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<p>PATRICK GARDINER TEORIAS DA HISTÓRIA Tradução e Prefácio de VÍTOR MATOS E edição 2004 SERVIÇO DE EDUCAÇÃO E BOLSAS FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN Digitalizado com CamScanner</p><p>HEGEL 71 HEGEL (1770-1831) GEORG WILHELM FRIEDRICH HEGEL, filho de um pequeno funcionário de finanças, nasceu em Estugarda em Entre 1778 e 1793, fre- quentou o seminário teológico da Universidade de Tubinga, tendo-se então familiarizado com as obras de Rousseau e Kant; em especial as obras de Kant causaram-lhe profunda impressão. Depois de ter sido tutor em Berna e em Francoforte, Hegel foi professor na Universidade de Jena entre e 1806. Com a vitória de Napoleão e a dispersão temporária da universidade, Hegel foi para a Bavária onde editou a Bamberger Zeitung (1807-1808), tendo em seguida sido reitor da escola de latim de Nuremberga. Em casou, e cinco anos mais tarde ocupava uma cátedra em Heidelberga. Hegel, sucedeu a Fichte como professor de filosofia em Berlim em 1818, posto que ocupou até ao fim da vida. Morreu de cólera em Um dos seus editores dei- xou-nos uma descrição de Hegel a leccionar: é aí descrito sentado encolhido e de cabeça pendente... As suas constantes hesitações e tosse perturbavam a fluência do discurso, cada frase existia por si só e surgia após um desligada e Desde a sua morte, Hegel tem sido objecto, tanto de elogio extra- vagante como de denúncias e ataques mordazes. É todavia impossível negar a amplidão e a profundidade da sua influência no desenvolvimento do pensamento do século XIX tanto no que diz respeito à filosofia, como à teoria social e política. das suas várias obras principais a Fenomenologia do Espi- rito (1807), A Ciência da Lógica (1812-16), a Filosofia do Direito (1821) e as Conferências sobre a Filosofia da História (proferidas nos últimos anos da sua vida) Hegel construiu um complicado sistema metafísico em grande estilo, sem aparentemente se deixar perturbar pelas vigorosas objecções de Kant ao empreendimento de projectos desta natureza. As principais noções sobre que este sistema se construiu foram a noção da realidade como sendo (de um modo que é difícil descrever com pre- na cisão) inteligível em termos racionais ou e a noção de realidade como processo evolutivo, dinâmico. Assim, sob um ponto de vista, Hegel pensava que a estrutura subjacente ao mundo podia ser compreen- lorque, 1953), p. H. G. H: citado por C. J. Friedrich, The Philosopby of Hegel (Nova Digitalizado com CamScanner</p><p>72 A Interpretação do Processo Historico HEGEL / Filosófica 73 dida mediante a apreensão do conteúdo de certos conceitos ou gorias fundamentais, os quais se encontrariam relacionados uns com De tudo isto emergiu um grupo de ideias que provaria ser alta- outros de modo a formar uma série ou progressão autodeterminante mente influente. A história desenvolve-se em fases determinadas, os Seria todavia um erro supor que Hegel acreditava que as relações entre estando cada fase intimamente relacionada com a precedente. O con- estes conceitos eram relações de necessidade lógica no sentido ceito central em função do qual se deve entender desenvolvimento Em vez disso, as conexões conformam-se ao padrão da famosa histórico é o conceito de grupo de cada nação tem seu hegeliana. O raciocínio parte do pressuposto de que próprio contributo particular a dar para progresso histórico, e cada nação deve ser entendida em função do princípio, ou se pode dizer que um conceito gera seu ou de que determina e relaciona os diferentes aspectos da sua dando conceito e seu oposto, em conjunto, origem a uma ideia vida religioso, político, moral, legal, e individ posterior que representa o que é essencial em ambos. Mas esta, por disso, papel desempenhado em história por pessoas particulares só sua vez, gera o seu oposto, e assim recomeça processo de transição parcialmente se explica mediante a consideração dos seus interesses Como o mundo fenoménico se considera interpretável como imediatos e conscientes; deve fazer-se referência às poderosas forças a expressão das relações que compete à lógica (enquanto con- históricas de que elas são tanto os instrumentos como (até certo ponto) cebida por Hegel) articular, segue-se que tanto a como os intérpretes. As acções dos devem assim ser julgadas o a matéria e devem ser tratados como conformes dentro do contexto histórico que ou torna necessária a sua a leis semelhantemente realização. Semelhantes considerações se aplicam a instituições e for- Embora esta doutrina possa parecer obscura, é essencial tomá-la mas de governo. Deste modo, noções como as de uma em consideração quando se tem em vista a teoria da história de Hegel. assumem uma importância crucial para a compreensão dos Como os excertos que se seguem elucidam, Hegel insiste em que a his- fenómenos históricos e sociais: é através da sua utilização que movi- tória humana representa um processo racional, que expõe empirica- mento inexorável da história se pode apresentar, um movimento que mente e em fases distintas os resultados das implicações de uma certa pode anular as pretensões de ideais morais e políticos determinados, ideia, a de Diz-se que a liberdade é a essência do por mais sinceramente que eles sejam mantidos. Com efeito, Hegel e a filosofia da história é parte da filosofia do espírito. Assim, sugere que não é destituído de sentido mas também errado desde o inicio, o assunto da história distingue-se radicalmente do assunto lamentar a frustração ou ineficácia de tais ideais em história; das ciências objectos e organismos A história apresenta-se revela uma má compreensão do verdadeiro carácter do processo his- também no pensamento de Hegel como um desenvolvimento progres- uma impossibilidade de reconhecer que ele é a corporização sivo em direcção à realização de um certo alvo aprovado uma con- daquilo a que chamamos razão divina cepção que relaciona a sua teoria com as teorias do Iluminismo. Mas, 40 contrário de, por exemplo, Condorcet, Hegel não encara o estabele- cimento deste como uma questão puramente empírica, demons- trável por um apelo aos factos conhecidos da história e às leis que pre- sidem desenvolvimento do A concepção de de um principio intencional agindo por dos factos empíricos, História Filosófica determinadas de Herder no carácter ou génio individual de povos ou nações de noções encontram também seu lugar no sistema o Espirito e a Historia que movia Além disso, se bem que Hegel considerasse que o fim para tido de a história que ele tinha era em a realização de o Deve-se observar desde que fenómeno que investigamos logo sentido em que a palavra foi mente usada não pelos era filósofos estreitamente do Historia Universal pertence ao dominio do espirito. termo a adopção de afirma Hegel, é senão reconhecimento fisica inclui tanto a Natureza como a A Natureza e impor- Lei, e objectos substanciais universais, tais como Direito também desempenha o seu papel na História do Mundo, produção de uma sociedade que está de acordo com ter em conta as relações naturais básicas assim implicadas. Mas Espirito, bem como curso do seu desenvolvimento, é nosso Digitalizado com CamScanner</p><p>A Interpretação do Processo Histórico 74 HEGEL / História 75 objectivo essencial. A nossa tarefa não requer que contemplemos Natureza como um Sistema Racional em si mesmo se bem que no objectivos, e dentro da sua esfera de influência, mas é irrisória a próprio prove sê-lo mas simplesmente na sua relação proporção que transmitem à grande massa do género humano; e assim seu com o Na posição em que a observamos a Historia fica limitado alcance da sua influência. As os objectivos Universal Espírito manifesta-se na sua mais concreta realidade particulares e a satisfação de desejos egoístas são, por outro lado, Não obstante isto (ou antes, para próprio objectivo de com- molas de acção bastante eficientes. O seu poder reside no facto de preender os princípios gerais que isto a sua forma de realidade não respeitarem qualquer das limitações que a justiça e a moral lhes concreta devemos mencionar algumas características imporiam, e de estes impulsos naturais terem uma influência mais directa abstractas da natureza do Tal explicação contudo não pode sobre o homem do que a disciplina artificial e enfadonha que visa a ordem e autolimitação, a lei e a moralidade. ser dada aqui a não ser sob a forma de simples asserção. No presente Esta vasta acumulação de vontades, interesses e actividades cons- não é oportuno expor a ideia de especulativamente, porque titui os instrumentos e os meios que o Espírito cósmico usa para MI tudo que tenha lugar numa introdução deve, como já se observou, atingir seu objectivo, tornando-o consciente e 2) ser tomado como simplesmente histórico; algo considerado como já E este objectivo não passa de um auto-encontro um chegar a si tendo sido explicado e comprovado noutro lugar, ou cuja demonstração mesmo e de uma em realidade concreta. aguarda a confirmação da própria Ciência Histórica. Mas poderia pôr-se em dúvida que essas manifestações de vitalidade Temos portanto de mencionar aqui: da parte de indivíduos e povos, nas quais eles procuram e satisfazem 1) As características abstractas da natureza do Espírito. seus próprios fins, fossem ao mesmo tempo os meios e instrumentos 2) Os meios que o utiliza para realizar a sua Ideia. de um fim mais alto e vasto, do qual nada sabem - que realizam 3) Por último devemos considerar a forma que assume a corpo- inconscientemente- tem mesmo sido posto em dúvida, e rejeitado, rização perfeita do Estado. vituperado e subestimado de todas as maneiras como pura fantasia e Basta um relance ao seu oposto directo a Matéria para se poder compreender a natureza do Espírito. Tal como a essência da Mas sobre esta questão, logo no início anunciei o meu ponto de Matéria é a Gravidade, podemos assim afirmar por sua vez que a subs- vista e defendi a nossa hipótese que, contudo, aparecerá na sequên- tância, a essência do é a Liberdade. Todos admitirão sem hesi- cia sob a forma de uma inferência legítima e a nossa convicção tar a teoria de que o Espirito, entre outras propriedades, também é de que a Razão governa mundo e consequentemente, governado dotado de Liberdade. Mas a filosofia ensina que todas as qualidades a sua história. Em relação a esta existência universal e substancial- do existem apenas através da Liberdade; que todas elas não mente