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<p>a atual quadra histórica, onde imperam um marcante N individualismo, uma brutal desigualdade social, as mais Maria Lucia Silva Barroco diversas formas de corrupção e até o crescimento de uma belicosa intolerância, o debate sobre como salvaguardar os valores de pluralismo, democratização das relações de poder e defesa dos direitos humanos ganha im- portância capital. Baseando seus argumentos no aporte teórico de Marx (do qual sobressaem aqui categorias seminais como trabalho e alienação) ÉTICA E e na reflexão imprescindível de Georg Lukács e alguns de seus cípulos, a autora explicita as bases ontológico-socials da Ética e analisa a trajetória do Serviço Social nesta esfera, evidenciando as diferenças significativas entre ethos tradicional e o ethos de ruptura presentes em seu evolver histórico. SERVIÇO SOCIAL As reflexões e ensinamentos contidos neste livro da Maria Lucia Barroco - competente e incansável pesquisadora dos funda- Fundamentos Ontológicos mentos filosóficos, teóricos, políticos e culturais que estão na base dos posicionamentos morais dos assistentes socias - contribuem de maneira impar para a compreensão e a consolidação daquele edição projeto ético e político que tem como objetivo central e inadiável a construção de uma sociedade radicalmente nova. CORTEZ Elisabete EDITORA ISBN 85-249-0813-0 91788524908132 361.3 B277e 2005 3 ed. ex. 4</p><p>A na política" tornou-se um ÉTICA E dos temas mais discutidos no Brasil após a campanha pelo impeachment de SERVIÇO SOCIAL Collor. Maria Lúcia Barroco faz sua in- Fundamentos Ontológicos tervenção no debate através deste pri- moroso estudo sobre a ética no interior de uma categoria profissional os tra- balhadores do serviço social. Em tempos de neoliberalismo, re- força-se ao máximo a imagem do indi- víduo como um ser a-social, e a afirma- ção de Margareth Tatcher é lapidar nesse sentido: "não há sociedade, mas apenas indivíduos" Opondo-se a isso, as entidades profissionais tendem a fe- char-se num corporativismo defensivo. Nada disso, entretanto, ocorreu no serviço social. A categoria, assumindo uma posição de vanguarda, procurou explicitar cada vez mais seu compro- misso ético com a classe trabalhadora. Aqui está, em poucas palavras, o tema central do livro. Para acompanhar os desdobramentos desse compromisso, a autora não se restringiu apenas ao es- tudo monográfico centrado na análise dos códigos de ética do serviço social. A análise, fiel à categoria da totalida- de, procurou inserir as mudanças do código de ética na história brasileira e nas lutas travadas no plano das idéias. Não deixa de ser supreendente o desfecho. Inicialmente, as concepções neotomistas e positivistas em vigor pre- tendiam enfrentar a questão social sob a ótica da moral. Com isso, elas desem- penhavam um papel conservador que legitimava o Estado burguês e elidia a luta de classes. vendaval de 68, pre- cedido por um longo debate no plano ideológico, abriu caminho para uma EDITORA AFILIADA</p><p>Maria Lucia Silva Barroco Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) ÉTICA E Barroco, Maria Lucia Silva Ética e serviço social : fundamentos ontológicos / Maria Lucia SERVIÇO SOCIAL Silva Barroco. - 3. ed. - São Paulo, Cortez, 2005. Bibliografia Fundamentos Ontológicos ISBN 85-249-0813-0 1. Ética 2. Serviço social 3. Serviço social - Filosofia I. edição 01-5068 CDD-361.301 Índices para catálogo sistemático: 1. Ética e serviço social 361.301 2. Serviço social e ética 361.301 e CORTEZ EDITORA -</p><p>ÉTICA E SERVIÇO SOCIAL: fundamentos ontológicos Maria Lucia Silva Barroco Conselho editorial: Ademir Alves da Silva, Dilséa Adeodata Bonetti, Maria Lucia Carvalho da Silva, Maria Lucia Barroco, Maria Rosangela Batistoni Capa: DAC sobre detalhe de Nu com jarros, Diego Rivera, 1994. Óleo sobre fibra dura, 157x124 cm. Fotografia Rafael Doniz. Preparação de originais: Carmen Tereza da Costa Revisão: Maria Vianna Composição: Dany Editora e Livraria Ltda. Coordenação editorial: Danilo A. Q. Morales Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização "Toda pessoa tem a liberdade de não expressa da autora e do editor. nhum valor moral. Mas [...], isso não a aju 2001 by Autora livre. Hegel tinha razão quando distinguiu berdade e arbítrio. A liberdade é sempre 1 Direitos para esta edição para algo, e não apenas liberdade de algo. CORTEZ EDITORA pretamos a liberdade apenas como o fato d Rua Bartira, 317 - Perdizes livres de alguma coisa, encontramo-nos no 05009-000 - São Paulo - SP arbítrio, definimo-nos de modo negativo... ( Tel.: (11) 3864-0111 Fax: (11) 3864-4290 conceito de liberdade contém conceito de E-mail: conceito de regra, de reconhecimento, de ção recíproca. Com efeito, ninguém pode se Impresso no Brasil - março de 2005 em volta dele, há outros que não o são".</p><p>À memória de Rosa, que amava a liberdade</p><p>ÉTICA ESERVIÇO SOCIAL 7 SUMÁRIO Prefácio 9 Apresentação 15 PARTE I - ÉTICA E VIDA SOCIAL; CONSIDERAÇÕES 23 CAPÍTULO 1 - Trabalho, ser social e ética 25 1.1. significado ontológico do trabalho 25 1.2. Trabalho e alienação 33 1.3. As atividades emancipadoras 37 1.4. A capacidade ética do ser social 42 1.4.1. A natureza das objetivações morais 42 1.4.2. Vida cotidiana e alienação moral 46 1.4.3. A reflexão ética 54 1.4.4. A ética como capacidade livre 57 1.5. Dimensão ético-política dos projetos sócio- históricos 65 1.6. A natureza da ética profissional 67 PARTE II - A TRAJETÓRIA ÉTICO-POLÍTICA DO SERVIÇO SOCIAL BRASILEIRO 71 CAPÍTULO 1 - As configurações da ética tradicional 73 1.1. Moral, ethos e ideologia na origem da profissão 73</p><p>8 ÉTICA ESERVIÇO SOCIAL 1.2. O significado da moralização da "questão social" 79 1.3. Os fundamentos filosóficos da ética profissional tradicional 91 CAPÍTULO 2 - Rumo à construção de uma nova moralidade 99 2.1. Afirmação e negação da liberdade nos anos 60/70 99 2.2. A presença do conservadorismo 115 2.2.1. Os Códigos de Ética internacionais PREFÁCIO 115 2.2.2. Os Códigos brasileiros (1965-1975) 122 2.2.3. A face ética do novo conservadorismo 131 José Paulo N CAPÍTULO 3 - processo de ruptura com a ética tradicional 141 A intervenção de Lúcia Barroco no Serviço Social 3.1. Do agente de mudanças ao compromisso com as sileiro mas não só, uma vez que já ministrou curs classes trabalhadoras (60/70) 141 conferências e participou de colóquios científicos na E 3.1.1. As origens do utilitarismo ético marxista 157 pa e na América Latina - é bem conhecida das vang 3.2. Do compromisso político com as classes das acadêmicas e profissionais. Nestes círculos, seu en nho em renovar e refundar debate da ética profission trabalhadoras ao compromisso com valores suficientemente notório: há mais de dez anos, seu mag ético-políticos emancipatórios 166 rio, sua atuação nos organismos e lutas da categoria e 3.2.1. O amadurecimento teórico-político nos (até o lançamento deste livro) discreta produção bibli anos 80 166 fica tornaram-se referências obrigatórias para aquele 3.2.2. (1986) O compromisso ético-político com sistentes sociais preocupados com que, outrora, den as classes trabalhadoras 175 nava-se deontologia profissional. 3.2.3. Os anos 90: bases históricas do Com efeito, sem prejuízo antes, com orgá compromisso ético-político com valores vinculação a ela - de sua experiência como "profiss emancipatórios 178 de campo", a trajetória intelectual e docente de Lúcia 3.2.4. Lukács e processo de renovação da ética roco incide sobre espaço problemático da ética. Es marxista 182 paço constitui centro de todas as suas reflexões e in 3.2.5. A ontologia social de Marx e a questão gações, no curso das quais ela valeu-se inclusive de f ética 189 ção específica, haurida em pertinentes disciplinas 3.2.6. Os fundamentos ontológicos do Código de da Filosofia. A síntese desse percurso, realizada 1993 Lúcia Barroco alcançava inteira maturidade como 199 dora, foi a sua tese de doutoramento, Ontologia Bibliografia 209 reflexão ética, que, defendida em 1997 no Programa</p><p>10 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL PREFÁCIO 11 tudos Pós-graduados em Serviço Social da Pontifícia Uni- do que Marx, em 1844, qualificava como emancipação versidade Católica de São Paulo, arrancou dos examinado- humana. res, para além da nota máxima, mais explícito reconheci- Lúcia Barroco ancora a sua elaboração numa perspecti- mento da sua excelência acadêmica. va teórica essencialmente clássica: na ortodoxia metodo- Tive, mais que a sorte, privilégio de acompanhar os lógica própria de uma arguta leitora de Lukács e, portan- estudos pós-graduados de Lúcia Barroco. Neste período, to, na contracorrente das rasteirices pós-modernas ela na dispensável condição de seu orientador (pois que ela, articula a dimensão ética à socialidade posta pela práxis e dadas as suas qualificação e autonomia intelectuais, sem- pelo trabalho (Cap. 1). Só depois de fundar ontologicamente pre voou com asas próprias), pude desfrutar de uma das a reflexão ética como tal é que Lúcia Barroco avança para o mais ricas e profundas relações que meio universitário enfrentamento da ética profissional (Cap. 2), começando pela às vezes, aliás raras, oferece: uma relação de questiona- crítica ao tradicionalismo, avançando na análise da sua ero- mento, de busca, de descobertas, de diálogos e de confron- são e resgatando o longo processo de amadurecimento das tos (estes, algumas vezes tensos, ásperos mesmo) em condições para a construção de um Código de Ética que, suma, uma relação de confiança e cumplicidade na pes- como o de 1993, assinala, neste âmbito, a plena ruptura do quisa da verdade. Relação que nos modificou a ambos, como Serviço Social brasileiro com a sua herança conservadora. toda relação visceralmente pedagógica, e de que resulta- Não é preciso dizer da relevância teórico-metodológica ram não só as várias parcerias em que nos metemos desde do primeiro capítulo deste livro. Lavrando um terreno em então, mas, especialmente, a sólida amizade que resiste, que a tradição marxista não foi pródiga, Lúcia Barroco re- até, às minhas pequenas e corriqueiras desatenções, trans- colhe a melhor inspiração marxiana, filtrada pela ótica formadas pela sua hipersensibilidade em catástrofes mo- lukácsiana e refratada na obra de uma Agnes Heller ainda numentais. vinculada aos veios revolucionários (porque, como se sabe, Mas este prefácio não é o lugar para divulgar confi- a Heller dos anos oitenta em diante é uma triste expressão dências de uma amizade, que não é para aí que acorre das regressões liberais). O travejamento ontológico da re- interesse do público. Mencionei brevemente esta cumpli- flexão aí desenvolvida pela autora é notável, e mesmo que cidade para que leitor saiba, à partida, que a apresenta- outras sensibilidades do espectro marxista possam levan- ção deste livro não é feita por um observador neutro ou tar a componentes da sua construção, esta perma- imparcial: trata-se de prefácio escrito por alguém que está nece como exemplar da exploração da socialidade no cam- medularmente comprometido com a autora, com seu pro- po do pensamento marxista. jeto intelectual e com os resultados de sua pesquisa. Com- A solidez dos fundamentos reunidos neste capítulo é prometimento que, entretanto, não há de vulnerabilizar a que permitem seu exitoso e congruente desenvolvimen- avaliação expendida a seguir. to e extensão no trato da ética profissional (aliás tangenciada Estou convencido de que este livro, elaborado a partir ao fim deste capítulo inicial), que constitui grande objeto da tese de doutoramento antes citada, constitui, na biblio- do livro. Se, no primeiro capítulo, Lúcia Barroco explicita grafia do Serviço Social em língua portuguesa, primeiro O referencial com que processa a análise da ética, no se- trabalho que oferece a fundamentação adequada à formu- gundo ela nos oferece a crítica elementar do conservado- lação ética compatível com um projeto profissional radi- rismo ético-profissional e comprova suas hipóteses com o calmente crítico, substantivamente democrático, concre- exame dos seus correspondentes Códigos de Ética (brasi- tamente humanista e orientado para horizonte histórico leiros e internacionais). Prossegue indicando seus supor-</p><p>12 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL 13 tes ídeo-políticos, numa arquitetura intelectual que cobre cura, convencido da urgência inarredável da formação con- os primeiros passos da sua contestação e se coroa, depois tínua, meios e modos de atualização e aprofundamento da de um brilhante excurso sobre a renovação das incidênci- sua competência profissional (que, como sabemos, é a sín- as da tradição marxista no debate ético, com o tratamento tese de competência teórica, competência operativa e com- do Código de petência política). Com este livro, aquele assistente social Em todas as passagens, a reflexão de Lúcia Barroco tem acesso a um texto que lhe propicia as condições neces- socorre-se de fontes bibliográficas e documentais proce- sárias a uma reflexão de ponta. dentes e dignas de crédito, incorpora com precisão distin- Linhas atrás, observei que o fato de ter acompanhado tos vetores teóricos e ideais e sinaliza, percucientemente, a investigação de Lúcia Barroco e de hoje trabalhar solida- suas conexões históricas e sociais. No conjunto do texto, riamente com ela no plano acadêmico não haveria de afe- do teor sistematizante do primeiro capítulo aos procedi- tar o meu juízo sobre este livro. Trata-se de afirmação, esta mentos teórico-críticos e históricos do segundo, logra-se o também, que deve ser posta à prova. Convido o leitor ao esforço de conjugar explicação e compreensão, abordagem que o velho Engels chamava de a prova do pudim seu sistemática e angulação histórica, crítica textual e referên- sabor não se afere pelo conhecimento da receita, mas pela cia contextual. experiência da prova. Faça-a o leitor: esqueça a avaliação É supérfluo assinalar que espaço em que se move enunciada neste prefácio e percorra as páginas deste livro, Lúcia Barroco, o da ética (e, igualmente, da ética profis- contabilizando seu caráter instigante e sua problematização, sional), pela sua problemática imanente problemática anotando sua força e seus limites. centrada no valor é intrinsecamente engendrante de Tenho a certeza maior de que, independentemente de polêmicas. Eis por que, conseqüentemente, complexo da quaisquer discordâncias, leitor concluirá, comigo, que é sua argumentação revela-se um virtual deflagrador de dis- com este livro de Lúcia Barroco que se completa a maiori- cussões e discrepâncias. Na medida em que vierem à tona dade acadêmica e intelectual do Serviço Social no Brasil. no debate profissional, mais um serviço nos terá prestado Com ele se completa o ciclo iniciado, há quase vinte anos, este precioso livro e digo mais um, na escala em que, com a produção de Marilda Villela e adensado, com sua publicação, dois outros se efetivam. nestas quase duas décadas, por tantos companheiros, mais O primeiro diz respeito à formação acadêmica. Pas- jovens ou não. Mais eu não poderia dizer desta obra. sou tempo em que a ética profissional era uma disciplina lateral, secundária, espécie de filho enjeitado dos currícu- Recreio dos Bandeirantes, los de graduação; é inegável que, nos dias correntes, seu agosto de 2001. papel cresceu e afirmou-se. Contudo, os materiais disponí- veis até hoje, para docentes e estudantes, são reconhecida- mente insatisfatórios (e insatisfatórios a todos os títulos). Com este livro, professores e discentes passam a contar com instrumento necessário para colmatar o que, até agora, era uma lacuna sem solução adequada. O segundo refere-se à bibliografia disponível ao assis- tente social que já concluiu a sua qualificação básica e pro-</p><p>APRESENTAÇÃO 15 APRESENTAÇÃO "O impio não é o que despreza os deuses da multidão, mas o que adere à idéia que a multidão tem dos deuses." Epicuro "A exigência de abandonar as ilusões so- bre sua condição é a exigência de abando- nar uma condição que necessita de ilusões." K. Marx Este texto, parte de minha tese de é a sistematização de um processo de aprendizado teórico-prá- tico iniciado há quase duas décadas, quando me defrontei com as exigências postas a uma reflexão ética que preten- de se pautar no pensamento de Marx. Por sua radicalidade histórico-crítica, a teoria social de Marx só interessa a quem concebe a história como um campo de possibilidades aber- tas - não apenas à barbárie, à desumanização, à reificação do presente mas, sobretudo, aos projetos coletivos que 1. Ontologia social e reflexão ética, defendida no Programa de Estudos Pós- Graduados em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em março de 1997, com a orientação do dr. José Paulo Netto. Participaram da banca examinadora os drs. Carmelita Yazbek, Celso Frederico, Brito e Sér- gio Lessa.</p><p>16 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL APRESENTAÇÃO 17 apostam na criação de uma nova sociedade, onde a liber- denciar uma prática coletiva cujos produtos ético-políti- dade possa ser vivida, em todas as suas potencialidades. cos contribuem, independentemente da "boa" intenção dos Por tais razões, este trabalho não é desinteressado; seus agentes, em sua singularidade, para fortalecimento busca oferecer elementos para uma apreensão crítica da da alienação moral, de projetos conservadores ou simplifi- ética profissional, objetivando fortalecimento da morali- cadores das potencialidades éticas do ideário que lhe serve dade inscrita no projeto profissional que nos últimos trin- de referência. Nesse sentido, a crítica não se estendeu ape- ta anos tem influenciado significativamente os rumos do nas ao ethos tradicional; também buscou evidenciar, na Serviço Social brasileiro: o projeto ético-político explicitado história da ética marxista, formas de apreensão e objetivação nos Códigos de Ética de 1986 e 1993. éticas que acabaram, independentemente da vontade polí- O eixo condutor da análise é dado pela apreensão das tica de revolucionários grandiosos, por negar ideário so- determinações e mediações que incidem sobre a consciên- cialista e pensamento de Marx. cia ético-política da profissão, concebida como expressão Mas é também método que indica a impossibilidade particular de inúmeras possibilidades inscritas na cultura de uma análise desprovida de valores, donde a defesa in- brasileira, na formação moral dos indivíduos sociais, nas transigente da crítica superadora e da valoração da reali- formas de representação e vivência do trabalho, da vida dade, em termos do que é possível historicamente, e da cotidiana, da vida cívica e política, na apreensão do signi- tese de que, sem escolhas e alternativas não existe liberda- ficado da profissão e da "questão social" na sociedade bur- de e sem liberdade a ética não tem substância histórica. guesa, nas respostas às suas determinações, na coesão em Nessa perspectiva, a valoração do ethos profissional recai torno de valores, finalidades e responsabilidades profis- sobre o conjunto de alternativas postas à profissão, em cada sionais coletivas. Neste campo de possibilidades onde são momento histórico, e sobre as formas de sua incorporação feitas escolhas, onde valores são afirmados e negados, onde crítica, na direção de uma moralidade consciente, respon- nascem e se desenvolvem determinados modos de ser que sável e livre. facilitam ou não a adesão a projetos coletivos, busco identi- A medida de valor é dada pela concepção marxiana ficar as configurações e fundamentos da ética profissional. de riqueza humana, que institui uma ética dirigida à O desenvolvimento da análise, apoiada no método emancipação humana; logo, supõe uma relação entre pre- crítico dialético de Marx, demandou a compreensão da sente e O devir; entre ser e dever ser. Marx não baseou gênese da profissão, em suas determinações éticas e políti- sua análise na oposição entre ser e dever ser porque seu cas fundantes, em seus desdobramentos históricos, em sua objetivo não era estabelecer nenhuma proposição para a relação com as possibilidades de superação do seu ethos sociedade burguesa; no entanto, isso não compromete a de origem. Para isso, foi preciso reconstruir a base de fun- elaboração de uma ética nele fundada. Para permanecer dação ontológica da ética na vida social, que orientou a fiel a Marx, essa ética é de caráter revolucionário; não tem apreensão das possibilidades de afirmação e negação de ilusões quanto à presença da alienação nas várias formas valores éticos fundamentais na sociedade burguesa, na de objetivação ético-morais; não pretende afirmar a supres- cultura contemporânea e no contexto do Serviço Social. são das relações sociais alienadas através da ética. Porém, uma ética revolucionária supõe um programa estratégico O método indicou cuidado de não realizar uma aná- que contém uma dada normatividade; árdua tarefa que se lise "moralista" da realidade; donde a preocupação de não apresentou aos movimentos revolucionários vinculados ao julgar individualmente os agentes profissionais, mas evi- socialismo e ao marxismo, após a morte de Marx.