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<p>rr{rRoDUÇAoÀmrnm</p><p>DTSTRTTEÀ,IPO</p><p>DTMARTII'{HIIDEGGER</p><p>@</p><p>.NSTITUTO</p><p>PIAGET</p><p>HERVE PASQUA</p><p>CÁPITULO SEIS</p><p>O CUIDADO COMO SER DO DASE,II{</p><p>§39 Até agora, explicitámos os diversos momentos cons-</p><p>titutivos do ser-no-mundo. Conrudo, esta multiplicidade</p><p>não deve perturbar a percepção da unidade do Dasein. É po.</p><p>essa razão que devemos interrogar-nos como é que a</p><p>totalidade estrutural deste último pode ser uma unidade:</p><p><<coruo deteruninar Existencialmente e ontologicamente a uni-</p><p>dade da totalidade das estruttrtras que pusemls etn eaidência?r,</p><p>A questão levanta-se com tanto mais acuidade, porquan-</p><p>to, como vimos, o ser do Dasein está lançado no mundo,</p><p>projectado a frente de si mesmo para ser o que pode ser.</p><p>Neste estado de estar lançado, de completo abandono, ele</p><p>sente que é o seu ser que está em causa.</p><p>Vejamos, pois, o caminho a seguir pâra encontrâr o</p><p>princípio unificador deste todo. Esta unificação é</p><p>necessária porque, sem ela, a analítica Existencial seria</p><p>tlcscritiva, não ontológica e ofereceria unicamente umâ</p><p>rlr.nostragem de diferentes tipos de momentos existen-</p><p>ciais. O ser do Dasein fragmentar-se-ia numa rnultiplici-</p><p>il;</p><p>*</p><p>I</p><p>dacle caótica de modos de ser. Não seria possível qualquer</p><p>relação entre a quotidianeidade do Daseitt e o seu funda-</p><p>mento ontológicol ,rA ttnidade da estt'lttura total não pode</p><p>ser fenom.enalmente alcançada por' uma combinação rtrtificial</p><p>dos seus elementos. Esta pressuporia u.m plano de construçã0.</p><p>Ora, o set' do Dasein, ser que conthru. ontologicamente e clmo</p><p>tal o totalidade das est?''tttu?'a.ç do Dasein) apenas se tonla aces-</p><p>síuel a um olhar global, rluando reconbecemos nesta totalidade</p><p>um fenómeno unitário e original, urn fenómeno qae rege sen -</p><p>pre jtí essa totalidade, de fomna a fu.ndar ontologicamente a</p><p>possibilidade est?'utural de ca.da um destes mlmentls.>></p><p>Onde encontrar, então, a fonte da unidade do Dasein?</p><p>Sabemos que o Dasein ek-siste transportando-se para</p><p>diante de si mesmo. Ele pâssa, por assim drzer, através de</p><p>si mesmo, abrindo-se. Esta aberrura que o constitui - não</p><p>seria melhor dizer, destitui? - inteiramente, e donde ele</p><p>cai, desde sempre, do interior de si mesmo no mundo,</p><p>desvela o ser do Dasein como..cuidado', (Sorge)- Trata-se</p><p>dum fenómeno ontológico. Assim, devemos evitar ver no</p><p>cuidado um estado de alma, ou um fenómeno como a</p><p>vontade, o desejo, a tendência, o impulso. A dimensão</p><p>Existencial do cuidado permitirá à analítica passar do</p><p>estádio preparatório ao problema do fundamento do ser</p><p>em geral. Porque é o cuidado que liga todos os momentos</p><p>da ek-sistência do Dasein.</p><p>É int...ttante perceber, aqü, anàturezà da relação entre</p><p>o cuidado e a concepção heideggeriana do ser. Ser, para</p><p>Heidegger, é sempre ser qualquer coisa, é poder ser, é</p><p>poder ser do ente. Este sentido actiao do ser não tem qual-</p><p>quer relação com o actl de ser como o elaborou São Tomás.</p><p>Para este último, o Acto exprime a plenitude do Ser que é</p><p>sempre o Ser do Ser. O que significa que o Ser não precisa</p><p>de mais nada além dele para Ser. Se a criação não ó</p><p>necessária a Deus, é porque o ser dos entes criados nãcl</p><p>%</p><p>acrescenta nem subúai nada ao Ser. O que não se passa com</p><p>o Ser activo cle Heidegggr. O Sein não pertence a si mesmo,</p><p>ele é sempre do ente. E essa a razão pela qual o cuidado</p><p>se inscreve no ser do Dasein como o que o constitui, ou seja,</p><p>como o que o destitui de si para se restabelecer no mundo.</p><p>O cuidado permitir-nos-á, assim, saber o que é ser Dasein.</p><p>Poderemos, depois de o analisar, abordar finalmente â</p><p>segunda parte da obra: a ontologia fundamental. Este</p><p>capítulo tomará sucessivamente por temâr a afecçã.o</p><p>ÍLndamental da angústia como abertura privilegiada do</p><p>Dasein (§a0); o ser do Dasein como cuidado (sa1); a</p><p>confirmação da interpretação Existencial do Dasein como</p><p>cuidado, a partir da auto-explicitação pré-ontológica do</p><p>Dasein (§a2); Dasein, mundaneidade e realidade (sa3);</p><p>I)asein, abertura e verdade (§44).</p><p>§40 Afirmamos com toda a convicção que o ser do Dasein</p><p>foge, escapâ-se, afasta-se constantemente de si mesmo.</p><p>Numa palawa: ek-siste. Mas de que foge ele? O fenómeno</p><p>da angústia (Angst) revela-lo-á.</p><p>Não confundamos a angústia com o medo (Furcbt).</p><p>Quando interpretámos esre à luz da uBefindticbkei>> (afec-</p><p>ção, sentimento da situação), vimos que aquilo de que ele</p><p>fbge é dum ente intramundano nocivo, ameaçador, mas que</p><p>se pode dissipar. Ora, na sua queda , o Dasein não se afasta</p><p>tlum ente qualquer, mas de si próprio. Ele não foge diante</p><p>rle qualquer coisa que mete medo. A a-versão pela qual o</p><p>l)asein se perde de si mesmo e que provoca a sua</p><p>rlecadência, não é uma fuga fundamentada no medo, mâs na</p><p>rrngústia: .<A a-aetsã.0 da decadência não á urna fuga fundada no</p><p>,eceio dum ente intramundano. Talfonna de fuga constitui tanto</p><p>tnen1s esta a-aersã0, quant7 ne-çt4 o Dasein se aoha precisantemte</p><p>para 0 ente intramundano e nele se absorue. A a-aersão</p><p>constitt,ftiaa da decadência fi.tnda-se, pelo contrrírio, na angtistia</p><p>qne, po?'-reu hdo, to?-na possíuel o tnedo.r,</p><p>97</p><p>A angústia distingue-se, assim, do rnedo no sentido em</p><p>que a angústia não vem dum ente intramundano. Mas isto</p><p>não nos dá uma definição de angústia. Se não é um ente</p><p>intramundano que causa a angústia, o que é então? t'O que</p><p>angustia o a,gtiiia é completamente indetenninado.r, O inde-</p><p>terminado, eis pois, a origem da angústia: o que ameaça e</p><p>não vem daqui, nem dali, uma ameaça situada em parte</p><p>alguma: .rA angústia nao sabe o qlte a angtlstih>> Mas este</p><p>.à prra. alguma não significa o nada: o que ameâça existe</p><p>de facto, está tão próximo que nos aperta â gargânta e</p><p>corta a respiração. De que se trata então? Do tnundo: tto</p><p>que angustia a angú.stia é o m.undo etxquanto tal>>,-tttas trata-</p><p>i..lo Ãundo na sua .rmundaneidaderr, independentemente</p><p>dos entes que encerra e que são revestidos de</p><p>insignificância pela angústia. O que oprime não é nem</p><p>isto, nem aquilo, nem tão-pouco â somâ dos entes, é a</p><p>possibilidade de ser no mundo: "aqrtilo per'ante o qual a</p><p>)ngústia se angustia, é o próprio set'-tto-rnundo"' O mundo</p><p>nãá tem nada a oferecer ao Dasein remetido pela angústia</p><p>pâra o que ele é: ser-no-mundo. Este revela-se na sua</p><p>i.r.orto.rrável solidã s .rÁ angtístia isola e reaela o Dasein</p><p>como solus ipse.r, Na angústia, o Dasein descobre-se, assim,</p><p>livre, para umâ autêntica ek-sistência. Livre, isto é, entre-</p><p>gue âo mundo.</p><p>A angústia desvela a'o Dasein t'onde ele se encontra>>'</p><p>Torrla-o estranho a si próprio. Esta estranheza significa</p><p>que o Dasein não está em sua casa, ao mesmo tempo que</p><p>o seu ser-em consiste em habitar junto de' Assim, o</p><p>Dasein habita o mundo sem estar em sua casa' O ser drr</p><p>Dasein ek-siste in-sistindo no mundo: ..O Dasein esttí isolado</p><p>em. si mesnto) ?nd.s enq'tr[l.nto ser no rnu.ndo. o ser em"' estabe'</p><p>lece--re n0 "nxldo" Existencial de não estar em sua,ctlsa' Nãn 'çt</p><p>aisa otltt'tt. coisa, quando se fala de estranheza.>> E, portanto,</p><p>possívcl perceber que o objecto da fuga do Daseitt angus-</p><p>tiado nã,o é o ente intramundano, mas o desenraizamento,</p><p>a estranheza, a ek-sistência. Apesar da aparência de tran-</p><p>quilidade e de familiaridade com que vive a sua vida</p><p>quotidiana, é de facto a estranheza q\e constitui original-</p><p>rnente o Dasein: ,rO set'-no-ruundo segtmdo a tranquilidade e</p><p>a familiar.idade é urrt modo de desenr.aiznmento do Dasein e não</p><p>o inaet'so. E n e.çtramheza* que, n0 plano Existencial e ontoló-</p><p>gico, deue ser. emtendida como o fenónteno mais ot'iginal.>></p><p>As verdadeiras ligações entre o medo e a angústia</p><p>surgem, assim, claramente no termo clesta análise: o medo</p><p>é uma angústia inautêntic</p><p>^.</p><p>É</p><p>^</p><p>angústia que fundamentâ</p><p>o medo. Mas o resultado mais importante é que a angústia</p><p>revela de forma privilegiada a totalidade do ser-no-</p><p>-rnunclo, segundo todos os seus momentos constitutivos</p><p>(rnundo, ser-em, si). Ela unifica isolando. Este isolamento</p><p>mostra, com efeito , o Dasein desligado dos entes. Em que</p><p>rnedida contribui esta interpretação pâra resgonder</p><p>ontologicamente à questão da unidade do Dasein? E o que</p><p>iremos ver de seguida.</p><p>§41 A</p><p>isto não se apresenta de maneir-rr</p><p>explícita ao Dasein, q*e o esquece na realização das surrs</p><p>tarefas. Seja como for, a preocupâção não deixa cle sc</p><p>temporalizar segundo os três ekstas es: o Dasein atende it</p><p>utilização a fazer dos entes à-mão como utensíri<ls</p><p>(porvir); ele torna-os presentes tenclo ern vista a st*r</p><p>utilização (presente); ele conservâ a sua utilização j,Í</p><p>conquistada (passado).</p><p>b) Á t,ansforunaçã.0 da p,eocupação ent nctiaidacle cienttfiur</p><p>e o seu significado temporal</p><p>A análise precedente mostrou-nos como a preocupação</p><p>se temporaliza. o Dn-çein preocupado percebe os entcs</p><p>como utensílios, como referimos. Mas há uma outrâ forma,</p><p>teórica e já não prática, de considerar os entes clo mu,do.</p><p>Falamos do modo científico. senc{o esra preocupação clu,r</p><p>tipo diferente da analisada até aqui, será necessário concluir.</p><p>que ela deverá fundar-se numâ temporaliclade diferer-rtc?</p><p>Antes de responder a esta questão, interroguemo-nos corn()</p><p>se pode passâr da utilização d,m utensílio à reflexão sobrc</p><p>esse utensílio. Dizer que esta passagem se efectua a partir clo</p><p>rnomento em que deixamos cle nos servir dele não ó</p><p>srrficiente, porque esse ente não se tornará por isso, e ipso</p><p>fucto, em objecto dum saber científico. por outro laclo, ,,</p><p>trabalho teórico não pode prescindir do aspecro prático, arcí</p><p>Irresmo, por exemplo, na utilização dum lápis. Não há teorirr</p><p>sem prática, como não há prática sem teoria.</p><p>Onde procurar, e,tão, o que distingue teoria e prática?</p><p>Na maneira de ver, responcle Heidegger, quando eu cleix<r</p><p>de olhar determinado ente, este martel,o poi exemplo, co,r()</p><p>unr utcnsílio c o consiclero como um ente qrrrrlqucr quc sc</p><p>encontrâ aí diante de rnim. Podernos dizer clo tnartelo cle</p><p>que nos servimos: ele é pesado, a sua utilização exige fbrça.</p><p>O martelo é, então, corrrpreendido como utensílio. Mas</p><p>podemos dizer igualmente: este martelo pesâ tanto. Neste</p><p>caso, não o consiclerâmos mais em função da sua utilização,</p><p>mas do seu corpo material. A perspectiva é diferente. O</p><p>procedirnento prático dá lugar âo enunciado teórico, em</p><p>que o ente é consiclerado enquânto tal. Tal é o método</p><p>científico, ele consiclerâ o ente do ponto de vista que faz</p><p>dele o objecto do seu esnrclo. A temporalidade própria da</p><p>ciência é, assim, Lr7Ír <<to'nta?' presente>> que se distingue da</p><p>preocupação prática, no senticlo em que eltr apenas retém do</p><p>ente o que se clá na verdade.