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<p>ans ISSN 1519-8456 ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE CURITIBA Em Revista: "Envelhecimento: uma perspectiva psicanalítica" Ano V - número 5 - dezembro de 2001 Publicação interna Responsáveis por esta edição: Leda Mariza Fischer Bernardino Rosane Weber Licht Consultores: Angela Vorcaro Ricardo Goldenberg Colaboradores Dayse Stoklos Malucelli Lucia Marly Cavalcanti Rosa Marini Mariotto CAPA Clock, 1914, Chagall 2001. Os artigos são de responsabilidade dos autores</p><p>PSICOLOGIA DO ENVELHECIMENTO o autor denomina de Neurose Alfredo Jerusalinsky do Envelhecimento às manifestações que sucedem a meia idade e compõem uma série constituída por sete traumas, para embasar Recuerde el alma dormida as intervenções psicológicas e abive el seso y despierte psicanalíticas contemplando indicadas. Discute ainda o tempo lógico como se passa la vida na velhice. como se viene la muerte Neurose - tan callando Envelhecimento Trauma - Tempo quan presto se va el plazer lógico. como después de acordado da dolor The author como a nuestro parecer denominate Aging Neurosis to the mid-life qual quiere tempo passado symptoms and propose a fue mejor. series of seven - traumatisms, to explain Jorge Manrique, "Coplas a la muerte de su - the psychological and psychoanalytical padre", 1476 (1) - indicated interventions. He also discuss the old - age logical time. - Neurosis - Aging - Traumatism Logical I - Os traumas fundamentais (2) - time. - Imperceptivelmente, numa virada - sutil mas sem retorno, na vacilação de um gesto até então firme e certeiro, no - tremor que parasita o movimento que - sempre fora exato, numa palavra que - escapa inexplicavelmente daquela memória infalível, nesse instante inefável, percebemos que nossa vida já não será a mesma. 11</p><p>Em seguida tentamos recompor a continuidade interrompida. Vasculhamos na caixa de Pandora de nossa experiência a explicação conveniente para acerca da excepcionalidade do episódio. Tentamos então reduzir fenômeno a uma condição fortuita. Mas poucos dias, talvez umas poucas horas depois, a vacilação retorna. Outra palavra que escapa, outra lentilha que foge do garfo diante de nosso olhar estupefato. Do fundo de nossa origem, esse tempo real, aquele que não aceita dilações, na sua lógica inexorável, bate seu pêndulo no nosso nariz. Trata-se de um postulado que, a rigor, sempre esteve ali, mas que nós sempre empurramos numa dobra do tapete, na ilusão de que não chegaria jamais. E agora, no silêncio gélido que rasga nossa memória, pelo nome próprio de nosso interlocutor, esse postulado adquire toda sua ressonância: é a velhice! Até esse momento nos imaginamos no controle de nossas vidas. De fato, a realidade na qual ficamos até então imersos, fomos nós mesmos que contribuímos para fabricá-la. Nossas queixas, na verdade e de algum modo o sabíamos estavam endereçadas àquilo de cuja montagem nós mesmos participamos. Uma queixa, então, onipotente. Impregnada da secreta soberba de um sujeito que, inconscientemente, supõe-se autor fundamental até mesmo daquilo que não aconteceu. Devaneios de juventude que levam o sujeito a supor (ou almejar) uma autonomia bem maior da que realmente possui, e até bem maior da que pode suportar. Mas, de agora em diante, sua queixa ficará orientada por outra bússola. Se, até ali, suas lamentações apontavam para o enredo imaginário de seus fracassos amorosos, dos limites de sua fortuna, ou da falta de reconhecimento, a partir desse momento o corpo, de um modo completamente real, cobrará toda a sua presença. Dito de outro modo, terá razões reais para se queixar. 12</p><p>É neste quadro de acontecimentos previsíveis, mas nem por isto menos inesperados, que surge 0 que vamos Neurose do Envelhecimento. Uma Neurose que se desdobra nas suas manifestações, ao longo dos anos que sucedem a meia-idade. 