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<p>Participação e</p><p>Controle Social na</p><p>Execução de Penas</p><p>Transparência, Controle e Participação</p><p>Enap, 2024</p><p>Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Diretoria de Desenvolvimento Profissional</p><p>SAIS - Área 2-A - 70610-900 — Brasília, DF</p><p>Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Diretoria de Desenvolvimento Profissional</p><p>Conteudista/s</p><p>Vanessa Elisabete Raue Rodrigues (Conteudista, 2024).</p><p>Módulo 1: Estado, direito e prisão ......................................................................... 4</p><p>Unidade 1: Pilares do Estado Democrático e a construção social dos direitos</p><p>fundamentais no Brasil ........................................................................................... 4</p><p>1.1 As bases históricas da pena de prisão ..................................................................... 4</p><p>1.2 As concepções de direito, a partir do Estado Moderno no contexto brasileiro ..... 11</p><p>Referências ...................................................................................................................... 29</p><p>Módulo 2: Participação social na execução de penas no Brasil .......................32</p><p>Unidade 1: A execução penal e as possibilidades de controle e participação da</p><p>sociedade civil ........................................................................................................ 32</p><p>1.1 Os responsáveis pela execução da prisão e o papel da ouvidoria ..................... 32</p><p>1.2 Controle e participação da Sociedade Civil: os Conselhos da Comunidade, Comitê</p><p>Nacional e comitês estaduais de prevenção e combate a tortura (Lei 12.847/13) e</p><p>outros ............................................................................................................................... 40</p><p>Referências ...................................................................................................................... 49</p><p>Módulo 3: Fortalecimento Institucional e da Advocacia na Prevenção à</p><p>Tortura .................................................................................................................... 51</p><p>Unidade 1: As Dinâmicas Institucionais e as Estratégias de Engajamento na</p><p>Promoção dos Direitos Humanos e Prevenção à Tortura .................................51</p><p>1.1 Análise das capacidades dos órgãos para colaborar na garantia de direitos,</p><p>prevenção e combate à tortura .................................................................................... 51</p><p>1.2 Monitoramento das recomendações dos Mecanismos Nacionais e Estaduais ........58</p><p>1.3 Proposição de Políticas Públicas na esfera de atuação dos comitês ................. 62</p><p>Referências ...................................................................................................................... 66</p><p>Sumário</p><p>4Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Módulo</p><p>Estado, direito e prisão1</p><p>Unidade 1 - Pilares do Estado Democrático e a construção</p><p>social dos direitos fundamentais no Brasil</p><p>Ao final desta unidade você será capaz de compreender os pilares do Estado</p><p>Democrático de Direito, a construção dos direitos fundamentais e o conceito</p><p>da pena de prisão no Brasil.</p><p>1.1 As bases históricas da pena de prisão</p><p>Planta da estrutura do Panóptico idealizado por Bentham</p><p>(desenho do arquiteto inglês Willey Reveley, 1791)</p><p>Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Panopticon.jpg?uselang=pt</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 5</p><p>O estudo da questão penitenciária e de seu caminho percorrido no desenvolvimento</p><p>da pena de prisão se estabelece a partir da compreensão do momento em que</p><p>algumas formas de punição deixaram de ser utilizadas e a privação da liberdade</p><p>se tornou uma possibilidade na organização da sociedade. Para tanto, considera-</p><p>se importante salientar que as origens da pena de prisão, segundo os autores</p><p>utilizados, perpassam períodos históricos distintos.</p><p>Num primeiro momento, as análises de Michel Foucault (2012), na obra “Vigiar e punir”,</p><p>demonstram o espaço penitenciário como um local de poder e de controle. O autor</p><p>apresenta a pena de prisão como modelo explicativo da pena relacionado à tecnologia</p><p>política do corpo num aparato de regras, com fins de disciplina e de adestramento.</p><p>Assim, o histórico do surgimento das prisões e da organização dos espaços prisionais</p><p>paralelos às modificações do cumprimento de pena, e estas às reorganizações</p><p>econômicas, leva em conta as estruturas físicas e as alterações na prática carcerária,</p><p>observando o aspecto jurídico penal proposto em cada período temporal.</p><p>Algumas vertentes teóricas da pena de prisão têm ainda como alicerces o trabalho,</p><p>aspectos econômicos, estratificação, controle social e marginalidade nesse contexto.</p><p>Dario Melossi e Massimo Pavarini (2010), no livro “Cárcere e fábrica”, promovem</p><p>uma revisitação para subsidiar teoricamente o surgimento da privação de liberdade</p><p>na Europa e Estados Unidos, como punição e reorganização do sistema de produção</p><p>e de suas relações com o mercado.</p><p>Já Georg Rusche e Otto Kirchheimer (2004), no livro “Punição e estrutura social”,</p><p>abordam a punição de prisão intimamente relacionada com a estratificação social,</p><p>representando um meio de assegurar o domínio de muitos pela obediência da lei.</p><p>Tais opções se destacam para explicar alguns aspectos do sistema prisional como</p><p>instituição social.</p><p>Segundo Melossi e Pavarini (2010), entre os séculos XVI e XVII, a pena eclesiástica</p><p>de clausura que, desde a Idade Média, era utilizada como penitência dos religiosos</p><p>e se baseava, estritamente, no isolamento para a reflexão, passou a assumir uma</p><p>composição manufatureira, criando as primeiras casas inglesas de correção e de</p><p>trabalho. Essa espécie de cárcere deixou de reunir religiosos e passou a retirar os</p><p>mendigos, as prostitutas, os vagabundos e os órfãos, ocupando-os do trabalho</p><p>forçado e criando um ambiente de disciplina ditado pela legislação.</p><p>Não se tratava de uma concepção completa da pena de prisão, mas estabelecia o</p><p>início de um processo que findaria, mais tarde, nessa proposta. Esse período foi</p><p>crucial para o surgimento da posterior pena de prisão. A relação socioeconômica</p><p>que se desenvolveu foi colocada ao trabalhador como uma necessidade de sua</p><p>dita liberdade. Contudo as estruturas desta relação, cada vez mais, forçaram às</p><p>condições que o levava à violência e que nem sempre era gerada pela possibilidade</p><p>de decisão, mas pela busca de suas necessidades básicas de sobrevivência.</p><p>6Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Esse contingente era categorizado pelas elites econômicas em dois extremos: a classe</p><p>trabalhadora e a classe perigosa, a que não trabalhava. As discussões seguintes</p><p>provêm dessa constatação de que, na história, a população excedente desloca-se</p><p>para o entendimento representativo de risco. Apesar desse encaminhamento na</p><p>pena, o habitual, para a maioria dos condenados até o século XVII, segundo Michel</p><p>Foucault, era receber como pena por seus crimes, infrações ou pecados, fosse qual</p><p>o título dado ao ato que estava em desacordo com a legislação imposta pela vontade</p><p>do soberano, as mais diversas e cruéis formas de suplício.</p><p>O castigo representava um pagamento em consequência do ato. Penas como</p><p>tortura, seguidas ou não de morte, mutilações, açoites, confisco de bens, multas,</p><p>humilhações públicas, degredo (exílio), trabalhos forçados e outros serviam como</p><p>tentativa de promover o entendimento de que a punição era o resultado de um</p><p>comportamento não condizente com que se esperava.</p><p>A privação da liberdade acontecia para evitar a fuga do condenado até que se</p><p>definisse a pena ou o momento dela. Esse encarceramento era um castigo da</p><p>psique enquanto aguardava o suplício, contudo os espaços também representavam</p><p>o castigo do corpo, pois serviam como parte desse suplício. As masmorras e os</p><p>porões eram sempre escuros, insalubres e desprovidos de alimentos ou água.</p><p>Desse “limbo” provido pelo condicionamento da decisão de uma pena e das</p><p>abordagens de trabalho, no século XVIII, inicialmente na Europa, a pena tornou-se</p><p>uma</p><p>da política penitenciária. O Departamento</p><p>Penitenciário Nacional é subordinado ao Ministério da Justiça, representando apoio</p><p>administrativo e financeiro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciário.</p><p>Além disso, suas atribuições se estendem, com os seguintes objetivos de acompanhar</p><p>a fiel aplicação das normas de execução penal em todo o Território Nacional;</p><p>inspecionar e fiscalizar periodicamente os estabelecimentos e serviços penais; assistir</p><p>tecnicamente às Unidades Federativas na implementação dos princípios e regras</p><p>estabelecidos nesta Lei; colaborar com as Unidades Federativas mediante convênios,</p><p>na implantação de estabelecimentos e serviços penais; colaborar com as Unidades</p><p>Federativas para a realização de cursos de formação de pessoal penitenciário e de</p><p>ensino profissionalizante do condenado e do internado; e estabelecer, mediante</p><p>convênios com as unidades federativas, o cadastro nacional das vagas existentes</p><p>em estabelecimentos locais destinadas ao cumprimento de penas privativas de</p><p>liberdade aplicadas pela justiça de outra unidade federativa, em especial para presos</p><p>sujeitos a regime disciplinar. Além disso, foi incluído pela Lei nº 10.792/03, coordenar</p><p>e supervisionar os estabelecimentos penais e de internamento federais.</p><p>É a legislação local que definirá a necessidade de criar ou não um Departamento</p><p>Penitenciário local. Suas atribuições, contudo, são estabelecidas pela Lei de</p><p>Execuções Penais, observando a supervisão e coordenação dos estabelecimentos</p><p>penais do Estado ao qual pertence.</p><p>A tutela direta do cumprimento de pena de prisão é feita nos estabelecimentos</p><p>penais e coordenada, sob responsabilidade do Departamento Penitenciário local,</p><p>por outro integrante previsto como responsável pela Lei de Execuções Penais: o</p><p>diretor de estabelecimento penal.</p><p>Os requisitos para ocupar este cargo também estão constantes na lei, configurados</p><p>pela formação, experiência e ética profissional. Para ocupar o cargo de diretor é</p><p>necessário ser graduado em Direito, Psicologia, Ciências Sociais, Pedagogia ou</p><p>Serviços Sociais. Além disso, é preciso comprovar experiência administrativa na</p><p>área e possuir idoneidade moral. Estes aspectos são critérios para seleção do gestor</p><p>prisional que deverá dedicar-se integralmente à função a que foi designado.</p><p>O Departamento Penitenciário local tem, ainda, a tarefa de prover o Quadro do</p><p>Pessoal Penitenciário, organizado pelas mais diferentes funções, dentre elas a</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 35</p><p>chefia e assessoramento de segurança e técnico do estabelecimento penal como</p><p>Agentes Penitenciários, Serviço Social, Pedagogia, Enfermagem, Psicologia. Nos</p><p>estabelecimentos de tutela de mulheres são permitidas somente quadro de pessoal</p><p>feminino, com exceção do técnico, no caso de profissionais masculinos que fazem</p><p>parte do grupo de profissionais de atendimento nesta área.</p><p>Quanto à execução da pena em regime aberto e condicional, é citado o órgão de</p><p>execução penal intitulado de Patronato, o qual é responsável pelos presos albergados</p><p>e egressos, orientando-os no cumprimento da pena e na fiscalização da prestação</p><p>de serviços.</p><p>Outro coletivo apresentado na legislação penal é o Conselho da Comunidade.</p><p>Cada comarca deverá instigar a formação de um Conselho que será composto, no</p><p>mínimo, por uma pessoa representante da associação comercial ou industrial da</p><p>localidade, um profissional de advocacia pertencente à Ordem dos Advogados, um/</p><p>uma Defensor Público e um/uma Assistente Social.</p><p>Tais atividades são delineadas como uma forma de participação da Comunidade na</p><p>reintegração da pessoa privada de liberdade com vistas a um maior envolvimento na</p><p>defesa dos direitos. A maioria das ações circula ao redor das necessidades de recursos</p><p>materiais e humanos, fato que estabelece nestes conselhos um certo compromisso</p><p>direto quanto às Unidades com maiores carências, seja pela superlotação ou pelo</p><p>atendimento das necessidades básicas do encarceramento.</p><p>A Defensoria Pública também é uma das instâncias que regula a execução penal,</p><p>acompanhando o processo de execução da pena de prisão e atuando em defesa</p><p>daqueles que necessitam de seu auxílio, seja individual ou coletivamente. Além de</p><p>fazer parte do Conselho, este segmento tem a incumbência de requerer providências</p><p>quanto a procedimentos do Poder Executivo, quanto a incidentes e desvios de função;</p><p>conversão, extinção, unificação, detração, comutação e remição de penas; aplicação,</p><p>revogação e substituição de medidas de segurança, além da progressão de regimes</p><p>em aberto e condicional e suspensão destes. A competência também se estende</p><p>aos pedidos de indulto e autorização temporária, internações e desinternações,</p><p>transferências e remoções para outras comarcas, solicitações de atestados de pena</p><p>e interposições de recursos de decisões judiciais durante a execução.</p><p>A visita periódica deste órgão é prevista na legislação, elencando algumas</p><p>competências ligadas indiretamente ao preso. Assim, as responsabilidades se</p><p>referem, ainda, a questões administrativas institucionais como representação do</p><p>Juiz de Execução Penal na instauração de procedimentos de investigação quanto à</p><p>violação das normas, participando de sindicâncias ou procedimento administrativos;</p><p>e em visitas a estabelecimentos penais, requerendo, inclusive, a interdição do</p><p>todo ou parte, em caso da identificação de inadequações no seu funcionamento,</p><p>apurando responsabilidades.</p><p>36Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Outro órgão com papel muito importante na prevenção e combate à tortura é a</p><p>Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, responsável pelo recepcionamento,</p><p>tratamento, encaminhamento e monitoramento das denúncias e reclamações</p><p>sobre violações de Direitos Humanos. Essa instância também coordena as ações</p><p>que visam à orientação em graves casos de violação de Direitos Humanos.</p><p>É possível perceber que existe uma multifacetada rede de envolvidos na administração</p><p>penal e sua influência no processo de progressão da pena. Em um contexto onde</p><p>a gestão do sistema prisional é crucial, é evidente que uma diversidade de atores</p><p>desempenham papéis fundamentais. Desde juízes e promotores até agentes</p><p>penitenciários e assistentes sociais, cada um contribui de maneira única para a</p><p>elaboração e execução das Políticas Públicas Penitenciárias.</p><p>No infográfico a seguir podemos compreender melhor como esses agentes</p><p>interagem e influenciam o panorama da justiça.</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 37</p><p>Responsáveis pela Execução Penal</p><p>Fonte: adaptado de https://www.canva.com</p><p>https://www.canva.com/design/DAFY-B4FEwU/AdBXntcH8Ob-_4HJ_zPGFg/edit?utm_content=DAFY-B4FEwU&utm_campaign=designshare&utm_medium=link2&utm_source=sharebutton</p><p>38Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Responsáveis pela Execução Penal</p><p>Fonte: adaptado de https://www.canva.com</p><p>No dia 23 de junho de 2023 foi realizado o encontro de reativação</p><p>do SNPCT – Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Violência</p><p>e à Tortura. SNPCT é composto, de modo permanente:</p><p>• pelo Comitê Nacional de Prevenção e Combate à</p><p>Tortura (CNPCT);</p><p>• pelo Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à</p><p>Tortura (MNPCT); ambos criados pela Lei n° 12.847 de</p><p>2 de agosto de 2013 e regulamentado pelo decreto n°</p><p>8.154, de 16 de dezembro de 2013.</p><p>O SNPCT é composto também:</p><p>• pelo Conselho Nacional de Política Criminal e</p><p>Penitenciária (CNPCP) cujas atribuições estão previstas</p><p>no art. 64 da Lei de Execução Penal - LEP, Lei 7.210</p><p>de 1984, este conselho é formado por profissionais</p><p>da área jurídica, professores e representantes da</p><p>sociedade civil</p><p>https://www.canva.com/design/DAFY-B4FEwU/AdBXntcH8Ob-_4HJ_zPGFg/edit?utm_content=DAFY-B4FEwU&utm_campaign=designshare&utm_medium=link2&utm_source=sharebutton</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 39</p><p>• pelo Departamento Penitenciário Nacional do</p><p>Ministério da Justiça (DEPEN/MJSP) cujas competências</p><p>foram estabelecidas nos art. 71 e art.</p><p>72 da LEP.</p><p>Estavam presentes todos os membros natos do SNPCT e também,</p><p>diversas instituições da Sociedade Civil Organizada. Foi reforçado</p><p>pelo Ministro de Estado, Silvio Almeida, não haver conflitos entre</p><p>o Ministério de Direitos Humanos e Cidadania e Ministério da</p><p>Justiça e Segurança Pública. E esclareceu que a reativação do</p><p>SNPCT se fez necessária tendo em vista o atual cenário de graves</p><p>violações do Sistema Prisional Brasileiro. Foi enfatizado também:</p><p>• A superlotação carcerária é uma violação de direitos;</p><p>• O desencarceramento está na agenda de combate à</p><p>tortura;</p><p>• O SNPCT representa a presença de um colegiado que</p><p>prima pela centralidade democrática e integrada</p><p>entre atores diversos do sistema;</p><p>• A necessidade de ampliar a presença da Defensorias</p><p>Públicas no Sistema Prisional e, inclusive, conduzir o</p><p>mapeamento do déficit de defensores;</p><p>• A necessidade de que o Ministério Público reveja sua</p><p>participação nos casos de denúncias de tortura;</p><p>• Visibilização do impacto orçamentário das políticas</p><p>criminais;</p><p>• Imperativo de rever as políticas de trabalho e</p><p>educação no sistema prisional e, inclusive, ampliar</p><p>os convênios com instituições de ensino superior,</p><p>com disponibilidade de vagas para que a população</p><p>carcerária possa estudar.</p><p>Diferente da impressão que se tem pela divulgação da mídia, existem parâmetros e</p><p>segmentos de fiscalização no cumprimento destas políticas. A lei prevê um sistema</p><p>de elaboração e procedimentos na execução de pena. Todavia, na prática, as prisões</p><p>brasileiras são consideradas um problema social sem responsáveis ou, muitas</p><p>vezes, os sujeitos que cumprem a pena são responsabilizados pelas mazelas da</p><p>sua própria tutela. Qualquer segmento falho neste processo não é identificado no</p><p>40Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>abandono intitulado pena de prisão no Brasil.</p><p>Porém, um segmento que se destaca e que, na maior parte das vezes, é responsabilizado</p><p>pelo espetáculo vergonhoso da violência gerada nas prisões, não está na LEP, está nas</p><p>ruas: a organização criminosa. Legitimada, em muitas reivindicações, pelas carências</p><p>na tutela da pena, a organização criminosa cresce enquanto o Estado falha. Este</p><p>segmento é o enfrentamento de um Estado que não consegue regular suas próprias</p><p>exigências. Um Estado que parece não ter sujeitos, uma espécie de ser inalcançável</p><p>que viola direitos sem ser responsabilizado (PINASSI, 2009).</p><p>Dessa maneira, as condições de superlotação e espaços insalubres que violam a</p><p>dignidade humana nada mais são do que reflexo daquilo que está fora das prisões,</p><p>as quais encontram violações que, na maioria das vezes, também não “têm”</p><p>responsáveis. A violência dentro da prisão é delegada a grupos de criminosos que,</p><p>muitas vezes, não têm rostos ou nomes. Estes se privilegiam das condições de</p><p>violações do cárcere para conseguir mais adeptos. No entanto, não tem objetivo de</p><p>romper com o Estado, não busca nenhuma ruptura hierárquica, pois se beneficia</p><p>com a lógica capitalista, emergindo com uma massa de sujeitos presos. A ausência</p><p>dos responsáveis, citados pela lei, pode ser uma das lacunas que favorecem a</p><p>organização criminosa e o cenário prisional atual (PINASSI, 2009).