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<p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>NULIDADES</p><p>Os ritos processuais seguem o itinerário definido em lei, com o objetivo de</p><p>organizar a participação dos sujeitos do processo de modo a permitir uma contribuição</p><p>efetiva e igualdade de condições na tutela dos seus interesses. Sendo assim, as formas</p><p>processuais existem e atuam, portanto, na medida de sua finalidade específica.</p><p>Não é pacificado na doutrina o conceito de nulidade. Para a corrente</p><p>majoritária, defendida por exemplo Ada Pelegrine Grinover, nulidade é uma sanção</p><p>processual para a parte que descumpre uma forma legal, cuja consequência é o</p><p>impedimento do ato gerar efeitos que a parte esperava. Já a corrente minoritária sustenta</p><p>que a nulidade seria uma imperfeição jurídica (e não uma sanção) que gera ineficácia.</p><p>Nestor Távora e Rosmar Alencar (2020) explicam que a nulidade se refere a</p><p>2 aspectos: nulidade-fato, que consiste no defeito de um ato processual e</p><p>nulidade-consequência, a qual seria a sanção aplicada pelo ato viciado submetido a</p><p>controle realizado pelo juiz.</p><p>Classificação quanto à gravidade do defeito:</p><p>A diferença entre inexistência jurídica, nulidade (absoluta ou relativa) e</p><p>irregularidade consiste na gradação do vício resultante de cada um desses atos.</p><p>Essa classificação não é unânime na doutrina. Alguns doutrinadores, como</p><p>Aury Lopes Júnior e Geraldo Prado, entendem ser irrelevante, pois existe a</p><p>possibilidade de confundirem as classificações com o fato da realidade ou com o</p><p>próprio fenômeno normativo. Em sentido contrário, Nestor Távora e Rosmar Alencar</p><p>afirmam que a classificação dos defeitos ajuda a controlar as decisões judiciais sobre as</p><p>nulidades, pois apesar do juiz ter certa liberdade em decidir, ele não pode,</p><p>discricionariamente, anular ou não um ato.</p><p>Existem atos processuais que, por violarem tão grotescamente a lei, são</p><p>considerados inexistentes, pois estão distantes do mínimo aceitável para o</p><p>preenchimento das formalidades legais. A doutrina fala em espécie de “não ato”.</p><p>Os atos inexistentes não ingressam no ordenamento jurídico, não podem ser</p><p>convalidados. Para a doutrina majoritária, nem necessitaria de decisão judicial para</p><p>invalidá-los.</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>Exemplo: audiência presidida por promotor de justiça ou advogado (ato</p><p>realizado por pessoas que não possuem poder jurisdicional); sentença proferida</p><p>por juiz impedido.</p><p>Os atos nulos, segundo Ada Pellegrini Pellegrini Grinover, são aqueles “em</p><p>que a falta de adequação ao título legal pode levar ao reconhecimento de sua inaptidão</p><p>para produzir efeitos no mundo jurídico”.</p><p>A declaração de nulidade é a consequência jurídica da prática irregular de</p><p>atos processuais seja pela não observância da forma prescrita em lei, seja pelo desvio de</p><p>finalidade surgido com a sua prática.</p><p>Importa ressaltar que o ato viciado não é nulo em si mesmo. A nulidade,</p><p>como consequência do vício, constitui verdadeira sanção jurídica, a fim de retirar os</p><p>efeitos do ato nulo ou de limitar-lhe a eficácia.</p><p>Essa sanção processual dependerá da maior ou menor intensidade do desvio</p><p>do tipo legal. Sendo assim há duas espécies de nulidades: nulidade absoluta e nulidade</p><p>relativa.</p><p>Por fim, existem atos chamados irregulares, os quais, segundo Guilherme</p><p>de Souza Nucci, “são infrações superficiais, não chegando a contaminar a forma legal a</p><p>ponto de merecer renovação”. Logo, os atos irregulares serão convalidados pelo simples</p><p>prosseguimento do processo.</p><p>Exemplos: oferecimento da denúncia pelo Ministério Público fora do prazo</p><p>legal; ausência de entrega de cópia da pronúncia aos jurados no tribunal do</p><p>júri.</p><p>Espécies de nulidades:</p><p>Tanto a doutrina, quanto a jurisprudência subdividem as nulidades da seguinte</p><p>forma:</p><p>a. Nulidade absoluta: segundo Grinover, “são atos com vícios graves, pois</p><p>violam normas constitucionais, ocasionando o fenômeno da atipicidade constitucional”.</p><p>Segundo Pacelli, são vícios que esbarram em questões essenciais à configuração</p><p>do devido processo legal, atingindo a proteção das garantias constitucionais individuais,</p><p>inseridas no modelo processual brasileiro.</p><p>As nulidades absolutas consistem em vícios de interesse público; devem ser</p><p>proclamadas pelo magistrado de ofício ou a requerimento de qualquer das partes e em</p><p>qualquer grau de jurisdição; não precluem e nem podem ser convalidadas.</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>Exemplo: cerceamento da atividade do advogado o que implica na violação da</p><p>ampla defesa.</p><p>Para a maioria da doutrina, a nulidade absoluta independe de prova do</p><p>prejuízo, uma vez que existe a presunção absoluta de prejuízo com a violação de uma</p><p>norma constitucional.</p><p>a. Nulidade relativa: são vícios que violam regras meramente processuais,</p><p>portanto, menos graves que os vícios considerados absolutos.</p><p>Serão reconhecidas pela parte interessada e devem ser arguidas no primeiro</p><p>momento que se manifestar no processo, sob pena de preclusão e, consequente,</p><p>convalidação. Depende da demonstração do prejuízo.</p><p>Exemplo: falta de intimação do advogado de expedição de carta precatória</p><p>para inquirição de testemunha de beatificação arrolada pela defesa, com a</p><p>nomeação de defensor ad hoc para acompanhar o ato.</p><p>Em regra, as nulidades relativas não podem ser reconhecidas de ofício pelo</p><p>juiz. No entanto, existem algumas hipóteses em que será possível o reconhecimento ex</p><p>officio da nulidade relativa, como a incompetência relativa (artigo 109, CPP).</p><p>No artigo 564 do CPP estão previstas as hipóteses de nulidades processuais.</p><p>Trata-se de um rol exemplificativo, segundo a doutrina majoritária, pois existem</p><p>nulidades processuais típicas, que são essas previstas expressamente no ordenamento</p><p>jurídico, e as nulidades processuais atípicas, que são aquelas que não estão previstas</p><p>expressamente no direito positivo.</p><p>O citado artigo prevê hipóteses de nulidades absolutas (incisos I, II, III,</p><p>alíneas “a”, “b”, “c”, “e”, “f”, “i”, “k”, “l”, “m”, “n”, “o”, “p” e parágrafo único) e de</p><p>nulidades relativas (inciso III, alíneas “d” e “e”, 2ª parte, “g”, “h” e inciso IV).</p><p>Nestor Távora, Rosmar Alencar e Lúcio Constantino defendem que o Brasil</p><p>adota o sistema eclético de nulidades, pois o nosso sistema possui características do</p><p>sistema legal, o qual consiste na obrigatoriedade da observância dos elementos</p><p>essenciais dos atos processuais estabelecidos em lei, e do sistema instrumental, o qual</p><p>confere ao julgador a liberdade de decidir se o ato imperfeito deve ser considerado</p><p>inválido.</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>NULIDADES ABSOLUTA NULIDADES RELATIVAS</p><p>Violam normas constitucionais Violam normas infraconstitucionais</p><p>Vícios de interesse público Vício de interesse privado</p><p>Reconhecimento de ofício ou a</p><p>requerimento das partes</p><p>Reconhecimento de ofício ou a</p><p>requerimento das partes</p><p>Podem ser reconhecidas em qualquer tempo</p><p>e grau de jurisdição</p><p>Precisam ser arguidas no primeiro momento</p><p>em que a parte se manifesta no processo</p><p>Em regra, não precluem nem convalidam Precluem e convalidam</p><p>Para a doutrina, o prejuízo é presumido. O</p><p>STF exige a demonstração de prejuízo para</p><p>todas as espécies de nulidade.</p><p>Exige a demonstração de prejuízo.