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<p>sumário</p><p>prefácio</p><p>introdução</p><p>nota sobre a leitura dos textos originais</p><p>nin-me-sharasenhora dos dons a exaltação de Inana</p><p>notas e estrutura</p><p>a descida de inana ao mundo dos mortos</p><p>notas e estrutura</p><p>INANA</p><p>antes da palavra ser poesia era mulher</p><p>Enheduana</p><p>Tradução de</p><p>Guilherme Gontijo Flores</p><p>Adriano Scandolara</p><p>Prefácio de Kátia Pozzer</p><p>prefácio</p><p>A poetisa e a deusa ou essas</p><p>maravilhosas mulheres orientais</p><p>Katia Maria Paim Pozzer1</p><p>O trabalho de tradução e adaptação de textos literários mesopotâmicos</p><p>realizado a quatro mãos, por Adriano Scandolara e por Guilherme Gontijo,</p><p>deve ser comemorado pelo público brasileiro, pois eles oferecem a</p><p>integralidade dos poemas antigos em uma versão inédita em língua</p><p>portuguesa.</p><p>Os autores trazem uma grande contribuição que chega para diminuir a</p><p>enorme distância que nos separa do imaginário antigo-oriental e de suas</p><p>deliciosas narrativas2. Com isso, eles também resgatam duas �guras</p><p>femininas da maior importância no universo cultural mesopotâmico. Uma</p><p>divina: Inana. Outra humana: Enheduana.</p><p>Enheduana foi, sem dúvida, a mais proeminente sacerdotisa do deus Nana</p><p>(o deus lua, divindade masculina) em Ur, durante o reinado de seu pai, o</p><p>poderoso rei Sargão de Acade (2332– 2279 AEC). Ela é conhecida por suas</p><p>composições literárias e vários objetos contendo inscrições cuneiformes,</p><p>incluindo um disco de alabastro, atualmente conservado no Museu da</p><p>Universidade de Philadelphia.</p><p>A deusa Inana/Ishtar é considerada como a mais célebre da Mesopotâmia.</p><p>Esta concepção foi construída ao longo dos séculos, a partir de uma fusão de</p><p>três divindades diferentes: uma guerreira e quase viril, de origem semita,</p><p>Ishtar; outra, suméria, feminina e padroeira do amor livre e do sexo, Inana;</p><p>uma terceira, identi�cada ao planeta Vênus, estrela da manhã e do</p><p>entardecer. Sua simbologia numérica estava associada ao número 15, que é a</p><p>metade do número 30, atribuído a seu pai, o deus Nana, não por acaso, a</p><p>divindade à qual Enheduana é devota e sacerdotisa.</p><p>Em “A Exaltação de Inana”, a princesa-poetisa Enheduana glori�ca a</p><p>divina Inana em um hino composto por ela, que, provavelmente, seria</p><p>declamado ao som de liras e �autas, como parte integrante de uma complexa</p><p>liturgia realizada nos templos.</p><p>Mas esse texto, além do seu aspecto lírico, apresenta uma narrativa</p><p>elogiosa de Enheduana, exaltando sua exímia capacidade performática nos</p><p>cultos. É interessante notar que a escolha de Enheduana para louvar Inana</p><p>não é casual. No universo simbólico mesopotâmico Inana/Ishtar é retratada</p><p>como uma �gura poderosa e independente, como a antítese da ideia de uma</p><p>mulher submissa de uma sociedade patriarcal. Assim como a princesa</p><p>Enheduana, que se destacou como intelectual e líder religiosa,</p><p>desempenhando um importante papel político na sociedade da época, Inana</p><p>rompeu padrões normativos de uma divindade feminina.</p><p>Para explicar esta aparente contradição o historiador francês Jean Bottéro</p><p>(1987, p. 256) a�rma que “os mesopotâmicos criaram seus deuses à</p><p>semelhança dos homens, pois eles tinham aparência, qualidades e defeitos,</p><p>eram movidos à paixão e ao ódio como os humanos”. Além disso, possuíam</p><p>uma força extraordinária, poderes sobrenaturais e um dom único, o da</p><p>imortalidade, uma vez que a morte era o destino inelutável e universal para</p><p>toda a humanidade.</p><p>O segundo documento traduzido, conhecido como “A descida de Inana</p><p>aos Infernos”, é um texto sumério, datado da primeira metade do II milênio</p><p>AEC e foi reconstituído a partir de mais de trinta manuscritos encontrados</p><p>em escavações arqueológicas nas cidades de Nippur e Ur. Esse trabalho de</p><p>identi�cação, deciframento e tradução das fontes foi realizado pelo</p><p>assiriólogo estadunidense Samuel Noah Kramer, ainda nos anos 30 do</p><p>século passado (Kramer, 1937). Mais tarde o texto foi retomado e atualizado</p><p>por outros especialistas.</p><p>A �gura-chave desta narrativa é a deusa Inana, a entidade feminina mais</p><p>importante do panteão sumério. Segundo essa mitologia, Inana, que</p><p>habitava os céus, resolve descer ao mundo subterrâneo, onde reina a deusa</p><p>Ereshkigal, sua irmã e rival. O pretexto para tal visita era assistir às</p><p>cerimônias fúnebres em honra de Gugalana (literalmente, o grande touro</p><p>celeste), marido de Ereshkigal, que fora assassinado.</p><p>Como podemos compreender este extraordinário documento antigo de</p><p>mais de três mil anos? Como fonte histórica, ele pode ser interpretado de</p><p>várias maneiras, a partir de inúmeras abordagens. Uma primeira lição é que</p><p>a protagonista da narrativa, a deusa Inana, dispensa qualquer apresentação.