</p><p>O documentário, intitulado “Justiça”, foi lançado em 2004 e dirigido por Maria Augusta</p><p>Ramos. Mostra o cotidiano dos funcionários do Poder Judiciário, mais precisamente</p><p>do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, bem como expõe as mazelas e a situação</p><p>precária do sistema carcerário brasileiro.</p><p>Documentário Justiça</p><p>Fonte: https://youtu.be/KqycXw3BSYE</p><p>1.2 Controle e participação da Sociedade Civil: os Conselhos</p><p>da Comunidade, Comitê Nacional e comitês estaduais de</p><p>prevenção e combate a tortura (Lei 12.847/13) e outros</p><p>Os segmentos de controle e participação da sociedade civil são destaques singulares</p><p>referente à execução penal. Na referência dos responsáveis pela execução da pena</p><p>de prisão, quatro coletivos foram evidenciados: os Departamentos Penitenciários</p><p>Estaduais ligados à Secretaria de Segurança Pública, Administração Penitenciária</p><p>ou Justiça, enquanto Poder Executivo; a Vara de Execuções Penais, representando</p><p>https://youtu.be/KqycXw3BSYE</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 41</p><p>o Judiciário; e os Conselhos da Comunidade, com a participação da sociedade civil.</p><p>Quanto a esse último, segundo o relatório “Os Conselhos da Comunidade no Brasil”,</p><p>publicado pelo Conselho Nacional de Justiça, em 2021, é extremamente importante</p><p>a participação da sociedade civil na execução penal, reconhecendo o Conselho da</p><p>Comunidade como um órgão muito importante no fortalecimento dos mecanismos</p><p>de assistência, comunicação e defesa dos direitos das pessoas privadas de liberdade.</p><p>Segundo a autora Adriana Raquel Ferreira Costa Oliveira na dissertação intitulada</p><p>“A participação da sociedade civil na construção da política de prevenção e combate</p><p>à tortura no Brasil”, defendida em 2021, a participação da sociedade civil no</p><p>Brasil é destacada com previsões normativas e do surgimento de novos arranjos</p><p>institucionais, a partir da Constituição Federal. Na Carta Magna, evidencia-se, no</p><p>art. 204, referenciando a “participação da população, por meio de organizações</p><p>representativas, na formulação das políticas das e no controle das ações em todos</p><p>os níveis.” Assim, entende-se que a sociedade civil não pode representar a única</p><p>responsável pela manutenção do Estado democrático, mas é determinante na</p><p>criação de mecanismos de suas garantias de direitos.</p><p>O Plano Nacional de Direitos Humanos III prevê um diálogo entre Estado e sociedade</p><p>civil, o qual assume especial relevância no entendimento e preservação dos distintos</p><p>papéis de cada segmento no processo de gestão. Nele, explicita-se que é necessária</p><p>a interação entre os diversos órgãos do Estado e a sociedade civil com vistas a</p><p>resultados práticos para implementação e monitoramento das políticas públicas.</p><p>A autora Marianna Moura Gonçalves, nos fala no artigo “Os Conselhos Penitenciários,</p><p>os Conselhos da Comunidade e a Gestão Democrática dos presídios”, publicado</p><p>no livro “Criminologia no Brasil: história e aplicações clínicas e sociológicas”, em</p><p>2010, cujos coordenadores foram o psicólogo Alvino Augusto de Sá (falecido em</p><p>2019), o advogado Davi Paiva Costa Tangerino e o advogado e ex-presidente do</p><p>Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária Sérgio Salomão Shecaira;</p><p>que os delineamentos do processo penal na atualidade, têm o compromisso de</p><p>jurisdicionalizar a execução penal, imunizando a gestão das penas das ingerências</p><p>políticas e/ou burocráticas, tentando superar o cárcere como punição.</p><p>O Conselho da Comunidade é um órgão que se estrutura a partir da Lei n. 6.416/77,</p><p>contudo foi a partir da Lei de Execuções Penais n. 7.210/84 que recebe a estrutura e</p><p>atribuições atuais, definidas nos dispostos dos artigos 80 e 81. Tem como perspectiva</p><p>a colaboração da sociedade civil na reintegração das pessoas privadas de liberdade,</p><p>acompanhando e zelando pelas assistências na execução das penas. Em tal legislação</p><p>define-se que a composição do Conselho deve ter um representante de associação</p><p>comercial ou industrial; um advogado, indicado pela Ordem dos Advogados do Brasil</p><p>e um assistente social, indicado pela Delegacia Seccional do Conselho Nacional de</p><p>Assistentes Sociais.</p><p>42Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Segundo Gonçalves, no artigo já identificado, essa estrutura orgânica reflete a</p><p>preocupação com o caráter técnico nas manifestações, além do diálogo com</p><p>diferentes olhares no processo de reintegração social. Todavia, é preciso destacar</p><p>que se trata de um quadro mínimo, não restringido na legislação, permitindo</p><p>a participação de outros segmentos da sociedade. Segundo o artigo 66, da Lei</p><p>de Execuções Penais, cabe ao juiz ou juíza da Vara de Execuções Penais, compor</p><p>e instalar um Conselho da Comunidade, podendo ainda ser composto pelo juízo</p><p>criminal. A instalação acontece por uma Portaria Judicial, à qual se segue</p><p>a posse</p><p>dos conselheiros e conselheiras.</p><p>Essa descentralização da ordem constitucional configura uma articulação de</p><p>forças locais na colaboração para a implementação das políticas públicas sociais</p><p>no campo prescrito. Assim, em todo o Brasil, dentre outras ações, conselheiros</p><p>visitam os estabelecimentos penais das suas Comarcas, fiscalizando e aproximando</p><p>a comunidade à realidade do encarceramento. Procuram, ainda, entrevistar</p><p>condenados e condenadas, buscando desvelar a realidade carcerária de forma</p><p>legítima, dando voz a quem está preso, estabelecendo a posição de interlocutores</p><p>de suas reivindicações.</p><p>Quanto à distribuição territorial dos Conselhos da Comunidade no país, o relatório</p><p>“Os Conselhos da Comunidade no Brasil”, relata a existência de diferenças regionais</p><p>na origem e organização desses coletivos, contendo 404 Conselhos que atendem</p><p>2819 Unidades penais em 2960 Comarcas, sendo 197 somente na Região Sul. As</p><p>comarcas são grupos de municípios e distritos que recebem o nome de cidade sede.</p><p>Para criação de uma comarca são necessários alguns critérios como: tamanho da</p><p>população e número de eleitores, renda tributária no desenvolvimento econômico</p><p>para criação de um município; a distribuição de feitos no movimento forense anual;</p><p>além de prédio apropriado e profissionais. Esta mesma condição é estabelecida</p><p>para criação das Varas. Ela corresponde ao território em que o juiz de primeiro grau</p><p>irá exercer sua jurisdição, podendo ter a abrangência de mais de um município.</p><p>Em relação às atribuições, Gonçalves aponta que a presença da sociedade civil nesses</p><p>espaços representa um instrumento de reversão do fenômeno da prisionização,</p><p>reduzindo os danos da alienação social e de esquecimento da pessoa privada de</p><p>liberdade. O canal de diálogo entre esse coletivo e a comunidade, estabelece uma</p><p>relação de empatia e deferiu à sociedade civil uma responsabilidade sobre o controle</p><p>social. Pode, ainda, dialogar, com os Conselhos Penitenciários e demais órgãos da</p><p>execução penal, instigando uma ação conjunta para o cumprimento da legislação.</p><p>Ainda quanto às atribuições, o órgão tem a missão de angariar recursos materiais para</p><p>a adequação ou melhoria na assistência no âmbito de cumprimento de pena. Diante</p><p>da superlotação e do sucateamento das instituições públicas, essa parceria torna</p><p>as ações concretas e fundamentais no sistema penitenciário nacional. Contudo, é</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 43</p><p>importante destacar que, embora seja uma entidade de direito público, o Conselho da</p><p>Comunidade não possui dotação pública orçamentária e poder postulatório, sendo</p><p>utilizado o procedimento de constituição dos Conselhos dotados de personalidade</p><p>jurídica de direito privado, por meio da utilização de um Cadastro Nacional de Pessoa</p><p>Jurídica (CNPJ), solucionando os entraves para obtenção e captação de recursos.</p><p>Como personalidade jurídica, algumas normas se estabelecem como escolha de</p><p>diretoria e composição de conselho fiscal. O objetivo do conselho fiscal é fiscalizar</p><p>as ações praticadas, opinando sobre as contas da organização.</p><p>Quanto à preocupação para a atuação desse coletivo, segundo o ministro do Supremo</p><p>Tribunal Federal, Luiz Fux, no relatório de 2021, do Conselho Nacional de Justiça, no</p><p>âmbito do Programa Fazendo Justiça, são urgentes a qualificação de conselheiras e</p><p>conselheiros e o estímulo à instituição de novos Conselhos, com vistas a conceber</p><p>e implantar estratégias para fortalecer a participação social e definir uma maior</p><p>transparência na execução das penas e na gestão dos serviços nessa área.</p><p>Essa iminente necessidade justifica-se pelo cenário do sistema</p><p>carcerário no país, o qual, pelo Levantamento de Informações</p><p>Penitenciárias, de 2019, sinalizou o encarceramento de quase um</p><p>milhão de brasileiros, vivendo à margem dos direitos previstos</p><p>pela lei, dentro dos espaços de cárcere. Uma população prisional</p><p>que é a terceira maior do mundo. Tal condição é agravada pelo</p><p>déficit de vagas, com muitos estabelecimentos operando com</p><p>capacidade muito acima do que poderiam abrigar seres humanos.</p><p>Outro aspecto importante evidenciado, é a arquitetura prisional, observando que essa</p><p>está diretamente relacionada ao conceito de pena no Brasil. Um espaço superlotado</p><p>e em más condições ou adaptado, representa um descaso pela falha na aplicabilidade</p><p>da lei, além de não garantir as condições mínimas de sobrevivência. A superlotação</p><p>prejudica a estrutura física dos ambientes de convivência e reflete na dificuldade de</p><p>prover a assistência no atendimento a itens básicos como higiene e alimentação.</p><p>A segregação, as ausências dos direitos sociais, a superlotação e a imprevisibilidade</p><p>de mudança desse cenário, podem provocar comportamentos, cada vez, mais</p><p>violentos, desconfigurando o discurso da pena, num efeito cíclico. Suzann Cordeiro,</p><p>no livro “Até quando faremos relicários? A função social do Espaço Penitenciário”,</p><p>publicado em 2010, denúncia que, diante dessa deterioração das estruturas</p><p>prisionais, muitas pessoas privadas de liberdade dormem no chão de suas celas,</p><p>alguns perto de banheiro e buracos do esgoto, convivendo com insetos e roedores.</p><p>No entanto, a situação pode piorar ainda mais. Em espaços mais do que superlotados,</p><p>nem mesmo o chão é livre, levando seres humanos a serem amarrados às grades ou</p><p>44Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>pendurados em redes para poderem descansar. O espaço físico e a provisão básica</p><p>se torna uma luta, condição que repercute na exploração e opressão entre as pessoas</p><p>privadas de liberdade. Essa situação se agrava frente à omissão e vulnerabilidade</p><p>do gênero feminino nestes ambientes, observando que menos de 10% das prisões</p><p>são destinadas ao gênero feminino, sendo a maioria mista, com celas femininas em</p><p>estabelecimentos masculinos. Além disso, não é por acaso, que estar preso é sinônimo</p><p>de adoecer, visto que o contágio de doenças infectocontagiosas têm seus índices</p><p>ampliados pela falta de condições sanitárias, dificuldade de isolamento e falta de</p><p>atendimento para um público em constante crescimento, muitas delas levando a morte.</p><p>A ausência dos direitos para as pessoas privadas de liberdade, desvela-se como uma</p><p>reprodução dos direitos negados fora da prisão. No entanto, de forma mais violenta.</p><p>O espaço coercitivo, as condições precárias, enfim a organização prisional, reafirmam</p><p>a ordem social vigente e sua dinâmica. Diante dessas perspectivas, fica muita difícil</p><p>imaginar condições de uma efetiva reinserção sem apoio da sociedade civil, uma</p><p>vez que, em regra, ações voltadas para a escolarização, a inserção no mercado de</p><p>trabalho, atendimento social e de saúde são escassas – ou mesmo ausentes – nas</p><p>unidades prisionais. A contenção toma como o objetivo a eliminação física.</p><p>Com efeito, as condições desse isolamento e da própria prisão na totalidade, tendem</p><p>a dificultar e enfraquecer os vínculos familiares. As penas se estendem a pais, mães,</p><p>filhos, filhas, esposos e esposas, pela vivência de seu familiar. Sem um vínculo forte</p><p>com o mundo exterior, a pessoa privada de liberdade enfrenta um cotidiano de</p><p>duplo encarceramento, com vulnerabilidades sociais evidenciadas, num processo</p><p>de exclusão cada vez mais acentuado.</p><p>O cenário apresentado é um grande desafio para todos os responsáveis pela tutela</p><p>penal, mas ele é mais pontual, quando se observa a resistência de diferentes setores</p><p>da sociedade civil em reconhecer os direitos das pessoas privadas de liberdade</p><p>como legítimos.</p><p>Mas como mudar essa visão carregada de estigmas e lutar contra</p><p>todas as violações de direitos nos espaços de cárcere?</p><p>Algumas mudanças foram discutidas, desde o I Encontro Nacional dos Conselhos da</p><p>Comunidade, que aconteceu em 2012, em Brasília, onde se reuniram representantes</p><p>de Conselhos da Comunidade de todos as unidades da federação e do Distrito Federal,</p><p>representantes de associações de familiares e amigos de pessoas presas, de conselhos</p><p>penitenciários estaduais, de conselhos</p><p>profissionais, de comitês de combate à tortura,</p><p>de ouvidorias estaduais do sistema penitenciário, de ONGs e de movimentos sociais,</p><p>egressos, profissionais do Sistema de Justiça, da Saúde, da Educação e da Assistência</p><p>Social, entre outras áreas, pesquisadores, autoridades e pessoas da comunidade.</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 45</p><p>Dentre as proposições foram apresentadas algumas muito importantes para discussão</p><p>em pauta, como a necessidade de implementação de um mecanismo nacional e os</p><p>mecanismos estaduais de prevenção e combate à tortura, de maneira que funcionem</p><p>de forma autônoma e sem vínculos com órgãos do Poder Executivo, garantindo a</p><p>permanência dos Conselhos de Comunidade nesses Comitês; a preocupação com</p><p>a capacitação dos e das integrantes dos Conselhos da Comunidade para poderem</p><p>lidar com o problema da tortura, que se garanta a participação dos Conselhos da</p><p>Comunidade nos comitês de prevenção e combate à tortura; a criação de ouvidorias</p><p>estaduais do sistema penitenciário, externas e independentes, com membros das</p><p>organizações da sociedade civil atuantes, que tenham militância histórica reconhecida</p><p>pela sociedade local. Tais ações vêm se configurando ao longo dos anos, mas ainda há</p><p>muito o que fazer para a garantia efetiva da participação social e do controle externo</p><p>do sistema penal pela sociedade civil.</p><p>No entanto, o ápice das discussões aconteceu, a partir da Lei Federal n.º 12.847/2013,</p><p>sobre o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, que, segundo autora</p><p>Adriana Raquel Ferreira Costa Oliveira, na dissertação de mestrado intitulada “A</p><p>participação da sociedade civil na construção da política de prevenção e combate à</p><p>tortura no Brasil”, instala-se frente a uma demanda reivindicada a quase uma década</p><p>pelas organizações da sociedade civil, que promoveram mobilizações e articulações</p><p>com vistas à defesa de direitos humanos e combate à tortura. Considera-se o art. 3º</p><p>da Lei n.º 12.847/2013, entende-se como pessoa encarcerada:</p><p>II - pessoas privadas de liberdade: aquelas obrigadas, por mandado ou ordem de</p><p>autoridade judicial, ou administrativa, ou policial, a permanecerem em determinados</p><p>locais públicos ou privados, dos quais não possam sair de modo independente</p><p>de sua vontade, abrangendo locais de internação de longa permanência, centros</p><p>de detenção, estabelecimentos penais, hospitais psiquiátricos, casas de custódia,</p><p>instituições socioeducativas para adolescentes em conflito com a lei e centros de</p><p>detenção disciplinar em âmbito militar, bem como nas instalações mantidas pelos</p><p>órgãos elencados no Art. 61 da Lei n.º 7.210, de 11 de julho de 1984.</p><p>A prática de tortura se refere a todas as instituições de privação de liberdade, como</p><p>prisões, unidades do sistema socioeducativo, hospitais psiquiátricos, e asilos, entre</p><p>outros. Essas práticas muitas vezes visam a obtenção de informações, confissões ou</p><p>como forma de punição.</p><p>46Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Assim, o Mecanismo Nacional, dentro de sua área de atuação, deve se dedicar à</p><p>prevenção de qualquer medida, prática, dinâmica, relação, estrutura, norma ou</p><p>política que possa facilitar a prática de tortura ou de outros tratamentos cruéis,</p><p>desumanos e degradantes.</p><p>O sistema é composto por dois órgãos, criados na mesma lei: o Comitê Nacional de</p><p>Prevenção e Combate a Tortura e o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate a</p><p>Tortura e o Conselho Nacional de Política Criminal – MNPCT - e Penitenciária(CNPCP)</p><p>e do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN).</p><p>O Comitê Nacional de Prevenção e Combate a Tortura é órgão colegiado composto por</p><p>23 membros, sendo 11 representantes do poder público e 12 da sociedade civil, cuja</p><p>atribuição é avaliar a política de prevenção e combate à tortura no país; apoiar a criação</p><p>de comitês e mecanismos estaduais e participar na implementação das recomendações</p><p>do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate a Tortura. Já o Mecanismo Nacional</p><p>de Prevenção e Combate a Tortura é formado por uma equipe de 11 peritos ou peritas,</p><p>escolhidos ou escolhidas pelo comitê em questão, com caráter preventivo, adentrando</p><p>em qualquer espaço onde haja pessoas privadas de liberdade. Além desses órgãos, a</p><p>atuação em rede com o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP)</p><p>e o órgão do Ministério Extraordinário da Segurança Pública (MESP) responsável pelo</p><p>sistema penitenciário nacional, foram considerados essenciais.</p><p>O Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura deve ser integrado aos</p><p>Comitês e Mecanismos Estaduais e Distrital de Prevenção e Combate à Tortura.</p><p>Assim, os estados, ao aderirem ao Pacto Federativo para Prevenção e Combate à</p><p>Tortura, estados e Distrito Federal, se comprometem a criar comitês e mecanismos</p><p>e criar Plano Estadual ou Distrital de Prevenção e Combate à Tortura. Desse modo,</p><p>a Lei 12.847/2013, cita, no art. 2º, § 2º, que outras entidades poderão compor o</p><p>sistema, mesmo que sua participação não seja obrigatória. Dentre elas, estão os</p><p>Comitês e mecanismos estaduais e distrital de prevenção e combate à tortura e os</p><p>Conselhos da comunidade e conselhos penitenciários estaduais e distrital.</p><p>Nesse contexto, estabelecem-se ações de controle e participação social. Segundo</p><p>o Informe intitulado Subsídios à Missão do subcomitê das Nações Unidas para</p><p>Prevenção da Tortura (SPT) ao Brasil, de fevereiro de 2022, publicado pelo Conselho</p><p>Nacional de Justiça, o controle e participação social, na abordagem penal, são</p><p>compreendidas como todas as ações criadas pelo vínculo entre os estabelecimentos</p><p>prisionais e a sociedade civil. Essas ações podem ser implementadas nas rotinas da</p><p>gestão prisional, pelos entes e instâncias de controle e fiscalização, das inspeções</p><p>judiciais e ministeriais e das visitas de monitoramento legalmente previstas, como os</p><p>Conselhos da Comunidade, Conselhos de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos,</p><p>dos Conselhos Penitenciários e dos Comitês de Combate à Tortura, com vistas à</p><p>criação ou fortalecimento na luta pela defesa e garantia dos direitos humanos.