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<p>123</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>Unidade III</p><p>7 MONTAGEM DA REPORTAGEM</p><p>Essencialmente, uma reportagem se estrutura sobre o mapeamento de dados, que engloba as</p><p>abordagens qualitativas e quantitativas. A qualidade diz respeito à espécie de informação obtida, por</p><p>meio de levantamento de documentos, visitas de campo e entrevistas, e está relacionada com as pessoas</p><p>envolvidas, as suas motivações, vidas, ideias, atos e discursos. A quantidade diz respeito aos números, o</p><p>que inclui estatísticas, valores e todo o tipo de medição que possa fornecer dados exatos, por exemplo,</p><p>sobre a taxa de evasão escolar em colégios das periferias, ou o número de mortos durante a pandemia</p><p>de  Covid‑19 no ano de 2020. São os números que fornecem evidências palpáveis e irrefutáveis a</p><p>respeito de determinado evento.</p><p>Lembrete</p><p>Como já foi explicado, uma investigação bem estruturada deve contar</p><p>com documentos e fontes qualificadas.</p><p>Na ausência desses elementos, o jornalista deve recorrer a duas outras ferramentas de apoio:</p><p>• observações de campo;</p><p>• entrevistas amplas e abrangentes com o maior número de pessoas.</p><p>A observação de campo é parte indissociável da investigação jornalística. O repórter deve se esforçar</p><p>para vivenciar, e não apenas apurar com o auxílio de terceiros, o que ocorre em determinado local. Nesse</p><p>sentido, as diretrizes estabelecidas pela escola do Novo Jornalismo, nos anos 1960 e 1970, continuam</p><p>válidas para reportagens. Basicamente, essa linha de trabalho preconiza que o repórter deve ver com os</p><p>próprios olhos e experimentar na pele tudo aquilo que é assunto de sua matéria. Assim, por exemplo, se</p><p>ele estiver desenvolvendo uma investigação a respeito da violência em uma comunidade periférica, não</p><p>pode se limitar aos dados recolhidos em pesquisas na internet ou outras fontes. Ele precisa ir até o local,</p><p>trafegar por ele, conhecê‑lo em todos os pormenores, conversar com os moradores. Sobretudo, deve ter</p><p>uma percepção em primeira mão da realidade que retratará na matéria. Somente dessa maneira a sua</p><p>reportagem vai adquirir a autenticidade que se requer.</p><p>Um componente vital do processo é formular as perguntas corretas para as pessoas que são o</p><p>objeto da investigação. Nessa situação, o repórter deve utilizar uma tática diferente da empregada</p><p>em uma entrevista com uma fonte única, que vimos nos capítulos anteriores. Enquanto lá havia uma</p><p>verticalização das informações, com um mergulho profundo nas ideias e experiências de vida do</p><p>124</p><p>Unidade III</p><p>entrevistado, o objetivo aqui é extrair dados precisos a respeito dos fatos e das condições em que eles</p><p>ocorreram, como se fizesse um boletim de ocorrência policial, mas sem negligenciar a subjetividade dos</p><p>testemunhos. A partir das respostas obtidas, o jornalista poderá montar uma base de dados confiável,</p><p>que fornecerá subsídios mais concretos à reportagem.</p><p>Antes de tudo, é necessário preparar uma entrevista padronizada, estruturada em torno de</p><p>perguntas básicas e essenciais, como uma enquete, que permita esquadrinhar todas as facetas do</p><p>problema. Nesse caso, não haverá o cuidado em proceder gradualmente, dos dados mais neutros</p><p>para os mais importantes, embora seja interessante registrar as informações elementares a respeito</p><p>dos entrevistados (nome completo, idade, escolaridade, ocupação etc.). O entrevistado pode ir direto</p><p>ao assunto, sem iniciar a conversa de maneira trivial antes de abordar os tópicos que interessam.</p><p>Ela será empregada para o maior número de pessoas disponível. Quanto maior a amostragem, mais</p><p>próximo da verdade será possível chegar. Essa entrevista, abrangente e genérica, deve incluir os</p><p>seguintes elementos:</p><p>• Uma lista minuciosa de questões que abordem os acontecimentos sob todos os ângulos. No</p><p>exemplo mencionado, seria interessante indagar se as pessoas lembram com precisão de atos</p><p>violentos que tenham sido cometidos em sua vizinhança, como roubos, assaltos e assassinatos.</p><p>É importante registrar com exatidão de que maneira isso aconteceu e com que frequência vem</p><p>se repetindo. Outro aspecto que pode ser averiguado com essas entrevistas são as impressões e</p><p>explicações que os moradores têm a oferecer para essas ocorrências.</p><p>• Quanto mais amostragens em torno do assunto tratado, mais representativa será a pesquisa. Se</p><p>a maioria das pessoas contatadas relatar mais ou menos a mesma coisa, a versão delas tenderá a</p><p>prevalecer sobre as demais e conferirá um peso maior ao que afirma a reportagem.</p><p>• As perguntas devem ser formuladas de maneira direta e precisa. O que se busca são as evidências</p><p>palpáveis, não o senso comum, vago e indefinido. Para que a entrevista tenha validade, as respostas</p><p>também devem ser registradas com a máxima fidelidade.</p><p>• Uma boa estratégia é alternar as questões abertas com outras, fechadas, como as de questionários,</p><p>o que confere à enquete uma base mais sólida de informações.</p><p>Como exercício, vamos considerar a pauta de uma reportagem a respeito dos efeitos das queimadas</p><p>no Mato Grosso do Sul em uma aldeia indígena da região. As perguntas que seriam formuladas na</p><p>entrevista‑padrão devem, necessariamente, dar conta de contextualizar a situação em termos de</p><p>antecedentes e repercussões e esclarecer as responsabilidades pelas ocorrências. Algumas das perguntas</p><p>que poderiam ser formuladas seriam as seguintes:</p><p>• Para os fazendeiros que fizeram as queimadas: esse procedimento é adotado para ampliar as</p><p>áreas de pastagens ou no intuito de renovar o terreno para o plantio? As queimadas não correm</p><p>o risco de desvalorizar o terreno? Isso não traz impactos ambientais para a sua propriedade?</p><p>125</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>• Para os comerciantes da região: o seu negócio depende das plantações? Que efeito as</p><p>queimadas tiveram sobre o seu negócio? Ele foi afetado negativamente ou nada mudou desde</p><p>que começaram? Em termos numéricos, qual foi o impacto das queimadas no seu negócio?</p><p>• Outras questões que podem ser levantadas incluem: relações entre os fazendeiros e os</p><p>indígenas que habitam a região. Elas são pacíficas ou tensas? Já ocorreram conflitos anteriormente</p><p>por conta das queimadas? Quais são os sentimentos das pessoas a respeito disso?</p><p>Quando se deparar com acusações de responsabilidade envolvendo alguém ou alguma entidade, o</p><p>jornalista deve agir com cautela para não incorrer em algum crime contra a honra, como calúnia, difamação</p><p>ou injúria. Deverá recolher dados pormenorizados a respeito dessas afirmações de um número ainda mais</p><p>amplo de pessoas a que tiver acesso, pois a versão de uma pessoa ou um punhado delas pode não ser</p><p>significativa e não refletir de maneira fidedigna a realidade. As histórias semelhantes obtidas da conversa</p><p>com um número significativo de pessoas reforçará a versão oferecida por elas. Nesse sentido, o repórter</p><p>deve procurar reforçar essas declarações com informações extraídas de documentos obtidos na internet ou</p><p>nos registros oficiais. Veja a seguir o caso de um jornalista ao lidar com uma comunidade local.</p><p>Independentemente da questão que atrai o seu interesse, as pessoas locais</p><p>possuem muitos conhecimentos para começar a desenvolver uma hipótese.</p><p>Chali Mulenga, o redator responsável pelos assuntos agrários na província</p><p>sul da Zâmbia, por exemplo, tem uma ideia das razões por trás da fraca</p><p>produção de produtos alimentares na sua província, embora ela tivesse sido</p><p>o celeiro do país no passado. Ele revela a sua hipótese:</p><p>“Programas de desenvolvimento que não funcionam, fraco atendimento do</p><p>HIV, doenças de gado não tratadas, alimentos oferecidos gratuitamente</p><p>pelas sociedades de caridade. Todos estes fatores suscitaram alguma</p><p>relutância e levaram a que os agricultores se vissem impossibilitados de</p><p>continuar as suas atividades agrícolas”.</p><p>Na ausência de registros municipais ou nacionais, as afirmações das pessoas</p><p>(observação e minilevantamento de Mulenga) proporcionaram materiais</p><p>suficientes para criar uma hipótese relacionada com as causas da atual</p><p>crise alimentar.</p><p>Mulenga acrescenta: “Para elaborar uma reportagem, eu visitava</p><p>dispositivo que visa</p><p>proteger a privacidade dos dados pessoais na web.</p><p>8.2.2 A jurisprudência com relação ao direito da comunicação</p><p>Em termos gerais, pode‑se definir a jurisprudência como a interpretação da lei realizada na esfera</p><p>judicial, pelos juízes encarregados de aplicá‑la. Ela não tem o poder de alterar o dispositivo legal em</p><p>si, mas permite certa margem de liberdade para que os magistrados possam adequá‑la a cada caso</p><p>específico, complementando‑a sem, porém, confrontá‑la. Ela é particularmente necessária quando</p><p>o legislador deixou um teor de indefinição, subjetiva, em alguns termos que podem dar margem a</p><p>mal‑entendidos.</p><p>150</p><p>Unidade III</p><p>No caso específico do Direito da Comunicação, a lei define a difamação como um fato ofensivo à</p><p>reputação de uma pessoa. Contudo, ela é falha em explicitar o que significa o termo reputação. Cabe,</p><p>portanto, ao juiz adequar essa norma a cada caso particular no intuito de verificar até que ponto foi</p><p>ou não cometido um crime. Essa mesma indefinição está presente em outras regulamentações, como</p><p>aquelas que dizem respeito aos danos morais ou ao chamado direito de resposta, que estudaremos</p><p>detalhadamente adiante, e que assegura a qualquer pessoa que se sentir prejudicada pela publicação de</p><p>uma matéria a apresentação de uma réplica.</p><p>8.3 Calúnia, difamação e injúria</p><p>Como em outras áreas do direito, as normas relacionadas à comunicação também tratam dos</p><p>diversos crimes cometidos em seu âmbito. Em seu sentido elementar, um crime é qualquer ato que</p><p>transgrida os regulamentos jurídicos estabelecidos. Essas transgressões estão sempre sujeitas a</p><p>algum tipo de pena, que vai de uma simples multa até as restrições de liberdade. Pode‑se dividir os</p><p>crimes na área de comunicação em duas espécies: os de comunicação e os de informação. A primeira</p><p>modalidade diz respeito aos delitos relativos ao conteúdo da mensagem em si, e a segunda, aos veículos</p><p>de comunicação. Os principais crimes de comunicação estipulados no nosso Código Penal são os de</p><p>calúnia, difamação e injúria.</p><p>8.3.1 Calúnia</p><p>O art. 138 do Código Penal, Decreto‑lei n. 2.848/40, define a calúnia como o ato de “caluniar</p><p>alguém, imputando‑lhe falsamente fato definido como crime”. Esse crime, portanto, é definido pelos</p><p>seguintes elementos:</p><p>• a imputação de um “fato definido como crime”;</p><p>• a falsidade da imputação.</p><p>Para que haja calúnia, portanto, não se pode simplesmente dizer: “O deputado X cometeu um ato</p><p>de corrupção”. A acusação de corrupção só se tornará um fato que possa ser definido como crime se</p><p>for especificada em termos de tempo, lugar, modo etc., como no exemplo a seguir: “O deputado X,</p><p>do partido Y, em agosto do ano passado, depositou em sua conta particular no Banco Z a quantia de</p><p>15 milhões de reais, referentes à verba para a compra de merenda escolar em seu estado”. E, naturalmente,</p><p>essa afirmação deverá ser falsa para ser considerada calúnia.</p><p>8.3.2 Difamação</p><p>O art. 139 da mesma lei tipifica a calúnia define a difamação como “a imputação de um fato que</p><p>seja ofensivo à reputação da pessoa” (BRASIL, 1940). Como o “fato que seja ofensivo à reputação”</p><p>é um conceito extremamente subjetivo e relativo, que varia de um lugar e uma época para outra, a</p><p>jurisprudência, nesses casos, é ainda mais necessária. O que podia ser considerado ofensivo à reputação</p><p>há 20 ou 30 anos talvez já não seja mais e vice‑versa.</p><p>151</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>Antes de entrarmos no mérito dessa modalidade de crime de comunicação, é importante definir o</p><p>que se entende por “reputação”. Pode‑se dizer que ela é o aspecto público, exterior, da honra de uma</p><p>pessoa, ou da estima social que se devota a ela. Atribuir a esse indivíduo um fato que seja ofensivo à sua</p><p>reputação é, portanto, diminuir o respeito que o grupo social tem por ele, o que pode afetá‑lo em várias</p><p>esferas de atuação, como a vida profissional, os relacionamentos etc.</p><p>De acordo com o Código do Jornalismo Investigativo, documento sem poder jurídico empregado</p><p>por alguns países do continente africano, por exemplo, o conceito de “atentado contra a reputação” é</p><p>especificado nos seguintes termos:</p><p>• qualquer ato que cause humilhação a alguém diante da sociedade;</p><p>• a exposição de alguém ao desprezo, à hostilidade ou ao escárnio;</p><p>• algo capaz de provocar a rejeição pública de alguém;</p><p>• a imputação de um fato que lance alguém ao descrédito, prejudicando a sua vida pessoal e</p><p>profissional de maneira sensível.</p><p>Assim como a calúnia, o crime de difamação exige a pormenorização de uma ocorrência que a</p><p>caracterize. Não basta alguém dizer que “O deputado X é vagabundo”; é preciso detalhar um pouco</p><p>essa alegação, embora sem a necessidade de tecer minúcias, como acontece com a calúnia. Além disso,</p><p>ao contrário da calúnia, o fato nuclear da difamação não é propriamente um crime, mas apenas algo</p><p>que possa ser considerado ofensivo à pessoa. Outra diferença fundamental entre calúnia e difamação</p><p>é que no caso da segunda não importa se o fato é verdadeiro ou falso, basta que ele seja mencionado.</p><p>8.3.3 Injúria</p><p>Na ausência de fatos que os caracterizem, com a simples ofensa verbal na forma de xingamentos,</p><p>por exemplo, tanto a calúnia quanto a difamação podem ser reduzidos à categoria de mera injúria.</p><p>Ela está caracterizada no art. 140 do Decreto‑lei n. 2.848/40 como o ato de “ofender a dignidade ou o</p><p>decoro” de alguém. Não existe, portanto, a necessidade de um fato ocasionador do crime, apenas o uso</p><p>de expressões ultrajantes. Como ocorre nos outros dois casos, contudo, a lei não especifica claramente</p><p>o que entende pelos termos “dignidade” ou “decoro”. Isso abre brecha para a interpretação subjetiva.</p><p>Outra diferença importante entre calúnia, difamação e injúria é que, nas duas primeiras, é o aspecto</p><p>objetivo e público do indivíduo que é afetado, enquanto, na última, é o aspecto pessoal e íntimo, o seu</p><p>próprio sentimento de honra. Embora a maioria dos tribunais siga essa linha de interpretação, ela nem</p><p>sempre é fácil de ser delineada, pois, muitas vezes, uma fala que contenha ofensas verbais também pode</p><p>afetar igualmente a reputação da pessoa atingida. A distinção talvez seja mais facilmente compreendida</p><p>na intensidade do dano que foi causado do que pelo ato em si. Imputar falsamente um fato criminoso</p><p>ou que seja ofensivo à reputação a alguém é, sem dúvida, um ato muito mais grave e prejudicial do</p><p>que dirigir‑lhe um xingamento. Seja como for, cabe ao juiz ponderar a respeito das sutilezas de cada</p><p>situação para definir corretamente que espécie de crime de honra foi cometido.</p><p>152</p><p>Unidade III</p><p>8.3.4 O dolo nos crimes contra a honra</p><p>Para que ocorra um ilícito penal, é necessário imputar a culpa do crime a alguém. Na legislação</p><p>brasileira, as pessoas podem ser punidas por terem praticado um crime com dolo, com a intenção</p><p>expressa de cometê‑lo, ou de maneira culposa, quando não se teve a intenção de fazê‑lo. Alguém que</p><p>joga um carro contra outro no intuito de ferir ou matar o seu ocupante obviamente age dolosamente.</p><p>Agora, se dirigir de maneira negligente em alta velocidade e perder acidentalmente a direção do carro</p><p>em que está e provocar um acidente que resulte na morte de outra pessoa, agiu culposamente.</p><p>No caso dos crimes contra a honra, só existem crimes dolosos, o que significa que a lei entende</p><p>que a pessoa que comete calúnia, difamação ou injúria agiu assim com a intenção deliberada de</p><p>provocar um dano.</p><p>Em qualquer dessas situações, o jornalista deve tomar cuidado para não incorrer na autocensura</p><p>prévia. Deve ponderar com cuidado as palavras que empregará na matéria e se elas possuem algum</p><p>potencial de serem enquadradas nos crimes contra a honra. Muitas vezes, basta uma palavra errada para</p><p>tornar um texto difamatório. Se o jornalista, por exemplo, escrever ou disser que uma pessoa mentiu</p><p>em vez de dizer que exagerou, isso pode levantar polêmica e ser interpretado como uma difamação. No</p><p>passado, referir‑se a alguém como “uma pessoa de cor” era perfeitamente aceitável, hoje se tornou um</p><p>crime de injúria racial.</p><p>Qualquer acusação genérica pode resultar em mal‑entendidos e processos judiciais. “Praticar uma</p><p>irregularidade” não necessariamente significa que alguém cometeu um roubo. Além disso, o que é</p><p>verdadeiro em determinadas circunstâncias pode não ser em outras. Por essa razão é importante calcar</p><p>a reportagem em fatos comprovados e inquestionáveis, e evitar afirmações comprometedoras. Essa</p><p>interpretação deve ser deixada ao público que lê ou assiste à matéria.</p><p>Também é preciso prestar atenção ao contexto no qual uma reportagem é publicada ou transmitida.</p><p>Dependendo de como ela seja editada, pode dar margem a acusações de crimes contra a honra de</p><p>alguma espécie. Em certa ocasião, o redator de um jornal do Malaui, na África, foi despedido sob a</p><p>acusação de insinuação de difamação por ter publicado a foto do então presidente vitalício do país,</p><p>Hastings Kamuzu Banda, ao lado da imagem de uma feiticeira de um povoado.</p><p>Em termos jurídicos, qualquer que seja o crime contra a honra, ele deve conter os seguintes elementos:</p><p>Publicação</p><p>Não pode ser imputado crime contra a honra de qualquer espécie a alguém que não tenha publicado,</p><p>de forma impressa, radiofônica, televisiva etc. algum texto. Nesse sentido, aquilo que é dito em particular,</p><p>sem a intenção de ser tornado público, jamais pode ser considerado alguma modalidade de crime de</p><p>comunicação. Em alguns países, contudo, a calúnia, a difamação ou injúria costumam ser consideradas</p><p>até mesmo em conversas telefônicas ou mensagens de texto privadas que tenham sido captados por</p><p>agentes do governo.</p><p>153</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>Além dos jornais, emissoras de rádio e televisão e sites da internet, qualquer comunicado que tenha</p><p>sido divulgado por redes sociais também se enquadra como publicação, já que o material veiculado</p><p>por esses meios se destina a ser lido por um contingente bastante amplo de pessoas. O Marco Civil da</p><p>Internet, instaurado anos atrás, foi criado justamente para coibir os abusos e excessos cometidos por</p><p>internautas em espaços como o Facebook, Instagram, YouTube etc.