</p><p>c) O problerila tem.poral dn ty'an.çcendência do mrmdo</p><p>Não esqueçâmos que estâmos a analisar a temporali-</p><p>dade do ser-no-mundo. Acabámos de ver que a :urilizaçã.o</p><p>dos entes intramundânos e a sua objectivação científica</p><p>são duas maneiras cle ser no rnundo. Põe-se agora â ques-</p><p>tão de saber <<clnto qnalquer coisa cl'm0 o mando é</p><p>ontologicomeTxte pzssíuel ma sua ruticlade cont o Dasein? De t1trc</p><p>fottnn deae o nttmdo ((sef' pÍtro qtte o Dasein po-rsa existir cctnto</p><p>sev'-no'?ttttndo?r, O t-nundo surge à preocupação prática e à</p><p>objectivação científicâ como exterior. O Dosein encontra-</p><p>-se, assim, ,rfrtce> a si próprio. Mas, por outro lado, ele</p><p>é/está <<n0>> mündo. Como é isso possível?</p><p>O mundo ftz parte do ser do Dasein Este é o único</p><p>ente capàz de utilizar outros entes e de os conceber. Mas</p><p>põe-se â questão de saber como determinar a relação dos</p><p>entes intramundanos com e.ste ente: o homem. Para res-</p><p>ponder a isto, devernos recordar que cada ente apenas o é</p><p>167166</p><p>c'l(l.,lr,to pcrtcnccnclo :ro conjunto clos cr-rtcs. os cr-rtcs</p><p>aprescntârarn_se_nos como <<pragrnatâ>>, utensílios, e cacllr</p><p>utensílio surgiu ligado a um corrrplero de utensílios.</p><p>O que é irnportante reter cle tudo isio é que o conjunto,</p><p>ou o complexo, eue constitui o rn.,ndo, não cleve scl-</p><p>entendido como uma <<soma>r. por outras paiavras, omundo não se reduz à soma dos entes. O carácter cle</p><p><<conjunto>> pertence a cada ente. A cornpreensão doente supera sempre o ente particular. Desta com_</p><p>preensão, apenas o Dasein é capaz, porque só o Dasein</p><p>p9d" superar o ente inte.rogando_r. ,áb.. o seu ser.</p><p>Neste superar, ele compr...J. que ele é essencialmente</p><p>poder-ser: ..o Dasein existe poo àor.,e r.tm poder._ser de sipróprioo. O que significa que o Dasein erisie por mor de</p><p>sr mesmo, ou seja, da sua ipseidade. Mas està ipseidacle</p><p>não deve ser confundida com o ego clo Doseirt i,ste nao</p><p>é uma substância, é uma relação,</p><p>'u.m</p><p><<ser_em dit ecção a>>.Ele dirige-se para o mundo projectanclo_se ,rã1". Omundo é o .rpar-n-rJuê final> nÀ q.rul ele realiza o seupróprio fim.</p><p>Tal corno o Dasein, o mundo não é substância. Ele éexterioridade e o que exterioriza essâ exterioridade é atemporalidade. Eis porque o mundo surge .o_o ohorizonte da tempora,zaÇão. o horizonte é o <rem-critec-</p><p>çao-a-quê da ek-stase>>, o que escapa constantemente e</p><p>recua no momento em que se julgava alcançá_lo, tocá_lo.O mundo não é, po.tr.rto, ;r, subsistena", ,r"rn ,rrnà-mão' Ele temporaliza-se nâ temporaricracre exteriori-</p><p>zando-se. O mundo ek-stasiado junta_se, por assim dizer</p><p>pelo irrterior, à exterioridacle do Dasein,.rr]o ,.. ek_siste,</p><p>porque exteriorizado pela temporalidade: <rassim como o</p><p>presente in ompe, na unidade da ternporalização da teru_</p><p>pot'alidade, do po,ui, e do ser-sid.o, assim. tarnbéru ie ternporariza</p><p>o dutn p.'esente co-originariamente c,m 0s horizontes cro'porvir e</p><p>do ser'--çido. Ilnrluanto o Dasein se ten4)oralizt, rtnt. rrttmdo ó</p><p>igltalmente. Teruporalizando-se quanto a0 seu se7-) coTno teTttpo-</p><p>rolidade, o Dasein é essencialmente) coTn base tta constituição</p><p>ekstítico-horizontal desta, "em rtnt mundo". O ntundo nã.0 é</p><p>nem -çubsiste?zte) nent à mão, temlloraliza-se no ternpoT.alidade.</p><p>Ele estrí/é rtí corn t fo,a de si das ek-stoses. Se nenhrtm. Daseirr</p><p>ek-si.rtir', tarnbérn nenhurn rnundo estí/é aí>>.</p><p>Este presente que ,.irt'ontper,, 1ão é urn instante iso-</p><p>lado, mas uma presença transborclante à qual pertencem</p><p>o passado e o futuro. Heidegger exclui a ideia duma</p><p>eternidade transcendente dum Ser que seria Deus. A eter-</p><p>nidade, a seus olhos, não supera o tempo, é o tempo que</p><p>â gera, no sentido em que ele é transbordamento sem fim</p><p>da presençâ, parâ trás e parâ a frente. Assim, ele pode falar</p><p>da unidacle ek-stática da temporalidacle, mantendo ao</p><p>mesmo tempo a distinção clas ek-stases temporais, porque</p><p>esta unidade é uma unidade em movimento no interior do</p><p>seu próprio circuito: é a unidade dum ser que ek-siste</p><p>rumo a si mesmo através do Dasein. O que explica por que</p><p>razã"o, quando a palavra transcendência surge pela pri-</p><p>meira vez sob â penâ de Heidegger, é da úanscendência</p><p>do mundo que se trata. Porque a transcendência escla-</p><p>rece-se a partir da temporalidade que opera a exterio-</p><p>rização: ,rftmdando-se na unidnde borizonttl da tempora-</p><p>lidnde ek-strítica, o ntundo é transcendênciarr. Trata-se duma</p><p>transcendência ..horizontal>r, nâ linha do ternpo, e não</p><p>vertical, na linha do Ser eterno. Assim, o mundo é trans-</p><p>cendente, porque ele é o horizonte cla temporalidade e é</p><p>temporalizado pelo Da.çein. É po.qrr" o Da.çein ek-siste, se</p><p>temporaliza, qrre ele transcende o rnundo. O mundo é o</p><p>resultado clesta transcendência.</p><p>§70-71 Este capítulo rermina com duas considerações</p><p>que constituem o objecto dos dois últimos parágrafos. No</p><p>§70, Heidegger levanta a questão de saber em que medida</p><p>169</p><p>168</p><p>a espaci:rliclade do Dasein não seria susceptível de colocar</p><p>ern causâ a sua tese, a saber, que a temporalidade é a</p><p>essência do ser do Dasein Tal seria o câso, com efeito, se</p><p>a espacialidade reivindicasse os mesmos direitos que â tem-</p><p>poralidacle. Mas, podemos imaginar perfeitamente a res-</p><p>posta de Heidegger. Toda a suâ argumentação consiste</p><p>em mostrâr que o próprio espaço se fundamenta nâ tempo-</p><p>ralidade: ,ré openas com base na temporalidade ek-strítico-hori-</p><p>zontul que é possíael a iruupção do Dasein no esp/tÇo>>.</p><p>No §71, ele sublinha que, até âgorâ, a quotidianeidade</p><p>clo Da-çein não obteve ainda o seu fundamento temporal.</p><p>Vimos, corn efeito, llue a temporalidacle do ser do Dasein</p><p>não deve ser confundida com o tempo de calendário. Mas,</p><p>conforme veremos mais tarde, não se deve daí concluir</p><p>que este aspecto não pertence</p><p>à essência do Dasein: ..O facto</p><p>de, enquanto o seu tempo passtl, ele mnntet' ern dia o contat' do</p><p>"tem.1)0" e de regulav' esse "ctílcttlo" gt'ttços à astronomia e ao</p><p>calendrír'io, niio 1)ertertce de ignal modo essencirt.lntente ao</p><p>Dasein existente? E apenas se conseguil.mls integrar na nlsstt</p><p>inteT'pretaÇã0 da temporalidade do Dasein o <<prouir>,</p><p>quotidiano, bem corno o contat' co717 o "tem.po" co?71 qlte ele -çe</p><p>p?'eocu.pa nesse proair', que a nossa interpretação -rerrí</p><p>sttficientemente ampla, para nos pennitir eleaar o sentido</p><p>ontolrigico da quotidianeidade como tal à categoria de problema-</p><p>Contudo, corno nõo é ontt'n coiso rlue é uisada, sob o título de</p><p>quotidioneidade, senão a própria tem,poralidade e como é estn</p><p>rlue possibilita a se?' do Dasein, a delimitação conceptual snfi-</p><p>ciemte da quotidianeidade nã.o poder'á r'ealizar'se senão no</p><p>rluudro da ehtcidação futtdamental do senticlo do ser ent geral e</p><p>dnç srtrrs p ossía eis modifi cnções.r,</p><p>tn</p><p>CAPITL]LO CDiCO</p><p>TT,MPORÁLIDADE</p><p>E HISTORULIDADE</p><p>§72 Não esqueçamos qlre o nosso objectivo é verificar</p><p>em que medida o ser do Dnsein constitui um todo. Mos-</p><p>trando que este é <<ser'-para-o-firn r, âpenas apresentámos</p><p>um elemento de respostâ. Ora, não poclemos considerar</p><p>unicamente a morte que é o fim do Dasein E, preciso</p><p>consiclerar igualmente o começo, isto é, o nascimento.</p><p>Então, poderemos abarcar com o mesmo olhar todo o</p><p>espâço interrnédio, <<o encadeamento da aidn, onde ?to en-</p><p>tantl o Dasein se ?nantém clnstantemente durna on. dautt'a</p><p>maneira e qlte passut despercebido na attílise do ser-todo>>.</p><p>Não afirmaremos que o encadeamento da vida se compõe</p><p>duma sequência de vivências, na linha clos quais o Drtseitt</p><p>saltitaria de agora em âgora. Porque este tempo não é um</p><p>quadro que se trate de preencher com ocupações diversas,</p><p>ele é a presençâ transbordante de que frzem parte o</p><p>porvir e o passado. O Dasein estende-se entre o nasci-</p><p>mento e a morte, não como entre dois pontos do tempo,</p><p>em que um não é mais e o outro ainda não é,Inas como a</p><p>t7t</p><p>angústia revela ao Dasein o seu ser-no-mundo e</p><p>os seus componentes: Existencialidade, facticidade e deca-</p><p>dência. Estes carâcteres ontológicos fundamentais formam</p><p>rrm todo. Mas como se liga esta totalidade, isso a angústia</p><p>não nos revela. O ser do Dasein ek-siste, ele lança-se parâ</p><p>,r frente de si. Todo o seu ser reside neste movimento.</p><p>Ileidegger denomina esta estrutura ontológica de <<o estar-</p><p>tdiante de si mesmorr**. Ela caracteriza o Dasein sempre</p><p>como já lançado no mundo. A sua ek-sistência é <<ftíctica>></p><p>r)o sentido em que se desenrola sempre no mundo. Este</p><p>. [Jnbaintlichkelt surge traduzido târlto por estranheza conlo por desen-</p><p>rrrizarlento (N. Il.)</p><p>^^ Sitb-uortucg-scitt no original alemão, no sentido de sc prcccrlcr, clc cstlr/scr</p><p>i ll-cntc dc si (N. /1.)</p><p>t) ()()l</p><p>desenrolar-se é uma descida, uma decadência, uma queda.</p><p>Existencialidade, facticidade e decadência formam, assim,</p><p>uma unidade que poderia forrnular-se como .ro ser-id-em @o</p><p>mun do) - a di ant e - d e - s i - ?n e srn o - c orno - s er-j unt o - de>> . E,s te s er</p><p>responde precisamente à concepção que fazemos do</p><p>..cuidadorr.</p><p>Não se entenda o cuidado de maneira ôntica no sentido</p><p>d.e <<inquietaçã.0>>. Ele é puramente ontológi.o. É o ser-no-</p><p>mundo que é o cuidado. Foi por essâ razão que</p><p>interpretámos o ser-junto-de como <greocupaçã.o» e o ser-</p><p>-com-outrem como ,rsolicituderr. O que nos permite</p><p>compreender que o cuidado não é desprovido de toda a</p><p>facticidade. Ele engloba o conjunto das determinações</p><p>Existenciais que articulam a totalidade do Dasein Este está,</p><p>assim, intimamente ligado ao cuidado. É po. isso que falar</p><p>de ..cuidado por si mesmor, é uma tautologia. Porque ser si</p><p>mesmo é ser-adiante-de-si e ser-adiante-de-si é a definição</p><p>do cüdado. O cuidado precede todo o comportamento,</p><p>toda a situação. Não seria possível reduzi-lo â um acto</p><p>particular ou a uma tendência psicológicâ como o impulso</p><p>ou a inclinação. Todos estes fenómenos, longe de explicar o</p><p>cuidado, fundamentam-se pelo contrário nele, porque este</p><p>lhes é anterior. Assim, a estrutura unitária do cuidado</p><p>transparece no fenómeno da volição como fundamento</p><p>deste último. Querer é sempre querer qualquer coisa, logo</p><p>antecipar, projectar-se, lançar-se para adiante- De igual</p><p>modo, pensar é sempre pensar qualquer coisa, agir é fazer</p><p>qualquer coisa. O Dasein em si mesmo, na sua ipseidade,</p><p>não é nunca dado isoladamente como uma substância fixa.