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<p>Aula 05 - Prof. Márcio</p><p>Damasceno (Somente</p><p>PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem</p><p>Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>Autor:</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio</p><p>Damasceno</p><p>14 de Julho de 2024</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>1</p><p>SEGUNDA RODADA .......................................................................................................................................... 1</p><p>Tema 5 – Desastres ambientais ..................................................................................................................... 1</p><p>Abordagem teórica ........................................................................................................................................ 3</p><p>Proposta de solução....................................................................................................................................... 7</p><p>Tema 6 – Privacidade ..................................................................................................................................... 8</p><p>Abordagem teórica ........................................................................................................................................ 9</p><p>Proposta de solução..................................................................................................................................... 14</p><p>Tema 7 – Inteligência artificial ..................................................................................................................... 15</p><p>Abordagem teórica ...................................................................................................................................... 16</p><p>Proposta de solução..................................................................................................................................... 24</p><p>Tema 8 – Segregação urbana ...................................................................................................................... 25</p><p>Abordagem teórica ...................................................................................................................................... 26</p><p>Proposta de solução..................................................................................................................................... 33</p><p>SEGUNDA RODADA DE TEMAS</p><p>Tema 5 – Desastres ambientais</p><p>O desastre</p><p>Fundão, situada no Complexo Industrial de Germano, no município de Mariana/MG. Além do desastre</p><p>ambiental, a tragédia ceifou a vida de 19 pessoas.</p><p>[...]</p><p>O maior desastre ambiental do Brasil – e um dos maiores do mundo – provocou danos econômicos, sociais</p><p>e ambientais graves e tirou a vida de 19 pessoas. Os prejuízos que se viram às primeiras horas e que</p><p>aumentaram com o passar do tempo projetam-se mesmo hoje como um devir que não tem tempo certo</p><p>para findar. Danos contínuos e, em sua maioria, perenes.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>2</p><p>Disponível em: http://www.mpf.mp.br/grandes-casos/caso-samarco/o-</p><p>desastre. Acesso em: 10 de novembro de 2020. (Com adaptações)</p><p>Tragédia com barragem da Vale em Brumadinho pode ser a pior no mundo em 3 décadas</p><p>Relatório da Agência de Meio Ambiente das Nações Unidas registrou os maiores rompimentos de barragens</p><p>ocorridos desde 1985. Só nos últimos 5 anos, ocorreram oito grandes acidentes pelo mundo.</p><p>O Brasil, lamentavelmente, tem destaque nessa lista por ser o país com o maior número. Foram três</p><p>acidentes com perda humana ou grave dano ambiental de 2014 para cá: rompimento de uma barragem da</p><p>Herculano Mineração, em Itabirito (MG), em 2014, com três mortes; o vazamento na barragem do Fundão,</p><p>em Mariana (MG), em 2015, com 19 mortes; e, agora, a tragédia com grande perda de vidas, em Brumadinho.</p><p>Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47034499.</p><p>Acesso em: 10 de novembro de 2021.</p><p>Mais de dois anos após acidente, corpo é identificado em Brumadinho (MG)</p><p>Rompimento de barragem matou 270 pessoas; 10 vítimas não foram localizadas ainda</p><p>Mais de dois anos depois do rompimento da barragem de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho (MG),</p><p>foi identificado mais um corpo de uma vítima, Renato Eustáquio de Sousa, quue tinha 34 anos e trabalhava</p><p>como soldador da mineradora.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>3</p><p>A localização dos restos que possibilitaram a identificação ocorreu em janeiro de 2021.</p><p>O acidente, em 25 de janeiro de 2019, provocou a morte de 270 pessoas, sendo que 10 corpos ainda não</p><p>foram encontrados. A última identificação de vítima havia acontecido em 28 de dezembro de 2019.</p><p>Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/05/mais-de-dois-</p><p>anos-apos-acidente-corpo-e-identificado-em-brumadinho-</p><p>mg.shtml?origin=folha. Acesso em: 10 de novembro de 2021.</p><p>Considerando que os textos acima têm caráter unicamente motivador, redija um texto dissertativo acerca</p><p>do seguinte tema: DESASTRES AMBIENTAIS: CONSEQUÊNCIAS E AÇÃO GOVERNAMENTAL</p><p>Abordagem teórica</p><p>1. Danos a curto, médio e longo prazos</p><p>Um desastre ambiental é um evento de grande impacto ao meio ambiente. De acordo com o Decreto 10.593/</p><p>2020, desastre é o resultado de evento adverso decorrente de ação natural ou antrópica sobre cenário</p><p>vulnerável que cause danos humanos, materiais ou ambientais e prejuízos econômicos e sociais.</p><p>Trata-se de um conceito bastante amplo, eis que engloba tanto os desastres ambientais antropogênicos,</p><p>gerados pelas ações ou omissões humanas, quanto os desastres naturais, causados pelo impacto de um</p><p>fenômeno natural de grande intensidade, os quais podem ou não terem sido agravados pelas atividades</p><p>antrópicas. Dessa forma, estamos falando tanto de: terremotos, tsunamis, furacões, eventos que acontecem</p><p>no planeta independentemente de qualquer intervenção humana; dos eventos naturais que são</p><p>amplificados pela ação antrópica, como as enchentes, decorrentes da falta de planejamento da ocupação do</p><p>solo e as secas prolongadas, decorrentes do desmatamento, entre outros; e também das situações que</p><p>decorrem diretamente da participação humana, como os rompimentos de barragens, acidentes em usinas</p><p>nucleares, vazamento de óleo no mar, entre outros.</p><p>Nos interessa aqui tratar sobre a participação do homem na ocorrência desses desastres e sobre como e até</p><p>onde se pode evitá-los.</p><p>A ação direta do homem pode afetar a atmosfera, como as queimadas no Pantanal em 2021, Austrália e</p><p>Califórnia. Pode afetar as águas, como o que ocorreu com o navio Exxon Valdez1, na costa do Alasca, em</p><p>1989, e as manchas de óleo no litoral do nordeste brasileiro, em 2019.</p><p>Há os desastres terrestres, decorrentes da mineração e, infelizmente, nesse quesito, o Brasil é destaque</p><p>negativo no mundo. Mariana e Brumadinho contam uma história de descaso, corrupção e</p><p>irresponsabilidade, cujo saldo é o de, aproximadamente, 300 mortes. Mas não é só isso: o rompimento</p><p>1 O petroleiro colidiu com rochas submersas na costa do Alasca e iniciou um derramamento sem precedentes (cerca de 40 milhões</p><p>de litros de petróleo), contaminando mais de dois mil quilômetros de praias e causando a morte de cem mil aves.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>4</p><p>dessas barragens destruiu quilômetros de ambientes naturais e cidades, causando danos à fauna e flora local</p><p>e provocando um impacto social irreparável. O rompimento da barragem de Brumadinho liberou cerca de</p><p>doze milhões de metros cúbicos de rejeitos, contaminando</p><p>podemos sugerir as seguintes:</p><p>• Auditoria nas empresas que desenvolvem essas tecnologias de modo que se dissemine uma cultura da</p><p>transparência. Os sistemas devem ser robustos e seguros, de modo a evitar erros ou a ter condição de</p><p>lidar com eles, corrigindo eventuais inconsistências. Devem também ter a garantia de sua</p><p>rastreabilidade e explicabilidade, para que não haja dificuldades na compreensão de sua atuação.</p><p>• Governos: devem regular a matéria e estabelecer princípios éticos a serem obedecidos pelas empresas.</p><p>Além disso, devem fiscalizar o cumprimento das normas e desenvolver políticas públicas</p><p>informacionais, de modo que as pessoas possam perceber a sensibilidade do tema.</p><p>• Organismos internacionais/locais: devem se organizar para exigir que governos e empresas cumpram</p><p>com as suas obrigações.</p><p>Yuval Harari - historiador e filósofo israelense</p><p>Yuval Noah Harari é professor do Departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém e um</p><p>dos pensadores mais influentes da humanidade na atualidade, principalmente no campo da IA. Seus livros</p><p>mais conhecidos são: Sapiens – Uma Breve História da Humanidade, Homo Deus – Uma breve história do</p><p>amanhã e 21 lições para o século 21.</p><p>Harari não é muito otimista com o futuro da humanidade. Segundo ele, todas as funções que têm</p><p>potencial de resultar em economia para as empresas serão automatizadas, o que pode criar uma geração</p><p>de pessoas inúteis e, nesse processo, os países em desenvolvimento serão os mais afetados se não se</p><p>reinventarem. Se, antes, esses países poderiam vender a sua mão de obra, no futuro, isso será ameaçado</p><p>pela intensa mecanização.</p><p>Segundo Harari, empresas como Netflix, Amazon e Spotify já nos dizem o que assistir, comprar ou ouvir,</p><p>baseadas nos nossos interesses (que muitas vezes nem nós mesmos conhecemos) e em seus algoritmos</p><p>superpoderosos. "Se empresas como essas já podem nos recomendar coisas novas com uma precisão</p><p>absurda hoje, imagine daqui alguns anos, quando o número de dados produzidos por cada um de nós será</p><p>imensamente maior do que é hoje? Empresas como essas poderiam não apenas nos recomendar o que</p><p>assistir, comprar ou ouvir, mas também o que estudar, para onde ir ou com quem casar".</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>24</p><p>Segundo matéria jornalística15:</p><p>Para o autor, mesmo funções que demandam alta capacitação, como a dos médicos, serão substituídas</p><p>por algoritmos. A razão é que esses profissionais lidam muito mais com dados para a tomada de decisões</p><p>- diferentemente dos enfermeiros, por exemplo, que precisam de habilidades mais interpessoais com os</p><p>pacientes. “Os médicos-robôs vão chegar muito mais rápido do que os enfermeiros-robôs”, afirma.</p><p>Harari acredita que o avanço de IA também significa menos privacidade e mais vigilância. As corporações</p><p>serão capazes de desenvolver algoritmos que compreendam as pessoas melhor do que elas mesmas. “A</p><p>combinação do conhecimento biológico, o poder computacional e a análise de dados tornará possível</p><p>hackear os cidadãos de qualquer país”, diz.</p><p>Pode chegar um ponto em que a tecnologia descubra a orientação sexual16 do usuário antes mesmo do</p><p>que ele - com o intuito de criar anúncios mais personalizados, por exemplo. “As pessoas precisam se</p><p>conhecer melhor para não ficar em uma posição vulnerável, em que possam ser manipuladas", afirmou.</p><p>Para o israelense, é muito provável que daqui a décadas estaremos vivendo em uma ditadura digital,</p><p>sendo monitorados por computadores e máquinas que analisarão informações essenciais para o governo</p><p>e grandes corporações. Daqui a dez anos, algumas pessoas no mundo, bilhões de pessoas, podem estar</p><p>vivendo numa ditadura digital onde não só tudo o que fazem, mas até tudo o que sentem é</p><p>constantemente monitorado. O ideal, segundo Yuval, é regulamentar as tecnologias mais perigosas, como</p><p>sistemas autônomos de armamentos e robôs assassinos, até a regulamentação de sistemas de vigilância</p><p>para prevenir a criação de ditaduras digitais. "Podemos prever que nos próximos dez ou vinte anos, a</p><p>ascensão dessas ditaduras digitais, ditaduras baseadas em tecnologias digitais de vigilância que seguem</p><p>tudo o tempo todo. Podemos prever que isso acontecerá não só nos países mais desenvolvidos, mas até</p><p>em alguns países mais atrasados do mundo, na África e no Oriente Médio", analisou17.</p><p>Proposta de solução</p><p>No ano de 1996, a ciência deu um passo que suscitou intensos debates sobre a ética e o</p><p>progresso científico: pela primeira vez, clonou-se um animal mamífero, a ovelha Dolly. No</p><p>âmbito dessa relação por vezes conflituosa, destacam-se as aplicações que utilizam a</p><p>15 https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2019/11/inteligencia-artificial-vai-tornar-os-profissionais-irrelevantes-e-</p><p>hackear-seres-humanos.html</p><p>16 "Talvez eu não veja nenhum filme gay, nada do tipo, mas simplesmente monitorando a reação dos meus olhos o algoritmo e a</p><p>empresa por trás dele, já sabem que sou gay. Digamos que, no Youtube, eu veja um vídeo de um rapaz e uma moça, em roupas</p><p>de banho na praia. O computador sabe para onde eu olho. Se eu olhar mais para o rapaz do que para a moça, o algoritmo já sabe</p><p>que sou gay, e isso pode ser usado para me vender produtos", afirmou. Veja mais em https://www.uol.com.br/tilt/noticias/</p><p>redacao/2019/11/11/escritor-yuval-harari-roda-viva-entrevista.htm?cmpid=copiaecola</p><p>17 https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2019/11/11/escritor-yuval-harari-roda-viva-entrevista.htm?cmpid=copiaecola</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>25</p><p>tecnologia da inteligência artificial (IA), notadamente pelos seus reflexos no campo do</p><p>trabalho e por reforçar discriminações entre os indivíduos.