</p><p>Isto sugere que todos os que são capazes de ler e/ou ouvir o poema já a</p><p>conheciam de antemão. Trata-se, pois, de uma divindade popular, ainda que</p><p>ela faça parte da categoria superior das divindades mesopotâmicas.</p><p>A descida de Inana ao mundo inferior é apresentada como uma viagem a</p><p>um lugar distante, desconhecido e perigoso. Paradoxalmente, porém, essa</p><p>viagem ameaçadora é resultado de uma decisão intempestiva da própria</p><p>deusa, aludindo a uma de suas características, sua volubilidade emocional.</p><p>A organização da viagem se inicia com a enumeração dos setes poderes</p><p>com os quais ela se aparelhou: o turbante; as mechas de cabelo; o colar de</p><p>lápis-lazúli; as pérolas-duplas, os braceletes, o peitoral e a maquiagem. Estes</p><p>elementos representam verdadeiros talismãs mágicos que garantem sua</p><p>proteção em um ambiente hostil. A menção ao número sete expressa que ela</p><p>se abrigou com o conjunto de amuletos disponível, pois na numerologia</p><p>mesopotâmica o número sete signi�ca a totalidade. É importante ressaltar</p><p>que os “sete poderes” são, eminentemente, adereços da indumentária</p><p>feminina, dizem respeito ao penteado, ao uso de jóias, mantos e à</p><p>maquiagem dos olhos, reforçando uma representação da mulher associada à</p><p>feminilidade.</p><p>Porém, assim como nos dias atuais, o tema central desta narrativa é a</p><p>morte, esse destino implacável da humanidade que fora imposto pelos</p><p>deuses e era tão temido pelos povos da terra entre rios. Acreditamos que o</p><p>ato de criar poemas e mitos que evocasse essa realidade foi uma maneira</p><p>poética e simbólica que eles encontraram para lidar com o medo. Construir</p><p>narrativas que entrelaçam o divino e o humano, o excepcional e o cotidiano,</p><p>a comédia e o drama, a morte e a ressurreição seriam um sopro de esperança</p><p>para todos aqueles capazes de ver e ouvir estas histórias.</p><p>Pensar sobre a morte é uma questão universal e atemporal. Mas nossas</p><p>respostas e ponderações divergem, pois estão intrinsecamente ligadas às</p><p>nossas crenças e experiências históricas. Os mesopotâmicos acreditavam que</p><p>pior que a morte era o esquecimento. Assim, escrever documentos,</p><p>preservá-los e garantir que a memória se perpetuasse no futuro era uma</p><p>forma de escapar da tragédia humana.</p><p>bibliogra�a</p><p>BLACK, J.; GREEN, A. 1998. Gods, Demons and Symbols of Ancient Mesopotamia.</p><p>London: British Museum Press.</p><p>BLACK, J.; GEORGE, A.; POSTGATE, N. 2000. A Concise Dictionary of Akkadian.</p><p>Wiesbaden: Harrassowitz Verlag.</p><p>BOTTÉRO, J. 1987. L’Écriture, la raison et les dieux. Paris: Éditions Gallimard.</p><p>BOTTÉRO, J.; KRAMER, S. 1993. Lorsque les dieux faisaient l’homme. Paris: Éditions</p><p>Gallimard.</p><p>KRAMER, S.N. “Inana’s Descent to the Nether World”. Revue</p><p>d’Assyriologie. Vol. 34, p. 93- 106, 1937.</p><p>POZZER, K. M. P. “Arte, Sexo e Religião: a deusa Ištar na Mesopotâmia”.</p><p>Revista Das Questões, Brasília, p. 1-17, 2018.</p><p>__________. 2020. “Uma Viagem ao Mundo dos Mortos: histórias de amor</p><p>e ódio na Mesopotâmia”. In: Margarida Maria de Carvalho; Luciane</p><p>Munhoz de Omena (orgs.). Narrativas e Materialidades sobre a Morte nas</p><p>Antiguidades Oriental, Clássica e Tardia. Curitiba: CRV, p. 27-42.</p><p>SAID, Edward W. 1990. Orientalismo – o Oriente como invenção do Ocidente.</p><p>São Paulo: Compainha das Letras.</p><p>1 Docente nos Cursos de História da Arte, História e no Programa de Pós-Graduação</p><p>em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.</p><p>2 Algumas re�exões que trago aqui já foram objeto de publicações anteriores e constam</p><p>nas referências.</p><p>introdução</p><p>Adriano Scandolara</p><p>Há uma dupla ironia na</p><p>subjetivos radicais como este, sem maiores</p><p>problemas.</p><p>Esteio da assembleia: Um epíteto curioso de Inana como a base que</p><p>constrói a “sala do trono” (gu2-en) ao redor de vários En, ou seja, o espaço</p><p>em que os reis, ou mais especi�camente, os deuses, fazem suas assembleias</p><p>para decidir o destino do mundo.</p><p>Na prece e sacrifício: O termo sizkur2 pode designar tanto a prece quanto</p><p>uma oferenda religiosa, daí o desdobramento em duas palavra com seus ecos</p><p>sonoros.</p><p>Parte 18 — Doxologia e encerramento</p><p>A parte �nal cai em expressões típicas dos hinos de louvor (zà-mí), porém é</p><p>interessante notar como os epítetos escolhidos amarram os temas centrais</p><p>do que estava em disputa no hino, produzindo um encerramento a um só</p><p>tempo genérico e especí�co.</p><p>a descida de inana</p><p>ao mundo dos mortos</p><p>tradução de Adriano Scandolara</p><p>1.</p><p>an gal-ta ki gal-še3 ĝeštug2-ga-ni na-an-gub</p><p>diĝir an gal-ta ki gal-še3 ĝeštug2-ga-ni na-an-gub</p><p>dinana an gal-ta ki gal-še3 ĝeštug2-ga-ni na-an-gub</p><p>nin-ĝu10 an mu-un-šubki mu-un-šub kur-ra ba-e-a-ed3</p><p>dinana an mu-un-šubki mu-un-šub kur-ra ba-e-a-ed3</p><p>nam-en mu-un-šub nam-lagar mu-un-šub kur-ra ba-e-a-ed3</p><p>unugki-ga e2-an-na mu-un-šub kur-ra ba-e-a-ed3</p><p>bad3-tibiraki-a e2-muš3-kalam-ma mu-un-šub kur-ra ba-e-a-ed3</p><p>zabalamki-a gi-gun5ki-na mu-un-šub kur-ra ba-e-a-ed3</p><p>adabki-a e2-šar2-ra mu-un-šub kur-ra ba-e-a-ed3</p><p>nibruki-a barag-dur2-ĝar-ra mu-un-šub kur-ra ba-e-a-ed3</p><p>kiški-a hur-saĝ-kalam-ma mu-un-šub kur-ra ba-e-a-ed3</p><p>a-ga-de3ki-a e2-ul-maški mu-un-šub kur-a ba-e-a-ed3</p><p>1.