</p><p>Também pode ser considerada publicação a reprodução de uma notícia veiculada por outro órgão</p><p>de comunicação ou até em outro país. Não importa a procedência da informação, se ela for considerada</p><p>ofensiva à honra de algum modo, o responsável por utilizá‑la pode sofrer sanções judiciais. Nesse</p><p>sentido, o caso relatado serve como ilustração e alerta:</p><p>Um caso midiatizado foi a expulsão do Zimbábue do jornalista Andrew</p><p>Meldrum, do jornal inglês The Guardian, em 2002 em consequência de um</p><p>artigo que publicou sobre o país no site de seu jornal e que foi lido pelos</p><p>serviços de segurança do Zimbábue, a Central Intelligence Organisation,</p><p>em Harare. Uma sentença proferida pelo Supremo Tribunal da Austrália em</p><p>2002 conferiu a um empresário australiano, vítima de difamação, o</p><p>direito de promover uma ação em qualquer jurisdição onde o artigo</p><p>considerado difamatório estivesse disponível, levantando a possibilidade de</p><p>responsabilização legal a nível global (ANSEL, 2011g, p. 7).</p><p>Referências diretas ou indiretas à parte que se considera afetada pela publicação</p><p>Mesmo que a reportagem não se refira diretamente a alguém pelo nome, mas tenha qualquer</p><p>elemento que permita a sua identificação, como endereço, cargo etc., isso não servirá de proteção</p><p>contra a imputação de crime contra a honra. Por exemplo, se o jornalista escrever que o presidente</p><p>de um importante time de futebol de determinada cidade está envolvido com contravenção, mesmo</p><p>que não especifique o nome ou o time em questão, mas fizer referências detalhadas à sua atuação que</p><p>permitam sua identificação, isso pode ser usado em uma ação na Justiça de crime contra a honra.</p><p>Intenção de provocar dano</p><p>Como já explicamos, os crimes de calúnia, difamação ou injúria estão tipificados na legislação</p><p>brasileira como dolosos, ou seja, houve a intenção, explícita ou não, de provocar dano a alguém. No caso</p><p>específico da difamação, contudo, há maneiras de um réu demonstrar que não agiu movido pela má‑fé.</p><p>De qualquer maneira, cabe à jurisprudência judicial decidir cada caso de acordo com as circunstâncias.</p><p>Não haver justificativa razoável para o crime</p><p>Em raríssimos casos, o jornalista pode invocar o “interesse público” em defesa de sua atitude, se não</p><p>houver a vontade deliberada em provocar dano. Por vezes, no afã de levar ao público uma denúncia</p><p>importante, o repórter pode incorrer em calúnia, difamação ou injúria, mesmo que esse não tenha sido</p><p>o seu intento original.</p><p>154</p><p>Unidade III</p><p>8.3.5 Justificativas</p><p>Normalmente, os jornalistas consideram que basta a comprovação de suas alegações, com a</p><p>apresentação de evidências concretas e verificáveis – aquilo que entendemos como a verdade, como</p><p>expusemos em capítulos anteriores – para se protegerem de eventuais ações de crimes contra a honra.</p><p>Contudo, isso nem sempre é suficiente para livrá‑lo da imputação de um ato ilícito. É importante que as</p><p>provas apresentadas sejam aceitas como tais nos tribunais. O que é considerado evidência no contexto</p><p>do jornalismo investigativo, nem sempre é entendido assim pelos órgãos julgadores. Dependendo da</p><p>situação, por exemplo, gravações ou mesmo vídeos comprometedores não são consideradas provas</p><p>válidas. Por essas razões, o jornalista precisa conhecer detalhadamente a legislação e os devidos processos</p><p>penais para atuar com segurança, e sempre recorrer a um assessor jurídico em casos mais complicados</p><p>e duvidosos.</p><p>Entretanto, há algumas justificativas que podem ser arguidas em defesa do repórter e da publicação.</p><p>A matéria reproduz a verdade e serve ao interesse público</p><p>Quando o jornalista tem em mãos provas suficientemente contundentes daquilo que alega, isso tem</p><p>um poder de dissuasão muito forte para desestimular alguém a processá‑lo porque há a possibilidade</p><p>de que essas evidências sejam exibidas publicamente durante um julgamento e causem ainda mais</p><p>estragos do que a mera publicação da informação.</p><p>A calúnia ou difamação foram acidentais</p><p>Se conseguir provar que houve um erro de digitação ou de revisão que provocou a ofensa, o jornalista</p><p>pode justificá‑la. A aceitação dessa explicação, de qualquer modo, dependerá naturalmente do juiz e</p><p>de uma evidência convincente. Mesmo que consiga comprovar que tudo não passou de um erro ou</p><p>descuido, o jornal ou a emissora terá de publicar uma errata retificando a informação equivocada, ou o</p><p>direito de resposta da parte ofendida, de acordo com o que estipula a legislação. A retificação deverá ser</p><p>publicada em espaço bem visível e fácil de ser localizado.</p><p>Trata‑se de uma informação privilegiada</p><p>Dependendo da afirmação que se faça e do interesse público, o jornalista pode se defender</p><p>justificando que a publicação envolveu uma informação privilegiada que seria benéfica para a sociedade</p><p>como um todo se fosse publicada. Naturalmente, essa explicação é altamente subjetiva e caberá ao juiz</p><p>interpretá‑la à luz de sua consciência.</p><p>Tratou‑se de um comentário legítimo</p><p>Em uma reportagem, como vimos, não cabe ao jornalista tecer comentários ou emitir pontos de</p><p>vista a respeito do assunto que está sendo tratado, devendo limitar‑se à análise do material colhido.</p><p>Contudo, há ocasiões em que a qualificação de um ato pode ser aceitável. Por exemplo, se descrever</p><p>um ato comprovado de corrupção, e acrescentar que foi um comportamento reprovável, isso é pode</p><p>155</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>ser interpretado como um “comentário legítimo” diante do crime cometido. Somente se os fatos</p><p>estiverem corretamente descritos, o comentário referente a eles pode ser considerado aceitável.</p><p>Não houve crime de honra na afirmação</p><p>Essa justificativa somente se sustenta em pouquíssimas situações bem definidas: se o fato imputado</p><p>não for considerado pelo público como danoso à imagem da pessoa; ou quando se refere a alguém cuja</p><p>reputação já tenha sido atacada anteriormente, como no caso de um assassino confesso e condenado.</p><p>Mesmo que a pessoa em questão não tenha sofrido qualquer dano objetivo com a</p><p>publicação, o jornalista</p><p>terá de ser muito hábil para defender a validade de sua afirmação e refutar a acusação de que cometeu</p><p>crime contra a honra de qualquer espécie.</p><p>8.4 Salvaguardas</p><p>Seja qual for o crime de comunicação do qual esteja sendo acusado, o jornalista deve sempre</p><p>procurar se precaver contra eventuais processos, assegurando‑se de que poderá sustentar as suas</p><p>alegações pelas seguintes salvaguardas:</p><p>• O testemunho das fontes: com exceção das fontes protegidas por sigilo, o jornalista pode</p><p>contar com o apoio das fontes que obteve em sua reportagem para embasar a sua defesa. Por essa</p><p>razão, deve manter‑se informado da localização delas durante anos e atualizar constantemente</p><p>os contatos. De quanto mais fontes dispuser, tanto melhor.</p><p>• Manter os registros: preservar, a todo custo, as gravações de áudio ou vídeo, bem como as</p><p>anotações e quaisquer outros documentos obtidos ao longo da investigação durante o período</p><p>em que perdurar a ação.</p><p>• Preservar as declarações assinadas: quaisquer autorizações que tenham sido escritas e</p><p>assinadas pelas próprias fontes devem ser mantidas durante anos. Mesmo um simples e‑mail ou</p><p>uma mensagem de texto ou de áudio no celular podem servir para comprovar uma autorização.</p><p>Implicitamente, esses documentos atestam que a pessoa concordou com a divulgação de seu</p><p>nome e das informações que disponibilizou para o jornalista.</p><p>• Certificar‑se da veracidade das fontes e de suas informações: é de vital importância</p><p>confirmar a identidade das fontes e a veracidade daquilo que afirmam. Se não houver acordos de</p><p>confidencialidade, elas podem ser invocadas para garantir a validade de uma matéria investigativa.</p><p>• Preservar as provas documentais: se forem em papel, devem ser preferencialmente os originais.</p><p>Caso sejam digitais, o jornalista deve tomar precauções para fazer backups dos arquivos e</p><p>armazená‑los em uma nuvem ou em outra localização confiável, à prova de hackers. Jamais</p><p>manter apenas uma cópia em um só lugar, como o desktop de um computador.</p><p>156</p><p>Unidade III</p><p>• Certificar‑se da exatidão das informações: o jornalista jamais pode descuidar da precisão</p><p>daquilo que está afirmando. Qualquer erro de informação em uma matéria, por menor que seja,</p><p>como um sobrenome errado, pode acarretar sérios prejuízos e fazer com que toda a reportagem</p><p>perca a credibilidade. O valor mais importante do jornalismo é a verdade, e o mínimo desvio dela</p><p>invalida todo o restante. A regra é checar e conferir quantas vezes for necessário uma informação.</p><p>Na dúvida, ela deve ser eliminada.</p><p>• Garantir o contraditório: um dos pontos mais importantes de uma matéria investigativa é</p><p>garantir o direito de resposta a alguém que tenha sido acusado de alguma coisa. Essa regra</p><p>de ouro deve ser seguida sem exceções. Mesmo se a pessoa não quiser se pronunciar sobre a</p><p>acusação, ela deve ser contatada pela reportagem, e o jornalista deve registrar esse fato. Se o</p><p>contato ocorreu por e‑mail ou mensagem de texto em celulares, esses documentos devem ser</p><p>mantidos como prova.</p><p>• Deixar explícito o processo de investigação: cabe ao jornalista demonstrar a exatidão de cada</p><p>evidência e o procedimento que seguiu para obtê‑la. Nesse sentido, é importante manter os</p><p>registros de todas as etapas de execução da reportagem, do planejamento até a edição final e</p><p>publicação, pois em algum momento pode ser interrogado a respeito disso. Deve ser capaz de</p><p>provar que agiu com a máxima isenção e dentro das normas de conduta ética de sua profissão</p><p>e que em nenhum momento portou‑se tendenciosamente com o intuito de prejudicar quem</p><p>quer que seja.</p><p>• Jamais prejulgar alguém: em nenhuma hipótese o jornalista deve julgar alguma pessoa com</p><p>base em seu histórico de vida ou em suas condutas anteriores ao caso que está investigando.</p><p>Mesmo que o indivíduo tenha cometido algum delito no passado, isso não deve ser usado contra</p><p>ele no presente para imputar uma acusação. Contudo, isso pode servir como um fato ilustrativo</p><p>de seu comportamento anterior, se for pertinente à matéria que está sendo elaborada.</p><p>• Tomar cuidado com insinuações: a maneira como o texto é redigido pode dar a entender algo que</p><p>foge à intenção original do jornalista. Ele precisa ficar atento para que não haja mal‑entendidos</p><p>na compreensão daquilo que escreveu. Uma medida que pode evitar esse problema é submeter</p><p>o texto a algum colega ou ao chefe antes da publicação, ou até mesmo a um advogado, para</p><p>verificar se não há insinuações implícitas nele.</p><p>• Boatos devem ser evitados: por definição, um boato é uma afirmação sem o apoio de uma</p><p>prova concreta. Nesses termos, publicá‑lo é incorrer em um crime contra a honra, nem mesmo</p><p>adianta alegar que se trata apenas de uma menção infundada. Uma vez que o jornalista tenha</p><p>publicado o conteúdo de um boato, contribuiu para a sua disseminação e de qualquer informação</p><p>falsa que ele contiver.</p><p>• Mostrar, não contar: a redação jornalística deve sempre se pautar pela máxima objetividade</p><p>e a busca incessante da neutralidade. Em vez de narrar um acontecimento, é mais produtivo</p><p>mostrá‑lo ao público. O fato apresentado diretamente dará mais verossimilhança à matéria e</p><p>evitará possíveis erros de interpretação.</p><p>157</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>• Evitar ser tendencioso: não custa repetir que os adjetivos e advérbios devem ser empregados</p><p>com parcimônia e somente quando necessários. A colocação de um advérbio impreciso em uma</p><p>frase pode denotar um preconceito ou um julgamento prévio da conduta de alguém. Quanto mais</p><p>exatas forem as palavras e expressões empregadas, menos equívoco o texto resultará.</p><p>• Exposição equilibrada dos fatos: quanto mais ordenada e coerente for uma reportagem</p><p>em sua versão final, menos suscetível a mal‑entendidos ela ficará. Uma matéria confusa, que</p><p>apresenta os acontecimentos de maneira desordenada, pode levar o público a interpretá‑la de</p><p>maneira equivocada.</p><p>• Citações diretas não são garantia: pode‑se pensar que, se a afirmação de uma fonte que</p><p>contenha um crime contra a honra for publicada como citação direta, isso evitará um processo</p><p>contra o jornalista. No entanto, a responsabilidade continua sendo do autor da matéria. Aqui,</p><p>deve ser seguida a mesma lógica de alguém que reproduz uma matéria difamatória publicada por</p><p>outra pessoa. Como dissemos nos tópicos anteriores, uma calúnia só deixará de ser uma calúnia</p><p>se a reportagem conseguir comprovar a veracidade daquilo que afirma.</p><p>Evitar ações judiciais ou proteger uma testemunha?</p><p>Isso não apresenta qualquer contradição. Temos destacado a importância</p><p>de manter registros, localizar testemunhas e assim por diante – mas um</p><p>registro pode ser acessado por pessoas que queiram ameaçar, fazer mal ou</p><p>matar as suas fontes. Assim, em certas situações, terá de decidir: é mais</p><p>importante evitar uma ação judicial, ou proteger as testemunhas?</p><p>Quando o Rand Daily Mail publicou a matéria sobre o Prisongate, que</p><p>expôs as condições nas prisões sob o regime do Apartheid [na África</p><p>do Sul], um repórter guardou os seus apontamentos (num cofre). Os</p><p>Serviços de Segurança da África do Sul os encontraram e, com base nesses</p><p>apontamentos, acusaram e prenderam a fonte principal do jornal, Harold</p><p>Jack Strachan. Raymond Louw, que na altura era repórter no Rand Daily</p><p>Mail, diz: “Todos os artigos foram publicados com o nome dele [Strachan]…</p><p>talvez devêssemos ter tido mais cuidado com esses apontamentos mas,</p><p>lembre‑se que era a única prova que tínhamos da exatidão daquilo que</p><p>estávamos expondo”.</p><p>O jornalista de investigação, Michael Gillard, adianta:</p><p>“Em geral, eu não introduzo qualquer comentário de grande importância</p><p>num computador. Guardo notas soltas para que, se necessário, possam</p><p>desaparecer. Se me perguntarem, eu respondo que não sei que fim levaram.</p><p>O jornalista que mantém anotações muito detalhadas deve estar ciente de</p><p>que as forças do mal também as acharão muito úteis, pelo que é preciso</p><p>pensar o que fazer com elas. No que respeita às fontes sensíveis, não convém</p><p>158</p><p>Unidade III</p><p>escrever os nomes delas,</p><p>não mantenha agendas. [Nós temos o dever de</p><p>proteger] as pessoas em quem confiamos”.</p><p>O mais arriscado é atravessar fronteiras com esses apontamentos e agenda</p><p>de contatos, pois existe a possibilidade de você e as suas malas serem</p><p>revistadas (ANSEL, 2011g, p. 9).</p><p>8.5 Privacidade</p><p>Todas as vezes que o jornalista utilizar uma técnica de cobertura que implique gravações clandestinas,</p><p>ou quando expuser a vida íntima de uma pessoa, é bem possível que esteja sujeito a algum processo por</p><p>violação de privacidade. As leis que tratam desse assunto se dividem em dois tipos: as que preservam o</p><p>direito dos indivíduos em manter informações sobre as suas vidas longe do escrutínio público e as que</p><p>fornecem salvaguardas contra possíveis intrusões.</p><p>Há, ainda, um tipo de violação de privacidade cada vez mais comum no mundo informatizado de</p><p>hoje, que é o uso de imagens ou gravações de áudio de alguém sem a permissão expressa. Isso tem</p><p>ocorrido não apenas na esfera do jornalismo, mas da publicidade também.</p><p>Um dos argumentos a favor de atitudes como essas por parte dos jornalistas, sobretudo no que</p><p>diz respeito a personagens de grande proeminência, como celebridades do mundo artístico, esportivo</p><p>e políticos, é que, implícita ou explicitamente, e gostem ou não, elas deixaram de lado as suas</p><p>privacidades no momento em que se tornaram figuras públicas. No caso dos políticos e pessoas de</p><p>importância nos cargos públicos do país, como parlamentares, ministros, prefeitos, governadores e</p><p>presidentes, isso seria ainda mais verdadeiro, já que eles teriam o dever de prestar contas de suas</p><p>atividades aos cidadãos.</p><p>Essa alegação deve ser analisada com cautela. O direito de espreitar a vida particular de uma</p><p>personalidade pública só se justifica em situações muito especiais, quando suas atividades pessoais</p><p>podem ter implicações para o público no que diz respeito a questões de cunho social. Suponhamos que</p><p>um político proeminente tenha um caso extraconjugal com uma pessoa qualquer. Isso só tem interesse</p><p>para ele e as pessoas envolvidas (esposa, filhos etc.). Contudo, se a pessoa com quem ele estiver tendo</p><p>um caso for uma eminente contraventora, a situação se torna bem mais complicada, pois essa relação</p><p>pode implicar todo tipo de favorecimentos ilícitos.</p><p>Embora muitas pessoas defendam a ideia de que quaisquer desvios morais por parte de uma</p><p>personalidade, principalmente na esfera política, podem comprometer a sua credibilidade, e por</p><p>isso devem ser expostos, essa argumentação não se sustenta em um tribunal. Somente quando a</p><p>vida particular da pessoa entra em choque com o interesse público é que se justifica a exposição de</p><p>condutas reprováveis.</p><p>Diante do dilema que envolve situações como essas, o jornalista deve fazer os seguintes</p><p>questionamentos:</p><p>159</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>• Qual é o interesse público que está em jogo na história?</p><p>• Ele é realmente relevante para merecer a invasão de privacidade?</p><p>• O que essa ação acarretará na vida das personagens investigadas?</p><p>• Elas podem correr riscos sérios, inclusive de vida, com a exposição?</p><p>• Quais são as alternativas para não cometer injustiças no afã de conseguir uma matéria bombástica?</p><p>8.5.1 Acordos ilícitos</p><p>Um caminho arriscado e potencialmente letal para um jornalista ou para uma empresa de</p><p>comunicação é firmar algum tipo de acordo faustiano com criminosos de qualquer espécie. Além</p><p>de esses acertos se tornarem uma armadilha, pois podem implicar extorsões e chantagens, também</p><p>são indefensáveis do ponto de vista jurídico e podem caracterizar formação de quadrilha para a</p><p>prática de atos ilícitos. Outro problema gerado por esse tipo de associação é que a própria credibilidade</p><p>da matéria fica comprometida, sem mencionar a reputação do repórter e da empresa para a qual</p><p>ele trabalha.</p><p>A única exceção justificável para a adoção desse tipo de conduta é quando se trata de uma fonte</p><p>sigilosa importante que possa revelar informações preciosas para a investigação. Novamente, o direito</p><p>a manter a confidencialidade da fonte garante ao jornalista certa margem de barganha para expor</p><p>uma situação de grande interesse público. De maneira alguma, porém, isso pode ser entendido como</p><p>conivência ou cumplicidade em atos criminosos.