autónoma tudo o mais se lhe subordina e submete, bem passam de meios para atingir a Liberdade; e que é isto e apenas isto como os seus meios de desenvolvimento. que procuram e produzem. Resulta da Filosofia especulativa que a Liberdade é a única verdade do de uma descrição geral da forma como o cósmico A questão dos meios pelos quais a Liberdade se desenvolve num opera através da história, Hegel discute o papel especial daqueles que Mundo conduz-nos ao fenómeno da própria História. Embora a ele apelida de E considera a seguir Liberdade seja em princípio uma ideia meios que usa os que se entregam a uma subjectiva hipercrítica e lamentam o facto são externos e e oferecendo-se na História os nossa visão de em história os ideais que a muitos pareceram de validade e mérito dos homens primeiro relance à História convence-nos de que as acções universais terem nas rochas da dura e são as a de que tais necessidades, e interesses das suas necessidades, caracteres e talentos, Individuos César, em perigo de perder uma posição HEROIS únicas Entre fontes de acção as causas eficientes neste de não talvez de superioridade, na altura, mas pelo menos de igualdade liberal universal estas talvez se possam encontrar propósitos de tipo com os outros que estavam à testa do estado, em perigo de sucumbir aos que estavam exactamente à beira de se tornarem seus inimigos, de Mas tais como, virtudes por exemplo, e a boa vontade ou passam nobre pertence essencialmente a esta categoria. Estes inimigos que na possamos ninharias, comparadas com Mundo perspectivas gerais não Talvez altura da prosseguiam os seus fins pessoais tinham por seu lado a letra ver o Ideal da Razão concretizado e as nos suas que obras. adoptam tais constituição e poder conferido por uma aparência de justiça.</p><p>76 HEGEL / História Filosófica 77 César lutava para manter a sua posição, honra e segurança; e, uma vez que o poder dos seus adversários incluía a soberania sobre as num estado de inconsciência que os grandes homens em causa agi- cias do Império Romano, a vitória assegurava-lhe a conquista de todo taram. Os seus companheiros, portanto, seguem estes condutores de esse Império. E assim ele se tornou se bem que abandonando a porque sentem assim corporizado poder do seu letra da constituição Autócrata do Estado. Aquilo que lhe próprio Espírito íntimo. Se continuarmos a lançar um olhar ao destino gurou a execução de um plano que, em primeiro lugar, era de signi- destas figuras histórico-mundiais, nascidas para agentes do Espirito ficado negativo a Autocracia de Roma foi contudo ao mesmo verificamos que não foi destino feliz. Não encontraram satis- tempo uma característica necessária na história de Roma fação calma; toda a sua vida foi de labor e inquietação; toda a sua natu- e do mundo. Não foi, pois, apenas seu lucro particular, mas um reza nada mais foi do que a sua paixão dominante. Quando atingem impulso inconsciente que motivou a realização daquilo para que a o seu objectivo, desprendem-se, como as cascas vazias caem do fruto. época estava pronta. Assim são todas as grandes individualidades Morrem cedo, como Alexandre; são assassinados, como César; exilados históricas cujos fins particulares envolvem os vastos caminhos que para Santa Helena, como Napoleão. constituem a vontade do Espírito cósmico. Pode-se chamar-lhes Esta temerosa consolação a de os homens históricos não terem na medida em que os seus fins e a sua vocação não os derivam tido o prazer do que se chama felicidade, e da qual só é do curso regular e calmo das coisas sancionadas pela ordem em vigor, a vida particular (e isto pode acontecer em circunstâncias externas mas sim de uma origem invisível que não chegou a aflorar a exis- muito variáveis) esta consolação podem buscá-la na história os que tência presente e daquele Espírito interior sempre têm necessidade dela; e é ambicionada pelo Desejo excitado pelo oculto sob a superfície, que, embatendo no mundo exterior como grande e transcendente que, portanto, se esforça por apoucá-la e numa concha, desfaz em pedaços, por não ser conteúdo adequado encontrar nela alguma falha. Assim, tem-se demonstrado nos tempos modernos, ad nauseam, que os são geralmente infelizes nos a essa concha. São, pois, homens que parecem arrancar de si mesmos seus tronos, em vista do que se tolera a posse de um trono e os homens impulso da vida, e cujos feitos produziram uma nova ordem de coisas concordam em que sejam não eles mesmos mas as personalidades em e um complexo de relações históricas que parecem ser apenas sell causa os seus ocupantes. O Homem Livre, podemos observar, não próprio interesse e obra sua. inveja; antes reconhece com satisfação o que é grande e elevado e muito Tais indivíduos não tinham consciência da Ideia geral que desdo- se alegra com a sua existência. bravam enquanto prosseguiam os objectivos deles; pelo contrário, É à luz destes elementos comuns, que constituem interesse e, eram homens práticos, políticos. Mas ao mesmo tempo eram homens portanto, as paixões dos indivíduos, que se deve considerar estes homens de pensamento, com apreensão das necessidades da época que históricos. São grandes homens porque souberam querer e realizaram estava maduro para a colheita. Esta era a verdade autêntica para a sua algo de grande; não uma simples fantasia ou mera intenção, mas aquilo época e para seu mundo; a forma que devia seguir-se, por assim que era adequado e de acordo com as necessidades da época. Este dizer, e que já estava engendrada no ventre do tempo. Cabia-lhes modo de os considerar também exclui chamado ponto de vista conhecer este princípio emergente; passo necessário e imediatamente que servindo muito eficazmente ao objectivo da ambi- subsequente no progresso, que seu mundo ia dar; e fazer desse passo ção pretende assim referir todas as acções ao coração para as colocar seu objectivo e despender toda a energia em promovê-lo. As individua- sob aspecto subjectivo, pelo qual os seus autores parecem ter feito lidades histórico-mundiais os Heróis de uma época devem por- tudo sob impulso de alguma paixão, mesquinha ou grandiosa um tanto ser reconhecidos como os seus filhos de mais ampla visão; as veemente desejo e não terem sido criaturas morais devido suas acções, as suas palavras, são as melhores desse momento. Os gran- a estas e obsessões. Alexandre da Macedónia subjugou parcial- des homens conceberam os seus objectivos para se satisfazer a si mesmos, mente a Grécia e depois a Ásia; portanto estava dominado por um não a outros. Quaisquer que fossem os planos e conselhos sensatos desejo mórbido de conquista. Afirma-se que ele agiu movido por uma aprendidos de outros, esses seriam os traços mais limitados e inconsis- exigência de fama e conquista. E a prova de que eram estes os motivos tentes da sua carreira, pois foram eles quem melhor apreendeu os assun- impulsores é que ele fez aquilo que o tornou famoso. Qual peda- tos, e foi deles que os outros aprenderam e cuja política aprovaram gogo que não demonstrou quanto a Alexandre Magno ou César ou pelo menos Porque que deu este novo passo que foram instigados por tais paixões, e eram, por consequência, cria- na história é mais profundo da alma de todos os indivíduos, mas turas imorais? Donde se segue imediatamente a conclusão de que ele,</p><p>78 A Interpretação do Processo Histórico HEGEL / História 79 pedagogo, é melhor que eles, pois não está sujeito a tais prova disso está no facto de ele não conquistar a Ásia, vencer Dario abandonados. A Ideia paga a pena da existência limitada e da corrupti- bilidade, não de si mesma mas das dos indivíduos (...) e Poro, mas antes, enquanto goza a vida, deixa que os outros a gozem Ao contemplarmos a parte que cabe, na história, à virtude, à mora- também. Estes psicólogos gostam especialmente de contemplar nas lidade e até à piedade, não devemos cair num coro de lamentações: grandes figuras históricas as singularidades que lhes pertencem enquanto que os bons e piedosos muitas vezes ou na maior pro- seres particulares. O homem tem de comer e beber; mantém relações gridem no mundo, enquanto os mal intencionados e os maus pros- com amigos e conhecidos; tem impulsos passageiros e explosões de peram. O termo prosperidade usa-se numa quantidade de sentidos: temperamento. homem é herói para seu criado de quarto riquezas, honras exteriores, e coisas idênticas. Mas falando daquilo é um provérbio bem conhecido. Eu acrescentei e Goethe repetiu-o que em si e por si mesmo constitui um objectivo da existência, cha- dez anos depois: não porque o primeiro não seja herói, mas porque mado bom ou mau sucesso destes ou daqueles indivíduos isolados segundo é criado de Ele as botas ao herói, não pode ser considerado elemento essencial na ordem racional do a deitar-se, sabe que ele prefere champanhe, etc. As personagens his universo. tóricas servidas na literatura histórica por estes criados de quarto Com mais justiça do que felicidade ou um ambiente favorável logos emergem bem empobrecidos. São rebaixadas por estes seus para os indivíduos exige-se alvo da existência do mundo criados ao nível, ou, antes, alguns degraus abaixo do nível da moral que ele acalente, ou antes que envolva a execução e confirmação dos destes requintados esmiuçadores de espíritos. O Tersites de Homero fins bons, morais e justos. O que torna os homens moralmente descon- que maltrata os reis é uma figura dominante de todos os tempos. Gol- tentes (um descontentamento, incidentalmente, de que se orgulham pes, isto é, pancadas com sólido bastão, não os apanha em qualquer um tanto) é não acharem presente adaptado à realização dos objecti- época como na homérica. Mas a sua ambição, seu egotismo, vos que eles têm como rectos e justos (sobretudo nos tempos moder- espinho que tem de transportar na carne; e verme imortal que nos, os ideais das constituições políticas). Contrastam mente as coisas como elas são com a sua ideia das coisas como deviam é a ideia angustiosa de que as suas excelentes opiniões e vitu- périos permanecem sem o menor resultado no mundo. Mas a noss ser. Neste caso não se trata de interesse particular ou paixão que deseje satisfação com o destino do tersitismo também talvez tenha o recompensa, mas de Razão, Justiça, E revestida deste título, lado a exigência em causa assume um ar sobranceiro e toma prontamente uma posição não apenas de descontentamento mas de revolta aberta Uma personagem histórico-mundial não tem tão