindo a norma que</p><p>confere o direito real de habitação ao companheiro sobrevivente diante da omissão do Código</p><p>Civil em disciplinar tal matéria em relação aos conviventes em união estável, consoante o princípio</p><p>da especialidade". O ministro Luis Felipe Salomão ressaltou que o direito real de habitação é ex vi</p><p>legis (por força da lei), decorrente do direito sucessório (artigo 1.831 do CC/2002); portanto, pode</p><p>ser exercido desde a abertura da sucessão (REsp 1.315.606). A partir desse momento, o cônjuge</p><p>ou companheiro sobrevivente tem instrumentos processuais para garantir o exercício do direito de</p><p>habitação, inclusive por meio de ação possessória.</p><p>11.2.4. Sucessão do Companheiro Sobrevivente.</p><p>AGORA TEM AS MESMAS REGRAS APLICADAS AO CÔNJUGE SOBREVIVENTE CASADO EM</p><p>COMUNHÃO PARCIAL DE BENS – DECISÃO DO STF.</p><p>CF/88 – art. 226, §3º - reconhecimento da união estável como entidade familiar.</p><p>Lei 8971/94 – esta lei exigia o prazo de 05 anos ou a existência de prole para a configuração da união</p><p>estável, regulava o direito dos companheiros a alimentos e à sucessão. Nela o companheiro sobrevivente</p><p>recebia o patrimônio do falecido se não houvesse descendentes ou ascendentes.</p><p>Lei 9278/96 – não previa prazo e mantinha os dispositivos da lei 8971/94 que com ela não conflitassem.</p><p>O companheiro continuava herdando toda a herança se não houvesse descendentes nem ascendentes</p><p>do de cujus. Além disso, esta lei conferia mais direitos à companheira do que à esposa. A companheira</p><p>podia ter tanto o usufruto vidual (usufruto da quarta parte dos bens do falecido, se houvesse filhos, e de</p><p>metade, se não houvesse, enquanto não constituísse nova união) como o direito real de habitação e a</p><p>esposa tinha direito a um ou outro, dependendo do regime de bens.</p><p>CC/02 disciplinou a união estável nos arts. 1723 a 1727, e os direitos sucessórios do companheiro</p><p>sobrevivente no art. 1790, revogando tacitamente as Leis 8971/94 e 9278/96.</p><p>Não houve referência ao direito real de habitação do companheiro. O Enunciado 117 do Conselho da</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 23</p><p>Justiça Federal aprovado na I Jornada de Direito Civil (2002) dispõe que: “o direito real de habitação deve</p><p>ser estendido ao companheiro, seja por não ter sido revogada a previsão da Lei 9278/96, seja em razão</p><p>da interpretação analógica do art. 1831, informado pelo art. 6º, caput, da CF/88.”</p><p>O art. 1790, inexplicavelmente colocado nas disposições gerais do título referente ao direito das</p><p>sucessões e não no capítulo da vocação hereditária, preceitua que o companheiro sobrevivente</p><p>participará da sucessão do outro quanto aos bens adquiridos onerosamente na vigência da união estável.</p><p>O companheiro sobrevivente recebe tratamento diferente do cônjuge sobrevivente (este tem maior</p><p>participação na herança e foi incluído no rol dos herdeiros necessários, ao lado dos descendentes e</p><p>ascendentes – art. 1845).</p><p>Enquanto aos leis 8971/94 e 9278/96 buscaram igualar os direitos dos companheiros aos dos cônjuges, o</p><p>CC/02 trouxe tratamento sucessório desigual, colocando o companheiro em uma situação de</p><p>inferioridade.</p><p>O art. 1790 restringia o direito do companheiro aos bens adquiridos onerosamente na vigência da união</p><p>estável; distingue a concorrência do companheiro com filhos comuns ou com filhos só do falecido; prevê o</p><p>direito à apenas metade do que couber aos que descenderem somente do autor da herança e estabelece</p><p>1/3 da herança na concorrência com outros parentes que não os descendentes. Não beneficia o</p><p>companheiro com quinhão mínimo em concorrência com descendentes.</p><p>Em 10 de maio de 2017, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu hoje por 7 votos a 3,</p><p>no Recurso Extraordinário 878.694/MG, que a união estável e o casamento possuem o mesmo</p><p>valor jurídico em termos de direito sucessório, tendo o companheiro os mesmos direitos a</p><p>heranças que o cônjuge (pessoa casada).</p><p>O STF afirmou, ainda, que a equiparação entre companheiro e cônjuge, para termos de herança,</p><p>abrange também as uniões estáveis de casais LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e</p><p>transexuais). O placar dessa decisão foi de 6 votos a favor e 2 contra.</p><p>Ambas as decisões tiveram repercussão geral e servem para todas as disputas em herança nas</p><p>diferentes instâncias da Justiça. Pela tese estabelecida, foi considerado inconstitucional o Artigo 1.790 do</p><p>Código Civil, que determinava regras diferentes para a herança no caso de união estável.</p><p>“No sistema constitucional vigente, é inconstitucional a distinção de regimes sucessórios entre cônjuges e</p><p>companheiros, devendo ser aplicado, em ambos os casos, o regime estabelecido no artigo 1.829 do</p><p>Código Civil de 2002”, diz a tese estabelecida nos julgamentos, elaborada pelo ministro Luís Roberto</p><p>Barroso.</p><p>Desta forma, mesmo que não seja casado no papel, o companheiro que provar a união estável terá direito</p><p>à metade da herança do falecido, sendo o restante dividido entre os filhos ou pais, se houver. Se não</p><p>houver descendentes ou ascendentes, a herança é integralmente do companheiro.</p><p>Antes, pelo Artigo 1.790, considerado agora inconstitucional, o companheiro tinha direito somente a uma</p><p>quota igual à que coubesse aos filhos comuns do casal.</p><p>“Todos os instrumentos protetivos à família devem ser igualmente aplicados,</p><p>independentemente do tipo</p><p>de família, da constituição da família. Não importa se a família foi constituída pelo casamento, não</p><p>importa se a família foi constituída pela união estável, não importa se a família constituída por união</p><p>estável sé hétero ou homoafetiva”, afirmou o ministro Alexandre de Moraes, que votou a favor da</p><p>equiparação de companheiros e cônjuges.</p><p>A decisão não alcança os julgamentos de sucessões que já tiveram sentenças transitadas em julgado ou</p><p>partilhas extrajudiciais com escritura pública.</p><p>No caso concreto julgado foi beneficiada uma viúva que havia sido obrigada a partilhar a herança com</p><p>três irmãos de seu companheiro falecido.</p><p>O julgamento havia se iniciado no ano passado. Votaram para que ela tivesse direito à metade da</p><p>herança os ministros Luís Roberto Barroso (relator), Rosa Weber, Luiz Fux, Edson Fachin, Celso de</p><p>Mello, o falecido ministro Teori Zavascki e a ministra Cármen Lúcia, presidente da Corte. Foram contra a</p><p>equiparação entre casamento e união estável Dias Toffoli, Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski.</p><p>Na análise sobre a união estável homoafetiva, um homem que viveu por 40 anos com seu companheiro</p><p>ganhou o direito de ficar com metade da herança, dividindo-a com a mãe do falecido.</p><p>Neste segundo caso, foram favoráveis os ministros Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Luiz Fux, Edson</p><p>Fachin, Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia. Votaram contra Marco Aurélio (relator) e Dias Toffoli. Celso</p><p>de Mello não participou da sessão, tampouco Gilmar Mendes, que esteve ausente do julgamento anterior.</p><p>Obs1: União Estável e Direito das Sucessões no STJ! “O relator, ministro Paulo de Tarso Sanseverino,</p><p>afirmou que o Supremo Tribunal Federal já havia reconhecido como inconstitucional a diferenciação dos</p><p>regimes sucessórios do casamento e da união estável, ao julgar o RE 878.694”. (RESP: 1617501/RS)</p><p>11.2.5. Sucessão dos Colaterais</p><p>Ficam em 4º Lugar na ordem da vocação hereditária</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 24</p><p>Se não houver cônjuge ou companheiro sobrevivente serão chamados a suceder os colaterais até o 4º</p><p>grau (art. 1839).</p><p>Parentesco na linha colateral: Parentes em linha colateral, transversal ou oblíqua são as pessoas que</p><p>provêm de um tronco comum sem descenderem uma da outra. É o caso de irmãos, tios, sobrinhos,</p><p>primos. Cabe observar que na linha reta o parentesco é infinito, mas na colateral estende-se somente até</p><p>o 4º grau. A contagem dos graus de parentesco na linha colateral se faz pelo sistema romano de</p><p>contagem de graus (art. 1594)</p><p>Não há parentesco em primeiro grau na linha colateral, o parentesco mais próximo é o de segundo grau,</p><p>existente entre irmãos, porque quando contamos uma geração ainda estamos na linha reta.</p><p>Entre os colaterais, os mais próximos excluem os mais remotos, salvo o direito de representação</p><p>concedido aos filhos de irmãos (art. 1840, CC).</p><p> Havendo irmãos (parentes em 2º grau), os tios não herdam (3º grau).</p><p> Havendo tios e sobrinhos (ambos parentes colaterais em 3º grau), os sobrinhos herdam - a lei</p><p>abre exceção em favor da geração mais jovem. Se o de cujus deixa um irmão e dois filhos de</p><p>outro irmão premorto, a herança se divide em 02 partes iguais; uma pertencerá ao irmão</p><p>sobrevivente, que herdará por direito próprio e a outra aos dois sobrinhos (subdividida em partes</p><p>iguais) – os sobrinhos herdarão por estirpe ou representação.</p><p> Se o de cujus deixa somente sobrinhos, estes herdam por direito próprio. Mas se algum sobrinho</p><p>for falecido, os seus filhos (sobrinhos-netos) não herdam, a herança será deferida somente aos</p><p>sobrinhos sobreviventes, porque o direito de representação só é concedido aos filhos de irmãos</p><p>(art. 1840).</p><p>ENTRE IRMÃOS A SUCESSÃO OBEDECE REGRAS PRÓPRIAS - Se concorrerem à herança irmãos</p><p>bilaterais ou germanos (irmãos por parte de pai e de mãe) com irmãos unilaterais (só por parte de pai ou</p><p>só por parte de mãe), cada um dos unilaterais herdará metade do que cada um dos bilaterais herdar. (art.</p><p>1841) Ex: se o falecido deixou 04 irmãos – dois unilaterais e dois bilaterais e um patrimônio de</p><p>R$300.000,00 – os irmãos unilaterais receberão R$50.000,00 cada e os bilaterais 100.000,00 cada:</p><p>X+X+2X+2X=300.000,00 6X=300.000,00 X= 50.000,00</p><p>Se concorrerem somente irmãos unilaterais ou somente irmãos bilaterais, a herança será dividida em</p><p>partes iguais (art. 1842)</p><p>OBS: Embora tios e sobrinhos sejam parentes colaterais em 3º grau, a lei dá preferência aos sobrinhos,</p><p>ou seja, à energia mais nova.</p><p>O art. 1843 dispõe que na falta de irmãos, herdarão os filhos destes (sobrinhos) e não os havendo, os</p><p>tios.</p><p>Concorrendo à herança somente filhos de irmãos falecidos, herdarão por cabeça (art. 1843, § 1º). Se</p><p>todos forem filhos de irmãos bilaterais ou todos de irmãos unilaterais, herdarão por igual (art. 1843, § 3º).</p><p>SE CONCORREREM FILHOS DE IRMÃOS BILATERAIS COM FILHOS DE IRMÃOS UNILATERAIS,</p><p>CADA UM DESTES HERDARÁ METADE DO QUE HERDAR CADA UM DOS BILATERAIS (art. 1843, §</p><p>2º).</p><p>Não havendo sobrinhos, chamam-se os tios, depois os primos, sobrinhos-netos e tios-avós (parentes</p><p>colaterais em 4º grau). Como não existe representação, sucedem por direito próprio e herdam</p><p>igualmente.</p><p>OBS2: Os colaterais são herdeiros legítimos, mas não são herdeiros necessários. Para o autor da</p><p>herança excluí-los da sucessão, basta que faça testamento dispondo de todo o seu patrimônio sem os</p><p>contemplar (art. 1850).</p><p>RECOLHIMENTO DA HERANÇA PELO MUNICÍPIO, DISTRITO FEDERAL E UNIÃO (art. 1844, CC)</p><p>Só se aplica este artigo aos casos em que o de cujus falece sem deixar testamento, pois a entrega dos</p><p>bens ao Poder Público pode ser evitada mediante disposição testamentária. O poder público não é</p><p>herdeiro, não lhe sendo reconhecido o direito à saisine, ou seja, os bens não passam a ele no momento</p><p>da abertura da sucessão como acontece com os herdeiros. Apenas recolhe a herança na falta de</p><p>herdeiros, ou quando todos renunciam, a herança torna-se jacente e transforma-se, posteriormente em</p><p>vacante, e só então os bens passam ao domínio público (após a declaração de vacância e decorridos</p><p>cinco anos da abertura da sucessão – art. 1822 do CC e art. 1142 e seguintes do CPC. Não sendo</p><p>herdeiro, o Estado não aceita a herança nem pode repudiá-la ou renunciá-la. Torna-se sucessor</p><p>obrigatório. O chamamento do Poder Público à herança vacante obedece razões de interesse público e</p><p>social, atendendo necessidades políticas, econômicas e sociais, já que em nosso sistema não pode haver</p><p>herança sem dono.</p><p>12. DIREITO DE REPRESENTAÇÃO (ARTS. 1851 a 1856)</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 25</p><p>12.1. Conceito: Direito de representação ou representação sucessória traduz-se em um benefício da lei,</p><p>em virtude do qual os descendentes de uma pessoa falecida são chamados a substituí-la na sua</p><p>qualidade de herdeira legítima, exercendo em sua plenitude o direito hereditário que a ela competia.</p><p>12.2. Formas de suceder: Sucede-se por:</p><p> direito próprio (e por cabeça) – quando a herança é deferida ao herdeiro mais próximo (seja em</p><p>virtude de parentesco seja pela condição de cônjuge ou companheiro).</p><p> representação (e por estirpe) – quando a pessoa é chamada a suceder em lugar de parente mais</p><p>próximo do autor da herança, pré-morto, ausente ou incapaz de suceder.</p><p>Sucede-se por representação quando, no momento da abertura da sucessão, falta quem devia suceder.</p><p>Se o de cujus deixa filhos, estes sucedem-no por direito próprio. Se no entanto, um dos filhos é falecido, o</p><p>seu lugar é ocupado pelos filhos que porventura tenha, que herdarão por representação ou estirpe.</p><p>OBS: Sucessão por direito de representação é diferente de sucessão por direito de transmissão. Na</p><p>primeira o herdeiro vem ocupar o lugar do representado e sucede ao autor da herança num só chamado.</p><p>Na segunda, há dois chamamentos ou duas transmissões</p><p>– a herança passa ao herdeiro do de cujus e</p><p>por morte dele passa aos seus descendentes.</p><p>12.3. Fundamento jurídico: Representação é instituto da sucessão legítima. Não se aplica à sucessão</p><p>testamentária (nesta admite-se a substituição vulgar quando o testador estipula que os bens por ele</p><p>deixados passem por pré-morte do beneficiário aos seus herdeiros (art. 1947).</p><p>12.4. Finalidade: relativizar o rigor da regra de que o grau mais próximo exclui o mais remoto. O art. 1851</p><p>preceitua que: “Dá-se o direito de representação, quando a lei chama certos parentes do falecido a</p><p>suceder em todos os direitos, em que ele sucederia, se vivo fosse.” Por sua vez, o art. 1854, de forma</p><p>redundante, dispõe que: “Os representantes só podem herdar, como tais, o que herdaria o representado,</p><p>se vivo fosse.” Malgrado a existência de várias teorias sobre o fundamento jurídico do direito de</p><p>representação, prevalece o entendimento de que é um direito, previsto em lei, e não uma ficção jurídica</p><p>como se acredita no direito francês.</p><p>12.5. Requisitos do direito de representação: São necessários os seguintes requisitos para que ocorra</p><p>o direito de representação:</p><p>a) que o representado tenha falecido antes do representante, salvo as hipóteses de ausência, indignidade</p><p>e deserdação. Não se representa pessoa viva – regra.</p><p>Exceções:</p><p>- representação do indigno – ele é considerado como morto para efeitos hereditários (art. 1816).</p><p>- representação do ausente – ele é considerado presumidamente morto com a abertura da sucessão</p><p>definitiva (art. 6º, 2ª parte, CC).</p><p>Parte da doutrina entende que o deserdado não tem situação idêntica à do indigno e que não haveria</p><p>direito de representação do herdeiro deserdado (já que não se admite direito de representação na</p><p>sucessão testamentária). Entretanto, a maioria da doutrina argumenta que a pena não pode passar da</p><p>pessoa do delinquente e que os filhos do herdeiro deserdado devem representá-lo. Há um Projeto de lei</p><p>em tramitação para igualar a representação tanto nos casos de indignidade quanto nos de deserdação. A</p><p>situação do herdeiro renunciante é diferente – pois ele é considerado como se nunca tivesse sido</p><p>herdeiro e por isso não pode ser substituído por seu descendente (art. 1811).</p><p>b) que o representante seja descendente do representado. A representação caracteriza-se pela chamada</p><p>de descendente para substituir o ascendente em uma sucessão. Na linha reta, o filho substitui o pai na</p><p>sucessão do avô e assim por diante. Na linha colateral, o filho substitui o pai na sucessão do tio (irmão do</p><p>pai) em concorrência com outros tios.</p><p>VALE LEMBRAR QUE O ART. 1851 DISPÕE QUE O DIREITO DE REPRESENTAÇÃO SE DÁ</p><p>NA LINHA RETA DESCENDENTE, MAS NUNCA NA ASCENDENTE.</p><p>c) que o representante tenha legitimação para herdar no momento da abertura da sucessão. A</p><p>legitimação para herdar é aferida em relação ao de cujus e não em relação ao representado. Predomina o</p><p>entendimento de que quem foi deserdado por alguém ou julgado indigno para lhe suceder pode</p><p>representar tal pessoa, porque a deserdação ou a indignidade somente concernem à herança de quem</p><p>deserdou ou para a qual houve a declaração de indignidade. Basta que possa herdar da terceira pessoa,</p><p>basta que esta não o tenha deserdado ou que não haja sentença declaratória de indignidade.</p><p>Logo, o filho que renunciou à herança do pai, ou quem foi deserdado ou declarado indigno, pode</p><p>representar o pai e recolher a herança do avô, a não ser que com relação ao avô também seja indigno de</p><p>suceder.</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 26</p><p>O CC italiano e português dispõe expressamente: Os descendentes representam o seu ascendente,</p><p>mesmo que tenham repudiado a sucessão deste ou sejam incapazes em relação a ele. Silvio Venosa</p><p>discorda – acha que o filho declarado indigno em relação à sucessão do pai premorto não pode suceder o</p><p>avô.</p><p>d) que não haja solução de continuidade no encadeamento dos graus entre representante e representado</p><p>- não pode o neto saltar sobre o pai vivo para representá-lo na herança do avô, salvo no caso de</p><p>ausência, indignidade ou deserdação. A representação não se dá per saltum, isto é não se dá com</p><p>omissão de uma geração. Se o filho é vivo, não podem seus filhos representá-lo; Se um herdeiro renuncia</p><p>não podem ser chamados os seus sucessores no seu lugar. Por isso se diz que não é possível ocupar o</p><p>grau de um herdeiro, a não ser que este grau esteja vago.</p><p>e) que reste no mínimo um filho do de cujus ou na linha colateral um irmão do falecido. Isto porque se</p><p>todos os filhos já morreram, os netos herdam por direito próprio e se todos os irmãos já morreram, os</p><p>sobrinhos herdam por direito próprio.</p><p>12.6. Linhas em que se dá o direito de representação</p><p>12.6.1 Linha reta: Só se verifica o direito de representação na linha reta descendente. Nunca na</p><p>ascendente (art. 1852) Na linha reta os filhos herdam por cabeça, enquanto os outros descendentes</p><p>herdam por estirpe (ou por representação), se não estiverem no mesmo grau. O quinhão que cabe a cada</p><p>estirpe será dividido entre os representantes (art. 1855) – A estirpe é chamada em conjunto (ex: netos do</p><p>herdeiro premorto), mas dentro de cada estirpe o quinhão é dividido igualmente entre os seus membros.</p><p>12.6.2. Linha colateral: Na linha colateral o direito de representação ocorre em favor dos filhos de irmãos</p><p>(sobrinhos) quando concorrerem com irmãos do de cujus (art. 1853). Na classe dos colaterais, os mais</p><p>próximos excluem os mais remotos, salvo o direito de representação concedido aos filhos de irmãos (art.</p><p>1840). Se o morto deixa apenas sobrinhos, estes herdam por cabeça e em partes iguais. Não há direito</p><p>de representação em favor de filhos de sobrinhos (sobrinhos-netos). Se o de cujus deixa 03 sobrinhos e</p><p>um deles é falecido, os filhos deste não herdam. A herança é deferida unicamente aos sobrinhos</p><p>sobreviventes, excluindo-se os sobrinhos-netos. Da mesma forma se o falecido deixa um primo-irmão, só</p><p>este recolhe a herança, ainda que haja filhos de primo-irmão falecido premorto.</p><p>12.7. Efeitos da Representação</p><p>Principal efeito é atribuir a herança a pessoas que não sucederiam por existir herdeiro de grau mais</p><p>próximo, mas que herdam por substituir herdeiro premorto. Os representantes só podem herdar o que</p><p>herdaria o representado se vivo fosse (art. 1854), não recebem menos nem mais do que receberia o</p><p>representado. O quinhão do representado partir-se-á por igual entre os representantes (art. 1855)</p><p>Além disso, VALE LEMBRAR que o renunciante da herança de uma pessoa, poderá representá-la na</p><p>sucessão de outra (art. 1856). Se o filho renuncia à herança do pai, os netos (filhos do renunciante) não</p><p>herdam por representação; MAS o renunciante pode representar o de cujus na sucessão de terceira</p><p>pessoa, porque a renúncia só se estende a herança do pai. Pode haver renúncia à herança do pai (por</p><p>ex. Para beneficiar irmão mais necessitado). E isso não importa em renúncia à herança do avô, para a</p><p>qual o renunciante pode ser chamado para representar seu pai premorto.</p><p>Outro efeito é a obrigação dos netos, representando seus pais, levarem à colação às doações que seus</p><p>pais receberam do falecido (art. 2009). Se os netos herdam por direito próprio é irrelevante que seus pais</p><p>tenham recebido doações. Mas se herdam por direito de representação, devem conferir as doações</p><p>recebidas pelo ascendente que representa.</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 27</p><p>13. DOS HERDEIROS NECESSÁRIOS</p><p>O CC/1916 dispunha sobre os herdeiros necessários no título relativo à sucessão testamentária. O</p><p>CC/1916 não enumerava os herdeiros necessários, mas se depreendia da leitura do art. 1721 que eram</p><p>apenas os descendentes e ascendentes: “o testador que tiver descendente ou ascendente sucessível não</p><p>poderá dispor da metade de seus bens.”</p><p>O CC/02 promoveu um novo enquadramento</p><p>da matéria para discipliná-la no título referente à sucessão</p><p>legítima. O art. 1845 declara expressamente: “São herdeiros necessários os descendentes, os</p><p>ascendentes e o cônjuge.”</p><p>HERDEIRO NECESSÁRIO (reservatário, obrigatório ou forçado) – art. 1845, CC – é descendente ou</p><p>ascendente sucessível (ou seja, parentes em linha reta não excluídos da sucessão por indignidade ou</p><p>deserdação), bem como o cônjuge.</p><p>É o herdeiro que não pode ser afastado da sucessão pela simples vontade do autor da herança, salvo em</p><p>caso de deserdação (art. 1846).</p><p>A expressão herdeiro necessário é diferente da expressão herdeiro legítimo (art. 1829). Todo herdeiro</p><p>necessário é legítimo, mas nem todo herdeiro legítimo é necessário.</p><p>13.1. Restrição à liberdade de testar</p><p>Sistema da liberdade limitada de testar (art. 1846). O art. 1846 dispõe que “pertence aos herdeiros</p><p>necessários, de pleno direito, a metade dos bens da herança, constituindo a legítima”.</p><p>LEGÍTIMA OU RESERVA – porção de bens que a lei assegura aos herdeiros necessários – corresponde</p><p>à metade dos bens do testador ou à metade de sua meação, nos casos em que o regime de bens do</p><p>casamento a instituir.</p><p>PORÇÃO OU QUOTA DISPONÍVEL – parte dos bens que o testador pode dispor livremente, ainda que</p><p>tenha herdeiros necessários.</p><p>Se não há descendente, ascendente ou cônjuge, o testador desfruta de PLENA LIBERDADE, podendo</p><p>transmitir todo o seu patrimônio (que nesse caso não se divide em legítima e porção disponível) a quem</p><p>desejar, exceto às pessoas não legitimadas a adquirir por testamento (art. 1798 e 1801).</p><p>OBS: Vale lembrar que o autor da herança pode fazer honestamente dos seus bens o que bem entender</p><p>e, teoricamente, nada deixar de herança ou legítima. É o caso de alienar todos os bens e gastar em vida</p><p>o produto das alienações.</p><p>O sistema da liberdade limitada de testar não garante aos herdeiros necessários a certeza de que</p><p>efetivamente herdarão uma parte do acervo do autor da herança.</p><p>13.2. Cálculo da Legítima (art. 1847)</p><p>As dívidas constituem o passivo do de cujus e devem ser abatidas para que se apure o patrimônio líquido</p><p>e real transmitido aos herdeiros.</p><p>Se as dívidas absorvem todo o acervo deixado, não há herança.</p><p>Despesas de funeral são dispêndios da herança que devem ser atendidos prioritariamente (art. 1998).</p><p>O patrimônio líquido é dividido em duas metades: LEGÍTIMA E PORÇÃO DISPONÍVEL – que a princípio</p><p>têm o mesmo valor.</p><p>O valor da legítima pode eventualmente superar o da porção disponível se o testador tiver feito doações a</p><p>seus descendentes, as quais devem vir à colação – art. 544 e art. 2002 do CC.</p><p>Falecido o autor da herança, pagas as dívidas e as despesas de funeral, divide-se o patrimônio em duas</p><p>partes. A legítima será uma delas, acrescidas do valor das doações recebidas pelos descendentes do de</p><p>cujus (que não tenham sido dispensados de conferir ou de colacionar – art. 2006)</p><p>OBS: o doador pode dispensar da colação o descendente beneficiado, quando dispuser que se trata da</p><p>metade disponível e esta for maior que o valor da doação (art. 2005, CC).</p><p>Colação – bens que o autor da herança teria doado aos descendentes ou cônjuge quando vivo</p><p>(adiantamento da legítima). Ato pelo qual os descendentes que concorrem à sucessão do ascendente</p><p>comum declaram os bens que dele receberam em vida para que sejam conferidos e igualados os</p><p>quinhões hereditários. – art. 544, CC</p><p>O Cônjuge só é obrigado a colacionar se concorrer com descendentes.</p><p>Colacionar não é devolver o bem ao monte, é só pegar os valores emprestados para calcular a legítima, a</p><p>fim de igualar os quinhões hereditários.</p><p>O valor da colação é aquele que o bem tinha no momento da doação (c/ atualização monetária e</p><p>avaliação retrospectiva se no instrumento da liberalidade não constou o valor do bem).</p><p>Doações a ascendentes não obrigam à colação.</p><p>Gráfico: PL – MD + colação = Legítima</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 28</p><p>Exemplo: Joselito falece e deixa dois filhos, um patrimônio de R$125.000,00, dívidas no valor de</p><p>R$5.000,00. Em vida Joselito havia doado ao filho Joselito Júnior um bem avaliado em R$10.000,00 e ao</p><p>filho Joselito Filho um bem avaliado em R$20.000,00. Qual o valor da legítima?</p><p>1º paga-se as dívidas para apurar o patrimônio líquido, logo o PL (patrimônio líquido) equivale a</p><p>R$120.000,00. 2º divide-se o patrimônio líquido em duas partes para encontrar a MD (metade disponível),</p><p>que equivale a R$60.000,00.</p><p>Legítima = PL – MD + colação (bens doados em vida aos descendentes)</p><p>Legítima = 120.000,00 – 60.000,00 +30.000,00</p><p>Legítima= 90.000,00 a ser dividida entre os dois herdeiros de Joselito (45.000,00 para cada). Como</p><p>Joselito Júnior já havia recebido 10.000,00, agora receberá 35.000,00 Como Joselito Filho havia recebido</p><p>em vida 20.000,00, agora herdará 25.000,00</p><p>OBS2: Os netos são obrigados a colacionar quando o pai falecido recebeu bem por doação e os netos o</p><p>representam na herança do avô – art. 2009.</p><p>ART. 1849 – o herdeiro necessário a quem o testador deixar sua parte disponível ou algum legado, não</p><p>perderá o direito à legítima. O testador pode deixar a metade disponível a um herdeiro necessário, já que</p><p>pode atribuí-la a quem bem entender (estranho ou herdeiro).</p><p>O art. 1849 permite que o herdeiro seja beneficiado duas vezes: 1º com a sua porção na legítima,</p><p>concorrendo com os outros eventuais herdeiros necessários; e 2º com parte ou totalidade da</p><p>quota/porção disponível.</p><p>A deixa, desde que não ultrapasse os limites da quota disponível é perfeitamente válida, não</p><p>necessitando ser colacionada no inventário.</p><p>Como só aos descendentes, ascendentes e cônjuge é assegurado o direito à legítima, os herdeiros</p><p>colaterais podem ser excluídos da sucessão. Não se exige que a exclusão seja expressa, basta que o</p><p>testador disponha de seu patrimônio sem os contemplar – art. 1850.</p><p>13.3. Cláusulas Restritivas.</p><p>Apesar de a legítima ser intocável, admite-se que o testador indique os bens que a comporão – art. 2014</p><p>e 2018, CC. Não havendo ofensa à legítima, pode o autor da herança realizar a partilha dos bens em vida</p><p>ou estipulá-la em testamento.</p><p>OBS: Se for casado sob o regime da comunhão universal de bens e deixar cônjuge sobrevivente, a</p><p>indicação dos bens constitutivos da legítima será considerada simples conselho, que o juiz atenderá ou</p><p>não, porque o cônjuge sobrevivente tem preferência na escolha dos bens a serem partilhados, cuja</p><p>metade já lhe pertence.</p><p>O CC/1916 permitia ao testador determinar a conversão dos bens que compõe a legítima em outra</p><p>espécie; prescrever-lhes a incomunicabilidade; confiá-los à livre administração da mulher herdeira</p><p>(excluindo a gestão do marido); estabelecer-lhes condições de inalienabilidade temporária ou vitalícia.</p><p>O CC/02 proíbe expressamente a conversão dos bens da legítima em outros de espécie diversa (art.</p><p>1848, § 1º - não é permitido ao testador estabelecer a conversão dos bens da legítima em outros de</p><p>espécie diversa). Ex: venda dos imóveis para aquisição de ações de determinada empresa.