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A Herança Colonial da América Latina - Stayn

Livro sobre a herança colonial da América Latina: ensaios de dependência econômica por Stanley J. Stein e Barbara H. Stein (tradução de José Fernandes Dias). Reúne capítulos cronológicos (1500–1700; 1700–1810; século XIX), introdução, epílogo e bibliografia.

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<p>A HERANCA COLONIAL DA AMERICA LATINA Ensaios de Dependência Econômica Stanley J. Stein e Barbara H. Stein PAZ TERRA</p><p>A. dos 280 Tel. 31-164 Sorocaba - S. A HERANÇA COLONIAL DA LATINA EDILOST DIGITALIZAÇÃO: EDILSON CRUZ DATA: 22/03/2018</p><p>Coleção ESTUDOS LATINO-AMERICANOS Vol. 4 Ficha catalográfica (Preparada pelo Centro de Catalogação-na-fonte do SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ) Stein, Stanley J. S833h A Herança Colonial da Latina: ensaios de dependência econômica por Stanley J. Stein e Barba- ra H. Stein; tradução de José Fernandes Dias. 2 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977. 158 p. 21 cm (Estudos Latino-Americanos, V. 4) Do original em inglês: The colonial heritage of Latin America: essays on economic dependence in perspective. Bibliografia 1. América Latina - Condições econômicas. 2. Amé- rica Latina - Condições sociais. 3. America Latina - História - Período colonial. I. Stein, Barbara H. II. Título III. Série. CDD - 330.9801 309.11801 908.01 CDU - 338(8=6)"15/18" 308(8=6)"15/18" 77-0478 9(8=6)"15/18" EDITORA PAZ E TERRA Conselho Editorial Antonio Candido Celso Furtado Fernando Henrique Cardoso</p><p>STANLEY J. STEIN BARBARA H. STEIN A HERANÇA COLONIAL DA AMÉRICA LATINA Ensaios de Dependência Econômica Tradução de José Fernandes Dias Edição D Paz e Terra</p><p>Copyright by Oxford University Press, 1970. Título do original em inglês: The Colonial Heritage of Latin America Essays on Economic Dependence in Perspective Capa e diagramação: Sheila Santos Direitos desta tradução reservados à EDITORA PAZ E TERRA S. A. Rua André Cavalcanti, 86, Fátima, Rio de Janeiro, RJ 1977 Impresso no Brasil Printed in Brazil</p><p>ibéricos e ibero-americanos que tiveram a cora- gem de erguer sua voz em protesto contra a irracionalida- de e a injustiça. newton, do ventre da tombra I menino de I que no as armas E cantigas de fogo e a era Sierra Re 24.12.1985</p><p>A relação colonial... agrilhoou o colonizador e o colonizado em uma dependência implacável, moldou seus respectivos caráteres e ditou sua conduta. A. Memmi, Colonizador e o Colonizado (1965) Em política é errado acreditar que os abusos devam ser re- mediados de forma lenta e gradativa... A timidez na corre- ção dos abusos tem uma dupla origem: ou porque não se compreende os males e suas causas ou, por outro lado, porque se deseja evitar ofender aqueles que, interessados na manutenção de tais abusos, ao bem-estar co- mum; ou, dito de forma mais clara, aqueles que sobrepõem seus interesses pessoais à felicidade de todos os demais. Campomanes, Apêndice à educação popular (1775)</p><p>sumário parte I (1500-1700) 13 capítulo I A Europa e as estruturas da dependência, 1500-1700 30 capítulo II A economia colonial 49 capítulo III Sociedade e Estado parte II (1700-1810) 69 capítulo IV o século XVIII parte III (século XIX) 97 capítulo V A base econômica do neocolonialismo 120 capítulo VI Política e sociedade 141 epílogo 151 fontes e bibliografia</p><p>introdução A característica mais notável da América Latina contemporânea é sua dependência econômica, seu subdesenvolvimento ou atraso face às nações do Atlântico norte Igualmente digno de nota é o abismo in- terno entre comunidades rurais e metrópoles resplandes- centes, entre a pobreza e o luxo, entre tecnologia primitiva e tecnolo- gia sofisticada, entre a fome e a abundância. Nessa dependência eco- nômica e em sua síndrome de polarização econômica e social encon- tramos a principal herança de três séculos de subordinação a Portugal e Espanha. Os 150 anos de existência nacional, por seu turno, demons- tram a persistência da dependência econômica e das dicotomias sociais internas, não obstante o estabelecimento de governos independentes, republicanos na forma e correspondentes, em teoria, à vontade de respectivas populações. Assim sendo, a América Latina parece dispos- ta a legar ao futuro a heranca do passado. Esse prognóstico pessimista é verdadeiro, contudo, apenas em sua aparência. Na verdade, podemos localizar, lado a lado com as estrutu- ras tradicionais (e dentro delas), sinais evidentes de forças irreconciliadas e irreconciliáveis com o passado. o crescente im- pacto da tecnologia dentro e fora da América Latina opera, de formas numerosas e por vezes contraditórias, a criação de novas expectativas e a disposição de rejeitar o passado, objetivando, em contrapartida, apreender um futuro inescapável embora incerto. o presente trabalho não objetiva, entretanto, descrever o presente ou vaticinar o futuro mas, simplesmente, sugerir as origens da ação voltada para a mudança com que se defronta a América Latina de nossos dias. Assim sendo, não é nossa intenção elaborar a micro-história da América Latina. Nosso propósito é oferecer ao leitor uma série de en- saios dirigidos à investigação do passado latino-americano - suas ori- gens e desenvolvimento metropolitano e colonial e sua projeção até o século passado. Essa investigação visa a fornecer elementos para a com- preensão do processo de mudança que se opera nessa área. Limitados 9</p><p>quanto ao seu escopo, estes ensaios baseiam-se em uma abordagem ni- tidamente econômica e social. Seus autores encaram a América Latina como um continente caracterizado por um desempenho inadequado e que busca precisar as coordenadas do atraso a partir do exame do pro- cesso de mudança econômica atuante sobre uma área dependente, pe- riférica ou colonial. Utilizando amplos períodos cronológicos e re- giões representativas, confere-se ênfase a determinadas estruturas bá- sicas, padrões de comportamento e atitudes que ainda persistem na América Latina: a fazenda, as grandes plantações e seus padrões so- ciais associados, os enclaves de mineração, a síndrome de exportação e a mentalidade e mecanismos comerciais correlatos; o elitismo e o ra- cismo; o nepotismo, o clientelismo e uma tradição de direito privado na administração pública. Agradecemos a William Cline, Charles Griffin, Shane Hunt e Arno Mayer pelas críticas oferecidas. Somos igualmente gratos a Iska Fraidstern e Sheldon Meyer, da Editora da Universidade de Oxford, pela assistência editorial prestada. A ocorrência de falhas na análise e na síntese, decorrentes da sim- plicidade e brevidade do presente trabalho, deve ser encarada levando- se em conta que a história social e econômica latino-americana ainda se encontra em processo de desenvolvimento. levantar ob- jeções às generalizações apresentadas, à terminologia utilizada, aos elementos omitidos. Esperamos, contudo, que os ensaios possam es- clarecer e provocar discussões. La grandeza del hombre es el flechazo, no el blanco*. Princeton, New Jersey B.H.S. S.J.S. * A grandeza do homem consiste no disparar da flecha, não no alvo. (Em espanhol, no original N.T.) 10</p><p>parte I 1500 - 1700</p><p>capítulo I A Europa e as estruturas da dependência, 1500 - 1700 - 1 Por volta de a Espanha e Portugal não passavam de meros acessórios econômicos da Europa. A criação de impérios ultramarinos no decorrer do século seguinte e o controle exercido sobre os mesmos até aproximadamente 1824 não alteraram o caráter dessa dependên- cia. Esse status anômalo - colônia e império - modelou a história dos países ibéricos e de suas possessões coloniais, condicionou a socieda- de, a economia e a política colonial, bem como o curso da história latino-americana até os dias de hoje. papel subalterno desempenhado pelas ibéricas como poderes atlânticos aparecia, de forma bastante cristalina, ao iniciar-se o século XVIII, não só para os ingleses e os franceses mas, igualmente, para os próprios espanhóis e portugueses. Em 1700, com a morte de Carlos II, inicia-se a luta pelo controle da Espanha e de seus domínios europeus e americanos. Essa data estabelece, ademais, a li- nha divisória que demarca as posições relativas das nações atlânticas intimamente envolvidas com o hemisfério ocidental. 2 John Bull * "Devo servir a Felipe Babuíno - Felipe de Espanha - com panos finos e aceitar o acordo que ele me oferece, com a liberdade de seus parques e viveiros de pei- xes?" John Arbuthnot, Law is a bottomless pit, or the history of John Bull, 1713 Entre as nações da Europa ocidental emergentes a partir da etapa final da era medieval (1500 - 1700), a Inglaterra atravessara a transfor- (Fig.) a nação inglesa, o inglês típico. (N.T.) 13</p><p>mação mais radical em termos de estruturas econômicas e políticas. Em um período de 200 anos sua população crescera de 4 para 5,8 mi- lhões de habitantes, crescimento decorrente, em ampla medida, de uma revolução agrícola baseada em novas safras de alimentos e forra- gem, novas técnicas e significativas alterações na estrutura fundiária. A poderosa aristocracia rural associara-se aos comerciantes agressivos e empreendedores e àqueles envolvidos em atividades de mineração e construção de navios. A partir do século XVI, a pequena nobreza e os comerciantes passaram a investir conjuntamente nas companhias do comércio ultramarino; Londres passou a desempenhar o papel de cen- tro administrativo e comercial estimulando essa interpenetração. Durante o século seguinte o "século revolucionário" para a In- glaterra -, uma elite mercantil e grupos a ela associados estabeleceram sua hegemonia sobre um governo parlamentar, objetivando fomentar seus projetos de expansão, ao mesmo tempo em que permitiam que esse governo funcionasse como tribuna aberta às opiniões discordan- tes. sentido de "vontade nacional" assim concretizado respondeu, em sentido amplo, pela criação dos grandes recursos financeiros neces- sários à sustentação do crescente poderio político e econômico inglês. Obstáculos ao desenvolvimento econômico - privilégios reais, aristo- cráticos, corporativos, monopólios, proibições, tributos, controles de preços foram reduzidos ou removidos; fortaleceram-se aqueles fato- res capazes de estimular o desenvolvimento: as sociedades anônimas, o Banco da Inglaterra, o aumento da tolerância religiosa e o avanço o crescimento inglês resultou, em grande medida, das reformas estruturais internas e das políticas nacionais vinculadas, em sua maio- ria, às atividades comerciais e fabris. Por volta de 1700, a Inglaterra já ultrapassara o estágio inicial de simples produtor de fibra de algodão para exportação: refreara as exportações de matéria-prima, importara artesãos, forjara sua própria indústria têxtil. "O comércio de tecidos equivale às para a Inglaterra" era a expressão corrente quando alguém se referia ao fato de que a de carneiro e as drogas de tintura- ria importadas da Espanha e de Portugal retornavam àqueles países sob a forma de produtos têxteis para consumo interno ou para reex- portação para as respectivas colônias. Por seu turno, o ouro ibérico fluía para a Inglaterra, compensando o déficit no balanço comercial da penísula e permitindo a aquisição de artigos de luxo do Oriente, a fim de satisfazer os desejos dos consumidores europeus. Através de uma série contínua de atos de navegação a Inglaterra desenvolvera uma marinha mercante capaz de desafiar a holandesa. o alcance e sig- nificado desse elenco de medidas não escapou à compreensão dos con- temporâneos, um dos quais caracterizou o Ato de 1660 como "uma forma de ampliar os domínios em todo o mundo, facilitando a con- 14</p><p>quista e reduzindo substancialmente os custos necessários à apropria- ção da propriedade alheia". Durante todo o século XVII, a Inglaterra - retardatária na consti- tuição de um império colonial - estabeleceu postos avançados nos ter- ritórios asiático, africano e americano. A colonização da costa atlânti- ca da América do Norte e a aquisição da Jamaica (1655) e de outras ilhas espanholas no Caribe permitiram a constituição de um mercado de escravos e de manufaturas e de fontes de suprimentos de itens utili- zados na atividade naval, de açúcar, artigos de tinturaria e prata. A úl- tima metade do século assistiu à emergência de dois interesses mercan- tis que passaram a competir com o império espanhol: o comércio de bens dirigidos à Espanha e destinados a seu consumo interno e reex- portação para as colônias e o comércio voltado para as Índias ociden- tais, ponto de partida para a penetração de artigos ingleses dentro dos domínios espanhóis. Observamos assim que, ao iniciar-se o século XVII, a Inglaterra já rompera as barreiras que a separavam do que atualmente denomi- namos mundo moderno. A transformação de sua sociedade e econo- mia, a interpenetração da aristocracia, pequena nobreza e comercian- tes, o prestígio e a autoridade conferidos aos poderosos interesses co- merciais, os gastos dirigidos para a indústria náutica e a expansão da marinha real, a mobilização de recursos e mão-de-obra nacionais vol- tados para a expansão comercial e para o acesso às matérias-primas rentáveis - todo este elenco de medidas permitira à Inglaterra esqua- drinhar as áreas que constituíam real e potencialmente - as fontes de oferta de matérias-primas, os mercados consumidores e, acima de tu- do, os próprios fornecimentos de ouro e prata, em barras e em espécie: os impérios coloniais americanos da Espanha e de Portugal. significado das nações ibéricas e de suas colônias americanas como mercados lucrativos e fontes de oferta de matérias-primas utili- zadas na constituição da supremacia inglesa pode ser facilmente negli- genciado; em realidade, as economias inglesa, ibérica e ibero- americana achavam-se intensamente interligadas ao iniciar-se o século XVIII. Durante a primeira metade do século XVII, a indústria textil de inglesa