</p><p>Inicialmente, frisem-se as implicações da IA sobre uma dimensão essencial para a</p><p>dignidade humana, o trabalho. Com efeito, apesar dos pontos positivos, como a criação de</p><p>novas profissões, especialistas, como o historiador Yuval Harari, acreditam que a IA criará</p><p>uma massa de pessoas sem utilidade, especialmente as que não conseguirem desenvolver</p><p>novas habilidades. Opiniões dessa natureza reforçam a preocupação sobre a obsolescência</p><p>de uma gama de profissões e sobre o futuro do trabalho.</p><p>Outra aplicação potencialmente preocupante da IA é aquela capaz de reforçar</p><p>preconceitos. Com efeito, pesquisas, como a realizada pelo Instituto de Tecnologia de</p><p>Massachusetts, mostraram que o sistema de reconhecimento facial possui vieses que</p><p>reforçam preconceitos, o que pode significar, por exemplo, a incriminação de inocentes e</p><p>acentuar discriminações contra grupos historicamente vulneráveis.</p><p>Diante da problemática exposta, ficam patentes os riscos associados à IA. Apesar de</p><p>auspiciosos os horizontes ampliados pela sua utilização, é necessário examinar</p><p>cuidadosamente as novas ferramentas antes de sua aplicação, bem como repensar as</p><p>competências requeridas para formar o profissional do futuro.</p><p>Tema 8 – Segregação urbana</p><p>Todos nós construímos a cidade pouco a pouco no nosso cotidiano: pegando o ônibus para ir trabalhar,</p><p>construindo nossa casa, elegendo prefeitos e vereadores, participando das mobilizações em nossa</p><p>vizinhança… Se produzimos coletivamente a cidade, temos também o direito de habitar, usar, ocupar,</p><p>produzir, governar e desfrutar das cidades de forma igualitária.</p><p>O Direito à Cidade é um direito humano e coletivo, que diz respeito tanto a quem nela vive hoje quanto às</p><p>futuras gerações. É um compromisso ético e político de defesa de um bem comum essencial a uma vida plena</p><p>e digna em oposição à mercantilização dos territórios, da natureza e das pessoas.</p><p>A expressão “direito à cidade” foi originalmente cunhada pelo filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre em</p><p>1968, ano que ficou marcado pelo potente movimento iniciado pelas juventudes engajadas na luta por</p><p>direitos civis, liberação sexual, oposição ao conservadorismo, crítica à guerra no Vietnã, entre outras.</p><p>Lefebvre estava sensível às vozes e aos movimentos que irrompiam nas ruas, percebendo que as cidades</p><p>haviam se convertido no locus de reprodução das relações capitalistas, mas também onde a resistência</p><p>poderia constituir formas de superação criativa desse modelo.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>26</p><p>Disponível em: https://polis.org.br/direito-a-cidade/o-que-e-direito-a-</p><p>cidade/. Acesso em 23 de julho de 2021.</p><p>Na verdade, durante a maior parte do século XX, os estádios eram lugares onde os executivos empresariais</p><p>sentavam-se lado a lado com os operários, todo mundo entrava nas mesmas filas para comprar sanduíches</p><p>e cerveja, e ricos e pobres igualmente se molhavam se chovesse. Nas últimas décadas, contudo, isso está</p><p>mudando. O advento de camarotes especiais, em geral, acima do campo, separam os abastados e</p><p>privilegiados das pessoas comuns nas arquibancadas mais embaixo. (…) O desaparecimento do convívio</p><p>entre classes sociais diferentes, outrora vivenciado nos estádios, representa uma perda não só para os que</p><p>olham de baixo para cima, mas também para os que olham de cima para baixo.</p><p>Os estádios são um caso exemplar, mas não único. Algo semelhante vem acontecendo na sociedade</p><p>americana como um todo, assim como em outros países. Numa época de crescente desigualdade, a</p><p>“camarotização” de tudo significa que as pessoas abastadas e as de poucos recursos levam vidas cada vez</p><p>mais separadas. Vivemos, trabalhamos, compramos e nos distraímos em lugares diferentes. Nossos filhos</p><p>vão a escolas diferentes. Isso não é bom para a democracia nem sequer é uma maneira satisfatória de levar</p><p>a vida.</p><p>Democracia não quer dizer igualdade perfeita, mas de fato exige que os cidadãos compartilhem uma vida</p><p>comum. O importante é que pessoas de contextos e posições sociais diferentes encontrem-se e convivam</p><p>na vida cotidiana, pois é assim que aprendemos a negociar e a respeitar as diferenças ao cuidar do bem</p><p>comum.</p><p>Michael J. Sandel. Professor da Universidade Harvard. O que o dinheiro não</p><p>compra. Adaptado</p><p>Considerando essas reflexões, elabore um texto dissertativo-argumentativo, que responda ao seguinte</p><p>questionamento: a segregação urbana no Brasil é uma realidade?</p><p>Abordagem teórica</p><p>Vamos iniciar essa abordagem com algumas perguntas. Na sua opinião, as cidades (brasileiras) são espaços</p><p>democráticos, onde todos possuem acesso aos mesmos serviços? As opções de mobilidade urbana, os</p><p>equipamentos referentes à segurança pública e os de entretenimento estão disponíveis de forma isonômica</p><p>entre os diversos setores da cidade? A cidade permite o seu usufruto por parte das pessoas com deficiência?</p><p>Inicialmente, aproveitando uma ideia do nosso texto motivador, é importante conhecer o conceito de direito</p><p>à cidade, o qual refere-se à ideia de que todas as pessoas têm o direito de habitar, usar, produzir, governar e</p><p>desfrutar das cidades de forma igualitária18.</p><p>De forma objetiva, podemos definir segregação como o processo econômico, social ou cultural que se</p><p>relaciona com a perda de contato entre diferentes segmentos sociais dentro do espaço urbano. Você pode</p><p>abordar esse tema de diversas formas.</p><p>18 Disponível em: https://polis.org.br/direito-a-cidade/o-que-e-direito-a-cidade/. Acesso em 20 de julho de 2021.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>27</p><p>Você pode definir a sua tese apresentando as causas do problema (tese por responsabilização), a exemplo</p><p>do rápido processo de urbanização e da intensa desigualdade social existente no país. É possível também</p><p>apresentar as consequências (tese por problematização), por exemplo, o processo de favelização (formação</p><p>dos aglomerados subnormais) e do aumento da violência. Uma terceira via é misturar os dois tipos,</p><p>apresentando na tese uma causa e uma consequência. Por fim, pode também uma tese por antecipação da</p><p>proposta de intervenção, em que você aponte como resolver o problema da segregação urbana.</p><p>As primeiras cidades surgiram, inicialmente, como pequenas aldeias às margens dos rios, por volta de 4.000</p><p>a 3.000 a.C.. Ao longo do tempo, a dinâmica de ocupação territorial passou por diversas transformações,</p><p>mas pode-se dizer que foi a partir da Revolução Industrial, ocorrida no final do século XVIII, que a urbanização</p><p>se acelerou. A pujante atividade industrial fez com que as pessoas se deslocassem para as áreas próximas ao</p><p>trabalho, iniciando, assim, um intenso êxodo rural. Esse processo veio se consolidando ao longo do tempo,</p><p>influenciado pela centralização da administração do Estado, pelo crescimento do comércio nas cidades, pela</p><p>mecanização do meio rural e pela concentração fundiária.</p><p>Esse movimento que, no seu início, restringia-se aos países desenvolvidos, generalizou-se a partir do século</p><p>XX. Se, no início do século 19, menos de 5% da humanidade vivia em cidades, atualmente, segundo a ONU,</p><p>55% da população mundial vive em áreas urbanas e a expectativa é de que essa proporção aumente para</p><p>70% até 205019.</p><p>Junto à intensa urbanização o crescimento das cidades em população e extensão, vieram os problemas,</p><p>sentidos, principalmente, nos países em desenvolvimento. O rápido crescimento populacional nesses países</p><p>não veio acompanhado de estruturas que pudessem acomodar de forma sustentável essa população, o que</p><p>acarretou problemas em áreas como transportes, energia, saneamento urbano, saúde, trabalho e moradia.</p><p>Esse processo de rápida urbanização, aliado a falhas de planejamento e gestão, gerou consequências e</p><p>desafios que permanecem presentes até os dias atuais: favelização; vários problemas referentes ao</p><p>saneamento básico (excesso de lixo, falta de rede de coleta de esgoto e de rede de distribuição de água</p><p>potável); poluição; violência; inundações; presença de ocupações irregulares; falta de opções de lazer e</p><p>cultura e problemas de mobilidade urbana.</p><p>Assim como grande parte dos países em desenvolvimento, o processo de urbanização brasileiro se acelerou</p><p>a partir da segunda metade do século XX, ancorando-se num crescimento populacional expressivo. O dado</p><p>mais recente foi divulgado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2015 (PNAD): 84,72% dos</p><p>brasileiros vivem em áreas urbanas. Acompanhe a evolução pela tabela abaixo:</p><p>Ano 1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000 2007 2010</p><p>Urbanização (%) 31,24 36,16 44,67 55,92 67,59 75,59 81,23 83,48 84,36</p><p>19 Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2019/02/1660701. Acesso em 20 de julho de 2021.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>28</p><p>Feita essa introdução, será que as cidades brasileiras podem ser consideradas democráticas?</p><p>As cidades são por definição espaços compartilhados por cidadãos de diferentes origens e classes</p><p>sociais. Uma cidade democrática é aquela em que todas e todos, sem discriminação de classe social, gênero,</p><p>cor ou orientação sexual, podem desfrutar dos espaços públicos com a mais ampla liberdade possível. Isso</p><p>envolve mobilidade, meio ambiente, moradia, lazer, segurança, saúde, educação, saneamento, acesso à</p><p>cultura, participação política, entre outras questões. Vamos analisar essa</p><p>questão em detalhes logo depois</p><p>de esclarecer alguns conceitos.</p><p>Quando se fala em direito à cidade, naturalmente, emergem três conceitos da geografia social: segregação</p><p>socioespacial, autossegregação e gentrificação.</p><p>A segregação socioespacial é um conceito que relaciona as desigualdades sociais, econômicas, culturais,</p><p>históricas e raciais ao espaço físico. Trata-se de um processo socioeconômico que diz respeito à perda de</p><p>contato entre grupos sociais dentro de um mesmo espaço urbano. A segregação socioespacial nega o direito</p><p>à cidade, visto que marginaliza indivíduos ou grupos sociais. A formação de favelas, habitações em áreas</p><p>irregulares, cortiços e áreas de invasão são exemplos comuns de materialização da segregação urbana.</p><p>No caso brasileiro, essa segregação foi iniciada pelo processo de urbanização e intensificada pela enorme</p><p>desigualdade social existente no país. Esse fenômeno, inclusive, pode ser reforçado pelo próprio Estado</p><p>quando prioriza investimentos nas áreas ocupadas pela população de mais alta renda ou constrói casas</p><p>populares em bairros desprovidos de infraestrutura adequada, negligenciando ou simplesmente ignorando</p><p>a parte ocupada pelos mais pobres.</p><p>Essa segregação pode ocorrer de forma compulsória, em que aos pobres só resta a ocupação das áreas</p><p>periféricas, ou de forma voluntária, assumindo a forma de autossegregação.</p><p>Por autossegregação entende-se a decisão espontânea de se isolar. Isso ocorre de forma clara na formação</p><p>dos condomínios fechados. Trata-se de locais fechados, permanentemente vigiados, seguros e onde os</p><p>moradores podem encontrar todo tipo de serviço. Isso também tem a ver com a tendência de</p><p>"camarotização" da sociedade.</p><p>A "camarotização" relaciona-se também à ideia de separação física entre as pessoas, tendo como critério a</p><p>renda. Decorre dessa tendência a criação dos espaços VIP em estádios de futebol, boates, teatros, carnaval,</p><p>entre outros. Envolve conceitos ligados a privilégio, sociedade do espetáculo, poder do consumo,</p><p>ostentação, entre outros. Trata-se da superação do modelo em que o "ter" é mais importante que o "ser",</p><p>pois, com esse processo, o "parecer" acaba sendo mais importante que o "ter", podendo ser considerado</p><p>como um fim em si mesmo.</p><p>A mercantilização existente em todas as esferas faz com que se perca o contato entre pessoas de classes</p><p>econômicas diferentes, o que representa uma perda em termos coletivos. Os "rolezinhos" nos shoppings</p><p>mostram uma tentativa de romper essa lógica, fato que, obviamente, não justifica o vandalismo.