</p><p>Princípios das nulidades:</p><p>a) Princípio do pas de nullité sans grief, do prejuízo ou da transcendência:</p><p>Considerando que o processo existe em razão de um fim e que, em última</p><p>análise, é aplicação do direito cabível ao caso concreto, pela teoria do processo, ele é o</p><p>meio utilizado para se atingir um fim. Sendo assim, se de um ato teoricamente nulo, não</p><p>tiver causado qualquer prejuízo para as partes ou para a jurisdição, não haverá razão</p><p>para o reconhecimento e declaração de nulidade (não há nulidade sem prejuízo). O</p><p>conteúdo transcende a forma. É o que dispõe o artigo 563, do CPP.</p><p>Art. 563. Nenhum ato será declarado nulo, se da nulidade não resultar prejuízo</p><p>para a acusação ou para a defesa.</p><p>Nessa mesma linha de pensamento, frisa-se que</p><p>não será reconhecida a</p><p>nulidade (ou será considerada sanada) de ato praticado de outra forma da prevista em</p><p>lei, se ele tiver alcançado o seu fim, sem ter causado prejuízo aos litigantes (artigo 572,</p><p>inciso II, CPP).</p><p>Para a maioria da doutrina, as nulidades absolutas, por tratarem de</p><p>atipicidades constitucional, importa sempre em violação a preceitos maiores, o que</p><p>tornaria presumível o prejuízo. A doutrina defende ainda que o STF reconhece a</p><p>distinção entre as espécies de nulidade pelo enunciado da súmula 523.</p><p>Neste ponto, também há divergência entre as turmas do STJ. A 5ª turma, no</p><p>julgamento do AgRg no AREsp 1573424/SP, consolidou o entendimento de que, para se</p><p>reconhecer nulidade pela inversão da ordem de interrogatório, é necessário que o</p><p>inconformismo da defesa tenha sido manifestado tempestivamente, ou seja, na própria</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>audiência em que realizado o ato, sob pena de preclusão; e que seja comprovada a</p><p>ocorrência de prejuízo que o réu teria sofrido com a citada inversão.</p><p>A 6ª turma, por sua vez, no julgamento do REsp 1808389-AM, fixou o</p><p>seguinte entendimento: É desnecessária a comprovação de prejuízo para o</p><p>reconhecimento da nulidade decorrente da não observância do rito previsto no art. 400</p><p>do CPP, o qual determina que o interrogatório do acusado seja o último ato a ser</p><p>realizado.</p><p>Já o STF tem entendimento de que o prejuízo deve ser demonstrado para</p><p>permitir o reconhecimento das novidades, inclusive das nulidades absolutas, “pois não</p><p>se decreta nulidade processual por mera presunção”. Veja-se:</p><p>HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. TENTATIVA DE</p><p>FURTO. ALEGAÇÃO DE NULIDADE PORQUE O PACIENTE</p><p>TERIA SIDO REQUISITADO NO MESMO DIA DESIGNADO</p><p>PARA O SEU INTERROGATÓRIO. IMPROCEDÊNCIA. SUPOSTA</p><p>NULIDADE SUPERADA COM O COMPARECIMENTO DO RÉU</p><p>AO INTERROGATÓRIO E INEXISTÊNCIA DE LEI QUE</p><p>PREVEJA A EXIGÊNCIA DE INTERREGNO ENTRE ESTE ATO E</p><p>SUA REQUISIÇÃO. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DO</p><p>PREJUÍZO. PRECEDENTES.</p><p>(...)</p><p>2. Precedentes específicos deste Supremo Tribunal Federal, em casos</p><p>análogos, no sentido de que a alegação de nulidade da citação, por não</p><p>ter sido expedido mandado judicial juntamente com o pedido de</p><p>requisição do réu preso, está superada pelo comparecimento em juízo,</p><p>onde foi constatada a desnecessidade de adiamento do interrogatório e</p><p>de que a designação do interrogatório para a mesma data em que</p><p>expedida a requisição não afeta o direito de defesa do acusado porque</p><p>não existe na lei processual exigência de interregno.</p><p>3. Ausência de demonstração de prejuízo. Apesar de existir</p><p>entendimento deste Supremo Tribunal no sentido de que o prejuízo de</p><p>determinadas nulidades seria de prova impossível, o princípio do pas</p><p>de nullité sans grief exige, em regra, a demonstração de prejuízo</p><p>concreto à parte que suscita o vício, independentemente da sanção</p><p>prevista para o ato, podendo ser ela tanto a de nulidade absoluta</p><p>quanto a relativa, pois não se decreta nulidade processual por</p><p>mera presunção. Precedentes. 4. Ordem denegada. (STF - HC:</p><p>100329 RS, Relator: Min. CÁRMEN LÚCIA, Data de Julgamento:</p><p>02/10/2012, Segunda Turma, Data de Publicação: ACÓRDÃO</p><p>ELETRÔNICO DJe-208 DIVULG 22-10-2012 PUBLIC 23-10-2012)</p><p>(Grifo nosso)</p><p>Este entendimento foi recentemente ratificado no julgamento do RHC</p><p>167851 AgR, cujo relator foi o Ministro Roberto Barroso, em 15/05/19. Quanto a essa</p><p>exigência, Távora e Alencar a comparam com a “prova diabólica”, muitas vezes</p><p>impossível de provar.</p><p>Aury Lopes Jr discorda dessa relativização das nulidades que o STF tem</p><p>utilizado. Segundo ele, só há uma forma desta relativização não ferir o sistema de</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>garantias da Constituição: não incumbe a carga probatória do prejuízo ao réu. Ou seja,</p><p>não cabe a parte que alega a nulidade demonstrar o prejuízo, mas à parte contrária</p><p>demonstrar a inocorrência do prejuízo que foi estabelecido em virtude da presunção</p><p>legal que decorre do caráter absoluto da nulidade invocada ou ao juiz provar a devida</p><p>convalidação do ato para legitimar sua validade e permanência no processo.</p><p>→ Lembre-se: o que deve ser preservado é o conteúdo e não a forma</p><p>do ato processual.</p><p>b) Princípio do interesse no reconhecimento da nulidade ou da proteção</p><p>(art. 565, 1ª parte/CPP):</p><p>A parte não poderá arguir nulidade a que haja dado causa ou para que tenha</p><p>concorrido, devendo prevalecer a ética na produção da prova, afastando-se a má-fé -</p><p>Princípio da Lealdade (ou da boa-fé).</p><p>A título de exemplo, o artigo 478 dispõe que durante os debates as partes</p><p>não poderão, sob pena de nulidade, fazer referências à decisão de pronúncia, às decisões</p><p>posteriores que julgaram admissível a acusação ou à determinação do uso de algemas</p><p>como argumento de autoridade que beneficiem ou prejudiquem o acusado e ao silêncio</p><p>do acusado ou à ausência de interrogatório por falta de requerimento, em seu prejuízo.</p><p>Nesse cenário, é possível que qualquer das partes, por razões variadas, com desejo de</p><p>plantar uma nulidade durante os debates no plenário do Tribunal do Júri, bastaria fazer</p><p>menção a qualquer dos assuntos proibidos no artigo disposto acima. Em não sendo</p><p>verificada a má-fé ou a estratégia antiética, a lógica é que o feito não seja anulado,</p><p>permanecendo na íntegra o julgamento realizado. Neste sentido, vide julgado do STJ:</p><p>HABEAS CORPUS. SONEGAÇÃO DE DOCUMENTO.</p><p>CONDENAÇÃO. AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA DE TRIBUNAL</p><p>ESTADUAL. ALEGAÇÃO DE NULIDADE ABSOLUTA NA</p><p>INTIMAÇÃO DA ADVOGADA DO RÉU E DA SESSÃO DE</p><p>JULGAMENTO DA AÇÃO PENAL. INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO</p><p>NEMO AUDITUR PROPRIAM TURPITUDINEM ALLEGANS</p><p>(NINGUÉM PODE SE BENEFICIAR DA PRÓPRIA TORPEZA).</p><p>ART. 565 do CPP. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ E DA LEALDADE</p><p>PROCESSUAL. 1. É consabido que a nulidade absoluta do processo</p><p>deve ser alegada no primeiro momento oportuno em que teve a parte</p><p>para se manifestar nos autos. 2. Nos termos do art. 565 do Código de</p><p>Processo Penal, nenhuma das partes poderá arguir nulidade a que</p><p>haja dado causa, ou para que tenha concorrido. Daí decorre o</p><p>princípio da lealdade processual, derivado da boa-fé. 3. Conforme</p><p>a doutrina, o legislador cuidou de afastar eventuais manobras</p><p>engendradas pela parte unicamente com a finalidade de obter a</p><p>declaração de nulidade de seu ato, alcançando, com isso, o</p><p>retrocesso na marcha processual, em prejuízo da parte contrária e</p><p>da própria atuação jurisdicional. 4. De acordo com precedente desta</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>Casa, o Poder Judiciário não pode compactuar com a chamada</p><p>nulidade guardada, em que falha processual sirva como uma 'carta na</p><p>manga', para utilização eventual e oportuna pela parte, apenas caso</p><p>seja do seu interesse. 