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Prática de Formação do Professor em Língua Estrangeira Professora Mestre Daiane Martins Reitor Prof. Ms. Gilmar de Oliveira Diretor de Ensino Prof. Ms. Daniel de Lima Diretor Financeiro Prof. Eduardo Luiz Campano Santini Diretor Administrativo Prof. Ms. Renato Valença Correia Secretário Acadêmico Tiago Pereira da Silva Coord. de Ensino, Pesquisa e Extensão - CONPEX Prof. Dr. Hudson Sérgio de Souza Coordenação Adjunta de Ensino Profa. Dra. Nelma Sgarbosa Roman de Araújo Coordenação Adjunta de Pesquisa Prof. Dr. Flávio Ricardo Guilherme Coordenação Adjunta de Extensão Prof. Esp. Heider Jeferson Gonçalves Coordenador NEAD - Núcleo de Educação à Distância Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal Web Designer Thiago Azenha Revisão Textual Beatriz Longen Rohling Caroline da Silva Marques Carolayne Beatriz da Silva Cavalcante Geovane Vinícius da Broi Maciel Jéssica Eugênio Azevedo Kauê Berto Projeto Gráfico, Design e Diagramação André Dudatt Carlos Firmino de Oliveira 2022 by Editora Edufatecie Copyright do Texto C 2022 Os autores Copyright C Edição 2022 Editora Edufatecie O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correçao e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Per- mitido o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP M386p Martins, Daiane Aparecida Prática da formação do professor em língua estrangeira / Daiane Aparecida Martins. Paranavaí: EduFatecie, 2022. 91 p.: il. Color. 1. Professores de língua - Formação . 2. Prática de ensino. 3. Línguas modernas. I. Centro Universitário UniFatecie. II. Núcleo de Educação a Distância. III. Título. CDD: 23 ed. 370.71 Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577 UNIFATECIE Unidade 1 Rua Getúlio Vargas, 333 Centro, Paranavaí, PR (44) 3045-9898 UNIFATECIE Unidade 2 Rua Cândido Bertier Fortes, 2178, Centro, Paranavaí, PR (44) 3045-9898 UNIFATECIE Unidade 3 Rodovia BR - 376, KM 102, nº 1000 - Chácara Jaraguá , Paranavaí, PR (44) 3045-9898 www.unifatecie.edu.br/site As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir do site Shutterstock. AUTORA Professora Mestre Daiane Aparecida Martins ● Mestre em Ensino de Ciências Humanas Sociais e da Natureza (UTFPR - Câmpus Londrina - PR) ● Especialista em Ensino e Tecnologia (UTFPR - Câmpus Londrina - PR) ● Especialista em Língua Estrangeira Moderna - Inglês e Espanhol (Fafiman - PR) ● Especialista em Língua Portuguesa e Literatura (ESAP - PR) ● Licenciada em Letras - Português/Inglês (UNIVALE - PR) ● Licenciada em Letras - Espanhol (Fafijan - PR) Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7373699405958904 Possui experiência como docente no Ensino Fundamental II, Médio, Educação de Jovens e Adultos (EJA), em escola pública e privada com as disciplinas de Língua Portuguesa, Espanhola e suas respectivas literaturas. Atua como docente na Secretaria de Educação do Estado do Paraná, pesquisadora na área de multiletramentos, gêneros textuais, Educação do Campo e metodologia da pesquisa, com ênfase em pesquisa empírica. Participa de grupos de pesquisa e eventos pertinentes às temáticas já citadas. http://lattes.cnpq.br/7373699405958904 APRESENTAÇÃO DO MATERIAL Caro(a) aluno(a), seja bem-vindo(a) à disciplina de Prática de Formação do Professor de Língua Estrangeira!! Espero que possamos construir conhecimentos e práticas relevantes ao ensino de línguas e à docência! Afinal é a partir dos processos colaborativos que formamos pessoas e sobretudo aprendemos com elas. Durante sua vida escolar, na certa existiu algum(a) professor(a) que fez a diferença, chamou sua atenção pela forma com que transmitia seus conhecimentos e trocava informações no ambiente escolar. Esses profissionais, independente da área de atuação, na certa irão lhe inspirar quando chegar sua vez. Todavia, apesar de todos termos uma certa experiência no que diz respeito à sala de aula, pelo tempo que já estivemos nela como alunos(as), sabemos que não é o bastante para tornar-se um bom professor. Aliás, para você, caro(a) aluno(a), o que é ser um(a) bom(a) professor(a)? A atuação profissional de um docente de língua estrangeira, está atrelada à várias vertentes, haja vista que não basta apenas o domínio de conteúdos, é necessário também desenvolver aspectos comunicativos, interpessoais, metodológicos e até afetivos, dentre outros de igual relevância. Seja qual for o local de trabalho escolhido, tais habilidades fazem parte do cotidiano de quem constrói conhecimento por meio de práticas pedagógicas. A fim de que seja possível atuar com excelência, é necessário antes de tudo o aprimoramento e a formação adequada, por meio de estudos críticos e reflexivos dos documentos que norteiam o ensino da língua estrangeira, bem como a compreensão do contexto de criação desses documentos. Portanto, este material propõe em sua primeira unidade, o trabalho com um pequeno histórico acerca do papel do professor de língua estrangeira no Brasil, até chegar nas Diretrizes Curriculares Nacionais e nas mudanças com a chegada da Base Nacional Comum Curricular. Enfatizando os objetivos e abordagens propostos em relação à prática docente. Na segunda unidade, apresentaremos alguns contrapontos que irão relacionar as normas aos desafios diários da formação e atuação de professores de língua estrangeira no atual cenário nacional. A importância da formação teórica também será abordada, com a finalidade de quebrar alguns paradigmas que separam pesquisadores (as) de professores (as), ou seja, refletiremos sobre a relevância da pesquisa acadêmica ser aplicada na atuação do (a) professor (a) em sala de aula. Após compreender tais tópicos, abordaremos ainda a caracterização e definição de portfólio docente, assim como sua utilidade no âmbito profissional. Na terceira unidade, falaremos das demandas e diversidades linguísticas, especificamente de Língua Espanhola, no que tange à formação docente. Além disso, iremos apresentar e debater o cenário da formação inicial de professores de línguas estrangeiras e o papel das instituições formadoras na superação das adversidades da formação docente contemporânea. Ao final deste material, você encontrará na unidade quatro, as definições, diferenças e particularidades do ensino de segunda língua, língua estrangeira e a educação de surdos. Para isso, serão analisadas pesquisas que tratam da formação de professores (as), realizadas acerca dos três temas citados. Termino essa apresentação mantendo a pergunta do segundo parágrafo sem resposta propositalmente, pois um(a) bom(a) professor(a) sempre deve buscar, através de estudos, reflexões e autocrítica, novos meios, métodos e adequações de suas práticas onde quer que for atuar. Assim sendo, deixarei essa reflexão para que você possa buscar a resposta durante nosso período de construção de conhecimento! Muito obrigada e bons estudos! SUMÁRIO UNIDADE I ...................................................................................................... 4 Políticas de Formação Docentes UNIDADE II ................................................................................................... 27 História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica UNIDADE III .................................................................................................. 46 Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente UNIDADE IV ..................................................................................................65 Formação Docente 4 Plano de Estudo: ● O professor de língua estrangeira e segundas línguas: aspectos históricos; ● Diferentes momentos do professor de língua estrangeira no Brasil; ● Diretrizes Curriculares Nacionais para formação docente no Brasil - 2006; ● Novas Diretrizes - 2015; ● Base Nacional Comum Curricular e a formação docente de segundas línguas e línguas estrangeiras. Objetivos da Aprendizagem: ● Demonstrar os diferentes papéis desempenhados pelo professor de língua estrangeira do Brasil no decorrer da história; ● Compreender a aplicabilidade e as normas que regem a formação docente de língua estrangeira e segunda língua; ● Refletir sobre a Base Nacional Comum Curricular e sua relação com a formação docente e o ensino de língua estrangeira e segunda língua; ● Promover debates sobre a importância do ensino de língua estrangeira e segunda língua no atual cenário mundial. UNIDADE I Políticas de Formação Docentes Professora Mestre Daiane Martins 5UNIDADE I Políticas de Formação Docentes INTRODUÇÃO Prezado(a) aluno(a), a partir de agora iremos entender um pouco dos caminhos que a língua estrangeira trilhou no país, juntamente com a imagem do professor dessa disciplina. Para que você possa compreender o contexto de ensino da língua espanhola no país, daremos ênfase a esse idioma. Em seguida, vamos falar das políticas e normas que regem a educação e a formação docente no Brasil, apresentando as Diretrizes Curriculares Nacionais de 2006, em seguida as novas diretrizes de 2015, a fim de estabelecer uma comparação entre as duas, com ênfase no papel do docente e o que se espera dele, desde a sua formação, até sua prática. Para finalizar a Unidade I, apresentaremos a Base Nacional Comum Curricular e suas considerações acerca da formação de professores de língua estrangeira e segunda língua. Espero que você possa terminar essa primeira seção compreendendo um pouco das estruturas políticas e normativas que regem o ensino no qual você já está inserido como discente e em breve estará como professor! 6UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 1. O PROFESSOR DE LÍNGUA ESTRANGEIRA E SEGUNDAS LÍNGUAS: ASPECTOS HISTÓRICOS Para que possamos compreender a imagem do docente de língua estrangeira construída no decorrer dos anos no Brasil, iremos voltar um pouco à história do ensino de línguas no país. Oficialmente, os primeiros registros oficiais do ensino de língua estrangeira no Brasil, fazem referência ao ano de 1808, com a vinda da família real portuguesa e a posterior criação do Colégio Pedro II, no qual existiam aulas de Língua Inglesa, Latim, Grego e Francês. Somente no ano de 1919 que a instituição ofertou, de forma optativa, o ensino de Língua Espanhola. O idioma hispânico manteve sua tímida presença no cenário nacional, de forma constante nas décadas de 1940 e 1950, todavia com pouca significação (RODRIGUES, 2010). Com a Lei Orgânica do Ensino Secundário criada em 1942, a Língua Espanhola passou a ser obrigatória na grade curricular do ensino secundário com carga horária menor que os outros idiomas ofertados. Então, em 1961, com a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Básica (LDB), ao não mencionar o ensino de línguas estrangeiras, o espanhol foi extinto da grade curricular nacional, ficando sob responsabilidade dos estados da união a oferta desse e de outros idiomas. 7UNIDADE I Políticas de Formação Docentes Nesse caso, os Centros Estaduais de Educação (CEE’s), poderiam deliberar sobre a obrigatoriedade ou opção entre as línguas estrangeiras que julgassem necessário ofertar aos seus alunos. Esse contexto perdurou até o ano de 1971 quando a LDB voltou a citar o ensino de língua estrangeira como optativo, fato que não alterou significativamente o ensino nos estados. Em 1976, a partir de uma resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE), as línguas estrangeiras voltaram a ter sua presença garantida pela obrigatoriedade nos currículos de Ensino Médio (chamado de Segundo Grau na época) e sugestão para o Ensino Fundamental (Primeiro Grau). Como o documento não especificava qual língua deveria ser ensinada, houve uma grande preferência pelo Inglês e consequentemente a exclusão das línguas clássicas (Grego e Latim). Camargo (2004) aponta para o crescimento da Linguística aplicada no Brasil na década de 1980, período no qual os professores de Língua Espanhola foram responsáveis pela lenta aparição do idioma por meio de discussões e estudos em associações de profissionais dessa área. Com isso, as escolas da rede privada passaram a empregar essas pessoas, oferecendo o idioma aos seus alunos. Nessa época, também foram criados os centros de línguas nos estados do Paraná e São Paulo, onde foram oportunizados aos alunos da rede pública o ensino de outros idiomas fora da grade curricular vigente, em horários alternativos. Com a criação do Mercosul, na década de 1990, o espanhol ganhou maior destaque. Materiais didáticos chegavam de outros países, institutos de línguas passaram a investir no ensino da língua no Brasil, até que em 1996, com o I Encontro Nacional sobre Política de Ensino de Línguas Estrangeiras, realizado na cidade de Florianópolis, foi elaborado um documento que apresentava uma série de propostas para a melhoria na oferta de língua estrangeira no variados níveis de ensino. Após outros encontros e discussões, no ano de 2005, foi criada a lei 11.161, que tornou a oferta de Língua Espanhola obrigatória nas escolas do território nacional, com matrículas facultativas para o aluno. Em outras palavras, caso o aluno decidisse estudar um idioma que não fosse o inglês, as escolas teriam o dever de ofertar o espanhol. Abaixo a lei sancionada em 5 de agosto de 2005: Art. 1° O ensino da língua espanhola, de oferta obrigatória pela escola e de matrícula facultativa para o aluno, será implantado, gradativamente, nos currículos plenos do ensino médio. § 1° O processo de implantação deverá estar concluído no prazo de cinco anos, a partir da implantação desta Lei. § 2 É facultada a inclusão da língua espanhola nos currículos plenos do ensi- no fundamental de 5a a 8a séries. 8UNIDADE I Políticas de Formação Docentes Art. 2° A oferta da língua espanhola pelas redes públicas de ensino deverá ser feita no horário regular de aula dos alunos. Art. 3° Os sistemas públicos de ensino implantarão Centros de Ensino de Língua Estrangeira, cuja programação incluirá, necessariamente, a oferta de língua espanhola. Art. 4° A rede privada poderá tornar disponível esta oferta por meio de diferentes estratégias que incluam desde aulas convencionais no horário normal dos alunos até a matrícula em cursos e Centro de Estudos de Língua Moderna. Art. 5° Os Conselhos Estaduais de Educação e do Distrito Federal emitirão as normas necessárias à execução desta Lei, de acordo com as condições e peculiaridades de cada unidade federada. Art. 6° A União, no âmbito da política nacional de educação, estimulará e apoiará os sistemas estaduais e do Distrito Federal na execução desta Lei. Art. 7° Esta Lei entra em vigor na data da sua publicação. (Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11161. htm> Acesso: 10/08/2021. (BRASIL, 2005). Apesar de tal obrigatoriedade citada no artigo 1º da lei, os artigos 3º e 4º previam, respectivamente, o ensino em Centros de Língua Estrangeira Moderna (CELEM) e a flexibilização da oferta em redes particulares. Ou seja, poucos lugares proporcionavam ao aluno estudar tal idioma durante o horário regular, ou com uma carga horária satisfatória. Em consequência disso, poucos eram os trabalhos interdisciplinares e a interação dessa frente com outras disciplinas. Atualmente, desde dezembro de 2017, está em vigor em contexto nacional, as normas vigentes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Nesse documento a obrigatoriedade diz respeito à Língua Inglesa, que é tratada como língua franca, ou seja, não se trata mais de umidioma específico de determinados países e sim uma forma de comunicação que abrange o cenário mundial e assim sofre variadas mudanças de acordo com o local e o contexto de uso. Abaixo a descrição da língua no documento: Nessa proposta, a língua inglesa não é mais aquela do “estrangeiro”, oriundo de países hegemônicos, cujos falantes servem de modelo a ser seguido, nem tampouco trata-se de uma variante da língua inglesa. Nessa perspectiva, são acolhidos e legitimados os usos que dela fazem falantes espalhados no mundo inteiro, com diferentes repertórios linguísticos e culturais, o que possibilita, por exemplo, questionar a visão de que o único inglês “correto” – e a ser ensinado –é aquele falado por estadunidenses ou britânicos (BNCC, 2017, p. 241). Em se tratando da Língua Espanhola, o documento a apresenta como um itinerário formativo não mais obrigatório nas escolas. Em outras palavras, a disciplina deverá ser ofertada caso haja o desejo e a decisão da escola e da comunidade local. Alguns estados como o Rio Grande do Sul mantiveram a obrigatoriedade, porém a nível nacional a norma vigente é o que está na BNCC. 9UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 2. DIFERENTES MOMENTOS DO PROFESSOR DE LÍNGUA ESTRANGEIRA NO BRASIL Com o passar dos anos e as mudanças no cenário político, a imagem do professor de espanhol sofreu algumas mudanças em seu status. O primeiro nome a ocupar uma cadeira de língua Espanhola no Brasil foi o professor Antenor Nascentes, atuante no Colégio Pedro II. Além de ministrar aulas, ele foi responsável pela publicação do primeiro livro de gramática de Língua Espanhola no Brasil. Intitulado “Gramática da Língua Espanhola”, o livro foi publicado pela Companhia Editora Nacional em 1920. Entre idas e vindas na obrigatoriedade do ensino de tal língua, os docentes da época, quando não tinham alunos, migravam para as cadeiras de Língua Portuguesa, até que a Literatura Espanhola ocupou espaço como disciplina obrigatória e independente do ensino do idioma. As instâncias governamentais acreditavam que o conhecimento de outras culturas, sul americanas e hispânica seria mais viável pelo ensino de suas literaturas e não da estrutura da língua. Com a reforma que aconteceu na década de 1940, o ensino secundário foi dividido em ciclos, nos quais estavam programados 4 partes para o ensino da língua: I.Leitura; II. Gramática; III. História Literária; IV. Outros exercícios. 10UNIDADE I Políticas de Formação Docentes Nessas aulas, o professor deveria ensinar de forma direta, e após o primeiro semestre, exigir que os alunos se expressassem apenas em espanhol. Além disso, o professor deveria propiciar ao seus estudantes o estudo de obras e escritores clássicos, a formação para uma educação literária que o tornasse autodidata na área, mostrar a origem da língua, relacionando-a com a origem da língua portuguesa e inglesa, a fim de que o aluno compreendesse seus sentimentos pan americanos (Portaria nº 556, de 13 de novembro de 1945). Com a LDB de 1961 e a flexibilização do ensino do idioma, a demanda pelo profissional de Língua Espanhola diminuiu consideravelmente, dando lugar aos docentes de inglês, idioma considerado mais influente por ser língua materna nos Estados Unidos. Somente em estados que fazem fronteira com países hispanos foram mantidas as aulas de Espanhol e a necessidade de professores atuantes na área. Com a criação do Mercosul, as relações comerciais com a Espanha e países hispano-americanos, as associações de professores de Língua Espanhola ganharam forças e argumentos para pressionar o governo a iniciar uma mudança no ensino dessa língua no final do século XX. Então, no início dos anos 2000 houve o crescimento de cursos e mais alunos passaram a procurar capacitação na área, a fim de melhorarem seus currículos. Com essa demanda e a criação da lei 11.161, houve um crescimento no número de profissionais que buscavam a licenciatura de língua hispano-americana, e consequentemente o aumento na oferta de cursos de licenciatura. O mercado de trabalho na área necessitava de profissionais formadores. As escolas particulares viram também nessa necessidade um diferencial e passaram a ofertar as aulas a todas as turmas. Na escola pública, o professor passou a atuar em cursos extracurriculares e possuía autonomia na forma de trabalhar de acordo com as características e necessidades das turmas. Por ser um curso ofertado de forma optativa, as vagas remanescentes eram oferecidas à comunidade, fato que contribuía para que as aulas fossem diversificadas e interativas. Com o tempo, a falta de incentivo e a baixa procura, alguns lugares foram extinguindo esses cursos e os professores foram remanejados para aulas de português ou passaram a procurar cursos privados para atuar. Atualmente, com a implementação da BNCC, os docentes vivem mais um desafio: a adaptação das normas estipuladas para o Inglês em uma matriz que deixou de ser obrigatória. Vale ressaltar ainda que o profissional licenciado em Língua Espanhola conta com outras alternativas ligadas à pesquisa, à tradução, edição e revisão linguística, produção e autoria de materiais didáticos, turismo, ensino instrumental, que contam como alternativa caso não haja oportunidade na carreira docente. 11UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 3. DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA FORMAÇÃO DOCENTE NO BRASIL - 2006 Como abordado anteriormente, a mudança de cenário do ensino exige que a figura do professor se reinvente e se capacite para acompanhar as demandas propostas. Para que isso ocorra, é necessário que haja documentos norteadores não só na Educação Básica, como também no Ensino Superior. No nosso cotidiano, temos várias leis que dão sustentação ao convívio em sociedade. Organizam-se o trânsito, as relações profissionais e comerciais, dentre outros setores. Na docência não poderia ser diferente, assim como em outras práticas diárias, é necessário ao professor conhecer as leis que regem o ensino desde a sua formação. Com a criação e regulamentação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), as Universidades iniciaram uma adequação de seus cursos para suprir as demandas exigidas no documento. A fim de que houvesse uma padronização, o Conselho Nacional de Educação (CNE) e o Ministério da Educação (MEC) deram início, em meados de 1997, ao processo de elaboração de diretrizes curriculares para os cursos de graduação (DINIZ; PEREIRA, 2016). Tal processo contou com a participação de diferentes instituições que apresentaram suas organizações e propostas. De início, não havia distinção entre os cursos, porém ao notar as diferentes concepções, o MEC criou uma comissão específica que iria se responsabilizar apenas pelos cursos de licenciatura, a qual não tinha representação de instituições. 