</p><p>Ele superâ-se sempre a si mesmo. O ..eur, é constan-</p><p>temente posto em ..jogot. A sua unidade é dinâmica e nã<r</p><p>estática, maciça. E a unidade duma totalidade articulada.</p><p>Em resumo, podemos dizer que: ..O terrul ruidado designa urtr</p><p>fenómeno ontologico-Exi*encial e fundamental, n4, etrn tu?lt</p><p>'tm</p><p>nr'lo e:, contrrdo, sim.ples. A unidade ontolígica eletnentar desta</p><p>ett t'uttt7'l global não pode ser redu.zid,a a urn proto-elemento</p><p>íttrtiro, tol nmto o ser do Dasein ao e?xte.>></p><p>lilst.â arrsência de simplicidade do <<tev' ern geralr> é reve-</p><p>l,r,hrrrr <la cspecificidade do pensamento heicleggeriano: o</p><p>Si,",r" não r! uma unidade simples, mas umâ totalidade</p><p>rrrtir:rrlacla. Aqui, Heidegger nega uma filosofia do Ser,</p><p>l)iu'rr ;l qurrl a absoluta simplicidade deste é a garantia da</p><p>srrrr irnutalrilidade e da sua rranscendência: é por ser IJno</p><p>clr.ro () Sr:r' se mântém o Mesmo. Ele não pode ser outro</p><p>t;trc nãc» cle mesmo. Não se encontra nele qualquer</p><p>lrotct.tcialitlade, porque ele é plenitucle de ser. Assim, o</p><p>S,t:r' po<lc reinar acima dos entes cuja existência é</p><p>ol,tttticiln("ã.o> s não .rdesenrolar-se> catastrófico. O que</p><p>rr:)o se verifica pâra o autor de Sein und Zeit. A não sim-</p><p>plici«Jaclc «lo Ser implica o seu desmoronarnento múltiplo.</p><p>I'.r;tc dcsrrofonamento, esta decadência, produz-se no</p><p>itrtr:rior dt:51 msrro. Ao nível do Dasein, o ser articula-se</p><p>rnrnril t<rtrlidade estruturada no moclo do ,rser-adiante-de-</p><p>çr,'. No l)asein o ser está, como num momento da sua</p><p>rlrrcdt, ântes do aniquilamento final.</p><p>§4,2 *O nid,ado é o ser do Dasein.r, Tal é o principal facto</p><p>,rtlr1:iriclo das análises precedentes. Tratava-se de pôr a</p><p>«lr.rst:obelto o funclamento ontológico do ente que nós</p><p>sr)nr()s e que designámos por <<Dasein>>. Heidegger evitou</p><p>t orrr toclo o cuidado partir da definição tradicional do</p><p>lrorrr(:tn. .[,'orque este último não é uma unidade subs-</p><p>r,rrr«-:i:rl, nlrls uma totalidade articulável cujos momentos</p><p>r ,1151in1fi,u'os estão ontologicâmente ligados pelo cuiclado.</p><p>( ) «:uiclado não tem o senticlo ôntico cle inquietação, de</p><p>1r.'r'ttrrbtrçrÍo, como dissemos. o autor de sein untl Zeitvê</p><p>unr testerrrunho pré-ontológico do carácter original-</p><p>nr-'ntc Iixistencial do cuidado nurna anriga fábula que cita</p><p>rn íntcgr'a. Não vamos reproduzi-la. O leitor pode reportar-</p><p>l0t</p><p>-se (lirectamente ao texto. O que importa reter é que</p><p>Heirlegger visa sustentar a sua tese com um exemplo</p><p>poér.icá, que testemunha que o cuidaclo é realmente a</p><p>à.ig"r-r-r'.1., homem e que exprime a sua passagem temporal</p><p>,-ro"rrlor-r.lo: .rA perfe.iio ,to homent, ott' sejrt, 0 stto ctpncidade</p><p>cnt tot-1.t0.7.-.çe no q,ue ele pode ser eru ftmçã.o da sua liberdade parut</p><p>as .\-'Lttt.ç possibiliiartr, *ii, próprias (do seu' pro-jecto), 'í obru do</p><p>ruifur,lo.r, Heiclegger faz do cuidado um vercladeiro rra priori</p><p>ontoltíqico>>, constitutivo clo ser do Dasein'</p><p>Nií fi"al cleste breve capírulo, o Autor lembra-nos que</p><p>a inl:crpretação ontológica do Dnsein como cuidado visa'</p><p>não a elaboração duma antropologia filosófica, mas a</p><p>preptrução da ontologia funclamental que se interroga</p><p>sobr<: o senticlo clo ser.</p><p>§,t3 .<l qtrcstíto do sentido do ser, só se põe se hor,rnet' ttma</p><p>,ornpr'rrrr-ríto tlo set'.r, Esta compreensão pertence exclusi-</p><p>u^r',-rc,r-,a" ao Dasein. Este é o único onte càPaz de enter-rder</p><p>que o ser se desdobra nele. O homem, que Heidegger</p><p>.h.r,]r.á mais tarcle <<Ptt-çtor rlo Set>', é o único ente capaz dc</p><p>cornpreender o ser. Ele sabe que o ser, sainclo cle si mesmo,</p><p>ek-sir;tinclo, passa pelo Dasein e efitr2- no mundo. Por outras</p><p>palavras, ele ek-siste in-sistindo. O <<Past7r>>, qlre tem 1l</p><p>gua(la do r:ebanho, resiste de certa forma à dispersão, âo</p><p>ã"rr,roro.tâmento do ser nos entes intra-rnundanos' Mas</p><p>em Yio. Porque se ele se esforça por reter o ser, acaba pot'</p><p>ser rtrrrlstado com ele para terminar o seu perclrrso nil</p><p>presc)nça morta das coisas clo munclo' Por isso rl</p><p>.orr-r1,.".rsão abarca todo o ente. Este é desvendado pel«r</p><p>Du.riirr.Mas, a partir do momento em que o Dasein decai n«t</p><p>mutrrlo, é para os entes intramundanos que a compreensãtl</p><p>se clcsvi:r</p><p>-e</p><p>sobre os quais tende a concentrar-se: ,çt</p><p>intetln etação do compreender reuela-nos sinnthalxeí.m.ente qtt(</p><p>este</p><p>'ii,</p><p>antes de ntais e 0 m&is frequ.entemente, clentiado pnru t</p><p>cotttpreensíto do "ntttndo" ditada pelo modo cle set' da rlecrtdêttcitr'</p><p>I0?_</p><p>L'[r.rrno qttrrutlo não se trata aPenas da experiêttcia ôntica, ntas do</p><p>cttrtt pt'een-rito ontológico, a interpretação do ser orienta-se</p><p>pt'irtrcirarnc'nte o pa?Íi'r do ser do ente intrnnumdrn'tl>r.</p><p>I)or conseguinte, o ser do ente utilizável, aí à-mão, não</p><p>sr.rrlje m:ris; como aquilo em direcção ao qual o Dosein se</p><p>alrroximrr, se dirige. O ser já não se compreende como o que</p><p>e li -r;iste, o que se dirige em clirecção ao rnundo saindo de si.</p><p>I',lc cleixa de ek-sistir e torna-se numâ realidade amorfa,</p><p>rrulnll coisa subtnergida na suâ própria espessura, sem vicla,</p><p>lrr.nl)lr coisa tro sentido de ..resrt e já não de ,grwgtnota>>: <<O</p><p>.;t't" ndqtiru: o sentido de realidlde, de res.r, Ele reduz-se ao</p><p>cr;trclo de .rytltstiinciarr. Então, o Da.çein é por suâ vez inter-</p><p>;rrctado atr'âvés cla substancialidade e a analítica bloqueia-se,</p><p><t l)nseiru dcixa de ser analisaclo a partir cla distinção entre o</p><p>s(.:r' e o ente, o conceito de ,r'realichtde>> tona a clizrnteira na</p><p>1-rroblemática ontológica. Ora, Heidegger reclrsa a iclen-</p><p>tiÍi<'ação ckl ser corn a realidade. A realidade não poderia ser</p><p>ílrnclarnento, ela é um moclo de ser entre outros que é</p><p>1,rc«:iso Íunclarnentar: <<...niío apenas n anrtlítico do Dasein,</p><p>ttrrr: tindt.</p><p>o de-çenuolaintento dn qtrcstão do sentitlo do ser em</p><p>.s,t'trl, deuent ser libertado-ç da stm orientação unilatet'al paro o ser'</p><p>rntt:nditlo ttnto realirlnde. E p't'eciso mostra7'niío apenas ryrc a</p><p>t i'tlidtde não ó -çenão 'u.nt, rnodo de sey' ent?'e outT'os) 7?1,{ts ainda rlue</p><p>1</p><p>t t t r 1 i llt n on to lo gi cantente unut corjugação de ft mdarnentnçiío corn</p><p>o l)rrsein, o nnmdo e o se?' ri-núo. E.çta detnottstt.ação exige tnna</p><p>rliyrtssiío nprofmdnda do probletnn da renlidade, do-r yms con-</p><p>,liqir'.t c dos .rctr.ç litnite»r.</p><p>() problenra cla realiclade pode articular-se em quatro</p><p>lr( )lttOS:</p><p>[) O pretenso ente <<transcendente à consciência>></p><p>existe?</p><p>2) A realidade do rnundo exterior pode ser</p><p>prov:rda?</p><p>I t);l</p><p>t</p><p>I</p><p>I</p><p>t</p><p>r1</p><p>3) Este ente, se real, pode ser conhecido como</p><p>um ser-em-si?</p><p>4) Finalmente) o que significa a realidade do</p><p>ente? A nossa discussão desenvolver-se-á em</p><p>três partes:</p><p>a) a realidade como problerna clo mundo exte-</p><p>rior e a demonstrabilidacle deste;</p><p>b) a realidade como problema ontológico;</p><p>) a realidacle e o cuidado.</p><p>a) A realidade como problema do ser e a demon.çtrabilidade do</p><p>mundo exterior'</p><p>l)escle sempre, o conhecimento intuitivo reduziu a</p><p>reali<lade à exterioridade. Esta é exterior à consciência: o</p><p>real identifica-se com o ,rmttndo exteriot>>. Ora, vimos que</p><p>o Dt.çeim é .r.ssv-nr-mundorr. O mundo faz parte do seu ser,</p><p>a questão da sua exterioridade não faz, assim, qualquer</p><p>sentido: ,r.Cotn eJeito, o mnndo é essencialmente reaelado com</p><p>o próprio ser do Dasein.r, Assim, não se deve levantar o pro-</p><p>blema do mundo à luz das coisas, mas considerar as coisas</p><p>a pârtir do ser-no-mundo.</p><p>O maior exemplo de confusão neste domínio encontra-</p><p>-se na urefutação do idealisrno" elaborada por I(ant. Conside-</p><p>ranclo como um escândalo que nunca tenha havido uma</p><p>provâ vinculatória para o cepticismo da existência de ,.coi-</p><p>sas, l:ora de nós, propõe ele próprio uma prova: .rA sim-</p><p>ples cottsciêmcia, diz, ruas em.ltiricam.ente detenttinada, du</p><p>m.inhn, existência, l)rlaa a existência dos "objectos" no espaçl</p><p>fortt. tle utim.r, O erro de Kant consiste em colocâr no</p><p>rnesr-no plano a existência da consciência e a existência das</p><p>coisrrs. Para ele, o termo Dasein tem o sentido de ,rrubsis-</p><p>ti;'ncia>>. Com efeito, o filósofo de Kõnigsberg mantém,</p><p>a[)esar das aparências, a posição de Descartes. Ele man-</p><p>trírn-se, efêctivamente, na problemática do sujeito e do</p><p>otrjccto er-rtendidos na sua co-subsistência. O Dasein, tal</p><p>conro ele o entende, não é o ser-no-mundo e a distinção</p><p>qr.re ele estabelece entre <<em mim>, e ,rfora de m.imr, é uma</p><p>prcssuposição. I{ant não compreendeu ontologicamente,</p><p>err-r dcfir-ritivo, que esta relação se efectuâ 11o interior da</p><p>t<rtalidade articulada do Dasein concebido como ser-no-</p><p>*nrundo. É po. essa razão que ele não entencleu que uma</p><p>provâ d:r existência clo mundo exterior é inútiI e não {az</p><p>qrralquer sentido. Porque o Dasein está/é já, constirutiva-</p><p>nlente, no mundo: ,rUrrza concepção coTrecta do Dasein</p><p>rc.' jeitn tal proua, pol que o Dasein é -f á, no seu se?-) o que toda o</p><p>.rrr.hseqttente pv'oaa julga deuer att ibuir-lhe par.a alám de si</p><p>ntesrTto) prtr uia da demonstração.>></p><p>A rejeição duma prova da existência do mundo exterior</p><p>significará urn fideísmo consistindo na sua aceiração cega?</p><p>I)e modo nenhum. Porque isso seria sobrevalorizar o pres-</p><p>srrposto de acreditar que umâ provâ seria o ideal. Mas seria</p><p>igualmente pressupor a existência dum sujeito isolado em</p><p>rclação ao mundo. Ora, voltarnos a repetir, o Daseirt está no</p><p>rrrurrdo, o mundo faz já, pârte do seu ser. Provar, acreditar</p><p>cnr ou pressupor a existência do mundo exterior, diz</p><p>l[cidegger, é sempre afirmar tm ..st4eito originar"iarner?te</p><p>run ligaçíio clnt o rnundo>r. O problema da realidade, no</p><p>scnl-iclo enr que levanta a questão de saber se existe um</p><p>rrrunclo exterior e se isso é demonstrável, é consequen-</p><p>(orrrente uma irnpossibilidade. Rejeitanclo a dicotomia su-</p><p>it:ito-objecto, Heidegger supera, assim, a alternativa</p><p>irlcrrlismo-realismo. Mas não correrá estâ superação o</p><p>risco de conduzir a um monismo? Poderíamos receá-lo,</p><p>urna vez que já não há distinção entre interior e exterior,</p><p>scrrrlo o scr clo l)asein uma totalidade articulacla. Não nos</p><p>I04 t05</p><p>encontl'arelnos diante durn ser de dupla face, cuja aber-</p><p>tura consistiria em virar-se como se vira uma peúga? Isso</p><p>seria menos verdade em relação ao ser clo Dasein, clo que</p><p>em relação ao <<sev' etn geral>r. Finalmente, a <rrealidader></p><p>seri'.r reduzicla a wa ,rÍiq1u.a, do rnundo, a urn rosto de</p><p>areia ou a um trâço que seria urn vestígio do Ser esvaziado</p><p>cle si mesmo.