caracterizada pela produção de tecidos grosseiros, controla- da pelas guildas e comercializada por um oligopólio de comerciantes exportadores - achava-se em crise. No decorrer do século anterior es- ses artigos de haviam sido vendidos nos mercados do norte europeu. Ao iniciar-se o século seguinte, os competidores holandeses, silesianos e venezianos contrataram as exportações desse setor da economia in- glesa. A inflação no país, decorrente dos aumentos salariais, reduziu as vantagens competitivas dos fabricantes ingleses e favoreceu os fabricantes europeus mobilizando o trabalho realizado fora das guil- 15</p><p>das. A resposta inglesa a essa mudança (a transformação de um mer- cado vendedor para um mercado comprador, desenrolada ao longo do século XVII através da constituição de centros produtores) consistiu no estabelecimento de uma nova variedade de de baixo preço, mais leves e menos duráveis, os panos assim chamados por- que utilizavam de início um tipo de fibra de espanhola fina e curta. Essa produção se desenvolveu fora dos limites das cidades de guildas do centro-sul do país. Por seu lado, os intermediários eram financia- dos pelos comerciantes londrinos. Os tecidos eram então escoados para os consumidores da área mediterrânea, especialmente Portugal, Espanha e suas colônias americanas. (Estas últimas haviam-se consti- tuído, até aquele momento, em áreas de limitada demanda para esses tecidos.) Foi a expansão do comércio de sobre os mercados medi- terrâneos que gerou o crescimento do negócio de transportes inglês en- tre aquela área e a parte norte do continente. Além disso, os empresários ingleses que se haviam associado à nova manufatura postavam-se agora na vanguarda da revolução do século XVII; esta, por seu turno, levaria à abertura de novas frentes de penetração pelo interior do império espanhol na América. A malogra- da Companhia da Ilha da Providência e a conquista da Jamaica destinavam-se não apenas a servir à tarefa da colonização mas, igual- mente, a funcionar como entrepostos de contrabando; em outras pala- vras, os produtores dos novos tecidos beneficiavam-se das realizações de Cromwell e de seus associados na abertura da área do Caribe. Os têxteis inicialmente a depois o algodão penetraram na África (permutados por escravos), em Cadiz (trocados por prata, posterior- mente permutada por tecidos de chita em Calcutá) e no Caribe (con- trabandeados por madeira colorante e prata). Esse movimento consti- tuiu o ponto chave na expansão inglesa e em seu desafio face ao conti- nente europeu. Dificilmente poderemos compreender os acontecimen- tos que se desenrolavam em Portugal e Espanha, Inglaterra e França, Europa e América após 1600 se não levarmos em consideração a com- petição dos tecidos nas alfândegas e nos balcões dos comerciantes, no novo e no velho continentes. 3 "Os franceses reclamam que a sorte não lhes deu a Améri- ca. Estão errados. Na realidade, a Espanha desempenha o papel das para a França." Baltasar El Criticón, 1651 quanto maior o volume de mercadorias transportadas para os maior o número de lingotes e piastras das que retornam às nossas mãos... Sua Majestade 16</p><p>deseja que o marquês de Feuquières dedique-se com espe- cial afinco à manutenção e ampliação desse comércio, uti- lizando para esse fim toda e qualquer sugestão fornecida pelos comerciantes." Luís XIV, Instruções ao marquês de Feu- quières, embaixador na Espanha, 1685 A França achava-se igualmente empenhada na competição pelo controle do comércio com o mundo ibérico. Comparado, contudo, com o crescimento acelerado experimentado pela Europa a partir de 1500, o ritmo francês era bem mais lento do que aquele posto em mar- cha pela Inglaterra. Embora dotada de maiores recursos agrícolas e maior população (aproximadamente 20 milhões de habitantes, no sé- culo XVII), a França ressentia-se de obstáculos geograficamente im- postos ao seu desenvolvimento como Estado moderno. A definição das fronteiras nacionais absorvera recursos humanos e materiais. Um impressionante efetivo militar (cerca de 400 mil homens em armas, em 1700) e uma ampla burocracia de apoio constituíram-se em fatores re- levantes no processo de modernização da França, em contraste com a experiência inglesa. Uma aristocracia numerosa e multifacetada e que considerava a atividade comercial como algo aviltante ao seu status nobre persistia, em pleno século XVII, em ocupar posições de relevo no exército, na província e na corte. A forte reação provocada na Fronde pela cooperação entre o monarca e os grupos enriquecidos pelo co- mércio (achamo-nos na metade do século) resultou na diminuição, mas não na eliminação, da influência da aristocracia. Na realidade, a burguesia francesa seguia acalentando ideais aristocráticos, mente abandonando comércio à medida que pudesse adquirir o status da nobreza. Como decorrência lógica desse o progres- econômico e a atividade do Estado eram executados, em grande medida, por uma elite burocrática erudita e culta, sob os auspícios de um monarca que se empenhava em obter o poder executivo central mas que, em verdade, progredia (e nem sempre com sucesso) na razão direta de sua possibilidade de equilibrar facções poderosas. Na segunda metade do século XVII - em resposta aos aconteci- mentos que na Inglaterra geravam um rival bem mais poderoso que os holandeses -, a França, sob Colbert, buscava modernizar sua estrutu- ra através da reforma tributária, da proteção sistemática à atividade industrial, da produção regulada pelas decisões do Estado, das indús- trias apoiadas pelo governo e voltadas precipuamente para a elabora- ção de artigos de luxo, do estabelecimento de companhias de comércio privilegiadas por cartas patentes e, finalmente, da criação de uma ma- rinha mercante e de guerra. Ao aproximar-se o final do século, não obstante, as atividades fabris e comerciais achavam-se ainda estorva- das pela sobrevivência de taxas, privilégios, vendas de e pelo envolvimento da nação em dispendiosas guerras continentais. 17</p><p>Bem antes de 1700, o governo francês encorajara os comerciantes e fabricantes a penetrar pela área comercial ibérica adentro. A França era a maior fornecedora isolada para o mercado espanhol; na Améri- ca, contudo, nem as tentativas, nem a pirataria, haviam conseguido es- tabelecer posições definidas até que, a partir de 1697, a Espanha acei- tasse o domínio francês sobre a parte oriental da ilha de Hispaniola (São Domingos). Em 1700, entrementes, a França precisou utilizar outros meios que não a agressão territorial e o contrabando visando manter tais po- sições sobre a Espanha e suas áreas coloniais. Além da evidente dispa- ridade de forças entre o poderio marítimo francês e o espanhol, percebeu-se que um ataque à frágil estrutura do império espanhol le- varia ao colapso do Estado patrimonial vigente naquele país, pondo em risco não apenas o acesso francês aos mercados peninsulares mas às próprias fronteiras da França Da mesma forma que, internamente, começara seu crescimento dentro dos limites impostos pelas institui- ções existentes e sem motins revolucionários, assim também a defesa dos interesses econômicos franceses no exterior, contra a pressão exer- cida pela Inglaterra sobre a Espanha e a América, passara a depender da preservação e utilização do sistema colonial espanhol, e não de sua destruição. Assim sendo, a França insistiu na colocação de um Bour- bon no trono espanhol após a morte de Carlos II em 1700. A perspec- tiva entrevista pela elite burocrática de Luís XIV indicava que uma re- forma da administração (interna e colonial) espanhola, orientada se- gundo os interesses franceses, poderia eliminar o ponto mais vulnerá- vel no sistema colonial espanhol, isto é, o contrabando com os compe- tidores da França (os ingleses na Jamaica e os holandeses em Cura- çau). A unidade contra a Inglaterra, fortalecida pelos laços dinásticos, deveria produzir uma aliança "natural" entre os Bourbon espanhóis e franceses ao longo do século XVIII. 4 "Embora aqueles que buscassem a América fossem vassa- los dos reis de Espanha, quem poderia produzir a unidade entre um habitante da Biscaia e um catalão, que se origi- nam de províncias diferentes e falam diferentes línguas ? Como poderia um andaluz se entender com um valenciano, um homem nascido em Perpignam com um nascido em Córdoba, um aragonês com um nascido em Guipuzcoa, um natural da Galícia com um de Castela, um asturiano com um homem proveniente da Montanha ou de Navarra ?" Oviedo y Valdés, História general y natu- ral de las 1535 "E assim o fato de que não existe dinheiro, ouro e prata na Espanha, é porque eles existem; e o fato de que a Espanha 18</p><p>não é rica, é porque ela o é; fazendo duas afirmações ver- dadeiras e contraditórias a respeito de um assunto: Espa- nha." Gonzales de Cellorigo, Memorial de la política necessaria, 1600 Por volta de 1700, a Espanha assistia à morte não apenas do últi- mo monarca da casa dos Habsburgo; assistia, igualmente, ao declínio de sua própria economia. A guerra pela sucessão ao trono espanhol, disputada pelos Habsburgo, de um lado (apoiados pela Holanda e a Inglaterra), e pelos Bourbon, do outro, tornava claro o que há muito se sabia nas cortes e nas repartições européias. Já em 1614, Francis Ba- con analisara o "frágil estado da grandeza espanhola", concluindo que "essa grandeza consistia em seu tesouro; este tesouro, nas e as mas um acesso às mesmas depende dos senhores do mar" Espanha, observara Bacon, "achava-se esgotada por tantos empre- gos em tão vastos territórios" a ponto de se constituir "uma espécie de milagre encontrar 10 ou 12 mil espanhóis em um único exército". Ao findar-se o século XVII, a população espanhola fora reduzida em 1 milhão de habitantes (tomando-se, para comparação, os primei- ros anos daquele século); por volta de 1715, enfim, a população espa- nhola voltara à marca de 1514: 7,5 milhões. Essa redução populacio- nal pode ser explicada como o resultado de causas naturais e de causas decorrentes da ação humana: as pragas e epidemias agiram na mesma escala em que o fizeram no restante da Europa, a conquista e o desen- volvimento coloniais absorveram um número maior de vidas do que o indicado pelos registros oficiais, as guarnições espanholas espalhadas pelo continente europeu consumiram jovens em idade matrimonial. Por fim, a expulsão dos judeus e dos árabes e a fuga dos cristãos-novos e dos últimos árabes representaram um êxodo de importantes contin- gentes populacionais. da população, não obstante, consti- tuiu apenas um dos aspectos de um fenômeno muito mais generaliza- do e de particular significação face ao desenvolvimento econômico: a contração econômica. A regressão ou o "declínio" da Espanha - que passa então do pri- meiro para o terceiro escalão entre os poderes europeus ao longo do século XVII - merece uma definição em seu contexto político e econô- mico. Concomitantemente à descoberta e conquista da América e à união com o império dos Habsburgo, no século XVI, cresceram enor- memente na Europa a riqueza e o prestígio dinásticos dramático dessa riqueza e desse prestígio impressionou pro- fundamente a Europa no final do século XVII: esvaziara-se o tesouro real, a marinha mercante e de guerra achava-se sem homens e sem na- vios, o exército real não dispunha de soldados e de equipamento, o próprio trono encontrava-se desocupado./ A lenda da riqueza e do 19</p><p>prestígio espanhóis incorporara-se à linguagem cotidiana do continen- te: Peru, India, Potosi, nobre espanhol. Quando Bacon levantou o argu- mento da luta contra a Espanha, compreendeu igualmente que deve- ria, de início, destruir as ilusões reinantes quanto ao poderio daquele país. É possível que o maior mito incorporado ao pensamento europeu da época fosse o mito da "Espanha" propriamente dita. Ao encerrar- se o século XV, a Espanha mal começara a consolidar sua estrutura in- terna e sua geografia política como nação-estado. A aquisição do impé- rio no século seguinte gerara não apenas a atrofia do processo de con- solidação mas, igualmente, a proliferação da estrutura política patri- monial ibérica. Ao longo desse processo, as forças políticas e econômi- cas estimularam-se mutuamente. casamento de Fernando e Isabel, considerado o marco inicial do moderno Estado espa- nhol, resultara não na unificação dos reinos de Aragão e Castela, mas sim no estabelecimento de um condomínio através do qual as duas partes constituintes da "coroa espanhola" coexistiam como entidades separadas, dispondo de leis, sistemas tributários, cunhagem de moeda e padrões comerciais igualmente distintos/ Por seu turno, cada um dos reinos agregava partes dessemelhantes. Esse padrão de crescimento político fora bastante comum na etapa final da época medieval; sua sobrevivência em plena era moderna deixava a Espanha na retaguarda do desenvolvimento político da Europa ocidental. o acontecimento mais desastroso para o desenvolvimento do Es- tado patrimonial espanhol foi certamente a agregação de um império americano à coroa de Castela como um feudo ou propriedade pessoal baseado na premissa de que Colombo velejara na condição de agente pessoal de Isabel. Em decorrência de tal premissa, o reino de Aragão e as áreas subordinadas da Catalunha, Nápoles, Sicília, Majorca e Va- lência achavam-se legalmente afastadas da exploração e administração diretas do Novo Mundo. Uma terceira subdivisão política, as provín- cias bascas, achava-se meramente associada à coroa de Castela, atra- vés de uma aliança que os bascos afirmavam depender do reconheci- mento de privilégios locais, entre eles a isenção dos tributos impostos por Castela, e do recrutamento militar e, acima de tudo, a manutenção de barreiras alfandegárias que conferissem às "províncias isentas de impostos" o status de nação estrangeira em seu comércio com a Espa- nha. Destarte, os bascos não dispunham de contato direto com a Amé- rica. Não é de surpreender, então, que a