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<p>NOÇÕES GERAIS</p><p>O estudo das provas pode ser dividido em duas partes: uma primeira, chamada teoria</p><p>geral da prova; e uma segunda, composta pelo estudo das provas em espécie. No</p><p>primeiro momento, será abordada apenas a teoria geral da prova e suas regras</p><p>fundamentais, passando, em seguida, às provas em espécie e ao estudo das principais</p><p>questões suscitadas em sede doutrinária e jurisprudencial.</p><p>A prova, em sua origem, está ligada à busca da verdade substancial, colocando o juiz em</p><p>condições de se pronunciar diretamente sobre a demanda, por meio da reconstrução dos</p><p>fatos exatamente da forma como ocorreram.</p><p>Atualmente, também se reconhece que é imprescindível a reconstrução dos fatos a fim</p><p>de que a hipótese prevista na norma seja adequadamente aplicada, e isso depende da</p><p>maior ou menor aproximação dessa hipótese com a realidade.</p><p>Contudo, a verdade no processo não constitui mais um fim em si mesmo, sendo a noção</p><p>de verdade, hoje, algo meramente utópico e ideal, enquanto absoluto. Não se afirma</p><p>mais que o encontrado corresponde efetivamente à verdade. O processo se torna palco</p><p>de discussões e o objetivo é o convencimento dos demais sujeitos processuais sobre o</p><p>fato alegado.</p><p>O juiz não pode eternizar a busca pela verdade, devendo se contentar com a verdade</p><p>processual, ou seja, aquela que, de acordo com o que consta no processo, aparenta ser a</p><p>verdade.</p><p>Dessa forma, “o processo se contenta com a verdade que migra para os autos, ou seja, a</p><p>verdade do Judiciário, aquela que importa para a decisão”134.</p><p>A prova pode ser definida como o conjunto de atividades de demonstração e valoração</p><p>mediante as quais se procura comprovar a veracidade de determinados fatos relevantes</p><p>para o julgamento da causa135.</p><p>Luiz Fux, sem pretensão de esgotar o conteúdo do conceito, afirma que “a prova é o meio</p><p>através do qual as partes demonstram, em juízo, a existência dos fatos necessários à</p><p>definição do direito em conflito. Provar significa formar a convicção do juiz sobre a</p><p>existência ou inexistência dos fatos relevantes para a causa”136.</p><p>Mais do que isso, a prova é, ainda, um direito fundamental (art. 5º, LIV e LVI, da CF/88),</p><p>sendo uma faceta do próprio “direito de agir em juízo”, que não se exaure no direito</p><p>subjetivo de obter um provimento jurisdicional qualquer, mas também em um</p><p>procedimento probatório adequado, que garanta o contraditório e a ampla defesa.</p><p>O direito à prova não é absoluto, devendo o juiz admitir apenas meios de provas</p><p>pertinentes, relevantes e admissíveis, além de úteis para a decisão da causa137.</p><p>Deve-se, porém, ter cautela quanto à eventual limitação, vedação ou restrição às fontes e</p><p>meios de prova disponibilizados para que a restrição não se revele abusiva, uma vez que</p><p>seria verdadeira negativa da jurisdição impedir o interessado de se valer dos</p><p>instrumentos de prova a ele garantidos. Com isso, tem-se que a prova, muito mais do que</p><p>um instrumento para demonstrar as alegações feitas, é um direito fundamental.</p><p>Destacamos, aqui, o art. 379 do CPC, que traz deveres de cooperação da parte na</p><p>produção de provas, ressalvando expressamente o consagrado direito de não produzir</p><p>prova contra si mesma.</p><p>Já o art. 378 traz o dever de colaboração das partes com o Judiciário, “para o</p><p>descobrimento da verdade”, sempre tendo-se em conta a boa-fé (art. 5º), a cooperação</p><p>voltada para a justiça e a efetividade da decisão (art. 6º), o contraditório (art. 7º) e os fins</p><p>sociais do art. 8º138. Contudo, há limites, como na hipótese de que a colaboração possa</p><p>gerar um prejuízo concreto em outro procedimento que tramite na justiça criminal139.</p><p>Assim, além de direitos, as partes também têm deveres impostos pela lei. Outro exemplo</p><p>disso é o art. 380, que dispõe acerca dos deveres de terceiros quanto à produção de</p><p>provas, sob pena de sanções em caso de descumprimento.