</p><p>Do vasto céu, voltou-se à terra vasta.</p><p>Do vasto céu, a deusa voltou-se à terra vasta.</p><p>Do vasto céu, Inana voltou-se à terra vasta.</p><p>Minha senhora precipitou-se do céu e da terra, descendo ao abismo,</p><p>Inana precipitou-se do céu e da terra, descendo ao abismo.</p><p>Abandonou o sacerdócio e ministério, descendo ao abismo,</p><p>abandonou Unug, em E-ana, descendo ao abismo,</p><p>abandonou E-mush-kalama, em Bad-tibira, descendo ao abismo,</p><p>abandonou Giguna, em Zabalam, descendo ao abismo,</p><p>abandonou E-shara, em Adab, descendo ao abismo,</p><p>abandonou Barag-dur-ĝara, em Nibru, descendo ao abismo,</p><p>abandonou Hursang-kalama, em Kish, descendo ao abismo,</p><p>abandonou E-Ulmash, em Acade, descendo ao abismo.</p><p>2.</p><p>me 7-bi zag mu-ni-in-KEŠ2</p><p>me mu-un-ur4-ur4 šu-ni-še3 mu-un-la2</p><p>me dug3 ĝiri3 gub-ba i-im-ĝen</p><p>tug2šu-gur-ra men edin-na saĝ-ĝa2-na mu-un-ĝal2</p><p>hi-li saĝ-ki-na šu ba-ni-in-tiĝ4</p><p>na4za-gin3 di4-di4-la2 gu2-na ba-an-la2</p><p>na4nunuz tab-ba gaba-na ba-ni-in-si</p><p>tug2pala3 tug2 nam-nin-a bar-ra-na ba-an-dul</p><p>šimbi lu2 he2-em-du he2-em-du igi-na ba-ni-in-ĝar</p><p>tu-di-da lu2 ĝa2-nu ĝa2-nu gaba-na ba-an-gid2</p><p>har kug-sig17 šu-na ba-an-du8</p><p>gi 1 ninda eš2-gana2 za-gin3 šu ba-ni-in-du8</p><p>dinana kur-še3 i-im-ĝen</p><p>sukkal-a-ni dga-ša-an-šubur-ra eĝer-a-na i-im-ĝen</p><p>kug dinana-ke4 dnin-šubur-ra gu3 mu-na-de2-e</p><p>ĝa2-nu sukkal zid e2-an-na-ĝu10</p><p>sukkal e-ne-eĝ3 sag9-sag9-ga-ĝu10</p><p>ra-gaba e-ne-eĝ3 ge-en-gen6-na-ĝu10</p><p>ud-da kur-še3 ed3-de3-en</p><p>ud-da kur-še3 ĝen-na-ĝu10-ne</p><p>er2 du6-du6-dam mar-mar-ma-ni-ib</p><p>šem3 gu2-en-na tuku-tuku-a-ma-ni-ib</p><p>e2 diĝir-re-e-ne ninni2-na-ma-ni-ib</p><p>i-bi2-zu hur-ma-ab kiri3-zu hur-ma-ab</p><p>ki mu-lu-da nu-di haš4-gal-zu hur-ma-ab</p><p>mu-lu nu-tuku-gin7 tug2 dili-a mu4-ma-ab</p><p>e2-kur-re e2 dmu-ul-lil2-la2-še3 me-ri-zu dili gub-mu-un</p><p>e2-kur-re e2 dmu-ul-lil2-la2-še3 ku4-ku4-da-zu-ne</p><p>i-bi2 dmu-ul-lil2-la2-še3 er2 šeš2-a</p><p>a-a dmu-ul-lil2 du5-mu-zu mu-lu kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>kug sag9-ga-zu sahar kur-ra-ka nam-ba-da-ab-šar2-re</p><p>za-gin3 sag9-ga-zu za zadim-ma-ka nam-ba-da-an-si-il-si-il</p><p>ĝištaškarin-zu ĝiš nagar-ra-ka nam-ba-an-dar-dar-e</p><p>ki-sikil dga-ša-an-na kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>ud-da dmu-ul-lil2 e-ne-eĝ3-ba nu-ri-gub urimki-še3 ĝen-na</p><p>urimki e2-mud-kur-ra-ka</p><p>e2-kiš-nu-ĝal2 dnanna-še3 ku4-ku4-da-zu-ne</p><p>i-bi2 dnanna-še3 er2 šeš2-a</p><p>a-a dnanna du5-mu-zu mu-lu kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>kug sag9-ga-zu sahar kur-ra-ka nam-ba-da-ab-šar2-re</p><p>za-gin3 sag9-ga-zu za zadim-ma-ka nam-ba-da-an-si-il-si-il</p><p>ĝištaškarin-zu ĝiš nam-nagar-ra-ka nam-ba-da-an-dar-dar-re</p><p>ki-sikil dga-ša-an-na kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>ud-da dnanna e-ne-eĝ3-ba nu-ri-gub uru2-ze2-ebki-še3 ĝen-na</p><p>uru2-ze2-ebki e2 dam-an-ki-ga-še3 ku4-ku4-da-zu-ne</p><p>i-bi2 dam-an-ki-ga-še3 er2 šeš2-am3</p><p>a-a dam-an-ki du5-mu-zu mu-lu kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>kug sag9-ga-zu sahar kur-ra-ka nam-ba-da-ab-šar2-re</p><p>za-gin3 sag9-ga-zu za zadim-ma-ka nam-ba-da-an-si-il-si-il</p><p>ĝištaškarin-zu ĝiš nagar-ra-ka nam-ba-da-an-dar-dar-re</p><p>ki-sikil dga-ša-an-na kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>a-a dam-an-ki u3-mu-un mu-uš-ĝiš-tug2 da-ma-al-la-ke4</p><p>u2 nam-til3-la mu-un-zu a nam-til3-la mu-un-zu</p><p>e-ne ma-ra hu-mu-un-til3-le-en</p><p>2.</p><p>Os sete dons ela atou,</p><p>uniu os dons e os atou com a mão,</p><p>com auspiciosos dons pôs o pé na estrada,</p><p>pôs um turbante cobrindo a cabeça ao ar livre,</p><p>com a mão ajeitou a cabeleira cobrindo a testa,</p><p>ao pescoço atou um pingente de lápis-lazúli.</p><p>Carregou o peito com um par de contas,</p><p>trajou sobre os ombros a pala, vestes régias,</p><p>passou kohl nos olhos, que a todos diz “vem, vem”,</p><p>prendeu o al�nete ao peito, que a todos diz “vem, vem”,</p><p>pôs na mão um anel de ouro,</p><p>empunhou a linha e bastão de lápis-lazúli.</p><p>Prosseguiu Inana ao abismo,</p><p>seguiu-a sua cortesã Ninshubur.</p><p>Divina Inana diz a Ninshubur:</p><p>“Vem, cortesã leal de E-ana,</p><p>minha cortesã das belas palavras,</p><p>minha emissária das �éis palavras.</p><p>Agora devo descer ao abismo,</p><p>agora, quando chegar ao abismo,</p><p>vai, lança nas ruínas um lamento por mim.</p><p>Vai, bate no sacrário o tambor por mim.</p><p>Vai, faz na casa dos deuses vigílias por mim.</p><p>Carpe teu rosto, carpe o nariz,</p><p>carpe, em público, tuas orelhas,</p><p>carpe as coxas sem que vejam.</p><p>Como quem nada possui, veste um único andrajo,</p><p>e pisa sozinha em Ekur, casa de Enlil.