5. Caso em que, apenas após a decisão exarada</p><p>no RE n. 1.019.509 (ligado à ação penal originária), é que os</p><p>impetrantes - os mesmos que ajuizaram aqui o HC n. 281.263 em</p><p>2013 - resolveram suscitar nova nulidade. Segundo os impetrantes, a</p><p>advogada do paciente na ação penal - única defensora constituída nos</p><p>autos - havia sido suspensa do exercício profissional por seis meses,</p><p>por decisão da Décima Primeira Turma Disciplinar do Tribunal de</p><p>Ética e Disciplina do Conselho Secional de São Paulo da Ordem dos</p><p>Advogados do Brasil, antes da intimação para a sessão de julgamento</p><p>que foi realizada no Tribunal de Justiça de São Paulo. Assim, quando</p><p>foi realizado o julgamento, o paciente estava sem defensor. 6. Embora</p><p>mencionem que, somente em recente data, os impetrantes tomaram</p><p>conhecimento da alegada suspensão da referida advogada, isso não</p><p>parece ser verossímil, dado que se trata da filha do ora paciente. 7.</p><p>Ordem denegada. (STJ - HC: 452528 SP 2018/0129412-5, Relator:</p><p>Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Data de Julgamento:</p><p>12/05/2020, T6 - SEXTA TURMA, Data de Publicação: DJe</p><p>19/05/2020)</p><p>A consequência desse princípio é a exigência de que a parte que alega</p><p>nulidade tenha interesse para tanto (princípio do interesse no reconhecimento de</p><p>nulidades).</p><p>c) Princípio do interesse na alegação - não há nulidade</p><p>por omissão de</p><p>formalidade que só interesse à parte contrária (art. 565, 2ª parte/CPP):</p><p>Art. 565. Nenhuma das partes poderá arguir nulidade a que haja</p><p>dado causa, ou para que tenha concorrido, ou referente a</p><p>formalidade cuja observância só à parte contrária interesse.</p><p>(Grifo nosso)</p><p>Nenhuma das partes poderá arguir nulidade referente a formalidade cuja</p><p>observância só à parte contrária interessa – decorre do princípio do interesse. Ou seja,</p><p>ainda que não seja a causadora do vício processual, a parte não poderá invocar nulidade</p><p>que somente beneficiaria outra parte.</p><p>Trata-se de mais um desdobramento do princípio do interesse no</p><p>reconhecimento de nulidades.</p><p>Exemplo: arguição de nulidade pela defesa por ausência do membro</p><p>do MP no interrogatório do acusado; arguição de nulidade pelo</p><p>querelante por não ter sido a defesa intimada da expedição da carta</p><p>precatória para ouvir testemunha em outra comarca, embora afirme o</p><p>defensor do querelado que nenhum prejuízo sofreu a defesa do réu.</p><p>Ressalta-se que, logicamente, esse é o contexto das nulidades relativas, uma</p><p>vez que as nulidades absolutas devem ser reconhecidas a qualquer tempo, inclusive de</p><p>ofício.</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>Vale ressaltar o entendimento do doutrinador Renato Brasileiro no que tange</p><p>à aplicabilidade do princípio do interesse ao Ministério Público. Considerando que o</p><p>artigo 127 da Constituição Federal atribui ao Ministério Público a defesa da ordem</p><p>jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais</p><p>indisponíveis, podendo destacar nesse último caso a liberdade de locomoção, é legítimo</p><p>também o interesse do MP (presumidamente) de pleitear o reconhecimento de nulidade</p><p>relativa em favor do acusado, seja quando atua como parte (ação penal pública), seja</p><p>quando atua como fiscal da lei (ação penal privada). Neste mesmo sentido estão Fábio</p><p>Roque e Klaus Negri Costa.</p><p>d) Princípio da instrumentalidade das formas ou da finalidade (art. 566</p><p>do CPP):</p><p>Não se declara nulidade de ato processual que não tenha influído na</p><p>apuração da verdade real ou na decisão da causa.</p><p>Art. 566. Não será declarada a nulidade de ato processual que não</p><p>houver influído na apuração da verdade substancial ou na decisão da</p><p>causa.</p><p>Considerando a premissa maior de que, sem prejuízo, não há nulidade, um</p><p>ato praticado sem as formalidades legais, que, no entanto, foi irrelevante para chegar-se</p><p>a verdade real no caso julgado, nenhuma nulidade deve ser reconhecida.</p><p>Os maiores exemplos são o da citação irregular (art. 570/CPP) e da</p><p>intimação da testemunha (art. 570, II/CPP)</p><p>Exemplo: testemunha que presta depoimento em idioma estrangeiro</p><p>sem um intérprete. O artigo 223 do CPP determina que esse</p><p>depoimento deve ser acompanhado por um intérprete. No entanto, se o</p><p>seu depoimento dessa testemunha for irrelevante pelo juiz pelas partes</p><p>para a formação do convencimento do juiz não se proclama a</p><p>nulidade.</p><p>e) Princípio da causalidade; da consequencialidade ou da contaminação</p><p>(art. 573, §1º/CPP).</p><p>Art. 573. Os atos, cuja nulidade não tiver sido sanada, na forma dos artigos</p><p>anteriores, serão renovados ou retificados.</p><p>Esse princípio diz respeito ao efeito expansivo das nulidades.</p><p>A nulidade de um ato pode ocasionar a nulidade de outros atos que dele</p><p>percorreram (dependência lógica e não necessariamente cronológica), constituindo</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>mostra da natural conexão dos atos realizados no processo, ou seja, para que haja</p><p>nulidade exige-se a demonstração do nexo causal entre os atos processuais.</p><p>Ada Pellegrini Grinover explica que a ausência ou a invalidade de um</p><p>determinado ato processual gera a indagação sobre a extensão desta nulidade, cabendo a</p><p>análise quanto à violação da forma prescrita para o ato declarado nulo também atingir</p><p>outros atos ligados àquele. Considerando isso, tem-se a nulidade originária e a nulidade</p><p>derivada.</p><p>Cabe ao magistrado ou tribunal que reconhecer a nulidade explicitar todos</p><p>os atos que serão renovados ou retificados em decorrência da nulidade reconhecida,</p><p>sabendo proclamar a extensão dessa.</p><p>Exemplo: o interrogatório é feito com base na denúncia. Se a</p><p>denúncia é anulada, naturalmente, o interrogatório também precisa ser</p><p>refeito. Em contraponto, se uma testemunha é ouvida na ausência do</p><p>acusado por não ter sido esse intimado, anula-se o ato sem que tenha a</p><p>necessidade de prejudicar outra audiência que tenha seguido as</p><p>normas processuais.</p><p>Pode-se concluir, portanto, que a nulidade de atos postulatórios (como a</p><p>denúncia) interfere na validade dos atos subsequentes, enquanto a nulidade de atos</p><p>instrutórios nem sempre prejudica os demais.</p><p>Nulidade em inquérito policial:</p><p>A rigor, as nulidades previstas no CPP dizem respeito a atos processuais.</p><p>Na fase de investigação, por tratar-se de uma atividade administrativa, as</p><p>invalidades dos atos não seguem a mesma lógica do processo. A fase pré-processual</p><p>visa, em regra, buscar elementos informativos para subsidiar ação penal, logo,</p><p>normalmente, os vícios estão ligados ao risco de violação de direito subjetivo individual</p><p>do investigado ou de terceiros.</p><p>Por isso, o desrespeito aos direitos subjetivos individuais opera no campo da</p><p>ilicitude e não das nulidades. A ilicitude traduz verdadeira violação de direitos e não a</p><p>mera inobservância de formas e a consequência disso é aplicação de regras de exclusão</p><p>da prova ilícita, com o reconhecimento da sua inadmissibilidade e a derivação de seus</p><p>efeitos.</p><p>Nas hipóteses de cláusulas de reserva de jurisdição, cabe ao juiz o controle</p><p>da legalidade de determinada diligência investigatória que está condicionada a ordem</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>judicial, como por exemplo, a expedição de mandado de busca e apreensão domiciliar,</p><p>quebra de sigilo telefônico, decretação de prisão cautelar.