Espanha fosse referida usual- mente sob a denominação de "as Espanhas". Um segundo desenvolvimento relevante resultou da sua união ao Sacro Império Romano, sob a dinastia dos Habsburgo, quando da su- cessão de Carlos V. Com razão ponderavam os juristas europeus a va- lidade de um "império universal", dominado pela Espanha, no século 20</p><p>XVI. Se Fernando fora o "primeiro príncipe da e Carlos seguramente também o era, nem mesmo as destras regras formuladas por Maquiavel serviriam para o controle efetivo de tão vasto patrimô- nio. E, contudo, a do patrimônio dinástico constituiu-se em outro fator no espanhol. A ilusão de grandeza e o mito do controle talvez o elemento mais saliente na fachada da monarquia espanhola. o tempo se encarregaria de mostrar que a apa- rência de poder era, na realidade, inteiramente ilusória. o impacto militar da monarquia espanhola sobre o mundo do Renascimento fora, com efeito, espetacular; sua atuação na consolida- ção dos fundamentos econômicos e políticos do poder monárquico na Es- panha, porém, deixara muito a 1492, a Espanha não passava de uma dependência da Europa, exportando vinho, minério de ferro e outros produtos primários, primeira metade do século seguinte, o produto nacional expandiu-se, em resposta à demanda colonial de ali- mentos, roupas e ferragens. Esse crescimento, não obstante, seria logo a seguir anulado pelos amplos e persistentes diferenciais de preços en tre as manufaturas peninsulares e aquelas fornecidas pelo restante da Europa ocidental. o fluxo da prata americana em grande escala, após 1550 inflacionou a estrutura de preços vigente no país de forma mais acelerada e profunda que sobre seus parceiros comerciais, levando à ruína as poucas indústrias que se haviam desenvolvido no período anterior, objetivando responder à demanda colonial durante a con- quista e o período inicial da ocupação. A indústria têxtil de Valência, Sevilha, Toledo, Ávila, Segóvia e Burgos entrou em colapso pressiona- da pela grande quantidade de tecidos de e seda mais baratos prove- nientes do norte da Itália, França, Holanda e Inglaterra. o dos carregamentos de prata da América, ocorrido por volta de 1630, encontrou uma Espanha caracterizada pelas reduzidas dimensões de sua indústria. A agricultura espanhola conheceu, igualmente, um estímulo de curta duração gerado pela alta de preços e pela elevação da demanda interna e nas colônias. Em resposta a esse estímulo, a mão-de-obra e o investimento foram deslocados do centro do país para a periferia sul. Na segunda metade do século, a produção vinícola e tritícola já se mostrava incapaz de atender à demanda, ao passo que as áreas neas ampliavam a produção de azeite e vinho para exportação às ex- pensas dos pequenos proprietários. As propriedades dos grandes mag- natas da Extremadura e da Andaluzia, vinculados à produção de azei- te, vinho e cresciam em dimensão e importância; por seu turno, as áreas agrícolas de Castela Velha eram postas de lado e abandonadas. Contraindo-se a manufatura interna, o desenvolvimento da ativi- dade agroexportadora na periferia sul da península e a persistência de barreiras naturais e artificiais ao comércio interno, o comércio exterior e colonial tornou-se o atrativo da economia peninsular. o estabeleci- 21</p><p>mento da corte em Madri (1561) deu início a um lucrativo comércio de artigos de luxo com a Itália, França e Flandres. Ao findar-se o século XVII, as chamadas cinco maiores guildas de Madri, encarregadas do fornecimento de artigos de luxo importados, dominavam a vida eco- nômica da capital. o comércio madrilenho dependia, em grande medi- da, contudo, da remessa do "quinto real" sobre a produção das minas americanas, dos recebimentos alfandegários e dos lucros do comércio colonial concentrado no porto de Sevilha. Esse comércio colonial - do qual nos ocuparemos detalhadamen- te mais adiante fora, desde o início, organizado de molde a assegurar o monopólio dos benefícios para a coroa, súditos e residentes de Cas- tela. Controlado por uma Câmara de Comércio (Casa de Contrata- ción) e uma guilda de comerciantes (Consulado), refletia o estreito exclu- sivismo das práticas comerciais características da etapa final da era medieval. Ao longo dos séculos XVI e XVII essa estrutura e essa práti- ca foram sancionadas em um corpo de leis heterogêneas, por fim com- piladas sob o título de "Leis das Indias", o instrumento legal ao qual os monopolistas andaluzes apelavam em defesa de seus privilégios e práticas até o ocaso da era colonial. Não obstante as leis e os planos reais, a participação estrangeira achava-se presente no comércio americano desde o seu começo. Ao iniciar-se o século XVIII, as guildas eram constituídas, em sua maior parte, por comerciantes genoveses, franceses, holandeses e ingleses, re- sidentes e não residentes. Em escala cada vez maior, os navios estran- geiros transportavam mercadorias para os portos coloniais; as esqua- dras estrangeiras escoltavam as frotas encarregadas do transporte dos tesouros. Contrabando nos portos e fraude junto à alfândega foram fa- tores que contribuíram para que o comércio colonial espanhol atingis- se seu ponto mais baixo ao final do século XVII. As repercussões sociais dessas transformações econômicas foram imensas. Embora a terra assegurasse o sustento da maior parte da po- pulação durante os anos prósperos do século XVI, aqueles que dispu- sessem de fundos a arriscar ou de vontade de seguir as pegadas do "in- quieto comércio de mercadorias" poderiam enriquecer através do co- mércio com as Índias, ou através da importação de artigos de luxo. A pequena nobreza, carente de rendas vultosas, poderia adquirir fortu- na e posição através dos muitos empregos vinculados da comercial (nos diversos pontos-chave na península), ao lon- go das linhas de entrada e de trânsito nas colônias e nos centros minei- ros. Aqueles incapazes ou desinteressados em aproveitar-se desses meios poderiam investir suas poupanças em ações governamentais e fundos religiosos, assegurando assim uma renda estável, ainda que modesta. 22</p><p>No século XVII, acompanhando o lento da atividade in- dustrial e agrícola no interior de Castela, a população iniciou a migra- ção para a região sul do país, para Madri e outras cidades onde os ci- dadãos mais pobres pudessem assegurar seu sustento precário colocando-se a serviço dos ricos, no pequeno comércio, ou como men- digos, dependentes da caridade da Igreja, do comerciante, do aristo- crata. No curso desses dois séculos, as fileiras da aristocracia, burocra- cia e igreja ampliaram-se, na medida em que as famílias resguardavam suas fortunas e asseguravam seu futuro através de uma grande diversi- dade de vínculos, benefícios eclesiásticos, compra de cargos públicos transmissíveis por herança etc. A aversão às atividades manuais, arrai- gada desde a Reconquista, fortaleceu-se ainda mais; os ideais de ob- tenção de um estilo de vida aristocrático passaram a dominar a vida e a literatura espanholas. Em escala muito mais ampla do que em qual- quer outro lugar, ao longo desses dois séculos, os comerciantes espa- nhóis buscaram posição social e segurança para si mesmos e seus des- cendentes através da posse da terra, de títulos, de quaisquer formas de propriedade geradoras de renda e da obtenção de cargos públicos lu- crativos. A inflação e a extravagância muito levaram- nos a recorrer ao "remédio junto ao qual... aqueles que estão arruina- dos em suas propriedades geralmente buscam auxílio; para saber, para ir para as o refúgio e proteção de todos os seus perdulários, e o desesperado povo da Espanha". Com um pouco de sorte conseguia-se meios suficientes para assegurar a subsistência; contudo, embora o ci- clo se repetisse e as figuras do indiano* e do perulero** se tornas- sem familiares na sociedade espanhola, nenhum benefício cumulativo foi transferido para a economia de Castela ou do restante da península. Dentro do quadro descrito ao longo das últimas páginas, uma ins- tituição - a família - adquire novo significado. Da dinastia reinante até o mais humilde burocrata, as relações familiares eram, em realida- de, questões de sobrevivência econômica. "Aliança e parentesco" são palavras-chave para a compreensão da sociedade espanhola desse período; dessas relações dependiam, em grande medida, o acesso à subsistência, à riqueza e à posição social. Mesmo as relações mais pró- ximas, representadas pela origem regional comum, devem ser entendi- das, parcialmente, através dos laços de parentesco, já que nessas re- giões, especialmente nos populosos vales do norte, comunidade e família achavam-se intimamente vinculados. A burocracia fora estru- turada de forma a receber a vigorosa influência dos interesses e pres- sões familiares; aqueles que detinham funções públicas buscavam po- Aquele que voltava enriquecido da América. (N.T.) Indivíduo que voltava do Peru para a Espanha, especialmente o enriquecido. (N.T.) 23</p><p>sições para seus parentes paisanos (não militares), quer na atividade pública, quer na privada. Os comerciantes dependiam, acima de tudo, desses laços de parentes na manutenção da lealdade e do segredo en- tre seus associados e dependentes. As redes familiares estenderam-se de tal forma sobre a vida política e econômica espanholas que, em cer- tas épocas, algumas famílias contavam com representantes seus esta- belecidos em diversos pontos estratégicos: nos ministérios-chave, na burocracia madrilenha, no exército, marinha, igreja e comércio (inter- no e colonial). Embora seja correto afirmar que tais padrões tenderam à fragmentação ao longo dos anos ou em decorrência da travessia do Atlântico, não será menos verdadeiro asseverar que as famílias ten- diam a substituí-los por novos padrões. Se considerarmos a Espanha e seu império colonial como uma to- talidade, ao longo dos séculos XVI e XVII, tornar-se-á evidente que áreas subdesenvolvidas não podem facilmente modernizar suas econo- mias nem transformar sociedades tradicionais, de valores e aspirações aristocráticos. Certamente não, no caso português e espanhol: as duas nações, ao iniciarem sua experiência imperial, encontravam-se imper- feitamente organizadas, orientadas para a exportação e carentes de uma burguesia nacional ou de um grupo capitalista mercantil capazes de estimular o crescimento interno. A Espanha poderia ter utilizado seus recursos, mão-de-obra e estruturas institucionais na construção de um império ultramarino comercial florescente. Poderia, igualmen- te, ter penetrado em uma etapa de acelerada expansão do capitalismo comercial, como fizeram a Holanda, Inglaterra e França entre 1500 e 1700. Poderia, por fim, ter confiscado as propriedades da Igreja (como fez a Inglaterra), objetivando desenvolver recursos internos ao mesmo tempo em que, reorganizando as vastas propriedades fundiárias, via política tributária, poderia ter ampliado suas receitas fiscais. A história mostra, contudo, que a Espanha, à época da Reforma, não se achava preparada para romper sua herança medieval. Séculos de expansão territorial na Península Ibérica - a Reconquista - e a luta contra a cultura árabe haviam enfatizado o papel desempenhado por uma aristocracia e Igreja militantes. A herança medieval não parecia constituir empecilho algum à expansão espanhola antes de 1500; afigurava-se, ao contrário, como fator de unidade e crescimento. A ex- ploração das colônias americanas, México e Peru, tornara desnecessá- ria a reestruturação de uma Espanha caracterizada pela prevalência de estruturas econômicas e sociais semifeudais, baseadas na posse da ter- ra e aristocráticas. Não se trata, pois, de uma simples atrofia: em ver- dade, se os setores produtivos essenciais contraíram-se, determinados setores consumidores - a aristocracia, a burocracia, as ocupações volta- das para a prestação de serviços, a Igreja floresceram. Os sintomas patológicos gerados por esse processo podiam ser vistos, quer no go- verno, quer na sociedade e na economia, no novo e no velho continen- 24</p><p>tes. Nos anos que se seguem a 1600 os Estados europeus, modernizando-se, passam a questionar os conceitos e as práticas do privilégio, do "Estado absoluto", da Igreja, do usufruto privado do poder público, do ouro e prata em lugar da produção, como fatores geradores de riqueza. Na Espanha e na América espanhola, não obs- tante, essas instituições e atitudes conheceram um novo revigoramen- to. 5 "As cidades de Lisboa e Porto podem ser, com justiça, consideradas os dois olhos de Portugal; aqui se acham centralizadas todas as ri- quezas do país e todo o seu comércio com as demais nações e com suas possessões nos Brasis; destas últimas, especialmente, depende não apenas a sua existência como povo, mas, igualmente, a imediata manutenção do trono." Arthur W. Costigan, Sketches of Society and Manners in Portugal. 