</p><p>Ao entrares em Ekur, casa de Enlil,</p><p>chora diante de Enlil:</p><p>‘Pai Enlil, não deixes ninguém prostrar tua �lha no abismo,</p><p>nem pó misturar-se ao teu metal precioso,</p><p>nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,</p><p>nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,</p><p>não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’</p><p>Se então Enlil não for de ajuda, vai para Urim:</p><p>em Emudkura, em Urim,</p><p>ao entrares em Ekishnuĝal, de Nana,</p><p>chora diante de Nana:</p><p>‘Pai Nana, não deixes ninguém prostrar tua �lha no abismo,</p><p>nem pó misturar-se ao teu metal precioso,</p><p>nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,</p><p>nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,</p><p>não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’</p><p>Se então Nana não ajudar, vai para Eridu:</p><p>ao entrares em Eridu, casa de Enki,</p><p>chora diante de Enki:</p><p>‘Pai Enki, não deixes ninguém prostrar tua �lha no abismo,</p><p>nem pó misturar-se ao teu metal precioso,</p><p>nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,</p><p>nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,</p><p>não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’</p><p>O Pai Enki, senhor de largo entendimento,</p><p>conhece a erva-da-vida, conhece a água-da-vida.</p><p>Que ele à vida me traga.</p><p>3.</p><p>dinana kur-še3 ĝen-na-ni-ta</p><p>sukkal-a-ni dnin-šubur-ra-ke4 eĝer-a-ni i3-im-ĝen</p><p>sukkal-a-ni dnin-šubur-ra gu3 mu-na-de2-e</p><p>ĝen-na dga-ša-an-šubur-ĝu10 saĝ KEŠ2 he2-ak</p><p>e-ne-eĝ3 a-ra-dug4-ga-ĝu10 gu2-zu la-ba-ši-šub</p><p>dinana e2-gal ganzer-še3 um-ma-teĝ3</p><p>ĝišig kur-ra-ka šu hul ba-an-us2</p><p>abul kur-ra-ka gu3 hul ba-an-de2</p><p>e2 ĝal2-u3 ni-du8 e2 ĝal2-u3</p><p>e2 ĝal2-u3 dne-ti e2 ĝal2-u3 dili-ĝu10-še3 ga-kur9</p><p>dne-ti ni-du8 gal kur-ra-ke4</p><p>kug dinana inim mu-na-ni-ib-gi4-gi4</p><p>a-ba-me-en za-e</p><p>me-e dga-ša-an na-na ki dutu ed2-a-aš</p><p>tukum-bi za-e dinana ki dutu ed2-a-aš</p><p>a-na-am3 ba-du-un kur nu-gi4-še3</p><p>har-ra-an lu2 du-bi nu-gi4-gi4-de3 šag4-zu a-gin7 tum2-mu-un</p><p>kug dinana-ke4 mu-na-ni-ib2-gi4-gi4</p><p>nin9 gal-ĝu10 kug dga-ša-an-ki-gal-la-ke4</p><p>mu dam-a-ni u3-mu-un gud-gal-an-na ba-an-ug5-ga</p><p>ki-sig10-ga-na i-bi2 du8-u3-de3</p><p>kaš ki-sig10-ga-na gu-ul ba-ni-in-de2 ur5 he2-na-nam-ma</p><p>3.</p><p>No que Inana seguiu ao abismo,</p><p>Ninshubur, sua cortesã, a seguia atrás.</p><p>Diz ela à sua cortesã Ninshubur:</p><p>“Vai, Ninshubur, me dá ouvidos,</p><p>não te descuides das palavras que eu te disse”.</p><p>Quando chega Inana a Ganzir, grão palácio,</p><p>golpeia os umbrais, em fúria, frente ao abismo,</p><p>grita aos portões, em fúria, do abismo:</p><p>“Abre as portas, Ó porteiro,</p><p>abre as portas!</p><p>Abre as portas, Neti, abre as portas! Venho só e quero entrar”.</p><p>Neti, grão guardião do abismo,</p><p>diz a divina Inana, diz em resposta:</p><p>“Tu, quem és?”</p><p>“Sou Inana e sigo o rumo do Sol nascente”.</p><p>“Se és Inana e segues o rumo do Sol nascente,</p><p>o que te trazes ao abismo sem retorno?</p><p>por que então puseste no juízo esta via de onde ninguém retorna?”</p><p>Divina Inana lhe retorna:</p><p>“Morrera o marido de minha irmã mais velha,</p><p>divina Ereshkigal, o senhor Gugalana.</p><p>Dou oferendas de suas honras fúnebres,</p><p>e ela tanta cerveja liba em sua honra – é por isso”.</p><p>4.</p><p>dne-ti ni-du8 gal kur-ra-ke4</p><p>kug dinana-ra mu-na-ni-ib-gi4-gi4</p><p>gub-ba-a dinana nin-ĝa2 ga-an-na-ab-dug4</p><p>nin-ĝu10 dereš-ki-gal-la-ra ga-an-na-dug4 inim-zu ga-an-na-ab-dug4</p><p>dne-ti ni-du8 gal kur-ra-ke4</p><p>nin-a-ni dereš-ki-gal-la-ra</p><p>e2-a-ni-še3 ba-ši-in-kur9 gu3 mu-na-de2</p><p>nin-ĝu10 ki-sikil diš-am3</p><p>dinana nin-zu e2-gal ganzer-še3 um-ma-teĝ3</p><p>ĝišig kur-ra-ka šu hul ba-an-us2</p><p>abul kur-ra-ka gu3 hul ba-an-de2</p><p>e2-an-na mu-un-šub kur-ra ba-e-a-ed3</p><p>me 7-bi zag mu-ni-in-KEŠ2</p><p>me mu-un-ur4-ur4 šu-ni-še3 mu-un-la2</p><p>me dug3 ĝiri3 gub-ba i-im-ĝen</p><p>tug2šu-gur-ra men edin-na saĝ-ĝa2-na mu-un-ĝal2</p><p>hi-li saĝ-ki-na šu ba-ni-in-tiĝ4</p><p>na4za-gin3 di4-di4-la2 gu2-na i-im-la2</p><p>na4nunuz tab-ba gaba-na i-im-si</p><p>tug2pala3 nam-nin-a bar-ra-na i-im-dul</p><p>šimbi lu2 he2-em-du igi-ni i-im-ĝar</p><p>tu-di-da lu2 ĝa2-nu ĝa2-nu gaba-na i-im-gid2</p><p>har kug-sig17 šu-na i-im-la2</p><p>gi 1 ninda eš2-gana2 za-gin3 šu-na i-im-du8</p><p>ud-ba dereš-ki-gal-la-ke4 haš2 bar-bi bi2-in-ra</p><p>nundum zu2 bi2-in-gub inim šag4-še3 ba-tiĝ4</p><p>dne-ti ni-du8 gal-ni-ir gu3 mu-na-de2-e</p><p>ĝa2-nu dne-ti ni-du8 gal kur-ra-ĝu10</p><p>inim a-ra-dug4-ga-ĝu10 gu2-zu la-ba-an-šub-be2-en</p><p>abul kur-ra 7-bi ĝišsi-ĝar-bi he2-eb-us2</p><p>e2-gal ganzer dili-bi ĝišig-bi šu ha-ba-an-us2</p><p>e-ne ku4-ku4-da-ni-ta</p><p>gam-gam-ma-ni tug2 zil-zil-la-ni-ta lu2 ba-an-de6</p><p>dne-ti ni-du8 gal kur-ra-ke4</p><p>inim nin-a-na-še3 saĝ KEŠ2 ba-ši-in-ak</p><p>abul kur-ra 7-bi ĝišsi-ĝar-bi bi2-ib2-us2</p><p>e2-gal ganzer dili-bi ĝišig-bi šu ba-an-us2</p><p>kug dinana-ra gu3 mu-na-de2-e</p><p>ĝa2-nu dinana kur9-um-ma-ni</p><p>4.