</p><p>Esta proibição não comporta justificativa que permita incluir a conversão dos bens no testamento.</p><p>O CC/02 proibiu a imposição de cláusula de inalienabilidade, incomunicabilidade e impenhorabilidade</p><p>sobre os bens da legítima, SALVO se houver justa causa declarada no testamento (art. 1848, caput) Não</p><p>basta que o testador aponte a causa no testamento; ela deve ser justa (questão que pode tumultuar os</p><p>processos em razão da alta subjetividade deste conceito aberto).</p><p>OBS: Se o testador explica que impõe a incomunicabilidade sobre a legítima do filho porque a esposa</p><p>dele não é confiável; ou se declara que grava a legítima da filha de inalienabilidade porque ela é uma</p><p>gastadora compulsiva, viciada em jogo, será constrangedor e difícil concluir se a causa é justa ou injusta.</p><p>A limitação imposta no art. 1848, caput, restringe-se ao testador e à legítima, não alcançando</p><p>a parte</p><p>disponível ou o doador.</p><p>OBS: O testador pode, ainda, subtrair do usufruto paterno os bens deixados aos herdeiros menores, bem</p><p>como excluí-los da administração de seus pais (art. 1693, III, CC).</p><p>- Regra transitória – art. 2042, CC</p><p>Sucessões abertas após 01 ano da entrada em vigor do NCC aplica-se o art. 1848, caput. Testamentos</p><p>feitos nos moldes do art. 1916 terão de ser feitos novos testamentos, aditando o anterior para declarar a</p><p>justa causa aposta à legítima. Se a sucessão abrir-se após um ano da vigência do CC, não subsistirá a</p><p>restrição se não foi colocada a justa causa no prazo de até um ano de vigência do NCC.</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 29</p><p>13.3.1 Cláusula de Inalienabilidade - Art.1911</p><p>As cláusulas de inalienabilidade, impenhorabilidade e incomunicabilidade são admitidas sobre a legítima</p><p>somente em casos excepcionais de justa causa declarada no testamento. É bom lembrar que ninguém</p><p>pode gravar seus próprios bens. Só se grava com essas cláusulas os bens de terceiro e só por meio de</p><p>atos de disposição (doação/testamento). A cláusula de inalienabilidade impede a alienação do bem</p><p>(vender, doar, permutar, dar em pagamento) e não excederá, em duração, à vida do herdeiro.</p><p>A inalienabilidade pode ser:</p><p> temporária – quando vigora por determinado tempo</p><p> vitalícia – vige durante a existência da pessoa beneficiada</p><p> absoluta – quando prevalece em qualquer caso e com relação a qualquer pessoa</p><p> relativa – se é facultada a alienação em determinadas circunstâncias ou a determinadas pessoas,</p><p>indicadas pelo testador.</p><p>OBS: a cláusula de inalienabilidade não obsta à livre disposição dos bens por testamento ou, em falta</p><p>deste, à sua transmissão desembaraçada de qualquer ônus, aos herdeiros, pois quando vitalícia,</p><p>extingue-se com a morte do herdeiro necessário, não podendo ultrapassar uma geração. Como o</p><p>testamento só produz efeitos após a morte do testador (quando os bens já estarão livres da restrição), a</p><p>deixa testamentária é válida.</p><p>OBS2: A cláusula de inalienabilidade recebe várias críticas da doutrina porque a experiência mostra que a</p><p>inserção deste tipo de cláusula, mesmo que o testador esteja bem-intencionado, procurando ajudar o</p><p>herdeiro, acaba por prejudicá-lo. Além disso, impede a circulação de bens e obstrui a própria economia</p><p>por retirar bens do comércio, ainda que transitoriamente.</p><p>13.3.2. Cláusula de Incomunicabilidade</p><p>É a disposição pela qual o testador determina que a legítima do herdeiro necessário, qualquer que seja o</p><p>regime de bens de seu casamento, não entrará na comunhão. Se assim não fosse, pelo casamento</p><p>contraído sob o regime da comunhão universal, o beneficiário transmitiria metade dos bens ao cônjuge.</p><p>A incomunicabilidade não acarreta a inalienabilidade do bem. Assim, bens gravados somente com</p><p>cláusula de incomunicabilidade não se tornam inalienáveis.</p><p>Para Carlos Roberto Gonçalves, esta cláusula constitui uma eficiente proteção ao herdeiro sem que</p><p>colida com qualquer interesse geral da sociedade.</p><p>13.3.3. Cláusula de Impenhorabilidade</p><p>Só pode ser inserida por terceiros, em testamento ou doações, daí porque não se pode considerá-la</p><p>como uma diminuição da garantia dos credores.</p><p>Visa impedir a constrição judicial do bem. A inalienabilidade abrange também a impenhorabilidade – art.</p><p>1911</p><p>Para Silvio Venosa, aos frutos e rendimentos, da mesma forma que a inalienabilidade, só se estende a</p><p>impenhorabilidade se for vontade expressa manifestada pelo testador. - Os frutos e rendimentos dos bens</p><p>inalienáveis devem ser alienáveis porque destinam-se a satisfação das necessidades do titular do bem.</p><p>A melhor interpretação doutrinária é de que os frutos e rendimentos não podem ser clausulados para que</p><p>a propriedade não se torne de todo inútil.</p><p>Os frutos e rendimentos de bens impenhoráveis só devem ser constritos em último caso, quando não</p><p>houver mais outros bens disponíveis.</p><p>Se o testador expressamente excluir os frutos e rendimentos, o art. 650 do CPC não será aplicado. Há</p><p>quem entenda que a lei processual deve ser aplicada independentemente da vontade do testador.</p><p>13.3.4. Sub-rogação de vínculos - art.1848, § 2º</p><p>É possível a sub-rogação mediante autorização judicial e havendo justa causa.</p><p>Pode o juiz autorizar a venda de imóvel gravado com cláusula de inalienabilidade, utilizando-se o produto</p><p>da venda para a aquisição de outro imóvel de igual valor, ao qual serão transferidos os mesmos ônus do</p><p>primeiro (a inalienabilidade).</p><p>-Procedimento de jurisdição voluntária – art. 1112, II, CPC – pedido de sub-rogação A jurisprudência tem</p><p>admitido que o produto da venda seja depositado em caderneta de poupança, nos casos em que a</p><p>demora possa frustrar um negócio conveniente.</p><p>OBS: A cláusula de inalienabilidade pode levar a fraudes (avaliações tendenciosas, falsos motivos,</p><p>pagamentos “por fora”).Deveria ser excluída do ordenamento jurídico, mantendo-se apenas as cláusulas</p><p>de incomunicabilidade e impenhorabilidade.</p><p>OBS2: Pode haver sub-rogação de bens incomunicáveis ou impenhoráveis quando estas cláusulas forem</p><p>impostas isoladamente.</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 30</p><p>13.4. Documentos necessários para a sucessão legítima</p><p>Segue abaixo os documentos imprescindíveis para a propositura da petição de herança, como para a</p><p>abertura da sucessão legítima.</p><p>Certidão de</p><p>Óbito</p><p>dos falecidos Partilha</p><p>ITDCM</p><p>Declaração de</p><p>Inexistência</p><p>Testamento</p><p>Certidões</p><p>negativas</p><p>Certidões</p><p>dos bens</p><p>deixados</p><p>Provando a</p><p>propriedade</p><p>Inventariante</p><p>Procuração</p><p>‘’Ad Judicia’’</p><p>Liquidação da</p><p>Herança</p><p>RG e CPF</p><p>Herdeiros</p><p>Necessários</p><p>CPF dos</p><p>espólios</p><p>Abertura</p><p>Sucessão</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 31</p><p>14. SUCESSÃO TESTAMENTÁRIA</p><p>Decorre da expressa manifestação de vontade, em testamento ou codicilo. A vontade do falecido, a quem</p><p>a lei assegura a liberdade de testar, limitada apenas pelos direitos dos herdeiros necessários, constitui</p><p>causa necessária e suficiente da sucessão. Essa espécie de sucessão permite a instituição de herdeiros</p><p>(sucessores a título universal) e legatários (sucessores a título singular). No Brasil prepondera a sucessão</p><p>legítima sobre a testamentária do ponto de vista quantitativo.</p><p>14.1. Histórico</p><p>Coube aos romanos a criação do testamento, instituição que, depois do contrato, exerceu a maior</p><p>influência na transformação das sociedades ocidentais.</p><p>Antes da Lei das XII Tábuas surgiram em Roma as primeiras formas rudimentares de testamento, que se</p><p>realizavam perante o povo, que os aprovava ou não: os feitos em tempo de paz, perante as cúrias</p><p>reunidas, chamados in calatis comitis (perante a assembleia convocada) – em desuso no Século II a.C.; e</p><p>os feitos em tempo de guerra, perante o exército, posto em ordem de combate, chamados de in procinctu</p><p>(de pronto), em desuso no Século I a.C.</p><p>A Lei das XII Tábuas permitia que qualquer pessoa pudesse dispor, por morte, de seus bens, sem a</p><p>intervenção do povo. Surgiu o testamento per aes et libram (por dinheiro e peso) – era uma venda fictícia</p><p>da sucessão, feita pelo testador ao futuro herdeiro, perante o oficial público e 05 testemunhas. Os</p><p>pretores simplificaram este testamento, passando a admitir como testamento válido o escrito apresentado</p><p>a 07 testemunhas.</p><p>Somente no Baixo Império ou período pós-clássico é que surgem, de modo embrionário, as formas de</p><p>testamento que chegaram até nós: testamentos privados e testamentos públicos.</p><p>Antes do CC/1916 – existiam as seguintes modalidades de testamento: aberto ou público; cerrado;</p><p>particular; nuncupativo ou por palavra.</p><p>O CC/1916 instituiu os testamentos público, cerrado, particular, marítimo e militar, admitindo o</p><p>nuncupativo apenas como forma de testamento militar. Não se admitia o testamento conjuntivo ou de mão</p><p>comum.</p><p>O CC/02 apenas acrescenta a possibilidade do testamento aeronáutico e cria</p><p>uma nova modalidade de</p><p>testamento particular excepcional, com mínima formalidade. Permanece a proibição do testamento</p><p>conjuntivo.</p><p>14.2. Conceito</p><p>O CC/1916 definia testamento no art. 1626: “Considera-se testamento o ato revogável pelo qual alguém,</p><p>de conformidade com a lei, dispõe, no todo ou em parte, do seu patrimônio para depois de sua morte”.</p><p>Esta definição era defeituosa por omitir que o testamento pode ser utilizado para disposições de caráter</p><p>não patrimonial, além de omitir que o testamento é negócio jurídico unilateral, personalíssimo, solene e</p><p>gratuito.</p><p>O CC/02 não trouxe definição de testamento, já que, em regra, cabe à doutrina apresentar definições de</p><p>institutos jurídicos, mas a noção de testamento aparece nos arts. 1857 e 1858.</p><p>Tentativa conceitual: O testamento constitui ato unilateral, personalíssimo e revogável pelo qual alguém</p><p>dispõe da totalidade ou de parte de seus bens para depois de sua morte, bem como faz disposições de</p><p>caráter não patrimonial (reconhecimento de filhos, nomeação de tutor para filho menor, reabilitação do</p><p>indigno, instituição de fundação, etc). -art. 1857, §§ 1º e 2º</p><p>14.3. Características</p><p>a) ato personalíssimo (art.1858) – privativo do autor da herança. Não se admite a sua feitura por</p><p>procurador, nem mesmo com poderes especiais.</p><p>As disposições testamentárias devem ser a expressão direta da vontade do testador, que não pode</p><p>delegá-las nem conferir poder a outro para testar.</p><p>b) negócio jurídico unilateral - negócio jurídico - manifestação de vontade destinada a produzir efeitos;</p><p>unilateral – aperfeiçoa-se com uma única manifestação de vontade, a do testador. Só a vontade,</p><p>pessoalmente manifestada, do testador é suficiente à formação do testamento. O beneficiário não tem de</p><p>intervir para a perfeição e validade do testamento.</p><p>Se um herdeiro ou legatário comparece ao testamento, aceitando previamente as disposições que lhe</p><p>favorecem, estamos diante de um pacto sucessório, terminantemente proibido – art.426, CC.</p><p>OBS: É PROIBIDO O TESTAMENTO CONJUNTIVO (de mão comum ou mancomunado) – art.1863, feito</p><p>por duas ou mais pessoas na mesma cédula testamentária, seja simultâneo (disposição conjunta em</p><p>favor de terceira pessoa), recíproco (instituindo benefícios mútuos) ou correspectivo (disposições em</p><p>retribuição a outras correspondentes).</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 32</p><p>c) ato solene – só terá validade se forem observadas todas as formalidades essenciais previstas em lei.</p><p>Não podem ser postergadas, sob pena de nulidade do ato. Exceção: testamento nuncupativo, admissível</p><p>somente como espécie de testamento militar –art. 1896. É bom lembrar que formalidades é diferente de</p><p>formas de testamento. Há três formas ordinárias de testamento e cada uma delas tem suas formalidades</p><p>próprias descritas na lei.</p><p>d) ato gratuito - Não visa à obtenção de vantagens para o testador. Não se impõe ao beneficiado qualquer</p><p>contraprestação. A gratuidade é, efetivamente, da essência do testamento.</p><p>OBS: O encargo imposto no legado não retira do testamento a característica da gratuidade, do mesmo</p><p>modo que a doação com encargo não perde o caráter de liberalidade.</p><p>e) é essencialmente revogável – art.1969 - É inválida a cláusula que proíba a revogação do testamento</p><p>(cláusula revocatória ou derrogatória é nula). A revogabilidade é da essência do testamento e o testador</p><p>não está obrigado a declinar os motivos de sua ação, podendo usar do direito de revogá-lo, total ou</p><p>parcialmente, quantas vezes quiser. Exceção ao princípio da revogabilidade – art. 1609, III – o testamento</p><p>é irrevogável na parte em que o testador tenha reconhecido um filho.</p><p>f) é ato causa mortis - Produz efeitos somente após a morte do testador, seja qual for o momento em que</p><p>a vontade tenha sido emitida.</p><p>14.4. Capacidade de Testar</p><p>14.4.1. Espécies de capacidade testamentária:</p><p>- Ativa: quando diz respeito aos que podem dispor por testamento;</p><p>- Passiva: indica os que podem adquirir por testamento.</p><p>A capacidade do agente é requisito de validade do testamento, devendo ser observado o disposto no art.</p><p>104 do CC.</p><p>Para que o testamento seja válido é necessário que o testador tenha capacidade testamentária, que</p><p>compreende os pressupostos de inteligência e vontade, isto é, o entendimento do que representa o ato e</p><p>a manifestação do que o agente quer. Isso, sem prejuízo da capacidade genérica para a realização de</p><p>qualquer negócio jurídico.</p><p>A capacidade testamentária ativa constitui a regra, e a incapacidade a exceção, já que podem fazer</p><p>testamento todos os que não estão proibidos por lei. Dispõe o art. 1860, CC: Além dos incapazes, não</p><p>podem testar os que, no ato de fazê-lo, não tiverem pleno discernimento. Parágrafo único. Podem testar</p><p>os maiores de dezesseis anos.</p><p>O dispositivo acima menciona somente os que não podem testar: 1) os incapazes; 2) os que no ato de</p><p>fazê-lo não tiverem pleno discernimento. Exceto estas, todas as pessoas podem fazer testamento válido.</p><p>Assim, podem testar o cego, o analfabeto, o falido, etc... embora em alguns casos a lei restrinja o direito a</p><p>certas formas de testamento.</p><p>14.4.2. Incapacidade em razão da idade</p><p>Os menores de 16 anos são absolutamente incapazes e, nessa condição, não podem testar. Entretanto,</p><p>os maiores de 16 anos, relativamente incapazes, a lei assegura a possibilidade de testar, mesmo sem a</p><p>assistência de representante legal.</p><p>Apesar de os maiores de 16 anos e menores de 18 anos necessitarem de assistência por força das</p><p>regras gerais sobre a capacidade para a prática dos demais atos da vida civil, podem dispensá-la para</p><p>fazer testamento, pois a regra especial do parágrafo único do art. 1860 prevalece.</p><p>A capacidade testamentária ativa, que se alcança aos 16 anos de idade, é uma capacidade especial. A</p><p>razão dessa maior tolerância da lei decorre do fato de que o testamento só produz efeitos após a morte</p><p>do testador e, por isso, não resulta em prejuízos ao menor.</p><p>Além disso, por ser um ato essencialmente revogável, poderá o relativamente incapaz, que fez o</p><p>testamento quando ainda imaturo, revogá-lo a qualquer tempo, ou modificá-lo.</p><p>Deve-se ressaltar que, para a feitura do testamento, o que se pede é apenas uma consciência livre e</p><p>sadia, capaz de exprimir com retidão e equilíbrio a vontade do testador.</p><p>14.4.3. Incapacidade por falta de discernimento ou enfermidade mental</p><p>Os privados do necessário discernimento para a prática dos atos da vida civil, por enfermidade ou</p><p>deficiência mental, são absolutamente incapazes (art. 3º, inc. II, CC) e, por esse motivo, não podem testar</p><p>(art. 1860, 1ª parte).</p><p>Quem são os portadores de enfermidade ou deficiência mental? Todos os casos de insanidade mental de</p><p>modo permanente e duradouro, que eram chamados no CC/1916 de “loucos de todo gênero” - os</p><p>alienados de qualquer espécie, os perturbados mentalmente, os amentais, os mentecaptos, os furiosos,</p><p>os dementes, os afetados por doenças psíquicas de intensidade capaz de privá-los do necessário</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 33</p><p>discernimento para os atos da vida civil.</p><p>Situação diferente das pessoas referidas na 2ª parte do art. 1860 – aquelas que, no ato de testar, não</p><p>tiverem o necessário discernimento. Estas apenas não se encontram em seu perfeito juízo no momento</p><p>de testar, em virtude de alguma patologia, embriaguez, uso de entorpecentes ou de substância</p><p>alucinógenas, hipnose ou outras causas semelhantes e transitórias.</p><p>Simples enfraquecimento da memória, senilidade, não acarretam incapacidade.</p><p>SERÁ NULO o testamento efetuado por quem não se ache no gozo de suas faculdades mentais. Se</p><p>houver ocorrido INTERDIÇÃO haverá presunção absoluta da incapacidade. Se o ato foi praticado após a</p><p>sentença de interdição, é nulo de pleno direito. Porém se foi praticado antes da sentença de interdição, a</p><p>declaração de nulidade dependerá de prova inequívoca da insanidade</p><p>(é necessário provar que já existia</p><p>a causa da incapacidade).</p><p>OBS: Estatuto da Pessoa com Deficiência não promoveu alteração expressa no Livro das Sucessões,</p><p>arts. 1.784 e seguintes do Código Civil, é inegável que a nova redação dos arts. 3º e 4º do Código Civil, e</p><p>notadamente a vigência do arts. 6º, 84 e 85 do Lei 13.146/2015, devem levar à releitura do instituto da</p><p>capacidade de testar, sobre a qual dispõem os arts. 1.860 e 1.861 do Código Civil. Assim, o deficiente</p><p>teve sua condição elevada, ao estabelecer o Estatuto sua plena capacidade. No entanto, quando</p><p>necessário, a pessoa com deficiência será submetida a curatela, tornando-se relativamente incapaz. Para</p><p>tanto, exige-se a ação de curatela/interdição e decisão judicial (NCPC, arts. 747 e seguintes). Como</p><p>resultado, o deficiente plenamente capaz pode testar. As deficiências podem ser físicas, mentais</p><p>intelectuais ou sensoriais (art. 2º do Estatuto do Deficiente). Porém, nem todas suprimem a plena</p><p>capacidade da pessoa. No entanto, se presente uma causa geradora de incapacidade (art. 4º, II a IV,</p><p>do Código Civil), o deficiente será submetido à curatela e, por consequência, se tornará incapaz.</p><p>Diferentemente, as pessoas e o deficiente podem ser capazes, e ainda assim, carecerem do pleno</p><p>discernimento para testar (CC, art. 1.860, caput,2ª parte). Esta hipótese funciona como norma de</p><p>reserva, uma incapacidade especial da sucessão testamentária, e atua em paralelo ao sistema de</p><p>incapacidades em geral como mecanismo de proteção da vontade do testador; logo, é norma subsidiária</p><p>que só admite o testamento a quem tenha lucidez plena.</p><p>OBS1: Não tendo havido interdição, há de se presumir a capacidade do agente, incumbindo ao</p><p>interessado na declaração de nulidade do testamento a propositura de ação autônoma e a produção de</p><p>prova da alegada incapacidade. Na dúvida, decide-se pela validade do ato, em respeito ao princípio in</p><p>dubio pro capacitate.</p><p>OBS2: A nossa lei não considera os chamados “intervalos lúcidos”. Assim, se declarado incapaz, os atos</p><p>praticados pelo privado de discernimento serão nulos, não sendo aceita a tentativa de demonstra que,</p><p>naquele momento, encontrava-se lúcido, visto que a incapacidade mental é considerada um estado</p><p>permanente e contínuo. (Se fossem admitidos os intervalos lúcidos haveria infindáveis debates a respeito</p><p>de o ato ter sido praticado ou não durante um intervalo lúcido, gerando exaustivas demandas e incerteza</p><p>nas relações jurídicas).</p><p>14.4.4. Incapacidade testamentária dos relativamente incapazes</p><p>O art. 1860 proclama de forma genérica que os incapazes não podem testar, incluindo os relativamente</p><p>incapazes, exceto os maiores de 16 anos.</p><p>Desse modo, não podem testar, após a entrada em vigor do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei</p><p>13.146, de 2015) os ébrios habituais e os viciados em tóxico, aqueles que, por causa transitória ou</p><p>permanente, não puderem exprimir sua vontade, por não terem plena consciência do ato que irão praticar.</p><p>Trata-se de uma questão de fato a ser apreciada em cada caso concreto, porque o ébrio habitual pode</p><p>estar sóbrio no momento de testar, o viciado em tóxicos pode estar livre das drogas no momento de</p><p>testar.</p><p>Os relativamente incapazes estão sujeitos a curatela ou tomada de decisão apoiada (art. 1767, III e 1783-</p><p>A), sendo possível pronunciar a nulidade do testamento por eles feito mesmo antes da decretação da</p><p>interdição, desde que provada a dependência do álcool ou de tóxicos, ou ainda, o discernimento reduzido</p><p>por deficiência mental, uma vez que são tais fatos e não a sentença de interdição que determinam a</p><p>incapacidade. O mesmo se pode dizer dos excepcionais sem desenvolvimento mental completo.</p><p>Na dúvida, prevalece o testamento.</p><p>A doutrina majoritária manifesta-se no sentido de que, apesar do pródigo estar incluído no rol dos</p><p>relativamente incapazes (art. 4º, inc. IV), ele pode testar, já que a interdição do pródigo só o priva de, sem</p><p>curador, praticar atos que comprometam o patrimônio, configurando empobrecimento. A simples</p><p>manifestação de sua última vontade em testamento não lhe acarreta prejuízo, pois não estará dilapidando</p><p>o seu patrimônio, vez que as disposições testamentárias vigorarão somente após a sua morte.</p><p>O surdo-mudo que não tiver desenvolvimento mental completo (art. 4º, III) e que, por isso, não puder</p><p>manifestar a sua vontade, não pode testar. O que recebeu educação adequada e aprendeu a exprimi-la,</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 34</p><p>sem ter o seu discernimento reduzido, não perde a capacidade testamentária ativa. A surdo-mudez só é</p><p>causa de incapacidade quando impossibilita a manifestação da vontade.</p><p>Mas esta pode ser suprida pela tomada de decisão apoiada (art. 1783-A), processo pelo qual a pessoa</p><p>com deficiência elege pelo menos 2 (duas) pessoas idôneas, com as quais mantenha vínculos e que</p><p>gozem de sua confiança, para prestar-lhe apoio na tomada de decisão sobre atos da vida civil,</p><p>fornecendo-lhes os elementos e informações necessários para que possa exercer sua capacidade.</p><p>14.4.5. Hipóteses não geradoras de incapacidade</p><p>Os casos de incapacidade testamentária ativa são somente os elencados pelo CC. A idade avançada não</p><p>inibe o indivíduo de testar. Somente se em razão de condições patológicas que abalaram o cérebro da</p><p>pessoa é que poderá ser caracterizada a incapacidade. A proximidade da morte também não acarreta</p><p>incapacidade testamentária ativa, salvo se o testador estiver delirando ou com perturbação da mente.</p><p>Deve ser examinado o caso concreto para verificar a incapacidade. Enfermidades graves também não</p><p>conduzem à incapacidade testamentária, desde que o doente conserve o pleno discernimento. A cegueira</p><p>constitui restrição apenas às formas cerrada e particular de testar, pois a lei permite ao cego testar pela</p><p>forma pública (art. 1867), bem como ao analfabeto (art. 1865).</p><p>Os índios não foram incluídos no rol dos inibidos de testar. Se estiverem entrosados na sociedade e</p><p>puderem exprimir vontade testamentária podem testar.</p><p>14.4.6. Momento em que se exige a capacidade - art. 1861</p><p>A capacidade testamentária ativa é exigida no momento em que se redige ou se elabora o testamento. É</p><p>nesse instante que deve ser aferida. Prevalece a regra Tempus regit actum – a capacidade é a do tempo</p><p>do testamento, não se invalidando este pela superveniência da incapacidade, nem se validando pela</p><p>superveniência da capacidade.</p><p>14.4.7. Impugnação da validade do testamento</p><p>Somente após a morte do testador é que se poderá questionar sobre a validade do ato de última vontade.</p><p>Do contrário, estar-se-ia permitindo a instauração de litígio acerca de herança de pessoa viva. Art. 1859 –</p><p>prazo de cinco anos a contar do registro do testamento.</p><p>O testamento pode ser nulo ou anulável.</p><p>No caso de anulabilidade (art.1909) – o prazo de 04 anos conta-se de quando o interessado tiver</p><p>conhecimento do vício (termo inicial impreciso e muito criticado pela doutrina).</p><p>Projeto de Lei 6960/02 propõe nova redação ao art. 1859: Extingue-se em cinco anos o direito de</p><p>requerer a declaração de nulidade do testamento ou de disposição testamentária, e em quatro anos, o de</p><p>pleitear a anulação do testamento ou de disposição testamentária, contados da data do registro do</p><p>testamento.</p><p>O projeto prevê a modificação também do parágrafo único do art, 1909.</p><p>14.5. Formas Ordinárias de Testamento (Art. 1862)</p><p>Art 1.863 – É proibido o testamento conjuntivo, seja simultâneo, recíproco ou correspectivo. (Simultâneo é</p><p>o testamento em que dois ou mais testadores beneficiam terceira pessoa. Recíproco é o testamento em</p><p>que dois ou mais testadores se beneficiam mutuamente. Correspectivo é o testamento em que dois ou</p><p>mais testadores fazem disposições que retribuem outras correspondentes).</p><p>14.5.1. Testamento Público</p><p>É o escrito por tabelião em seu livro de notas,</p><p>for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida (art. 7º, I); e se</p><p>alguém desaparece em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos após o término</p><p>da guerra (art. 7º, II). O art. 6º trata da morte presumida do ausente.</p><p>6.2. Ausente: pessoa que desaparece sem dar notícias e sem deixar representante para administrar seus</p><p>bens. (Ex: marido que vai comprar cigarro e nunca mais volta). A lei autoriza aos herdeiros do ausente a</p><p>ingressarem com o pedido de abertura da sucessão provisória num primeiro momento e, após 10 anos,</p><p>poderão requerer a sucessão definitiva, que também durará 10 anos. Nomeia-se curador ao ausente e</p><p>arrecadam-se os bens (art. 26 e seguintes do CC). Exceção no sistema sucessório, porque admite a</p><p>abertura da sucessão em razão de desaparecimento.</p><p>Obs.: Ausência difere de morte presumida (art. 7º do CC) Há situações em que, embora haja uma</p><p>evidência de morte, o corpo do de cujus não é encontrado por ter desaparecido em naufrágio, inundação ,</p><p>incêndio ou outra catástrofe. Para esses casos, a Lei de Registros Públicos (Lei 6015/73) prevê um</p><p>procedimento de justificação judicial.</p><p>- LRP – processo de justificação do óbito</p><p>- CC – ação declaratória de morte presumida, onde o juiz fixa a data provável da morte.</p><p>O CC amplia no art. 7º, I e II, as hipóteses de morte presumida, que pode ser declarada sem a</p><p>decretação de ausência, usando a expressão genérica: “se for extremamente provável a morte de quem</p><p>estava em perigo de vida.” Neste caso, poderá ser requerida ação declaratória de morte presumida e não</p><p>simples justificação, depois de esgotadas as buscas e averiguações, devendo a sentença fixar a data</p><p>provável do falecimento (art. 7º, § único)</p><p>Lembrar: Art. 1784 do CC (princípio da saisine)</p><p>Não há direito subjetivo sem titular (por isso os bens não podem ficar sem donos) No mesmo instante em</p><p>que acontece a morte, abre-se a sucessão. A herança transmite-se automaticamente aos herdeiros</p><p>legítimos e testamentários (ainda que estes ignorem o fato).</p><p>6.3 Comoriência – Art. 8º, CC: Quando duas pessoas morrem na mesma ocasião sem ser possível</p><p>precisar quem morreu primeiro, presumem-se simultaneamente mortas. Só interessa saber quem morreu</p><p>primeiro se uma for herdeira ou beneficiária da outra. Do contrário, não existe interesse jurídico nessa</p><p>pesquisa. Deve haver mútuo direito sucessório entre os falecidos para que se invoque o art. 8º do CC.</p><p>6.4. ESPÉCIES DE SUCESSÃO</p><p>Art. 1786 – “a sucessão dá-se por lei ou ato de última vontade”</p><p>2.1 Quanto à fonte: a sucessão pode ser:</p><p>a) Legítima ou ab intestato – ocorre em virtude da lei</p><p>*Art. 1788 – pessoa que morre sem testamento, a herança é transmitida aos herdeiros legítimos indicados</p><p>na lei (art. 1829), de acordo com uma ordem de preferência (ordem de vocação hereditária). Representa</p><p>a vontade presumida do falecido de transmitir seu patrimônio às pessoas indicadas na lei, porque se</p><p>quisesse de outra forma teria deixado testamento.</p><p>*Art. 1788, segunda parte – a sucessão pode ser ao mesmo tempo legítima e testamentária - quando o</p><p>testamento não abrange todos os bens do de cujus, os não incluídos passam aos herdeiros legítimos</p><p>* Art. 1788, parte final – se o testamento caducar ou for julgado nulo, a sucessão será legítima. Ex: falta</p><p>dos bens deixados, revogação do testamento.</p><p>b) Testamentária – dá-se por disposição de última vontade, expressa em testamento ou codicilo.