</p><p>18 ÉTICA SOCIAL APRESENTAÇÃO 19 É nessa direção que intelectuais marxistas como Lenin, sional pautada no compromisso com valores ético-políti- Rosa, Trotsky, Gramsci, Lukács buscaram elaborar uma ética que contivesse dialeticamente articuladas- a pers- cos emancipatórios. pectiva revolucionária e as estratégias para o presente, ain- No capítulo 1, ao explicitar as bases ontológico-sociais da na sociedade de classes. Se a ética marxista não tivesse da ética, o trabalho e as capacidades humanas por ele de- essa potencialidade para lidar com as questões do presente senvolvidas a sociabilidade, a universalidade, a cons- não apenas como crítica radical de suas formas aliena- ciência e a liberdade busco resgatar os pressupostos do das, mas, também, como definição de estratégias pautadas método marxiano: a totalidade, em suas mútiplas determi- em princípios e valores éticos não teria sentido algum nações, dialeticamente articuladas. Situado em seus mo- trazer esse referencial para uma profissão. dos específicos, na sociedade burguesa, o trabalho é anali- sado como práxis que simultaneamente afirma e nega as Nesses termos, o tratamento dado à ética profissional fundada em Marx é orientado pelas suas possibilidades de capacidades humano-genéricas desenvolvidas historica- mente. efetuar uma crítica da sociabilidade burguesa, tendo por parâmetro a condição ontológica dos valores na história; Apersento a concepção ética que elaboro, a partir de seu processo de não elimina a minha leitura de Lukács e seus discípulos, especialmente possibilidade de resgate, pelos homens, daqueles valores Heller e Mészáros (sem prejuízo de reconhecer as expres- que se tornaram universais porque representam conquis- sivas divergências destes dois pensadores). A ética é defi- tas históricas valiosas do ponto de vista da explicitação das nida como uma capacidade humana posta pela atividade capacidades e alternativas liberadoras da práxis. vital do ser social; a capacidade de agir conscientemente com base em escolhas de valor, projetar finalidades de va- Os valores universais se objetivam eticamente median- lor e objetivá-las concretamente na vida social, isto é, ser te princípios e normas abstratas que se concretizam sob formas e significados históricos diversos: tais modos de ser livre. Tratada como mediação entre as esferas e dimensões da vida social, e atividade emancipadora, a ética é situada são o conteúdo concreto da ética profissional, donde a im- em suas várias formas e expressão: a moral, a moralidade, portância da reflexão ética que desvela o significado e fun- a reflexão ética e a ação ética como exercício de liberdade dação dos valores universais, e da discussão coletiva que elege os princípios, valores e normas orientadoras da ética ou, como quer Lukács, como "ação virtuosa", apontando- profissional e define estratégias coletivas para sua concreti- se para sua conexão com a práxis política e para suas for- mas alienadas, no âmbito da vida cotidiana. zação. Percebemos, assim, a complexidade da ética profis- sional, o que impede de apenas em sua formalização, Fundamentada na capacidade teleológica do ser so- no Código de Ética; no campo da ética não é possível se cial, situo os projetos sócio-históricos como constitutivos eximir de escolhas e de responsabilidades, daí a importân- da práxis ético-política, no contexto de luta pela hegemonia. cia do trabalho educativo, do debate coletivo, da participa- Apresento o Serviço Social em sua dimensão de projeto ção cívica e política que vincula a profissão à sociedade e profissional de caráter ético-político, em sua vinculação exercita os profissionais para uma vivência comprometida com projetos societários, assinalando suas várias formas, com escolhas de valor. na trajetória da profissão. A ética profissional é tomada, em suas particularidades, como expressão: de um ethos O eixo condutor da exposição é o processo contradi- sociocultural e profissional, da moralidade profissional, de tório de afirmação e negação da liberdade, base fundante suas bases teóricas e filosóficas, do produto concreto de da construção histórica de uma moralidade crítica profis- sua prática, de sua normatização. Tais particularidades são</p><p>20 ÉTICA SOCIAL APRESENTAÇÃO 21 situadas na relação entre as suas demandas ético-políticas tos sociais, civis e políticos das classes trabalhadoras. Ao e as suas respostas, em cada momento histórico. mesmo tempo, ao supor os limites objetivos da cidadania No capítulo 2, trato da trajetória ético-política do Ser- burguesa, fica claro que aqueles valores não se esgotam viço Social, evidenciando dois momentos signicativos: o nessa direção estratégica; donde a sua teleologia dirigida à da origem, em que é constituído o ethos tradicional e o da universalização dos direitos humanos, à democratização e década de 60, quando são dadas as possibilidades do pro- socialização da participação política da riqueza socialmente cesso de renovação que propicia a emergência de um ethos produzida. de ruptura, ou seja, de uma nova moralidade profissional. Esse estudo expressa, evidentemente, as feições de Percorrendo o processo histórico da profissão, busco evi- quem o fez; no entanto, esse fazer foi construído coletiva- denciar, no cenário de suas demandas e respostas, como mente, por isso meu agradecimento a todos os sujeitos que vão sendo delineadas, afirmadas e negadas determinadas contribuíram, de várias formas, nesse processo. Na PUC- configurações da ética profissional. SP, a equipe de Fundamentos Filosóficos e Teológicos do Analiso todos os Códigos de Ética brasileiros, os Có- Homem Contemporâneo (PFTHC), Benauro de Oliveira, digos internacionais das décadas de 60/70, bem como obras Mario Sergio Cortella, Terezinha Rios; os professores da que influenciaram Serviço Social latino-americano e o Graduação em Serviço Social, Carlos Simões, Cleisa More- brasileiro. A análise do processo de construção de uma no, Denise Tofik, Isaura Isoldi, Mariângela Belfiori, Marilda moralidade de ruptura demandou recurso à ética marxis- Raquel Raichelis, Regina Giffoni, Rosângela ta tradicional, bem como à sua crítica, no âmbito do pro- Batistoni e Suzana Medeiros. Lembro com muita saudade cesso de renovação do marxismo, nos anos 50, por inter- de Vicentina Velasco, que me despertou o amor pela filo- médio de Lukács e de pensadores como Heller e Mészáros. sofia e pela ética e me fez entender significado da philia Retomo Marx para evidenciar a crítica lukacsiana e recu- que vincula o mestre aos discípulos. Agradeço incentivo perar sua atualidade, em face das questões éticas e do Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social, cas do presente. sobretudo de Carmelita Yazbek, Dilséa Bonetti, Maria Lu- Com isso, os Códigos de 1986 e 1993 são situados na cia Carvalho e Miriam Veras Baptista. perspectiva de um mesmo projeto ético-político, porém, Sou grata a todos os alunos; são eles maior incenti- como expressões de diferentes interpretações da tradição para a crítica que alimenta a atividade intelectual. Agra- marxista e de diferentes demandas conjunturais. As poten- deço aos integrantes do Núcleo de Estudos e Aprofunda- cialidades do Código atual e do projeto profissional a mento Marxista (NEAM) e do Núcleo de Estudos e Pesqui- ele conectado são afirmadas pela sua projeção de uma sa em Ética e Direitos Humanos (NEPEDH), especialmente nova sociedade, capaz de suprimir os processos de aliena- Alberto Conwana, Torres, Cristina Brites, Flávia ção, dominação e exploração inerentes à sociabilidade bur- Costa, Jandira de Barros, João Makuédia, Jorge Arthur guesa. Sua concretude, ou seja, sua viabilização profissio- Floriani, Laura Santos e Manuel de Abreu. nal, é dada pela indicação de uma direção social estratégi- Agradeço aos (as) companheiros (as) de luta do Con- ca capaz de objetivar os valores ético-políticos através dos selho Federal de Serviço Social (CFESS), das gestões 1996 serviços sociais. e 1999, que foram (e continuam sendo) leais e solidários(as) A liberdade, a equidade, a justiça social e a democra- com meu trabalho, em especial, Israilde Giacometti, Valdete cia orientam ética e politicamente a objetivação dos direi- de Barros e Elaine Behring. Ressalto a importante parceria</p><p>22 ÉTICA ESERVIÇO SOCIAL ÉTICA EVIDA SOCIAL 23 com Beatriz Paiva, Marlise Vinagre e Mione Sales, no tra- balho de elaboração da proposta de reformulação do Códi- go de Ética de 1993, com os membros da Comissão de Ética e Direitos Humanos, Carla Bressan, Elaine Behring, Elisabeth Borges, Ieda Castro e Marylucia Mesquita e com os companheiros do Comitê de Entidades de Trabalhado- res Sociais do Mercosul, Reinaldo Pontes, Rodolfo Martinez e Gustavo Machado. Lembro igualmente do apoio de Alcina de Castro Martins e Alfredo Henriquéz, do Centro Portu- guês de Investigação em História e Trabalho Social PARTE (CPIHTS), que se comprometeram com a divulgação da reflexão ética brasileira em Portugal. ÉTICA E VIDA SOCIAL: Um agradecimento especial às amigas Ana Elizabete Mota, Neide Castanho, Nobuko Kameyana. considerações eórico-metodológicas A banca examinadora de minha tese de doutorado, os professores Carmelita Yazbek, Celso Frederico, Ênio Brito e Sérgio Lessa, foram fundamentais; suas sugestões foram incorporadas neste trabalho. Sou grata ao meu orientador, José Paulo Netto, por ter me mostrado, com a profundida- de que lhe é peculiar, as razões do trabalho intelectual e da inteireza humana. Enfim, quero agradecer a o apoio e carinho de quem viabilizou esta publicação, José Pinheiro Cortez, Elisabete Borgianni e os membros do Editorial da Editora Cortez, Ademir Alves da Silva, Dilséa Bonetti, Maria Lucia Carvalho e Rosângela Batistoni. Devo aos meus filhos, Gisele e José Lourenço (Tuta) e aos amigos de perto, em especial Adler, o suporte afetivo para a tarefa intelectual que resultou nesse livro.</p><p>ÉTICA E VIDA SOCIAL 25 CAPÍTULO I TRABALHO, SER SOCIAL E ÉTICA 1.1. significado ontológico do trabalho A sociedade é uma totalidade organizada por esferas (totalidades) cuja (re) produção supõe a totalidade maior, mas se efetua de formas particulares, com regularidades próprias. Conforme a sociedade se complexifica, as esferas sociais podem ganhar uma certa autonomia, que pode levar a uma falsa compreensão da realidade social: a idéia de que suas esferas podem ser isoladas - umas das outras e em relação à totalidade - para ser analisadas. Outro erro metodológico consiste em supor que uma dada categoria social tem um mesmo desenvolvimento, em qualquer esfe- ra da vida social. As categorias são modos de ser objetivos; expressam o processo de (re)produção do ser social na história. As eco- nômicas têm uma função primária nesta (re)produção; ne- nhuma esfera da vida social pode se reproduzir sem res- ponder às suas Porém, não são equacio- 1. "Quando atribuímos uma prioridade ontológica a determinada categoria em relação a outra, entendemos simplesmente seguinte: a primeira pode exis- tir sem a segunda, enquanto que o inverso é ontologicamente impossível [...] pode existir o ser sem a consciência, enquanto toda consciência deve ter como pres-</p><p>26 ÉTICA E SERVIÇO SOCIAL ÉTICA E VIDA SOCIAL 27 nadas da mesma forma e com a mesma intensidade; por sidades sócio-históricas, produz formas de interação hu- exemplo, a reprodução da exploração econômica, gerada mana como a linguagem, as representações e os costumes na esfera da produção material, supõe a esfera do direito. que compõem a cultura. Mas é falso pensar que ela opere com a mesma dinâmica O desenvolvimento da sociabilidade implica a (re)cria- na fábrica, no Estado, nas leis. ção de necessidades e formas de satisfação, do que decorre Qual é o lugar da ética na totalidade social? É ela uma a transformação do ser social e do mundo natural, isto é, esfera específica? Quais são suas categorias fundantes e sua do sujeito e do objeto. Uma necessidade primária, como a dinâmica particular? A resposta a estas questões supõe a fome, torna-se social na medida em que suas formas de apreensão da totalidade social, tendo como ponto de parti- satisfação são determinadas socialmente e em que, ao se- da seu dado ontológico primário: trabalho como pressu- rem criadas formas diferenciadas de satisfação, transfor- posto da existência humana e forma privilegiada de mam-se os sentidos, habilidades e potencialidades do su- Para Marx, o trabalho é o fundamento ontológico-so- cial do ser é ele que permite o desenvolvimento de Além de supor a sociabilidade e a universalidade, o mediações que instituem a diferencialidade do ser social trabalho implica um dado conhecimento da natureza e a em face de outros seres da As mediações, capaci- valoração dos objetos necessários ao seu desenvolvimen- dades essenciais postas em movimento através de sua ati- to: aí é dada a gênese da consciência humana como ca- vidade vital, não são dadas a ele; são conquistadas no pro- cesso histórico de sua autoconstrução pelo trabalho. São pacidade racional e valorativa. Por ser capaz de agir racio- elas: a sociabilidade, a consciência, a universalidade e a nalmente, o homem pode conhecer a realidade, de modo a liberdade. apreender sua própria existência como produto de sua práxis; a totalidade pode ser reproduzida e compreendida Essa condição ontológico-social ineliminável do tra- Por ser consciente, o homem age teleologica- balho, na (re)produção do ser social, dá a ele um caráter mente; transforma suas necessidades e formas de satisfa- universal e sócio-histórico. trabalho não é obra de um ção em novas autoconstrói-se como um ser de indivíduo mas da cooperação entre os homens; só se obje- tiva socialmente, de modo determinado; responde a neces- 4. "A fome é fome, mas se é salisfeita com carne preparada e cozida e se é ingerida com a ajuda de garfo e faca é diferente da fome que é satisfeita devo- suposto, como fundamento, algo que é, mas disso não deriva nenhuma hierar- rando carne crua, destroçada com as mãos, as unhas e os dentes. Não se trata quia de valor" (Lukács, 1979: 40). somente do objeto de consumo, mas também do modo de consumo, criado pela 2. Segundo "ação do homem sobre a matéria e criação através produção, tanto em sua forma objetiva como subjetiva" (Marx, 1971, I: 31). dela de nova realidade humanizada" (Vázquez, 1977: 245). conceito de 5. "As categorias expressam, portanto, formas e modos de existência e, práxis é extremamente complexo, não sendo possível, no âmbito desse traba- com simples aspectos desta sociedade, deste sujeito; do ponto de lho, explicitá-lo em toda sua riqueza e na diversidade de interpretações que vista sua existência é anterior ao momento em que se começa a falar recebe. Indico, para consulta, os estudos de Lefebvre (1965), Kosik (1969), sobre elas como tal" (Marx, 1971, I: 43). Vazquez (1977), Bermudo (1975) e Frederico (1992 e 1995). 6. "O homem torna-se um ser que dá respostas precisamente na medida 3. "Quando, nesse contexto, atribuímos ao trabalho e às suas em que paralelamente ao desenvolvimento social e em proporção crescente cias -imediatas e mediatas uma prioridade com relação a outras formas de ele generaliza, transformando em perguntas seus próprios carecimentos e atividade, isso deve ser entendido num sentido puramente ontológico, ou seja, suas possibilidades de satisfazê-los; e quando em sua resposta ao carecimento o trabalho é antes de mais nada, em termos genéticos, o ponto de partida da que a provoca, funda e enriquece a própria atividade com tais mediações bas- humanização do homem, do refinamento de suas faculdades, processo do qual tante articuladas, de modo que não apenas a resposta, mas também a pergunta não se deve esquecer o domínio sobre si mesmo" 1979: 87). é um produto imediato da consciência que guia a atividade" (Lukács, 5).</p><p>28 ÉTICA ESERVIÇO SOCIAL ÉTICA E VIDA SOCIAL 29 projetos; torna-se autoconsciente, como sujeito construtor Assim como as escolhas, a orientação de valor é de si mesmo e da trabalho e seu produto, a cul- rente às atividades humanas; sua criação é objetiva, tam- tura, fundam a história, autoconstrução dos próprios ho- bém gerada a partir do trabalho. Para transformar a nature- mens, em sua relação recíproca com a natureza. za, o homem desenvolve um certo nível de conhecimento A autoconsciência é um ato de autodeterminação; ca- que lhe permite saber quais são as formas apropriadas para pacidade humana posta em movimento pelo trabalho. Ao essa intervenção. Por exemplo, ele descobre que pode pro- ser capaz de autodeterminar-se o ser social evidencia sua duzir fogo, usando certos objetos da natureza, ou, que vontade racional liberadora de sua autonomia; pode esco- pode construir instrumentos de trabalho. Em todas estas lher entre alternativas por ele criadas, traçar o seu destino, ações, o produto de sua transformação torna-se um valor superar limites, fazer escolhas, objetivando suas capacida- que não existe no objeto em si, mas que é produto da ativi- des e deliberações. Por isso, trabalho é uma atividade dade teleológica, donde o papel ativo da consciência no proces- A valoração de um objeto supõe sua existência mate- de autoconstrução humana; produto objetivo da práxis rial concreta: seu valor corresponde a uma práxis que o personifica suas intenções e seus projetos. Esse é o núcleo transformou em algo novo que responde às suas necessi- gerador da liberdade e da ética. dades, e, como tal, é bom, útil, belo etc. Por isso, o valor A universalidade, a sociabilidade, a consciência e a não é uma decorrência apenas da subjetividade humana; liberdade são capacidades humano-genéricas, ou seja, sem ele é produto da práxis. as quais a práxis não se realiza com suas potencialidades A dinâmica complexa das mediações sociais faz com emancipatórias. Inscritas na dinâmica da totalidade social que os valores se desdobrem em múltiplos significados. cada vez mais complexa e rica em determinações Uma faca existe em função de suas propriedades materiais tais capacidades são mediações entre os indivíduos e o gê- e de sua utilidade para o homem; ela é útil porque corta os nero humano, perpassando por todas as esferas, podendo alimentos, por exemplo. Mas uma faca também pode ma- se desenvolver mais em umas e menos em outras. Isto sem tar e isto pode ser valorado positiva ou negativamente, de- contar que as diversas esferas sociais também se desenvol- pendendo das circunstâncias; pode matar um animal para vem de forma desigual nelas mesmas e em relação aos salvar uma vida então ela é útil e propicia uma ação indivíduos, classes e estratos moralmente positiva. Quem matou será considerado va- Se pensarmos, por exemplo, no conhecimento, obser- lente; isso pode gerar uma norma moral: a valentia passa a varemos que seu desenvolvimento, como capacidade hu- ser um valor desejável e quem for valente será julgado po- mana, é indispensável ao trabalho, contudo, conforme a sitivamente. Assim se coloca o caráter objetivo dos valo- sociedade e conhecimento se complexificam, ele (o co- res; eles sempre correspondem a necessidades e possibili- nhecimento) deixa de se tornar apenas uma capacidade dades sócio-históricas dos homens, em sua humana para se institucionalizar numa esfera específica; que ocorre com a ciência moderna. O mesmo pode ser dito 7. "Para produzir, por exemplo, com o fogo, a carne, o espeto, etc., um da moral, cuja gênese é dada pela capacidade ética de criar alimento humano as propriedades, as relações, etc., destes objetos que são valores que servem de referência à conduta dos indivíduos, apresentados objetivamente em si e de modo absolutamente independente do em sua convivência social. Na medida em que ela se institu- sujeito ativo, devem ser corretamente conhecidas e corretamente usadas" cionaliza em normas e deveres sociais, adquire a aparên- (Lukács, 1981: XLV). 