</p><p>O que se opera como fundamentação em tais decisões não é uma decisão de</p><p>mérito, mas apenas o exame da pertinência da medida, de sua adequação e de sua</p><p>necessidade. Sendo assim, apreciação do caso não pode ser equiparada a ilicitude da</p><p>medida. A decisão judicial, desde que fundamentada, ainda que não seja a melhor,</p><p>atenderá aos requisitos constitucionais para o controle judicial dos atos de investigação.</p><p>Apenas nas hipóteses de abuso de poder, de dolo ou má-fé do magistrado é</p><p>que se poderá pensar na invalidade absoluta das provas por ele determinada e até</p><p>mesmo na contaminação daquelas delas dependentes, pois somente nesse caso estará</p><p>presente a violação efetiva de direitos subjetivos.</p><p>Assim, as nulidades surgidas no curso da investigação preliminar não</p><p>atingem a ação penal dela decorrente.1</p><p>Nulidade previstas no artigo 564/CPP:</p><p>- Incompetência (inciso I):</p><p>A Constituição Federal garante ao cidadão o direito de não ser processado</p><p>nem sentenciado senão por autoridade competente (art. 5º, LIII). Trata-se de um</p><p>dispositivo constitucional assecuratório de garantia individual, logo, a sua inobservância</p><p>trata-se de uma nulidade absoluta, se a competência for absoluta, se for o caso de</p><p>competência relativa, a nulidade será relativa.</p><p>Frisa-se que parte minoritária da doutrina entende que o desrespeito da regra</p><p>de competência constitucional enseja a inexistência do ato.</p><p>O reconhecimento da incompetência no processo penal não acarreta a</p><p>extinção do processo. O artigo 567/CPP dispõe que a declaração de incompetência</p><p>acarretará a remessa dos autos ao órgão competente, salvo no caso de um juiz</p><p>reconhecer a incompetência da justiça brasileira. Trata-se, portanto, de uma decisão</p><p>interlocutória, consistindo em questão dilatória.</p><p>Art. 567. A incompetência do juízo anula somente os atos decisórios,</p><p>devendo o processo, quando for declarada a nulidade, ser remetido ao</p><p>juiz competente.</p><p>1 Julgados STJ: RHC 71442/MT, Rel. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 18/08/2016, DJe</p><p>29/08/2016; HC 353232/MG, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 28/06/2016,</p><p>DJe 01/08/2016; AgRg no HC</p><p>256894/MT, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 14/06/2016, DJe 30/06/2016; RHC 57487/RS, Rel.</p><p>Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 07/06/2016, DJe 17/06/2016; AgRg no AREsp 843321/RO, Rel. Ministra</p><p>MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 24/05/2016, DJe 13/06/2016; RHC 39140/SP, Rel. Ministro</p><p>REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 17/05/2016, DJe 08/06/2016.</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>Este artigo dispõe também que nos casos de nulidade em razão da</p><p>incompetência do juízo, os atos decisórios são nulos, sendo mantidos os atos</p><p>instrutórios - princípio da conservação dos atos processuais.</p><p>Segundo a doutrina majoritária, no caso de nulidade absoluta, a princípio,</p><p>todos os atos processuais serão inválidos, sendo necessário o reinício do processo.</p><p>Logo, a primeira parte do artigo 567 estaria fazendo referência apenas à nulidade</p><p>relativa.</p><p>No entanto, a jurisprudência entende pela possibilidade de ratificação de</p><p>atos decisórios e, notadamente, o recebimento da denúncia. Ou seja, para o STJ e o</p><p>STF, cabe ao juiz competente, ao receber o processo, absorver a causa e julgar, ou, se</p><p>entender necessário, renovar os atos processuais. Veja-se:</p><p>PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE</p><p>RECURSO PRÓPRIO. INADEQUAÇÃO. HOMICÍDIO</p><p>QUALIFICADO, OCULTAÇÃO DE CADÁVER E FURTO.</p><p>INCOMPETÊNCIA DO JUÍZO. PREVENÇÃO. REGRA</p><p>RESIDUAL. IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO QUANDO</p><p>CONHECIDO O LOCAL DA INFRAÇÃO. VIABILIDADE DE</p><p>RATIFICAÇÃO DOS ATOS PELO JUÍZO COMPETENTE.</p><p>WRIT NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. 1.</p><p>(...) 2. Nos termos do art. 69, inciso I, e art. 70, ambos do Código de</p><p>Processo Penal, a regra geral para fixação da competência é o lugar da</p><p>infração penal, onde a perturbação da ordem foi violada e a</p><p>tranquilidade social abalada, sendo ainda, em maioria, o melhor local</p><p>para fins de colheita de prova. Como foro supletivo, elegeu-se o lugar</p><p>do domicílio ou residência do réu, nos termos do artigo 69, inciso II,</p><p>72 e 73 do CPP. 3. Somente em caráter subsidiário, "não havendo</p><p>condições de se determinar o lugar da infração ou do domicílio do réu,</p><p>porque a infração penal desenvolveu-se em várias localidades, ou</p><p>porque há incerteza quanto às divisas da Comarca, usa-se a regra</p><p>subsidiária da prevenção, que é residual." (NUCCI, Guilherme de</p><p>Souza. Código de Processo Penal Comentado. 18. ed. Rio de Janeiro:</p><p>Forense, 2019. p. 234). 4. No caso em exame, considerando que desde</p><p>o oferecimento da denúncia há clara indicação que os delitos</p><p>imputados ao paciente e aos demais acusados foram, em tese,</p><p>praticados e consumados no município de Feliz Natal/MT, não há</p><p>motivo para escolha da competência pela norma residual da</p><p>prevenção, porquanto conhecido o local da infração, nos termos da</p><p>regra geral prevista no art. 69, inciso I, e art. 70, ambos do Código de</p><p>Processo Penal. 5. Não se mostra consentânea com o direto</p><p>processual moderno a anulação do processo desde o oferecimento</p><p>da denúncia, porquanto os atos praticados pelo juízo</p><p>incompetente, inclusive os decisórios, são ratificáveis no juízo</p><p>competente. 6. Writ não conhecido. Ordem concedida de ofício para</p><p>reconhecer a incompetência do Juízo de Direito da Comarca de</p><p>Vera/MT, determinando a remessa dos autos da ação penal originária</p><p>ao Juízo da Comarca de Feliz Natal/MT, que poderá, como entender,</p><p>ratificar ou não os atos já praticados. (STJ - HC: 507134 MT</p><p>2019/0120676-2, Relator: Ministro RIBEIRO DANTAS, Data de</p><p>Julgamento: 06/08/2019, T5 - QUINTA TURMA, Data de Publicação:</p><p>DJe 13/08/2019) (Grifo nosso)</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>HABEAS CORPUS. SUPOSTO CRIME PRATICADO POR</p><p>PREFEITO EM RAZÃO DO CARGO NO EXERCÍCIO DE</p><p>MANDATO ANTERIOR. NÃO CARACTERIZADA ORDEM</p><p>SEQUENCIAL E ININTERRUPTA DOS MANDATOS. REMESSA</p><p>DOS AUTOS AO JUÍZO DE 1º GRAU SEM ANULAÇÃO DE</p><p>ATOS PROCESSUAIS. PRECEDENTES DESTE STJ E DO STF.</p><p>HABEAS CORPUS CONHECIDO. ORDEM PARCIALMENTE</p><p>CONCEDIDA. I - "A orientação jurisprudencial mais recente do</p><p>Supremo Tribunal Federal indica que 'o foro por prerrogativa de</p><p>função restringe-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício</p><p>do cargo e relacionados às funções desempenhadas' (AP 937 QO, Rel.</p><p>Ministro ROBERTO BARROSO, TRIBUNAL PLENO, julgado em</p><p>03/05/2018, DJe 10/12/2018)" (RHC n. 111.781/CE, Quinta Turma,</p><p>Rel. Min. Ribeiro Dantas, DJe de 01/07/2019). II - "Quanto à</p><p>prerrogativa de função atribuída ao cargo de prefeito municipal, com</p><p>previsão no art. 25, inciso X, da Constituição Federal, temos que esta</p><p>também se insere em hipótese excepcional de competência, que</p><p>comporta interpretação restritiva, nos moldes delineados pela Suprema</p><p>Corte na já mencionada Ação Penal 937/RJ. Isso porque, à luz das</p><p>mesmas razões de decidir utilizadas pelo STF, é necessário que a</p><p>prerrogativa de foro sirva ao seu papel constitucional de garantir o</p><p>livre exercício das funções, e não o de assegurar privilégios ou</p><p>tratamentos desiguais" (HC 472.031/SP, Rel. Ministro NEFI</p><p>CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 21/5/2019, DJe</p><p>30/5/2019) " (EDcl no RHC n. 111.781/CE, Quinta Turma, Rel. Min.