12UNIDADE I Políticas de Formação Docentes Após análises, estudos e propostas, em 2001, através do parecer CNE/CP nº09/2001, elencou-se um conjunto de diretrizes para a formação de professores da Educação Básica em nível superior. No ano seguinte, após outras resoluções complementares instituiu-se as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de professores da Educação Básica juntamente com a definição da carga horária dos cursos de licenciatura e as seguintes normas: Art. 1º As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, constituem-se de um conjunto de princípios, fundamentos e procedimentos a serem observados na organização institucional e curricular de cada estabelecimento de ensino e aplicam-se a todas as etapas e modalidades da educação básica (Resolução CNE/CP 1/2006, p.1). O artigo 1º, explica a quem as DCNs se aplicam e mostra que a formação exigida contempla a “todas as etapas e modalidades da educação básica”, ou seja, a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o EnsinoMédio. Sobre a organização curricular: Art. 2º A organização curricular de cada instituição observará, além do disposto nos artigos 12 e 13 da Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, outras formas de orientação inerentes à formação para a atividade docente, entre as quais o preparo para: I - o ensino visando à aprendizagem do aluno; II - o acolhimento e o trato da diversidade; III - o exercício de atividades de enriquecimento cultural; IV - o aprimoramento em práticas investigativas; V - a elaboração e a execução de projetos de desenvolvimento dos conteúdos curriculares; VI - o uso de tecnologias da informação e da comunicação e de metodologias, estratégias e materiais de apoio inovadores; VII - o desenvolvimento de hábitos de colaboração e de trabalho em equipe (Resolução CNE/CP 1/2006, p.1). Os artigos 12 e 13 da Lei 9.394/1996 falam, respectivamente, das incumbências dos estabelecimentos de ensino e dos professores, na formação superior como um todo. Além dessas normas, acrescentam-se aos cursos de formação docente habilidades específicas, a fim de que o professor formado tenha a competência de proporcionar um ensino, visando a aprendizagem do discente com acolhimento e respeito às diversidades. Além disso, o profissional deverá terminar a licenciatura sabendo desenvolver atividades que levem em consideração os aspectos culturais, as práticas investigativas, a aplicabilidade de diferentes projetos que exercitem os conteúdos propostos, o usos dos diferentes recursos digitais, metodológicos e estratégicos de acordo com a evolução das 13UNIDADE I Políticas de Formação Docentes ferramentas disponíveis aos processos de ensino e aprendizagem. Por último, dominar as práticas de desenvolver atividades em equipes e um ensino colaborativo. No que se refere ao exercício da profissão docente, o artigo terceiro apresenta princípios norteadores desse preparo: I - a competência como concepção nuclear na orientação do curso; II - a coerência entre a formação oferecida e a prática esperada do futuro professor, tendo em vista: a) a simetria invertida, onde o preparo do professor, por ocorrer em lugar similar àquele em que vai atuar, demanda consistência entre o que faz na formação e o que dele se espera; b) a aprendizagem como processo de construção de conhecimentos, habilidades e valores em interação com a realidade e com os demais indivíduos, no qual são colocadas em uso capacidades pessoais; c) os conteúdos, como meio e suporte para a constituição das competências; d) a avaliação como parte integrante do processo de formação, que possibilita o diagnóstico de lacunas e a aferição dos resultados alcançados, consideradas as competências a serem constituídas e a identificação das mudanças de percurso eventualmente necessárias. III - a pesquisa, com foco no processo de ensino e de aprendizagem, uma vez que ensinar requer, tanto dispor de conhecimentos e mobilizá-los para a ação, como compreender o processo de construção do conhecimento (Resolução CNE/CP 1/2006, p.2). No âmbito profissional, cabe ao curso de licenciatura ofertar primeiramente a ênfase na formação docente, ou seja, a competência docente deve ser o centro do ensino dos conteúdos específicos durante os anos de formação. O segundo tópico diz respeito à coerência entre o que a instituição oferece e o que ela espera do futuro professor que está formando. Para que isso aconteça é necessário que haja um preparo para a real situação que o futuro professor irá encontrar, fugindo dos discursos de que “toda grama é verde e todo céu é azul” dentro de uma escola. Para que seja possível o desenvolvimento das habilidades citadas no artigo 2°, os cursos de licenciaturas devem ter suas práticas aproximadas com o que se espera do futuro professor. Em outras palavras, ainda na graduação, o estudante participará de atividades colaborativas, interativas nas quais o conhecimento será construído e não imposto, bem como a flexibilidade e estudo dos processos avaliativos. Espera-se, portanto, que o futuro professor se aproprie das práticas que irá aplicar, participando delas já na graduação. Para finalizar, o artigo acima considera a importância da pesquisa aliada aos processos de ensino e aprendizagem. Com isso o professor formado terá a capacidade de compreender os marcos teóricos e praticá-los, contribuindo, assim, na construção do conhecimento na área da educação. 14UNIDADE I Políticas de Formação Docentes O Art.4º, fala do desenvolvimento e da abrangência dos cursos de formação, os quais devem, além de “considerar um conjunto de competências necessárias à atuação profissional do professor”, torná-las norteadoras de seus currículos, avaliações, organiza- ções e gestão. Sobre o projeto político pedagógico de cada curso, o Art.5° pondera que cada curso deve conter uma formação apropriada à educação básica que vá além do que o futuro professor irá ensinar. Por exemplo, se o professor irá atuar no Ensino Médio, ainda assim, ele terá o domínio de outras etapas de ensino. Será oferecida a formação, propondo diferentes didáticas de acordo com cada conteúdo que seja trabalhado, assim será permitido que haja uma flexibilização das prá- ticas de acordo com a demanda do local que o futuro docente irá atuar. A partir dessas considerações, a avaliação desses processos estará ligada à autonomia profissional, além das habilidades exigidas para que se inicie uma carreira. Nos cursos de licenciatura, as diretrizes propõem que o método de aprendizagem a ser adotado em âmbito geral baseia-se na resolução de situações-problema, ou seja, ação- -reflexão-ação. Com base nesse método, o professor pesquisador irá agir, refletir sobre suas práticas, aliá-las à teoria, analisar os resultados e agir novamente. Vale ressaltar que tal processo atualmente é bastante valorizado na prática profissional. Ainda sobre a elaboração do projeto político pedagógico da formação docente, o Art. 6º, talvez seja um dos mais desafiadores, pois pondera sobre os aspectos sociais e democráticos que envolvem o ensino: Art. 6º Na construção do projeto pedagógico dos cursos de formação dos docentes, serão consideradas: I - as competências referentes ao comprometimento com os valores inspira- dores da sociedade democrática; II - as competências referentes à compreensão do papel social da escola; III - as competências referentes ao domínio dos conteúdos a serem socializados, aos seus significados em diferentes contextos e sua articulação interdisciplinar; IV - as competências referentes ao domínio do conhecimento pedagógico; V - as competências referentes ao conhecimento de processos de investiga- ção que possibilitem o aperfeiçoamento da prática pedagógica; VI - as competências referentes ao gerenciamento do próprio desenvolvimen- to profissional (Resolução CNE/CP 1/2006, p.3). Quando o professor adentra em uma sala de aula, mesmo depois de um certo tempo de experiência, algumas competências são fundamentais para que todo o seu 15UNIDADE I Políticas de Formação Docentes trabalho seja norteado. O primeiro momento com uma turma é de reconhecimento de suas particularidades no âmbito pedagógico e social. Em seguida, após análise o profissional deverá estar apto a adequar e aperfeiçoar suas práticas e promover atividades interdisciplinares. Isso ocorre a partir do momento em que há um reconhecimento de que a escola tem um papel fundamental nas estruturas sociais e deve oferecer um ensino voltado para as necessidades da comunidade. Ademais, o terceiro parágrafo indica que haja debates que envolvam outras questões além dos aportes teóricos e pedagógicos: § 3º A definição dos conhecimentos exigidos para a constituição de competências deverá, além da formação específica relacionada às diferentes etapas da educação básica, propiciar a inserção no debate contemporâneo mais amplo, envolvendo questões culturais, sociais, econômicas e o conhecimento sobreo desenvolvimento humano e a própria docência, contemplando: I - cultura geral e profissional; II - conhecimentos sobre crianças, adolescentes, jovens e adultos, aí incluídas as especificidades dos alunos com necessidades educacionais especiais e as das comunidades indígenas; III - conhecimento sobre dimensão cultural, social, política e econômica da educação; IV - conteúdos das áreas de conhecimento que serão objeto de ensino; V - conhecimento pedagógico; VI - conhecimento advindo da experiência (Resolução CNE/CP 1/2006, p.3). Assim sendo, o artigo em análise propõe que a graduação prepare o profissional para além de sua estréia em sala de aula, com a finalidade de que ele consiga gerenciar e reinventar suas habilidades profissionais constantemente, baseando-se na atualização constante das teorias, contextos sociais, políticos, econômicos, culturais e educacionais. Os demais artigos desse documento tratam de temas estruturais, eventos, avaliações dos cursos, autorização e funcionamento, adequações das graduações que já estavam em andamento, prazos, critérios organizacionais, duração específica de cada curso, carga horária e opções de atividades práticas. Neste tópico, estudamos as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica. Por meio da análise do documento foi possível demonstrar o quão importante é conhecer as estruturas formativas do docente para que ele possa atuar de forma consciente e confiante. Agora, iremos conhecer as novas diretrizes propostas em 2015. 16UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 4. NOVAS DIRETRIZES - 2015 As diretrizes citadas anteriormente serviram de base durante quase uma década, enquanto aconteciam variadas discussões no sentido de aprimorá-las. Com a troca de governo e a aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), começou uma nova fase na educação brasileira. De início foram propostas novas diretrizes, as quais sinalizavam maior organicidade, o PNE apresenta 20 metas e várias estratégias que englobam a educação básica e superior, no que diz respeito à suas respectivas qualidades, avaliações, gestões, valorização dos profissionais da educação e financiamento educacional. As mudanças propostas iniciaram em 2014 e têm até 2024 para alcançarem seus resultados almejados. Além do investimento proposto para o ensino superior, criou-se também a Política Nacional de Formação dos Profissionais da Educação Básica, com a finalidade de unir em termos colaborativos, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, os quais devem estreitar as articulações entre os sistemas, redes e instituições de educação básica e superior, na formação dos profissionais da educação e profissionalização docente. Desde os anos 90, estudos e discussões sobre a formação dos profissionais do magistério têm acontecido no Conselho Nacional de Educação (CNE) com a criação do Conselho Bicameral de Formação de Professores, composta por representantes da Educação Básica e Educação Superior. Na formação das primeiras DCNs, houve certa participação, todavia acontecia a renovação dos membros com frequência, fato que prejudicava o andamento dos estudos e enfraquecia o movimento. 17UNIDADE I Políticas de Formação Docentes Em 2014, a Comissão foi recomposta, retomou seus estudos sobre as licenciaturas de forma mais aprofundada, acrescentando investigações acerca da situação dos profissionais do magistério, no que diz respeito às suas formações inicial e continuada. Foi com base nesses estudos que se deu início às novas DCNs. Com a aprovação da CNE, as novas normas propostas foram discutidas em reuniões e eventos com conselhos estaduais de educação, instituições de ensino superior, entidades acadêmico-científicas e sindicais, dentre outros representantes. Após um amplo processo de discussões, a Comissão Bicameral disponibilizou o documento em uma audiência pública, na qual foram apresentadas mais sugestões de alteração. Depois de incorporarem as mudanças propostas, e encaminhar ao MEC, as novas Diretrizes Curriculares Nacionais foram homologadas no dia 24 de junho de 2015. Um dos pontos mais enfatizados no novo documento diz respeito à organicidade das políticas, as quais deverão repensar, avançar e atualizar os marcos teóricos e referenciais para a formação inicial e continuada, interligando a educação superior à educação básica, incluindo ainda a pós-graduação. Em outras palavras, as novas DCNs, propõem uma maior articulação entre a educação básica e superior para que os projetos formativos aconteçam de forma mais eficiente. Para isso, o documento considera ainda que a formação inicial e continuada devem contemplar: I.Sólida formação teórica e interdisciplinar dos profissionais; II.A inserção dos estudantes de licenciatura nas instituições de educação básica da rede pública de ensino, espaço privilegiado da práxis docente; III.O contexto educacional da região onde será desenvolvido; IV.Atividades de socialização e avaliação dos impactos; V.Aspectos relacionados à ampliação e ao aperfeiçoamento do uso da língua portuguesa e à capacidade comunicativa, oral e escrita, como elementos fundamentais da formação dos professores e à aprendizagem de Libras; VI.Questões socioambientais, éticas, estéticas e relativas à diversidade éti- nico-racial, de gênero, sexual, religiosa, de faixa geracional e sociocultural como princípios de equidade (MEC, resolução Nº 2, 2015, p.5) Outro ponto de grande relevância foi a concepção de educação como processo emancipatório e permanente, levando em consideração a realidade do ambiente das instituições educativas da educação básica e da profissão, articulando teoria e prática. O profissional, tanto na formação inicial, quanto na continuada, deverá, a partir de seu repertório de informações e habilidades, trabalhar todos os valores citados acima com ética, sensibilidade afetiva e estética, valores democráticos, conteúdos contextualizados e interdisciplinares, aliando seu trabalho à pesquisa. 18UNIDADE I Políticas de Formação Docentes Cabe às instituições de ensino, portanto, proporcionar uma formação que abranja a compreensão teórico-prática, pautada em investigações e reflexões críticas. Para isso, foram aumentadas as cargas horárias de estágio supervisionado, atividades práticas e iniciação científica. Foram criadas normas também sobre a formação pedagógica para graduados não licenciados e cursos de segunda licenciatura. Nessa seção, há orientações em relação à carga horária, conhecimento pedagógico e aproveitamento de disciplinas. Sobre a formação continuada, o Art.16º das novas DCNs considera que é necessário ao docente se capacitar constantemente através de atividades de extensão, grupos de estudos, reuniões pedagógicas, cursos, programas e ações que vão além da formação e terão a finalidade de proporcionar uma reflexão sobre a prática educacional, aperfeiçoando, assim, os aspectos técnicos, políticos, pedagógicos, éticos e profissionais. Para que isso ocorra, leva-se em conta: I. os sistemas e redes de ensino, o projeto pedagógico das instituições de educação básica, bem como os problemas e os desafios da escola e do contexto onde ela está inserida; II. a necessidade de acompanhar a inovação e o desenvolvimento associados ao conhecimento, à ciência e à tecnologia; III. o respeito ao protagonismo do professor e a um espaço-tempo que lhe permita refletir criticamente e aperfeiçoar sua prática; IV. o diálogo e a parceria com atores e instituições competentes, capazes de contribuir para alavancar novos patamares de qualidade ao complexo trabalho de gestão da sala de aula e da instituição educativa (MEC, resolução Nº 2, 2015, p.5). Sobre a diversidade de atividades disponíveis na formação continuada do profissional da educação, o Art.17º pondera que a formação envolve: I - atividades formativas organizadas pelos sistemas, redes e instituições de educação básica incluindodesenvolvimento de projetos, inovações pedagó- gicas, entre outros; II - atividades ou cursos de atualização, com carga horária mínima de 20 (vin- te) horas e máxima de 80 (oitenta) horas, por atividades formativas diversas, direcionadas à melhoria do exercício do docente; III - atividades ou cursos de extensão, oferecida por atividades formativas di- versas, em consonância com o projeto de extensão aprovado pela instituição de educação superior formadora; IV - cursos de aperfeiçoamento, com carga horária mínima de 180 (cento e oitenta) horas, por atividades formativas diversas, em consonância com o projeto pedagógico da instituição de educação superior; 19UNIDADE I Políticas de Formação Docentes V - cursos de especialização lato sensu por atividades formativas diversas, em consonância com o projeto pedagógico da instituição de educação supe- rior e de acordo com as normas e resoluções do CNE; VI - cursos de mestrado acadêmico ou profissional, por atividades formativas diversas, de acordo com o projeto pedagógico do curso/programa da insti- tuição de educação superior, respeitadas as normas e resoluções do CNE e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes; VII - curso de doutorado, por atividades formativas diversas, de acordo com o projeto pedagógico do curso/programa da instituição de educação superior, respeitadas as normas e resoluções do CNE e da Capes (MEC, resolução Nº 2, 2015, p.5). No Art.18º, apresenta-se também grande consideração sobre a valorização dos profissionais do magistério da educação básica. Essa valorização se dá pela articulação entre formação inicial, formação continuada, carreira, salários e condições de trabalho. Cabe aos sistemas de ensino e às instituições garantirem a formação, o plano de carreira de acordo com a legislação vigente e o preparo para atuar nas etapas e modalidades da educação básica. O documento tem seu fim abordando as questões transitórias das instituições, cursos de formação, prazos de adequação e formas de avaliação dos cursos. Comparando-se com as DCNs anteriores, nota-se maior preocupação com a car- reira docente e os aspectos sociais que regem a educação. Depois da criação do PNE, vários cursos foram autorizados e as universidades passaram a ocupar um espaço maior dentro das escolas, fazendo com que os projetos de extensão e prática contribuam com a construção do conhecimento. O docente passou a ter mais opções de capacitação e não é mais o único responsável a buscar formação. Nas próximas unidades deste material, iremos discutir quais são os atuais desafios após a implantação do documento estudado. 20UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 5. BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR E A FORMAÇÃO DOCENTE DE SEGUNDAS LÍNGUAS E LÍNGUAS ESTRANGEIRAS O documento mais recente oficializado no país é a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a qual determina quais são os conhecimentos e habilidades essenciais a todos os estudantes, em todas as regiões do Brasil. Isso quer dizer que independente da classe econômica, local ou raça, todos os estudantes do país devem se apropriar das mesmas habilidades e competências ao longo de sua vida escolar. Sua obrigatoriedade está prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e no Plano Nacional de Educação, portanto os currículos de todas as escolas, redes públicas e particulares, devem ter a BNCC como referencial. A BNCC começou a ser debatida em 2015 e recebeu várias contribuições por meio de audiências públicas e consultas a profissionais da educação. Após seminários em todos os estados, ouvindo educadores e alunos a terceira versão foi homologada pelo MEC em dezembro de 2017 e passou a valer em todo Brasil. Diferente das DCNs, a BNCC não trata da educação superior de forma específica. No documento há apenas uma citação que considera o alinhamento de políticas e ações no âmbito federal, estadual e municipal, referentes à formação dos professores, dentre outros pontos. Em outros debates extraoficiais, considera-se que os cursos de formação, os quais ainda trabalham na adequação proposta pelas novas DCNs, devem adequar seus currículos, a fim de formarem profissionais aptos a trabalharem os valores propostos na base. 21UNIDADE I Políticas de Formação Docentes Quando o assunto é a língua estrangeira, o documento considera apenas a importância do ensino de Língua Inglesa, a qual passa a ser considerada língua franca. Na prática, isso significa incorporar a ideia de que o inglês não é uma língua estrangeira, isso quer dizer que qualquer cidadão do mundo pode utilizá-la em qualquer contexto, como uma ferramenta para inserir esse indivíduo no mundo contemporâneo. Para que possamos compreender as novas abordagens que o professor deve ter em suas aulas, tomaremos como base a organização proposta para a Língua Inglesa, a fim de que seja possível construir debates e adaptar os eixos principais nas aulas de outras línguas. Assim como a Língua Portuguesa, a BNCC de Língua Inglesa também foi organizada em cinco eixos principais: a oralidade; leitura; escrita; conhecimentos linguísticos; dimensão intercultural da língua. Diferente do que era proposto anteriormente, na prática o ensino de inglês precisa desenvolver nos alunos habilidades e competências que vão muito além de apenas ler, interpretar e resolver problemas. Nesse contexto, o eixo da oralidade deve envolver práticas de compreensão auditiva e fala. Já os eixos de leitura e de escrita, devem focar no contato e na interação dos alunos, com textos escritos em inglês, bem como em atividades de produção textual nesse idioma. Por sua vez, essas atividades devem ser amparadas pelo eixo de conhecimentos linguísticos, cuja missão é promover a reflexão e análise sobre as estruturas do idioma, que são colocadas em uso nas práticas da leitura, da escrita e da oralidade. Todo esse trabalho é amarrado pelo eixo da dimensão intercultural da língua, o qual busca mostrar para os alunos que a linguagem faz parte da cultura dos povos, e que essas culturas, especialmente na sociedade contemporânea, estão num processo contínuo de interação, construção e reconstrução. Com relação às práticas comunicativas, a BNCC trata a língua inglesa de forma discursiva, ou seja, considera importante o desenvolvimento de todas as habilidades comunicacionais dos alunos. Isso amplia a visão de documentos anteriores, como os Parâmetros Curriculares Nacionais que defendiam o desenvolvimento apenas da leitura e da escrita dos alunos. Em sala de aula, o docente deverá abandonar aquelas aulas somente expositivas e teóricas, e passar a ensinar os alunos por meio da prática do contato com a língua. Sendo assim, o objetivo do ensino de língua inglesa na BNCC também muda, passando do simples domínio da leitura, para uma formação que deve privilegiar o desenvolvimento completo do aluno, aproximando diferentes linguagens como a verbal, a 22UNIDADE I Políticas de Formação Docentes visual, a corporal e audiovisual, as quais, na sociedade atual, se misturam e se entrelaçam a todo momento. De acordo com a BNCC, isso é fundamental para que os alunos possam ampliar as possibilidades de participação e circulação em um mundo cada vez mais interligado, onde o inglês é o elo que conecta falantes de diferentes culturas. No que diz respeito aos conteúdos que devem ser abordados em sala de aula, a base propõe o abandono da visão tecnicista que, por vários anos, imperou nas escolas e que privilegiou somente o ensino de estruturas e de vocabulário do idioma. Segundo a BNCC, esse estudo do léxico e da gramática, deve ter como principal foco ajudar os alunos a entenderem, de forma indutiva, o funcionamento da língua na prática. Isso significa trabalhar o uso discursivo da língua em sala de aula, por meio de materiais variados e de recursos digitais que estejam ligados ao contexto social no qual a escola está inserida. Outraindicação interessante, quanto aos conteúdos usados em sala de aula, é que eles devem ser desvinculados da noção de que o inglês pertence a um único território, pois, como visto anteriormente, o documento considera a Língua Inglesa como língua Franca. Assim, a base solicita que o professor utilize, em sala de aula, conteúdos inseridos em diferentes contextos culturais, de forma a legitimar o uso local de inglês. Nesse processo, é importante considerar as diferenças culturais e as variações linguísticas, que são resultados dos diversos usos da língua, feito por diferentes comunidades de fala. Em suma, a BNCC foi criada com a finalidade de promover a igualdade no que diz respeito aos conteúdos a serem ensinados nas instituições do Brasil. Atualmente as escolas vêm trabalhando na adequação de seus currículos e materiais didáticos, a fim de atenderem às novas normas. Sobre a formação de professores de língua estrangeira e segunda língua, o documento não contempla a modalidade de ensino superior, apenas considera que a maior articulação entre instâncias federais, estaduais e municipais irá contribuir nesse aspecto. Sobre o ensino de língua estrangeira, a única língua citada, além do português, é o inglês, apresentado agora como língua franca. Portanto, encerramos esta unidade propondo a reflexão acerca do ensino de Língua Espanhola no país. Como vimos anteriormente, o espanhol sofreu idas e vindas no que diz respeito à sua obrigatoriedade, então, no momento, não cabe discutirmos aqui às questões político-ideológicas que permeiam esse contexto, todavia nas próximas unidades iremos refletir quais os prejuízos, e de que forma será possível trabalhar o idioma neste país que possui tamanha ligação com o idioma. 23UNIDADE I Políticas de Formação Docentes SAIBA MAIS Caro(a) aluno(a), para que você possa consultar os documentos citados nesta unidade, abaixo estão disponíveis os links com eles na íntegra! DCNs - 2006 http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rcp01_02.pdf Novas DCNs - 2015 http://portal.mec.gov.br/docman/agosto-2017-pdf/70431-res-cne-cp-002-03072015-pdf/file BNCC http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rcp01_02.pdf http://portal.mec.gov.br/docman/agosto-2017-pdf/70431-res-cne-cp-002-03072015-pdf/file http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf 24UNIDADE I Políticas de Formação Docentes REFLITA Por mais que o ensino de Língua Estrangeira sofra idas e vindas, nossa capacidade de debater o assunto segue se aprimorando a cada dia! Lembre-se, nossas discussões são fundamentais para o desenvolvimento da educação! “O Talibã podia tomar nossas canetas e nossos livros, mas não podia impedir nossas mentes de pensar.” - Malala Yousafzai 25UNIDADE I Políticas de Formação Docentes CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, falamos sobre os aspectos históricos, políticos e normativos que regem o ensino de língua estrangeira e a formação docente no Brasil. Para isso, foram apresentados trechos das DCNs e um breve resumo sobre a BNCC, que está em vigência atualmente. Percebemos o quão importante é uma boa e contínua formação docente, para que o profissional compreenda o papel social da escola e de sua própria capacitação. Compreender as estruturas que regem o ensino, faz parte de nossas práticas enquanto educadores e educandos e também é importante para que possamos desenvolver uma maior reflexão acerca da aplicabilidade das normas apresentadas. 26UNIDADE I Políticas de Formação Docentes MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Uma Leitura Crítica da Base Nacional Comum Curricular: Compreensões Subjacentes Autor: Terezinha da Conceição Costa-Hubes e Márcia Adriana Dias Kraemer Ano: 2020 Editora: Mercado de Letras Sinopse: Este livro nasce como resultado do percurso de estudos, discussões e análises acerca da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento criado pelo Ministério da Educação para regulamentar o que considera como essencial à aprendizagem na Educação Infantil, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Uma leitura crítica da Base Nacional Comum Curricular: compreensões subjacentes objetiva ampliar o debate em torno do referido documento, com foco no Ensino Fundamental, no sentido de promover outras reflexões que transponham a sua linearidade. O livro organiza-se em torno de doze capítulos e cada um deles é produzido por sujeitos que participam do Grupo de Estudos Impactos da Base Nacional Comum Curricular no ensino de Língua Portuguesa – vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste. DOCUMENTÁRIO Título: Atravessa a Vida Duração: 1h 23min Direção: João Jardim Ano de lançamento: 2020 Sinopse: Alunos do 3º ano do ensino público no interior do Sergipe se preparam para a prova que pode determinar o resto de suas vidas, enquanto as angústias e os prazeres da adolescência são visíveis através de seus gestos, inquietações e conquistas. 27 Plano de Estudo: ● Conhecimento e prática docente; ● Formação teórica e prática; ● Portfólio docente; Objetivos da Aprendizagem: ● Compreender os saberes necessários à prática docente; ● Entender os diferentes aspectos da formação teórica e prática; ● Assimilar a importância do portfólio docente e suas possíveis utilidades; UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica Professora Mestre Daiane Martins 28UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 28UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica INTRODUÇÃO Olá, aluno(a)! Agora que você já compreendeu um pouco das políticas que regem o ensino, vamos falar do nosso trabalho? Nesta unidade, iremos estudar quais os saberes necessários para que possamos exercer a profissão de professor. Falaremos sobre os conhecimentos teóricos e práticos essenciais no cotidiano de sala de aula, afinal, como a sociedade muda periodicamente, é necessário compreender algumas estratégias de adaptação. Na unidade passada, vimos um pouco sobre a importância do professor saber aliar os aspectos teóricos e práticos, agora vamos compreender o porquê de se trabalhar dessa forma. Abordaremos também a importância do portfólio docente, com ênfase em sua utilidade e objetivos. Assim, quando você for concorrer a uma vaga no mercado de trabalho, já saberá por onde começar! Espero que neste período, possamos construir o conhecimento e fazermos uma reflexão sobre o quão importante é a nossa classe na sociedade! Bons estudos! 29UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 29UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica 1. CONHECIMENTO E PRÁTICA DOCENTE No ano de 2020, com o início do período de isolamento em decorrência da pandemia de Covid19, houve uma remodelagem dos ambientes escolares. A grande maioria das atividades tinha como principal ferramenta o aparelho de celular ou o computador. Curiosamente o celular, que era proibido em sala de aula, passou a ser o canal de comunicação entre professor e aluno. O fato é que na escola pública essa transição não foi algo simples, pois os alunos não dominavam as ferramentas tecnológicas e a maioria dos professores não tinha o conhecimento necessário, nem dos recursos utilizados, nem das metodologias possíveis naquele momento. Mas, por que estaríamos entrando nesse assunto? Veja bem, se pararmos para pensar no quanto o mundo evoluiu e os recursos mudaram, teríamos que repensar a estrutura da sala de aula. Pense em um período de mais ou menos 100 anos. Dentre outros locais, os bancos mudaram, os supermercados mudaram, os cartórios mudaram, as farmácias mudaram. Todos acrescentaram tecnologias de informação e comunicação (TIC) em seus ambientes, com o propósito de facilitar e tornar mais prático o trabalho. Agora pense na sala de aula (escola pública de preferência),no mesmo período de 100 anos, o que mudou em sua estrutura? Seguimos com mesas e cadeiras enfileiradas, um quadro de giz e um professor no lado oposto dos alunos. Quando a aula é diferente, talvez possa contar com uma TV. 30UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 30UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica Com laboratórios lotados de computadores que, na maioria das vezes, não funcionam, a escola segue nos mesmos moldes de décadas atrás. Sabemos que há toda uma estrutura política e de organização que deve ser repensada, mas e esse professor que se viu desesperado com o ensino remoto? O fato é que, pela falta de incentivo ou comodismo, muitos professores estacionaram no tempo e contribuíram para que os ambientes de aprendizado tivessem sempre a mesma estrutura. Então, chegou a pandemia e esse profissional foi obrigado a buscar recursos e dominar as ferramentas disponibilizadas. Muitos paradigmas foram e estão sendo quebrados por conta do ensino remoto, todavia é necessário que o docente se reinvente e reflita sobre sua prática o tempo todo, de modo a acompanhar as novas tendências metodológicas e práticas dos processos de ensino e aprendizagem, caso contrário a sala de aula tende a manter os mesmos modelos de séculos atrás. Já dizia Paulo Freire (1996), o profissional não nasce educador, se faz educador, se forma como educador, permanentemente e por meio da reflexão de suas práticas. A formação docente tem caráter inacabado e está relacionada com a maneira que o professor vê, reflete e intervém no mundo. Então, considerando a situação narrada anteriormente e relacionando-a com os conceitos de Paulo Freire, notamos que não basta a formação inicial, é preciso que o professor tenha formação continuada e reflita sobre seus métodos com frequência, a fim de acompanhar as particularidades de cada contexto de ensino. Para isso, iremos abordar alguns saberes necessários à prática docente. 1.1 Articulação de saberes Tem sido comum ultimamente ouvirmos opiniões sobre o tipo de professor ideal, vários cidadãos emitem seus juízos de valores e se sentem aptos para isso. Na maioria das vezes, esses chamados “ideais” apresentam bastante contradição. Isso acontece também quando o assunto é a formação docente. Então, para que seja possível a formação de um professor que se torne mediador do conhecimento, se faz necessário uma articulação de saberes. Pimenta (2000), ao falar da identidade do professor, pondera que ela é baseada na articulação entre os saberes das áreas específicas, os saberes pedagógicos e os saberes da experiência. Ao integrar tais saberes, o profissional torna possível sua atuação. Vale ressaltar também que, segundo o autor, nenhum desses conhecimentos deve sobrepor o outro, ou seja, quanto maior o equilíbrio entre eles, mais facilitada é a prática. 31UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 31UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica Durante os anos de formação na graduação, é nas aulas de didática que o futuro professor tem o primeiro contato com a prática citada acima. É a didática que vai descrever e explicar as ligações entre os processos de ensino e aprendizagem. É nessa disciplina que há uma articulação entre os conhecimentos teóricos e práticos, aprendidos nas aulas de formação acadêmica, pedagógica e prática. Acerca das aulas de didática, Libâneo (2011) as considera indispensáveis à for- mação docente, pelo fato de associar os conhecimentos. Ele acredita que a formação do professor deve ser contínua e mergulhada em conteúdos que relacionem teoria, prática e problemas reais de sala de aula. 1.2 Saberes de conhecimento ou saberes específicos Quando uma pessoa opta por fazer um curso superior, especificamente o de licenciatura, além da afinidade com a docência ela geralmente escolhe uma área que gosta ou que apresenta uma maior bagagem de conteúdos, seja língua estrangeira, língua portuguesa, matemática, história, dentre outras, ela vai passar alguns anos estudando os conteúdos específicos da área que escolheu. Esses saberes que o professor adquire em sala de aula, sendo ela virtual ou presencial, são os chamados saberes específicos. Eles se tornam bagagem do professor através dos estudos, da participação em projetos de pesquisa e aprendizagem. Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino (DEMO, 2011). Em outras palavras, por meio da pesquisa o docente faz descobertas e principalmente produz reflexões sobre as práticas de ensino. É de extrema importância que o profissional, depois de formado, continue exercendo essa prática, já que a sociedade se transforma constantemente. Mesmo atuante no mercado de trabalho, o docente deve reconstruir seus conhecimentos e refletir acerca de suas práticas, revisando seus objetivos e resultados, sua forma de atuar e suas experiências educativas mais relevantes. Vamos pensar em um exemplo: Um professor de língua portuguesa no Ensino Fundamental, experiente e formado há mais de 20 anos, numa turma de 7º ano, deve ensinar o gênero carta pessoal aos seus alunos. É comum ouvir o seguinte comentário: “pra quê aprender isso se quase ninguém mais escreve carta?”. Se esse professor não atualizar o que aprendeu na graduação, dificilmente responderá essa pergunta ao seu aluno de forma convincente. 32UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 32UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica Você deve estar se perguntando qual seria a resposta ideal…Pois bem, já parou para pensar que os aplicativos de conversa disponíveis atualmente, possuem as mesmas características de uma carta pessoal? Temos datas, saudações, despedidas. A diferença é que as conversas acontecem de forma simultânea. Então, além dos aspectos subjetivos de se escrever algo no papel, o professor pode dizer ao aluno o quanto é importante saber de onde surgiram as formas de comunicação utilizadas atualmente. Para finalizar, justifico essa resposta que eu mesma dei a um aluno, pautada na teoria de que os gêneros textuais são relativamente estáveis e sofrem mudanças de acordo com os recursos disponíveis em cada tempo histórico, surgindo assim novos gêneros. Cabe ao professor, portanto, trabalhar de uma forma que o aluno conheça as particularidades dos gêneros textuais, que envolvem suas formas de se comunicar, aliando o conteúdo às suas práticas sociais. Enfim, é do conhecimento específico que vem toda a base teórica do trabalho do professor em sala de aula. A formação de forma contínua traz consigo a confiança e a autonomia sobre o que será ensinado, além de promover a atualização em termos conteudísticos. 1.3 Saberes da experiência Sabemos que as pessoas adquirem conhecimentos de várias maneiras, nesse processo são desenvolvidos afetos, sentimentos, sensibilidades e emoções. Junto com o conhecimento prático, é importante que o professor leve em consideração também suas experiências. Existem duas formas de saberes da experiência. A primeira advém do processo de aprendizagem espontânea, a qual gera o acúmulo de conhecimentos e autonomia para agir em diferentes situações. A segunda diz respeito à intensidade e o significado que determinadas situações geraram no indivíduo, podem acontecer apenas uma vez, porém são capazes de quebrar paradigmas e mudar drasticamente alguns posicionamentos diante da vida. É a partir dos saberes da experiência que o docente irá conhecer as particularidades da profissão, saber controlar os alunos atraindo a atenção para que obtenha confiança dos mesmos para construírem juntos o conhecimento. É com o tempo que o professor se apropria das habilidades de desenvolver estratégias e rotinas que resolvam problemas e situações típicas dos ambientes de ensino. Além do tempo, ao passar por determinadas situações, o educador desenvolve aspectos afetivos e de sensibilidade, os quaiscontribuem com o lado humano e social da educação. 33UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 33UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica Afinal, a escola desempenha variados papéis na formação humana do estudante, e cabe ao professor contribuir diretamente com os valores de interação e comunicação através de falas, atitudes e exemplos que possam torná-lo modelo a ser seguido por seus alunos, que muitas vezes não contam com tais experiências em seus domicílios. Portanto, a confiança, a autonomia, a sensibilidade, a flexibilização de práticas, dentre outras habilidades docentes, são resultado da soma de conhecimentos específicos com os saberes da experiência e a constante reflexão das práticas didáticas, os quais somam às situações vividas ao tempo de atuação nos ambientes de ensino. 1.4 Saberes Pedagógicos Não basta o docente saber os conhecimentos específicos da área, não basta que ele tenha apenas experiência. Também é necessário que se tenha saberes pedagógicos. Esses saberes dizem respeito ao desenvolvimento da atividade do professor na didática, ou seja, são as técnicas, os métodos e as ferramentas que o docente utiliza na sala de aula para conduzir todo o processo de ensino e aprendizagem. Vale ressaltar que os saberes pedagógicos não se referem apenas a aplicar as técnicas e métodos de transmissão de conteúdo, são uma série de técnicas pedagógicas para aprimorar os processos, somados à experiência de sala de aula. Então, quando se fala de saber pedagógico, para quem é professor, são aqueles saberes construídos dentro de sala de aula, ao lidar com os alunos no processo de aprendizagem, na organização curricular do curso e na avaliação. Você já deve ter visto uma palestra, vídeo ou fala de um Doutor em determinada área, em que ele, apesar de possuir muito conhecimento, não se faz entender com facilidade. Ou seja, o profissional em questão desenvolveu as habilidades de conteúdos específicos, porém não possuía experiência em sala de aula e isso acaba prejudicando suas práticas. Assim sendo, o educador consegue construir seus saberes pedagógicos por meio do estudo técnico da pedagogia, além da sala de aula, porque é no dia a dia que é possível perceber de fato o que se aplica, o que é efetivo e o que não é efetivo. Iniciamos este capítulo falando de uma situação que ocorreu em 2020, com a chegada do ensino remoto, considerando a importância da formação continuada dos profissionais da educação. Em seguida, tratamos dos saberes pedagógicos necessários ao exercício da docência. Consideramos, então, que uma formação continuada efetivamente eficiente advém da reflexão e articulação das práticas do cotidiano, somada aos conhecimentos didáticos, específicos, pedagógicos e de experiência. 34UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 34UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica 2. FORMAÇÃO TEÓRICA E PRÁTICA Se pensarmos na atualidade, podemos perceber que estamos vivendo tempos bem diferentes dos quais vivenciamos em nossa vida escolar. Considerando que a educação além de retratar e reproduzir a sociedade, também tem o papel de projetar o ideal de sociedade desejada, pois podemos perceber que a busca do conhecimento pelo homem, está diretamente ligada às tecnologias. Apesar de tal consideração, se faz necessário pensarmos que existem diferentes realidades atreladas aos diferentes contextos sociais. Isso torna o trabalho com as tecnologias de informação e comunicação ainda mais difíceis na prática pedagógica. Conforme citado no capítulo anterior, com a chegada da pandemia, ao implantar o ensino remoto, algumas escolas deixaram de atender, por exemplo, alunos que não possuíam aparelhos tecnológicos ou sinal de internet. Isso fez com que os professores tivessem que elaborar diferentes estratégias para que todos os discentes fossem atendidos. Pensando historicamente, a educação, enquanto prática pedagógica, deve responder às demandas que as diferentes realidades exigem, e grande parte desse desafio é a demanda do professor. Nesse caso, ele deve saber o que ensinar, como ensinar e para que ensinar. E essas habilidades são resultado de uma formação teórica e prática que deve acontecer de forma contínua. Sobre essa dicotomia entre teoria e prática, Paulo Freire, afirmou que não é a teoria que dita a prática, haja vista que ela deve ser uma maneira de manter a prática ao alcance 35UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 35UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica do docente, de forma que ele possa mediar e compreender criticamente as abordagens metodológicas adequadas a cada ambiente e a cada momento. Para isso é preciso preparo. Em se tratando de conceitos, podemos compreender a teoria pela forma como o conhecimento é apresentado, considerando as sistematizações e vínculos em graus e especificidades que explicam e/ou descrevem ações práticas do cotidiano. Enquanto a prática integra a teoria, tornando as ações concretas, podendo modificar tanto as teorias, quanto a si mesma. Sobre isso, Dutra (2009) aponta: Teoria é um conjunto de conhecimentos não idênticos nem totalmente distintos da prática, mas provenientes desta através de uma análise crítica que tem por finalidade, no seu retorno à prática, esclarecê-la e aperfeiçoá-la” [...] e prática é “um saber objetivo e traduzido em ação (DUTRA, 2009, p.2). Dessa forma, ao levarmos em consideração as teorias pedagógicas, podemos evidenciar os percursos formativos das ações docentes nos processos de transformação das práticas. Ao construir sua práxis, é necessário que haja reflexões recorrentes acerca dos conceitos originados desde a formação inicial, aliando-os à atualidade e aos processos de ensino e aprendizagem. Nesse ponto de vista, ao compreender a articulação e a igualdade de importância entre os campos teóricos e práticos, e fazer uso de tal concepção, o professor, no exercício da docência, torna-se reflexivo e direciona sua prática de forma significativa, a qual contribuirá diretamente na formação de indivíduos emancipados, críticos e autônomos. Demo (2011) afirma que é necessário despertar no aluno sua capacidade para estudar, se comunicar, argumentar com fundamentos, tendo em vista que esses aspectos farão desse indivíduo um sujeito ativo em suas práticas. Cabe, então, ao professor não tornar o ambiente de sala de aula, seja ela virtual ou presencial, um local de educação ex- clusivamente conteudista. É preciso levar em consideração o acolhimento que os discentes necessitam diante de tantos problemas que podem estar enfrentando em suas residências. Do ponto de vista afetivo, é importante reconhecer as dificuldades, respeitar as diferenças, chamar o aluno pelo nome, oportunizar a sua participação durante a aula, propor atividades que mostrem que ele está sendo visto. Para que essa participação seja efetivada, o docente deve colaborar para que haja um estreitamento de suas relações com o educando (SARNOSKI, 2014). Ao relacionar-se com outros sujeitos humanos, crianças e adolescentes constroem seu desenvolvimento de forma constante, tornando o afeto consideravelmente importante, tendo em vista que é por meio das sensações que eles se sentem seguros e protegidos no desenvolvimento de seus aprendizados, consolidando relações de confiança. 36UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 36UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica É nesse viés, portanto, que o docente deve apresentar a sensibilidade e a consciência de quanto aos seus atos afetuosos são de grande relevância nesse processo considerando que as emoções são estruturas permanentes da intelectualidade do indivíduo (WALLON, 1971). Outro aspecto importante no exercício da docência são os processos avaliativos. O assunto que é bastante estudado e discutido em eventos, rende muitosdebates sobre a forma ideal de avaliar, entretanto ainda é utilizada como uma forma de classificação, aprovação e reprovação na maioria das escolas. Ou seja, as avaliações trabalham como uma régua que mede os erros e acertos do aluno. Ainda que o professor não aplique as temidas provas, sabemos que existem várias formas de classificar os alunos, as escolas e, até mesmo, as cidades e estados. Um exemplo disso é a chamada “Prova Brasil”, na qual os estudantes têm a responsabilidade de “elevar” o índice de educação básica (IDEB) de suas escolas. Há também as olimpíadas de matemática, os vestibulares, o ENEM, os concursos, as provas que selecionam para programas de pós-graduação, dentre outros. No caso dos vestibulares e do ENEM, são várias as escolas que têm seus currículos feitos para atender às demandas dessas provas, em outras palavras, ensinam o aluno para que ele faça uma avaliação. Ora, não deveria, no mínimo, ser o caminho inverso? As provas deveriam ser pensadas a partir dos programas curriculares vigentes, afinal, aquele aluno que não pretende ingressar no ensino superior, teria a oportunidade de ampliar seus conhecimentos e outras competências. O conhecimento e a aprendizagem do educando devem ser analisados constantemente, através de sua participação, produção, desempenho e evolução nos processos de construção dos saberes. Além disso, é necessário ponderar que a avaliação deve acontecer por meio de diferentes instrumentos em diferentes momentos, sejam eles trabalhos, debates, produções textuais, atividades orais e, até mesmo, provas. O que não deve acontecer é a prioridade de um só método, afinal cada aluno tem afinidade com um instrumento avaliativo diferente. Outra função de extrema importância da avaliação é mostrar os resultados das metodologias aplicadas em sala. Cabe ao professor fazer uma reflexão crítica de sua prática, analisando seus avanços, as dificuldades e resistências, a fim de que sejam superadas as defasagens dos alunos, do ensino e do próprio professor. Em resumo, a avaliação deve servir de base para o aprimoramento do ensino. 37UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 37UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica Sobre esse aspecto Antunes (2009) afirma: [...] a avaliação serve de referência para orientar as próximas decisões de quem ensina. Ela confirma as suposições do professor, ou aponta as reformulações que precisam ser feitas em seus projetos e planos de ensino. [...] A avaliação perspectivada aqui é aquela que alimenta o processo de ensino. Volta a ele. Atesta. Fala dos resultados. É ponto de referência, para projetar o caminho adiante. Com segurança. Sem impressionismos ou intuições, apenas. É portanto, ampla, multifuncional, imprescindível e tem, reiteramos, uma indissociável relação com o ensino. (ANTUNES, 2009, p.220-221). Desse modo, a avaliação é uma ferramenta essencial ao professor que costuma refletir sobre suas práticas e repensar seus métodos, pois ela serve de ponto de partida para essa autoavaliação. A partir do momento em que o professor repensa suas práticas, leva em consideração os marcos teóricos existentes e renova sua forma de trabalhar, ele está exercendo efetivamente o papel de educador responsável, que leva em consideração os saberes docentes necessários à sua profissão. 38UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 38UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica 3. PORTFÓLIO DOCENTE O portfólio começou a ser usado em profissões ligadas ao campo da arte, como uma espécie de dossiê, no qual os profissionais apresentam seus trabalhos mais relevantes e documentam sua trajetória profissional. Profissionais da arquitetura, cartunistas, fotógrafos, desenhistas, designers, dentre outros organizam nesse espaço as duas produções com a finalidade de mostrar aos possíveis clientes ou em entrevistas de emprego. Foi no final dos anos 80, em escolas e universidades dos Estados Unidos, Austrália e Portugal que os portfólios começaram a ser utilizados no campo educacional, como procedimento de avaliação, pelo fato de relacionar currículo e práticas pedagógicas. Atualmente, no Brasil, esse recurso vem sendo utilizado com frequência em séries iniciais da Educação Básica, bem como no Ensino Superior, em cursos de licenciatura e outros, em formato de EAD. Villasboas, considera que no campo educacional: O portfólio apresenta várias possibilidades; uma delas é a sua construção pelo aluno. Nesse caso, o portfólio é uma coleção de suas produções, as quais apresentam as evidências de sua aprendizagem. É organizado por ele próprio para que ele e o professor, em conjunto, possam acompanhar o seu progresso (VILLAS BOAS, 2001, p.207). Ainda, definindo essa ferramenta, Shores e Grace consideram o portfólio como “uma coleção de trabalhos, realizada em certo período de tempo, com um propósito determinado” (SHORES; GRACE, 2001, p.145). 39UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 39UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica 3.1 Portfólio como instrumento de avaliação Ao considerarmos o portfólio como um instrumento de avaliação, é possível pensar em várias possibilidades e resultados, haja vista que ele é responsável por promover uma avaliação crítica e reflexiva, que apresenta o estudante como construtor de seus processos de ensino e aprendizagem. Isso acontece, porque no processo de criação do portfólio, o que requer tempo, o discente tem a oportunidade de perceber sua evolução, comparando seus primeiros registros com os demais. Ao ficarem cientes dos conhecimentos construídos e o progresso obtido, tanto o aluno, quanto o professor, irão valorizar os caminhos percorridos por ambos na construção do conhecimento. Vale ressaltar, então, que, não é apenas a evolução do aluno que deve ter destaque, pois esse tipo de trabalho possibilita uma autoavaliação também para a prática e o desempenho do professor, o qual irá ponderar sobre o que deve ser mudado e o que deve ser mantido. No âmbito educacional ainda, Shores e Grace classificam os portfólios em três tipos: O portfólio particular: que apresenta dados dos alunos, reunidos e coletados pelos professores a partir de entrevistas com os pais, estudo de caso. Aprofundam e ampliam o conhecimento do professor em relação ao aluno. E são confidenciais. [...]O portfólio de aprendizagem: é a coleção do aluno, é aquela em que professor e aluno selecionam anotações, rascunhos e esboços de projetos, amostras de trabalhos. Tornam-se fontes de consulta para ambos e fornecem elementos do aprendizado. [...]O portfólio demonstrativo: uma coleção de amostras de trabalhos, relatos narrativos e outras evidências, para ser conferida pelos futuros professores, com o propósito de fornecer um registro contínuo de avaliação. (SHORES e GRACE, 2001, p.145). Os itens que compõem o portfólio podem sofrer variações de acordo com a disciplina, o docente e suas respectivas finalidades. Nesse caso, é o professor quem vai decidir, de acordo com a realidade, as necessidades e o perfil de seus alunos, qual é o melhor tipo a ser utilizado, e os tópicos a serem escolhidos. Pianovski (2008), sugere os seguintes itens ao propor um portfólio aos alunos: a) Uma capa com a identificação do aluno e da escola. Sugere-se ao aluno personalizar a capa, buscando ilustrações referentes ao conteúdo trabalhado; b) O sumário que é a enumeração dos trabalhos e/ou atividades, na ordem que foram organizados na pasta, bem como as páginas em que se iniciam. Demonstram uma sequência de atividades e conteúdos. É o último item a ser feito; c) Uma introdução em que o aluno destaca a justificativa e os objetivos da elaboração do portfólio. É um dos momentos de reflexão. Pode descrever alguns tópicos considerados importantes e relevantes que estão presentes na pasta; 40UNIDADE I Políticas de Formação Docentes40UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica d) Organização das atividades elaboradas e selecionadas pelo aluno. A seleção dos itens (atividades) que compõem o portfólio deve ser realizada buscando qualidade e variedade, na perspectiva de uma apreciação positiva. Essas atividades podem ser pesquisas, textos, resumos, tabelas, figuras, glossário, entre outras; e) Fichas de autoavaliação referentes às atividades elaboradas. São momen- tos importantes, tanto para autonomia do aluno, quanto para o professor dar responsabilidade a ele; f) Atividades refeitas. Após a correção pelo professor é relevante que o aluno refaça as atividades. São fontes importantes para a retomada dos conteúdos. Os erros são caminhos para o conhecimento; g) Parecer do professor. Ë importante para novos encaminhamentos, tanto para o professor quanto para o aluno; h) Anexos. Constituem-se de um espaço para o aluno acrescentar informações, como textos, figuras, tabelas, gráficos, não elaborados pelo aluno, que servem de aprofundamento dos conteúdos. Podem ser usados para fazer relação com outros conteúdos e até mesmo com outras disciplinas. É uma forma de “enriquecer” o portfólio (PIANOVSKI, 2008, p.8 - 9). A autora considera ainda que, por ser um material personalizado e único, se faz necessário que o professor tenha criatividade e se utilize de conteúdos relevantes, que tenham significado. Nesse caso, a criatividade e a autonomia do aluno deve ser incentivada, por meio do acompanhamento contínuo do processo, a fim de demonstrar o quanto o conhecimento está sendo construído e aprimorado (PIANOVSKI, 2008). Portanto, ao considerarmos a importância dos processos de avaliação, que se dão por meio de estratégias contínuas e contextualizadas, o portfólio se apresenta como uma excelente ferramenta na construção do conhecimento e na autoavaliação do trabalho do professor. Na sequência iremos falar do portfólio como ferramenta do professor no mercado de trabalho. Abordaremos sua importância, seus objetivos, os itens básicos que o compõem e algumas alternativas para a construção de um bom portfólio. 3.2 O portfólio como ferramenta no mercado de trabalho Atualmente, para ingressar no mercado de trabalho, a maioria das profissões exige que se demonstre experiência e domínio das técnicas e métodos utilizados, além da capacidade de resolução de problemas e tomadas de decisões. Em se tratando da área da educação não é diferente. As entrevistas cobram dos professores, além do conteúdo e da formação, a proposição de atividades diferenciadas de acordo com os temas propostos. 41UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 41UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica Além disso, é comum que seja solicitado ao docente a apresentação do currículo com a comprovação das titulações, ou a apresentação de um portfólio com suas principais atividades desenvolvidas durante a carreira. Outra situação comum em que é solicitada a apresentação das atividades desenvolvidas, são os processos seletivos para ingressar em cursos de pós-graduação stricto sensu (Mestrado e Doutorado). Nesses momentos, é exigida a apresentação do Currículo Lattes com a cópia das devidas comprovações. No currículo constam as produções acadêmicas, participação em eventos, além de aperfeiçoamento profissional, formação e áreas de atuação. Em muitas universidades costumam pedir também uma espécie de carta de apresentação, na qual o docente discorre sobre sua vida acadêmica e profissional, dando ênfase aos seus valores e ideais enquanto profissional ou pesquisador na área da educação. Seja através do portfólio, do currículo ou da carta de apresentação, o fato é que o docente deve sempre ter, de forma organizada, seus diplomas e certificados, a fim de que se possa montar dossiês desse tipo. Ressalto que é de suma importância ter as comprovações de seus feitos, sejam eles parte de sua formação acadêmica ou profissional. Não basta relatar, é preciso comprovar! O portfólio para o professor é uma espécie de coletânea de suas experiências e credenciais de ensino. Essa ferramenta irá demonstrar as capacidades e habilidades do profissional em diversas situações, como prêmios institucionais, transferências de cargo ou candidaturas a empregos. Sobre a sua finalidade, uma das principais é evidenciar a eficácia do ensino do profissional, porém também é útil para destacar os novos professores que estão acompanhando as evoluções do ensino. Durante os processos de contratação, essas informações são muito úteis. Ao pensarmos na autoria dos portfólios, assim como na vida escolar, em que o aluno faz o seu próprio portfólio, é importante que o próprio docente execute essa tarefa. Dessa forma, será possível identificar suas marcas de autoria e traços de subjetividade, os quais também fazem parte das habilidades necessárias à contratação. Ninguém sabe melhor que o próprio professor cada momento de sua carreira, ou sua formação. Abaixo, itens que devem conter em um portfólio docente: ● Cópias de diplomas e certificados da formação profissional; ● Cópias de certificados de participação em eventos, publicações e formações complementares; 42UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 42UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica ● 1 ou duas páginas onde o professor irá descrever seus valores e crenças profissionais, objetivos como docente, relacionamento com alunos, e métodos utilizados com frequência nas práticas de ensino; ● Um currículo (de preferência da Plataforma Lattes, por ser mundialmente conhecido), que demonstre as habilidades, o nível de ensino no qual o profissional tem experiência; ● Caso já tenha trabalhado ou trabalhe em outro local, solicite e acrescente cópias de cartas de recomendação ou relatórios de avaliação institucional, feitas pelo gestor; ● Amostra de aulas ou planejamentos que demonstrem criatividade e domínio de diferentes ferramentas (as tecnológicas estão em alta); ● Materiais criados pelo próprio docente, com descrição de suas respectivas atividades; ● Amostras de diferentes instrumentos de avaliação; ● Trabalhos de alunos que demonstrem o resultado dos métodos e práticas aplicados (os nomes devem ser removidos); ● Comprovantes de atividades extracurriculares em que o profissional participa (grupos de pesquisa, tutoria, comitês escolares etc). Após organizar tais informações, digitalize os comprovantes e crie também o portfólio on-line, afinal, já que estamos na era da informação com ênfase nas tecnologias, talvez a versão digital seja até mais importante que o papel. Vale ressaltar também que muitas instituições contam com campos específicos em seus sites, em que o profissional pode se inscrever para concorrer a uma vaga. Lembrando que no início da carreira, alguns desses itens ainda não existem na vida profissional do docente, porém quando há uma organização desde o início da graduação, fica mais fácil ir acrescentando informações, ao invés de ter que fazer tudo de uma vez. Com a chegada da experiência, é permitido fazer alterações também no texto que fala sobre os ideais do professor, além de substituir atividades. Para criar o portfólio on-line, basta assistir alguns tutoriais no Youtube e acessar sites especializados. Atualmente existem vários sites que disponibilizam em suas plataformas, o serviço gratuito. Na seção “SAIBA MAIS” dessa unidade você poderá encontrar indicações e avaliar a melhor plataforma para seu uso. Enfim, o portfólio docente é essencial na vida profissional, pois demonstra ao próprio professor e a quem se interessar, sua formação, seus ideais, metodologias e resultados. 43UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 43UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica Como citado anteriormente, o profissional tem a autonomia de editá-lo quandojulgar necessário, haja vista que essa ferramenta deve ficar em constante construção. Se o portfólio não sofrer mudanças, significa que o docente deixou de lado todos os valores que dizem respeito à formação continuada. SAIBA MAIS Caro(a) aluno(a), para que você possa compreender melhor os tipos de portfólio e as ferramentas disponíveis na elaboração de cada um, leia o artigo: “Portfólio: O Que É, Modelos e Exemplos de Como Fazer Um Portfólio”, disponível no link abaixo: https://neilpatel.com/br/blog/o-que-e-portfolio/ Sugestões de plataformas gratuitas para criar seu portfólio: https://canaldoensino.com.br/blog/6-ferramentas-gratis-para-criar-portfolio-digital REFLITA “Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais.” - Rubem Alves https://neilpatel.com/br/blog/o-que-e-portfolio/ https://canaldoensino.com.br/blog/6-ferramentas-gratis-para-criar-portfolio-digital 44UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 44UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta parte do material falamos da formação do professor e os saberes necessários para o exercício da profissão, que são os saberes específicos, de experiência e pedagógicos. Esses saberes devem estar sempre articulados para que o profissional desenvolva seu trabalho satisfatoriamente. Abordamos também alguns conhecimentos teóricos e práticos da formação docente, abordando temas relevantes aos processos de ensino e aprendizagem, como a afetividade, a contextualização dos conteúdos e os processos avaliativos. Ao final, pudemos conhecer um pouco do portfólio como instrumento de avaliação e, em seguida, como ferramenta profissional do professor. Espero que os conceitos e reflexões apresentados, sirvam de norte para o exercício da docência e outras particularidades que possam surgir em sua vida profissional. 45UNIDADE I Políticas de Formação Docentes 45UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Saberes pedagógicos e atividade docente Autor: Selma Garrido Pimenta Ano: 2018 Editora: Cortez; 8ª edição Sinopse: Este livro expõe ao debate algumas pesquisas na área da pedagogia. Os temas abordados colaboram para dotar os professores de perspectivas de análise que os ajudem a compreender os contextos histórico/sociais/organizacionais nos quais se dá sua atividade docente. FILME/VÍDEO Título: Entre os muros da escola - Entre les Murs (original) Duração: 2h e 8min Direção: Laurent Cantet Ano de lançamento: 2009 (Brasil) Sinopse: François e os demais amigos professores se preparam para enfrentar mais um novo ano letivo. Tudo seria normal se a escola não estivesse em um bairro cheio de conflitos. Os mestres têm boas intenções e desejo para oferecer uma boa educação aos seus alunos, mas por causa das diferenças culturais - microcosmo da França contemporânea - esses jovens podem acabar com todo o entusiasmo. François quer surpreender os jovens ensinando o sentido da ética, mas eles não parecem dispostos a aceitar os métodos propostos. 46 Plano de Estudo: ● Formação inicial de professores; ● Desafios e demandas da formação de professores; ● O papel das instituições formadoras para a superação dos desafios da formação contem- porânea de professores. Objetivos da Aprendizagem: ● Discutir as demandas e diversidades linguísticas na formação inicial de professores; ● Compreender os desafios e demandas no atual cenário educacional; ● Ter consciência da importância das instituições formadoras na superação dos desafios apresentados na atualidade. UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente Professora Mestre Daiane Martins 47UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente INTRODUÇÃO Dear student! ¡Querido(a) estudiante! Cher élève! Lieber schüler! Caro allievo! дорогой ученик! Querido (a) aluno(a), tudo certo com você? Espero que sim! Inicio esta unidade de uma forma um pouco diferente, fazendo uso de alguns idiomas, pois o assunto da vez são as demandas linguísticas em nossa formação e em nossa prática de sala de aula! Abordaremos o tema da formação inicial dos professores, relacionando o assunto com os aspectos linguísticos que devem ser compreendidos, a fim de que se possa desenvolver uma boa prática em relação às particularidades do trabalho com a Língua Portuguesa e outros idiomas. Na sequência, falaremos dos desafios e demandas do professor na atualidade, adentrando em valores linguísticos e abordando temas relevantes às práticas em sala de aula. Ao final desta unidade, iremos discutir a relevância das instituições formadoras no enfrentamento dos desafios e mudanças que ocorrem constantemente no cenário educacional. Espero que possamos abordar tópicos relevantes para sua prática e demonstrar um pouco dos desafios que nós professores enfrentamos, afinal “nem toda grama é verde e nem todo céu é azul”, como dizem algumas teorias! ¡Buenos estudios! 48UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente 1. FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES Conforme foi dito anteriormente, a prática docente requer a união de vários saberes, que aliam a teoria e a prática, na formação inicial do professor. Para que esse profissional desempenhe sua práxis satisfatoriamente, se faz necessária a formação continuada, a reflexão e a adequação das metodologias, e das habilidades, de acordo com o contexto enfrentado nos variados ambientes de ensino. Até então, falamos sobre a formação do professor, considerando um contexto geral, a partir de agora, trataremos especificamente dos professores de línguas. Para obter uma licenciatura em língua estrangeira no Brasil, sabemos que o docente termina a graduação licenciado também em Língua Portuguesa, afinal para ensinar outro idioma é preciso ter o pleno domínio da língua materna, para que se possam estabelecer comparações, tanto nos aspectos linguísticos, quanto culturais. Para que tais habilidades sejam possíveis, o futuro professor deve se apropriar de algumas demandas em sua formação inicial. O docente de línguas, seja materna ou estrangeira, possui uma série de conteúdos de diferentes vertentes, que são exigidos em suas práticas de sala de aula. São conhecimentos textuais, gramaticais, literários, sociais, discursivos, culturais, didáticos, entre outros. Além de ter autonomia dessas vertentes citadas, se faz necessário o saber de relacioná-los, entre si, e a compará-los com outros contextos, línguas e culturas. 49UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente Em seguida, falaremos um pouco sobre cada vertente citada acima, com considerações acerca do trabalho de cada uma. Depois trataremos da teoria dos multiletramentos, a qual é uma grande base para relacionar cada conteúdo. No final deste capítulo, vamos considerar ainda, a importância do letramento na formação do professor de línguas. Muitas teorias partem do pressuposto que a língua é a manifestação do pensamento, todavia sabemos que, para que haja determinados pensamentos, são necessários valores culturais e discursivos, dentre outros saberes, os quais o ser humano passa a dominar ao longo da vida. Então, sobre os saberes discursivos, o professor deve pensar que ele se manifesta em todos os aspectos da língua, seja ela materna, ou estrangeira. Em outras palavras, Muitas teorias partem do pressuposto que a língua é a manifestação do pensamento, todavia sabemos que, para que haja determinados pensamentos, são necessários valores culturais e discursivos, dentre outros saberes, os quais o ser humano passa a dominar ao longo da vida. Então, sobre os saberes discursivos, o professor deve pensar que o mesmo se manifesta em todosos aspectos da língua, seja ela materna, ou estrangeira. Uma das manifestações discursivas é o texto, outra habilidade que deve ser trabalhada em sala de aula. Os conhecimentos textuais, estudados por autores como Bakhtin, Marcuschi e Koch, abrangem não só o texto em si, mas todo seu contexto de produção e recepção. Além disso, devem ser trabalhados de forma contextualizada à realidade do aluno, para que ele parta de um conhecimento que já possui, se sinta confiante e estimulado, e saiba o porquê de aprender determinado gênero textual. Você se lembra do exemplo de carta pessoal que citei anteriormente? Para que o aluno soubesse o motivo de estudar tal gênero, foi preciso explicar que a forma de comunicação que ele usa atualmente, tem relação com o conteúdo que seria estudado. Assim acontece também com a língua estrangeira. O discente deve refletir e entender a utilidade do texto e sua temática. Trabalhar numa perspectiva da teoria dos gêneros textuais, requer antes mesmo de fazer a leitura, refletir sobre a autoria, o lugar de produção e recepção, o público alvo, os objetivos do texto, os diferentes tipos de linguagem utilizada, o local em que o texto foi publicado e sua temática. Após compreender todos esses aspectos, o estudante compreenderá com maior facilidade o conteúdo do gênero textual, seja ele falado ou escrito. Abaixo, uma lista que produzi, a qual torna essa reflexão mais organizada e serve de base para trabalhar com todos os gêneros textuais. 50UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente 1. Nome específico: nome atribuído ao gênero textual 2. Contexto de produção e recepção: a) autor: Quem produziu o texto Nível de autoria: ( ) baixo ( ) médio ( ) elevado – o texto apresenta que me- dida de originalidade? b) Leitor preferencial: para quem o texto foi destinado? c) Suporte: Através de que material físico o texto chegou ao destinatário? d) Tempo: ( ) determinado ( ) indeterminado – é possível identificar quando o texto foi produzido e quanto tempo levou para produzir? e) Lugar de produção: onde o autor estava quando escreveu o texto? f) Evento deflagrador: qual foi o motivo que levou o autor a produzir o texto? 3. Tema/objeto de estudo/ assunto: Qual o tema central? 4. Função/objetivo: com que objetivo o texto foi produzido? 5. Linguagem/estilo: quais recursos linguísticos foram utilizados? A lingua- gem é formal ou informal? Simples ou complexa? 6. Organização/estrutura: Como o autor organizou o texto? Parágrafos? Versos? Frases curtas? Quadrinhos? Caixas de texto? Outra organização? Estrutura: Em que ordem os elementos são distribuídos no texto? (Título, parágrafos, logo, nome do autor, foto, legenda...) (MARTINS, 2019, p.5-6). Sobre os saberes gramaticais, o professor de línguas deverá sempre trabalhá- los de forma contextualizada, preferencialmente dentro do texto e justificando ao aluno a sua aplicabilidade. Por exemplo, ao trabalhar gêneros narrativos, pode-se trabalhar com adjetivos e advérbios, justificando aos alunos que as palavras e expressões classificadas com esses nomes, servem para dar maiores detalhes ao texto. Portanto, quando o estudante for produzir uma história e ela ficar muito curta, ao invés de inventar novos finais e acrescentar novos fatos, basta enriquecer o que já foi escrito com adjetivos e advérbios para que o leitor possa visualizar melhor o que está sendo contado. Resumindo, mais uma vez é necessário contextualizar o conteúdo. Quando se fala de gêneros textuais, também existem os textos literários, os quais devem ser relacionados com a época em que foram produzidos e os recursos linguísticos que foram utilizados. Porém, numa perspectiva de alguns autores que estudam o ensino da literatura, os aspectos literários, devem ser trabalhados de uma forma em que os valores artísticos não sejam esquecidos. Em outras palavras, ao trabalhar com textos literários, o docente não deve deixar de lado que aquela produção é uma manifestação artística que serve, antes de qualquer coisa, para entreter o leitor. Em seguida, as demais características serão trabalhadas como citado anteriormente. 51UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente Os aspectos sociais e culturais, devem ser levados em consideração não só nos textos trabalhados, sejam eles didáticos, literários ou não literários, mas também no trato com o aluno, que nem sempre compartilha dos mesmos valores que o professor. Além disso, nas aulas de língua estrangeira, esses valores são muito importantes na compreensão das particularidades dos falantes de outras línguas, além de servirem, por meio de comparações, como uma ferramenta de conscientização do aluno para compreender sua própria realidade. Sobre os conhecimentos didáticos, como já citamos, cabe ao docente se apropriar dos saberes necessários ao exercício da docência, além de buscar a formação continuada, com a finalidade de ter autonomia para transitar entre diferentes metodologias e estratégias, depois de refletir sobre suas abordagens e resultados. Sobre os conhecimentos mencionados acima, sabemos que é preciso saber relacioná-los e, além disso, dar conta do desafio de manter a atenção e o foco dos alunos. Uma forma eficaz de promover o ensino pautado nessas perspectivas é fazendo uso da teoria dos multiletramentos. A teoria dos multiletramentos, originária no Grupo Nova Londres e trazida para o Brasil por Roxane Rojo, considera os dois tipos de multiplicidades presentes na sociedade atualmente: “a multiplicidade cultural das populações e a multiplicidade semiótica de constituição dos textos por meio das quais ela se comunica” (ROJO, 2012, p.13). Em outras palavras, essa teoria abrange os diferentes tipos de letramento, a partir das diferentes esferas de comunicação, bem como os diferentes gêneros textuais, sejam eles eruditos, populares, de massa, dentre outros. Aborda-se também a hibridização dos campos de atuação do ser humano em suas diferentes produções, as quais são compostas de diferentes tipos de linguagens. Se considerarmos o ambiente de sala de aula, alí já notamos que há diferentes grupos, que têm suas bases em diferentes culturas. Então, se faz necessário, trabalhar de forma a abranger o máximo de culturas possíveis, para que o estudante compreenda seu papel na sociedade e suas práticas sociais. A partir dessa aproximação com a própria cultura, por meio de variados gêneros textuais, que se dão com diversos tipos de linguagem e em diferentes esferas, o aluno poderá compreender melhor, por meio de comparações, outras culturas vigentes, não só em seu país, como também em outros, no caso do uso de línguas estrangeiras. Nessa perspectiva, o professor terá abertura para falar também sobre os diferentes usos da língua, seja ela materna ou estrangeira, de acordo com os contextos de uso. Por exemplo, ao trabalhar com um texto que fale da comunidade skatista, sabemos que na 52UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente língua portuguesa são usadas várias gírias e expressões próprias dessas comunidades, logo em países falantes de língua espanhola, acontece o mesmo. Nesse momento, há uma oportunidade de comparar as diferenças e semelhanças contidas neste grupo em diferentes países. Quando o professor aborda diversos grupos sociais que possuem discursos distintos e/ou comuns entre si, o aluno adquire noções de respeito, no que tange às diversidades culturais, sociais e linguísticas, compreendendo que cada grupo possui em seus campos de atuação, diferentes formas de manifestar seus pensamentos e ideais. Com isso, a compreensão dos gêneros textuais, sejam eles orais, escritos, formais, informais, literários ou não literários, é facilitada e o professor consegue transmitir efetivamente os conteúdos desejados em sala de aula. Portanto, tendo em vista o que foi mencionado, o estudante do curso deLetras, deve estar ciente de que, mesmo que seu aluno não se interesse pelo estudo de línguas, ele terá que demonstrar a importância da mesma nas mais variadas esferas de comunicação que o aluno faz parte. Em outras palavras, a partir da formação inicial, o professor de línguas, terá como base a relevância social e comunicativa da língua que é importante para qualquer sujeito, seja ele estudante das línguas ou não. Em resumo, a formação inicial do professor de línguas, deverá torná-lo apto à unir os conteúdos, contextualizá-los às diversas realidades, justificar seu uso, considerar os diferentes aspectos culturais, tanto no país quanto em outras culturas, além de explicar a importância da língua materna e/ou estrangeira nos processos comunicativos que permeiam o dia a dia dos alunos. E, por último, porém não menos importante, para que esses conhecimentos se mantenham vivos e atualizados, o futuro professor deve ter a consciência de que os saberes exigidos devem ser renovados continuamente. 53UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente 2. DESAFIOS E DEMANDAS DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES Os valores apresentados no capítulo anterior, são demandas propostas pelas novas DCNs de 2015, aliadas à aportes teóricos e curriculares, da formação inicial do professor, especificamente do curso de Licenciatura em Letras. Sobre os principais desafios apresentados pela Resolução n° 2/CNE/2015, podemos considerar que são apresentados já no Artigo 2° que define o exercício da docência: Como ação educativa e como processo pedagógico intencional e metódico, envolvendo conhecimentos específicos, interdisciplinares e pedagógicos, conceitos, princípios e objetivos da formação que se desenvolvem na construção e apropriação dos valores éticos, linguísticos, estéticos e políticos do conhecimento inerentes à sólida formação científica e cultural do ensinar/ aprender, à socialização e construção de conhecimentos e sua inovação, em diálogo constante entre diferentes visões de mundo (BRASIL, 2015, p.3). Claramente, a visão apresentada acima, não considera que o professor formado poderá atuar em vários níveis da educação básica, com os mais variados perfis de alunos. Cada nível da educação possui especificidades distintas, fato que demanda mudança nos saberes e metodologias. Além disso, mesmo em turmas da mesma categoria, existem discentes em diferentes contextos e experiências de vida, os quais devem ser levados em consideração durante os processos de ensino e aprendizagem. Dentre esses alunos, podemos destacar também a presença de crianças e adolescentes com deficiência, que apresentam suas especificidades e precisam também de atendimento diferenciado, que estejam de acordo com suas questões cognitivas e até mesmo físicas. 54UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente Então, se faz necessário às instituições, conforme considerado no artigo 5° da mesma resolução, adequar seus currículos e práticas, com a finalidade de proporcionar conhecimentos que conduzam o futuro profissional à aprendizagem e ao desenvolvimento. Para isso a formação de professores deve ser pautada no compromisso com os aspectos sociais, políticos e éticos, os quais serão responsáveis pela emancipação de indivíduos e grupos sociais, tornando a sociedade mais democrática, justa e inclusiva. Portanto as instituições devem ser e formar sujeitos atentos ao reconhecimento e valorização da diver- sidade e contrários a toda forma de discriminação (BRASIL, 2015, p.4). Outra demanda importante da formação inicial de professores, é o desenvolvimento, de forma equilibrada, dos conhecimentos específicos da área com as habilidades próprias da profissão docente. Em outras palavras, o exercício docente, de acordo com as DCNs, requer o domínio de conteúdos específicos e pedagógicos, aliados às abordagens teórico metodológicas, para que o profissional da área esteja apto a promover o ensino de forma interdisciplinar e adequada a diferentes perfis de alunos. Além disso, ao professor de línguas, se faz necessário o domínio dos vários tipos de linguagem e seus papéis sociais, aliando os mesmos aos meios de comunicação e às tecnologias de informação e comunicação (TIC) que contribuem diretamente para o desenvolvimento da aprendizagem. Para isso, é importante destacar a demanda que diz respeito ao uso das TIC e sua aplicabilidade nos vários níveis de educação. Os futuros professores devem terminar seus cursos de licenciatura aptos ao domínio dessas tecnologias. Além disso, para transmitir co- nhecimentos dessa vertente, é preciso se apropriar também das metodologias que tratam do assunto. Assim, quando ingressar em sala de aula, o docente poderá inserir seus alunos na sociedade tecnológica, promovendo, de certa forma, uma cidadania digital do sujeito que, muitas vezes, faz uso das TIC, mas não têm domínio sobre as particularidades que permeiam esse campo. Ademais, quando pensamos nas modalidades de educação básica em que o professor poderá atuar, temos a educação de jovens e adultos, educação especial, educação profissional e tecnológica, educação do campo, educação escolar indígena, educação a distância e educação quilombola. É necessário levar em consideração, portanto, que cada modalidade citada possui suas diretrizes, ou seja, é necessário buscar a compreensão das especificidades, das discussões e dos dilemas que são base dessas vertentes educacionais. Talvez um dos maiores desafios enfrentados pelas instituições formadoras é a quebra de paradigmas no que tange à universalização da educação escolar, ou seja, os cursos de formação devem levar em consideração que o Brasil é um país multicultural e multiétnico, assim não se pode formar profissionais que pensem a educação de uma só forma. 55UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente É preciso promover as diversidades e diferenças em termos sociais e culturais existentes em nosso país, para que sejam garantidos os direitos individuais e coletivos dos cidadãos com identidades culturais distintas. Atualmente, com a criação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), mais uma demanda ocupa espaço nos currículos da formação docente. Apesar desse documento não apresentar valores específicos ao ensino superior, os cursos de licenciatura devem prepa- rar seus estudantes para estarem aptos a compreenderem as habilidades e conteúdos que servem de base para a educação. Quando pensamos nos desafios que permeiam nossas diferentes linhas educacionais, quando nos formamos e vamos para escola, os desafios surgem diariamente, pois as escolas, principalmente do ensino público, não possuem os recursos e investimentos suficientes para bancar o modelo ideal de ensino proposto pelas diretrizes e BNCC. É irônico, não? Idealizam o uso das TIC, mas oferecem ferramentas defasadas para se trabalhar esses valores. Os profissionais que frequentam as escolas do campo, indígenas e quilombolas, muitas vezes, não possuem formação adequada para contemplar as especificidades desses locais, fato que distorce os ideais propostos para os sujeitos dessas áreas. Quando se trata de educação de jovens e adultos, as normas, diretrizes e o papel social da educação tem grande relevância, pela representatividade que a escola tem na vida do indivíduo, fato que não deve ser ignorado pelo professor. Sem falar nas avaliações que devem ser diferenciadas. Há de se considerar também que todas as modalidades de ensino citadas, contam com a inclusão de alunos deficientes, fato que exige da escola e de seus profissionais, o preparo para formar esses indivíduos levando em consideração suas habilidades e limita- ções, de acordo com cada tipo de deficiência apresentada. Se esse preparo não acontece, o trabalho com esses alunos torna-se penoso e, na maioria das vezes, inadequado, fato que contribui aindamais para a exclusão desses grupos. Ao pensar na formação inicial do professor de línguas, a forma de trabalhar sugerida no capítulo anterior, de certa forma contempla as diferenças existentes não só nas salas de aula, como também nas modalidades de ensino. Entretanto, pensar os aspectos teóricos e metodológicos não basta para se apropriar e promover um ensino efetivamente bom. É necessário ao professor, buscar sempre novas formações, seja por meio de pós-graduação, cursos de capacitação, mestrado ou doutorado, que tenham como base a multiplicidade de culturas e características. Afinal a língua, seja ela materna ou estrangeira, além de ser a 56UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente base da comunicação, é carregada de aspectos culturais, étnicos, ideológicos e sociais, logo cabe ao professor promover a inclusão e a divulgação desses valores em seus processos de ensino e aprendizagem. Outro assunto que não podemos deixar de pensar é o ensino com a chegada da pandemia. De repente a escola pública tornou-se remota. O aluno que não tinha recursos, recorreu a atividades impressas e aulas transmitidas pela televisão. O grande desafio dessa época foi a adaptação dos alunos, das famílias, dos professores e de outros profissionais da educação que estavam acostumados a trabalhar em espaços específicos. Às famílias coube o papel de orientar os alunos durante as aulas, auxiliar na rea- lização das atividades e cuidar dos aspectos disciplinares para que estudar em casa se tornasse rotina. Os alunos tiveram que se acostumar a estudar sem a presença física de um professor, tendo autonomia e responsabilidade de estudar e contribuir na construção do conhecimento, mesmo não estando em um ambiente de sala de aula. Aos professores, foi dado o papel de atuar nos ambientes virtuais, buscando o domínio de novas metodologias e abordagens pedagógicas que atendessem à nova forma de ensinar, seja ela remota ou a distância, por meio de atividades impressas. E, por último, os demais profissionais da educação davam apoio técnico e normativo e, muitas vezes, emocional aos alunos, familiares e professores. Atualmente, o ensino está sendo híbrido. Mais um desafio para todos os sujeitos citados. Parte do ensino se dá em sala de aula, parte em casa. As aulas remotas e presen- ciais acontecem de forma simultânea e os alunos fazem revezamento ao frequentarem a escola em dias alternados. Novamente o professor deve estar apto a atender, ao mesmo tempo, os estudantes que estão nas chamadas on-line e os que estão em sala. Sabemos que nem sempre a família desempenhou o papel que deveria. Nem sempre o aluno que estava on-line se apropriou dos conteúdos de forma adequada. Todavia, na volta para o ensino híbrido, é do professor a responsabilidade de recuperar tais prejuízos voltados à defasagem de conteúdos. Para tanto, é preciso refletir suas práticas e adequá- las ao contexto atual. Sendo assim, voltamos ao assunto da formação continuada. A grande maioria dos professores não é apta a trabalhar em todos os tipos de escolas citadas, e modalidades de ensino. Isso é normal. No entanto, ao sair da graduação eles devem estar cientes de que existem tais espaços e caberá ao profissional buscar formação específica ao ambiente no qual irá atuar. Ou seja, o docente, a partir da base que teve nos cursos de licenciatura, deverá ter maturidade para reconhecer que precisa atualizar seus conhecimentos e refor- mular suas práticas de acordo com cada perfil de aluno ou grupo que irá trabalhar. 57UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente 3. O PAPEL DAS INSTITUIÇÕES FORMADORAS PARA A SUPERAÇÃO DOS DESAFIOS DA FORMAÇÃO CONTEMPORÂNEA DE PROFESSORES Ao ingressar em sala de aula, o professor é um dos grandes responsáveis pela orientação dos alunos, a fim de que se construa o conhecimento de forma colaborativa. O profissional se prepara durante toda a graduação, porém quando ingressa na profissão, se depara com todos os desafios citados anteriormente. Sabemos que uma pandemia, por exemplo, não é possível prever, porém há vários outros desafios que podem ser citados durante sua formação, fato que irá contribuir com a prática do futuro docente. Iremos falar um pouco agora do papel das instituições formadoras na superação desses desafios que permeiam a educação e as práticas pedagógicas. Primeiramente, é necessário que haja pessoas querendo atuar na docência. Para isso, é preciso que as instituições repensem na constante mudança de perfil dos jovens estudantes, bem como na atratividade da carreira docente. Certamente não é um enfrentamento fácil, haja vista que há novas responsabilidades sociais atribuídas a esse profissional, bem como desprestígio da profissão e a baixa remuneração salarial, dentre outras problemáticas. Sendo assim, é na graduação que esses paradigmas devem ser quebrados, afinal se por um lado há todas essas intempéries, por outro o papel do professor é deveras importante na sociedade. Sobre isso Gatti e Barreto consideram: De qualquer ângulo que se focalize a questão, quer na perspectiva dos que se nutrem dos ideais de educação para a construção de uma sociedade justa 58UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente na distribuição de seus bens e na preservação de valores de solidariedade e de coesão social, quer na perspectiva dos que se preocupam com a eficiência interna dos processos educativos e com a eficácia na preparação do aluno para participar das transformações em curso no mundo contemporâneo, a formação de professores sobressai como fator relevante (GATTI e BARRETO, 2009, p. 11-12). Dessa forma, as instituições formadoras devem sempre promover atividades de valorização de suas licenciaturas e futuros professores, para que eles não percam a crença no exercício da docência. Afinal, por mais que os conteúdos estejam disponíveis para os alunos, nas mais variadas plataformas digitais, por exemplo, a pandemia mostrou o quão importante se faz a presença de um professor na construção dos conhecimentos. Em seguida, considerando que o professor formado deve ter capacidade de refletir sobre suas práticas e saber que são necessários diferentes saberes pedagógicos para atuar no ensino, as instituições também devem seguir esse pensamento e repensar seus currículos e abordagens, a fim de que se possa atender às demandas sociais que mudam constantemente. Para que isso ocorra, a universidade que prepara os alunos para as demandas e desafios da educação, deve ter seu ensino pautado em equilibrar e, acima de tudo, aliar os conhecimentos teóricos e práticos. Essa articulação deve acontecer constantemente para que o futuro professor compreenda a aplicabilidade e as possibilidades de cada conteúdo que, por ventura venha trabalhar quando atuante em sala de aula. Os formadores de professores devem focar nos desafios da sociedade do conhecimento e da aprendizagem em que os professores têm agora de trabalhar. Se queremos nas escolas professores que reflectem sobre as suas práticas (e sobre os propósitos e valores que lhes estão subjacentes), então os cursos de formação (inicial, mas também continuada) têm de ser organizados em função dessa realidade, colocando de lado processos e práticas de formação dominados, em muitos casos, por modelos tradicionais, escolarizados e baseados numa racionalidade técnica (FLORES, 2010, p. 186). Outra forma de colaborar com a resolução dos desafios, está proposta nas novas DCNs. Para aproximar o estudante da prática, a universidade deve trabalhar em parceria com as escolas de educação básica. Em outras palavras, ao estar próxima da realidade da educação básica, o aprimoramento das práticas pedagógicas se dará de forma mais efetiva e o futuro docente terá mais autonomia quando formado. Ao tratar dessa aproximação, Oliveira e Bonfim afirmam que: mais do que a justaposição entreas disciplinas de conteúdos específicos e as disciplinas pedagógicas. Torna-se necessário aproximar as disciplinas pedagógicas da realidade escolar, para que o licenciando possa ter contato com problemas reais de educação: bem fundamentado teoricamente, poderá refletir, e buscar soluções/amenizações para os problemas enfrentados na escola. Só assim os saberes pedagógicos poderiam realmente fazer diferença na sua prática (OLIVEIRA; BONFIM, 2012, p. 78). 59UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente Demonstrando a importância de se aliar os conhecimentos teóricos aos conhecimentos da prática, é nos cursos de graduação que o profissional compreende também a importância da pesquisa no contexto educacional. Por meio da pesquisa, o estudante compreenderá vários aspectos teóricos, práticos, sociais, culturais, estruturais etc. Além disso, ao produzir pesquisas e estudos, o professor, formado, ou não, atua diretamente na construção dos conhecimentos ligados ao ensino e outras demandas. A fim de que se incentive os trabalhos de pesquisa, o importante papel das instituições formadoras é a promoção de eventos culturais e acadêmicos voltados aos seus alunos, alunos egressos, professores atuantes e demais convidados. É nesses momentos que acontecem debates, trocas de conhecimentos e práticas, contatos entre instituições, oportunidades de publicações, os quais fazem parte das demandas educacionais. Em se tratando da formação do professor de línguas, é necessário ter um cuidado também com as diferentes vertentes desse ensino, além de preparar o futuro professor para estar apto a estabelecer comparações, e considerar as diversas situações de uso da língua. Por exemplo, não basta comparar determinada expressão entre a língua portuguesa e a língua espanhola. É preciso também pensar nas diferenças entre os países que fazem uso dessas línguas, bem como o contexto em que tais expressões são utilizadas. Apesar da BNCC não contemplar a língua espanhola, ao adaptarmos o que é considerado para a língua inglesa, veremos que o estudo dessas situações de fala transpassa a importância dos aspectos gramaticais. Em termos metodológicos, os cursos de formação devem apresentar as mais variadas e atuais metodologias. Afinal, com as mudanças repentinas da sociedade, para que o professor esteja preparado para ensinar com metodologias ativas, por exemplo, ele deve ter aprendido, na teoria e na prática a aplicabilidade desses valores. Além disso, sabemos que, mesmo no ensino superior, os professores devem apresentar uma variação de suas metodologias de ensino, a fim de que se possa alcançar o número máximo de alunos nos processos de ensino e aprendizagem. Deve haver uma atualização curricular constante também no que diz respeito às políticas e normas que regem a educação básica, para que o estudante compreenda as estruturas e regras que dão norte ao ensino. A partir de tal entendimento, será possível discutir a educação e seus objetivos no decorrer do tempo e das influências políticas e ideológicas. Assim o professor irá compreender o contexto no qual está inserido. As instituições formadoras contribuem, portanto, nos mais variados aspectos da formação do profissional de educação. Seja por meio de atividades práticas, eventos, 60UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente estágios, conteúdos específicos, esses locais devem estar sempre preparados para mostrar ao estudante o quão importante é o exercício docente em sociedade, além de demonstrarem respeito às diferenças e às multiculturas existentes. Por meio do exemplo, com atividades que envolvam todos os valores citados acima, os cursos de formação têm competência para formar profissionais reflexivos e responsáveis no desenvolvimento de suas práticas. Enfim, ser professor(a), caro(a) estudante, não é uma tarefa fácil. A formação não irá acabar com o final desta disciplina ou deste curso. Sendo sua professora formadora, eu afirmo que ensinar é, acima de tudo, o hábito de aprender algo todos os dias. Estar em uma sala de aula de educação básica, atividade que faço de segunda a sexta-feira há mais de 10 anos, não é fácil, mas com o passar do tempo, você percebe que desenvolveu todas essas habilidades e faz uso delas com a maior naturalidade. As tomadas de decisões acontecem o tempo todo sem que você perceba que estão acontecendo. Além disso, considere também que, em um momento de afetividade e bate papo, o aluno aprende mais valores do que em uma aula expositiva, por exemplo. O seu aluno saber que você estuda, e saber especificamente o que você estuda, para melhorar as aulas, faz com que ele também aprenda! Primeiro pelo exemplo, depois pela valorização da profissão! Como docente atuante há mais de 10 anos, sei que a escola não é um “mar de rosas”, passei por educação do campo, educação de jovens e adultos, escola pública e privada, formação de professores e cursos de língua estrangeira. Em cada lugar aprendi um pouco e me capacitei para tal. Porém, até hoje o melhor sentimento que tenho em relação à profissão que escolhi é a gratidão de encontrar com alunos tempos depois, e ouvir que eles aprenderam muito comigo e acabaram escolhendo a carreira docente. Tenha certeza, futuro(a) professor(a), isso vale a pena! 61UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente SAIBA MAIS Prezado(a) estudante, para que você possa compreender na prática o que seria um ensino contextualizado, vou deixar como sugestão um material que criei para trabalhar com alunos de Ensino Médio de uma escola do campo, baseado na teoria dos gêneros textuais. O material é público e você pode adaptá-lo para o ensino em outros tipos de escola, ou até mesmo nas aulas de língua estrangeira. https://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/4655/2/LD_PPGEN_M_Martins%2c_Daiane_Apareci- da_2019_1.pdf REFLITA “Inclusão, educação, justiça. Diversidade, diferenças, respeito. Convivência, tolerância, paz. Palavras soltas que conectadas e incorporadas à nossa vida resultam num mundo melhor.” - Joseli Barros https://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/4655/2/LD_PPGEN_M_Martins%2c_Daiane_Aparecida_2019_1.pdf https://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/4655/2/LD_PPGEN_M_Martins%2c_Daiane_Aparecida_2019_1.pdf 62UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, abordamos alguns saberes necessários à formação e a prática de professores de línguas maternas e estrangeiras, sugerindo abordagens que devem ser trabalhadas em sala de aula. Além disso, discutimos alguns desafios e demandas da formação e da carreira docente, a fim de que seja possível compreender a realidade do cenário educacional brasileiro. Para finalizar esta parte do material, falamos da responsabilidade e dos valores atribuídos aos cursos de formação de professores, na superação dos desafios e demandas propostos na formação de professores no país. Anseio que as discussões aqui apresentadas tenham contribuído para que você compreenda um pouco mais sobre as práticas de sala de aula e sobre a importância da profissão que você escolheu. Me coloco à disposição para que possamos discutir um pouco mais sobre a educação e a carreira docente em outros momentos! 63UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO 1 Título: Multiletramentos na escola Autor: Roxane Rojo e Eduardo Moura Ano: 2016 Editora: Parábola Editorial Sinopse: Hoje, qualquer um edita um áudio ou um vídeo em casa, produz animações de boa qualidade, constrói objetos e ambientes tridimensionais, combinados com textos e imagens paradas, adiciona música e voz e produz trabalhos muito além do que qualquer editora ou estúdio de cinema poderia fazer até alguns anos atrás... E como ficam nisso tudo os letramentos?Tornam-se multiletramentos: são necessárias novas ferramentas de áudio, vídeo, tratamento de imagem, edição e diagramação. São requeridas novas práticas de produção, de análise... Embora seja mais cômodo, é inadmissível ignorar as novas linguagens proliferadas no mundo contemporâneo e as necessidades de um letramento crítico que o mundo pede aos alunos. Se, até meados do século XX, as práticas de letramento fundamentadas no uso da tecnologia da escrita atendiam às demandas postas à educação escolar, a partir do surgimento das tecnologias digitais, não mais. Novos desafios são impostos à escola. Diante de mudanças tão repentinas e intensas, professores de língua materna não familiarizados com tais modificações, afeitos à boa e “velha” mídia impressa e à tecnologia da escrita, indagam: que enfoque adotar na formação para a linguagem? Devemos ver nossos alunos como sujeitos protagonistas na construção de conhecimentos significativos e reconhecer o lugar dos jovens como produtores e consumidores de bens culturais em novas mídias, entendendo que as culturas juvenis constroem, a partir de práticas letradas específicas, redes sociais. São as redes que permitirão a esses jovens tornarem-se agentes culturais ativos nas diversas culturas locais e globais. 64UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente LIVRO 2 Título: Multiletramentos na escola Autores: Ruberval Franco Maciel e Vanessa de Assis Araújo. Ano: 2011 Editora: Paco Editorial Sinopse: Escrito a muitas mãos por professores e pesquisadores de diferentes instituições e em diferentes momentos profissionais, este livro oferece um novo olhar sobre a arte de ensinar uma língua adicional. É uma excelente coletânea de artigos que analisam diversos temas relevantes, destacando-se a formação de professores, letramento crítico, novos letramentos, educação e políticas linguísticas. Essa é uma das obras que nenhum professor de língua adicional pode deixar de ler. FILME/VÍDEO Título: Sociedade dos Poetas Mortos Duração: 2h 08min Direção: Peter Weir Ano de lançamento: 1990 Sinopse: Em 1959 na Welton Academy, uma tradicional escola preparatória, um ex-aluno (Robin Williams) se torna o novo professor de literatura, mas logo seus métodos de incentivar os alunos a pensarem por si mesmos cria um choque com a ortodoxa direção do colégio, principalmente quando ele fala aos seus alunos sobre a "Sociedade dos Poetas Mortos". 65 Plano de Estudo: ● Ensino de línguas estrangeiras; ● Ensino de segundas línguas; ● Educação de surdos. Objetivos da Aprendizagem: ● Discutir o atual cenário de formação de professores de língua estrangeira, segunda língua e educação dos surdos; ● Identificar as demandas da formação de professores de língua estrangeira, segunda língua e educação dos surdos; ● Analisar resultados de pesquisas que tratam da formação de professores para o ensino de segundas línguas, línguas estrangeiras e linguagem brasileira de sinais. UNIDADE IV Formação Docente Professora Mestre Daiane Martins 66UNIDADE IV Formação Docente INTRODUÇÃO Prezado(a) aluno(a), chegamos a nossa última etapa! Agora que já falamos sobre políticas, desafios, metodologias e demandas da atuação e formação de professores, iremos abordar as pesquisas a respeito da formação de professores de língua estrangeira, segunda língua e linguagem brasileira de sinais (Libras). Como já falamos bastante da formação de professores de língua estrangeira, nossa passagem por esse capítulo será rápida para que possamos falar sobre os conceitos, definições, desafios e demandas do professor de língua portuguesa como segunda língua, a formação e atuação do professor de Libras, ouvintes e surdos. Sobre essas duas modalidades que irão compor os dois últimos capítulos de nossos estudos, já adianto que são poucos os materiais produzidos que contribuem diretamente na atuação desses professores. Espero que nossas discussões possibilitem novos estudos que possam contribuir com a formação desses professores que são cada vez mais importantes no atual cenário pelo qual estamos passando. Boa leitura! 