</p><p>Codicilo: ato de última vontade para disposições de pequeno valor. Ex: pessoa dispõe em um documento</p><p>assinado sobre como quer o seu enterro, ou para quem quer dar as suas jóias, suas roupas, etc.</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 4</p><p>Art. 1846 – Havendo herdeiros necessários – herança dividida em duas partes: porção disponível e</p><p>legítima (assegurada aos herdeiros necessários).</p><p>Não havendo herdeiros necessários, a liberdade de testar é plena. Neste caso o testador pode afastar os</p><p>colaterais (art. 1850).</p><p>2.2 Quanto aos efeitos a sucessão pode ser:</p><p>a) Sucessão a título universal – o herdeiro sucede na totalidade, fração ou porcentagem da herança.</p><p>Ex: pai morre e deixa dois carros e duas casas, os herdeiros são chamados a suceder em todos os bens,</p><p>ou em frações ou partes ideais da herança e não sobre determinados bens. Ou o pai morre e deixa</p><p>testamento, os herdeiros são chamados a suceder na parte que lhes cabe.</p><p>- Pode ocorrer na sucessão legítima e na testamentária.</p><p>b) Sucessão a título singular – quando o testador deixa um bem certo e determinado (legado) ao</p><p>beneficiário (legatário). Legatário não é o mesmo que herdeiro. Não representa o falecido e não responde</p><p>pelas dívidas e encargos da herança.</p><p>Legatário adquire a propriedade:</p><p>- bens fungíveis- só na partilha</p><p>- bens infungíveis – desde a abertura da sucessão</p><p>Legatário adquire a posse:</p><p>- tanto dos bens fungíveis ou infungíveis pode requerer aos herdeiros, mas estes só são obrigados a</p><p>entregar após a partilha.</p><p>OBS1: A sucessão legítima é sempre a título universal porque transfere aos herdeiros a totalidade ou</p><p>fração ideal do patrimônio do de cujus. A sucessão testamentária pode ser a título universal ou a título</p><p>singular, conforme a vontade do testador.</p><p>OBS2: De forma expressa a lei proíbe pacto sucessório: a herança de pessoa viva não pode ser objeto</p><p>de contrato (art. 426, CC). Qualquer avença que afronte essa vedação legal é nula (art. 166, VI, CC).</p><p>6.5. ESPÉCIES DE SUCESSORES</p><p>6.5.1. Herdeiro Legítimo: indicado pela lei em ordem preferencial (art. 1829)</p><p>6.5.2. Herdeiro Testamentário (ou instituído): beneficiado em ato de última vontade, com uma parte</p><p>ideal do acervo hereditário, sem individuação dos bens.</p><p>6.5.3. Herdeiro Necessário (legitimário ou reservatário): é o ascendente, o descendente (parentes em</p><p>linha reta não excluídos da sucessão) e o cônjuge (art. 1.845).</p><p>6.5.4 Herdeiro Universal: herdeiro único. Recebe a totalidade de herança. Recebe os bens mediante</p><p>auto de adjudicação lavrado no inventário.</p><p>6.5.5. Legatário: sucessor contemplado em ato de última vontade (testamento ou codicilo) com bem</p><p>certo e determinado</p><p>Título Universal</p><p>O herdeiro é chamado para suceder na totalidade da</p><p>herança, fração ou parte dela, assumindo a</p><p>responsabilidade relativamente ao passivo. Ocorre na</p><p>Sucessão Legítima e na Sucessão Testamentária.</p><p>Título Singular</p><p>O testador deixa ao beneficiário um bem</p><p>certo e determinado (legado).</p><p>O herdeiro não responde pelas dívidas da</p><p>herança.</p><p>6.6. LUGAR EM QUE SE ABRE A SUCESSÃO</p><p>Art. 1785 – no lugar do último domicílio do falecido – art. 48 do NCPC “o foro de domicílio do autor da</p><p>herança, no Brasil, é o competente para o inventário, a partilha, a arrecadação, o cumprimento de</p><p>disposições de última vontade, a impugnação ou anulação de partilha extrajudicial e para todas as ações</p><p>em que o espólio for réu, ainda que o óbito tenha ocorrido no estrangeiro”.</p><p>Esse é o foro competente para o processamento do inventário, mesmo que o óbito tenha ocorrido em</p><p>outro local (até no exterior) e mesmo que haja bens em outros lugares.</p><p>Anteriormente, o CPC de 1973 já previa como competente o foro de domicílio e, também, o da situação</p><p>dos bens ou da situação do óbito. Agora, independentemente do local do óbito, apenas se o autor da</p><p>herança não possuir domicílio certo é que prevalecerá o foro de situação dos imóveis (art. 49, parágrafo</p><p>único, I, NCPC). Se forem diferentes foros, qualquer destes (inciso II) ou, em última hipótese, se existirem</p><p>diversos bens, o local de quaisquer deles (inciso III).</p><p>A incompetência de foro deverá ser arguida em preliminar de primeiras declarações, com fundamento no</p><p>art. 64 do NCPC, que determina essa regra para a Contestação, aplicada ao procedimento de Inventário,</p><p>por analogia. Caso contrário, esta competência relativa será prorrogada (art. 65 NCPC).</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 5</p><p>Predomina o entendimento jurisprudencial que aberto o inventário</p><p>de acordo com as declarações do testador, feitas em língua</p><p>nacional, podendo o testador servir-se de minuta, notas ou apontamento, na presença de duas</p><p>testemunhas, que devem assistir a todo o ato. As formalidades o tornam mais seguro do que as outras</p><p>espécies de testamento, apesar do inconveniente de permitir a quaisquer pessoas o conhecimento de seu</p><p>teor. Projeto de Lei prevê a emissão de certidões somente a requerimento do testador ou por ordem</p><p>judicial.</p><p>É chamado de testamento público não pelo fato de o testamento ficar aberto ao conhecimento do público</p><p>após ter sido lavrado no livro respectivo. Denomina-se público porque o Notário (Tabelião), em nosso</p><p>país, por muito tempo foi chamado de oficial público, bem ainda, pelo fato de ser testemunhado pelas</p><p>pessoas cuja presença é essencial para garantir a sua seriedade e regularidade.</p><p>14.5.1.1 Requisitos e formalidades (art.1864)</p><p>14.5.1.1.1 Lavratura pelo tabelião ou seu substituto legal em seu livro de notas.</p><p>A vontade do testador deve ser externada ao oficial público, denominado tabelião, sob a forma de</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 35</p><p>declaração, admitindo-se a consulta a anotações e a entrega de minuta previamente elaborada, seguida</p><p>da declaração verbal de que contém a vontade do testador.</p><p>Tabelião – agente que exerce em caráter privado e por delegação do Poder Público, a função de redigir,</p><p>fiscalizar e instrumentalizar atos e negócios jurídicos, conferindo-lhes autenticidade e fé pública.</p><p>É também chamado de notário.</p><p>Não só o tabelião, como seu substituto legal (escrevente autorizado - Lei 8935/94) pode lavrar</p><p>testamento. As autoridades diplomáticas também são autorizadas a lavrar testamento – testamento</p><p>consular (art.16, LICC)</p><p>OBS: “O testamento público pode ser lavrado fora das dependências do tabelionato, sem que isto afete</p><p>sua validade” (RT 870/211).</p><p>O tabelião deve certificar cuidadosamente da identidade e da capacidade ou sanidade mental do testador.</p><p>Devem ser observados os requisitos gerais estabelecidos para as escrituras públicas no art. 215, em</p><p>especial o inciso II do § 1º. É bom que as testemunhas conheçam o testador para poder afirmar a sua</p><p>identidade, mas não é indispensável.</p><p>O testador faz as suas declarações ao tabelião, que promove a escrituração, de acordo com elas, em seu</p><p>livro de notas. Para tanto, o testador pode se servir de notas, apontamentos e mesmo de uma minuta do</p><p>testamento redigida por advogado, para melhor encaminhar o pensamento e bem enunciar a última</p><p>vontade.</p><p>NÃO BASTA, entregar a minuta ao notário. O testador deve ler a minuta ou, ao menos, declarar o que</p><p>nela se contém, de modo geral, como sua última vontade. Não pode o testador informar por escrito, que</p><p>naquele papel está o seu testamento. LOGO, a declaração de que trata o art. 1864, I, deve ser oral.</p><p>Compete ao tabelião reproduzir fielmente a vontade manifestada pelo testador, podendo fazer-lhes</p><p>perguntas, interrompendo o ditado ou após o seu término, a fim de melhor se inteirar da vontade do</p><p>testador, esclarecer o sentido de uma frase ou a extensão de uma liberalidade, a fim de evitar obviedades</p><p>e obscuridades.</p><p>Todavia, não se admite que redija o testamento com base, unicamente, em perguntas feitas ao testador.</p><p>O testador deve tomar a iniciativa de fazer as declarações.</p><p>O instrumento público não pode conter imperfeições, rasuras, borrões, entrelinhas. Todavia, enganos e</p><p>defeitos podem ser sanados, desde que feita uma ressalva ao fim da escritura e antes das assinaturas.</p><p>Em regra, eventuais rasuras, borrões ou outros pequenos detalhes que não comprometem a essência do</p><p>ato não viciam nem invalidam todo o testamento (cabe ao juiz em cada caso concreto, decidir sobre o</p><p>valor do documento que contenha rasuras).</p><p>O CC/02 não exigiu de forma expressa a necessidade de que as declarações sejam feitas em língua</p><p>nacional, por ser esta exigência dispensável já que em nosso país todos os atos públicos devem ser</p><p>redigidos em língua portuguesa.</p><p>OBS: Não se exige que o testador seja perfeito conhecedor do idioma, basta que se exprima de maneira</p><p>suficiente a se fazer entender pelo notário e pelas testemunhas.</p><p>Tradicionalmente – o testamento é escrito no livro de notas, de próprio punho, pelo tabelião ou por seu</p><p>substituto legal.</p><p>O CC/02. art. 1864, § único, permite a utilização de meios mecânicos. Uma vez digitado o texto, ele será</p><p>impresso encartado no livro próprio, procedendo-se à leitura e às demais solenidades do ato.</p><p>Testamento dialogado (somente respondendo as perguntas) - não é possível</p><p>O CC/ 1916 – 05 testemunhas. CC/02 – 02 (duas) testemunhas, mas o acréscimo do número de</p><p>testemunhas não invalida o ato, traz até mais segurança.</p><p>14.5.1.1.2 Leitura em voz alta na presença de duas testemunhas (1864, II)</p><p>Tem como objetivo verificar a coincidência entre a vontade manifestada pelo testador e o que foi lançado</p><p>no livro pelo tabelião.</p><p>Testemunhas devem estar presentes do início ao fim (leitura a um só tempo). Individuo inteiramente</p><p>surdo, sabendo ler, lerá o seu testamento e, se não souber, designará quem o leia em seu lugar,</p><p>presentes as testemunhas (art. 1.866). O artigo 1.867 do CC/02 prescreve que o cego pode fazer</p><p>testamento público - será lido em voz alta duas vezes, uma pelo tabelião ou por seu substituto legal e a</p><p>outra por uma das testemunhas, designada pelo testador.</p><p>Analfabeto – só pode testar pela forma pública. Não pode fazer testamento cerrado (1.872) nem</p><p>testamento particular ( 1.876, §1º).</p><p>Surdos-mudos e mudos – não podem testar pela forma pública pois esta exige declarações orais. Os</p><p>surdos que não sejam mudos, os analfabetos e os cegos podem testar pela forma pública.</p><p>14.5.1.1.3 Presença de duas testemunhas durante todo o tempo.</p><p>14.5.1.1.4 Data e assinatura.</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 36</p><p>Estando em ordem, o testamento será assinado pelo tabelião que o escrever, pelo testador e pelas</p><p>testemunhas, seguidamente (1.864, III). Se o testador que não souber ou não puder assinar – o tabelião</p><p>ou substituto assim o declarará, assinando, neste caso pelo testador e, a seu rogo, uma das testemunhas</p><p>instrumentárias (art. 1.865). A Lei não menciona a necessidade de data e local. Embora importantes,</p><p>ainda mais para apurar a capacidade do testador, a jurisprudência e boa parte da doutrina entendem que</p><p>não invalida o ato a ausência de data ou local.</p><p>Apesar do art. 215, §1°, I, CC/02, exigir data e local, prevalece o entendimento que a ausência por si só</p><p>não invalida o ato.</p><p>14.5.1.2 Registro e cumprimento do testamento público. Artigo: 736 NCPC.</p><p>Procedimento: art. 735 do NCPC.</p><p>Recebendo testamento cerrado, o juiz, se não achar vício externo que o torne suspeito de nulidade ou</p><p>falsidade, o abrirá e mandará que o escrivão o leia em presença do apresentante.</p><p>Do termo de abertura constarão o nome do apresentante e como ele obteve o testamento, a data e o</p><p>lugar do falecimento do testador, com as respectivas provas, e qualquer circunstância digna de nota.</p><p>Depois de ouvido o Ministério Público, não havendo dúvidas a serem esclarecidas, o juiz mandará</p><p>registrar, arquivar e cumprir o testamento.</p><p>Feito o registro, será intimado o testamenteiro para assinar o termo da testamentária.</p><p>Se não houver testamenteiro nomeado ou se ele estiver ausente ou não aceitar o encargo, o juiz nomeará</p><p>testamenteiro dativo, observando-se a preferência legal.</p><p>O testamenteiro deverá cumprir as disposições testamentárias e prestar contas em juízo do que recebeu</p><p>e despendeu, observando-se o disposto em lei.</p><p>Exibido o traslado ou certidão ao juiz competente para o processo de inventário, ordenar-se-á o seu</p><p>Procedimento de jurisdição voluntária. Havendo dúvidas sobre a validade do testamento, deve ficar</p><p>suspenso o seu cumprimento até que haja decisão em processo contencioso sobre o vício.</p><p>14.5.2.</p><p>Testamento Cerrado (Secreto ou Místico)</p><p>Neste há dois elementos básicos que se complementam: o testamento propriamente dito e a sua</p><p>aprovação (feita pelo tabelião em momento posterior).</p><p>É escrito pelo próprio testador, ou por alguém a seu rogo, e por aquele assinado, com caráter sigiloso,</p><p>completado pelo instrumento de aprovação ou autenticação (lavrado pelo tabelião ou por seu substituto</p><p>legal), na presença do testador e de duas testemunhas.</p><p>Precisa ser assinado pelo testador.</p><p>O tabelião dá autenticidade exterior ao testamento.</p><p>Vantagem: Manter em segredo a declaração de vontade do testador. (Em regra, só ele conhece o teor do</p><p>testamento, nem o oficial nem as testemunhas têm conhecimento das disposições).</p><p>Se o testador permitir, o oficial público pode ler o testamento e verificar se está de acordo com as</p><p>formalidades exigidas (mas isso é a exceção).</p><p>Embora não seja frequente, é a forma preferida para evitar conflitos familiares, que ocorrem quando se</p><p>revela com antecedência, os nomes dos aquinhoados. É mais fácil para a deserdação, perdão do indigno,</p><p>clausulação de inalienabilidade, reconhecimento de filhos, etc (é uma forma mais discreta de testar).</p><p>É escrito pelo testador ou por alguém a seu rogo (a seu pedido – mero redator), e só tem eficácia após o</p><p>auto de aprovação, lavrado por tabelião, na presença de duas testemunhas. Seria melhor se chamasse</p><p>“auto de autenticação”, porque o tabelião não “aprova” o testamento, ele se limita a declarar sua</p><p>autenticidade.</p><p>A intervenção do tabelião serve para dar autenticidade exterior.</p><p>Inconveniente: Pode ser considerado revogado se apresentado em juízo com o lacre rompido,</p><p>presumindo-se até prova em contrário, ter sido aberto pelo próprio testador (art. 1972, CC), além de poder</p><p>desaparecer pela ação dolosa de algum herdeiro.</p><p>14.5.2.1 Requisitos e formalidades (art. 1868):</p><p>- CÉDULA TESTAMENTÁRIA: Deve ser escrita pelo testador ou por alguém a seu rogo e deve ser</p><p>assinada pelo próprio testador. O próprio tabelião pode escrever o testamento a rogo do testador, quando</p><p>este não souber ou não o puder fazer pessoalmente, não ficando impedido de lavrar o auto de aprovação</p><p>(art. 1870, CC). Se além de não saber escrever, o testador não souber ler não poderá fazer testamento</p><p>cerrado, pois não poderá verificar, pela leitura, que o terceiro que o redigiu a seu rogo seguiu fielmente as</p><p>instruções.</p><p>Art. 1872 – Não pode dispor de seus bens em testamento cerrado quem não saiba ou não possa ler.</p><p>O analfabeto e o cego – só põem fazer testamento público.</p><p>Surdo-mudo que souber escrever pode fazer testamento cerrado (art. 1873).</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 37</p><p>A cédula testamentária pode ser escrita manual ou mecanicamente. Mas, o subscritor deve numerar e</p><p>autenticar com a sua assinatura todas as páginas – art. 1.868, parágrafo único. Pode ser redigido em</p><p>língua nacional ou estrangeira – art. 1871. (Já que nem o tabelião nem as testemunhas precisam saber o</p><p>conteúdo do testamento). Nesse caso, após a morte, o testamento devera ser traduzido para o vernáculo,</p><p>por tradutor juramentado. O auto de aprovação/ autenticação deve ser escrito na língua nacional.</p><p>14.5.2.2. Ato de entrega:</p><p>De posse da cédula testamentária (escrita, datilografada ou digitada) o testador deve entregá-la,</p><p>devidamente assinada, ao tabelião, na presença de duas testemunhas (art. 1868, I).</p><p>A ENTREGA é ato personalíssimo do testador (não se admite o uso de portador, mandatário ou</p><p>representante).</p><p>O testador deve afirmar que se trata de seu ato de última vontade e quer que seja aprovado (1.868, II).</p><p>As testemunhas participam da apresentação do testamento ao tabelião e não precisam conhecer o seu</p><p>teor. Devem assistir à entrega da cédula e ouvir a declaração feita pelo testador, bem como observar que</p><p>o auto de aprovação foi lavrado em seguida à apresentação.</p><p>14.5.2.3. Auto de aprovação</p><p>Na presença das duas testemunhas, o tabelião lavrará o auto de aprovação (na verdade mera</p><p>autenticação), após a última palavra do testador, declarando, sob sua fé, que o testador lhe entregou para</p><p>ser aprovado na presença das testemunhas.</p><p>Se não houver espaço na última folha escrita, colocará o seu sinal público e declarará, colocando outra</p><p>folha, a razão de seu procedimento.</p><p>Em seguida lerá o auto de aprovação que será assinado por todos.</p><p>14.5.2.4. Solenidade – deve ser feita sem interrupção (art.1868, III). “desde logo”, “ em seguida”.</p><p>14.5.2.5. Data – a falta não acarreta a nulidade - apesar de não haver exigência expressa do CC – é um</p><p>dado importante, tanto para saber qual o testamento anterior e o posterior (revoga o anterior naquilo que</p><p>com ele conflita), se houver dois da mesma pessoa, como para verificar a capacidade do testador ao</p><p>tempo da sua manifestação de última vontade. Para os efeitos legais, a data do testamento cerrado é a</p><p>data da aprovação. Antes de ser apresentado ao tabelião e de ser lavrado o auto de aprovação, o</p><p>testamento cerrado é um simples projeto. Só se torna um ato completo e definitivo com a aprovação. O</p><p>testamento cerrado, nulo por erro insanável no auto de aprovação, pode ser aproveitado como</p><p>testamento particular, se tiverem sido preenchidas todas as formalidades exigidas para este último.</p><p>14.5.2.6. Cerramento (art.1.874): Segundo a tradição, o tabelião, estando à cédula dobrada, costura com</p><p>cinco pontos de retrós e lança pingo de lacre sobre cada um.</p><p>14.5.2.7. A Lacração: embora seja uma antiga prática, que muito dificulta as tentativas de adulteração,</p><p>não constitui formalidade que dependa a eficácia do testamento – art. 1874. Entregue ao testador</p><p>(fechado e cosido) ou para pessoa que ele designar, o testamento deve ser guardado para ser</p><p>apresentando em juízo por ocasião da abertura da sucessão. O documento deve permanecer inviolável,</p><p>sob pena de revogação tácita -1.972,CC. Se for aberto por terceiro, acidental ou dolosamente, ou contra a</p><p>vontade do testador, os interessados devem demonstrar de forma convincente para que não se interprete</p><p>como revogação.</p><p>14.5.2.8. Abertura, registro e cumprimento do testamento cerrado. Artigo: 1.875, CC</p><p>Procedimento: art. 735 NCPC. Recebendo testamento cerrado, o juiz, se não achar vício externo que o</p><p>torne suspeito de nulidade ou falsidade, o abrirá e mandará que o escrivão o leia em presença do</p><p>apresentante.</p><p>Do termo de abertura constarão o nome do apresentante e como ele obteve o testamento, a data e o</p><p>lugar do falecimento do testador, com as respectivas provas, e qualquer circunstância digna de nota.</p><p>Depois de ouvido o Ministério Público, não havendo dúvidas a serem esclarecidas, o juiz mandará</p><p>registrar, arquivar e cumprir o testamento.</p><p>Feito o registro, será intimado o testamenteiro para assinar o termo da testamentária.</p><p>Se não houver testamenteiro nomeado ou se ele estiver ausente ou não aceitar o encargo, o juiz nomeará</p><p>testamenteiro dativo, observando-se a preferência legal.</p><p>O testamenteiro deverá cumprir as disposições testamentárias e prestar contas em juízo do que recebeu</p><p>e despendeu, observando-se o disposto em lei.</p><p>Defeitos quanto à formação e manifestação de vontade do testador deverão ser apreciados no inventário</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 38</p><p>ou em ação de anulação.</p><p>14.5.3. Testamento Particular (Hológrafo)</p><p>Ato de disposição de última vontade escrito de próprio punho, ou mediante processo mecânico, assinado</p><p>pelo testador, e lido por este a três testemunhas, que o subscreverão, com a obrigação de, depois da</p><p>morte do testador, confirmar a sua autenticidade.</p><p>- Holos – inteiro/ graphein – escrito: inteiramente escrito.</p><p>O que caracteriza este tipo de testamento é o fato de ser inteiramente escrito e assinado pelo testador,</p><p>lido perante três testemunhas e ser por elas também assinado (art.1.876).</p><p>Forma menos segura de testar – porque depende de</p><p>confirmação em juízo pelas testemunhas (que</p><p>poderão faltar), após a abertura da sucessão. Pode ser escrito de próprio punho ou mediante processo</p><p>mecânico (1.876, caput). Mas não pode conter rasuras ou espaços em branco.</p><p>14.5.3.1. Requisitos e formalidades</p><p>Pode ser escrito de próprio punho ou mediante processo mecânico. Nas duas hipóteses precisa ser lido</p><p>pelo próprio testador, na presença de três testemunhas, que o assinarão.</p><p>Por processo mecânico não pode haver espaços em branco. Devem ser assinadas todas as</p><p>folhas, se mais de uma, sempre após a última linha.</p><p>Ato contínuo – apresentação da cédula às testemunhas, leitura e lançamento das assinaturas.</p><p>Todas as testemunhas presentes ao mesmo tempo.</p><p>14.5.2.8. Abertura, registro e cumprimento do testamento particular. Artigo: 737 do NCPC</p><p>A publicação do testamento particular poderá ser requerida, depois da morte do testador, pelo herdeiro,</p><p>pelo legatário ou pelo testamenteiro, bem como pelo terceiro detentor do testamento, se impossibilitado</p><p>de entregá-lo a algum dos outros legitimados para requerê-la.</p><p>Serão intimados os herdeiros que não tiverem requerido a publicação do testamento.</p><p>Verificando a presença dos requisitos da lei, ouvido o Ministério Público, o juiz confirmará o testamento.</p><p>Aplica-se o disposto aqui ao codicilo e aos testamentos marítimo, aeronáutico, militar e nuncupativo.</p><p>Observar-se-á, no cumprimento do testamento, o disposto nos parágrafos do art. 735.</p><p>14.5.3.2. Testamento particular excepcional - admitido em situações emergenciais de risco iminente de</p><p>perder a vida, não havendo testemunhas disponíveis, como num desastre, naufrágio, sequestro, preso</p><p>numa caverna, dentro de um avião caindo, etc. (1.879). Tem que ser manuscrito. A doutrina o critica pois</p><p>é fácil de ser fraudado. Cabe ao juiz aceitá-lo ou não.</p><p>15. CODICILOS</p><p>15.1. Conceito:</p><p>É ato de última vontade destinado a disposições de pequeno valor ou recomendações para serem</p><p>cumpridas após a morte.</p><p>Não se exigem maiores formalidades</p><p>O documento deve ser inteiramente escrito pelo testador e por ele datado e assinado (art.1.881). Pode</p><p>ser escrito por meio mecânico, mas deve ser datado e assinado pelo testador. · Não precisa de</p><p>testemunhas.</p><p>15.2. Objeto:</p><p>Pode ser utilizado para várias finalidades pelo autor da herança:</p><p>A) Fazer disposições sobre o enterro;</p><p>B) Deixar esmolas de pouca monta;</p><p>C) Legar móveis, roupas e joias de pouco valor, de uso pessoal;</p><p>D) Nomear ou substituir testamenteiro (executor do testamento) -art.1883.</p><p>E) Reabilitar o indigno (1.818)</p><p>F) Destinar verbas para o sufrágio da alma (art. 1998)</p><p>G) Reconhecer filho havido fora do casamento (art. 1609,II)</p><p>15.3. Liberalidades que tenham por objeto bens e valores de pouca monta.</p><p>A Lei não estabelece critério para a aferição do pequeno valor. Este deve ser considerado em relação ao</p><p>montante do patrimônio, segundo o arbítrio do juiz. Em muitos casos tem-se admitido que não ultrapasse</p><p>10% do valor do acervo. O melhor é apreciar cada caso.</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 39</p><p>15.4. Espécies</p><p> Autônomo – quando o autor da herança não deixou testamento</p><p> Complementar – quando o autor da herança deixa testamento (art.1.882). Em geral, visa</p><p>complementar o testamento, legar bens de estimação de pouco valor, deixar esmolas.</p><p>15.5. Revogação dos Codicilos</p><p>Revoga-se o codicilo por outro codicilo ou testamento (expressamente, com a menção à intenção de</p><p>revogar) ou pela elaboração de testamento posterior, sem confirmar ou modificar o codicilo (art. 1884).</p><p>Nem sempre o codicilo posterior revoga o anterior – podem completar-se e trazer disposições de</p><p>naturezas diversas (esmola em um e recomendação sobre o enterro no outro). Para revogar o anterior</p><p>deve ter cláusula expressa ou disposições incompatíveis.</p><p>Testamento posterior (se não confirmar ou modificar o codicilo anterior) – o codicilo é considerado</p><p>tacitamente revogado.</p><p>OBS: Testamento revoga codicilo, as a recíproca não é verdadeira. O codicilo pode alterar o testamento</p><p>naquilo que for típico de disposição codicilar (disposição de pequeno valor).</p><p>15.6. Execução do Codicilo</p><p>Deve ser encaminhado ao juiz, que nomeará um testamenteiro para cuidar de seu cumprimento.</p><p>Aplica-se ao codicilo as regras do testamento particular (artigo 737 § 3º, do NCPC). Observar-se-á, no</p><p>cumprimento do testamento Aberto pelo juiz, que o fará registrar e ordenará seu cumprimento conforme</p><p>disposto nos parágrafos do art. 735 do NCPC.</p><p>16. TESTAMENTOS ESPECIAIS</p><p>O CC/02 regula três formas especiais de testamento e no art. 1887 declara que não se admite outros</p><p>testamentos especiais além dos previstos no CC/02.</p><p>16.1. Testamento Marítimo</p><p>Viagem em navio nacional. Navio de guerra ou mercante (transporte de pessoas também se encaixa aqui</p><p>porque é mercancia)</p><p>O testador deve estar a bordo do navio, em viagem; Cédula testamentária registrada em livro diário de</p><p>bordo Testamento deve ficar sob a guarda do comandante – art. 1890</p><p>Deve ser feito por forma que corresponda ao testamento público ou cerrado. Lógico que é possível pela</p><p>forma particular (que não precisa de tabelião e pode ser elaborado em qualquer lugar);</p><p>Caducará se o testador não morrer na viagem, nem nos 90 dias subseqüentes ao desembarque em terra</p><p>(prazo que se conta do desembarque final), onde possa a fazer, na forma ordinária, outro testamento</p><p>(art.1891). Justifica-se a perda da eficácia porque se trata de forma privilegiada de testar, para atender</p><p>uma situação de emergência.</p><p>16.2. Testamento Aeronáutico (art. 1.889)</p><p>Inovação do CC/02</p><p>Deve-se observar o disposto no art. 1.888 (requisitos e forma previstos para o testamento marítimo).</p><p>O comandante não pode participar da confecção do testamento. Deve designar alguém para fazê-lo.</p><p>Melhor forma: pública.</p><p>Art. 1890 – O testamento marítimo ou aeronáutico ficara sob a guarda do comandante, que o entregará</p><p>às autoridades administrativas do primeiro porto ou aeroporto nacional, contra recibo averbado no diário</p><p>de bordo.</p><p>Art. 1891 – Caducidade</p><p>16.3. Testamento Militar</p><p>Elaborado por militares (interpretação extensiva: integrantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, Polícias</p><p>Militares e outras forças auxiliares) e outras pessoas a serviço das Forças Armadas, em campanha, que</p><p>estejam participando de operações de guerra, fora e dentro do país.</p><p>OBS: Considera-se também em campanha a Força Armada designada para cumprir missões de paz ou</p><p>garantir segurança em territórios com guerra, em nome de organismos internacionais, como a ONU, por</p><p>exemplo.</p><p>16.3.1. Formas:</p><p> Público: art. 1893</p><p> Cerrado: art. 1894</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 40</p><p> Nuncupativo: art.1896 – de viva voz – deve ser confirmado em juízo. Este facilita a simulação ou</p><p>fraude.</p><p>16.3.2. Caducidade do testamento militar (art. 1895): 90 dias em lugar onde possa o testador testar na</p><p>forma ordinária. Contagem do prazo de forma ininterrupta.</p><p>Art.1.895 – testamento militar que não caduca se for feito de forma semelhante ao testamento cerrado.</p><p>Críticas da doutrina, porque se trata de forma especial de testamento para circunstâncias excepcionais e</p><p>como as outras deveria caducar.</p><p>16.4 Execução dos testamentos especiais</p><p>Aplica-se ao testamentos marítimo, aeronáutico, militar e nuncupativo as regras do testamento particular</p><p>(artigo 737 § 3º, do NCPC). Observar-se-á, no cumprimento do testamento Aberto pelo juiz, que o fará</p><p>registrar e ordenará seu cumprimento conforme disposto nos parágrafos do art. 735 do NCPC.</p><p>17. DAS DISPOSIÇÕES TESTAMENTÁRIAS - Arts.: 1897 a 1911, CC.