</p><p>Ribeiro Dantas, DJe de 19/08/2019). III - "Na hipótese em que o delito</p><p>seja praticado em um mandato e o réu seja reeleito para o mesmo</p><p>cargo, a continuidade do foro por prerrogativa de função restringe-se</p><p>às hipóteses em que os diferentes mandatos sejam exercidos em ordem</p><p>sequencial e ininterrupta (Inq 4.127, Rel. Ministro RICARDO</p><p>LEWANDOWSKI, TRIBUNAL PLENO, julgado em 20/11/2018, DJe</p><p>23/11/2018)" (RHC n. 111.781/CE, Quinta Turma, Rel. Min. Ribeiro</p><p>Dantas, DJe de 01/07/2019). IV - No caso concreto, os fatos atribuídos</p><p>ao paciente, então Prefeito de Buritizal/SP, datam do ano de 2011, ou</p><p>seja, teriam supostamente ocorrido durante o mandato 2008-2012.</p><p>Não eleito para o mandato subsequente, o paciente apenas veio a</p><p>ocupar novo cargo de Prefeito em 2017-2020. Diante desse quadro</p><p>fático, constata-se que houve a quebra da necessária e indispensável</p><p>continuidade do exercício do mandato político para fins de</p><p>prorrogação da competência. Portanto, se vislumbra ilegalidade na</p><p>manutenção do eg. Tribunal como juízo competente originário, tendo</p><p>em vista que o recebimento da denúncia aconteceu em 24/04/2019</p><p>pelo órgão colegiado. V - Conforme recente entendimento deste</p><p>Tribunal Superior "Não se mostra consentânea com o direto</p><p>processual moderno a anulação do processo desde o oferecimento</p><p>da denúncia, porquanto os atos praticados pelo juízo</p><p>incompetente, inclusive os decisórios, são ratificáveis no juízo</p><p>competente" (HC n. 507.134/MT, Quinta Turma, Rel. Min. Ribeiro</p><p>Dantas, DJe de 13/08/2019). VI - A jurisprudência, hoje, é uníssona</p><p>ao exigir a comprovação de efetivo prejuízo para a anulação de</p><p>atos processuais, tanto nas hipóteses de incompetência relativa</p><p>quanto nas de absoluta. Vejamos: "A jurisprudência do Supremo</p><p>Tribunal Federal e desta Corte Superior é uníssona no sentido de que,</p><p>tanto nos casos de nulidade relativa quanto nos casos de nulidade</p><p>absoluta, o reconhecimento de vício que enseje a anulação de ato</p><p>processual exige a efetiva demonstração de prejuízo ao acusado, o que</p><p>não ocorreu na espécie" (HC n. 490.478/RJ, Sexta Turma, Relª. Minª.</p><p>Laurita Vaz, DJe de 10/04/2019). Habeas corpus conhecido. Ordem</p><p>parcialmente concedida para encaminhar os autos ao 1º Grau para</p><p>regular processamento e julgamento, com a possibilidade de o d. Juízo</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>a quo ratificar todos os atos até então praticados, inclusive, o de</p><p>recebimento da denúncia. (STJ - HC: 539002 SP 2019/0306226-7,</p><p>Relator: Ministro LEOPOLDO DE ARRUDA RAPOSO</p><p>(DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/PE), Data de</p><p>Julgamento: 21/11/2019, T5 - QUINTA TURMA, Data de Publicação:</p><p>DJe 28/11/2019). (Grifo nosso)</p><p>Mas fica uma indagação: Isso não feriria o princípio da identidade física do</p><p>juiz? Fica para reflexão...</p><p>Ressalta-se que o recebimento da denúncia operado por juízo absolutamente</p><p>incompetente não tem o condão de interromper a prescrição, ainda</p><p>que tenha sido</p><p>proferida sentença condenatória. Ou seja, a interrupção da prescrição só acontecerá com</p><p>o recebimento da peça acusatória pelo juiz competente.</p><p>AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 1804151 - PR</p><p>(2020/0331143-8) DECISÃO Trata-se de agravo interposto por</p><p>GILSON FERREIRA em adversidade à decisão que inadmitiu recurso</p><p>especial manejado contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do</p><p>Paraná, cuja ementa é a seguinte (e-STJ fl. 718): APELAÇÃO</p><p>CRIMINAL. CRIME DE DESTRUIÇÃO DE FLORESTA NATIVA.</p><p>ARTIGO 50 DA LEI 9.605/98. CONDENAÇÃO. RECURSO. PENA</p><p>MÁXIMA ABSTRATAMENTE COMINADA AOS DELITOS QUE</p><p>NÃO EXTRAPOLA O LIMITE PREVISTO PARA AS INFRAÇÕES</p><p>DE MENOR POTENCIAL OFENSIVO. INCOMPETÊNCIA</p><p>ABSOLUTA DO JUÍZO COMUM PARA JULGAMENTO DA</p><p>CAUSA. NULIDADE DO FEITO. REMESSA DOS AUTOS AO</p><p>JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL. PRELIMINAR ACOLHIDA.</p><p>(...)</p><p>O recurso merece acolhida. O Tribunal de Justiça reconheceu a</p><p>incompetência absoluta do Juiz de Direito da Vara Criminal de Santo</p><p>Antônio da Platina para processar e julgar o processo, anulando os</p><p>atos decisórios praticados, notadamente o recebimento da denúncia e a</p><p>sentença condenatória. No que diz respeito aos marcos</p><p>interruptivos da prescrição, é necessário esclarecer que doutrina e</p><p>jurisprudência são uniformes no sentido de que o recebimento da</p><p>denúncia por magistrado absolutamente incompetente não</p><p>interrompe o curso do prazo prescricional. Precedentes: AgRg no</p><p>HC 396.797/PE, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA</p><p>TURMA, julgado em 17/10/2017, DJe 27/10/2017; RHC 29.599/RS,</p><p>Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em</p><p>11/06/2013, DJe 20/06/2013. Assim, considerando a pena máxima em</p><p>abstrato prevista para o crime do art. 50 da Lei nº 9.605/98 - 1 ano -,</p><p>tem-se que o prazo prescricional é de 4 (quatro) anos, nos termos do</p><p>artigo 109, inciso V, do Código Penal. Dessa forma, tendo o</p><p>recebimento da denúncia sido realizado por magistrado absolutamente</p><p>incompetente, e sendo o mencionado ato processual nulo ante o</p><p>reconhecimento da incompetência absoluta pelo Tribunal de Justiça</p><p>para processar e julgar o crime imputado ao acusado, verifica-se que</p><p>ainda não houve qualquer marco apto a interromper o curso do prazo</p><p>prescricional no presente caso. Assim, transcorrido entre a data dos</p><p>fatos, que ocorreram em agosto/2015, até o presente momento,</p><p>período superior a 4 anos, deve ser reconhecida a prescrição da</p><p>pretensão punitiva estatal. (STJ - AREsp: 1804151 PR</p><p>2020/0331143-8, Relator: Ministro REYNALDO SOARES DA</p><p>FONSECA, Data de Publicação: DJ 08/04/2021)</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>● Coisa julgada e incompetência: Normalmente, a coisa julgada convalida</p><p>as eventuais nulidades do processo e somente o réu pode rever o julgamento, por meio</p><p>da revisão criminal ou de HC, sob a alegação de ter havido uma nulidade absoluta.</p><p>Quando se tratar de uma nulidade decorrente da incompetência absoluta e o</p><p>seu reconhecimento é prejudicial ao réu essa nulidade deve ser convalidada. Logo, se</p><p>um juiz incompetente proferir uma sentença absolutória, essa sentença dever ser</p><p>convalidada, sem a necessidade de renovação dos atos processuais, em razão dos</p><p>princípios do favor rei e do favor libertatis.</p><p>● Infringência à regra de prevenção: A prevenção é uma regra de fixação</p><p>de competência em razão do local do crime (competência territorial), que consiste em</p><p>uma competência de caráter relativo. Nesse sentido é o entendimento do STJ2 e do teor</p><p>da Súmula 706 do STF (“É relativa a nulidade decorrente da inobservância da competência penal por</p><p>prevenção”).</p><p>- Impedimento, suspeição e suborno do juiz (inciso I):</p><p>Inicialmente, vale destacar a distinção entre suspeição e impedimento, pois,</p><p>enquanto a suspeição advém de um vínculo ou relação do juiz com as partes, o</p><p>impedimento revela o interesse do juiz em relação ao objeto da demanda.</p><p>Segundo delineia Renato Brasileiro, “as causas de impedimento referem-se</p><p>a vínculos objetivos do juiz com o processo, independentemente de seu ânimo</p><p>subjetivo, sendo encontradas, em regra, dentro do processo”. Já as causas de suspeição</p><p>estão ligadas ao “animus subjetivo do juiz quanto às partes, e geralmente são</p><p>encontradas externamente ao processo”, evidenciando que ambas são hipóteses que</p><p>afastam a competência do juiz.