</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 47</p><p>Algumas boas práticas dos estados em prol da superação das condições do cárcere</p><p>merecem visibilidade.</p><p>As Organizações da Sociedade Civil, pelo Decreto 8.726/2016,</p><p>que regulamentou a Lei 13.019/2014, conhecida como Marco</p><p>Regulatório das OSCs, passaram a fazer parte do Cadastro Nacional</p><p>de Participação Social na Execução Penal. Esse documento é uma</p><p>interface do Mapa das Organizações da Sociedade Civil, o qual foi</p><p>desenvolvido a partir da experiência exitosa da maior plataforma</p><p>virtual de transparência pública colaborativa com dados das</p><p>Organizações Sociais (OSCs) de todo o Brasil. A partir da perspectiva</p><p>de atuações coletivas e intersetoriais, com tecnologias sociais</p><p>inovadoras que favoreçam o envolvimento da sociedade civil no</p><p>processo de execução da pena e na reintegração social de pessoas</p><p>em privação de liberdade e egressas do sistema prisional.</p><p>Quanto a iniciativas em relação ao espaço prisional, dentre as ações exitosas, um</p><p>exemplo consta no site do Conselho Nacional do Ministério Público – CNMP, nas</p><p>ações da Comissão do Sistema Prisional Controle Externo da Atividade Policial e</p><p>Segurança Pública, apresenta as boas práticas dos anos de 2015 a 2021. Dentre as</p><p>ações das Boas Práticas em Sistema Prisional, estão o Programa “A Academia Vai</p><p>ao Cárcere”, desenvolvido pela Unidade de Monitoramento e Execução da Pena e</p><p>da Medida de Segurança - UMEP, Universidade Salvador- UNIFACS e Secretaria de</p><p>Administração Prisional do Estado da Bahia – SEAP. O programa visa promover a</p><p>integração entre órgãos institucionais e sociedade civil organizada, para a melhoria</p><p>do sistema prisional baiano, proporcionando a elaboração de projetos e ações</p><p>transversais de impacto relevante na realidade carcerária. As ações vão desde</p><p>cursos de cidadania e direitos humanos, ministrados por alunos do curso de Direito</p><p>até Montagem</p><p>de peça teatral produzida pelo Diretor de Teatro e psicólogo, Paulo</p><p>Prazeres, encenando a releitura do livro homônimo de Vitor Hugo, numa reflexão</p><p>sobre a pena e a receptividade da sociedade em relação a um egresso.</p><p>A partir do explanado, percebe-se que várias iniciativas foram lançadas, contudo,</p><p>muito tem que ser feito para reparar os danos causados pelas condições históricas</p><p>da pena de prisão. A reflexão proposta permitiu compreender a lógica nas práticas</p><p>da articulação e implementação das políticas públicas e a atuação entre os órgãos</p><p>governamentais e organizações da sociedade civil, com vistas à participação social</p><p>na prevenção e combate à tortura, pautadas, principalmente, nas trocas e difusão</p><p>de boas práticas e experiências exitosas.</p><p>48Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Para saber mais sobre Programa “A Academia Vai ao Cárcere”,</p><p>acesse o link https://www.cnmp.mp.br.</p><p>Conheça um pouco mais sobre a prevenção e combate à tortura, assistindo à mesa</p><p>redonda intitulada “Modelos e Instrumentos Normativos para Prevenir a Tortura”</p><p>com a participação de Ionara Fernandes (Mecanismo Estadual de Prevenção e</p><p>Combate à Tortura do RJ), Sylvia Dias (Associação de Prevenção à Tortura), Romero</p><p>Silva (Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares – GAJOP), Alessandra</p><p>Félix (Coletivo Vozes e Frente pelo Desencarceramento) e mediação de Fábio Mallart</p><p>(UERJ). A mesa faz parte do Seminário Caminhos e Descaminhos da prevenção à</p><p>tortura do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP)</p><p>e buscou discutir a Política do Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura</p><p>e sua efetividade diante do cenário do governo de 2022.</p><p>Mesa redonda 2: Modelos e Instrumentos Normativos para</p><p>Prevenir a Tortura</p><p>Fonte: https://youtu.be/Pb7xnwJzYYY</p><p>https://www.cnmp.mp.br/portal/images/</p><p>Comissoes/CSP/projetos-boas-praticas/sistema-prisional/A_Academia_Vai_ao_C%C3%A1rcere/2._Apresenta%C3%A7%C3%A3o_do_projeto.pdf</p><p>https://youtu.be/Pb7xnwJzYYY</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 49</p><p>Referências</p><p>ASSUMPÇÃO, Cintia Rangel; REIS, Sara Maria Baptista Reis. O papel das redes nas</p><p>ações da Ouvidoria Nacional dos Serviços Penais: uma experiência no Sistema Peni-</p><p>tenciário do Distrito Federal – DF. RBEP - Brasília, n. 3, v. 1, p. 169-182, jan./jun. 2022.</p><p>BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Fe-</p><p>deral: Centro Gráfico, 1988.</p><p>BRASIL. Presidência da República. Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984. Institui</p><p>a Lei de Execução Penal. Brasília, DF, v. 5, p. 68, set, 3.trim., 1984. Disponível em:</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7210.htm. Acesso em: 10 jun. 2024.</p><p>BRASIL. Lei nº 9455, de 7 de abril de 1997. Define os crimes de tortura e dá outras</p><p>providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1997.</p><p>BRASIL. Ministério da Justiça. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Justiça.</p><p>Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Secretaria Nacional</p><p>de Articulação Social da Presidência da República. Pastoral Carcerária. Marcos do I</p><p>Encontro Nacional dos Conselhos da Comunidade. ENCONTRO NACIONAL DOS</p><p>CONSELHOS DA COMUNIDADE, 1, Brasília, 6 e 7 de dezembro de 2012.</p><p>BRASIL. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Direito a não</p><p>ser submetido a castigos cruéis, desumanos e degradantes. – Brasília: Coor-</p><p>denação Geral de Educação em SDH/PR, Direitos Humanos, Secretaria Nacional de</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, 2013.</p><p>BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Departamento Penitenciário Na-</p><p>cional – Levantamento Nacional de Informações Penitenciária (INFOPEN) – ju-</p><p>nho 2019. Brasília, 2019. Disponível em: http://www.justica.gov.br/seus-direitos/po-</p><p>litica-penal/documentos/INFOPEN_jun2019.pdf. Acesso em: 10 ago. 2021.</p><p>BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Os Conselhos da comunidade no Brasil [re-</p><p>curso eletrônico] / Conselho Nacional de Justiça, Programa das Nações Unidas para</p><p>o Desenvolvimento; coordenação de Luís Geraldo Sant’Ana Lanfredi ... [et al.]. Brasí-</p><p>lia: Conselho Nacional de Justiça, 2021.</p><p>CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Regras internacionais para o enfrentamento</p><p>da tortura e maus-tratos/ Conselho Nacional de Justiça; Coordenação: Luís Geral-</p><p>do Sant’Ana Lanfredi - Brasília: CNJ, 2016.</p><p>CONSELHOR NACIONAL DE JUSTIÇA. Informe Subsídios à Missão do subcomitê</p><p>das Nações Unidas para Prevenção da Tortura (SPT) ao Brasil, fev. 2022,</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7210.htm</p><p>http://www.justica.gov.br/seus-direitos/politica-penal/documentos/INFOPEN_jun2019.pdf</p><p>http://www.justica.gov.br/seus-direitos/politica-penal/documentos/INFOPEN_jun2019.pdf</p><p>50Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO. Comissões/Comissão do Sistema</p><p>Prisional, Controle Externo da Atividade Policial e Segurança Pública/Boas Práticas /</p><p>Boas Práticas 2005-2021 /Sistema Prisional. Disponível em https://www.cnmp.mp.br/</p><p>portal/institucional/comissoes/comissao-do-sistema-prisional-controle-externo-da-</p><p>-atividade-policial-e-seguranca-publica/boas-praticas/boas-praticas-2005-2021/sis-</p><p>tema-prisional. Acesso em 20 jan 2022.</p><p>CORDEIRO, Suzann. Até quando faremos relicários? A função social do Espaço</p><p>Penitenciário. 2. ed. rev. e ampl. Maceió: Edufal, 2010.</p><p>GONÇALVES, Marianna Moura. Os Conselhos Penitenciários, os Conselhos da Co-</p><p>munidade e a Gestão Democrática dos presídios. In: SÁ, Alvino Augusto de. TANGE-</p><p>RINO, Davi Paiva Costa. SHECAIRA, Sérgio Salomão. (coord) Criminologia no Brasil.</p><p>História e aplicações clínicas e sociológicas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.</p><p>INSTITUTO INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS. O Protocolo Facultativo à</p><p>Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Pe-</p><p>nas Cruéis, Desumanos ou Degradantes: um Manual para a Prevenção/ Instituto</p><p>Interamericano de Direitos Humanos- San José, C.R.: Instituto Interamericano de</p><p>Direitos Humanos, 2004.</p><p>OLIVEIRA, Adriana Raquel Ferreira Costa. A participação da sociedade civil na</p><p>construção da política de prevenção e combate à tortura no Brasil. Dissertação</p><p>(Mestrado em Política Social) Universidade de Brasília, 2021. 156f.</p><p>PINASSI, Maria Orlanda. Da miséria ideológica à crise do capital: uma reconciliação</p><p>histórica. São Paulo: Boitempo, 2009.</p><p>https://www.cnmp.mp.br/portal/institucional/comissoes/comissao-do-sistema-prisional-controle-externo-da-atividade-policial-e-seguranca-publica/boas-praticas/boas-praticas-2005-2021/sistema-prisional</p><p>https://www.cnmp.mp.br/portal/institucional/comissoes/comissao-do-sistema-prisional-controle-externo-da-atividade-policial-e-seguranca-publica/boas-praticas/boas-praticas-2005-2021/sistema-prisional</p><p>https://www.cnmp.mp.br/portal/institucional/comissoes/comissao-do-sistema-prisional-controle-externo-da-atividade-policial-e-seguranca-publica/boas-praticas/boas-praticas-2005-2021/sistema-prisional</p><p>https://www.cnmp.mp.br/portal/institucional/comissoes/comissao-do-sistema-prisional-controle-externo-da-atividade-policial-e-seguranca-publica/boas-praticas/boas-praticas-2005-2021/sistema-prisional</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 51</p><p>Módulo</p><p>Fortalecimento Institucional e</p><p>da Advocacia na Prevenção à</p><p>Tortura</p><p>3</p><p>Unidade 1 - As Dinâmicas Institucionais e as Estratégias</p><p>de Engajamento na Promoção dos Direitos Humanos e</p><p>Prevenção à Tortura</p><p>Ao final desta unidade, você será capaz de compreender o cenário brasileiro</p><p>de prevenção e combate à tortura, de forma a contribuir ativamente com</p><p>a promoção e fortalecimento das instituições envolvidas no processo de</p><p>prevenção da tortura.</p><p>1.1 Análise das capacidades dos órgãos para colaborar na</p><p>garantia de direitos, prevenção e combate à tortura</p><p>O Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (SNPCT) é formado por</p><p>quatro instituições principais: o Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura,</p><p>o Departamento Penitenciário Nacional, o Mecanismo Nacional de Prevenção</p><p>e Combate à Tortura e o Conselho Nacional de Política</p><p>Criminal e Penitenciária.</p><p>Também podem compor o SNPCT: os comitês estaduais/distritais de prevenção e</p><p>combate à tortura, os mecanismos estaduais/distritais de prevenção e combate à</p><p>tortura, os conselhos de direitos, as comissões de DH do Legislativo, os corregedores</p><p>e as ouvidorias próximas à temática, os Conselhos de Comunidade e Penitenciário,</p><p>os sistemas de justiça, as coordenações temáticas do Poder Executivo dos estados e</p><p>do Distrito Federal e, principalmente, a sociedade civil. Veja na figura a seguir:</p><p>52Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Estrutura do Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura</p><p>Fonte: adaptada de https://experience.arcgis.com</p><p>O Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (CNPCT) é composto por 23</p><p>membros, dos quais 11 são representantes de órgãos federais e 12 são da sociedade</p><p>civil, sendo seu propósito principal contribuir para a luta contra essa violação em</p><p>locais de privação de liberdade, como delegacias, prisões, instituições para idosos e</p><p>hospitais psiquiátricos.</p><p>Os membros do CNPCT têm a função de acompanhar e propor ações e programas</p><p>para eliminar a tortura no Brasil. Além disso, cabe ao Comitê monitorar os processos</p><p>de investigação administrativa e judicial, assim como as propostas legislativas, e</p><p>encaminhar as recomendações resultantes das inspeções nos centros de detenção.</p><p>Segundo a Lei nº 12.847, de 2 de agosto de 2013:</p><p>Art. 9º Compete ao MNPCT:</p><p>I - Planejar, realizar e monitorar visitas periódicas e regulares a pessoas privadas</p><p>de liberdade em todas as unidades da Federação, para verificar as condições de</p><p>fato e de direito a que se encontram submetidas;</p><p>[...]</p><p>III - requerer à autoridade competente que instaure procedimento criminal e</p><p>administrativo mediante a constatação de indícios da prática de tortura e de</p><p>outros tratamentos e práticas cruéis, desumanos ou degradantes;</p><p>[...]</p><p>VI - fazer recomendações e observações às autoridades públicas ou privadas,</p><p>responsáveis pelas pessoas em locais de privação de liberdade, com vistas a</p><p>garantir a observância dos direitos dessas pessoas;</p><p>[...]</p><p>https://experience.arcgis.com</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 53</p><p>Art. 10. São assegurados ao MNPCT e aos seus membros:</p><p>I - a autonomia das posições e opiniões adotadas no exercício de suas funções;</p><p>II - o acesso, independentemente de autorização, a todas as informações e registros</p><p>relativos ao número, à identidade, às condições de detenção e ao tratamento</p><p>conferido às pessoas privadas de liberdade;</p><p>III - o acesso ao número de unidades de detenção ou execução de pena privativa</p><p>de liberdade e a respectiva lotação e localização de cada uma;</p><p>IV - o acesso a todos os locais arrolados no inciso II do caput do Art. 3º, públicos</p><p>e privados, de privação de liberdade e a todas as instalações e equipamentos do</p><p>local;</p><p>V - a possibilidade de entrevistar pessoas privadas de liberdade ou qualquer</p><p>outra pessoa que possa fornecer informações relevantes, reservadamente e sem</p><p>testemunhas, em local que garanta a segurança e o sigilo necessários;</p><p>VI - a escolha dos locais a visitar e das pessoas a serem entrevistadas, com a</p><p>possibilidade, inclusive, de fazer registros por meio da utilização de recursos</p><p>audiovisuais, respeitada a intimidade das pessoas envolvidas; e</p><p>VII - a possibilidade de solicitar a realização de perícias oficiais, em consonância</p><p>com as normas e diretrizes internacionais e com o Art. 159 do Decreto-Lei nº 3.689,</p><p>de 3 de outubro de 1941 - Código de Processo Penal. (Brasil, 2013, p.1)</p><p>Uma das responsabilidades do Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura,</p><p>criado pela Lei Federal nº 12.847/2013 (Brasil, 2013), regulamentado pelo Decreto</p><p>nº 8.154/2013, alterado pelo Decreto 9831/2019, bem como dos comitês estaduais/</p><p>distrital, é selecionar os 11 peritos que compõem o Mecanismo Nacional de</p><p>Prevenção e Combate à Tortura (MNPC).</p><p>O Mapeamento Nacional de Implementação de Mecanismos e Comitês de Prevenção</p><p>e Combate à Tortura, publicado em julho de 2023 pelos mecanismos estaduais,</p><p>aponta que, no âmbito estadual, dos 23 estados que prevêem legalmente a estrutura</p><p>de comitês e mecanismos, além do nível nacional, apenas três (Acre, Rio de Janeiro</p><p>e Rondônia) não incluem representantes das forças de segurança ou dos órgãos</p><p>responsáveis pela administração de locais de detenção (MNPCT Brasil, 2023).</p><p>Ainda, dos 23 citados, apenas 10 são estabelecidos por meio de decreto do Executivo,</p><p>https://mnpctbrasil.files.wordpress.com/2023/07/mapeamento-snpct_formatado_final-2.pdf</p><p>https://mnpctbrasil.files.wordpress.com/2023/07/mapeamento-snpct_formatado_final-2.pdf</p><p>54Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>e apenas sete têm uma maioria de representantes da sociedade civil, o que pode</p><p>incluir órgãos da administração indireta, como conselhos de classe e universidades.</p><p>O quadro a seguir, disposto no mapeamento, mostra o levantamento sobre os</p><p>estados. É importante destacar que os estados marcados de cinza chegaram a</p><p>implementar comitês estaduais, mas atualmente estes estão desativados; e que,</p><p>nos estados marcados com cor laranja, há previsão legal de criação dos comitês,</p><p>mas nunca ocorreu a sua implementação.</p><p>Mapeamento dos Comitês Estaduais de Combate e Prevenção à Tortura no Brasil</p><p>Fonte: adaptado de MNPCT Brasil (2023)</p><p>Em maio de 2024, em mais um esforço de transparência e difusão de informações,</p><p>o Ministério de Direitos Humanos e Cidadania, por meio do Observatório Nacional</p><p>dos Direitos Humanos (ObservaDH) ― que tem como objetivo difundir e analisar</p><p>informações estratégicas sobre a situação dos direitos humanos no Brasil, fornecendo</p><p>evidências para o planejamento, monitoramento e a avaliação de políticas públicas</p><p>de defesa, promoção, proteção, educação e cultura em direitos humanos, nos níveis</p><p>de governo federal, estadual e municipal e junto à sociedade civil ―, abriu uma</p><p>seção específica sobre os dados de prevenção e combate à tortura, que podem ser</p><p>acessados no seguinte link: https://experience.arcgis.com.</p><p>https://experience.arcgis.com/experience/6a0303b2817f482ab550dd024019f6f5/page/Preven%C3%A7%C3%A3o-e-Combate-%C3%A0-Tortura/</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 55</p><p>Desse modo, a implementação eficaz dos Comitês de Prevenção e Combate à</p><p>Tortura no Brasil é fundamental para assegurar a proteção dos direitos humanos,</p><p>prevenir práticas cruéis e promover um ambiente de respeito à dignidade humana.</p><p>Analisando as capacidades dos órgãos envolvidos, é possível identificar elementos</p><p>cruciais para o sucesso desses comitês, conforme é discutido no artigo “Prevenção à</p><p>tortura: uma mera questão de oportunidade aos mecanismos latino-americanos?”,</p><p>de Thais Lemos Duarte e Maria Gorete Marques de Jesus (2020).</p><p>De acordo com as autoras, o primeiro passo é ter uma legislação específica. Isso é</p><p>fundamental para dar suporte legal aos comitês, permitindo que tenham autonomia</p><p>e evitando interferências externas que possam atrapalhar seu trabalho. Além disso,</p><p>a representatividade é crucial. Os comitês precisam incluir membros da sociedade</p><p>civil, juristas, profissionais de saúde mental e outros especialistas. Isso assegura</p><p>uma visão ampla e diversificada, o que é essencial para tomar decisões embasadas</p><p>em diferentes perspectivas (Duarte; Jesus, 2020).</p><p>O Mapeamento Nacional de Implementação de Mecanismos e Comitês de</p><p>Prevenção e Combate à Tortura destaca vários pontos essenciais para garantir que</p><p>os Mecanismos Nacionais de Prevenção à Tortura funcionem conforme o OPCAT</p><p>(MNPCT Brasil, 2023). É importante que esses mecanismos sejam independentes</p><p>em suas funções e tenham os recursos necessários de forma equitativa em termos</p><p>de gênero e raça entre seus peritos. Além disso, é crucial que esses peritos tenham</p><p>habilidades e conhecimentos profissionais adequados. Abaixo, você encontra o</p><p>mapeamento dos mecanismos ativos no país.</p><p>Mecanismos Estaduais de Prevenção e Combate à Tortura</p><p>Ativos no País</p><p>Fonte: adaptado de MNPCT Brasil (2023)</p><p>56Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Duarte e Jesus (2020) apontam que capacitação contínua dos membros é crucial, pois</p><p>possibilita a identificação e a abordagem eficaz de casos de tortura. Assim, autonomia</p><p>e conhecimento compõem um bloco importante. O Manual de Implementação</p><p>do OPCAT, elaborado pela Associação de Prevenção à Tortura e pelo Instituto</p><p>Interamericano de Direitos Humanos, lançado em 2010, destaca que é crucial que</p><p>esses mecanismos estejam livres de influências indevidas, enfatizando a importância</p><p>da autonomia e da independência para o funcionamento do sistema (IIDH, 2010).