</p><p>Já a gentrificação é um processo pelo qual áreas que anteriormente eram degradadas, ocupadas pela</p><p>população de baixa renda, ao passarem por um processo de valorização, têm o seu custo de vida aumentado,</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>29</p><p>expulsando os antigos moradores da área. Esse processo de valorização se reflete, por exemplo, no aumento</p><p>dos aluguéis, do IPTU, do valor dos produtos no comércio e pode ser causado pela construção de um museu,</p><p>um parque, um shopping ou um estádio de eventos esportivos.</p><p>Um exemplo claro de gentrificação ocorreu no Rio de Janeiro por conta da revitalização do centro da cidade</p><p>por causa das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Lugares antes totalmente degradados foram valorizados pela</p><p>realização de inúmeros empreendimentos (exemplo: Porto Maravilha e Lapa Legal), expulsando a população</p><p>mais pobre desses locais.</p><p>Pode-se falar também em mercantilização das cidades, ou seja, a transformação da cidade em mercadoria.</p><p>Observa-se, nesse contexto, que as decisões privilegiam o interesse de grupos financeiros e do mercado</p><p>imobiliário em detrimento dos interesses e das necessidades da maioria da população urbana. Observa-se,</p><p>nesse mesmo sentido, uma privatização dos espaços públicos, processo em que espaços, antes dedicados ao</p><p>público, foram transferidos para a iniciativa privada.</p><p>Um exemplo disso pode ser visto no contexto da transformação dos estádios em arenas. Acerca do tema,</p><p>confira o seguinte excerto20:</p><p>A maior parte dos estádios foi repassada para o controle de empresas privadas, que os transformaram</p><p>em arenas com shoppings, em templos de consumo. Assim, os estádios deixaram de ser espaços</p><p>populares, onde o ato de ir a um jogo de futebol era uma prática identitária cultural brasileira, e agora</p><p>passaram a dar lugar a uma espetacularização do esporte. Hoje assistir a uma partida de futebol tornou-</p><p>se uma experiência de consumo em que as pessoas vão às arenas, sentam-se na área VIP em cadeiras</p><p>confortáveis. A maneira de torcer muda e os valores que se paga também mudam. Nesse espaço há lojas,</p><p>restaurantes e lanchonetes de grife. E assim a própria experiência de torcer vai sendo transformada</p><p>nesse processo de mercantilização da cidade e dos seus lugares públicos.</p><p>[...]</p><p>Quem tiver dinheiro terá acesso ao melhor, quem tem uma renda média vai usufruir de espaços e</p><p>serviços médios e quem não tiver recursos será excluído de tudo. Mais uma vez estamos diante do risco</p><p>de construirmos cidades mais desiguais, mais excludentes.</p><p>Feitos esses esclarecimentos, podemos analisar alguns aspectos que nos permitirão formar uma opinião</p><p>sobre se as cidades são, de fato, espaços democráticos.</p><p>No que se refere à mobilidade urbana, sabe-se que os meios de transporte não são compartilhados de forma</p><p>isonômica. É inconteste que as áreas mais nobres são mais bem assistidas por meio de transporte público.</p><p>Agrava essa situação o fato de as populações que habitam nas áreas periféricas serem justamente as que</p><p>mais necessitam de transporte público e as que residem mais distante dos locais onde trabalham.</p><p>20 http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/550815-megaeventos-e-a-mercantilizacao-das-metropoles-</p><p>brasileiras-entrevista-especial-com-orlando-alves-dos-santos-junior</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>30</p><p>Há, no entanto, outros vieses na lógica da mobilidade urbana. A mobilidade envolve, também, questionar a</p><p>sua acessibilidade, ou seja, se as pessoas com deficiências ou com mobilidade reduzida podem desfrutar do</p><p>direito de circularem e se movimentarem pelos espaços da cidade de forma plena e livre de barreiras.</p><p>Apesar dos recentes avanços legislativos, nas cidades brasileiras, a acessibilidade está ainda longe de ser</p><p>alcançada, haja vista os seus inúmeros problemas. São comumente encontradas calçadas com problemas de</p><p>pavimentação, transporte público sem as adaptações para quem usa cadeira de rodas, falta de rampas de</p><p>acesso em edifícios, entre outros.</p><p>No que se refere às opções de lazer, esporte e cultura, também se verifica uma distribuição geográfica</p><p>assimétrica nas cidades, ou seja, a disponibilidade desses equipamentos também está relacionada a uma</p><p>perspectiva de divisão socioespacial. As áreas consideradas nobres contam com a maioria dos equipamentos</p><p>desse tipo, fato que, aliado à questão dos custos envolvidos, dificulta o acesso por parte da população mais</p><p>carente.</p><p>É importante rememorar que, embora seja direito assegurado na Constituição Federal da República</p><p>Federativa do Brasil de 1988 a todos os cidadãos, percebe-se ainda no Brasil um contexto em que o lazer se</p><p>posta como privilégio de consumo e como um produto da mercantilização da qualidade de vida. Trocando</p><p>em miúdos, majoritariamente, só tem condições de usufruir de espaços como museus, quadras</p><p>poliesportivas, cinemas, entre outros, quem possuir renda para tal.</p><p>Outra abordagem a ser trabalhada é a da segurança pública. De fato, as áreas mais nobres e turísticas</p><p>recebem uma atenção especial do policiamento,</p><p>muito mais presente e mais dedicado em resolver os</p><p>problemas que nas áreas periféricas. Já nas áreas mais pobres, muito mais desassistidas, a violência se</p><p>manifesta das mais diversas formas.</p><p>As zonas pobres, caracterizadas pela ausência do Estado em diversos sentidos, oferecem a localização</p><p>privilegiada para o estabelecimento do território do crime. As organizações criminosas se apropriam desses</p><p>locais, tornando-os seus territórios, e articulam as ações no espaço urbano, subjugando a população desses</p><p>locais a toda sorte de violências. O crime organizado se alimenta da pobreza e o isolamento imposto pelo</p><p>seu controle contribui para aumentá-la. Os confrontos com o Estado e entre as próprias facções geram</p><p>violência, representada pelo alto número de homicídios.</p><p>Embora a Constituição Federal de 1988 garanta o direito fundamental de ir e vir com segurança, isso está</p><p>bem longe de se concretizar. Embora detenham direitos constitucionais como os demais, os habitantes de</p><p>áreas carentes são tratados como “infracidadãos” ou “subcidadania”.</p><p>Nesse quesito há também um recorte de segregação racial. Segundo o Atlas da Violência de 2020, em 2018,</p><p>os negros representaram 75,7% das vítimas de homicídios e, para cada indivíduo não negro morto em 2018,</p><p>2,7 negros foram mortos.</p><p>Assim, observa-se a existência de cidades diferentes dentro da mesma cidade. O direito à vida não é</p><p>assegurado de forma isonômica, independentemente do local em que se reside. Não sem causa, o Brasil é o</p><p>país onde a população mais teme a violência no mundo conforme o Global Peace Index 2021.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>31</p><p>Esse pânico coletivo, cada vez mais legitima políticas de segurança, de controle, e os espaços públicos deixam</p><p>de ser espaços de convivência. Exemplos disso são os grandes condomínios, tema já mencionado.</p><p>Outro ponto cuja discussão é necessária é a capacidade de participação nas decisões políticas das cidades. A</p><p>gestão participativa e democrática, prevista no Estatuto da Cidade – art. 2º, II –, assegura a participação da</p><p>população e associações representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação, na execução</p><p>e no acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano nas discussões e</p><p>debates sobre o futuro da cidade, de modo que os cidadãos possam manifestar sua opinião.</p><p>Apesar dos avanços, essa participação popular no planejamento urbano é ainda bem escassa. Segundo a</p><p>pesquisa "Direito à participação nas políticas urbanísticas: avanços após 15 anos de estatuto da cidade21"</p><p>[...] tendo em vista o contexto vigente de escassa atuação popular na elaboração, execução e</p><p>fiscalização do cumprimento dos instrumentos de planejamento urbano, os avanços do período</p><p>democrático trouxeram conquistas legais que, embora relevantes, foram insuficientes, com resultados</p><p>que não se manifestaram plenamente na esfera executiva, com nítidas defasagens nos canais de</p><p>participação. E, mais do que isso, com notáveis exceções, destaca-se o esvaziamento das instâncias</p><p>participativas e decisórias tidas como “de fachada”, existentes apenas para constar no processo de</p><p>elaboração dos planos diretores, mas carentes de efetividade ou de relevância para os responsáveis</p><p>pelas decisões governamentais. Assim sendo, embora tenham sido identificados profundos avanços</p><p>normativos, legais e institucionais quanto à adoção de iniciativas inclusivas e dialogadas, com controle</p><p>social sobre o planejamento urbanístico, ainda imperam formas de participação popular restritas ao</p><p>caráter consultivo e informativo (em vez de decisório).</p><p>Outro ponto refere-se ao meio ambiente. Não há dúvidas sobre a discrepância existente entre áreas nobres</p><p>e pobres nesse quesito. Como primeiro aspecto, pode-se falar sobre o saneamento básico, pois imensas são</p><p>as diferenças no que se refere a água potável, coleta de lixo e rede de esgoto.</p><p>Além do fator ambiental, deve-se recordar que esse aspecto afeta diretamente o direito à saúde. A carência</p><p>de serviços de água potável e de coleta e de tratamento de esgoto, a destinação inadequada do lixo e a má</p><p>deposição dos dejetos cria um ambiente propício ao desenvolvimento de doenças graves, como diarreia,</p><p>hepatite A, verminoses, dengue, leptospirose, entre outras. A maior parte das doenças relacionada à falta</p><p>de saneamento básico se desenvolvem devido à água contaminada</p><p>Além disso, há o problema da exposição das periferias às intempéries. Eventos como chuvas torrenciais</p><p>provocam deslizamentos de terra e inundações, consequências vivenciadas, principalmente, pela população</p><p>de baixa renda.</p><p>Segundo o Documento Temático 11 da Conferência Habitat III (Espaço Público) (ONU, 2015), ao longo dos</p><p>últimos trinta anos, os espaços públicos se tornaram altamente comercializados e estão sendo substituídos</p><p>por edifícios privados ou semipúblicos, e essa comercialização divide a sociedade e separa as pessoas por</p><p>21 https://www.nexojornal.com.br/academico/2018/12/19/Como-a-popula%C3%A7%C3%A3o-participa-da-gest%C3%A3o-das-</p><p>cidades-no-Brasil</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>32</p><p>classes sociais. Como resposta ao aumento do total de taxas de criminalidade registradas no mundo (em</p><p>torno de 30%), houve um crescimento de comunidades fechadas, seladas por muros e instalações de</p><p>segurança sofisticadas, em quase todas as cidades da América Latina.</p><p>Acredito que tenhamos passado pelos principais pontos. Vamos focar aqui no arcabouço legislativo brasileiro</p><p>a tratar sobre a matéria.</p><p>A Constituição Federal de 1988 (CF/1988), em seu art. 6°, estabeleceu uma série de direitos no que se refere</p><p>à cidade, entre eles moradia, transporte, lazer, segurança e proteção à maternidade e à infância. Adensando</p><p>a discussão, lá no seu art. 182, a CF/1988 estabelece a obrigatoriedade (para as cidades com mais de 20.000</p><p>pessoas) da existência de um plano diretor, bem como das diretrizes gerais da política urbana.</p><p>Essas diretrizes foram estabelecidas pelo famoso Estatuto das Cidades (Lei 10.257/2001), entre as quais,</p><p>posso destacar: garantia do direito a cidades sustentáveis22, gestão democrática, planejamento do</p><p>desenvolvimento das cidades, oferta de equipamentos urbanos e comunitários, transporte e serviços</p><p>públicos adequados aos interesses e necessidades da população e às características locais, ordenação e</p><p>controle do uso do solo, entre outros. Pode-se dizer, então, que a ideia de direito à cidade expressa na lei</p><p>sintetiza um amplo rol de direitos.</p><p>O instrumento mais importante no planejamento das cidades é o plano diretor. Trata-se do instrumento</p><p>básico da política de desenvolvimento e expansão urbana, de âmbito municipal, que, em linhas básicas, tem</p><p>como objetivo estruturar o crescimento e o desenvolvimento da cidade de maneira organizada ao longo do</p><p>tempo.</p><p>Sugestão de repertório</p><p>1.Cidadania segundo Thomas Marshall: segundo o sociólogo britânico, somente seria possível falar em</p><p>cidadania a partir da conquista de direitos civis, políticos e sociais.</p><p>2. Cidadão de Papel por Gilberto Dimenstein: no livro O Cidadão de Papel - A Infância, A Adolescência e Os</p><p>Direitos Humanos no Brasil, o jornalista explica que "cidadão de papel" se refere a " um cidadão com direitos</p><p>adquiridos, mas não usufruídos e isso acontece, na grande maioria, por falta de informação. Ele conhece</p><p>pouco ou quase nada sobre os direitos que possui, não manifestando suas opiniões, não fazendo</p><p>reivindicações e muito menos lutando pela garantia destes direitos". "É um cidadão que usufrui uma</p><p>cidadania aparente denominada cidadania de papel.