pouco senso que contra estado de coisas vigente no mundo. Para avaliar tal senti- se permita uma variedade de desejos que dividam a sua atenção. mento e tais opiniões com justiça tem de se examinar as exigências sagra-se ao seu Objectivo Único sem atender a nada mais. É mesmo em que se insistiu e as bem dogmáticas opiniões declaradas. Em possível que tais homens tratem outros grandes e mesmo sagrados nenhuma outra época como na nossa esses princípios e noções gerais interesses, sem lhes prestarem a devida atenção, conduta que é progrediram tanto ou com segurança maior. Se em tempos idos a his- vamente de repreensão moral. Mas um complexo tória parece apresentar-se como uma luta de no nosso tempo poderoso tem de esmagar muitas flores inocentes, despedaçar muitos objectos no seu O interesse especial da paixão é desta form apesar de não faltarem manifestações disso apresenta em parte um predomínio da luta de noções que assumem a autoridade de prin- do desenvolvimento activo de um princípio geral, porque cípios, em parte o de e interesses essencialmente subjectivos, é do especial limitado e da sua negação que resulta Universal. último defendidas como legítimas em nome do que se declarou sob o fim mas sob a máscara dessas sanções mais elevadas. As pretensões assim Não ticularidade luta com seu e dai resulta alguma a ideia geral que está envolvida em oposição e luta, e forma da Razão, passam, portanto, por fins absolutos da mesma chamar ao perigo. a isto Ela permanece no background, inatingida e ilesa. mais que a a Moral, a Como já se notou, nada é hoje enquanto ardil da razão dispõe as paixões em seu não se comum que a queixa de que os ideais que a imaginação ergue paga pena aquilo e sofre que the o desenvolve a existência por meio de tal realidade. efectivam Estes Ideais que estes sonhos são destruídos pela fria é é positiva tratado, e do qual particular uma parte não Pois tem é qualquer um ser fenomenal valor e outra que da realidade podem que em na primeiro viagem da lugar vida ser se afundam apenas subjectivos nas rochas é comparado com geral: na sua maior individuos parte de são valor sacrificados pertencer à natureza do indivíduo que se imagina o melhor e mais</p><p>80 A Interpretação do Processo Histórico HEGEL / História 81 sábio. Esses não pertencem a esta categoria. Porque fantasias em que o indivíduo no seu isolamento se deleita não podem Porque a Razão é a compreensão da obra Divina. Mas no que servir de modelo para a realidade universal, da mesma forma que a lei diz respeito à perversão, corrupção e dos objectivos religiosos, universal não é planeada para as unidades da massa. Estas, como éticos e morais, e dos estados da sociedade em geral, tem de se afir- podem até ver os seus interesses definitivamente lançados para plano mar que estes, na sua essência, são infinitos e eternos, mas as for- secundário. Mas pelo termo também entendemos ideal da mas que revestem podem ser de ordem limitada e consequentemente Razão, do Bem, da Verdade. Poetas como Schiller pintaram esses pertencer ao domínio de simples natureza, estar sujeitas às flutuações de forma tocante e com forte emoção, e com a convicção profunda. do acaso. São portanto perecíveis, e estão expostos à decadência e à mente melancólica de que não podiam ser realizados. Ao corrupção (...) pelo contrário, que a Razão Universal de facto se realiza a ela mesma, temos que ver com o indivíduo considerado empiricamente [A terceira questão a ser discutida é problema da natureza do Isso admite degraus de melhor e pior, uma vez que acaso e o fim a que a história, concebida como um processo racionalmente orde- cular receberam da Ideia autoridade para exercer seu monstruoso nado, conduz. poder. Por conseguinte há muita crítica a fazer a aspectos de pormenor A efectivação deste fim encontra-se no Estado.] do grande fenómeno. Esta subjectiva hipercrítica que, contudo, apenas tem em vista indivíduo e a sua deficiência, sem tomar O Estado como Fim da História. O terceiro ponto a analisar é, portanto, qual objectivo a alcançar-se com estes meios. Quer dizer, cimento da Razão que impregna o todo é fácil; tanto quanto afirma qual a forma que ele reveste nos domínios da realidade. Falámos de uma intenção excelente em relação ao bem do todo e parece ser produto meios. Mas na realização de um objectivo subjectivo e limitado, também dum bondoso coração, sente-se autorizada a dar-se ares de assumir devemos ter em consideração um elemento material, já presente ou grande importância. É mais fácil descobrir faltas nos indivíduos, que tem de se obter. Assim surgiria a pergunta: em que material se nos estados ou na Providência, do que ver seu verdadeiro valor concretiza Ideal da Razão? A Resposta elementar seria a própria importância. Porque nesta hipercritica puramente negativa toma-se Personalidade os desejos humanos a Subjectividade em geral. uma posição de orgulho uma posição que passa por alto objecto, No conhecimento e na vontade humanos, como seu elemento material, sem nele ter penetrado sem ter abarcado seu aspecto a Razão alcança existência positiva. Considerámos a vontade subjec- A idade geralmente torna os homens mais tolerantes; a juventude tiva nos casos em que tem um objecto que é a verdade e essência de sempre impaciente. A tolerância da idade é resultado da maturidade uma viz., nos casos em que constitui uma grande paixão de um critério que, não apenas como resultado da indiferença, se satisfaz Como vontade subjectiva, ocupada com paixões mesmo com o que é inferior, mas que, ensinado mais profundamente limitadas, é dependente, e só pode satisfazer os seus desejos dentro dos pela experiência séria da vida, foi levado a apreender o valor real e firme limites desta Mas a vontade subjectiva também tem uma do objecto em causa. Portanto a agudeza a que em contraste vida substancial uma realidade dentro da qual se move na região com esses ideais a filosofia nos conduz, é que mundo real é como do ser essencial, e tem próprio essencial como objecto da sua existência. devia ser que o verdadeiramente bom a divina razão Este ser essencial é a união do Querer subjectivo com não é mera abstracção mas antes um princípio vital capaz de se Todo moral, Estado, que é a forma de realidade em que indivíduo -realizar. Este Bom, esta Razão, é, na sua forma mais concreta, do tem a sua liberdade e a goza, mas com a condição de reconhecer, acre- ditar e querer aquilo que é comum ao Todo. E não se deve isto entender Deus dirige A acção real da sua direcção a execução seu plano é a História do Mundo. A filosofia esforça-se por com seu como se a vontade subjectiva da unidade social alcançasse a sua-reali- zação e através desta vontade como se isto fosse preender este plano, porque só o que se tem desenrolado como ele um meio concedido para seu benefício; como se indivíduo, nas suas efeito possui realidade bona fide. O que não está de acordo com relações com os outros, limitasse assim a sua liberdade, a fim de que existência negativa e Perante a luz pura desta Ideia divina mundo esta limitação universal constrangimento mútuo de todos asse- não é mero Ideal desaparece por completo fantasma de um for gurasse rio, um pequeno espaço de liberdade para cada um. Pelo contrá- cujos acontecimentos são um curso incoerente de circunstâncias tuitas. A filosofia deseja descobrir significado real, lado verdadeiro dade afirmamos que a Lei, a Moral e Governo, e só eles, são a reali- e acabamento positivos da A Liberdade de uma ordem da ideia divina, e justificar a tão desprezada Realidade das coisas.</p><p>82 A Interpretação do Pensamento Histórico HEGEL / História Filosófica 83 mesquinha e limitada é um mero capricho que se realiza na desejos privativos e limitados. fica excluído, e ainda menos avança para além dela. Este Ser espiritual Na história do Mundo apenas podem atrair a nossa atenção (o do seu Tempo) é seu; é um representante dele; é aquilo em povos que constituem um estado. Porque é preciso compreender que é originado e no qual vive. Entre os Atenienses a palavra Atenas este representa a realização da Liberdade, isto é, do objectivo último tinha um sentido duplo, sugerindo em primeiro lugar um complexo de absoluto, e que existe apenas para a assegurar. Além disso deve-se instituições políticas, mas não menos, em segundo lugar, a Deusa que preender que tudo que ser humano tem de valioso, toda a realidade representava Espírito do Povo e a sua unidade... espiritual, ele possui apenas por intermédio do Porque A observação a seguir é que cada génio nacional deve ser tratado realidade espiritual consiste em a própria essência do ser apenas como um indivíduo no processo da História Universal. Porque a Razão estar objectivamente presente nele, ter para ele existência essa história é a manifestação do desenvolvimento divino, absoluto, objectiva imediata. Só assim ele é plenamente só assim ele do Espírito nas suas formas mais elevados a gradação pela qual ele atinge a sua verdade e a consciência de si mesmo. As formas que estes participa na moralidade numa vida social e política justa e moral graus de progresso assumem são os característicos Porque a Verdade é a Unidade da Vontade universal e subjectiva. da História; curso peculiar da sua vida moral, do seu governo, Arte, E Universal encontra-se no Estado, nas suas leis, nas suas disposições Religião e Ciência. A realização de estes graus é objectivo do ilimi- universais e O Estado é a Ideia Divina, como ela existe tado impulso do Espírito Cósmico a meta da sua pressão terra. Nele temos, portanto, objectivo da História de forma mais porque a sua Ideia é esta divisão em membros orgânicos pleno desen- definida que antes: a forma em que a Liberdade alcança objectividade volvimento de cada um. A História Universal ocupa-se exclusivamente e vive na satisfação desta objectividade. Porque a Lei é a objectividade em mostrar como chega a um conhecimento e adopção da do Espírito; a vontade na sua forma verdadeira. Apenas querer que verdade: surge a alvorada do conhecimento, começa a descobrir prin- obedece à lei é livre; porque obedece a si mesmo independente cípios eminentes e por fim atinge a consciência portanto livre. Quando o Estado ou nosso país constitui uma nidade de existência, quando querer subjectivo do homem se [Na última parte da sua Introdução Hegel sugere que se pode esta- às leis, desaparece a contradição entre a Liberdade e a Necessidade belecer distinção entre