0 que a caracteriza é uma série traumática que, se não acontece necessariamente na ordem em que a enumeramos, parece, porém, advir inexoravelmente encadeada, estremecendo duramente a estrutura do sujeito. Primeiro Trauma: a perda dos pais reais Independentemente da idade em que esta perda possa acontecer, ela lança o sujeito a um confronto antecipado com a sua própria morte. Coloca-o então numa posição psíquica compatível com a velhice, porque a lógica da elaboração do luto o obriga a uma identificação com os pais perdidos. Ainda que tal identificação seja transitória (se o luto for normal), a experiência psíquica que ela representa se torna permanente. que implica que esse sujeito precisará fazer uma elaboração suplementar (e provavelmente reiterativa) de suas relações com a morte. Assim, por exemplo, é frequente observarmos sintomas hipocondríacos crônicos (que jogam um importante papel no equilíbrio psíquico nestes casos) em sujeitos que perderam precocemente seus pais. Como também se registra, em consultantes que aparecem com uma depressão normal, causada pela perda dos pais, em idades mais tardias, uma sintomatologia de abandono físico que pode confundir-se com a melancolia. Em ambos os exemplos (dos muitos que poderiam ser percebe-se um certo "envelhecimento" do sujeito psíquico, no primeiro caso pela negociação constante com a morte, e no segundo caso, pela identificação com um corpo deteriorado. 13</p><p>Segundo Trauma: a constatação do definitivo é limitado. No que diz respeito às inscrições tempo em que um sujeito pode mudar sua estrutura fundamentais psíquica que modelam seu funcionamento mental (algo assim como o "sistema operacional" que ordenará posteriormente, qualquer "programa" que se pretenda nele introduzir), o que nós psicanalistas chamamos de 0 de suas possíveis mudanças se esgota com a puberdade tempo (3). Já no que se refere aos sintomas que constituem as soluções que o sujeito encontrou para seus conflitos de infância (por exemplo, sua vocação, seu estilo amoroso, suas preferências, seu modo de responder às demandas sociais, etc..), eles se consolidam com o fim da adolescência (4). É a partir de então que, lentamente, começa a se instalar a experiência psíquica do definitivo, ou seja, daquilo que não poderá mais mudar (e o pouco que poderia vir a mudar seria a um custo necessariamente muito alto). Mas 0 contato com esta formação psíquica inconsciente, a percepção do estado do sujeito como é longamente resistida porque o sujeito almeja permanecer num estado de escolha autônoma constante. Por isso a crise de resistência ao definitivo (conhecida como "a crise da meia- idade") tende a aparecer no período final da idade adulta; quando a repetição já aconteceu em um tal grau de insistência, que deixa o sujeito desarmado para negar a constância de seu fantasma e de seus sintomas. Terceiro Trauma: diminuição da potência Num dos extremos desta questão, podemos anotar 0 termo que na sua etimologia grega significa ponto culminante de uma Podendo se marcar o outro 14</p><p>extremo com a expressão miséria fisiológica, cunhada na França na década de 50 para designar um dos motivos de internação de pessoas nos asilos públicos (5). Esses termos aludem, certamente, ao debilitamento daquilo que, no corpo, simboliza uma certa consistência fálica. Tanto no homem como na mulher, a série que vai da turgência à detumescência, tem o poder de significar, no âmbito completamente corporal, uma potência imaginária que encontra sua total equivalência de valor no reconhecimento social. Assim, na ficha de hospitalização naqueles asilos, o termo carência corporal se encontra na mesma série de miséria fisiológica. As formas de elaboração que se apresentam como possíveis para o sujeito assim traumatizado, se ordenam em dois eixos: um que vai do humor (exibicionismo cômico do contraste entre a potência e a claudicação) à vergonha (ocultamento da diminuição e retirada da vida amorosa); e outro que se estende entre a hipomania (se identificar com a rigidez perdida: a popular "síndrome do velho tarado") e a melancolia (se identificar com a lassidão: "síndrome de impotência prematura"). Quarto Trauma: os protagonistas são outros "Quando, em 1953, na região do sul de Londres, os bondes foram substituídos por ônibus, os condutores foram obrigados a se tornarem motoristas. um homem de 72 anos realizou testes de maneira tão satisfatória quanto um de 35, enquanto julgou ser 0 único a enfrentá-los, quando soube que tinha um rival mais jovem, fracassou por complexo de inferioridade". (6) Não somente as mudanças na cultura colocam as pessoas que vão envelhecendo na posição de obsolescência imaginária, o próprio ciclo do real do corpo impõe restrições 15</p><p>alcances de nossa de que simbolização os filhos passam da a ser aos geração, com sendo fato agora eles comprovando-se os encarregados nisso de educar que nova do e da formar concluíram os homens seu papel nesse