</p><p>Com relação ao impedimento, segundo o doutrinador Renato brasileiro, a</p><p>atuação de um juiz impedido é tido como um vício de gravidade que acarreta a</p><p>inexistência do ato jurídico, uma que o artigo 252 do CPP estabelece que o juiz não</p><p>poderá exercer jurisdição no processo em que figurada uma das situações ali</p><p>elencadas, excluindo, portanto, a sua jurisdição.</p><p>2 Julgados: HC 305387/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 18/08/2016, DJe 24/08/2016; HC 301757/SP,</p><p>Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 07/06/2016, DJe 13/06/2016; HC 264140/SP, Rel.</p><p>Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 26/04/2016, DJe 02/05/2016; HC 207983/SP, Rel. Ministro NEFI</p><p>CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 20/10/2015, DJe 06/11/2015; HC 261664/SP, Rel. Ministro GURGEL DE FARIA, QUINTA</p><p>TURMA, julgado em 15/09/2015, DJe 30/09/2015; HC 294628/AM, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em</p><p>18/11/2014, DJe 27/11/2014.</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>Agora, com relação a suspeição existe uma divergência acerca da natureza</p><p>da nulidade. A doutrina é majoritária no sentido de que a suspeição do juiz é causa de</p><p>nulidade absoluta, inclusive pelo fato de não ter sido indicado no artigo 572, o qual</p><p>trata da nulidade relativa.</p><p>Impende destacar que Eugênio Pacelli de Oliveira preleciona que a</p><p>imparcialidade do juiz é requisito de validade do processo, restando certo de que as</p><p>hipóteses de suspeição configuram situações da realidade externa ao processo levado ao</p><p>conhecimento do juiz. Para o referido autor, em sendo a imparcialidade um requisito de</p><p>validade do processo e da própria jurisdição penal, trata-se a suspeição de nulidade</p><p>absoluta, devendo ser anulados todos os atos processuais praticados. Na mesma trilha</p><p>de entendimento, Tourinho Filho, Leonardo Barreto, Mirabete e Magalhães Noronha.</p><p>Lado outro, Guilherme de Souza Nucci, muito embora em sua obra elenque</p><p>a suspeição e o impedimento dentro do subtítulo “espécies de nulidades absolutas”,</p><p>posiciona-se no sentido de considerar como atos inexistentes aqueles praticados pelo</p><p>juiz impedido, por estar proibido de exercer a jurisdição naquele processo,</p><p>excepcionando a suspeição, onde, de fato, ocorrerá nulidade.</p><p>Ao discorrer especificamente acerca da suspeição, Nucci argumenta que</p><p>apenas será razão para decretação de nulidade quando as partes a arguirem através de</p><p>exceção. Consequentemente, em não havendo oposição de exceção, entender-se-á que o</p><p>juiz suspeito foi aceito, não existindo motivo para anulação dos atos por ele praticados.</p><p>Pelo simples estudo das características apontadas pelo referido autor, resta</p><p>indubitável que ele está a descrever uma hipótese de nulidade relativa, pois necessária a</p><p>arguição das partes para sua declaração, as quais, assim não o fazendo, serão</p><p>sancionadas com a preclusão. Haverá presunção de que as partes aceitaram o juiz</p><p>suspeito, convalidando o ato.</p><p>De fato, essa é a posição adotada por Nestor Távora e Rosmar Rodrigues</p><p>Alencar, os quais argumentam que as hipóteses de suspeição devem ser arguidas no</p><p>primeiro momento em que se seguir ao seu conhecimento pela parte prejudicada, sob</p><p>pena de preclusão. Dessa forma, admite-se, diante da inércia, que a parte aceitou a</p><p>condição de suspeição, apontando, por fim, expressamente, a suspeição como uma</p><p>hipótese de nulidade relativa.</p><p>Esse é o entendimento externado também pelo STF, que no HC</p><p>107.780/BA, julgado aos 13.09.2011, concluiu que, ao contrário do que ocorre no</p><p>impedimento, a presunção de parcialidade nas hipóteses de suspeição é relativa, pelo</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>que cumpre ao interessado arguí-la na primeira oportunidade,</p><p>na forma do art. 96 do</p><p>Código de Processo Penal, sob pena de preclusão.</p><p>E, por fim, por não ter sentido técnico, a palavra “suborno” tem sido</p><p>compreendida pela doutrina como uma possível prática do crime de concussão (art.</p><p>316/CP), Corrupção passiva (art. 317/CP) ou prevaricação (319/CP).</p><p>- Ilegitimidade das partes (inciso II):</p><p>Majoritariamente, a nulidade absoluta diz respeito apenas à ilegitimidade ad</p><p>causam (pertinência subjetiva da ação), que consiste na capacidade de propor a ação</p><p>penal e de ser parte passiva na ação penal.</p><p>Agora, quanto a ilegitimidade ad processum (legitimidade para estar em</p><p>juízo), que consiste na incapacidade de exercer direitos e deveres no processo. (Ex.:</p><p>querelantes menores de 18 anos sem representante) esta gera apenas uma nulidade</p><p>relativa, podendo ser sanada.</p><p>A ilegitimidade do representante da parte é causa de nulidade relativa, nos</p><p>termos do artigo 568 do CPP. É o caso de uma procuração com defeitos ou falhas</p><p>outorgadas para advogado, que poderá ser regularizada e os atos praticados por esse</p><p>advogado serão ratificados.</p><p>- Ausência de denúncia ou queixa e representação/requisição (inciso</p><p>III):</p><p>Atualmente é difícil imaginar um processo criminal sem a presença de</p><p>denúncia ou queixa. É mais fácil imaginar a ausência de representação.</p><p>Torna-se mais factível imaginar a hipótese em que são descumpridos os</p><p>requisitos elencados no artigo 41/CPP, sendo oferecida uma inicial acusatória que</p><p>impede o exercício da defesa do réu. Neste caso, estaremos diante de uma nulidade</p><p>absoluta. No entanto, se a inicial dificultar a defesa do réu, trata-se de nulidade</p><p>relativa, podendo ser sanada por meio de aditamento, nos termos do artigo 569 do CPP.</p><p>Art. 569. As omissões da denúncia ou da queixa, da representação,</p><p>ou, nos processos das contravenções penais, da portaria ou do auto de</p><p>prisão em flagrante, poderão ser supridas a todo o tempo, antes da</p><p>sentença final.</p><p>Quanto à falta de representação do ofendido ou requisição do Ministro da</p><p>Justiça, por tratarem de uma condição de procedibilidade da ação penal pública</p><p>condicionada, sua falta incorrerá na nulidade absoluta.</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>- Ausência de exame de corpo de delito (inciso IV):</p><p>O artigo 158 do CPP determina que nos casos de crimes não transeuntes, a</p><p>realização do exame de corpo de delito é obrigatória, sob pena de nulidade absoluta do</p><p>feito. No entanto, é possível a realização do exame de forma indireta no caso de</p><p>desaparecimento dos vestígios do crime, conforme o disposto no artigo 167 do CPP.</p><p>Caso o laudo do exame de corpo de delito tenha sido elaborado por apenas</p><p>um perito louvado, haverá nulidade de caráter relativo.</p><p>- Ausência de defesa ao réu e de nomeação de curador:</p><p>A falta de defesa é diferente da deficiência da defesa, enquanto aquela</p><p>enseja nulidade absoluta do feito, esta gera nulidade relativa, é o que dispõe a súmula</p><p>523 do STF.</p><p>Quanto ao curador do menor de 21 e maior de 18 anos, não há mais sentido</p><p>para essa nomeação após o advento do Código Civil de 2002.</p><p>Atualmente, só será nomeado curador para agentes inimputáveis ou</p><p>semi-imputáveis que atuará no incidente de insanidade mental depois de nomeado pelo</p><p>juiz.</p><p>- Falta de citação, ampla defesa e contraditório:</p><p>A falta de citação constitui nulidade absoluta. No entanto, se o interessado</p><p>comparecer antes de o ato consumar-se, embora declare que o faz para um único fim de</p><p>argui-la, a nulidade estará sanada, conforme o disposto no artigo 570 do CPP, cabendo</p><p>ao juiz, caso entenda que a irregularidade poderá prejudicar o direito da parte, suspender</p><p>ou adiar o ato.