1787 Se a Espanha era o doente europeu em 1700, Portugal era o es- quecido. Dependência colonial da Europa ocidental em 1500, Portugal constituía-se, 200 anos mais tarde, em virtual dependência eco- nômica da Inglaterra, a julgar pelos termos do tratado anglo- português de 1703, o tratado de Methuen, que vinculou a economia portuguesa metropolitana e colonial à inglesa. Methuen, em reali- dade, encerrou Portugal e sua colônia brasileira em uma teia de impe- rialismo econômico centralizado na Ao findar-se o século XV, e às vésperas da grande expansão ultra- marina das nações ibéricas, Portugal achava-se relativamente unifica- do; sua densidade populacional era superior à espanhola (embora, em termos absolutos, sua população fosse menor) e, ao longo dos últimos 100 anos, a monarquia governante afinara-se às aspirações da burgue- sia estabelecida em seu principal centro comercial, a cidade de Lisboa. Para Portugal via Lisboa afluíam cereais, produtos metalúrgicos, e peixe salgado, procedentes do norte do continente e transporta- dos em navios dos Países Baixos; de Lisboa eram despachados o ouro africano e o sal de Setúbal. Os laços de dependência econômica eram bastante claros. Durante os últimos 100 anos, os portugueses haviam esquadri- nhado o Atlântico para oeste, para os Açores, e para o sul, ao longo da Sugerimos, ao leitor interessado em um estudo mais detalhado do desenvolvimento e das para a análise da evolução capitalista, da qual a expansão inglesa constitui episódio de Methuen, a leitura do excelente ensaio de Nel- son Werneck Sodré, "O Tratado de Methuen, domínio inglês em Portugal", in As Ra- zões da Independência, Ed. Civilização Brasileira S.A., 1965, págs. 15-53. (N.T.) 25</p><p>costa da África ocidental, para as ilhas da Madeira e de Cabo Verde, em busca de acesso direto às minas de ouro de Monomatapa. Haviam, também, maximizado sua tecnologia náutica com a criação de uma es- cola de navegação, o treinamento de marinheiros, a coleta de informa- ções sobre a costa africana ocidental e a busca de uma rota inteiramen- te marítima que permitisse a exploração das potencialidades comer- ciais do oceano Índico e do Extremo Oriente. Primeiros a ultrapassar o limite sul do continente, os portugueses concentraram seus limitados recursos de capital, mão-de-obra e conhecimento náutico na explora- ção da passagem marítima para a Índia, os estreitos de Málaca, e do sul da China. Tendo dominado esse oceano, passaram a dominar as vastas rotas marítimas, inclusive o transporte entre Japão e China, e explorando um monopólio virtual, inicialmente o comércio de especia- rias, depois o de artigos de luxo (sedas e porcelanas, por exemplo), em troca de prata. Não é de admirar, pois, que durante a primeira metade do século XVI os portugueses considerassem a descoberta do Brasil (1500) como questão de importância secundária. De fato, os esforços portugueses voltados para a consolidação de seu controle sobre a costa brasileira e exercidos entre os atuais portos de Santos e Recife foram, em grande medida, simples ação reflexa, de molde a prevenir o estabelecimento de enclaves costeiros por parte da Inglaterra e França, inte- ressadas na extração do pau-brasil, utilizado na fabricação de ingle- sas e nos Países Baixos. Foi o temor dessa competição que gerou a ocupação sistemática da colônia a partir da segunda metade do século, através do estabelecimento de uma economia baseada na exploração da grande propriedade agrícola. o desenvolvimento da agricultura da ao longo da orla marítima compreendida entre Salva- dor e Recife, resultou da ação de um punhado de empresários portu- gueses que, escravizando os indígenas, escravizaram-nos como mão- de-obra em suas propriedades. Quando a exploração dessa mão-de- obra se mostrou ineficiente e escassa, os portugueses levaram a efeito o primeiro recrutamento, em ampla escala, de mão-de-obra escrava dos portos da África ocidental para as plantações de tabaco e cana-de- açúcar. Iniciava-se, assim, a migração forçada de escravos negros, já que o estabelecimento de emigrantes portugueses como fazendeiros- colonos, em pequena escala no Brasil, mostrara ser empresa de realiza- ção tão impossível quanto a criação de enclaves semelhantes na Amé- rica espanhola. No oceano Índico e ao longo das costas asiáticas, os portugueses sobressairam-se como criadores de enclaves comerciais e como nave- gadores. Vista a partir de uma perspectiva histórica, essa atividade re- presentou a etapa final do padrão comercial medieval desenvolvido pelos centros marítimos italianos. Os ganhos obtidos no comércio oriental não foram, ao que parece, transferidos para fins de investi- mento nas plantações brasileiras, no comércio de transportes para o Brasil ou na criação de refinarias de açucar em Portugal. Ao findar- 26</p><p>se o século XVI, os holandeses controlavam aproximadamente 66% da atividade marítima desenvolvida entre Brasil e Portugal e possuíam grande parte do açúcar exportado da colônia; (e não Lis- boa) apresentava cerca de 25 refinarias utilizando, como insumo, o açúcar brasileiro semiprocessado (1621). A expansão marítima da estrutura econômica pré-capitalista por- tuguesa foi, destarte, a resultante de uma conjunção fortuita de uma tecnologia marítima relativamente desenvolvida e de uma localização geográfica privilegiada. Essa expansão fez-se às custas do comércio de itens de reduzido peso e elevado valor comercial, itens que necessita- vam de uns poucos navios de grande tonelagem. Não demorou muito e uma área mais desenvolvida da Europa ocidental, os Países Baixos, passaria a mobilizar recursos mais amplos, em termos de mão-de- obra, capital e conhecimento náutico, objetivando seguir as pegadas portuguesas em busca de suas fontes comerciais, acabando por alijá- los de seu domínio sobre as mesmas. No decurso da primeira metade do século XVII, a atividade holandesa levou à cessação da participa- ção portuguesa na periferia asiática; no Brasil, os holandeses conquis- taram Recife, estabelecendo seu controle não apenas sobre o comércio mas, igualmente, sobre a própria cultura do açúcar, domínio que per- durou de 1630 até 1654. Nem mesmo a ocupação espanhola do solo português (entre 1580 e 1640) possibilitou a obtenção de recursos ne- cessários à proteção das posições portuguesas no Brasil. A reconquista de Recife (1654) não correspondeu à recuperação do monopólio do açúcar: as plantações inglesas e holandesas achavam-se em pleno de- senvolvimento na área do Caribe. Assim sendo, ao iniciar-se o século XVIII, notamos que os 200 anos de expansão (e contração) marítima portuguesa haviam deixado apenas a ilusão de grandeza; os ganhos comerciais não haviam gerado, em contrapartida, o estabelecimento de manufaturas metropolitanas, o florescimento de instituições financeiras, o crescimento populacio- nal. Deve-se assinalar que as elevadas taxas de emigração haviam-se dirigido inicialmente para os enclaves comerciais asiáticos, depois para a orla agrícola brasileira. As rendas coloniais haviam produzido uni- camente a expansão do setor de serviços. Assim sendo, na guerra de sucessão espanhola a debilidade portuguesa levou o país a associar-se à Inglaterra, nos termos por esta impostos, objetivando sobreviver à ameaça da invasão franco-espanhola. o tratado de Methuen (1703) forçou Portugal a reduzir as tarifas incidentes sobre as importações de artigos de provenientes da Ingla- terra, reduções essas posteriormente estendidas às mesmas manufatu- ras fornecidas pela França e Holanda. Em retribuição, a Inglaterra passou a dispensar tratamento favorável aos vinhos portugueses (em detrimento dos franceses e espanhóis). Assinale-se que, em 1700, apro- ximadamente 11% do volume total das exportações inglesas eram ca- nalizados para Portugal e sua colônia americana. Na realidade, Portu- 27</p><p>gal não passava de uma pequena metrópole, possuidora de uma vasta colônia, mas incapaz não só de fornecer ao Brasil grande parte de suas importações de têxteis e produtos metalúrgicos como, igualmente, de pagar suas próprias importações sem o recurso aos produtos coloniais. Portugal (como a Espanha) tornara-se um apêndice de sua colônia americana. Em outras palavras: o Brasil fora atrelado à economia eu- ropéia ocidental através das estruturas políticas, sociais, pré- capitalistas portuguesas. A exploração colonial exercida sobre o Brasil constituía o cerne da vida econômica portuguesa. Até este momento temos utilizado o ano de 1700 como um divisor de águas que nos permita revisar o processo de mudança nas posições relativas ocupadas pelos Estados da Europa ocidental ao longo dos sé- culos XVI e XVII. No decurso desses 200 anos, as nações ibéricas, eco- nomicamente dependentes ou dominadas, realizaram sua expansão ul- tramarina, gerando áreas comerciais dependentes sem, contudo, esta- belecer condições que permitissem um substancial feedback. Em ver- dade, deixaram de modernizar suas estruturas internas, o que poderia ter transformado sua subordinação às economias dominantes inglesa, holandesa e francesa. Vimos, igualmente, que a Inglaterra confron- tada pela crise econômica decorrente da redução da demanda por seu principal produto de exportação adaptou-se e inovou. o mesmo ocorreu com a França; há muito dominada pela Holanda, e depois de- safiada pela Inglaterra, iniciou transformações em suas estruturas eco- nômicas e políticas. Por seu turno, a Holanda, desafiada no mar pela Inglaterra e em terra pela França, assumiu o papel de banqueiro euro- peu, papel que desempenharia de forma efetiva até a época napoleônica. Essa descrição, no entanto, não analisa adequadamente as causas e os efeitos de tais transformações. o exame da atuação inglesa ao lon- go do século XVII (e, principalmente, no decorrer do século XVIII) chama-nos a atenção para o fato de que seu traço mais característico não era a esmagadora superioridade tecnológica, comercial, industrial e marítima sobre os rivais holandeses e franceses, mas, sim, a disposi- ção agressiva, voltada para a utilização de sua posição e ex- periência marítima na formulação de uma estratégia ofensiva a ser re- petidamente empregada contra os holandeses e franceses. Os ingleses penetraram no império colonial do Novo Mundo com ener- gia comercial, inovação industrial e, por último, lançando mão da guerra. A guerra, aliás, foi o instrumento que os ingleses utilizaram com tanta destreza que lhes permitiu não só acumular uma frota mer- cantil praticamente da noite para o dia mas, igualmente, extorquir concessões dos vencidos. As nações subdesenvolvidas não devem es- quecer o fato de que a Inglaterra reuniu essa frota mercantil em apenas dois anos (1652-54), a partir dos velhos navios do século XVII toma- dos aos holandeses. É certo que a Inglaterra não foi a única nação a adotar esse procedimento; é certo, porém, que foi a mais bem sucedida nessa prática. Parece claro que os ingleses tomaram devida nota das 28</p><p>recomendações políticas formuladas por Bacon em seu "Lucrative and Restorative Warre" ("As guerras lucrativas e restauradoras"). Desse ponto em diante, forçaram os espanhóis e portugueses a estabelecer concessões tarifárias sobre as importações de suas manufaturas e a fortalecer, concomitantemente, a posição dos seus comerciantes resi- dentes em Lisboa e Sevilha. o imperialismo econômico - como ocorre ainda hoje - necessita de colaboração, e as elites ibéricas - aristocráti- cas e comerciais - perceberam no curso do século XVII que lhes era possível preservar, dentro da posição de dependência econômica, o es- tilo de vida ao qual já se haviam acostumado*. Francisco de Oliveira demonstra, com clareza, a existência de estruturas internas nas nações ditas "subdesenvolvidas" que permitem o estabelecimento dessas relações de do- minação com os países ditos "centrais". Veja-se "A Economia Brasileira, Crítica à Ra- zão Cadernos CEBRAP esp. págs. 8-9. (N.T.) 29</p><p>capítulo II A economia colonial 1 "O comércio é o sacrifício do rico e do pobre; aqueles que se engajam na atividade comercial alcançam o nível de lu- cros a que aspiram, sem esforço e sem sair de casa; a abundância de navios aportando em Veracruz, contudo, não os leva a baratear os preços dos artigos, já que os ricos e os poderosos monopolizam esses artigos, prejudicando aqueles que não o fazem; armazenando-os em seus depósi- tos, fixam os preços de acordo com a sua conveniência e assim exploram o resto da hamanidade. Inexiste controle. Esta capital é uma cidade apenas no nome; em realidade, não passa de uma aldeia." o vice-rei do México, duque de Linares, ao seu sucessor, 1716 Os espanhóis necessitaram de 70 a 80 anos para ocupar o territó- rio que viria a se tornar o seu império na América. Levaram 200 anos em tentativas e erros para estabelecer os elementos de uma economia colonial vinculada à Espanha e, através desta, à Europa ocidental. Por volta de 1700, esses elementos eram os seguintes: (1) uma série de en- claves de mineração, no México e no Peru; (2) áreas de agricultura e pecuária situadas na periferia dos enclaves de mineração e voltadas para o fornecimento de gêneros alimentícios e matérias-primas; e (3) um sistema comercial planejado para permitir o escoamento da prata e do ouro (em espécie ou em lingotes) para a Espanha que, de posse des- sa riqueza, adquiriria os artigos produzidos na Europa ocidental e es- coados através de portos espanhóis para as colônias americanas. Para a maioria dos espanhóis e de seus descendentes americanos, em 1700, os dias gloriosos pertenciam ao passado, à época da conquista, à orga- nização dos povos subjugados, à criação de um vasto aparelho buro- crático e, acima de tudo, à descoberta e exploração das minas de prata mais ricas que o mundo jamais conhecera. A idade de ouro espanhola 30</p><p>fora, em realidade, um tempo de conquista, e não de paz; de prata, e não de ouro. 2 começaram a povoar estas minas rapidamente; os pri- meiros colonizadores eram soldados estabelecidos nas re- dondezas; e, então, em resposta às novas da descoberta de ouro, começou a chegar do México grande número de indivíduos, entre eles comerciantes acompanhados de seus artigos." Alonso de la Mota y Escobar, Descripción de los reinos de Nueva Galícia, 1602 (apr.) Ao longo dos primeiros 200 anos de dominação colonial, os espa- nhóis desenvolveram um setor mineiro que permitiu a manutenção da economia metropolitana e da posição internacional espanhola em meio às demais nações da Europa ocidental. As primeiras descobertas ocorreram no México e no Peru, no curto período de 20 anos (1545- 65). Os enclaves necessitavam de grande quantidade de mão-de-obra indígena que, recrutada por sorteio, era encaminhada periodicamente às minas, retornando a seguir às comunidades de origem para ser subs- tituída por novos contingentes requisitados de igual maneira. Os hor- rores desse tipo de mão-de-obra forçada (mitas) constituem uma vasta literatura de exploração. As operações do setor necessitavam, naturalmente, de muito mais que simples mão-de-obra. Os