</p><p>A verdadeira democracia implica na conquista e</p><p>efetividade dos direitos sociais, políticos e civis, caso contrário, a cidadania permanece inerte no papel. A</p><p>cidadania de papel, portanto, surge com o desrespeito aos direitos fundamentais do homem, com a falta de</p><p>escolas, com a migração, com a desnutrição, com o desemprego e com a pobreza"23.</p><p>22 Segundo o Estatuto das Cidades, esse conceito deve ser entendido como o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento</p><p>ambiental, à infraestrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras</p><p>gerações.</p><p>23 http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=22237</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>33</p><p>Assim, o cidadão de papel é um indivíduo cujos direitos encontram-se positivados apenas no papel,</p><p>carecendo de aplicação prática.</p><p>3. Apartheid social: trata de uma expressão que sinaliza "uma situação em que pessoas de diferentes</p><p>estratos sociais são rejeitadas e discriminadas, não tendo as mesmas oportunidades que as outras pessoas.</p><p>Assim, alguns grupos sociais são desfavorecidos, não tendo acesso a condições satisfatórias de educação,</p><p>saneamento básico, saúde, transporte e moradia.24"</p><p>Feitas essas considerações, acredito que já existem insumos mínimos para a produção do seu texto. Por isso,</p><p>mãos à obra!</p><p>Proposta de solução</p><p>A atual Constituição Federal do Brasil garante aos indivíduos uma gama de direitos,</p><p>cujo exercício é condição para a cidadania. Apesar disso, observa-se, no país, um cenário</p><p>urbano de intensa segregação, provocado pelo processo acelerado de urbanização e que se</p><p>evidencia pela considerável desigualdade de direitos entre os cidadãos.</p><p>Inicialmente, esclareça-que o processo acelerado de urbanização é uma das causas da</p><p>intensa segregação espacial. Com efeito, o processo de industrialização provocou uma rápida</p><p>urbanização: o país, eminentemente agrário até a primeira metade do século XX, hoje conta</p><p>com mais de 80% dos seus habitantes residindo em cidades. Contudo junto a essa migração</p><p>massiva vieram os problemas, causados pela incapacidade do governo de proporcionar</p><p>condições mínimas de sobrevivência para esse contingente humano.</p><p>Essa segregação socioespacial acaba se refletindo, diretamente, no exercício de direitos</p><p>por parte dos cidadãos. De fato, entre os moradores dos bairros nobres e das periferias, há</p><p>uma enorme discrepância na qualidade dos serviços públicos ofertados, como segurança</p><p>pública, saneamento básico, lazer e transportes. Essa diferenciação, a qual obsta o exercício</p><p>de direitos por parte das populações mais precarizadas, fragmenta o tecido social e cria</p><p>escalonamento entre os cidadãos, o que vai de encontro à acepção de igualdade inerente a</p><p>essa condição.</p><p>Diante do exposto, verifica-se um contexto de intensa segregação urbana no país. Sem a</p><p>superação desse problema, os ideais previstos na Constituição Federal consistiram em mera</p><p>teoria, apartada da realidade de grande parte da população brasileira.</p><p>24 https://www.significados.com.br/apartheid/</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>com metais pesados o solo e os rios. Por fim, há</p><p>os desastres nucleares, como os ocorridos em Chernobyl (1986) e Fukushima (2011).</p><p>Desastres ambientais não são novidades, entretanto a degradação ambiental e o avanço da intervenção do</p><p>homem na natureza têm os tornado prejudiciais e recorrentes. Nesse sentido, cabe abordar a questão dos</p><p>efeitos climáticos extremos.</p><p>A comunidade científica vê de forma predominante que a ação humana tem provocado os eventos</p><p>climáticos extremos — grandes inundações, grandes secas, ondas de calor muito fortes. E o pior,</p><p>principalmente pelo aumento do efeito estufa, a tendência é que tais eventos se tornem mais severos.</p><p>Destaco o seguinte fragmento do Nexo Jornal2:</p><p>As principais projeções de cientistas sobre o presente e o futuro próximo mostram que, por causa das</p><p>perturbações que esses poluentes causam na atmosfera e na dinâmica de todo o clima, a tendência é</p><p>que ao longo deste século os chamados eventos extremos climáticos (que são mais intensos e atípicos)</p><p>aumentem em frequência, intensidade e duração.</p><p>Assim, uma região como a Austrália, onde os incêndios já são parte natural dos ecossistemas, deve ver</p><p>mais casos em que o fogo extrapolará a intensidade usual, uma cidade como Veneza deve ver que a</p><p>maré ficará mais alta, as chuvas deverão ser mais fortes no Rio de Janeiro e a estação seca durará mais</p><p>na região da Amazônia, como é possível ver hoje. É provável que, com o tempo, isso se torne o “novo</p><p>normal”.</p><p>Se não tiverem resiliência para suportar os eventos inéditos, os países estarão sujeitos a ver as</p><p>mudanças no padrão do clima se transformarem rapidamente em desastres. Após pouco mais de três</p><p>meses desde o início dos incêndios, em setembro de 2019, o caso australiano mostra que há 28 pessoas</p><p>e cerca de um bilhão de animais mortos. O impacto também recai sobre a agricultura e a economia</p><p>local.</p><p>• 57,3 milhões de pessoas foram afetadas por fenômenos climáticos extremos em 2018, segundo</p><p>a base internacional Emergency Events Database</p><p>Nessa mesma linha de raciocínio, inundações e desabamentos são consequências diretas das chuvas, mas o</p><p>problema não é apenas meteorológico, é humano, pela falta de planejamento urbano. Disso derivam outros</p><p>elementos, como a ocupação desordenada e o acúmulo de lixo e entulho, todos ligados à ação humana.</p><p>As construções deixam o solo impermeável, impedindo que ele absorva a água. O lixo entope bueiros. A</p><p>destruição da mata ciliar dos rios, a ocupação humana das áreas de várzeas e o desmatamento das encostas</p><p>ignoram o fato de as árvores funcionarem como uma camada impermeabilizadora. Assim, o</p><p>2 Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/01/17/Como-a-ci%C3%AAncia-associa-desastres-</p><p>ambientais-%C3%A0-crise-do-clima. Acesso em 09 de setembro</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>5</p><p>desflorestamento fragiliza o solo e as construções irregulares o tornam instável, tornando-o mais propenso</p><p>a deslizamentos. A maioria dos desastres ocorrem em áreas que não deveriam estar ocupadas ou que</p><p>deveriam ter um projeto urbanístico e técnicas de construção específicas.</p><p>Outra lógica é a duração dos efeitos dos desastres ambientais.</p><p>Como possíveis danos imediatos de um desastre ambiental, podem-se mencionar acidentes com mortos e</p><p>feridos, desabamentos, suspensão de fornecimento de água potável, de energia elétrica e de serviço</p><p>telefônico e de Internet, além de afogamentos (em caso de enchentes e tsunamis), do contato direto do ser</p><p>humano com agentes insalubres e(ou) tóxicos, da contração de doenças em decorrência do lixo acumulado</p><p>e da perda de bens móveis e imóveis – casas, carros, eletrodomésticos, documentos pessoais –, entre outros</p><p>exemplos.</p><p>Como possíveis danos a médio e longo prazo, podem ser mencionados os impactos em diversos setores</p><p>econômicos – tais como a agricultura, que pode levar anos para se recompor –, os prejuízos para a saúde</p><p>física e psicológica da população, os danos para a fauna e para a paisagem natural da região, a destruição</p><p>da infraestrutura pública, como a queda de pontes e estradas, entre outros.</p><p>É possível que se mencione, ainda, que desastres naturais também podem ocasionar movimentos</p><p>migratórios. Foi o que aconteceu, por exemplo, no ano de 2010, após um terremoto no Haiti, que atingiu a</p><p>magnitude de 7 graus na escala Richter, quando considerável parcela da população haitiana migrou para o</p><p>Brasil. Inclusive, a ONU reconheceu recentemente a existência dos refugiados climáticos, aqueles cujas vidas</p><p>são iminentemente ameaçadas pelas mudanças climáticas3.</p><p>Em 2021, a agência da ONU para Refugiados (ACNUR) publicou dados mostrando como os desastres ligados</p><p>às mudanças climáticas provocaram mais do que o dobro de deslocamentos do que conflitos e violência</p><p>na última década. Desde 2010, as emergências climáticas obrigaram cerca de 21,5 milhões de pessoas a se</p><p>mudarem em média por ano segundo a ACNUR.</p><p>A tragédia de Brumadinho provocou o deslocamento de mais de 24 mil pessoas. Inclusive, segundo o</p><p>Instituto Igarapé, entre 2000 e 2017 estima-se a existência de cerca de 315 mil pessoas deslocadas</p><p>forçadamente no país, em função de desastres como alagamentos, deslizamentos, rompimento de barragens</p><p>e outros.</p><p>Quanto às ações do governo, pode ser mencionado, por exemplo, que é possível prever certos desastres</p><p>naturais e informar a população com antecedência, para que os danos sejam minimizados tanto quanto</p><p>possível. Pode-se, por exemplo, mapear as áreas em que ocorrem terremotos com mais frequência com o</p><p>uso de sismógrafos. Por meio dos dados obtidos, é possível supor que um terremoto deve atingir</p><p>determinada região dentro de um número estimado de anos, embora não seja possível prever a sua</p><p>ocorrência. É necessário, pois, incorporar uma cultura de gestão de riscos e atuar de forma preditiva.</p><p>3 Disponível em: https://g1.globo.com/natureza/blog/amelia-gonzalez/post/2020/01/31/onu-reconhece-pela-primeira-vez-que-</p><p>existem-refugiados-climaticos.ghtml. Acesso em 11 de novembro de 2020.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>6</p><p>Existem, também, sistemas de alarme que avisam sobre a ocorrência de um terremoto enquanto ele está</p><p>acontecendo e, com base nos tremores iniciais, é possível avisar a população, com alguns segundos de</p><p>antecedência, de que um tremor maior está por vir e aconselhar que se busque um lugar seguro. Foi o que</p><p>fez, por exemplo, o governo do Japão, que, em 2011, quando sofreu um terremoto fortíssimo (8,9 graus na</p><p>escala Richter) seguido de tsunami (com ondas de aproximadamente dez metros de altura), emitiu um alerta</p><p>para a população um minuto antes da ocorrência do maior tremor e cerca de uma hora antes que o tsunami</p><p>atingisse a costa, o que evitou danos ainda maiores à população.</p><p>É possível, também, prever a ocorrência de furacões e preparar-se para a sua chegada. O governo de locais</p><p>onde costuma haver furacões deve alertar antecipadamente a população acerca de sua ocorrência por meio</p><p>de mensagens nas mais diversas mídias. O governo dos Estados Unidos, por exemplo, tem um serviço de</p><p>alerta à população, via mensagens de celular, que informa, inclusive, sobre rotas de evacuação.</p><p>"Inovações tecnológicas, como inteligência artificial e automação de dados, podem representar</p><p>respostas mais eficazes para área de prevenção do rompimento de barragens e de alerta de grandes</p><p>chuvas e tempestades. Nos EUA, empresas como a Microsoft estão investindo no desenvolvimento de</p><p>mapas de altíssima resolução, que concentram enormes quantidades de dados, capazes de produzir</p><p>análises e projeções</p><p>de enchentes e volume d’água em dada região. Com essas informações, os gestores</p><p>podem planejar melhor cidades ou até mesmo rotas de fugas emergenciais em caso de catástrofes.</p><p>Além disso, o desenvolvimento e a proliferação do uso de sensores fornecem dados mais exatos e</p><p>atualizados, podendo contribuir para agilizar a emissão de alertas aos cidadãos em casos de desastres</p><p>iminentes"4.</p><p>No que diz respeito às enchentes, comuns no Brasil, a medida mais eficaz a ser adotada pelos governos locais</p><p>seria prevenir a sua ocorrência, o que pode se dar por meio da construção de sistemas eficientes de</p><p>drenagem, da desocupação de áreas de risco, da criação de reservas florestais nas margens dos rios, da</p><p>diminuição dos índices de poluição e geração de lixo e de um planejamento urbano mais consistente.</p><p>Além disso, ações que envolvessem o desenvolvimento sustentável, o manejo sustentável do solo, o uso</p><p>consciente da água, a reutilização de recursos naturais e o consumo consciente contribuiriam sobremaneira</p><p>para a diminuição das chances de ocorrência de certos desastres.</p><p>Outrossim, é papel do governo, por meio dos seus órgãos e entidades, exercer criteriosa fiscalização sobre</p><p>as empresas cuja atividade possa representar danos ao meio ambiente, como as mineradoras ou usinas</p><p>nucleares. Ao se detectarem desvios, deve-se buscar a responsabilização de forma célere e proporcional ao</p><p>dano sofrido.</p><p>Outra possibilidade é o investimento do governo em projetos educacionais voltados à conscientização da</p><p>população com relação ao meio ambiente, os quais também podem constituir uma importante medida de</p><p>prevenção de desastres.</p><p>4 Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2020/Desastres-clim%C3%A1ticos-e-deslocamentos-for%C3%A7ados.</p><p>Acesso em 09 de setembro de 2021.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>7</p><p>Após a ocorrência dos desastres naturais, os governos locais devem dar total assistência às populações</p><p>atingidas, fornecendo, sempre que necessário, abrigo, água potável, alimentação, atendimento médico,</p><p>além de proporcionar meios favoráveis à retomada das condições de bem-estar existentes antes do</p><p>incidente.