estudo de certos fenómenos naturais e estudo Racional tem existência necessária, na medida em que é realidade da história, comparando as diferentes implicações que os conceitos de substância das coisas, e temos a liberdade de reconhecer como mudança e desenvolvimento têm nos dois contextos. Enquanto os de o seguir como substância do nosso próprio ser. O querer objectivo organismos naturais se desenvolvem e transformam de forma cega e e subjectivo então reconciliam-se e apresentam um todo inconsciente, isso não acontece no caso dos fenómenos históricos, que são as expressões do espírito autoconsciente e autodeterminante. Desta Resumindo que se disse acerca do Estado, vemos que fomos forma Hegel parece em parte estabelecer princípio de que é errado levados a chamar ao seu princípio vital, enquanto move os indivíduos transferir para a história, sem alterar, processos e conceitos válidos nas ciências naturais: assunto da história exige as suas formas que compõem O Estado, as suas leis, os seus planos constituem os direitos dos seus membros; as suas características especiais de representação e São estas que Hegel tenta descrever. as suas montanhas, ar e águas, são sell país, a sua a sua proprie dade material externa; a história deste Estado, os feitos; que seus antepassados realizaram pertence-lhes e vive na sua Mudança Desenvolvimento Tudo é propriedade deles, exactamente como eles são por isso, porque isso constitui a sua existência, seu A sua princípio do desenvolvimento envolve também a existência de ção está ocupada pelas ideias assim apresentadas, ao mesmo tempo um germe latente de ser uma capacidade ou potencialidade que luta a adopção destas leis e de uma pátria assim condicionada é a para se realizar. Esta concepção formal encontra existência real no do seu É esta totalidade amadurecida que assim Espirito, que tem por teatro a História do Mundo, seu e Ser, o de Os membros individuais campo de Não é de natureza a poder ser sacudido de um para outro lado por entre o jogo superficial dos antes cada unidade é Filho da sua Nação, e ao mesmo tempo que o Estado a que pertence evolui é Filho da sua</p><p>84 A Interpretação do Processo Histórico juiz absoluto das coisas, inteiramente indiferente a contingências, pelo contrário, ele adopta e maneja para os seus próprios fins. O que volvimento, contudo, é também uma propriedade de objectos organizados. A existência destes apresenta-se não como existência exclusivamente dependente, sujeita a transformação externa, mas sim como existência que se expande em virtude de um princípio imutável. Uma simples essência cuja existência, isto é, germe, é mente simples, mas que desenvolve subsequentemente uma quantidade de partes diferentes que se envolvem com outros objectos, e vivem consequentemente através de um processo contínuo de um processo que, não obstante, resulta no próprio contrário de mação e se torna mesmo uma vis conservatrix do princípio orgânico e da forma que corporiza. Assim individuum organizado produz-se a si mesmo; expande-se realmente, no que foi sempre Desta forma o Espírito é apenas aquilo que atinge pelos seus próprios a si mesmo se faz na realidade, aquilo que sempre foi em potência. Esse desenvolvimento (o de organismos naturais) verifica-se de forma sem oposição nem Entre a Ideia e a sua realização - a consti- tuição essencial do germe original e a conformidade com ele da exis- tência que dele deriva nenhuma influência perturbadora se pode introduzir. Mas em relação ao espírito é outra coisa muito A realização da sua Ideia é medida pela consciência e pela vontade Estas mesmas faculdades estão, em primeiro lugar, mergulhadas na sua vida primária meramente natural. O primeiro objecto e finalidade dos seus esforços é a realização do seu destino meramente natural, mas que, uma vez que é Espírito que anima, contém amplas e mostra grande poder e riqueza Assim Espírito está en guerra consigo mesmo. Tem de se vencer como seu mais formidáve Esse desenvolvimento, que, na esfera da Natureza, é um mento pacífico, na do Espírito é um conflito severo e poderoso consigo mesmo. Aquilo por que o Espírito realmente realização do seu ser mas ao esconde esse se esforça é a própri visão, A e fica orgulhoso e bem satisfeito neste alienar-se objectivo dele. da sua firme do simples como o da vida orgânica, a tranquilidade inofensiv acção sua expansão, portanto, não apresenta concepção resistência formal contra de si Além disso, não mas apresenta uma a men resultado O mas sim a obtenção de un é na sua objectivo a atingir já a Este é objectivo na sua natureza essencial, quer dizer princípio ele obtém orientador significado do e desenvolvimento fundamental. aquele e portanto por meio também do qua</p><p>HEGEL / História Filosófica 85 A história universal como já se demonstrou mostra o desen- volvimento da consciência de Liberdade por parte do Espírito e da consequente realização dessa Liberdade. Este desenvolvimento implica uma graduação uma série de expressões ou manifestações de Liber- dade cada vez mais adequadas, que resultam da sua Ideia. A natureza lógica e ainda mais importante da Ideia em geral, quer dizer, que se determina a si mesma que reveste formas sucessivas que sucessivamente transcende; e por este mesmo processo de transcender os seus primitivos graus, adquire uma forma afirmativa e, de facto, mais rica e concreta esta necessidade da sua natureza, e a série neces- sária de puras formas abstractas que a Ideia sucessivamente fica exposta na secção da Lógica. Aqui precisamos apenas de aceitar um dos seus resultados, isto é, que cada passo do processo, diferindo de qualquer outro, tem o seu princípio determinado e próprio. Em his- tória este princípio é idiosincrasia do Espirito Génio Nacional característico. É dentro das limitações desta idiosincrasia que espi- rito da nação, concretamente manifestado, exprime todos os aspectos da sua consciência e vontade todo o ciclo da sua realização. A sua governo, moral, legislação, e mesmo a sua ciência, arte e capa- cidade mecânica, todos têm a sua marca. Estas características especiais têm a sua explicação nessa peculiaridade comum princípio espe- cial que caracteriza um povo, como, por outro lado, se pode descobrir esse princípio característico comum nos factos que a História apresenta em pormenor. É o espirito concreto de um povo que temos de reconhecer dis- tintamente, e desde que é Espirito, só pode ser compreendido espiri- tualmente, isto é, pelo pensamento. É ele que tem a primazia em todas as acções e tendências desse povo, e se ocupa em realizar-se em satis- fazer o seu ideal e tornar-se autoconsciente porque a sua grande função é produzir-se a si mesmo. Mas para o espirito a mais alta rea- lização é o conhecimento de si mesmo, um avanço em relação não só à intuição mas também ao pensamento a concepção clara de si mesmo. Isto deve ele conseguir e a isso está também Mas essa obten- ção é ao mesmo tempo a sua dissolução, e o surto de outro de outro povo histórico-mundial, de outra época da História O espirito consumindo o da sua existência não passa simplesmente para novo invólucro nem se ergue rejuvenescido das cinzas da sua forma anterior. Emerge enaltecido, glorificado, um mais puro. É certo que ele luta consigo mesmo consome a sua própria existência; mas nesta mesma destruição transforma essa existência numa nova forma, e cada fase sucessiva torna-se por sua vez uma matéria sobre a qual ele transcende a um novo nível. Se conside- o sob este aspecto encarando as suas transformações</p><p>A Interpretação do Processo Histórico HEGEL / História Filosófica 87 ão apenas como transições remocadoras, isto é, regressos à mesm mas antes como automanipulações pelas quais ele secas e O seu ser real. Atingiu realidade plena, colocou-se perante orma, material para futuros esforços vemo-lo empenhando-se numa varie ela objectivamente. Mas uma vez isto atingido, a actividade exibida lade de modos e direcções, desenvolvendo variedade inesgotável, os seus porque poderes cada e satisf pelo do povo em causa já não é precisa. Obteve seu desejo. A Nação pode ainda realizar muito na guerra e na paz, aquém e além endo os seus desejos em que numa ele já encontrou satisfação, lhe vai de fronteiras. Mas a alma viva e substancial, essa pode-se dizer que ces- to las encontro suas criações, como material e é um novo estímulo para actividade nov sou a sua actividade. O interesse essencial e supremo desapareceu ica. A concepção abstracta de simples transformação dá lugar an consequentemente da sua vida, pois O interesse só está presente onde pensamento do que manifesta, desenvolve e aperfeiçoa seu há oposição poderes em todas as direcções que a sua múltipla natureza pode seguir Da variedade de produtos e formações que origina ficamos a Já discutimos O objectivo final desta progressão. Os princípios os poderes que lhe são inerentes. Nesta actividade aprazível ele só tem das fases sucessivas do Espírito que anima as Nações numa graduação que ver consigo mesmo. Quando envolvido em condições de men obrigatória são, eles mesmos, simples passos no desenvolvimento de um universal que através deles se eleva e completa numa tota- natureza internas e externas encontrará nelas não só oposição lidade que a si mesma se abrange. mas também muitas vezes verá por isso os seus esforço Enquanto estamos assim exclusivamente interessados na Ideia de falhar, frequentemente afundar-se nas complicações em que é e na História do Mundo consideramos tudo apenas como ou pela Natureza ou por si mesmo. Mas em tal caso socobra na manifestação dele, só temos que ver, ao percorrer passado por lização do seu próprio destino e verdadeira função, e mesmo assin extensos que sejam os seus com que é presente. Pois a apresenta espectáculo de auto-exibição como actividade espiritual filosofia, na medida em que se ocupa do verdadeiro, tem que ver com A própria essência do Espírito é a actividade. Realiza a sua caps O eternamente presente. Nada no passado se acha perdido para ela, pois cidade faz-se acção e trabalho de si mesmo e assim se torna object a ideia é omnipresente. O é imortal; para ele não há passado para si próprio, e se contempla como uma existência objectiva. Assim nem futuro, mas um agora essencial. Isto implica que sucede com O dum povo: é um de a forma presente do Espírito compreende dentro dela todas as fases rigorosamente definidas que se ergue num mundo objectivo, que anteriores. Na