8. Mesmo os elementos da natureza que não são transformados pelo ho- cia de uma esfera social particular, como a do direito. mem são valorizados por ele em função da conjunção entre suas propriedades e</p><p>30 ÉTICA E SERVIÇO SOCIAL ÉTICA EVIDA SOCIAL BIBLIOTECA 31 A práxis não tem como objeto somente a matéria; tam- terfere no gosto estético da humanidade, propiciando a bém supõe formas de interação cultural entre os homens. consciência da genericidade Por essas determi- Para transformar a realidade produzindo um mundo histó- nações ontológicas, produto da práxis é a expressão con- rico-social, os homens interagem entre si e tendem a in- creta da transformação dialética operada subjetiva e obje- fluir uns sobre os outros, buscando produzir finalidades tivamente na relação entre o sujeito e entre os coletivas. A práxis interativa, por exemplo, emerge como indivíduos e o gênero necessidade posta pelo desenvolvimento da sociabilidade; Tendo como suposto que o valor é uma categoria sua especificidade está no fato de objetivar uma transfor- ontológico-social por isso sempre objetiva podemos mação da realidade em sua dimensão consciente, valorativa, considerar as várias expressões de valor como mediações cognoscitiva, teleológica. Nesse sentido, a vida social se cada vez mais complexas inscritas no desenvolvi- constitui a partir de várias formas de práxis, cuja base mento histórico do ser social. Podemos falar de valores éti- ontológica primária é dada pela práxis produtiva objetivada pelo trabalho. estéticos, científicos, religiosos e de categorias orien- tadoras de valor, tais como: bom e mau, belo e feio, verda- A gênese das escolhas e alternativas de valor são indis- deiro e falso, sagrado e Ao mesmo tempo, as ações sociáveis da práxis; por isso são categorias objetivas e his- são sempre orientadas por categorias de valor, em geral, Os valores, instituídos pela intervenção primária por mais de do homem na natureza, estabelecem mediações entre o homem e o objeto. Quando o homem cria uma obra de arte, se auto-reconhece no produto de sua ação como um sujei- 10. "O homem torna a sua própria atividade vital objeto do seu querer e da sua consciência. Tem atividade vital consciente. precisamente apenas por isto to criador. O objeto criado é valoroso para ele porque ex- é que ele é um ser genérico. Ou ele só é um ser consciente, i. é, a sua própria pressa sua capacidade teleológica e prática. Ao mesmo tem- vida é para ele um objeto, precisamente porque ele é um ser genérico. Só por po, esse objeto passa a existir independentemente do indi- isso a sua atividade é atividade livre... o homem é um ser genérico não apenas víduo que criou; como objeto artístico, cria valores e in- na medida em que prática e teoricamente torna objeto seu gênero, tanto o seu próprio como das restantes coisas, mas também e isto é apenas uma outra expressão para a mesma coisa mas também na medida em que se comporta para consigo próprio como gênero vivo, presente, na medida em que ele se com- as necessidades sociais como mostra "o vento é um fator da natureza porta para consigo próprio como um ser universal, por isso livre" (Marx, 1993: que por si só nada tem a ver com idéias de valor. Os navegantes, porém, desde 66-68). os tempos sempre falaram de ventos favoráveis ou desfavorá- 11. "Subjetivamente, a situação do agente é distinta porque seu propósito veis; de fato, pois no processo de trabalho da navegação à vela, do lugar para foi realizado num objeto que o satisfaz. Objetivamente, a situação é distinta o lugar y, há uma força e direção do vento e o mesmo rumo que, em geral, têm as porque o objeto confronta agora agente não simplesmente como uma entidade propriedades materiais do meio e do objeto do trabalho. Nesse caso, então, o separada, mas como algo seu, ou seja, o objeto chega a ser, como em geral se diz, vento favorável ou desfavorável é um objeto no âmbito do ser social, do inter- bom para algo, e tem um valor para o sujeito. sujeito criou assim esse valor câmbio orgânico da sociedade com a natureza; e a validade e não validade fa- em sua atividade e reconhece esse valor como objeto" (Gould, 1983: 76-77). zem parte das suas propriedades objetivas, enquanto momentos de um comple- 12. "O par mais geral de categorias orientadoras de valor é bom/mau. Esse XO concreto do processo de trabalho" 1981: XVII-XVIII). par pode substituir, de modo plausível, todos os outros pares categoriais; por- 9. "S6 se pode falar de valor no âmbito do ser social" [e que] tanto, representa para nós par categorial primário. Pares categoriais secundá- na medida em que o desenvolvimento do ser social, em sua forma ontologica- rios são os seguintes: verdadeiro/falso, bem/mal, belo/feio, justo/injusto, eficaz/ mente primária, ou seja, no campo da economia (do trabalho), produz um de- ineficaz, agradável/desagradável, sagrado/profano. Via de regra, não teria senti- senvolvimento das faculdades humanas, tão-somente então é que seu resultado do uma ação pode ser tão bela quanto útil; mas como produto da auto-atividade do gênero humano ganha um caráter de esses dois conceitos representam dois aspectos diversos" (Heller, 1983: 58). valor, o que se dá conjuntamente com sua existência objetiva e é indissociável 13. "Quando afirmo ou nego, convido, proíbo ou aconselho, amo ou odeio, dessa" (Lukács, 1981: XIV). desejo ou abomino, quando quero obter ou evitar alguma coisa, quando rio, cho-</p><p>32 ÉTICA SOCIAL ÉTICA EVIDA SOCIAL 33 Mas, dada a complexidade da totalidade dade, da sociabilidade, da universalidade, da consciência, rica, os valores não operam da mesma forma em cada esfe- ou seja, do desenvolvimento multilateral de todas as capa- ra social. Por exemplo, podemos pensar que os valores es- cidades e possibilidades humanas, o que, para Marx, téticos têm a mesma legalidade dos valores econômicos? corresponde à "riqueza humana": Que as relações de produção são movidas por critérios da beleza? Uma vez que todas as dimensões da vida humana "Em todas as formas, ela [a riqueza representada pelo valor] são inter-relacionadas, é claro que existe a possibilidade se apresenta sob forma objetiva, quer se trate de uma coisa de apreendermos padrões estéticos na análise do trabalho. ou de uma relação mediatizada por uma coisa, que se en- Mas isso não significa afirmar que sejam eles seus determi- contra fora do indivíduo e casualmente a seu lado [...] mas, nantes primários. Dada a centralidade do valor econômi- in fact, uma vez superada a limitada forma burguesa, que co, porém, inverso não tem a mesma medida, ou seja, o é a riqueza se não a universalidade dos carecimentos, das valor de uma obra de arte no mercado nem sempre é dado capacidades, das fruições, das forças produtivas, etc., dos indivíduos, criada no intercâmbio universal? O que é a ri- pela sua qualidade estética. queza se não pleno desenvolvimento do domínio do ho- O indivíduo social é ao mesmo tempo, enquanto por- mem sobre as forças da natureza, tanto sobre as da chama- tador do ser social, um ser genérico e uma expressão sin- da natureza quanto sobre as da sua própria natureza? O que gular. A (re)produção da totalidade social se faz de tal modo é a riqueza se não a explicitação absoluta de suas faculda- que indivíduo reproduza a si mesmo, como singularida- des criativas, sem outro pressuposto além do desenvolvi- de e como vimos no exemplo da criação mento histórico anterior, que torna finalidade em si mesma artística. Este processo é movido por mediações que ope- essa totalidade do desenvolvimento, ou seja, do desenvol- ram tanto no sentido de afirmação das capacidades essen- vimento de todas as forças humanas enquanto tais, não ava- ciais do ser social, quanto no de sua negação. Disso decor- liadas segundo um metro já dado? Uma explicitação na qual o homem não se reproduz numa dimensão determinada, re a dinâmica da história, evidenciando um desenvolvi- mas produz sua própria totalidade? Na qual não busca con- mento desigual, extensiva e intensivamente, o que signifi- servar-se como algo que deveio, mas que se no movi- ca afirmar que as objetivações humano-genéricas não são mento absoluto do devir?" (Marx, 1971, I: 372). apropriadas por todos os indivíduos, em toda a história e, em cada momento específico, nas diversas esferas. São objetivações genéricas aquelas que expressam as 1.2. Trabalho e alienação conquistas da humanidade, em termos do que foi construí- do e valorado como algo que possibilitou a criatividade, a No contexto da sociedade capitalista, em face da apro- multiplicidade de gostos e a realização da liber- priação privada dos meios de produção e das formas pelas quais se objetiva a (re)produção da vida social, o trabalho se realiza de modo a negar suas potencialidades emancipa- ro, trabalho, descanso, julgo ou tenho remorsos, sou sempre guiado por alguma doras. Invertendo seu caráter de atividade livre, conscien- categoria orientadora de valor, mais de uma" (Heller, 1983: 58). te, universal e social, propicia que os indivíduos que reali- 14. "A vida individual e a vida genérica do homem não são diversas, por zam o trabalho não se reconheçam, nele, como muito que e isso necessariamente o modo de existência da vida individual seja um modo mais particular ou mais universal da vida genérica ou por mais que a vida genérica seja uma vida individual mais particular ou mais universal" 15. "A alienação [...] complexo simultaneamente de causalidades e resul- (Marx, 1993: 95). tantes histórico-sociais, desenvolve-se quando os agentes sociais particulares</p><p>34 ÉTICA E SERVIÇO SOCIAL ÉTICA VIDA SOCIAL 35 Ao ser alienado, em todo o processo, da atividade que lhe tual da práxis, em objetos estranhos e dotados de uma confere identidade trabalhador se aliena do vida própria, que aparecem aos homens como um "po- objeto que ele mesmo criou; com isso se aliena da ativida- der" que os propiciam que os valores tomem a de, da relação consigo mesmo e com os outros. forma de coisas que valem independentemente da ativi- Cria-se uma cisão entre sujeito e objeto, uma relação dade humana. de que permite a (re)produção de rela- Na sociedade capitalista madura, observa-se uma con- ções sociais nas quais a riqueza humana socialmente cons- tradição fundante: pensada a partir das sociedades prece- truída não é apropriada material e espiritualmente pelos dentes, a sociedade moderna efetua o maior desenvolvi- indivíduos que a produto da atividade mento das forças produtivas e das capacidades humano- humano-genérica se converte em algo que "não diz respei- genéricas e, simultaneamente, produz o maior grau de alie- to" aos indivíduos singulares, próprio indivíduo se torna nação. A alienação se (re)cria em novas formas, que inva- objeto e os objetos passam a valer como coisas. dem todas as dimensões da vida social e a objetivação do A coisificação das relações sociais e a transformação ser social, como um ser da práxis, passa a constituir-se como da riqueza humana, ou seja, do produto material e espiri- um campo de possibilidades; se realiza em termos do de- senvolvimento humano-genérico mas não se objetiva para conjunto dos indivíduos sociais. não conseguem discernir e reconhecer nas formas sociais conteúdo e efeito de Todas as atividades humanas contêm uma relação de sua ação e intervenção; assim, aquelas formas e, no limite, a sua própria motiva- ção à ação lhes aparecem como alheias e estranhas" (Netto, 1981: 74). valor; são orientadas, às vezes, por mais de uma, mas, dada 16. trabalhador é alienado da totalidade do processo de trabalho, ou a centralidade da produção material efetuada pela práxis seja, da propriedade dos meios de trabalho, do controle sobre processo de produtiva, valor econômico tende a influenciar todas as trabalho e de seu produto final. Como trabalhador assalariado, ele só dispõe de sua força de trabalho, entrando no processo em condições desiguais; durante esferas. Na sociedade capitalista, os valores éticos, estéti- processo, sua participação é fragmentada, pois ele não tem controle sobre a cos, tendem a se expressar como valores de posse, de con- totalidade do mesmo; utiliza suas capacidades de forma limitada e não se apro- pria do produto do t abalho. Sai do processo tendo criado um valor a mais a sumo, reproduzindo sentimentos, comportamentos e repre- mais-valia que excede valor de seu salário e é apropriado pelo capital, e sentações individualistas, negadoras da alteridade e da so- um produto que não lhe pertence e com O qual ele não se identifica; seu salário ciabilidade livre. lhe permite somente sobreviver fisicamente para reiniciar processo. 17. "O caráter social da atividade e do produto, assim como a participação Por exemplo, amor pode ser vivido como coisa, isto do indivíduo na produção são aqui estranhos ao As relações que é, como algo que tem valor de troca, de consumo, de posse. estes fenômenos mantêm, constituem, de fato, uma subordinação a relações A liberdade, que existe em função da capacidade delibera- que existem independentemente deles e que surgem do enfrentamento entre os indivíduos independentemente uns dos outros. O intercâmbio universal de ati- vidades e de produtos que se converteu em condição de vida e em relação mú- tua de todos os indivíduos particulares se apresenta a eles como uma coisa 19. "O operário se relaciona com produto do seu trabalho como um obje- estranha e independente" (Marx, 1971, I: 90). to estranho [...] quanto mais operário se esmera tanto mais poderoso se torna 18. "Com nascimento da propriedade privada, produto do trabalho se mundo objetivo, estranho, que ele cria perante si próprio, tanto mais pobre ele separa do trabalho, se converte em objeto alheio, em propriedade de outro; próprio, o seu mundo exterior, se tornam, tanto menos lhe pertence de seu [...] objeto e resultado da atividade se aliena do sujeito ativo. Sobre essa base se operário sua vida no objeto; porém ela já não lhe pertence, mas ao objeto produz fenômeno geral da alienação, pelo qual as forças e os produtos sociais [...] o desapossamento do operário no seu produto tem o significado, não só de da atividade humana se subtraem do controle e da força dos indivíduos; se que seu trabalho se torna um objeto, uma existência exterior, mas também de transformam em forças a eles contrapostas. Por isso, nas condições de aliena- que ele existe fora dele independente e estranho a ele e se torna um poder ção, a discrepância, já mencionada, entre a evolução social e individual é um autônomo frente a ele, de que a vida que ele mesmo emprestou ao objeto, fenômeno necessário, inevitável" (Markus, 1974: 61). enfrenta de modo estranho e hostil" (Marx, 1993: 62-63).</p><p>36 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL ÉTICA EVIDA SOCIAL 37 dora e sociabilizadora do homem, pode se transformar, 1.3. As atividades emancipadoras objetivamente, em seu oposto; pode ser vivenciada como algo que impede a sociabilidade e a autonomia. É o que Embora o indivíduo seja simultaneamente um ser sin- ocorre quando os indivíduos vivem exclusivamente volta- gular e genérico, não é através de sua singularidade que dos ao "eu", tratando o outro como um limite à sua liber- ele se expressa como representante do gênero humano. Isto dade. Principalmente, as normas e deveres morais passam porque a consciência do humano genérico jamais se orien- a configurar-se como exigências externas aos indivíduos; ta para o "eu", característico da esfera da vida na vida coti- exigências que não lhes dizem respeito, mas a que devem diana; nela, as necessidades humanas tornam-se conscien- "obedecer"; a moral se transforma num conjunto de obri- tes para os indivíduos, mas operam sempre no âmbito da gações formais, marcadas por um significado negativo, re- singularidade, como diz Heller: "O 'Eu' tem fome, sente pressivo. dores (físicas ou psíquicas); no 'Eu' nascem os afetos e as Nas formas de ser reificadas da sociedade capitalista paixões. A dinâmica básica da particularidade individual madura, as esferas e dimensões da vida social são fragmen- humana é a satisfação dessas necessidades do (Heller, tadas em "compartimentos" isolados e aparentemente "au- 1972: tônomos", donde a idéia de que existe uma moral privada, A vida é insuprimível; nela, o indivíduo outra pública; uma moral sexual, por exemplo, que se rea- se socializa, aprende a responder às necessidades práticas liza de modos diferenciados, na vida privada e na pública. imediatas, assimila hábitos, costumes e normas de com- Mas essa aparência, expressão da alienação, não rompe portamento. Ao incorporar tais mediações, vincula-se à totalmente com os vínculos e mediações reais; eles se sociedade, reproduz o desenvolvimento humano-genérico, (re)produzem de forma contraditória, operando-se um mas as formas dessa incorporação caracterizam-se por uma movimento de afirmação e negação da totalidade social, dinâmica voltada à singularidade, não à genericidade. em todas as suas esferas. Portanto, dada a contraditoriedade da história, a alie- nação coexiste com a práxis emancipadora, evidenciando 20. Chamo a atenção para fato de Heller utilizar termo particular ao invés de singular. Sabe-se que Lukács (1978), analisando a complexa relação movimento de afirmação e negação das potencialidades entre estes níveis, situou particular como campo de mediações entre o para- e possibilidades humanas; de criação e perda relativa de doxal e o singular; o autor da Ontologia do Ser Social, referindo-se a tal campo, valores; de reprodução da singularidade alienada e da trata-se da categoria da particularidade, recorrendo à palavra Heller, em seus estudos sobre a cotidianeidade (Heller, 1972- genericidade emancipadora. Neste contexto, a coexistên- 1977), ao referir-se aos traços característicos dos indivíduos singulares, utiliza cia entre maior desenvolvimento das forças essenciais a palavra PARTICULARITAT que, traduzida embora em línguas neolatinas tam- do ser social e sua negação é a forma de ser contraditória bém como particularidade, tem carga semântica intensamente direta de Consignamos aqui a distinção porque, ao longo do texto, ao da sociedade capitalista; "uma ordem social que progride atarmos Heller, particularidade corresponde sempre ao conteúdo de pelo desenvolvimento das contradições a ela imanentes PARTICULARITAT e não de BESONDERHEIT [...] atinge a liberdade pela exploração, a riqueza pela po- 21. Netto assim expõe as características da vida cotidiana: a hetero- breza, o crescimento da produção pela restrição do con- geneidade: "intercessão das atividades que compõem o conjunto das objetivações do ser social [...] um universo em que, simultaneamente, se movimentam sumo [...] o mais alto desenvolvimento das forças produ- menos e processos de natureza composita"; a imediaticidade: "relação direta tivas coincide com a opressão e a miséria totais" (Marcuse, entre pensamento e ação"; a superficialidade extensiva: "a vida cotidiana mobi- 1978: 284 e 285). liza em cada homem todas as atenções e todas as forças, mas não toda a atenção e toda a força" (Netto, 1987: 66).</p><p>38 ÉTICA VIDA SOCIAL 39 ÉTICA SOCIAL A interação entre o indivíduo a sociedade se faz de duo se perceba somente como ser singular; ele em fun- modo tal que a consciência do "eu" e a do "nós" não se cionamento todas as suas capacidades, paixões e motiva- constituem em isto porque as motivações do "eu" ções, coloca-se inteiro, mas somente no âmbito da singula- são sociais; sempre se referem a um grupo, a um quadro de valores socialmente legitimados, a um conjunto de ideais, Por isso, não é próprio do comportamento cotidiano a costumes, ou seja, à cultura existente ou à sua negação. acesso à consciência humano-genérica, pois o grau de No entanto, "o representante do humano-genérico não é utilização das capacidades no cotidiano, ou seja, sua in- jamais um homem sozinho, mas sempre uma integração tensidade, coloca-se abaixo do nível necessário às ativi- (tribo, demos, estamento, classe, nação, humanidade) [...]" dades orientadas às objetivações Não é somen- (Heller, 1972: 21). te pela intensidade que as motivações se definem em sua Na vida cotidiana, a relação entre indivíduo e a so- cotidianidade mas, principalmente, pelo fato de serem ciedade se faz de modo espontâneo, pragmático, heterogê- motivações passivas, cuja hierarquia não obedece a uma neo, acrítico; o "nós" é geralmente apreendido como aque- escolha consciente e crítica, nem a uma finalidade que le pelo qual o "eu" existe, ou seja, através de uma identifi- busque transcender o imediato; a cotidianidade se move cação O indivíduo responde às necessidades de em função do critério de utilidade prática das ações e sua reprodução sem apreender as mediações nelas presen- não do desvelamento de seu significado. Sendo assim, a tes; por isso, é característico do modo de ser cotidiano o atividade teórica, por exemplo, não faz parte da vida do vínculo imediato entre pensamento e ação, a repetição au- indivíduo, enquanto ele está mergulhado em sua coti- tomática de modos de comportamento. dianidade. Isto, porém, não significa a inexistência de mediações, Apesar das características que fazem da vida cotidi- mas que, no âmbito do cotidiano, elas permanecem ocul- ana o espaço de reprodução da vida voltada prioritaria- tas pela aparência imediata dos fatos, dadas a espontanei- mente à singularidade, ao "eu", a cotidianidade é um ele- dade e a rapidez com que são apreendidas e a forma como mento ontológico do ser social, ou seja, insuprimível, de- se manifestam no âmbito da alienação. Os modos de com- sempenhando uma função necessária à vida em socieda- portamento, valores e motivações aparecem à consciência de, pois é nessa dimensão da vida social que o indivíduo como elementos que existem e funcionam em si e por si assimila as formas mais elementares de responder às ne- mesmos, possibilitando que sejam tratados como uma soma cessidades de autoconservação: aprende a manipular os de fenômenos, desconsiderando-se suas relações e víncu- objetos de acordo com os costumes de sua época e com los O cotidiano, portanto, propicia que o indiví- suas necessidades práticas imediatas; assimila as formas 22. "A 'consciência de se desenvolve no particular paralelamente à 24. "A vida cotidiana é a vida do homem inteiro, ou seja, o homem partici- consciência do somente o egoísta-individualista consciente não tem uma pa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua per- 'consciência de porém isto não constitui nele o ponto de partida, mas sim Nele, colocam-se em funcionamento todos os seus sentidos, todas um efeito: o efeito da reflexão e do modo de vida" (Heller, 1977: 85). as suas capacidades, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, pai- 23. Como analisa Netto, a heterogeneidade e imediaticidade da vida coti- ideais, ideologias" (Heller, 1972: 17). diana "implicam que o indivíduo responda levando em conta o somatório de 25. "O fato de que todas as suas capacidades se coloquem em funciona- fenômenos que comparecem em cada situação precisa, sem considerar as rela- mento determina também, naturalmente, que nenhuma delas possam realizar- ções que os vinculam" (Netto, 1987: 66). se, nem de longe, em toda a sua intensidade" (Heller, 1972: 17).