</p><p>Neti, grão guardião do abismo,</p><p>diz a divina Inana, diz em resposta:</p><p>“Espera, Inana, que direi à minha senhora,</p><p>direi à minha senhora Ereshkigal, direi a ela tuas palavras”.</p><p>Neti, grão guardião do abismo,</p><p>vai à sua senhora Ereshkigal,</p><p>e, ao entrar em sua casa, diz:</p><p>“Minha senhora, tem uma jovem aqui.</p><p>Tua irmã, Inana, chegou às portas de Ganzir, grão palácio.</p><p>Golpeou os umbrais, em fúria, frente ao abismo,</p><p>gritou aos portões, em fúria, do abismo,</p><p>precipitou-se de E-ana, descendo ao abismo.</p><p>“Os sete dons, ela atou</p><p>uniu os dons e os atou com a mão,</p><p>com auspiciosos dons pôs o pé na estrada,</p><p>pôs um turbante cobrindo a cabeça ao ar livre,</p><p>com a mão ajeitou a cabeleira cobrindo a testa,</p><p>ao pescoço atou um pingente de lápis-lazúli,</p><p>“Carregou o peito com um par de contas,</p><p>trajou sobre os ombros a pala, vestes régias,</p><p>passou kohl nos olhos, que a todos diz ‘vem, vem’,</p><p>prendeu o al�nete ao peito, que a todos diz ‘vem, vem’,</p><p>pôs na mão um anel de ouro,</p><p>empunhou a linha e bastão de lápis-lazúli”.</p><p>Nisso, Ereshkigal bateu nas próprias coxas,</p><p>mordeu os lábios e guardou as palavras no peito,</p><p>disse a Neti, grão guardião:</p><p>“Vai, Neti, meu grão guardião do abismo,</p><p>não te descuides das palavras que te digo,</p><p>aldrava os sete portões do abismo</p><p>e abre uma a uma as portas do palácio Ganzir</p><p>e então, quando ela entrar,</p><p>e agachar-se e despir-se das roupas, alguém irá levá-las”.</p><p>Neti, grão guardião do abismo,</p><p>dando ouvidos às palavras de sua senhora,</p><p>aldrava os sete portões do abismo</p><p>e abre uma a uma as portas do palácio Ganzir</p><p>e diz a divina Inana:</p><p>“Vem, Inana, e faz tua entrada”.</p><p>5.</p><p>dinana ku4-ku4-da-ni-ta</p><p>tug2šu-gur-ra men edin-na saĝ-ĝa2-na lu2 ba-da-an-ze2-er</p><p>ta-am3 ne-e</p><p>si-a dinana me kur-ra-ke4 šu al-du7-du7</p><p>dinana ĝarza kur-ra-ke4 ka-zu na-an-ba-e</p><p>abul 2-kam-ma ku4-ku4-da-ni-ta</p><p>na4za-gin3 di4-di4-la2 gu2-na lu2 ba-da-an-ze2-er</p><p>ta-am3 ne-e</p><p>si-a dinana me kur-ra-ke4 šu al-du7-du7</p><p>dinana ĝarza kur-ra-ke4 ka-zu na-an-ba-e</p><p>abul 3-kam-ma ku4-ku4-da-ni-ta</p><p>na4nunuz tab-ba gaba-na lu2 ba-da-an-ze2-er</p><p>ta-am3 ne-e</p><p>si-a dinana me kur-ra-ke4 šu al-du7-du7</p><p>dinana ĝarza kur-ra-ke4 ka-zu na-an-ba-e</p><p>abul 4-kam-ma ku4-ku4-da-ni-ta</p><p>tu-di-da lu2 ĝa2-nu ĝa2-nu gaba-na lu2 ba-da-an-ze2-er</p><p>ta-am3 ne-e</p><p>si-a dinana me kur-ra-ke4 šu al-du7-du7</p><p>dinana ĝarza kur-ra-ke4 ka-zu na-an-ba-e</p><p>abul 5-kam-ma ku4-ku4-da-ni-ta</p><p>har kug-sig17 šu-na lu2 ba-da-an-ze2-er</p><p>ta-am3 ne-e</p><p>si-a dinana me kur-ra-ke4 šu al-du7-du7</p><p>dinana ĝarza kur-ra-ke4 ka-zu na-an-ba-e</p><p>abul 6-kam-ma ku4-ku4-da-ni-ta</p><p>gi 1 ninda eš2-gana2 za-gin3 šu-na lu2 ba-da-an-ze2-er</p><p>ta-am3 ne-e</p><p>si-a dinana me kur-ra-ke4 šu al-du7-du7</p><p>dinana ĝarza kur-ra-ke4 ka-zu na-an-ba-e</p><p>abul 7-kam-ma ku4-ku4-da-ni-ta</p><p>tug2pala3 tug2 nam-nin-a bar-ra-na lu2 ba-da-an-ze2-er</p><p>ta-am3 ne-e</p><p>si-a dinana me kur-ra-ke4 šu al-du7-du7</p><p>dinana ĝarza kur-ra-ke4 ka-zu na-an-ba-e</p><p>gam-gam-ma-ni tug2 zil-zil-la-ni-ta lu2 ma-an-de6</p><p>nin9-a-ni ĝišgu-za-ni-ta im-ma-da-an-zig3</p><p>e-ne ĝišgu-za-ni-ta dur2 im-mi-in-ĝar</p><p>da-nun-na di-kud 7-bi igi-ni-še3 di mu-un-da-ku5-ru-ne</p><p>igi mu-ši-in-bar i-bi2 uš2-a-kam</p><p>inim i-ne-ne inim lipiš gig-ga-am3</p><p>gu3 i-ne-de2 gu3 nam-tag-tag-ga-am3</p><p>munus tur5-ra uzu niĝ2-sig3-ga-še3 ba-an-kur9</p><p>uzu niĝ2-sig3-ga ĝišgag-ta lu2 ba-da-an-la2</p><p>5.</p><p>Quando Inana entrou,</p><p>tiraram seu turbante, que cobria a cabeça ao ar livre:</p><p>“O que é isso?”</p><p>“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.</p><p>Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.</p><p>Quando entrou pelo segundo portão,</p><p>tiraram do seu pescoço o pingente de lápis-lazúli:</p><p>“O que é isso?”</p><p>“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.</p><p>Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.</p><p>Quando entrou pelo terceiro portão,</p><p>tiraram do seu peito o par de contas:</p><p>“O que é isso?”</p><p>“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.</p><p>Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.</p><p>Quando entrou pelo quarto portão,</p><p>tiraram o al�nete do peito, que a todos diz “vem, vem”,</p><p>“O que é isso?”</p><p>“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.</p><p>Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.</p><p>Quando entrou pelo quinto portão,</p><p>tiraram de sua mão o anel de ouro:</p><p>“O que é isso?”</p><p>“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.</p><p>Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.</p><p>Quando entrou pelo sexto portão,</p><p>tiraram de sua mão a linha e bastão de lápis-lazúli:</p><p>“O que é isso?”</p><p>“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.</p><p>Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.</p><p>Quando entrou pelo sétimo portão,</p><p>tiraram de seu ombro a pala, as vestes régias:</p><p>“O que é isso?”