</p><p>Devem-se também, por meio de órgão como o Ministério Público (MP) ou análogos, promover a adoção, por</p><p>parte dos que deram causa ao desastre, de medidas reparadoras e compensatórias ao ambiente e às pessoas.</p><p>O MP possui legitimidade ativa para ajuizar ações civis públicas com o intuito de fazer com que se reconstitua</p><p>o meio ambiente e que se compensem as pessoas pelas perdas materiais e pessoais sofridas. Além das ações</p><p>judiciais, pode o MP firmar os Termos de Ajustamento de Conduta (TACs), acordos do MP com o violador de</p><p>determinado direito coletivo e instrumento para dar maior celeridade às recomposições.</p><p>Referências Legais</p><p>1. Lei 12.608/2012: institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil - PNPDEC, dispõe sobre o Sistema</p><p>Nacional de Proteção e Defesa Civil - SINPDEC e o Conselho Nacional de Proteção e Defesa Civil - CONPDEC,</p><p>autoriza a criação de sistema de informações e monitoramento de desastres e dá outras providências.</p><p>2. Decreto 10.593/ 2020: regulamenta a lei supra.</p><p>3. Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998): dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas</p><p>de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. Esse seria o instrumento para a responsabilização penal</p><p>dos causadores de desastres ambientais.</p><p>Proposta de solução</p><p>Furacões, enchentes, terremotos, deslizamentos de terra, rompimento de barragens,</p><p>Furacões, enchentes, terremotos, deslizamentos de terra, rompimento de barragens, derramamento</p><p>de óleo no mar: muitos são os desastres ambientais que acometem a humanidade. Provocados ou</p><p>não pela ação humana, esses eventos produzem diversas consequências danosas à humanidade e</p><p>ao meio ambiente, o que exige dos governos a adoção de ações preventivas e reparadoras nos locais</p><p>atingidos.</p><p>Inicialmente, pontue-se haver inúmeros danos provocados pelos desastres naturais. Entre eles,</p><p>mencionem-se a perda ou deterioração do patrimônio, a disseminação de doenças e, nos casos mais</p><p>graves, a morte dos afetados. Há também graves danos ao meio ambiente e à infraestrutura (pontes,</p><p>estradas), prejuízos à agricultura, pela degradação da área afetada, e à saúde física e mental das</p><p>pessoas, que, além da possibilidade de contaminação e do trauma, podem, inclusive, ter que migrar</p><p>para reconstruir as suas vidas em outros locais.</p><p>Nesse contexto, há a necessidade de ações preventivas por parte dos governos. Com efeito, é</p><p>possível, em certos casos, prever a ocorrência de desastres e minimizar as suas consequências aos</p><p>indivíduos e ao meio ambiente. Por exemplo, com a utilização de tecnologia, pode-se antever a</p><p>ocorrência de furacões, preparar a população para a sua chegada e organizar a desocupação dos</p><p>locais possivelmente afetados.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>8</p><p>Por fim, não sendo possível evitar a ocorrência das tragédias, os governos devem dar total</p><p>assistência às populações atingidas, fornecendo meios para a retomada das condições de bem-estar</p><p>existentes antes do incidente. Devem providenciar a satisfação de necessidades mais imediatas dos</p><p>atingidos, bem como buscar a regeneração das áreas degradadas.</p><p>Tema 6 – Privacidade</p><p>A Era da Informação tem início nos últimos anos do século XX. Ela parte do princípio da substituição da</p><p>cultura material pelo avanço do segmento informacional que advém das novas tecnologias. Esse período de</p><p>revoluções no campo técnico engloba os avanços nas telecomunicações, na computação – incluindo</p><p>softwares e hardwares – e na microeletrônica. Com a interconexão entre essas ferramentas veio à tona o</p><p>progresso em campos como transportes, produção industrial, medicina e fontes de energia.</p><p>[...]</p><p>O sociólogo espanhol Manuel Castells afirma que a Era da Informação é um evento histórico com a mesma</p><p>importância da Revolução Industrial do século XVIII, pois ocasionou uma alteração em campos como cultura,</p><p>sociedade e economia. Em seu livro, “A Sociedade em Rede”, Castells coloca a relevância dessa nova era no</p><p>campo da informação não somente com foco no conhecimento de dados, mas na aplicação do know-how</p><p>que o origina.</p><p>Para ele, as descobertas no segmento geram um ciclo que se retroalimenta. Nesse sentido, o usuário de uma</p><p>tecnologia primeiramente aprende por meio da utilização, depois passa a configurar as redes e descobrir</p><p>aplicações novas.</p><p>Esse fenômeno pode ser observado em um dos subprodutos notáveis da Era da Informação: as mídias sociais.</p><p>A partir do início de seu funcionamento na primeira década do século XXI, os usuários passaram por um</p><p>processo de transformação. Primeiramente, utilizadores tornaram-se produtores e modificadores de</p><p>conteúdo ao longo do tempo, criando uma troca constante e massiva de dados entre as redes e as pessoas.</p><p>O indivíduo passou a ser, dessa forma, também produto, ou seja, um ativo das companhias que gerenciam</p><p>as redes sociais, haja vista que sem a sua interação, essas empresas simplesmente inexistem.</p><p>Esse fenômeno é apontado por alguns especialistas. As críticas são a respeito da intromissão das grandes</p><p>companhias do gênero nas esferas particulares dos usuários. Ocorre, assim, uma crise entre o público e o</p><p>pessoal e são levantadas questões sobre os limites entre o real e o digital.</p><p>Derivado de uma pesquisa envolvendo especialistas da área, um paradigma tecnológico foi apontado na Era</p><p>da Informação. Ele diz respeito a algumas características problemáticas do funcionamento entre a tecnologia</p><p>e os indivíduos.</p><p>Entre elas, as mais notáveis são: a penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias, que</p><p>poderiam moldar processos individuais e coletivos, e o que diz respeito à lógica das redes, que implica no</p><p>crescimento exponencial da tecnologia e um possível panorama de exclusão digital.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>9</p><p>Esse processo poderia gerar contradições devido às interpretações do algoritmo aliadas aos problemas em</p><p>sociedades nas quais o avanço tecnológico não caminha em paralelo à compreensão dos cidadãos, mas</p><p>parece refrear o desenvolvimento referente a questões que envolvem a ética.</p><p>Disponível em: https://www.infoescola.com/sociedade/era-da-</p><p>informacao/. Acesso em: 20/08/2021. (Com adaptações)</p><p>Facebook conhece você melhor que seus amigos e família, diz pesquisa</p><p>Uma pesquisa publicada pelo “Proceedings of the National Academy of Sciences” afirmou que</p><p>o Facebook pode conhecer mais informações sobre você que a sua própria família e amigos. Os cientistas</p><p>criaram um modelo de computador que analisou os dados de 86.220 voluntários no Facebook, que também</p><p>completaram um questionário de 100 perguntas pelo aplicativo myPersonality. Cruzando as informações das</p><p>duas fontes, os estudiosos chegaram a resultados curiosos sobre a rede social.</p><p>Os voluntários também tiveram suas personalidades julgadas por amigos e familiares no Facebook, por meio</p><p>de 10 questões, e essas pessoas não conseguiram ser tão eficientes nas análises dos contatos quanto os</p><p>computadores. Os números são bem interessantes. O computador analisava curtidas em páginas de cada</p><p>usuário para fazer a análise da sua personalidade.</p><p>Em média, a cada 10 likes, era possível saber mais da pessoa do que um colega de trabalho, a cada 70 likes,</p><p>melhor do que um amigo ou colega de quarto, e a cada 150 likes, era mais eficiente até do que um parente.</p><p>Já para conseguir saber mais de alguém do que seu marido ou sua esposa, a coisa ficou mais difícil: foram</p><p>necessárias 300 curtidas analisadas para se obter o mesmo índice.</p><p>Segundo os pesquisadores, isso pode ser considerado normal, porque os algoritmos dos computadores</p><p>conseguem ler mais dados simultaneamente. No entanto, a capacidade surpreendeu os usuários. Além disso,</p><p>também ligou um alerta: o Facebook certamente sabe mais de você do que você imagina.</p><p>Disponível em: https://www.techtudo.com.br/noticias/noticia/2015/01/facebook-</p><p>conhece-voce-melhor-que-seus-amigos-e-familia-diz-pesquisa.html. Acesso em:</p><p>20/08/2021. (Com adaptações)</p><p>Considerando os textos acima como meramente motivadores, redija um texto dissertativo-argumentativo</p><p>sobre o seguinte tema: o dilema da privacidade na era da informação.</p><p>Abordagem teórica</p><p>1. Internet e privacidade</p><p>Os ganhos trazidos pela internet são inegáveis. Por outro lado, recentemente, tem-se discutido de forma</p><p>crescente as implicações em relação à perda de privacidade por parte das pessoas.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>10</p><p>Mas, afinal de contas, o que é privacidade? A privacidade é um direito humano reconhecido pela ONU desde</p><p>1948, na Declaração Universal dos Direitos do Homem5. Atualmente, a privacidade vai muito além do direito</p><p>de se isolar, de ficar só. Implica no direito de ter o controle sobre tudo que diz respeito à própria pessoa, de</p><p>escolher quais partes disso podem ser acessadas por outras pessoas e em como aquilo que se permitiu o</p><p>acesso pode ser usado. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 foi um marco por ter sido a primeira a</p><p>incluir o direito à privacidade.</p><p>Na era da tecnologia e das redes sociais, as violações mais comuns ocorrem no ambiente virtual. Divulgação</p><p>de fotos íntimas, vazamento e comercialização de dados pessoais ou e-mails, além da prática</p><p>de cyberbullying, por exemplo, são formas de violação à intimidade, à privacidade, à imagem ou à honra das</p><p>pessoas. A divulgação de fotos íntimas, por motivo de vingança (conhecida também como revenge porn), por</p><p>exemplo, tem se tornado cada vez mais comum no ambiente virtual e é um clássico exemplo de violação à</p><p>intimidade e à imagem.</p><p>Sem dúvidas, a privacidade tem grande dificuldade de se manter inviolável na era tecnológica, com a</p><p>exposição crescente na internet. As pessoas, por si sós, pelo uso das redes sociais de maneira livre e</p><p>consciente, fornecem uma série de informações sobre as suas vidas: círculo social, trabalho, família, locais</p><p>onde esteve etc. O que talvez muitos não sabem é como esses dados são usados.</p><p>Mais complexo ainda quando as pessoas sequer têm a noção de que estão gerando uma série de informações</p><p>que podem servir para um delineamento do seu perfil digital e podem ser objeto de comercialização,</p><p>servindo, inclusive para oferecer produtos de forma customizada.</p><p>De fato, a Era da Informação é também a era do fim da privacidade e da mercantilização da intimidade, da</p><p>monetização do comportamento, dos sentimentos (modernidade líquida6). A internet e a superconexão,</p><p>onde cada vez mais pessoas e coisas estão conectadas por mais tempo, geram uma infinidade de dados que</p><p>há muitos anos estão sendo armazenados (o Big Data) e que, agora, começam a ser tratados e vendidos,</p><p>gerando um mercado bilionário para empresas e até governos7.</p><p>Exibicionismo</p><p>Exibir detalhes da vida virou, sem dúvida, uma febre entre parcela dos usuários das redes sociais. A</p><p>sociedade atual está vivenciando a era do exibicionismo digital, pois as pessoas sentem uma necessidade</p><p>crescente de se autopromover nas redes sociais, mesmo que para isso tenham que abrir mão da própria</p><p>privacidade.</p><p>5 Nos termos do artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (Universal Declaration of Human RIGHTS): “Ninguém</p><p>será sujeito a interferências na sua vida privada, família, lar ou na sua correspondência, nem a ataque à sua honra e reputação.</p><p>Toda Pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques”.</p><p>6 O conceito de modernidade líquida foi desenvolvido pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman e diz respeito a uma nova época</p><p>em que as relações sociais, econômicas e de produção são frágeis, fugazes e maleáveis, como os líquidos.</p><p>7 Disponível em: https://reformapolitica.org.br/2017/07/31/sorria-voce-esta-sendo-monitorado-e-tem-muita-gente-lucrando-</p><p>com-isso/. Acesso em 21 de agosto de 2021.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>11</p><p>A sociedade vive um momento de supervalorização do “eu” e não estar nas redes sociais significa uma</p><p>condição de invisibilidade. Um dos motivos que explica isso é a possibilidade de criar fantasias nesse</p><p>mundo e transmitir uma imagem daquilo que gostaríamos de ser. A reação positiva, advinda das curtidas,</p><p>afaga o ego e supre lacunas existentes no mundo fora do virtual. Também, incentiva uma corrida para se</p><p>tornar uma celebridade online, seja entre seus amigos, seja em um grupo de desconhecidos em escala</p><p>global.</p><p>Como diria o sociólogo Zygmunt Bauman: “Os tempos atuais escorrem pelas mãos, um tempo líquido em</p><p>que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente</p><p>necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso</p><p>fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar”.