verdade estas desenrolaram-se em sucessão indepen- e persiste numa forma religiosa especial de adoração, costumes, dentemente. Mas que é, foi-o sempre tuição e leis políticas no complexo integral das suas instituições- As distinções são apenas desenvolvimento desta natureza essencial. através dos sucessos e negociações que compõem a sua história. A vida do omnipresente é um círculo de corporizações pro- é seu trabalho isso é que esta Nação As Nações são o gressivas que, olhadas de um ângulo, existem junto umas das outras, os seus Todo dirá: os homens que e só quando consideradas sob outro ponto de vista surgem como pas- o oceano, detêm comércio do mundo, e a quem pertencem as sado. Os níveis que parece ter deixado para trás, ainda os Orientais e as respectivas riquezas; os homens que têm contém nas profundezas do seu presente. A relação entre indivíduo e esse é que ele apropria desta existência substancial e se torna seu carácter e [Nestes extractos torna-se clara a imagem hegeliana do desenvol- cidade, permitindo-lhe assim ter um lugar definido no mundo vimento As nações crescem e morrem, mas morrendo pro- Porque ele já encontra ser do povo a que pertence ao mesmo tempo nascimento de algo A realização mundo estabelecido e firme que lhe é objectivamente presente do ou destino particular de uma nação é também (Hegel no qual tem de se integrar. Neste seu trabalho, portanto sugere-o num passo assás macabro) fruto que por fim a envenena. mundo Espirito do povo goza a sua existência e encontra Mas ao aniquilar-se a si mesma a nação vida a um novo princípio Uma Nação é moral, virtuosa, vigorosa, enquanto emp que se manifesta na vida de um novo povo. Por meio deste movimento nhada na efectivação dos seus grandes objectivos defende o seu a natureza humana revela-se em formas de vida e experiência em permanente O reconhecimento da variedade essencial balho seus contra a violência externa enquanto durar e processo de dar manifestada pelo desenvolvimento humano é tanto uma condição entre designios seu ser uma existência objectiva. Fica removida a prévia da verdadeira compreensão histórica como reconhecimento do potencial, subjectivo a sua finalidade e vida</p><p>A Interpretação do Processo Histórico 89 88 COMTE modelo lhe subjaz. A insistência de Hegel neste ponto contrastar que com a crença num carácter humano imutável, com pode-se capaci. dades e necessidades fixas, que estava implícito em grande parte do ciosa pensamento do século dezanove. Tal como da história um e trajectória da sua especulação produziu uma funda Condorcet impressão pensamento antropológico dos séculos e 18]. Saint-Simon, prático pelos problemas de organização estudo e da socie- sobre o Comte associou uma teoria progressista social política; a de discorra Estado E interesse acalentou ideal de aplicar método cientifico ao deles. dade e de uma maneira ainda mais radical e incondicional do que a historia no sentido comtiano, restringe domínio do se as conhecimento aos fenómenos e às relações entre fenómenos; não pode- conhecer que está para além da experiência, e as reivindicações mos metafísicas quanto ao conhecimento de inobserváveis reais de finais são pretensões sem qualquer garantia. O modelo e de investigação, em todas as esferas, deve portanto ser dos processos COMTE (1798-1857) adoptados pelas ciências empíricas particulares, cujo único objectivo (na opinião de Comte) é descobrir as regras que governam a sucessão e a coexistência dos fenómenos. A aplicação de tais métodos aos fenó- menos históricos e sociais constituía programa daquilo a que Comte AUGUSTO COMTE nasceu em Montpellier, filho de um cobrador geral chamou de impostos monarquico e católico. Com uma preparação de mate. É na segundo Comte, que culmina movimento mático, foi para a Polytechnique de Paris e, em 1817, tornou-se histórico pelo sucessivo aparecimento da matemática, da secretário de Saint-Simon com quem colaborou em várias publicações astronomia, da física, da química e da biologia como antes de se terem incompatibilizado pouco antes da morte de Saint-Simon Acontece ainda que este desenvolvimento geral do conhecimento cien- em 1825. Comte, que já se familiarizara com a obra de Montesquieu faz parte, por sua vez, de um processo evolutivo. A famosa de Condorcet, depressa apreendeu as ideias de Saint-Simon e absorveu dos três estados>>, que Comte considerou uma descoberta de importância rápidamente a sua visão progressiva da história e seu projecto de primacial, descreve humano em função da sua passagem por reorganização da sociedade sob a direcção de um escol de cientistas, três estados e Deste modo, artistas empresários. Depois de um período de aguda crise financeira seu projecto de interpretação dos fenómenos sociais sob forma cien- e psicológica em que Comte fez que pôde dando lições e cola- tifica era considerado por ele como justificado, de certo modo, pela borando, esporádicamente, em jornais apareceu, em 1830, o primeiro própria era a consequência inevitável de uma lei histórica volume da sua obra principal, Cours de Philosophie Positive cujo sexto último volume só foi publicado doze anos mais tarde. Durante Comte tem sido criticado por muitas razões. Tem-se objectado este tempo Comte manteve uma prolongada correspondência com John que a sua caracterização dos processos sofre de vários defeitos; Stuart Mill. Mill ficou vivamente impressionado com as ideias gicas de Comte e empenhou-se bastante por conhe- que, conceitos por exemplo, não avaliou completamente tipo de papel que os teóricos desempenham na explicação e previsão cidas do público através da Westminster Review. Fez também e, e ainda, que era capaz de usar termos como em sentido impreciso que para prestar auxilio financeiro, a despeito do facto de que parece considerado tal apoio como algo devido a um buição ambiguo. Tem-se argumentado, também, que a sua própria contri- samente final para estudo da sociedade surge como uma mistura, curio- grande homem se ter conduzido com uma singular falta de politique ao longo da A obra derradeira de Comte, o Système analogias acientifica, de vagas generalizações históricas, de deslocadas positive, foi publicada entre 1852 e em volumes, progresso biológicas e de uma crença quase na necessidade do tendo último aparecido anos antes da Contudo, não pode haver dúvidas de Arrogante Comte disposição morte 1854, do seu quatro espirito autor. certas metodológicas que exerceram que Comte e com uma de pouco sua sobre os dos sociólogos e historiadores uma ideia, subsequentes: poderosa generosa, cheias de não cra uma figura enormes obras, de por exemplo, de que sociedade humana tornam-se hoje bem penosas e as de suas ler. Mas a investigação cientifica como a qualquer outro, a constitui ser compreendido um objecto à</p><p>COMTE 89 ciosa trajectória da sua especulação produziu uma funda impressão sobre pensamento do século dezanove. Tal como Condorcet e Saint-Simon, Comte associou uma teoria progressista da história a um interesse prático pelos problemas de organização social e e acalentou ideal de aplicar método ao estudo da socie- dade de uma maneira ainda mais radical e incondicional do que a deles. no sentido comtiano, restringe domínio do conhecimento aos fenómenos e às relações entre fenómenos; não pode- mos conhecer que está para além da experiência, e as reivindicações metafísicas quanto ao conhecimento de inobserváveis reais e de finais são pretensões sem qualquer garantia. O modelo de investigação, em todas as esferas, deve portanto ser dos processos adoptados pelas ciências empíricas particulares, cujo único objectivo (na opinião de Comte) é descobrir as regras que governam a sucessão e a coexistência dos fenómenos. A aplicação de tais métodos aos fenó- menos históricos e sociais constituía programa daquilo a que Comte chamou É na segundo Comte, que culmina movimento histórico constituído pelo sucessivo aparecimento da matemática, da astronomia, da física, da química e da biologia como Acontece ainda que este desenvolvimento geral do conhecimento cien- tífico faz parte, por sua vez, de um processo evolutivo. A famosa lei dos três estados>>, que Comte considerou uma descoberta de importância primacial, descreve espírito humano em função da sua passagem por três estados e Deste modo, o seu projecto de interpretação dos fenómenos sociais sob forma cien- era considerado por ele como justificado, de certo modo, pela própria era a consequência inevitável de uma lei histórica Comte tem criticado por muitas razões. Tem-se objectado que a sua caracterização dos processos sofre de vários defeitos; que, por exemplo, não avaliou completamente tipo de papel que os conceitos teóricos desempenham na explicação e previsão científicas, e, ainda, que era capaz de usar termos como em sentido impreciso e ambíguo. Tem-se argumentado, também, que a sua própria contri- buição final para estudo da sociedade surge como uma mistura, curio- samente de vagas generalizações históricas, de deslocadas analogias biológicas e de uma crença quase mística na necessidade do progresso intelectual. Contudo, não pode haver dúvidas de que Comte certas sugestões metodológicas que exerceram uma poderosa influência a sobre os espíritos dos sociólogos e historiadores subsequentes de sua ideia, por exemplo, de que a sociedade humana constitui um objecto investigação como qualquer outro, a ser compreendido à</p><p>A Interpretação do Processo Histórico 90 COMTE / A Filosofia Positiva e Estudo da Sociedade 91 de leis verificáveis em correlação com e luz isto a sua reivindicação de uma em em derada no seu conjunto: pois nenhuma concepção pode ser conhecida conexão fisiológicos, com dos chamados fenómenos ou mentais a não ser pela sua história. mos Também são dignas de relevo a sua perspectiva colectivista na Ao estudar, assim, desenvolvimento total da inteligência humana social, ou grupo, é tratado como dado fundamental da qual nas suas diversas esferas de actividade, desde seu primeiro e mais sociológica o e a sua convicção de que a actuação das forças simples até aos nossos dias, creio ter descoberto uma grande lei intelectuais constitui a verdadeira determinante da fundamental, à qual ele está sujeito por uma necessidade invariável e histórica, e uma vez que a eficiência da legislação e da iniciativa politica que me parece estar estabelecida, quer sobre as provas são consideradas dependentes do grau em que se adaptam a tais forças racionais