</p><p>“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.</p><p>Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.</p><p>Após agachar-se e despir-se das roupas, alguém as levou.</p><p>Quando sua irmã se ergueu do trono,</p><p>ela se assentou ao trono dela.</p><p>Os Anuna, os sete juízes, passaram juízo contra sua presença:</p><p>deitaram olhos sobre ela: o olhar da morte,</p><p>pronunciaram-lhe palavras: as palavras da peste,</p><p>pesava nela a voz: a voz do sacrilégio.</p><p>Abalada, ela se fez numa carcaça,</p><p>e a carcaça foi suspensa num gancho.</p><p>6.</p><p>ud 3 ĝi6 3-am3 um-ta-zal-la-ta</p><p>sukkal-a-ni dnin-šubur-ra-ke4</p><p>inim nin-a-na-še3 ĝeštug2 ba-ši-in-gub</p><p>er2 du6-du6-dam mu-un-na-ĝa2-ĝa2</p><p>šem3 gu2-en-na mu-un-tuku-a</p><p>e2 diĝir-re-e-ne-ke4 mu-un-na-ninni2</p><p>igi-ni mu-un-na-hur kiri3-ni mu-un-hur</p><p>ki lu2-da nu-u6-di haš4-gal-a-ni mu-un-na-hur</p><p>mu-lu nu-tuku-gin7 tug2 dili-a im-ma-an-mu4</p><p>e2-kur e2 den-lil2-la2-še3 ĝiri3-ni dili mu-un-gub</p><p>e2-kur e2 den-lil-la2-še2 ku4-ku4-da-ni-ta</p><p>igi den-lil2-la2-še3 er2 im-ma-še8-še8</p><p>a-a dmu-ul-lil2 du5-mu-zu mu-lu kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>kug sag9-ga-zu sahar kur-ra-ka nam-ba-da-ab-šar2-e</p><p>na4za-gin3 sag9-ga-zu za zadim-ka nam-ba-da-an-si-il-si-il</p><p>ĝištaškarin-zu ĝiš nagar-ra-ka nam-ba-dar-dar-re</p><p>ki-sikil dga-ša-an-na kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>a-a den-lil2 lipiš bal-a-ni dnin-šubur-ra-ke4 mu-na-ni-ib-gi4-gi4</p><p>dumu-ĝu10 an gal al bi2-in-dug4 ki gal al bi2-in-dug4</p><p>dinana an gal al bi2-in-dug4 ki gal al bi2-in-dug4</p><p>me kur-ra me al nu-di-da sa2 bi2-in-dug4-ga-bi kur-re he2-eb-us2</p><p>a-ba-am3 ki-bi sa2 in-na-an-dug4 ed3-de3 al mu-ni-in-dug4</p><p>a-a den-lil2</p><p>inim-bi nu-mu-na-gub urimki-še3 ba-ĝen</p><p>urimki e2-mud-kur-ra-ka</p><p>e2-kiš-nu-ĝal2 e2 dnanna-še3 ku4-ku4-da-ni-ta</p><p>igi dnanna-še3 er2 im-ma-še8-še8</p><p>a-a dnanna du5-mu-zu mu-lu kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>kug sag9-ga-zu sahar kur-ra-ka nam-ba-da-ab-šar2-re</p><p>na4za-gin3 sag9-ga-zu za zadim-ka nam-ba-da-an-si-il-si-il-i</p><p>ĝištaškarin-zu ĝiš nagar-ra-ka nam-ba-da-an-dar-dar-re</p><p>ki-sikil dga-ša-an-na kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>a-a dnanna lipiš bal-a-ni dnin-šubur-ra-ke4 mu-na-ni-ib-gi4-gi4</p><p>dumu-ĝu10 an gal al bi2-in-dug4 ki gal al bi2-in-dug4</p><p>dinana an gal al bi2-in-dug4 ki gal al bi2-in-dug4</p><p>me kur-ra me al nu-di-da sa2 bi2-in-dug4-ga-bi kur-re he2-eb-us2</p><p>a-ba-am3 ki-bi sa2 in-na-an-dug4 ed3-de3 al mu-ni-ib-dug4</p><p>a-a dnanna inim-bi nu-mu-na-gub uru2-ze2-ebki-še3 ba-ĝen</p><p>uru2-ze2-ebki e2 den-ki-ka3-še3 ku4-ku4-da-ni-ta</p><p>1igi den-ki-ka3-še3 ir2 im-ma-še8-še8</p><p>a-a den-ki du5-mu-zu mu-lu kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>kug sag9-ga-zu sahar kur-ra-ka nam-ba-da-ab-šar2-re</p><p>na4za-gin3 sag9-ga-zu za zadim-ka nam-ba-da-an-si-il-si-il-i</p><p>ĝištaškarin-zu ĝiš nagar-ra-ka nam-ba-an-dar-dar-re</p><p>ki-sikil dga-ša-an-na kur-ra nam-ba-da-an-gam-e</p><p>6.</p><p>Passaram-se três dias e três noites,</p><p>mas Ninshubur, sua cortesã,</p><p>guardava à memória as palavras de sua senhora:</p><p>lançou nas ruínas lamento e mais lamento por ela,</p><p>por ela bateu no sacrário o tambor,</p><p>por ela na casa dos deuses fez vigília e mais vigília,</p><p>carpiu o rosto e carpiu o nariz,</p><p>carpiu as coxas sem que ninguém visse,</p><p>como quem nada possui trajou um só andrajo</p><p>e sozinha pisou em Ekur, casa de Enlil.</p><p>Ao entrar em Ekur, casa de Enlil,</p><p>ela chorou diante de Enlil:</p><p>“Pai Enlil, não deixes ninguém prostrar tua �lha no abismo,</p><p>nem pó misturar-se ao teu metal precioso,</p><p>nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,</p><p>nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,</p><p>não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”</p><p>Pai Enlil, de estômago revirado, responde, responde a Ninshubur:</p><p>“Minha �lha desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.</p><p>Inana desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.</p><p>Dons do abismo não são dons que se deseje: quem os alcança o abismo</p><p>detém.</p><p>Quem, ao chegar lá, desejará subir de volta?”</p><p>Pai Enlil não foi de ajuda, e ela foi a Urim,</p><p>em Urim, em Emud-kura,</p><p>entrar em Ekishnuĝal, casa de Nana,</p><p>chorou diante de Nana:</p><p>“Pai Nana, não deixes ninguém prostrar tua �lha no abismo,</p><p>nem pó misturar-se ao teu metal precioso,</p><p>nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,</p><p>nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,</p><p>não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”</p><p>Pai Nana, de estômago revirado, responde, responde a Ninshubur:</p><p>“Minha �lha desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.</p><p>Inana desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.</p><p>Dons do abismo não são dons que se deseje: quem os alcança o abismo</p><p>detém.</p><p>Quem, ao chegar lá, desejará subir de volta?”