67UNIDADE IV Formação Docente FORMAÇÃO DOCENTE Provavelmente você já tenha ouvido falar nos termos que serão tratados nesta unidade. Quando tratamos dos conceitos de “língua estrangeira” e “segundas línguas”, temos que nos atentar às diferenças de significado no sentido didático. A diferença entre essas modalidades está no contexto em que o indivíduo se apropria de outra língua que não seja sua língua materna. A língua estrangeira diz respeito ao idioma que uma pessoa aprende em escolas de línguas, aulas na Educação Básica ou outros tipos de curso em seu país de língua materna. Exemplo: um brasileiro aprendendo Espanhol em um curso particular vivendo no Brasil. Nesse caso, o contato com a língua se dá apenas no momento das aulas. A segunda língua é aprendida pelo sujeito no país no qual ela é utilizada. Exemplo: um brasileiro morando na França aprende Francês como segunda língua. Nessa modalidade, o falante é exposto ao uso da língua o tempo todo em situações de interação. Nesse caso, a apropriação da segunda língua depende de programas de intercâmbio, imigrações, viagens longas etc. Diferenciar esses dois conceitos é importante, pois o professor deve considerar as especificidades de cada situação, as quais exigem tratamento diferenciado. Então, você deve estar se perguntando em qual momento poderia atuar como professor de segunda língua. Sabemos que é cada vez mais comum nosso país receber imigrantes e refugiados de vários lugares do mundo, por isso é importante estar preparado para atuar na formação dessas pessoas. Sempre consideramos usar aspectos de nossa língua materna para ensinar uma língua estrangeira, nesse caso as estratégias devem ser diferentes pelo fato do falante não conhecer nossa língua nativa. Seria o caminho inverso. A última modalidade que trataremos talvez seja uma das mais deficitárias no atual cenário brasileiro, haja vista que a formação do professor de libras nem sempre chega a suprir as demandas e saberes necessários para que o professor possa atuar com os não ouvintes. 68UNIDADE IV Formação Docente 1. ENSINO DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS A formação de professores de língua estrangeira, segundo pesquisas, tem apresentado despreparo de muitos profissionais, em relação à diversidade e complexidade dos diversos contextos sociais de atuação. Segundo alguns estudos realizados, tal despreparo se dá por conta de uma formação técnica e imediatista, característica do século XX, que não incentivava os profissionais a refletirem sobre suas práticas. O atual modelo que propõe uma formação reflexiva permite ao docente repensar suas ações, através de pesquisas, e isso faz com que ele participe ativamente de sua formação, produzindo conhecimentos enquanto atua, de forma flexível e responsável, de acordo com as práticas que o atual cenário exige. Se apropriar e fazer uso de uma ou mais língua estrangeira, atualmente é primordial no acesso a informações e na apropriação de outras culturas. Aos adolescentes e jovens, com a presença constante da tecnologia em suas vidas, esse processo deveria ser ainda mais efetivo, porém ao ingressar nos cursos de licenciatura, os jovens, muitas vezes, não apresentam o conhecimento prévio necessário para as aulas em outros idiomas. Isso se dá por conta de um sistema de educação falho quando consideramos o ensino de língua estrangeira e sua importância. Professores com formação técnica, formam alunos com a mesma característica e a “bola de neve” fica cada vez maior. As pesquisas consideram que, mesmo com as alterações nas políticas públicas que regem o ensino, se os docentes que já atuam não refletirem sobre suas práticas, buscarem formação continuada e mudarem seus objetivos e metodologias, a prática de sala de aula e a qualidade das aulas de língua estrangeira, continuarão fadadas ao fracasso damesmice. 69UNIDADE IV Formação Docente Mattiauda (2008, p. 3) afirma: A legislação, por si só, não pode ser condição para garantir um ensino de qualidade. Sua implementação depende de muitos fatores, não só de ordem econômica, mas também da vontade política de governantes, alunos, pais e professores (MATTIAUDA, 2008, p.3). A prática reflexiva permite ao profissional crítico, repensar o ensino de línguas, por meio de suas ações e resultados. Se essa prática não fizer parte do fazer docente não haverá também conscientização no âmbito das mudanças constantes que são necessárias. O professor que domina a prática da reflexão e se capacita constantemente, assume o papel de mediador na construção do conhecimento em conjunto com seus discentes e, assim, é capaz de estabelecer comparações durante os processos de ensino e aprendizagem. Nessa perspectiva sociointeracionista, é possível também introduzir no aluno esse hábito de refletir sobre as práticas desenvolvidas em sala de aula, para que ele desenvolva suas habilidades e autonomia na busca pelo conhecimento. Em se tratando da implementação da Base Nacional Comum Curricular, pode- mos dizer que, apesar de apresentar diretrizes apenas para a Língua Inglesa, conta com orientações pedagógicas contextualizadas e atuais, com traços de interdisciplinaridade e trabalhos com a transversalidade. Todavia se não houver qualidade na formação inicial e continuada, as abordagens dos conteúdos propostos na base tendem a ser falhas, pois o documento propõe, já na segunda versão, um ensino baseado em educação linguística, interculturalidade e letramentos, resultando no desenvolvimento das competências das práticas de linguagem: Superação de uma visão tecnicista de língua, limitada a explicações gramaticais ou a repetição de frases descontextualizadas, para priorizar uma perspectiva discursiva, que coloca a ênfase na produção de sentidos por parte dos/as estudantes, independentemente de seu nível de conhecimento da língua em dado momento (BRASIL, 2016, p. 123). Considerando que a maioria das mudanças no ensino de língua estrangeira são resultados de diferentes interesses econômicos das classes dominantes brasileiras, vale ressaltar novamente que a BNCC propõe mudanças na abordagem da Língua Inglesa, pelo fato da mesma ser considerada língua franca. Nesse caso, o professor não deverá apenas pensar nas culturas de países falantes dessa língua, será necessário, ensinar de acordo com as diferentes situações de uso em vários contextos. Abaixo o trecho do documento que fala sobre o assunto: Ensinar inglês com essa finalidade tem, para o currículo, três implicações importantes. A primeira é que esse caráter formativo obriga a rever as relações entre língua, território e cultura, na medida em que os falantes de inglês já não se encontram apenas nos países em que essa é a língua oficial (BRASIL, 2017, p. 241). 70UNIDADE IV Formação Docente Portanto, em vista de tudo que vemos até aqui, podemos concluir que, além de todos os saberes necessários à docência, o professor deve estar sempre atento às mudanças nas políticas públicas, que regem o ensino como um todo, e as especificidades de sua modalidade. Conhecer os contextos normativos e sócio-histórico, permite ao professor desenvolver práticas reflexivas de seu trabalho, para que possa alterar suas metodologias e ações pedagógicas de acordo com as necessidades dos discentes, famílias e comunidades. 71UNIDADE IV Formação Docente 2. ENSINO DE SEGUNDAS LÍNGUAS Também chamados de português como língua adicional (PLA), os cursos de português como segunda língua, vêm conquistando seu espaço nas universidades brasileiras, devido a inserção dessa língua no Programa Idiomas sem Fronteiras, e a internacionalização das universidades brasileiras. Uma das exigências do programa foi, a partir de 2017, a oferta de cursos de português como segunda língua para que as universidades brasileiras pudessem renovar seus credenciamentos. Por fim, foi obrigatório oferecer o curso, entretanto os professores atuantes nem sempre tiveram a formação necessária. Os cursos ofertados no país, além de abordarem práticas de produção oral e escrita, apresentam atividades interculturais e preparo para exames de proficiência. As práticas culturais acontecem pelo fato de que as universidades enviam e recebem alunos de vários outros países, por isso a internacionalização acontece como uma espécie de mão dupla. Inicialmente a maioria dos alunos que frequentavam essas universidades, em cursos de graduação e pós-graduação, eram de países da américa latina e isso exigia docentes com formação em espanhol. Porém, com o passar do tempo, esses espaços passaram a receber alunos de outros lugares, gerando uma diversidade linguística e exigindo alterações nos quadros docentes dos cursos. Todo esse contexto é visto como positivo quando pensamos na integração dos alunos e das universidades com outros países, todavia também nos remete a um dado preocupante: a maioria dos cursos de graduação/pós-graduação não oferece em suas grades curriculares, sequer uma disciplina de formação de professores nessa área. 72UNIDADE IV Formação Docente Apesar do crescimento significativo dessa vertente de ensino, Leurquin e Souza (2016) consideram três fatores que merecem atenção e reflexão: o espaço ocupado pela língua portuguesa como segunda língua; a formação inicial de professores para atuar diretamente com o aluno estrangeiro; e a produção de material didático adequado às especificidades desses alunos. Os autores consideram que o ensino de língua portuguesa como segunda língua, deveria ser mais discutido em termos de políticas públicas e no meio acadêmico-profissional, pelo fato de que esse ensino não é mais novidade. Além disso, ao passo que o Brasil cresceu economicamente nas últimas décadas, a necessidade de ofertar formação aos estudantes de outros países, imigrantes e outras pessoas, é evidente e precisa ser discutida e pensada com atenção. Sobre a formação inicial dos professores que atuam nesse campo, os estudos propõem que seja específica no âmbito de que o profissional necessita de uma formação parecida com a do professor de língua estrangeira, numa perspectiva linguística, com crenças sociointeracionistas, visão de língua e linguagem, as quais estejam relacionadas com as práticas sociais de uso, e os processos de interação no desenvolvimento e aprendizagem dos sujeitos. É preciso também que o profissional esteja em constante formação, a fim de que possa acompanhar os novos cenários e as particularidades de cada sujeito que será atendido nas aulas. O último aspecto que diz respeito aos materiais didáticos, aponta para o fato de que os materiais didáticos produzidos para os falantes nativos de língua portuguesa não atendem às necessidades dos alunos advindos de outras nações. É essencial contemplar aspectos culturais e linguísticos que vão além dos estudos da leitura e escrita, levando em consideração as situações de uso da língua em contextos específicos e os choques culturais existentes. Para que se produza materiais com tais características é imprescindível que sejam feitas pesquisas, principalmente empíricas, na área, pois essas discussões são importantes para os processos de construção do conhecimento e a compreensão do atual cenário da língua portuguesa como segunda língua. Outra questão importante é a compreensão da língua materna dos alunos. Sobre isso Godoy (1997) afirma: Entendemos por professor preparado o professor que tem consciência lingüística da língua que está ensinando e da língua materna dos seus alunos e que, portanto, conhece a estrutura e o funcionamento de ambas as línguas. Por outro lado, para que o ensino seja realmente eficaz, os materiais didáticos também devem ser específicos, levando em conta a língua materna do público alvo (GODOY, 1997, p.132). 73UNIDADE IV Formação Docente Em outraspalavras, vamos pensar, por exemplo, em um professor que vai ensinar língua portuguesa a um grupo de falantes de espanhol de diferentes lugares da América Latina. Como esse professor se fará entender se não dominar a língua espanhola e os diferentes aspectos culturais dos países onde habitavam os discentes? Vamos supor, então, que esse grupo de alunos integra um programa de médicos estrangeiros. Além de todas essas questões culturais, provavelmente o professor de língua portuguesa terá que trabalhar termos utilizados não só na medicina, mas também algumas variações linguísticas existentes nas regiões em que os profissionais irão atuar. Imagine só uma pessoa dizendo ao médico estrangeiro que está “empolada” (gíria do sertão do Ceará que descreve a má digestão)? Sem dúvidas é um grande desafio. Percebe-se, então, que o docente deve equilibrar os conteúdos das aulas, pois não é válido focar apenas nas normas gramaticais e não se ater a tais peculiaridades. Afinal, mesmo que o médico trabalhe com um dicionário ao seu lado, algumas palavras e expressões não serão encontradas. Nesse caso, além do risco de erro no diagnóstico, a comunicação entre médico e paciente seria interrompida por uma expressão popular de uso regional. Se um médico que sai do sul para trabalhar no nordeste já iria passar por situações parecidas, imagine o profissional de outro país? Portanto, quando se pensa na formação e preparo do docente para atuar no ensino de língua portuguesa como língua adicional/segunda língua, é necessário que esse tipo de debate aconteça já na graduação, assim o futuro profissional estará preparado para esse tipo de situação e, por mais específica que seja cada turma, ao menos o professor saberá quais caminhos deverá seguir, tanto no seu fazer docente, quanto na elaboração de materiais didáticos. Se pensarmos ainda no contexto da pesquisa, como já citamos, o profissional que se capacita constantemente e alia seu campo de atuação com a pesquisa e a produção de conhecimentos, poderá contribuir diretamente no aprimoramento não só de suas práticas, mas também nos debates e nas adequações dessa vertente de ensino que ainda necessita de inúmeros ajustes. 74UNIDADE IV Formação Docente 3. EDUCAÇÃO DE SURDOS Antes de começarmos a falar sobre essa modalidade de ensino, devemos considerar algumas especificidades em relação à língua de sinais. Desde a década de 1960, a língua de sinais recebeu o status linguístico, ou seja, foi reconhecida como língua dos surdos. Mas o que isso significa? Por ser uma língua, além de pensarmos sua estrutura, devemos considerar seus aspectos sociais, linguísticos, culturais e outras questões de legitimidade. Portanto, pensar em seus diferentes momentos de uso e grupos que a utilizam faz parte do fazer docente dessa área. É necessário também diferenciar os termos: surdo e deficiente auditivo. Quando falamos de pessoas surdas, estamos falando de pessoas com cultura surda e com identidade surda. Já quando consideramos a deficiência auditiva, geralmente são aquelas pessoas que possuem um determinado grau de perda auditiva, que fazem uso de aparelho de amplificação sonora e muitas vezes não tem essa cultura citada. Outro aspecto que deve ser desmistificado é o fato de que a língua de sinais não é universal. Assim como no Brasil temos a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), nos Estados Unidos, os surdos falam a língua americana de sinais, no Japão, a língua japonesa de sinais e por aí vai. Isso acontece porque cada país possui suas características linguísticas e socioculturais, então, não há a possibilidade de universalizar a língua dos surdos. 75UNIDADE IV Formação Docente Em termos estruturais, a língua de sinais também apresenta sua estrutura grama- tical própria, inclusive parecida com a língua oral, pois apresenta unidades simples que ao serem combinadas formam frases, que são unidades mais complexas. Gesser (2009) considera que: A língua de sinais tem todas as características linguísticas de qualquer língua humana natural. É necessário que nós, indivíduos de uma cultura de língua oral, entendamos que o canal comunicativo diferente (visual-gestual) que o surdo usa para se comunicar não anula a existência de uma língua tão natural, complexa e genuína como é a língua de sinais (GESSER, 2009, p. 22). Em termos políticos a língua brasileira de sinais se tornou lei através do Decreto n°5626 de 22/12/2005, o qual estabelece que a Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores, nos cursos de Licenciatura e de Fonoaudiologia. Além disso, a lei sugere que a escola deve ter professor para o ensino de língua portuguesa como segunda língua para pessoas surdas. A preocupação com a formação inicial de professores de Libras vem sendo uma constante no âmbito educacional, a ponto de já ter se tornado um projeto governamental, em 2001, (Programa Nacional de Apoio a Educação dos Surdos), com cursos de capacita- ção, formação de instrutores de libras, e o mais recente, que é o curso superior em Letras Libras, que surgiu em meados de 2006. Quatro anos depois de ter sido reconhecida oficialmente e considerada disciplina obrigatória em cursos de formação de professores, a Libras começa a ocupar, na prática, seus espaços determinados por lei. Isso se deu pelo fato de que o professor é o componente principal na formação da educação inclusiva, pois é esse profissional que irá viabilizar em sala de aula, as condições necessárias para atender todos os alunos em suas necessidades e peculiaridades. Além disso, repensar também os espaços escolares, a aprendizagem e a formação continuada desse professor são ações que contribuirão com o atendimento às diversidades. O docente, em sua formação, deve se preparar para compreender a história dos alunos surdos, suas restrições sociais, familiares e escolares, as quais foram historicamente submetidos, às relações políticas com a sociedade e as formas de constituição do saber desses sujeitos. Além disso, é desejável ainda que, para assumir esse novo papel, o profissional domine o alfabeto digitado, desenvolva satisfatoriamente a língua brasileira de sinais (sua gramática básica) e se comuniquem em Libras. 76UNIDADE IV Formação Docente Atualmente, uma das metas da comunidade surda é a implementação de escolas bilíngues, diferentes das escolas inclusivas, pois nas escolas do ensino regular, o que temos são intérpretes que atendem aos surdos durante as aulas. Essa meta se justifica pelo fato que a Libras é considerada hoje a segunda língua brasileira, portanto além de ter o Inglês, por exemplo, seria interessante que todos aprendessem desde as séries iniciais a linguagem brasileira de sinais, a fim de que a comunidade surda possa se comunicar em tempo integral com os alunos ouvintes. Enfim, sendo oficialmente uma língua, a Libras deve ser ensinada e considerada em todos os seus aspectos, nos processos de ensino e aprendizagem, cabendo ao professor a responsabilidade de se adequar à realidade do aluno surdo ao invés de tentar impor a língua falada a ele. Para isso é necessário compreender o contexto e as práticas sociais das pessoas surdas, além de suas características históricas e culturais em diferentes lugares. Considerando os inúmeros desafios, já percebemos um dos prejuízos gerados pela escola inclusiva e não bilíngue. Pelo motivo dos alunos frequentarem, desde a educação infantil, esse tipo de escola, algumas vezes, ele é impossibilitado de contato com outras pessoas não ouvintes e com professores que utilizam a língua de sinais, isso faz com que o aluno não tenha fluência em sua L1, Libras. A primeira consequência resultante dessa situação é aluno apresentar dificuldade na assimilação da leitura e escrita em língua portuguesa, haja vista que a língua materna (L1) atua como mediadora na aprendizagem da segunda língua, o português.A esse respeito, alguns autores chegam a considerar que o ideal seria os alunos não ouvintes frequentarem escolas especializadas para surdos ou escolas bilíngues com professores e colegas fluentes em línguas de sinais e, só após dominarem essa língua, fossem inseridos nas classes regulares. Sabemos que esse debate renderia uma dualidade de opiniões, pelas questões inclusivas, mas há de se considerar também que o modelo de inclusão que temos atualmente na maioria das escolas de ensino regular, atua apenas na inclusão do aluno surdo na comunidade ouvinte, e não o contrário. Ora, por que o aluno ouvinte do ensino regular não deve se adaptar também às necessidades da comunidade surda? Nesse caso, sugiro que deveríamos pensar no equilíbrio quando se fala de inclusão. Quadros e Schmiedt (2006), ponderam sobre esse processo: O ensino do Português pressupõe a aquisição da Língua de Sinais Brasileira -“a” língua da criança Surda. A língua de sinais também apresenta um papel fundamental no processo de ensino- aprendizagem do Português. A ideia não é simplesmente uma transferência de conhecimento da primeira língua para a segunda língua, mas sim um processo paralelo de aquisição e aprendizagem em que cada língua apresenta seus papéis e valores sociais representados. (QUADROS; SCHMIEDT, 2006, p.24). 