</p><p>40 ÉTICA SOCIAL ÉTICA EVIDA SOCIAL 41 de comunicação e os costumes, ou seja, inicia seu proces- O trabalho é parte significativa da vida de expressando, em termos do desenvolvimento humano-ge- Na medida em que, na vida cotidiana, indivíduo nérico, a universalidade do ser social e, em termos da coti- expressa motivações heterogêneas, efêmeras, carregadas de dianidade, sua singularidade alienada: "o trabalho apre- espontaneísmo e repetição acrítica, não faz parte do cotidi- senta dois aspectos: como execução de um trabalho é parte ano a profundidade, a amplitude e a intensidade necessá- da vida cotidiana, como atividade de trabalho é uma rias às atividades em que o homem entra em contato com objetivação diretamente genérica. Marx, para distingui-los, suas capacidades essenciais, ou seja, com sua capacidade utiliza-se de dois termos distintos: ao primeiro denomina de criar, transformar, escolher, valorizar de forma cons- labour, ao segundo, work se converte em sinônimo de tra- ciente. Por isso, a atividade cotidiana não é uma balho alienado" (Heller, 1977: 119). A relação consciente do indivíduo singular com a sua Apesar de a vida cotidiana ser a esfera que mais se genericidade supõe uma elevação acima da cotidianidade, presta à alienação, isso não quer dizer que ela seja ontolo- instaurando um processo de homogeneização: concentra- gicamente alienada; "a vida cotidiana não é alienada ne- ção de toda a atenção numa única tarefa e o emprego de cessariamente, em de sua estrutura, mas ape- toda a força numa objetivação que permita a ele se reco- nas em determinadas circunstâncias sociais" (idem: 39). nhecer como representante do gênero A eleva- Desta forma, a elevação ao humano-genérico não im- ção do singular ao humano genérico é a expressão da indi- plica a supressão da vida cotidiana e sim, a ampliação das vidualidade humana, pois ela não supõe a eliminação do possibilidades de objetivação do humano-genérico, ou seja, singular, mas a sua relação com a genericidade através da a criação de condições favorecedoras da elevação acima da mediação da consciência. Quando indivíduo ascende à cotidianidade, para conjunto dos indivíduos sociais, su- consciência humano-genérica, sua singularidade é supera- a supressão da alienação, não da vida cotidiana. da e ele se torna "inteiramente Algumas atividades permitem uma ampliação da re- lação consciente do indivíduo com a genericidade: traba- "O homem nasce já inserido em sua cotidianidade; amadurecimento lho, a arte, a ciência, a filosofia, a política e a ética. Isto só do homem significa, em qualquer sociedade, que indivíduo adquire todas as habilidades imprescindíveis para a vida cotidiana da sociedade (camada social) é possível porque a alienação não é absoluta, mas coexiste em questão; é adulto quem é capaz de viver por si mesmo em sua cotidianidade" com formas de vida não alienadas. Como diz Heller: (Heller, 1972: 18). 27. "A atividade prática do indivíduo só se eleva ao nível da práxis quando "O homem nasce num mundo concreto que está mais é atividade humano-genérica consciente; na unidade viva e muda de particula- ou menos alienado. Sem dúvida, nem todos os particulares ridade e genericidade, ou seja, na cotidianidade, a atividade individual não é mais do que uma parte da práxis, da ação total da humanidade que, construin- devem aceitar obrigatoriamente este mundo, nem aceitá-lo do a partir do dado, produz algo novo, sem com isso transformar em novo o já dado" (Heller, 1972: 32). 28. "Significa, por um lado, que concentramos toda a nossa atenção e 'sus- 30. "São partes orgânicas da vida a organização do trabalho e da toda outra atividade durante a execução da anterior tarefa; e, por vida privada, os lazeres e o descanso, a atividade social sistematizada, o inter- outro lado, que empregamos toda a nossa inteira individualidade humana na câmbio e a Segundo Heller, não existe uma barreira entre a vida resolução dessa tarefa [...] esse processo não se realiza arbitrariamente, mas cotidiana e "o genérico está em todo homem e, tão-somente de modo que nossa particularidade individual se dissipe na ativi- mais precisamente, em toda atividade que tenha caráter genérico, embora seus dade humano-genérica que escolhemos" (Heller, 1972: 27). motivos sejam particulares. Assim, por exemplo, o trabalho tem 29. "A ação do homem não é só indiretamente, mas diretamente parte inte- te motivações particulares, mas a atividade de trabalho quando se trata de grante da práxis humana em seu conjunto [...] um homem com- trabalho efetivo (isto é, socialmente necessário) é sempre atividade do gêne- (Heller, 116). humano" (Heller, 1972: 18 e 21).</p><p>42 ÉTICA ESERVIÇO SOCIAL ÉTICA EVIDA SOCIAL 43 precisamente como é; nem todos estão obrigados a identifi- normas e os valores socialmente determinados. Por isso, a car-se com as formas alienadas de comportamento" (Heller, moral tem uma função integradora; estabelece uma media- 1977: 55). ção de valor entre o indivíduo e a sociedade; entre ele e os outros, entre sua consciência e sua prática. Ao mesmo tem- As atividades propiciadoras da conexão dos indiví- duos com gênero humano explicitam capacidades como: po, produz novas mediações; influi, por exemplo, nos sen- timentos, na medida em que valora os comportamentos e criatividade, escolha consciente, deliberação em face de se reproduz por deveres. Quando um indivíduo não cum- conflitos entre motivações singulares e humano-genéri- pre um dever estabelecido, ou quando vai contra uma nor- cas, vinculação consciente com projetos que remetem ao ma moral, é julgado moralmente e sente-se "envergonha- humano-genérico, superação de preconceitos, participa- do". Ou, ao contrário, quando se comporta conforme o de- ção cívica e política. Todas elas estão vinculadas com ver, é "admirado" e sente-se "orgulhoso" de si mesmo. valores; a maior parte exemplifica a capacidade ética do ser social. A moral interfere nos "papéis" sociais, donde sua ca- racterização como um modo de ser, um ethos que expressa a identidade cultural de uma sociedade, de uma classe, de 1.4. A capacidade ética do ser social um estrato social, num determinado momento histórico. Por sua perspectiva consciente, ou seja, pelo fato de o indi- víduo aceitar intimamente os valores, passa a fazer parte A natureza das objetivações morais do seu "caráter"; por sua função integradora, estabelecen- do vínculos sociais, está presente em todas as atividades A moral origina-se do desenvolvimento da sociabili- dade; responde à necessidade prática de estabelecimento de determinadas normas e deveres, tendo em vista a socia- Ontologicamente considerada, a moral é uma relação lização e a convivência social. Faz parte do processo de entre indivíduo singular e as exigências genérico-sociais: socialização dos indivíduos, reproduzindo-se através do hábito e expressando valores e princípios socioculturais "Uma relação entre as atividades humanas. Essa relação é dominantes, numa determinada época histórica. Possibili- para empregarmos uma expressão bastante abstrata a conexão da particularidade com a universalidade generica- ta que os indivíduos adquiram um "senso" moral (referido mente humana. A portadora dessa universalidade do gêne- a valores, por exemplo, a justiça), ou seja, tornem-se cons- é sempre alguma estrutura social concreta, alguma co- cientes de valores e princípios éticos. Ao serem interna- munidade, organização ou idéia, alguma exigência social" lizados, transformam-se em orientação de valor para pró- (Heller, 1972: 5). prio sujeito e para juízos de valor em face dos outros e da 32. "Já nas primeiríssimas operações laborativas, as mais primordiais con- O senso moral ou moralidade é uma medida para jul- seqüências da incipiente divisão de trabalho colocam aos homens tarefas cuja gar se os indivíduos estão socializados, ou seja, se são res- execução exige e mobiliza forças psíquicas novas, diversas daquelas requeridas ponsáveis por seus atos e comportam-se de acordo com as pelo processo laborativo verdadeiro e próprio (pense-se na coragem pessoal, na astúcia e engenhosidade, no altruísmo em certos trabalhos executados coletiva- mente). As posições teleológicas que aí intervêm, por isso, estão tão mais explicitamente quanto mais desenvolvida é a divisão social do trabalho dire- 31. "A moral, ao contrário do direito, passa por um momento subjetivo de tamente no imediato a despertar, corroborar e consolidar nos homens estes sen- decisão individual" (Simões, timentos tornados indispensáveis" (Lukács, 1981: XXIV).</p><p>44 ÉTICA E SERVIÇO SOCIAL ÉTICA VIDA SOCIAL 45 Ao converter as necessidades imediatas em exigências É preciso distinguir consciência e subjetividade; no internas, conscientes, a moral propicia a suspensão da sin- âmbito da cotidianidade, os valores morais tendem a ser gularidade; porém, pela sua forma peculiar de submeter o interiorizados acriticamente. Por força da tradição e dos indivíduo às exigências socioculturais através de normas e costumes e pela constante repetição tornam-se hábitos; a deveres, pode se configurar como uma forma de alienação. assimilação espontânea não significa, necessariamente, Isso depende das exigências, da forma como elas se objetivam uma adesão consciente. No nível da cotidianidade, as nor- e do seu produto objetivo, isto é, de sua direção social. mas podem ser aceitas interiormente, defendidas social- Considerada em seus fundamentos ontológicos, a mente sem que, no entanto, possamos afirmar que essa acei- moral é parte da práxis interativa; é fundada sobre posi- tação tenha ocorrido de maneira livre, porque a escolha ções teleológicas que não se vinculam diretamente à esfera livre pressupõe a existência de alternativas e seu conheci- econômica, mas dependem dessa base para se mento crítico. Sendo assim, a consciência implica a subje- Sob essa perspectiva, contém uma série de potencialidades tividade, mas esta pode legitimar determinadas normas e emancipadoras: é uma expressão da capacidade auto- valores sem que seja um ato consciente, isto é, livremente legisladora do ser social; supõe a adoção de valores, a esco- escolhido, a partir do conhecimento das alternativas e da lha entre eles; torna indivíduo responsável pelos seus responsabilidade pelas escolhas. atos, amplia sua consciência, estabelece vínculos sociais, Na sociedade de classes, a moral cumpre uma função propicia um exercício de autonomia, entre outros. ideológica precisa: contribui para uma integração social Porém, tais potencialidades, em determinadas condi- viabilizadora de necessidades privadas, alheias e estranhas ções sociais, podem ser direcionadas para seu oposto. às capacidades emancipadoras do homem. Pela sua natu- Por um lado, isso é facilitado na sua inserção na vida coti- reza normativa e pela sua estrutura de "subordinação das diana; por outro, pela sua natureza normativa. necessidades, desejos, aspirações particulares às exigências A moral é parte fundamental da vida cotidiana, pois a sociais" (Heller, 1977: 133), ainda que não diretamente, mas reprodução das normas depende do espontaneísmo e da através de mediações complexas, a moral é perpassada por repetição para que elas se tornem hábitos e se interesses de classe e por necessidades de (re)produção das em costumes que respondam às necessidades de integração relações sociais que fundam um determinado modo de pro- social. A legitimação das prescrições morais implica uma duzir material e espiritualmente a vida social. aceitação subjetiva, pois, se não forem intimamente valo- Nessas condições, as "escolhas" são direcionadas por rizadas elas não se reproduzem diante das situações coti- determinantes ideológicos coercitivos, voltados à domina- dianas em que a necessidade de escolha entre uma ou ção; nem sempre são propiciadoras da liberdade. Por isso, mais alternativas se faz presente. A partir do momento em a autonomia do indivíduo e sua consciência, em face da que os indivíduos incorporam determinados papéis e com- moral socialmente dada, são sempre relativas a circuns- portamentos, reproduzem-nos espontaneamente, donde a tâncias sociais e históricas: tendência da vida cotidiana: as escolhas nem sempre sig- nificam um exercício de liberdade. "Entendemos por autonomia o que sucede quando, na elei- ção entre alternativas, o ato de eleger, seu conteúdo, sua resolução etc., estão marcados pela individualidade da pes- 33. Vale lembrar que não se trata de uma hierarquia de valor; a prioridado soa. Evidentemente, no plano ontológico, tem o primado a é ontológica. alternativa; sem alternativas não há autonomia, enquanto</p><p>46 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL ÉTICA E VIDA SOCIAL 47 que sem autonomia sempre pode haver alternativas" (Heller, terística do comportamento singular voltado às necessida- 1977: 58). des do eu; porém, sua singularidade não é determinada pelo objeto da fé, mas pela sua "relação com os objetos da fé e Vida cotidiana e alienação moral necessidade satisfeita pela fé" (idem: 47-48). Afirmar que o preconceito é movido por uma atitude A cotidianidade é o campo privilegiado de reprodu- de fé significa dizer que ção da alienação, tendo em vista sua repetição acrítica dos valores, sua assimilação rígida dos preceitos e modos de "os objetos e conteúdos de nossos preconceitos podem ser comportamento, seu pensamento repetitivo e ultragenera- de natureza universal [...] Em troca, as motivações e neces- lizador. No campo da moral, a alienação da vida cotidiana sidades que alimentam nossa fé e, com ela, nosso precon- ceito satisfazem sempre somente nossa própria particulari- se expressa, especialmente, pelo moralismo, movido por dade individual" (idem: 48). preconceitos. Pela sua peculiaridade pragmática e ultrageneralizado- Assim, "o afeto do preconceito é a fé", uma atitude ra, o pensamento cotidiano fundamenta-se em juízos pro- dogmática, movida, em geral, pelo irracionalismo e pela visórios, pautados em estereótipos, na opinião, na unidade No comportamento moral preconceituoso, imediata entre pensamento e a ação. as categorias orientadoras de valor baseiam-se nos senti- mentos de amor ou ódio: "ódio não se dirige tão-somente "Por um lado, assumimos estereótipos, analogias e esque- contra aquilo em que não temos fé, mas também contra as mas já elaborados; por outro, eles nos são pelo pessoas que não crêem no mesmo que A intolerância meio em que crescemos e pode-se passar muito tempo até emocional, portanto, é uma necessária da fé" que percebamos com atitude crítica esses esquemas recebi- (idem: 49). dos, se é que chega a produzir-se tal atitude. Isso depende da época e do indivíduo" (Heller, 1972: 44). Na medida em que, na vida cotidiana, o critério de ver- dade é identificado com "correto", com o que conduz A ultrageneralização é necessária no nível da cotidia- ao êxito, a atitude de fé permite que os valores morais sejam nidade; porém, como decorrência de juízos provisórios, subordinados a interesses que, apreendidos como dogmas, pode ser modificada. Para isso, é preciso que eles sejam não permitem questionamentos. Como tal, o preconceito é refletidos, teórica e criticamente, e refutados pela ação prá- uma forma de reprodução do conformismo que impede os tica; nesse sentido, tais juízos não são necessariamente pre- indivíduos sociais de assumirem uma atitude crítica diante conceitos; passam a sê-los quando, mesmo refutados pela dos conflitos, assim como uma forma de discriminação, ten- teoria e pela prática, continuam a fundamentar o pensa- do em vista a não-aceitação do que não se adequa aos pa- mento e as ações: "os juízos provisórios refutados pela ciên- drões de comportamento estereotipados como "corretos". cia e por uma experiência cuidadosamente analisada, mas O preconceito pode ocorrer nas várias esferas da ati- que se conservam inabalados contra todos os argumentos vidade social: nas artes, na filosofia, na ciência, na políti- da razão, são preconceitos" (idem: 47). Nossas motivações têm sempre uma dimensão de afe- to, mas afeto pode se expressar tanto pela fé como pela 34. A tolerância também não é necessariamente positiva. Em seu sentido comum, refere-se à não-aceitação das diferenças; pois como elas não podem ser confiança; a atitude de fé, diante dos valores, é uma carac- "eliminadas", são "toleradas". Não é à toa que existem as "casas de tolerância".</p><p>48 ÉTICA EVIDA SOCIAL 49 ÉTICA SOCIAL ca, em situações de conflito em face dos juízos de valor No contexto da alienação, essa tensão decorre do sig- que fazemos cotidianamente. No entanto, dado que a mo- nificado ídeo-político das normas e valores morais; as nor- ral está presente, como mediação, nas várias dimensões da mas tendem a coagir na direção de necessidades sociais vida social, o preconceito pode se transformar em perpassadas pela dominação. Mas, como existe a possibili- moralismo, o que ocorre quando todas as atividades e ações dade de se dizer não às normas, esse conflito é positivo, são julgadas imediatamente a partir da moral: pois pode promover a capacidade crítica viabilizadora da autonomia. "Nos preconceitos morais, a moral é objeto de modo dire- As atividades humanas se realizam em esferas hetero- to... Assim, por exemplo, a acusação de 'imoralidade' cos- gêneas, sempre implicando escolhas entre alternativas de tuma juntar-se aos preconceitos artísticos, científicos, na- valor, não necessariamente de valor Como a mo- cionais etc. Nesses casos, a suspeita moral é o elo que ral está presente em todas atividades humanas, existe a mediatiza a racionalização do sentimento preconceituoso" possibilidade de conflitos quando determinadas situações (idem: 56). exigem escolhas cujos valores se chocam com a moralidade dos indivíduos sociais; isso pode ocorrer, por exemplo, na Por suas características, o moralismo é uma forma de alienação moral, pois implica na negação da moral como relação entre moral e política. uma forma de objetivação da consciência crítica, das esco- A práxis política é uma das atividades que possibili- lhas livres, de construção da particularidade. Ao mesmo tam responder coletivamente aos conflitos sociais, desta- tempo, a intolerância remete ao dogmatismo também cando-se, também, da vida cotidiana. É uma atividade que negador da liberdade; por isso, preconceito é moralmen- supõe a interação entre os homens e objetiva uma transfor- te negativo: "porque todo preconceito impede a autonomia mação social, "seja de manutenção ou destruição do exis- do homem, ou seja, diminui sua liberdade relativa diante tente" (Lukács, 1981b: XLIV). Como práxis, supõe-se uma do ato de escolha, ao deformar e, conseqüentemente, estrei- intervenção objetiva, seja ela material ou espiritual; não é, necessariamente, uma forma ética de enfrentamento dos tar a margem real de alternativa do indivíduo" (idem: 59). conflitos sociais, mas mantém uma relação com uma dada O espaço das objetivações morais é também marcado moralidade. por conflitos decorrentes: da função social da moral (como A atividade política supõe a projeção ideal do que se integração social), da heterogeneidade das esferas sociais, pretende transformar, em qual direção, com quais estraté- de sua reprodução (moral) através de normas abstratas e gias; por isso, implica projetos vinculados a idéias e valo- concretas e da possibilidade de sua transgressão. res de uma classe, de um estrato social ou de um grupo, Por sua função social, busca integrar os indivíduos atra- donde sua vinculação com a ideologia como instrumento vés de normas; esse caráter legal implica uma certa coerção; de luta política. Na sociedade de classes, a práxis política "é interiorizada (ao menos na média social), mas é evidente diz respeito ao enfrentamento teórico-prático das contra- que não voluntariamente" (Heller, 1977: 135). Mesmo nas sociedades onde ainda não existe o domínio de classe, a coe- são em torno de um único código de valor não significa a 35. "Valor é um conceito muito mais amplo que 'valor moral'; o indivíduo surge através de uma eleição de valor, mas não será obrigatoriamente um indi- inexistência de tensões, pois, como diz Lukács, "seria um pre- víduo moral. Sem dúvida, a eleição de de um valor genérico inclusive quan- conceito metafísico pensar que a consciência social fosse to- do se trata de uma eleição moral não é indiferente no plano moral" (Heller, talmente idêntica em cada homem" (Lukács, 1981b: XIII). 1977: 137).