</p><p>Art. 570. A falta ou a nulidade da citação, da intimação ou notificação estará</p><p>sanada, desde que o interessado compareça, antes de o ato consumar-se,</p><p>embora declare que o faz para o único fim de argui-la. O juiz ordenará, todavia,</p><p>a suspensão ou o adiamento do ato, quando reconhecer que a irregularidade</p><p>poderá prejudicar direito da parte.</p><p>Atenção: o STF já decidiu que a ausência de defensor devidamente</p><p>intimado para a sessão de julgamento, não implica, por si só, a nulidade do processo,</p><p>devendo ser demonstrado o prejuízo. (STF. 1ª Turma. HC 165534/RJ, rel. orig. Min.</p><p>Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgado em 3/9/2019 - Info 950).</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>Quanto à falta de concessão de prazo ou a concessão de prazo menor do que</p><p>o estabelecido em lei à acusação e à defesa, o artigo 572 faz menção à essa nulidade,</p><p>devendo considerá-la sanada se não for arguida, em tempo oportuno; se, praticado por</p><p>outra forma, o ato tiver atingido o seu fim ou se a parte, ainda que tacitamente, tiver</p><p>aceito os seus efeitos, tratando-se, portanto, de uma nulidade relativa.</p><p>- Falta de intervenção do Ministério Público:</p><p>Quando se trata de ação penal pública, em que o MP é o titular, trata-se de</p><p>uma nulidade absoluta.</p><p>A doutrina majoritária defende que se o membro do MP não for</p><p>regularmente intimado de algum ato instrutório e, mesmo assim, deixou de comparecer,</p><p>trata-se de uma nulidade relativa, cabendo ao MP a sua arguição (princípio do interesse)</p><p>e diante da demonstração de prejuízo. Se o ato for postulatório (alegações finais,</p><p>debates no plenário do júri, etc), a nulidade seria absoluta.</p><p>No que tange à ação penal privada, ainda que seja subsidiária da pública,</p><p>pelo fato do MP atuar como parte interveniente adesiva obrigatória, sua ausência</p><p>trata-se de nulidade relativa.</p><p>- Falta da decisão de pronúncia, do libelo e da entrega da sua cópia:</p><p>Encaminhar o réu que está sendo julgado por crime doloso contra vida ao</p><p>plenário do Tribunal do Júri sem a decisão de pronúncia ou estando ela incompleta ou</p><p>defeituosa constitui nulidade absoluta.</p><p>No entanto, segundo o entendimento do STJ, as nulidades existentes na</p><p>decisão de pronúncia devem ser arguidas no momento oportuno e por meio do recurso</p><p>próprio, sob pena de preclusão.3</p><p>O libelo é uma peça processual feito pelo Ministério Público, após a fase da</p><p>pronúncia no Tribunal do Júri que tinha como intuito expor o fato criminoso, indicando</p><p>o nome do réu, circunstâncias agravantes e fatos que poderiam influenciar na fixação de</p><p>sua pena, para o pedido de sua condenação, não podendo assim divergir da pronúncia.</p><p>Contudo, após a entrada em vigor da Lei nº 11.689/08, tal fase do procedimento foi</p><p>suprimida.</p><p>3 Julgados: AgRg no RHC 65111/BA, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 19/04/2016, DJe 03/05/2016;</p><p>HC 346587/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 12/04/2016, DJe 22/04/2016; RHC 37749/PE, Rel. Ministro</p><p>NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 10/03/2016, DJe 17/03/2016; RHC 58491/MG, Rel. Ministro LEOPOLDO DE ARRUDA</p><p>RAPOSO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/PE), QUINTA TURMA, julgado em 15/09/2015, DJe 23/09/2015. (VIDE</p><p>INFORMATIVO DE JURISPRUDÊNCIA N. 377)</p><p>https://pt.wikipedia.org/wiki/Minist%C3%A9rio_P%C3%BAblico</p><p>https://pt.wikipedia.org/wiki/Tribunal</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>- Ausência do réu e realização da sessão:</p><p>Após o advento da Lei nº 11.689/08, a presença do acusado na sessão de</p><p>julgamento passou a ser obrigatória somente se ele estiver preso e, mesmo assim, é</p><p>possível que ele e o seu advogado requeiram a dispensa de seu comparecimento, nos</p><p>termos do artigo 457, §2º/CPP.</p><p>Poderá ensejar nulidade também no caso de falta de intimação do réu para a</p><p>sessão de julgamento, mas ainda assim, se ele comparecer, o vício estará sanado.</p><p>- Intimação das testemunhas arroladas para a sessão plenário do</p><p>Tribunal do Júri:</p><p>Se as testemunhas não forem intimadas, a sessão de julgamento deverá ser</p><p>redesignada. Contudo, se as testemunhas ainda assim comparecerem em juízo, o</p><p>julgamento ocorrerá.</p><p>Agora, se as testemunhas não forem intimadas e não comparecerem ao</p><p>julgamento, ocorrerá nulidade relativa do feito.</p><p>Vale lembrar que as testemunhas arroladas com cláusula de</p><p>imprescindibilidade, uma vez intimadas e não tendo comparecido</p><p>em juízo e nem terem</p><p>sido encontradas para serem conduzidas coercitivamente, a sessão plenária deverá ser</p><p>remarcada, sob pena de nulidade absoluta.</p><p>- Quórum para instalação da sessão do Júri:</p><p>Para que uma sessão do Júri seja instalada, é necessário a presença de pelo</p><p>menos 15 jurados, conforme o disposto no artigo 463 do CPP, sob pena de nulidade</p><p>absoluta.</p><p>- Sorteio do Conselho de sentença em número legal e</p><p>incomunicabilidade dos jurados:</p><p>Considerando que o júri é um órgão previsto na Constituição Federal, em</p><p>regra, a ocorrência de vício em seu procedimento tem caráter de nulidade absoluta.</p><p>O Artigo 477 do CPP determina se o conselho de sentença tenha 7 jurados.</p><p>- Inexistência ou deficiência dos requisitos e suas respostas:</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>A falta de quesito obrigatório na votação do Júri consiste em nulidade</p><p>absoluta do feito. Nesse sentido, é o teor da Súmula nº 156 do STF.</p><p>Além disso, um quesito mal elaborado, de difícil compreensão ou que não</p><p>reflita a tese defendida pelas partes no plenário também geram nulidade absoluta do</p><p>feito.</p><p>Os quesitos devem ser formulados conforme as regras descritas nos artigos</p><p>482 e 483 do CPP.</p><p>- Ausência de acusação e defesa no julgamento do Tribunal do Júri:</p><p>O juiz deverá dissolver o conselho de sentença caso não ocorra uma atuação</p><p>efetiva da acusação e da defesa, sob pena de nulidade do feito.</p><p>- Ausência de sentença:</p><p>Se não há sentença ou falta alguma de suas partes (relatório, fundamentação</p><p>e dispositivo), há nulidade absoluta. Inclusive, cumpre ressaltar que a Lei nº</p><p>13.964/2019 (Pacote Anticrime) incluiu o inciso V ao artigo 564 do CPP, o qual dispõe</p><p>que a decisão carente de fundamentação resulta em nulidade absoluta.</p><p>Também será caso de nulidade absoluta a sentença frágil no tocante à</p><p>fundamentação, individualização da pena ou falta de apreciação das teses apresentadas</p><p>pelas partes.</p><p>Ressalta-se que a falta de assinatura do juiz poderá gerar a nulidade absoluta</p><p>quando restar dúvidas no tocante à autenticidade da sentença.</p><p>- Ausência de processamento ao recurso de ofício.</p><p>O artigo 574 do CPP, primeira parte, trata do princípio da voluntariedade</p><p>dos recursos e na segunda parte e seus incisos excepciona essa regra com as hipóteses</p><p>de reexame necessário.</p><p>Art. 574. Os recursos serão voluntários, excetuando-se os seguintes casos, em</p><p>que deverão ser interpostos, de ofício, pelo juiz:</p><p>I - da sentença que conceder habeas corpus;</p><p>II - da que absolver desde logo o réu com fundamento na existência de</p><p>circunstância que exclua o crime ou isente o réu de pena, nos termos</p><p>do art. 411.</p><p>Nesses casos , ainda que as partes não recorram da decisão, o juiz prolator</p><p>da decisão deverá submetê-la à revisão pelo Tribunal competente.</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689compilado.htm#art411.</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>Grande parte da doutrina trata o recurso de ofício como uma condição</p><p>necessária à preclusão ou trânsito em julgado da decisão ou sentença, ou seja, a rigor,</p><p>não o consideram um recurso.</p><p>O STF editou a súmula 423 a qual dispõe que “não transita em julgado a</p><p>sentença por haver omitido o recurso ex officio, que se considera interposto ex lege”.