trabalhadores necessitavam de aloja- mentos, armazéns, igrejas e tavernas. Por seu turno, as minas precisa- vam de escoras para os poços, alvenaria, cabrestantes, escadas e gran- de quantidade de couro. Necessitava-se, igualmente, de mulas e cava- los, nas cidades e nas minas, para o transporte das barras para os lo- cais de cunhagem e portos de exportação, para o transporte dos pro- dutos das plantações e das estâncias e para o carregamento das merca- dorias européias que aportavam ao litoral e que eram requisitadas pe- los centros de mineração (utensílios de ferro e aço, artigos de luxo e, acima de tudo, o mercúrio, utilizado na amalgamação da prata a par- tir dos minérios brutos). A mineração criou, igualmente, um mercado interno voltado para o consumo da produção colonial de têxteis de e algodão elaborados por artesãos individuais. Apesar das proibições, essa produção artesanal expandiu-se bastante, já que os atacadistas importadores-exportadores manipulavam unicamente as e sedas de excelente qualidade e altos preços fornecidas pela Europa ocidental ou pelo Extremo Oriente. o capital de giro sempre se constituiu no ponto fraco do setor de mineração, sendo obtido ou através de doações religiosas (obras pias) ou através de empréstimos resultantes de associações estabelecidas en- 31</p><p>tre os proprietários das minas e os comerciantes (estes, por sinal, fre- qüentemente acabavam por assumir o controle integral das minas que haviam originalmente financiado). risco decorrente da atividade mineradora sempre foi elevado. As características desta economia de mineração podem ser facil- mente imaginadas. Para os essa atividade constituía a opor- tunidade de exercer funções empresariais essenciais o risco e a desu- manidade - à espera da descoberta de ouro e do retorno à pátria, ago- ra como aristocratas recém-enriquecidos. A ascensão social decorrente de alguns anos de trabalho dirigente e de frugalidade constituía uma das maiores recompensas da conquista. É certo que muitos pro- prietários de minas permaneceram na América: alguns faliram, outros preferiram carrear suas poupanças para a atividade agrícola e pecuá- ria. Essa prática se generalizou logo após 1610, acelerando-se ao longo do século seguinte, o século caracterizado pela contração econômica na América e na Europa ocidental. A forte expansão da atividade mineira no período de 1545 a 1610 constitui um exemplo clássico da atividade empresarial privada, na qual os proprietários de minas, os comerciantes e o Estado colabora- ram mutuamente e repartiram os lucros entre si. Proprietários de mi- nas e comerciantes na América, comerciantes de Sevilha (e, através destes, os comerciantes e fabricantes da Europa ocidental), todos obti- veram lucros nessa atividade, direta ou indiretamente. A participação do Estado foi efetivada sob a forma de um percentual (aproximada- mente 20%) incidente sobre a prata obtida nas minas e cunhada; os lu- cros decorrentes da distribuição do mercúrio, contudo, permaneceram monopólio estatal integral. o Estado auferiu, igualmente, lucros indi- retos via impostos incidentes sobre os bens exportados para a América e através das especiarias americanas recebidas em Sevilha e em seguida reexportadas para a Europa ocidental, objetivando equilibrar o ba- lanço de pagamentos para as importações espanholas e hispano- americanas. Desempenhando o papel de principal setor da economia colonial, a mineração pagou os custos administrativos do império, os funcionários eclesiásticos e seculares, os vice-reis, os juízes de audiên- cia (oidores), os governadores e os funcionários locais (alcaldes mayores, corregidores), as guarnições militares e os navios da marinha real incumbidos da escolta dos comboios de transporte entre os dois continentes. 3 fazendeiros, donos de lojas, proprietários de estân- cias e compradores de gado costumam vender seus traba- lhadores juntamente com as propriedades. quê? Esses trabalhadores indígenas e empregados são livres ou escra- vos? Não importa. Pertencem à fazenda e devem conti- 32</p><p>nuar nela a servir. Este indígena é propriedade do meu se- nhor." Jerónimo de Mendieta, História ca indiana, 1595-1596 "Então os índios não ficam doentes; seus ossos não doem, seus peitos não ardem, não sentem dores abdominais, não ficam tuberculosos nem sentem dor de cabeça. é- poca o curso da humanidade era pacífico, mas os estrangei- ros tornaram-no diferente quando aqui chegaram." Livro de Chilam Balam de Chumayel, final do século XVII A orientação exportadora - característica inicial da economia latino-americana e, até hoje, seu traço dominante e uma de suas prin- cipais heranças foi o produto dos dois primeiros séculos do colonia- lismo espanhol e da forte expansão da mineração no altiplano e nos Andes centrais, regiões que até então abrigavam culturas avançadas, detentoras de tecnologia agrícola e densidade populacional. Foi exata- mente nessas regiões que os espanhóis abriram as minas e criaram os subsetores vinculados aos núcleos mineiros e as grandes propriedades fundiárias dedicadas à lavoura e à pecuária. Foram, em verdade, o excedente agrícola, as habilidades e a mão- de-obra indígena que asseguraram o sucesso da empresa mineira espa- nhola. A introdução da economia de mineração (utilizando tecnolo- gia primitiva) desempenhou o papel de lâmina de corte do capitalismo europeu ocidental. o sucesso da empresa literalmente dizimou a popu- lação indígena e destruiu as estruturas agrárias anteriores à conquista. A estância, unidade produtora voltada para a pecuária, surgiu das ruí- nas dessas culturas dizimadas pelos espanhóis. A fazenda desenvolveu-se, antes de 1700, de molde a alimentar a economia de mineração e a permitir ao empresário espanhol recriar na América o símbolo de poder característico do sul da Espanha, a pro- priedade fundiária utilizadora de força de trabalho quase que inteira- mente imóvel. A conquista de Sevilha e a ocupação da Andaluzia, no sé- culo XIII, haviam permitido à nobreza espanhola criar proprieda- des voltadas para o cultivo do trigo, da oliveira e da vinha. A conquis- ta da América gerou o mesmo padrão; esse processo, contudo, levou ao colapso os centros de civilização ameríndia, suas culturas e sua po- pulação. Nessas áreas de clima árido, as chamadas antigas civilizações caracterizavam-se pelo crescimento populacional, pela especialização econômica e urbanização decorrentes do domínio e pela aplicação da tecnologia de controle da água, a agricultura de irrigação. Nas áreas semidesérticas da Mesoamérica e dos Andes centrais, sem dispor de 33</p><p>arado, roda ou animais de transporte, o homem foi capaz de ampliar a oferta de alimentos utilizando-se unicamente da força d'água e da mão-de-obra, abandonando assim as culturas extensivas e nômades, geradoras de colheitas reduzidas e instáveis, em favor da agricultura intensiva e sedentária, geradora de colheitas fartas e contínuas. De acordo com cálculos recentes, a atividade agrícola atualmente posta em prática (e que utiliza a coivara na preparação da superfície do solo) necessita de 1 200 hectares anuais para fornecer adequada quantidade de alimentos a 100 famílias; a chinampa (agricultura de plataforma la- custre) intensiva, desenvolvida no Vale do México, necessitava uma pequena dessa superfície, aproximadamente 37 a 70 hectares. A agricultura intensiva desenvolveu-se nas regiões montanhosas do'México e nos Andes centrais ao longo dos 3 mil anos anteriores à conquista espanhola. Tudo indica que essa atividade agrícola conhe- ceu o seu apogeu no período compreendido entre 1200 e 1500, atra- vés da formação do "Estado" asteca (centralizado no Vale do México) e do "império" Inca, no Peru. A tecnologia e produtividade desenvol- vidas por essas duas civilizações culminaram com o estabelecimento de uma sofisticada agricultura intensiva de mão-de-obra responsável pela produção do milho como principal gênero alimentício (nas re- giões mais elevadas do Peru e Bolívia, a batata) e de colheitas auxilia- res, favas, abóbora, tomate e pimenta malagueta. Os hábeis agriculto- res do Vale do México superavam as desvantagens decorrentes de precipitações pluviométricas insuficientes e instáveis utilizando a água proveniente do degelo das neves das montanhas e maximizando as am- plas bacias naturais formadas pela interligação dos lagos; no Peru, os agricultores utilizavam os rios dos vales montanhosos e os cursos de água que percorrem os vales ao longo da árida costa do Pacífico. Empregou-se a água para fins agrícolas por meio de canais de irriga- ção que, em turno, demandavam elevados insumos de mão-de-obra na construção de eirados, em vales de declives fortemen- te marcados, na construção e manutenção de canais. Observadores es- panhóis do século XVI ficaram profundamente impressionados pela habilidade em engenharia demonstrada pelos povos do Andes centrais, da mesma forma que agrônomos do século XX impressio- nam-se com a evidência arqueológica de técnicas de mudanças de cursos de água, de vale a vale, postas em prática na era anterior à conquista. No Vale do México, observadores espanhóis maravilharam-se com o sistema de diques criados e mantidos de molde a não permitir que a água salobra penetrasse nas áreas de água doce e de agricultura chinampa intensiva. Uma economia agrícola assim estabelecida certamente favorecia o crescimento demográfico. Nos Andes centrais, a população amerín- dia pode ter alcançado cifras entre 3,5 e 6 (10, segundo alguns) milhões de habitantes, por volta de 1525. Para o México central, a análise de- 34</p><p>mográfica recente sugere um contingente populacional em torno de 25 milhões de habitantes (1519). No milênio anterior a 1500, o crescimen- to populacional periodicamente pressionava em busca de maiores quantidades de alimentos, gerando conflitos inter-regionais e a con- quista e consolidação das comunidades agrícolas sob a forma de blo- blocos esses que acabariam por criar expressões culturais próprias, na arquitetura, nos centros administrativos e cerimoniais urbanos, na ce- râmica, na tecelagem e escultura, em métodos de contagem do tempo, em práticas religiosas. Os colapsos periódicos, experimentados por es- sas civilizações de regadio, eram seguidos pela difusão de sua cultura material e intelectual e pelo seu reaparecimento em padrões subse- qüentes, forjados por novos centros culturais. A sofisticação agrícola refletia-se na crescente estratificação, isto é, na formação de hierarquias: nobreza, soldados e elite religiosa, um grupo de comerciantes e hábeis artesãos voltados para a produção de bens orientados pela demanda da elite, e a grande massa de agriculto- res. A expansão de uma comunidade às expensas das vizinhas, o esta- belecimento da hegemonia sob a forma de pagamento de um tributo anual ou de incorporação a um império integrado explicitavam o exercí- cio de pressões sobre os agricultores situados na base da economia e da sociedade, pressões essas responsáveis pela eclosão periódica de re- voltas por vezes bem sucedidas. No século anterior à conquista, as ci- vilizações de regadio encontradas pelos espanhóis no Vale do México e nos Andes centrais achavam-se dominadas por uma elite militarista, expansionista e cruel face aos dissidentes, dentro e fora dessas socieda- des. Os astecas adotavam a prática de periodicamente submeter áreas dependentes recalcitrantes através de expedições militares encarrega- das da imposição (ou do reforçamento) de tributos; por seu turno, a elite inca simplesmente desmantelava as comunidades rebeldes e força- va o seu restabelecimento em outras áreas sujeitas a controle mais eficiente. Os padrões de expansionismo e militarismo, os indícios de estratificação social, as tentativas das elites visando mobilizar e apro- priar excedentes econômicos de seus povos (e de outros, submetidos) levam-nos a crer que, no momento em que se inicia a conquista da América Central e do Sul, a tecnologia agrícola atingíra o seu limite máximo e, como ocorrera no passado, amplos aglomerados de comu- nidades achavam-se a ponto de se desintegrarem e se reunirem em novas comunidades, decorrência lógica da expansão demográfica e de uma produção agrícola inelástica. A expansão, a estratificação e a exploração deram origem a me- canismos diversos do simples emprego da força militar e capazes de sustentar a coesão interna. Muito antes da conquista espanhola, as sanções e os objetivos religiosos produziam uma certa argamassa so- cial: nas duas civilizações de regadio, o clero desempenhava uma fun- ção social básica voltada para a organização do ciclo agrícola, para a 35</p><p>doutrinação dos jovens, para o estabelecimento (através de ritos apro- priados) do ciclo vital, do nascimento à morte, para facilitar a incor- poração de novas comunidades via sincretismo religioso, emprestando significado e propósito à existência, fortalecendo os fortes e confortan- do os não privilegiados. Dos excedentes econômicos gerados pela terra possuída e trabalhada comunalmente o clero ameríndio recebia be- nefícios semelhantes àqueles alocados aos militares e à aristocracia. A crueldade com que os espanhóis buscaram extirpar a prática e os símbolos do pensamento religioso anterior à conquista sugere a di- mensão do efetivo papel desempenhado pelo estabelecimento eclesiás- tico ameríndio. o forte compromisso religioso do indígena, sua defe- rência à onisciência e à autoridade religiosa, sua submissão (teologica- mente sancionada) face à aspereza, sofrimento e frustração decorrentes da existência camponesa fundiram-se ao catolicismo que lhe foi im- posto, e esse amálgama acabou por constituir outro componente da he- rança colonial. o dado essencial para a criação da hegemonia espanhola, para a forjadura da economia colonial assentada no tripé mineração- agricultura-pecuária e, acima de tudo, para o desenvolvimento da grande propriedade fundiária, foi o tributo pago pelos ameríndios quer em