</p><p>Após regulamentar as formalidades extrínsecas do testamento, o CC trata do conteúdo, estabelecendo o</p><p>que pode e o que não pode conter (regras permissivas e proibitivas) e como deve ser interpretada a</p><p>vontade do testador (regras interpretativas). Toda manifestação de vontade necessita de interpretação</p><p>para que se saiba o seu significado e alcance.</p><p>INTERPRETAR é perquirir e revelar</p><p>qual o verdadeiro sentido e alcance das disposições testamentárias.</p><p>É preciso discernimento, bom senso e boa-fé.</p><p>17.1. Normas Interpretativas: Arts. 1899,1902 a 1.908 E 1.910. CC</p><p>Art. 1.899 – Quando a cláusula testamentária for suscetível de interpretações diferentes, prevalecera a</p><p>que melhor assegure a observância da vontade do testador. Reitera o princípio constante no art.112, CC</p><p>(Nas declarações de vontade, atender-se-á mais à intenção nelas consubstanciadas do que ao sentido</p><p>literal da linguagem)</p><p>Para melhor aferir a vontade do testador, deve-se apreciar o conjunto das disposições testamentárias e</p><p>não determinada cláusula que, isoladamente, ofereça dúvida.</p><p>As regras interpretativas são de fácil entendimento:</p><p> Art. 1902 – Supre a omissão do testador na indicação precisa dos beneficiários.</p><p> Art. 1904 – Se o testamento nomear dois ou mais herdeiros, sem discriminar a parte de cada um,</p><p>partilhar-se-á por igual, entre todos, a porção disponível do testador.</p><p> Art.1905 – Se nomear certos herdeiros individualmente (José, João) e outros coletivamente (os</p><p>filhos de Antônio), a herança será dividida em três partes: José, João (uma cota para cada),</p><p>enquanto a de Antônio será dividida entre todos os seus filhos.</p><p> Art. 1906 – Se forem determinadas as cotas de cada herdeiro, e não absorverem toda a herança,</p><p>o remanescente pertencerá aos herdeiros legítimos, segundo a ordem da sucessão hereditária.</p><p>Neste caso coexistirão sucessão testamentária e legítima.</p><p> Se forem determinados os quinhões de uns e não os de outros herdeiros, distribuir-se-á por igual</p><p>aos últimos os que restar, depois de completas as porções hereditárias dos primeiros (art.1.907).</p><p> Quotas determinadas devem ser atendidas primeiro, não podem ser desfalcadas sob o argumento</p><p>de que há outros herdeiros instituídos, sem quota determinada. A presunção legal é de que a</p><p>instituição destes últimos é para o que sobrar.</p><p> Art.1903 – Via de regra, as soluções para as dúvidas devem ser buscadas diretamente do</p><p>testamento e não fora dele. Exceção - art.1903 - para elucidar contradição ou obscuridade sobre o</p><p>herdeiro, o legatário ou a coisa legada, admite-se prova extratestamentária, desde que utilizada</p><p>com cautela.</p><p> Art.1908 – Bem remanescente que o testador não quer que seja atribuído ao herdeiro instituído. A</p><p>solução é a prevista no art.1906 - pertencerá aos herdeiros legítimos.</p><p> Art.1910 – Em princípio, a ineficácia de uma disposição testamentária não se irradia às outras.</p><p>Mas se contaminar as demais, se restar comprovado que sem aquela disposição as outras não</p><p>teriam sido determinadas pelo testador, elas serão ineficazes.</p><p>17.2. Regras Proibitivas</p><p>O art.1898 do CC impede a nomeação de herdeiro a termo, ou seja, com a designação do tempo em</p><p>deva começar ou cessar o seu direito, salvo nas disposições fideicomissárias.</p><p>Se o testador designa o tempo em que deve começar ou cessar o direito do herdeiro, a cláusula é</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 41</p><p>considerada como não escrita.</p><p>Fideicomisso – quando o testador nomeia um favorecido e, desde logo, designa um substituto, que</p><p>recolherá a herança ou legado, depois daquele (art. 1951). O Fideicomissário receberá a herança ou</p><p>legado por morte do Fiduciário, ou por se realizar certa condição, ou ainda se decorrido certo tempo</p><p>estabelecido pelo fideicomitente (testador). CC/02 – prole eventual – podem ser chamados filhos ainda</p><p>não concebidos de pessoas designada pelo testador.</p><p>Como o artigo 1898 só se refere a herdeiro, tem se admitido a nomeação a termo de legatário, reforçada</p><p>pela expressão “legado a prazo” do art. 1924.</p><p>Apesar da proibição de nomear herdeiro a prazo, O CC admite as nomeações condicionais (sob condição</p><p>suspensiva ou resolutiva).</p><p>Art. 1900 – Várias proibições: È nula a disposição que:</p><p> Instituição de herdeiro sob a condição captatória – O ordenamento jurídico brasileiro não admite</p><p>nenhuma espécie de pacto sucessório. A captação da vontade, que vicia o ato, é a que representa</p><p>um induzimento, mediante nomeação e favorecimento de outrem, como herdeiro, para que este</p><p>inclua também o captador, ou terceiro, como beneficiário em suas disposições testamentárias. O</p><p>CC veda a proposta de uma troca de favores, um pacto negocial. Exemplo: Lego a João tal</p><p>quantia, se ele me contemplar em seu testamento. Deixo a Pedro, que instituo meu herdeiro, o</p><p>quanto ele me transmitir no seu testamento. Não é toda disposição recíproca que configura</p><p>condição captatória. Se uma pessoa contempla outra sem tornar o seu ato dependente de igual</p><p>gesto do nomeado, a disposição é válida. Exemplo: João testa em favor de Maria, pura e</p><p>simplesmente, e ela em favor dele, sem aludir um ao ato do outro, respeita-se a vontade de</p><p>ambos.</p><p> Se refira a pessoa incerta, cuja identidade não se possa averiguar (art. 1.900). Não há como</p><p>cumprir a vontade do testador sem a identificação do beneficiário, salvo se a pessoa for</p><p>determinável. Ex: a deixa testamentária beneficia o melhor aluno de determinada sala.</p><p> Disposições muito vagas não valem Exemplo: Os amigos do testador; o mais engraçado da</p><p>cidade. Aconselha-se a máxima clareza - nome, sobrenome, e outros qualitativos. Mas podem ser</p><p>dispensados se for possível que a pessoa se diferencie das demais. Ex: Deixo tal imóvel para</p><p>quem se casar com minha filha; ao primeiro filho de minha irmã que nascer após a minha morte.</p><p> Que favoreça pessoa incerta, cometendo a determinação de sua identidade à terceiro.</p><p> Proíbe-se apenas o arbítrio desenfreado. Fere o caráter personalíssimo do testamento. O art.</p><p>1901, I, permite que um terceiro complete a disposição testamentária.</p><p> Que deixe ao arbítrio do herdeiro ou de outrem fixar o valor do legado. A disposição deixa de ser</p><p>ato exclusivo do testador. Cabe a ele a fixação do quantum do legado. Exceção – art. 1901, II –</p><p>valerá a disposição que deixe ao arbítrio do herdeiro ou de outrem determinar o valor do legado</p><p>quando instituído em remuneração de serviços prestados ao testador, por ocasião da moléstia que</p><p>faleceu.</p><p> Que favoreça as pessoas a que se referem os arts. 1.801 e 1.802.</p><p>17.3. Regras Permissivas - Arts. 1.897 e 1.911 do CC.</p><p>- Art. 1.897 – A nomeação de herdeiro ou legatário pode fazer-se:</p><p> Pura e simplesmente: Quando o testador não impõe nenhuma condição, ônus ou qualquer</p><p>limitação ao direito do beneficiário e a estipulação produz seus efeitos logo que se abre a</p><p>sucessão. Ex: Instituo Joselito meu herdeiro.</p><p>OBS: O nome pode ser dispensado - basta que se consigne caracteres pelos quais o contemplado possa</p><p>ser identificado e que se use vocábulo que revele claramente a vontade do testador.</p><p> Sob condição: Quando sua eficácia fica subordinada a evento futuro e incerto. Condição –</p><p>acontecimento futuro e incerto de que depende a eficácia do negócio jurídico. As condições devem</p><p>ser lícitas e possíveis. Ex: é ilícita clausula que obriga alguém a mudar de religião.</p><p>- Condição suspensiva: a aquisição do direito depende do implemento da condição.</p><p>Enquanto pendente ele é apenas titular de direito eventual. Ocorrida à condição, ela tem</p><p>efeito ex tunc, considerando-se existente o direito desde a abertura da sucessão.</p><p>- Condição Resolutiva: o herdeiro adquire o direito desde a abertura da sucessão como se</p><p>fosse pura e simples, porém se a condição ocorrer, perderá o direito, extinguindo-se a</p><p>eficácia do negocio jurídico. Mediante encargo (para certo fim ou modo). Quando o</p><p>testador impõe um ônus ou obrigação ao beneficiário, como cuidar de certa pessoa ou</p><p>animal, assumir o pagamento dos estudos de alguém. Diferente da condição suspensiva,</p><p>porque os bens são adquiridos desde a abertura da sucessão pelo herdeiro ou legatário.</p><p>Seu cumprimento é coercitivo, pode ser exigido (enquanto ninguém pode ser forçado a</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões</p><p>42</p><p>cumprir uma condição).</p><p> Por certo motivo: Quando o testador declara a razão que o levou a gratificar determinada pessoa</p><p>(disposição motivada)</p><p> A termo: Designa o tempo em que deva começar ou cessar o direito. Só é válida nas disposições</p><p>fideicomissárias. O art. 1898 - proíbe a instituição de herdeiro a termo. Quanto ao legatário nada</p><p>impede a fixação do termo inicial ou final para a aquisição do direito.</p><p> Art. 1911 – Disposição com cláusula de inalienabilidade: Permite a imposição de ônus ou gravame</p><p>sobre os bens que integram a herança e compõem a metade disponível. Só se exige que o</p><p>testador declare a justa causa para clausular a legítima. Essa exigência não incide sobre a quota</p><p>disponível.</p><p> Sub-rogação do vínculo – art. 1911, parágrafo único - mediante autorização judicial, comprovada a</p><p>necessidade e conveniência.</p><p>18. DOS LEGADOS</p><p>Legado – Coisa certa e determinada deixada a alguém, denominado legatário, em testamento ou</p><p>codicilo. É peculiar à sucessão testamentária. Diferente de herança, que é a totalidade ou parte ideal do</p><p>patrimônio do de cujus.</p><p>O CC regula os legados nos arts. 1912 a 1.940</p><p>A nomeação do legatário deve resultar de designação explícita. Pouco importa o nome que se dê no</p><p>testamento, se o testador designa o herdeiro com o nome de legatário, ou vice-versa, ou se chama</p><p>legado de herança. O que importa é a essência da declaração pela qual se qualifica a vontade</p><p>testamentária relativamente a uma pessoa ou uma coisa.</p><p>TODA VEZ QUE SE DEIXA CERTO BEM, NÃO O ACERVO OU PARTE IDEAL DELE, TODA VEZ QUE</p><p>A SUCESSÃO SE VERIFICA A TÍTULO SINGULAR (PARTICULAR) TRATA SE DE LEGADO.</p><p>Quando o legado é atribuído a herdeiro legítimo (que passa a cumular as qualidades de herdeiro e</p><p>legatário) denomina-se PRELEGADO ou LEGADO PRECÍPUO. (Recebe o legado e também os bens que</p><p>integram seu quinhão na herança).</p><p>O herdeiro encarregado de cumprir o legado é chamado de ONERADO ou GRAVADO – é quem deve</p><p>pagar o legado. O legatário ou honrado é quem recebe a dádiva ou liberalidade.</p><p>Se o mesmo objeto cabe a vários beneficiados, eles se denominam COLEGATÁRIOS.</p><p>Se a um legatário é imposta a entrega de outro legado, de sua propriedade, a este se denomina</p><p>sublegado, e sublegatário a pessoa a que o bem se destina.</p><p>18.1. Classificação:</p><p>a) Quanto ao objeto, classificam-se as várias modalidades de legado:</p><p>18.1.1. Legado de coisas</p><p>18.1.1.1. Legado de coisa alheia</p><p>Regra - art.1912 – é ineficaz o legado de coisa certa que não pertença ao testador no momento da</p><p>abertura da sucessão.</p><p>Exceções:</p><p>- quando o testador ordena que o herdeiro ou legatário entregue coisa de sua propriedade a</p><p>outrem, sob pena de entende-se que renunciou à herança ou ao legado (art.1913).</p><p>- Quando há legado de coisa que se determine pelo gênero ou espécie. Exemplo: dez sacas de</p><p>café. Art. 1915. O legado deve ser cumprido ainda que tal coisa não exista entre os bens</p><p>deixados pelo testador. É que o gênero não pertence a ninguém. Exemplo: um cavalo. Mesmo</p><p>que o falecido não o tenha, o testamenteiro deve comprar um.</p><p>18.1.1.2. Legado de Coisa Comum (art. 1914)</p><p>Se a coisa legada for comum e somente em parte pertencer ao testador (ao herdeiro ou legatário – art.</p><p>1913), só quanto a essa parte valerá o legado. Em relação à coisa não pertencente ao de cujus, por</p><p>versar sobre coisa alheia, o legado será ineficaz.</p><p>18.1.1.3. Legado de coisa singularizada (art. 1916)</p><p>Ex: Se o testador legou 20 bois da fazenda, e quando morre só restam 10 bois, o legado é eficaz somente</p><p>quanto ao remanescente.</p><p>18.1.1.4. Legado de coisa localizada (art. 1.917)</p><p>Coisas que devam estar, habitual e permanentemente, no lugar designado pelo testador. Exemplo:</p><p>Móveis de um quarto. Se eram vários móveis, mas ao tempo da morte do testador só existia uma cama, o</p><p>legado só valerá no tocante a ela, salvo se ficar demonstrado que os demais bens foram dolosamente</p><p>removidos por outrem. Quanto às cosias removidas temporariamente de um lugar e que a ele deve</p><p>retornar oportunamente (gado de determinada fazenda, transferido para o conserto de cercas) prevalece</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 43</p><p>o legado.</p><p>18.1.2. Legado de crédito ou quitação de dívida (art. 1.918)</p><p>No legado de crédito – o devedor é terceiro (verdadeira cessão), o legatário substitui o testador (credor</p><p>primitivo) e pode promover a cobrança. Se o devedor for o próprio legatário, o legado será de quitação da</p><p>dívida, operando-se como autêntica remissão (art. 386), pois o herdeiro devolver-lhe-á o título (para pagar</p><p>a dívida do legatário). Não abrange as dívidas posteriores à data do testamento (art. 1918, § 2º).</p><p>Art. 1919 – Se o testador for devedor do legatário. Regra – prevalência da liberalidade. O legatário recebe</p><p>o legado e pode cobrar o crédito da herança, salvo expressa ressalva feita pelo testador de que haverá</p><p>compensação. Só se concretizará o legado naquilo em que exceder ao valor da dívida, no restante</p><p>haverá pagamento e não liberalidade.</p><p>OBS: Art. 1.919, § único - O legado não tem relação com a dívida posterior, que o testador, em vida</p><p>quitou.</p><p>18.1.3. Legado de Alimentos (art. 1920)</p><p>O testador deve fixar o valor da pensão alimentícia. Se não o fizer, a tarefa caberá ao juiz, levando em</p><p>conta as forças da herança, a condição social e a necessidade do legatário. Alimentos Testamentários é</p><p>diferente de Alimentos Legais Os alimentos testamentários não se alteram em razão da modificação das</p><p>circunstâncias e da situação econômica do beneficiado.</p><p>18.1.4 Legado de Usufruto</p><p>Usufruto – Direito real de usar uma coisa pertencente a outrem e de perceber-lhe os frutos.</p><p>O legislador só se referiu ao legado de usufruto para fixar o tempo de sua duração quando o testador não</p><p>o houver feito (art. 1921). Será Vitalício. Com a morte do legatário, consolida se o domínio do nu-</p><p>proprietário, que pode ser um herdeiro ou terceiro. Se o testador não faz a indicação, entende-se que</p><p>beneficiou o herdeiro com a nua propriedade.</p><p>18.1.5 Legado de Imóvel (art. 1922, CC)</p><p>O legado abrange a coisa com os acessórios. Só não se compreendem no legado as ampliações ou</p><p>acréscimos externos ao imóvel não classificado como benfeitorias. Estas aderem ao imóvel legado,</p><p>seguindo a regra de que o acessório segue o principal.</p><p>18.2. Efeitos Dos Legados</p><p>Aquisição dos legados: Princípio da Saisine – art. 1784</p><p>O herdeiro legítimo ou testamentário adquire desde logo a propriedade e a posse da herança. O legatário</p><p>adquire apenas a propriedade de coisa certa, existente no acervo, salvo se o legado estiver sob condição</p><p>suspensiva. Se tratar-se de coisa incerta (fungível) o proprietário só adquire a propriedade com a partilha.</p><p>(art. 1923)</p><p>No que tange à posse, a abertura da sucessão confere ao legatário somente o direito de pedi-la aos</p><p>herdeiros instituídos, não podendo obtê-la por sua própria autoridade (art. 1923, §1º).</p><p>O pedido pode ser formulado no inventário. Se todos concordarem pode ser deferido desde logo. Se não,</p><p>o legatário deve aguardar a partilha. Não se exerce o direito de pedir o legado enquanto se litigue sobre a</p><p>validade do testamento (art. 1924). (Restrição que não atinge herdeiros instituídos)</p><p>18.2.1. Efeitos dos legados quanto às suas modalidades</p><p>Frutos da coisa legada - Art. 1923, § 2º - o legatário tem direito aos frutos desde a morte do testador.</p><p>Exceções – art. 1925 - Legado em dinheiro – O legatário deve interpelar o herdeiro ou testamenteiro, pois</p><p>somente a partir de tal ato vencem-se os juros (legado em dinheiro).</p><p>No legado condicional ou no legado a termo – Só tem direito aos frutos após o implemento da condição</p><p>ou o advento da data estipulada.</p><p>Legado de renda ou pensão periódica - tem finalidade assistencial</p><p>Se o legado consistir em renda vitalícia ou pensão periódica, só tem início a partir da morte do testador</p><p>(art.1926, CC).</p><p>Entrega-se certo capital, em imóveis ou dinheiro, ao herdeiro encarregado de satisfazer o legado em</p><p>prestações.</p><p>OBS: Mesmo</p><p>que o legatário demore dois anos para pedir o legado, este será devido desde a morte.</p><p>Legado de coisa incerta (limitada ao gênero ou à espécie) - Cabe ao herdeiro escolher a coisa de acordo</p><p>com o meio-termo entre as congêneres da melhor e pior qualidade. (art. 1929). Critério da qualidade</p><p>média ou intermediária.</p><p>Legado alternativo (art. 1932) - Tem por objeto uma coisa ou outra, dentre as quais só uma deve ser</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 44</p><p>entregue ao legatário. A opção cabe ao herdeiro, salvo se o testador tiver estipulado de forma diversa.</p><p>18.3. Responsabilidade pelo pagamento do legado</p><p>Em princípio, o encargo de pagar o legado cabe ao herdeiro, que deve retirar do acervo hereditário os</p><p>bens objetos de legados e entregá-los aos legatários (art. 1.934).</p><p>Se o testador encarrega somente certos herdeiros (onerados), apenas estes respondem pela execução</p><p>dos legados.</p><p>Se instituído um único herdeiro, só a ele incumbe o cumprimento do legado.</p><p>- Art. 1935 – Se algum legado consistir em coisa pertencente a herdeiro ou legatário (art. 1913), só a ele</p><p>incumbirá cumpri-lo, com regresso contra os cordeiros, pela quota de cada um, salvo se o contrário</p><p>expressamente dispôs o testador.</p><p>Despesas (recolhimento do ITCMD, depósito, transporte, etc) e riscos da entrega do legado correm por</p><p>conta do legatário, salvo se o testador dispuser de forma diversa - art. 1936.</p><p>art. 1937 – o acessório segue o principal.</p><p>18.4. Caducidade dos legados</p><p>Ineficácia, por causa ulterior, de disposição testamentária originalmente válida.</p><p>O legado pode deixar de produzir efeitos em razão da nulidade do testamento, ou de sua ineficácia,</p><p>decorrente da revogação e da caducidade.</p><p>Diferente da nulidade, em que o testamento já nasce inválido por inobservância das formalidades legais</p><p>ou da incapacidade do agente.</p><p>O legado válido pode caducar por causa objetiva (falta do objeto do legado) ou subjetiva (falta do</p><p>beneficiário). Em qualquer dos casos, o legado volta à massa hereditária, beneficiando os herdeiros (art.</p><p>1.788, última parte).</p><p>18.4.1. Causas de caducidade – art. 1939</p><p> Incisos I e II - causas de revogação tácita (afetam o objeto do legado)</p><p> Incisos I a III – afetam o objeto do legado. Modificação – ex: transformar mobília em lenha.</p><p> Incisos IV e V – relacionam-se com a falta do beneficiário.</p><p>Além destas, podem ser incluídas outras causas subjetivas, como a renúncia, o falecimento do legatário</p><p>antes do implemento da condição e a falta de legitimação quando da abertura da sucessão.</p><p>18.4.1.1. Causas objetivas</p><p> Modificação da coisa legada - a modificação deve ser substancial e feita pelo próprio testador, ou</p><p>à sua ordem.</p><p> Alienação da coisa legada – pelo testador, a qualquer título, no todo em parte. Caducará o legado</p><p>até onde a coisa deixar de pertencer ao testador.</p><p> Evicção ou perecimento da coisa legada – sem culpa do herdeiro ou do legatário incumbido do</p><p>cumprimento do legado. Se houver culpa, o beneficiário pode postular o ressarcimento.</p><p>18.4.1.2. Causas subjetivas</p><p> Exclusão do legatário por indignidade – presume-se que o testador não desejaria que coisa legada</p><p>ficasse com quem se mostrou INDIGNO. Se o fato é anterior ao testamento, o legado implica</p><p>perdão tácito ao legatário.</p><p> Falecimento do Legatário (pré-morte) - Se o legatário morre antes do testador (premoriência),</p><p>desaparece o sujeito da liberalidade. - O legado não é transmitido aos herdeiros do legatário (já</p><p>que como estudado, não há direito de representação na sucessão testamentária). Nada impede</p><p>que o testador os institua como substitutos do legatário.</p><p> Renúncia do legatário – não pode ser parcial. Ou aceita totalmente o legado ou a ele renúncia.</p><p>Nada obsta que renuncie o legado e aceite a herança, ou vice-versa, mas sempre por inteiro.</p><p> Falecimento legatário antes do implemento da condição suspensiva a que estava subordinada a</p><p>eficácia da gratificação.</p><p> Falta de legitimação do legatário no momento da abertura da sucessão (art. 1.802).</p><p>18.5. Direito de Acrescer entre Herdeiros e Legatários</p><p>Ocorre quando o testador contempla vários beneficiários (coerdeiros ou colegatários) deixando-lhes a</p><p>mesma herança (porções não determinadas) ou a mesma coisa certa e determinada, e um dos</p><p>concorrentes vem a faltar (art. 1941).</p><p>O art. 1943 – Hipóteses em que o nomeado não quer ou não pode recolher a herança. A parte do que</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 45</p><p>faltar será recolhida pelo substituto designado pelo testador, se este prevendo o acontecimento, tiver</p><p>nomeado substituto. Caso contrário, acrescerá ao quinhão dos coerdeiros ou colegatários.</p><p>O acréscimo não ocorrerá se o testador, ao fazer a nomeação conjunta, especificou o quinhão de cada</p><p>um (ex: metade, 1/3). Nesse caso, entende-se que a intenção do testador foi beneficiar cada qual</p><p>somente com a porção especificada. No caso de haver especificado, a cota do contemplado que vier a</p><p>faltar será devolvida aos herdeiros legítimos do testador.</p><p>18.5.1. Requisitos para que ocorra o direito de acrescer:</p><p>Nomeação de coerdeiros ou colegatários, na mesma disposição testamentária;</p><p>Deixa dos mesmos bens ou da mesma porção de bens;</p><p>Ausência de quotas determinadas.</p><p>OBS: Os coerdeiros ou colegatários aos quais acresceu o quinhão daquele que não quis ou não pôde</p><p>suceder, ficam sujeitos às obrigações ou encargos que o oneravam (CC, art.1943 § único), excluídos</p><p>somente os encargos personalíssimos.</p><p>18.6. Redução das disposições testamentárias</p><p>Se a quota disponível ultrapassar o limite de 50 %, afetando a legítima, os herdeiros necessários podem</p><p>pleitear a redução das disposições testamentárias (art. 1967 e 1968)</p><p>Não se anula o testamento ou a cláusula testamentária, mas procede-se apenas uma transferência de</p><p>bens da quota disponível para a legítima.</p><p>A redução pode ser efetuada nos próprios autos do inventário se houver acordo entre os interessados.</p><p>Não havendo acordo, somente se fará nos autos do inventário se o excesso mostra-se evidente e a</p><p>questão não for de alta indagação.</p><p>Podem os herdeiros necessários, seus sucessores ou credores, ou ainda os cessionários de seus</p><p>direitos, intentar AÇÃO DE REDUÇÃO para recompor a legítima com os bens que excedem a quota</p><p>disponível.</p><p>Pode haver a redução de doações – art. 549</p><p>Considera-se nula somente a parte que exceder a de que o doador, no momento da liberalidade, poderá</p><p>dispor em testamento.</p><p>18.6.1. Ordem das reduções (art. 1.967 e §§)</p><p> 1º- Herdeiro instituído – cujo quinhão é reduzido até obter-se a recomposição da legítima, ainda</p><p>que se esgote totalmente. Haverá redução proporcional das quotas dos herdeiros instituídos, se</p><p>forem vários.</p><p> 2º- Se esta redução não bastar, passar-se-á a dos LEGADOS na proporção de seu valor, até que</p><p>se complete a legítima dos herdeiros necessários.</p><p> 3º- Se ainda assim, tal não ocorrer, passar-se-á a redução das doações, começando pelas mais</p><p>novas. Se da mesma data a redução será proporcional.</p><p>19. Revogação do Testamento</p><p>Características do testamento – ser essencialmente revogável (art. 1858).</p><p>O testador pode revogá-lo quando lhe aprouver, sem declinar o motivo. NULA é a cláusula que o declare</p><p>irrevogável, ou obrigue o testador a não alterá-lo, pois a liberdade de testar é de ordem pública e não</p><p>admite limitações.</p><p>Exceção: O testamento é irrevogável na parte em que o testador reconhecer filho (art. 1.609, III).</p><p>Art. 1.969 – O testamento pode ser revogado pelo mesmo modo e forma como pode ser feito. Não se</p><p>deve entender que o segundo terá necessariamente a mesma forma do que está sendo revogado. Um</p><p>testamento público tanto pode ser revogado por outro público como por um cerrado, particular, marítimo,</p><p>aeronáutico ou militar, e vice-versa. O IMPORTANTE É QUE O NOVO TESTAMENTO SEJA VÁLIDO.</p><p>Testamento revogado não se restaura pelo simples fato de ter sido revogado também o que o revogou.</p><p>Para que ocorra a repristinação das disposições revogados, é necessário</p><p>que o novo testamento</p><p>expressamente as declare restauradas.</p><p>19.1. Espécies de revogação</p><p>a) Quanto à extensão:</p><p>- Total – quando retira a inteira eficácia do testamento.</p><p>- Parcial – quando atinge somente algumas cláusulas, permanecendo eficazes as demais.</p><p>b) Quanto à forma:</p><p>- Expressa – feita por declaração inequívoca do testador manifestada em novo testamento (não se admite</p><p>outra forma, como escritura pública, codicilo ou outro ato autêntico).</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 46</p><p>- Tácita - Quando o testador não declara que revoga o anterior, mas há incompatibilidade entre as</p><p>disposições deste e do novo testamento. As disposições do anterior subsistem em tudo que não for</p><p>contrário às do posterior (art. 1.970, p. único).</p><p>Em caso de dilaceração ou abertura do testamento cerrado pelo testador ou por outrem, com seu</p><p>consentimento (art. 1972).</p><p>Se entregue ao juiz com o lacre rompido, o juiz deve considerá-lo revogado, salvo se os interessados</p><p>demonstrarem de forma convincente que a abertura ou dilaceração foi feita contra a vontade do testador,</p><p>ou por terceiro, acidental ou dolosamente.</p><p>19.2. Rompimento do testamento</p><p>Ocorre o rompimento do testamento por determinação legal, na presunção de que o testador não teria</p><p>disposto de seus bens se soubesse da existência de algum herdeiro necessário. - Art – 1973</p><p>1ª hipótese - de cujus que ao testar não tinha nenhum descendente e posteriormente vem a tê-lo (havido</p><p>ou não do casamento). Se, entretanto, o autor da herança já tinha algum descendente quando testou, não</p><p>se rompe o testamento com o nascimento de outro: ambos dividirão entre si a legítima.</p><p>2ª hipótese: quando o testador ignorava ao testar, a concepção e existência de um filho, ou imagina</p><p>enganadamente que seu descendente houvesse morrido. A descoberta posterior acarreta o rompimento</p><p>automático do testamento; - Art. 1974 - Estende a possibilidade de ruptura também no caso de ignorância</p><p>de existirem outros herdeiros necessários (ascendente e cônjuge). Assim por exemplo, se o filho, ao</p><p>testar, ignorava a existência de ascendente, que supunha estar morto, rompido estará o testamento, uma</p><p>vez descoberto o erro.</p><p>OBS: Art. 1.975 – Se o testador se limita a dispor somente da quota disponível, a exclusão dos herdeiros</p><p>necessários não implica em rompimento do testamento.</p><p>19.3. Testamenteiro</p><p>É o executor do testamento. Incumbe-lhe cumprir as obrigações do testamento, zelar por sua validade,</p><p>defender a posse dos bens da herança e requerer ao juiz que lhe conceda meios necessários para</p><p>cumprir as disposições testamentárias. – art. 735, §5º do NCPC.</p><p>O testamenteiro deverá cumprir as disposições testamentárias e prestar contas em juízo do que recebeu</p><p>e despendeu, observando-se o disposto em lei.</p><p>É cargo de confiança do testador, sua condição é personalíssima, indelegável e intransmissível (para ser</p><p>representado por procurador, são necessários poderes especiais)</p><p>A lei faculta ao testador encarregar pessoa de sua confiança para cumprir as disposições de sua última</p><p>vontade.</p><p>Pode nomear, em testamento ou codicilo (art. 1883, CC), um ou mais testamenteiros, conjuntos ou</p><p>separados (art. 1976).</p><p>NA FALTA de testamenteiro nomeado pelo testador, ou se ele estiver ausente ou não aceitar o encargo, o</p><p>juiz nomeará testamenteiro dativo, observando-se a preferência legal, 1º o cônjuge sobrevivente e, em</p><p>falta deste, ao herdeiro nomeado pelo juiz (art. 735, §4º, NCPC).</p><p>Se não houver pessoas nessas condições, o juiz designará pessoa estranha à família, pois o testamento</p><p>não pode permanecer sem executor (qualquer pessoa natural, desde que idônea e capaz, pode ser</p><p>nomeada testamenteira).</p><p>O testamenteiro pode ser instituído (quando nomeado pelo testador) e dativo (quando nomeado pelo juiz).