</p><p>Contudo há ainda uma série de desdobramentos mais problemáticos. A alienação, consistente na</p><p>substituição do contato mais profundo com as pessoas pelo mundo de aparência das redes,</p><p>e a idealização</p><p>de uma realidade inexistente ou de um modelo de beleza socialmente estabelecido pode comprometer</p><p>seriamente a saúde mental dos usuários. O Instagram é a rede social mais prejudicial à saúde mental dos</p><p>usuários, de acordo com o estudo da instituição Royal Society For Public Health. O estudo mostrou que o</p><p>compartilhamento de fotos pelo Instagram impacta negativamente o sono, a autoimagem e aumenta o</p><p>medo dos jovens de ficar por fora dos acontecimentos e tendências (FOMO, fear of missing out).</p><p>A “vida perfeita” compartilhada nas redes sociais faz com que os jovens desenvolvam expectativas irreais</p><p>sobre suas próprias vivências. Não à toa, esse perfeccionismo atrelado à baixa autoestima pode</p><p>desencadear sérios problemas de ansiedade. Os pesquisadores advertem: os usuários que passam mais</p><p>que duas horas diárias conectados em mídias sociais são mais propensos a desenvolverem distúrbios de</p><p>saúde mental, como estresse psicossocial8.</p><p>A privacidade digital se tornou um tema recorrente no debate público durante a década de 2010. Em 2013,</p><p>o ex-técnico da CIA Edward Snowden divulgou um esquema massivo de coleta de dados por parte do</p><p>governo americano. Em 2018, um escândalo envolvendo o direcionamento de publicidade política manchou</p><p>a reputação do Facebook.</p><p>Entenda o caso de Edward Snowden, que revelou espionagem dos EUA9</p><p>No mês de junho, uma revelação sobre um esquema de monitoramento de dados organizado pelo governo</p><p>dos Estados Unidos agitou o noticiário internacional. Tratava-se do Caso Snowden, "batizado" com este</p><p>nome por causa do delator do esquema de monitoramento: Edward Snowden. O americano é um ex-</p><p>consultor técnico da Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos (EUA). Na época, Snowden</p><p>8 Disponível em: https://super.abril.com.br/sociedade/instagram-e-a-rede-social-mais-prejudicial-a-saude-mental/. Acesso em 21</p><p>de agosto de 2021.</p><p>9 Disponível em: https://memoria.ebc.com.br/tecnologia/2013/08/web-vigiada-entenda-as-denuncias-de-edward-snowden.</p><p>Acesso em 21 de agosto de 2021.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>12</p><p>revelou os documentos secretos sobre o modus operandi da segurança norte-americana para os jornais</p><p>The Guardian (Reino Unido) e Washington Post (EUA).</p><p>Na reportagem publicada no dia 5 de junho de 2013 pelo The Guardian, Snowden apontou que a Agência</p><p>Nacional de Segurança (NSA) coletou dados de ligações telefônicas de milhões de cidadãos americanos a</p><p>partir do programa de monitoramento chamado de PRISM. O ex-consultor da CIA também revelou que a</p><p>Casa Branca acessava fotos, e-mails e videoconferências de quem usava os serviços de empresas</p><p>como Google, Skype e Facebook.</p><p>As denúncias não pararam por aí. No dia 7 de junho, o jornal americano Washington Post detalhou a</p><p>existência de um programa de vigilância secreta dos Estados Unidos que envolve setores de inteligência</p><p>de gigantes da internet como Microsoft, Facebook e Google.</p><p>Após realizar as denúncias, Snowden fugiu para Hong Kong (China). A partir da pressão dos Estados</p><p>Unidos pedindo sua extradição, o ex-técnico viajou secretamente para a Rússia onde ficou refugiado no</p><p>Aeroporto Internacional de Moscou até conseguir asilo político temporário de um ano no país. O pedido</p><p>foi aceito no início de agosto.</p><p>Por meio dos smartphones, obtém-se informações sobre gastos, com quem falamos, nossos itinerários, os</p><p>sites que navegamos e as mensagens que trocamos. Já reparou como quando você faz a busca sobre um</p><p>produto e, a partir disso, em todo site que você entra há propagandas sobre o produto buscado? Isso ocorre</p><p>porque os dados gerados pela pesquisa são compartilhados em diversas plataformas, há todo um mercado</p><p>ocorrendo por trás, sem a nossa consciência. Por isso, podemos falar sobre a mercantilização da intimidade</p><p>ou da privacidade.</p><p>Muitas vezes baixam-se aplicativos grátis, mas, como, em regra, não se leem os termos de uso, não se sabe</p><p>sobre o real uso dos dados. Às vezes é ainda pior: mesmo quando não se autoriza o uso dos dados pessoais,</p><p>isso acaba sendo feito. É como diz aquele velho ditado: "se não somos os clientes pagando, somos o produto</p><p>vendido" ou "se você não paga pelo produto, o produto é você.".</p><p>Às vezes, propostas para gerar comodidade às pessoas, como "logar com o facebook", acabam sendo mais</p><p>uma forma de captura de dados. Usando os likes e sofisticados mecanismos de inteligência artificial, é</p><p>possível saber quem é você, seu estado mental, inclinação política, estado conjugal, etnia etc. Mesmo que</p><p>você não curta nada, ainda assim, é possível levantar essas informações pelo seu círculo de amizades.</p><p>Lembram-se do escândalo da Cambridge Analytica?</p><p>Os seus dados acabam servindo para que possam ser oferecidos produtos e serviços customizados para você,</p><p>mas também para te manter mais tempo conectado. As suas preferências servem para lhe oferecer</p><p>conteúdos que sejam interessantes e isso acaba sendo uma bola de neve, pois, quanto mais usa, mais dados</p><p>se tem sobre você, o que aumenta o refinamento das sugestões de posts e produtos. As big techs não são</p><p>empresas de caridade, elas ganham dinheiro (e muito!) por meio de anunciantes. Então, quanto mais tempo</p><p>você fica conectado, maior a probabilidade de ter contato com anúncios e maior a probabilidade de compra.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>13</p><p>Apesar de toda a discussão sobre a importância da privacidade, há parcela da sociedade que ainda não</p><p>despertou para o fato. Ainda se ouvem frases do tipo, “eu não tenho nada a esconder, minha vida é um livro</p><p>aberto". De fato, talvez você acredite que não tenha nada a esconder, mas será que queremos que as</p><p>empresas e as máquinas saibam mais sobre nós do que nós mesmos? Uma frase famosa de Edward Snowden</p><p>sobre o assunto é a seguinte: "Argumentar que você não se importa com o direito à privacidade porque não</p><p>tem nada a esconder não é diferente de falar que você não se importa com a liberdade de expressão porque</p><p>não tem nada a dizer.".</p><p>Contudo é também inegável o ganho em comodidade proporcionada por empresas e serviços de tecnologia,</p><p>como a capacidade de acionar eletrodomésticos e aplicativos com um comando de voz ou então fazer</p><p>compras instantaneamente no celular</p><p>Referências Legais</p><p>1. Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948): "Artigo 12. Ninguém será sujeito à interferência</p><p>na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataque à sua honra e</p><p>reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques."</p><p>2. Constituição Federal de 1988: de acordo com o inciso X do art. 5º, são invioláveis a intimidade, a vida</p><p>privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral</p><p>decorrente de sua violação. Assim, a Constituição eleva ao nível de direito e garantia fundamento a</p><p>intimidade e a privacidade.</p><p>3. Lei Carolina Dieckmann ( Lei 12.737 de 2012): a referida lei foi criada após fotos íntimas da atriz</p><p>Carolina Dieckmann terem sido divulgadas na internet. Ela teve seu e-mail invadido por hackers, que</p><p>exigiram o pagamento de uma alta quantia para que as fotos não fossem vazadas. A atriz denunciou a</p><p>chantagem à polícia e suas fotos acabaram sendo publicadas na internet, obviamente sem seu</p><p>consentimento. O caso teve grande repercussão na mídia, que exerceu pressão para que se criminalizasse</p><p>esse tipo de violação à intimidade. Como consequência, foi inserido no Código Penal o crime consistente</p><p>na conduta de invasão a dispositivos informáticos, cuja pena base</p><p>é a de detenção, de 3 (três) meses a 1</p><p>(um) ano, e multa.</p><p>4. Marco Civil da Internet (Lei n° 12 965/2014): é o primeiro dispositivo regulatório amplo sobre a rede</p><p>no país e estabelece regras a respeito da retenção de dados dos usuários por provedores. A referida lei</p><p>prevê princípios que regulam o uso da internet no Brasil, enumerados no artigo 3º, dentre outros, o</p><p>princípio da proteção da privacidade e dos dados pessoais, e assegura, como direitos e garantias dos</p><p>usuários de internet, no artigo 7º, a inviolabilidade e o sigilo do fluxo de suas comunicações e</p><p>inviolabilidade e sigilo de suas comunicações privadas armazenadas, salvo por ordem judicial.</p><p>O artigo 10º, § 1º, que trata de forma específica da proteção aos registros, aos dados pessoais e às</p><p>comunicações privadas, é bem claro quanto à possibilidade de fornecimento de dados privados, se forem</p><p>requisitados por ordem de um juiz, e diz que o responsável pela guarda dos dados será obrigado a</p><p>disponibilizá-los se houver requisição judicial.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>14</p><p>5. Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) (Lei n. 13.709/2018)10: dispõe sobre o tratamento de dados</p><p>pessoais, inclusive nos meios digitais, com o objetivo de proteger os direitos fundamentais de liberdade e</p><p>de privacidade e o livre desenvolvimento da personalidade da pessoa natural.</p><p>Além de ser a primeira lei geral nacional sobre o tema, a importância da LGPD está na apresentação de</p><p>regras para o tratamento de dados pessoais. Essas regras vão desde os princípios que disciplinam a</p><p>proteção de dados pessoais, passando pelas bases legais aptas para justificar o tratamento de dados, até</p><p>a fiscalização e a responsabilização dos envolvidos no tratamento de dados pessoais.</p><p>A LGPD também prevê a possibilidade de a pessoa natural a quem se referem os dados pessoais requerer</p><p>informações como a confirmação da existência de tratamento dos seus dados pessoais, o acesso aos</p><p>dados, a correção de dados incompletos, a eliminação de dados desnecessários e a portabilidade de dados</p><p>pessoais a outro fornecedor de produtos e serviços.</p><p>Em resumo, a LGPD inaugura uma nova cultura de privacidade e proteção de dados no país, o que</p><p>demanda a conscientização de toda a sociedade acerca da importância dos dados pessoais e os seus</p><p>reflexos em direitos fundamentais como a liberdade, a privacidade e o livre desenvolvimento da</p><p>personalidade da pessoa natural.</p><p>Por fim, a título de proposta de intervenção, mais uma vez a responsabilidade é compartilhada. Com o</p><p>Governo fica a parte legislativa e fiscalizatória, bem como a execução de políticas públicas, notadamente, no</p><p>campo da educação.</p><p>Às empresas reserva-se o compromisso ético. Aqui temos um ponto bastante delicado, pois, além de não</p><p>haver transparência sobre o que realmente acontece, essas empresas se utilizam dos dados coletados para</p><p>obterem lucro. Então, restaria ao Estado estudar mecanismos legais que garantissem o respeito ao direito</p><p>de privacidade dos indivíduos.</p><p>Às pessoas cabe a busca da informação sobre todos os reflexos dessa coleta e vigilância permanentes. Uma</p><p>alternativa bastante viável é o uso de extensões como "disconect" ou "do not track", as quais permitem</p><p>bloquear quem captura os seus dados de navegação, e o "DuckDuckGo", um buscador que promete não</p><p>recolher os seus dados.</p><p>Proposta de solução</p><p>A Era da Informação proporcionou uma série de avanços. Entretanto um dos</p><p>desdobramentos introduzidos pela Era da Informação é a crescente perda da privacidade</p><p>por parte dos indivíduos. Esse problema decorre, principalmente, da coleta massiva de dados</p><p>individuais privados na internet e é agravado pelo crescente exibicionismo nas redes sociais.</p><p>10 Disponível em: https://www.tjsc.jus.br/web/ouvidoria/lei-geral-de-protecao-de-dados-pessoais/a-importancia-de-conhecer-a-</p><p>lgpd#:~:text=Em%20resumo%2C%20a%20LGPD%20inaugura,da%20personalidade%20da%20pessoa%20natural.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>15</p><p>Inicialmente, explique-se que o uso da internet tem possibilitado uma intensa captação</p><p>de informações pessoais, o que pode se reverter num maior controle sobre os indivíduos. De</p><p>fato, os rastros digitais gerados pelos usuários permitem que máquinas construam padrões</p><p>de comportamento e criem perfis de consumo, o que pode servir para uma sutil manipulação.</p><p>Assim, observa-se que o uso de informações, obtidas de forma nem sempre consentida, viola</p><p>a privacidade das pessoas e cerceia, ainda que veladamente, a liberdade de escolha.</p><p>Além disso, a perda da privacidade é maximizada pelo intenso exibicionismo, marca da</p><p>sociedade atual. Com efeito, principalmente com o advento das redes sociais, contexto em que</p><p>há uma hipervalorizarão da imagem, observa-se uma forte tendência à autopromoção dos</p><p>indivíduos e à artificialização da realidade. Com isso, no afã de se exibirem, muitas pessoas</p><p>acabam, ainda que de forma inconsciente, abrindo mão da sua privacidade, na medida em</p><p>que revelam informações de caráter pessoal, como endereço, locais frequentados, entre</p><p>outros.