</p><p>8.6 Sigilo oficial</p><p>O Brasil, como muitos outros países, tem leis que garantem a proteção de dados de segurança</p><p>nacional. Embora, nos anos recentes, muitas leis tenham sido promulgadas para garantir o acesso a</p><p>informações governamentais, ainda assim há vários mecanismos que visam garantir a segurança do</p><p>Estado em pontos prioritários, como as operações diplomáticas e militares. Uma área particularmente</p><p>sensível, que tem sido alvo de ataques cibernéticos de toda espécie, é a que diz respeito ao sigilo oficial</p><p>e aos dados particulares dos cidadãos do país.</p><p>Assim como ocorre nos altos escalões de muitas empresas, os funcionários graduados da</p><p>administração pública assinam declarações em que se comprometem a manter o sigilo de suas</p><p>atividades profissionais e das pessoas relacionadas a elas. Na maioria dos casos, essas restrições</p><p>representam um sério obstáculo à atuação jornalística, sobretudo quando são invocadas para obstruir</p><p>investigações potencialmente perigosas para determinadas instituições ou órgãos do governo.</p><p>Com relação a esse tópico, nunca é demais resgatar a diferença entre o que se entende como</p><p>interesse público e interesse nacional. O primeiro diz respeito à sociedade, aos indivíduos isolados e aos</p><p>grupos organizados dentro da legalidade. É a eles que o jornalismo deve atender. O segundo se refere</p><p>160</p><p>Unidade III</p><p>aos assuntos que envolvem o país e os poderes constituídos que representam o Estado. Nem sempre os</p><p>seus interesses estão alinhados com os da sociedade civil e é então que a imprensa deve manter na mira</p><p>as autoridades e as suas ações, com o intuito de fiscalizá‑las e impedir desvios de qualquer natureza.</p><p>Um dos pretextos mais empregados pelas autoridades para justificar o sigilo oficial é que a</p><p>revelação de algumas informações pode ser danosa para o país ou, o que também é muito comum,</p><p>é a explicação  de que as pessoas podem ter uma reação negativa diante de alguma divulgação de</p><p>documentos confidenciais. Ambas as justificativas são discutíveis e altamente relativas, e só podem ser</p><p>consideradas diante de um contexto realmente válido.</p><p>O caso recente mais rumoroso envolvendo o vazamento de dados oficiais sigilosos ocorreu em</p><p>2010, quando o site Wikileaks, fundado pelo ativista australiano Julian Paul Assange em 2006, publicou</p><p>uma série de documentos altamente confidenciais do governo dos Estados Unidos. As informações</p><p>tornadas públicas incluíam detalhes a respeito do ataque aéreo a Bagdá, durante a Guerra do Iraque,</p><p>em 2007, dados referentes à guerra do Afeganistão e o Cablegate – vazamento de correspondências</p><p>oficiais do Departamento de Estado americano, entre outros. Com o apoio de outros países, o governo</p><p>dos EUA iniciou uma investigação sobre o caso que culminou em um mandado de prisão internacional</p><p>contra Assange. A situação acabou se convertendo em um imbróglio político quando o ativista se</p><p>refugiou na Inglaterra e pediu asilo político à embaixada do Equador em Londres, onde permaneceu</p><p>de 2012 a 2019.</p><p>Um motivo válido para preservar a confidencialidade de informações oficiais é quando a polícia</p><p>efetua algum tipo de investigação e a divulgação dos pormenores pode prejudicar seriamente a eficácia</p><p>da operação. Outro exemplo nesse sentido é a manutenção do sigilo de informações de um processo</p><p>que tramita em segredo de justiça. No entanto, há que se diferenciar esses casos daqueles em que se</p><p>invoca o direito ao sigilo apenas com o propósito de se acobertar atos impróprios, com o intuito velado</p><p>de impedir que os jornalistas os descubram.</p><p>8.6.1 Lei de Acesso à Informação</p><p>Assim como outros países democráticos, como os Estados Unidos e a África do Sul, o Brasil também</p><p>tem a sua Lei de Acesso à Informação, promulgada em 18 de novembro de 2011. Trata‑se de uma</p><p>lei ordinária, que</p><p>entrou em vigor em maio de 2012 e que regulamenta os artigos da Constituição</p><p>Federal de 1988 que garantem o acesso de qualquer cidadão às informações preservadas pelas diversas</p><p>entidades estatais.</p><p>A noção que embasa essa lei é a de que os cidadãos devem ter ciência dos dados públicos que circulam</p><p>nas esferas governamentais para que haja maior participação coletiva nos atos oficiais, sobretudo nas</p><p>seguintes áreas:</p><p>• maior transparência para que se possa coibir a corrupção;</p><p>• aperfeiçoamento da gestão pública;</p><p>161</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>• participação nas tomadas de decisão de interesse público;</p><p>• melhoria dos processos democráticos.</p><p>Apesar dos avanços que a lei promoveu, ela ainda está longe de ser uma ferramenta de controle e</p><p>fiscalização plenamente satisfatória, pelas seguintes razões:</p><p>• há certos entraves burocráticos, que podem dificultar o acesso aos dados;</p><p>• o processo pode ser demorado e levar semanas e até meses para que uma informação oficial seja</p><p>disponibilizada;</p><p>• alguns sites governamentais que permitem acesso às informações são morosos e instáveis.</p><p>Como se pode concluir, a Lei de Acesso à Informação é um avanço importante, mas ainda não é</p><p>suficiente. Ela implica uma mudança de mentalidade e de comprometimento com a democracia. Muitos</p><p>processos têm de ser aperfeiçoados para que os propósitos pelos quais ela foi criada sejam plenamente</p><p>atingidos. A seguir, vemos uma situação em que a garantia de acesso à informação foi fundamental.</p><p>Em 2004, após um longo processo legal, foi concedido ao empreiteiro de</p><p>equipamento militar Richard Young o direito de acessar todos os projetos do</p><p>relatório do Auditor Geral da África do Sul em relação ao negócio de armas</p><p>no país, valorizado em milhões de Randes [a moeda local]. Young foi um dos</p><p>proponentes a quem o contrato não foi adjudicado. Uma leitura de todos os</p><p>projetos de relatórios complexos revelou incoerências e omissões no relatório</p><p>final que a imprensa começou a investigar. Mas Young perseguiu o caso</p><p>durante mais de um ano: muito mais tempo que a maioria dos jornalistas</p><p>normalmente tem para efetuar uma única investigação (ANSEL, 2011g, p. 12).</p><p>8.7 Questões éticas</p><p>Em termos gerais, a ética trata dos comportamentos certos ou errados, o que muitas vezes pode</p><p>levá‑la a entrar em conflito com a lei. Na prática do jornalismo investigativo, a ética tem um papel</p><p>preponderante na tomada de certas decisões em que o jornalista deve ficar particularmente atento aos</p><p>seguintes procedimentos:</p><p>• a maneira como ele obtém as informações;</p><p>• a forma como se relaciona com as fontes;</p><p>• o modo como redige uma matéria;</p><p>• o relacionamento com os companheiros de profissão;</p><p>• a linha ideológica que a empresa jornalística para a qual se trabalha segue.</p><p>162</p><p>Unidade III</p><p>A melhor conduta que o jornalista deve seguir é manter‑se sempre preocupado com a exatidão das</p><p>informações que disponibiliza. Antes de tudo, ele deve estar comprometido com a verdade dos fatos</p><p>apurados, não com posicionamentos pessoais que possam distorcê‑los. Para chegar a esse Santo Graal</p><p>do jornalismo, basta cumprir à risca o método científico de observação, checagem e análise dos dados</p><p>da maneira mais criteriosa, responsável e minuciosa que for possível.</p><p>8.8 A relação com as fontes</p><p>Já abordamos esse tópico antes, mas agora o analisaremos do ponto de vista da postura ética que o</p><p>profissional de imprensa deve ter. Ao se comprometer com o sigilo da identidade de uma fonte, o jornalista</p><p>deve estar pronto para as consequências que essa postura pode acarretar, entre elas um processo e, até,</p><p>a prisão. O jornalismo investigativo é, por definição, o mais arriscado de todos, e fazer uma promessa que</p><p>não se pode cumprir apenas para obter uma informação importante é, acima de tudo, desonesto.</p><p>A forma mais apropriada para atuar diante desses dilemas éticos é considerar as consequências do</p><p>ato e se perguntar quem será prejudicado caso a identidade da fonte seja revelada, e quem se beneficiará</p><p>com isso. Sobretudo, o jornalista deve ponderar que conduta causará menos danos e riscos aos envolvidos.</p><p>Além desses questionamentos, é sempre interessante prestar atenção aos seguintes princípios:</p><p>Franqueza</p><p>O repórter não deve dizer à fonte aquilo que ela espera ouvir apenas para lisonjeá‑la a fim de obter</p><p>a entrevista, e sim aquilo que deve ser dito, mesmo que signifique afastar o entrevistado.</p><p>Evitar técnicas de acobertamento</p><p>Também já abordamos esse assunto anteriormente, mas não custa reforçar que o jornalista tem por</p><p>obrigação expor claramente a sua identidade e o seu propósito ao entrar em contato com uma fonte.</p><p>Isso significa que deve‑se dispensar o emprego de câmeras ou gravadores ocultos e se fazer passar por</p><p>outra pessoa. Igualmente grave é armar uma armadilha para alguém apenas para poder registrar o ato.</p><p>Por exemplo, simular oferecer uma propina a um fiscal. Além de ferir frontalmente qualquer princípio</p><p>ético da profissão, e ser muitas vezes ilegal, mentir ou se fazer passar por outra pessoa apenas para</p><p>conseguir uma entrevista põe em cheque a credibilidade do profissional e da própria investigação que</p><p>ele está conduzindo. É contraproducente buscar a verdade apoiado em mentiras.</p><p>Com relação à utilização desses procedimentos, o jornalista Bob Steele, do Poynter Institute, dos</p><p>Estados Unidos, sugeriu a aplicação do seguinte teste:</p><p>– Será que todas as demais técnicas foram esgotadas?</p><p>– Está disposto a divulgar as técnicas que empregou e pode justificá‑las?</p><p>– A sua redação mantém os padrões mais elevados em todos os aspectos</p><p>do seu trabalho?</p><p>163</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>– Será que a reportagem irá impedir um mal maior do que o causado</p><p>pelo engano?</p><p>– A técnica enganadora foi objeto de uma reflexão ponderada e exaustiva?</p><p>E, diz ele, estas NÃO são justificações adequadas:</p><p>“Ganhar um prêmio; derrotar a concorrência; obter a informação com maior</p><p>facilidade e mais barato; porque todos os outros o fazem; porque as próprias</p><p>fontes são pouco éticas” (ANSEL, 2011g, p. 15).</p><p>Respeito às fontes</p><p>Acima de tudo, o jornalista deve manter o respeito às suas fontes. Em primeiro lugar, porque elas</p><p>podem estar arriscando muitas coisas para conceder uma entrevista e entregar uma informação</p><p>importante. Caso se sintam traídas por algum deslize ético, dificilmente elas se comprometerão com</p><p>uma nova reportagem.</p><p>Outro aspecto relacionado a esse tópico é o cuidado, no processo de redação da matéria, em não</p><p>atribuir às fontes envolvidas em acusações de atos ilícitos a alcunha de criminosos. Elas só podem ser</p><p>consideradas assim depois da devida condenação penal.</p><p>Distanciamento profissional</p><p>Cabe aqui a mesma postura que outras profissões devem manter. O jornalista não precisa gostar ou</p><p>concordar com o que pensa ou o que diz o seu entrevistado. Muito menos deve manter amizade com</p><p>ele ou envolvimento amoroso, para evitar um possível comprometimento. A confiança deve ser obtida</p><p>às custas da responsabilidade e do interesse público, não por quaisquer sentimentos de empatia. A</p><p>relação entre o repórter e a fonte deve ser mantida em nível estritamente profissional e distanciado,</p><p>para preservar a isenção e a imparcialidade da reportagem.</p><p>8.8.1 Subornos e favorecimentos</p><p>Há uma distância abissal entre aceitar uma oferta para almoçar com uma fonte e receber qualquer</p><p>favor mais substancial, que pode ir do famoso jabá até quantias vultosas em dinheiro, em troca de</p><p>algum comprometimento que ponha em risco a credibilidade do jornalista ou de sua investigação. Não</p><p>é preciso frisar aqui o quanto atitudes como essas são antiéticas. Entre outros problemas acarretados</p><p>por esse comportamento, destacam‑se os seguintes:</p><p>• Desequilíbrio na relação: no momento em que aceita um suborno, por meio de favorecimentos</p><p>ou no recebimento de dinheiro, o jornalista se torna sujeito a pressões e fica subjugado aos</p><p>desejos de sua fonte. Passará a sofrer pressões e terá de sacrificar a sua independência.</p><p>164</p><p>Unidade III</p><p>• Conflito de interesses: quando se presta ao</p><p>papel de receber um favor, o jornalista estará</p><p>diante de um dilema ético: deve escolher entre sacrificar os seus deveres com a profissão ou os</p><p>compromissos que assumiu com a fonte.</p><p>• Perda de confiança: caso o acordo venha a ser descoberto e exposto publicamente, o jornalista</p><p>terá a reputação arruinada e toda a credibilidade que um dia possuiu desaparecerá. O pior efeito</p><p>desse processo é a perda da confiança do público em sua figura.</p><p>Naturalmente, não são somente as fontes que podem colocar o jornalista em maus lençóis. Às vezes,</p><p>os próprios donos dos veículos de comunicação ou os seus superiores imediatos podem fazer pressão</p><p>para que ele omita uma informação ou inclua outra, ou escreva a matéria de uma maneira diferente</p><p>para não envolver alguém ou ferir algum interesse financeiro, como um patrocinador ou anunciante.</p><p>Nessas situações, o profissional deve manter o prumo de sua conduta ética e agir de acordo com a</p><p>sua consciência. Não deve ceder às pressões e interferências que impliquem faltar com a verdade de sua</p><p>reportagem, mas deve sempre considerar cada caso. Vejamos a seguir, uma situação que aborda as</p><p>complexidades e contradições da conduta ética.</p><p>Destaque</p><p>No papel, parece que não existem equívocos em relação ao que é correto e o que é</p><p>errado. Mas, na vida real, as coisas são sempre bem mais complexas. Putsata Reang, uma</p><p>jornalista do sudeste asiático (que estudou no exterior e trabalha no órgão noticioso e de</p><p>formação internacional Internews) relata a seguinte conversa com colegas jornalistas no</p><p>seu país natal, o Camboja:</p><p>“Na América, nunca me senti verdadeiramente americana. Agora, no Camboja,</p><p>dizem que eu não sou verdadeiramente cambojana. Logo comecei a compreender a</p><p>distinção. O assessor adjunto de jornalismo e eu apelávamos sempre a práticas éticas.</p><p>Os jornalistas cambojanos estão habituados à ‘reportagem de envelope’. Ser pago pelos</p><p>organizadores para assistir a uma conferência de imprensa era a regra, não a exceção.</p><p>Uma tarde, alguns repórteres do nosso grupo entraram no escritório fazendo piadas</p><p>sobre uma conferência de imprensa que tinham assistido naquela manhã, após a qual os</p><p>jornalistas se acotovelavam para conseguirem obter um dos envelopes distribuídos pelos</p><p>funcionários públicos contendo 10 000 Riel (uns $5).</p><p>‘Você aceitou um?’ Perguntei eu [a um jornalista].</p><p>Ele hesitou, e depois respondeu: ‘Claro que sim. O que queria que eu fizesse? Os meus</p><p>filhos passam fome’.</p><p>165</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>‘Como podemos escrever sobre a corrupção se nós próprios somos corruptos?’,</p><p>perguntei eu aos demais repórteres durante uma sessão de formação sobre objetividade,</p><p>equilíbrio e imparcialidade.</p><p>Evitaram me olhar nos olhos. Silêncio. Depois, um deles balbuciou. ‘Qual é o teu</p><p>salário nessa ONG onde trabalha?’</p><p>A minha resposta imitou a deles. Olhos abaixados. Silêncio. Partilhávamos vergonha,</p><p>mas por razões diferentes.</p><p>Nessa noite, chorei. Num país onde alguns jornalistas auferem num mês o que eu</p><p>gasto num bom Cabernet, e onde a organização internacional pela qual eu trabalhava me</p><p>pagava um salário internacional, acrescido de regalias como habitação e seguro médico,</p><p>a condenação de minha parte por terem aceito o suborno soava falsa. No Camboja,</p><p>dependendo da pessoa, a ética profissional era um sacrifício ou um luxo. Os jornalistas</p><p>trabalhavam num país sem uma lei de liberdade de informação; um lugar onde contar</p><p>a verdade significava arriscar a própria vida. O resultado: notícias repletas de fontes</p><p>anônimas e boatos, que os repórteres procuravam fazer passar por fatos. [Um repórter]</p><p>investigou as generosas isenções tributárias concedidas a um empresário abastado e com</p><p>ligações com a elite política. Recusou‑se a colocar nomes.</p><p>‘Mata a credibilidade’, disse eu.</p><p>“Não quero ser assassinado’, respondeu ele.</p><p>Desisti.</p><p>Fonte: Ansel (2011g, p. 17).</p><p>8.8.2 Manutenção de compromissos</p><p>Como qualquer atividade humana, o jornalismo não consegue e não pode se manter apartado da</p><p>realidade da época e do lugar em que é praticado. Não existem empresas de comunicação que não se</p><p>deixem influenciar pelas ideias e conceitos que circulam na sociedade. Todos os jornais seguem uma</p><p>linha editorial mais ou menos bem definida, que inclui, na maioria dos casos, a defesa dos princípios</p><p>democráticos, a crítica sistemática à política e às autoridades, a vigilância constante dos poderes</p><p>constituídos e, principalmente, o compromisso com a verdade absoluta. Por mais neutro que um veículo</p><p>procure ser, a objetividade total é praticamente inexistente, já que a mera escolha de uma pauta em</p><p>detrimento de outra é uma questão de ponto de vista.</p><p>Uma investigação faz parte desse contexto, e, como ela necessariamente incorpora o componente</p><p>humano em sua essência, é impossível ao jornalista desassociar‑se de suas vivências, concepções de vida</p><p>e de mundo e dos juízos de valor que o definem como indivíduo. Essas características personalistas estão</p><p>166</p><p>Unidade III</p><p>na própria essência do trabalho jornalístico e norteiam toda a execução da investigação, do planejamento</p><p>à execução, a definição das perguntas em uma entrevista, até a redação final da matéria e sua edição.</p><p>Esse, contudo, não é um aspecto tão negativo quanto pode se pensar a princípio. É justamente esse</p><p>relativo grau de subjetividade que insufla vida em uma reportagem, a torna empática e provoca reações</p><p>emocionais no público. No dia em que matérias desse tipo forem totalmente produzidas por robôs,</p><p>resultarão em um produto inerte e incapaz de produzir uma resposta apaixonada.</p><p>Contudo, em excesso, essa abordagem naturalmente pode fazer com que o público passe a nutrir</p><p>dúvidas com relação à veracidade daquilo que vê ou lê. A linha editorial de um jornal e de seus repórteres e</p><p>redatores é um aspecto positivo enquanto a linha divisória entre a divulgação da informação criteriosa</p><p>e a manipulação da verdade não for cruzada. Ela se torna perigosa no momento em que os jornalistas</p><p>passam a omitir elementos ou realçar outros que façam com que a reportagem se adeque aos seus</p><p>pontos de vista sobre determinado problema. Não custa repetir que não há lugar para o ativismo</p><p>ideológico e político em uma redação de jornal.</p><p>Para evitar essa armadilha, o jornalista investigativo deve sempre ter em mente alguns princípios</p><p>elementares:</p><p>• Precisão: de que já tratamos anteriormente.</p><p>• Imparcialidade: é a maneira como abordamos as pessoas, suas falas e seus pontos de vista.</p><p>É  importante evitar os estereótipos a todo custo (o empresário mercenário, o malandro da periferia,</p><p>o mendigo vagabundo, o jovem oprimido etc.), pois eles refletem preconceitos arraigados e não</p><p>correspondem à realidade. Cada indivíduo é único, não uma categoria social.