</p><p>50 ÉTICA ESERVIÇO SOCIAL ÉTICA E VIDA SOCIAL 51 dições, da luta de classes, se objetivando em face de rela- Quando a moral é reduzida à política, estamos em face ções de poder e de confronto coletivo. de uma ética dos fins, diante da qual todos os meios são Como práxis, a ação política permite aos indivíduos válidos, mesmo aqueles eticamente Trata-se saírem de sua singularidade, elevando-se ao humano-ge- do realismo político, "que subtrai os atos políticos a qual- nérico. Mas, esse fato não significa, obrigatoriamente, que quer avaliação moral e em nome da legitimidade dos fins nele se encontra totalmente liquidado o caráter fetichista [...] A atenção recai sobre o ato político e a moral, que tam- da consciência bém é social, operando apenas na esfera da intimidade, do individual, fica reduzida ao fim político" (Pereira, 1983: 38). "Nos conteúdos fetichistas da consciência cotidiana ocu- Na sociedade capitalista, os conflitos ético-morais se pam um lugar importante os juízos e prejuízos que expres- complexificam em face da fragmentação da própria moral sam os interesses de classe, acolhidos espontaneamente pelo que, diante das esferas heterogêneas, assume configurações pensamento político que defende a classe determinada como diferenciadas (muitas vezes em antagonismo entre si), as- integração" (Heller, 1977: 175). sim como em face de cada esfera, que tende a apresentar- se como autônoma, cada qual com um referencial de valor; Ao mesmo tempo, a opção política não transforma, naturalmente, a moralidade internalizada através de valo- como Marx afirma, cada qual com uma medida, o que ex- pressa a alienação das esferas sociais entre si. res e deveres; podem entrar em contradição, podem repro- duzir atitudes moralistas negando a intencionalidade polí- "Está fundado na essência da alienação que cada esfera me No entanto, tendo em vista que a superação da singu- impõe um padrão diferente e oposto a moral, um, a eco- laridade mediante uma relação consciente com humano- nomia nacional, outro porque cada uma comporta-se ali- genérico é uma possibilidade posta tanto pela ética como enadamente para com a outra alienação" (Marx, 1993: pela política, a busca de suas especificidades é necessária e, ao mesmo tempo, o risco de efetuar uma separação A fragmentação da moral em "morais" específicas ex- entre dimensões da vida social. Nesse sentido, cabe lembrar pressa a subdivisão do valor nas várias atividades humanas; que não existe uma atividade ética autônoma, pois, sendo "existe a 'moral sexual', a 'moral do trabalho', a 'moral dos mediação entre as atividades, se objetiva através delas. etc." (Heller, 1977: 113), contribuindo para a se- Se a política é reduzida à moral, estamos diante do paração do indivíduo em papéis antagônicos, "autônomos", chamado moralismo abstrato, ou seja, de uma ação cujos negando, com isso, o caráter ontológico social da moral como resultados dependem, exclusivamente, da moral de seus mediação de valor entre as atividades humanas. agentes tomados individualmente, donde sua caracteriza- Outro aspecto dos conflitos morais é dado pela sua ção moralista e sua configuração como voluntarismo éti- estrutura configurada pelas normas abstratas e concretas: co-político: "Os homens se apropriam simultaneamente dos dois tipos "O moralismo abstrato [...] as esperanças de transfor- de normas: tanto das prescrições 'seja honesto', ou 'seja va- mação social e política na moralização dos indivíduos [...] A atenção fica concentrada na vida privada, no intimismo e no subjetivismo dos princípios A atividade 36. A versão lusitana dos que utilizamos aqui, traduziu sem- política (neste caso, bastante utópica) de certa forma fica pre nationalekonomie por economia nacional; é sabido que, neste contexto, sua carga semântica é equivalente a economia política. Sobre esta oscilação, vejam- reduzida às categorias morais da pessoa" (Pereira, 1983: 38). se os comentários de Baatsch a Engels</p><p>52 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL ÉTICA VIDA SOCIAL 53 lente', em sua abstração, como das numerosas exigências tência de um certo consenso ideológico que corresponde a concretas que se referem ao como ser honestos ou valentes" determinada sociabilidade e cujos valores adquirem signi- (Heller, 1977: 145-146). ficados de acordo com as necessidades objetivas de re)produção da sociedade, em sua totalidade. Nesta pers- Ontologicamente consideradas, as normas abstratas e pectiva, faz parte da existência das próprias classes, em as concretas referem-se aos valores humano-genéricos e às sua relação de a representação formas particulares através das quais são realizadas. No universal dos valores que expressam interesses e necessi- contexto da propriedade privada dos meios de produção, dades das classes dominantes: da divisão social do trabalho e de classes, a universalização da moral, em torno de normas abstratas, não significa sua "Com efeito, cada nova classe que toma o lugar da que do- realização universal, pois tende a atender a necessidades e minava antes dela é obrigada, para alcançar os fins a que se interesses propõe, a apresentar seus interesses como sendo o interes- Nesta situação histórica, a universalização dos valo- se comum de todos os membros da sociedade [...] é obriga- res não implica, necessariamente, sua objetivação como tal; da a emprestar às suas idéias a forma de universalidade, a os valores universais tornam-se princípios abstratos por- apresentá-las como sendo as únicas racionais, as únicas universalmente válidas" (Marx & Engels, 1982: 74). que não são realizáveis para o conjunto da sociedade. Ins- taura-se uma contradição entre as normas abstratas (em A ideologia dominante possibilita o ocultamento das sua universalidade) e as normas concretas (como formas contradições entre a existência objetiva de valores huma- de realização de valores universais) suposto para a no-genéricos (expressos pelas normas abstratas) e suas for- (re)produção das formas alienadas da vida social. Por isto, mas de concretização (seus significados históricos parti- culares), entre os valores humano-genéricos e sua não-rea- "O fato de que a moral abstrata apareça como somente re- alizável em parte ou irrealizável', ou seja, lização prática. Assim, "a vida cotidiana é o âmbito de validez das normas concretas" (Heller, 1977: 146), mas, para que não possa coincidir totalmente com nenhum costume concreto, é uma manifestação da alienação da moral. Isto isso, é preciso que os indivíduos acreditem que significa- se revela não em um ou outro moral, mas na es- do particular das normas morais corresponde aos valores trutura moral das sociedades de classe em geral" (Heller, universais. 1977: 147). As normas abstratas são inerentes à moral na medida em que fornecem princípios gerais, orientadores das nor- Ainda que a interação entre moral, as relações sociais mas concretas. Sua objetivação adquire significados de produção e de dominação político-ideológica não seja ricos particulares em cada contexto, em cada sociedade, imediata, nem mecânica; ainda que a ideologia dominante classe, estrato social, assim como para cada indivíduo, em não seja absoluta, a sociedade não se (re)produz sem a exis- sua singularidade. Por exemplo, se num contexto determi- nado, a honestidade é um princípio positivo, ser honesto passa a se constituir numa norma abstrata que será concre- 37. "A gente não aprende que é bem, mas somente que fulano é bom tizada através de deveres que apontem para sua viabilização porque ajuda os outros [...] em não recebe simplesmente concei- em situações concretas. No contexto do invidualismo bur- tos morais, mas uma interpretação específica deles; a interpretação especial que lhes é dada em cada sistema de uma determinada classe, estrato, guês, a liberdade, por exemplo, se realiza pela negação do comunidade" (Heller, 1977: 147). outro, ocultando seu caráter universal.</p><p>54 ÉTICA SOCIAL ÉTICA EVIDA SOCIAL 55 Isso permite que a ética, como sistematização das lista; busca, a partir da razão dialética, apreender, na tota- objetivações morais, possa se transformar em um conjunto lidade sócio-histórica, as categorias ético-morais, desvelan- de prescrições que negam sua função Ao mesmo do suas particularidades e legalidades. tempo, apreendidas dessa forma, reproduzem uma "acei- tação" que não corresponde às necessidades e exigências A reflexão ética supõe a suspensão da cotidianidade; internas dos indivíduos; são incorporadas externamente, não tem por objetivo responder às suas necessidades ime- como "obrigações". Isso propicia que a liberdade seja con- diatas, mas sistematizar a crítica da vida cotidiana, pressu- cebida de forma idealista e desvinculada da moral, pois, posto para uma organização da mesma para além das ne- uma vez que a liberdade não é vivida e sim, reprimida, cessidades voltadas exclusivamente ao "eu", ampliando as torna-se ideal. possibilidades de os indivíduos se realizarem como indi- vidualidades livres e conscientes. Quando refletidas criticamente, propiciam maiores ou menores possibilidades de questionamento das normas, de Quando a moral é refletida ontologicamente, é sua transgressão, da consciência do seu significado. As vel ultrapassar conformismo característico da aceitação contradições entre normas abstratas e concretas revelam- espontânea da cotidianidade; os conflitos morais podem, se, pois, como parte do processo de desenvolvimento da então, ser apreendidos em sua relação com a totalidade moral que coincide com surgimento da alienação, mas social e não se apresentarem somente como conflitos mo- essa configuração histórica não é, em si mesma, geradora rais. Principalmente, pode desvelar a objetividade de tais da defasagem entre os valores universais e sua realização conflitos, permitindo que não sejam tratados como "pro- objetiva. blemas subjetivos", cuja resolução depende da vontade sin- Os critérios para a objetivação dos valores universais gular. Isto, porém, não elimina a dimensão singular do ato são dados concretamente no movimento extensivo e inten- moral; ao contrário, a individualidade vincula-se a ela ao sivo de construção e desvalorização histórica dos valores; posicionar-se, mas seu posicionamento se efetua no pata- os que representam conquistas da humanidade não se per- mar de uma escolha consciente; "sua teleologia vai além dem na história; sua perda é sempre relativa às condições de sua própria particularidade" (Heller, 1977: 48). históricas e ao seu desenvolvimento desigual, no interior Como reflexão ontológica, a ética possibilita a eleva- de dada sociedade e em relação ao desenvolvimento hu- ção aos valores humano-genéricos, mas sua necessária abs- mano-genérico. Nesse sentido, "os valores são sempre ob- tração teórica não a isola da práxis; como filosofia crítica jetivos, mesmo quando se apresentam na forma de normas interfere indiretamente na realidade, contribui para a am- abstratas [...] o critério de desenvolvimento dos valores não pliação das capacidades ético-morais. Portanto, como é apenas a realidade dos mesmos mas, também, suas pos- Lukács afirma, sibilidades" (Heller, 1972: 8-9). "Este saber não é um fim em si mesmo. Não há nenhum filósofo realmente merecedor deste nome, e que não o seja A reflexão ética apenas no sentido estritamente acadêmico, cujo pensamen- to não tenda a interferir a fundo nos conflitos decisivos de A reflexão ética é construída, historicamente, no âm- sua época, a elaborar os princípios para dirimi-los e, por- bito da filosofia, tendo por objeto a moral. Na perspectiva tanto, dar uma orientação mais resoluta à própria ação diri- que nos orienta, ela é de caráter ontológico-social-materia- mente" (Lukács, 1981b: LXXXVII).</p><p>56 ÉTICA SOCIAL ÉTICA EVIDA SOCIAL 57 Para que a ética se realize como saber ontológico é fundação desses valores na realidade, não cumpre seu pa- preciso que ela conserve sua perspectiva totalizante e críti- pel teórico; se abrir mão da crítica, deixa de se constituir ca, capaz de dismistificar as formas reificadas de ser e pen- numa reflexão ética para se tornar uma doutrina. Assim ela é, também, um instrumento crítico de ou- Por essas peculiaridades, tal ética é de caráter revolu- tros saberes, de elaborações éticas que possam estar con- cionário, ou seja, é crítica à moral do seu tempo e possibi- tribuindo para ocultamento das mediações existentes lidade de projeção ideal de uma sociedade em que os ho- entre a singularidade inerente à cotidianidade e o gênero humano, reproduzindo, com isso, a alienação. mens possam se realizar livremente, sempre com base nas possibilidades reais e em face do desenvolvimento genéri- A ética realiza sua natureza de atividade propiciadora CO já realizado. Por isso, a ética é, também, uma referência de uma relação consciente com o humano-genérico quan- do consegue apreender criticamente os fundamentos dos para a práxis seja como instrumen- to teórico-crítico, seja como orientação de valor que apon- conflitos morais e desvelar sentido e determinações de suas formas alienadas; quando apreende a relação entre a ta para devir. singularidade e a universalidade dos atos ético-morais; quando responde aos conflitos sociais resgatando os valo- 1.4.4. A ética como capacidade livre res genéricos; quando amplia a capacidade de escolha cons- ciente; sobretudo, quando indaga radicalmente sobre as Conforme nossa análise, a gênese da ação ética é dada possibilidades de realização da liberdade, seu principal pela liberdade, compreendida ontologicamente como uma capacidade humana inerente ao trabalho, tomado como Quando a ética não exerce essa função crítica pode práxis. Vimos que trabalho em movimento as capa- contribuir, de modo peculiar, para a reprodução de com- cidades essenciais do gênero: a sociabilidade, a consciên- ponentes alienantes; pode colocar-se como espaço de pres- cia, a universalidade e a liberdade; categorias ontológico- crições morais; favorecer a ideologia dominante; obscure- sociais que operam dialeticamente. Só é possível desen- cer os nexos e as contradições da realidade; fortalecer o volver trabalho se houver cooperação social, se houver dogmatismo e a dominação; remeter os valores para uma um nível de consciência capaz de conhecer a natureza, origem transcendente à história; fundamentar projetos con- projetar sua transformação e realizar praticamente esta servadores; operar de modo a não superar a imediaticidade transformação, criando um produto antes inexistente. No dos fatos; ultrapassá-los mas não apreender a totalidade, processo de objetivação dessa práxis ocorre, também, uma contribuindo para que os homens não se auto-reconheçam valoração da natureza, do sujeito, do produto de seu traba- como sujeitos lho; isso cria alternativas e possibilita a escolha entre elas. Como reflexão crítica, faz juízos de valor sobre a rea- As escolhas e alternativas propiciam novas perguntas e lidade, mas seu caráter téorico-metodológico não permite respostas que configuram as várias formas de expressão da que a fundamentação da realidade se sustente em valores; cultura é produto do trabalho. trata-se de apreender, na realidade concreta, as tendências O desenvolvimento da sociabilidade instituiu novas e possibilidades para a vigência dos valores que lhe ser- necessidades, dentre elas a moral. Em razão de instaurar vem de orientação ética. uma série de mediações que dizem respeito à consciência Portanto, se a reflexão ética perder seu compromisso moral, isto é, à capacidade humana de escolher valores, de com valores, ela deixa de ter sentido; se não apreender a agir com base nestas escolhas e se responsabilizar por elas,</p><p>58 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL ÉTICA VIDA SOCIAL 59 em face das consequências de sua ação, ela (a moral) vin- "as necessidades do homem como membro da sociedade cula-se à liberdade. No entanto, sua inserção necessária na não se tornaram necessidades interiores no verdadeiro in- vida cotidiana faz com que ela negue esse caráter livre que divíduo, mas permaneceram externas a ele, como necessi- está na sua gênese ontológica. Isso é facilitado pelo seu dades da sociedade [...] se fossem 'necessidades interiores' caráter normativo e pela sua peculiaridade de ser do homem, não haveria qualquer necessidade de impô-las estruturada por um dado nível de coerção: sua função é externamente..." (Mészáros, 1981: 168) fazer com que os indivíduos aceitem e reproduzam as nor- mas vigentes. Mészáros se apóia em Marx para afirmar que a norma tem como medida o próprio homem; logo, a função positi- Mas, como vimos, isso ocorre em situações históricas determinadas, pois a vida cotidiana não é necessariamente va da moral se expressa na luta do homem pela sua reali- alienada, nem a moral. Nas condições da sociedade bur- zação; a moral não é externa ao homem se, e na medida em que, ela se relaciona com essa tarefa" (Mészáros, 1981: guesa, ela é alienada porque contribui para a reprodução 169). Trata-se, portanto, de lutar pela humanização, pela de um determinado ethos funcional à ordem social reificada; emancipação das autoridades externas, pela existência de atende, através de suas mediações particulares, a necessi- uma moral livre, objetivadora das capacidades que a fun- dades sócio-econômicas e ídeo-políticas de (re)produção damentam, o que supõe a supressão das relações sociais das relações sociais capitalistas. Nesse sentido, ela (a mo- alienadas, em sua totalidade. ral) expressa um dos antagonismos da sociedade moderna: o antagonismo entre a liberdade (seu fundamento objeti- A humanização apresenta-se, assim, como a medida, vo) e campo das necessidades, fundado nas determina- critério de uma sociabilidade não alienada: "na opinião ções socioeconômicas e objetivado através da suas normas. de Marx, nada é digno da aprovação moral a menos que contribua para a realização da atividade vital do homem Considerada do ponto de vista ontológico, a moral é como necessidade interior" (idem: 166). uma mediação potencialmente capaz de promover uma Por essas considerações, podemos pensar que o anta- individualidade livre, ou seja, uma particularidade capaz de transformar exigências sociais em exigências internas gonismo entre liberdade e necessidade não reside na exis- tência de necessidades materiais, mas nas formas de sua Nas condições da alienação e das suas formas reifica- (re)produção, no contexto da apropriação privada da rique- das, promove a sua própria negação, o que não decorre za socialmente construída. Para a ontologia social, o anta- necessariamente da existência de normas, mas das deter- gonismo oculta uma relação necessária: "se na realidade minações sócio-históricas que permitem sua objetivação não existe nenhuma necessidade, tampouco seria possível como algo externo e estranho ao indivíduo. a liberdade" (Lukács, 1981a: XIV). Para Mészáros, as normas existem muito antes de sua Essa concepção de liberdade supõe sua considera- codificação; são necessidades positivas, do ponto de vista ção como capacidade humana, resultado da atividade da emancipação humana. No entanto, se a sociedade pos- humana que responde e (re)produz necessidades, consti- sibilitasse a participação ativa dos indivíduos na elabora- tuindo-se nessa dialética entre que é necessário e ção das normas, se elas representassem, concretamente, vel historicamente. liberdade é, ao mesmo tempo, capa- exigências internas codificadas, não precisaria haver coer- cidade de escolha consciente dirigida a uma finalidade, e, ção, não precisaria haver regras e sanções institucionais capacidade prática de criar condições para a realização punitivas. Para ele, a existência da lei prova que objetiva das para que novas escolhas sejam cria-</p><p>60 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL ÉTICA EVIDA SOCIAL 61 das. Por isso, liberdade, necessidade e valor vinculam-se Para que o trabalho se efetive como atividade livre é ontologicamente: preciso que ele se realize como atividade criadora, o que pressupõe que seja consciente, que propicie a ampliação "Nas decisões alternativas do trabalho se esconde o fenô- das forças essenciais do ser social e, como tal, não seja um meno da liberdade, mas esse 'fenômeno' não meio de sobrevivência nem de exploração e dominação consiste na simples escolha entre duas possibilidades entre os homens. A partir das condições postas pelo traba- algo parecido também ocorre na vida dos animais superio- lho, a liberdade assume, então, dois significados: é liber- res mas na escolha entre o que possui e o que não possui dade de algo e para algo. valor, eventualmente (em estágios superiores) entre duas espécies diferentes de valores, entre complexos de valores, A liberdade, entendida como liberdade de algo, existe precisamente porque não se escolhe entre objetos de ma- como negação dos seus impedimentos: "a capacidade de neira biologicamente determinada, numa definição estáti- liberar-se das concretas determinações, propriedades e re- ca, mas ao contrário, resolve-se em termos práticos, ativos, lações que se converteram em cadeias. A possibilidade se e como determinadas objetivações podem vir a ser reali- dessa liberação já está dada, desde o ponto de vista geral, zadas" (Lukács, 1981: com a autoconsciência do homem" (Markus, 1974: 74). Autoconsciência significa prática do Como as demais capacidades essenciais do ser social, homem frente ao determinismo da natureza e em relação a a liberdade pressupõe uma objetivação concreta, ou seja, si mesmo, isto é, a capacidade de superar-se pela atividade determinadas condições objetivas para se realizar como e ser autoconsciente de si mesmo como ser genérico. projeto e produto real; trabalho, como práxis, é, portan- Nestes termos, o ser social é autodeterminante quan- to, a base ontológica das possibilidades de liberdade. Des- sa forma, a liberdade não é um valor abstrato que caracte- do projeta conscientemente um estado futuro como possi- riza o ser humano como tal, mas uma capacidade "exerci- bilidade e quando toma esse propósito como guia de ação; mas essa autodeterminação não se refere somente a objeti- tada na atividade de trabalho ou objetivação, que é a mo- dalidade de atividade específica dos seres humanos" vos particulares postos pelo sujeito, pois "o processo de (Gould, 1983: 157). atuar de acordo com os próprios propósitos, como um pro- cesso de atividade social e não meramente uma atividade Como possibilitador da liberdade, trabalho é uma individual, gera, não somente ações, mas regras de ação" atividade potencialmente livre, isto é, ele as condições (Gould,1983 157). para a liberdade na medida em que permite domínio do homem sobre a natureza, desenvolvimento multilateral A liberdade de algo e para algo tem um sentido de de suas forças produtivas capacidades e necessidades negatividade; significa "a capacidade humana de transcen- pressupostos para seu reconhecimento, de si mesmo e dos outros, como sujeitos capazes de criar alternativas e 39. "Essa autotranscendência não é um processo meramente de consciên- imprimir uma direção a seus projetos cia, nem do indivíduo unicamente dentro de si mesmo, mas de autotrans- cendência por meio da transformação do mundo. Além disso, posto que essa transformação somente se efetua por meio de indivíduos em relações sociais e esta é uma atividade social, as condições para essa autotranscendência indivi- 38. Como afirma Lukács: "precisamente essa ligação do reino da liberdade dual são elas mesmas condições sociais. Assim, para Marx, a liberdade é um com sua base sócio-material, com reino econômico da necessidade, mostra processo de auto-realização enquanto origem de novas possibilidades, nas quais, como a liberdade do gênero humano seja o resultado de sua própria atividade" por meio de sua ação, indivíduo social cria-se a si mesmo e recria-se constan- (1978: 15). temente como um ser autotranscendente" (Gould, 1983: 53).