</p><p>O testador só pode conferir a posse da herança ao testamenteiro se não houver cônjuge sobrevivente,</p><p>descendentes e ascendentes, ou se estes não a quiserem ou não puderem exercê-la, pois cabe a eles,</p><p>preferencialmente, a posse e a administração da herança (art. 1977).</p><p>Recusa – como não se trata de múnus público e sim de interesse particular, a recusa não precisa ser</p><p>motivada. Depois de aceita a nomeação, a recusa deverá ser justificada.</p><p>19.3.1. Remuneração – Novidade marcante introduzida pelo novo Código de Processo Civil (NCPC) foi a</p><p>supressão do prêmio do testamenteiro, também chamado vintena, ausência que não acarretou,</p><p>entretanto, a extinção da remuneração do nosso ordenamento jurídico, como veremos a seguir.</p><p>Como é sabido, salvo disposição testamentária em contrário, o testamenteiro, que não seja herdeiro ou</p><p>legatário, terá direito a uma remuneração pelo exercício do encargo, cujo valor será aquele previsto no</p><p>testamento (artigo 1.987 do Código Civil).</p><p>Contudo, quando o valor do prêmio não estiver previsto no testamento, este será arbitrado pelo juiz,</p><p>levando-se em conta o valor da herança e o trabalho de execução do testamento. O valor do citado</p><p>prêmio jamais excederá 5% (cinco por cento), e será calculado sobre a herança líquida e deduzido</p><p>somente da metade disponível quando houver herdeiros necessários, e de todo o acervo líquido nos</p><p>demais casos (artigo 1.987 do CC).</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 47</p><p>Apesar do NCPC não reproduzir os artigos 1.138 a 1.140 do CPC que tratam da vintena, esta permanece</p><p>regulamentada pelos artigos 1.987 a 1.990 do CC, logo, a simples supressão da remuneração do</p><p>testamenteiro na nova legislação processual não significa que aquela tenha sido expurgada do</p><p>ordenamento jurídico brasileiro.</p><p>Assim, o testamenteiro tem direito a um prêmio pelos serviços prestados, que se denomina vintena. O</p><p>seu montante é livremente fixado pelo testador. Se não o fizer, o juiz arbitrará entre os limites de 1 a 5%</p><p>sobre toda a herança líquida, conforme a importância dela e a maior ou menor dificuldade na execução</p><p>do testamento, salvo disposição testamentária em contrário (art. 1987, CC), sendo deduzida da metade</p><p>disponível quando houver herdeiros necessários. A testamentaria é função remunerada. Somente o</p><p>herdeiro instituído ou legatário a exercerão desinteressadamente, mas o testador pode, se desejar, fixar</p><p>remuneração para os mesmos. Não faz jus ao prêmio o testamenteiro que for casado sob o regime de</p><p>comunhão de bens, com herdeiro ou legatário do testador. Já o testamenteiro que for herdeiro ou</p><p>legatário poderá preferir o prêmio à herança ou ao legado (art. 1988).</p><p>19.3.2. Remoção – o pedido deve ser feito pelos herdeiros e deve ser motivado, ou pode ser removido de</p><p>ofício pelo juiz.</p><p>OBS2: Se o testamenteiro for removido ou não cumprir o testamento o prêmio será acrescido à herança</p><p>(CC, art. 1989). O testamenteiro pode demitir-se do cargo, alegando ao juiz causa legítima.</p><p>QUADRO RESUMO DOS TESTAMENTOS</p><p>Testamento Público</p><p>(Artigo 1.864 a 1.867 C.C.)</p><p>- Lavrado por tabelião</p><p>- Seguro</p><p>Podem: os cegos, os capazes,</p><p>os analfabetos, os surdos não</p><p>mudos.</p><p>Não podem: os mudos, e os</p><p>surdos-mudos.</p><p>Testamento Particular</p><p>(Artigo 1.876 a 1.880 C.C.)</p><p>- Denominado aberto</p><p>- Escrito pelo testador</p><p>- Lido perante 3 testemunhas</p><p>- Forma menos segura</p><p>Não podem: o cego, o</p><p>analfabeto, os incapacitados de</p><p>escrever.</p><p>Testamento Cerrado</p><p>(Artigo 1.868 a 1.875 C.C.)</p><p>- Escrito em caráter sigiloso</p><p>- Completado por oficial</p><p>- Deve ser aprovado</p><p>- Presença de 02 pessoas</p><p>- Chamado de secreto</p><p>- Lacrado</p><p>Não podem: analfabeto, cego.</p><p>OBS.: o surdo-mudo poderá se souber</p><p>ler e escrever.</p><p>Testamento Militar</p><p>- Feito por militares</p><p>- Feito em campanha</p><p>- Feito dentro ou fora do país</p><p>- Escrito por autoridade</p><p>- Presença de 2 testemunhas</p><p>Validade: Se o testador morrer.</p><p>OBS.: Caso não morra em</p><p>campanha ou 90 dias após o</p><p>retorno, caducará.</p><p>Testamento Marítimo e</p><p>Aeronáutico</p><p>- Feito a bordo de aeronaves e</p><p>navios</p><p>- Lavrado pelo comandante</p><p>- Perante 2 testemunhas</p><p>Validade: Se o testador morrer.</p><p>OBS.: Caso não</p><p>morra na</p><p>viagem ou 90 dias após o</p><p>retorno, caducará.</p><p>Registro</p><p>Arquivamento</p><p>Cumprimento</p><p>- Juiz de direito</p><p>- Sem vício</p><p>- Válido e não falso</p><p>20. INVENTÁRIO E PARTILHA</p><p>20.1. Do Inventário</p><p>Os procedimentos de inventário e arrolamento encontram-se disciplinados no NCPC.</p><p>O CC/02 limitou-se a proclamar em um só artigo, no capítulo intitulado “Do Inventário”: “Desde a</p><p>assinatura do compromisso até a homologação da partilha, a administração da herança será exercida</p><p>pelo inventariante.” (art. 1991)</p><p>Aberta a sucessão, a herança transmite-se, desde logo, aos herdeiros legítimos e testamentários, que</p><p>recebem a herança como um todo unitário e indivisível (CC, art. 1784), malgrado os bens imóveis</p><p>permaneçam ainda em nome do de cujus no Registro de Imóveis.</p><p>Os bens da herança formam uma universalidade, um condomínio sucessório. O interesse em acabar com</p><p>o estado de comunhão é tão grande que há prazo para instauração do inventário.</p><p>É necessário proceder-se ao inventário, isto é, à relação, descrição e avaliação dos bens deixados, e à</p><p>subsequente partilha.</p><p>20.1.1. Conceito:</p><p>A palavra inventário deriva do latim inventarium, que significa achar, encontrar, e é empregada no sentido</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 48</p><p>de relacionar, descrever, enumerar, catalogar o que for encontrado pertencente ao morto, para ser</p><p>atribuído aos seus sucessores.</p><p>Embora os herdeiros adquiram a propriedade desde a abertura da sucessão, os seus nomes passam a</p><p>figurar no Registro de Imóveis somente após o registro do formal de partilha.</p><p>A abertura da sucessão instaura entre os herdeiros um verdadeiro condomínio sucessório, um estado de</p><p>comunhão, relativamente aos bens do acervo hereditário, que só cessará com a partilha. O processo de</p><p>inventário tende a pôr fim à situação de indivisão do espólio. No inventário apura-se o patrimônio do de</p><p>cujus, cobram-se as dívidas ativas e pagam-se as passivas. Também avaliam-se os bens e pagam-se os</p><p>legados e o imposto causa mortis. Após, procede-se à partilha.</p><p>INVENTÁRIO, pois, em sentido estrito, é o rol de todos os bens, haveres e responsabilidades patrimoniais</p><p>de um indivíduo; na acepção ampla e comum no foro, ou seja, no sentido sucessório, é o processo no</p><p>qual se descrevem e avaliam os bens de pessoa falecida, e partilham entre os seus sucessores, o que</p><p>sobra, depois de pagos os impostos, as despesas judiciais e as dívidas passivas reconhecidas pelos</p><p>herdeiros.</p><p>É o procedimento destinado a individualizar o patrimônio dos herdeiros e entregar os bens aos seus</p><p>titulares. Pode processar-se judicial ou extrajudicialmente; de forma amigável ou contenciosa, pelo rito do</p><p>inventário ou do arrolamento.</p><p>20.1.2. Abertura – art. 1796, CC - art. 611, NCPC (mais atual)</p><p>A abertura do inventário deve ser requerida no prazo de 02 meses, a contar do falecimento do de cujus,</p><p>ultimando-se nos 12 meses subsequentes, podendo o juiz prorrogar tais prazos, de ofício o a</p><p>requerimento das partes. (art. 611, NCPC).</p><p>Incumbe, prioritariamente, a quem estiver na posse e administração do espólio, requerer o inventário e a</p><p>partilha no prazo de 02 meses. (art. 615 NCPC).</p><p>O art. 616 do NCPC enumera quem tem legitimidade concorrente para, não tendo sido requerido o</p><p>inventário no prazo acima, requerer sua abertura: o cônjuge ou companheiro supérstite; o herdeiro; o</p><p>legatário; o testamenteiro; o cessionário do herdeiro ou do legatário; o credor do herdeiro, do legatário ou</p><p>do autor da herança; o Ministério Público, havendo herdeiros incapazes; a Fazenda Pública, quando tiver</p><p>interesse; o administrador judicial da falência do herdeiro, do legatário, do autor da herança ou do cônjuge</p><p>ou companheiro supérstite.</p><p>OBS: Ainda que a lei nada disponha, não se pode negar ao companheiro sobrevivente legitimidade para</p><p>requerer a abertura do inventário.</p><p>OBS1: Contudo, foi suprimida a regra de que o Juiz poderia abrir o inventário de ofício, anteriormente</p><p>prevista no art. 989 do CPC. Desta forma, somente os legitimados do art. 616 do NCPC ou os</p><p>interessados patrimonialmente poderão requerer a abertura do procedimento.</p><p>OBS2: Cada Estado pode instituir multa como pena pela não observância do prazo para o inventário. A</p><p>Súmula 542 do STF proclama que “não é inconstitucional a multa instituída pelo Estado-membro, como</p><p>sanção pelo retardamento do início ou da ultimação do inventário.”</p><p>Instaurado o processo, deve seguir até final partilha, não podendo ser extinto por abandono ou inércia do</p><p>inventariante. Deve o juiz, nesse caso, determinar o regular prosseguimento do feito, se necessário com</p><p>remoção do inventariante e sua substituição por outro interessado na herança ou por inventariante dativo.</p><p>Só se extingue o inventário se ficar comprovada a inexistência de bens a inventariar, uma vez que nessa</p><p>hipótese a ação perderá seu objeto.</p><p>OBS3: Em julho de 2016, a Corregedoria Nacional de Justiça publicou Provimento de nº 56 determinando</p><p>a obrigatoriedade das autoridades competentes checarem a existência de testamento no banco de dados</p><p>do Registro Central de Testamentos On-Line (RCTO), da Central Notarial de Serviços Compartilhados</p><p>(Censec), antes de dar continuidade aos procedimentos de inventários judiciais e extrajudiciais.</p><p>Com a medida, agora é obrigatório a juntada de certidão acerca da inexistência de testamento deixado</p><p>pelo autor da herança, expedida pela Censec, nos processamentos de inventários e partilhas judiciais,</p><p>bem como para lavrar escrituras públicas de inventário extrajudicial.</p><p>Criado em 2012, por meio do Provimento n. 18 da Corregedoria do CNJ, o RCTO é administrado pelo</p><p>Colégio Notarial do Brasil. Contudo, segundo o Colégio Notarial, em ofício enviado à Corregedoria no</p><p>começo de junho de 2016, a ferramenta estaria sendo subutilizada e por esse motivo a sugestão da</p><p>criação da regra uniformizando os procedimentos de consulta ao RCTO em todo o Brasil.</p><p>O problema é que ainda temos centenas de milhares de cartórios no país que não têm todo o sistema</p><p>informatizado e, por esse motivo, o banco de dados não é completo.</p><p>O Provimento 56/2021 é muito importante, mas é preciso que as Corregedorias dos TJ façam valer o</p><p>disposto no artigo 4º do mesmo, que é dar ciência aos responsáveis da obrigatoriedade de promover a</p><p>alimentação do RCTO.</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 49</p><p>Hoje é muito comum que ocorram inventário e até mesmo partilha de bens descumprindo testamentos,</p><p>pois os parentes escondem o testamento porque não têm interesse que ele se cumpra.</p><p>Observação: No dia 10/06/20, foi publicada a Lei 14010/2020 que dispõe sobre o regime jurídico</p><p>emergencial e transitório das relações jurídicas de Direito Privado no período da pandemia do</p><p>coronavírus.</p><p>O artigo 16 da Lei determina que, para sucessões abertas a partir de 01/02/2020, o prazo previsto</p><p>no artigo 611 do CPC/15 terá seu termo inicial dilatado para 30/10/2020. Isso significa dizer que, o</p><p>prazo de 2 meses previsto para que se ingresse com o inventário, depois do falecimento de uma</p><p>pessoa, será flexibilizado em decorrência da pandemia.</p><p>Além disso, o prazo de 12 meses para que seja ultimado o processo de inventário, caso iniciado</p><p>antes de 01/02/2020, também ficará suspenso a partir da entrada em vigor da Lei 14010/2020.</p><p>20.1.3. Inventários conjuntos:</p><p>O art. 672 do NCPC amplia e aperfeiçoa as regras dos arts. 1.043 e 1.044 do CPC de 1973 sobre</p><p>processamento conjunto de inventários.</p><p>Não se trata apenas de admitir a cumulação do inventário e da partilha dos bens deixados por cônjuges</p><p>ou companheiros (inciso II), mas, como revelam os incisos I e III, também em outras hipóteses que</p><p>justificam a racionalização dos atos processuais.</p><p>Para buscar este objetivo, o parágrafo único do art. 672 do NCPC ressalva a hipótese do inciso III quando</p><p>a dependência de uma das partilhas em relação à outra for parcial. Neste caso, o magistrado poderá</p><p>ordenar a tramitação separada</p><p>dos inventários se a providência satisfizer mais adequadamente os</p><p>interesses das partes ou à celeridade (racionalização) processual.</p><p>20.1.4. Espécies de Inventário</p><p>O NCPC continua prevendo três espécies de inventário judicial, de ritos distintos: o inventário pelo rito</p><p>tradicional; o arrolamento sumário e o arrolamento comum.</p><p>Prevê ainda o inventário extrajudicial ou administrativo, introduzido pela Lei 11.441/07.</p><p>OBS: O inventário negativo não é previsto na legislação pátria. Entretanto, tem sido admitido pelos</p><p>juízes em situações excepcionais, em que há necessidade de comprovar a inexistência de bens a</p><p>inventariar, especialmente, para evitar a imposição de certas sanções previstas no Código Civil.</p><p>Na maioria das vezes, sua finalidade é evitar a incidência da causa suspensiva prevista no artigo</p><p>1523, inciso I, do CC, que exige que o viúvo ou viúva que pretenda se casar novamente faça o</p><p>inventário e partilha dos bens aos herdeiros, sob pena ser imposto ao novo casamento o regime</p><p>da separação obrigatória de bens. Assim, deverá requerer a abertura de inventário negativo para</p><p>comprovar que não está sujeito à referida causa suspensiva.</p><p>Pode haver, ainda, interesse do sucessor na realização do inventário negativo para comprovar que</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 50</p><p>o falecido não deixou bens, nem numerário suficiente para responder por suas dívidas. Essa</p><p>demonstração se mostra relevante pelo fato de o herdeiro somente responder pelas dívidas até os</p><p>limites das forças da herança (art. 1792. CC). Ou seja, o inventário negativo visa proteger o</p><p>patrimônio dos herdeiros, e seus sucessores, para contrapor possíveis ações judiciais de</p><p>cobrança, sendo uma providência facultativa utilizada para afastar a controvérsia.</p><p>Uma vez que atenda todos os requisitos legais, pode ser feito de maneira judicial ou até</p><p>extrajudicial.</p><p>Judicialmente, o pedido será instruído com certidões negativas em nome do falecido, ouvindo-se</p><p>a Fazenda Pública e, eventualmente, o Ministério Público. Não havendo impugnação, o inventário</p><p>será julgado por sentença.</p><p>Extrajudicialmente, o procedimento será visto no item 20.1.5.</p><p>20.1.4.1 IMPORTANTES ALTERAÇÕES DO DIREITO DAS SUCESSÕES TRAZIDAS PELO NOVO CPC</p><p>O art. 5º, inciso XXX, da CF, garante aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país o direito de</p><p>herança. Buscando facilitar a transmissão dos bens deixados pelo falecido aos seus sucessores, o novo</p><p>CPC, em vigor desde 18 de março de 2016, trouxe diversas alterações ao procedimento especial de</p><p>inventário e partilha, agora previsto nos arts. 610 a 673.</p><p>A novel legislação manteve a possibilidade de realização de inventário e partilha extrajudicialmente, por</p><p>meio de escritura pública, quando o de cujus não tenha deixado testamento e as partes forem maiores,</p><p>capazes e concordes, conforme disposto no art. 610, §§ 1º e 2º. Esta escritura será hábil para qualquer</p><p>ato de registro de bens, o que já era previsto no CPC/73, bem como para levantamento de ativos</p><p>financeiros em instituições bancárias, previsão trazida pela nova lei no art. 610, § 1º.</p><p>Não sendo possível a lavratura de escritura, pela inexistência de consenso entre os sucessores ou caso</p><p>algum deles seja incapaz, aplicam-se as regras do rito ordinário do novo Código para regularização da</p><p>sucessão, cujas principais alterações seguem abaixo destacadas.</p><p>a) Foro de processamento do inventário</p><p>A primeira inovação deste rito é referente à abertura e processamento do procedimento, eis que o art. 48</p><p>determina que “o foro de domicílio do autor da herança, no Brasil, é o competente para o inventário, a</p><p>partilha, a arrecadação, o cumprimento de disposições de última vontade, a impugnação ou anulação de</p><p>partilha extrajudicial e para todas as ações em que o espólio for réu, ainda que o óbito tenha ocorrido no</p><p>estrangeiro”.</p><p>Anteriormente, o CPC de 1973 já previa como competente o foro de domicílio e, também, o da situação</p><p>dos bens ou da situação do óbito. Agora, independentemente do local do óbito, apenas se o autor da</p><p>herança não possuir domicílio certo é que prevalecerá o foro de situação dos imóveis (art. 49, parágrafo</p><p>único, I). Se forem diferentes foros, qualquer destes (inciso II) ou, em última hipótese, se existirem</p><p>diversos bens, o local de quaisquer deles (inciso III).</p><p>A incompetência de foro deverá ser arguida em preliminar de primeiras declarações, com fundamento no</p><p>art. 64, que determina essa regra para a Contestação, aplicada ao procedimento de Inventário, por</p><p>analogia. Caso contrário, esta competência relativa será prorrogada (art. 65).</p><p>b) Legitimados para requerimento de abertura de inventário</p><p>Os legitimados para requerer a abertura do inventário permanecem os mesmos, conforme previsão dos</p><p>arts. 615 e 616, com a inserção apenas do companheiro supérstite (art. 616, I), seguindo a regra de</p><p>adequação geral da nova legislação no que diz respeito aos companheiros.</p><p>Contudo, foi suprimida a regra de que o Juiz poderia abrir o inventário de ofício, anteriormente prevista no</p><p>art. 989. Desta forma, somente os legitimados do art. 616 ou os interessados patrimonialmente poderão</p><p>requerer a abertura do procedimento.</p><p>c) Citação dos sucessores</p><p>O art. 626, que determina a citação do cônjuge, companheiro, herdeiros e legatários para se</p><p>manifestarem sobre as primeiras declarações, inovou em seu parágrafo primeiro e agilizou o</p><p>procedimento, ao determinar que as citações de todos deverão ocorrer pelo Correio, por meio de carta de</p><p>intimação. A citação por edital só ocorrerá para ciência dos “interessados incertos ou desconhecidos”.</p><p>No CPC de 1973, equivocadamente só eram citadas as “pessoas domiciliadas na comarca por onde corre</p><p>o inventário ou que aí foram encontradas”, e todas as demais por edital.</p><p>Além disso, a Fazenda Pública, o Ministério Público e o testamenteiro serão intimados das primeiras</p><p>declarações (art. 626), e não citados, como era previsto (art. 999/CPC1973), uma vez que não são partes,</p><p>mas sim interessados.</p><p>d) Inventariante</p><p>O art. 617 reproduziu a ordem legal que deverá ser observada pelo Juiz ao nomear o inventariante.</p><p>Porém, a novidade trazida foi a possibilidade do herdeiro menor, representado ou assistido, e os</p><p>cessionários do herdeiro ou legatário, serem nomeados inventariantes (art. 617, IV e VI). Na primeira</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 51</p><p>hipótese, o legislador preocupou-se com os casos em que todos os herdeiros forem menores, dando</p><p>efetividade ao procedimento.</p><p>Acerca da ordem obrigatória de nomeação de inventariante, como bem pontuou a Professora ANA LUIZA</p><p>NEVARES, “não parece, no entanto, que a expressão mencionada direcione o intérprete para uma ordem</p><p>obrigatória quanto à nomeação do inventariante. Por suas funções já expostas, o inventariante é uma</p><p>figura central no processo de inventário, razão pela qual sua nomeação deve ser norteada pela</p><p>idoneidade do nomeado, por aquele que melhor represente os interesses do espólio e do regular</p><p>desenvolvimento do processo, considerando ainda o grau de litigiosidade entre os herdeiros, bem como a</p><p>natureza dos bens inventariados” (in Revista IBDFAM: Família e Sucessões. V. 13 (jan/fev). Belo</p><p>Horizonte: IBDFAM, 2016, p. 66).</p><p>Além disso, a inclusão dos atos dispositivos trazidos ao processo civil, com a possibilidade de realização</p><p>de negócios processuais (art. 190), deu autonomia às partes também no inventário, eis que os</p><p>sucessores poderão acordar amigavelmente quem será o inventariante, independentemente da ordem</p><p>legal estabelecida no art. 617.</p><p>Uma das poucas possibilidades de incidentes processuais no novo Código é a remoção/destituição de</p><p>inventariante, prevista nos arts. 622 a 625, que deverá ser autuada em apartado, assegurando a ampla</p><p>defesa e o contraditório, com apresentação de defesa no prazo de</p><p>15 dias. A considerável inovação,</p><p>neste aspecto, é a fixação de multa pelo Juiz, a ser paga pelo inventariante removido/destituído, quando</p><p>deixar de restituir a posse de todos os bens do monte mor, em quantia não superior a 3% do valor dos</p><p>bens inventariados (art. 625).</p><p>e) Tutela de evidência – antecipação de uso e fruição de bens</p><p>Um dos mais importantes regramentos é a possibilidade trazida pelo parágrafo único do art. 647, que</p><p>permite ao Magistrado deferir antecipadamente aos herdeiros o direito de usar e fruir de determinado</p><p>bem, contanto que, ao término do inventário, tal bem integre a cota deste herdeiro, o qual se</p><p>responsabilizará pelos ônus e bônus inerentes à conservação deste bem. Tal regra concretiza a tutela de</p><p>evidência em hipótese especial, criada pelo novo Código, antecipando o resultado prático do processo de</p><p>inventário.</p><p>Tal antecipação é também permitida aos legatários, conforme entendimento dos enunciados 181 e 182 da</p><p>Carta de Belo Horizonte de dezembro de 2014 (IV Encontro Permanente de Processualistas Civis).</p><p>A decisão é considerada interlocutória e deverá ser atacada por agravo de instrumento (art. 1.015,</p><p>parágrafo único).</p><p>f) Bens insuscetíveis de divisão</p><p>Uma regra anteriormente prevista no capítulo das alienações judiciais, foi trazida para dentro do</p><p>procedimento do inventário, buscando uma divisão cômoda dos bens, ao dispor, no art. 649, que “os bens</p><p>insuscetíveis de divisão cômoda que não couberem na parte do cônjuge ou companheiro supérstite ou no</p><p>quinhão de um só herdeiro serão licitados entre os interessados ou vendidos judicialmente, partilhando-se</p><p>o valor apurado, salvo se houver acordo para que sejam adjudicados a todos”.</p><p>Estas três possibilidades observam o art. 648, o qual determina que na partilha deverão ser observadas</p><p>as seguintes regras: “I - a máxima igualdade possível quanto ao valor, à natureza e à qualidade dos bens;</p><p>II - a prevenção de litígios futuros; III - a máxima comodidade dos coerdeiros, do cônjuge ou do</p><p>companheiro, se for o caso”. Tal inovação expressa o que já vinha sendo interpretado pelo art. 2.017 do</p><p>Código Civil (“no partilhar os bens, observar-se-á, quanto ao seu valor, natureza e qualidade, a maior</p><p>igualdade possível”).</p><p>Esta solução busca evitar litígios que o condomínio geralmente acarreta, fazendo com que a partilha</p><p>preveja a divisão completa e equânime de todo o acervo.</p><p>g) Arrolamento Comum e Sumário</p><p>Quando a herança for de pequeno valor (em novo limite agora estabelecido, qual seja, igual ou inferior a</p><p>1.000 salários-mínimos), o inventário proceder-se-á sob o rito do arrolamento comum (arts. 664, 665 e</p><p>667).</p><p>Inovou a legislação ao consagrar a efetividade do processo e possibilitar que, ainda que haja interesse de</p><p>incapaz, tal procedimento será adotado excepcionalmente, desde que as partes e o Ministério Público</p><p>estejam de acordo com a partilha (art. 665).</p><p>Contudo, para o arrolamento sumário (independente de valoração), não pode haver conflito e todas as</p><p>partes envolvidas devem ser capazes e inexistir conflito (art. 659). A inovação trazida pelo art. 659 é que,</p><p>agora, somente neste caso de arrolamento sumário, a partilha amigável será homologada (ou os bens</p><p>adjudicados ao único herdeiro) anteriormente ao recolhimento do imposto de transmissão causa mortis.</p><p>Após a expedição do formal de partilha ou da carta de adjudicação, a Fazenda Pública será intimada para</p><p>providenciar o lançamento administrativo do imposto, fora do processo. Tal regra excepcionou o art. 192</p><p>do Código Tributário Nacional (“nenhuma sentença de julgamento de partilha ou adjudicação será</p><p>proferida sem prova da quitação de todos os tributos relativos aos bens do espólio, ou às suas rendas”),</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 52</p><p>mas manteve a regra de que o Fisco não ficará adstrito aos valores atribuídos aos bens no Inventário,</p><p>conforme destacado no art. 662, § 2º.</p><p>h) Colação</p><p>A mais polêmica alteração relativa às sucessões é a valoração dos bens trazidos à colação. O art. 1.014</p><p>do Código de Processo Civil de 1973 determinava que “os bens que devem ser conferidos na partilha,</p><p>assim como as acessões e benfeitorias que o donatário fez, calcular-se-ão pelo valor que tiverem ao</p><p>tempo da abertura da sucessão”.</p><p>Porém, com a vigência do Código Civil em 2003, entendeu-se pela revogação da disposição processual,</p><p>em razão das regras do direito intertemporal, e passou-se a conferir o valor do bem trazido à colação no</p><p>ato da liberalidade, eis que o seu art. 2002 dispôs que “os descendentes que concorrerem à sucessão do</p><p>ascendente comum são obrigados, para igualar as legítimas, a conferir o valor das doações que dele em</p><p>vida receberam, sob pena de sonegação”, e o art. 2.004 salientou que “o valor de colação dos bens</p><p>doados será aquele, certo ou estimativo, que lhes atribuir o ato de liberalidade”.</p><p>Revertendo a positivação do Código Civil, a recente legislação processual manteve a disposição anterior</p><p>e dispôs que: “os bens a serem conferidos na partilha, assim como as acessões e as benfeitorias que o</p><p>donatário fez, calcular-se-ão pelo valor que tiverem ao tempo da abertura da sucessão” (art. 639,</p><p>parágrafo único). Se mantido o mesmo entendimento da doutrina civilista, de aplicação da regra do direito</p><p>intertemporal, ocorrerá um retrocesso com a aplicação do art. 693, pois, ao reproduzir o texto do CPC</p><p>anterior, em contradição ao art. 2.004 do Código Civil, modificou-se novamente o instituto da colação.</p><p>Note-se que, se o donatário, na abertura da sucessão, ainda possuir tal bem em seu patrimônio, tal</p><p>aplicação poderá lhe ser favorável na hipótese de desvalorização, como é o caso dos veículos, pois o</p><p>valor trazido à colação será menor e terá ampliado o seu quinhão relativo aos demais bens. Quando se</p><p>tratar de bem imóvel, por exemplo, em que na maior parte das vezes ocorre valorização, a disposição da</p><p>lei processual será mais prejudicial ao donatário.</p><p>Conforme entendimento da Professora CLAUDIA ELISABETE SCWERZ CAHALI, “é razoável sustentar</p><p>que a melhor solução para resolver a antinomia seria entender que o valor do bem colacionado é aquele</p><p>à época da liberalidade, atualizando-se até a sucessão (na mesma data em que os demais bens serão</p><p>considerados), conferindo-se rendimento a ambos os dispositivos legais” (in Código de Processo Civil</p><p>Anotado da AASP e OAB/PR, p. 1020. Disponível em: <http://intranet.oabpr.org.br/site/downcodigo.asp?</p><p>p=ncpc>. Acesso em 30.03.2016.)</p><p>Pode-se perceber pelas alterações acima mencionadas que o Novo Código de Processo Civil buscou dar</p><p>celeridade ao rito do inventário, assegurando, inclusive, uma maior participação dos herdeiros incapazes,</p><p>seja em sua nomeação como inventariante, seja pela possibilidade de adoção do arrolamento comum.</p><p>Ademais, a máxima de resolução consensual dos conflitos e a tutela de evidência foram trazidas</p><p>expressamente para o procedimento de inventário, o que beneficia a justa e efetiva partilha e a satisfação</p><p>dos jurisdicionados.</p><p>20.1.5. Inventário Administrativo</p><p>O inventário deixou de ser um procedimento exclusivamente judicial. (art. 610, §§ 1º e 2º).</p><p>Embora a partilha amigável já pudesse ser efetuada pela via administrativa (mediante escritura pública)</p><p>os seus efeitos ficavam condicionados à homologação judicial.</p><p>O procedimento administrativo tem caráter facultativo e dispensa homologação judicial. Caso exista</p><p>inventário judicial em andamento, os herdeiros podem, a qualquer tempo, desistir do processo e optar</p><p>pela escritura de inventário extrajudicial.</p><p>Se o falecido deixar bens situados no exterior não é possível fazer o inventário por escritura pública.</p><p>O inventário negativo, utilizado para comprovar a inexistência de bens a partilhar, é a melhor opção por</p><p>via extrajudicial.</p><p>Ele é necessário caso os herdeiros queiram comprovar que o falecido deixou apenas dívidas, ou caso o</p><p>cônjuge sobrevivente queira escolher livremente o</p><p>em qualquer outro juízo, a</p><p>incompetência é relativa – prorrogável ante o silêncio dos interessados, não pode ser reconhecida de</p><p>ofício pelo juiz.