</p><p>• Equilíbrio: isso vai além do simples contraditório. É retratar todos os aspectos de uma história.</p><p>Normalmente, a realidade não se deixa definir por conceitos maniqueístas de bem ou mal, mas</p><p>envolve camadas mais complexas e difíceis de categorizar. Somente a variedade e a fragmentação</p><p>das diversas facetas de um fato pode dar conta de abarcá‑lo em sua integridade ou quase</p><p>totalidade. Isso significa, por exemplo, não ouvir apenas as vítimas de um crime ou os policiais que</p><p>o investigam, mas aqueles que foram acusados de cometê‑lo também, além de todas as possíveis</p><p>testemunhas que o presenciaram.</p><p>Saiba mais</p><p>Os filmes a seguir podem aprofundar o entendimento da unidade:</p><p>CORAÇÕES e mentes. Direção: Peter Davis. Estados Unidos: Touchstone</p><p>Pictures, 1974. 112 min.</p><p>ZODÍACO. Direção: David Fincher. Estados Unidos: Phoenix Pictures;</p><p>Road Rebel, 2007. 157 min.</p><p>167</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>8.9 Fake news</p><p>As notícias falsas, ou fake news, como hoje são mais conhecidas, existiram desde que os homens</p><p>aprenderam a se comunicar. Talvez a maior fake news de todos os tempos foi a transmissão de rádio</p><p>da invasão de marcianos à Terra realizada em 1938 por Orson Welles, que causou pânico na costa</p><p>leste americana. Durante os períodos de guerra, como se costuma dizer, a primeira baixa</p><p>sempre foi a</p><p>verdade. Mas foi efetivamente com o advento dos meios de comunicação digitais e particularmente</p><p>com o surgimento das redes sociais, que permitiram o acesso de milhões de pessoas à comunidade de</p><p>informação mundial, que o fenômeno das fake news adquiriu uma nova dimensão. Ele é tão abrangente</p><p>e capaz de provocar efeitos contundentes como manipulações de eleições e assassinatos, que provocou</p><p>nos últimos anos ameaças à própria estabilidade da democracia e vem preocupando as autoridades de</p><p>todo o mundo, a ponto de algumas nações implantarem leis e protocolos de controle da comunicação</p><p>para conter esse tipo de noticiário alarmista e potencialmente danoso.</p><p>Observação</p><p>Em 1938, o radialista Orson Welles (1915‑1984) realizou uma</p><p>transmissão de rádio nos EUA em que dramatizava como uma cobertura</p><p>jornalística a invasão dos marcianos à Terra narrada no livro A Guerra dos</p><p>Mundos, de H.G. Wells.</p><p>Em nenhuma outra área o efeito das fake news foi mais sentido do que no jornalismo, pela própria</p><p>natureza dessa atividade, tão suscetível à manipulação por grupos de interesse políticos. O alcance desse</p><p>tipo de noticiário talvez se explique, em primeiro lugar, pela disseminação das tecnologias móveis, como</p><p>celulares, iPads e iPhones, que facilitaram a recepção e a disseminação de informações a um simples</p><p>toque de botão. Em segundo lugar, espaços virtuais como o Facebook, Instagram e grupos de bate‑papo</p><p>como o WhatsApp se tornaram o território ideal para quem deseja plantar mentiras e instigar o ódio e</p><p>o preconceito.</p><p>Entratanto, o fator que talvez tenha sido determinante para o predomínio das fake news foi o</p><p>enfraquecimento da influência dos meios de comunicação convencionais sobre a consciência coletiva.</p><p>Para uma parcela significativa da população, sobretudo aquela com menos formação intelectual,</p><p>tornou‑se virtualmente impossível distinguir o que é jornalismo do que é mera fofoca desprovida de</p><p>fundamentos na realidade. Isso fez com que, para esse contingente de pessoas, as redes sociais e os</p><p>aplicativos de mensagens se tornassem sucedâneos rápidos e instantâneos da imprensa tradicional. Não</p><p>por acaso, a audiência dos telejornais e a venda de jornais e revistas impressos vem caindo ano a ano,</p><p>enquanto a adesão aos canais digitais de comunicação cresceu exponencialmente, principalmente entre</p><p>o público mais jovem. O resultado desse processo é que nunca se inventou despudoradamente tantas</p><p>notícias falsas quanto hoje e nunca se fez tão pouco caso da verdade factual.</p><p>Contudo, se por um lado as fake news e o contexto no qual elas têm se desenvolvido se multiplicaram</p><p>exponencialmente de alguns anos para cá, o jornalismo sério e responsável, comprometido com o</p><p>relato correto e preciso dos acontecimentos por uma apuração criteriosa e minuciosa se tornou hoje</p><p>168</p><p>Unidade III</p><p>mais necessário do que nunca. Em vez de enfraquecer o bom jornalismo, as fake news, pelo contrário,</p><p>ajudaram a fortalecê‑lo. Agora, mais do que em qualquer outra época, a checagem cuidadosa das</p><p>informações antes da publicação se tornou a regra de ouro do trabalho jornalístico em geral e do</p><p>jornalismo investigativo em particular. Não há mais espaço para o noticiário descuidado e impreciso.</p><p>O único antídoto contra a viralização das fake news é o trabalho exaustivo do jornalista sério em</p><p>proceder com cautela aos dados que tem em mãos, realizando sempre a verificação cruzada de cada</p><p>tópico e mantendo um olhar arguto e autocrítico para evitar erros, por menores que eles sejam.</p><p>Exemplo de aplicação</p><p>Considere o seguinte caso hipotético: o seu jornal apoia abertamente o partido X. Na época da</p><p>eleição presidencial, a polarização política acirrada levou a um clima de confronto entre os militantes</p><p>desse partido e de seu principal opositor, o partido Y. Você é designado com uma pauta para investigar</p><p>um incidente violento envolvendo um ativista do partido X, que foi morto em uma emboscada. O seu</p><p>redator‑chefe imputou o crime aos militantes do partido Y e o encarregou de fazer uma reportagem</p><p>para revelar como eles são violentos e hostis à liberdade democrática. Contudo, quando você começa</p><p>a apurar os fatos, se dá conta que a verdade é bem diferente da versão que lhe foi passada. Segundo</p><p>os dados que levantou, o sujeito que foi morto estava envolvido em ações ilícitas de contrabando</p><p>de drogas e mantinha ligações com o PCC. Algumas pessoas com as quais conversou disseram que o</p><p>provável culpado pelo crime foi o líder de uma facção criminosa que, a propósito, também pertencia</p><p>ao partido X. Você logo se dá conta de que essa versão contraria frontalmente a linha editorial de seu</p><p>jornal. Diante desse dilema, reflita sobre qual deve ser o seu procedimento.</p><p>169</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>Resumo</p><p>Uma vez de posse das informações essenciais da reportagem, o jornalista</p><p>deve começar a montar a matéria. O primeiro passo é mapear os dados</p><p>levantados. Um bom procedimento é dispor todas as citações, fatos e ideias</p><p>em colunas verticais, o que facilitará a verificação cruzada desses tópicos.</p><p>Em seguida, deve analisar com cuidado o que pode ser considerada uma</p><p>prova circunstancial e o que é uma prova definitiva.</p><p>A etapa seguinte consiste na redação da matéria. O texto deve ser o</p><p>mais preciso e criterioso possível. Ele deve ser estruturado em parágrafos</p><p>bem definidos, que exploram separadamente cada tópico ou aspecto de</p><p>uma investigação. A sequência dos parágrafos deve seguir uma ordenação</p><p>lógica, que dê sentido à apresentação do material e se mostre consistente</p><p>com a argumentação proposta. As citações devem ser usadas com a máxima</p><p>cautela, dentro de seus respectivos contextos e parcimoniosamente. De</p><p>preferência, deve‑se alternar o discurso direto com o indireto e as paráfrases,</p><p>para dar mais variedade e vivacidade ao texto.</p><p>O redator deve preparar um rascunho da matéria final, que o ajudará a</p><p>estruturar a reportagem e a visualizar os pontos fracos. Esse procedimento</p><p>também é útil para deixar mais claro o que precisa ser mais explorado, o</p><p>que por vezes requer uma investigação complementar. A escrita deve ser</p><p>clara, simples e objetiva. Alguns modelos de redação podem contribuir para</p><p>melhorar a matéria, como as fórmulas do Wall Street Journal, o Modelo</p><p>Rich e o da pirâmide mista. A introdução deve ser empregada para atrair o</p><p>leitor ao conteúdo da reportagem.</p><p>O valor fundamental de uma democracia é a liberdade de pensamento</p><p>e expressão, sem a qual todas as demais liberdades ficam comprometidas. A</p><p>liberdade de imprensa, a decorrência óbvia desse princípio, é garantida em</p><p>várias legislações internacionais, inclusive no Brasil. Há que se ter em mente</p><p>a diferença fundamental entre as noções de interesse público e interesse</p><p>nacional. O primeiro está comprometido com a sociedade civil e o que diz</p><p>respeito a ela e, muitas vezes, se opõe ao que está relacionado com o governo.</p><p>O Código Penal brasileiro estipula os crimes contra a honra, que servem</p><p>para proteger o indivíduo da imputação de atos ilícitos inverídicos. Os três</p><p>mais importantes são a calúnia, a imputação de um fato falso a alguém;</p><p>a difamação, que é a publicação de algo capaz de afetar a reputação de</p><p>uma pessoa, e a injúria, que é simplesmente a ofensa verbal com o objetivo</p><p>de humilhar a honra de um indivíduo. Essas leis, que antigamente faziam</p><p>170</p><p>Unidade III</p><p>parte da Lei de Imprensa, se aplicam não apenas a textos originalmente</p><p>redigidos por alguém mas também àqueles reproduzidos de outro local, o</p><p>que inclui citações e menções indiretas. A melhor maneira de se defender</p><p>contra acusações de crimes contra a honra é ser criterioso na apuração e na</p><p>redação e manter em local bem protegido todos os documentos, anotações</p><p>e gravações de áudio ou vídeo da investigação. Outra medida importante é</p><p>manter contato constante com as fontes empregadas.</p><p>Um aspecto de suma importância é o respeito à privacidade das pessoas.</p><p>Mesmo aquelas que ocupam cargos públicos de grande importância, como</p><p>presidentes da República, ministros, governadores,</p><p>prefeitos, parlamentares</p><p>etc. devem ter as suas vidas particulares preservadas. Apenas quando</p><p>as atividades privadas entram em conflito com o interesse público é</p><p>que se justifica a revelação desse tipo de fato. Embora a censura seja</p><p>proibida terminantemente na Constituição Federal de 1988, a liberdade</p><p>de expressão não é absoluta. Além dos crimes contra a honra, existem</p><p>alguns mecanismos que garantem o sigilo de dados oficiais por parte das</p><p>autoridades, o que pode ser usado, por vezes, para justificar a ocultação de</p><p>informações importantes.</p><p>Em qualquer que seja a ocasião, o jornalista deve agir de maneira</p><p>ética e sempre ficar atento aos desvios dos princípios básicos que devem</p><p>orientar os seus procedimentos em cada etapa da investigação jornalística:</p><p>contar sempre a verdade, manter o compromisso acertado com uma</p><p>fonte que solicitou confidencialidade, procurar preservar ao máximo a</p><p>sua independência e isenção e jamais abdicar da autonomia profissional,</p><p>resistindo a qualquer tipo de barganha em troca de favores ou de pressões</p><p>que o forcem a se distanciar da verdade factual.</p><p>171</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>Exercícios</p><p>Questão 1. Leia o trecho da entrevista do professor e jornalista Eugênio Bucci reproduzido a seguir.</p><p>Acredito que algumas passagens do pensamento da Hannah Arendt se tornaram indispensáveis</p><p>para a compreensão mais profunda da crise da democracia nos nossos tempos. Ela foi além do que é</p><p>mera percepção do fato. Entendeu e coloca isso de forma muito clara nesse ensaio – Verdade e política –</p><p>as raízes menos óbvias, menos aparentes, da conexão entre a vida numa sociedade democrática e</p><p>a observância do que ela classificou com verdade factual. Se ficamos apenas no registro dos fatos,</p><p>corremos o risco de embarcar numa espécie de fetiche. O mercado jornalístico, por exemplo, trabalha</p><p>a partir de um fetiche dos fatos, como se entregasse os fatos como eles são ou como se houvesse uma</p><p>possibilidade de haver uma perfeita tradução dos fatos. Isso é mais complicado.</p><p>Hannah Arendt conseguiu destacar, do problema da verdade, o que ela chama de “verdade factual”.</p><p>Ela, então, separa a verdade factual da verdade metafísica, da discussão filosófica sobre a verdade, da</p><p>verdade religiosa e mesmo da verdade da ciência, que é sempre uma verdade precária. Ela mostra muito</p><p>bem e com muita simplicidade que para haver democracia é preciso que as pessoas consigam enxergar</p><p>na realidade fatos em comum. Hoje, quando existe uma poderosa indústria da desinformação e a</p><p>democracia vai apresentado vários sintomas de debilidade, conseguimos ter um diagnóstico muito mais</p><p>consequente quando levamos em conta essa relação entre verdade factual e os sistemas próprios da</p><p>democracia. Dificilmente conseguiríamos fazer isso sem se apoiar, ao menos em parte, no pensamento</p><p>da Hannah Arendt. [...]</p><p>A verdade factual diz respeito àqueles acontecimentos que podem ser tomados como fatos objetivos</p><p>pelo conjunto da sociedade em questão, da sociedade que ergue uma democracia comum a todos.</p><p>Por exemplo, no Brasil tivemos cerca de 700 mil mortes pela pandemia da covid‑19. Podemos discutir</p><p>uma série de coisas, mas esses dados, com todas as imprecisões implicadas, podem ser tomados como</p><p>fatos. Podemos dizer que houve subnotificação, podemos dizer que a pandemia matou pessoas que não</p><p>contraíram a covid‑19 porque, ao provocar o colapso dos atendimentos de emergência nos hospitais, a</p><p>pandemia deixa sem recursos pessoas que tiveram um infarto ou precisaram de outro tipo de emergência</p><p>e, em decorrência do não atendimento, morreram. Tudo isso pode ser avaliado, levar certas questões</p><p>em conta e relativizar, mas o fato é que tivemos, pela nossa capacidade de verificação, cerca de 700 mil</p><p>pessoas vítimas da covid‑19 no Brasil. Isso não muda.</p><p>Adaptado de: https://bit.ly/41BmMSl. Acesso em: 11 mar.</p><p>Com base na leitura e nos seus conhecimentos, analise as afirmativas e a relação proposta entre elas.</p><p>172</p><p>Unidade III</p><p>I – Para Eugênio Bucci, o jornalismo, diferentemente da indústria da desinformação, só trabalha</p><p>com os fatos verdadeiros e oferece ao leitor o reflexo perfeito deles, ou seja, divulga os fatos como</p><p>realmente são.</p><p>porque</p><p>II – O entrevistado considera que, na era em que fake news são disseminadas com facilidade, é</p><p>necessário recuperar o conceito de “verdade factual”.</p><p>Assinale a alternativa correta:</p><p>A) As afirmativas I e II são verdadeiras, e a afirmativa II justifica a I.</p><p>B) As afirmativas I e II são verdadeiras, e a afirmativa II não justifica a I.</p><p>C) A afirmativa I é verdadeira, e a II é falsa.</p><p>D) A afirmativa I é falsa, e a II é verdadeira.</p><p>E) As afirmativas I e II são falsas.</p><p>Resposta correta: alternativa D.</p><p>Análise das afirmativas</p><p>I – Afirmativa falsa.</p><p>Justificativa: o jornalismo deve trabalhar com a “verdade factual”, mas ela não reflete a realidade. O</p><p>jornalismo constrói discursivamente os fatos.</p><p>II – Afirmativa verdadeira.</p><p>Justificativa: é importante ter a noção de “verdade factual” para combater a indústria da</p><p>desinformação. Segundo Bucci, “a verdade factual diz respeito àqueles acontecimentos que podem ser</p><p>tomados como fatos objetivos pelo conjunto da sociedade em questão”.</p><p>173</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>Questão 2. Em abril de 1992, o menino Evandro desapareceu em Guaratuba, no litoral do Paraná.</p><p>O caso teve grande repercussão na época, com a acusação de que ele teria sido assassinado em um ritual</p><p>de magia negra.</p><p>Recentemente, o jornalista Ivan Mizanzuk realizou um trabalho de investigação sobre o caso, que se</p><p>transformou em podcasts e em livro. Posteriormente, com base no seu trabalho, foi lançada uma série</p><p>sobre o caso, exibida em plataforma de streaming. Mizanzuk conseguiu, com uma fonte anônima, a</p><p>íntegra de gravações que indicam que os acusados haviam confessado o crime sob tortura.</p><p>Leia a matéria a seguir, publicada em dezembro de 2022, sobre a retomada do caso.</p><p>Caso Evandro: revisão de condenação por morte de garoto em 1992 é adiada; entenda o que</p><p>está em jogo</p><p>O Tribunal de Justiça do Paraná retirou da pauta desta quinta‑feira, 1, o julgamento do pedido de</p><p>revisão criminal que poderia anular as condenações dos acusados do assassinato do menino Evandro</p><p>Caetano, em 1992. Na época com 6 anos de idade, o menino teria sido sequestrado e esquartejado</p><p>em um ritual de magia negra, em Guaratuba, no litoral paranaense. O TJ informou que a revisão foi</p><p>retirada de pauta “para possível readequação do quórum de julgamento”. Ainda não há nova data para</p><p>a apreciação do caso.</p><p>O pedido de revisão criminal em favor de Beatriz Abagge e outros dois condenados pelo assassinato</p><p>de Evandro foi apresentado no final de 2021 pelo escritório Figueiredo Basto Advocacia, de Curitiba.</p><p>A decisão beneficia também os réus Davi dos Santos Soares e Osvaldo Marcineiro, que ainda cumprem</p><p>as sentenças. Outra acusada, Celina Abagge, mãe de Beatriz, foi beneficiada pela prescrição do crime.</p><p>O réu Vicente de Paula Ferreira morreu em 2011 na prisão, cumprindo a pena.</p><p>Na petição de 298 páginas com 159 documentos, os advogados afirmam que o Estado suprimiu</p><p>provas fundamentais para a defesa dos réus, impedindo que eles provassem as alegações de tortura.</p><p>Conforme a defesa, a revisão criminal “visa a corrigir um enorme erro judiciário, de modo a reformar ou</p><p>desconstituir as sentenças condenatórias transitadas em julgado, as quais foram contrárias às evidências</p><p>dos autos” e “fundadas em elementos absolutamente falsos.”</p><p>Os defensores alegam que há quase 30 anos a defesa já havia denunciado a tortura imposta</p><p>aos acusados e a subtração de prova dos autos. “O que existe de novo é o aparecimento das provas,</p><p>ardilosamente retiradas do processo, e que possuem aptidão fática e jurídica para determinar que</p><p>os fatos em julgamento não ocorreram como descritos na denúncia e nas decisões condenatórias”,</p><p>informam os advogados.</p><p>No pedido de revisão, a defesa juntou fitas originais das confissões dos réus obtidas pelo escritor</p><p>Ivan Mizankuk, autor de um livro sobre o caso Evandro. As gravações</p><p>indicam que os policiais militares</p><p>que prenderam os suspeitos os levaram para um local conhecido como “fortaleza”, que seria a casa</p><p>do ex‑ditador paraguaio Alfredo Stroessner, e praticaram torturas físicas e psicológicas para que</p><p>confessassem o assassinato da criança em um suposto ritual satânico.</p><p>174</p><p>Unidade III</p><p>Conforme os advogados, as novas provas confirmariam que o Estado cerceou o direito de defesa</p><p>dos acusados, subtraindo provas dos autos – as fitas foram editadas e as gravações originais sumiram,</p><p>sendo encontradas muitos anos depois por Mizankuk. O ritual de magia negra, segundo a defesa, foi</p><p>arquitetado pelos acusadores. “Os acusados não registravam antecedentes criminais, eram pessoas</p><p>inseridas dentro de seus respectivos contextos sociais, sem que houvesse qualquer traço de violência</p><p>que os vinculasse a práticas de crimes violentos”, afirma a defesa.