cena. ponto. É uma nova geração que pais já passa a ocupar vagarosamente centro da os mais velhos vão para não Dessa suportar cena, as consequências narcísico de - sua devastadoras imagem. - É de neste um esvaziamento melhores que do valor obra-prima, atina fazê-lo sujeito se refugia se a nos impasse símbolos de sua vida, na sua no resgate moral da tradição que transmitiu, numa certa regressão aos princípios, crenças e religiões que o orientaram. Estas são formas restitutivas - no simbólico do valor perdido de sua imagem no espelho social, porque o tempo real o empurrou para "fora do filme". Quinto trauma: 0 futuro mínimo Na infância, o ponto de tensão máxima da determinação psíquica está situado no futuro. Por isso a criança almeja chegar lá o quanto antes, por isso deseja crescer. Porque supõe (é sua ilusão) de que chegando poderá se livrar da "tirania" desse Outro que, por lhe cobra preço de sua submissão. Essa é a razão pela qual a criança brinca de ser grande. Na adolescência, um pêndulo paroxístico oscila entre 0 infantil e adulto, entre a brincadeira e o coito, entre 0 transitório e o definitivo. Esse é o paradoxo que 0 adolescente atua, na tentativa de avançar sem de vista as prezadas experiências de sua infância, e ao mesmo tempo. desprender-se destas para poder assumir os atos que o futuro lhe promete. 16</p><p>o adulto, no entanto, fica referido às formações fantasmáticas situadas no passado, àquilo que o marcou do modo como hoje, agora sim, ele é. Por isso, enquanto a criança se lamenta pelo que ainda não pode fazer, e o adolescente pelo que "não o deixam fazer", o adulto se queixa pelo que não fizeram com ele ou pelo que ele não fez. Futuro - tempo paradoxal - e passado, que orientam respectivamente a temporalidade do discurso em cada fase. Mas, o que acontece na velhice - ou nas suas antecipações? Nesse momento está-se diante de uma curiosa contração do tempo: uma minimização do futuro, da qual se extraem as principais significações da vida que ainda resta. Como acontece na infância - disto resultam as coincidências entre velhos e crianças - o fantasma fundamental está no futuro, mas, agora como futuro restringido a uma expressão mínima. Por isso, torna-se imperioso achar quem possa estender esse tempo numa continuidade simbólica. Este é o ponto nodal, que enlaça netos e avós numa paixão que tenta ser sem limite. Precisamente porque é no rompimento do limite - o que separa a vida da morte - que se encontra o fundamento dessa relação. Sexto trauma: a perda dos pares No percurso do envelhecimento acontecem - inevitavelmente - os falecimentos daqueles que testemunharam a vida do sujeito em questão. Aqueles com os quais se decidiam os empreendimentos conjuntos a relação, nesse caso, é de caráter simétrico - para produzir as mudanças da realidade que se almejavam. o seu desaparecimento provoca a extinção de fragmentos extensos da rede de significações com as quais o sujeito se representava no discurso social. Dito de outro modo, 17</p><p>morreram aqueles capazes de escutá-lo, e os que hoje escutam A não tendência conseguem à compreendê-lo. passivização do sujeito nestas circunstâncias, ou o surgimento de certa agorafobia. constituem formas defensivas para não ter que se confrontar com a ineficácia de seus atos ou com o ensurdecimento de sua palavra. É necessária muita prudência terapêutica nas intervenções que se pretendam fazer sobre este Precisa-se levar em conta uma certa precariedade do equilíbrio subjetivo nestas circunstâncias. terapeuta, por isso, é requerido na sua máxima tolerância ao sintoma. Sétimo trauma: degradação do corpo A extensão da cosmética feminina para retardar ou disfarçar o envelhecimento, revela até que ponto isto angustia mais a mulher. Se bem hoje em dia o enuviamento da diferença sexual tenda a situar os corpos masculino e feminino numa certa equivalência no imaginário social, essa diferença retorna como recalcada e, então, faz sintoma. Por isso, se bem os dois, homem e mulher, passem a fazer ginástica "conservadora", esta acaba acentuando os caracteres secundários diferenciais dos sexos. No outro extremo também se revela o sintoma, sob a forma, desta vez, do halterofilismo feminino (a "síndrome da mulher e da acentuação do narcisismo masculino (a "síndrome do Apolo"). Estes retornos sintomáticos do recalcado demonstram o fracasso dessa tentativa de negar a diferença, ou seja, de negar a castração. mesmo