</p><p>A lei estabelece a competência da autoridade judiciária brasileira para o inventário dos bens aqui situados</p><p>(LINDB, art. 10). Se o falecido deixa bens fora do Brasil, o foro competente para o inventário é o do país</p><p>onde se situam os bens. OBS: O juízo do inventário atrai as ações que lhe sejam relativas.</p><p>7. DA HERANÇA E SUA ADMINISTRAÇÃO</p><p>7.1. Indivisibilidade e unidade da herança</p><p>A Herança é uma universalidade indivisível, é um todo unitário. Art. 1791 - a herança defere-se como um</p><p>todo unitário, ainda que haja vários herdeiros.</p><p>Se há um herdeiro há uma herança. Se há 15 herdeiros há uma herança. Art. 1791, § único - até a</p><p>partilha, o direitos dos herdeiros é regido pelas normas relativas ao condomínio (art. 1314 a 1326 do CC).</p><p>Cada um dos herdeiros tem os mesmos direitos e deveres em relação ao todo.</p><p>Antes da partilha nenhum herdeiro tem a posse ou a propriedade exclusiva sobre um bem certo e</p><p>determinado. Só a partilha individualiza os bens que cabem a cada herdeiro e atribui os quinhões de cada</p><p>sucessor.</p><p>A indivisibilidade nasce no momento da abertura da sucessão. A herança constitui um núcleo unitário.</p><p>Não é suscetível de divisão em partes materiais enquanto permanecer como herança.</p><p>O herdeiro pode alienar ou ceder sua quota ideal, antes da partilha (direito à sucessão aberta) – art. 80, II,</p><p>CC considera-o bem imóvel. Faz-se uma escritura pública de cessão de direitos hereditários.</p><p>Arts. 1793 a 1795 cessão à pessoa estranha à sucessão – direito de preferência</p><p>O coerdeiro que não for informado sobre a cessão ou não concordar com ela pode depositar o preço em</p><p>juízo e receber a cota cedida a estranho – direito de preferência (regras relativas ao condomínio)</p><p>OBS: Cada um dos herdeiros tem os mesmos direitos e deveres em relação ao todo.</p><p>A indivisibilidade diz respeito ao domínio e à posse dos bens hereditários, desde a abertura da sucessão</p><p>até a partilha.</p><p>OBS2: É ineficaz a cessão de direitos hereditários sobre qualquer bem da herança considerado</p><p>singularmente.</p><p>7.2. Administração da Herança - Responsabilidade dos herdeiros - Art. 1792, CC</p><p>Direito romano – o herdeiro respondia pelas dívidas do de cujus de forma ilimitada e absoluta. O seu</p><p>patrimônio se confundia com o do falecido, o que podia prejudicá-lo e prejudicar seus próprios credores.</p><p>Para evitar este inconveniente, após um tempo, permitiu-se a aceitação da herança livre das dívidas.</p><p>Finalmente, Justiniano em 531 disciplinou a aceitação da herança sob benefício do inventário, onde o</p><p>herdeiro só aceitava a herança se, após o inventário, se verificasse que o ativo superava o passivo.</p><p>No Brasil, o CC/1916 tornou regra a aceitação da herança sob benefício do inventário impondo que as</p><p>responsabilidades dos herdeiros nunca ultrapassariam as forças da herança. Tal determinação foi</p><p>reproduzida no art. 1792 do CC/02. (Pode-se dizer que no nosso ordenamento, a aceitação da herança é</p><p>sempre a benefício do inventário).</p><p>Assim, se o passivo for maior que o ativo, a situação é de insolvência civil – instaura-se procedimento de</p><p>declaração de insolvência (CPC, arts. 748 e NCPC, art. 618, VIII e 1052), incumbindo ao inventariante</p><p>requerê-la - concurso de credores, regendo-se as preferências e privilégios pelas regras próprias,</p><p>enquanto não vier lei especial venha a discipliná-lo diferentemente aplica-se o rito do CPC/1973.</p><p>O herdeiro deve fazer o inventário para provar as forças da herança para os credores. Na ausência de</p><p>inventário ou com um inventário lacunoso, o herdeiro deve usar outros meios de prova para evidenciar o</p><p>“excesso” (existência de débito além das forças da herança).</p><p>No inventário é feito um levantamento do patrimônio do falecido, relacionando-se os bens, créditos e</p><p>débitos. As dívidas são da herança, que responde por elas (art. 1997). Só serão partilhados os bens e</p><p>valores que restarem depois de pagas as dívidas.</p><p>7.2. Cessão de direitos hereditários - Arts. 1793 a 1795</p><p>É próprio dos direitos patrimoniais a TRANSMISSIBILIDADE.</p><p>O direito à sucessão aberta, como qualquer direito patrimonial de conteúdo econômico, pode ser</p><p>comercializado. Se não houver nenhuma cláusula de inalienabilidade imposta aos bens deixados pelo de</p><p>cujus, o herdeiro pode promover a transferência de seus direitos ou quinhão por meio de cessão.</p><p>Não pode fazer isso depois de julgada a partilha</p><p>Cessão da herança ou cessão de direitos hereditários – transferência que o herdeiro, legítimo ou</p><p>testamentário, faz a outrem de todo quinhão ou de parte dele, que lhe compete após a abertura da</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 6</p><p>sucessão - negócio jurídico translativo intervivos. Só pode ser celebrado após a abertura da sucessão.</p><p>Direito à sucessão aberta – bem imóvel – ainda que todos os bens deixados sejam móveis.</p><p>Como o direito a sucessão aberta é considerado bem imóvel, o negócio jurídico exige escritura pública e</p><p>outorga uxória ou marital, como condição de validade do negócio.</p><p>O que se considera imóvel não é o direito aos bens componentes da herança, mas o direito à herança,</p><p>como uma unidade abstrata.</p><p>O cessionário adquire a título universal, porque recebe uma cota-parte do patrimônio.</p><p>Pode ser gratuita (assemelhando-se a uma doação) ou onerosa (assemelhando-se a uma compra e</p><p>venda.</p><p>O cedente garante a existência do direito cedido, não a sua extensão ou quantidade de bens, correndo o</p><p>cessionário o risco da herança ser mais ou menos absorvida pelas dívidas. O cessionário assume o lugar</p><p>e a posição jurídica do cedente (mas não assume a qualidade de herdeiro, que é pessoal e intransferível),</p><p>fincando sub-rogado em todos os direitos e obrigações, como se fosse o próprio herdeiro, recebendo, na</p><p>partilha, o que o herdeiro cedente haveria de receber.</p><p>O coerdeiro pode ceder quota-parte ou parcela de quota-parte da herança, mas nunca um ou mais bens</p><p>determinados – Isso decorre da Indivisibilidade da herança e da incerteza relativa aos bens que tocarão a</p><p>cada coerdeiro por ocasião da partilha.</p><p>Se o cedente discriminar as coisas que pretende alienar, a alienação será ineficaz perante os outros</p><p>coerdeiros (art. 1793, § 2º). Nada impede que o cedente especifique um bem como integrante de sua</p><p>quota-parte, mas isso não obriga os demais herdeiros – se estes concordarem com a cláusula inserida no</p><p>instrumento de cessão, podem acordar que o bem especificado faça parte da quota que caberia ao</p><p>cessionário, mas não estão obrigados a fazê-lo.</p><p>OBS: Art. 1793, §1º, CC</p><p>A cessão abrange os direitos hereditários havidos até a data da realização da cessão. Se depois dela,</p><p>houver em favor do cedente substituição (ele ser indicado no lugar de herdeiro ou legatário que não</p><p>aceitar ou não puder aceitar a herança) ou direito de acrescer (ex. renúncia de coerdeiro), os direitos</p><p>resultantes presumem-se não abrangidos no ato de alienação do quinhão hereditário. Direito de</p><p>preferência do coerdeiro</p><p>Sendo o direito à posse e propriedade da herança indivisível, aplicando-se as normas relativas ao</p><p>condomínio (art. 1791) o coerdeiro não poderá ceder a sua quota hereditária a pessoa estranha à</p><p>sucessão se outro herdeiro a quiser, tanto por tanto – ART. 1794 (LER)</p><p>- ART. 1795 - Repete a regra do art. 504, caput, do CC – condomínio</p><p>O coerdeiro preterido pode exercer seu direito de preferência ou prelação, pela ação de preempção,</p><p>ajuizada no prazo decadencial de 180 dias, contados da data em que teve ciência da alienação, e na qual</p><p>efetuará o depósito do preço pago, havendo para si a parte vendida a terceiro.</p><p>Qualquer impugnação à cessão, que não puder ser decidida de plano pelo juiz, as partes devem recorrer</p><p>às vias ordinárias, ficando reservada a quota da herança sub judice.</p><p>A preferência só pode ser exercida nas cessões onerosas, como se depreende da expressão</p><p>regime de bens de um novo casamento.</p><p>A escritura de partilha constitui título hábil para o registro imobiliário (que é o seu efeito principal). Serve</p><p>também para outros fins, como autorizar o levantamento, pelos herdeiros, de valores depositados em</p><p>contas bancárias do falecido, sem necessidade de alvará judicial, transferir a propriedade de veículos no</p><p>Detran, além de outras providências.</p><p>A Lei 11.441/07, para permitir a realização de inventário e partilha mediante escritura pública lavrada pelo</p><p>notário (tabelião), QUANDO TODOS OS INTERESSADOS FOREM CAPAZES E NÃO HOUVER</p><p>TESTAMENTO.</p><p>OBS: Tais medidas têm sido mitigadas. A 4ª Turma do STJ julgou em 15/10/2019 (REsp 1.808.767/RJ),</p><p>ser possível o inventário extrajudicial quando houver testamento do falecido, notadamente em se tratando</p><p>de interessados maiores, capazes e concordes, devidamente acompanhados de seus patronos. O</p><p>precedente foi relatado pelo ministro Luis Felipe Salomão. Na linha do art. 5° da LINDB e dos arts. 3°, §</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 53</p><p>2°, 4° e 8° do CPC, o fim social em relação ao inventário extrajudicial é a redução de formalidades e</p><p>burocracias, com o incremento do maior número de procedimentos alternativos ao Judiciário. Dessa</p><p>forma, é possível o inventário extrajudicial, ainda que exista testamento, se os interessados forem</p><p>capazes e concordes e estiverem assistidos por advogado, desde que o testamento tenha sido</p><p>previamente registrado judicialmente ou se tenha a expressa autorização do juízo competente</p><p>E a existência de filhos menores emancipados não impede a realização de inventário extrajudicial. O</p><p>Conselho Nacional de Justiça, no Pedido de Providência 409-15.2014.2.00.0000, relator Conselheiro</p><p>Gustavo Alkmim, aperfeiçoou a Resolução CNJ nº 35/2007, com vistas a dar tratamento uniforme quanto</p><p>à possibilidade de realização de inventário e divórcio extrajudicial mesmo quando houver filhos</p><p>emancipados.</p><p>Partes interessadas: cônjuge/companheiro sobrevivente; herdeiros legítimos; eventuais cessionários ou</p><p>credores. As partes e respectivos cônjuges devem constar na escritura, nomeados e qualificados.</p><p>Se um herdeiro não tiver interesse em receber a herança, a renúncia pode ser feita por escritura pública.</p><p>OBS2: Deve ser nomeado um interessado para representar o espólio, com poderes de inventariante, no</p><p>cumprimento de obrigações ativas ou passivas pendentes, ou seja, em situações que exijam atividades</p><p>externas à escritura.</p><p>OBSERVAÇÃO. A partir de Maio de 2022, os inventários extrajudiciais podem ser realizados de</p><p>forma mais fácil. Está em vigor a Resolução CNJ nº 452/2022, que permite a nomeação de</p><p>inventariante por escritura pública, diretamente no cartório, para os casos de inventários</p><p>extrajudiciais. Com isso, meeiros e herdeiros podem nomear um inventariante que fará o</p><p>levantamento de dívidas e bens. Os inventários extrajudiciais são aqueles em que geralmente não</p><p>há litígios entre as pessoas herdeiras e meeiras.</p><p>A nova norma altera o artigo 11 da Resolução CNJ nº 35/2007, que disciplina a lavratura dos atos</p><p>notariais relacionados a inventário, partilha, separação consensual, divórcio consensual e</p><p>extinção consensual de união estável por via administrativa, permitindo a nomeação de um</p><p>inventariante.</p><p>Além disso, o regulamento permitiu que a nomeação de um inventariante pudesse ser feita sem</p><p>necessariamente seguir a ordem estabelecida no artigo 617 do Código de Processo Civil.</p><p>OBS3: Os credores podem receber o pagamento diretamente mediante acordo com os herdeiros, ou</p><p>figurar na escritura pública para oportuno recebimento de seu crédito. Ainda que não indicados ou</p><p>nomeados, os credores terão sempre resguardados os seus direitos, podendo exigi-los em ação própria</p><p>contra os herdeiros, na proporção dos quinhões que lhes forem atribuídos na partilha.</p><p>A escritura deve ser lavrada por tabelião de notas. A escolha do tabelião é livre, não se aplicando as</p><p>regras de competência do NCPC.</p><p>A competência é uma medida da jurisdição, que é monopólio do Poder Judiciário, e o tabelião não tem</p><p>poderes jurisdicionais. Logo, os interessados podem promover a lavratura da escritura no cartório da</p><p>localidade que lhes for mais conveniente, independentemente do domicílio do de cujus, da situação dos</p><p>bens e de serem os interessados ali domiciliados ou não.</p><p>OBS4: os bens situados no exterior não podem ser objeto de inventário no Brasil. Devem ser</p><p>inventariados e partilhados por meio de procedimento autônomo, no país em que se encontram.</p><p>A gratuidade prevista na Lei 11.441/07 compreende as escrituras públicas de inventário, partilha,</p><p>separação e divórcio consensuais, bastando para sua obtenção a simples declaração dos interessados,</p><p>de que não possuem condições de arcar com os emolumentos.</p><p>Assistência de advogado: Não é a simples presença formal do advogado ao ato para sua autenticação</p><p>e sim a efetiva participação na orientação dos interessados, esclarecendo dúvidas de caráter jurídico e</p><p>redigindo ou revisando a minuta do acordo.</p><p>Admite-se inventário negativo por escritura pública. A escritura deve contar todos os dados de</p><p>identificação do de cujus, do cônjuge sobrevivente e dos sucessores (que herdariam caso houvesse</p><p>patrimônio), além da declaração da data e local do óbito, bem como de inexistência de bens a partilhar,</p><p>comparecendo ao ato todas as partes interessadas.</p><p>OBSERVAÇÃO: A realização de divórcios, compra e venda de imóveis, doações, partilhas e</p><p>inventários de bens imóveis urbanos e rurais no Brasil pode ser feita por meio de</p><p>videoconferência por todos os cartórios de notas do país desde 27/05/2020. O Provimento nº</p><p>100/2020 foi publicada pela Corregedoria Nacional de Justiça do Conselho Nacional de Justiça</p><p>(CNJ), órgão que fiscaliza os serviços dos cartórios, e dispõe sobre a realização de atos notariais</p><p>eletrônicos a distância utilizando a plataforma e-Notariado, desenvolvida pelo Colégio Notarial do</p><p>Brasil - Conselho Federal (CNB/CF). O procedimento estava há dois anos em andamento no CNJ.</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 54</p><p>O Colégio Notarial do Brasil – Conselho Federal manterá um registro nacional único dos</p><p>Certificados Digitais Notarizados e de biometria.</p><p>Para a prática do ato notarial eletrônico, o Provimento estabelece os seguintes requisitos: I –</p><p>videoconferência notarial para captação do consentimento das partes sobre os termos do ato jurídico; II –</p><p>concordância expressada pelas partes com os termos do ato notarial eletrônico; III – assinatura digital</p><p>pelas partes, exclusivamente através do e-Notariado; IV – assinatura do Tabelião de Notas com a</p><p>utilização de certificado digital ICP-Brasil; V – uso de formatos de documentos de longa duração com</p><p>assinatura digital.</p><p>Para garantir a necessária segurança jurídica, o Provimento prevê que a gravação da videoconferência</p><p>notarial deverá conter, no mínimo: a) a identificação, a demonstração da capacidade e a livre</p><p>manifestação das partes atestadas pelo tabelião de notas; b) o o consentimento das partes e a</p><p>concordância com a escritura pública; c) o objeto e o preço do negócio pactuado; d) a declaração da data</p><p>e horário da prática do ato notarial; e e) a declaração acerca da indicação do livro, da página e do</p><p>tabelionato onde será lavrado o ato notarial.</p><p>Um dispositivo de crucial importância diz respeito à assinatura de atos notariais eletrônicos,</p><p>estabelecendo que é imprescindível a realização de videoconferência notarial, para captação do</p><p>consentimento das partes sobre os termos do ato jurídico, a concordância com o ato notarial, a utilização</p><p>da assinatura digital e assinatura do Tabelião de Notas com o uso do certificado digital,</p><p>segundo a</p><p>Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira – ICP (artigo 9, parágrafo 3º).</p><p>O e-Notariado, segundo o Provimento, disponibilizará as seguintes funcionalidades: I – matrícula notarial</p><p>eletrônica; II – portal de apresentação dos notários; III – fornecimento de certificados digitais notarizados</p><p>e assinaturas eletrônicas notarizadas; IV – sistemas para realização de videoconferências notariais para</p><p>gravação do consentimento das partes e da aceitação do ato notarial; V - sistemas de identificação e de</p><p>validação biométrica; VI – assinador digital e plataforma de gestão de assinaturas; VII – interconexão dos</p><p>notários; VIII - ferramentas operacionais para os serviços notariais eletrônicos; IX – Central Notarial de</p><p>Autenticação Digital – CENAD; X – Cadastro Único de Clientes do Notariado – CCN; XI - Cadastro Único</p><p>de Beneficiários Finais – CBF; XII – Índice Único de Atos Notariais – IU.</p><p>Fica, ainda, instituída a Matrícula Notarial Eletrônica – MNE, que servirá como chave de identificação</p><p>individualizada, facilitando a unicidade e rastreabilidade da operação eletrônica praticada. O número da</p><p>Matrícula Notarial Eletrônica, composta por 24 (vinte e quatro) dígitos e organizada em 6 (seis) campos,</p><p>de acordo com o artigo 12 e seus parágrafos, integra o ato notarial eletrônico, devendo ser indicado em</p><p>todas as cópias expedidas.</p><p>20.1.5.1. Procedimento</p><p>Cabe ao advogado a responsabilidade do gerenciamento da coleta dos documentos necessários para o</p><p>ato extrajudicial.</p><p>Logo realizará Petição Inicial endereçada ao Tabelião escolhido. Este, ou seu escrevente autorizado,</p><p>receberá o pedido acompanhado de procuração, e tão logo lavrará em livro próprio a pedida escritura</p><p>pública.</p><p>Esta, lavrada, zelada, e assinada deverá ser apresentada aos órgãos de registro, Registro de Imóveis,</p><p>DETRAN, Entidades Financeiras, para que ocorra a transferência dos bens.</p><p>Ainda, quando se tratar de separação e divórcio, a escritura ora lavrada deverá ser apresentada ao</p><p>Cartório de Registro de Pessoas Naturais competente para a devida averbação as margens do assento</p><p>do casamento, averbando assim a separação ou o divórcio do casal apresentante.</p><p>Importante relembrar que a não aceitação do pedido de lavratura de escritura pública por parte do</p><p>tabelião não poderá ser questionado, pois poderá este rejeitar a realização do ato, por dúvida ou</p><p>apresentação incorreta da documentação necessária. Assim à negativa de escrituração não cabe</p><p>sanções ao tabelião.</p><p>O ato notarial apesar de guarnecido pelo texto legal da Lei 6.015/1973, reger-se-á pelo NOVO CPC, pois</p><p>necessário faz-se a utilização dos termos gerais quanto a inventário, divórcio e separação.</p><p>Importante ressaltar que mesmo já iniciado por meio judicial a qualquer tempo as partes assistidas por</p><p>advogado, podem requerer desistência para que se processo via administrativa o ato, ou requerer</p><p>conversão do ato judicial em extrajudicial.</p><p>OBS.: Somente poderá realizar o ato extrajudicial caso aja o consenso de todas as partes envolvidas.</p><p>20.1.5.2. Documentos Necessários</p><p>São obrigatórios os seguintes documentos para a realização do Inventário Extrajudicial:</p><p> Certidão de Óbito;</p><p> Certidão expedida pela Receita Federal do CPF do espólio;</p><p> Documentos pessoais das partes envolvidas (RG, CPF);</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 55</p><p> Certidões comprobatórias do vínculo de parentesco dos herdeiros (Ex.:, certidões de nascimento,</p><p>casamento, óbito etc.);</p><p> Certidões Federais, Estaduais e Municipais, correspondente ao CPF do espólio e das partes</p><p>envolvidas;</p><p> Certidão negativa conjunta da Secretaria da Receita Federal e Procuradoria Geral da Fazenda</p><p>Nacional;</p><p> Certidão de propriedade expedida pelo Registro de Imóveis, dos bens imóveis, atualizada e não</p><p>anterior à data do óbito;</p><p> Certidão ou documento oficial comprobatório do valor venal dos bens imóveis, relativo ao exercício</p><p>do ano do óbito ou ao ano imediatamente seguinte deste;</p><p> Procuração “Ad Judicia”;</p><p> Petição Inicial;</p><p> ITCD devidamente recolhido junto ao SEFAZ competente;</p><p> ITBI devidamente recolhido, caso exista Cessão de Direitos Hereditários;</p><p> Escritura de pacto antenupcial e seu registro, quando for o caso;</p><p> Documentos comprobatórios do domínio e valor dos bens móveis, se houver;</p><p> Certidão de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR), se houver imóvel rural a ser partilhado.</p><p>OBS.: O ato notarial de inventário e partilha pode ser realizado a qualquer tempo, não importando o prazo</p><p>estabelecido pelo NCPC de 30 dias, prorrogável por mais 30 dias (Artigo 31 da Resolução 35/2007).</p><p>OBS2: O inventário e partilha, via administrativa, pode ser realizado em qualquer comarca, apenas</p><p>devendo se realizar em Cartório de Notas sobre a fé pública do Tabelião devidamente designado pelo</p><p>Tribunal de Justiça competente estadual.</p><p>OBS3: Mesmo havendo a possibilidade da realização do ato notarial o tabelião pode se negar a lavrar a</p><p>escritura se houver fundados indícios de fraude ou em caso de dúvidas sobre a declaração de vontade de</p><p>algumas das partes envolvidas, fundamentando a sua recusa por escrito (Artigo 32 da Resolução</p><p>35/2007).</p><p>OBS4.: O Tabelião deve zelar pela segurança jurídica dos atos realizados em sua serventia, assim como</p><p>o Juiz o faz, devendo manter a mais correta aplicação da lei.</p><p>OBS5: Quanto ao ITCD em Goiás temos uma das alíquotas mais altas do país, Conforme o Código</p><p>Tributário Estadual (artigos 72 a 89), o art.78 prevê alíquotas progressivas do ITCD são: I - de 2% (dois</p><p>por cento), quando o valor da base de cálculo for até R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais); II - de 4%</p><p>(quatro por cento), sobre o valor da base de cálculo que exceder a R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais)</p><p>até R$ 200.000,00 (duzentos mil reais); III - de 6% (seis por cento), sobre o valor da base de cálculo que</p><p>exceder a R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) até R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais); e IV - de 8% (oito</p><p>por cento), sobre o valor da base de cálculo que exceder a R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais).</p><p>Lembrando que todas dobram que não realizado o inventário dentro de 1 ano da morte do de cujus.</p><p>O pagamento do crédito tributário do ITCD pode ser dividido em até 48 (quarenta e oito) parcelas mensais</p><p>e sucessivas, ou em até 8 (oito) parcelas semestrais e sucessivas, obedecido valor mínimo de cada</p><p>parcela, conforme dispuser o regulamento, nas seguintes hipóteses: I - se for decorrente de ação fiscal;</p><p>ou II - na transmissão causa mortis, quando não houver, no montante a ser partilhado, importância</p><p>suficiente em dinheiro, título ou ação negociável para pagamento do imposto.</p><p>No caso da lavratura da escritura pública ou do cancelamento da averbação no cartório, tem que ser pago</p><p>antecipadamente, em parcela única.</p><p>RESUMINDO OS DOCUMENTOS NECESSÁRIOS.</p><p>Documentos do falecido</p><p> RG, CPF, certidão de óbito, certidão de casamento (atualizada até 90 dias) e escritura de pacto</p><p>antenupcial (se houver)</p><p> Certidão comprobatória de inexistência de testamento expedida pelo Colégio Notarial do Brasil,</p><p>através da Censec (http://www.censec.org.br/);</p><p> Certidão Negativa da Receita Federal e Procuradoria Geral da Fazenda Nacional;</p><p> Documentos do cônjuge, herdeiros e respectivos cônjuges;</p><p> RG e CPF, informação sobre profissão, endereço, certidão de nascimento, certidão de casamento</p><p>dos cônjuges (atualizada até 90 dias).</p><p> Se o falecido vivia em união estável, os herdeiros podem reconhecer a existência dessa união na</p><p>escritura de inventário ou a companheira viúva deve apresentar a Escritura Pública de</p><p>Reconhecimento ou sentença judicial respectiva. Se o companheiro for o único herdeiro ou se</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 56</p><p>houver conflito entre ele e os demais herdeiros, o reconhecimento da união estável deve ser feito</p><p>judicialmente.</p><p>Documentos do advogado</p><p> Carteira da OAB, informação</p><p>sobre estado civil e endereço do advogado;</p><p> Informações sobre bens, dívidas e obrigações, descrição da partilha e pagamento do ITCMD;</p><p> Imóveis urbanos: certidão de ônus expedida pelo Cartório de Registro de Imóveis (atualizada até</p><p>30 dias), carnê de IPTU, certidão negativa de tributos municipais incidentes sobre imóveis,</p><p>declaração de quitação de débitos condominiais.</p><p>Para imóveis rurais:</p><p> Certidão de ônus expedida pelo Cartório de Registro de Imóveis (atualizada até 30 dias);</p><p> Cópia autenticada da declaração de ITR dos últimos cinco anos ou Certidão Negativa de Débitos</p><p>de Imóvel Rural emitida pela Secretaria da Receita Federal – Ministério da Fazenda;</p><p> Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR) expedido pelo INCRA.</p><p>Para bens móveis:</p><p> Documento de veículos;</p><p> Extratos bancários;</p><p> Certidão da junta comercial ou do cartório de registro civil de pessoas jurídicas;</p><p> Notas fiscais de bens e joias, etc.</p><p>O pagamento do Imposto de Transmissão Causa Mortis (ITCD) na SEFAZ - ESTADUAL, conforme regras</p><p>lançadas na OBS5.- Em Goiás o procedimento pode ser requerido via o site na internet da Secretaria da</p><p>economia: https://www.economia.go.gov.br/receita-estadual/itcd.html</p><p>20.1.5.3. Benefícios da realização do ato extrajudicial</p><p> Livre escolha do tabelião;</p><p> Quebra do foro competente, sendo regra do domicílio do falecido, à via administrativa, da escolha</p><p>das partes;</p><p> Celeridade processual;</p><p> Valorização da conciliação;</p><p>OBS.: Lamentavelmente, mesmo após alguns anos da vigência da Lei 11.441/2007, pode-se afirmar que</p><p>há pouco uso e conhecimento, por parte dos advogados, do procedimento e da celeridade administrativa</p><p>apresentada pela legislação complementar.</p><p>21. DOS SONEGADOS</p><p>Sonegar é ocultar bens que devem ser inventariados ou levados à colação (art. 1992 e 1993, CC).</p><p>A sonegação de bens no inventário constitui infração que pode ser praticada pelo inventariante (quando</p><p>omite, intencionalmente, bens ou valores, ao prestar as primeiras e as últimas declarações, afirmando</p><p>não existir outros bens a inventariar) ou pelo herdeiro (que não indica bens em seu poder, ou</p><p>sabidamente no poder de terceiros, ou ainda omite os doados pelo de cujus sujeitos à colação).</p><p>Constitui sonegados, por exemplo: falsificar escrito para diminuir o ativo; ocultar créditos, aquisições, etc;</p><p>disfarçar doação ou dádiva; extraviar ou ocultar títulos de propriedade ou de dívida, etc.</p><p>Pressuposto subjetivo – DOLO</p><p>Pena – tem caráter civil e consiste para o herdeiro na perda do direito sobre o bem sonegado, que é</p><p>devolvido ao monte e partilhado aos outros herdeiros. Se o sonegador escondeu todos os bens, não</p><p>receberá coisa alguma.</p><p>Quando o sonegador for o inventariante, a pena de sonegados limita-se à remoção da inventariança.</p><p>OBS: o testamenteiro, que também for inventariante, também está sujeito à pena de perda da</p><p>inventariança, bem como da vintena, se a sonegação disser respeito aos bens testados.</p><p>Ação de sonegados – art. 1994</p><p>A simples destituição do inventariante pode ser decretada nos próprios autos do inventário, se neles</p><p>houver elementos comprobatórios da sonegação.</p><p>A perda do direito aos bens pelo herdeiro ou inventariante-meeiro só pode ser decretada por sentença</p><p>proferida em ação ordinária, por se tratar de questão de alta indagação.</p><p>A ação de sonegados prescreve em 10 anos (art. 205, CC) e deve ser ajuizada no foro do inventário. A</p><p>sonegação de bens não anula nem rescinde a partilha; corrige-se na sobrepartilha (art. 2022, CC).</p><p>22. PAGAMENTO DAS DÍVIDAS</p><p>Os créditos do espólio devem ser cobrados pelos meios regulares para serem partilhados entre os</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 57</p><p>sucessores. A respeito das dívidas dispõe o art. 1997.</p><p>A ultimação da partilha não pode frustrar o direito dos credores, que só se extingue pelo pagamento ou</p><p>pela prescrição.</p><p>Constituem encargos da herança: a) despesas funerárias (art. 1998); b) vintena do testamenteiro (art.</p><p>1987, p.u.).; c) dívidas do falecido; d) cumprimento dos legados.</p><p>Só serão partilhados os bens ou valores que restarem depois de pagas as dívidas, isto é, depois de</p><p>descontado o que, de fato, pertence a outrem. Se as dívidas ultrapassarem as forças da herança, os</p><p>herdeiros não responderão pelo excesso.</p><p>Os legados podem ser atingidos e absorvidos pelo pagamento das dívidas quando o monte não for</p><p>suficiente para liquidá-las.