</p><p>Nesse sentido, os mecanismos não podem efetivamente prevenir a tortura e os maus-</p><p>tratos se não forem verdadeiramente independentes, o que significa que devem atuar</p><p>sem interferência de autoridades estatais, da administração de prisões, delegacias e</p><p>outros locais de detenção, dos governos, da administração civil e de partidos políticos.</p><p>Em relação à legislação, é recomendável que haja uma previsão legal para a criação dos</p><p>Mecanismos de Prevenção e Combate à Tortura (MPCTs), que abranja seus mandatos</p><p>e poderes, o processo de nomeação, a estrutura administrativa e os membros, bem</p><p>como as formas de financiamento e prestação de contas.</p><p>É também crucial garantir a independência individual dos peritos, que devem ser</p><p>autônomos tanto pessoal quanto institucionalmente, não devendo incluir em seus</p><p>quadros funcionais indivíduos que exerçam funções ativas no governo, no sistema</p><p>penal ou no cumprimento da lei.</p><p>No que diz respeito ao conceito de especialistas, estes devem possuir conhecimento</p><p>profissional em áreas como direitos humanos e devem representar de forma ampla</p><p>a sociedade em termos de equilíbrio de gênero, minorias étnicas e grupos religiosos.</p><p>É também encorajada a participação de grupos de maior risco, como sobreviventes</p><p>de tortura e familiares de vítimas de violência estatal.</p><p>Além disso, quando falamos de autonomia financeira, não nos referimos apenas aos</p><p>mecanismos que administram seus próprios recursos para ter independência nas</p><p>decisões. Também é preciso que tenham gente e recursos suficientes para cumprir</p><p>totalmente seu papel preventivo. Eles devem poder fazer seus próprios orçamentos</p><p>anuais e decidir como gastar o dinheiro, sem precisar da autorização do governo. É</p><p>importante que a fonte e os recursos estejam previstos na lei que os criou.</p><p>Outro ponto super importante é o acesso livre a locais de detenção. Isso permite</p><p>inspeções independentes para garantir que os direitos humanos estejam sendo</p><p>respeitados. E, como é fundamental haver uma forma segura das pessoas</p><p>denunciarem casos de tortura, é vital estabelecer canais eficazes para relatar esses</p><p>abusos, incentivando a participação ativa da sociedade.</p><p>Ações preventivas, como campanhas de conscientização, ajudam a evitar casos de</p><p>tortura, para isso, é essencial que as atividades dos comitês sejam transparentes, o</p><p>que aumenta a confiança do público. Por fim, a colaboração internacional, a troca de</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 57</p><p>experiências e a cooperação com outros mecanismos na América Latina são formas</p><p>de melhorar as práticas de prevenção à tortura.</p><p>O documento do relato do mapeamento citado e o embasamento de estudo científico</p><p>apresentado ainda citam que é urgente a inclusão de organizações não governamentais</p><p>(ONGs) no trabalho dos comitês, visto que a proteção a denunciantes e colaboradores e a</p><p>análise de riscos e vulnerabilidades são elementos essenciais para o seu funcionamento.</p><p>A integração com órgãos governamentais e a avaliação constante da legislação são</p><p>práticas que alinham os comitês com os princípios universais de direitos humanos.</p><p>O monitoramento eficaz das recomendações emitidas pelos comitês é vital, assim</p><p>como a garantia de recursos adequados para seu funcionamento. Estratégias de</p><p>comunicação eficazes e avaliações periódicas também devem ser implementadas.</p><p>Tal responsabilidade requer a utilização de tecnologias inovadoras, como sistemas</p><p>de monitoramento por vídeo, que contribuem para a eficácia das atividades. O</p><p>treinamento de profissionais de saúde, a participação ativa da comunidade e a</p><p>divulgação de resultados positivos são ações que consolidam o papel dos comitês</p><p>na prevenção e combate à tortura.</p><p>É importante observar que não se trata de uma tarefa simples e rápida, pois são</p><p>séculos de uma tortura normalizada no país. Maria Victoria de Mesquita Benevides</p><p>Soares, no capítulo “Tortura no Brasil, uma herança maldita”, presente no livro</p><p>“Tortura”, publicado em 2010 pela Secretaria de Direitos Humanos e a Coordenação</p><p>Geral de Combate à Tortura, alerta:</p><p>A tortura é comum em nosso país desde sempre. Essa</p><p>prática nefanda, verdadeira herança maldita, trazida</p><p>pelos portugueses “educados” nos métodos da dita</p><p>sagrada Inquisição, permanece até hoje, passando</p><p>por Colônia, Império, Independência, República,</p><p>ditaduras e imperfeitos Estados de Direito, com</p><p>governos de todos os tipos. Os indígenas, os hereges</p><p>ou infiéis, os negros escravos e descendentes, os</p><p>“vadios”, os marginais de toda sorte, os internos nos</p><p>manicômios, os “subversivos” e opositores políticos,</p><p>os presos ditos “comuns”, os pobres em geral, os não</p><p>cidadãos... todos potencialmente vítimas dos abusos</p><p>e da violência extremada. Para punir, disciplinar e</p><p>purificar (sic), arrancar confissões e informações,</p><p>intimidar, “dar o exemplo”, vingar, derrotar física e</p><p>moralmente o suposto inimigo ou, simplesmente, o</p><p>indesejável. (Soares, 2010, p. 21)</p><p>58Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Em resumo, para que os Comitês de Prevenção e Combate à Tortura funcionem</p><p>bem no Brasil, é preciso fazer uma abordagem completa. Isso significa ter leis</p><p>sólidas, autonomia, representação diversificada, treinamento adequado, acesso</p><p>livre a locais de detenção, formas eficazes de denúncia, transparência, colaboração</p><p>internacional, monitoramento e recursos suficientes. Todos esses elementos são</p><p>fundamentais para que esses órgãos possam realmente promover os direitos</p><p>humanos e acabar com a tortura, como discutido no artigo de Thais Lemos Duarte e</p><p>Maria Gorete Marques de Jesus e nos relatos do mapeamento nacional.</p><p>Ouça o episódio 2.8, intitulado “Caminhos para prevenção e</p><p>enfrentamento a torturaI”, do canal de Podcast Cidadania XXI</p><p>do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo,</p><p>que discute o Relatório de Situação dos Direitos Humanos no</p><p>Brasil, lançado em 2020/2021, publicado em 5 de julho de 2021.</p><p>O episódio traz uma entrevista com a pesquisadora Thais Lemos</p><p>Duarte, da Universidade Federal de Minas Gerais, que detalhou</p><p>procedimentos que podem combater e prevenir a tortura no</p><p>Brasil. O podcast está disponível em: https://youtu.be/9dQPVyg-</p><p>HRo?si=BZYnllxJFZ6jpimG.</p><p>1.2 Monitoramento das recomendações dos Mecanismos</p><p>Nacionais e Estaduais.</p><p>Diálogo com a Vice-Presidente do Comitê Nacional de Prevenção</p><p>e Combate à Tortura</p><p>Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=k1IawQB-AqY</p><p>Duração: 04:34</p><p>O acompanhamento dos mecanismos nacional e estaduais de prevenção à tortura,</p><p>pelo que já foi apresentado, revela uma variedade de desafios que comprometem sua</p><p>eficácia. Dentre eles, o Mapeamento Nacional de Implementação de Mecanismos e</p><p>Comitês de Prevenção e Combate à Tortura denuncia que é importante estar alerta</p><p>sobre questões cruciais para o funcionamento adequado dos órgãos de prevenção</p><p>(MNPCT Brasil, 2023).</p><p>https://youtu.be/9dQPVyg-HRo?si=BZYnllxJFZ6jpimG</p><p>https://youtu.be/9dQPVyg-HRo?si=BZYnllxJFZ6jpimG</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=k1IawQB-AqY</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 59</p><p>Composição Sociedade Civil X Estado dos Mecanismos de Prevenção e Combate à Tortura, segundo o</p><p>Mapeamento Nacional de Implementação de Mecanismos e Comitês de Prevenção e Combate à Tortura</p><p>Fonte: adaptado de MNPCT Brasil (2023)</p><p>Esses assuntos foram discutidos no Encontro dos Mecanismos de Prevenção</p><p>e Combate</p><p>à Tortura, organizado pelo Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura da</p><p>Paraíba (MEPCT/PB), de 28 a 30 de março de 2023. Durante esse evento, ficou evidente</p><p>que é necessário reafirmar as diretrizes básicas que devem guiar as ações dos sistemas</p><p>de prevenção em cada estado brasileiro. Nesse processo de reflexão, foram buscadas</p><p>recomendações para melhorar essa política importante e consolidar órgãos autônomos</p><p>que tenham condições mais efetivas de cumprir sua missão institucional.</p><p>Além disso, foi apontada uma série de erros que ocorreram nas formações dos</p><p>Comitês e nas ações dos mecanismos anteriores. Isso incluiu a seleção final de</p><p>peritos pelos governadores, a predominância de representantes do Estado nos</p><p>comitês, a presença de policiais e administradores de locais de detenção nos órgãos</p><p>colegiados, entre outros pontos.</p><p>Em muitos estados, os mecanismos e comitês não estão organizados para serem</p><p>verdadeiramente independentes e autônomos. Mesmo que os membros ajam nesse</p><p>sentido, eles o fazem sem a garantia de que uma denúncia não resultará em retaliação.</p><p>Esses desafios comprometem não só a eficácia dos mecanismos de prevenção à</p><p>tortura, mas também minam a confiança na capacidade do sistema de proteger os</p><p>direitos humanos e combater práticas abusivas. É crucial enfrentar essas questões</p><p>para fortalecer o trabalho dos órgãos de prevenção e garantir a proteção dos direitos</p><p>humanos em todos os níveis de governo.</p><p>Em relação aos mecanismos, o mapeamento evidencia apenas cinco atuantes no país</p><p>(Nacional, Rio de Janeiro, Rondônia, Paraíba e Acre); três dos mecanismos atuantes</p><p>(Rondônia, Paraíba e Acre) possuem apenas três integrantes em sua composição; ao</p><p>menos um estado (Espírito Santo) previu a criação do mecanismo sem remuneração</p><p>para os integrantes; 14 das unidades federativas não possuem previsão legal de</p><p>implementação de mecanismos preventivos.</p><p>60Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Entre as recomendações apresentadas no mapeamento, consta a promoção da</p><p>implementação dos Sistemas Estaduais de Prevenção e Combate à Tortura por</p><p>meio de amplo debate, incluindo audiências públicas, para assegurar a participação</p><p>da sociedade civil e das instituições do Estado que compõem o Sistema de Proteção</p><p>aos Direitos Humanos das pessoas privadas de liberdade.</p><p>Indicam, também, a incorporação nas legislações de criação e regulamentação</p><p>dos Sistemas Estaduais de Prevenção e Combate à Tortura das diretrizes mínimas</p><p>estabelecidas pela Recomendação n.º 05 de 29 de novembro de 2018 do CNPCT,</p><p>estabelecendo um número mínimo de seis peritos remunerados para compor os</p><p>Mecanismos Estaduais, garantindo assim a independência e a continuidade do</p><p>trabalho desses órgãos (Brasil, 2018).</p><p>Indicam, ainda, uma reformulação da composição do CNPCT, garantindo a</p><p>participação de pastas relacionadas à proteção e defesa dos direitos humanos,</p><p>como os Ministérios da Igualdade Racial, da Mulher e dos Povos Originários.</p><p>Por fim, asseguram, com a mesma perspectiva de representação, que os comitês</p><p>tenham uma representação majoritária da sociedade civil, com alternância na</p><p>presidência ou coordenação entre organizações civis e do Estado e propõem excluir</p><p>da composição dos comitês quaisquer entidades responsáveis pela gestão de locais</p><p>de privação de liberdade, garantindo assim sua independência e imparcialidade.</p><p>Segundo a perspectiva de especialistas, as recomendações apontam a necessidade de</p><p>se assegurar que os mecanismos sejam compostos por indivíduos com experiência</p><p>em movimentos sociais, organizações de direitos humanos ou trajetória acadêmica e/</p><p>ou profissional em direitos humanos, promovendo assim a equidade de gênero e raça.</p><p>As recomendações apontam para o fortalecimento de ações muito importantes</p><p>num país em que a tortura se institucionaliza. Prova disso são as várias violações</p><p>apresentadas no Relatório do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à</p><p>Tortura, de 2022, que inspecionou as atividades em Alagoas, Amazonas, Bahia,</p><p>Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Norte e Sergipe (Brasil, 2023).</p><p>Foram realizadas 45 inspeções regulares durante as visitas: 28 delas foram em</p><p>estabelecimentos penais, como unidades prisionais, carceragens e delegacias; 11</p><p>em unidades socioeducativas; duas em hospitais psiquiátricos; duas em hospitais</p><p>de custódia e tratamento psiquiátrico; uma em comunidade terapêutica; e uma em</p><p>instituição de longa permanência para idosos.</p><p>O resultado dessa empreitada foi a emissão de recomendações destinadas às</p><p>autoridades competentes dos Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo, com</p><p>perspectivas de curto, médio e longo prazo, visando romper com práticas e</p><p>estruturas violadoras de direitos, além de abrir espaço para diálogos que possam</p><p>coibir a tortura.</p><p>https://mnpctbrasil.files.wordpress.com/2023/08/relatorio_anual_2022_mnpct.pdf</p><p>https://mnpctbrasil.files.wordpress.com/2023/08/relatorio_anual_2022_mnpct.pdf</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 61</p><p>Segundo o relatório, as recomendações do MNPCT estão fundamentadas nos</p><p>protocolos e regras internacionais e nacionais de prevenção à tortura, tais como:</p><p>Convenção Internacional Contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis,</p><p>Desumanos ou Degradantes (CAT); Protocolo Facultativo à Convenção das Nações</p><p>Unidas Contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou</p><p>Degradantes (OPCAT); Regras de Mandela; Princípios de Paris; Regras de Bangkok;</p><p>Princípios de Yogyakarta; Regra de Beijing; Protocolo de Istambul; Sistema Nacional</p><p>de Atendimento Socioeducativo (SINASE), Lei de Execução Penal (Brasil, 1984),</p><p>dentre outros, bem como no compromisso do órgão em salvaguardar a defesa e a</p><p>promoção dos direitos humanos nos espaços de privação de liberdade.</p><p>Entre os destaques, estão a recomendação ao Presidente da República e ao Ministério</p><p>da Justiça e Segurança Pública, por meio da Secretaria Nacional de Políticas Penais</p><p>(Senappen) para que elaborem uma Política Nacional de Combate à Insegurança</p><p>Alimentar e de Acesso à Água em Estabelecimentos Penais, permitindo condições</p><p>de existência dignas para as pessoas privadas de liberdade.</p><p>Outro apontamento importante foi o foco no uso ostensivo da força. A violência</p><p>gerada nesses espaços de privação é uma urgência. Nesse sentido, as recomendações</p><p>de elaboração de uma normativa nacional que estabeleça um protocolo de entrada</p><p>de forças especiais em estabelecimentos penais, que crie normativa nacional</p><p>atualizada, pautada em parâmetros internacionais para o uso de armas menos letais</p><p>em operações de segurança pública e ponha fim na Força Tática de Intervenção</p><p>Penitenciária (FTIP), atual Força de Cooperação Penitenciária (Focopen), são</p><p>apontamentos para o presidente da República, o Congresso Nacional e o Ministério.</p><p>Outro ponto que deve ser evidenciado são as recomendações feitas aos conselhos,</p><p>dentre eles ao Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda),</p><p>em que é observada a promoção de políticas públicas que valorizem as carreiras</p><p>técnicas dos profissionais que atuam nas unidades socioeducativas estaduais,</p><p>priorizando a realização de concursos públicos em detrimento da terceirização</p><p>de serviços, o que contribui para a qualidade e estabilidade desses profissionais,</p><p>garantindo um atendimento mais adequado e consistente aos adolescentes.</p><p>Outra medida crucial é a inclusão de disciplinas obrigatórias relacionadas aos direitos e</p><p>às particularidades da população adolescente LGBTQIA+ nos programas de formação</p><p>oferecidos pela Escola Nacional de Socioeducação. Esta iniciativa visa promover a</p><p>sensibilização e a capacitação dos profissionais do sistema socioeducativo para lidar de</p><p>forma adequada e respeitosa com a diversidade sexual e de gênero dos adolescentes,</p><p>contribuindo para a construção de um ambiente mais inclusivo e acolhedor.</p><p>Enfim, o acompanhamento dos mecanismos nacional e estaduais de prevenção à</p><p>tortura revela uma série de desafios, como</p><p>denunciado pelo Mapeamento Nacional</p><p>de Implementação de Mecanismos e Comitês de Prevenção e Combate à Tortura. No</p><p>62Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Relatório Anual de 2022, ficou clara a necessidade de se reafirmar as balizas mínimas</p><p>para orientar as ações dos sistemas preventivos em cada estado (Brasil, 2023).</p><p>O mapeamento evidencia a presença limitada de mecanismos atuantes no país, com</p><p>vários estados sem previsão legal para a implementação de mecanismos preventivos.</p><p>Também destaca a implementação dos Sistemas Estaduais de Prevenção e Combate à</p><p>Tortura, garantindo a participação da sociedade civil e de instituições do Estado, além</p><p>de reformular a composição do CNPCT e dos comitês para garantir sua independência</p><p>e imparcialidade. Essas medidas são fundamentais para atingir as recomendações</p><p>feitas no relatório de 2022 e visam fortalecer as ações de prevenção à tortura, em um</p><p>país onde essa prática ainda é uma realidade, e contribuir para a construção de um</p><p>ambiente mais justo, inclusivo e respeitoso para todos os cidadãos.</p><p>Ouça o 13º episódio intitulado “Prevenção e combate à tortura”,</p><p>do canal do Podcast Vozes e Reivindicações, publicado em 16 de</p><p>julho de 2021 pela organização não governamental brasileira</p><p>Justiça Global, que tem como frente a proteção e promoção</p><p>dos direitos humanos e o fortalecimento da sociedade civil e</p><p>da democracia, com o objetivo de construir uma sociedade com</p><p>garantia integral dos direitos sociais, políticos e civis, livre de</p><p>racismo, machismo e qualquer outra forma de discriminação. O</p><p>episódio pauta a experiência recorrente da tortura dentro dos</p><p>espaços de privação de liberdade no Brasil e como a prática é</p><p>efetivada dentro dos complexos penitenciários de Pedrinhas,</p><p>no Maranhão, de Curado, em Pernambuco, e nas Unidades</p><p>Socioeducativas (Unis), do Espírito Santo. Para tanto, traz a</p><p>entrevista com a pesquisadora Monique Cruz e a coordenadora</p><p>Isabel Lima, ambas da Justiça Global. Disponível em: https://</p><p>www.global.org.br/blog/vozes-e-reivindicacoes-aborda-tema-</p><p>prevencao-e-combate-a-tortura/.</p><p>1.3 Proposição de Políticas Públicas na esfera de atuação dos</p><p>comitês</p><p>No Brasil, onde a violência e o desrespeito aos direitos fundamentais ainda são</p><p>desafios persistentes, os Mecanismos e Comitês de Prevenção e Combate à Tortura</p><p>desempenham um papel crucial na promoção e proteção desses direitos. Esses</p><p>órgãos representam uma importante ferramenta na fiscalização e monitoramento</p><p>dos locais de privação de liberdade.</p><p>https://www.global.org.br/blog/vozes-e-reivindicacoes-aborda-tema-prevencao-e-combate-a-tortura/</p><p>https://www.global.org.br/blog/vozes-e-reivindicacoes-aborda-tema-prevencao-e-combate-a-tortura/</p><p>https://www.global.org.br/blog/vozes-e-reivindicacoes-aborda-tema-prevencao-e-combate-a-tortura/</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 63</p><p>Ao investigar denúncias, realizar inspeções regulares e propor medidas corretivas,</p><p>esses mecanismos são imprescindíveis na prevenção da tortura e no combate à</p><p>impunidade. Neste contexto, torna-se evidente a importância dos Mecanismos e</p><p>Comitês de Prevenção e Combate à Tortura para as políticas públicas de direitos</p><p>humanos no Brasil, visando contribuir para a construção de uma sociedade mais</p><p>justa, igualitária e respeitadora dos direitos de todos os cidadãos.</p><p>Sobre as políticas públicas e direitos humanos, Eduardo Bittar, no artigo “Democracia</p><p>e políticas públicas de direitos humanos: a situação atual do Brasil”, publicado em</p><p>2018 na Revista USP, aponta que a questão das políticas públicas de direitos humanos</p><p>no Brasil destaca-se em diversos aspectos relacionados à legislação, implementação</p><p>e desafios enfrentados nesse campo.