77UNIDADE IV Formação Docente No caso de uma escola bilíngue, além da apropriação da língua de sinais, o Decreto 5.626/05, considera que os objetivos desses espaços estariam ligados ao fortalecimento da cultura surda, atendimento às especificidades, contribuição para a formação da identidade do sujeito surdo, disponibilizando situações constantes de aproximação das culturas surdas e ouvintes. Sobre a definição de escola bilíngue: Art. 22. As instituições federais de ensino responsáveis pela educação básica devem garantir a inclusão de alunos surdos ou com deficiência auditiva, por meio da organização de: I - escolas e classes de educação bilíngüe, abertas a alunos surdos e ouvintes, com professores bilíngües, na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental; II - escolas bilíngües ou escolas comuns da rede regular de ensino, abertas a alunos surdos e ouvintes, para os anos finais do ensino fundamental, ensino médio ou educação profissional, com docentes das diferentes áreas do conhecimento, cientes da singularidade lingüística dos alunos surdos, bem como com a presença de tradutores e intérpretes de Libras - Língua Portuguesa. § 1º São denominadas escolas ou classes de educação bilíngue aquelas em que a Libras e a modalidade escrita da Língua Portuguesa sejam línguas de instrução utilizadas no desenvolvimento de todo o processo educativo (BRASIL, 2005). Quase 20 anos depois, ainda há muito a ser feito para que esse ideal de escola se concretize. Para isso, são necessários profissionais qualificados, surdos e ouvintes; adequação dos aspectos pedagógicos; discussões e implementações de metodologias contextualizadas ao uso das línguas em questão; materiais didáticos adaptados a atenderem também às necessidades e a cultura surda. Com a formação de professores surdos não é diferente, são poucos os estudos desenvolvidos na área, portanto não há medidas e intervenções suficientes para fazer mudanças significativas no cenário da formação dos não ouvintes. Já no curso de Letras/Libras a formação, em análises curriculares, é específica para que o profissional atue como professor de Libras e não como professor de língua portuguesa como segunda língua para surdos. Apesar de sair das licenciaturas com o título de professor de Português e professor de Libras, não há disciplinas que abordem o ensino de língua portuguesa como L2 para não ouvintes. Então, se considerarmos a educação bilíngue citada no decreto, não deve haver negligências na formação do docente que irá atuar com a comunidade surda, pois, mesmo que o professor de Libras seja ouvinte, sabemos que ensinar língua portuguesa como segunda língua, requer uma abordagem diferenciada, pois mesmo sendo a língua nativa do Brasil, no caso de ensiná-las aos surdos ela assumirá um novo papel. Logo, são estratégias, metodologias e abordagens diferentes. 78UNIDADE IV Formação Docente Outro ponto que deve ser citado é o fato de que, apesar do decreto oficializar a língua de sinais, no âmbito da escrita, o cidadão surdo deve se apropriar da língua portu- guesa. Havendo essa obrigatoriedade, é do professor a responsabilidade de ofertar uma formação satisfatória a esse aluno. Nesse caso, há de se considerar que a aprendizagem se dá por meio de estratégias visuais e “essa diferença precisa ser entendida não como uma construção isolada, mas como construção multicultural” (PERLIN, 1998, p.57). Então, se pensarmos numa perspectiva, visual e multicultural, podemos considerar, mais uma vez, um ensino de língua na perspectiva da teoria dos multiletramentos, assim seria possível discutir todos os aspectos citados acima. Em outras palavras, para que o aluno não ouvinte se aproprie da leitura e da escri- ta, o professor, ao trabalhar com diferentes textos existentes nas práticas sociais desses discentes, irá proporcionar um ensino contextualizado à realidade dos alunos. Assim, os alunos ouvintes e não ouvintes teriam maiores chances de conhecer ambos aspectos culturais por meio das semelhanças e diferenças existentes entre eles. Sem contar que a multimodalidade pode propiciar o ensino e a criação de textos que se dêem pela união das duas línguas em questão, o português e a Libras. Como afirma Rojo (2012), além da soma das modalidades, teríamos também a ampliação e a transformação dos significados. Contribuindo diretamente na formação da identidade dos alunos. Trabalhando nessa linha, o docente deve estar ciente do seu papel na formação do aluno surdo e também na sua valorização para que ele se sinta capaz de continuar suas práticas sociais: O professor deve ser capaz de conceber-se como agente de mudanças do contexto social, já que seu papel extrapola o mero repasse de conhecimentos, sendo, sobretudo, o de formar cidadãos [...] sua atuação está comprometida com as condições da escola e com a qualidade de sua formação acadêmica. É ele, o professor, a autoridade responsável pelo processo de ensino aprendizagem se seus alunos (MEC, 1993, apud PIRES, 2005, p. 15). A fim de solucionar esse problema e contribuir também com a formação continuada de professores que se formaram na época em que não havia a disciplina de Libras nos cursos de licenciatura, alguns estudos propõem que sejam feitos cursos com oficinas, nos quais o professores atuantes teriam a oportunidade de compartilhar experiências com professores e alunos não ouvintes. As propostas apontam para a reflexão acerca das práticas docentes em diferentes momentos, além de repensarem os métodos, discutirem aspectos identitários, históricos, políticos e demandas atuais. 79UNIDADE IV Formação Docente E, a partir de tais ações, essas propostas almejam a criação de materiais didáticos específicos para o atendimento dos alunos surdos, juntamente com os alunos ouvintes. Sabemos que a problemática vai além, pois perpassam questões históricas, sociais e culturais, todavia esse tipo de formação é uma maneira de contribuir com as questões apresentadas. Portanto, as demandas e desafios da educação dos surdos no país são fartas. Por faltarem profissionais capacitados, há uma oferta considerável de vagas para intérpretes da área. Em vista disso, os cursos de formação de professores deveriam olhar com um pouco mais de atenção para essa área, com a finalidade de formar profissionais cada vez mais aptos e conscientes da importância de seu papel na sociedade. Outro ponto que merece atenção por parte das instituições é o incentivo às pesquisas que sejam capazes de unir a universidade, a escola e a comunidade surda, assim o assunto seria mais debatido e cada vez mais o ensino dessas pessoas seriaaprimorado. SAIBA MAIS Caro(a) aluno(a), para que você possa compreender melhor os debates acerca da educação dos surdos e as pesquisas existentes a esse respeito, deixo como sugestão de leitura os capítulos 4 e 5 do trabalho disponível no link abaixo: https://repositorio.unisc.br/jspui/bitstream/11624/557/1/PaulaScremin.pdf REFLITA "Quando eu aceito a língua de outra pessoa, eu aceito a pessoa. Quando eu rejeito a língua, eu rejeitei a pessoa porque a língua é parte de nós mesmos. Quando eu aceito a língua de sinais, eu aceito o surdo, e é importante ter sempre em mente que o surdo tem o direito de ser surdo. Nós não devemos mudá-los, devemos ensiná-los, ajudá-los, mas temos que permitir-lhes ser” - Terje Basilier https://repositorio.unisc.br/jspui/bitstream/11624/557/1/PaulaScremin.pdf 80UNIDADE IV Formação Docente CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, falamos sobre as demandas e outras questões que permeiam a formação de professores de língua estrangeira, segunda língua e educação de surdos. Diferenciamos os conceitos de língua estrangeira e segunda língua, e vimos que atualmente, no Brasil há uma forte demanda do ensino de língua portuguesa como segunda língua, pela crescente relação das universidades brasileiras com universidades de outros países e pela constante chegada de imigrantes oriundos de diferentes nações. Além disso, definimos e discutimos alguns estudos que tratam da educação dos surdos no país, além das leis, perspectivas e desafios dessa comunidade no espaço acadêmico e escolar. O ponto de relevância desta unidade está nos aspectos culturais e identitários, não só dos profissionais das áreas citadas, mas principalmente dos alunos que são atendidos por essas modalidades de ensino. Espero que você tenha compreendido os diferentes conceitos e debates apresentados! Bons estudos! 81UNIDADE IV Formação Docente LEITURA COMPLEMENTAR Impacto das aulas remotas para estudantes com surdez Carlos Pereira de Carvalho Júnior(*) A Educação nos provoca repensar nossas estratégias, nossos caminhos escolhidos para atingirmos os nossos objetivos quanto à inclusão de pessoas surdas – e suas emoções – num mundo globalizado em época de pandemia. Período em que, cada vez mais distantes fisicamente das pessoas, há uma distância ainda maior daqueles que não ouvem, ou seja, dos surdos. Como consequência, transformou-se o trabalho de docentes e discentes fora das escolas, das universidades e do convívio social presencial. Meu objetivo é propor reflexões e discutir sobre o mundo e as emoções no aprendizado de alunos com surdez em aulas remotas sem acessibilidade visual para a leitura labial, o que configura um quadro de sentimentos e reações que, na medicina, se denomina síndrome de burnout. Manifesta em sentimentos de solidão com relação ao enfrentamento à falta de comunicação em tempos de pandemia, produz no surdo sentimentos de incapacidade, insegurança e distanciamento dos demais, o que dificulta significativamente o seu aprendizado. Caracterizada como um distúrbio psíquico causado por altos níveis de estresse e pelo estado emocional desequilibrado, desenvolvidos a partir de condições de estafa e esgotamento emocional, a síndrome pode atingir qualquer profissional, docente, estudante em qualquer idade e também em todas as classes sociais. A síndrome se gera após um período de trabalho excessivo, um estado de exaustão em que a pessoa que o desenvolve passa a apresentar comportamento agressivo, com sintomas físicos e emocionais. Temos que pensar em como enfrentar as barreiras que vêm ocorrendo com o fechamento de escolas e universidades, o que traz maior dificuldade ainda para aqueles que necessitam de um olhar, de um sinal de Libras para a sua comunicação interpessoal, social e contextual. As pessoas surdas, ao longo da história, enfrentaram e enfrentam inúmeras situações e barreiras para conseguir se inserir e permanecer na educação escolar, e com isso buscam o reconhecimento e a inclusão. Em geral, a sociedade fica receosa e apreensiva por não saber como se relacionar com os sujeitos surdos, que, em algumas situações, são tratados de forma paternal, como “coitadinhos”, ou como se tivessem “doença contagiosa”, de forma preconceituosa – estereótipos construídos pela falta de conhecimento. 82UNIDADE IV Formação Docente Muitos defensores da Língua Brasileira de Sinais para os surdos afirmam que ela é considerada “natural”, adquirida em qualquer idade, e que a partir dela o surdo constituirá uma identidade surda, já que ele não é ouvinte. A maioria dos estudos tem como base a ideia de que a identidade surda se define pelo uso da língua. Ou seja, o uso, ou não, da Libras seria o que definiria basicamente a identidade do sujeito, que só seria desenvolvida em contato com outro surdo. Não existe, entretanto, um fator único de identidade; esta é construída pelo exercício de papéis sociais diferentes (ser surdo, rico, heterossexual, branco, professor, pai, por exemplo) e também pela língua comum que constrói nossa subjetividade. De acordo com as minhas experiências como deficiente auditivo em relação ao contato com o público surdo, percebo que a ausência de comunicação entre surdos e ouvintes causa barreiras entre eles, e isso afeta muito o sujeito surdo. E é bastante perceptível que as falhas de comunicação começam em casa, continuam na escola e, depois, permanecem na vida cotidiana do sujeito surdo, acompanhando-o nas esferas sociais. A Comunicação não chega aos surdos como chega para os ouvintes. Importa dizer aqui que na maioria das vezes é a mãe e os irmãos que repassam as informações das aulas para o surdo, porque ele não consegue compreender o que está sendo falado. Existe um distanciamento também nessa parte, daí os sentimentos de solidão, incapacidade e exaustão, surgindo a síndrome de burnout, com sentimentos de irritabilidade, pouca vontade de estudar – desistência em muitos casos -, além do constrangido diante dos familiares e dos demais por não conseguir participar ativamente das aulas on-line. É importante reconhecer que existem diversos graus de surdez, o que impacta na forma de comunicação. Sendo assim, algumas pessoas têm dificuldade apenas para entender conversas em locais muito barulhentos, enquanto outras praticamente não captam som algum. Há, ainda, indivíduos que usam aparelhos auditivos e conseguem escutar com plenitude, outros que fazem leitura labial. Também existem aqueles que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras). A Libras é especialmente importante dentro da comunidade surda e seu uso deve ser difundido para que tenhamos uma comunicação acessível. Nem toda pessoa com perda auditiva, contudo, utiliza essa linguagem, fazendo uso tradicional do português. Nesse caso, a legenda é um recurso essencial para ajudar na comunicação entre surdos e ouvintes. O mais importante é que cada uma dessas pessoas é um indivíduo com plena capacidade cognitiva e que busca interação social. Por isso, a comunicação entre surdos e ouvintes é algo necessário. É por meio dela que se combate o preconceito e diminuiu-se o isolamento que atinge muitos indivíduos com perda auditiva. 83UNIDADE IV Formação Docente A pandemia de Covid-19 provocou uma crise sem precedentes, sem previsibilidade, sem fronteiras, com reflexos humanitários, sociais, econômicos e culturais significativos. Diante de um cenário tão desafiador e das medidas de restrição de circulação para conter o avanço do novo coronavírus, o trabalho remoto ganhou uma nova dimensão. Estudos mostram que os sentimentos de solidão e o comprometimento emocional de alunos se modificam conforme sua graduação, mas há um dado significativo com relação à síndrome de burnout: ela afeta tanto alunos com notas acima como alunos com notas abaixo da média. Isso indica que a implantação de atividades remotas no fechamento das escolas e universidades não impediu o desencadeamentodessa síndrome, afetando o rendimento acadêmico dos alunos e, ainda, suas relações. Ainda, os surdos se sentem isolados em várias esferas sociais, incluindo as aulas remotas, os encontros virtuais e a falta de materiais visuais, e o maior impasse entre todas as situações é a falta de comunicação, que engloba todo e qualquer distanciamento. Espera-se que surjam mudanças que possam ampliar a oferta de serviços para inclusão e apoio a esses cidadãos. Não basta ter o intérprete, precisamos de qualificação para todos em qualquer contexto social. Fazem-se necessários, portanto, mais estudos longitudinais para confirmar e esclarecer esses fatores e agregar outros para melhor compreender o aprendizado e o desempenho desses estudantes. Vale lembrar que para uma educação ser de fato para todos, ela tem que ter um ambiente virtual adequado, com plataformas permanentes de acessibilidade, e não somente em lives. Em toda e qualquer situação que envolva a comunicação, deve haver a troca e o respeito com aquele que apresenta alguma necessidade de acessibilidade diferenciada para participar, aprender e contribuir na construção do aprendizado. (*) Carlos Pereira de Carvalho Júnior é psicólogo e mestrando no curso de Educação em Ciências na UFRGS. Ele tem deficiência auditiva severa profunda. Fonte: CARVALHO, Carlos Pereira. O impacto das aulas remotas para estudantes com surdez. Campo Grande-MS. 2020. Disponível em: https://www.campograndenews.com.br/artigos/impacto-das-aulas-remotas-para- -estudantes-com-surdez Acesso em: 05 set. 2021. https://www.campograndenews.com.br/artigos/impacto-das-aulas-remotas-para-estudantes-com-surdez https://www.campograndenews.com.br/artigos/impacto-das-aulas-remotas-para-estudantes-com-surdez 84UNIDADE IV Formação Docente MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO 1 Título: LIBRAS? Que língua é essa? Autor: Audrei Gesser Ano: 2015 Editora: Parábola Editorial Sinopse: Ainda é preciso insistir no fato de que a Libras é língua? Desde a década de 1960, ela recebeu o status linguístico, e, ainda hoje, passados quase cinquenta anos, continuamos a afirmar e reafirmar essa legitimidade.O objetivo deste livro é pensar algumas questões relativas à surdez, num momento oportuno e particularmente pertinente, quando decisões políticas têm propiciado um olhar diferenciado para as minorias linguísticas no Brasil. Os discursos sobre o surdo, a língua de sinais e a surdez "abrem-se" para dois mundos desconhecidos entre si: o do surdo em relação ao mundo ouvinte e o do ouvinte em relação ao mundo surdo. O leitor encontrará aqui um ponto de partida para repensar algumas crenças, práticas e posturas à luz das transformações que marcam a área da surdez na atualidade. O que se espera é poder chegar a um novo olhar, a uma nova forma de narrar a(s) realidade(s) surda(s). Dada a amplitude das preocupações aqui delineadas, o livro pode alcançar diferentes públicos: surdos, ouvintes, leigos, profissionais da surdez, estudantes, professores ou simplesmente curiosos. LIVRO 2 Título: PASSARELA - Português como língua de acolhimento para fins acadêmicos Autores: Bruna Pupatto Ruano e Carla Cursino Ano: 2020 Editora: UNHCR/ACNUR - Agência da ONU para refugiados e UFPR Sinopse: Uma obra que visa ao acolhimento de estudantes de outros países por meio do ensino da língua portuguesa, para que permaneçam na universidade e concluam a trajetória acadêmica com sucesso. Com essa intenção, nasce Passarela, livro produzido com o apoio da Cátedra Sérgio Vieira de Mello da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A versão digital, disponível no site do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). O material com 124 páginas foi elaborado para a disciplina “Português: práticas textuais acadêmicas”, destinada exclusivamente a migrantes e refugiados matriculados em cursos da UFPR. Apresenta os principais gêneros discursivos presentes no ambiente acadêmico. Entre eles, fichamento, resumo, resenha, artigo científico, debate e apresentação oral. As atividades com o grupo de alunos migrantes e refugiados na Federal do Paraná começaram em 2015, com a implementação do Programa Reingresso. Link para baixar gratuitamente:https://www.acnur.org/portugues/ wp-content/uploads/2020/08/Passarela_Portugues-como-lingua- -de-acolhimento-para-fins-academicos.pdf 85UNIDADE IV Formação Docente FILME/VÍDEO Título: O Milagre de Anne Sullivan Duração: 1h 46min Direção: Arthur Penn Ano de lançamento: 1962 Sinopse: Baseado na vida real de Helen Keller, o filme conta a comovente história de Anne Sullivan, uma persistente professora cuja maior luta foi a de ajudar uma menina cega e surda a adaptar- se ao mundo que a rodeava. O inevitável confronto com os pais de Helen, que sempre sentiram pena da filha, mimando-a, sem nunca lhe terem ensinado algo concreto, é abordado durante o filme. 86 REFERÊNCIAS ANTUNES, Irandé. Língua, texto e ensino: outra escola possível. São Paulo: Parábola Editorial, 2009. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). 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São Paulo: Difusão Européia do livro, 1971. 90 CONCLUSÃO GERAL Prezado (a) aluno(a), Neste material, busquei apresentar para você algumas considerações acerca da formação de professores no Brasil, abordando temáticas relevantes no que diz respeito aos desafios, demandas e perspectivas dos processos de ensino e aprendizagem, demonstrando o que se espera do professor atualmente. Para entendermos melhor o que ensinamos, como ensinamos e onde ensinamos, no primeiro momento tratamos das leis e normas que regem o ensino de línguas e a formação de professores, considerando um pouco de seu histórico, passando pelas DCNs, as novas DCNs e a Base Nacional Comum Curricular. No segundo capítulo, foi o momento de tratar da prática docente propriamente dita, ou seja, os saberes necessários para que o professor atue com excelência em sala de aula. Falamos da importância de se aliar os marcos teóricos às atividades práticas, definimos os saberes docentes e a importância do portfólio como ferramenta avaliativa e documental. Por último, ainda no capítulo 2 você pode ter uma noção de quais elementos devem ser colocados em um portfólio e em quais circunstâncias você poderá utilizá-lo. Sobre as demandas e diversidades linguísticas, no capítulo 3 deste material, partimos para uma abordagem mais específica do ensino de línguas, levando em consideração as vertentes que devem ser abordadas no momento do ensino, a importância de estar em constante formação teórica e reflexiva, para que se possa reinventar as práticas de acordo com as necessidades dos alunos. Vimos também o quanto os cursos de formação de professores devem contribuir para que haja melhoria e atualização dos processos de construção do conhecimento e que cabe às instituições também se manterem atualizadas, para que possam suprir as demandas do ensino e de seus alunos. O último capítulo falou especificamente sobre o ensino de línguas estrangeiras, segunda língua e educação dos surdos, abordando a importância dos aspectos culturais e identitários das modalidades consideradas, bem como alguns desafios que são enfrentados pelos professores que optam por trabalhar nessas áreas. 91 Ao final de todos os capítulos, apresentei a você algumas obras importantes sobre as temáticas apresentadas, caso você deseje aprofundar seus conhecimentos na área. Me coloco novamente à disposição se você optar por dar continuidade aos estudos com alguma das temáticas apresentadas, afinal construir teorias e conhecimentos faz parte de nossas práticas acadêmicas e docentes. Você pode encontrar meu contato nas redes sociais! Espero que a sua formação seja constante e que a sua prática deixe as melhores lembranças aos alunos que passarem pela sua vida! Obrigada pela atenção e até a próxima! +55 (44) 3045 9898 Rua Getúlio Vargas, 333 - Centro CEP 87.702-200 - Paranavaí - PR www.unifatecie.edu.br UNIDADE I Políticas de Formação Docentes UNIDADE II História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica UNIDADE III Demandas e Diversidades Linguísticas para Pensar a Formação Docente UNIDADE IV Formação Docente