</p><p>l:) Á l'eulidode conto problemn ontológico</p><p>Dilthey deu o exernplo duma descrição fer-romenoló-</p><p>sica cla realidacle sem referênci,.r onrológica. A seus olhos,</p><p>o real sente-se no .rimpttlslrr, nà <<uontode>>; a ..resr, é</p><p>resistência. Esta fàlta de or-rtologia fá-lo enconrrar o fun-</p><p>danrcnto últirno da realidade na <.aida, e não no ..-çeD, do</p><p>cnte. Ele explica, assim, o erlte recorrendo a um outro</p><p>ente, a vicla, e não ao ser. IJma anzilise fundzrmental teria</p><p>permitido :r Dilthey interpretar ontologicâmente à <<t-esis-</p><p>tibilidnde> da res. Ele teria visto que esta resiste, porque</p><p>ela é unra ..ordem de não podey mais ltnssnr>>, u11â parâgem no</p><p>fluxo dl existência que se interrompe e morre em si pâra se</p><p>transfonnâr em coisir, em presençâ rnorta, onticamente</p><p>incleterrninada. Esta indeterminação ôntica não pocle,</p><p>contudo, ser consideracla ontologicamente como um nada.</p><p>Porque o ser visado nesta resistência está, ele próprio, já</p><p>junto dum todo acabaclo, imbricado em si lnesmo. O que</p><p>coloca enr clara evidência que <<r exlteriêncio da r-esistência, isto</p><p>é, a dcscobena do rlue resiste a rrm irnpttlso, não é ontologicamente</p><p>possíael senão cotn lrase na abertrn'a do ntrmdorr. A resistibilidade</p><p>caracteriza o ser do ente intramundano. Ontologicamente,</p><p>é pelo rnundo que â res se define e não o inverso. Vernos,</p><p>assinr, mais uma vez, que a problemática da realidade cxte-</p><p>rior clo r-nundo nos remete parâ o ser-no-mundo.</p><p>c) ll.ealidnde e cuidndo</p><p>..A reolidaclc reTneta par'lt o fenórtrcno do uidrtdo.>> Esta</p><p>clcclaração irbmpta significa que a realidade só adquire um</p><p>scntido ontolóeico, fundamentândo-se no ser do Dasein.</p><p>Quererá isto dizer que ela é como tal enquanto o Da-çein</p><p>existe? De rnoclo algum! Porque há ser, não o esqueçalnos,</p><p>enqlranto hti cornpreensão do ser, isto é, enqlranto o Dn-çein</p><p>existe. O ser está na depenclêr-rcia clo ente. Do mesmo</p><p>nrodo, a realidacle depende do cuidado. ,<4 realidade, na</p><p>ortlcttt. das conexões ontológicas de det'iuação e nn ordetn dumn</p><p>eltrcidação crttegorial e Existencial possíuel, deae ser reportuda ao</p><p>/i:rtrítneno do cuidado. A4ns Erc a reolidade se.fiutdarnenta orzto-</p><p>loticantente no .çe7'rlo Dasein, isso ttã.o pode qtwu' tlizet' que 0</p><p>'renl níto podu'ia ser como o que i ent si me.wto, seníío nt condição</p><p>e enquantl o Dasein existe.>> O Dasein ek-siste, a res está</p><p>fecl-rircla sobre si rnesm.a.</p><p>§44 Desde sempre a filosofia associou rruerdade, e ser.</p><p>Mas as divergências surgem, a partir clo momento enl que</p><p>se começa tr precisar o conteúdo destas noções. Assim, a</p><p>verclacle, p'.rra os gregos, é identificada à coisa. É verdadeiro</p><p>o que se mostra por si. Mas eles compreendiam o ser em</p><p>frrnção da coisa, da res, e não do ponto de vista do Dasein.</p><p>()ra, a verdzrcle r-ntrntém uma rclação originzrl com o ser</p><p>clcste ente. O esrudo clo fenómeno da verclade cleve, assim,</p><p>inscrcver-se no quadro duma ontologia ftindamental</p><p>preparacla pela analítica Existencial do Do.çein: ,rQue relação</p><p>ôntico-orttológica nmntéru a uerdade czm 0 Dasein e clru esslt.</p><p>lcterz'rinrtção ôntica do Dasein que desiqnátnos clruo</p><p>rotnpt'een.rÍio do ser? Indicar'-nos-í e.rta úhimn, o ftmdnmento</p><p>pclo qual o .çet' e.rtá necessariamente ligado à aerdnde e a aerdade</p><p>rtaces.çat'iantente ligada ao ser?r, Estas questões não podem</p><p>scr evitaclrrs. Iremos abordá-las partindo do conceito</p><p>trrr<licionrrl rlc verclade, e clepois procurilrenros pôr a</p><p>t(i-106</p><p>clescoberto os seus fundamentos ontológicos (n);</p><p>^</p><p>partir</p><p>destes Iirndamenros o fenómeno originário da .reidade</p><p>tornar-se-á visível, o que deverá permitir-nos actualizar o</p><p>carácter clerivado do conceito tradicionnl (b); de seguida, a</p><p>pesq,isa colocará em evidência que à questão da ãssência</p><p>da verdacle pertence necessariamente a questão do modo</p><p>de ser cla verdade, e finalmente será clarificado o sentido</p><p>ontológico da expressão: há verdade (c).</p><p>a) o crntceito t,adicional da aerdade e os serrc frtnclamentos</p><p>ontológicos</p><p>As teorias tradicionais da verdade, cle Aristóteles a Kant,</p><p>reduzem a essência da verdade à ndequação, isto é, a um</p><p>acorclo do pensamenro consigo próprio segundo o idea-</p><p>lismo, ou â uma correspondência</p><p>"rrt..</p><p>a iÀtehgência e a</p><p>realidacle segundo o realismo. Mas, escreve Heidegger, esta</p><p>definição diz-nos onde se encontra a verdade, ni"relaçao,</p><p>no jtízo, na correspondência. Ela não nos diz o que ero é.</p><p>Ora, o que nós procuramos é a essência da verdacl., l.rr.r_</p><p>tarros a questão dofttndamento da adequação: ,.Á definição</p><p>da uerdade como acordo, adeq,ação, ôtr_Lói'aotç, é cenám.ente</p><p>dernasiado geral e uazia. Ela deae, contucro, ter argum fitnd.a-</p><p>meltto se, semdo a aerdade o predicado distintiao clo ionbeci-</p><p>771ento) esta definição comseguir manter-se) al)esa?. clas intetpre-</p><p>taçõe-r bastante diuergentes de qu.e este conbecimento é objecto.</p><p>Inte'm'ogtt emo-nos, ag,,a, sobre os funclamentos desta *re lição,,.</p><p>o rlue é rlue pressup,m,s, entã0, implicitamente, consid.erand'o</p><p>cotittnto das relações constitutiaas do "adaeqr.tatio intellectus et</p><p>rei"? Qual é o cat'rícter ontológico desta pt,esst.tposição?>></p><p>Interroguemo-nos, pois, sobre o fundamento da ade_</p><p>t1u:rção. Mas sem recorrer à distinção entre sujeito e</p><p><rlrjccto. Pois ,ão contribuiria em nada para fazer nrrnr-rçr.</p><p>o debate. Porque a ,.adaequati0>>, interpretada com base</p><p>nesta distinção limitar-se-ia a uma relação de conformi-</p><p>dade entre â representação e o representado. Ela perderia</p><p>o seu significado ontológico que se baseia no ser do ente.</p><p>A verdade, pâra o âutor de Sein und Zeit, não consiste</p><p>nurna ider-rtificação do objecto ao sujeito, mas numa</p><p>revelação, ou l-rum desvendamento, do ser do ente. Consi-</p><p>deremos Lurr exemplo. Suponhamos que alguém, de cos-</p><p>tas voltadas para a parede, enuncia o seguinte jvízo verda-</p><p>deiro: ..o quadro está tortorr. Este enunciado é tornado</p><p>manifesto pelo facto do seu âutor, virando-se, perceber o</p><p>quaclro efectivamente torto. Neste enunciado é o quadro,</p><p>e não â suâ representâção, que é visado. Enunciar signi-</p><p>fica, assim, estar junto da coisa que é. O ente mostra-se,</p><p>ele ,rdescob?'e>>-sei <<O ente aisado mlstra-se tal como é ern si</p><p>nt.e-çrno) isto é, ele rnostra-se idêntico a cornl o enr,tnciado o</p><p>nxo-çtra e descobre -çer. Não se t?'ata de comltarar representações,</p><p>nem entre -çi nem relatiaarnente à coisa real. A rnanifestação da</p><p>aerdade não se rrtre à adequação do conbecimento e do objecto,</p><p>nent t't adequação do psírluico e do ftsico, nem oinda à adeqttação</p><p>de "conterído-ç de consciência" entre si. Trata-se simplesmente do</p><p>.çer descobeno do prtíp.io ente, segltndo o modo do seu ser</p><p>descobetÍo.>></p><p>Assim, Heidegger mostra que a teoria tradicional da</p><p>verdade concebida como <<adequaçãorr, deriva mais origi-</p><p>nalmente cla concepção da verdade como .rdesaelarnent0>>.</p><p>IJrn enunciado é verdadeiro porque ele desuela, exibe,</p><p>nlostra, faz vet o ente no seu ser descoberto. A verdade</p><p>não tem, portanto, a esffurura dum acordo entre sujeito e</p><p>objecto. Mas isso, o autor não pode afirmar senão porque</p><p>liga o ser-verdadeiro ao ser-no-mundo. E porque o ser</p><p>ek-siste in-sistindo no mundo, que ele se vela desvelando-</p><p>-se no ente, que ele se mostra escondendo-se. ,<Por- seu</p><p>ltdo, o ser-uet"dndeiro como ser'-descobridor só é possíael com</p><p>t09/ (,r9</p><p>bn-rc no -çe7'-7to-r/t'undo. Este fenírnemo, rnde reconbeceruos ttrixa</p><p>con.rtituiçiío ftmdamental do Dasein, é o ftmdtmemto do fr"ó-</p><p>nteno orig'inrírio da aerrlarle. É cste qrrc conaént agora aprr-</p><p>ftmdar.r,</p><p>I>) O fenórneno or.iginal da aerdade e n nantreza deriaada do</p><p>conceito tradicional dn uerdade</p><p>Ilsta definição da verdade como desvelamento não</p><p>sigr-rifica uma rejeição da tradição mas, pelo conrrário, a</p><p>sua apropriação origir-ral. Os primeiros filósofos enren-</p><p>deram à partida este sentido primeiro. Mas, só tiveram</p><p>dela uma colxpreensão pré-fenomenológica. A verdacle</p><p>era realmente pârâ eles a crÀr1Oercr, ainda quc â identi-</p><p>ficassem, corlfo Aristóteles, com as pragmata. Era <<o que</p><p>se ntlstt'a>>. Fleraclito testernunha igualmente o uso da</p><p>verdacle neste senticlo, defininclo-a como ,rser desueladorr,</p><p>ou seja, tiraclo do seu velamento". Desde â aurora da filo-</p><p>sofia, que a verdade tem, assim, o sentid o de .rdesuela-</p><p>mento>> e não o de acordo.</p><p>Não julguemos que esta clefir-rição cla verclade como <<ier,-</p><p>descoberto>> e descobridor, ou desvelador, seja uma simples</p><p>explicação verbal e que tenhamos assim cedido a uma</p><p>espécie cle rnística das palavrâs nomeando-a deste modo.</p><p>Concebida clesta forma, a verdade inscreve-se, pelo con-</p><p>trário, na ek-sistência do Dasein: o ser-verdadeiro é um</p><p>moclo de ser do Dasein. A verdade como desvelamento faz</p><p>parte da constituição Existencial deste último. E,la des-</p><p>vela-se no Dasein, porque o ser ek-siste. A ek-sistência é a</p><p>abertura pela qual o ser se mostra tal como se dá. Saindo de</p><p>Verhorqenheit (N. R.)</p><p>rn</p><p>si, cle sai do seu recolhimento parâ se estencler no mundo.</p><p>O l)asein é/está .rna aerdnderr, porqtte o ser se ,.desenrola"</p><p>nele, porque o ser não pertence a si próprio, pertence</p><p>àc1uele. Também Hegel compreendeu a verclade como</p><p>revelação ou desvendamento, Inâs compreendeu-â a partir</p><p>dum sujeito absoluto. Ern Heidegger, este car'.icter absoluto</p><p>desaparece. A verdade, ou seja, o clesvelamento, efectua-se</p><p>historicamente no tempo. Mas a partir de agora, desenrola-</p><p>-se no horizonte do Dosein, ou seja, dum ente finito que</p><p>tor.nâ o lugar do Espírito infinito. O ..círcttlo, hegeliano</p><p>abre-se e transforma-se em <<espiral>> nâ filosofia</p><p>heicleggeriana, isto é, sai do nada.</p><p>c) O nrodo tle ser da aerdnde e a p?'essl.tposição tla uerdade</p><p>IJm:r vez que a verdade faz parte do ser do Dasein, só há</p><p>verclade ..nn rnedida ern que e enqrutntl o Dasein árr. Donde</p><p>não fazer sentido interrogar-se sobre a verdacle, antes do</p><p>Dosein ser e depo rs do Dasein já não ser: .ç4s leis de Nezuton,</p><p>nntes dele, não erant nern aet'tlndeiras, nem. falsas.n Elas tor-</p><p>nararrl-se verdacleiras quando foram descobertas, desvela-</p><p>clas, por esse ente humano chamado Newton. Quanto a</p><p>saber se há verdacles eternas, isso só poderia ser provado se</p><p>houvesse un't Dasein cterno. Ora, não poderia haver uma tal</p><p>prova. Porclue o ser é sempre o ser do ente, ele está sempre</p><p>já implicado no mundo, no tempo. Heidegger não concebe</p><p>um Ser clue seria dado independentemente dos entes. Não</p><p>há Eternidacle fora do tempo. Se a houvesse ele estaria</p><p>encerrada no tempo.