fracasso que ocorre na recusa da degradação que o tempo provoca, passo a passo, no corpo. Para a mulher, então, na medida em que é principalmente por meio do corpo que ela se representa na vida amorosa, o aparecimento dos signos de deterioração 18</p><p>significam uma ameaça de retorno à solidão. Se a sua defesa se constitui orientada na mesma técnica que a sedução feminina o jogo de exibição-ocultamento que provoca o olhar do outro a plástica e a maquiagem conseguirão retardar o reconhecimento da perda de seu fetiche, mas, certamente, no momento em que tal reconhecimento se torne inadiável, ele advirá como catástrofe ( a "síndrome de Elizabeth Taylor"). Há outra forma da defesa que se oferece. Genericamente, melhores perspectivas: ocupar o posto de principal organizadora familiar ou o investimento na vida profissional. A primeira tropeça com o inconveniente atual da tendência social à dispersão da família; a segunda, com o aumento geométrico da desocupação e a desvalorização das profissões que se ocupam da conservação dos laços sociais (a de professora, por exemplo). o homem pode sustentar essa denegação com algumas vantagens, já que, de todos os modos, ele sempre prometeu algo que não tinha: o falo. Acostumado a oferecer substitutos tais como prestígio, sabedoria, fortuna, poder, etc., os signos do envelhecimento podem ser até exibidos por ele de experiência e suficiência. Porém, fica exposto a que sua promessa fique grande demais para sua capacidade física em Esse é o ponto crítico onde a cena pode se tornar, ou bem ridícula (a infantilização na "hora da verdade"), ou trágica (o enfarte como de reclamar ao corpo o que ele já não pode dar). Oitavo trauma: 0 diálogo com a morte Chega um momento em que, ultrapassadas todas as montagens defensivas, o sujeito estabelece sua última trincheira: o diálogo cotidiano com a morte. Esta se 19</p><p>"personifica" para que possa negociar de surpresa. com ela, ou até simplesmente para não este ser diálogo tomado imaginário é uma via de Certamente, necessária que permite o trânsito pelas cinco fases tradicionalmente elaboração descritas na análise da psicologia diante da morte: indignação, rebelião, depressão, renúncia, De todos os modos, aqui vale a clássica parábola de Samarkanda: cada vez que o peregrino muda de rumo, a Parka também (7). Estado psíquico e intervenção médica Acabamos de descrever o que achamos ser as articulações fundamentais da Neurose do Envelhecimento, onde se advertem pontos de contato com o que S. Freud denominou Neurose de Destino. Mas, diferentemente desta última, que se manifesta como uma formação clínica específica, adquirindo o caráter de uma noxa psíquica particular, isto que estamos denominando Neurose do Envelhecimento, parece constituir uma manifestação generalizada. Com efeito, a série traumática mencionada tende a se evidenciar em todo indivíduo neurótico normal, em uma significativa variedade de sujeitos com estrutura perversa, e ainda nos indivíduos que padecem de certas formas de psicose (especialmente paranóicas e melancólicas) nas quais se preservam as relações básicas com a linguagem. É evidente que o aparecimento de doenças específicas do envelhecimento, tais como déficits circulatórios, mal de Alzheimer, manifestações Parkinsonianas, etc., são capazes de provocar a precipitação desta série traumática em avalanche. É nesses casos que vamos nos defrontar, ou bem com a emergência de estados hipomaníacos, ou bem com surtos melancólicos, ou, na das derivações dessa com entradas em quadros de marasmo equivalentes agora 20</p><p>na velhice - aos que R. Sptiz descreveu nos bebês longamente hospitalizados (denominado quadro de "hospitalismo"). Como ocorre na psicanálise de toda neurose, há dois passos prévios a qualquer elaboração possível: estabelecer o real e contrapor o desejo ao real. Na psicopatologia desta época da vida, evidentemente não contamos com longos anos para uma análise que permita grandes mudanças. Precisamos então reconhecer os limites de uma operação analítica nestas o apropriado parece ser uma série de intervenções curtas, relativas à elaboração dos traumas - os aqui sistematizados ou outros não previstos temporariamente prevalentes. Entre os não previstos, chamamos a atenção sobre a necessidade de estudo acerca dos efeitos psíquicos da introdução em grande escala dos "Institutos Geriátricos" ou "Casas de Anciãos", que progressivamente