</p><p>Inicialmente, o autor ressalta que a Constituição Federal de 1988 continua sendo</p><p>a base normativa do sistema jurídico brasileiro, assim como a manutenção do</p><p>Programa Nacional de Direitos Humanos e a criação do Sistema Nacional de</p><p>Indicadores em Direitos Humanos. Apesar disso, o texto argumenta que a eficácia</p><p>das políticas públicas de direitos humanos ainda é limitada, resultando em violações</p><p>persistentes.</p><p>Bittar aponta que o problema das políticas públicas de direitos humanos no Brasil</p><p>não é tanto a falta de leis, mas sim o descumprimento delas e uma cultura arraigada</p><p>de intolerância na sociedade. O autor destaca que a violência, a impunidade de</p><p>autoridades que violam direitos e os escândalos de corrupção são exemplos dessa</p><p>ineficácia. Além disso, ele ressalta que a mentalidade autoritária que persiste desde</p><p>a época da Ditadura Civil-Militar também dificulta muito a implementação efetiva</p><p>dos direitos humanos.</p><p>A falta de confiança e o questionamento do discurso sobre direitos humanos, juntamente</p><p>com a repressão intelectual, são apontados como obstáculos adicionais para tornar</p><p>as políticas públicas nessa área realmente eficazes. O autor destaca a importância da</p><p>educação em direitos humanos para enfrentar esses desafios, mas observa que até</p><p>isso é prejudicado por disputas ideológicas e perseguições políticas (Bittar, 2018).</p><p>Quando se trata das áreas específicas de políticas de direitos humanos, algumas</p><p>merecem destaque, como: segurança pública, combate à fome e às desigualdades</p><p>socioeconômicas, memória e verdade, políticas para mulheres, comunidade</p><p>LGBTQIA+ e proteção ambiental e das terras indígenas. Cada uma dessas áreas</p><p>precisa ser cuidadosamente analisada, identificando os desafios, progressos e</p><p>retrocessos, destacando a complexidade e a amplitude dos problemas enfrentados</p><p>pelo Brasil nesse campo.</p><p>Isso mostra que o Brasil enfrenta uma série de desafios no campo das políticas de direitos</p><p>humanos, que abrangem diversas áreas como direitos civis, políticos, sociais, econômicos,</p><p>64Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>culturais e ambientais. Esses desafios estão relacionados à violência, segurança, alto</p><p>índice de encarceramento, fome, pobreza, desigualdades socioeconômicas extremas,</p><p>direitos das vítimas da ditadura civil-militar, questões de gênero, direitos LGBTQIA+,</p><p>proteção dos defensores dos direitos humanos, situação das comunidades indígenas e</p><p>preservação do meio ambiente. Mesmo os direitos humanos básicos, como o direito à</p><p>vida e à liberdade, ainda enfrentam ameaças significativas.</p><p>E quais são os desafios para os segmentos apresentados nesse</p><p>cenário?</p><p>O estudo conduzido por Ana Carolina Antunes Isfer e Pedro Luiz Costa Cavalcante,</p><p>intitulado "Inovação em políticas públicas de direitos humanos: o caso do Mecanismo</p><p>Nacional de Prevenção e Combate à Tortura", publicado pela Revista Interdisciplinar</p><p>de Direitos Humanos em 2020, nos apresenta uma tentativa de compreender a</p><p>natureza inovadora do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura</p><p>(MNPCT) no contexto das políticas públicas de direitos humanos no Brasil.</p><p>A escolha dessa política pública recentemente implementada como objeto de estudo</p><p>revelou a escassez de fontes disponíveis, uma vez que o MNPCT tinha, na data de</p><p>publicação dos estudos, somente cinco anos de existência.</p><p>Os pesquisadores conduziram entrevistas semiestruturadas com atores-chave que</p><p>participaram dos processos de elaboração da Lei 12.847/2013 e da implementação</p><p>do MNPCT, incluindo ex-peritos, gestores públicos e membros da sociedade</p><p>civil, buscando capturar diferentes perspectivas e experiências relacionadas ao</p><p>funcionamento do mecanismo. O objetivo principal do estudo foi analisar o MNPCT</p><p>sob uma ótica de inovação em políticas públicas de direitos humanos, utilizando</p><p>critérios de avaliação baseados no Concurso Anual de Inovação da Escola Nacional</p><p>de Administração Pública (ENAP). As seis categorias de análise definidas foram:</p><p>contexto da prática de tortura e processo de instituição do MNPCT; implementação</p><p>do MNPCT; principais características inovadoras; barreiras e indutores à adoção da</p><p>política; principais resultados e impactos; e potencialidade de réplica pelos estados</p><p>federados e Distrito Federal.</p><p>Os resultados da pesquisa mostraram</p><p>uma inovação em gestão pública no campo</p><p>dos direitos humanos com o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura</p><p>(MNPCT). Entende-se que o MNPCT é resultado do compromisso internacional</p><p>assumido pelo Brasil ao ratificar o Protocolo Facultativo à Convenção Contra a Tortura</p><p>das Nações Unidas (OPCAT), mas as entrevistas revelaram que a política do MNPCT</p><p>se destaca pela configuração colaborativa entre diversos atores governamentais e</p><p>não governamentais, alinhada com o conceito de inovação na gestão pública de um</p><p>país democrático.</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 65</p><p>Embora outros órgãos também tenham responsabilidade legal ou missão social de</p><p>realizar visitas e inspeções em locais de privação de liberdade, o mecanismo tem</p><p>contribuído significativamente para a prevenção e combate à tortura. Sua autonomia</p><p>e independência o tornam uma estratégia única no combate à tortura no Brasil.</p><p>Além disso, os autores apontam que a transparência proporcionada pelos relatórios</p><p>de cada visita, como já apresentado nas discussões anteriores, é considerada um</p><p>avanço significativo, revelando espaços antes invisíveis e garantindo um controle</p><p>documentado de suas atividades, em prol dos direitos humanos. Além disso, a</p><p>abordagem multidisciplinar dos peritos, abrangendo diversos grupos e questões</p><p>estruturais da tortura, é destacada.</p><p>O MNPCT, centrado na prevenção da tortura, com prerrogativas como o acesso</p><p>irrestrito a locais e documentos, entrevistas privadas e confidenciais e a capacidade</p><p>de entrar em qualquer unidade de privação de liberdade sem aviso prévio, teve</p><p>em sua atuação uma política influenciada pela estrutura organizacional e pelo</p><p>contexto político da época em que foi homologado, passou pela resistência e assim</p><p>se mantém, sendo consolidado pela política atual.</p><p>Podemos concordar com Isfer e Cavalcante (2020) que a criação e a implementação</p><p>do MNPCT foram impulsionadas pela afinidade de pautas dentro do Ministério</p><p>dos Direitos Humanos (MDH), atual Ministério de Direitos Humanos e Cidadania</p><p>(MDHC), das quais destacam-se a capacidade de articulação política das lideranças</p><p>e a atuação em rede da sociedade civil na garantia de sua independência.</p><p>Para saber mais, assista à 76ª Sessão do Comitê de Combate</p><p>à Tortura da Organização das Nações Unidas que aconteceu</p><p>em Genebra, em nove de abril de 2023, e foi publicada</p><p>no canal do Youtube do Ministério de Direitos Humanos</p><p>e Cidadania. Veja a participação da delegação do Brasil,</p><p>liderada pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania,</p><p>respondendo aos questionamentos do Comitê Contra a Tortura</p><p>(CAT) da ONU. Disponível em: https://youtu.be/9dQPVyg-</p><p>HRo?si=BZYnllxJFZ6jpimG.</p><p>https://youtu.be/9dQPVyg-HRo?si=BZYnllxJFZ6jpimG</p><p>https://youtu.be/9dQPVyg-HRo?si=BZYnllxJFZ6jpimG</p><p>66Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Referências</p><p>BITTAR, Eduardo C.B. Democracia e políticas públicas de direitos humanos: a si-</p><p>tuação atual do Brasil. Revista USP. São Paulo, SP, nº 119, p. 11-28, out./nov./dez.,</p><p>2018. Disponível em: https://revistas.usp.br/revusp/article/view/151573. Acesso</p><p>em: 10 jun. 2024.</p><p>BRASIL. Presidência da República. Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984. Institui</p><p>a Lei de Execução Penal. Brasília, DF, v. 5, p. 68, set, 3.trim., 1984. Disponível em:</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7210.htm. Acesso em: 10 jun. 2024.</p><p>BRASIL. Lei nº 12.847, de 2 de agosto de 2013. Institui o Sistema Nacional de</p><p>Prevenção e Combate à Tortura; cria o Comitê Nacional de Prevenção e Combate</p><p>à Tortura e o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura; e dá ou-</p><p>tras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, edição extra, 5 ago.</p><p>2013.</p><p>BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Recomendação nº 5, de</p><p>29 de novembro de 2018. Dispõe sobre as Diretrizes para criação e fortalecimen-</p><p>to de Comitês e Mecanismos de Prevenção e Combate à Tortura nas Unidades da</p><p>Federação. Diário Oficial da União: Brasília, DF, seção 1, p. 138, edição 236, 10 dez.</p><p>2018.</p><p>BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Mecanismo Nacional de</p><p>Prevenção e Combate à Tortura (org.). Relatório Anual 2022. 1. ed. Brasília: Minis-</p><p>tério dos Direitos Humanos e da Cidadania, 2023. Disponível em: https://mnpctbra-</p><p>sil.wordpress.com/wp-content/uploads/2023/08/relatorio_anual_2022_mnpct.pdf.</p><p>Acesso em: 2 jul. 2024.</p><p>DUARTE, Thais Lemos; JESUS, Maria Gorete Marques de. Prevenção à tortura: uma</p><p>mera questão de oportunidade aos mecanismos latino-americanos?. Revista</p><p>Direitos Humanos e Democracia. Editora Unijuí, Ano 8, nº 15, jan./jun. 2020. pp.</p><p>134-152. Disponível em: https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/direitoshu-</p><p>manosedemocracia/article/view/9627/6410. Acesso em: 2 jul. 2024.</p><p>IIDH - INSTITUTO INTERAMERICANO DE DERECHOS HUMANOS. Protocolo Faculta-</p><p>tivo à Convenção da ONU contra a Tortura: Manual de Implementação (edição</p><p>revisada). Instituto Interamericano de Derechos Humanos. San José, Costa Rica:</p><p>IIDH, 2010.</p><p>ISFER, Ana Carolina Antunes; CAVALCANTE, Pedro Luiz Costa. Inovação em políti-</p><p>cas públicas de direitos humanos: o caso do Mecanismo Nacional de Prevenção</p><p>e Combate à Tortura. Revista Interdisciplinar de Direitos Humanos. Bauru, SP,</p><p>vol. 8, nº 1, p. 161-184, jan./jun., 2020. Disponível em: https://www3.faac.unesp.br/</p><p>ridh/index.php/ridh/article/view/783/343. Acesso em: 2 jul. 2024.</p><p>https://revistas.usp.br/revusp/article/view/151573</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7210.htm</p><p>https://mnpctbrasil.wordpress.com/wp-content/uploads/2023/08/relatorio_anual_2022_mnpct.pdf</p><p>https://mnpctbrasil.wordpress.com/wp-content/uploads/2023/08/relatorio_anual_2022_mnpct.pdf</p><p>https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/direitoshumanosedemocracia/article/view/9627/6410</p><p>https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/direitoshumanosedemocracia/article/view/9627/6410</p><p>https://www3.faac.unesp.br/ridh/index.php/ridh/article/view/783/343</p><p>https://www3.faac.unesp.br/ridh/index.php/ridh/article/view/783/343</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 67</p><p>MNPCT BRASIL. Mapeamento Nacional da Implementação de Mecanismos e</p><p>Comitês de Prevenção e Combate à Tortura - julho 2023. Mecanismo Nacional</p><p>de Prevenção e Combate à Tortura do Brasil, [S.l.], 2023. Disponível em:https://</p><p>mnpctbrasil.wordpress.com/wp-content/uploads/2023/07/mapeamento-snpct_for-</p><p>matado_final-2.pdf. Acesso em: 2 jul. 2024.</p><p>SOARES, Maria Victoria de Mesquita Benevides. Tortura no Brasil, uma herança</p><p>maldita. In: BRASIL. Presidência da República. Tortura. Coordenação Geral de</p><p>Combate à Tortura (Org.). 1. ed. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos, 2010. pp.</p><p>20-33.</p><p>https://mnpctbrasil.wordpress.com/wp-content/uploads/2023/07/mapeamento-snpct_formatado_final-2.pdf</p><p>https://mnpctbrasil.wordpress.com/wp-content/uploads/2023/07/mapeamento-snpct_formatado_final-2.pdf</p><p>https://mnpctbrasil.wordpress.com/wp-content/uploads/2023/07/mapeamento-snpct_formatado_final-2.pdf</p><p>_heading=h.3rdcrjn</p><p>_heading=h.26in1rg</p><p>_heading=h.lnxbz9</p><p>_heading=h.35nkun2</p><p>_heading=h.44sinio</p><p>punição que progressivamente foi banindo as grotescas condições exercidas</p><p>sobre o corpo. O corpo deixou de ser foco do suplício, mas não deixou de sofrer,</p><p>pois as características presentes na privação da liberdade mostraram o controle,</p><p>desde o controle sexual e alimentar ao próprio condicionamento às rotinas.</p><p>Como poder social, econômico ou do corpo, o fato é que a pena de prisão, por</p><p>volta do século XVIII, tornou-se um fim e não mais um meio de punição. Algumas</p><p>mudanças ocorridas nesse período foram geradoras do deslocamento da pena, pois</p><p>existia a compreensão de que o ambiente com rigidez e carregado de regras poderia</p><p>modificar o comportamento do indivíduo, corrigindo o crime por ele cometido.</p><p>Historicamente, principalmente na Inglaterra, esse momento foi impactado por</p><p>pessoas que, expulsas do campo e sem preparo para o trabalho industrial nas áreas</p><p>urbanas, somavam uma massa de marginalizados, os quais representavam um</p><p>“problema” nas cidades.</p><p>Nesse período, se destacam dois precursores na análise sobre a pena de prisão:</p><p>John Howard, que, em 1777, propôs a criação de estabelecimentos próprios para o</p><p>cumprimento da pena de prisão, com certos critérios para separação dos presos,</p><p>a religião como aspecto regenerativo e o isolamento durante o período da noite;</p><p>e Jeremy Bentham, que incluiu no cumprimento da pena a disciplina rígida, a</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 7</p><p>alimentação e roupas simples. Em 1791, Bentham criou o ideal de construção de</p><p>muitas penitenciárias que se seguiram na história penal: o Panóptico, um edifício</p><p>de forma circular, com o espaço girando em torno de uma torre; quem estivesse</p><p>dentro dela poderia visualizar toda a movimentação carcerária e de funcionários.</p><p>O efeito dessa construção sobre os indivíduos mantinha ambos em vigilância,</p><p>detentos e carceragem, de forma permanente. Contudo, este era um poder visível,</p><p>mas inverificável, pois apesar da torre se manter à vista, o detento não sabia se</p><p>estava sendo observado, o que lhe proporciona um estado contínuo de vigília e de</p><p>normalização da limitação pela simples geometria do espaço físico.</p><p>A primeira penitenciária com essa estrutura foi construída, em 1800, em Richmond,</p><p>nos Estados Unidos. Embora a estrutura física represente um fator essencial</p><p>na análise para o cumprimento de pena, junto da prática de atendimento e da</p><p>legislação, ela compõe um sistema penal. Como prática, aborda a pedagogia do</p><p>isolamento celular, proposta em 1790, na Europa e nos Estados Unidos, e iniciada na</p><p>Filadélfia, que utilizou da religião com o fim de instrumento de reflexão, com vistas</p><p>à regeneração. O trabalho era artesanal e sem remuneração, sendo desenvolvido</p><p>somente na cela individual, onde o detento dormia, alimentava-se e refletia sobre</p><p>suas ações.</p><p>Um outro motivo para o isolamento celular era a necessidade de manter a disciplina</p><p>no cárcere. Com o crescimento do número de detentos, e devido aos maus tratos</p><p>do sistema anterior, grandes eram os riscos de rebelião. Representando disciplina,</p><p>reflexão e tentativa de garantia de uma normalidade da ordem vigente, esse sistema</p><p>de cumprimento de pena teve que se modificar devido às necessidades de força de</p><p>trabalho que apresentavam preocupações com a demanda de mão de obra.</p><p>O isolamento celular foi substituído em 1820 pelo sistema auburniano. Auburn</p><p>era uma cidade americana onde estava instalada uma penitenciária que recebeu</p><p>o mesmo nome, na qual o isolamento celular era adotado, mas apenas no horário</p><p>noturno. No período do dia, os detentos se alimentavam e trabalhavam de forma</p><p>coletiva, porém em silêncio absoluto, podendo somente se reportar aos funcionários</p><p>quando autorizados e em tom de voz baixa. Esse sistema possuía uma proposta</p><p>que se adaptava às críticas feitas no sistema anterior, pois o detento trabalhava em</p><p>oficinas e a produção era escoada para empresas que haviam firmado parcerias</p><p>com os presídios.</p><p>Nessa modificação da prática penitenciária, as máquinas foram, gradativamente,</p><p>sendo inseridas como meio de aumentar a produção na época, o que demonstrava</p><p>a aplicação das características de mercado ao sistema carcerário.</p><p>O aumento da população carcerária representava, na segunda metade do século XIX,</p><p>uma impossibilidade de manter o sistema de trabalho em muitas instituições penais.</p><p>8Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Na Europa, foi desenvolvido o sistema progressivo de cumprimento de pena. Esse</p><p>sistema iniciou-se na Austrália, em uma colônia britânica, para a qual foram enviados</p><p>presos, a um estabelecimento construído na ilha de Norfolk. Nesta instituição, o</p><p>administrador implementou um regimento chamado Sistema de Marcas ou Vales,</p><p>nesse sistema, à medida que o detento trabalhava, sua pena era diminuída e, caso</p><p>cometesse uma infração dentro desse estabelecimento, ela era aumentada.</p><p>Assim, a pena era cumprida primeiramente no isolamento celular, depois, com a</p><p>possibilidade de trabalho pesado e pouca alimentação, seguida do trabalho mais</p><p>leve e coletivo, porém silencioso e no isolamento da noite. Adaptando-se a esse</p><p>regime, o detento poderia, mais tarde, ter a sua liberdade condicional e, por fim, a</p><p>liberdade definitiva.</p><p>Em 1835, na Espanha, algumas alternativas na progressão de regime foram</p><p>propostas: os Arsenais da Marinha Espanhola e o sistema dos presídios. O primeiro</p><p>propunha três progressões, tendo a finalidade de transformar os ditos delinquentes</p><p>em marinheiros. Já o sistema de presídios, conhecido como Valenciano e proposto</p><p>pelo coronel Montesino (depois assumiu o nome do seu propositor), estabelecia-se</p><p>por etapas que progrediram de acordo com o comportamento da pessoa privada de</p><p>liberdade, como mostra o infográfico a seguir.</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 9</p><p>Sistemas Montesinos</p><p>Fonte: adaptado de www.canva.com.</p><p>Na Irlanda, em 1854, esse sistema foi implantado, contudo, com uma adaptação antes</p><p>da liberdade condicional: foi incluída a prisão intermediária, que consistia no trabalho</p><p>em espaços externos abertos, sem a rigidez da prisão. Com o tempo, a sanção de certos</p><p>crimes de entendimento de menos dano à sociedade e a condição da progressão de</p><p>regime promoveram a criação de alternativas diferentes no cumprimento de pena.</p><p>Foram inseridas às legislações a prisão aberta (quando o preso vai somente dormir</p><p>na instituição penal), a prestação de serviços, o pagamento de multas e as pulseiras</p><p>eletrônicas, entre outras penas não vinculadas totalmente à prisão.</p><p>É importante citar que, mesmo sendo abolidos em muitos países,</p><p>alguns sistemas de cumprimento de pena de prisão citados neste</p><p>capítulo permanecem na sua organização de origem até hoje.</p><p>É o caso da Alemanha, que mantém a pedagogia de isolamento</p><p>celular. Outros países, porém, adaptaram suas propostas.</p><p>Contudo, as formas de cumprimento de pena ainda se mantêm</p><p>muito próximas das abordagens apresentadas até então.</p><p>No contexto brasileiro, a pena de prisão é um tema de grande relevância e</p><p>controvérsia. O sistema carcerário enfrenta desafios consideráveis e a discussão</p><p>sobre a eficácia e humanização das penas ainda está em pauta. A realidade das</p><p>prisões no Brasil é marcada por superlotação, condições precárias e um déficit</p><p>estrutural que compromete não apenas a reabilitação do indivíduo, mas também a</p><p>própria noção de justiça.