fornecidas pelo conhecimento da nossa organização, quer sobre as verificações históricas resultantes de um exame atento do As semelhanças entre algumas das doutrinas de Comte e as de Marr são óbvias; mais perturbadoras se se tem em conta a diferença entre principais, cada ramo dos nossos conhecimentos, passa sucessivamente passado. Esta lei consiste em que cada uma das nossas concepções os respectivos pontos de vista globais são as semelhanças com por três estados teóricos diferentes estado teológico ou fictício; certas das ideias de Hegel. estado metafísico ou abstracto; estado ou positivo. Por outras palavras, o espírito humano, pela sua natureza, emprega suces- sivamente, em cada uma das suas investigações, três métodos de filoso- far cujo carácter é essencialmente diferente e mesmo radicalmente oposto primeiro método teológico, depois método metafísico e, finalmente, método positivo. Daí, três espécies de filosofia ou de sistemas gerais I. A Filosofia Positiva e o Estudo de concepção sobre conjunto dos fenómenos, que se excluem da Sociedade mente: a primeira é ponto de partida necessário da inteligência humana; a terceira, é seu estado fixo e definitivo; a segunda é únicamente des- tinada a servir de transição. Os Três Estádios do Progresso Humano No estado espírito humano, dirigindo essencialmente as suas investigações para a natureza íntima dos seres, para as causas Para explicar convenientemente a verdadeira natureza e carácter primeiras e finais de todos os efeitos que afectam, numa palavra, para próprio da filosofia positiva é indispensável lançar primeiro um os conhecimentos absolutos, imagina os fenómenos como um produto de vista geral sobre a marcha progressiva do humano, da acção directa e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias apa- rentes do Os extractos desta selecção foram tirados do Cap. I do Vol. I do No estado metafísico, que, no fundo, não é mais do que uma Cap. III do Vol. II da tradução, por Harriet Martineau, do Cours de simples modificação geral do primeiro, os agentes naturais são subs- positive de Comte, que foi publicado sob título de The Positive of tituídos por forças abstractas, verdadeiras entidades (isto é, abstracções (P. Gardiner). personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidos Esta tradução foi, todavia, feita e que, poupa ao leitor contacto penoso com a prolixidade do estilo de Comte, como capazes de engendrar por eles mesmos todos os fenómenos ao mesmo tempo, do conhecimento directo de um espirito laboriosamente observados, cuja explicação consiste, então, em atribuir a cada um a em propor, exaltar e desenvolver, através de todas as resistências de entidade correspondente. linguagem motivos feita, um novo método de interpretação do processo histórico. Por fim, no estado positivo, espírito humano, reconhecendo a 3 dução, de fidelidade histórica preferimos, pois, adoptar, como base da nossa impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a ori- texto na deuxième édition (com prefácio de E. Littré) do Cours gem e destino do universo e a conhecer as causas íntimas dos fenó- Philosophie Positive, Tome Premier, contenant Les Préliminaires généraux et la menos, para se consagrar únicamente à descoberta, pelo uso bem com- Sociale, Paris, 1864. Tome A cada contenant La Partie dogmatique de la binado do raciocinio e da observação, das suas leis efectivas, i. e., das diferentes extractos feitos por um Gardiner, dos títulos que encabeçam a tradução a inglesa, suas relações invariáveis de sucessão e de semelhança. A explicação dos volume, do Cf. número Cours da lição e das páginas correspondentes em à edição nota, francesa. (N. factos, reduzida então aos seus limites reais, nada mais é, doravante, de Philosophie Positive, ed. cit., Première Leçon, pp.</p><p>92 A Interpretação do Processo Histórico COMTE / A Filosofia Positiva e Estudo da Sociedade 93 que a ligação estabelecida entre os diversos fenómenos particulares alguns factos gerais cujo número tende, cada vez mais, a ser Esta revolução geral do humano pode, de resto, ser poh O sistema chegou à mais alta perfeição de que mente verificada hoje, de maneira bem evidente, se bem que indirecta, ao substituir pela acção providencial de um ser único ao considerar-se desenvolvimento da inteligência individual, sendo diverso das numerosas divindades independentes que tinham sido o ponto de partida necessariamente mesmo na educação do indivíduo ginadas primitivamente. Do mesmo modo, o último termo do e na da espécie, as diversas fases principais da primeira devem repre- metafísico consiste em conceber, em vez das diferentes entidades sentar épocas fundamentais da segunda. Ora não se lembra cada um Kant culares, uma única grande entidade geral, a natureza, considerada de nós, ao contemplar a sua própria história, que foi, sucessivamente, fonte única de todos os fenómenos. De modo semelhante, a quanto às suas noções mais importantes, teológico na infância, metafísico Ander na juventude e físico na sua maturidade? Esta verificação é fácil, hoje, do sistema positivo, para a qual ele tende sem cessar se bem que para todos os homens ao nível do seu século. seja muito provável que nunca venha a atingi-la seria o poder sentar-se todos os diversos fenómenos observáveis como casos ticulares de um único facto geral como, por exemplo, o da gravitação A Natureza da Filosofia Positiva Não é este o lugar para demonstrar especialmente esta lei mental do desenvolvimento do espírito humano e de lhe deduzir Vemos, pelo que fica dito, que carácter fundamental da filosofia consequências mais importantes. Trataremos directamente disso, com positiva está em considerar que todos os fenómenos se subordinam a toda a extensão conveniente, na parte deste curso relativa ao estudo dos leis naturais invariáveis cuja descoberta precisa e cuja redução ao menor fenómenos sociais Agora, apenas a considero para determinar, número possível são o fim de todos os nossos esforços, considerando com precisão, a verdadeira natureza da filosofia positiva, por como absolutamente inacessível e vazia de sentido, para nós, a inves- às outras duas filosofias que sucessivamente dominaram, até estes tigação daquilo a que se chama \causas, tanto primeiras como finais. últimos séculos, todo o nosso sistema intelectual. Quanto ao presente É inútil insistir muito num princípio que já se tornou tão familiar a a fim de não deixar inteiramente sem demonstração uma lei dessa impor todos os que fizeram um estudo um pouco aprofundado das ciências tância, cujas aplicações se apresentarão, frequentemente, em toda de observação. Todos sabem, com efeito, que nas nossas explicações extensão deste curso, devo limitar-me a uma indicação rápida dos positivas, mesmo nas mais perfeitas, de modo algum temos a pretensão de expor as causas que produzem os fenómenos dado que nada mais motivos gerais mais notórios que podem verificar-lhe a faríamos, nesse caso, do que recuar a dificuldade mas apenas analisar, Em primeiro lugar, basta, parece-me, enunciar tal lei para que com exactidão, as circunstâncias da sua produção e de as ligar umas sua justeza seja imediatamente verificada por todos os que têm às outras por relações normais de sucessão e de semelhança. conhecimento aprofundado da história geral das ciências. Nem Assim, para citar mais admirável dos seus exemplos, dizemos só existe, com efeito, das que já chegaram ao estado positivo, que os fenómenos gerais do universo são explicados, tanto quanto possamos imaginar, no seu passado, composta podem sê-lo, pela lei da gravitação newtoniana porque, por um lado, de abstracções metafísicas e, recuando ainda mais, dominada, esta bela teoria nos mostra que toda a imensa variedade dos factos mente, pelas concepções teológicas. Teremos mesmo, astronómicos nada mais é do que um mesmo e único facto considerado mais do que uma ocasião precisa para reconhecer, nas diversas sob diversos pontos de vista a propensão constante de todas as deste curso, que as ciências mais aperfeiçoadas conservam, ainda umas para as outras, na razão directa das suas massas e na algumas marcas bem visíveis destes estádios primitivos. razão inversa dos quadrados das suas distâncias enquanto, por outro lado, este facto geral nos é apresentado como uma simples extensão de um fenómeno que nos é bastante familiar e que, só por isso, conside- ramos como perfeitamente conhecido: o peso dos corpos à Quem deseje, imediatamente, esclarecimentos mais exactos sobre da Quanto a determinar o que são, em si mesmas, esta atracção assunto, poderá consultar, com proveito, três artigos de Considérations philosopa colection sur les sciences et les savants que publiquei, em Novembro de 1825, numa do intitulada Le Producteur 7, 8 e 10), e sobretudo a primeira parte Cf. op. cit., pp. Système de politique positive, dirigida, em Abril de 1824, à Academia das onde consignei, pela primeira vez, a descoberta desta lei.