</p><p>62 ÉTICA ESERVIÇO SOCIAL ÉTICA VIDA SOCIAL 63 der-se, ultrapassar-se constantemente, ser um eterno mo- da mediação entre a universalidade abstrata das normas e vimento de vir a ser, transformar sua própria natureza a consciência moral: a ação ética. Hegel já havia definido mediante uma atividade consciente" (Markus, 1974: 74). essa dialética entre singular, universal e particular; porém, Liberdade é, portanto, superação dos entraves históricos nele, a particularidade capaz de dar concretude ao univer- às objetivações essenciais do ser social, o que pressupõe sal abstrato, garantindo a individualidade do sujeito ético, fundamentalmente condições objetivas que possibilitem a é dada pelo Estado, donde sua configuração como espaço realização do trabalho de forma livre e criativa. Desse modo, realizador da eticidade. Lukács, superando Hegel, concebe para Marx, não se trata tão-somente da consciência da li- essa objetivação ética como uma ação prática dos sujeitos berdade, mas da ação prática superadora desses obstácu- conscientes em seu exercício de liberdade e deliberação los. Segundo ele, social. O indivíduo pode superar a sua singularidade através "O exercício da liberdade consiste exatamente em superar da moral, mas quando isso ocorre ele se eleva à condição obstáculos e é necessário, além disso, despojar os fins ex- de sujeito ético, na compreensão de Lukács, como particu- ternos de seu caráter de pura necessidade natural para laridade objetivadora do gênero humano para si. estabelecê-los como fins que indivíduo fixa a si mesmo, de maneira que se torne a realização e objetivação do sujei- "A ação ética é um processo de de media- to, ou seja, liberdade real, cuja atividade é precisamente o ção progressiva entre o primeiro impulso e as determina- trabalho" (Marx, 1971, II: 101). ções externas; a moralidade torna-se ação ética no momento em que nasce uma convergência entre o eu e a alteridade, O trabalho é a atividade fundante da liberação do ho- entre a singularidade individual e a totalidade social. O mem; a liberdade não é apenas um estado ou uma condi- campo da particularidade exprime justamente esta zona ção do indivíduo, tomado subjetivamente, mas uma capa- de mediações onde se inscreve a ação ética" (Lukács, apud cidade inseparável da atividade que a objetiva. A Tertulian, 1999: 134). negatividade posta na de pois, Tertulian afirma que Lukács se apropria do "meio-ter- um sentido positivo: ao liberar-se das limitações à realiza- mo" aristotélico para desenvolver sua concepção ética. Para ção do trabalho como atividade criativa, consciente e li- O filósofo grego, a ação virtuosa é a justa medida entre ex- vre, sujeito está livre para usufruir da riqueza humana. tremos; para Lukács é a mediação "entre a norma abstrata Esse tratamento teórico-metodológico evidencia que do direito e a irredutibilidade das aspirações individuais à as necessidades são a base primária das norma, pois ela (a ação ética) implica, por definição, levar possibilidades de liberdade, o que coloca novas possibili- em conta outro e a sociedade, uma socialização dos im- dades para a reflexão ética. Analisados ontologicamente, pulsos e das inclinações pessoais, uma vontade de harmo- esses pólos de uma relação dialética não podem ser absoluti- nizar privado e espaço público, o indivíduo e a socie- zados ou entendidos de forma mecânica; se isso ocorre, dade" (Idem: 134). funda interpretações deterministas, tais como economi- Para Lukács, é a distinção entre gênero humano em cismo, voluntarismo ético, si e gênero humano para si que expressa a diferença en- Segundo Tertulian (1999), Lukács, em suas últimas tre as ações que visam afirmar ou negar a ordem social reflexões éticas, busca a superação da dicotomia kantiana dominante. As ações que se dirigem ao gênero humano em entre moralidade e legalidade, do que resulta a apreensão si são próprias das necessidades de autoconservação e</p><p>64 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL ÉTICA EVIDA SOCIAL 65 legitimação do status quo, enquanto as dirigidas ao gênero Seu fundamento é a liberdade, entendida como capa- humano para si são "objetivações superiores nas quais se cidade humana e valor, o que, para Marx, significa a parti- efetiva a aspiração à autodeterminação do gênero huma- cipação dos indivíduos sociais na riqueza humano-genéri- no" (idem: 137). ca construída historicamente: "a humanidade será livre Essa apreensão da ação ética - como uma ação "vir- quando todo homem particular possa participar conscien- tuosa" e o fato de que as aspirações humanas do gênero temente na realização da essência do gênero humano e rea- para si não são redutíveis à norma reforçam nossa preten- lizar os valores genéricos em sua própria vida, em todos os são de dar à ação ética uma amplitude universalizante, dis- seus aspectos" (Marx, apud Heller, 1977: 217). tinta da ação moral singular. Entendemos que a moral é uma forma, historicamen- 1.5. A dimensão ético-política dos projetos sócio-históricos te construída, de objetivação da capacidade ética do ser humano-genérico, mas nela não esgota suas potencialida- Projetar as ações, orientando-as para a objetivação de des. A partir de Lukács, consideramos que, quando indi- valores e finalidades, é parte da práxis. Afirmar que essa víduo, através da moral, eleva-se ao humano-genérico e projeção é ética e política significa considerar que a coloca-se como representante do gênero humano para si, teleologia implica valores e que sua objetivação supõe a então ele está agindo como sujeito ético, como particulari- política como espaço de projetos diferentes. dade, individualidade livre. Na vida social existem projetos individuais, coletivos A ética se como uma ação prática dotada de uma e societários. Os profissionais são de caráter coletivo; su- moralidade que extrapola dever-ser, instituindo-se no uma formação específica, uma organização de cu- espaço do vir a ser, isto é, na teleologia inscrita nas deci- nho legal, ético e político. Netto assim se refere aos proje- que objetivam ações práticas voltadas à superação dos tos profissionais: entraves à liberdade, à criação de necessidades livres.40 A ética se coloca, então, como uma práxis: supondo, portan- "Os projetos profissionais apresentam a auto-imagem da to, uma prática concreta e uma reflexão ética crítica. profissão, elegem valores que a legitimam socialmente e Como mediação entre a singularidade e a genericidade, priorizam os seus objetivos e funções, formulam os requisi- entre os valores universais e sua a ética per- tos (teóricos, institucionais e práticos) para seu exercício, passa por todas as esferas da totalidade social. Por isso, prescrevem normas para o comportamento dos profissio- não se objetiva apenas na moral; pode se realizar através nais e estabelecem as balizas da sua relação com os usuá- da práxis política, por exemplo. Suas categorias específi- rios de seus serviços, com outras profissões e com as orga- cas são aquelas que implicam a sociabilidade orientada por nizações e instituições sociais, privadas, públicas, entre es- também e destacadamente com o Estado, ao qual cou- um projeto coletivo, voltado à liberdade e universalização be, historicamente, reconhecimento jurídico dos estatu- dos valores éticos essenciais por exemplo, responsabili- tos profissionais" (Netto, 1999: 95). dade, compromisso, alteridade, reciprocidade, equidade. Um projeto profissional implica determinadas condi- ções; deve atender a necessidades sociais, realizadas de 40. Convém lembrar que, para Lukács, a gênese da liberdade é dada por decisões em face de alternativas, mas que produto final das escolhas não é um determinadas formas, e produzir um resultado objetivo, evento causal. com implicações sociais e desdobramentos éticos e políti-</p><p>66 ÉTICA E SERVIÇO SOCIAL ÉTICA E VIDA SOCIAL 67 Portanto, tenham os agentes (tomados individualmen- de valor ético-moral e na direção política da ética profis- te) consciência ou não de que tais elementos conformam sional, seja ela conscientemente dirigida, seja como repro- um projeto, isso não elimina fato objetivo de que está se dução acrítica de normas, valores e modos de comporta- produzindo um produto concreto e que ele, de alguma for- mento. Por isso, é importante salientar caráter de classe ma, contribui para a objetivação de determinadas finalida- dos projetos societários, pois, como afirma Netto: des e necessidades sociais com direção ética e política. A coesão dos agentes profissionais, em torno de valo- "Em sociedades como a nossa, os projetos societários são, simultaneamente, projetos de classe, ainda que refratando res e finalidades comuns, dá organicidade e direção social mais fortemente determinações de outra natureza (de gêne- a um projeto profissional. Esse aspecto, no entanto, diz res- ro, culturais, étnicas, etárias etc.)" (Netto, 1999: 94). peito ao movimento interno da profissão, o que não existe sem mediações externas. A cultura, em geral, e a moral, Mesmo que os projetos profissionais não sejam uma em especial, são mediações determinantes na configura- reprodução imediata dos projetos de classe, não podemos ção da moralidade dos agentes, influenciando sua ética pro- ignorar essa mediação, embora ela deva ser matizada por fissional. Por mediações particulares, a ética profissional várias determinações particulares. Com isso ressaltamos também se articula com os projetos societários, assim defi- que a adesão consciente (ética) a um determinado projeto nidos: profissional implica decisões de valor inseridas na totali- dade dos papéis e atividades inscritas na relação entre o "Trata-se daqueles projetos que apresentam uma imagem indivíduo e a sociedade; na reprodução da singularidade e de sociedade a ser construída, que reclamam determinados da genericidade humana. Eles podem ou não estar em con- valores para justificá-la e que privilegiam certos meios (ma- cordância; se não estiverem, instituem conflitos ético-mo- teriais e culturais) para concretizá-la. Os projetos societá- rais, propiciando que as normas e os princípios sejam rios são projetos coletivos; mas seu traço peculiar reside no reavaliados, negados ou reafirmados, revelando que as es- fato de se constituírem projetos macroscópicos, em proje- colhas, compromisso e a responsabilidade são categorias tos para o conjunto da sociedade" (Netto, 1999: 93 e 94). éticas inelimináveis das profissões, mesmo que, em deter- Os projetos societários estabelecem mediações com as minadas circunstâncias, possam não ser conscientes para profissões na medida em que ambos têm estratégias defini- parte de seus agentes. das em relação ao atendimento de necessidades sociais, com direções éticas e políticas Isso fica evidente 1.6. A natureza da ética profissional quando analisamos a profissão Serviço Social, em sua gê- nese. Suas determinações históricas são mediadas pelas A ética profissional é um modo particular de objetiva- necessidades dadas na relação entre capital e trabalho, ção da vida ética. Suas particularidades se inscrevem na pelos projetos das forças sociais que buscam enfrentar as relação entre conjunto complexo de necessidades que seqüelas da "questão social" como questão moral. legitimam a profissão na divisão sociotécnica do trabalho, Se percorrermos a trajetória histórica da profissão, conferindo-lhe determinadas demandas, e suas respostas constataremos sua adesão a projetos societários, dominan- específicas, entendidas em sua dimensão teleológica e em tes ou não. Assim, embora a ideologia não seja a única face das implicações ético-políticas do produto concreto mediação da profissão, ela está presente nas orientações de sua ação.</p><p>68 ÉTICA ESERVIÇO SOCIAL ÉTICA EVIDA SOCIAL 69 As necessidades históricas que legitimam as profis- conflituoso, uma vez que a formação profissional, median- na divisão sociotécnica do trabalho vinculam-se a a qual se adquire um conhecimento filosófico capaz de determinada sociabilidade, em que se inserem os modos fundamentar as escolhas éticas, não é único referencial de consciência moral relativos a valores culturais, normas profissional; somam-se a ele as visões de mundo incorpo- e princípios éticos que, uma vez legitimados socialmente, radas socialmente pela educação moral primária e por ou- (re)criam novas necessidades e alternativas de valor. Es- tras instâncias educativas, tais como os meios de comuni- tas, por sua vez, se articulam a expectativas sociais refe- cação, as os partidos políticos, os movimentos rentes ao desempenho de papéis que, culturalmente inter- sociais etc. nalizados, rebatem nas profissões de modo peculiar. A partir desse conjunto de manifestações culturais é Neste sentido, ethos profissional é um modo de ser que se formam os hábitos e costumes que a educação formal constituído na relação complexa entre as necessidades pode consolidar ou não. Ao mesmo tempo, a reflexão filosó- socioeconômicas e ídeo-culturais e as possibilidades de fica, base de fundamentação da moral profissional, incor- escolha inseridas nas ações ético-morais, que aponta para pora referenciais que nem sempre permitem uma leitura sua diversidade, mutabilidade e contraditoriedade. crítica e totalizante, O que novamente implica contradições O Serviço Social é um fenômeno típico da sociedade entre a dinâmica social e sua apreensão profissional. capitalista em seu estágio monopolista; portanto, desve- Como podemos observar, a ética profissional é permea- lamento da natureza de sua ética só adquire objetividade da por conflitos e contradições e suas determinações se analisada em função das necessidades e possibilidades fundantes extrapolam a profissão, remetendo às condições inscritas em tais relações sociais. Em face das demandas e mais gerais da vida social. Neste sentido, a natureza da éti- respostas éticas construídas nesse marco é que a ética se ca profissional não é algo estático; suas transformações, objetiva, se transforma e se consolida como uma das di- porém, só podem ser avaliadas nessa dinâmica, ou seja, mensões específicas da ação em sua relativa autonomia em face das condições objetivas A ética profissional recebe determinações que antece- que constituem as referências ético-morais da sociedade e dem a escolha pela profissão e inclusive a influenciam, uma rebatem na profissão de modos específicos. vez que fazem parte de uma socialização primária que ten- Nessa perspectiva, cabe compreender ethos profis- de a reproduzir determinadas configurações éticas domi- sional como um modo de ser construído a partir das neces- nantes e se repõem cotidianamente mediante relações so- sidades sociais inscritas nas demandas postas historicamen- ciais mais amplas. A objetivação da sociabilidade, através te à profissão e nas respostas ético-morais dadas por ela da participação cívica, pode reforçar ou se contrapor a va- nas várias dimensões que compõem a ética profissional: lores adquiridos na socialização primária; mesmo ocorre a) a dimensão filosófica fornece as bases teóricas com a inserção profissional que coloca escolhas e compro- para uma reflexão ética voltada à compreensão dos valo- missos éticos: a necessidade de se posicionar em face do res, princípios e modos de ser ético-morais e oferece os significado e das implicações da ação profissional e a res- fundamentos para uma concepção ética; ponsabilidade diante das escolhas. b) modo de ser (ethos) da profissão que diz respeito Dentre as determinações da ética profissional encon- à moralidade profissional (consciência moral dos seus tra-se conhecimento, dado pela base filosófica incorpo- agentes objetivada na teleologia profissional), que repro- rada pela profissão. Esse aspecto também é contraditório e duz uma imagem social e cria determinadas expectativas;</p><p>70 ÉTICA E SERVIÇO SOCIAL A TRAJETÓRIA 2) ao produto objetivo das ações profissionais individuais e coletivas ético-políticas); c) a normatização objetivada no Código de Ética Pro- fissional, com suas normas, direitos, deveres e sanções. Cada uma dessas dimensões, articuladas entre si, opera com múltiplas mediações. Sua organicidade é maior ou menor, dependendo da coesão dos agentes em torno de fi- nalidades projetadas coletivamente, o que implica uma intenção profissional dirigida a uma determinada direção ético-política e uma prática comprometida com a PARTE objetivação dessa intencionalidade. A TRAJETÓRIA ÉTICO-POLÍTIC SERVIÇO SOCIAL BRASILEIR</p><p>A TRAJETÓRIA 73 CAPÍTULO I AS CONFIGURAÇÕES DA ÉTICA TRADICIONAL I.I. Moral, ethos e ideologia na origem da profissão O Serviço Social vincula-se às demandas ricas que incidem sobre o enfrentamento das seqüelas da "questão social", por parte do Estado e das classes domi- nantes, no contexto do capitalismo monopolista. É vel considerar que essas determinações são universais; mas que só existem pela mediação de suas formas históricas particulares. Essa consideração permite que visualizemos determinadas tendências éticas históricas no Serviço So- cial, em nível mundial, mas que se configuram de modos específicos em cada contexto e momento histórico, dentre elas o conservadorismo moral. Dando por suposto que Serviço Social contribui, de forma específica para a reprodução das relações sociais cabe assinalar as mediações ético-morais desse processo; na origem da profissão, vinculam-se: 1) à função 1. A análise das determinações particulares do Serviço Social já se encontra significativamente equacionada nas elaborações produzidas pela tradição marxista, que não cabe aqui reproduzir. Tendo por base as análises de</p><p>74 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL 75 ideológica da moral; 2) ao tratamento moral da "questão moralista da realidade social; permite que as relações de social", tendo em vista os interesses de legitimação do Es- trabalho não sejam avaliadas pelas suas contradições tado burguês e a presença de projetos sociais conservado- fundantes e sim pelas suas morais. res, dentre eles da Igreja Católica; 3) à existência de pro- Nesse contexto, institui-se a idéia de um "círculo vici- fissões potencialmente adequadas a tal tratamento. oso" que, partindo da entrada dos trabalhadores (homens, No capitalismo monopolista, enfrentamento moral mulheres e crianças) na fábrica, desencadeia uma série de das "seqüelas" da "questão social" é uma forma de resposta "desajustamentos": a propagação de "doenças", como "al- a processos objetivamente construídos na (re)produção do coolismo"; abandono das funções prioritárias da mulher, capital e do trabalho, significando a despolitização de seus no "lar"; a ruptura dos laços comunitários e familiares. O fundamentos objetivos, ou seja, do seu significado sócio- resultado é a "decadência econômica e social", a "desor- econômico e ídeo-político. Em suas determinações ético- dem moral" (Pinheiro, 1985: 15-16). políticas, é uma forma de moralismo, sustentada ideologi- camente pelo conservadorismo moral. Nessa perspectiva, a moralização da realidade revela sua face político-ideológica e sua identidade de projeto so- A presença do conservadorismo moral, no contexto cial conservador. Trata-se de evitar "desequilíbrio" da "or- de origem do Serviço Social, é evidenciada: na formação dem", evidenciado pela: entre operários e profissional, no projeto social da Igreja Católica e na cultu- operárias; da mulher pelo trabalho assala- ra brasileira, através das idéias positivistas. A vivência co- riado; ameaça posta pelas extremas" (idem). tidiana, orientada por seus pressupostos valorativos, ten- de a reproduzir a alienação moral, em seus aspectos já as- Como podemos observar, essa forma de entender a sinalados: a repetição acrítica dos valores, a assimilação realidade explicita valores morais e pressupostos teórico- rígida dos preceitos e modos de comportamento, pensa- políticos encontrados tanto no positivismo quanto no neoto- mismo, bases da formação profissional, em sua origem. Mas, mento ultrageneralizador, preconceito, conformismo, principalmente, em termos ético-morais e ídeo-políticos, a discriminação, tendo em vista a não-aceitação do que não se adequa aos padrões de comportamento estereotipados expressa conservadorismo moral contido em projetos sociais e na cultura brasileira. Dessa forma, não é dada, como "corretos". como possibilidade, apenas na formação profissional mas, No cenário das transformações instituídas pelo capi- também, na socialização primária, em que ocorre a interna- talismo, no Brasil, Serviço Social recusa a ordem burgue- lização de valores, normas de conduta e deveres, ou seja, sa, tratada como uma formação social capaz de trazer o na formação moral dos indivíduos sociais. No caso do Ser- progresso, mas, simultaneamente, os "desajustes", isto é, a viço Social, isso se efetua de modos peculiares, pelo fato "desintegração" da família, da comunidade, dos valores tra- de a profissão constituir-se historicamente como uma pro- Essa visão "anticapitalista" funda uma análise fissão "feminina" de origem católica. & Carvalho (1982) e Netto (1991), trataremos da ética profissional do; e velho mundo, atirado nesse mundo novo, ainda não se equilibrou. O lar, dando por suposto que Serviço Social contribui, de forma específica, na re- que era centro da produção, fonte de trabalho, em conjunto, em torno de uma produção das relações sociais capitalistas. mesma mesa, renda para um só dono, e definia ideal de comunidade, apresen- 2. "O progresso moral material ameaça ultrapassar a nossa capcidade mo- ta-se, hoje, radicalmente transformado. As fábricas, ocupando não só os ho- ral e intelectual, construindo uma civilização que carece de ser emendada. As mens mas também as mulheres e os menores, tornaram, afastando-os do lar, transformações foram de tal ordem, que modificam as funções sociais do Esta- mais frágeis os laços de comunidade familiar" (Pinheiro, 1985: 15).