</p><p>A superlotação carcerária no Brasil é uma problemática crônica que compromete</p><p>não apenas a eficácia do sistema penal, mas também a integridade física e mental</p><p>dos detentos. A falta de investimentos em infraestrutura e a inadequação das</p><p>instalações contribuem para um ambiente propício à violência e à proliferação de</p><p>organizações criminosas dentro das prisões. Além disso, a ausência de programas</p><p>efetivos de ressocialização agrava o quadro, perpetuando um ciclo de reincidência</p><p>que questiona a própria finalidade da pena de prisão.</p><p>https://www.canva.com/design/DAFUmdwIOPc/Ewmli7rwLkMXTKibDwqtuw/edit?utm_content=DAFUmdwIOPc&utm_campaign=designshare&utm_medium=link2&utm_source=sharebutton</p><p>10Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>A discussão sobre a humanização das penas no Brasil ganha destaque diante da</p><p>necessidade premente de se repensar o atual modelo de cumprimento de pena. Em</p><p>contraste com países que aboliram certas práticas, o sistema penitenciário brasileiro</p><p>ainda carece de reformas substanciais para se adequar aos princípios de respeito</p><p>aos direitos humanos.</p><p>Ouça o Episódio 04 da Temporada 3, com a abordagem Vigilância,</p><p>vigilantismo e democracia do podcast intitulado “Vigiar o quê,</p><p>punir quem?”, do canal O Revoar: diálogos sobre liberdade</p><p>e autoritarismo, um espaço de publicações de podcast do</p><p>LAUT, Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo ―</p><p>uma instituição independente e apartidária de pesquisas</p><p>interdisciplinares, comprometida em produzir e disseminar</p><p>conhecimento sobre a qualidade do Estado de Direito e da</p><p>democracia ― disposto pela Rádio Novelo. Nesse episódio,</p><p>Anna Carolina Venturini e Felipe de Paula, junto das convidadas</p><p>Carolina Haber, doutora em direito pela USP e diretora de estudos</p><p>e pesquisas de acesso à justiça da Defensoria Pública do Estado do</p><p>Rio de Janeiro; e Poliana Ferreira, doutoranda em Direito na FGV</p><p>Direito SP, onde também atua como pesquisadora e diretora da</p><p>Plataforma Justa ― um centro de pesquisa, design e incidência que</p><p>atua no campo da economia política da justiça e une diferentes</p><p>áreas do conhecimento como direito, economia, gestão pública,</p><p>tecnologia, ciência política, comunicação e engenharia de</p><p>produção. Como reflexão, as entrevistadas ajudam a entender</p><p>quem são os vigiados e como o Estado reproduz discriminações.</p><p>Apresentam diretrizes com o intuito de fortalecer um controle</p><p>externo mais abrangente sobre as atividades dos intervenientes</p><p>do sistema de justiça criminal, visando à mitigação de seus efeitos</p><p>adversos sobre grupos específicos. Além disso, elas propõem</p><p>que, para além da atuação legislativa na regulamentação e da</p><p>participação da sociedade civil na supervisão externa das ações</p><p>dos agentes estatais, o Judiciário desempenha um papel crucial</p><p>nesse contexto. Defensores públicos e advogados também são</p><p>mencionados, já que, de maneira geral, instigam o Judiciário a se</p><p>pronunciar sobre questões coletivas. Essas recomendações são</p><p>consideradas como contribuições essenciais para assegurar uma</p><p>proteção ampliada e uma eficácia aprimorada dos direitos das</p><p>pessoas acusadas pelo sistema de justiça criminal.</p><p>Disponível em https://laut.org.br.</p><p>https://laut.org.br/revoar/vigiar-o-que-punir-quem/</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 11</p><p>Pintura em tela intitulado La Liberté guidant le peuple</p><p>Fonte: https://pt.wikipedia.org</p><p>A concepção de Estado que conhecemos atualmente, alicerçada pelo discurso</p><p>presente no princípio da dignidade humana e do ideal de liberdade, foi subsidiada</p><p>pelos princípios da instalação do Estado Moderno, que se deu na segunda metade do</p><p>século XV. Nele se dá o início da verticalidade na construção histórica da concepção</p><p>de liberdade, presente em duas teorias sociológicas muito importantes.</p><p>A primeira concepção é do teórico alemão Max Weber, que possui a compreensão</p><p>de Estado Moderno como Estado racional. Este seria entendido como uma</p><p>instituição burocrática que manteria seu poder pelo uso da violência física, a partir</p><p>de instrumentos legítimos, dentre eles a polícia e o exército.</p><p>1.2 As concepções de direito, a partir do Estado Moderno no</p><p>contexto brasileiro</p><p>https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Eug%C3%A8ne_Delacroix_-_Le_28_Juillet._La_Libert%C3%A9_guidant_le_peuple.jpg</p><p>12Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Desta forma, as quatro características apresentadas, conforme a teoria weberiana,</p><p>para que uma comunidade política exista são: uma administração e uma ordem</p><p>jurídica, organizada por normas; uma administração militar; o monopólio do poder</p><p>sobre todas as pessoas que nasceram ou estão no território; e a legitimação da</p><p>aplicação do poder sobre essas pessoas.</p><p>A existência do Estado estaria condicionada à circunstância de dominação que, de forma</p><p>constante, é exigida pelos dominadores. A direção política nasce do ordenamento</p><p>jurídico e estes são mantidos pelo domínio de um determinado território.</p><p>A segunda concepção teórica que fundamenta a proposta de toda a investigação é</p><p>a de Karl Marx, que compreende o Estado Moderno como uma representatividade</p><p>de interesses da classe dominante. Nesse sentido, o Estado Moderno seria o Estado</p><p>burguês, fundamentado na divisão de classes.</p><p>Para Marx, o Estado Moderno surge da evolução histórica da humanidade, nascida</p><p>da divisão da sociedade em classes, com o fim de manter o domínio de uma</p><p>determinada classe sobre as outras. Para conter este distanciamento nas forças,</p><p>surge o Estado que, pelo poder coercitivo, controla a luta de classes. Assim, para</p><p>defender os privilégios da classe dominante, o Estado impede o desenvolvimento</p><p>da classe trabalhadora. Companheiro de Marx na construção da teoria materialista,</p><p>Engels aponta que o Estado nasceu para conter o antagonismo de forças, contudo,</p><p>ao mesmo tempo, nasceu de um conflito em que a classe economicamente mais</p><p>poderosa e politicamente dominante detinha o poder e, assim, os meios de repressão</p><p>e exploração da classe trabalhadora.</p><p>O poder do Estado é centralizado e formalizado por órgãos como o exército e a polícia</p><p>na defesa da propriedade privada. O Estado produz e reproduz o ordenamento</p><p>tutelado pelo capital, aspecto fundante de sua existência.</p><p>Contudo, o início da discussão da defesa de direitos advém do período monárquico,</p><p>especificamente do parlamentarismo monárquico inglês, ocorrido no século XIII.</p><p>Segundo Ferreira (2013), durante esse período, os reinos da Inglaterra e da França</p><p>envolveram-se em muitas e intensas guerras, em virtude da luta por territórios. Em</p><p>uma dessas lutas, a Batalha de Bouvines, em 1214, a França tomou da Inglaterra a região</p><p>do Ducado da Normandia. O rei inglês João Sem Terra, tentando reaver o território</p><p>perdido, aumentou os tributos dos barões ingleses, causando sua insatisfação.</p><p>Não concordando com os gastos bélicos, os barões pressionavam o rei. O monarca</p><p>também sofria pressão dos membros da Igreja Católica que o acusavam de abuso por</p><p>nomear clérigos para cargos importantes dentro de bispados do reino inglês. Numa</p><p>atitude de abuso, João Sem Terra chegou a recusar a recepção do cardeal Stephen</p><p>Longton como representante da Igreja Católica na Inglaterra, sendo excomungado</p><p>pelo Papa Inocêncio III.</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 13</p><p>Odiado por muitos, mas ainda exercendo seu poder, o rei foi acuado quando o</p><p>cardeal Longton e alguns dos barões elaboraram um texto de uma Magna Carta, com</p><p>o título “Grande Carta das Liberdades, ou concórdia entre o rei João e os barões para</p><p>a outorga das liberdades da Igreja e do rei Inglês”, em 15 de julho de 1215. Conhecido</p><p>como Carta Magna de 1215, o documento previa a garantia de plenos direitos aos</p><p>homens ingleses livres. Assim, o rei não deveria abusar de seu poder para coagi-los.</p><p>Os homens livres naquele período eram os homens de posses e membros da nobreza.</p><p>A Magna Carta, ainda hoje, é a representação legal de direitos no mundo ocidental.</p><p>Mas a defesa de direitos começa num outro período. De fato, o Estado Moderno</p><p>iniciou por volta do século XV e transitou historicamente por diferentes organizações.</p><p>Segundo Rúbia Nazari Oliveira (2006), o Estado Moderno surge de acontecimentos</p><p>como a crise do feudalismo, o aumento populacional dos centros urbanos e as rotas</p><p>alternativas de comércio.</p><p>Esse é um momento em que nobreza e burguesia formavam uma aliança, dando</p><p>poder a um soberano que, em contrapartida, proporcionaria várias condições</p><p>favoráveis a esses dois grupos, como a padronização das políticas fiscais e monetárias</p><p>e a proteção da propriedade desta aliança pela repressão das revoltas camponesas.</p><p>Essa forma de organização intitulou-se absolutismo.</p><p>Uma nova forma de poder foi estabelecida,</p><p>uma autoridade máxima que, dentro dos</p><p>limites do território, não reconhecia os poderes da Igreja ou do senhor feudal. Intitulado de</p><p>soberano, este detinha o controle sobre os direitos e deveres do povo, sem compartilhar</p><p>suas decisões, compondo Estados individuais com poder absoluto. A vontade do soberano</p><p>definia a mudança estrutural jurídica dos direitos, garantindo ou não tais condições.</p><p>Condenações ou absolvições eram definidas pela decisão do soberano.</p><p>O direito, dessa forma, era dado pela soberania que recebia o nome de Estado, mas</p><p>era definido unicamente para servir ao próprio soberano, pelas suas vontades e</p><p>realizações. As alianças formadas com o soberano permitiam o tratamento das leis</p><p>como garantia do direito à propriedade, ou seja, de quem possuía a propriedade,</p><p>condição da burguesia ascendente e da nobreza no seu período histórico.</p><p>A concepção de Estado aqui descrita, segundo Norberto Bobbio (2004), nasceu</p><p>da dissolução da comunidade primitiva, nascida dos laços de parentesco, e da</p><p>formação de comunidades por grupos familiares, unidas pela sobrevivência advinda</p><p>do sustento e da proteção.</p><p>Como garantia das sobrevivências externas, ou seja, da proteção, os exércitos</p><p>passaram a se configurar como regulares. Em busca de conquista de novos territórios</p><p>e, consequentemente, de mais poder, as guerras também tornaram-se frequentes.</p><p>Para manter esse exército foi criado um sistema tributário nacional que taxava com</p><p>altos impostos o povo, isentando a nobreza. O fortalecimento do Estado imperava pela</p><p>14Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>força do exército e pelo mercantilismo, que movia a economia e tinha como principal</p><p>finalidade reforçar o poder do Estado pela acumulação de moedas e metais preciosos.</p><p>A legitimidade da violência configura um dos instrumentos específicos para a</p><p>garantia da ordem estabelecida, uma relação em que a dominação se estabeleceria</p><p>sobre o próprio homem, tendo na legitimidade da força física seu controle.</p><p>Por volta do século XVIII, os Estados absolutistas sofreram um profundo declínio.</p><p>Os movimentos burgueses surgiram como resultado das exorbitâncias do Estado</p><p>absolutista que garantia a estes as riquezas, mas não os permitia o poder. A</p><p>transformação histórica se projeta na sua íntegra a partir de dois acontecimentos</p><p>históricos: a Revolução Americana, em 1776, que levou à independência dos Estados</p><p>Unidos, e a Revolução Francesa, em 1789, uma reação da burguesia ao poder absolutista.</p><p>As monarquias passaram a ser repúblicas, dando origem às primeiras constituições,</p><p>iniciando-se pela Constituição Americana, em 1787, e pela Constituição Francesa, em</p><p>1791, que definiram os Direitos do Homem e do Cidadão. A ideia de liberdade individual</p><p>deu suporte aos direitos políticos, os quais pautaram a concepção do Estado. Revelou-</p><p>se a possibilidade de eleição de representantes, todavia o direito do voto era limitado</p><p>aos homens que tivessem bens. Nasceu também nesse momento a necessidade do</p><p>Estado de Direito, para estabelecer direitos aos cidadãos e os limites da sua ação.</p><p>É importante destacar, no entanto, que os políticos propostos</p><p>nas repúblicas previam uma mudança político-econômica,</p><p>característica que originou o Estado liberal. As consequências</p><p>foram relevantes para a organização que se conhece, atualmente:</p><p>a aristocracia enriqueceu e se tornou mais poderosa e o</p><p>parlamento e juízes ficaram responsáveis por aprovar impostos,</p><p>além de se tornarem inatingíveis politicamente. Os juízes não</p><p>poderiam ser destituídos. A liberdade de opinião e o direito</p><p>privado representaram os baluartes. Esse direito não foi escolhido</p><p>pelo sujeito e muito menos pela decisão da coletividade.</p><p>Nessa perspectiva, Engels (1984), na obra clássica intitulada A origem da família, da</p><p>propriedade privada e do Estado, afirma que tal transição aconteceu essencialmente</p><p>com o intuito de estabelecer o controle de uma classe sobre a outra. Ao refletir sobre a</p><p>barbárie e a civilização, o teórico aponta que a formação do Estado liberal representou</p><p>uma produção da sociedade, o qual, para que as classes de interesses antagônicos</p><p>não se devorassem, fez-se necessário. Esse poder, aparentemente, estaria por cima</p><p>da sociedade, mas se estabelecia somente para amortecer o choque entre elas.</p><p>Assim, embora esse poder tivesse origem na sociedade, por tais questões ele se</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 15</p><p>distanciou dela de forma progressiva. Sendo assim, a liberdade era um direito que só</p><p>poderia ser alcançado pela lei, mas pautado nas concepções do direito à propriedade</p><p>e dos meios de obtenção dos acúmulos de riqueza. O direito foi deslocado, dessa</p><p>forma, do sujeito para a propriedade, sendo atribuído ao sujeito o valor dado ao</p><p>econômico, por representar a base de produção.</p><p>No final do século XIX, as garantias dos direitos individuais demonstraram sua</p><p>ineficiência para a sociedade que se organizava, observando que as questões</p><p>econômicas vinham deixando lacunas sociais como as condições de trabalho</p><p>e a exploração dos trabalhadores. A igualdade prevista pela lei significava um</p><p>consentimento burguês com o título de cidadania civil.</p><p>Constitucionalizou-se, nesse período, pelas consequências apresentadas, os direitos</p><p>sociais. São precursores do Estado Social de Direito, o México, em 1917, e a Alemanha,</p><p>em 1919. As garantias dos direitos sociais se referiam à saúde, à educação e à</p><p>segurança, condições consideradas mínimas para a sobrevivência do cidadão.</p><p>Outros acontecimentos como a Revolução Russa, em 1917, e a queda da bolsa</p><p>de Nova Iorque, em 1929, instigaram os questionamentos contra o Estado liberal,</p><p>visando novas possibilidades de organização social. Originou-se, então, na Rússia, o</p><p>Estado socialista, o qual defendia que o Estado precisaria assumir a propriedade e o</p><p>controle dos meios de produção do trabalho.</p><p>Resultante da reação da exploração do trabalhador e das consequências sociais</p><p>causadas pelo Estado liberal, o socialismo pautou-se nas questões históricas que</p><p>vinham mudando o cenário social, como o aumento populacional, o aumento</p><p>da jornada de trabalho e o trabalho infantil. Despontava ainda uma luta dos</p><p>movimentos da classe de trabalhadores pela mudança da realidade social, tendo</p><p>como sustentáculo a defesa de uma coletividade.</p><p>Após a Segunda Guerra Mundial, foi estabelecida uma visão de direito e práticas</p><p>internacionais com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O direito de</p><p>votar se torna universal, configura-se a amplitude do Estado Social Democrático.</p><p>Também intitulado de Estado Constitucional, as características dessa organização</p><p>social foram fundamentadas na garantia e efetiva realização dos direitos individuais,</p><p>estabelecendo os direitos fundamentais, incluídos pela normatização do Estado,</p><p>controlando a economia e as questões sociais.</p><p>Como produto do processo de democratização de alguns países e o efeito da Guerra</p><p>Fria, os governos passaram a utilizar um instrumento de decisão, intitulado Políticas</p><p>Públicas. Souza (2006) afirma que as políticas públicas são o conjunto de ações de</p><p>um determinado governo, num processo de planejamento, que atuam na vida do</p><p>cidadão. Nos países democráticos, elas traduzem propósitos e plataformas eleitorais</p><p>que se transformam em programas e ações.</p><p>16Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Neste vídeo, você será guiado por Normandus, um viajante do</p><p>tempo, em uma emocionante jornada pela história da construção</p><p>do Estado Moderno. Através de cenários imersivos e interações</p><p>com personagens históricos, você vai explorar os principais</p><p>eventos e teorias que moldaram as bases do Estado como o</p><p>conhecemos hoje. De forma didática e envolvente, Normandus</p><p>nos conduz desde o surgimento do absolutismo até os marcos</p><p>fundamentais do Estado Democrático de Direito, destacando</p><p>as perspectivas teóricas de pensadores como Max Weber, Karl</p><p>Marx e Friedrich Engels. Prepare-se para uma viagem única que</p><p>conecta o passado com o presente,</p><p>iluminando a importância</p><p>dos direitos humanos e da justiça social na evolução das nossas</p><p>sociedades. Vamos embarcar nessa aventura?</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=EtLUehkdqP4</p><p>Direitos Humanos no Estado Moderno</p><p>Duração: 04:48</p><p>O agrupamento de ações, pautado nos direitos sociais e nas necessidades</p><p>emergenciais, irá compor as políticas públicas sociais, constituindo os sistemas de</p><p>proteção social com abrangências distintas, dados o orçamento e o tempo previstos</p><p>para implementação e sua urgência, podendo ser de construção ou de reforma.</p><p>No Brasil, o Estado Social de Direito, com perspectiva democrática, está configurado</p><p>na Constituição Federal de 1988. Esse documento consagra os direitos fundamentais</p><p>do cidadão, representando o núcleo central constitucional. A Carta Magna brasileira,</p><p>como é conhecida, carrega o aspecto visionário de respeito aos valores de igualdade</p><p>entre gêneros, defende a erradicação da pobreza, a preservação dos povos originários,</p><p>postulando nos seus direitos fundamentais, a defesa dos direitos humanos, como</p><p>seguridade social e educação. Canotilho (2003) afirma que a presença de tais direitos</p><p>estrutura o Estado de Direito, apresentando-os revestidos de direitos humanos</p><p>e estruturados pelos acordos internacionais que respaldam as ordens jurídicas</p><p>internas. Define-se Estado de Direito como aquele que respeita e cumpre os direitos</p><p>consagrados nas convenções, pactos e declarações internacionais, vinculando o</p><p>Estado e suas constituições na defesa dos direitos humanos fundamentais.</p><p>Os direitos fundamentais são uma categoria jurídica que tem como objetivo proteger</p><p>a dignidade humana. Segundo Ferraresi (2012), tais direitos possuem algumas</p><p>características primordiais como universalidade, limitabilidade, concorrência e</p><p>irrenunciabilidade.</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=EtLUehkdqP4</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 17</p><p>A universalidade caracteriza-se pela igualdade, não devendo existir divisão de classe</p><p>ou qualquer outra forma de distinção de categorização humana. Já a limitabilidade</p><p>aponta que é preciso haver uma articulação dos direitos na divergência de interesses,</p><p>considerando que estes não são absolutos e, quando se chocam, precisam ter uma</p><p>concessão mútua. A concorrência configura-se pela compreensão da existência de</p><p>um acúmulo de direitos no exercício de seus atributos. Por fim, a impossibilidade</p><p>de renúncia de tais direitos, embora em alguns momentos estes possam não ser</p><p>exercidos temporariamente, é estabelecida pelo princípio da irrenunciabilidade.