espécie, quer sob a forma de trabalho. A conquista assegurou à nova aristocracia - os senhores espanhóis acesso imediato, através da encomienda*, aos estoques de alimentos e à força de trabalho orga- nizada de molde a prestar serviços especializados aos novos domina- dores, isto é, tributo, sob a forma de artigos ou artesanato e mão-de- obra para os trabalhos públicos. Muito antes das grandes descobertas efetuadas pela mineração no século XVI, os principais empresários da conquista já exigiam o pagamento de seus gastos pessoais, no tocante a equipamentos e riscos, sob a forma de tributos, mão-de-obra indíge- na e concessões reais de terras. Cortés, de forma apropriada, obteve para si e seus descendentes vastas concessões fundiárias e o direito ao tributo e ao trabalho indígenas, no que foi amplamente seguido por inúmeros membros de sua comitiva. Os espanhóis que buscaram o Novo Mundo deixaram atrás de si uma sociedade caracterizada por aristocratas rurais, uma pequena bu- rocracia, reduzidos centros urbanos e uma grande massa de campone- ses e trabalhadores rurais. Seu procedimento lógico foi a recusa à cria- ção de fazendas familiares em um mundo colonial que já dispunha de vastas extensões de terra e amplos contingentes de agricultores ameríndios, habilidosos e subservientes terras e mão-de-obra que se constituíram em presas de guerra. Passaram imediatamente a exigir o Renda vitalícia sobre uma determinada área ou sobre uma grande propriedade rural. (N.T.) 36</p><p>acesso à mão-de-obra e aos suprimentos de víveres; em síntese: passa- ram à exploração das populações indígenas, colocando-as como vassa- los da monarquia espanhola. Os indígenas aravam, semeavam e proce- diam à collheita nas terras dos novos senhores espanhóis. Inexistindo animais de carga, carregadores indígenas eram compelidos, aos mi- lhares, a transportar às costas as mercadorias entre as diversas regiões. As imediatas da conquista e ocupação das áreas mais densamente povoadas da civilização ameríndia foram desastro- sas. o somatório de doenças epidêmicas (varíola, sarampo, febre tifói- de), superexploração do trabalho e debilitação física resultante, cho- que cultural induzido pela remodelação de uma sociedade comunal em termos individualistas e orientados para o lucro, acabou por produzir, no século XVI (e no início do XVII), um dos demográficos mais desastrosos jamais registrados pela história mundial. Entre 1492 e 1550, a conquista literalmente aniquilara a população indígena cari- beana, a primeira a ser submetida e dizimada. No México central, uma população de aproximadamente 25 milhões, em 1519 (segundo cálcu- los recentes), achava-se reduzida a pouco mais de 1 milhão em 1605. Nos Andes centrais para os quais dispomos de poucos estudos de história demográfica - parecem ter-se repetido os mesmos padrões ge- rais de destruição geográfica decorrente da ocupação espanhola. Um contingente populacional calculado entre 3,5 e 6 milhões (em 1525) foi reduzido para 1,5 milhão (por volta de 1561), somente retornando ao índice de 6 milhões cerca de 1754. o choque cultural (ao longo do sé- culo XVI), a corvéia ou a mita (ao longo desse e do século seguinte), a escravidão por dívidas (no século XVIII) constituem a de fa- tores geralmente aceita como explicação para o da população A destruição demográfica na América tornou-se, sem sombra de dúvida, fator de fundamental importância na recessão da atividade mineira desenvolvida no México, e no Peru após 1596 e que per- durou, no México, por cerca de 100 anos. A produção minei- ra decaiu constantemente e suas repercussões fizeram-se sentir nas grandes propriedades fundiárias, próximas ou distantes, que se ha- viam desenvolvido em torno dos enclaves mineiros voltadas para o fornecimento de milho e trigo, favas, forragem, mulas, burros e cava- los, carne de porco e carneiro, couro cru e tecidos de baixa qualidade. Os proprietários das minas e os comerciantes transferiram seus investimentos para a terra, acelerando a formação do latifúndio. Sem o incentivo (ou estímulo) fornecido pelas minas (sua produção de pra- ta, força de trabalho e dependentes), as grandes propriedades tende- riam a se tornar relativamente auto-suficientes. Para a elite econômica e social, proprietários de minas e proprietários de estâncias, a maior 37</p><p>preocupação consistia na manutenção de um fluxo de oferta de mão-de- obra adequada e de confiança. As comunidades indígenas próximas foram pressionadas, através da apropriação de suas terras, para forne- cer essa mão-de-obra; pressões foram igualmente efetivadas atra- vés do encorajamento à residência nas propriedades, em troca de pe- quenas importâncias a título de tributos ou pequenos impostos. Uma vez estabelecidos nas propriedades, os indígenas recebiam novos adiantamentos relativos a alimentação e bebida, sacramentos de batis- mo, casamento e morte. A escravidão por dívidas passou a constituir a principal modalidade de recrutamento e manutenção da mão-de-obra. Outros vínculos, além das importâncias em dinheiro, ligavam o patriarca-proprietário rural a seus dependentes semi-servis. A fazenda passou a tornar-se um local de refúgio para aqueles ameríndios que considerassem as pressões comunitárias insuportáveis; a estes, a fazen- da oferecia uma certa forma de segurança. indígena oferecia seu tra- balho e fidelidade, recebendo em troca rações diárias, tratamento mé- dico primitivo, conforto religioso e uma posição inferior estabelecida. A fazenda em seu duplo papel de unidade produtora e núcleo social patriarcal sobreviveu, até 1910, como legado colonial no México e, até mais tarde, na Guatemala, Equador, Bolívia e Peru. As comunida- des ameríndias, igualmente, buscaram sobreviver - através da tradi- linguagem, vestimentas e consenso grupal - a essa sociedade e economia expansionistas, capitalistas, monetarizadas, características das pressões exercidas pelo mundo do homem branco sobre a terra e a mão-de-obra indígenas - um padrão igualmente familiar aos estudio- das reservas indígenas nos Estados Unidos. 4 "Os escravos constituem as mãos e os pés do usineiro; sem eles, no Brasil, é impossível fundar, manter e ampliar uma plantação ou, sequer, operar uma usina." o Brasil é o inferno para os negros, purgatório para os brancos e o paraíso para os mulatos e as mulatas." João Antônio Andreoni, Cultura e opulên- cia do Brasil, 1708 A grande propriedade rural orientada para a exportação o se- gundo elemento da herança colonial latino-americana floresceu no império colonial espanhol somente a partir do século XVIII, atingindo áreas periféricas como Cuba, Venezuela e a bacia do Rio da Prata. À América portuguesa deve-se a criação, no século XVII, do protótipo da agricultura de exportação no novo continente. o engenho de açú- car brasileiro representou uma forma de atividade econômica indepen- 38</p><p>dente da mineração (razão de ser das fazendas mexicanas e peruanas) e forjou um padrão de organização econômica e social, um complexo agro-social posteriormente reproduzido e adaptado na área do Caribe (fins do século XVII) e nas colônias sulistas do império inglês na Amé- rica do Norte (no século XVIII). A grande plantação foi, portanto, a segunda variante da grande propriedade rural na América. Historiadores, antropólogos sociais e economistas têm buscado definições operacionais para a fazenda e a plantação, reconhecendo, não obstante, a superposição dessas duas unidades. De acordo com essas investigações, a fazenda se constituiria na grande propriedade voltada para o cultivo de cereais ou para a criação de gado, produtos consumidos pelos enclaves mineiros ou pelos grandes centros urbanos (como, por exemplo, a cidade do México ou Lima); por seu turno, a mão-de-obra indígena dependente, relativamente imóvel e compelida a uma forma especial de assalaria- mento (a escravidão por dívida), constituiria a força de trabalho em- pregada em tais unidades produtoras. Em seu sentido original, a palavra plantação dizia respeito à transferência e estabelecimento de europeus em áreas ultramarinas. Ao findar-se o século XVII, a plantação se havia metamorfoseado em uma forma de propriedade, em zonas tropicais ou subtropicais, di- mensionada para a especialização em um tipo de colheita e utilizando força de trabalho dependente e imóvel constituída por escravos africa- nos. Ao contrário da fazenda, a plantação era uma unidade produtora dimensionada para a produção de matéria-prima para consumo externo, isto é, europeu. Produto da tecnologia européia aplicada por técnicos europeus em benefício de empresários europeus, a plantação era geral- mente financiada por capitalistas europeus encarregados também da produção, transporte e seguro, processamento final, distribuição e fa- cilidades de mercado. De forma semelhante à mineração, a plantação era uma empresa do Novo Mundo alimentada por estímulos inteira- mente europeus. Do Brasil à Virgínia, a plantação americana logo pa- tenteou as características que ainda hoje a distinguem: especialização em uma cultura, utilização de renda (obtida a partir das exportações) para a importação de bens e serviços tornados proibitivamen- te caros para serem fornecidos localmente (gêneros alimentícios, pro- dutos metalúrgicos e, destacadamente, artigos de luxo). A plantação constitui-se, destarte, em excelente exemplo da especialização econô- mica. Protótipo plenamente desenvolvido da agricultura de plantação em solo americano, o engenho brasileiro do século XVII transformou- se no instrumento que permitiu a Portugal a efetiva ocupação e coloni- zação do território colonial. Constituiu-se, provavelmente, no legado colonial mais significativo de toda a área. o engenho seguramente 39</p><p>emergiu de uma série de experiências no tocante às técnicas de cultivo e processamento do açúcar oriundas do Mediterrâneo para as ilhas atlânticas (Açores, Madeira, Cabo Verde e Canárias) e, mais tarde, para a orla marítima brasileira compreendida entre Santos e Recife. As plantações de açúcar haviam surgido na ilha de Hispaniola, no Ca- ribe, antes de 1530, não logrando, contudo, exportar em larga esca- la para o mercado europeu. Devemos lembrar, a propósito, que já em 1498 o açúcar português cultivado na ilha da Madeira achava-se armazenado para venda em Antuérpia. Em solo brasileiro, os empresários portugueses e seus associados holandeses encontraram condições favoráveis: uma faixa litorânea de excelentes terras negras de fácil trato, adequada precipitação pluvio- métrica (que dispensava os trabalhos de irrigação tornados necessários pelas características de clima e solo apresentadas pelas ilhas atlânticas) e reduzidos custos de transporte entre as plantações e os centros de embarque (localizados em Recife e na Bahia). Carecia-se, entretanto, de um importante fator de produção: mão-de-obra abundante, dócil e sedentária. Gradativamente, os empresários portugueses ampliaram as operações de escravização contra os agrupamentos indígenas nôma- des estabelecidos ao longo da costa. Para protegê-los, os cons- truíram comunidades separadas que, a despeito de suas intenções, na prática apenas para permitir a sua incorporação ao sistema em expansão, inicialmente como fornecedores de alimentos, fi- nalmente como escravos. Os índios brasileiros, acaba- ram por se mostrar ineficientes como a força de trabalho necessitada pela atividade agrícola sedentária das o que levou os por- tugueses à mobilização de mão-de-obra obtida na África ocidental. Ao longo do século XVI, 50 mil escravos foram embarcados para o Brasil, cifra ampliada, 100 anos mais tarde, para 500 mil - o que levou à afir- mação de que, "sem escravos, não há não existe Brasil". número de engenhos, 60 em 1570, conheceu intensa expansão, passan- do para 346 (em 1629) e para 528 (por volta de 1710). Estes números englobam engenhos de grande, médio e pequeno portes. A atividade da agricultura de plantação brasileira, caracterizada pela monocultura, trabalho escravo e produção voltada para a expor- tação, deve ser entendida a partir de suas vinculações aos centros euro- peus ocidentais. engenho de em realidade, era apenas mais um outro subsetor da economia européia (em especial, da holandesa). Aos portugueses incumbia o papel de meros intermediários encarrega- dos da reexportação do açúcar brasileiro, transporta- do por navios holandeses, processado em refinarias holandesas e co- mercializado nas regiões norte, centro e leste da Europa por negocian- tes holandeses. próprio tráfico negreiro português utilizava artigos holandeses. A Holanda conquista e ocupa parte da costa açucareira brasileira na área em torno de Recife, mantendo-a sob seu domínio no 40</p><p>período compreendido entre 1630 e 1654 como empresa vinculada à Companhia das Índias Ocidentais. Expulsos pelos plantadores brasi- leiros (que, para tal fim, mobilizam seus próprios recursos), os holan- deses retrocederam para o Caribe, transplantando a tecnologia e a ex- periência açucareiras primeiro para Surinam e Curaçau, posterior- mente para as demais ilhas da área. Nessa região, ao longo da segunda metade do século XVII, holandeses, ingleses e franceses reproduziram os padrões e as técnicas das plantações açucareiras brasileiras. A divi- são do Caribe e o estabelecimento da agricultura de plantação contri- buíram para a formação da herança colonial na área. Ao iniciar-se o século XVIII, a economia açucareira do Brasil achava-se em crise, na medida em que os consumidores europeus voltavam-se para o produto caribeano, mais barato. processo de formação das propriedades e do recrutamento da mão-de-obra nas fazendas e plantações do Novo Mundo entre 1500 e 1700 não deve ser encarado a partir de uma perspectiva mi- croeconômica. Os especialistas nesta área tendem a enfatizar os deta- lhes do processo do crescimento e síntese pós-conquista realçando os elementos aparentemente autóctones do processo: a fusão de elemen- tos ibéricos, ameríndios e africanos. Necessitamos, em verdade, de uma abordagem macroeconômica que enfoque esse processo a partir da perspectiva da herança colonial. Não se pode omitir o fato essencial de que, no período que vai de 1500 a 1700, os impérios ibero- americanos funcionaram como segmento periférico da economia euro- péia ocidental em expansão. Nessa função, podem ser comparados a outra área periférica, a Europa central e oriental, igualmente respon- sável pelo fornecimento, às áreas centrais, de cereais, madeiras, gado, peles e minérios (ao passo que a América fornecia ouro, prata, açúcar, tabaco, couro cru e madeira para tinturaria). As mudanças de domina- ção econômica entre holandeses, ingleses e franceses não modificaram essa relação essencial com as áreas periféricas. Nelas o fator de produ- ção escasso era o trabalho, transferindo, à força, da economia de sub- sistência para a economia de exportação ou "aberta". Paradoxalmente, enquanto o desenvolvimento econômico da Eu- ropa ocidental gerou a diferenciação social, mobilidade e maior liber- dade pessoal para os camponeses e para os assalariados urbanos e ru- rais, nas áreas periféricas submetidas a essas economias centrais a mão-de-obra tornou-se cada vez menos livre. Na Europa central e oriental, tornou-se uma "segunda servidão"; na América, conheceu diversas formas, encomienda, repartimiento, mita, escravidão por dívi- das e o tráfico de escravos. negro foi transplantado de uma econo- mia africana de subsistência para uma área periférica de agricultura de exportação. A perda da liberdade pessoal tornara-se, por volta de 1700, parte da herança colonial e parte da contribuição da África e da 41</p><p>América Latina para o desenvolvimento da liberdade na Europa oci- dental. 