</p><p>94 COMTE A Filosofia Positiva Estudo da Sociedade 95 e este peso que deixaram de ser do domínio da filosofia positiva e e quais as suas causas são questões que todos do que todas as precedentes, mesmo sem se terem em conta os obstá- justificadamente, confiamos à imaginação dos teólogos ou às que culos mais especiais que consideraremos posteriormente. Seja como dos metafísicos. for, é evidente que não entrou ainda no domínio da filosofia positiva. Depois de ter caracterizado o mais exactamente que me foi Os metodos teológicos e metafísicos que, em relação a todos os outros sivel, neste conspecto geral, espirito da filosfia positiva que este géneros de fenómenos, já não são hoje usados por quer como inteiro se destina a desenvolver, cumpre-me agora examinar a meio de investigação, quer mesmo apenas como meio de argumentação, época da sua formação chegou, hoje, e que resta fazer para que são ainda, pelo contrário, exclusivamente usados, sob um ou outro de a constituir. aspecto, para tudo que se refere aos fenómenos sociais, se bem que a Para este efeito é preciso considerar primeiro que sua insuficiência a este respeito seja já plenamente sentida por todos ramos dos nossos conhecimentos não percorreram todos, com os cultos, cansados desses vãos e intermináveis debates entre rapidez, as três grandes fases do seu desenvolvimento direito divino e a soberania do povo. Eis, pois, a grande lacuna embora seja, evidentemente, a única - por conseguinte, chegaram simultâneamente ao estado que importa preencher para acabar de constituir a filosofia positiva. Existe, sob este aspecto, uma ordem invariável e necessária que Agora que humano fundou a fisica celeste, a física terrestre, nossos diversos géneros de concepção seguiram e tiveram que tanto mecânica como e a orgânica, vegetal e animal, sua progressão cuja consideração exacta é complemento indis falta-lhe concluir sistema das ciências de observação, fundando a pensável da lei fundamental anteriormente enunciada. Esta social. Tal é, hoje, sob vários aspectos fundamentais, a maior e será o objecto especial da próxima lição. Que nos baste, por mais premente necessidade da nossa inteligência; tal é, ouso saber que cla é conforme à natureza diversa dos que o primeiro objectivo deste curso, seu objectivo especial. determinada pelo seu grau de generalidade, de simplicidade e de As concepções que tentarei apresentar, relativamente ao estado dos reciproca considerações que, embora distintas, fenómenos sociais e cujo germe espero este discurso deixe já entrever, correm para o mesmo fim. Foram, assim, integrados em teorias não poderiam ter por objecto dar imediatamente à fisica social mesmo tivas, primeiro os fenómenos por serem os mais gerais, grau de perfeição dos ramos anteriores da filosofia natural, que seria os mais simples e independentes de todos os outros e, evidentemente quimérico, dado que estes oferecem já, entre eles, a pelas mesmas razões, os fenómenos da terrestre este respeito, uma extrema desigualdade, aliás inevitável. Mas desti- dita, da quimica por fim, os fenómenos fisiológicos (...) nar-se-ão a imprimir a esta última classe dos nossos conhecimentos esse carácter positivo já obtido por todas as outras. Se esta condição che- gar a ser realmente preenchida, sistema dos estará, A Social finalmente, fundado no seu conjunto; pois nenhum fenómeno obser- vável poderia, evidentemente, deixar de entrar nalguma das cinco Com nas quatro categorias principais de fenómenos grandes categorias já estabelecidas: dos fenómenos há pouco os fenómenos astronómicos, químicos, fisiológicos e E uma vez tornadas homo- micos nota-se uma lacuna essencial, relativa aos géneas todas as nossas concepções fundamentais, a filosofia ficará defi- que, embora implicitamente compreendidos entre nitivamente no estado sem nunca poder mudar quer pela sua importância, quer de feição, só lhe restará desenvolver-se indefinidamente pelas aquisições sempre crescentes que resultar de novas obser- Esta ordem de concepções, que se refere fenómenos increntes seu estudo, formar uma categoria vações ou de profundas. Tendo, com isso, adquirido mais complicados e mais dependentes de todos os o carácter de universalidade que ainda falta, a filosofia positiva por isso, que aperfeiçoar-se mais lentamens capaz de se substituir inteiramente, com toda a sua supe- natural, à filosofia e à filosofia metafísica, nas quais essa universalidade é hoje a única propriedade real, e que, privadas de um tal motivo de preferência, nada mais terão, para os nossos suces- que up. sores, do que uma das 19</p><p>96 A Interpretação do Processo Histórico COMTE A Filosofia Positiva e Estudo da 97 Leis Estatísticas e Dinâmicas abstracção provisória do movimento fundamental que as modifica sempre, gradualmente. Sob este primeiro ponto de vista, as previsões Porque princípio filosófico do espírito da física social se sociológicas, fundadas no exacto conhecimento geral destas relações segundo as explicações precedentes, a conceber necessárias, serão destinadas a concluir uma das outras, os fenómenos sociais como inevitàvelmente submetidos a em conformidade ulterior com a observação directa, as diversas indi- FORMAS leis naturais que comportam, regularmente, uma previsão racional cações estáticas relativas a cada modo de existência social, duma maneira essencialmente análoga ao que habitualmente se passa, hoje, em anato- trata-se pois de fixar aqui, em geral, quais devem ser objecto mia individual. Este aspecto preliminar da ciência política supõe, pois, carácter próprio destas leis (cuja exposição efectiva virá contida na com toda a evidência e necessidade, que, aos hábitos tinuação deste volume), tanto quanto permite estado nascente filosóficos actuais, cada um dos numerosos elementos sociais uma ciência que me esforço por criar. Ora, para este fim, é preciso, antes vez que deixa de ser considerado de maneira absoluta e independente de mais, tornar convenientemente extensiva ao conjunto dos seja sempre e exclusivamente concebido como relativo a todos os menos sociais uma distinção verdadeiramente fundamental outros, com os quais deve, sem cessar, estar intimamente ligado por que eu estabeleci e usei, em todas as partes deste Tratado (e, sobretudo uma solidariedade fundamental. Seria, a meu ver, supérfluo fazer aqui em filosofia biológica) como radicalmente aplicável, pela sua ressaltar expressamente a alta e contínua utilidade de uma tal doutrina a quaisquer fenómenos e sobretudo aos dos corpos vivos, considerando pois ela deve primeiro servir, como é evidente, de base separadamente, mas sempre com vista a uma exacta coordenação indispensável ao estudo definitivo do movimento social, cuja concep- mática, estado estático e estado dinâmico de cada objecto de estudos ção racional supõe, anteriormente, pensamento contínuo da conser- positivos (...) vação indispensável do organismo mas, além disso, Para caracterizar melhor esta indispensável decomposição ela pode, por si mesma, ser imediatamente empregada a suprir com e a fim de indicar, a partir de agora, seu alcance prático, creio essen frequência, pelo menos a observação directa que, cial, antes de ir por diante, observar aqui que um tal dualismo cientifico em muitos casos, não poderia verificar-se sempre em relação a certos elementos sociais cujo estado real poderá, no entanto, encontrar-se, corresponde, com uma perfeição de ordem e de progresso, que se desse modo, suficientemente avaliado segundo as suas relações cienti- considerar, de futuro, como espontâneamente introduzida no ficas com outros já conhecidos (...) geral da razão pública. Pois é evidente que estudo estático do Sob O ponto de vista que deve prevalecer neste Tra- nismo social deve coincidir, no fundo, com a teoria positiva da orden tado, esta ideia mestra solidariedade social universal torna-se aqui a que, com efeito, só pode consistir, essencialmente, numa justa consequência inevitável e O complemento indispensável de uma noção permanente entre as diversas condições de existência das fundamental estabelecida, no volume anterior, como eminentemente e vê-se, igualmente, e ainda com maior evidência, que o estudo própria para estudo dos corpos vivos. Sem dúvida que, em todo dinâmico da vida colectiva da humanidade constitui necessariamente seu rigor esta noção de consensus de modo algum é estrita- teoria positiva do progresso social que, afastando todo vão mente privativa de um tal estudo e, pela sua própria natureza, apre- reduzir-se mento de perfectibilidade absoluta e ilimitada, deve senta-se imediatamente como algo que tem que ser à simples ideia deste desenvolvimento fundamental (...) comum a todos os fenómenos, embora com imensas diferenças de inten- Assim concebida, esta espécie de anatomia social que constitui sidade e de variedade e, portanto, de importância Pode simultâneamente sociologia estática, deve ter por objecto permanente estudo positiva dizer-se, com efeito, que onde quer que haja um dado sistema deverá existir, desde logo, uma certa solidariedade; a própria astronomia que continuamente experimental e racional, das acções e reacções oferece-nos, nos seus fenómenos puramente mecânicos, seu pri- do sistema social, fazendo, exercem entre cientificamente, elas todas e quaisquer partes meiro esboço real, pelo menos ao excluir a ideia de universo, para se e tanto quanto reduzir à simples ideia de mundo, a única plenamente positiva, como, (2) Cf. op. cit., IV, 230. Cf. op. pp. 252-253 para extracto que se segue. op. cit., pp. 235-236 para extracto se seguinte. segue. Cf. cit., p. 232 para extracto que p.</p><p>98 A Interpretação do Processo Historico COMTE A Filosofia Positiva e Estudo da Sociedade 99 em lugar próprio, eu expliquei; pois certas perturbações de um podem assim repercutir-se, de forma por vezes, num absoluto e indefinido, prescreve que, em qualquer matéria de inves- por meio de gravitação modificada. Mas, a este respeito, deverá outro tigação, proceda sempre do simples para O composto; mas, no fundo, cer-se, em princípio, que o consensus se torna sempre tanto mais não há ai qualquer razão sólida, se é que uma tal marcha convém, com e mais pronunciado quanto se aplica a fenómenos gradualmente efeito, à natureza das ciências inorgânicas que, pelo seu desenvolvimento complexos e menos gerais: de modo que, segundo a minha mais mais simples e mais rápido e pela sua superior perfeição, deveriam elementar, estudo dos fenómenos químicos, pela sua servir, até aqui, de modelo essencial aos preceitos da reza, constitui, a este título como a qualquer outro, uma espécie de lógica universal. Contudo, seria, na realidade, impossível conceber-se, intermediário fundamental entre a filosofia inorgânica e a a este respeito, uma necessidade lógica, verdadeiramente comum a orgânica, como qualquer um pode verificar por si mesmo. Segundo este todas as especulações que fosse diferente desta óbvia obri- princípio, permanece, todavia, incontestável que, em conformidade gação de ir sempre do conhecido ao desconhecido, à qual, certa- com os usos filosóficos preponderantes, é sobretudo aos sistemas mente, seria difícil escapar e que, por si mesma, não impõe directa- nicos, devido à sua maior complexidade, que sempre convirá mente qualquer preferência permanente. Mas é claro que esta regra mente a noção de solidariedade e de consenso, apesar da espontânea tanto prescreve que se proceda do composto ao simples como do simples ao composto, conforme, de acordo com a natureza universalidade necessária. É só então que esta noção, até ai puramente da questão, um seja melhor conhecido e mais imediatamente acessível acessória, constitui directamente a base indispensável do conjunto das do que outro. Ora existe sob este ponto de vista, concepções positivas; e a sua preponderância nestas últimas tornar-se-i uma diferença fundamental, que se não podia iludir, entre conjunto sempre tanto mais pronunciada quanto se trate de