</p><p>Os princípios foram gradativamente acrescidos conforme as defesas que se faziam</p><p>em cada época. Assim, cada período histórico gerava reivindicações sociais na</p><p>defesa de direitos. Os direitos fundamentais, muitas vezes não compreendidos</p><p>como importantes, representaram novas frentes a serem valorizadas. Cada fase de</p><p>superação remonta historicamente a quatro gerações de direitos.</p><p>Dessa forma, a classificação da primeira geração de direitos surge no momento de</p><p>superação do Estado absolutista, garantindo um enfrentamento das decisões do</p><p>soberano sobre a vida privada. Impõe ao Estado um não fazer, quando o indivíduo,</p><p>detentor do direito à liberdade, vê a intromissão em sua vida privada.</p><p>A primeira geração é a origem do conceito de Estado de Direito, contudo, ainda</p><p>limitado. Os conceitos de defesa eram pautados, essencialmente, na liberdade</p><p>individual, não se definiam em quais condições o sujeito iria usufruir deles, além de</p><p>não apresentar as garantias e responsabilidades do Estado.</p><p>A segunda geração de direitos, ao contrário da anterior, define que o Estado tem</p><p>responsabilidade direta na garantia de condições mínimas para que se efetivem.</p><p>A partir da concepção de Estado Social de Direito ou Estado constitucional,</p><p>estabelecem-se os chamados direitos sociais com vistas a garantir direitos que</p><p>derivam da compreensão jurídica de Estado de bem-estar. Desse modo, os direitos</p><p>cumpriam a finalidade de garantir ao indivíduo a dignidade, sendo inerente ao fato</p><p>de ser humano, buscando assegurar direitos como saúde, trabalho, lazer e educação.</p><p>Após a Segunda Guerra Mundial, marco histórico dos direitos humanos, alguns direitos</p><p>fundamentais surgiram na superação da concepção de individualidade. Esses direitos</p><p>foram chamados de direitos de solidariedade, com o reconhecimento da existência</p><p>de afirmações coletivas como a paz, o desenvolvimento, o ambiente ecologicamente</p><p>equilibrado, a preservação do patrimônio da humanidade, entre outros.</p><p>A legislação encontra-se, atualmente, na quarta geração de direitos fundamentais,</p><p>os quais necessitam de mecanismos para efetivação, hoje estabelecidos pelas</p><p>políticas públicas. Dentre eles estão os direitos focados na individualidade, como</p><p>o direito à recusa na continuidade de tratamento médico em caso de doença fatal,</p><p>por exemplo. Os direitos relacionados à coletividade referem-se à globalização e se</p><p>fortalecem na democracia e no pluralismo.</p><p>18Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Gerações de Direitos Humanos</p><p>Fonte: adaptado de https://www.canva.com</p><p>A quarta geração, frente os principais documentos legais, apresenta os direitos</p><p>fundamentais constantes no artigo 3º da Constituição Federal, com o discurso</p><p>pautado na efetivação de um conceito de cidadania, elencando os seguintes</p><p>objetivos fundamentais: I. construir uma sociedade livre, justa e solidária; II. garantir</p><p>o desenvolvimento nacional; III. erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as</p><p>desigualdades sociais e regionais; IV. promover o bem de todos, sem preconceitos</p><p>de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.</p><p>Os direitos garantidos pela Lei, entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário,</p><p>preveem a separação das funções e poderes do Estado. Segundo o artigo 2º da</p><p>Constituição Federal, os três poderes são “independentes e harmônicos entre</p><p>si”, não havendo subordinação de um sobre o outro. Cada qual tem uma função</p><p>co-dependente, o que implica que as políticas públicas demandam avaliação</p><p>diagnóstica, elaboração, execução e monitoramento com a participação desses</p><p>poderes. No campo social, tais políticas englobam áreas como previdência social,</p><p>emprego e defesa do trabalhador, saneamento básico, entre outras.</p><p>Nesse contexto, o Estado e os direitos consagrados pela Constituição, como a</p><p>concepção de educação, definem uma instituição social. Através do processo</p><p>histórico, essa instituição deve zelar pelo alicerce da existência digna de seus cidadãos,</p><p>que são globalmente reconhecidos como humanidade. A conquista histórica dos</p><p>direitos fundamentais está na luta por sua efetividade, para além dos documentos</p><p>legais, garantindo sua valência social. A violação desses direitos emerge como um</p><p>aspecto crucial na defesa deles.</p><p>https://www.canva.com/design/DAFY9-ZgV2I/jrHgaD_pgU99yDUQn03gQg/edit?utm_content=DAFY9-ZgV2I&utm_campaign=designshare&utm_medium=link2&utm_source=sharebutton</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 19</p><p>Gerações de Direitos Humanos</p><p>Fonte: adaptado de https://www.canva.com</p><p>https://www.canva.com/design/DAFY9-ZgV2I/jrHgaD_pgU99yDUQn03gQg/edit?utm_content=DAFY9-ZgV2I&utm_campaign=designshare&utm_medium=link2&utm_source=sharebutton</p><p>20Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>O Estado e os direitos consagrados pela Constituição, dentre eles a concepção de</p><p>educação, são elementos que definem uma instituição social a qual, pelo processo</p><p>histórico, deve prezar pelo alicerce da existência digna de seus cidadãos, que</p><p>globalmente são intitulados de humanidade. Compreendemos, dessa maneira, que</p><p>a conquista histórica dos direitos fundamentais está na luta pelos direitos e pela sua</p><p>efetividade para que, além dos documentos legais, esteja a valência social. Fato que</p><p>traz à tona um aspecto importante na defesa dos direitos: a sua violação.</p><p>A violação de direitos precisa ser uma preocupação num Estado que tem como</p><p>obrigação a garantia destes. Refere-se</p><p>fundamentalmente à execução direta da</p><p>ordem jurídica posta no documento constitucional. Nesse sentido, qualquer pessoa,</p><p>em qualquer circunstância, é detentora dos direitos fundamentais e, quando estes</p><p>direitos são violados, é de responsabilidade do Estado organizar ações sistêmicas</p><p>que mudem a situação e que superem a condição lesada.</p><p>Alguns mecanismos foram adotados desde a Declaração Universal dos Direitos</p><p>Humanos, em 1948. Formulada a partir do princípio do direito internacional</p><p>consuetudinário, considerando práticas respeitosas e consistentes, aderidas por</p><p>várias nações, com consenso de compromisso legal, seus artigos defendem os</p><p>direitos dos seres humanos no presente e no futuro, para as novas gerações, diante</p><p>das violações reveladas pela Segunda Guerra Mundial.</p><p>Segundo Flávia Piovesan (2012), os preceitos da Declaração se reproduzem e são</p><p>especificados nos diferentes contextos em que as violações aconteceram, historicamente,</p><p>ou significam potenciais devido às relações forçadas. Uma delas é a prisão.</p><p>As Regras Mínimas para o Tratamento de Presos foram adotadas no I Congresso</p><p>das Nações Unidas sobre a Prevenção do Crime e o Tratamento dos Delinquentes,</p><p>realizado em Genebra em 1955, e aprovadas pelo Conselho Econômico e Social das</p><p>Nações Unidas, a partir das Resoluções nº 663 C, de 31 de Julho de 1957 e nº 2076, de</p><p>13 de Maio de 1977. Elas chamam a atenção dos governos sobre a adoção e aplicação</p><p>de medidas humanizadoras e contra a tortura nos estabelecimentos penitenciários e</p><p>correcionais. São também chamadas de Regras de Mandela, como uma homenagem</p><p>ao líder sul-africano Nelson Mandela. Em 22 de maio de 2015, a Organização das</p><p>Nações Unidas (ONU) oficializou um novo quadro de normas e incorporou novas</p><p>doutrinas de direitos humanos para torná-las diretrizes na reestruturação do atual</p><p>modelo de sistema penal e na percepção do papel do aprisionamento.</p><p>Retomando a cronologia dos documentos, em 1966, foram editados dois tratados</p><p>internacionais vinculados à Declaração Universal. Um deles se configurou, a partir</p><p>dos direitos liberais, conhecido como Pacto Internacional dos Direitos Civis e</p><p>Políticos. O segundo tratou sobre direitos sociais, denominado de Pacto Internacional</p><p>dos Direitos Sociais, Econômicos e Culturais. O primeiro carregava um caráter de</p><p>aplicação imediata, já o segundo teria a aplicação progressiva, de acordo com cada</p><p>nação. Ambos, consolidaram o reconhecimento de direitos como: o direito à vida,</p><p>contra a tortura e a escravidão e o direito à liberdade, entre outros.</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 21</p><p>A adoção de um tratado sobre os direitos civis e políticos separada de um tratamento</p><p>relacionado aos direitos sociais provocou controvérsias, pois os princípios da</p><p>interdependência e da indivisibilidade entre direitos propunham a relação direta</p><p>entre os direitos civis e políticos e os direitos sociais, econômicos e culturais,</p><p>considerando todos essenciais para a garantia da dignidade humana. Tal situação</p><p>se deu nas relações concretas, a partir da histórica divisão entre os países socialistas</p><p>e capitalistas durante a Guerra Fria.</p><p>A Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Inumanos</p><p>ou Degradantes, de 1975, reafirmou as garantias quanto aos direitos humanos,</p><p>estabelecendo um sistema de visitas, pelos órgãos nacionais e internacionais, nos</p><p>espaços prisionais, a fim de verificar situações de violações aos direitos humanos e</p><p>condições que pudessem significar potenciais situações de torturas ou tratamentos</p><p>cruéis e degradantes. Em 1981, a Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos</p><p>trouxe, no seu artigo 17, a ratificação das legislações, afirmando o direito à educação,</p><p>à livre atividade cultural e ao dever do Estado em salvaguardar tais direitos.</p><p>Alicerçado pelos documentos citados, em 1984, o Brasil rascunhou as primeiras</p><p>garantias do direito às pessoas em privação ou restrição de liberdade, pela Lei de</p><p>Execuções Penais nº 7.210. O documento trouxe na Seção V, do artigo 17 ao 21,</p><p>orientações específicas quanto ao direito à educação para as pessoas privadas</p><p>de liberdade. Sinalizou o entendimento que as assistências são essenciais para a</p><p>retomada harmônica de convivência com a sociedade extramuros.</p><p>Em 1994, no Brasil, o Presidente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária</p><p>(CNPCP) regulamentou as Regras Mínimas para o Tratamento de Presos no Brasil,</p><p>levando em conta as recomendações do Comitê Permanente de Prevenção ao Crime</p><p>e Justiça Penal das Nações Unidas e observando o disposto na Lei de Execução Penal,</p><p>ficando o trabalho e a educação como eixos importantes nos espaços prisionais.</p><p>As condições prisionais, no decorrer do tempo, e outras causas advindas de</p><p>abusos institucionais e não institucionais, além do significativo medo de retorno à</p><p>violência operada ao longo do período de Ditadura Civil-Militar, levaram ao Tratado</p><p>Internacional de Prevenção e Punição da Tortura, em 1997. Segundo Piovesan</p><p>(2012), a Lei n.º 9.455/97 foi incorporada aos preceitos da Constituição Federal e</p><p>demais legislações relacionadas. Tal documento tem sido motivo de mobilização</p><p>por diferentes atores que compõem o sistema de justiça, dentre eles delegados,</p><p>promotores de justiça e magistrados.</p><p>De acordo com Duarte e Marques (2020), no ano de 2002, a Assembleia Geral da</p><p>Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou o Protocolo Facultativo à Convenção</p><p>Contra a Tortura, conhecido como OPCAT. Seu propósito foi estabelecer entidades</p><p>encarregadas de realizar inspeções regulares em locais de privação de liberdade,</p><p>sem aviso prévio. Essa responsabilidade seria parcialmente atribuída ao Subcomitê</p><p>22Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>de Prevenção à Tortura (SPT), que se baseia não apenas no OPCAT, mas também nas</p><p>disposições da Convenção da ONU contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas</p><p>Cruéis, Desumanos ou Degradantes. As autoras apontam que, especificamente, dentre</p><p>outras prerrogativas, o SPT inclui: a) o acesso a todas as informações sobre o número</p><p>de pessoas privadas de liberdade, o tratamento oferecido e as condições de detenção;</p><p>b) a liberdade de movimento em todos os locais de detenção, suas instalações e</p><p>serviços; c) a oportunidade de conduzir entrevistas confidenciais; e d) a autonomia</p><p>para selecionar os locais a visitar e as pessoas a entrevistar. Essas ações devem ser</p><p>conduzidas de forma independente por dez especialistas, aderindo aos princípios de</p><p>confidencialidade, imparcialidade, não seletividade, universalidade e objetividade.</p><p>Todos os países signatários do OPCAT devem facilitar a realização desse</p><p>monitoramento, respeitando as prerrogativas do SPT. Após as inspeções, os membros</p><p>do órgão apresentam ao Estado visitado um relatório contendo um conjunto de</p><p>recomendações que visa, em última instância, eliminar práticas de tortura em locais</p><p>de privação de liberdade.</p><p>Com atribuições e características gerais semelhantes, o OPCAT também previu a</p><p>instituição de Mecanismos Nacionais de Prevenção à Tortura, embora não tenha</p><p>especificado um formato particular para esses órgãos. Cada país signatário do</p><p>protocolo deve adaptar um modelo de acordo com sua realidade, permitindo que</p><p>um Mecanismo Nacional Preventivo seja, por exemplo, uma instituição nacional de</p><p>Direitos Humanos, uma ouvidoria, uma comissão do Congresso, uma organização</p><p>não governamental ou qualquer entidade especializada responsável por monitorar</p><p>locais de detenção. Da mesma forma, os Estados têm a opção de apresentar</p><p>vários Mecanismos Nacionais Preventivos, levando em consideração sua estrutura</p><p>federativa ou, como outra alternativa, uma divisão temática.</p><p>Em 2004, o Protocolo Facultativo à Convenção das Nações Unidas contra a Tortura,</p><p>adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, estabeleceu, segundo o Manual</p><p>de Prevenção à Tortura do Instituto Interamericano de Direitos Humanos, uma nova</p><p>proposta à violação dos direitos humanos, intitulada tortura, a qual se constitui</p><p>um</p><p>crime contra a humanidade. O protocolo estabelece a vigilância, supervisão e controle,</p><p>além da disseminação de informações por toda a comunidade internacional.</p><p>No Brasil, o Caderno “Direito a não ser submetido a castigos cruéis, desumanos</p><p>e degradantes”, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República,</p><p>ratificou tais abordagens em 2007, a partir do Protocolo Facultativo da Convenção</p><p>das Nações Unidas contra a Tortura (OPCTA), que estabelece um sistema de visitas</p><p>aos locais de detenção realizado por especialistas nacionais e internacionais, com</p><p>intuito de prevenir a tortura e outras penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou</p><p>degradantes (Brasil, 2013a).</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 23</p><p>Situadas como proporção menor encarcerada, mas em crescimento gigantesco,</p><p>as mulheres tiveram seus direitos reconhecidos somente em 2010, em Bangkok,</p><p>pelas Regras das Nações Unidas para o tratamento de mulheres presas e medidas</p><p>não privativas de liberdade para mulheres infratoras. Esse marco normativo</p><p>internacional definiu as diretrizes para o tratamento de mulheres presas e de</p><p>medidas não privativas de liberdade para mulheres infratoras, representando uma</p><p>forma de sensibilizar órgãos públicos do sistema carcerário para os cuidados com a</p><p>questão de gênero nos presídios.</p><p>Em consonância com os compromissos internacionais ratificados pelo Brasil, a Lei</p><p>nº 12.847, de 2013, criou o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura</p><p>(SNPCT) (Brasil, 2013b).</p><p>O SNPCT é composto, de modo permanente, pelo Comitê Nacional</p><p>de Prevenção e Combate à Tortura (CNPCT), pelo Mecanismo</p><p>Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT), pelo</p><p>Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP)</p><p>e pela Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen/MJSP).</p><p>Para mais informações, acesse:</p><p>https://www.gov.br/participamaisbrasil.</p><p>No SNPCT, foi definida a necessidade de se fortalecer a prevenção e combater a</p><p>tortura, articulando formas cooperadas e articuladas frente à necessidade de</p><p>informação e a divulgação de boas práticas. Estabeleceu-se também o dever de se</p><p>realizar monitoramento, supervisão e controle de estabelecimentos e unidades</p><p>onde se encontrem pessoas privadas de liberdade.</p><p>Em 2016, foram publicadas as Regras internacionais para o enfrentamento da</p><p>tortura e maus-tratos, as quais reafirmam a tortura como uma “ofensa à dignidade</p><p>humana”, assinalando a necessidade de se tomar medidas efetivas de enfrentamento</p><p>e consolidar condições que permitam o reconhecimento e respeito à pessoa, às</p><p>suas liberdades e direitos fundamentais. Tais perspectivas denunciam uma causa</p><p>ainda latente nas relações (Conselho Nacional de Justiça, 2016).</p><p>https://www.gov.br/participamaisbrasil/o-sistema-nacional-de-prevencao-e-combate-a-tortura</p><p>24Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Aprisionamento e Direitos Humanos no Brasil após a Constituição</p><p>1988</p><p>Promulgação da Constituição Federal</p><p>1994</p><p>Regras mínimas para o tratamento de Presos no Brasil</p><p>1997</p><p>Tratado Internacional de Prevenção e Punição da Torturas</p><p>2004</p><p>Protocolo Facultativo à Convenção das Nações Unidas contra a</p><p>Tortura</p><p>2007</p><p>Protocolo Facultativo da Convenção das Nações Unidas contra a</p><p>Tortura (OPCTA)</p><p>2010</p><p>Regras das Nações Unidas para o tratamento de mulheres presas</p><p>e medidas não privativas de liberdade para mulheres infratoras</p><p>2013</p><p>Criação do Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura</p><p>(SNPCT)</p><p>2016</p><p>Regras internacionais para o enfrentamento da tortura e maus-</p><p>tratos</p><p>É importante, nesse sentido, compreender que as políticas</p><p>públicas, advinda dessas defesas nacionais e internacionais,</p><p>foram, na maioria das vezes, permeadas por discursos de um</p><p>direito que, de forma afirmativa, são garantias exigidas no</p><p>cumprimento do previsto na Constituição Federal quanto aos</p><p>direitos fundamentais, frente ao princípio da legalidade e em</p><p>exigências internacionais vinculadas a questões dos direitos</p><p>humanos e cultura da paz mundial. Todavia, nem sempre o que</p><p>está assegurado na legislação é prática, e nem tudo que está</p><p>posto em discurso pode ser entendido como direito garantido.</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 25</p><p>Nesse contexto, a interseção entre encarceramento, desigualdade social e racismo</p><p>estrutural surge como ponto importante de reflexão. Embora ancoradas em</p><p>princípios legais, tanto nacionais quanto internacionais, que buscam garantir direitos</p><p>fundamentais e promover uma cultura de paz mundial, as políticas frequentemente</p><p>se confrontam com uma realidade discrepante. O ideal de “Estado Moderno”</p><p>apresentado até aqui, concebido como um ente voltado para a promoção do bem</p><p>comum e a salvaguarda dos direitos individuais, confronta-se paradoxalmente com</p><p>contradições palpáveis ao adentrarmos o universo do sistema de encarceramento</p><p>brasileiro. A análise desse cenário complexo revela uma intrincada teia de relações</p><p>que questiona a essência da justiça e da equidade, destacando a interseção entre o</p><p>sistema penal e a desigualdade no país.</p><p>A discussão acerca do encarceramento em massa se apresenta como um ponto</p><p>crucial neste debate, expondo uma realidade que suscita reflexões sobre a</p><p>efetividade das políticas públicas e o alcance dos ideais democráticos.