</p><p>76 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL TRAJETÓRIA ÉTICO-POLÍTICA 77 A origem social das mulheres que ingressam nas pri- pensamento católico. O autor evidencia que, em termos de meiras Escolas de Serviço Social vincula-se ao pensamen- valores, ambos se opõem às idéias liberais e socialistas; to católico e às classes dominantes; como mulheres e ca- negam a participação da mulher na vida pública (no traba- tólicas, são influenciadas pelos padrões da moral conser- lho e na política), defendem a preservação da família tradi- vadora. As determinações postas por esta origem social e cional e uma determinada conduta moral repressiva que de gênero influem na formação de um perfil potencialmente vincula o papel da mulher a determinados atributos enten- adequado a atividades educativas, de cunho didos como parte de sua No âmbito das determinações da gênese do ethos pro- O pensamento positivista comteano explica e justifi- fissional, esse aspecto adquire uma importância significa- ca ideologicamente a ordem social burguesa e uma de suas tiva, tendo em vista que a educação moral internalizada no peculiaridades reside em seu tratamento moral dos confli- processo de socialização dos indivíduos é formadora de tos e contradições sociais. Seu conservadorismo, expresso um referencial de valor que a formação e prática profissio- em sua defesa da ordem e da autoridade, aliado à idéia de nais podem romper ou consolidar. No caso do Serviço So- uma ordem social naturalmente "harmônica", possibilita cial, em sua origem, a formação profissional tende a refor- que as lutas sociais sejam vistas como "desordem" que a elementos já assimilados anteriormente. educação moral pode superar. A articulação entre a "har- Ao analisar a configuração histórica dos valores e da monia" social e a ação moral tem como fundamento a valo- família na sociedade brasileira, Azzi aponta as formas de rização do altruísmo e da persuasão em busca da coesão pensar que, no início do século XX, orientam a reprodução social. da família nos moldes conservadores: positivismo5 e o Na medida em que a "harmonia" funda uma justifica- ção para a "superação" dos "conflitos" sociais, a persuasão, 3. "Os núcleos pioneiros do Serviço Social, surgindo como ramificação na direção de uma aceitação da ordem social dada, emerge da ação católica e da ação social, têm sua base social definida pela composi- como instrumento de coesão social; para tal, parte-se da ção do bloco católico. que não impede, no entanto, que possuam especi- idéia de que altruísmo contribui para que os interesses ficidades bem definidas: trata-se fundamentalmente de um núcleo feminino, originado do sistema de ensino mantido pela igreja e das modernas obras so- particulares sejam subordinados ao progresso e à estabili- ciais; constitui-se a partir de moças e senhoras da sociedade, isto é, perten- dade sociais. Nesta perspectiva, as sanções e apelos ético- centes aos setores abastados da sociedade; ter como um ponto em comum morais recaem sobre indivíduo, tendo como parâmetros alguma forma de militância nos meios católicos" (Carvalho, in & Carvalho, 1982: 222-223). as normas dadas pela educação moral fundada em princí- 4. "A formação moral seria o coroamento do trabalho de preparação do pios e valores tradicionais. assistente social, pois, na falta de uma formação moral solidamente edificada O aspecto ideológico conservador do pensamento sobre uma base de princípios cristãos, a ação seria falha, devido à ausência dos elementos que garantem uma ação educativa, que é visada pelo Serviço Social positivista não está apenas na defesa da família nos mol- [...] devem estar aptos para agir com firmeza e perseverança na tarefa de reedu- car as classes baixas, E, principalmente, devem ter da noção de legitimi- dade de sua intervenção no modo de vida e consciência de seus assistidos" difundidas pelo integralismo e pela influência do próprio fascismo italiano" (Carvalho, in lamamoto & Carvalho, 1982: 230-231). (Azzi, 1987: 12). 5. Como mostra Azzi, a ideologia positivista, desde a Primeira República, 6. A moral sexual é uma das faces do conservadorismo viabilizador de influenciou o pensamento político brasileiro; "imbuiu uma parte considerável condutas repressivas e preconceituosas, donde a defesa da fidelidade feminina, da burguesia em ascensão da mesma mentalidade autoritária e conservadora a subordinação à superioridade masculina, a oposição ao aborto, ao concubinato, dos senhores de terra da época colonial e imperial. Essa concepção autoritária a todas as formas de relacionamento que fujam aos padrões do casamento tradi- do estado, trazida pelo positivismo, foi reforçada na década de 30 pelas idéias cional e da família patriarcal.</p><p>78 ÉTICA SOCIAL 79 des tradicionais, mas, principalmente, na desfesa da pro- masculinas, da repressão sexual e da internalização de priedade privada, base de constituição da família e de pre- normas de comportamento reprodutoras do moralismo ca- servação do papel da mulher. Nesse sentido, o pensamen- racterístico do ethos conservador, a mulher tem limitadas to católico e positivismo compõem uma cultura conser- opções profissionais: pode dedicar-se a uma profissão que vadora dirigida fundamentalmente à socialização das mu- não ponha em questão seus valores e princípios, ou seja, lheres: esteio moral" da família. Quanto a isso, pretende- voltar-se às atividades que, tidas como "próprias a mulher", se a formação de uma moralidade "feminina", cujas virtu- não demandem uma ruptura com seu papel des são assim consideradas pela Igreja Católica, no início Apesar de se oporem em muitos aspectos, o pensamen- do século, no Brasil: to católico tradicional e positivismo compartilham da ide- ologia conservadora e da crença na moral como espaço de "O ideal feminino e seu destino natural alheamento do enfrentamento da "questão social". Na formação profissio- mundo, perene sofrimento e renúncia configura-se atra- de virtudes como pureza, bondade, paciência, nal dos primeiros assistentes sociais, seus valores refor- abnegação Cabem à mulher papéis assimétricos em rela- çam a cultura conservadora presente na formação moral ção ao homem na família e no casamento. Desde a infância, da mulher. prepara-se a menina para a obediência e a submissão a seus irmãos e ao pai. A justificativa para a situação assimétrica entre os sexos é vista em termos morais e religiosos" (Azzi, 1.2. o significado da moralização da "questão social" 1987: 93-94). O tratamento moral da "questão social" tem um signi- A formação moral da mulher, nos moldes conservado- ficado particular, se pensado em termos do que ela repre- res, lhe confere "virtudes" que passam a compor determina- senta como uma expressão específica da luta de classes. dos papéis: educada para assumir uma responsabilidade na A "questão social", datada da segunda metade do sé- educação moral e cívica dos filhos, a mulher é potencial- culo XIX, na Europa ocidental, está organicamente conecta- mente formada para profissões que se legitimam socialmen- da à emergência do proletariado no cenário político reivin- te como "profissões femininas", das quais se exige mais um dicando direitos sociais. Essas reivindicações são uma ex- perfil adequado a padrões morais conservadores, do que pressão específica de lutas mais gerais, de caráter revoluci- propriamente qualidades técnicas e intelectuais. onário, acumuladas pelos trabalhadores, no âmbito da so- Socializada para aceitar uma rígida hierarquia de pa- ciedade moderna. Como tal, evidenciam sua consciência péis sociais, legitimadora da autoridade e superioridade de classe adquirida ao longo de conquistas e derrotas his- tóricas, tendo como marcos as revoluções proletárias de 7. "Toda a essência da perspectiva conservadora sobre a propriedade e da componente fortemente romano-feudal dessa perspectiva, encontra-se, eviden- Tais profissões têm uma trajetória ética muito semelhante. Em estudo temente, nos costumes e leis da primogenitura e Ambas eram desti- sobre a ética da enfermagem, por exemplo, Germano salienta sua origem junto nadas a proteger o caráter familiar da propriedade, a impedir que se tornasse na à Igreja Católica, observando os seguintes valores profissionais: "prudência, possessão, incerta e possivelmente transitória, de um só Quase tudo honra, lealdade à instituição, paciência e bondade, caridade e abnegação..." na lei medieval sobre a família e casamento, incluindo a severa ênfase posta (Germano, 1993: 95-125). Rios, ao analisar a atuação tradicional do educador, na castidade da mulher, castigo que podia ser imposto ao adultério aponta para a configuração "feminina" do seu papel: "dá-se ênfase à dimensão pela esposa, veio de uma reverência quase absoluta pela propriedade, pela he- afetiva, e bom educador acaba sendo aquele educador (Rios, rança legítima da propriedade" (Nisbet, 1987: 98). 1993: 52).</p><p>80 ÉTICA SOCIAL 1848, na Europa, e a reação conservadora da burguesia e pendentemente das formas de luta que se travam em cada seus momento, passa a se constituir num ideário, ou seja, na A organização política dos trabalhadores é construída teleologia dos movimentos proletários e lutas populares, na vida cotidiana, em face da alienação e das respostas que ao longo da história. possibilitam suspender a cotidianidade alienada. Neste pro- Pelo seu potencial emancipatório, os trabalhadores cesso, vivido em suas contradições, a práxis política se afir- organizados são a negatividade da sociedade capitalista; ma como mediação e forma de objetivação de valores éticos donde a forte reação da burguesia e das forças conservado- voltados à liberdade e coesão dos sujeitos coletivos. Constrói- ras aos movimentos vinculados ao projeto socialista. No se um ethos fundado na oposição ao individualismo burguês contexto da Europa, no final do século XIX, a dupla oposi- e ao conservadorismo moral; um modo de ser cujos valores ção ao liberalismo e ao socialismo se apresenta através dos decorrem da vivência coletiva em torno de necessidades e estratos sociais que ligados à antiga nobreza, à Igreja interesses comuns, donde a valorização do companheirismo, Católica e seus intelectuais historicamente combateram da solidariedade, da resistência, da lealdade, da a Revolução Francesa e seus ideais: os representantes do Nesse processo, vão sendo gestadas alternativas, fina- pensamento lidades e valores que dão sentido a um novo projeto Portanto, em suas raízes, conservadorismo é um societário: trata-se de superar os limites burgueses, na di- projeto político de oposição histórica ao Iluminismo, ao reção de uma sociedade O socialismo, inde- liberalismo e às idéias socialistas. Como já assinalamos, ele valoriza o passado, a tradição, a autoridade fundada 9. "Nos primeiros anos do século 19, este enfrentamento vem à na hierarquia e na ordem. Com isso, nega a razão, a demo- luz com clareza meridiana: as insurreições proletárias de 1848 e sua repressão cracia, a liberdade, a indústria, a tecnologia, o divórcio, a pela burguesia (associada à nobreza que ela acabara de derrocar) liquidaram emancipação da mulher, enfim, todas as conquistas da épo- entre as 'ilusões da Revolução Francesa e puseram a nu o caráter opres- ca sor da organização social dela derivada. movimento dos trabalhadores urba- nos, embrionário no final do século 18, avançando por diferentes e sucessivas Em face das reivindicações dos trabalhadores, esse etapas, transita do protesto negativo para um projeto político de classe: a revo- projeto político adquire um significado preciso: trata-se de lução socialista. A partir daí, é possível ao proletariado colocar-se como sujeito autônomo" (Netto, 1991a: 12). garantir a reprodução de um sistema moral que assegure a 10. Isto implica a instituição de valores e normas de convivência; como "ordem", ou seja, que identifique as lutas políticas como aponta Hobsbawm, por exemplo, "não ser furador de greve" (ou palavras de indícios de uma "desordem" que deve ser combatida. efeito semelhante) era e continuou sendo primeiro mandamento de seu código moral; aquele que deixasse de ser solidário tornava-se judas de sua comunidade" (Hobsbawm, 1981: 233). Segundo ele, "a tradição jacobina ga- ethos dominante, e sim, de salientar que, em condições históricas determina- nhou solidez e continuidade sem precedentes e penetração nas massas a partir das, em face das lutas cotidianas, se constroem novos referenciais de valor rela- da coesiva solidariedade e da lealdade que eram características do novo prole- livos àquelas circunstâncias e à capacidade prática de superá-las. tariado. Os proletários não se mantinham unidos pelo simples fato de serem 12. Vendo nos movimentos de cunho socialista mais um opositor, essa pobres e estarem no mesmo lugar, mas pelo fato de que trabalhar junto e em reação conservadora, articulada em torno de tendências românticas restaurado- grande número, colaborando uns com os outros numa mesma tarefa e apoian- ras do passado feudal, tem como referencial filosófico fundamental o pensa- do-se mutuamente constituía sua própria vida. A solidariedade inquebrantável mento de Edmundo Burke, na Inglaterra, e de Maistre, Bonald e Lamennais, na era sua única arma, pois somente assim eles poderiam demonstrar seu modesto França. mas decisivo ser coletivo" (idem, 1981: 233). 13. Para Burke, a história é a experiência trazida do passado e legitimada 11. É importante ressaltar a presença das contradições, pois não se trata de no presente pelas tradições, o que vem negar espírito dinâmico contido no afirmar que os trabalhadores estivessem imunes à alienação e à influência do ideário moderno de valorização do presente, tendo como perspectiva futuro.</p><p>82 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL 83 Assim, a consideração moral da "questão social" é uma de um inimigo comum: os movimentos de cunho socialis- proposta político-ideológica oculta pelo discurso ético. Sua ta, por sua negação da propriedade privada, valor intocável ênfase na educação moral como elemento fundamental no tanto para a burguesia como para os movimentos conser- combate à "desordem" tem por objetivo combate vadores. político aos movimentos operários, ou seja, a conservação Entendida dessa forma, a "questão social" não se refe- da ordem re apenas à existência de desigualdades, mas às formas his- No contexto da "questão social", as reivindicações dos tóricas de seu equacionamento, em face do significado po- trabalhadores por direitos não se configura como uma luta lítico das lutas proletárias. Quando capitalismo eviden- revolucionária, mas, pelo seu potencial, são tratadas como cia e aprofunda suas contradições, no contexto dos mono- tal. Assim, as greves, as manifestações por melhores salá- pólios, a "questão social" torna-se alvo de respostas siste- rios, por uma legislação de proteção ao trabalho, por me- máticas por parte do Estado e das classes dominantes, para lhores condições de vida, são vistas pelos conservadores garantir a reprodução da força de trabalho, mas, principal- como possibilidade de ruptura com a ordem social dada. mente, para evitar qualquer manifestação que possa pôr O que está em luta são projetos societários; frente às em questão a ordem social. crises econômicas e político-ideológicas evidenciadas no Estamos afirmando que tratamento moral da "ques- capitalismo monopolista, as propostas da burguesia de- tão social" é uma resposta política de várias forças sociais vem, no máximo, apontar para reformas que não ponham ao potencial emancipador das lutas proletárias; uma rea- em risco a (re)produção do capital e sua manutenção no ção de caráter conservador que perpassa pelas estratégias poder. As forças conservadoras, por seu lado, não preten- dem derrubar a ordem burguesa e sim, reformá-la de modo do Estado capitalista, pelo projeto social da Igreja Católica a reatualizar valores e modos de vida tradicionais, que e pelo Serviço Social, no contexto de sua origem. propicia uma identidade com a ordem burguesa, em face No âmbito da Igreja Católica, essa reação é ao mesmo tempo anticomunista e antiliberal, colocando-se como al- ternativa ao socialismo e ao liberalismo, ou seja, como uma 14. Frente à crise política do século XIX, por exemplo, Comte propõe um "terceira via" de desenvolvimento do A di- programa de "educação proletária", que visa atingir a mulher e a família operá- ria. Em suas palavras: "o povo está naturalmente disposto a desejar que a vã e mensão político-ideológica dessa intervenção em face da tempestuosa discussão dos direitos seja enfim substituída por uma fecunda e "questão social" é claramente exposta na Encíclica Rerum salutar apreciação dos deveres [...] se povo está agora, e deve permanecer a Novarum, em que Leão XIII defende a desigualdade como partir desse momento, indiferente à posse direta do poder político, nunca pode "natural" e necessária à reprodução da "ordem renunciar à sua indispensável participação no poder moral" (Comte, 1977: 115). 15. "Tanto positivismo como funcionalismo estão realmente interessa- dos somente em certos tipos de crenças morais compartilhadas: as que são pro- dutoras da ordem. O positivismo tendia a pressupor que, de cerlo modo, os 16. A Igreja "deixa de se antagonizar ao capitalismo para concebê-lo atra- valores morais compartilhados que não produziam a ordem não eram 'realmen- vés de uma terceira via em que o liberalismo é substituído pelo comunitarismo te' valores morais. evidente, por exemplo, que quando Comte falava de 'liber- ético cristão passa a localizar na vanguarda socialista do movimento operá- dade de individual, referia-se a um tipo de valor moral; sem dúvi- rio seu principal inimigo. Radicaliza-se a postura anticomunista da hierarquia e da, condenava porque conduzia os homens a conclusões diferentes e, desse do movimento laico. eixo principal de sua atividade de propaganda e modo, dissolvia consenso social. positivismo clássico julgava verdadeira- proselitismo será, crescentemente, uma intensa campanha ideológica em que mente moral pelas suas pela sua contribuição ao consenso [...] se procura vincular comunismo às idéias de miséria e barbárie. no em resumo, a ordem passa a ser a base fundamental em função da qual se con- laicismo e liberalismo os germes do socialismo totalitário" (Carvalho, in cebe a moral" (Gouldner, 1970: 23). & Carvalho, 1982: 162).</p><p>84 ÉTICA ESERVIÇO SOCIAL 85 ca", negando, com isso, a luta de classes, tida como algo ção onde se ressalta a "preservação e o que vai contra a natureza da sociedade. Como diz ele, controle contínuos da força de trabalho, ocupada e exce- dente" (Netto, 1992: 22). "O erro capital na questão presente é crer que as duas clas- Tal articulação entre as funções econômicas e políti- ses são inimigas inatas uma da outra, como se a natureza cas do Estado implica a obtenção do consenso necessário à tivesse armado ricos e pobres para se combaterem mutua- sua legitimação, que se efetua "mediante a generalização mente num duelo obstinado" (Leão XIII, 1985: 18-19). e a institucionalização de direitos e garantias cívicas e so- Nesse contexto, "bem comum" é vinculado a um pro- ciais" (idem: 23). É assim que colocam-se condições para jeto social de bases reformistas que visa assegurar um con- que, contraditoriamente, Estado burguês responda às senso entre as classes, tendo em vista a aceitação, por par- necessidades do capital e incorpore parte das demandas e te dos indivíduos e das classes sociais, de sua condição reivindicações das classes "naturalmente dada". Apoiando-se na filosofia tomista, a É sob tais condições que as "seqüelas" da "questão so- Rerum Novarum concebe a desigualdade social como uma cial" tornam-se objeto de intervenção sistemática do Estado, decorrência da diversidade de funções naturais, que jus- que se materializa em políticas sociais que, de modo con- tifica as condições sociais de classe, donde apelo para traditório, atendem a necessidades Ao repro- um consenso entre capital e trabalho: "As duas classes são duzir tal articulação entre coerção e consenso, o Estado destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e busca controlar as classes trabalhadoras e, ao mesmo tem- a conservarem-se em perfeito equilíbrio" (idem: 20). po, legitimar-se como representativo de toda a sociedade. A moral se apresenta como um dos elementos viabili- Para isso, a moral funciona como instrumento ideológico zadores da reforma cristã, pois entende-se que, através da favorecedor do consenso; o que podemos observar no pro- reatualização dos valores tradicionais, de modos de vida jeto populista, corporativista e do Governo reprodutores das funções básicas da família e da mulher, Vargas, com sua veiculação ideológica de valores éticos: seja possível manter a ordem social necessária ao "bem comum". Na medida em que a conservação da família tradi- 17. "O capitalismo monopolista, pelas suas dinâmica e contradições, cria cional é pressuposto para a manutenção da propriedade pri- condições tais que Estado por ele capturado, ao buscar legitimação política vada, a mulher, como "esteio moral" da família, apresenta- através do jogo democrático, é permeável a demandas das classes subalternas, que podem fazer incidir nele seus interesses e suas reivindicações imediatas se como um elemento-chave do projeto social cristão. [...] este processo é todo ele tensionado, não só pelas exigências da ordem Mas o enfrentamento moral da questão social é tam- monopólica, mas pelos conflitos que esta faz dimanar em toda escala societária" bém realizado pelo Estado, tendo por finalidades a busca (Netto, 1992: 25). 