</p><p>Assim, clo mesmo moclo que o ser é sempre o ser do</p><p>cr-rte, a verclade é sempre a verdade do Dasein: <<Ente todn'</p><p>t aertlade, pelo seu género de ser', essemcialmente da ol-dent do</p><p>l)ascirr, clt ó relttiua ri ot'dettt do Dasein.r, Significará este</p><p>nt</p><p>. .. Ilt'tr':ritc ". ()r'i.qirr:rl rlcnrão:</p><p>carácter relativo que toda a verdade é <<subjectiaa>>? De</p><p>modo algum! Porque a verdade é um modo de ser do</p><p>Dasein e não um decreto arbitrário. E, se podemos falar de</p><p>validade universal da verdade, não é antes de mais porque</p><p>ela é ..objectiva>>, mas porque ela pertence à estrurura do</p><p>Dasein e porque esta estrutura é a mesma para todos.</p><p>u2</p><p>SEGUI'{DA SECÇAO</p><p>DASE,IN</p><p>E TtrMPORÁLIDÁDE</p><p>c,qpÍruro uM</p><p>O StrR-TODO POSSlLryL DO DASE,IN</p><p>E O SER PARA A MORTE</p><p>§46 E indispensável, se quisermos empreencler uma</p><p>ontologirr firnclamental, que o ser do Dasein nos seja dado</p><p>na totalidade. Devemos,.âssim, interrogar-nos se este ente</p><p>pode ser acessível na sua globalidade. Ora, pârece que isso</p><p>é impossível por causâ do próprio ser do Dusein: o cui-</p><p>dado. Senrpre em'.1vanço em relação a si rnesrno, o Dosein</p><p>perlnânece na expectativa duma possibiliclacle ainda não</p><p>realizada. FJri assim,</p><p>na própria constituição do Dasein tm</p><p><<constante inacabamento>>. O facto dele não ser daclo na</p><p>totaliclade tem a ver com um restante de ser, um exce-</p><p>clente de poder-ser. Assim, enquanto ek-siste, o Dnseim</p><p>não constitui uma totalidade. Ele será tudo o que pode</p><p>ser, quando não houver mais exceclente. Então, exte-</p><p>nuado, esvaziado de si próprio, ele deixará de ek-sistir.</p><p>Nada rnais dele sairá. Assim, totalidade significa vacuidade,</p><p>o todo é igr-ral a nacla. O ganho torna-se rluma perda:</p><p>,rquondo o Dasein "existe" de tnl fottna que jrí não estrí na</p><p>cxPcctotiuo dc nacln, to'tuou-se já-não-ser'. Logo que abolido este</p><p>1't 9</p><p>?'esto de se?', eis o selt. se?'reduzido a nada. Enrluanto o Dasetn</p><p>como ente é, numcd. atinge a -çua "totalidade". Mas adrluiri-la</p><p>equiuale pLtra e sirnplevnente a perder o se7'-no-m.u.ndo.r,</p><p>A impossibilidade de ter onticâmente a experiência do</p><p>Dasein como um toclo, não tem a ver com uma deficiência</p><p>clo pocler de conhecer) mas do próprio ser do "rt". É p,rr-</p><p>tânto um problema ontológico e não ôntico, Existencial e</p><p>não existencial. Importa, por conseguinte, zelar para nã,o</p><p>considerar o Dasein como um ente qualquer. A morte do</p><p>ente humano não é um fenómeno purâmente biológico.</p><p>Tentaremos, assim, pôr a descoberto um conceito Exis-</p><p>tencial da morte, a fim de caracterizar ontologicamente a</p><p>,rcbegada-ao-fim> do Drtsein Tendo em vista este objec-</p><p>tivo, a nossa pesquisa articular-se-á da seguinte forma: a</p><p>morte clos outros enquanto experiência possível e a possi-</p><p>bilidade de apreender o Dasein na totalidade (§a7);</p><p>excedente, fim e totalidade (§a8); clelimitação da análise</p><p>Existencial da morte relativamente às outras interpre-</p><p>tações possíveis do fenómeno (§49); esboço da estrutura</p><p>ontológica Existencial da morte (§50); o ser pâra â morte</p><p>e a quotidianeidade do Da.çein (§51); o ser para a morte</p><p>quotidiano e o conceito plenamente Existencial da morte</p><p>(§52); projecção Existencial dum ser autêntico em</p><p>direcção à morte (§53).</p><p>§47 Mas, como obter um conceito Existencial da</p><p>morte, se não podemos ter essa experiência? ..Porque, para</p><p>o Dasein, alcançar a saa totalidade nrt. m.oyte é, ao mesmo</p><p>templ, lterder o ser do aí.r, O Dasein morto deixou de ek-</p><p>-sistir. trle já não está/é aí para nos falar da passagem ao</p><p>já náo ser. Epicuro negava a morte sob o pretexto de nãcr</p><p>pocler falar dela à falta da sua experiência: ,rquando ela é,</p><p>dizia, eu não so?t e enqxtantl elt sltt. ela nã.o á>>. Quanto a</p><p>Heiclegger, não nega a morte. Pelo contrário, faz dela t</p><p>essência da vida. Seja como for, se a experiência da mortc</p><p>t20</p><p>impede o Dasein de falar dela, pode contudo experimentar</p><p>a morte dos outros. Esta morte dada ..objectivamente>></p><p>pocle permitir-nos circunscrever ontologicâmente a totâ-</p><p>lidade do Dasein Mas será que a conclusão do Dasein de</p><p>outrern poderá ajuclar-nos a atingir este objectivo? Esta</p><p>questão deverá ser resolvida antes de prosseguirmos.</p><p>Porque rnorrer significa deixar de ser no mundo, o</p><p>Dnsein de outrem, é também ele, uma vez morto, um já-</p><p>-não-ser. O seu já-não-ser de morto apresentâ-se como</p><p>Lrm ser subsistente, como um ente qualquer. Podemos</p><p>observar a passagem dum ente como Dasein a um ente</p><p>corno coisa: ,ro fitn do ente com.o Dasein é o começl desse ente</p><p>conto .çub.çistente>>- Contudo, o cadâver não se redrz a ser</p><p>apenas rm <<pLtra coisa corporalrr. F, mais do que uma coisa</p><p>material inerte: é o inanimado, o que perdeu a vida. E</p><p>menos ainda se reduz a um utensílio à-mão. O defunto</p><p>arrancado aos que restam é objecto de cuidados, como as</p><p>exéquias, a inumação, o acto funerário. Ele é honrado e</p><p>não manipulado. Estar com o defunto que já não é facti-</p><p>camente aí, é estar com ele no mundo que deixou. A única</p><p>maneira de permanecer junto dele é â partir desse munclo.</p><p>Assim, a análise fenomenológica da morte mostra-nos</p><p>que nós não experimentamos verdadeiramente o ser</p><p>úegaclo-ao-fim dã clefu.rto. É.".to que a morte é experi-</p><p>rnentada corno uma perdâ, mâs uma perda sofrida pelos</p><p>sobreviventes e não pelo próprio defunto. Sendo o morrer</p><p>cle outrem inacessível, o seu sentido ontológico escapa-nos.</p><p>Assim, a ideia de tomar como tema a morte experimen-</p><p>tada nos outros com o objectivo de analisar o fim do</p><p>Dasein e circunscrever a suâ totalidade, frustra-s". É i--</p><p>possível substituir a morte de alguém, mesmo sacrifi-</p><p>cando-se por ele e morrendo em seu lugar. O falecimento</p><p>ó tomado por cada Dasein sobre si mesmo. A morte é</p><p>scmprc rt tninha morte, trata-se do meu ser. ..O faleci-</p><p>t?t</p><p>me?tt| [...] mostra qa'e a morte é a-cadn-instante'minha e tr'ma</p><p>possibilidad.e d.e ser na qr,tal esttí eln causa o ser da rninhrt</p><p>exi.çtência. [...J O falecimento não é de todo um incidente, é r'tm</p><p>fenómeno que deue ser entendido Existencirtlmente e isto nrtm.</p><p>sentido capital qu.e é preciso delimitar melhor."</p><p>Se por um lado, â tentativa de chegar à totalidade pela</p><p>morte de outrem se frustrou, permitiu-nos pelo menos</p><p>ver nâ n-lorte um fenómeno Existencial. lJma vez que o</p><p>,rfinrlar> do Dasein consdrui â sllâ totalidade, podemos</p><p>considerar o ser desta totalidade como uma possibilidade</p><p>real e pâssar ao nível ontológico' Mas, antes, será</p><p>necessário certificarmo-nos do carácter ontológico dos</p><p>fenómenos constitutivos da morte que são o <<excedente>></p><p>(Ausstnnd), o ,rfimr, (Ende) e a rrtotalidade,, (Ganzsein).</p><p>§48 Em que medida ,rexcedente>>, <<firn>> e "totalidade"</p><p>são determinações ontológicas clo Dasein, <,Existenciais>'?</p><p>Só uma resposta positiva a esta questão permitirá uma</p><p>interpretação ontológica da morte. Porque, é apenas ao</p><p>findar que o Dasein se torna num ser qualquer, numâ</p><p>presença ser-n vida. O ser do Dasein distingue-se, com</p><p>efeito, do ser dum ente qualquer subsistente no sentido</p><p>em que ele está em perpétua actividade. E'le ek-siste.,</p><p>enquanto este últim o subsiste e é de forma inactiva como</p><p>o cadáver reduzido ao estado de coisa inerte. Como re-</p><p>flectir sobre o senticlo clo ser em geral sem o confundir</p><p>com um estado subsistente, se o Dasein não pode formular</p><p>a sua resposta senão considerando o seu ser como acaba-</p><p>clo, ou seja, como um ente subsistente? A superação desta</p><p>aporia será extrelnamente esclarecedora sobre o sentido</p><p>do ser que irá dominar toda a filosofia de Heidegger.</p><p>A resposta é a" seg"uinte: o ser do Daseiru não é um ser</p><p>acabado, uma vez que pâra ser Dnsein ele tem que viverl</p><p>É ,r-r-, ser <<a findarrr, náo é uma totalidacle acabada mas</p><p>cm vias cle acabarnento. Por outras palavras, o Dttsein</p><p>âpenas vive porque é um moribundot <.A mlrte no sentido</p><p>mais lato tí um fenóm.eno da aida.>></p><p>O que é ser um moribundo para o Dasein? É,</p><p>".rt</p><p>primeiro lugar, permanecer em <<expectatiaa>>; o Dasein é</p><p>ytm ,roinda-não qrte ser'í>>, ou seja, uvv1 ,rexcerlente>> cons-</p><p>tante. Depois, é chegar ao seu ..fim>r, ou seja, deixar cle</p><p>ser-aí, de ser Da-çein. Ora, enquanto cuidaclo, enquanto</p><p>ser-adiante-de-si, o Daseitt não é nuncâ dado na globa-</p><p>lidade. Cabe-lhe essencialmente um ,raittda-nãor>, en-</p><p>quanto é. O ,rexcedente>> é o que permanece em expectâ-</p><p>tiva, é o que falta realizar. Por exemplo, uma dívida é-me</p><p>aincla devida. Ela permanece assim, enquanto não for reu-</p><p>nida na sua totalidacle. Do tnesmo modo, o excedente</p><p>significa: <<ttã.0 estar reunido ao conjunto de que se faz parte>>.</p><p>Deverá daí concluir-se que o Dasein não é um todo mas</p><p>umâ sor-na de elementos adicionando-se uns aos outros</p><p>exteriormente ? Nãol Porque o r<ninda-nãor> faz parte do seu</p><p>ser, não é um elemento que se junta do exterior. O que</p><p>significa que o ser do Dasein é ainda não ser: ..O Dasein</p><p>tem. de to?'nar--çe - isto é ser - ele príprio no (lue ainda nno é.</p><p>Para podet' detenninar p0?' coTnParação o set' do ainda-não qne</p><p>car-acteriza o Dasein, deaemos tlntar em consideração o ente</p><p>co??t 0 género de ser do tomtar'--çe.>></p><p>E,ste tornâr-se do Dosein, Heidegger compara-o à</p><p>maturação dum fruto. A não-rnaturidade, qúe é o ainda-</p><p>-não do fruto, faz parte deste último. Ele é a sra <<xã.o-ma-</p><p>fitridode, amadurecendo, tal como o Dasein é o seu</p><p>..ainda-não, existindo: ,rde fortna a.náloga, o Dasein é igual'</p><p>nxente en.quanto</p><p>é, u cada instamte já o seu. ainda-níiorr. Tal</p><p>como o fruto macluro chega ao seu fim, assim a morte</p><p>conduz o Dasein à sua conclusão. Mas a morte não está no</p><p>fim clo perclrrso, ela não é o fim da vida, como qualquer</p><p>coisa que chega do exterior. A morte {az pate do Dasein.</p><p>Ii 1>or isso que quando Heidegger escreve paradoxal-</p><p>t:t.1I ??.</p><p>mente: rrfindar não significu neces-çariarrente perfazet'-serr,</p><p>ele quer dizer que o Dasein não finda com â morte como</p><p>o pão finda uma vez consumido, ou como a chuva finda</p><p>ao desaparecer: é a morte que finda, no sentido activo, o</p><p>Dasein. Ela é a sua maneira de ser assumida logo que é:</p><p><.rtssint que um ltotnent ganha aida, diz o Pleta, é imediatamente</p><p>suficientemente uelho para mlrvev>>. Ek-sistir, pâra o Dasein, é</p><p>sair de si, é extenuâr-se e avançar em direcção ao fim.</p><p>O Dasein não se constitui, portânto, como totalidade</p><p><.no fim>>, ele realiza-se como tal a caminho. trle não é um</p><p>,rse't,no-fim>>) mâs rtl:;, <<ser-ru.mo-ao firnn. Não se pode</p><p>falar dum Dasein morto, mas dum Dasein moribundo.