</p><p>8.2OBJETO E INCIDÊNCIA</p><p>O objeto da prova é o conjunto de alegações controvertidas das partes, sendo relevante</p><p>para o julgamento da causa. A prova incide sobre fatos, ou seja, o objeto da prova são os</p><p>fatos litigiosos.</p><p>Contudo, tal concepção esbarra na constatação sobre a ocorrência ou não dos fatos em</p><p>si. Para essa corrente, as provas têm como objetivo influir na convicção do juiz, para que</p><p>considere verídicas ou não as alegações das partes acerca dos fatos.</p><p>A prova não incidiria, portanto, sobre os fatos propriamente ditos, mas, sim, sobre as</p><p>alegações apresentadas pelas partes com base neles. Dessa forma, a alegação pode ou</p><p>não corresponder à realidade daquilo que se passou fora do processo.</p><p>Os fatos, como regra, seriam relevantes e controvertidos: relevantes porque influenciam</p><p>o convencimento do juiz na resolução do mérito da causa, e controvertidos por serem</p><p>aqueles sobre os quais as partes divergem, seja quanto à sua efetiva ocorrência, seja</p><p>quanto a seus efeitos.</p><p>Há, contudo, determinados fatos que, apesar de serem incontroversos, dependem de</p><p>prova do interessado para seu reconhecimento.</p><p>São eles:</p><p>a) casos de direitos indisponíveis (art. 341, I, c/c o art. 345, II, do CPC);</p><p>b) casos em que a lei exija que a prova do ato jurídico se revista de forma especial, tal</p><p>como a necessidade do instrumento público da certidão de casamento para fazer a prova</p><p>de casamento; do registro no RGI para fazer a prova de proprietário; e do testamento para</p><p>provar que é legatário;</p><p>c) alegações de fatos improváveis como constitutivos do direito do autor. Nesse caso, o</p><p>juiz pode determinar que a parte produza prova suficiente para convencê-lo de que</p><p>ocorreu o afirmado.</p><p>O art. 374 dispõe que não dependem de prova: os fatos notórios; afirmados por uma</p><p>parte e confessados pela parte contrária; admitidos, no processo, como incontroversos;</p><p>e em cujo favor milita presunção legal de existência ou de veracidade.</p><p>Já o art. 375 determina ao juiz que aplique as regras de experiência comum140,</p><p>observando o que ordinariamente acontece, bem como as regras de experiência técnica,</p><p>quando não for necessária prova pericial.</p><p>O CPC suprime a expressão “em falta de normas jurídicas particulares”, que constava do</p><p>primitivo Código (art. 335), em consonância com o entendimento de muitos críticos da</p><p>antiga regra, dentre os quais Barbosa Moreira.</p><p>Entretanto, era justificável a condicionante, se interpretada enquanto hipóteses de</p><p>presunção legal absoluta e provas legais, as quais não podem ser ignoradas sob o</p><p>fundamento de haver uma máxima de experiência.</p><p>Por outro lado, o atual art. 375 autoriza o uso de duas modalidades de regras de</p><p>experiência:</p><p>a) comuns – fornecidas a partir da observação dos acontecimentos ordinários; e</p><p>b) técnicas – não especificadas pelo legislador; podem ser definidas como a observação</p><p>a partir de parâmetros específicos e que podem ser demonstrados de forma objetiva em</p><p>juízo.</p><p>Questão controvertida diz respeito à necessidade de prova do direito.</p><p>Para Luiz Rodrigues Wambier141, a prova do direito só seria necessária na hipótese do</p><p>art. 376, ou seja, quando é alegado direito municipal, estadual, estrangeiro ou</p><p>consuetudinário. Apenas nesses casos o juiz pode atribuir à parte interessada o ônus de</p><p>provar o teor e a vigência do direito alegado.</p><p>Fux afirma que tal norma deve ser interpretada à luz da sede territorial onde o magistrado</p><p>exerce a jurisdição. O magistrado não poderia, então, exigir a prova das leis municipais do</p><p>local onde presta a jurisdição, e o mesmo vale no caso de Estado142.</p><p>Cândido Rangel Dinamarco143, em posição sustentada antes da vigência do Código, já</p><p>chamava a atenção para o fato de que as provas incidem sobre as alegações de</p><p>determinados fatos. O objeto de prova não será o direito municipal, estadual,</p><p>consuetudinário ou estrangeiro, mas sim a alegação da parte interessada de que ele</p><p>possui determinado teor e que se encontra em vigor.