18. Isto, porém, é determinado por inúmeras mediações e conflitos; como de um consenso social e controle e a reprodução da força adverte Netto: "a dinâmica das políticas sociais está longe de esgotar-se numa de trabalho. Resta salientar como a moral contempla essa tensão bipolar segmentos da sociedade demandantes/estado burguês no ca- função político-ideológica do Estado capitalista. pitalismo monopolista. De fato, elas são resultantes extremamente complexas de um complicado jogo em que protagonistas e demandas são atravessados por A emergência do proletariado, como força política rei- contradições, confrontos e conflitos" (Netto, 1992: 29). vindicando direitos, exige um redimensionamento das fun- 19. "O Estado assume paulatinamente uma organização cooperativa, cana- ções políticas do Estado. Suas respostas, em função das lizando para sua órbita os interesses divergentes que emergem das contradições entre as diferentes frações dominantes e as reivindicações dos setores popula- necessidades econômicas de acumulação e valorização do res, para, em nome da harmonia social e desenvolvimento, da colaboração entre capital, são dirigidas à criação de mecanismos de interven- as classes, repolitizá-las e discipliná-las, no sentido de se transformar num po-</p><p>86 SOCIAL A TRAJETÓRIA 87 "O trabalho será apresentado como virtude universal do A impessoalidade das relações institucionais, aliada à homem, como atividade que cria riquezas, que propicia o fragmentação das mediações sociais entre indivíduo e so- desenvolvimento da sociedade. capital é legitimado en- ciedade, permite que os indivíduos se relacionem sem se quanto fruto do trabalho passado do capitalista e cada tra- balhador é um patrão em potencial. As pessoas que traba- comprometerem em sua totalidade, tornando possível que lham estarão naturalmente unidas entre si, solidariamente, as relações entre os homens objetivem-se como relações porque trabalham. Reiteram-se os pontos comuns e obscu- entre coisas, pois a própria exteriorização de um e de outro rece-se a clivagem de classes "(Carvalho, in & se dá segundo a lógica da posse e do consumo. Ao se trans- Carvalho, 1982: 157). formarem em objetos passíveis de serem consumidos, os valores morais incorporam, também, essa lógica mercantil. Estado estabelece uma mediação ético-moral entre A alienação que perpassa as várias esferas da vida so- os indivíduos e a sociedade; com isso, descaracteriza-se cial contribui para que a totalidade social seja fragmentada aparentemente de suas funções coercitivas, burocráticas, em instâncias abstratas, desvinculadas das relações de po- impessoais, para tornar-se um espaço de relações "huma- der, de classe, de trabalho. Cada uma das esferas sociais nitárias". Através de um discurso ético universalizante, frag- subdivide-se em esferas autônomas, aparentemente inde- menta as necessidades das classes trabalhadoras, transfor- pendentes entre si, cada qual com uma referência de valor. ma seus direitos em benefícios do Estado, subordina os Ao mesmo tempo, individualismo favorece a valorização indivíduos a várias formas de discriminação, responsabili- da subjetividade e de uma moralidade individualizada em za-os pela sua condição social, despolitiza suas lutas, res- torno da singularidade do "eu" que se opõe à sociabilidade. tringe suas escolhas, contribuindo para a reprodução de Ao reiterar a idéia de resolução moral dos conflitos, uma moralidade subalternizada e alienada. as políticas sociais veiculam uma dupla responsabilidade Reconhecer a necessidade do atendimento das carên- às classes subalternas: seu reconhecimento do Estado, como cias sociais não rompe com o ethos liberal, pois é parte de provedor de benefícios, e seu auto-reconhecimento, como seu ideário encaminhamento de soluções que visam repor responsável por seus desdobramentos. Com isto, o enfren- as oportunidades para aqueles que, por alguma razão, não a tamento da "questão social" consolida dois modos de frag- tiveram ou não "souberam aproveitá-las". Assim, pensa- mentação: ela mesma se divide em "problemas" isolados e mento social do Estado é também uma expressão do modo as classes às quais ela se destina são tratadas a partir dos de ser capitalista, isto é, do ethos burguês; evidenciando o indivíduos que as compõem, tomados isoladamente e res- individualismo presente nas relações sociais, não se repro- ponsabilizados, pessoalmente, pela sua continuidade. duz somente pela, ou através da idéia de que o outro é um Como aponta Netto, trata-se de uma articulação entre o limite à liberdade individual, mas também pela concepção público e privado: "a incorporação do caráter público da de que o outro é um objeto, reproduzindo uma sociabilida- questão social vem acompanhada de um reforço da apa- de alienada de sua natureza interativa e cooperativa. rência da natureza privada das suas manifestações indivi- duais" (Netto, 1992: 32). A fragmentação peculiar à legitimação da ordem deroso instrumento de expansão e acumulação capitalista. A política social for- mulada pelo novo regime que tomará forma através de legislação sindical e monopólica se desdobra em outras mediações; ao indivi- trabalhista será sem dúvida um elemento central do processo" (Carvalho, in dualizar os problemas sociais, transforma-os em proble- & Carvalho, 1982: 154). mas de ordem "psicológica", como mostra Netto:</p><p>88 ÉTICA SOCIAL 89 "A individualização dos problemas sociais, sua remissão à Isso não elimina as contradições; ao se contrapor aos problemática singular ('psicológica') dos sujeitos por ela afe- valores coletivos expressos na organização dos trabalha- tados é, como vimos, um elemento constante, embora com dores, a moral burguesa reproduz uma inter- gravitação variável, no enfrentamento da social' na na insuperável nos marcos do capitalismo: a defasagem idade do monopólio; ela permite com todas as conse- entre os valores humano-genéricos e sua objetivação na vida que daí decorrem psicologizar os problemas social. Seu humanismo, portanto, é universal abstrato, sociais, transferindo a sua atenuação ou proposta de resolu- ção para a modificação e/ou redefinição de características que a torna essencialmente moralista, como explica Simões: pessoais do indivíduo (é então que emergem, com rebatimentos prático-sociais de monta, as estratégias, retó- "Os valores 'humanos' passam a valer por si mesmos, sem ricas e terapias de ajustamento, etc.)" (1992: 37). qualificação social, porque baseados na privacidade e no indivíduo... Tal como a burguesia passa a editá-la [a moral], Contraditoriamente, tal individualização funciona torna-se um conjunto de princípios abstratos de índole va- como um vínculo social entre indivíduo e as instituições gamente humanista e que só espiritualmente mantém ca- ráter comunitário do trabalho... Esta moralidade tende per- viabilizadoras das políticas sociais. Reproduzindo oculta- manentemente a falsificá-lo, a apresentar como mento das reais determinações de tal vinculação, as políti- seu interesse particular. Como à moral compete re- cas sociais reproduzem a alienação: a sociabilidade se ex- compor os nexos coletivos, interesse privado, travestido pressa como dependência, os direitos sociais aparecem de valor moral, só pode configurar-se como moralismo" como benefícios, que conduz ao reconhecimento da face (Simões, 1990: 59- 60). humanitária do Estado e ao "auto-reconhecimento" do in- divíduo como subalterno. O capitalismo cria as condições para que a moral se Assim, no âmbito do enfrentamento da "questão so- objetive predominantemente voltada apenas à singulari- cial", a justificação ideológica do Estado em face das desi- dade dos indivíduos sociais, numa existência isolada das gualdades e das reivindicações das classes trabalhadoras relações sociais que objetivam os sujeitos éticos. Embora a pode, ao mesmo tempo, responsabilizar os indivíduos e separação entre a moral pública e a privada faça parte do despolitizar suas reivindicações, trazendo sua solução para desenvolvimento da sociedade burguesa, as contradições campo da moral. Com isso se redefine a relação entre daí resultantes tornam-se problemas a serem equacionados público e privado: intimismo do privado é trazido para o de modo a recompor formas de integração social. Por um público, que adquire uma aparência "humanitária"; os pro- lado, a configuração jurídica da moral (no direito) permite blemas sociais deixam de ser político-econômicos para se que ela se desvincule aparentemente das relações de tra- transformar em "problemas" de ordem moral; são atendi- balho, que possibilita que salário e as condições de dos publicamente, mas tal atendimento se reveste de con- trabalho sejam regidos por interesses privados e excluídos teúdos "privados": a emotividade, a remissão ao assistente social: "Penso que há coisas que não se deve fazer. É necessário, 20. Na do Serviço Social, em sua origem, isto não significa uma como assistente, compreender as pessoas, sentir-se próximo a mas nun- relação horizontal; ela o é somente em função do "cliente", ou seja, sua priva- ca se deve atravessar a fronteira, nada deve fazer que possa revestir-se de uma cidade é invadida, seus "problemas" são tratados como pessoais, mas, do pon- certa ambivalência assim, tomar um cafezinho, aceitar um bombom to de vista da profissional, delimita-se claramente a "fronteira profissio- são pequenas coisas que tendem a sair do quadro profissional" (Verdès- nal", como exemplifica com seguinte depoimento de uma Leroux, 1986: 76).</p><p>90 ÉTICA ESERVIÇO SOCIAL 91 de vínculos coletivos e de valores ético-morais tais como a dos vínculos sociais; sua potencialidade ética estabelece solidariedade. mediações com a totalidade social, propiciando a conexão A partir desses pressupostos é possível que os indivídu- crítica com valores humano-genéricos, a negação da ordem os sejam responsabilizados pela sua situação social, mas en- social e as possibilidades de objetivação de uma ética contrem, no Estado, uma forma de atendimento que lhes ofe- teleologicamente voltada à superação dos limites da cida- reça condições de "superá-la" o que só se torna viável se tal dania burguesa. atendimento for capaz de despolitizar as políticas sociais, de modo que elas não sejam reconhecidas como obtenção de direitos sociais e sim, como benefícios de cunho moral. 1.3. Os fundamentos filosóficos da ética profissional tradicional Mas, ao mesmo tempo, a própria existência do traba- lho, nas condições de exploração e dominação capitalis- A dimensão ética da profissão, em sua origem, tem sua centralidade afirmada nas Escolas de Serviço Social; tas, propicia o resgate de tais vínculos, que se volta con- tra o capital, na medida em que passa a se configurar na através das disciplinas de Filosofia e Ética, são reproduzi- consciência de classe e na organização coletiva dos traba- dos os princípios éticos buscados na filosofia tomista, no lhadores, articulando uma moralidade crítica, ou seja, uma positivismo e no pensamento conservador. ética fundada no trabalho e na liberdade. O repõe, sob novas determinações his- tóricas, a filosofia Para esse pensamento filosófi- Portanto, apreendida em suas determinações fundan- CO de base teológica, o princípio da existência de Deus con- tes, a "questão social" é uma expressão particular do anta- fere uma hierarquia aos valores morais, tendo em vista sua gonismo de classes. Tal reconhecimento, porém, não con- subordinação às "leis naturais" decorrentes das "leis divi- diz com os interesses e as necessidades objetivas de (re)pro- nas". A natureza humana é considerada a partir de uma dução da ordem social burguesa; seu enfrentamento supõe "ordem universal imutável", donde as funções inerentes a sua fragmentação e parcialização, ou seja, sua transforma- cada ser apresentarem-se como necessárias à "harmonia" ção em "problemas" morais individuais. Esta fragmenta- do conjunto social, cuja realização leva ao "bem comum" ção, porém, não elimina a conexão real entre a ética e a ou à "felicidade geral". política, permitindo que ela se expresse contraditoriamen- Para tal filosofia, a "auto-realização da pessoa huma- te, determinando novos equacionamentos e mediações. na" supõe a moralidade ou "consciência reta" voltada à Consideramos que, se existe uma dimensão moral nas objetivação dos valores universais que adquirem sentido funções e estratégias do Estado em face da questão social, tornando-o um espaço de resolução de contradições que adquirem a forma de "problemas" morais, isto só é 21. Netto aponta para duas tradições culturais inscritas nas protoformas vel pela funcionalidade da moral como instrumento de do Serviço Social: a européia, através do neotomismo, e a norte-americana, in- fluenciada pelo pragmatismo e pelo personalismo, que não se confunde com o controle político ideológico voltado à coesão social e pelas personalismo europeu; trata-se de um pensamento voltado ao "combate ao ma- formas fragmentárias por meio das quais a totalidade so- terialismo, ao evolucionismo e ao racionalismo..." (Netto, 1992: 119). Na déca- cial opera suas mediações ocultas pela retificação. da de trinta, entretanto, ocorre uma interação entre tais correntes: o neotomismo se expressa nas produções e Serviço Social europeu incor- Logo, a própria natureza da moral, nas condições da pora as técnicas norte-americanas. Segundo Netto, tal sincretismo cultural-ideo- sociedade burguesa, propicia sua reprodução lógico é internalizado acriticamente pelo Serviço Social brasileiro. 22. Sobre o neotomismo e sua influência no Serviço Social, consultar Aguiar ria; sua presença na vida cotidiana possibilita o ocultamento (1984) e Barroco (1986).</p><p>92 ÉTICA SERVIÇO SOCIAL TRAJETÓRIA 93 absoluto e se dirigem ao "fim último" da existência huma- traduzidos em sua Doutrina Social e no projeto político- na: a "perfectibilidade". Ao obedecer às leis morais, os ho- ideológico de recristianização da sociedade, em face da mens realizam sua "essência", o que os aproxima de Deus, "questão social". fonte dos valores universais. O homem é dotado de "livre- Sob tais condições, institui-se um dado ethos profis- arbítrio", sendo assim capaz de liberdade; contudo, as es- sional que se desdobra nas várias dimensões que compõem colhas nem sempre se referem ao "bem", pois existem os a ética profissional do Serviço Social sua prática moral, "vícios", ou seja, aquilo que afasta da "perfectibilidade" à sua moralidade, sua sustentação filosófica e sua expressão qual tende sua "natureza humana". Assim, para se afastar formal: Código de Ética. do "mal", os homens devem se habituar a fazer O A ação profissional é tida como uma "vocação" a ser O hábito, disposição e exercício para su- exercida por indivíduos dotados de um perfil ético-moral a educação moral formadora de costumes voltados à dado por "qualidades inatas", daí a consideração de seus dominação das "paixões" e valorização das "virtudes". Cabe, componentes como elementos da "natureza feminina". pois, às instituições responsáveis pela ordem moral e espi- Esse ethos passa a compor sua imagem social historicamente ritual da sociedade, família e Igreja, desencadearem uma legitimada: assistente social deve ser um exemplo de "in- ação que busque atualizar as potencialidades humanas, o moral, O que, concebido a partir do conserva- que significa levar os homens a cumprir sua função, sua dorismo ético, irá se expressar em normas de conduta que natureza. Nestes parâmetros, a mulher é considerada como abrangem inclusive sua vida pessoal, impondo-lhe deve- agente moral responsável pela socialização dos filhos, nos res e normas de moldes da educação cristã. Para que "bem comum" se realize, é preciso que Estado e as instituições garantam a A moral se apresenta como um elemento funcional à hierarquia e a autoridade inscritas na "ordem natural" da implementação de programas educativo-assistenciais formu- sociedade; porém, Estado não deve interferir na autono- lados pelo empresariado e pelo Estado e viabilizados por mia da família e da Igreja - com isso não haverá conflitos vários profissionais, entre eles assistente social; sua entre poder espiritual e temporal. legitimação decorre, entre outros aspectos, do seu perfil po- tencialmente adequado a uma ação moralizadora, que Os valores universais do neotomismo perdem sua abs- Verdès-Leroux analisa em termos da utilidade social da pro- tração na medida em que indicam significado do "bem fissão, em face de sua formação como mulher e profissional: inerente à consciência moral": trata-se da reprodução de valores e princípios dados pela fé, mas que, traduzidos pela Igreja Católica, adquirem uma direção político-ideológica 24. Em 1936, durante a Semana da Ação Social do Rio de Janeiro, é No contexto que estamos analisando são feita a seguinte recomendação: "Não me canso de repetir às moças, que bus- quem, quando possível, escolher carreiras que digam com suas pro- fundas e especialmente femininas, aquelas que podem dar de si, de seu cora- 23. "O procurará oferecer um mais consistente à Igreja ção, de sua alma, de seu devotamento aos que sofrem, aos que lutam" (in nos seus confrontos, também pela via da doutrina social, com a modernidade Pinheiro, 1985: 151). [...] insere-se num largo processo de mobilização da Igreja para fazer face, teóri- 25. Na Escola de Serviço Social de São Paulo, no final da década de 1930, ca, doutrinária e praticamente, aos desafios intelectuais, políticos e são requisitos para a admissão: "a) ter dezoito anos completos e menos de 40; ideológicos postos, por um lado, pelo desenvolvimento filosófico e científico e, apresentar referência de três pessoas idôneas e atestado de sanidade". No mes- de outro, pela laicização das instituições sociais burguesas e pelo movimento mo período, o Instituto de Educação Familiar e Social do Rio de Janeiro requer operário orientado pelo marxismo e pelo magnetismo desencadeado pela pri- a apresentação de "atestado de idoneidade moral ou ser apresentada por pessoa meira experiência de transição socialista" (Netto, 1992: 121). idônea..." (Pinheiro, 1985: 150-153).</p><p>94 ÉTICA E SERVIÇO SOCIAL 95 "A formação assim recebida predispõe as assistentes sociais social", transforma a moral em moralismo, O que reproduz a uma apreensão moralizadora das soluções materiais [...] São, finalmente, os valores do militantismo católico que dão uma ética profissional preconceituosa, negando seu dis- seu lirismo particular à exaltação do serviço ao próximo, curso como sentido da profissão" 1986: 48). O rebatimento da ação profissional na realidade so- cial adquire objetividade ético-política na medida em que A ação profissional tem por objetivo eliminar os "desa- contribui para O ocultamento dos elementos que fundam a justes sociais" através de uma intervenção moralizadora "questão social" e para a reprodução de um ethos fortale- de caráter individualizado e psicologizante; os "problemas cedor do deslocamento da base material de constituição sociais" são concebidos como um conjunto de "disfunções das desigualdades sociais para a esfera moral. A moral ad- sociais", julgadas moralmente segundo uma concepção de quire um sentido negativo, isto é, deixa de objetivar-se como "normalidade" dada pelos valores espaço de realização de escolhas vinculadas à liberdade, Com tais parâmetros, Serviço Social se auto-reco- como possibilidade de mediação entre as esferas e dimen- nhece como promotor do "bem comum" e, como tal, viabi- da vida social, para tornar-se um instrumento de alie- lizador de uma ética profissional comprometida socialmen- nação, favorecedor da legitimação da sociabilidade burgue- te. Entretanto, as implicações ético-políticas da prática pro- sa reificada. fissional contribuem, independentemente da "boa" inten- As configurações do ethos profissional, em sua ori- ção dos profissionais, para a reprodução de mecanismos gem, condicionam a imagem e auto-representação do Ser- de dominação ideológica e para a alienação moral. viço Social tradicional: uma profissão mediada por valores A tendência ao "ajustamento social", à psicologização humanistas, com forte apelo ético-moral. Disto, porém, não da questão social, transforma as demandas por direitos so- decorre um debate ético crítico permanente, nem tampouco ciais em "patologias"; com isso, Serviço Social deixa de uma produção teórica sistemática; com isso, a elaboração viabilizar que eticamente é de sua responsabilidade: aten- teórica da ética profissional fica basicamente restrita aos der às necessidades dos usuários, realizar objetivamente Códigos de Ética, O que só vem se alterar nos anos 90. seus Ao mesmo tempo, ao moralizar a "questão Os pressupostos neotomistas e positivistas fundamen- tam os Códigos de Ética Profissional, no Brasil, de 1948 a Em 1948, a ação profissional é claramente subordi- 26. O Serviço Social, em 1939, assim se refere ao problema do menor: pu- demos verificar que os complexos dos desajustados sociais gravitam em círculo vicioso. Se chefe de família ganha pouco, tem seu orçamento deficitário, contrariado, bebe para esquecer. Se bebe, vicia-se. Viciado, esquece seus deve- nante levam à definição de dois eixos: a legitimação científica do primado da res. A família sem amparo, de queda em queda vai até a A prole é afetividade sobre os comportamentos sociais, econômicos e psicológicos da his- então portadora de taras. Em outros casos, quando chefe não bebe, mas como tória individual; e a constituição de esquemas explicativos globais capazes de a casa é vazia de conforto e alegria, vai para a E a rua é a perdição dos fornecer uma norma de desenvolvimento afetivo que assegure a distinção entre desajustados Mulheres que trabalham e têm filhos, nem são mães nem as pessoas e 1986: 73). esposas. Homens que têm filhos com várias mulheres; mulheres que têm filhos 28. Não estamos julgando moralmente os profissionais; como salientamos, com vários homens. Casais separados... casais urge amparo à não se trata de "má intenção", mas de condicionamentos históricos. que aqui criança" (Pinheiro, 1985: 81-82). importa ressaltar é a direção social decorrente do conteúdo concreto dos valo- res profissionais, apontando a defasagem entre a intenção (referida a valores 27. Verdès-Leroux mostra como opera a tradicional tendência à psicologização: "A simplificação e o aviltamento do sentido dos conceitos da universais abstratos) e as normas concretas. psicanálise, a tônica dada à sua conotação patológica, a idéia preconcebida de 29. primeiro Código de Ética Profissional do Assistente Social, elabora- ignorar sua interdependência e sua seleção numa perspectiva genética domi- do pela ABAS (Associação Brasileira de Assistentes Sociais), em 1948. A pro- fissão é regulamentada em 1962, quando são criados os Conselhos Federal e</p>