</p><p>Portanto observa-se que a modernidade descortinou uma série de desafios no que se</p><p>refere à privacidade. Nesse sentido, é fundamental que se conheçam e se discutam os riscos a</p><p>ela associadas, sob pena de, ao invés de assegurar direitos, a tecnologia seja um mecanismo</p><p>de supressão deles.</p><p>Tema 7 – Inteligência artificial</p><p>Tecnologia - você sabe o que é Inteligência Artificial e Singularidade?</p><p>Quando pensamos em Inteligência Artificial, logo imaginamos androides que parecem humanos. A ideia da</p><p>existência de computadores inteligentes sempre foi retratada na ficção científica. Personagens famosos são</p><p>o HAL 9000, computador imortalizado no filme “2001, uma odisseia no espaço” e o androide T-800, do filme</p><p>“O Exterminador do Futuro”.</p><p>Em 1950, o matemático inglês Alan Turing (1912-1954), pai da computação e precursor da Inteligência</p><p>Artificial, escreveu um artigo em que fazia a seguinte pergunta: se um computador pudesse pensar como</p><p>nós pensamos, ele conseguiria nos enganar ao ponto de pensarmos que estamos nos comunicando com um</p><p>humano e não um protótipo?</p><p>O artigo foi uma das primeiras reflexões sobre o conceito de Inteligência Artificial, ou seja, a capacidade de</p><p>máquinas raciocinarem como pessoas e simularem comportamentos inteligentes. O matemático previu que</p><p>até o ano 2000, máquinas seriam capazes de "enganar seres humanos através de diálogos entre humanos e</p><p>máquinas”.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>==1365fc==</p><p>16</p><p>Com adaptações. Disponível em: https://vestibular.uol.com.br/resumo-das-</p><p>disciplinas/atualidades/tecnologia-voce-sabe-o-que-e-inteligencia-artificial-e-</p><p>singularidade.htm</p><p>Elon Musk anuncia robôs humanoides para substituir pessoas em 'trabalhos chatos'</p><p>Depois de dominar o mercado de veículos elétricos e de se lançar na multimilionária corrida espacial, Elon</p><p>Musk, o dono da Tesla, anunciou o último marco que pretende alcançar: robôs humanoides.</p><p>Baseado na mesma tecnologia dos veículos semiautônomos da empresa, o robô seria capaz de realizar</p><p>tarefas básicas repetitivas com o intuito de eliminar trabalhos perigosos ou "chatos" para as pessoas, disse</p><p>Musk, em um evento online sobre os avanços da Tesla em inteligência artificial.</p><p>No entanto, Musk garantiu que seu futuro robô seria benigno. Ele disse que o Tesla Bot que terá mãos com</p><p>cinco</p><p>dedos e virá em preto e branco, será "amigável" e construído de forma que, em qualquer caso, "você</p><p>poderá fugir dele e desligá-lo". "Espero que isso nunca aconteça, mas quem sabe", brincou.</p><p>Disponível em: https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,elon-musk-</p><p>anuncia-robos-humanoides-para-substituir-pessoas-em-trabalhos-</p><p>chatos,70003816499.</p><p>Elon Musk, dono da Tesla e da SpaceX, é um inimigo ferrenho da inteligência artificial (IA). O executivo já</p><p>criticou a tecnologia diversas vezes, e, em uma recente entrevista concedida ao Business Insider, voltou a</p><p>atacar tal conceito — desta vez, sendo ainda mais agressivo.</p><p>De acordo com Musk, aquelas pessoas que desacreditam na potência da IA e não temem que os</p><p>computadores se tornem mais inteligentes do que os seres humanos no futuro são “mais burras do que elas</p><p>pensam que são”.</p><p>“Estive batendo nessa tecla da inteligência artificial por uma década. Nós temos que nos preocupar sobre</p><p>onde essa coisa de IA está indo. As pessoas que eu vejo estando mais erradas sobre IA são aquelas que são</p><p>muito inteligentes, pois elas não imaginam que um computador possa ser mais inteligente do que elas. É</p><p>uma falha de lógica. Elas, desse jeito, estão sendo muito mais burras do que elas pensam que são”, afirma</p><p>Musk.</p><p>Vale lembrar que, em 2018, o empresário chegou a dizer que “os perigos da inteligência artificial são muito</p><p>maiores do que aqueles das armas nucleares”, argumentando sobre um cenário em que robôs e</p><p>computadores decidam se livrar dos seus criadores por não nos verem mais como úteis para a sociedade.</p><p>https://canaltech.com.br/inteligencia-artificial/elon-musk-pessoas-que-nao-temem-ia-</p><p>sao-mais-burras-do-que-elas-pensam-168677/.</p><p>Tendo os textos acima como referência inicial, redija um texto dissertativo-argumentativo que responda ao</p><p>seguinte questionamento: há desafios éticos e morais a partir do emprego da inteligência artificial?</p><p>Abordagem teórica</p><p>A inteligência artificial é um software que utiliza uma base de dados para tomar uma decisão, assim como</p><p>uma pessoa. Pode-se dizer também que se trata de um serviço ou sistema que pode realizar tarefas que</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>17</p><p>usualmente requerem nível de inteligência humana, como percepção visual, reconhecimento de fala, tomar</p><p>decisões ou fazer traduções.</p><p>Mais do que automatização, a condição de avaliar grandes montantes de informações de forma complexa</p><p>permite também a otimização de processos e tarefas, a previsão de comportamentos e a tomada de decisão.</p><p>A IA consegue tanto transformar dados quantitativos quanto imagens em informações para tomar decisões</p><p>autônomas.</p><p>Você pode até não ter percebido, mas a Inteligência Artificial já é uma realidade. Está no seu PC, no seu</p><p>smartphone ou no seu carro, coletando e interpretando dados que você mesmo fornece ao fazer uma busca</p><p>no Google, ao procurar um endereço no GPS ou perguntar algo ao Siri. Usando técnicas como o aprendizado</p><p>de máquina, quanto mais você fizer pesquisas no Chrome, navegar no Facebook, traçar uma rota no Waze,</p><p>conversar com o iPhone, mais essas empresas sabem sobre você e podem antecipar seus desejos. Isso,</p><p>naturalmente, apresenta vantagens e desafios. Sabe quando você entra no Spotify ou Netflix e há uma lista</p><p>personalizada para você? Pois é, isso ocorre pelo uso da inteligência artificial, a qual, por meio dos rastros</p><p>que você deixou, consegue entender o seu perfil e os seus gostos, propondo listas de grande assertividade.</p><p>Dentre os exemplos notáveis da aplicação de IA hoje, temos desde assistentes virtuais, mecanismos de busca</p><p>e algoritmos de recomendação de conteúdos, presentes em grandes plataformas online, até ferramentas de</p><p>reconhecimento facial, geolocalização e monitoramento epidemiológico.</p><p>Além de já ser uma realidade, a IA tende a ampliar de forma crescente a sua aplicação. Com o</p><p>armazenamento na nuvem e o uso de processadores e sensores cada vez menores e com alta capacidade de</p><p>análise e interpretação de dados, a IA tende a se incorporar ao nosso cotidiano transformando negócios em</p><p>diferentes áreas como medicina, comércio, transporte, marketing, mídia e serviços financeiros.</p><p>A maioria dos casos de sucesso atuais de IA envolve formas de sistemas de aprendizado de máquina (ML),</p><p>em aplicações em que uma grande quantidade de dados está disponível. Essas técnicas básicas já existem há</p><p>muito tempo, mas, na última década, novos hardwares, softwares e dados em grande escala tornaram o ML</p><p>notavelmente mais poderoso. As aplicações de ML incluem classificação de imagens, reconhecimento facial</p><p>e tradução automática. Elas são familiares para os consumidores em aplicativos como Amazon Alexa, análises</p><p>de esportes em tempo real, reconhecimento facial em redes sociais e mecanismos de recomendação para</p><p>clientes. Um conjunto equivalente de aplicações encontra seu lugar nos negócios, incluindo análise de</p><p>documentos, atendimento aos clientes e previsão de dados.</p><p>Ao mesmo tempo em que o uso de IA pode contribuir em grande medida para estratégias que visem ao</p><p>desenvolvimento humano sustentável, ela também é objeto de atenção por parte de pesquisadores,</p><p>gestores públicos, empresas e organizações da sociedade civil. Os efeitos potencialmente exponenciais do</p><p>uso de IA têm gerado alertas e criado preocupações fundadas frente a possíveis impactos na liberdade,</p><p>privacidade e proteção de dados pessoais.</p><p>Já tratamos a questão da privacidade em outras oportunidades. Como vimos, a inteligência vem sendo</p><p>utilizada para influenciar as decisões humanas, para a criação das bolhas e para o disparo em massa de</p><p>mensagens por robôs.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>18</p><p>Há também o problema da acentuação da desigualdade. O problema é que nem sempre essas tecnologias</p><p>são orientadas para gerar uma prosperidade compartilhada e justa começar pelo gap existente entre os</p><p>poucos países que desenvolvem essas novas tecnologias e a imensa maioria das nações do planeta. Quando</p><p>as tecnologias não se mostram capazes de beneficiar a todos, os resultados quase sempre apontam para a</p><p>concentração de renda, o aumento da distância que separa os países desenvolvidos dos emergentes, a</p><p>elevação das desigualdades, para não falar dos desequilíbrios no campo da ética, da privacidade, dos direitos</p><p>humanos e da democracia.</p><p>Vamos então focar nos impactos da IA no mercado de trabalho. Quando surgiram as máquinas, houve um</p><p>grande desemprego nas cidades e nos campos, o que gerou um profundo descontentamento das classes</p><p>operárias. Veja a caixa abaixo:</p><p>Alusão histórica - Ludismo</p><p>No início do século XIX, a Inglaterra assistiu à explosão do movimento operário contra o avanço da</p><p>Revolução Industrial. Batizado de Ludismo, trazia como bandeira uma oposição à mecanização e à</p><p>chegada das novas tecnologias, que eram vistas como exterminadoras implacáveis de empregos em</p><p>substituição à mão de obra humana. Esses trabalhadores ficaram conhecidos como os “quebradores de</p><p>máquinas” e lideraram greves em diversos setores impactados pela automação nas linhas de produção</p><p>em detrimento ao trabalho artesanal.</p><p>Não há consenso, afinal é algo difícil de saber qual, exatamente, será o impacto, contudo, assim como tem</p><p>sido de forma mais intensa nos últimos 300 anos, os avanços tecnológicos continuarão mudando a estrutura</p><p>do mercado de trabalho e demandarão a requalificação dos trabalhadores. É precipitado afirmar que o</p><p>desemprego irá aumentar, visto que outros empregos podem vir a aparecer. Quem imaginava, há 15, 20</p><p>anos, quando a internet começou a se popularizar,</p><p>que hoje uma das principais demandas nas empresas</p><p>seria por profissionais como programadores, analistas de dados, especialistas em mídia social, em marketing</p><p>digital, mobile ou e-commerce?</p><p>O relacionamento entre trabalho e automação opera por meio de três canais distintos, mas relacionados:</p><p>substituição, complementaridade e criação de novas tarefas. A substituição é o mais conhecido,</p><p>representada pela substituição do trabalho humano pelas máquinas. Foi o que aconteceu quando a</p><p>maquinaria industrial têxtil substituiu fiandeiros, rendeiros e tecelões das zonas rurais com teares manuais</p><p>na Inglaterra do século XIX.</p><p>A substituição de trabalhadores por máquinas cria vencedores e perdedores. Os ganhos normalmente fluem</p><p>para as empresas por meio de lucros maiores e, para os clientes, por meio de preços mais baixos, em tese.</p><p>Os custos, no entanto, normalmente são pagos por trabalhadores deslocados, suas famílias e suas</p><p>comunidades, bem como pela população, por meio de programas de benefícios sociais dos quais os</p><p>trabalhadores dependem quando perdem seus empregos.</p><p>Contudo nem sempre a tecnologia substitui trabalhadores, às vezes serve para complementar as suas</p><p>capacidades cognitivas e criativas, dando-lhes mais eficiência e facilitando o seu trabalho. Por exemplo, os</p><p>arquitetos e engenheiros que usam o software Computer Aided Design (CAD), por exemplo, podem projetar</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>19</p><p>edifícios mais complexos com mais rapidez do que se fizessem com desenhos em papel. Sob essa ótica, o</p><p>maquinário aumenta o valor do conhecimento humano no desenvolvimento e na orientação de processos</p><p>de produção complexos, assim como fornece ferramentas que permitem que as pessoas transformem suas</p><p>ideias em produtos e serviços.</p><p>E, como já abordamos, há a criação de novas tarefas. No século XX, mesmo com o maquinário agrícola</p><p>deslocando trabalhadores agrícolas, as mudanças provocadas pela mecanização e pelo aumento da renda</p><p>geraram novos empregos em fábricas, escritórios e na área de finanças. No século XXI, à medida que os</p><p>computadores e softwares deslocavam trabalhadores que executavam tarefas repetitivas criaram,</p><p>simultaneamente, novas oportunidades em trabalhos novos e cognitivamente intensos, como desenhar,</p><p>programar e manter máquinas sofisticadas, analisar dados e muitos outros.