</p><p>Pai Nana não foi de ajuda, e ela foi a Eridu,</p><p>entrar em Eridu, casa de Enki,</p><p>chorou diante de Enki:</p><p>“Pai Enki, não deixes ninguém prostrar tua �lha no abismo,</p><p>nem pó misturar-se ao teu metal precioso,</p><p>nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,</p><p>nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,</p><p>não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”</p><p>7.</p><p>a-a den-ki dnin-šubur-ra-ke4 mu-un-na-ni-ib-gi4-gi4</p><p>dumu-ĝu10 a-na bi2-in-ak ĝe26-e mu-un-kuš2-u</p><p>dinana a-na bi2-in-ak ĝe26-e mu-un-kuš2-u</p><p>nin kur-kur-ra-ke4 a-na bi2-in-ak ĝe26-e mu-un-kuš2-u</p><p>nu-u8-gig an-na-ke4 a-na bi2-in-ak ĝe26-e mu-un-kuš2-u</p><p>umbin si-ni mu-sir2 ba-ra-an-de6 kur-ĝar-ra-aš ba-an-dim2</p><p>umbin si 2-kam-ma mu-sir2 ba-ra-an-de6 gala-tur-ra-aš ba-an-dim2</p><p>kur-ĝar-ra u2 nam-til3-la ba-an-šum2</p><p>gala-tur-ra a nam-til3-la ba-an-šum2</p><p>a-a den-ki gala-tur-ra kur-ĝar-ra gu3 mu-na-de2-e</p><p>ĝen-na-an-ze2-en ĝiri3 kur-še3 nu2-ba-an-ze2-en</p><p>ĝišig nim-gin7 dal-dal-e-de3-en-ze2-en</p><p>za-ra lil2-gin7 gur-gur-re-de3-en-ze2-en</p><p>ama gan-e nam-dumu-ne-ne-še3</p><p>dereš-ki-gal-la-ke4 i-nu2-nu2-ra-am3</p><p>mur kug-ga-na gada nu-um-bur2</p><p>gaba-ni bur šagan-gin7 nu-um-gid2</p><p>šu-si-ni urudlul-bi-gin7 am3-da-ĝal2</p><p>siki-ni ga-rašsar-gin7 saĝ-ĝa2-na mu-un-ur4-ur4-re</p><p>u-u8-a šag4-ĝu10 dug4-ga-ni</p><p>kuš2-u3-me-en nin-me a šag4-zu dug4-ga-zu-ne-ne</p><p>u-u8-a bar-ĝu10 dug4-ga-ni</p><p>kuš2-u3-me-en nin-me a bar-zu dug4-ga-zu-ne-ne</p><p>a-ba-am3 za-e-me-en-ze2-en</p><p>šag4-ĝu10-ta šag4-zu-še3 bar-ĝu10-ta bar-zu-še3 dug4-ga-na-ab-ze2-en</p><p>diĝir he2-me-en-ze2-en inim ga-mu-ra-an-dug4</p><p>lu2-ulu3 he2-me-en-ze2-en nam-zu-ne he2-eb-tar-re</p><p>zi an-na zi ki-a pad3-de3-ne-ze2-na-am3</p><p>ed3-[...]-ab-ze2-en</p><p>a id2-bi ma-ra-ba-e-ne šu nam-ba-gid2-i-en-ze2-en</p><p>a-šag4 še-ba ma-ra-ba-e-ne šu nam-ba-gid2-i-en-ze2-en</p><p>uzu niĝ2-sig3-ga ĝišgag-ta la2 šum2-me-ab dug4-ga-na-ab-ze2-en</p><p>uzu niĝ2-sig3-ga ga-ša-an-zu-ne-ne</p><p>niĝ2 lugal-me en he2-a niĝ2 nin-me he2-a šum2-ma-ze2-en dug4-ga-na-ab-</p><p>ze2-en</p><p>uzu niĝ2-sig3-ga ĝišgag-ta la2-a im-ma-da-ab-šum2-mu-ze2-en</p><p>dinana ha-ba-gub</p><p>7.</p><p>Pai Enki responde, responde a Ninshubur:</p><p>“O que fez minha �lha? Isto me a�ige.</p><p>O que fez Inana? Isto me a�ige.</p><p>O que fez a senhora de toda terra? Isto me a�ige.</p><p>O que fez a hierodula de An? Isto me a�ige”.</p><p>Ele apanhou pó de sob a unha e criou o deita-abismo,</p><p>apanhou o pó de sob a outra unha e criou o chora-miúdo,</p><p>e ao deita-abismo deu a erva-da-vida,</p><p>e ao chora-miúdo deu a água-da-vida.</p><p>Ao deita-abismo e ao chora-miúdo diz o Pai Enki:</p><p>“Ide, conduzi vossos passos à terra dos que repousam,</p><p>voai, voai como moscas pela porta,</p><p>passai, passai como espírito pelas dobradiças.</p><p>Lá, por seus �lhos,</p><p>repousa Ereshkigal, mãe que dera à luz:</p><p>seus ombros sacros nenhum linho cobre,</p><p>seus seios não aleitam como um jarro,</p><p>seus dedos lhe são como machados,</p><p>seus cabelos como raízes na cabeça se enroscam.</p><p>“Quando ela disser, ‘ui, meu peito’,</p><p>dizei, ‘pronto, pronto, senhora, teu peito!’</p><p>Quando disser, ‘ui, minha costela’,</p><p>dizei, ‘pronto, pronto, senhora, tua costela!’</p><p>‘Quem sois?’, ela dirá,</p><p>‘Vos falo do peito ao peito, costela à costela,</p><p>se sois deuses, deixai-me falar convosco,</p><p>se mortais, que um destino por dom vos seja decretado’,</p><p>que ela jure pelo alento do céu e pelo alento da terra.</p><p>“Toda a água de um rio vos será ofertada – não aceiteis.</p><p>Todo o grão de uma gleba vos será ofertado – não aceiteis.</p><p>‘Entrega-nos a carcaça que pende no gancho’, dizei, e ela dirá:</p><p>‘esta carcaça é vossa rainha’,</p><p>‘seja ela nosso rei, seja nossa rainha, entrega-a’, dizei,</p><p>e a carcaça que pende no gancho será entregue.</p><p>Dentre vós um sobre ela lançará a erva-da-vida, o outro, a água-da-vida.</p><p>E Inana levantará”.</p><p>8.</p><p>gala-tur kur-ĝar-ra inim den-ki-ka3-še3 saĝ KEŠ2 ba-ši-in-ak-eš</p><p>ĝišig nim-gin7 mu-un-dal-dal</p><p>za-ra lil2-gin7 mu-un-gur-gur</p><p>ama gan-e nam-dumu-ne-ne-še3</p><p>dereš-ki-gal-la-ke4 i-nu2-nu2-ra-am3</p><p>mur kug-ga-na gada nu-un-bur2</p><p>gaba-ni bur šagan-na nu-un-gid2</p><p>šu-si-ni urudlul-bi-gin7 an-da-ĝal2</p><p>siki-ni ga-rašsar-gin7 saĝ-ĝa2-na mu-un-ur4-ur4</p><p>u3-u8-a šag4-ĝu10 dug4-ga-ni</p><p>kuš2-u3-me-en nin-me a šag4-zu in-na-ne-eš</p><p>u3-u8-a bar-ĝu10 dug4-ga-ni</p><p>kuš2-u3-me-en nin-me a bar-zu in-na-ne-eš</p><p>a-ba-am3 za-e-me-en-ze2-en</p><p>šag4-ĝu10-ta šag4-zu-še3 bar-ĝu10-ta bar-zu-še3 ba-e-de3-en-ze2-en</p><p>diĝir he2-me-en-ze2-en inim ga-mu-ra-an-dug4</p><p>lu2-ulu3 he2-me-/en\-ze2-en nam-zu-ne ga-mu-ri-ib-tar</p><p>zi an-na zi ki-a mu-ni-in-pad3-de3-eš (...)</p><p>id2 a-ba mu-ne-ba-e šu nu-um-ma-gid2-de3</p><p>a-šag4 še-ba mu-ne-ba-e šu nu-um-ma-gid2-de3</p><p>uzu niĝ2-sig3-ga ĝišgag-ta la2 šum2-me-eb in-na-an-ne-eš</p><p>kug dereš-ki-gal-la-ke4 gala-tur kur-ĝar-ra mu-na-ni-ib-gi4-gi4</p><p>uzu niĝ2-sig3-ga niĝ2 ga-ša-an-zu-ne-ne-kam</p><p>niĝ2 lugal-me niĝ2 nin-me he2-a šum2-me-eb in-na-an-ne-eš</p><p>uzu niĝ2-sig3-ga ĝišgag-ta la2 im-me-ne-šum2-uš</p><p>1-am3 u2 nam-til3-la 1-am3 a nam-til3-la ugu-a bi2-in-šub-bu-uš</p><p>dinana ba-gub</p><p>8.