tendem a substituir os clássicos "asilos" (8). Também registramos com crescente uma formação psíquica de pavor diante de uma possível prolongação puramente tecnológica da vida, acompanhada de uma absoluta impossibilidade de expressão. surgimento de uma corrente de apoio à eutanásia voluntária (que tem a sua vanguarda nos Estados Unidos com o chamado Dr. Morte), constitui o reconhecimento da presença, nos velhos gravemente doentes, de uma certa "síndrome de Robocop" (ficar com a existência totalmente presa à máquina, com uma inibição absoluta das funções simbólicas). Esta "síndrome" pode ser considerada a herdeira moderna do clássico terror diante da catalepsia. Estas breves considerações sobre a psicologia do envelhecimento, demonstram que dispomos de um arsenal conceitual e clínico suficiente para intervir de um modo eficaz. É verdade que não podemos mudar o curso da vida em direção à morte (o que, por outro lado, ninguém consegue fazer, a não ser transitoriamente), mas, certamente, podemos 21</p><p>nesse implicado num suas intervir no modo em que o sujeito humano fica percurso. Por meio dessas intervenções, é significativo número de casos, devolver ao paciente possibilidades de simbolização diante de um Real que invade. Sabe-se hoje em dia, o peso que tem, na resolução das intercorrências da velhice, o estado psíquico do Fundamentados neste saber é que podemos propiciar as intervenções psicológicas e psicanalíticas necessárias nos processos de prevenção, cura e recuperação. E não reservar as considerações sobre o estado psíquico do paciente para que sirvam de fundamento a uma explicação derradeira após uma resolução desfavorável. De nada vale o argumento póstumo de que "se o velhinho não estivesse desanimado, poderíamos ter tido sucesso". Até um certo ponto, o ânimo do velho está nas nossas mãos. Depende de apelarmos aos recursos II Acerca do tempo lógico na velhice Na medida em que nós, psicanalistas, somos objeto de uma transferência governada pelo infantil do sujeito, recolhemos nele as notícias antecipadas do que o Discurso Social almeja como futuro. Se bem é verdade que o Grande Outro (enquanto representação inconsciente do social), não deseja nada - não nos faz objeto específico de seu amor -, formulam-se nessa instância, no nível do Discurso, os ideais aos quais todo sujeito fica endereçado. Qualquer forma de representação de si que o sujeito articule no Discurso, virá tropeçar com esses ideais. Independentemente da forma retórica em que estes se apresentem, sempre terão o valor de um imperativo. Sabemos que o sujeito infantil brinca de vir a ser o que ainda não é, estando esse "ser" determinado pelo Ideal do Eu, como expressão futura da trajetória proposta para essa 22</p><p>criança. Este futuro se situa na dimensão lógica do inconsciente, recalcando a cronologia, o que leva a uma dilatação imaginária. É essa a operação que provoca uma expansão inusitada do espaço ficcional: os limites cronológicos desaparecem, habilitando a fantasia a deslocar- se livremente numa temporalidade paradoxal. "Agora eu era o herói", é a forma retórica que, por excelência, demonstra essa conjugação futura, a partir da qual o presente se torna passado. Mas é uma conjugação onde esse futuro anterior é da ordem do ainda não acontecido, trata-se, portanto, de uma mise-en-scène ficcional. Ela responde no campo imaginário à simbolização do ideal imposto pelo Grande Outro. real da "insuficiência" infantil é encoberto pela expansão da fantasia. o caráter de verdade dessa fantasia se apóia no enunciado pelo Discurso Social, e de modo algum no âmbito do fático (9). No avesso desse ordenamento lógico-temporal se encontra a posição do inconsciente na velhice. É um lugar comum considerar o comportamento dos anciãos como infantil. Também é vulgarmente conhecido como os avós se identificam muito mais facilmente com seus netos do que com seus próprios filhos. Podemos aqui considerar a hipótese de que se trata de um retorno imaginário à época em que ainda nada era definitivo, tudo estava para acontecer. Porém, este "brincar" dos avós, se bem se apóie no retorno do infantil do sujeito, não tem o mesmo estatuto do brincar do sujeito infantil. Os avós já atravessaram a ordem do por isso mesmo, a ordem do fracasso (10). Por isso, eles reconhecem a diferença entre brincar para sustentar a esperança de se constituir comc exceção à castração o que é próprio do