</p><p>§49 Esta interpretação da morte é ontológica e não</p><p>ôntica. Quando falamos dum Dasein vivo, devemos,</p><p>assim, esforçar-nos por entender a vida a pârtir do ser do</p><p>Dosein e não do ponto de vista biológico ou fisiológico. O</p><p>ôntico pressupõe sempre o ontológico. O Dasein nã,o</p><p>cleixa simplesmente de viver tal como uma planta ou um</p><p>animal. A morte faz pârte do seu ser duma forma</p><p>essencial, não acidental. Viver, pâra ele, é morrer! É pot</p><p>essa razão qlre <<a interpretação Existencial da morte precede</p><p>toda a biologia e toda a ontologia da uidarr. A interpretação</p><p>Existencial da morte cleve, portanto, fundamentar toda a</p><p>análise de tipo histórico, biográfico, psicológico, etno-</p><p>lógico. IJma ,rtipologia, da morte pressupõe o conceito</p><p>ontológico da morte.</p><p>IJma vez adquirido o conceito ontológico da morte,</p><p>não são de esperar consequências ônticas quanto à imor-</p><p>talidacle do Dasein A imortalidade, se é que a imortali-</p><p>clade existe, é urn problema ontológico para Heidegger:</p><p><<Leaantar d questão do rlue há para além da morÍe não pode</p><p>tet, rtru sentido e nã.0 pode justifrcar-se co?n. gar'antias de ordent</p><p>rnetódica senão a pa?.ti?'do ntotnento em qlte ela é compreendidu</p><p>tta ltlenitude da sttrt essência ontológicarr. E, com efeito, ir</p><p>n1t</p><p>imortalidade, quando é afirmada com coerência, diz</p><p>obrigatoriâmente respeito ao ser pessoal. Senão a que se</p><p>aplicaria ela? IJma imortalidade impessoal não faz sentido</p><p>senão numa filosofia para a qual o Ser é tudo e o</p><p>indivíduo nada. E o caso cle todo o pensamento, como o</p><p>de Heidegger, que recusa o estâtuto de ser u.iaclo ao</p><p>homem. O Dasein - trâtar-se-á do ser humano? - não é</p><p>criado, ntas lançado. O seu ser não é a conclusão clum acto</p><p>criador que o destina à imortalidade pess oal, é o começo</p><p>clurna destruição, dum desaparecimento, de que a morte é</p><p>a força secretâ. A rnorte heideggeriana é rtrnfalecitnentl, a</p><p>morte cristã :uma passagem para o além. O alérn não é um</p><p>problema para Heidegger, porque para ele não há senão</p><p>um adiante. A eternidade, se é que ela existia para ele, es-</p><p>taria, já o dissemos, não fora do tempo, mas no próprio</p><p>tempo como ek-stase. Porque o Dasein é uma totalidade</p><p>inacabada. Só a morte faz dele um todo, mas então o Dasein</p><p>já não é. Assim, não se pode falar de sobrevivência dum</p><p>ser cuja essência é expulsar e cuja energia expulsante é a</p><p>própria morte. Tal é a consequêr-rcia desastrosa duma me-</p><p>tafísica parâ a qual o destino do Ser está ligado ao de enre.</p><p>I-Ieidegger tê-lo-ia evitado se tivesse conseguido conce-</p><p>ber o Ser independentemente do ente na sua plenirude e</p><p>trrna independência soberana.</p><p>§50 As considerações precedentes mostram a necessi-</p><p>rlade de interpretar o fenómeno da morte corr,o <<ser-</p><p>-nmto-ao-firn>>, a parrir da constiruição fundamental do</p><p>l)nsein, isto é, a partir do cuidado. Ora, o cuidado con-</p><p>siste, já o dissemos, em preceder, em ser/estar adiante e já</p><p>rro mundo. A morte, interpelada a partir do cuidado,</p><p>srrrge, assim, como o que ainda não está/é aí adiante, é o</p><p>:rirda-não-aí-adiante mais afastado, mas ela é igualmente</p><p>o mais eminente, no sentido em que pode acontecer de</p><p>irrrccliato. A irninência da morte não é comparável a uma</p><p>t:)5</p><p>tempestâde que ameâçâ no horizonte ou à edificação</p><p>duma casâ quase terminada, no sentido ôntico' A morte</p><p>cliz respeitoào ser do Dasein, ela é ontológica. Poder-se-</p><p>-ra dizàr que a morte torna o Dasein imanente a si pró-</p><p>prio, porque ela é â suâ possibilidade mais íntima, a saber</p><p>a d,e jâ-não-ser: <<A nrov'te é uma possibilidade de ser (lue o</p><p>Dasein teru, a cada instante, de assumir ele pt'óprio' Corn a</p><p>mlr.te) o Dasein encontrr-Se consigo mesrno no SeLt poder-ser</p><p>mais próprio (a,utêntico). Nesta possibilidade) trata-se pLt%t. e</p><p>.rimplismente para o Dasein do seu ser-no-mr.tndo. A slta ru,r1e</p><p>á a possibilidade de já não ser Dasein."</p><p>() Dasein encerra em si mesmo, como que inscritâ no</p><p>seu ser, a possibilidade de morrer. É , t* possibilidade</p><p>mais radical, é incontornável: <<A morte é a possibilidade da</p><p>pura e simples impossibilidade do Dasein." Assim, a morte</p><p>rerrela-s. como a possibilidade mais própria, a mais</p><p>autêntica, a que pertence apenas a ele. Compreendemos</p><p>agora, por que razão não é necessário pâssâr pela morte</p><p>de outrem para pôr a descoberto a sua dimensão onto-</p><p>lógica. Ela é um Existencial no sentido em que é um</p><p>*àr.r".rto do cuidado, do ser do Dasein. Abri,do-se, este</p><p>lança-se adiante de si rumo à morte, que é a sua con-</p><p>cretizÍlçã,o última: ,rAssim, a m07"te reaela-se comT a ltossibi-</p><p>tirlarle mais prtípria) se?n relaçã.o co?n o Dasein de outyem,</p><p>incontontáael. Enrlttanto tal, ela é uma intinência capital'</p><p>A sua possibitidade Existencial fimda-se ent. o Dasein ser essen-</p><p>cialmente reaelado a si ntesmo e sê-lo justamente à rnaneira do</p><p>aaãnÇ| em relação a si mesyto. Este nloruentT est?at\n'al do cui-</p><p>tl.atl.o tent n0 se?'para a m.o?'te a sua clncretizaçã'o rnais original'"</p><p>A partir do momento em que o Dasein ek-siste, estír</p><p>lançado na possibilidade da morte. Ele está entregue à</p><p>morte, porque pro-jectado, lançaclo adiante, para fora clc</p><p>si, em ãirecção ao mundo. Esta condição revela-se-lhc,</p><p>não de forma teórica, mâs nâ <<angítstia'>. E, mais uma ve7',</p><p>relembramos que a angústia perante a morte não deve ser</p><p>confundida com o medo perânte o falecimento, como não</p><p>devem ser confundidos o ôntico e o ontológico. A angús-</p><p>tia não é fuga diante da morte, mas o enfrentar da possi-</p><p>bilidade da nossa própria impossibilidade: <rela não é uma</p><p>rlualquer e fortuita disposiçã.o de "fraqueza" no indiuíduo; pelo</p><p>contrrírio, enquã.nto afecção fundnmental do Dasein (Brfi"-</p><p>dlichkeit), ela é a abertura pela rlual o Dasein existe en(lltantl</p><p>estar lançado mtmo ao seu. fimrr.</p><p>§51 Convém reter como principal resultado do</p><p>pará,grafo anterior qlue <<no ser parã a ruo?'te) o Daseir. rela-</p><p>ciona-se consigo mesrnl c0m0 con utn poder-ser insignerr. Ser,</p><p>para o Dasein, já o virnos, é poder-ser. Ele é pura projec-</p><p>ção das suas próprias possibilidades. Ek-sistindo, ele está</p><p>lançado no mundo. Ora, entre as suas possibilidades, há</p><p>umâ, a morte, que é a suâ possibilidacle mais íntima, por-</p><p>que atinge o seu ser. Esta possibilidade anula todas as</p><p>outras, porque ela é a possibilidade duma impossibilidade</p><p>pura e simples cle toclo o Dasein. Perante esta saída fatal,</p><p>o reflexo do Dasein é fugir, não se enfrentar mais a si pró-</p><p>prio, para evitar ver-se tal como é na sua ipseidade. Assim,</p><p>ele refugia-se no À/ds onde se dilui. E, por isso que ,ra anrí-</p><p>lise da rull.te do Nós mlrren 0s desztelará sem equíaoco o modo</p><p>tle set' do set' quotidianl para a morte>>.</p><p>Quanclo o À/ds morre, ,rEu, não morro, porque o Nós</p><p>r-rão é ninguém. Nesta óptica, a morte surge como um</p><p>rrcontecimento exterior, que não me âtinge. E uma</p><p><<notícia>> dada pelos jornais, contada pelas testemunhas...</p><p>Iista forma cle falar encara a morte como :urna <rrealidaderr,</p><p>rnâs nuncâ como uma <<possibilidade, inscrita no seio do</p><p>nrelr ser. Por outras palavras, ..o Nós confere o direito de se</p><p>tlissimular 0 ser paro n ml?Íe no</p><p>qtrc ele teru de mais próprio; e</p><p>ttrtTnenta n tentaçiio de o dissimulat>r. Esta dissimulação visa</p><p>trar-rqtrilizrr-nos a respeito da morte. Reconfortamos o</p><p>'tzí-</p><p>*'rx;</p><p>moribundo dizendo-lhe que ele vai escapar à morte.</p><p>Porque a morte desconcerta, é uma contrariedade social,</p><p>uma falta de tacto, de que a vida pública deve ser preserwada.</p><p>O Nrís justifica a sua obra dissimuladora fazendo pâssâr a</p><p>ideia de pensar na morte como uma ideia desprezível,</p><p>uma pusilanimidade e uma fuga lúgubre para fora da</p><p>mundo. Numa palavra: ..O Nós não deixa manifestar-se a</p><p>cora.geTn de enfi.entar a angústia perante a ntorte.>> Ora, só a</p><p>angústia é capaz de olhar â morte de frente e de entregar</p><p>o Dasein à sua possibilidade mais radical. O Nás tenta</p><p>transformar essa angústia num medo ôntico. A angústia</p><p>surge, então, como uma fraqueza que tm Dasein <<segurl</p><p>de .çi, não poderia consentir. Assim, a dissimulação é total.</p><p>O Dasein alienou o seu pocler-ser, ele fez da morte uma</p><p>possibilidade estranha, que não lhe diz respeito, que só</p><p>acontece aos outros.</p><p>Heidegger é notável na descrição dessa fuga do Dasein</p><p>perante a morte, sem perder de vista a interpretação</p><p>ontológica. Esta fuga transcreve na vida quotidiana, a</p><p>descida, a decadência do ser autêntico do Dasein que deixa</p><p>de the ser ..próprion, de ser dele, para existir perecendo</p><p>na morte: ,rO ser para a morte quotidiano é, enquanto deca-</p><p>dente, uma constante fuga perlmte ela.r, à morte no quoti-</p><p>cliano da existência autêntica exige, assim, uma interpre-</p><p>tação mais aprofundada do ser pàÍa a morte do</p><p>moribundo.</p><p>§52 Estamos âgora em condições de esboçar o conceito</p><p>de morte. O..À/cís mlwenxls>>, dissemos, dissimula ao Dasein</p><p>â morte que é a sua ..possibilidade, mais própria, autên-</p><p>tica, por detrás da realidade inautêntica e imprópria da</p><p>vida de todos os dias. No entanto, ele não consegue</p><p>esconder ao Dasein a certezl- do morrer. Porque é preciso</p><p>morrer ninguém duvida, nem mesmo o À/ás apesar da sua</p><p>acção de clissimulação. Mas que certezà é essa? A certeza</p><p>-n8</p><p>funda-se na verdade. Ora, a verdade significa desvela-</p><p>rnento. O véu levanta-se sobre o ente e o seu ser mostra-</p><p>se ,raírr, cotno num jacto de luz àté ào limite para além do</p><p>qual ele cairá nas trevâs da morte. Enquanto permânece</p><p>nesta iluminaçã o, o Dasein é transparente a si próprio, ele</p><p>está totâlmente na abertura através da qual o seu ser, o</p><p>ser, pâssa pârâ o mundo: ele sai de si mesmo, ek-siste,</p><p>para in-sistir, entrar, no mundo. A <<certezã da mor.te></p><p>reveste-se, assim, dum carácter ontológico e não empí-</p><p>rico: ,rQue o falecim.ento seja, a título de acontecimentl que se</p><p>pt oduz, u?'tld certeza "Ltnicamente" empírica, não é isso que</p><p>decide a certeza da morterr.</p><p>Ao nível da certeza empírica, o Dasein não está certo da</p><p>rnorte tal como ela é. O estar-certo da morte não pode ser</p><p>cornpreendido, com efeito, a menos que esta seja</p><p>entendida como a realidade mais própria e incontornável.</p><p>Ela é certa, porque a cada instante possível. Estas carac-</p><p>terísticas permitem definir o conceito plenamente onto-</p><p>lrigico da rnorte: <<Á morte como fim do Dasein é a possibili-</p><p>iade mais prrípria, -sem relação) cer-ta e comn tal ittdetertninada</p><p>c incomtotaríael do Dasein. A ruorte estí, conto fim do Daseim,</p><p>n0 sev' de-çte ente ?'Ltmo ao fim.r, Por outras palavras, a morte</p><p>lrernrite a.o Dasein ser um todo. Não será porque o ser é</p><p>considerado como um todo, que ele é igualmente um</p><p>rrrda? A morte, diz Heidegger, é a ,rpossibilidade duma</p><p>iLttpossibilidade absolutarr. E,sta afirmação decorre da</p><p>r'«rnsideração do toclo. Porque ser tudo é igualmente o</p><p>inverso clo ser como tudo. Os contrários não se excluem,</p><p>t:lcs coinciclem r-ra Totalidade que é Diferença, porque ela</p><p>rlifere sempre de si. Assim, na filosofia cle Heidegger, o</p><p>..rrinda-não> da morte reúne-se ao <<a diante> do cuidado,</p><p>( ) ser do Dnsein <<ek-siste>> .rin-sistindorr, de tal modo que</p><p>('stc pocle exclamar <<eL!. mo?