</p><p>23. HABILITAÇÃO DOS CRÉDITOS. RESERVA E SEPARAÇÃO DE BENS</p><p>A cobrança das dívidas faz-se, em regra, pela habilitação do credor no inventário, devendo ser requerida</p><p>antes da liquidação, para possibilitar, se aceita, a inclusão do crédito no passivo do espólio.</p><p>As dívidas devem ser pagas de acordo com a ordem de privilégio geral – art. 965, CC.</p><p>Não sendo impugnada a habilitação de dívida vencida e exigível, o juiz declarará habilitado o credor e</p><p>mandará que se faça a separação de dinheiro ou, na sua falta, de bens suficientes para o pagamento da</p><p>dívida.</p><p>Havendo impugnação, as partes serão remetidas às vias ordinárias.</p><p>O art. 2000 do CC, faz distinção entre o credor do de cujus (do espólio) e o credor do herdeiro,</p><p>estabelecendo preferência em favor do primeiro sobre o segundo, que tem direito apenas ao</p><p>remanescente.</p><p>Efetivada a partilha, os credores devem cobrar os créditos não mais do espólio, mas dos herdeiros, na</p><p>proporção da parte que lhes couber na herança.</p><p>24. COLAÇÃO</p><p>24.1. Conceito</p><p>É o ato pelo qual os herdeiros descendentes que concorrem à sucessão do ascendente comum declaram</p><p>no inventário as doações que dele receberam em vida, sob pena de sonegados, para que sejam</p><p>conferidas e igualadas as legítimas. - art. 2002 e 2003, CC.</p><p>Colacionar é conferir, confrontar, comparar. É a obrigação de conferir as doações recebidas. É dever</p><p>imposto ao herdeiro, pois a doação de ascendente a descendentes “importa adiantamento do que lhes</p><p>cabe por herança”, nos termos do art. 544, CC.</p><p>Pessoas sujeitas à colação</p><p>- descendentes – art. 2002 e art. 2003 (cônjuge).</p><p>- O cônjuge é obrigado a colacionar, com base no art. 544 do CC. Mas este dever se restringir à hipótese</p><p>em que concorra com descendentes (e isso só acontece em determinados regimes de bens – art. 1829,I</p><p>e observado o art. 1832 do CC).</p><p>- ascendentes, colaterais e estranhos não estão sujeitos à colação</p><p>- netos devem colacionar quando representarem seus pais na herança do avô – art. 2009, CC.</p><p>- quem renunciou à herança ou dela foi excluído também está obrigado a trazer à colação as doações</p><p>recebidas, para o fim de repor o que exceder à parte disponível – art. 2008, CC.</p><p>- art. 2005, p. u. – não estão sujeitas à colação as doações feitas a descendente que não era herdeiro</p><p>necessário na data em que foram feitas.</p><p>É o momento da liberalidade e não o da abertura da sucessão que identifica a qualidade de herdeiro</p><p>necessário em relação ao seu dever de colacionar. Não importa o fato de ter se tornado herdeiro</p><p>necessário após a doação.</p><p>- A doação feita a qualquer herdeiro ou a pessoa estranha não pode exceder ao que o doador, no</p><p>momento da liberalidade, poderia dispor em testamento – art. 549, 1967 e 2007, CC.</p><p>24.2. Dispensa da colação</p><p>- art. 2005, caput: “São dispensadas da colação as doações que o doador determinar saiam da parte</p><p>disponível, contanto que não a excedam, computado o seu valor ao tempo da doação”.</p><p>- Se o testador pode deixar a porção disponível a um descendente, pode também beneficiá-lo com a</p><p>dispensa da colação, desde que o faça expressamente no próprio título constitutivo da liberalidade ou por</p><p>testamento – art. 2006, CC.</p><p>Se a liberalidade exceder à porção disponível, deverá ser reduzida aos limites da quota disponível.</p><p>- art. 2010 – o CC dispensa de colação certos gastos.</p><p>- art. 2011 – doações remuneratórias também são dispensadas por se tratarem na verdade de</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 58</p><p>contraprestações</p><p>fornecidas pelo doador em troca de favores, serviços prestados pelo donatário.</p><p>Modos de efetuar a conferência – art. 1014 a 1016, CPC</p><p>- oportunidade – prazo de 10 dias para os herdeiros se manifestarem sobre as primeiras declarações. Se</p><p>não o fizerem, serão intimados a trazer à colação as doações, sob pena de serem incursos na pena de</p><p>sonegados. Pode-ser chegar ao ponto de ser determinado até o sequestro dos bens – art. 1016, CPC.</p><p>- regra para a conferência – é a da colação em valor – art. 2002 e 2004, CC. Poderá ser feita em</p><p>substância no caso do parágrafo único do art. 2003, CC (quando os bens remanescentes no patrimônio</p><p>do de cujus forem insuficientes para assegurar a igualdade das legítimas aos descendentes e ao</p><p>cônjuge).</p><p>24.3. Valor da colação – deve ser o valor do momento da liberalidade – art. 2004, CC.</p><p>25. DA PARTILHA</p><p>25.1. Conceito</p><p>É a divisão do espólio entre os sucessores do falecido. É a operação processual pela qual a herança</p><p>passa do estado de comunhão ao estado de quotas completamente separadas. - art. 2013, CC – nenhum</p><p>condômino pode ser obrigado a permanecer na comunhão. Cada um tem o direito de requerer, a todo</p><p>tempo, que se divida a coisa comum.</p><p>25.2. Espécies de partilha</p><p>a) amigável – resulta de acordo entre interessados capazes - art. 2015 - pode ser feita por escritura</p><p>pública, termo nos autos do inventário ou instrumento particular, homologados pelo juiz, ou ainda por</p><p>escritura pública lavrada pelo notário sem necessidade de homologação judicial.</p><p>b) judicial – art. 2016 - Sempre que os herdeiros divergirem ou se algum deles for menor ou incapaz. O</p><p>herdeiro recebe os bens que integram o seu quinhão por meio do formal de partilha ou certidão do</p><p>pagamento do quinhão. O formal de partilha e a certidão de pagamento do quinhão são títulos executivos</p><p>judiciais – têm força executiva contra o inventariante, os herdeiros e os demais sucessores.</p><p>OBS: Herdeiro único, expede-se carta de adjudicação. A partilha pode ser emendada nos mesmos autos</p><p>do inventário, se todas as partes concordarem, quando tenha havido erro de fato na descrição dos bens.</p><p>c) partilha em vida – art. 2018 - quando feita por ato entre vivos sob a forma de doação é chamada de</p><p>partilha-doação; quando efetuada por testamento, chama-se partilha-testamento. O ascendente que</p><p>pretender efetivar a partilha em vida da integralidade do seu patrimônio deverá reservar bens suficientes</p><p>para sua subsistência – art. 548, CC.</p><p>OBS: sempre deve ser protegida e respeitada a legítima dos herdeiros necessários.</p><p>25.3. Regras sobre a partilha</p><p>- Deve ser observada a maior igualdade possível – art. 2017, CC</p><p>Recomenda-se evitar a indivisão – art. 2019, CC.</p><p>- Sobrepartilha art. 2021, 2022, CC e art. 1040, CPC.</p><p>25.4. Garantia dos Quinhões Hereditários</p><p>A partilha tem efeito declaratório - art. 2023, CC</p><p>Cada herdeiro se investe no quinhão recebido, ficando definido e materializado o seu direito. art. 2024 –</p><p>responsabilidade pela evicção</p><p>Visa assegurar a igualdade na partilha. Os demais herdeiros são convocados a participar de um rateio,</p><p>dividindo os prejuízos com o herdeiro evicto, na proporção de seus quinhões hereditários. A indenização</p><p>deve ser calculada de acordo com o valor do bem ao tempo da partilha e não à época em que o herdeiro</p><p>foi vencido na ação reivindicatória promovida pelo verdadeiro proprietário.</p><p>Art. 2025 – hipóteses em que se exclui a obrigação decorrente da evicção.</p><p>Art. 2026 – a composição do prejuízo do evicto deve ser feita proporcionalmente às quotas hereditárias</p><p>dos demais herdeiros. Se algum herdeiro for insolvente, os demais responderão por sua parte, incluindo</p><p>no cálculo o herdeiro evicto.</p><p>25.5. Anulação Da Partilha</p><p>1) Anulabilidade e Rescindibilidade - art. 2027, CC</p><p>A partilha deve obedecer aos requisitos de validade dos negócios jurídicos em geral – art. 171, CC.</p><p>A ação anulatória segue o rito ordinário e se processa no mesmo juízo do inventário. A ação rescisória</p><p>processa-se perante o tribunal, devendo ser ajuizada no prazo de 02 anos a contar do trânsito em julgado</p><p>da sentença que julgou a partilha.</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 59</p><p>2) Nulidade da partilha - Se houver exclusão de herdeiro, independentemente da forma em que a partilha</p><p>foi feita (amigável ou judicial), ela está eivada de nulidade absoluta e o herdeiro preterido/prejudicado</p><p>deve utilizar-se da ação de nulidade c/c petição de herança – cujo prazo de prescrição é de 10 anos.</p><p>Ação de petição de herança – art. 1824 a 1828, CC.</p><p>BIBLIOGRAFIA</p><p>BRASIL. Código Civil e Legislação em vigor.</p><p>BRASIL. Código de Processo Civil e Legislação em vigor.</p><p>BRASIL. Provimentos do CNJ.</p><p>BUENO, Cassio Scarpinella. Novo Código de Processo Civil Anotado. São Paulo: Saraiva, 2015.</p><p>DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito civil Brasileiro. São Paulo: Saraiva. Volume: Direito das Sucessões.</p><p>PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. Rio de Janeiro: Forense. Volume: Sucessões.</p><p>RODRIGUES, Silvio. Direito civil. São Paulo: Saraiva. Volume 7.</p><p>VENOSA, Silvio de Salvo. Direito civil. São Paulo: Atlas. Volume VI.</p><p>“tanto por</p><p>tanto”. Se é feita gratuitamente não há direito do coerdeiro, assim como se é feita a outro coerdeiro que,</p><p>logicamente, não é pessoa estranha à sucessão.</p><p>7.3. Abertura do Inventário - Art. 1796</p><p>O inventário deve ser instaurado no prazo de trinta dias, a contar da abertura da sucessão.</p><p>O art. 611 do NCPC, prevê o prazo de 2 (dois) meses, a contar da abertura da sucessão, ultimando-se</p><p>nos 12 (doze) meses subsequentes – o juiz pode prorrogar estes prazos de ofício ou a requerimento das</p><p>partes. OBS: Cada Estado pode instituir multa sobre o imposto a recolher, como sanção pela não</p><p>observância desse prazo (STF, Súmula 542).</p><p>Inventário: processo em que se faz a relação, descrição e avaliação dos bens deixados. Apura-se o</p><p>patrimônio do de cujus, pagam-se as dívidas passivas, cobram-se as dívidas ativas, pagam-se os</p><p>legados, o imposto causa mortis e procede-se à partilha, com a expedição dos formais.</p><p>OBS: O inventário até a Lei 11.441/07 era um procedimento judicial e contencioso.</p><p>O art. 610 do NCPC continua a permitir o inventário extrajudicial por escritura pública, desde que todos os</p><p>interessados sejam capazes e haja acordo. Havendo incapaz ou testamento, o inventário será judicial.</p><p>7.3.1 Administração provisória da herança</p><p>Até que o inventário seja instaurado, seja nomeado inventariante e este preste compromisso, o espólio</p><p>continua na posse do administrador provisório (art. 613 NCPC).</p><p>A administração provisória da herança, até o compromisso do inventariante, cabe, sucessivamente (art.</p><p>1797): a) ao cônjuge ou companheiro, se com o outro convivia ao tempo da abertura da sucessão; b) ao</p><p>herdeiro que estiver na posse e administração dos bens e, se houver mais de um nessas condições, ao</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 7</p><p>mais velho; c)ao testamenteiro; d) a pessoa de confiança do juiz, na falta ou escusa das indicadas nos</p><p>incisos antecedentes, ou quando tiverem de ser afastadas por motivo grave levado ao conhecimento do</p><p>juiz.</p><p>OBS: Na prática, somente em heranças de grande monta ou quando há dificuldades para nomear-se um</p><p>inventariante, é que surge a figura do administrador provisório.</p><p>7.4. Legitimação para suceder</p><p>Regra – legitimidade passiva - Vigora o princípio de que todas as pessoas têm legitimidade para suceder,</p><p>exceto aquelas expressamente excluídas.</p><p>Art. 1798 – pessoas nascidas ou já concebidas (assegura-se os direitos do nascituro) – Vale tanto pra</p><p>sucessão legítima como para a testamentária. Se o feto nascer morto, não há aquisição de direitos, não</p><p>recebe nem transmite direitos. Sua quota hereditária será devolvida aos herdeiros legítimos do de cujus,</p><p>ou ao substituto testamentário, se tiver sido indicado.</p><p>“Pessoas” - Não podem ser contemplados animais, salvo indiretamente, pela imposição a um herdeiro</p><p>testamentário do encargo de cuidar de um animal especificamente.</p><p>Tanto as pessoas naturais como as jurídicas, de direito público ou privado, podem ser beneficiadas por</p><p>testamento.</p><p>Excluem-se as coisas inanimadas e as entidades místicas, como os santos.</p><p>Só as pessoas vivas ao tempo da abertura da sucessão podem ser herdeiras. Se no instante da abertura</p><p>da sucessão o herdeiro já é morto, defere-se a herança aos outros da sua classe, ou aos da classe</p><p>imediata se for o único.</p><p>7.4.1 Legitimação para suceder por testamento - Art. 1799, CC</p><p>Indica outras pessoas que também podem ser contempladas, além das existentes ou já concebidas</p><p>quando da abertura da sucessão. – pessoas que só podem receber herança ou legado por disposição de</p><p>última vontade.</p><p>- Inciso I – exceção à regra – permite que os filhos não concebidos (prole eventual), de pessoas indicadas</p><p>pelo testador, e vivas ao abrir-se a sucessão, possam receber a herança. O testador dá um salto,</p><p>passando por cima dos genitores, contemplando os filhos que estes tiverem, e se tiverem.</p><p>Após a liquidação ou a partilha, os bens da herança serão confiados a um curador, nomeado pelo juiz</p><p>(art. 1800). ART. 1801 – o curador poderá ser a própria pessoa cuja prole eventual o testador quis</p><p>contemplar, e sucessivamente, às pessoas que podem ser nomeadas curadoras do interdito (art. 1775).</p><p>OBS: Neste caso, não se trata mais do nascituro, mas sim do concepturo.</p><p>- Prazo de espera – 02 anos (art. 1800, § 4º)</p><p>Inciso II – Pessoas jurídicas - A existência legal das pessoas jurídicas começa com a inscrição do ato</p><p>constitutivo no respectivo registro (art. 45, CC)</p><p>Inciso III – Fundações (art. 62, CC) - Podem ser criadas por escritura pública ou por testamento. Por não</p><p>existir, ainda, a pessoa jurídica idealizada pelo testador, os bens ficarão sob a guarda provisória da</p><p>pessoa encarregada de instituir a fundação, até o registro de seu estatuto, quando passará a ter</p><p>existência legal.</p><p>7.5. Não podem ser nomeados herdeiros testamentários nem legatários (art. 1801, CC)</p><p>Pessoas que não podem adquiri por testamento por serem consideradas suspeitas. Poderiam abusar da</p><p>confiança do testador e alterar sua vontade para obter algum benefício para si ou para seus parentes,</p><p>cônjuge ou companheiro. Poderiam até interferir na liberdade do testador.</p><p>Art. 1802 – nulas as disposições feitas às pessoas que são proibidas de suceder. Presume-se a</p><p>interposição de pessoas quando são beneficiados os previstos no parágrafo único do art. 1802</p><p>Art. 1803 – logicamente que é lícita, porque não há discriminação entre filhos. Independentemente da</p><p>origem da filiação, todos os filhos têm os mesmos direitos (art. 227, §6º, CF)</p><p>8. ACEITAÇÃO DA HERANÇA</p><p>8.1.Conceito: Ato jurídico unilateral pelo qual o herdeiro legítimo ou testamentário manifesta a vontade</p><p>de aceitar a herança.</p><p>Trata-se de uma confirmação, já que, aberta a sucessão, a herança transmite-se desde logo aos</p><p>herdeiros legítimos e testamentários (art. 1784 – Princípio da Saisine)</p><p>Revela a concordância do beneficiário em receber a herança. Só é herdeiro quem deseja sê-lo. Ninguém</p><p>deve ser herdeiro contra a própria vontade.</p><p>A aceitação torna definitiva a transmissão da herança ao herdeiro, desde a abertura da sucessão (tem</p><p>efeitos ex tunc).</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 8</p><p>Tem efeito retro-operante – retroage à data do óbito.</p><p>A aceitação nada mais é do que o não exercício do direito de renunciar à herança.</p><p>OBS: A aceitação costuma ser tácita (o herdeiro pratica atos que demonstram a intenção de aceitar a</p><p>herança, como por ex: intervir no inventário, representado por advogado, concordando com as primeiras</p><p>declarações).</p><p>8.2. Espécies de aceitação</p><p>8.2.1. Quanto à forma:</p><p>a) Aceitação expressa – é manifestada por declaração escrita (pública ou particular) em que o herdeiro</p><p>declara seu desejo de receber a herança (art. 1805, 1ª parte). Manifestação oral não vale como</p><p>aceitação.</p><p>b) Aceitação tácita – resulta de qualquer ato que demonstre intenção de aceitar a herança (art. 1805, 2ª</p><p>parte). Ex: intervenção no inventário, representado por advogado, concordando ou impugnando as</p><p>primeiras declarações; cessão de direitos, etc.</p><p>OBS: Já se decidiu que o simples requerimento de abertura de inventário não traduz o propósito de</p><p>aceitar a herança, por se tratar de obrigação legal do herdeiro. Também não exprimem aceitação os atos</p><p>oficiosos, como o funeral, os meramente conservatórios ou de administração e guarda provisória (art.</p><p>1805, § 1º, CC) – não importam automaticamente em aceitação da herança.</p><p>Clóvis Beviláqua define:</p><p> atos oficiosos –organização do velório, funeral, cerimônias religiosas (atos praticados por</p><p>sentimento humanitário, altruísta, sem qualquer interesse).</p><p> atos meramente conservatórios – necessários e urgentes para impedir a perda ou deterioração</p><p>dos bens.</p><p> atos de administração ou guarda provisória – praticados pelo herdeiro para atender uma</p><p>necessidade urgente, sem a intenção de ter os bens para si, ou seja, com o ânimo de entregá-los,</p><p>logo que possível, a quem deva guardá-los e conservá-los.</p><p>OBS1: O herdeiro pode pagar as dívidas do morto por motivos de ordem moral, por exemplo, e isso não</p><p>necessariamente importará em aceitação da herança.</p><p>OBS2: O art. 1805, § 2º, dispõe que: a cessão gratuita pura e simples aos demais coerdeiros não importa</p><p>em aceitação. Tal ato equivale a uma renúncia.</p><p>c) aceitação presumida (art. 1807, CC) - Ocorre quando algum interessado em saber se o herdeiro aceita</p><p>ou não a herança, requer ao juiz, depois de passados 20 dias da abertura da sucessão, que marque ao</p><p>herdeiro (por meio de notificação judicial) prazo razoável (não maior que 30 dias), para se pronunciar se</p><p>aceita ou não a herança, SOB PENA DE HAVER A HERANÇA POR ACEITA.</p><p>Notificação judicial. Juízo competente – juízo do inventário.</p><p>Direito (prazo) para deliberar – esgotado o prazo estipulado pelo juiz para que o herdeiro manifeste se</p><p>aceita ou não a herança, o seu silêncio será interpretado como aceitação.</p><p>Nesta espécie de aceitação não há nenhum ato positivo do herdeiro, a simples omissão é tida como</p><p>aceitação da herança.</p><p>8.2.2 Quanto à pessoa que a manifesta (ou quanto ao agente):</p><p>a) Aceitação direta – feita pelo próprio herdeiro.</p><p>b). Aceitação indireta – quando alguém a faz pelo herdeiro. Esta pode acontecer em quatro hipóteses:</p><p>1) Aceitação pelos sucessores – o herdeiro que falece antes de aceitar a herança morre na posse</p><p>de um direito, que se transmite aos seus sucessores. Trata-se de sucessão hereditária do direito</p><p>de aceitar/renunciar (art. 1809, caput, CC) A morte do herdeiro antes da aceitação da herança</p><p>impede a transmissão direta da herança (ainda não aceita) aos seus sucessores, mas transfere-</p><p>lhes o direito de aceitá-la ou renunciá-la. Não apenas os direitos sucessórios são transmitidos,</p><p>como também o prazo para deliberar. Esta espécie de aceitação (pelos sucessores) não ocorre na</p><p>pendência de condição suspensiva, estipulada pelo testador, ainda não verificada (art. 1809,</p><p>caput). Pois, se o herdeiro falecer antes do implemento da condição, o seu direito sucessório será</p><p>extinto, já que a condição suspensiva obsta à aquisição do direito (art. 125, CC). Ex: o testador</p><p>nomeia Joselito como seu herdeiro, sob a condição de obter o primeiro lugar em determinado</p><p>concurso público. Se Joselito falecer antes de verificada a condição (ou seja, antes de passar no</p><p>tal concurso), os eventuais direitos que ele receberia são como se nunca tivessem existido. Os</p><p>herdeiros de Joselito não o sucederão no direito de aceitar a herança.</p><p>- art. 1809, parágrafo único – impõe uma condição para que os sucessores do herdeiro falecido</p><p>possam aceitar ou renunciar à primeira herança – devem concordar em receber a segunda</p><p>herança. Ex: Falece José e deixa dois filhos. Um dos filhos (Joselito) morre antes de aceitar a</p><p>herança, transmitindo seus bens para os seus filhos. Estes últimos (filhos de Joselito) só poderão</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 9</p><p>aceitar a herança do avô (José) em nome do pai (Joselito), se previamente aceitarem a herança</p><p>paterna. Se renunciarem à herança do pai (Joselito) não poderão deliberar sobre a herança do</p><p>avô (José).</p><p>2) Aceitação pelo tutor ou curador – mediante autorização judicial (art. 1748, II, c/c art. 1781, CC).</p><p>O tutor ou curador pode receber herança, legado, doações, representando o incapaz.</p><p>3) Aceitação por mandatário (art. 653 a 692, CC) ou por gestor de negócios (arts. 861 a 875, CC).</p><p>É pacífico o entendimento de que se admite a aceitação da herança por procurador (mandatário).</p><p>Porém é controvertida a aceitação feita pelo gestor de negócios.</p><p>- Gestão de negócios – ocorre quando uma pessoa, sem autorização do interessado, intervém na</p><p>administração do negócio alheio, dirigindo-o segundo a vontade e o interesse presumível de seu</p><p>dono. Trata-se de uma intervenção motivada pela necessidade ou utilidade, com a intenção de</p><p>trazer proveito para o dono do negócio.</p><p>OBS: A princípio nada impede que a herança seja aceita pelo gestor de negócios, para evitar</p><p>prejuízos ao herdeiro, mesmo sem sua autorização. Para alguns autores, ela está condicionada à</p><p>confirmação posterior do herdeiro. Para outros, não é necessário confirmar, mas a aceitação só é</p><p>válida quando a não aceitação imediata pudesse prejudicar o herdeiro, uma vez que a ausência</p><p>de aceitação, o silêncio do herdeiro, importa em aceitação.</p><p>4) Aceitação pelos credores - Art. 1813 – afasta a possibilidade de haver renúncia lesiva a</p><p>credores. A renúncia à herança pode configurar fraude contra credores. Se o herdeiro prejudicar</p><p>credores com sua renúncia à herança, os credores podem aceitá-la em nome do renunciante, nos</p><p>autos do inventário não encerrado, mediante autorização judicial. O devedor não pode abrir mão</p><p>de seu patrimônio lesando os credores. O que ocorre neste caso é que a renúncia é ineficaz em</p><p>relação aos credores. Tanto que pagas as dívidas, o que sobrar não retorna ao herdeiro</p><p>renunciante, mas é dividido entre os demais cerdeiros. Pode-se dizer que a renúncia não é eficaz</p><p>até o montante das dívidas do herdeiro. Prazo decadencial de 30 dias para os credores se</p><p>habilitarem no inventário – art. 1813, § 1º (a contar do conhecimento da renúncia) – cabe aos</p><p>credores provar quando tomaram conhecimento da renúncia prejudicial efetuada pelo herdeiro. -</p><p>Se o processo de inventário já estiver encerrado ou se houver decorrido o prazo para o credor se</p><p>habilitar, este deverá se valer da ação pauliana para anular o negócio jurídico fraudulento (art. 158</p><p>a 165, CC). Pagas as dívidas, o remanescente é devolvido aos herdeiros e não ao renunciante,</p><p>que perdeu a condição de herdeiro.</p><p>8.3. Características da aceitação</p><p> Ato jurídico unilateral – porque se aperfeiçoa com uma única manifestação de vontade;</p><p> de natureza não receptícia – porque não depende de ser comunicado a outrem para que produza</p><p>efeitos;</p><p> indivisível e incondicional – não se pode aceitar a herança em parte, sob condição ou a termo (art.</p><p>1808, CC)</p><p>A herança deve ser aceita sempre na sua totalidade. O herdeiro não pode aceitar apenas uma parte ou</p><p>fração do quinhão que lhe cabe na herança, nem pode aceitar determinados bens e outros não, ou ainda,</p><p>desde certo tempo ou até certo tempo. Ex: receber apenas bens imóveis – não é possível.</p><p>OBS: art. 1808, § 1º - Se o sucessor do de cujus for ao mesmo tempo herdeiro e legatário, poderá aceitar</p><p>a herança e o legado; renunciar a ambos; aceitar a herança e renunciar ao legado ou aceitar o legado e</p><p>renunciar a herança.</p><p>- art. 1808, § 2º - o herdeiro chamado à sucessão a mais de um quinhão hereditário, sob títulos</p><p>sucessórios diversos, pode livremente deliberar quanto aos quinhões que aceita e aos que renuncia. Uma</p><p>pessoa pode ser ao mesmo tempo herdeiro legítimo e herdeiro testamentário (sucessores a título</p><p>universal). São heranças com origens diferentes. Por isso pode aceitar um quinhão e renunciar ao outro.</p><p>À primeira vista pode parecer que os §§ 1º e 2º do art. 1808 abririam exceções ao princípio da</p><p>indivisibilidade da herança. Mas as exceções são apenas aparentes, porque em ambos os casos</p><p>permanece a proibição de aceitar ou renunciar à herança parcialmente.</p><p>O que ocorre é que no § 1º difere-se herança de legado e no § 2º as heranças têm origens distintas</p><p>(sucessão legítima e sucessão testamentária).</p><p>8.4. Irretratabilidade da aceitação (art. 1812, CC)</p><p>Os atos de aceitação e renúncia são irrevogáveis. Como declaração unilateral da vontade, a aceitação</p><p>gera efeitos imediatos e definitivos.</p><p>Depois de agir como herdeiro, este não pode mais renunciar, não pode abrir mão da condição de</p><p>herdeiro.</p><p>O herdeiro, depois de já ter aceito a herança por escrito (aceitação expressa), ou já ter praticado atos</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 10</p><p>típicos de herdeiro (aceitação tácita) ou já ter silenciado</p><p>quando notificado a se manifestar (aceitação</p><p>presumida), não pode mais renunciar à herança, o que poderá fazer é ceder seus direitos hereditários.</p><p>9. RENÚNCIA DA HERANÇA</p><p>9.1. Conceito</p><p>- Ato jurídico unilateral pelo qual o herdeiro manifesta a intenção de não aceitar a herança. O herdeiro</p><p>prefere conservar-se completamente estranho à sucessão. É o repúdio manifestado pelo sucessor antes</p><p>de assumir a postura de herdeiro e enquanto não agir como herdeiro.</p><p>- Como já dito, o herdeiro não é obrigado a aceitar a herança. Sua recusa denomina-se renúncia ou</p><p>repúdio.</p><p>OBS: a transferência do quinhão hereditário à pessoa certa não é renúncia, é cessão. Acontece como na</p><p>aceitação, ou seja, tem efeito retro-operante (ex tunc), o herdeiro que renuncia é havido como se nunca</p><p>tivesse sido herdeiro e como se nunca a sucessão lhe houvesse sido deferida. Tanto o herdeiro legítimo</p><p>como o testamentário e o legatário podem renunciar.</p><p>OBS2: A renúncia é sempre gratuita. A cessão pode ser gratuita ou onerosa e é feita em favor de</p><p>determinada pessoa. Na renúncia o herdeiro não pode escolher quem ficará com o seu quinhão.</p><p>OBS3: Na renúncia o herdeiro abdica de todos os direitos, se afasta do inventário sem nada receber e</p><p>sem dirigir o seu quinhão para uma ou mais pessoas. Se quiser contemplar determinada pessoa, não se</p><p>trata de renúncia, mas sim de cessão.</p><p>OBS4: Quando o herdeiro legítimo renuncia, os bens retornam ao acervo hereditário e são recebidos</p><p>pelos demais herdeiros. Os coerdeiros recebem a parte do renunciante por “direito de acrescer”.</p><p>Desconstitui-se o ato translativo ocorrido no momento da morte e gera-se a ficção de o renunciante</p><p>jamais ter sido herdeiro.</p><p>9. 2. Forma - Art. 1806</p><p>A renúncia da herança deve constar expressamente de instrumento público (escritura pública juntada aos</p><p>autos de inventário) ou termo judicial (lavrado nos próprios autos de inventário). Escrito particular não</p><p>serve.</p><p>No inventário extrajudicial – a renúncia pode ser levada a efeito na escritura pública do inventário.</p><p>OBS: Termo nos autos é a forma mais simples e menos dispendiosa. Pode ser assinado pela parte ou por</p><p>procurador com poderes especiais (art. 661, § 1º, CC)</p><p>A renúncia é negócio solene – sua validade depende de observância da forma prescrita em lei. Não pode</p><p>ser tácita e nem se presume (deve ser feita por escritura pública ou termo nos autos). Deve resultar de</p><p>ato positivo. Também não se admite promessa de renúncia porque implicaria em pacto sucessório (o que</p><p>é proibido por lei – art. 426, CC).</p><p>Não é válida se for manifestada em documento particular. O STJ já decidiu no Resp 431965/SP: “CIVIL.</p><p>HERANÇA. RENÚNCIA. A renúncia à herança depende de ato solene, a saber, escritura pública ou termo</p><p>nos autos de inventário; petição manifestando a renúncia, com a promessa de assinatura do termo</p><p>judicial, não produz efeitos sem que essa formalidade seja ultimada. Recurso especial não conhecido.”</p><p>OBS2: Como não se pode aceitar a herança em parte, também não pode haver renúncia em parte. Mas</p><p>como já visto, pode haver renúncia da herança e aceitação do legado e vice-versa – art. 1808, CC.</p><p>9.3. Espécies de Renúncia</p><p>9.3.1. Abdicativa ou propriamente dita (renúncia própria) - Ocorre quando o herdeiro a manifesta sem ter</p><p>praticado qualquer ato que exprima aceitação e quando é pura e simples (em benefício do monte, sem</p><p>indicação de qualquer favorecido). Art. 1805, § 2º, CC (o legislador usa equivocadamente a expressão</p><p>“cessão gratuita, pura e simples” como sinônimo de renúncia. Melhor seria se tivesse usado o termo</p><p>renúncia) Esta é a verdadeira renúncia, feita gratuita e genericamente em favor de todos os coerdeiros.