</p><p>A falta de recurso de ofício, nos casos em que a lei estabelece, causa</p><p>nulidade absoluta.</p><p>- Ausência de intimação para recurso.</p><p>Sempre que for proferida uma decisão que caiba recurso, as partes devem</p><p>ser intimadas, sob pena de nulidade.</p><p>Sobre esse ponto, vale frisar o teor das súmulas 707 e 708 do STF:</p><p>Súmula 707: Constitui nulidade a falta de intimação do denunciado</p><p>para oferecer contrarrazões ao recurso interposto da rejeição da</p><p>denúncia, não a suprindo a nomeação de defensor dativo.</p><p>Súmula 708: É nulo o julgamento da apelação se, após a manifestação</p><p>nos autos da renúncia do único defensor, o réu não foi previamente</p><p>intimado para constituir outro.</p><p>- Falta de quórum legal para a decisão:</p><p>O artigo 564, III, “p” do CPP refere-se à inobservância do número mínimo</p><p>de juízes (desembargadores/ministros) exigidos por lei para o julgamento por um órgão</p><p>colegiado. Normalmente, esse quórum é estabelecido pelos regimentos internos dos</p><p>Tribunais.</p><p>- Em decorrência de decisão carente de fundamentação - artigo 564, V,</p><p>do CPP.</p><p>Este dispositivo legal foi incluído pela Lei nº 13.964/19, (Pacote Anticrime),</p><p>e vem reafirmando a necessidade de fundamentação concreta e individualizada das</p><p>decisões judiciais, conforme o disposto no artigo 93, inciso IX da CF, “todos os</p><p>julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as</p><p>decisões, sob pena de nulidade (…)”.</p><p>- Ausência de forma legal dos atos processuais - artigo 564, IV, do CPP:</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm#art93ix</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10626510/artigo-93-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/topicos/1699445/inciso-ix-do-artigo-93-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/128510890/constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-constitui%C3%A7%C3%A3o-da-republica-federativa-do-brasil-1988</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>Os atos processuais são realizados conforme a forma prevista na lei. Se</p><p>algum ato for praticado sem a devida observância à forma legal, desde que a</p><p>formalidade seja essencial à sua existência e validade, deve-se reconhecer a nulidade,</p><p>que será relativa e só será reconhecida se houver prejuízo para qualquer das partes.</p><p>Assim, este inciso (IV) é genérico e dependerá do caso concreto para que</p><p>seja determinada a extensão do vício processual.</p><p>A título de complementação, seguem algumas teses firmadas no STJ:</p><p>● As irregularidades relativas ao reconhecimento pessoal do acusado não</p><p>ensejam nulidade, uma vez que as formalidades previstas no art. 226 do CPP são meras</p><p>recomendações legais. 4</p><p>● A nulidade decorrente da ausência de intimação - seja a pessoal ou por</p><p>diário oficial - da data de julgamento do recurso não pode ser arguida a qualquer tempo,</p><p>sujeitando-se à preclusão temporal.5</p><p>● A inquirição das testemunhas pelo Juiz antes que seja oportunizada às</p><p>partes a formulação das perguntas, com a inversão da ordem prevista no art. 212 do</p><p>Código de Processo Penal, constitui nulidade relativa.6</p><p>● A falta de comunicação ao acusado sobre o direito de permanecer em</p><p>silêncio é causa de nulidade relativa, cujo reconhecimento depende da comprovação do</p><p>prejuízo.7</p><p>7 Julgados: AgInt no AREsp 917470/SC, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 02/08/2016,</p><p>DJe 10/08/2016; RHC 67730/PE, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 26/04/2016, DJe 04/05/2016; HC</p><p>348104/SP, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 05/04/2016, DJe 15/04/2016; HC</p><p>328448/SC, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 27/10/2015, DJe 11/11/2015; HC 320876/SP, Rel. Ministro</p><p>GURGEL DE FARIA, QUINTA TURMA, julgado em 06/08/2015, DJe 01/09/2015; HC 295176/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA</p><p>TURMA, julgado em 21/05/2015, DJe 11/06/2015.</p><p>6 Julgados: HC 159885/SP, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 21/06/2016, DJe 01/07/2016; HC</p><p>295979/ RS, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 14/06/2016, DJe 22/06/2016; AgRg no AREsp 885644/RS,</p><p>Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 02/06/2016, DJe 14/06/2016; AgRg no REsp</p><p>1545129/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 24/05/2016, DJe 01/06/2016; HC</p><p>341534/SC, Rel. Ministro ERICSON MARANHO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/SP), SEXTA TURMA, julgado em 05/04/2016,</p><p>DJe 19/04/2016; HC 339946/RS, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 07/04/2016, DJe 13/04/2016. (VIDE</p><p>INFORMATIVO DE JURISPRUDÊNCIA N. 577)</p><p>5 Julgados: HC 310908/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 18/08/2016, DJe</p><p>26/08/2016; HC 176265/SP, Rel. Ministro NÉFI</p><p>CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 02/02/2016, DJe 15/02/2016; HC 319774/SP,</p><p>Rel. Ministro ERICSON MARANHO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/SP), SEXTA TURMA, julgado em 24/11/2015, DJe</p><p>07/12/2015; HC 320492/ SP, Rel. Ministro LEOPOLDO ARRUDA RAPOSO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/PE), QUINTA</p><p>TURMA, julgado em 20/08/2015, DJe 01/09/2015; AgRg no HC 293555/SP, Rel. Ministro GURGEL DE FARIA, QUINTA TURMA,</p><p>julgado em 26/05/2015, DJe 09/06/2015; HC 300008/SP, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, DJe</p><p>03/02/2015, DJe 11/02/2015. (VIDE INFORMATIVO DE JURISPRUDÊNCIA N. 504.</p><p>4 Julgados: AgRg no AgRg no AREsp 728455/SC, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 28/06/2016, DJe</p><p>03/08/2016; HC 346058/SP, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 21/06/2016, DJe</p><p>30/06/2016; AgRg no REsp 1434538/AC, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 02/06/2016, DJe 15/06/2016;</p><p>AgRg no AREsp 837171/MA, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 12/04/2016, DJe 20/04/2016; AgRg</p><p>no AREsp 642866/SC, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 15/12/2015, DJe 01/02/2016;</p><p>HC 198846/DF, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 27/10/2015, DJe 16/11/2015.</p><p>Professora Ana Paula Correia de Souza</p><p>Direito Processual Penal II</p><p>● A ausência do oferecimento das alegações finais em processos de</p><p>competência do Tribunal do Júri não acarreta nulidade, uma vez que a decisão de</p><p>pronúncia encerra juízo provisório acerca da culpa.8</p><p>● São nulas as provas obtidas por meio da extração de dados e de</p><p>conversas privadas registradas em correio eletrônico e redes sociais (v.g. whatsapp e</p><p>facebook) sem a prévia autorização judicial.9</p><p>9 Julgados: RHC 68419/RN, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 28/06/2016, DJe 01/08/2016; RHC 51531/RO,</p><p>Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 19/04/2016, DJe 09/05/2016. (VIDE INFORMATIVO DE JURISPRUDÊNCIA</p><p>N. 583)</p><p>8 Julgados: HC 347371/PE, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 14/06/2016, DJe 22/06/2016; AgRg no REsp</p><p>1356402/PE, Rel. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEXTA TURMA, julgado em 05/09/2013, DJe 01/07/2014; AgRg no AREsp</p><p>480148/PE, Rel. Ministro MOURA RIBEIRO, QUINTA TURMA, julgado em 10/06/2014, DJe 17/06/2014; REsp 1373259/SC, Rel.</p><p>Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 10/12/2013, DJe 24/04/2014; HC 224208/SP, Rel. Ministra MARILZA</p><p>MAYNARD (DESEMBARGADORA CONVOCADA DO TJ/SE), SEXTA TURMA, julgado em 20/03/2014, DJe 10/04/2014; HC 221805/SE,</p><p>Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 18/02/2014, DJe 05/03/2014. (VIDE INFORMATIVO DE JURISPRUDÊNCIA N.</p><p>399)</p>