-rl, logo ek-sisto>>.</p><p>§53 Dispr)nros â partir de agora dum conceito ontoló-</p><p>rlic«l rl:r nr()r-tc. Apliqtrcn-ro-lo à cxistêr-rcia rutênticrr <lo</p><p>Duein. Este último, já o vimos, tende a fugir no Àtrcís da</p><p>possibilidadc de já não ser. Ora, a existência autêntica</p><p>consiste em fazer-lhe fâce. Ser para uma possibilidade é</p><p>csforçar-se por a ,'ealizar, isto é, por clestruí-la enquanto</p><p>possibiliclade. Mas então, poderá clizer-se, tratar-se-á de</p><p>destruir â morte clestruinclo-se a si rnesmo? A resposta ó</p><p>evidente, el:r consiste em pôr ern epígrafe que a morte não</p><p>é uma possibilidade como âs outras. Estas trabalham</p><p>todas parâ â sua própria realização, clestruindo-se ao ser-</p><p>viço do Dasein. Quanto à morte, ela é uma possibilidade</p><p>cuja característica é a de anular todas as outras) e o</p><p>próprio Dasein, realizando-se. Doncle a reacção do Dasein</p><p>consistindo em mânter durante o máxirno de tempo o</p><p>possível como possível. Ele abstérn-se de morrer e vive</p><p>rnorrendo, porque enquanto morre não está morto! Esta</p><p>'.rtitude :rssemelha-se â uma <<exÍ)ectl.tiaa>>. Mas esta</p><p>expectativa não tem nada de passivo. Pelo contrário, ela é</p><p>activa. E um andar à frente, oncle toda a acção se esclarece</p><p>à luz desta possibiliclacle qr.re cresce incessantemente. A</p><p>expectativa faz viver o Dasein na ,rittcessonte antecipação da</p><p>mor.te>>. Ek-sistir é avançar em direcção ao nada, saindo</p><p>clo ser. Avançar pârâ a morte consiste em aproximar-se do</p><p>ponto para onde convergem o possível e o impossível, o</p><p>ser e o nada, e oncle tudo estará no todo no Dasein.</p><p>Porque o toclo não pode ser senão esse ponto ondc</p><p>coincidem toclos os contrários, como na ponta dum piã<r</p><p>giranclo sobre si e cujo movimento acelerado se confunde</p><p>com a irnobilidade.</p><p>Encarando, assim, â morte de frente como a possibi-</p><p>lidade que o torna impossível, o Daseitt compreende-se :t</p><p>si próprio colno nada. Ele entende que irá em brevc</p><p>cleixar de ser todas as suâs possibilic{ades e isolar-se parrt</p><p>não ser n-rais do que cle próprio: ,rA absolu.tidade da m.ol'tr'</p><p>cortrprccniitlt na rnúecipoÇão isolu o Dasein T'rt??to o -ri pní-</p><p>pt'io.r, .rO nfiecipar da ltossibilidade sem relação forçn o ente</p><p>ontecipodor' à possibilidade de nssumir por si o .teu ser tnais</p><p>próprio a pa?'tir' de si ntesnto.>> Este isolamento é uma re-</p><p>núncia a si tnesmo no nacla. A morte isola-me, porque sou</p><p>eu que morro. Eu devo aceitá-la livremente e viver..livre-</p><p>-para-â-rnorte>>. Esta liberclade, para dizer a verdacle, não</p><p>ó uma liberclade, ela é antes a vertigem que acompanha a</p><p>cluecla clo ser no nacla. E um mergulhar no fim clo qual o</p><p>toclo clo ser, enfitn esvaziado de si próprio, se iclentifica</p><p>com o nada.</p><p>Este cliscurso sobre a morte não é de todo cornparável a</p><p>urna oração Íiinebre. Nem é tão-pouco Lrma consideração</p><p>moralista. Ii uma análise glacial através da qual Heidcgger</p><p>pretende mostrar-nos o nacla etn acção no próprio seio do</p><p>Ser. ..O Nadn, escreve ele em ,rO rlue é ametafisicalrr, publi-</p><p>c'.rclo dois anos clepois cle ..Sel' e tempo>>) não forwta simples-</p><p>tnente o conceito antitético do existente, é a essência do próprio Set'</p><p>que coznpzl ttt desde a origem o Nada. E no ser do existente que se</p><p>produz a aniquilação do Nadarr. O filósofo de Friburgo não</p><p>quer ver na morte r:rrta ,rfufitrn actualidaderr, mas unta</p><p>.ractunl po.çsibilidade, que é uma maneira de ser essencial ao</p><p>l)rcein, o único ente consciente do seu fim. Ser possível não</p><p>significa, portanto, ser em potência, no senticlo em que Aris-</p><p>t«itcles o entende como <<o que pode passar ao acto>>. O ser,</p><p>lrara Heidegger, não é <<actl>>) ele é sempre ,gossíuelrr.</p><p>l)oderia estabelecer-se aqui uma comparação com o</p><p>.,Pos.çest>> cle Nicolau de Cusa. A possibilidade ftindamental</p><p>tlo ser é o nada, a possibilidade vivida pelo Dasein nâ morte</p><p>rlue é a perda do seu ser. Essa é a razão pela qual o autor fala</p><p>dc <«ntecipação>> (Vorg'ffi e não de ,ractumlizaçíto>>. A possi-</p><p>lrilidadc de já não ser, é mais do que uma futura actualidade,</p><p>ó urn morrer perpétuo, umâ aniquilação sem fim, em suma</p><p>lxrstante próxirna da ,ridentidade inrluieta do ser e do nadarr,</p><p>lrclrr tltrll [ [cirlcggcr definia o devir.</p><p>-l'r-</p><p>ctpÍruro</p><p>euATRo</p><p>TEMPORALIDADE</p><p>E QLIOTIDUI,{E,IDÁDtr</p><p>§ó7 A ternporalidade fundamenta â totalidade articulada</p><p>do ser do Dasein Este ek-siste temporalizando-se. Ele</p><p>implica, assim, umâ certa multiplicidade: ,rÁ totalidade</p><p>originríria da constitttição do Dasein, sendo articulada, longe</p><p>de banir a nrubiplicidade, pelo contr'ít'io, exige-a..', O que</p><p>significa que a origem ontológica do Dasein nã.o é urn ser</p><p>simples e uno, mas um simples processo: .rÁ origem</p><p>ontológica do ser do Dasein nao é Tnenos irnpona'nte do que o</p><p>rlue é originado dela, m.rts, r) partida, excede-o etn potêncin e</p><p>todo o ot'iginar', n0 cã.rupl ontológico, é de-generaçã0.r, à {tlo-</p><p>sofia de Heidegger está mais próxima duma filosofia da</p><p>totalidade do que da unidade do ser. Não poderia, com</p><p>efêito, haver um Ser-IJno para uma ontologia em que a</p><p>totalidade do ser é constituída pela temporalidade. Por</p><p>não conceber o ser do ente a pârtir dum Ser</p><p>transcendente, imutável, infinito e uno, Heidegger vê no</p><p>ser uma efervescência, um transbordamento, um excesso,</p><p>pelo qual ele irrompe para fora cle si e degenera.</p><p>157</p><p>Pcla rrbcrtul'a que o constitui, o ser tl<> l)tseht torlrâ-scl</p><p>transp2lrente e percebe-sc no âcto de sc lançar adiantc. 1,.</p><p>por essa razão que a interpretação temporal do Dnscitt</p><p>quoticliano tomará como ponto de partida as estruturas clc</p><p>que é constituída a abertura, a saber, o compreender, rr</p><p>afecção, a decadência e o falar. Este capítulo articular-se-á,</p><p>assim, como se segue: a temporaliclade da abertura eln</p><p>geral (§68); a temporalidade do ser no mundo e ()</p><p>problerna da transcendência (§69); â remporalidade da</p><p>espacialidade correspondente ao Dasein (§70); o sentido</p><p>temporal da quotidianeidade do Dasein (§71).</p><p>§ó8 A abertura do ser do Dasein fá-la ek-sistir lançan-</p><p>do-o aí. No entanto, o ser do Da-çein, ou seja, o cuidado,</p><p>não foi ainda interpretâdo de modo temporal nos seus</p><p>momentos estruturais. E por essa razão que iremos exa-</p><p>minar, agora, cada um deles, a fim cle ver como a tempo-</p><p>ralidade realiza a unidade estrurural do cor-rjunto.</p><p>L) A TEMPORALIDADE DO COMPREENDER</p><p>Não confundamos compreender e conhecer. Vimos no</p><p>§31 que compreender significa projectar. Trata-se dum</p><p>Iixistencial e não duma ,rfauildader> da alma: <<apreendido de</p><p>fi»rua originariamente Existencial, o comltreendet- significa: ser-</p><p>p'ojectando para um poder'-ser', p0?'mordo qual o Dasein existe</p><p>tt ütda instante>>. O compreender projecta, o que o Dasein</p><p>p,xlc ser, e coloca-o diante dele próprio. E um Existencial</p><p>;rrccisamente porque ele íaz ek-sistir o ser do Dasein. F,k-</p><p>.;istindo, o ser, lançado para fora, volta-se para si mesrrro.</p><p>l'stc voltar pârâ o ser que tem a haver, é um retorno em</p><p>, lirccção ao futuro. Ele tem â ser o que foi e o que ele foi, sô-</p><p>1,, ,i. () ÍLturo fá-lo ad-vir. E neste sentido que ele surge na</p><p>1,.r,;r' tlo compreender: ,rna base do compreender-se pr.ojectando-</p><p>\t' utt'ttt(t possibilidade existencinl estrí o pot-uir, enqttantl adztit -n-</p><p>158</p><p>-si t partir da possibilidade na qunl o Dasein existe a codt ius-</p><p>tante. O pr».uir toruta ontologicamente po.rsíuel Ltru ente que é de</p><p>tal foruna que existe, compreendemdo, no seru poder-se»r. A exis-</p><p>tência pode ser âutênticâ ou inautêntica. Tal como o por-vir.</p><p>O porvir autêntico é a antecipação da possibiliclade última</p><p>do Dasein deixando-o ad-vir a si mesmo, ao seu poder-ser</p><p>mais próprio: a morte. No porwir inautêntico, o Dasein é</p><p><<arrastado» para os âssuntos quotidianos a pârtir dos quais</p><p>ele compreende o seu ser: ele é .<na Espera"rr. ..O porwir</p><p>inautêntico tem o carácter da Espera.r,</p><p>O compreender não se explica unicamente a partir do</p><p>futuro. Ele não se temporalizaria, se não fosse igualmcnte</p><p>determinaclo pelo passado e pelo presente. O presente</p><p>âutêntico é o instante. Não, como o dissemos, no sentido</p><p>de nrmc, dum agora fechado sobre si mesmo e medicla clo</p><p>que acontece. Ele é instante no sentido de ekstase, de saída</p><p>pela qual o ser do Dasein ek-siste. O presente autêntico é,</p><p>numa palavra, o que tornâ presente. O presente inautên-</p><p>tico, denomina-o Heidegger como o <<presentificaru (Ge-</p><p>genwrirtigen). Ele tem em comum com o instante o facto</p><p>cle tornar presente. Mas ao contrário do instante, que é</p><p>um ekstase pelo qual o Dasein se abre ao porwir e ao</p><p>passado, o presentificar soliclifica o presente e fecha-se em</p><p>si mesmo, onde se perde pela curiosidade. Assim, só o</p><p>presente autêntico é o suporte da compreensão âutêntica.</p><p>No que respeita ao passado, este é autêntico enquanto</p><p><<r'epetição>> (Wieder'-boh.mg). O que quer dizer que não se</p><p>trata clum momento do tempo que desliza parâ trás de</p><p>nós, mas dum ekstâse temporal que permite ao ser do</p><p>Dasein ek-sistir nesse instante: o passado corltinua pre-</p><p>sente. Pelo contrário, o passado inautêntico é um <<presen-</p><p>te-passado>> pelo qual o ser do Dasein não se aproxima do</p><p>seu passado, mas dele se afasta, acaba por esquecê-lo e</p><p>esquece-se com ele, porque o passado fazparte do seu ser.</p><p>* Iisperlr trrdr,rz. gervârtigen, espcrar algo contando con'r isso (V. 1?.)</p><p>159</p><p>I)orlcmos, irssim, pôr a descoberto seis nroclos do com-</p><p>prcendcr a partir dos três ekstases temporais, consoantc</p><p>forem considerados do ponto de vista autêntico ou inautên-</p><p>tico: a antecipação (Vodanfen) e a expecrariva (Emuattung), o</p><p>instante (Augenblick) e o presentificar (Gegenwartigen), a</p><p>rep etição (Wi e derh o hut g) e o esquecimento (I,/ergessenheit).</p><p>Finalmente, é de reter que dos três ekstases, o porvir tem â</p><p>prirnazia no processo de temporalização do compreender.</p><p>B) A TEMq)RAL\DADE DA AFECçÃO f,WLNDLTCHT(ETT)</p><p>O compreender é um projectâr. Quânto à afecçã o, ela diz</p><p>respeito ao estar-lançaclo. Há assim uma relação entre eles.