</p><p>A petição lembra que, quando o menino morreu, aquela região do Paraná vivia um contexto de</p><p>sumiço de crianças, com 28 registros de desaparecimentos, “o que fez eclodir uma verdadeira caça às</p><p>bruxas, regida não mais pela imparcialidade, mas pelo princípio inquisitivo”. Na época, a casa de Beatriz</p><p>e de sua mãe foram apedrejadas e elas eram tratadas como “bruxas”. No ano passado, em carta assinada</p><p>pelo secretário estadual de Justiça, Trabalho e Família, Ney Leprevost, o Estado do Paraná pediu perdão</p><p>a Beatriz Abbage “pelas sevícias indesculpáveis cometidas no passado contra a senhora”.</p><p>Antes de ser julgada, Celina Abbage ficou presa 3 anos e 7 meses além de dois anos em prisão</p><p>domiciliar. Beatriz, condenada a 21 anos e 4 meses, passou 5 anos e 9 meses no cárcere, enquanto</p><p>Osvaldo Marcineiro, que pegou 20 anos e 2 meses de prisão, ficou preso mais de 7 anos. Já Davi dos</p><p>Santos Soares foi condenado a 18 anos e 8 meses, cumprindo 4 anos e meio em regime fechado. No</p><p>mesmo pedido de revisão, a defesa pede que os condenados sejam indenizados pelo Estado.</p><p>O Ministério Público do Paraná informou que o julgamento foi retirado da pauta por uma</p><p>questão processual, para se definir se os três réus devem ter a revisão julgada pela mesma Câmara de</p><p>desembargadores ou por mais de uma. Disse ainda que está acompanhando a questão.</p><p>Para entender o caso</p><p>O desaparecimento</p><p>Evandro Caetano, de 6 anos, desapareceu em abril de 1992, em uma época em que várias crianças</p><p>sumiram na região, gerando um clima de pânico social. Sua mãe permitiu que ele fosse sozinho à escola,</p><p>a 150 m de sua casa. Cinco dias depois, o corpo da vítima foi encontrado com mutilações e sem as</p><p>vísceras e órgão internos.</p><p>As investigações</p><p>A Polícia Civil e o Grupo Águia da Polícia Militar do Paraná seguiram uma linha de investigação</p><p>levantada por um ex‑investigador de polícia, desafeto político dos Abbage, que apontou Celina, então</p><p>primeira‑dama da cidade, sua filha Beatriz e outras cinco pessoas como autores do crime em um ritual</p><p>de sacrifício. Os acusados passaram a ser conhecidos como “bruxos de Guaratuba”.</p><p>175</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>A denúncia</p><p>Os sete acusados foram denunciados por homicídio qualificado, sequestro e ocultação de cadáver</p><p>pelo MP do Paraná. Foi acatada a tese da investigação de que a criança teria sido utilizada em um ritual</p><p>de magia negra para obtenção de benefícios materiais junto a espíritos satânicos.</p><p>Julgamento e condenações</p><p>O primeiro julgamento de Celina e Beatriz, em 1998, durou 34 dias e é o mais longo da história da</p><p>Justiça brasileira. No veredito, elas foram consideradas inocentes, mas o júri foi anulado um ano depois.</p><p>Em maio de 2011, dois dos acusados, Sérgio Cristofolini e Airton Bardelli dos Santos, foram absolvidos</p><p>e os demais foram condenados. Celina, então com mais de 70 anos, não foi a julgamento devido à</p><p>prescrição do crime.</p><p>Reviravolta no caso</p><p>Em 2018, o jornalista e professor universitário Ivan Mizanzuk investigou o caso e conseguiu os áudios</p><p>originais do interrogatório das vítimas, expondo falhas na investigação e indícios de que a confissão</p><p>dos acusados foi arrancada sob tortura. As descobertas foram descritas no podcast Projeto Humanos, de</p><p>Mizanzuk, e serviram de base para o pedido de revisão criminal do caso.</p><p>Quem matou Evandro?</p><p>Caso o pedido de revisão criminal seja acatado pelo TJPR, as investigações sobre o assassinato do</p><p>menino Evandro voltarão para a estaca zero. A hipótese é de que um serial killer estivesse agindo na</p><p>região, já que outro menino de Guaratuba, Leandro Bossi, desapareceu na mesma época. O caso Evandro</p><p>virou série de TV produzida pela Rede Globo e ganhou versões em livros, inclusive uma escrita pelas</p><p>acusadas, Celina e Beatriz Abagge.</p><p>Disponível em: https://bit.ly/3LrAocj. Acesso em: 14 mar. 2023.</p><p>Com base na leitura e nos seus conhecimentos, analise as afirmativas.</p><p>I – Ao descobrir os áudios inéditos, o jornalista Ivan Mizanzuk influenciou no status do processo</p><p>criminal, evidenciando que a apuração jornalística bem realizada tem impacto sobre a sociedade.</p><p>II – O fato de o caso ter sido relatado em diferentes formatos, como em podcast e em série televisiva,</p><p>invalida o trabalho jornalístico realizado, pois o crime tornou‑se uma narrativa de entretenimento.</p><p>III – O jornalista investigativo deve agir como um policial e um juiz, com todos os métodos</p><p>necessários para desvendar a verdade, e pode, como aconteceu no caso, decretar a culpa ou a inocência</p><p>de alguém, mesmo que tenha obtido informações com fontes anônimas.</p><p>176</p><p>Unidade III</p><p>É correto o que se afirma em:</p><p>A) I, II e III.</p><p>B) I e II, apenas.</p><p>C) I e III, apenas.</p><p>D) II e III, apenas.</p><p>E) I, apenas.</p><p>Resposta correta: alternativa E.</p><p>Análise das afirmativas</p><p>I – Afirmativa correta.</p><p>Justificativa: a descoberta dos áudios pelo repórter lançou dúvidas sobre o que já estava julgado, e</p><p>isso tem impacto social.</p><p>II – Afirmativa incorreta.</p><p>Justificativa: os formatos, ainda que mesclem informação e entretenimento, não invalidam o</p><p>trabalho jornalístico de apuração.</p><p>III – Afirmativa incorreta.</p><p>Justificativa: o jornalista não é um policial, tampouco um juiz. Ele não pode se valer de qualquer</p><p>método. Além disso, não cabe ao jornalista decretar a culpa ou a inocência de alguém.</p><p>177</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>Audiovisuais</p><p>O ABUTRE. Direção: Dan Gilroy. Estados Unidos: Bold FIlms, 2014. 117 min.</p><p>O ANO que vivemos em perigo. Direção: Peter Weir. Estados Unidos: MGM, 1982.115 min.</p><p>CAPOTE. Direção: Bennett Miller. Estados Unidos; Canadá: Sony Pictures, 2005. 114 min.</p><p>CORAÇÕES e Mentes. Direção: Peter Davis. Estados Unidos: Touchstone Pictures, 1974. 112 min.</p><p>FROST/NIXON. Direção: Ron Howard. Estados Unidos: Universal Pictures, 2008. 122 min.</p><p>O INFORMANTE. Direção: Michael Mann. Estados Unidos: Blue Lion Entertainment, 1999. 157 min.</p><p>MARK Felt: o homem que derrubou a Casa Branca. Direção: Peter Landsmann. Estados Unidos:</p><p>Endurance Media, 2017. 103 min.</p><p>A MONTANHA dos sete abutres. Direção: Billy Wilder. Estados Unidos: Paramount Pictures, 1951. 111 min.</p><p>THE POST: A guerra secreta. Direção: Steven Spielberg. Estados Unidos: Universal Studios, 2017. 116 min.</p><p>SPOTLIGHT: segredos revelados. Direção: Tom McCarthy. Estados Unidos: Fisrt Look Media, 2015. 129 min.</p><p>TODOS os homens do presidente. Direção: Alan J. Pakula. Estados Unidos: Wildwood Enterprises, 1976. 138 min.</p><p>ZODÍACO. Direção: David Fincher. Estados Unidos: Phoenix Pictures; Road Rebel, 2007. 157 min.</p><p>Textuais</p><p>ANSEL, G. (ed.). Capítulo 1. O que é Jornalismo de Investigação? In: Manual de Jornalismo Investigativo.</p><p>Johanesburgo: Fair; WITS, 2011a. Disponível em: https://bit.ly/4064O8U. Acesso em: 13 abr. 2023.</p><p>ANSEL, G. (ed.). Capítulo 2. Concepção de ideias para uma reportagem. In: Manual de Jornalismo</p><p>Investigativo. Johanesburgo: Fair; WITS, 2011b. Disponível em: https://bit.ly/3o8bsyf. Acesso</p><p>em: 17 abr. 2023.</p><p>ANSEL, G. (ed.). Capítulo 3. Planeamento da investigação. In: Manual de Jornalismo Investigativo.</p><p>Johanesburgo: Fair; WITS, 2011c. Disponível em: https://bit.ly/3UEVCaF. Acesso em: 17 abr. 2023.</p><p>ANSEL, G. (ed.). Capítulo 4. Fontes e manipuladores</p><p>da verdade. In: Manual de Jornalismo Investigativo.</p><p>Johanesburgo: Fair; WITS, 2011d. Disponível em: https://bit.ly/3Aa4hZq. Acesso em: 17 abr. 2023.</p><p>178</p><p>ANSEL, G. (ed.). Capítulo 5. A entrevista de investigação. In: Manual de Jornalismo Investigativo.</p><p>Johanesburgo: Fair; WITS, 2011e. Disponível em: https://bit.ly/3H0Sr7x. Acesso em: 19 abr. 2023.</p><p>ANSEL, G. (ed.). Capítulo 6. Investigação básica – técnicas e ferramentas. In: Manual de Jornalismo</p><p>Investigativo. Johanesburgo: Fair; WITS, 2011f. Disponível em: https://bit.ly/40ydeqc. Acesso</p><p>em: 20 abr. 2023.</p><p>ANSEL, G. (ed.). Capítulo 8. Aspectos legais e dentológicos da investigação. In: Manual de Jornalismo</p><p>Investigativo. Johanesburgo: Fair; WITS, 2011g. Disponível em: https://bit.ly/40xflul. Acesso em: 20 abr. 2023.</p><p>BELTRÃO, L. Jornalismo interpretativo. 2. ed. Porto Alegre: Sulina, 1980.</p><p>BRASIL. Decreto‑lei n. 2848, de 7 de dezembro de 1940. Brasília, 1940. Disponível em: https://bit.ly/3HhfUl1.</p><p>Acesso em: 25 abr. 2023.</p><p>DECLARAÇÃO Universal dos Direitos Humanos. Nova Iorque: ONU, 1948. Disponível em: https://bit.ly/41zsVyB.</p><p>Acesso em: 24 abr. 2023.</p><p>HAFEZ, K. Código do Jornalismo Investigativo. In: Journalism Ethics Revisited: A Comparison of Ethics</p><p>Codes in Europe, North Africa, the Middle East, and Muslim Asia. Political Communication, London,</p><p>v. 19, n. 2, abr. 2002, p. 225‑250.</p><p>MORIN, E. A entrevista nas Ciências Sociais, no rádio e na televisão. In: MOLES, A. A. et. al. A linguagem</p><p>da cultura de massa. Petrópolis: Vozes, 1973.</p><p>ROGERS, C. Tornar‑se pessoa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.</p><p>179</p><p>180</p><p>Informações:</p><p>www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000</p><p>zonas na</p><p>minha província que no passado costumavam ser áreas agrícolas para observar e</p><p>investigar, através de entrevistas com antigos agricultores, a veracidade das</p><p>hipóteses. Depois, se o governo não tivesse documentos para me dar, eu</p><p>obtinha os registros documentais das organizações de desenvolvimento e</p><p>dos doadores de caridade. Depois questionava os funcionários públicos</p><p>e as agências doadoras. Assim, obteria informações suficientes para produzir</p><p>a reportagem”.</p><p>O único problema de Mulenga: fundos insuficientes para viajar e testar a sua</p><p>hipótese nas outras áreas provinciais que tinha em mente (ANSEL, 2011e, p. 5).</p><p>126</p><p>Unidade III</p><p>7.1 Levantamentos de dados numéricos</p><p>Por mais objetivas que sejam as pesquisas de campo, as observações do repórter e mesmo as questões</p><p>formuladas nas entrevistas são os dados numéricos que fornecem as provas mais objetivas de uma</p><p>reportagem. Considere os seguintes exemplos:</p><p>• Um paciente de um hospital que não tem problemas cardíacos acusa as enfermeiras de terem</p><p>aplicado nele incorretamente um remédio para tratamento de doenças do coração.</p><p>• Levantamentos estatísticos elaborados pela Secretaria de Saúde indica um grau elevado de</p><p>procedimentos irregulares dos enfermeiros em hospitais da região envolvendo aplicação</p><p>de medicamentos errados nos pacientes.</p><p>Ainda que muitos dados numéricos possam ser adulterados, a segunda reportagem tem mais</p><p>elementos concretos para ser desenvolvida, já que se baseia em levantamentos estatísticos extraídos</p><p>de uma fonte confiável, do que a primeira reportagem, que não tem realmente fundamento, e toma</p><p>como ponto de partida apenas uma afirmação sem comprovação. Na maioria dos casos, as matérias</p><p>realmente relevantes contam sempre com o apoio de informações numéricas para embasar as suas</p><p>hipóteses. Isso porque esse tipo de prova não está sujeita a distorções subjetivas, embora a interpretação</p><p>de levantamentos estatísticos possa variar bastante. Quando se pretende construir uma reportagem</p><p>sólida, que resista a refutações, os dados numéricos são imprescindíveis, sobretudo quando provenientes</p><p>de fontes sérias e respeitadas.</p><p>Contudo, mesmo quando se trata de informações numéricas, as fontes devem ser selecionadas</p><p>com cuidado, como ocorre com qualquer outro tipo de fonte. O IBGE e órgãos de Estado, como o</p><p>Ministério da Educação ou o da Economia, e também instituições respeitadas como a Fundação</p><p>Getulio Vargas (FGV) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) são algumas das entidades</p><p>cujos dados geralmente são aceitos e respeitados no Brasil e no mundo. É  possível, por exemplo,</p><p>apanhar as estatísticas anuais desenvolvidas pelo Inpe a respeito das queimadas no país e a partir</p><p>delas elaborar uma matéria a respeito de sua evolução na prática e de seus efeitos no meio ambiente</p><p>no decorrer dos últimos cinco ou dez anos. A partir das mesmas informações, também se pode</p><p>inferir conclusões a respeito da atuação dos agentes governamentais no combate às queimadas em</p><p>determinadas regiões. Quando bem analisados e compreendidos, os censos produzidos pelo IBGE</p><p>podem sugerir pautas investigativas interessantes, como as diferenças educacionais entre crianças</p><p>brancas e negras, por exemplo.</p><p>Um jornalista pode obter bons levantamentos numéricos para uma investigação recorrendo aos</p><p>métodos apresentados a seguir.</p><p>7.1.1 Fontes internacionais</p><p>Órgãos internacionais como as Nações Unidas, entidades como a Nasa ou mesmo ONGs como a</p><p>Cruz Vermelha ou o Greenpeace podem fornecer levantamentos numéricos relativamente precisos</p><p>a respeito dos mais variados tópicos, que podem servir para embasar uma reportagem. Anos atrás,</p><p>127</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>por exemplo, acreditava‑se que o deserto do Saara, na África, vinha aumentando de tamanho ano a</p><p>ano e ocupando áreas antes férteis. Contudo, observações de satélites da Nasa durante um período</p><p>considerável constataram que, ao menos em uma região bastante ampla, o processo de desertificação</p><p>não só não estava ocorrendo, como era possível que viesse encolhendo. Nesses territórios, era a floresta</p><p>que invadia o deserto e não o contrário.</p><p>7.1.2 Redes sociais</p><p>Não estamos nos referindo aqui ao Facebook ou ao Instagram, mas aos grupos que reúnem pessoas</p><p>de determinadas atividades profissionais, como médicos, engenheiros de diversas especialidades,</p><p>professores etc. O repórter pode coletar as informações a respeito dessas comunidades junto a</p><p>sindicatos ou entidades de classe e elaborar reportagens minuciosas em torno deles. É possível,</p><p>por exemplo, comparar o nível salarial de pessoas pertencentes a alguns grupos importantes para</p><p>a sociedade, como professores universitários, com os de certos funcionários públicos, e auferir as</p><p>discrepâncias entre eles.</p><p>7.1.3 Compilação de dados</p><p>O próprio jornalista pode compilar os dados recolhidos de diversas procedências e compor uma</p><p>matéria interessante em torno disso. Muitos dados estão à disposição do público nos diários oficiais ou</p><p>portais de ministérios, secretarias ou governos. Se analisar, por exemplo, as concorrências públicas para</p><p>determinadas áreas em um determinado período de tempo, é possível que encontre informações que</p><p>indiquem irregularidades no favorecimento de algumas licitações importantes e seus valores.</p><p>7.1.4 Entidades jornalísticas internacionais</p><p>Organismos internacionais, como os Repórteres sem Fronteiras, produzem constantemente ótimos</p><p>levantamentos estatísticos que podem ser acessados com facilidade e contribuir, por exemplo, para</p><p>investigações a respeito da violência contra jornalistas ou outros temas referentes à liberdade de</p><p>expressão no país ou no mundo.</p><p>7.1.5 Empregando os números nas reportagens</p><p>O jornalismo investigativo normalmente se debruça sobre as razões e o modo como os eventos</p><p>ocorreram, tenta buscar explicações e consequências dos fatos e o envolvimento de certos personagens.</p><p>O que confere a essas análises qualitativas credibilidade são os números que podem servir como</p><p>provas: o número de desempregados em um país, as estatísticas a respeito dos desmatamentos, as</p><p>taxas de violência nas comunidades pobres etc. Por isso, é imprescindível que o jornalista saiba manejar</p><p>corretamente os dados numéricos, possa distinguir valores, tenha uma noção de cálculos percentuais</p><p>que o habilitem a interpretar gráficos e estatísticas etc. Embora não se exija que um jornalista seja um</p><p>matemático com profundos conhecimentos de cálculo, ele deve conhecer o suficiente de números para</p><p>extrair deles as informações de que necessita.</p><p>128</p><p>Unidade III</p><p>Como exercício, considere as seguintes propostas de reportagens e procure indicar que tipo de</p><p>informações numéricas elas requerem:</p><p>• Um ministro da educação declarou que “muitos alunos de universidades federais passam todo o</p><p>tempo das aulas fumando maconha e em orgias sexuais”.</p><p>• Os moradores de um bairro da periferia reclamam que uma empresa de extração mineral nas</p><p>redondezas está poluindo o lençol freático com substâncias tóxicas para as pessoas que</p><p>moram na região.</p><p>• Um proeminente pastor evangélico acusou recentemente o Ministério da Educação de divulgar</p><p>cartilhas para os alunos do Ensino Fundamental contendo “os mais elevados ensinamentos</p><p>imorais da história”.</p><p>No primeiro exemplo, a matéria gira em torno de opiniões, não de valores numéricos, portanto, tem</p><p>uma alta carga de subjetividade embutida. Contudo, a reportagem pode ser trabalhada para se apurar</p><p>dados numéricos específicos, por intermédio de enquetes e registros:</p><p>• Qual o número exato de alunos de universidades federais?</p><p>• Que estatísticas confiáveis existem a respeito do consumo de drogas nessas instituições?</p><p>• Em que dados se baseia a afirmação de que os alunos praticam orgias sexuais no campus? Há</p><p>ocorrências registradas disso?</p><p>• Isso ocorre com frequência ou é um fato isolado?</p><p>Se dispuser desses levantamentos, o jornalista pode produzir uma matéria que confirme ou desminta</p><p>cabalmente a afirmação do ministro.</p><p>No caso da segunda pauta, o jornalista deve apanhar</p><p>uma amostra de água distribuída na região em</p><p>questão e enviar para análise em um laboratório especializado.</p><p>• Há substâncias tóxicas na amostra?</p><p>• Quais os níveis dessas substâncias?</p><p>• A empresa que opera na região lida com alguma dessas substâncias?</p><p>• É importante comparar esses levantamentos com o de amostras de águas normais.</p><p>Por intermédio desses dados numéricos, é possível estabelecer a responsabilidade da empresa de</p><p>extração mineral na poluição dos lençóis freáticos da localidade.</p><p>129</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>A impossibilidade de definir o que o pastor considera imoral é o principal problema da terceira</p><p>pauta. Não dá para traduzir em dados numéricos essa afirmação enquanto não se conseguir definir</p><p>corretamente o que ele considera com essa qualificação:</p><p>• Seriam práticas sexuais entre jovens adolescentes?</p><p>• Relações homossexuais?</p><p>• Consumo de drogas?</p><p>Somente depois de definidos esses pontos é que se poderia analisar mais detidamente as cartilhas</p><p>voltadas para o Ensino Fundamental e averiguar em que medida elas fazem referências, direta ou</p><p>indiretamente, a esses tópicos. Naturalmente, a matéria não poderá auferir a moralidade ou imoralidade</p><p>de certos assuntos, a não ser dentro dos critérios estabelecidos pelo pastor em questão. Para alguém</p><p>mais conservador, por exemplo, a simples insinuação de qualquer assunto relacionado à sexualidade é</p><p>inaceitável, para pessoas de viés mais progressista, isso é permissível. A própria matéria pode explorar</p><p>mais profundamente essas divergências de ponto de vista.