5 "As frotas para a Nova Espanha devem partir a cada dois anos; se o fizessem anualmente, aquele reino não poderia absorvê-las disto temos tido desastrosas em prejuízo de ambos os comércios. E, já que existe esse intervalo, aqueles que vivem em Nova Espanha dispõem de tempo para fazer seus acordos e vendas no mercado inter- no e receber o valor correspondente à época em que a ou- tra frota chegar... E esse volume deve estar de acordo com as ordens de Sua Majestade, à maneira das vezes anterio- res." Consulta del Consejo de Índias, 1713 "Esta forma de comerciar com as Indias... por atacado... não é desvantajosa para a aristocracia, já que não apenas os cavaleiros mas também a nobreza de Castela negociam nas e deve-se muito lamentar que, na ausência de nossos honrados e corajosos comerciantes, a maior parte do comércio haja caído em mãos dos estrangeiros, que en- riquecem, ao passo que enobrecemos com o que despreza- mos." Joseph de Veitia Linage, The Spanish Rule of Trade... Made English by Capt. John Stevens, 1702 (baseado na edição espa- nhola, 1672) "Sem as Indias ou seu comércio, a Espanha teria perdido sua grandeza, porque não haveria prata para Sua Majes- tade, para os ministros, para os indivíduos, para os possui- dores de encomiendas e heranças, já que tudo provém das Se as perdêssemos, perder-se-ia a renda destes reinos e Sua Majestade deveria procurar uma solução..." Marquês de Varinas, Mano de relox que pronostica la ruina de la América, 1687 o principal problema colonial espanhol dizia respeito à maximi- zação do controle da prata e do ouro exportados para a metrópole, em realidade a base da economia e sociedade espanholas e o principal su- porte da posição espanhola na Europa. De importância ainda maior para nossa análise da herança colonial foi o efeito exercido pela preo- cupação com a mineração sobre a estrutura e o crescimento do sistema comercial colonial. 42</p><p>Do ponto de vista da Espanha imperial, a economia metropolita- na da Espanha subdesenvolvida dependia inteiramente do controle sobre os fluxos de metais, em espécie ou em lingotes. Estes proporcio- navam a liquidez financeira num estágio da vida espanhola em que o empréstimo público era difícil e caro e em que as políticas fiscais não poderiam ser alteradas com presteza. Além disso, deve-se acrescentar que as finanças do Estado, o estabelecimento militar e burocrático, a nobreza (dedicada à extração de pensões a partir de fundos estatais, de propriedades ou investimentos coloniais, monopólios e outros privilé- gios), o estabelecimento religioso (ativo na obtenção de renda a partir de impostos coloniais, propriedades e operações de empréstimo), os comerciantes de Sevilha e seus credores e fornecedores estrangeiros, os comerciantes aposentados, proprietários de minas e burocratas (de- pendentes do recebimento de renda sobre os investimentos coloniais) - todos dependiam das frotas provenientes das sobrecarregadas fundamentalmente com metais, em espécie ou lingotes, registradas ou ilícitas. Nos anos que se seguiram a 1650, uma percentagem significa- tiva de prata, contrabandeada ou perdida para a pirataria, deixou de chegar à Espanha; do montante carreado para o país, parte substan- cial jamais penetrou na economia espanhola. Baldeada no porto de Se- vilha, serviu para corrigir o balanço comercial com os comerciantes franceses, holandeses, ingleses e italianos, responsáveis pelo forneci- mento de aproximadamente 90% das importações coloniais e de boa parte dos artigos utilizados no consumo peninsular. Este foi um dos preços pagos pela Espanha em decorrência de seu fracasso na criação de uma burguesia comercial interna e no desenvolvimento da produ- ção nacional de ferragens, aço, pregos, têxteis e papel. Economicamente atrasada em 1550 (processo ampliado no curso dos anos seguintes), a Espanha metropolitana retornou a um sistema comercial característico da etapa final da era medieval, uma espécie de mercantilismo concentrado no porto de Sevilha (em Cadiz, após 1717) e voltado para os lucros obtidos a partir de suas possessões colo- niais. Levando-se em conta, por outro lado, que este sistema tem sido descrito, e não explicado, será útil examiná-lo em perspectiva antes de passarmos à análise de sua estrutura. A grande maioria das nações européias, em um determinado momento de sua história, tentou maximizar o capital e a atividade comercial concentrando-os em uma área, em um porto principal. A dificuldade, para o observador de nossos dias, consiste em compreender como o sistema co- mercial imperial espanhol conseguiu sobreviver ao longo de 300 anos sofrendo apenas pequenos reajustes. Esse observador contempla, per- plexo, a elasticidade de um sistema comercial imperial habilitado a fornecer aos seus manipuladores reduzido feedback sob a forma de ganhos comerciais: em outras palavras, reduzida acumulação de capi- tal e (praticamente) nenhum efeito multiplicador sobre as estruturas metropolitanas industriais, agrícolas ou bancárias. 43</p><p>A manutenção do sistema foi função do controle exercido sobre a atividade mineradora de recursos naturais aparentemente inesgotá- veis (ouro e prata) e do monopólio de distribuição desses mesmos me- tais. o monopólio beneficiou, nominalmente, os espanhóis na Améri- ca e na Europa. Correndo o risco de uma excessiva simplificação, po- deríamos afirmar que a estrutura e funcionamento do comércio impe- rial espanhol representou a maximização das limitadas possibilidades abertas a uma economia metropolitana atrasada. Esse atraso econô- mico gerou a formulação e aplicação de novos mecanismos de contro- le; de forma semelhante, o colapso do sistema comercial internacional levaria, após a crise iniciada em 1929, à propagação do controle nacio- nal sobre o comércio estrangeiro na América Latina e em outras partes do mundo. o estabelecimento de estruturas formais de supervisão a Câmara de Comércio Casa de Contratación), a guilda de comerciantes em Sevilha (Consulado) e os comboios de flotas e galeones indica que o governo percebia a vulnerabilidade desse sistema à penetração es- trangeira e desejava controlar os fluxos de entrada dos metais (em es- pécie e em lingotes), através da arrecadação de "taxas de trânsito" in- cidentes sobre as reexportações de prata e ouro. Considerando-se que os manufaturados espanhóis constituíam percentagem reduzida do vo- lume total de exportações para as colônias, a canalização do comércio através de um único porto objetivava assegurar e facilitar a arrecada- ção de impostos alfandegários. o Estado auferia ganhos fiscais, ao passo que os comerciantes devidamente registrados aufe- riam sua renda como expedidores (e não como proprietários) de car- gueiros e, ocasionalmente, também como embarcadores. Junto ao porto de Sevilha, a guilda comercial e a Câmara de Co- mércio constituíam o principal mecanismo de controle. A guilda, do- minada por uma minoria de ricos comerciantes, supervisionava a en- trada de novos membros, com o que sancionava o seu oligopólio cor- porativo (na medida em que rejeitava a inclusão de e até mesmo de não-castelhanos). Comerciantes estrangeiros, embora residentes e oficialmente reconhecidos por seus organismos corporati- vos com direitos extraterritoriais, poderiam, em teoria, participar ape- nas de forma indireta no comércio colonial sob a forma de fornecedo- res; na prática, a exclusão formal funcionava de molde tão ineficaz como ocorre, em nossos dias, com os acordos vigentes na maioria das repúblicas latino-americanas que buscam impedir a dominação exter- na ao mesmo tempo que preservam a participação estrangeira nas ati- vidades empresariais. Os oligopolistas de Sevilha constituíam, no má- ximo, um grupo de intermediários encarregados da arrecadação de ta- xas de comissão. A Câmara de Comércio, nomeada pelo governo e cu- jos burocratas cultivavam laços estreitos com os comerciantes residen- tes espanhóis e -, objetivava a aplicação de mecanis- mos de controle através do registro de mercadorias, pessoas, emigran- tes, imigrantes e navios e embarcadores que se moviam das (e para as) 44</p><p>colônias em frotas ou comboios. Tal era o controle exercido pelo Esta- do através da arrecadação, pela guilda de Sevilha, da taxa (avería) apli- cada aos custos de aparelhamento e manutenção dos comboios arma- dos de escolta. Esse padrão de centralização comercial foi estendido à América, visando facilitar a coleta de impostos e taxas. Os portos de Cartagena, Portobello e Veracruz mantinham contato oficial com a metrópole via Sevilha. Através desses portos como das feitorias medievais ou dos postos comerciais estabelecidos ao longo da costa mediterrânea pelas cidades italianas - canalizava-se o comércio oriundo do interior do México e da região ocidental da América do Sul. Nos pontos de co- mércio localizados na América aplicava-se um mecanismo de fixação de preços baseado em uma suboferta intencional, ajustando-se o nível de preços à disponibilidade do poder de compra representado pela dis- ponibilidade de prata e ouro em mãos dos intermediários coloniais reunidos à espera da chegada dos comboios. Devemos assinalar que os historiadores têm-se (incorretamente) fascinado pelos aspectos formais de um sistema comercial estruturado e dominado pelo Estado e centralizado na região sul da Espanha com tentáculos administrativos movendo-se em direção aos postos de controle no Caribe e alastrando-se daí para os centros da produção colonial voltada para a exportação. Esse sistema comercial colonial foi, por um lado, produto da escala absoluta da geografia do Novo Mundo, dimensão populacional e localização de recursos e, por outro, do nível do desenvolvimento econômico espanhol. o comércio com a América não foi semelhante desenvolvido com os Países Baixos ou a Inglaterra na metade do século XVI; em verdade, não foi possível obter a exportação de artigos de consumo para as colônias pelo simples envio de comerciantes para os portos americanos. Os re- cursos minerais do novo continente achavam-se localizados em seu in- terior, cercados por uma população nativa despreparada para a sua exploração e desinteressada na troca comercial com os senhores espa- nhóis. A limitação da exploração das colônias americanas a um tipo de organização de aventureiros comerciantes ingleses teria sobrecarre- gado de impostos o capital e os recursos técnicos dos empresários es- panhóis e, de forma semelhante, o capital e os recursos dos comercian- tes de qualquer outro país da Europa ocidental contemporânea. Além disso, por volta de 1550 a Espanha fora forçada a defender sua mari- nha mercante, nas águas atlânticas, contra a pirataria inglesa e france- sa. Em síntese, a exploração da América exigia uma organização po- lítica que ultrapassava em muito os recursos de uma companhia comercial. A interação desses fatores gerou uma divisão de papéis entre o Es- tado castelhano e os empresários espanhóis. Ao Estado competia a responsabilidade (e parte do lucro, em contrapartida) pela criação e 45</p><p>manutenção da superestrutura política econômica nas colônias; aos comerciantes incumbia, através da permuta de artigos de consumo por prata, efetuada em locais-chave, o controle efetivo dos fluxos comer- ciais e das correspondentes taxas de comissão. A coroa ocasionalmen- te concedia à guilda comercial, grande credora, a fun- ção governamental de arrecadação de impostos e de tomada de deci- sões em matérias pertinentes aos seus interesses, de forma semelhante ao papel desempenhado pelo corregidor colonial ou pelo alcalde mayor, que harmonizavam os interesses privados e a administração pública (sempre com a sanção estatal). Não é de surpreender, pois, que os consulados no comércio colo- nial em Sevilha, cidade do México e Lima - grupos interligados por in- teresses, origens regionais, parentesco e aliança oferecessem contí- nua resistência à modernização do sistema comercial espanhol. Essa resistência se concretizava face a inovações como a companhia por so- ciedade anônima, incompatível com as condições comerciais vigentes em Sevilha (isto é, restrição à entrada de novos membros, controle sobre a suboferta de um mercado cativo, segredo no tocante às