</p><p>Nesse sentido, Juliana Borges, consultora do Núcleo de Enfrentamento,</p><p>Monitoramento e Memória de Combate à Violência da Ordem dos Advogados do</p><p>Brasil de São Paulo e conselheira da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre</p><p>Drogas, em sua obra “Encarceramento em massa”, oferece insights sobre as raízes</p><p>desse fenômeno, indicando que, muitas vezes, as práticas estatais de reclusão</p><p>acabam por reproduzir e perpetuar as desigualdades sociais (Borges, 2019).</p><p>A autora destaca como a superlotação carcerária, aliada a condições desumanas,</p><p>não apenas pune os indivíduos condenados, mas lança dúvidas sobre a eficácia</p><p>do sistema em promover a ressocialização. A ausência de políticas efetivas de</p><p>reintegração social intensifica a marginalização, acentuando as desigualdades</p><p>já existentes. Ela aponta que a reflexão sobre o papel do Estado Moderno nesse</p><p>contexto exige uma reavaliação das estratégias de enfrentamento do crime.</p><p>Corroborando com a fala de Borges, Salo Carvalho, professor adjunto de Direito</p><p>Penal da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro</p><p>(UFRJ) e professor permanente do programa de Mestrado em Direito da Unilasalle</p><p>(RS), na obra intitulada “O encarceramento seletivo da juventude negra brasileira”,</p><p>aprofunda essa discussão e aponta a decisiva contribuição do Poder Judiciário na</p><p>seletividade na aplicação das leis penais, que emerge como um elemento central,</p><p>evidenciando que a juventude negra é sistematicamente mais impactada por</p><p>políticas repressivas, o que lança luz sobre a urgência de se repensar o sistema de</p><p>justiça criminal (Carvalho, 2015).</p><p>O autor denuncia como o racismo estrutural permeia as decisões judiciais,</p><p>perpetuando estereótipos prejudiciais. A discrepância nas taxas de encarceramento</p><p>entre negros e brancos não pode ser ignorada, não apenas a imparcialidade do</p><p>sistema judicial, mas também a própria legitimidade do Estado em garantir direitos</p><p>iguais a todos os cidadãos.</p><p>26Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Nesse caminho reflexivo, Evandro Charles Piza Duarte, professor de Direito Penal,</p><p>Processo Penal e Criminologia na Universidade de Brasília (UnB), em sua dissertação</p><p>de mestrado sobre “Criminologia e racismo”, traça um panorama histórico que</p><p>revela como as teorias criminológicas foram recepcionadas no Brasil, muitas</p><p>vezes carregadas de preconceitos raciais. A desigualdade no acesso à justiça e a</p><p>seletividade do sistema penal amplificam as disparidades sociais, afetando de</p><p>maneira desproporcional as comunidades marginalizadas, em especial as populações</p><p>negras. Essa herança contribui para a perpetuação de estereótipos que alimentam</p><p>o racismo estrutural, repercutindo diretamente nas práticas de encarceramento.</p><p>Essa influência perdura, alimentando uma visão distorcida da criminalidade que,</p><p>por sua vez, reflete nas políticas de encarceramento (Duarte, 1988).</p><p>A pesquisa de Ana Luiza Pinheiro Flauzina, professora adjunta da Faculdade de</p><p>Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), intitulada “Corpo negro caído</p><p>no chão”, adiciona uma dimensão peculiar ao debate, ao analisar como o sistema</p><p>penal brasileiro se configura como um projeto genocida do Estado. A violência</p><p>policial, legitimada por uma suposta defesa da ordem pública, aliada a políticas de</p><p>encarceramento, resulta em um impacto desproporcional sobre a população negra,</p><p>evidenciando não apenas uma questão de seletividade, mas de um efetivo projeto</p><p>de extermínio (Flauzina, 2006).</p><p>Louk Hulsman (2003), um importante criminólogo holandês conhecido por</p><p>desenvolver a teoria do abolicionismo penal, que representou um dos principais</p><p>nomes do movimento em uma abordagem abolicionista do Direito Criminal, propõe</p><p>repensar o sistema penal na sua totalidade. Sua visão questiona a eficácia punitiva e</p><p>destaca a necessidade de se buscar alternativas que superem a lógica encarceradora,</p><p>especialmente quando esta se mostra permeada por viés racial. O autor provoca,</p><p>portanto, reflexões sobre o paradigma punitivo. O encarceramento, longe de ser</p><p>uma solução eficaz, muitas vezes contribui para a perpetuação do ciclo criminal.</p><p>A proposta de Hulsman exige uma revisão profunda das políticas criminais, com</p><p>ênfase na prevenção e na busca por soluções que abordem as causas estruturais da</p><p>criminalidade.</p><p>Nesse contexto, é imperativo repensar não apenas as práticas punitivas, mas também</p><p>as bases sobre as quais a sociedade está estruturada. Ao cruzarmos os referenciais</p><p>apresentados, surge um panorama intrincado que demanda uma reflexão profunda</p><p>sobre o papel do Estado moderno na efetivação de sua proposta democrática.</p><p>É urgente a necessidade de desvincular o Direito Penal de estigmas raciais e</p><p>promover uma criminologia mais justa e equitativa para redefinir o papel do</p><p>Estado na promoção de uma sociedade plural e inclusiva. A justiça não pode ser</p><p>seletiva; deve ser um instrumento que assegura a proteção de todos os cidadãos,</p><p>independentemente de sua cor ou origem.</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 27</p><p>O encarceramento em massa, em conjunto com o racismo estrutural, revela não</p><p>apenas falhas no sistema, mas uma sistemática negação de direitos e oportunidades</p><p>a determinados grupos sociais. A busca pela justiça e equidade exige uma revisão</p><p>crítica das práticas penais e uma reconfiguração do papel do Estado na promoção</p><p>de uma sociedade verdadeiramente igualitária.</p><p>Além disso, para a superação de vieses discriminatórios arraigados, não é somente</p><p>a implementação de políticas inclusivas que poderá atingir uma história vil, mas</p><p>isso ocorrerá a partir do fortalecimento de uma consciência coletiva que rejeite a</p><p>perpetuação de desigualdades.</p><p>Pelo debate dos autores, percebemos os desdobramentos dessas interconexões.</p><p>Assim, os referenciais de Borges, Carvalho, Duarte, Flauzina e Hulsman fornecem</p><p>um alicerce sólido para uma análise mais profunda, permitindo-nos compreender a</p><p>complexidade dessas questões e suas implicações que requerem uma abordagem</p><p>holística que inclua políticas sociais, educacionais e econômicas. O livro, ao analisar</p><p>o sistema prisional dos EUA, fornece uma das mais importantes exposições de</p><p>como opera o racismo estrutural e institucionalizado nas sociedades ocidentais</p><p>contemporâneas.</p><p>O desafio é, portanto, transformar o sistema para que esteja verdadeiramente a</p><p>serviço da justiça e procure garantir a reparação dos danos históricos causados pelo</p><p>poder hegemônico.</p><p>Assista ao vídeo do Canal Boitempo, transmitido em 13 de setembro de 2016, onde</p><p>o atual Ministro de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida,</p><p>trata do conceito de racismo estrutural numa entrevista com Artur Renzo da TV</p><p>Boitempo.</p><p>O que é racismo estrutural? Silvio Almeida</p><p>Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=PD4Ew5DIGrU</p><p>Duração: 10:28</p><p>Leia o artigo científico intitulado “Empoderamento: processo</p><p>de fortalecimento dos sujeitos nos espaços de participação</p><p>social e democratização política” publicado pela Revista Saúde</p><p>e Sociedade, em 2009, que tem como autoras as Professoras</p><p>Doutoras Maria Elisabeth Kleba e Agueda Wendausen, da</p><p>28Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Universidade Comunitária Regional de Chapecó e da Universidade</p><p>do Vale do Itajaí, respectivamente, e trata da compreensão das</p><p>possibilidades e dos limites na promoção da participação social</p><p>e política.</p><p>Acesse: https://www.scielosp.org/pdf/sausoc/v18n4/16.pdf.</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 29</p><p>Referências</p><p>BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado</p><p>Federal: Centro Gráfico, 1988.</p><p>BRASIL. Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984. Institui a Lei de Execução Penal. Co-</p><p>leção de Leis do Brasil, Brasília, v. 5, p. 68, set, 3.trim. 1984. Disponível em: http://</p><p>www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7210.htm. Acesso em: 10 jun. 2024.</p><p>BRASIL. Resolução nº 14 de 11 de novembro de 1994. Fixa as Regras Mínimas</p><p>para o Tratamento do Preso no Brasil. Ministério da Justiça: Conselho Nacional de</p><p>Política Criminal e Penitenciária. Coleção de Leis do Brasil, Brasília, v.1, p. 1, nov., 4.</p><p>Trim. 2001. Disponível em: https://www.gov.br/depen/pt-br/composicao/cnpcp/re-</p><p>solucoes/1994/resolucao-no-14-de-11-de-novembro-de-1994.pdf/view. Acesso em:</p><p>7 jul. 2024.</p><p>BRASIL. Lei nº 9455, de 7 de abril de 1997. Define os crimes de tortura e dá outras</p><p>providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1997.</p><p>BRASIL. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Direito a</p><p>não ser submetido a castigos cruéis, desumanos e degradantes. – Brasília:</p><p>Coordenação Geral de Educação em SDH/PR, Direitos Humanos, Secretaria Nacio-</p><p>nal de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, 2013a.</p><p>BRASIL. Lei nº 12.847, de 2 de agosto de 2013. Institui o Sistema Nacional de</p><p>Prevenção e Combate à Tortura; cria o Comitê Nacional de Prevenção e Combate</p><p>à Tortura e o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura; e dá ou-</p><p>tras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, edição extra, 5 ago.</p><p>2013b.</p><p>BOBBIO, N. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 2004.</p><p>BORGES, J. Encarceramento em massa. São Paulo: Pólen, 2019.</p><p>CANOTILHO, J. J. G. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7. ed. 9 rei-</p><p>mp. Coimbra: Almedina, 2003.</p><p>CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Regras de Mandela: regras mínimas padrão</p><p>das Nações Unidas para o tratamento de presos. Brasília: CNJ, 2016.</p><p>CARVALHO, S. O encarceramento seletivo da juventude negra brasileira: A Decisiva</p><p>Contribuição do Poder Judiciário. Revista da Faculdade de Direito UFMG, Belo</p><p>Horizonte, n. 67, pp. 623 - 652, jul./dez. 2015.</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7210.htm</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7210.htm</p><p>https://www.gov.br/depen/pt-br/composicao/cnpcp/resolucoes/1994/resolucao-no-14-de-11-de-novembro-de-1994.pdf/view</p><p>https://www.gov.br/depen/pt-br/composicao/cnpcp/resolucoes/1994/resolucao-no-14-de-11-de-novembro-de-1994.pdf/view</p><p>30Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Regras internacionais para o enfrentamento</p><p>da tortura e maus-tratos/ Conselho Nacional de Justiça; Coordenação: Luís Geral-</p><p>do Sant’Ana Lanfredi - Brasília: CNJ, 2016.</p><p>DUARTE, T. L.; MARQUES, M. G. Prevenção à Tortura: Uma Mera Questão de Opor-</p><p>tunidade aos Mecanismos Latino-Americanos? Revista Direitos Humanos e De-</p><p>mocracia. Editora Unijuí, Ano 8, nº 15, Jan./Jun. 2020. pp. 134-152.</p><p>DUARTE, E. C. P. Criminologia e Racismo: Introdução ao processo de recepção das</p><p>teorias criminológicas no Brasil. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Direito,</p><p>Universidade Federal de Santa Catarina, 1988.</p><p>ENGELS, F. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. 9. ed. Rio</p><p>de Janeiro: Civilização</p><p>Brasileira, 1984.</p><p>FERRARESI, C. S. Direitos fundamentais e suas gerações. Revista JurisFIB. vol. 3,</p><p>Ano III, Bauru, dez. 2012. p.321-336.</p><p>FERREIRA, M. R. P. Anotações sobre o devido processo legal: da Magna Carta à</p><p>Constituição de 1988. Revista do Instituto do Direito Brasileiro, Ano 2, nº 14,</p><p>2013. p. 16789-16823.</p><p>FLAUZINA, A. L. P. Corpo negro caído no chão: o sistema penal e o projeto geno-</p><p>cida do Estado brasileiro. 2006. 145 f. Dissertação (Mestrado em Direito) - Universi-</p><p>dade de Brasília, Brasília, 2006.</p><p>FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhe-</p><p>te. 40.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p><p>HULSMAN, L. Temas e conceitos numa abordagem abolicionista do Direito Cri-</p><p>minal. Verve, n. 3, pp 190-219, 2003.</p><p>INSTITUTO INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS. O Protocolo Facultativo</p><p>à Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e Outros Tratamentos ou</p><p>Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes: um manual para a prevenção/ Insti-</p><p>tuto Interamericano de Direitos Humanos- San José, C.R.: Instituto Interamericano</p><p>de Direitos Humanos, 2004.</p><p>IZIDORO, D. Sistemas Penitenciários Clássicos: breve análise dos sistemas peniten-</p><p>ciários clássicos. Jusbrasil, 2017.</p><p>KLEBA, M. E; WENDAUSEN, A. Empoderamento: processo de fortalecimento dos</p><p>sujeitos nos espaços de participação social e democratização política. Saúde soc.n.</p><p>18, v 4, dez 2009.</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 31</p><p>MELOSSI, D.; PAVARINI, M. Cárcere e fábrica: as origens do sistema penitenciário</p><p>(século XVI-XIX). Rio de Janeiro: Revan: ICC, 2010.</p><p>OLIVEIRA, R. N. Do Estado Moderno ao Estado Constitucional: algumas considera-</p><p>ções. Revista Eletrônica Direito e Política. Itajaí, v. 1, n. 1, 3° quadrimestre, 2006.</p><p>p. 542-560</p><p>ONU - Organização das Nações Unidas. Declaração Universal dos Direitos Hu-</p><p>manos. Genebra, 1948.</p><p>ONU – Organização das Nações Unidas. Pacto Internacional de Direitos Civis e</p><p>Políticos. Nova York, 1966.</p><p>PIOVESAN, F. Temas de direitos humanos. 5. ed. – São Paulo: Saraiva, 2012.</p><p>RUSCHE, G.; KIRCHHEIMER, O. Punição e Estrutura Social. Rio de Janeiro: Revan,</p><p>2004.</p><p>SOUZA, C. Políticas Públicas: uma revisão da literatura. Revista Sociologias. Porto</p><p>Alegre, Ano 08, n.16, jul/dez, 2006, p. 20-45.</p><p>WEBER, M. Ciência e Política: duas vocações. 18 ed., São Paulo: Editora Cultrix,</p><p>2011.</p><p>32Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>Módulo</p><p>Participação social na</p><p>execução de penas no Brasil2</p><p>Unidade 1 - A execução penal e as possibilidades de controle</p><p>e participação da sociedade civil</p><p>Ao final desta unidade você será capaz de identificar as atribuições dos</p><p>responsáveis pela execução penal e as possibilidades de controle e participação</p><p>da sociedade civil.</p><p>1.1 Os responsáveis pela execução da prisão e o papel da ouvidoria</p><p>A pena de prisão é tutelada e influenciada por vários segmentos, não somente</p><p>públicos, mas também da sociedade civil, pessoas da comunidade que se interessam</p><p>pela reinserção social dos sujeitos. Segundo a Lei de Execuções Penais nº 7.210/84,</p><p>no Título III que trata dos Órgãos da Execução Penal, no Capítulo I, artigo 61, são</p><p>responsáveis pela execução penal o Conselho Nacional de Política Criminal e</p><p>Penitenciária; o Juízo da Execução; o Ministério Público; o Conselho Penitenciário;</p><p>os Departamentos Penitenciários; o Patronato; o Conselho da Comunidade; e a</p><p>Defensoria Pública (Brasil, 1984).</p><p>Cada integrante tem uma responsabilidade para garantir a função da pena, além de</p><p>delinear novas possibilidades diante da progressão de regime. Cabe, nesse sentido,</p><p>ao Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, órgão ligado diretamente</p><p>ao Ministério da Justiça e com sede em Brasília, uma série de responsabilidades que</p><p>integram a prevenção do crime à prisão quando estes foram cometidos. O Conselho,</p><p>designado por Ato do Ministério da Justiça e com um mandato de dois anos, é</p><p>formado por treze membros, dentre eles profissionais ligados às áreas de Direito</p><p>Penal e Penitenciário, pessoas da Comunidade e representantes dos Ministérios</p><p>da área Social. Suas atribuições, definidas pela lei de execuções penais, tem como</p><p>perspectiva a proposição de diretrizes da política criminal quanto à prevenção do</p><p>delito, administração da Justiça Criminal e execução das penas e das medidas de</p><p>Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 33</p><p>segurança; a contribuição na elaboração de planos nacionais de desenvolvimento,</p><p>sugerindo as metas e prioridades da política criminal e penitenciária; a promoção</p><p>de avaliação periódica do sistema criminal para a sua adequação às necessidades</p><p>do País; o estímulo e promoção da pesquisa criminológica; a elaboração do</p><p>programa nacional penitenciário de formação e aperfeiçoamento do servidor; o</p><p>estabelecimento de regras sobre a arquitetura e construção de estabelecimentos</p><p>penais e casas de albergados; o estabelecimento de critérios para a elaboração da</p><p>estatística criminal; a inspeção e fiscalização dos estabelecimentos penais, bem</p><p>assim informar-se, mediante relatórios do Conselho Penitenciário, requisições,</p><p>visitas ou outros meios, acerca do desenvolvimento da execução penal nos</p><p>Estados, Territórios e Distrito Federal, propondo às autoridades dela incumbida as</p><p>medidas necessárias ao seu aprimoramento; a representação ao Juiz da execução</p><p>ou à autoridade administrativa para instauração de sindicância ou procedimento</p><p>administrativo, em caso de violação das normas referentes à execução penal e a</p><p>representação à autoridade competente para a interdição, no todo ou em parte, de</p><p>estabelecimento penal.</p><p>Dessa forma, as abordagens iniciais das Políticas Penitenciárias no país são</p><p>derivadas deste órgão. Os documentos gerados por Diretrizes, Programas e Planos</p><p>derivam diretamente do que é pensado e elaborado nos relatórios que advém do</p><p>Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, dando ênfase às prioridades</p><p>assinaladas nestes. Além disso, as avaliações do sistema e as adequações do</p><p>proposto nos documentos também é de sua responsabilidade, incluindo a definição</p><p>das regras de arquitetura e a inspeção e fiscalização dos espaços prisionais. Nesse</p><p>sentido, muitos documentos analisados ao longo desta pesquisa, são oriundos dos</p><p>pareceres deste órgão.</p><p>O juiz da Vara de Execuções Penais é outro responsável pela execução da pena de</p><p>prisão. Este, por sua vez, define a aplicação, sua progressão ou regressão e extinção.</p><p>O juiz pode, ainda, decidir pela soma, unificação, detração, remição, suspensão ou</p><p>condicional, além das saídas temporárias.</p><p>Tal segmento, juntamente com o Ministério Público, constitui como um importante</p><p>eixo na operacionalização das políticas públicas penitenciárias, considerando que,</p><p>dentre as várias incumbências, é de competência destes dois órgãos fiscalizar</p><p>e acompanhar o cumprimento da pena restritiva de direitos, inspecionando os</p><p>estabelecimentos penais e zelando pelo seu adequado funcionamento. Pode,</p><p>inclusive, interditar, em parte ou no todo, um estabelecimento penal que não esteja</p><p>nas condições possíveis para o cumprimento da pena.</p><p>O Conselho Penitenciário é outro órgão composto por membros que cumprem</p><p>o mandato, nesse caso, de quatro anos. Estes são indicados pelo Governador de</p><p>cada Estado, composto por profissionais da área do Direito Penal e Penitenciário,</p><p>além de outras ciências das áreas afins. Também fazem parte deste Conselho</p><p>34Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública</p><p>membros da comunidade. Trata-se de um órgão fiscalizador e consultivo frente à</p><p>execução de pena, que emite pareceres sobre indultos e comutações, inspeciona</p><p>estabelecimentos e serviços penais e, no primeiro trimestre de cada ano, apresenta</p><p>um relatório das atividades desenvolvidas no ano anterior ao Conselho Nacional de</p><p>Política Criminal Penitenciária.</p><p>Os Departamentos Penitenciários Nacional e Estadual são dois integrantes da</p><p>execução de pena ligados, diretamente, às normas e orientações internas do</p><p>sistema, fazendo parte da execução direta</p>

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