</p><p>7.1.6 Como interpretar os números na matéria</p><p>Nem sempre é uma tarefa fácil interpretar os números de um levantamento. Como o público</p><p>normalmente tem dificuldade em apreender o significado de um valor, cabe ao jornalista encontrar a</p><p>melhor maneira de “traduzir” o que aqueles números representam. Deve‑se ter cuidado, no entanto, em</p><p>se ater à precisão das informações, para não divulgar dados errados.</p><p>O jornalista deve prestar particular atenção na hora de empregar qualificativos genéricos de</p><p>quantidade, como “maioria” ou “minoria”, ou, ainda, “alguns” e “muitos”. “Mais”, por exemplo, só adquire</p><p>significado em comparação com alguma coisa que necessita ser especificada: “fulano ganha mais com</p><p>a venda de roupas do que sicrano com a venda de sapatos”. Expressões ainda mais relativas, como</p><p>“pelo menos”, devem ser utilizadas com cuidado. Quando se afirma, por exemplo, que “pelo menos dez</p><p>pessoas morreram no incêndio de um edifício”, isso significa que a reportagem certifica que dez pessoas</p><p>morreram, mas deixa implícito que pode haver outras vítimas fatais. Deve‑se sempre evitar a incerteza</p><p>naquilo que se afirma quando se trata de valores numéricos. Seguem as formas mais apropriadas para</p><p>se referir a algumas quantidades:</p><p>• 100%: totalidade;</p><p>• 99%: praticamente a totalidade;</p><p>• De 98% a 90%: quase a totalidade;</p><p>• De 89% a 70%: a maior parte, a maioria;</p><p>• De 69% a 56%: mais da metade, a maioria;</p><p>130</p><p>Unidade III</p><p>• De 55% a 51%: um pouco mais da metade, a maioria;</p><p>• 50%: a metade;</p><p>• De 49% a 45%: quase a metade, muitos;</p><p>• De 44% a 31%: grande parte, uma minoria significativa;</p><p>• 30%: cerca de/aproximadamente um terço ou a terça parte;</p><p>• 25%: um quarto, uma minoria;</p><p>• De 24% a 11%: um pequeno número, poucos;</p><p>• 10%: um décimo;</p><p>• De 9% a 1%: muito poucos ou quase nenhum;</p><p>• 0%: nenhum.</p><p>Da mesma forma, quando usar expressões genéricas para exprimir quantidades, o jornalista deve se</p><p>ater ao uso adequado. Uma legião, por exemplo, se refere a algo entre 4 mil e 5 mil. Uma multidão é um</p><p>valor indefinido que pode variar de 100 ou mais pessoas até milhões. Uns poucos se refere a menos de</p><p>cinco indivíduos, e vários, de seis a nove. O excerto a seguir, traduzido de um artigo original do jornal</p><p>britânico The Guardian, revela a importância de os jornalistas não se enganarem nas contas.</p><p>Destaque</p><p>Malvados jornalistas e estatísticas</p><p>por Peter Wilby</p><p>The Guardian, segunda‑feira, 5 de novembro de 2007</p><p>Na última semana, soubemos que os ministros subestimaram em 300.000 o número</p><p>de trabalhadores migrantes que entraram na Grã‑Bretanha na última década (ou</p><p>700.000, dependendo do jornal que se lê) e que, para reduzir o risco de sofrer de câncer,</p><p>deve‑se deixar de comer toucinho e presunto. Ambas estas constatações assentam</p><p>em estatísticas, à semelhança de tantos outros artigos nos jornais. Em  cinco edições</p><p>recentes do Daily Mail, contei 19 artigos que se alicerçavam quase na íntegra em dados</p><p>estatísticos. Revelaram que, por exemplo, as mulheres tratadas por sintomas precoces de</p><p>câncer cervical apresentavam o “dobro” do risco de vir a sofrer de câncer generalizado</p><p>25 anos depois; que a população do Reino Unido irá aumentar para 81 milhões até 2074;</p><p>131</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>que as pessoas que evitam pensar em chocolate consomem mais; que mais de 1.2 milhão</p><p>de pessoas recebem subsídios de doença há mais de cinco anos; que a vida sexual de</p><p>“até” 15 milhões de ingleses é afetada pelo estresse; e que oito em 10 donos de cães são</p><p>“descontraídos, em comparação a três em cada 10 que não têm animais de estimação”.</p><p>Não tenho motivos por pensar que estas “constatações” foram objeto de uma</p><p>reportagem incorreta. Mas quando leio artigos deste tipo, interrogo‑me: O que significa</p><p>“o dobro”? De quanto a quanto? De um a dois? O que significa “um maior risco”? Qual é</p><p>o alcance desse aumento? Como se compara com outros riscos? O que quer dizer “até”?</p><p>O exemplo acima referido pode, literalmente, significar algo entre zero e 15 milhões.</p><p>Os jornalistas nunca souberam fazer as contas. A grande maioria licenciou‑se em</p><p>letras ou ciências sociais. […] São alheios a noções básicas de estatística, como margem</p><p>de erro, desvio‑padrão, probabilidade, e outras. A maioria dos cursos de jornalismo não</p><p>oferece módulos sobre como lidar com números. A “literacia” é considerada essencial</p><p>para os jornalistas – ou, pelo menos para os redatores – mas não a “numeracia”.</p><p>Isto faz com que muitos jornais deixem passar boas reportagens. Analise bem as</p><p>reportagens baseadas em estatísticas em qualquer jornal e constatará que muito poucas</p><p>são resultado de pesquisa jornalística original. Os jornalistas questionam as estatísticas</p><p>oficiais só depois de as comissões especializadas, grupos de pressão ou os deputados</p><p>terem feito o trabalho. Há alguns anos, os jornais Mail e Telegraph relataram que um em</p><p>cinco homens e uma em oito mulheres que atingem a idade de 65 anos falecerão antes</p><p>dos 67 anos, assim não se beneficiando de uma pensão do Estado se a idade da reforma</p><p>fosse aumentada para os 67 anos. Os dois jornais basearam‑se numa tabela, mas tinham</p><p>confundido os números. A estatística correta era um em 29 homens e uma em 48 mulheres.</p><p>Esse foi um erro simples. Os artigos relacionados com os riscos médicos levantam</p><p>questões mais complexas.</p><p>Não constitui um engano, para referir a um exemplo proeminente de 2005, relatar</p><p>que o ibuprofeno, um analgésico, aumenta a possibilidade de sofrer um ataque cardíaco</p><p>em quase “um quarto”. Um relatório com este teor foi publicado no British Medical</p><p>Journal. Mas, a este respeito, eu pergunto: um quarto do quê? A não ser que tenhamos</p><p>alguns conhecimentos acerca da incidência geral dos ataques cardíacos, esta afirmação</p><p>está desprovida de significado. Efetivamente, o aumento do risco representa apenas mais</p><p>um ataque cardíaco entre cada 1,005 pessoas que tomam ibuprofeno. […]</p><p>Outras estatísticas devem ser tratadas com um ceticismo ainda maior. A reportagem no</p><p>Mail acerca dos benefícios de possuir um cão parece ser até menos convincente quando</p><p>somos informados que a investigação foi patrocinada por uma empresa produtora de rações</p><p>para cães. […] Os jornais publicam esses absurdo com maior frequência do que deviam. Pode</p><p>se alegar que isso é apenas diversão inofensiva. Um artigo acerca do chocolate não passa</p><p>de um tema de conversa. Ninguém vai mudar o seu comportamento em consequência</p><p>132</p><p>Unidade III</p><p>disso. Mas essa já não será a situação quando</p><p>os jornais publicam um artigo que alude</p><p>aos riscos elevados de tomar analgésicos. Ademais, ao referir a todas as estatísticas como</p><p>se merecessem um credencial equivalente leva a que as estatísticas – um instrumento</p><p>essencial para compreender o nosso mundo – sejam vistas com desconfiança.</p><p>Fonte: Ansel (2011f, p. 28).</p><p>Exemplo de aplicação</p><p>Faça uma pesquisa a respeito do serviço de fornecimento de merendas escolares em seu município.</p><p>Mapeie os documentos que seriam interessantes de ser levantados para uma investigação sobre o</p><p>assunto. Procure responder aos seguintes tópicos:</p><p>• Como são efetuados os contratos com as empresas que fornecem as merendas? Quem é</p><p>responsável por assinar esses contratos? Em que lugar eles ficam guardados?</p><p>• Podem ser averiguados por qualquer cidadão? Como uma pessoa deve proceder para ter acesso</p><p>a eles?</p><p>• De que maneira é realizada a seleção das empresas fornecedoras? Há licitações? Como elas</p><p>são feitas?</p><p>• É possível detectar uma repetição das empresas fornecedoras na prestação do serviço? Há</p><p>alguma relação delas com membros da Prefeitura ou da Câmara Municipal?</p><p>• Se a empresa fornecedora anterior perdeu a licitação, é importante saber por que isso ocorreu.</p><p>• Caso tenha havido alguma irregularidade por parte do prestador de serviço, qual foi a linha de</p><p>ação adotada pela Prefeitura?</p><p>• Qual é a verba disponibilizada pela Prefeitura para a compra de merendas escolares?</p><p>• Qual a qualidade da merenda oferecida? Existe fiscalização por parte dos órgãos sanitários?</p><p>7.2 Análise das provas</p><p>Depois de todo o trabalho de observação, formulação de hipótese, apuração, levantamento de</p><p>evidências de toda espécie, identificação de fontes humanas e documentais, o jornalista tem em mãos</p><p>uma profusão de provas para trabalhar a matéria. Antes de avançar para a próxima etapa, ele deve</p><p>retomar a hipótese original e avaliá‑la sob a luz de tudo o que foi revelado em seu trabalho investigativo.</p><p>É a hora de refletir se algo que tenha descoberto alterou ou reforçou o seu ponto de vista inicial a</p><p>respeito do problema tratado.</p><p>133</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>Lembrete</p><p>Como já foi observado, o trabalho jornalístico segue a metodologia</p><p>científica. Ele não se atém a teorias preconcebidas, mas aos fatos</p><p>demonstrados pelas evidências recolhidas. Quando os fatos desmentem</p><p>a teoria, são eles que devem prevalecer. Nesses casos, a hipótese matriz</p><p>precisa ser abandonada, e uma nova eleita no lugar para dar conta de</p><p>explicar os fenômenos registrados.</p><p>A melhor maneira de descobrir se a hipótese se mantém ou não é avaliar as provas obtidas. Tem</p><p>início então um minucioso trabalho de análise das entrevistas e dos documentos. Cada informação</p><p>que for considerada relevante para a reportagem deve ser registrada no mapa de dados, que pode</p><p>ser organizado em planilha de Excel com várias colunas dispostas verticalmente, quantas forem</p><p>necessárias, uma para cada fonte, humana ou documental. Uma sugestão útil é dispor os dados</p><p>levantados na forma de tópicos, para sintetizar a informação e facilitar a visualização. Contudo,</p><p>outras metodologias podem ser empregadas, ordenando, por exemplo, as informações, não as fontes</p><p>de onde elas foram extraídas.</p><p>Uma vez dispostos todos os dados, é hora de agrupá‑los, separando‑os por temas afins. Por exemplo,</p><p>em uma reportagem a respeito do racismo contra negros, seria interessante separar as informações por</p><p>temas como relacionamento, trabalho, educação, cultura etc. Em seguida, é preciso vinculá‑los uns</p><p>aos outros, e essa é outra fase vital do processo. Relacionar as provas obtidas para dar‑lhes coerência</p><p>no contexto geral da investigação é o que permitirá ao jornalista começar a estruturar o ângulo de</p><p>abordagem da matéria. Cada tema definido poderá ser o núcleo de um parágrafo da matéria ou de</p><p>partes integradas de uma grande reportagem. O trabalho do redator será dar coerência lógica à sucessão</p><p>dos parágrafos, ordenando‑os de forma que sigam uma linha de raciocínio que faça sentido. Mas, antes</p><p>de chegar a esse ponto, como já foi dito, o repórter deve avaliar as provas que tem em mãos.</p><p>Existem dois tipos de provas: as relativas e as absolutas. Cabe ao repórter refletir em qual dessas</p><p>categorias elas se encaixam. As relativas são aquelas que contribuem para indicar uma probabilidade,</p><p>indicam uma tendência, mas não são irrefutáveis. Equivalem às provas circunstanciais em um julgamento.</p><p>As manchas de sangue no casaco de uma pessoa acusada de assassinato, por exemplo, ou o súbito</p><p>aumento patrimonial de um suspeito de corrupção. Em si, elas não são concludentes, mas podem ser</p><p>incriminadoras, dependendo do concurso de outras evidências.</p><p>O ideal, em uma reportagem, é o emprego das provas absolutas, aquelas que são tão contundentes</p><p>e íntegras que não podem ser refutadas. Uma mensagem de voz de uma pessoa, por exemplo, ou um</p><p>vídeo comprometedor são provas suficientemente cabais, se comprovadas as suas autenticidades, para</p><p>eliminar qualquer contestação. São essas provas que fornecem à matéria o teor de verdade que a</p><p>tornará convincente.</p><p>134</p><p>Unidade III</p><p>Seja qual for a natureza das provas que serão empregadas, elas somente serão válidas se contribuírem</p><p>para que a reportagem atenda aos seguintes requisitos:</p><p>• fornecer explicações a respeito das causas de um fato;</p><p>• antever as suas prováveis consequências;</p><p>• indicar as relações entre os eventos isolados;</p><p>• classificar os elementos envolvidos em categorias bem definidas;</p><p>• sobretudo, dar um sentido lógico ao montante de evidências dispersas.</p><p>Observação</p><p>Lógica: uma forma de raciocínio que estabelece uma relação de causa</p><p>e efeito entre fenômenos ou ideias.</p><p>Exemplo: é mais lógico achar que aviões são mais seguros que carros.</p><p>É justamente na falta de lógica na apresentação de suas alegações que muitas matérias investigativas</p><p>pecam em convencer o público de sua validade. Na maioria dos casos, isso ocorre porque os jornalistas</p><p>cometeram equívocos cruciais no uso das palavras apropriadas, ou não souberam avaliar devidamente</p><p>as provas que tinham em mãos ou, ainda, falharam em traçar elos entre elas. O resultado, quase sempre,</p><p>são reportagens que oferecem acusações baseadas em juízos de valor, não em fatos comprovados. Os</p><p>problemas elencados a seguir podem estar presentes em matérias mal elaboradas.</p><p>7.2.1 Definições imprecisas</p><p>É preciso usar as palavras com exatidão, para escapar ao risco de criar um texto impreciso e</p><p>potencialmente danoso. Sempre que possível, o jornalista deve optar pelas definições concretas no lugar</p><p>das abstratas, ilustrando‑as com exemplos. Ou seja, não basta dizer que uma instituição é responsável</p><p>pelas medidas sanitárias, é necessário especificar que medidas são essas (vacinações, exames etc.).</p><p>7.2.2 Generalizações</p><p>O emprego de noções genéricas em uma matéria também ajuda a conferir imprecisão a ela.</p><p>Refletem a predominância do senso comum, não de uma pesquisa bem apurada, científica. Dizer, por</p><p>exemplo, que “todos os políticos são corruptos” é um exagero perigoso. Da mesma forma, é preciso ter</p><p>em mente claramente o que se entende pelos termos “maioria” ou “muitos”, ou, ainda, “sempre” ou com</p><p>“frequência”. Novamente, o melhor procedimento é procurar dar um teor mais concreto à afirmação.</p><p>Sempre que uma quantidade desse tipo for mencionada, deve estar ancorada em dados numéricos ou</p><p>estatísticas que a comprovem.</p><p>135</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>7.2.3 Argumentos infundados</p><p>A mera afirmação desprovida de evidências é vazia e suscetível a refutações. Um argumento deve</p><p>sempre ser apresentado acompanhado de detalhes que lhe deem verossimilhança, o tornem palpável</p><p>e difícil de ser contestado. Isso fornecerá fundamento suficiente para ser aceito. Por exemplo, afirmar</p><p>apenas que um determinado político possui interesses particulares em promover determinada lei não</p><p>passa de uma declaração vazia, desprovida de sentido. É necessário apresentar as evidências daquilo que</p><p>se diz e deixar que o público tire as próprias conclusões.</p><p>7.2.4 Centrar as críticas</p><p>no indivíduo</p><p>Tirar conclusões baseadas em impressões subjetivas é um equívoco que não pode ser admitido em</p><p>uma reportagem séria. Só o que deve contar como prova válida são os fatos e as ações presentes neles.</p><p>Atacar uma pessoa, por exemplo, por sua postura arrogante não é fazer jornalismo investigativo, mas</p><p>expor uma opinião que não interessa ao público.</p><p>7.2.5 Citação de autoridades</p><p>Um equívoco muito comum por parte de alguns jornalistas é confundir a voz da autoridade com</p><p>uma prova indiscutível. Não é porque alguém em uma posição de destaque faz uma alegação que isso</p><p>automaticamente é verídico. A citação de autoridades é apenas uma referência para a busca incessante</p><p>da verdade, afinal, ela pode expressar um preconceito ou estar sendo tendenciosa naquilo que diz</p><p>propositalmente. Vários erros de reportagem clássicos, como o caso da Escola Base de São Paulo, foram</p><p>cometidos por tomarem a declaração de autoridades como uma afirmação inegável, sem se preocuparem</p><p>em fazer o contraditório, confrontando‑as com outras evidências obtidas.</p><p>Observação</p><p>O caso da Escola Base ocorreu em 1994. Tratava‑se de um colégio</p><p>particular de São Paulo, cujos donos foram acusados, sem evidências claras,</p><p>de cometer abuso sexual contra as crianças.</p><p>7.2.6 Abordagem preconceituosa</p><p>Muitas vezes, a imprensa emprega uma abordagem preconceituosa ao tratar de certos personagens</p><p>ou instituições, mesmo quando não se dá conta disso. A tendência em retratar alguém ou alguma</p><p>entidade sob um certo viés, positivo ou negativo, conduz inevitavelmente aos estereótipos, que</p><p>mascaram a verdade. Para certos veículos de imprensa, por exemplo, os trabalhadores são sempre justos</p><p>e honestos, enquanto os empresários são mostrados como um grupo indistinto de criaturas ambiciosas e</p><p>inescrupulosas. O maniqueísmo expresso nessa abordagem é pernicioso para o jornalismo sério e</p><p>descompromissado. O jornalista deve a todo custo rechaçar esses estereótipos, procurando manter‑se</p><p>em uma posição neutra, equidistante, relatando os fatos com equilíbrio.</p><p>136</p><p>Unidade III</p><p>7.2.7 Conclusões equivocadas</p><p>É sempre muito arriscado apresentar conclusões baseadas em evidências frágeis ou em um vínculo</p><p>forçado entre elas. Como dissemos anteriormente, uma reportagem deve estar amparada no raciocínio</p><p>lógico, que implica uma argumentação bem delineada e articulada com precisão. Simplesmente afirmar,</p><p>por exemplo, que o aumento da inflação se deve exclusivamente ao aquecimento global pode ser uma</p><p>conclusão muito apressada e desprovida de fundamento. O aquecimento global pode ser um fator</p><p>que contribua para o processo inflacionário, mas é preciso mais dados para afirmar categoricamente</p><p>que é a sua causa única. Será que outros elementos não contribuíram para isso, como o aumento no</p><p>preço de insumos importados etc.? O fato de que os dois eventos (o aquecimento global e a inflação)</p><p>ocorreram concomitantemente ou se sucederam imediatamente não basta para traçar uma associação</p><p>instantânea entre eles.</p><p>Mesmo que o jornalista não disponha de um prova absoluta única e definitiva, ele pode</p><p>desenvolver uma matéria suficientemente persuasiva utilizando um número relativamente amplo de</p><p>provas circunstanciais, se souber como reuni‑las de maneira coerente. Se elas forem devidamente</p><p>contextualizadas, podem fundamentar os aspectos principais em torno das ações de uma pessoa, por</p><p>exemplo, e esclarecer os seus meios, as motivações e em que circunstâncias fizeram o que a matéria alega.