</p><p>Nesta o único imposto devido é o causa mortis. O renunciante não paga o imposto causa mortis porque</p><p>não participou da sucessão</p><p>9.3.2. Renúncia Translativa ou imprópria - Ocorre quando o herdeiro renuncia em favor de determinada</p><p>pessoa. Na verdade, não se trata de renúncia e sim de cessão da herança. OBS: Pode-se dar esse nome</p><p>(renúncia translativa) também no caso da renúncia pura e simples, se manifestada depois da prática de</p><p>atos que importem em aceitação da herança (habilitação no inventário, concordando com as primeiras</p><p>declarações, p.ex.). No caso da renúncia feita em favor de determinada pessoa (que é cessão na</p><p>realidade), são devidos dois impostos. O causa mortis e o intervivos. Ex: Se o filho renuncia à herança</p><p>paterna em favor de seus filhos, presume-se que aceitou a herança (incide o imposto causa mortis) e</p><p>transmitiu aos filhos por ato intervivos (incide o imposto intervivos) ITCMD</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 11</p><p>9.4. Restrições Legais ao Direito de Renunciar</p><p>Para que possa ser exercido, são necessários alguns pressupostos:</p><p>9.4.1 Capacidade jurídica plena do renunciante – a renúncia exige agente capaz Renúncia efetivada por</p><p>incapaz não tem validade, ainda que feita por seu representante legal (vez que este tem poderes de</p><p>administração e não de alienação). O representante legal do incapaz só poderá renunciar mediante prévia</p><p>autorização judicial, e o juiz somente a concederá se provada a necessidade ou evidente utilidade para o</p><p>incapaz- art. 1691, CC (o que dificilmente ocorre em se tratando de renúncia de direitos).</p><p>9.4.2 Anuência do cônjuge - Se o renunciante for casado é necessária a anuência (outorga marital ou</p><p>uxória), exceto se o regime de bens for o da separação de bens (art. 1647, I, CC). Se o regime for o da</p><p>participação final nos aquestos com cláusula de livre disposição dos bens imóveis particulares, não é</p><p>necessária a anuência do cônjuge (art. 1656, CC) e porventura o cônjuge discordar e recusar a dar sua</p><p>anuência sem motivo justo, poderá o juiz suprir a outorga denegada (art. 1648, CC).</p><p>9.4.3 Que não prejudique credores - Não pode haver renúncia lesiva a credores (art. 1813, CC). Se</p><p>ocorrer os credores podem aceitar a herança em nome do renunciante, mediante autorização judicial nos</p><p>autos do inventário.</p><p>9.5. Efeitos da Renúncia</p><p>9.5.1. Exclusão da sucessão do herdeiro renunciante – é o primeiro e principal efeito da renúncia (afastar</p><p>o renunciante da sucessão). Quem renuncia deixa de ser herdeiro desde a abertura da sucessão (efeito</p><p>ex tunc). Princípio da Saisine – com a abertura da sucessão a herança transmite-se desde logo ao</p><p>herdeiro. MAS, se ele a renuncia, a transmissão tem-se como se não efetuada (art. 1804, p. único, CC).</p><p>9.5.2. Acréscimo da parte do renunciante à dos outros herdeiros da mesma classe (art. 1810, 1ª parte) -</p><p>Se o de cujus tinha vários filhos e um deles renuncia, a sua quota passa aos irmãos, pois o renunciante é</p><p>considerado como se nunca tivesse existido. Diferente da morte – se o de cujus tinha vários filhos e um</p><p>dele é premorto, a sua parte passará aos filhos (netos do falecido) – que herdarão por representação. Art.</p><p>1810, 2ª parte –Se o renunciante for o único da sua classe a herança passa aos da classe subsequente.</p><p>Então se o de cujus deixa um filho único e este renuncia á herança, esta passa aos filhos do renunciante</p><p>– que herdarão por direito próprio e por cabeça. Diferente da pré-morte, em que os filhos herdam por</p><p>representação ou estirpe.</p><p>9.5.3. Proibição da sucessão por representação - O destino da herança deve ser compatível com a ideia</p><p>de que o renunciante desaparece da sucessão. Art. 1811, 1ª parte – ninguém pode suceder</p><p>representando herdeiro renunciante. Se um filho do renunciante lhe toma o lugar na sucessão,</p><p>representando-o, não teria aquele na verdade saído da sucessão, pois continuaria representado pelo</p><p>filho. Art. 1811, 2ª parte – Se porém o renunciante for o único da sua classe, ou se todos os outros da</p><p>mesma classe renunciarem à herança, poderão os filhos vir à sucessão por direito próprio e por cabeça.</p><p>LOGO, a parte do renunciante só passa aos filhos se ele for o único de sua classe ou se todos os outros</p><p>da mesma classe renunciarem. Cabe destacar que a herança será dividida</p><p>em partes iguais (entre os</p><p>netos), mesmo que o morto tenha deixado vários filhos renunciantes, cada qual com diversa quantidade</p><p>de filhos.</p><p>9.6. Ineficácia e Invalidade da Renúncia</p><p> Ineficácia – pode ocorrer pela suspensão temporária dos efeitos da renúncia pelo juiz, a pedido</p><p>dos credores prejudicados, a fim de se pagarem.</p><p> Invalidade absoluta (nulidade) – ocorre se não houver sido feita por escritura pública ou termo</p><p>judicial, ou quando manifestada por pessoa absolutamente incapaz, não representada e sem</p><p>autorização judicial.</p><p> Invalidade relativa (anulabilidade) – quando proveniente de erro,dolo ou coação, a ensejar a</p><p>anulação do ato por vício de consentimento, ou quando realizada sem a anuência do cônjuge.</p><p>9.7. Irretratabilidade Da Renúncia art. 1812</p><p>São irrevogáveis os atos de aceitação ou renúncia da herança. Logo, não há que se falar em</p><p>arrependimento do renunciante Depois de ter revelado que assumiu os bens que lhe foram transmitidos</p><p>(por escrito ou agindo como herdeiro), não pode mais renunciar. Isso porque a lei não admite</p><p>comportamentos contraditórios – Princípio “nemo potest venire contra factum poprium” que tutela a</p><p>confiança e não tolera condutas incoerentes. Se o herdeiro aceita a herança, não pode renunciá-la, o que</p><p>pode fazer é cessão.</p><p>10. EXCLUÍDOS DA SUCESSÃO</p><p>A sucessão hereditária fundamenta-se, dentre outras coisas, em uma razão de ordem ética – a afeição</p><p>real ou presumida do falecido ao herdeiro ou legatário.</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 12</p><p>Dois institutos preveem a possibilidade de penalizar o herdeiro que agiu de forma injusta contra o autor da</p><p>herança: a indignidade e a deserdação. São institutos que não se confundem, apesar de terem as</p><p>mesmas consequências: exclusão do herdeiro.</p><p>OBS: na renúncia o herdeiro é excluído da sucessão porque assim o quis.</p><p>10.1. Indignidade</p><p>É uma sanção civil que acarreta a perda do direito sucessório. Se o herdeiro ou legatário pratica atos</p><p>ofensivos contra o de cujus pode ser privado do direito sucessório. Trata-se de uma questão moral de não</p><p>se beneficiar o ingrato com o patrimônio deixado pelo ofendido. O instituto da indignidade objetiva impedir</p><p>que uma pessoa suceda a outra, extraindo vantagem de seu patrimônio, depois de cometer contra ela</p><p>atos lesivos graves. Não basta qualquer ato ofensivo para que o herdeiro seja excluído da sucessão por</p><p>indignidade.</p><p>Somente os casos previstos no art. 1814 do CC, que podem ser divididos em: atentado contra a vida,</p><p>contra a honra e contra a liberdade de testar do de cujus.</p><p>10.2. Pressupostos para a exclusão por indignidade</p><p> que o herdeiro ou legatário seja incurso nos casos legais de indignidade (art. 1814);</p><p> não tenha sido reabilitado (perdoado) pelo de cujus (art. 1818);</p><p> haja uma sentença declaratória da indignidade (o indigno só é afastado da sucessão mediante</p><p>sentença judicial transitada em julgado). (Art. 1815)</p><p> Obs.: Com o advento do artigo 1.815-A pela recente Lei nº. 14.661/2023, estabelece que, nos</p><p>casos de indignidade, o trânsito em julgado da sentença penal condenatória acarretará a</p><p>exclusão imediata do herdeiro indigno ao direito à herança, dispensando-se ação própria</p><p>na esfera cível.</p><p>10.3. Causas de exclusão por indignidade</p><p>Os atos ofensivos que caracterizam a indignidade estão enumerados de forma taxativa (numerus clausus)</p><p>no art. 1814 do CC – não comportando interpretação extensiva ou por analogia.</p><p>Para Maria Berenice Dias, a escolha feita pelo legislador reproduz uma preocupação antiquada e</p><p>conservadora, pois prioriza a imagem social e deixa de fora crimes que têm repercussão mais danosa à</p><p>pessoa da vítima. Melhor seria delegar ao juiz o encargo de identificar se o ato do herdeiro justificaria a</p><p>exclusão da herança. Por exemplo, é um absurdo excluir da sucessão o filho que cometeu injúria contra a</p><p>mãe e contemplá-lo se ele a estuprou (já que o estupro não está no rol do art. 1814).</p><p>De acordo com o art. 1814, CC, consideram-se indignos:</p><p>10.3.1. Os que houverem sido autores, coautores ou partícipes de homicídio doloso, ou tentativa deste,</p><p>contra a pessoa de cuja sucessão se tratar, seu cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente - O</p><p>inc. I trata da mais grave de todas as causas, pois a ingratidão do herdeiro neste caso é evidente. Há até</p><p>um provérbio alemão que se amolda a esta hipótese, que diz: “mão ensanguentada não apanha herança”.</p><p>Observa-se que não é necessário que o herdeiro seja autor do homicídio, se for coautor ou partícipe é</p><p>suficiente para sua exclusão.</p><p>O CC/1916 previa a hipótese de indignidade se o homicídio doloso (consumado ou tentado) fosse</p><p>cometido contra o autor da herança. O CC/02 pune também o herdeiro que comete homicídio contra o</p><p>cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente do autor da herança.</p><p>Não se pune o homicídio culposo com a exclusão por indignidade.</p><p>Não se exige que haja condenação criminal para que o indigno seja excluído da sucessão. O indigno é</p><p>quem comete o fato e não quem sofre a condenação penal.</p><p>A prova do fato e da culpabilidade pode ser feita no juízo cível.</p><p>Se houver sentença condenatória, reconhecendo a materialidade e autoria do causador do dano, além do</p><p>dolo, não há que se reexaminar a questão no cível. Por outro lado, se houver absolvição em razão da</p><p>inexistência do crime ou da autoria, a exclusão por indignidade será afastada.</p><p>Prevalece no Brasil o princípio da independência da responsabilidade civil em relação à penal (art. 935,</p><p>CC) – Enquanto os fatos não estiverem definidos na esfera criminal, as ações cível e criminal correrão de</p><p>forma independente e autônoma para apurar ambas as responsabilidades: a civil e a penal. Se já foi</p><p>proferida sentença criminal condenatória, é porque se reconheceu a culpa ou dolo do causador do dano e</p><p>a sentença faz coisa julgada no cível.</p><p>Se o réu for absolvido na esfera penal por alguma excludente de antijuridicidade também se afasta a</p><p>pena de indignidade, porque não houve voluntariedade, não existiu o elemento subjetivo (dolo). *Da</p><p>mesma forma acontece nos casos de loucura/embriaguez, aberratio ictus - art. 73, CP - erro na execução</p><p>ou erro por acidente (A quer matar B e atira nele, por desvio, má pontaria, acerta C); e nos casos de erro</p><p>sobre a pessoa (A quer matar B, vê C na rua e atira nele pensando ser B), porque o ato lesivo não foi</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 13</p><p>voluntário.</p><p>Há autores que entendem que a instigação/induzimento ao suicídio deve equiparar-se ao homicídio</p><p>doloso para efeito de indignidade.</p><p>OBS: se o menor comete o delito, a doutrina diverge se pode ser declarado indigno. Chega a ser imoral</p><p>que um adolescente possa se beneficiar de sua menoridade e receber a herança, após ter matado o pai.</p><p>10.3.2 Os que houverem acusado caluniosamente em juízo o autor da herança ou incorrerem em crime</p><p>contra a sua honra, ou de seu cônjuge ou companheiro. - O inciso II aponta duas hipóteses de exclusão:</p><p>10.3.2.1 Denunciação caluniosa em juízo contra o de cujus (art. 339, CP) - A lei exige que a</p><p>imputação do crime tenha sido proferida em juízo (não importa em indignidade se o herdeiro a</p><p>fizer em jornais, livros, cartas, ou até mesmo na esfera administrativa). A jurisprudência restringe</p><p>ainda mais, exigindo que a denunciação caluniosa tenha sido praticada em juízo criminal. Logo,</p><p>acusação feita no juízo cível (em ação de separação, interdição, por exemplo) não conduziria à</p><p>indignidade sucessória. Giselda Hironaka critica: acha que pode ser feita a acusação caluniosa em</p><p>qualquer juízo, porque o que a lei exige é que o fato imputado caluniosamente seja considerado</p><p>crime. Também não há necessidade de condenação criminal, basta que tenha sido instaurado o</p><p>procedimento ou investigação em virtude da postulação do herdeiro que imputou caluniosamente</p><p>ao autor da herança a prática de um crime.</p><p>10.3.2.2 A prática de crimes contra</p><p>a honra do de cujus, ou de seu cônjuge/companheiro. - Crimes</p><p>contra a honra – calúnia, difamação e injúria (arts. 138 a 140 do CP) Há quem diga que, pela má</p><p>redação do art. 1814, II, CC o crime de denunciação caluniosa só exclui o herdeiro se praticado</p><p>contra o de cujus. Se for contra o companheiro/cônjuge não exclui. A melhor solução apontada</p><p>pela doutrina e pela jurisprudência é quem em ambos os casos (denunciação caluniosa e crimes</p><p>contra a honra), a regra atinja a ofensa ao autor da herança e ao cônjuge/companheiro. Também</p><p>não é necessário haver condenação criminal. Para Washington de Barros Monteiro é necessário.</p><p>É possível ocorrer crime contra a honra mesmo após a morte da vítima (art. 138, § 2º, CP).</p><p>10.3.3 Os que por violência ou meios fraudulentos inibirem ou obstarem o autor da herança de dispor</p><p>livremente de seus bens por ato de última vontade. A lei preserva a liberdade de testar – a vontade</p><p>testamentária deve ser livre - A inibição ou impedimento pode ser tanto mediante violência (física) ou</p><p>fraude (moral). Esta regra visa punir quem atenta contar a liberdade de testar – ex: impedir a feitura de</p><p>testamento; alterar o que estava pronto; exercer pressão sobre o testador; ocultar, viciar, inutilizar ou</p><p>falsificar o testamento; atrapalhar o cumprimento das disposições testamentárias. A fraude e a violência</p><p>são vícios que podem ensejar a anulação do testamento. Isso não impede que o indigno sofra a pena de</p><p>exclusão da sucessão.</p><p>4. Procedimento para a exclusão - Art. 1815</p><p>Depende de propositura de ação específica (declaratória de indignidade), intentada por quem tenha</p><p>interesse na sucessão.</p><p>O CC/1916 estabelecia que a ação só podia ser proposta por quem tivesse interesse na sucessão. Ex:</p><p>um filho do falecido ajuizava a demanda para excluir seu irmão indigno. O CC/02 não prevê</p><p>expressamente que a ação deve ser movida por quem tenha interesse na sucessão. Mas deve-se</p><p>observar a regra de que para propor ou contestar a ação é necessário ter interesse e legitimidade.</p><p>Por certo que prevalece implícito o princípio de que a ação de exclusão por indignidade deve ser proposta</p><p>por quem tenha interesse na sucessão. Se o interessado permanece inerte, não pratica ato ilícito, é</p><p>apenas uma opção. Têm interesse: o coerdeiro favorecido com a exclusão do indigno; o Município, o DF</p><p>e a União na falta de outros sucessores legítimos e testamentários</p><p>Os credores do interessado (que seria beneficiado com a exclusão) não têm legitimidade para propor a</p><p>ação – Ninguém pode pleitear direito alheio em nome próprio, salvo quando autorizado por lei.</p><p>Há quem entenda que o MP tem legitimidade para propor a ação (por ser o guardião da ordem jurídica e</p><p>haver interesse público e social de evitar que o sucessor ingrato receba vantagem, beneficiando-se do</p><p>patrimônio deixado por sua vítima). Principalmente no caso de interessados menores ou de inexistência</p><p>de outros herdeiros.</p><p>Para quem entende que o MP não é parte legítima os menores devem estar representados por seus</p><p>representantes legais e não havendo outros herdeiros que não o indigno, cabe ao Município, DF e União</p><p>requerer sua exclusão da sucessão (art. 1844)</p><p>A ação deve seguir o rito ordinário para permitir maior produção de provas e assegurar a ampla defesa do</p><p>acusado de indignidade.</p><p>Prazo decadencial de 04 anos para a propositura da ação – 04 anos contados da abertura da sucessão</p><p>(Art. 1815, p. único, CC).</p><p>Com o óbito do indigno antes da sentença, extingue-se a ação, já que a indignidade é uma sanção civil,</p><p>tem caráter de pena, e não pode passar da pessoa do indigno.</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 14</p><p>A ação para exclusão do indigno não pode ser proposta em vida do autor da herança, até mesmo pela</p><p>inexistência de sucessão, o que acarretaria a ausência de interesse processual (necessidade/utilidade).</p><p>Em vida, o ofendido pode deserdar o seu ofensor.</p><p>9.5. Efeitos da indignidade</p><p>O reconhecimento judicial da indignidade produz vários efeitos, dentre eles:</p><p>9.5.1 descendentes do herdeiro excluído sucedem como se aquele fosse morto antes da abertura da</p><p>sucessão - premorto (art. 1816). Os efeitos da exclusão são pessoais. Os herdeiros sucedem o indigno</p><p>por representação como se ele fosse premorto. Fundamenta-se no princípio de que a pena não pode</p><p>passar da pessoa do delinquente (princípio da personalização da pena). Somente os DESCENDENTES</p><p>sucedem o indigno. Se não existirem, os demais herdeiros receberão a parte do indigno. Os bens</p><p>retirados do indigno chamam-se ereptícios.</p><p>9.5.2. os efeitos da sentença retroagem à data da abertura da sucessão – o indigno é considerado pré-</p><p>morto ao de cujus – Como consequência deve restituir os frutos e rendimentos que dos bens da herança</p><p>houver percebido, mas tem direito à ser indenizado pelas despesas com a conservação dos bens (art.</p><p>1817, p. único).</p><p>9.5.3. o excluído da sucessão não terá direito ao usufruto e administração dos bens que passem a seus</p><p>sucessores, nem à sucessão eventual desses bens. (art. 1816, p. único). Os pais são, por lei (art. 1689, I</p><p>e II), usufrutuários e administradores dos bens dos filhos menores. Esta regra (art. 1816, p. único) impede</p><p>que o indigno tire proveito, indiretamente, das rendas produzidas pela herança da qual foi afastado. A lei</p><p>impede também que o indigno herde de seus descendentes quanto aos bens que ele receberam do de</p><p>cujus em decorrência da exclusão daquele por indignidade.</p><p>9.6. Distinções entre ilegitimidade para suceder, indignidade e deserdação indignidade</p><p>ilegitimidade para suceder</p><p>9.7. Reabilitação ou perdão do indigno (art. 1818)</p><p>O herdeiro que incorre em indignidade pode ser perdoado pelo ofendido, porque ninguém melhor que ele</p><p>para avaliar o grau da ofensa. É ato formal e privativo da vítima, é ato personalíssimo, só o próprio</p><p>ofendido pode fazê-lo. A lei impõe ao ofendido que o faça por declaração expressa em testamento ou ato</p><p>autêntico (escritura pública ou declaração feita em cartório autenticada por escrivão). Não tem valor</p><p>documento particular, declarações verbais, cartas, etc.</p><p>Maria Berenice Dias entende que o escrito particular firmado pelo de cujus e por duas testemunhas, bem</p><p>como o codicilo, são válidos para a reabilitação do indigno. Admite-se o perdão tácito ou parcial (art.</p><p>1818, p. único) somente na via testamentária quando o testador houver, após a ofensa, contemplado o</p><p>indigno em testamento. (Neste caso este poderá suceder no limite da deixa testamentária). Para a</p><p>maioria da doutrina, o perdão, uma vez concedido, é irretratável.</p><p>Nulo o testamento que contém o perdão, este não terá efeito, salto se tiver sido adotada a forma pública</p><p>de testamento, quando poderá valer como ato autêntico.</p><p>9.8. Validade dos atos praticados pelo herdeiro aparente - art. 1817, caput</p><p>Professor Me. Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 2024-2 15</p><p>O excluído da sucessão é considerado herdeiro aparente em relação às alienações onerosas efetuadas a</p><p>terceiros de boa-fé. Via de regra, para os demais efeitos, a sentença de exclusão retroage, exceto para</p><p>invalidar os atos praticados pelo indigno, neste caso a sentença tem efeito ex nunc, sendo válidas as</p><p>alienações efetuadas pelo excluído antes da sentença.</p><p>Decorre da necessidade de privilegiar a boa fé de terceiros que negociaram com o falso herdeiro (art.</p><p>1827, p. único).</p><p>Herdeiro aparente: é o que se encontra na posse dos bens hereditários como se fosse legítimo sucessor</p><p>do de cujus, assumindo posição notória, ostensiva, sendo por todos considerado, por força de erro</p><p>comum ou geral, como verdadeiro herdeiro. (Zeno Veloso).</p><p>Para que os atos praticados sejam válidos é necessário que o negócio tenha sido realizado a título</p><p>oneroso. A alienação feita a título gratuito pelo indigno antes da sentença de exclusão não será</p><p>considerada válida, devendo prevalecer o direito do herdeiro real.</p><p>Portanto, para a validade do ato praticado</p><p>pelo herdeiro aparente é necessário: negócio jurídico oneroso</p><p>e terceiros adquirentes de boa-fé.</p><p>A intenção do legislador é prestigiar a boa fé do terceiro adquirente. Se provada a má-fé do contratante,</p><p>consistente no conhecimento de tratar-se o vendedor de herdeiro indigno/aparente, não se convalida a</p><p>alienação, pois assumiu o risco natural de aquisição de bem de quem tinha o risco de perder a</p><p>propriedade.</p><p>Além disso, se a disposição da herança ocorrer a título gratuito (o herdeiro indigno doar algum bem a</p><p>terceiro), o ato não será válido, pois o terceiro não terá prejuízo, apenas será privado de um ganho. O art.</p><p>1817 se aplica apenas às “alienações onerosas”.</p><p>Aos herdeiros prejudicados subsiste o direito de propor ação objetivando o ressarcimento de perdas e</p><p>danos contra o herdeiro aparente.</p><p>10. HERANÇA JACENTE E HERANÇA VACANTE</p><p>10.1. Herança Jacente</p><p>Maria Helena Diniz: “ter-se-á herança jacente quando não houver herdeiro legítimo ou testamentário,</p><p>notoriamente conhecido, ou quando for repudiada pelas pessoas sucessíveis”. Quando se abre a</p><p>sucessão e o de cujus não deixou herdeiros nem testamento, diz-se que a herança é jacente (art. 1819,</p><p>CC).</p><p>A herança é jacente quando não há quem dela possa cuidar legitimamente. Existe jacência quando não</p><p>se sabe de herdeiros: ou porque não existem, ou porque não se sabe de sua existência, ou ainda porque</p><p>os herdeiros conhecidos renunciaram à herança. A herança jacente tem uma série de medidas que</p><p>objetiva proteger os bens de um titular ainda desconhecido.</p><p>A jacência não se confunde com a vacância. O estado de jacência é uma passagem fática, transitória. A</p><p>vacância é a entrega dos bens à Fazenda Pública por não haver herdeiros que se habilitem no período da</p><p>jacência.</p><p>10.1.1. Natureza Jurídica</p><p>Segundo Silvio Venosa a herança jacente é uma entidade com personificação anômala, representada por</p><p>um curador. Para Carlos Roberto Gonçalves é um ente despersonalizado – um acervo de bens</p><p>administrado por um curador, sob a fiscalização da autoridade judiciária, até que se habilitem os herdeiros</p><p>incertos ou desconhecidos, ou se declare a vacância.</p><p>10.1.2. Características</p><p>- Transitoriedade</p><p>- A herança jacente tem legitimação ativa e passiva para estar em juízo. O CPC (art. 12, IV) determina a</p><p>representação processual por um curador (tanto da herança jacente quanto da herança vacante).</p><p>- Herança jacente é diferente de espólio (apesar de ambos não terem personalidade jurídica), porque na</p><p>primeira a sucessão ocorre porque não há herdeiros conhecidos e no segundo os herdeiros são</p><p>conhecidos.</p><p>- O procedimento de arrecadação dos bens da herança jacente vem disciplinado nos Arts. 75, VI, 689 e</p><p>738 a 743 do NCPC.</p><p>10.1.3 Hipóteses de Jacência</p><p>- Sem testamento: pode ocorrer tanto na inexistência de herdeiros conhecidos como na renúncia da</p><p>herança pelos herdeiros conhecidos.</p><p>- Com testamento: quando o herdeiro testamentário não existir ou não aceitar a herança e não houver</p><p>herdeiros das demais classes.</p><p>OBS: Há outros casos de jacência. Ex: testador nomeia filho já concebido e ainda não nascido de</p><p>Professor Lister Albernaz Direito Civil – Sucessões 16</p><p>determinada pessoa, a herança é arrecadada como jacente e aguarda-se o nascimento com vida do</p><p>beneficiário, se este não ocorre no prazo de dois anos, a herança passa aos herdeiros legítimos (art.</p><p>1800, §§ 3º e 4º). Quando o de cujus deixa bens para uma pessoa jurídica ainda em formação; pendência</p><p>de condição suspensiva. NENHUMA DESSAS SITUAÇÕES CONDUZ À VACÂNCIA DA HERANÇA.</p><p>10.2. Herança Vacante (art. 1820, CC)</p><p>A vacância é o estado definitivo da herança que foi jacente. Não havendo herdeiro aparente o juiz</p><p>promove a arrecadação dos bens para preservar o acervo e entregá-lo aos herdeiros que se apresentem</p><p>ou ao Poder Público, caso a herança seja declarada vacante.</p><p>Os bens são arrecadados para evitar a dilapidação por terceiros ou para que não desapareçam. A</p><p>declaração de vacância é condição indispensável para que a herança seja incorporada ao domínio</p><p>público.</p><p>Enquanto isso a herança permanecerá sob a guarda de um curador, nomeado livremente pelo juiz (art.</p><p>1819, CC; 738, NCPC).</p><p>Segundo Sílvio Rodrigues “herança vacante é a que não foi disputada com êxito por qualquer herdeiro e</p><p>que, judicialmente, foi declarada de ninguém”</p><p>A declaração de vacância põe fim ao estado de jacência da herança e a devolve ao Poder Público</p><p>(Município, DF ou União). Neste caso, como o Estado não é herdeiro, os bens não se transmitem no</p><p>momento da abertura da sucessão, é indispensável que haja a declaração judicial da vacância e que</p><p>transcorra o prazo de 05 anos da abertura da sucessão para que o Estado receba os bens.</p><p>OBS: O ente público não é herdeiro, não integra a ordem de vocação hereditária. Não pode renunciar à</p><p>herança porque é sucessor obrigatório (sucessor por força de lei). Deve aplicar os bens e valores que</p><p>receber em fundações destinadas ao desenvolvimento do ensino universitário, sob a fiscalização do</p><p>Ministério Público (Decreto Lei 8207/45).</p><p>Procedimento de arrecadação dos bens – arts. 738 a 743 do NCPC: O procedimento tem 04 fases: a</p><p>arrecadação dos bens; a publicação dos editais e procura de herdeiros; a entrega dos bens ao ente</p><p>publico; e a definitiva transferência dos bens ao Poder Público (Município ou DF).</p><p> Chegando ao conhecimento do juiz da comarca onde o de cujus tinha domicílio, de que este não</p><p>deixou sucessores conhecidos, o juiz, de ofício, instaura o procedimento de arrecadação da</p><p>herança considerada jacente. O Ministério Público, a Fazenda Pública ou outro interessado podem</p><p>comunicar ao juiz para que seja instaurado o procedimento de arrecadação. (Caso excepcional</p><p>dentro da lei processual, onde o juiz age de ofício e inicia um processo por portaria)</p><p> Feita a arrecadação da herança jacente (lavrado o auto de arrecadação – arts. 740 e 741 do</p><p>NCPC), os bens da herança ficarão sob a guarda e administração de um curador (remunerado)</p><p>até a respectiva entrega ao sucessor legalmente habilitado ou até a declaração de vacância.</p><p> Incumbe ao curador: I – representar a herança em juízo ou fora dele, com intervenção do</p><p>Ministério Público; II – ter em boa guarda e conservação os bens arrecadados e promover a</p><p>arrecadação de outros porventura existentes; III – executar as medidas conservatórias dos direitos</p><p>da herança; IV – apresentar mensalmente ao juiz balancete da receita e da despesa; V – prestar</p><p>contas ao final de sua gestão. Aplica-se ao curador o disposto nos arts. 159 a 161 do NCPC.</p><p> Ultimada a arrecadação, o juiz mandará expedir edital, que será publicado na rede mundial de</p><p>computadores, no sítio do tribunal a que estiver vinculado o juízo e na plataforma de editais do</p><p>Conselho Nacional de Justiça, onde permanecerá por 3 (três) meses, ou, não havendo sítio, no</p><p>órgão oficial e na imprensa da comarca, por 3 (três) vezes com intervalos de 1 (um) mês, para que</p><p>os sucessores do falecido venham a habilitar-se no prazo de 6 (seis) meses contado da primeira</p><p>publicação (art. 741 do NCPC).</p><p> Verificada a existência de sucessor ou de testamenteiro em lugar certo, far-se-á a sua citação,</p><p>sem prejuízo do edital.</p><p> Quando o falecido for estrangeiro, será também comunicado o fato à autoridade consular.</p><p> Julgada a habilitação do herdeiro, reconhecida a qualidade do testamenteiro ou provada a</p><p>identidade do cônjuge ou companheiro, a arrecadação converter-se -á em inventário.</p><p> Os credores da herança poderão habilitar-se como nos inventários ou propor a ação de cobrança.</p><p> Passado 1 (um) ano da primeira publicação do edital e não havendo herdeiro habilitado nem</p><p>habilitação pendente, será a herança declarada vacante (art. 743 do NCPC e art. 1820, CC).</p><p> Pendendo habilitação, a vacância será declarada pela mesma sentença que a julgar</p><p>improcedente, aguardando-se, no caso de serem diversas as habilitações,</p>

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