opera- ções). Adam Smith, posteriormente, viria a comparar a comunidade mercantil de Cadiz a uma companhia privilegiada mas, em verdade, o monopólio do comércio colonial desfrutado por aquele porto (mani- pulando bens de consumo não espanhóis em um mercado cativo) difi- cilmente poderia ser comparado aos aventureiros comerciais, apesar de algumas semelhanças superficiais. Essas companhias comerciais privilegiadas surgiram no cenário econômico espanhol somente no sé- culo XVIII e, mesmo assim, especialmente para servir áreas que apresentavam desenvolvimento agrícola (e não mineiro). Sua exis- tência, contudo (e ressalvadas algumas e duvidosas exceções), foi bre- ve, o que se explica, por um lado, por seus próprios defeitos e, por ou- tro, pela ativa oposição levada a cabo pelas guildas comerciais. Três considerações nos serão úteis na explicação da sobrevivência da estrutura comercial colonial (sem apreciáveis alterações) até o oca- do controle espanhol sobre a América. Em primeiro lugar, o siste- ma era sensível à manipulação externa: residentes em Sevilha dominavam o comércio colonial antecipando a oferta de bens e/ou crédito e empregando comerciantes nacionais interessados em as- sociar seus nomes à mercadoria em realidade pertencente aos estran- geiros e despachada para as colônias em navios tam- bém estrangeiros. Essa manipulação tomava a forma de suborno e cobria todas as etapas do contrabando, em cada uma delas subor- nando-se marinheiros, estivadores, oficiais da alfândega, buro- cratas madrilenhos e ministros. Pode-se afirmar que as exceções a essa prática largamente difundida foram bastante reduzidas. Em segundo lugar, a longevidade do sistema foi o resultado de sua flexibilidade, já que, na prática, permitia maior grau de participa- 46</p><p>ção na empresa colonial do que aquele sugerido por sua estrutura fe- chada. Essa participação tomou a forma de uma simbiose entre o Es- tado e a iniciativa privada./Os comerciantes financiavam os funcioná- rios públicos que buscavam cargos coloniais e obtinham empréstimos para os burocratas que se encaminhavam para a América; esse proce- dimento baseava-se na premissa de que ditos funcionários públicos cooperariam, mais tarde, na venda ilegal de bens de consumo na colô- nia. Em todos os níveis da burocracia colonial, os comerciantes colo- cavam indivíduos que faziam vista grossa ao contrabando, de funcio- nários alfandegários a vice-reis, passando por oficiais navais encarre- gados do controle sobre os comboios. Até 1700, o limitado alcance da empresa colonial lucrativa as minas e atividades a elas vinculadas encaminhavam os espanhóis para o comércio, o setor de oportunidade na economia colonial. Por fim, embora os lucros carreados pelo comércio colonial para os membros da guilda espanhola de Sevilha fossem reduzidos (espe- cialmente se confrontados com aqueles auferidos pelos ingleses, holan- deses, franceses ou italianos estes últimos fornecedores habituais de bens e créditos), os participantes dessa atividade comercial achavam- se satisfeitos, ainda mais que inexistiam outras oportunidades alterna- tivas. A taxa de lucro obtida pelos espanhóis e seus associados em Se- vilha um pequeno e privilegiado grupo composto em sua maioria de comerciantes estrangeiros no comércio colonial permitia, não obs- tante, um elevado nível de renda e consumo, superior a qualquer outro produzido por qualquer outra atividade levada a efeito na Espanha. governo espanhol concedia privilégios e isenções a esse grupo empresarial em sua guilda; tais concessões prendiam-se ao fato de que esse grupo de comerciantes (e seus associados estrangeiros) ofereciam, em contrapartida, fundos que um governo ineficiente e desprovido de recursos achava-se incapacitado a extrair pela taxação incidente sobre as rendas de uma aristocracia e de um estabelecimento eclesiástico pri- vilegiados. Os fluxos de prata americana tornaram o governo espanhol independente de quaisquer vínculos com grupos representativos que, se recebessem novos empréstimos ou concessões tributárias, poderiam exigir participação no processo legislativo. A prata americana não só distorceu a economia espanhola como também emasculou as cortes*. Tem-se afirmado com que um sistema colonial corpo- rifica, de forma exagerada, as virtudes e os vícios do poder metropoli- tano. Os espanhóis transplantaram para suas colônias, em ampla esca- la, os defeitos estruturais da economia metropolitana. Um reduzido Junta geral que nos antigos reinos de Castela, Aragão, Catalunha e Navar- ra se celebrava para intervir nos negócios gerais do Estado. (N.T.) 47</p><p>núcleo de portos coloniais manipulava as importações e exportações legais. Nesses portos ou nos principais pontos de distribuição situados no interior, um pequeno número de comerciantes, usualmente vincula- dos por laços de parentesco àqueles estabelecidos em Sevilha ou Ca- diz, concentrava sua atividade na distribuição de um limitado volume de importações a preços brutos inflacionados em troca da prata pro- positalmente subvalorizada na América. Em pleno século XVIII esses comerciantes eram pouco estimulados a manipular grandes volumes de exportações coloniais, a não ser que a estrutura da demanda euro- péia e o nível de preços no velho continente lograssem tornar tais es- forços lucrativos. Na América, os comerciantes associados aos proprietários de minas e aos burocratas, não eram incentivados a diversificar a estrutura das exportações via estímulo à produção agrí- cola ou à criação de indústrias locais. Essa diversificação era tolerada, mas não incentivada. Não foram capazes, ademais, de desenvolver uma indústria pesqueira ou uma produção especializada para fins de comércio intercolonial. Tais potencialidades jamais foram das, quanto mais exploradas. À medida que o século XVII chegava ao seu final, a exploração do mundo colonial começava a apresentar dificuldades cada vez maio- res. A permanência da demanda colonial dentro de limites previsíveis, a decisão dos fornecedores europeus em se contentar com a explora- ção das colônias americanas via Espanha, a contenção das atividades de contrabando direto das ilhas do Caribe dentro de limites não exces- sivos tudo isso conferiu ao sistema colonial espanhol (voltado para a permuta da produção máxima das minas por artigos de luxo e para o desencorajamento das exportações de produtos agropecuários) ra- zoáveis possibilidades de sobrevivência. A revolução comercial e in- dustrial do século XVIII e a crescente agressividade dos interesses co- merciais ingleses e franceses não demorariam, contudo, a colocar para a Espanha uma questão candente: a transformação ou a destruição de seu sistema colonial. 48</p><p>capítulo III Sociedade e Estado 1 "Na Espanha, o fato de não se possuir ascendentes judeus ou árabes constitui uma espécie de título de nobreza; na América, a cor da pele (mais ou menos branca) indica a posição social do indivíduo." A. von Humboldt. Essai politique sur le royaume de la Nouvelle Espagne, 1807 "A condição [dos na América] de conquistado- res de uma terra conquistada torna-os os primeiros habi- tantes, os preferidos e os privilegiados de toda a América; e um infortúnio para nós, para a península e para os índios, aquele dia em que perdemos nosso predomínio, fonte e proteção única de obediência e subordinação." "O indígena desprezível... época da conquista]um animal imundo, chafurdando em meio à mais desavergo- nhada sensualidade, interminável embriaguez e indiferente sujeira... um demente saboreando carne humana... Nem através da história antiga ou da tradição havíamos tomado conhecimento de um povo tão degenerado, des- prezível e infeliz... o indígena... dotado de preguiça e lan- guidez... estúpido por natureza... ébrio por instinto... Eis o verdadeiro retrato do indígena de nossos dias..." "[As] castas cujas mãos preguiçosas são empregadas nos trabalhos forçados, serviço doméstico, comércio, artefatos e exército apresentam as mesmas condições, o mesmo ca- ráter, o mesmo temperamento e a mesma negligência do Ébrios, incontinentes, preguiçosos desprovidos de honra, gratidão ou fidelidade..." "[Os] brancos que se designam a si mesmos como espa- nhóis americanos demonstram sua superioridade sobre indígenas... por sua riqueza herdada, suas carreiras, 49</p><p>seu amor ao luxo, suas maneiras e o refinamento de seus vícios. Dos comerciantes do Consulado do México às Cortes, 1811 A herança social da América Latina colonial não foi simplesmen- te a rígida estrutura de uma elite caracterizada pela riqueza, posição social e poder, no vértice, e pela imensa massa de seres humanos empobre- cidos, marginalizados, despossuídos de poder e submissos, localizados na base da pirâmide. Esse tipo de sociedade pode ser encontrado em outros momentos e em outros sítios da história. A tragédia da herança colonial consistiu no reforçamento dessa estrutura social estratificada pela cor e fisiognomia o que os antropólogos designam como fenó- tipo -: uma elite de brancos ou quase-brancos e uma vasta massa de homens de cor, indígenas e negros mestiços e mulatos, e uma gama re- sultante da mistura de brancos, indígenas e negros, isto é, as castas. Como a América do Norte viria a perceber mais tarde, uma sociedade pode perpetuar as desigualdades sociais de forma muito mais efetiva quando a má distribuição da renda apóia-se nos fenótipos. Uma comparação superficial entre as sociedades ibéricas e ibero- americanas por volta de 1700 sugere que os ibéricos haviam logrado reproduzir no México, no altiplano andino e ao longo das costas brasi- leiras, uma réplica (ou pelo menos um simulacro) de suas próprias sociedades: uma estrutura caracterizada pela presença de duas classes, ou dois estratos (uma elite de proprietários fundiários e de minas, altos burocratas e eclesiásticos, de um lado; uma ampla massa de habitantes rurais reunidos em comunidades ameríndias, fazendas ou plantações tropicais, de outro), permeadas por um reduzido grupo de comercian- tes, pequenos burocratas e eclesiásticos de menor expressão. Em ou- tras palavras: pela constituição, no novo e no velho continentes, de uma estrutura social característica de uma economia agrária, pré- industrial ou subdesenvolvida. Se, na Península Ibérica, a renda, o sta- tus e o poder posicionavam os indivíduos em um ou outro estratos, nas colônias o fator cor juntava-se àqueles itens anteriormente menciona- dos na determinação dessa posição social. Nas duas sociedades a função do fenótipo e, a ele associados, a "pureza de sangue" e a religião pode ser considerada como conse- das experiências de colonização interna e externa, no novo e no velho mundos. A Reconquista Cristã, em seu movimento em dire- ção ao sul da península, gerara a subordinação e eventual expulsão de diferentes grupos étnicos, mouros e judeus. Durante essa prolongada expansão dois fatores haviam assumido importância duradoura: a aná- lise racional de um mandato religioso e as recompensas materiais para os responsáveis pelo sucesso militar. Na estruturação subseqüente do Estado e sociedade peninsulares o critério de pureza de sangue a au- 50</p><p>sência de ascendentes judeus, mouros ou negros - passou a ser associa- do à religião como pré-requisito para a entrada na elite política e so- cial. A adoção desses critérios assegurou não apenas a supremacia da cristandade mas, igualmente, a perpetuação das famílias da Cantábria que haviam servido de ponta de lança durante a Reconquista e que se haviam beneficiado especialmente pela expropriação das propriedades advento da Inquisição, a expulsão dos judeus (mais tar- de seguida pela fuga de judeus convertidos, cristãos-novos, que se con- sideravam inseguros na península) e, por fim, a expulsão dos árabes convertidos (moriscos) acabaram por imprimir à população ibérica uma aparência de homogeneidade. A conquista do Novo Mundo ampliou as características obser- vadas ao longo da Reconquista. As transformações posteriores, ocor- ridas tanto na península como nas colônias, reforçaram os critérios de "pureza de sangue" e de "raça" exigidos para entrada na elite. Se o início da conquista tornou os ameríndios vassalos, o paganismo converteu-os em tutelados e sua "inferioridade" ou relutância na acei- tação do cristianismo e da tutela metamorfoseou-os em "povos des- providos de razão". Se a miscigenação de espanhóis com as mulheres das elites ameríndias forneceu aliados e colaboradores mesti- não é menos verdade que o crescente número de espanhóis nasci- dos na América (criollos) e de mestiços logo veio a ser considerado pe- los espanhóis como ameaça potencial ao seu domínio. Mais tarde, em pleno século XVII, no momento em que a contração econômica nas colônias e na metrópole aumentou a competição pelo acesso à riqueza, posição social e segurança, esses critérios de pureza de sangue e de fe- nótipo foram reforçados de ambos os lados do Atlântico. A chegada do negro escravo daí em diante considerado como bem móvel - adicionou um novo fator étnico. Seu fenótipo e inferiori- dade, legalmente sancionados, ajustaram-no de imediato à sociedade de castas: o aparecimento de escravos emancipados e de mulatos e sua correspondente mobilidade social tornavam-se ameaçadores para a elite, razão pela qual levanta-se incontinenti barreiras formais e infor- mais a esses indivíduos. Essas barreiras, erigidas com o fito de impedir a mobilidade social de todos os tornavam-se mais seve- ras e duradouras para o caso de escravos libertos e de mulatos. Ao iniciar-se o século XVIII, a sociedade colonial achava-se longe de qualquer homogeneidade. Tratava-se, em realidade, de um mosaico cultural caracterizado pela concentração da renda, poder e posição so- cial unicamente em mãos daqueles considerados brancos ou caucasóides. 2 "O indígena como indígena puro e o espanhol como espa- nhol puro, cada um em sua respectiva classe: eis aqui algo 51</p>

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