</p><p>A melhor técnica que pode ser empregada na construção de uma reportagem é mostrar, não</p><p>simplesmente relatar, um acontecimento. A exposição das provas é um bom método para reforçar a</p><p>hipótese que se pretende defender. Novamente, é importante ressaltar que não cabe ao jornalista emitir a</p><p>opinião a respeito do problema em questão. Ele deve se limitar a expô‑lo, detalhada e aprofundadamente,</p><p>e deixar que o público interprete o caso à luz das evidências apresentadas.</p><p>7.3 Elaboração dos parágrafos</p><p>A compreensão apropriada de uma matéria investigativa depende, sobretudo, da estruturação</p><p>bem feita de suas partes e da articulação entre elas. No caso de um documentário ou programa de</p><p>televisão, esse procedimento envolve a elaboração de um roteiro consistente e uma edição final bem</p><p>realizada. No jornalismo impresso, os textos devem ser montados com base na organização correta</p><p>das frases e parágrafos. Nesse sentido, é fundamental planejar de antemão como os parágrafos serão</p><p>dispostos na matéria.</p><p>Antes de tudo, é preciso compreender que uma sentença qualquer, seja ela uma frase ou um conjunto</p><p>de frases que formam um parágrafo, deve encerrar um sentido completo e claro. Esses elementos devem</p><p>ser entendidos como um núcleo semântico que expressa uma ideia, um conceito ou simplesmente a</p><p>descrição de uma cena ou a narração de um fato de maneira íntegra. Numa frase como “João apanhou um</p><p>ônibus para ir ao trabalho” não há pontas soltas que deixem dúvidas pendentes sobre o seu significado.</p><p>Quase sempre, uma única sentença é insuficiente para que o redator transmita todo o seu pensamento.</p><p>Daí a necessidade de acrescentar outros períodos que complementem a informação. A composição de</p><p>várias frases conectadas em sequência leva à formação dos parágrafos, que devem ser elaborados como</p><p>núcleos temáticos isolados. Em outras palavras, cada parágrafo é uma unidade narrativa, que gira em</p><p>137</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>torno de um determinado aspecto do problema tratado. Se a reportagem, por exemplo, tratar de pessoas</p><p>inocentes que foram presas injustamente, cada parágrafo deve explorar uma faceta do assunto, como</p><p>as brechas na lei, a insuficiência de provas, o preconceito racial etc. Essa ordenação permite que tanto o</p><p>jornalista quanto o leitor possam apreender de forma clara e objetiva a sucessão de ideias que compõem</p><p>a argumentação da matéria.</p><p>Observação</p><p>Parágrafo: unidade de composição de um texto, que pode ser formada</p><p>por um ou mais períodos.</p><p>Exemplo: ao mudar de assunto, muda‑se de parágrafo.</p><p>Assim como as frases, os parágrafos devem estar organizados como os vagões de um trem, com</p><p>uma abertura que introduz o tema da matéria que será tratada e os demais, que se seguem em ordem</p><p>lógica em uma sucessão fluente e compreensível. A melhor técnica de elaboração de um texto escrito é</p><p>encadear os parágrafos de maneira que a frase final de cada um remeta à primeira do seguinte, como</p><p>um gancho que atrela cada elemento e dá sustentação ao conjunto. Normalmente, os parágrafos devem</p><p>ser iniciados por uma “frase temática”, que apresenta ao leitor o assunto que será abordado naquele</p><p>período. Sempre que possível, um parágrafo de uma reportagem deve conter um ou mais dos seguintes</p><p>elementos (mas, obviamente, não todos):</p><p>• provas, como números, estatísticas, testemunhos de pessoas, citações, narração de fatos etc.;</p><p>• explicações detalhadas a respeito de certos eventos;</p><p>• contextualização do acontecimento em questão, situando‑o em termos cronológicos, ou em</p><p>contraste com outros eventos;</p><p>• relação de causa e efeito entre uma ação e outra;</p><p>• argumentos que possam servir para refutar ou confirmar um depoimento ou alegação;</p><p>• a averiguação das possíveis consequências que determinado fato pode acarretar.</p><p>7.3.1 Modelo de construção de uma matéria investigativa</p><p>Vamos supor, a título de exemplo, que o jornalista trabalha em uma reportagem que trata da</p><p>relação viciosa entre uma multinacional produtora de suco de laranja e a prefeitura de determinada</p><p>cidade do interior. Segundo os agricultores, a prefeitura vem recebendo suborno para permitir que a</p><p>multinacional atue no processamento das laranjas sem as devidas medidas de segurança e higiene.</p><p>O prefeito e os secretários envolvidos desmentem essas acusações. Essa matéria hipotética poderia ter o</p><p>seguinte esboço:</p><p>138</p><p>Unidade III</p><p>• Abrir com uma frase temática que indique o tema principal da reportagem. Pode, por exemplo,</p><p>ser a citação da fala de um agricultor: “O prefeito e os seus secretários foram subornados pela</p><p>multinacional X, é por isso que os procedimentos de segurança na produção de suco de laranja</p><p>estão sendo negligenciados”.</p><p>• Mais adiante, o texto apresenta o contraditório, na forma da refutação da acusação feita por</p><p>alguma autoridade: “Nem o prefeito, ou qualquer membro da prefeitura, recebeu qualquer</p><p>suborno por parte da multinacional X”, afirma o secretário da agricultura. “Seja como for, as</p><p>acusações serão devidamente apuradas”, completa ele.</p><p>• Em outro trecho, são apresentadas as evidências levantadas pela investigação, que podem ou</p><p>não desmentir um ou outro lado da questão: “No ano passado, a multinacional X presenteou o</p><p>prefeito da cidade com a doação de várias cargas de suco de laranja gratuito para a distribuição</p><p>nas escolas locais, conforme atestam os relatórios da Secretaria de Educação”.</p><p>É importante notar que a frase temática de abertura é apresentada de maneira genérica e abstrata.</p><p>Posteriormente, no decorrer do texto, as provas apresentadas e as citações das declarações ajudam</p><p>a dar uma base mais palpável ao conjunto. A matéria procede, assim, do abstrato para o concreto,</p><p>partindo do geral para chegar ao específico.</p><p>7.4 Citações</p><p>As citações em uma matéria devem ser usadas de maneira criteriosa, pontual, apenas para autenticar</p><p>algum tópico da reportagem, jamais como conteúdo integral. As informações básicas devem constar</p><p>do corpo do texto, na forma de análises minuciosas. As citações podem ser empregadas tanto para</p><p>reforçá‑las quanto para expressar o teor das entrevistas que foram realizadas.</p><p>A regra geral é transcrever literalmente aquilo que a fonte declarou e evitar alterar qualquer</p><p>aspecto do discurso, para não desvirtuar o seu sentido. No entanto, essa norma pode ser violada nos</p><p>seguintes casos:</p><p>• Se o conteúdo é mais importante do que o modo como a pessoa fala, não é necessário se ater</p><p>literalmente ao que ela diz quando os erros gramaticais possam comprometer o entendimento. A</p><p>citação com maneirismos, gírias, expressões idiomáticas regionais etc. só deve ser utilizada se for</p><p>importante para o contexto da matéria, para ilustrar alguma característica da personagem, como</p><p>a sua origem humilde ou estrangeira.</p><p>• Da mesma forma, não se justifica o emprego de expressões de baixo calão, palavrões etc., a não</p><p>ser, novamente, que isso sirva para dar mais relevo à natureza da fonte e, naturalmente, se isso</p><p>for permitido pelo meio de comunicação.</p><p>• Na maioria dos casos, a oralidade funciona bem em uma gravação de áudio ou vídeo, e até ajuda</p><p>a dar espontaneidade à fala. Contudo, na conversão para o texto escrito, muitas vezes ela se torna</p><p>redundante, repetitiva e cansativa. Se a fonte já se referiu a alguma coisa em um trecho anterior,</p><p>139</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>por exemplo, não há por que manter a referência outras vezes. Hesitações do interlocutor ou</p><p>interjeições como “olha”, “tipo”, “sabe”, “viu” e outras também são desnecessárias e devem ser</p><p>sumariamente eliminadas na redação. São apenas vícios de linguagem e não adicionam qualquer</p><p>elemento significativo à matéria.</p><p>• Informações que são mais bem detalhadas no corpo da matéria tampouco devem aparecer na</p><p>citação. É supérfluo, por exemplo, manter a fala de alguém que identifica a si mesmo e a sua</p><p>atividade ou função quando isso já consta do corpo do texto.</p><p>Um dos cuidados com relação às citações que deve ser observado ao se redigir uma matéria</p><p>investigativa é se certificar do autor da fala. Não há erro mais crasso para um jornalista do que reportar</p><p>uma fala à pessoa errada. Isso pode ter graves consequências, inclusive legais, tanto para a personagem</p><p>mencionada quanto para o autor da matéria. Por essa mesma razão, é sempre importante indicar</p><p>quem diz o que, sobretudo quando há várias pessoas sendo citadas no texto.</p><p>Nesse sentido, o redator deve prestar particular atenção ao modo como introduz as falas dos</p><p>personagens. Elas devem estar integradas ao corpo da matéria das seguintes formas:</p><p>• A frase que antecede a fala deve indicar ao leitor qual o teor dela. Por exemplo: “O policial afirmou</p><p>que a violência no bairro é decorrente da ação dos traficantes: ‘Há várias gangues que lutam pelos</p><p>espaços da venda de drogas’”.</p><p>• O redator deve prestar atenção para que a frase introdutória não seja divergente do conteúdo</p><p>da fala. Por exemplo: “O policial afirmou que a violência no bairro é decorrente da ação dos</p><p>traficantes: ‘As ações policiais na região eliminaram todas as gangues que disputavam espaços da</p><p>venda de drogas’”.</p><p>• Igualmente grave é que a frase introdutória repita, mesmo com palavras diferentes, o que está</p><p>dito na citação. Por exemplo: “O policial afirmou que a violência no bairro é decorrente da ação</p><p>dos traficantes: ‘São os traficantes os principais causadores da violência no bairro’”.</p><p>• É importante ficar atento àquilo que o escritor francês Gustave Flaubert chamava, no século XIX,</p><p>de “palavra justa”. O termo correto e preciso para indicar alguma coisa. Isso é particularmente</p><p>verdadeiro na redação jornalística. Aquilo que não acrescenta nenhuma informação ao texto deve</p><p>ser simplesmente eliminado.</p><p>Um cuidado especial deve ser levado em conta na escolha dos pronomes que serão empregados</p><p>nas falas. A forma mais neutra e a menos comprometedora é referir‑se ao relato da fonte é ela ou</p><p>ele disse. Termos como criticou, esclareceu, acusou etc. só devem ser usada de maneira criteriosa,</p><p>pois elas expressam significados que podem distorcer o sentido original da citação e confundir os</p><p>leitores. Por exemplo: “‘Os operários da fábrica devem ser demitidos’, disse ele”, tem um teor diferente</p><p>de “’Os operário da fábrica devem ser demitidos’, defendeu ele”. Quando utilizados com propriedade,</p><p>esses termos alternativos ajudam a fornecer uma camada de significado e uma carga emocional que</p><p>talvez o depoimento original transmita de maneira insuficiente. Deve‑se ter cuidado, contudo, para a</p><p>140</p><p>Unidade III</p><p>inclusão de advérbios de intensidade que podem dar outra conotação ao que foi falado. Por exemplo:</p><p>“O fiscal da prefeitura refutou as acusações de que ele teria recebido propina” é bem diferente de “O</p><p>fiscal da prefeitura negou veementemente as acusações de que ele teria recebido propina”.</p><p>O discurso indireto, aquele em que o relator do texto reproduz o que foi dito por alguém, sem</p><p>transcrever diretamente a fala e dispensando as aspas, pode ser empregado de maneira alternada com</p><p>as citações literais. A paráfrase, nesses casos, deve ser utilizada com exatidão, tomando‑se a precaução</p><p>de evitar alterar o sentido da fala original. Tomemos, por exemplo:</p><p>• Discurso direto: “O ministro disse: ‘Não tenho conhecimento de qualquer licitação irregular no</p><p>decorrer de meu mandato’”.</p><p>• Discurso indireto: “O ministro disse que desconhecia qualquer caso de licitação irregular</p><p>enquanto esteve no cargo”.</p><p>• Paráfrase: “Segundo o ministro, as licitações irregulares jamais chegaram ao seu conhecimento</p><p>durante o seu mandato à frente da pasta”.</p><p>Em resumo, as citações só devem ser empregadas no texto esporadicamente, quando forem</p><p>necessárias para:</p><p>• enfatizar algum aspecto;</p><p>• insuflar mais vida na matéria;</p><p>• ajudar a mudar o ritmo do texto;</p><p>• fornecer detalhes complementares ao que está sendo afirmado na matéria;</p><p>• emprestar mais autenticidade ao personagem, ao reproduzir o seu modo característico de falar;</p><p>• chamar atenção para um pormenor.</p><p>Ao finalizar o texto, o redator deve sempre ficar atento para os seguintes aspectos:</p><p>• As citações são a transcrição exata do sentido do que a pessoa disse?</p><p>• A fala é compreensível ou a sua construção está confusa? Caso seja complicado de entender, é</p><p>preferível utilizar uma paráfrase, recompondo o discurso de maneira mais coerente e inteligível.</p><p>O jornalista nunca deve se esquecer de que o objetivo final de uma reportagem é informar.</p><p>Aspectos estilísticos são secundários.</p><p>141</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>• O personagem se repete em demasia? Usa muitas interjeições e maneirismos no discurso? Se isso</p><p>acontecer, a citação deve ser podada</p><p>para evitar redundâncias.</p><p>• As aspas foram colocadas nos pontos certos?</p><p>• Os autores das falas estão corretos?</p><p>• Empregou corretamente as palavras e expressões para evitar distorções de sentido ou significado?</p><p>Observação</p><p>A paráfrase é a reinterpretação de uma ideia ou de um texto, sem,</p><p>contudo, alterar o sentido.</p><p>Exemplo: O professor disse: “Me sinto ofendido”.</p><p>Paráfrase: O professor se considerou ofendido.</p><p>7.5 O esboço primordial</p><p>Depois de todo esforço de planejamento da reportagem e do levantamento de dados, observações</p><p>de campo, entrevistas e localização de documentos, é hora, finalmente, de dar forma definitiva à</p><p>matéria. Se houver prazo e condições físicas, o melhor procedimento é trabalhar, primordialmente,</p><p>em um esboço, uma espécie de primeiro tratamento que, depois, será mais bem desenvolvido. Como</p><p>o próprio nome diz, trata‑se de uma versão rascunhada, que servirá de base para a redação definitiva.</p><p>Ela dispensa a introdução trabalhada e não requer ainda um texto bem acabado. Esses detalhes devem</p><p>ser acertados em uma etapa posterior, que constitui a edição. O importante, nessa fase preliminar, é</p><p>selecionar todas as informações recolhidas, separando o que é válido e o que pode ser eliminado, e</p><p>ordená‑las com certa coerência lógica.</p><p>Para efeito de exercício, vamos considerar o esboço a seguir de uma matéria hipotética e em seguida</p><p>verificaremos as suas qualidades e defeitos:</p><p>Depois que a empresa mineradora Açolex começou a realizar extrações em uma área nos arredores</p><p>da cidade de Cruz das Almas, no interior de Minas Gerais, em 2015, e principiou a utilizar no processo</p><p>substâncias químicas altamente tóxicas como mercúrio e chumbo, os moradores da localidade</p><p>começaram a relatar graves problemas de saúde. Muitas pessoas adoeceram tão gravemente que</p><p>acabaram morrendo. A própria qualidade da água e as condições da flora e da fauna na região foram</p><p>afetadas desde a entrada em operação da Açolex.</p><p>142</p><p>Unidade III</p><p>O médico‑chefe do hospital público de Cruz das Almas, o senhor Lima Barreto, declarou: “Os casos</p><p>de cânceres no fígado e nos rins aumentaram significativamente desde 2015. Muitas crianças que</p><p>nasceram depois dessa data apresentam deformidades congênitas”. Os registros dos óbitos no hospital</p><p>dão respaldo a essas afirmações: em 2014, apenas três pessoas da localidade morreram vitimados por</p><p>câncer digestivo; em 2015, esse número saltou para 15; em 2016, para 32 e, em 2020, para 54. Nesse</p><p>mesmo espaço de tempo, o número de crianças nascidas com malformações passou de duas para 27.</p><p>Para o presidente‑executivo da Açolex, as acusações são “infundadas. Nós empregamos as substâncias</p><p>tóxicas para a extração de minérios seguindo à risca todos os protocolos internacionais de segurança,</p><p>inclusive realizando medições periódicas para garantir a segurança do processo. Contudo, pode ser</p><p>que, em casos extraordinários, tenha havido algum vazamento de quantidades insignificantes desses</p><p>produtos, que chegaram a contaminar os lençóis freáticos que abastecem a cidade. Mas posso garantir</p><p>que, se isso ocorreu, as quantidades foram tão pequenas por volume cúbico que não causariam dano</p><p>algum a ninguém nem ao meio ambiente”. O Dr. Barreto disse ainda que a licença para a exploração dos</p><p>veios minerais na região foi emitida pelo próprio Ministério das Minas e Energia em um processo de</p><p>licitação absolutamente idôneo.</p><p>A reportagem apurou que a empresa distribuiu um comunicado para a comunidade local onde</p><p>informa: “Não há nenhuma evidência comprovada de que as substâncias empregadas na mineração</p><p>da Açolex, como mercúrio e chumbo, tenham contaminado, em quantidades significativas, os lençóis</p><p>freáticos de Cruz das Almas. Seja como for, a título de precaução, sugerimos que os moradores da</p><p>localidade se abasteçam com água de poços provenientes de cidades mais afastadas da região. As pessoas</p><p>que sentirem algum tipo de mal‑estar devem procurar imediatamente o auxílio médico”. “Buscar água</p><p>em outras cidades para beber ou cozinhar é uma absurdo. Simplesmente as pessoas não têm condições</p><p>de fazer isso”, disse Josefina Aspérides, líder da oposição na Câmara dos Vereadores.</p><p>O prefeito de Cruz das Almas, Jeroboão Villela, disse que desconhecia os números elevados dos casos</p><p>de enfermidades graves em sua cidade, tampouco sabia que a empresa Açolex empregava substâncias</p><p>tóxicas para a mineração. “Se eu tivesse tomado conhecimento anteriormente, naturalmente teria</p><p>aberto uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara para averiguar o problema”, disse ele. Ao ser</p><p>questionado quando essa suposta CPI será instaurada, o Sr. Villela disse que esses processos “demandam</p><p>tempo e provavelmente isso só ocorrerá na próxima legislatura, a partir do ano seguinte. Além disso,</p><p>não temos funcionários especializados para proceder a uma verificação técnica das amostras de água na</p><p>cidade. Não é uma boa política”, concluiu, “criar problemas para uma empresa tão grande, que emprega</p><p>tantos moradores da cidade e contribui com melhorias significativas, apenas por conta de boatos sem</p><p>respaldo nos fatos”.</p><p>Com um esboço como esse em mãos, o redator deve fazer, antes de tudo, alguns questionamentos</p><p>elementares. Quais partes da matéria são interessantes e estimulantes e quais são enfadonhas? Há</p><p>lacunas nas informações que precisariam ser completadas? O texto é fluente ou truncado? Ele prende a</p><p>atenção ou não chega a lugar algum?</p><p>Uma análise mais detida pode apontar os principais defeitos de um esboço. Nesse rascunho que</p><p>apresentamos, é possível identificar os seguintes problemas:</p><p>143</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>• A matéria não tem fluidez. Ela salta de um tópico a outro. As frases e os parágrafos devem ser</p><p>reelaborados para aprimorar os vínculos. Observe‑se que a informação apurada na reportagem</p><p>está em um único bloco, não espalhada pelo texto.