organismos mais da filosofia inorgânica e da filosofia orgânica. Pois, na primeira compostos ou de fenómenos mais complexos e superiores. Assim, por onde a solidariedade, segundo as nossas explicações anteriores, é exemplo, consenso animal é bem mais completo que o consenso vegetal; muito pouco pronunciada e deve afectar ligeiramente estudo do do mesmo modo, é evidente que aumenta à medida que a animalidade assunto trata-se de explorar sistema cujos elementos são quase se eleva até atingir seu máximo na natureza humana; por fim, no sempre bem mais conhecidos do que conjunto e até, de costume, os homem, sistema nervoso torna-se, mais do que qualquer outro, 1 únicos directamente avaliáveis, que exige, com efeito, que se pro- sede principal da solidariedade Prosseguindo racionalmente ceda, habitualmente, do caso menos composto ao mais composto. esta marcha filosófica, segundo conjunto fundamental dos nossos Mas, pelo contrário, na segunda em que homem ou a socie- conhecimentos positivos, esta noção devia, a priori, adquirir, pois, no dade constituem O objecto principal a marcha oposta torna-se, a social estudo geral do organismo social, uma preponderância aindi maior parte das vezes, a única verdadeiramente racional, devido a superior à que todos os espiritos cultos lhe atribuem, agora sem hesita- uma outra consequência necessária do mesmo princípio lógico, visto ção, em biologia [dado o incontestável acréscimo de complicação que conjunto da matéria é então certamente muito melhor conhe- prio desta nova ordem de fenómenos] (...) cido e mais imediatamente do que as diversas partes que Para apreciar melhor esta importante de conjunto nele se distinguirão ulteriormente. Ao estudar-se o mundo exte- própria do método sociológico, importa, cientificamente, que uma rior, é sobretudo conjunto que inevitàvelmente nos escapa e que condição não seja vista como pertença exclusiva da física social, permanecerá sempre profundamente para nós, como eu sendo, stinge apenas a sua mais completa preponderância, mas sim como mostrei, principalmente no segundo volume deste Tratado, onde diferentes não importa em que grau, comum a todas reconhecemos que a ideia de universo nunca poderia, dada a sua filosofia sob o aspecto puramente lógico, de toda partes do estudo geral dos corpos vivos, que assim se tornar-se verdadeiramente positiva, sendo a noção de sistema solar a mais complexa que podemos conceber com clareza. Pelo con- namente Um aforismo essencialmente empírico, trário, em filosofia biológica, são os pormenores que permanecem convertido pelos modernos em dogma quando se pretende especializar demais seu estudo (...) seguinte pp. A frase entre parênteses está omitida no extracto da edição inglesa. (1) pp. para o extracto seguinte.</p><p>100 A do Processo Histories Posto o verdadeiro espirito da sociologia A Position e 101 conceber cada um destes estados sociais consecutivos resultado do precedente e o motor indispensável do 2. Política e Sociedade segundo o do grande Leibniz: presente de A ciência terá, então, por objectivo, sob este Finalmente, doutrina da os coberta das leis constantes que essa continuidade cujo a que estão reservados 2 cada época como algo imposto, a marcha fundamental do desenvolvimento humano, abrigo de qualquer pelo atingido, a social estuda as leis da sucessão, enquanto pela espécie Depois, relação cada grau de social as da de modo que a aplicação concebe como objectivo único das combinações políticas de consiste fornecer à política prática os passos que se 2 dar, depois de terem determinados do progresso, mesmo tempo que 2 segunda com precisão a da o que não deve deixar a A marcha natural da civilização determina, pois, para cada época, dévida racional sobre a necessária aptidão de uma tal combinação fora de qualquer os que no para convenientemente a dupla necessidade estado social tanto em seus elementos como no seu $6 mental das sociedades actuais (...) aqueles se podem executar, executam-se com Tendo já demonstrado existência das combinações pelos e pelos homens de Estado, leis sociológicas no caso mais dificil e mais incerto, apesar dessas situação seria, insistir formalmente Todos os homens que exerceram uma real durível sobre a espécie humana, tanto no temporal como no espiritual, necessidade main menos contestada, das foram guiados apoiados por esta verdade fundamental, que ins- Em todos os tempos e lugares simple comum do génio fez embora sem estar curso habitual da vida individual bastou sempre, apesar por uma demonstração em cada para permitir 2 descoberta, mesmo quais as mudanças que tendiam a efectuar-se, segundo o estado de modificações notáveis ocorridas, sob vários aspectos, no estado de civilização, e propondo seus social de que quadros mais antigos da existência humana dão as doutrinas ou as instituições Sempre que a com um testemunho, tiva deles foi conforme verdadeiro estado das coisas, de apreciação manifestaram-se ou consolidaram-se quase Novas A racional só pode, pois, existir hoje a respeito forças sociais que, desde há muito, se desenvolviam em surgi- constante destes grandes fenómenos ram, ao seu apelo, na cena com todo o vigor da o que, não poderia comportar over discussão para quer que estivesse directamente Porque até hoje, foi escrita estudada com um espi- de geral da filosofia positiva condição esta, é superficial, notórios como estes, em Mas, para completar a observação fats verificar, sob qualquer que se considere do qual é tirada das as estão sempre submetidas para a e foi escrito determinada explicação racional, segundo estudo dos vários escritos por 1819 como é possível num número Politica (1854) de Foi publicada tradução de casos para que, nos outros, possa descobri-la mais por com Early Essay: Social Kegan Paul, com cuja autorização é de Como base da ed. de do Systime Politique Positive de Instituant Religion de (Paris) vol. IV e Appendice general primitifs de</p><p>A Interpretação do Processo Histórico 102 MILL 103 vez de instruírem os homens, como seria natural esperar, nada fizeram do que surpreendê-los. Estes factos, mal vistos, main positiva de bondade e a de conformidade com estado da civilização, mesmo para manter ainda a crença teológica e metafísica no se confundem que estamos certos de possuir melhor sistema indefinido e criador dos legisladores sobre a civilização. Este actualmente praticável, se procurarmos que estiver mais de harmonia tável efeito resulta do facto de, nesses grandes acontecimentos, com estado da civilização. Uma vez que a ideia de bondade não é verem os homens e nunca as coisas que os impelem com uma fora positiva por si mesma e só chega a sê-lo devido à sua relação com Em vez de reconhecerem a influência preponderante da a de estado de civilização é, pois, desta apenas que nos devemos civilização, consideram-se os esforços desses homens previdentes ocupar, fazendo dela O objectivo directo das investigações e o único as verdadeiras causas dos aperfeiçoamentos que se verificaram e capaz de tornar positiva a política. A indicação das vantagens do novo que teriam acontecido do mesmo modo, um pouco mais tarde, sem a inter. sistema, da sua superioridade sobre as anteriores, sob este aspecto, não deverá passar de uma questão secundária, sem qualquer influência sobre venção deles. Não se preocupam com a enorme desproporção entre a orientação dos trabalhos a pretensa causa e efeito, desproporção que tornaria a explicação muito mais inteligível do que o próprio facto. Prendem-se ao que é aparente e descuram o real que está por trás. Numa palavra, segundo a espiri- de tuosa expressão 'e Madame de tomam-se os actores pela peça ? Um tal erro é absolutamente da mesma natureza que o dos a ao atribuirem a Cristóvão Colombo eclipse que ele tinha in a de Em geral, quando homem parece exercer uma grande influência, não é, de modo algum, por suas próprias forças, que são muito São sempre forças exteriores que agem por ele, segundo leis sobre MILL (1806-1873) quais ele nada pode. Todo seu poder reside na inteligência que em condições de conhecer essas leis pela observação, de lhes pre ver os efeitos e, consequentemente, de as fazer convergir para fim que se propõe, desde que empregue essas forças de maneira conforme JOHN STUART MILL, filho mais velho de James Mill, nasceu em 1806. natureza delas. Uma vez produzida a acção, a ignorância das leis natu Muito cedo submetido por um pai benthamiano a uma educação notá- rais leva espectador e, por vezes, próprio actor, a atribuir ao poder vel que incluiu grego e latim, matemática, lógica e economia política, do homem que é devido apenas à sua previsão. e que privou da convivência com outras crianças da sua idade, Stuart Mill foi em 1823 para a Casa da onde se manteve durante os trinta Estas observações gerais aplicam-se a uma acção política da e cinco anos que se seguiram, até à extinção da companhia. Mais ou maneira e pelas mesmas razões que a uma acção física, química e lógica. Toda a acção política é seguida de um efeito real e menos pela mesma altura, passou a ser colaborador de uma publicação radical, Westminster Review, tendo tomado parte em várias discussões se se exerce no mesmo sentido que a força da civilização, e debates com utilitaristas e liberais proeminentes. Foi em 1826 que propõe é operar modificações que essa força dirige realmente. A sofreu a famosa reacção, tão vivamente descrita na sua Autobiografia nula ou, pelo menos, efémera, em qualquer outra hipótese contra a aridez da filosofia e da perspectiva benthamianas, reacção essa Na determinação do novo sistema, é preciso abstrair das que viria a levá-lo a revalorizar as pretensões da escola vantagens ou dos seus inconvenientes. O problema principal, o unico representada por Wordsworth, Coleridge e seus sequazes, e a encarar problema, deve-se Que sistema social está actualmente, e de acordo muito mais criticamente os ensinamentos secos do pai. As ideias morais com a observação do passado, destinado estabelecido pela march e políticas que viria a expor em Utilitarismo e Sobre a Liberdade em da civilização? Seria confundir tudo e até a ser errar alvo, estão, tanto em como em tom, bem distantes das que tinham excesso da qualidade deste sistema. limitar-nos a marcado as teorias hedonistas de Bentham e dos seus ceber, como tese geral e na medida em que, na sua origem, a Cf. op. cit., p. Cf. op. cit., pp. 93-94.</p>

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