</p><p><<O compreemdet nunco fhtttto liaremente, é sempr-e aJeaado.r,</p><p>A temporalidade encontra-se iguahnente na afecção. Como</p><p>assim? Diante do seu estar lançado, deposto diante de si,</p><p>o Duein tem a escolha entre entregar-se-lhe ou desviar-</p><p>-se, consoante opte pela existência autêntica ou pela exis-</p><p>tência inautêntica. Encontrar-se ..aír> só é possível porque</p><p>o ser do Dasein ek-siste ek-stasiando-se a pârtir do pas-</p><p>sado. A Befindlichkeit ftnda-se primariamente no <<pas-</p><p>sado-presente>> (Gewesenbeit). O que significa que o seu</p><p>carácter Existencial é urn <rrecondttzi?- a...>>. Seria fasti-</p><p>dioso e inútil analisar â temporalidade de todas as afec-</p><p>ções que acompanhâfir o sentimento de encontrar-se</p><p>lançado aí. Assim, limitar-nos-emos ao sentimento autên-</p><p>tico da angústia e ao sentimento inautêntico do medo.</p><p>Comecemos a análise pela temporalidade da afecção</p><p>inautêntica, o medo. Será que o <<passado-pr-esente>>) o <<se?--</p><p>-.çiclor, (Gezuesenheit), constitui o seu sentido Existencial?</p><p>Parcce que não. Com efeito, o medo apresenta-se como a</p><p>cxpectativa clum mal futuro. O seu sentido temporal</p><p>prin-rário vem-lhe, assim, aparentemente do futuro. Mas</p><p>160</p><p>cor-n a condição de se sublinhar que se trata do <<fuu.tro</p><p>inautêntico>>, eue é Espera e não antecipação. Porque a</p><p>Espera que acompanha o medo não está imbricada no</p><p>futuro ekstático. Ela está separada do objecto ameaçaclor,</p><p>aincla não presente, ao ponto de se crispar mais por ela pró-</p><p>pria clo que por câusa desse objecto. E, por essa razão que</p><p>Aristóteles definia o medo como uma perturbação que afasta</p><p>para longe do objecto que mete medo, que âmeâça, e de que</p><p>fugimos para esquecer. Assim, vemos que a ekstase que</p><p>lança o Da.çein no medo, lança-o também no esquecimento.</p><p>Ora, o esquecimento foi definido corrlo o ,gassado inautên*</p><p>tico>>- Finalmente, o Dasein assustado e afastado, não pensa</p><p>mesmo mais no que se vai tornar. Ele permânece no mo-</p><p>mento presente, como o habitante duma casa em chamas,</p><p>que pensa primeiro em salvar as coisas que tem à mão,</p><p>esquece o seu bem e permanece dentro de casa. Tal é o pre-</p><p>sente do medo, <<1)resente inautêntico>>. Esta análise temporal</p><p>da afecção inautôntica do rnedo, mostra-nos que ela se com-</p><p>põe das ekstases inautênticos cla temporalidade. llla con-</p><p>firma, assim, a nossa tese, â saber, que a temporalidade</p><p>realiza a conexão do todo estruturado que é o ser do Dasein.</p><p>Passemos, a.gora,</p><p>à análise da afecção autêntica, a</p><p>angú-rtia. Tal como o medo, a angirstia é o sentimento de</p><p>estar lançado, mas ao contrário do medo que esquece a sua</p><p>condição de estar lançado, a angústia encara-o de frente,</p><p>embora ainda sem o assumir ou aceitar como o fará a</p><p>existência resoluta. A angústia angustia-se perânte um ente</p><p>ameaçador. Mas ela distingue-se do meclo pelo facto do</p><p>ente perante o qual ela se encontra não lhe dizer mais nada,</p><p>ser dotado de falta de sentido. A.ngustiar-se perânte... não</p><p>tem, pois, o carácter de estar à Espera de... A angústia</p><p>não espera nada, pela razã.o de que este perante o quê ela se</p><p>ângustia está já ,raír>, é o próprio Dasein. O porwir que</p><p>constitui a angústia não é, por conseguinte, o porvir</p><p>161</p><p>irrrrutêntico, a Espera, lnàs a antecipação, o /to,t uir. arfiOn-</p><p>riro. Na angústia, o Dn.çein dír-se conra de que ele não pode</p><p>projectar-se sobre um ente qualquer e fica como que para-</p><p>lisaclo. Esta irnpossibilidade repenrina revela-lhe a possi-</p><p>biliclade do seu poder-ser âurêntico, a morte. O chao abre-</p><p>-se debaixo dos seus pés e ele tem que decidir-se pelo</p><p>abismo: ,<a angtístia anqustia-se pelo Dasein no estado nu, tal</p><p>conto e-çtí lançado na esrranbezarr. O Dasein angustiâclo recua</p><p>para a solidão e prepara-se para clar o salto que o fará trâns-</p><p>por o limiar da existência resolutai <<a on.Eístia reconduz de</p><p>facto no ?tosso estar-lançado, enquantl este se l)?-esta a uma 1to.r.ríael</p><p>repetiçiío. E assim t eaela igualmente a possibilidade dtlm pod.er"-</p><p>-se, próp,io (lae., repeti?udo-se rrc por-uir-, deaerrí aoltar- oo aí lan-</p><p>çadon. O passado que temporaliza a angústia é, portanto, a</p><p>repetição, ou seja, o passadl autênticl. O ruedo enlouquecia</p><p>num presente-prisão. A angústia, pelo contrário, é o ponto</p><p>de retorno, o molnento de decidir ek-sistir lucidamente, de</p><p>forma resoluter, rumo à sua possibilidacle suprema.</p><p>O presente que temporaliza a angústia é o instante, o p?.e-</p><p>se?lte autê?ttico. Assim, a afecção âutêntica é de facto tempo_</p><p>rahzada pela temporalidade autêntica e, tal como a afecção</p><p>inautêntica, ela funda-se principalmente no passado. Em</p><p>resllrrro, o medo, inautêntico, é temporaltzado pelâs ekstases</p><p>inautênticos: o esquecirnento, â presentiflcação, a Espera; a</p><p>angústia, autêntica, é temporalizada pelas ekstases</p><p>autênticos: â repetição, o instante e a antecipação.</p><p>C) I TEMP1RI\LIDADE DÁ DECttnnNCt,t</p><p>'fal como o porvir é a ekstase dorninante do compre-</p><p>ender, o passado é o da afecção, e o presente é aekstase</p><p>que dá o selr sentido Existencial à decadê,cia. Analisámos</p><p>esta última, examinando a conversa, a curiosidade e o</p><p>162</p><p>cquívoco. Limitar-nos-emos a considerar a curiosidade,</p><p>uma vez que é â este nível que â temporâlidade mais espe-</p><p>cífica da decadência se cleixa melhor distinguir. A curio-</p><p>siclade, como dissemos no §36, é a tendência pela qual o</p><p>Dnsein se preocupâ essencialmente em poder ver. A sua</p><p>característica é a cle consistir na vontade cle ver parâ \zer.</p><p>Ora, o que se dá a ver, dá-se no presente inautêntiro da pre-</p><p>sentificação. Mas este presentificar não se liga à coisa</p><p>vista, de que se afasta logo que vista, de tal fbrma que daí</p><p>resulta um constante..à E,spera de...rr. A presen-</p><p>tificação surge como uma modificação ekstática clo estar à</p><p>Iispera de. Iiste ..saltita» atrás do presentificar,</p><p>sacrificanclo-se ao presente inautêntico. Absorwido numa</p><p>agitação constante, o Dasein deixa de ser/estar ..aírr, pâssan-</p><p>clo a ser/estar errr todo o lado e em parte alg'uma. O ekstase</p><p>do passaclo e a ekstase do porwir são submergidos no</p><p>presente inautêntico.</p><p>D) A TEMPORALIDADE DO FAUR</p><p>A discursiviclade (die Rede) é a capacidade de elaborar</p><p>significações. Ela exprime-se pela linguagem e dá à abertura</p><p>clo aí a sua articulação. A linguagem é um modo de</p><p>expressão que só se torna autêntico na poesia e no silêncio.</p><p>A temporalidade do falar não é expressamente analisada por</p><p>I{eiclegger. Ele limita-se a afirmar que o cliscurso, expri-</p><p>mindo-se pela palavra no mundo próximo, funda-se no</p><p>presente. Podemos admitir que a temporalidacle do discurso</p><p>não tem nada a ver com os modos gramâticais do tempo e</p><p>que não se deve confundir o problema linguístico do tempo</p><p>com o da temporaliclade cla linguagem.</p><p>Este parágrafo confuso, ou pelo menos complexo,</p><p>termina coftr uln resumo no qual Heidegger mostrâ corrro</p><p>163</p><p>() tcrrr)() sc temporaliza enr cada um dos ]rxistenci:ris: rr</p><p>cornpreensão autêntica temporaliza-se a partir do porvir-,</p><p>a afecção a partir do passado e a linguagem a paitir cl,,</p><p>presenre. Nenhum ekstase é isorado. 1oão*e ii,,b.i"rr.,.,</p><p>uns nos outros, segundo a ordem de presença citada. por</p><p>ourras palavras,. a temporalização não significa uma</p><p>sucessão das ekstases. Em sumâ, <<a temporalidadc</p><p>tem.poraliza-se ent cada ekstase de mameir.a total, o qr* qurr.</p><p>dizer qu.e é na unidade ekstática do tumporoliraça'o a cadrr</p><p>in-çtante plena da temporaridnde que se Tuiaa n totaridade do</p><p>todo est,utut'al da existê1tcin, ttafacticirta-cle e da clecndência, po.r.</p><p>outras palaur-os, a nnidade dlt est?.utr.t?.a clo cuiclado>r.</p><p>o que significa que o tempo não se acrescenta d<rexterior ao ser do Dasein E,le não é um quadro no qual sc</p><p>desenrolam acontecimentos: ele está no cerne do ente</p><p>como o que, do interior, o temporahza. Mas se o ente sóo é pela temporalização, então deverá haver uma relação</p><p>entre o ser e o tempo. O ..e» não exprime, portanto, uma</p><p>simples justaposição, ou uma relaçãà qualqu.., _r, .._,</p><p>ligação fundamental. De facro, , ir"riao ào Ser surgirá</p><p>cada vez mais como um questionamento sobre o Aberto.</p><p>A aberrura define.o.Ser_cámo o que se escapa â si mesmo,</p><p>como ek-srase originário. O Ser, para Heiãegger, não é:</p><p>ele ek-siste. E, por isso que ele é ináap az der. ãlirr,rr. p"lo</p><p>seu nome e de dizer: <<eLr sou>>.</p><p>§ó9 A temporalidacle é a força expulsante pela qual o</p><p>ser se encontra fora de si. o ser ek-siste ek-sàsianáo-.",</p><p>,rrr unidade eksttítica da rcmporaliclade, or.r. seja, a uniclade d,</p><p>ser'-fora-de-si-mesmo nas fugas" tro por-uir, do ser-sido e cro</p><p>p,'esente, é a condiçao de possibilidade exigida para que unx ente</p><p>qtrc existe caTno 0 selt ,raí,,</p><p>possa se?>>. Ora, vimos no início da</p><p>analítica que o Dasein é ser-no_mrrrdo. po.t"rrto, ;;;"__</p><p>poralidade que o firndamenta. Ser no mundo é ser tempo-</p><p>ral. A análise da constituição temporal do ser no mundo</p><p>reduz-se, portanto, às questões seguintes: de que forma é</p><p>rlualquer coisa como o mundo possível? Em que sentido</p><p>o mundo..érr? O que transcende o mundo e como? Como</p><p>pode o ente interior ao mundo e independente estar</p><p>simultaneâmente em estreita dependência com o mundo</p><p>que o transcende? A interpretação temporal do ser no</p><p>mundo que constitui objecto deste parágrafo será com-</p><p>posta da seguinte forma:</p><p>a) a temporalidade da preocupação cir-cunspecta;</p><p>b) o sentido temporâl da preocupação cir-cunspecta;</p><p>c) o problema temporal da transcendência do</p><p>mundo.</p><p>a) A ternpor.alidade da preouEaçã.0 cir,-u.tnspecta, quotidiana</p><p>O ser do Dasein,já o dissemos, ek-siste, sai de si, para in-</p><p>sistir, entrar no mundo e habitá-lo. Sem abrigo, preocupado</p><p>em encontrar com que fabricar um habitat, ele apenas vê o</p><p>que lhe pode servir de utensílio. O seu primeiro contacto</p><p>com o mundo que o rodeia surgiu-nos sob a forma dum</p><p>lidar (Um.gang), consistindo em utilizar utensílios. Os</p><p>utensílios, entes à-mão, não estão nunca isolados, mâs em</p><p>ligação entre si. A relação do Dasein com os entes é, assim,</p><p>a de estar junto deles de forma preocupada. A preocupação</p><p>surgiu-nos como um elemento do cuidado. Ora, o cuidado</p><p>é fundamentado na temporalidade. Logo, a preocupação</p><p>deve resultar duma temporalização. Vejamos como.</p><p>Todo o ente susceptível de servir constitui objecto</p><p>dum atentar (Gezorirtigen) particular por pârte do Dasein</p><p>preocupado, na mira de todas as utilizações possíveis.</p><p>E clesta forma que o utensílio será tornado presente para</p><p>165</p><p>..l,lclr:rlrlrócs,, lrara traduzir o alernão Entriickungen (N. R.)</p><p>164</p><p>ser utilizado. Mas esta utilização pressupõe, por seu l:rcl.,</p><p>que o Dasein..retenha, aquilo parâ o quê esse utensílio jri</p><p>serviu. E certo que tudo</p>

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