</p><p>• O comunicado emitido pela empresa não deveria ter sido transcrito na íntegra. O redator deveria</p><p>destacar apenas as partes principais e se referido a ele por paráfrases. Seria ainda mais interessante</p><p>se cada afirmação feita no comunicado fosse contestada imediatamente depois pelas provas</p><p>obtidas na investigação.</p><p>• Algumas frases poderiam ser melhoradas, e as reiterações, omitidas.</p><p>• No geral, a matéria é distante e desidratada de emoções. A situação real dos moradores da cidade</p><p>afetados pelas substâncias tóxicas resultantes da mineração só são mencionados indiretamente.</p><p>Não há nenhuma citação direta deles ou de seus parentes, apenas relatos mencionados. Em</p><p>contrapartida, o texto apresenta extensivamente a declaração do presidente‑executivo da</p><p>companhia e de figuras políticas da região. Falta a “voz humana” das pessoas comuns, capaz de</p><p>insuflar vida na reportagem.</p><p>• A opção de deixar para o fim do texto a entrevista com o prefeito da cidade contribui para dar</p><p>mais ênfase ao que ele tem a dizer, em detrimento dos demais depoimentos, que deixa a matéria</p><p>com um caráter mais “oficioso” do que realmente jornalístico. O ideal é que o depoimento dele</p><p>fosse quebrado em pedaços menores e inserido em outra parte da matéria.</p><p>• Não foi feito, realmente, nenhum esforço para averiguar se há uma conexão real entre as</p><p>substâncias que supostamente contaminaram os lençóis freáticos da região com a mineração e</p><p>os problemas de saúde registrados nos moradores locais. A matéria deveria se aprofundar mais</p><p>nesses aspectos, para conseguir evidências incontestáveis da relação de causa e efeito da ação</p><p>da mineradora com a saúde pública. Faltam mais entrevistas e análises detalhadas de amostras</p><p>de água e dos exames médicos dos pacientes. As doenças que os acometeram podem não ter</p><p>nenhuma relação com a questão da mineração, e, enquanto esse vínculo não for comprovado,</p><p>não é possível induzir o público a nenhuma conclusão.</p><p>• Seja como for, o rascunho já é um bom ponto de partida para a redação final. Da forma como</p><p>ele está, é basicamente uma compilação das informações e entrevistas obtidas. Resta, agora,</p><p>desenvolver a versão definitiva da matéria, mais orgânica</p><p>e informativa.</p><p>7.6 Formatos e estilos textuais</p><p>Há várias maneiras de montar uma reportagem, dependendo, obviamente, do espaço disponível, da</p><p>distribuição do conteúdo textual e imagético pelas páginas, do estilo da publicação etc. O importante</p><p>é articular cada elemento para que o todo tenha coerência interna e lógica. O objetivo é conduzir o</p><p>sentido da leitura, de maneira praticamente imperceptível. No âmbito do jornalismo investigativo, há</p><p>basicamente três modelos de redação que podem ser empregados:</p><p>144</p><p>Unidade III</p><p>• O que se escora na cronologia dos eventos e se preocupa em apresentar os fatos na sequência em</p><p>que ocorreram, reconstituindo cada etapa do processo. Tanto pode ser uma narrativa que resgata</p><p>o acontecimento em si quanto uma que acompanha o passo a passo da própria investigação</p><p>jornalística. As diversas histórias são entrelaçadas seguindo um crescendo de suspense, da</p><p>apresentação elementar até o clímax final.</p><p>• Outra maneira de apresentar o problema é abordá‑lo segundo os seus tópicos e temas principais.</p><p>O trabalho, aqui, é organizar as informações para que sejam catalogadas e distribuídas de</p><p>maneira ordenada e lógica, apresentando cada aspecto separadamente, em blocos mais ou menos</p><p>estanques, interligados apenas pelo fio básico do problema que está sendo tratado na matéria.</p><p>• A terceira modalidade de construção textual é um híbrido das duas anteriores. A matéria pode, por</p><p>exemplo, começar pelo resgate narrativo e cronológico do evento nuclear e fornecer uma espécie</p><p>de versão resumida dele logo no início, destacando os personagens e pontos principais. Em uma</p><p>segunda etapa, a matéria pode destacar, separadamente, cada um dos aspectos da reportagem</p><p>em seções separadas.</p><p>A reportagem cujo esboço vimos páginas atrás segue o segundo paradigma, conquanto em uma</p><p>forma insatisfatória, sem o necessário aprofundamento, como já foi dito. Uma estrutura razoável para</p><p>a matéria em questão e outras do mesmo tipo poderia seguir os seguintes blocos: uma introdução, o</p><p>problema a ser abordado, a hipótese para explicá‑lo, as pessoas que foram afetadas por ele, as acusações</p><p>e defesas dos possíveis responsáveis, as evidências levantadas para corroborar ou desmentir determinada</p><p>hipótese, a conclusão. Aliado a um texto direto, claro e simples, sem afetações, uma matéria escrita</p><p>dessa forma seria plenamente eficaz para suscitar um profundo debate junto à opinião pública com</p><p>relação às deficiências inerentes aos processos que envolvem a exploração de jazidas minerais no país.</p><p>Em termos mais precisos, a matéria poderia ser redigida da seguinte forma:</p><p>• Introdução: a narrativa de três ou mais moradores da cidade, ou os seus parentes e amigos, que</p><p>foram vítimas de envenenamento por substâncias tóxicas provindas do processo de mineração</p><p>na região. Isso fornece o aspecto humanizado da reportagem, apresenta o ponto principal do</p><p>problema e contribui para que o leitor estabeleça empatia com as pessoas afetadas.</p><p>• O problema: o alcance da contaminação dos lençóis freáticos provocada pela extração mineral,</p><p>tanto no âmbito humano quanto dos danos provocados ao meio ambiente da região. Isso ajuda a</p><p>traçar o quadro geral da questão e toda a sua gravidade e abrangência.</p><p>• A hipótese: é dada a explicação mais provável para os fenômenos observados. Ela tem de ser</p><p>razoável e a mais isenta possível, para não soar tendenciosa. As acusações não podem ser gratuitas,</p><p>nascidas de ideias preconceituosas preconcebidas.</p><p>• As evidências: uma vez apresentada a hipótese que dê conta de explicar o problema, é hora de</p><p>expor todas as provas levantadas, por meio de pesquisas de campo, análises da amostras de água,</p><p>145</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>documentos de qualquer natureza etc. Também faz parte dessa seção a descrição dos protocolos</p><p>de segurança que deveriam ser seguidos e das normas legais que cercam a atividade mineradora.</p><p>• Os responsáveis: aqui, são apresentadas as pessoas, empresas ou instituições que permitiram que</p><p>o problema acontecesse, por atos, negligências ou omissões criminosas, como os executivos da</p><p>companhia, o prefeito da cidade, os políticos e fiscais etc.</p><p>• As razões: quais são os interesses em ação nessa situação específica que levaram à tragédia,</p><p>como as vantagens políticas que o prefeito obteve com a instalação da indústria mineradora em</p><p>sua cidade, os ganhos que a empresa obteve com possíveis contratos fraudulentos etc., tudo,</p><p>obviamente, escorado em sólidas comprovações.</p><p>• A conclusão: o balanço final do problema retratado e quais as possíveis consequências que ele</p><p>trará para a localidade em questão e para o país. Quais são as imperfeições estruturais do sistema</p><p>que permitiram que o problema acontecesse, enfim.</p><p>Embora essa estrutura possa funcionar muito bem para problema em questão, ela pode se mostrar</p><p>insuficiente para cativar o interesse dos leitores. Nesse caso, o redator terá de reformular a matéria para</p><p>torná‑la mais envolvente. Algumas fórmulas podem servir para esse propósito. As mais utilizadas no</p><p>jornalismo investigativo em todo o mundo são as seguintes:</p><p>• Modelo do Wall Street Journal: é a mais conhecida e aplicada. Ela trabalha a partir do particular</p><p>em direção ao geral deste modo:</p><p>— Abre com o relato de uma pessoa ou situação, que serve para contextualizar o problema;</p><p>— passa do caso individual para o geral, utilizando um parágrafo que resume todo o problema;</p><p>— fecha a matéria retornando ao estudo original, na intenção de criar um vínculo emocional</p><p>entre a história e o leitor.</p><p>• Modelo Rich: criado pela especialista Carol Rich, consiste em cinco blocos essenciais:</p><p>— o “hard news”, a notícia nuclear, que procura responder, principalmente, o que ocorreu;</p><p>— a contextualização dos fatos que antecederam o problema e que podem explicá‑lo;</p><p>— a categorização do problema, em que se determina se foi um caso isolado ou uma tendência;</p><p>— o objetivo da reportagem, na qual se propõe o alcance da matéria;</p><p>— o grau de interesse que a reportagem poderá despertar nos leitores. Basicamente, é uma</p><p>explicação da razão por que ela deverá ser lida.</p><p>146</p><p>Unidade III</p><p>Para que funcione, esse modelo requer uma ordenação bem‑feita entre cada bloco, com transições</p><p>e vínculos que os conectem. Caso contrário, corre‑se o risco de se produzir uma matéria fragmentada,</p><p>composta de boxes ou trechos dispersos, sem praticamente nenhuma conexão. Ele funciona,</p><p>principalmente, nas matérias destinadas à internet, em que a navegabilidade pede uma maneira mais</p><p>complexa de construção do texto. Cabe aos internautas dar coerência ao todo.</p><p>• Modelo da pirâmide mista: é uma variação do modelo tradicional da pirâmide invertida,</p><p>mesclado ao da pirâmide normal. Na primeira abordagem, desenvolvida no século XIX por Joseph</p><p>Pulitzer e empregada até hoje nas “hard news” do jornalismo impresso e digital, a matéria começa</p><p>com um resumo do lead, as seis perguntas primordiais que toda história jornalística deve procurar</p><p>responder (o que, quem, quando, como, onde e por que) e a partir daí explora os detalhes em cada</p><p>parágrafo, partindo dos mais importantes até os menos significativos no final. No segundo tipo,</p><p>a história é contada do modo convencional, cronologicamente, como uma narrativa qualquer,</p><p>avançando até o clímax no final, com os pontos principais espalhados pelo corpo da matéria. A</p><p>pirâmide mista é uma mistura desses dois modelos, compostos da seguinte forma:</p><p>— abre com um resumo do problema que a reportagem pretende abordar;</p><p>— indica o que será revelado adiante;</p><p>— segue cada etapa da investigação, desde o início até chegar à revelação final, atrelando as</p><p>partes uma depois da outra como em um romance de suspense;</p><p>— deixa para a conclusão as informações mais relevantes e contundentes.</p><p>Não há uma regra definitiva a respeito do melhor modelo textual. Cada reportagem e cada tema</p><p>dita a própria formatação, dependendo, naturalmente, do efeito que se pretende atingir. O jornalismo</p><p>narrativo, utilizado sobretudo no estilo Wall Street e no da pirâmide mista, requer</p><p>um perfeito domínio</p><p>do ritmo e da linguagem para ser efetivo. É nesse território que trafegam os livros‑reportagens, em que</p><p>o jornalismo adquire um perfil mais literário na descrição de personagens e ambientes e na narração</p><p>dos eventos.</p><p>Saiba mais</p><p>Os filmes a seguir podem aprofundar o entendimento da unidade:</p><p>CAPOTE. Direção: Bennett Miller. Estados Unidos; Canadá: Sony Pictures,</p><p>2005. 114 min.</p><p>O ANO que vivemos em perigo. Direção: Peter Weir. Estados Unidos:</p><p>MGM, 1982.115 min.</p><p>147</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>8 ASPECTOS LEGAIS E ÉTICOS DA INVESTIGAÇÃO</p><p>Por tratar de questões relevantes e quase sempre de grande repercussão, que podem atingir pessoas</p><p>ou instituições importantes e produzir efeitos de enorme alcance, tanto no âmbito nacional quanto</p><p>internacional, o jornalismo investigativo é o mais suscetível a retaliações e ações judiciais de toda</p><p>espécie. O jornalista que enveredar por esse caminho deve estar consciente que em algum momento da</p><p>carreira será alvo de acusações e imputações das quais terá de se defender. Já abordamos, em capítulos</p><p>anteriores, alguns aspectos da atuação jornalística que requerem cautela e atenção, sobretudo o que diz</p><p>respeito à ética e a legislação que envolve o trabalho da imprensa. Nessa última parte do livro, vamos</p><p>nos aprofundar mais nesses tópicos e esclarecer quais são os limites de segurança dentro dos quais o</p><p>profissional da área pode transitar.</p><p>8.1 O Direito Internacional e os direitos dos jornalistas</p><p>Independentemente do que seja determinado pelas legislações nacionais, a atividade jornalística</p><p>está inserida no quadro mais amplo dos códigos e normas internacionais que a regem, incluindo a</p><p>Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU. De modo geral, os ordenamentos jurídicos da</p><p>maioria dos países democráticos procuram resguardar a liberdade de pensamento e de expressão, a mais</p><p>valiosa de todas, já que, como afirmou no século XVIII o político e orador Honoré Mirabeau, sem ela,</p><p>todas as demais liberdades estão comprometidas. Essa liberdade está garantida na Declaração Universal</p><p>dos Direitos Humanos nos seguintes artigos:</p><p>Art. 18. Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência</p><p>e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de</p><p>convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção,</p><p>sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino,</p><p>pela prática, pelo culto e pelos ritos.</p><p>Art. 19. Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão,</p><p>o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de</p><p>procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e</p><p>ideias por qualquer meio de expressão (DECLARAÇÃO, 1948, p. 3).</p><p>De modo geral, esses dispositivos procuram garantir a liberdade de atuação das empresas de</p><p>comunicação e de seus profissionais, mas eles não são absolutos e irrefutáveis. Eles podem ser restringidos,</p><p>em alguns casos, de acordo com o que estipula o art. 29 do mesmo documento e de outros dispositivos</p><p>legais vinculados a ele, nos seguintes casos:</p><p>• para evitar a difamação e a manutenção dos direitos de outras pessoas no que diz respeito à</p><p>proteção de sua honra;</p><p>• no sentido de assegurar a ordem, a moral e a saúde pública e a segurança nacionais;</p><p>• obstruir o apelo à violência, a atos de agressividade ou discriminatórios de qualquer espécie.</p><p>148</p><p>Unidade III</p><p>8.2 A investigação e as leis</p><p>De acordo com a atual Constituição brasileira, promulgada em 1988, o jornalismo investigativo,</p><p>assim como ocorre em outros países, até mesmo os mais democráticos, sofre algumas restrições de</p><p>ordem legal naquilo que se refere aos seguintes aspectos:</p><p>• o sigilo oficial para garantir a segurança nacional;</p><p>• as limitações impostas à circulação de informação durante a decretação de um estado de emergência;</p><p>• as ressalvas no que diz respeito às leis de proteção à honra, como calúnia, difamação ou injúria;</p><p>• as normas que regem a concessão de licenças de transmissão para radiodifusão;</p><p>• as garantias para a proteção da privacidade dos indivíduos.</p><p>Todas essas normas têm por objetivo preservar a sociedade dos eventuais excessos e desvios</p><p>que possam ser cometidos na atuação da imprensa, mas devem ser empregadas com critério, para</p><p>evitar que se tornem uma censura de qualquer espécie, medida que é explicitamente rechaçada pela</p><p>Constituição Federal. Além disso, como veremos, a própria atividade jornalística é regida por um Código</p><p>de Ética que estabelece suas atribuições e limites.</p><p>Em certas circunstâncias, a liberdade de imprensa é limitada pelo que se convencionou chamar</p><p>“interesse público”, um conceito bastante elástico e impreciso, que pode abarcar praticamente qualquer</p><p>assunto que diga respeito às instituições de Estado e aos órgãos de governo. Embora o interesse público</p><p>possa ser compreendido como o interesse da sociedade como um todo, o que implica tudo aquilo que</p><p>diz respeito à esfera coletiva, ele não pode ser invocado para justificar a invasão de privacidade apenas</p><p>pelo desejo de bisbilhotar a vida de uma figura pública, ou pôr em risco a segurança nacional ou os</p><p>direitos elementares dos indivíduos. Como há uma alta carga de subjetividade envolvida nessas normas,</p><p>cabe ao Poder Judiciário interpretar o significado do termo “interesse público” em cada caso.</p><p>O jornalista sul‑africano Franz Krüger, no seu texto sobre éticas e a mídia, cita</p><p>o Código das Práticas Profissionais da Imprensa (Press Code of Professional</p><p>Practice), que declara que:</p><p>“O interesse público é a única justificativa para a violação das mais elevadas</p><p>normas do jornalismo, e inclui:</p><p>– detectar ou expor infrações ou crimes graves;</p><p>– detectar ou expor conduta antissocial grave;</p><p>– proteger a saúde ou a segurança pública;</p><p>149</p><p>JORNALISMO INVESTIGATIVO</p><p>– impedir que o público seja induzido em erro pelas declarações de alguém;</p><p>– detectar ou expor hipocrisia, falsidades ou duplicidade por parte de figuras</p><p>ou instituições públicas ou em instituições públicas (ANSEL, 2011g, p. 6).</p><p>8.2.1 As normas que constituem o Direito da Comunicação</p><p>Embora não exista formalmente um ramo do direito dedicado exclusivamente à comunicação, a</p><p>legislação brasileira tem vários dispositivos que procuram contemplar essa área. Basicamente, essas</p><p>normas estão distribuídas nos seguintes documentos jurídicos:</p><p>• Constituição Federal: em linhas gerais, a Carta Magna, como também é chamada, estipula as</p><p>regras gerais que ordenam a sociedade e definem as competências e os limites de atuação dos</p><p>três poderes do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) e das diversas instituições atreladas</p><p>a eles, além, naturalmente, de salvaguardar os direitos e deveres dos cidadãos, sem distinção</p><p>de qualquer espécie. Nenhum texto legal, sob pretexto algum, pode se sobrepor ou contrariar</p><p>a Constituição; ela é soberana sobre toda a ordenação jurídica do país. No que diz respeito à</p><p>comunicação, a Constituição trata da regulamentação dos meios de comunicação, do resguardo</p><p>dos direitos autorais e da manutenção da liberdade de expressão, entre outras disposições. Além</p><p>daquilo que consta do corpo da própria Constituição, deve‑se levar em conta as diversas emendas</p><p>que abordam o tema elaboradas desde a sua promulgação.</p><p>• Documentos legais: alguns textos abordam, de maneira direta ou indireta, o direito da</p><p>comunicação, embora o propósito deles não seja propriamente regulamentar os veículos</p><p>de imprensa ou os jornalistas.</p><p>• Documentos legais específicos da comunicação: são textos complementares à Constituição,</p><p>cujo objetivo é estabelecer os critérios de atuação dos meios de comunicação e de seus</p><p>profissionais. Podem ser lembradas a chamada Lei de Imprensa, instituída com a Constituição de</p><p>1967 e revogada em abril de 2009, que visava exercer um controle mais rígido sobre a imprensa; a</p><p>Lei n. 4.117, de 1962, que instituiu o Código Brasileiro de Telecomunicações, e, mais recentemente,</p><p>a Lei n. 12.965, de 2014, que criou o Marco Civil da Internet, importante</p>

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