</p><p>8.3NATUREZA DAS NORMAS SOBRE PROVAS</p><p>O instituto é regulamentado tanto no campo do direito material quanto no campo do</p><p>direito processual, eis que as normas que versam sobre a questão são</p><p>consideradas</p><p>heterotópicas.</p><p>Contudo, mais do que isso, como já tivemos a oportunidade de ressaltar, a prova lícita</p><p>encontra sede constitucional, compondo o próprio direito do cidadão de agir em juízo</p><p>(art. 5º, LIV e LVI, da CF).</p><p>Ademais, algumas condutas utilizadas para obter a prova de forma ilícita estão tipificadas</p><p>na lei penal, como é o caso da tortura, da violação de correspondência e da</p><p>interceptação clandestina de comunicações telefônicas.</p><p>8.4DESTINATÁRIOS DA PROVA</p><p>Destinatário direto da prova é o Estado-juiz, passando a prova produzida a integrar o</p><p>processo. Já o destinatário indireto da prova são as partes144. Acrescentam-se, ainda,</p><p>como destinatários mediatos da prova, os terceiros interessados e o Ministério Público,</p><p>na qualidade de fiscal da lei145.</p><p>Em relação à valoração das provas feita por seu destinatário imediato, inicialmente</p><p>vigorou o sistema das Ordálias, também chamado de juízo de Deus. Para demonstrar a</p><p>veracidade de suas afirmações, o réu era obrigado a submeter-se a provas e sobreviver,</p><p>como, por exemplo, andar sobre brasas, o que caracterizaria a proteção de Deus sobre</p><p>ele e, consequentemente, a veracidade de suas alegações.</p><p>Depois, vigorou o sistema das provas tarifadas, em que era atribuído valor específico às</p><p>provas. A prova mais valiosa era a confissão e a menos valiosa, a prova testemunhal.</p><p>Outro sistema utilizado foi o da íntima convicção, em que o juiz tinha plena liberdade para</p><p>analisar as provas produzidas, inclusive com a possibilidade de se utilizar de fatos de seu</p><p>conhecimento pessoal para julgar a causa.</p><p>Hoje, o sistema adotado é o da persuasão racional ou livre convencimento motivado, em</p><p>que o juiz tem plena liberdade para analisar as provas, mas não pode se utilizar de fatos</p><p>extra-autos para fundamentar suas decisões. Não existe, portanto, qualquer hierarquia</p><p>entre as provas.</p><p>Nesse sentido, o art. 371 do CPC dispõe que “o juiz apreciará a prova constante dos</p><p>autos, independentemente do sujeito que a tiver promovido, e indicará na decisão as</p><p>razões da formação de seu convencimento”.</p><p>8.5CLASSIFICAÇÃO</p><p>a) Quanto ao fato (ou objeto)</p><p>a.1) Provas diretas: a prova incide exatamente sobre o fato alegado pela parte.</p><p>a.2) Provas indiretas: a prova não incide sobre o fato alegado, mas sobre outro, conexo</p><p>àquele que se pretende demonstrar, a fim de que o juiz possa presumir que os fatos</p><p>ocorreram da maneira alegada pela parte. Esse fato conexo sobre o qual recai a prova é</p><p>chamado de indício e, por tal razão, as provas indiretas são também denominadas provas</p><p>indiciárias.</p><p>b) Quanto ao sujeito</p><p>b.1) Provas pessoais: são as fontes ativas de provas, como os depoimentos das partes e</p><p>das testemunhas.</p><p>b.2) Provas reais: são as fontes passivas de provas, isto é, a prova recai sobre coisas,</p><p>como os documentos. No caso de uma pessoa ser submetida à perícia médica, temos</p><p>uma fonte real de prova, já que o indivíduo se tornará objeto da prova.</p><p>c) Quanto ao objeto</p><p>c.1) Provas orais: produzidas pelo depoimento das partes ou das testemunhas.</p><p>c.2) Provas documentais: reveladas pelo exame de documentos, lembrando que nosso</p><p>ordenamento considera como documentos não apenas os escritos, mas também as</p><p>mídias que podem ser registradas, tais como imagens, gravações, arquivos de voz e</p><p>vídeo, bem como material gráfico, como desenhos, esboços, pinturas etc.</p><p>c.3) Provas materiais: são os laudos periciais técnicos, como o exame de corpo de delito,</p><p>exame de local e laudos de avaliação de coisas.</p><p>d) Quanto à preparação</p><p>d.1) Provas constituídas: são as produzidas no curso do processo (incidentais).</p><p>d.2) Provas pré-constituídas: são as que antecedem o processo, já existem antes dele.</p>