</p><p>Uma tendência que vem se fortalecendo entre os especialistas é que, com o advento dessas novas</p><p>tecnologias, como a IA, deve haver uma polarização do emprego, ou seja, a redução nos empregos de nível</p><p>intermediário, sobrando, predominantemente, os empregos mais sofisticados e os mais básicos. Seriam</p><p>considerados empregos médios os que executam tarefas codificáveis de rotina, como vendas, suporte de</p><p>escritório e administrativo, além de ocupações nas áreas de produção, artesanato e consertos em geral.</p><p>Nesse sentido, profissões tradicionais, como contadores, administradores e auditores, podem estar sob</p><p>ameaça da IA.</p><p>Assim, no mercado, predominariam os empregos altamente qualificados, concentrados em setores como</p><p>Tecnologia da Informação (TI) e finanças e os de nível muito básico, em setores como comércio e serviços</p><p>pessoais, os quais incluem tarefas que exigem destreza física, reconhecimento visual, comunicação face a</p><p>face e adaptabilidade situacional, cujas habilidades permanecem amplamente fora do alcance de hardware</p><p>e software atuais.</p><p>Relatório "O Futuro do Emprego 2020" - Fórum Econômico Mundial11</p><p>Em um prazo de cinco anos, robôs e máquinas vão dividir todos os empregos no mundo, segundo relatório</p><p>“O Futuro do Emprego 2020”, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial. Atualmente, cerca de um terço</p><p>de todas as tarefas são realizadas por máquinas, segundo o estudo.</p><p>A automação tem potencial para criar 97 milhões de empregos em empresas de 15 setores pesquisados</p><p>em 26 economias do mundo, incluindo a brasileira.</p><p>A geração de vagas deve ocorrer em áreas ligadas principalmente a cuidados com a saúde, big data,</p><p>economia verde, e-commerce, além de atividades relacionadas à engenharia, computação em nuvem e</p><p>desenvolvimento de novos produtos.</p><p>11 Disponível em: https://noomis.febraban.org.br/noomisblog/robos-terao-metade-dos-empregos-em-5-anos-preve-forum-</p><p>economico-mundial. Acesso em 28 de agosto de 2021.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>20</p><p>Por outro lado, a “revolução dos robôs” deve extinguir 85 milhões de empregos, que estão vinculados</p><p>principalmente a trabalhos rotineiros ou manuais, afetando mais os trabalhadores menos qualificados,</p><p>com menor renda.</p><p>Nas empresas, empregos relacionados a atividades em setores como administrativo e processamento de</p><p>dados devem ser os mais substituídos pela tecnologia.</p><p>Outra questão relevante refere-se à discriminação. A discriminação algorítmica pode ocorrer em diversos</p><p>contextos, por exemplo, erros maiores para grupos vulneráveis em sistemas de reconhecimento facial,</p><p>priorização no atendimento a serviços médicos, falhas em recrutamento para empregos, entre outros.</p><p>Isso ocorre, também, por diversos motivos. Um deles é o fato de que aplicações da inteligência artificial são</p><p>alimentadas por bases de dados já construídas – por determinado grupo de pessoas, com características</p><p>específicas e correspondentes a grupos historicamente dominantes. Outro motivo vem do fato de que esses</p><p>sistemas são projetados por um grupo relativamente homogêneo de pessoas, cuja visão de mundo é</p><p>reproduzida nas suas criações, as quais carregarão os preconceitos e as concepções predominantes nesse</p><p>grupo. Assim, a máquina acaba sendo um espelho das crenças do grupo, reproduzindo preconceitos.</p><p>É interessante lembrar que a Lei Geral de Proteção de Dados prevê, no art. 6°, IX, o princípio da não</p><p>discriminação: impossibilidade de realização do tratamento para fins discriminatórios ilícitos ou abusivos.</p><p>Vou abrir um box para esclarecermos melhor o tema.</p><p>Discriminação (fonte AgênciaBrasil12 - com adaptações)</p><p>Uma vez que os sistemas de inteligência artificial vêm ganhando espaço em análises e decisões diversas,</p><p>essas opções passam a afetar diretamente as vidas das pessoas, inclusive discriminando determinados</p><p>grupos em processos diversos, como em contratações de empregados, concessão de empréstimos, acesso</p><p>a direitos e benefícios e policiamento. Uma das aplicações mais polêmicas são os mecanismos de</p><p>reconhecimento facial, que podem determinar se uma pessoa pode receber um auxílio, fazer check in ou</p><p>até mesmo ir para a cadeia.</p><p>Na China, uma ferramenta chamada SenseVideo passou a ser vendida em 2019 com funcionalidades de</p><p>reconhecimento de faces e de objetos. Mas a iniciativa mais polêmica tem sido o uso de câmeras para</p><p>monitorar atos e movimentações de cidadãos com o intuito de estabelecer notas sociais para cada pessoa,</p><p>que podem ser usadas para finalidades diversas, inclusive diferenciar acesso a serviços ou até mesmo</p><p>gerar sanções.</p><p>No Brasil, soluções desse tipo vêm sendo utilizadas tanto para empresas, como o Sistema de Proteção ao</p><p>Crédito (SPC), como para monitoramento de segurança por câmeras, como nos estados do Ceará, Bahia</p><p>12 Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-08/riscos-da-inteligencia-artificial-levantam-alerta-e-</p><p>suscitam-respostas. Acesso em 28 de agosto de 2021.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>21</p><p>e Rio de Janeiro. Neste último,</p><p>no segundo dia de funcionamento, uma mulher foi presa por engano,</p><p>confundida com uma fugitiva.</p><p>Em fevereiro de 2018, dois pesquisadores do renomado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT,</p><p>sigla em inglês) e da Universidade de Stanford, Joy Buolamwini e Timnit Gebru, testaram sistemas e</p><p>constataram que as margens de erro eram bastante diferentes de acordo com a cor da pele: 0,8% no caso</p><p>de homens brancos e de 20% a 34% no caso de mulheres negras. Estudo do governo dos Estados Unidos,</p><p>publicado no ano passado, avaliou 189 ferramentas desse tipo, descobrindo que as taxas de falsos</p><p>positivos eram entre 10 e 100 vezes maior para negros e asiáticos do que para brancos.</p><p>Os questionamentos levaram estados e cidades a banir a tecnologia, inclusive São Francisco, a sede das</p><p>maiores corporações de tecnologia do mundo; e Cambridge, onde fica o Instituto de Tecnologia de</p><p>Massachusetts. A Comissão Europeia anunciou, no início do ano, a possibilidade de banir o</p><p>reconhecimento facial, tema que está em debate no bloco. No Brasil, ao contrário, há dois projetos de lei</p><p>obrigando o reconhecimento facial em determinadas situações, como em presídios.</p><p>Projetos de inteligência artificial podem promover a discriminação também em políticas públicas'. Na</p><p>província de Saltas, na Argentina, a administração local lançou uma plataforma tecnológica de</p><p>intervenção social em parceria com a Microsoft com o intuito de identificar meninas com potencial de</p><p>gravidez precoce a partir da análise de dados pessoais, como nome e endereço.</p><p>“Além dos métodos estatísticos serem malfeitos, a iniciativa tem presunções sexistas, racistas e classistas</p><p>sobre determinado bairro ou segmento da população. O trabalho é focado em meninas, somente,</p><p>presumindo que os garotos não precisam aprender sobre direitos sexuais e reprodutivos. Temos que tomar</p><p>cuidado para que segmentos já segregados não sejam mais discriminados sob uma máscara de opções</p><p>neutras da tecnologia”, observa a diretora da organização Coding Rights e pesquisadora do Berkman Klein</p><p>Center da Universidade de Harvard, Joana Varón, que elaborou um artigo sobre a experiência.</p><p>A analista de políticas para América Latina da organização internacional Eletronic Frontier Foundation,</p><p>Veridiana Alimonti, ressalta questões a serem observadas nas decisões automatizadas. Os parâmetros</p><p>dos modelos são construídos por um humano, que tem concepções e objetivos determinados. E seu</p><p>emprego em larga escala traz riscos ao devido processo em decisões que afetam a vida das pessoas a</p><p>partir de sistemas que, muitas vezes, não possuem transparência tanto no seu desenvolvimento quanto</p><p>na sua aplicação.</p><p>Mais um risco é a concentração, muito poder com poucos. No caso, estamos falando, principalmente, das</p><p>Big Techs. Representam esse grupo as Big Five: Alphabet (holding que administra todos os serviços do</p><p>Google), Microsoft, Facebook, Amazon e Apple. Juntas somaram quase US$900 bilhões em receitas em 2019,</p><p>o equivalente à 18ª posição no ranking de PIB dos países.</p><p>Essas multinacionais oferecem inúmeras soluções por meio da oferta de seus produtos e soluções – alguns</p><p>até gratuitos -, que captam a atenção dos consumidores pela sua ótima qualidade. Contudo essas grandes</p><p>empresas criaram um monopólio, o que suscita uma série de polêmicas. Por exemplo: como lidar com o</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>22</p><p>poder de influência delas nas decisões das pessoas? como os dados dos clientes serão protegidos e usados?</p><p>de que forma elas deverão pagar impostos? devem elas moderar o conteúdo que seus usuários publicam?</p><p>O expressivo faturamento e o acesso a uma infinidade de dados13 permitem que esses grandes</p><p>conglomerados liderem as pesquisas e a implementação da IA. Trata-se de um mercado monopolizado e de</p><p>elevadas barreiras a novos entrantes e isso representa um grande potencial para aumento dos preços, perda</p><p>da qualidade e maior dificuldade em obter uma transparência sobre o que está ocorrendo.</p><p>Outra questão é o uso de armas inteligentes, como drones e tanques autônomos, descritas como a terceira</p><p>revolução das guerras após a pólvora e as armas nucleares. Tais máquinas têm que tomar decisões que</p><p>envolvem a vida ou a morte de pessoas, por isso a sensibilidade do tema. Tornou-se famoso o caso do robô</p><p>atirador (F.E.D.O.R.). No final das contas, o robô russo acabou não vingando, justamente por conta dos</p><p>boicotes de empresas preocupadas com o caminho que se estava seguindo.</p><p>Em 2015, mais de mil pesquisadores da área de inteligência artificial e especialistas, como o falecido físico</p><p>Stephen Hawking, o cofundador da Apple Steve Wozniak e o cérebro por trás da Tesla e da SpaceX Elon Musk,</p><p>assinaram uma carta aberta cobrando que as Nações Unidas banissem o uso de armas autônomas como</p><p>drones. Uma campanha foi criada para essa finalidade, chamada Parem os Robôs Assassinos, advogando</p><p>pela proibição da produção e do uso de armas totalmente automatizadas. Em fóruns internacionais e nas</p><p>Nações Unidas, governos discutem a regulação ou o veto ao emprego dessas tecnologias, ainda sem</p><p>conclusão14.</p><p>Assim, nota-se uma gama de questões éticas que envolvem a IA. Essas preocupações têm resultado em uma</p><p>série de reações por parte da sociedade, empresas e governos.</p><p>Uma dessas reações materializou-se nos Princípios de Asilomar, uma lista de 23 diretrizes que os</p><p>pesquisadores de inteligência artificial, cientistas e legisladores devem respeitar para garantir o uso seguro,</p><p>ético e benéfico da IA. Tocam questões no que concerne a pesquisa, ética e prevenção, de estratégias de</p><p>pesquisa e direitos de dados a questões de transparência e os riscos da superinteligência artificial. Os 23</p><p>princípios Asilomar tiveram notáveis apoiadores, o físico Stephen Hawking, o CEO do SpaceX Elon Musk, o</p><p>futurista Ray Kurzweil e o cofundador do Skype Jaan Tallinn, entre muitos outros.</p><p>Em sentido semelhante, podemos falar do documento “Call for an AI Ethics” (Apelo por uma Ética da</p><p>Inteligência Artificial), iniciativa do Vaticano, da IBM, da Microsoft e da FAO. No texto, defende-se a visão</p><p>"algorética" nos algoritmos, cuja aplicação deve se basear em alguns princípios, tais como: transparência,</p><p>inclusão, responsabilidade, imparcialidade e confiabilidade. O Vaticano, inclusive, criou um órgão interno</p><p>para o estudo do uso da IA.</p><p>13 Segundo reportagem do Ebc: “O Google possui mais de 90% do mercado de buscas e mais de 70% do mercado de navegadores,</p><p>bem como controla a maior plataforma audiovisual do mundo, o Youtube. O Facebook alcançou 2,5 bilhões de usuários e controla</p><p>os três principais aplicativos do mundo: Facebook, FB Messenger e Whatsapp, além do Instagram”. Disponível em:</p><p>https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-08/riscos-da-inteligencia-artificial-levantam-alerta-e-suscitam-respostas.</p><p>14 Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-08/riscos-da-inteligencia-artificial-levantam-alerta-e-</p><p>suscitam-respostas.</p><p>Carlos Roberto Correa, Marcio Damasceno</p><p>Aula 05 - Prof. Márcio Damasceno (Somente PDF)</p><p>TRF 1ª Região - Redação - Sem Correção - 2024 (Pós-Edital)</p><p>www.estrategiaconcursos.com.br</p><p>39471799600 - Naldira Luiza Vieria</p><p>23</p><p>A OMS (Organização Mundial da Saúde) também divulgou um guia sobre ética e governança na utilização da</p><p>inteligência artificial na saúde. Uma das grandes preocupações diz respeito à quantidade e qualidade de</p><p>informações que serão gerenciadas pelos bancos de dados e se transformarão em orientações e práticas que</p><p>agentes de saúde replicarão para milhões de pessoas. Um sistema que esteja “contaminado” com</p><p>preconceitos ou qualquer visão parcial ou distorcida de um determinado grupo populacional terá um enorme</p><p>impacto negativo.</p><p>Como propostas de intervenção,</p>