sujeito infantil - e brincar como um exercício tardio do de (11) - o que é próprio do infantil do sujeito. No primeiro caso, trata-se de uma invocação da fantasia do que virá acontecer, a partir de uma posição de 23</p><p>imaginária onipotência. No segundo caso, de repetição da fantasia perdida, parte-se de uma posição de impotência As crianças e os velhos podem partilhar do mesmo jogo. Mas nele se articulam posições contrárias: as crianças desdobram sua saudade do futuro, os avós repetem um pequeno retalho de sua saudade do passado. Avós e netos se reconhecem, apesar da oposição, porque partilham fragmentariamente o mesmo Restos do ideal perdido para uma geração e almejado ainda para as seguintes, exprimem-se sob a forma de traços significantes, cuja repetição - como traço unário - permite a preservação do estilo de uma cultura. Referências bibliográficas: BEAUVOIR, Simone de. (1976). A velhice. A realidade São Paulo: Difusão Editorial. DELUMEAU, Jean. (1989). História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras. Enciclopedia Salvat Barcelona: Salvat Editores. FAIRBAIRN, W. (1966). Ronald. Estudio psicoanalítico de la Personalidad. Buenos Aires: Ed. Hormé. FREUD, Sigmund e FERENCZI, Sandor. (1994). Correspondência. Rio de Janeiro: Ed. Imago. JONES, Ernest. (1979). Vida e Obra de Sigmund Freud. Riode Janeiro: Zahar Ed.. PERROT, Michelle. (1991). História da Vida Privada. São Paulo: Companhia das Letras. 24</p><p>Notas: 1. Respeitou-se a grafia castelhana da época em foi escrito o poema. 2. Este primeiro capítulo foi publicado originalmente em "Atualidades em livro organizado pelo Dr. Roberto Bigarella, editado pela Sociedade Brasileira de Geronto-Geriatria do RS, 1996. 3. "0 homem não deve querer exterminar seus complexos, mas entrar em acordo com eles - eles são os dirigentes legítimos de seu comportamento no mundo". Numa carta de Sandor Ferenczi a Sigmund Freud, de 17 de novembro de 1911. 4. Referimo-nos aos sintomas constitutivos do ego, diferentes dos sintomas que caracterizam as neuroses clínicas. Ver: Seminário "O de Jacques Lacan. 5. In: Simone de Beauvoir: "A Velhice. A realidade São Paulo: Difusão Editorial, 1976, pág. 287. 6. Idem anterior, pág. 260. 7. "Não estou passando bem; minhas queixas e os efeitos do tratamento compartilham um índice de responsabilidade cuja proporção não posso determinar. As pessoas que me rodeiam têm tentado envolver-me numa atmosfera de otimismo: 0 câncer está regredindo, as reações ao tratamento são temporárias. Não acredito em nada disso, e não me apraz ser enganado". Carta de Sigmund Freud à Marie Bonaparte, seis meses antes de sua morte. Citada por Ernest Jones, em e Obra de Sigmund Freud", pág. 773. 8. Os Asilos de Velhos surgem provavelmente em 1865, numa iniciativa de "um industrial de ponta fabricante de botões - F. Bapterosses, inventor auto-didata seu estabelecimento já conta com mil operários aplica 0 amparo total, da creche ao asilo de velhos". A Sociedade dos Carvoeiros de Blanzy, em Monteau-les-Mines, no início do século XX, transforma essa iniciativa individual numa 25</p><p>reivindicação coletiva, dando início ao princípio de aposentadoria laboral. Ver: Michelle Perrot, "História da Vida Privada", vol. 4, pag. 375. 9. Apenas estas considerações bastariam para evidenciar absurdo da afirmação - sustentada por alguns psicanalistas e cognitivistas - de que o brincar não é uma formação do inconsciente porque ocorre no âmbito da produção consciente e responde aos princípios do processo secundário. Muito pelo contrário, o brincar, do mesmo modo que o chiste, desvela um encontro recalcado com o Grande Outro, onde a surpresa e a criação de um novo sentido tem um papel fundamental. Prevalece, no brincar, a temporalidade lógica do inconsciente, e princípio do prazer - circulando pelo gozo da repetição e pelo desejo manifestado na realização imaginária do real - orienta toda a lógica enunciativa dessa formação especificamente infantil do inconsciente. 10. Referimo-nos ao fracasso da relação sexual como suporte do ideal amoroso. 11. Estamos tomando como referência o conceito de D. W. Winnicott. Sobre autor: Alfredo Jerusalinsky é psicanalista, Analista Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, Analista Membro da Association Internationale, diretor do Centro Dra. Lydia Coriat. E-mail jerusalf@terra.com.br. 26</p>

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