</p><p>O chora-miúdo e o deita-abismo deram ouvidos às palavras de Enki,</p><p>voaram, voaram como moscas pela porta,</p><p>passaram, passaram como espírito pelas dobradiças.</p><p>Lá, enlutada por seus �lhos,</p><p>repousava Ereshkigal, mãe que dera à luz:</p><p>seus ombros sacros nenhum linho cobria,</p><p>seus seios não aleitavam como um jarro,</p><p>seus dedos lhe eram como machados,</p><p>seus cabelos como raízes na cabeça se enroscavam.</p><p>Ela disse, “ui, meu peito”,</p><p>e eles disseram, “pronto, pronto,</p><p>senhora, teu peito!”</p><p>Ela disse, “ui, minha costela”,</p><p>e eles disseram, “pronto, pronto, senhora, tua costela!”</p><p>“Quem sois?”</p><p>“Vos falo do peito ao peito, costela à costela,</p><p>se sois deuses, deixai-me falar convosco,</p><p>se mortais, um destino por dom vos seja decretado”,</p><p>jurou pelo alento do céu e pelo alento da terra. (…)</p><p>Toda a água de um rio lhes foi ofertada – não aceitaram.</p><p>Todo o grão de uma gleba lhes foi ofertado – não aceitaram.</p><p>“Entrega-nos a carcaça que pende no gancho”, disseram.</p><p>Divina Ereshkigal respondeu o chora-miúdo e ao deita-abismo:</p><p>“Esta carcaça é vossa rainha”,</p><p>“seja ela nosso rei, seja nossa rainha, entrega-a”, disseram,</p><p>e a carcaça que pende no gancho foi entregue.</p><p>Deles um sobre ela lançou a erva-da-vida, o outro, a água-da-vida.</p><p>E Inana levantou.</p><p>9.</p><p>(...)</p><p>dinana inim den-ki-ka3-ta kur-ta ed3</p><p>dinana kur-ta ed3-da-ni</p><p>da-nun-na-ke4-e-ne ba-ab-ha-za-aš</p><p>a-ba-am3 lu2 kur-ta im-ta-ed3-de3 kur-ta silim-ma-ni bi2-in-ed3-de3</p><p>ud-da dinana kur-ta ba-ed3-de3</p><p>saĝ dili saĝ-ĝa2-na ha-ba-ab-šum2-mu</p><p>dinana kur-ta ba-ed3-de3</p><p>lu2 igi-na sukkal nu-me-a ĝišĝidru šu bi2-in-du8</p><p>bar-ra-na ra-gaba nu-me-a ĝištukul ur2-ra bi2-in-la2</p><p>gal5-la2 tur-tur gi-šukur-gin7</p><p>gal5-la2 gal-gal gi dub-ba-an-na-gin7 zag-ga-na ba-an-dab5-be-eš</p><p>lu2 e-ne-ra in-ši-re7-eš-am3</p><p>lu2 dinana-ra in-ši-re7-eš-am3</p><p>u2 nu-zu-me-eš a nu-zu-me-eš</p><p>zid2 dub-dub-ba nu-gu7-me-eš</p><p>a bal-bal-a nu-na8-na8-me-eš</p><p>kadra niĝ2-dug3-ge šu nu-gid2-me-eš</p><p>ur2 dam niĝ2-dug3-ge-eš nu-sig9-ge-me-eš</p><p>dumu niĝ2-ku7-ku7-da ne nu-su-ub-ba-me-eš</p><p>dam ur2 lu2-ka ba-ra-an-si-il-si-il-le-eš</p><p>dumu lu2 du10-ub-ta ba-ra-an-zig3-ge-eš</p><p>e2-gi4-a e2 ušbar-ra-ka im-ta-an-ed2-eš-am3</p><p>9.</p><p>(...)</p><p>Pelas palavras de Enki, Inana voltava do abismo,</p><p>Inana voltava do abismo,</p><p>quando os Anuna a detêm:</p><p>“Quem já voltou do abismo? voltou vivo do abismo?</p><p>se Inana quer voltar do abismo,</p><p>que outra cabeça seja dada pela sua”.</p><p>Inana voltava do abismo.</p><p>À frente alguém, sem ser cortesão, empunhava um cetro,</p><p>atrás alguém, sem ser emissário, levava um porrete no cinto,</p><p>os demônios pequenos, como uma cerca,</p><p>e os grandes demônios, como um matagal, a detinham de todos os lados.</p><p>Aqueles que iam com ela,</p><p>aqueles que iam com Inana,</p><p>desconhecem grãos, desconhecem água,</p><p>não comem a farinha ofertada,</p><p>não bebem a água libada,</p><p>não aceitam belas dádivas,</p><p>não gozam das belas carícias do amor,</p><p>�lho nenhum docemente os beija.</p><p>Eles separam o marido da esposa,</p><p>o �lho carregam do colo dos pais,</p><p>a noiva expulsam da casa dos sogros.</p><p>10.</p><p>dinana kur-ta ed3-da-ni</p><p>dnin-šubur-ra-ke4 ka2 ganzer-ra-ka ĝiri3-ni-še3 ba-an-šub</p><p>sahar-ra ba-da-an-tuš tug2 mu-sir2-ra ba-an-mu4</p><p>gal5-la2-e-ne kug dinana-ra gu3 mu-un-na-de2-e</p><p>dinana iri-zu-še3 ĝen-ba e-ne ga-ba-ab-tum2-mu-de3-en</p><p>kug dinana-ke4 gal5-la2-e-ne mu-un-ne-ni-gi4-gi4</p><p>sukkal e-ne-eĝ3 sag9-sag9-ga-ĝu10</p><p>ra-gaba e-ne-eĝ3 ge-en-gen6-na-ĝu10</p><p>na rig5-ga-ĝu10 šu nu-un-bar-re</p><p>e-ne-eĝ3 ma-ra-ab-dug4-ga-ĝu10-uš gu2-ni la-ba-da-an-ši-šub</p><p>er2 du6-du6-dam ma-an-ĝa2-ĝa2</p><p>šem3 gu2-en-na ma-an-tuku-am3</p><p>e2 diĝir-re-e-ne ma-an-ninni2</p><p>i-bi2-ni ma-an-hur kiri3-ni ma-an-hur</p><p>ki mu-lu-da nu-di haš4-gal-a-ni ma-an-hur</p><p>mu-lu nu-tuku-gin7 tug2 dili-a im-ma-an-mu4</p><p>e2-kur-re e2 dmu-ul-lil2-la2-še3</p><p>urimki-ma e2 dnanna-še3</p><p>324uru2-ze2-ebki e2 dam-an-ki-ga-še3</p><p>ĝiri3-ni dili mu-un-gub</p><p>e-ne ma-a-ra mu-un-til3-le-en</p><p>e-ne ta-gin7 nam-ma-ra-ab-ze2-eĝ3-en-ze2-en</p><p>ga-an-ši-re7-de3-en ummaki-a sig4-kur-šag4-ga-še3 ga-am3-ši-re7-de3-em</p><p>ummaki-a sig4-kur-šag4-ga-ta</p><p>dšara iri-ni-a ĝiri3-ni-še3 ba-an-šub</p><p>sahar-ra ba-da-an-tuš tug2 mu-sir2-ra ba-an-mu4</p><p>gal5-la2-e-ne kug dinana-ra gu3 mu-na-de2-e</p><p>dinana iri-zu-še3 ĝen-ba e-ne ga-ba-ab-tum2-mu-de3</p><p>kug dinana-ke4 gal5-la2-e-ne mu-na-ni-ib-gi4-gi4</p><p>en3-du-du dšara-ĝu10</p><p>umbin ku5-ku5-ra-ĝu10 gu2-tar la2-ĝu10</p><p>en3 ta-gin7 nam-ma-ra-ni-ib-ze2-eĝ3-ĝen</p><p>ga-e-re7-en-de3-en bad3-tibiraki-a e2-muš3-kalam-ma-še3 ga-an-ši-re7-en-</p><p>de3-em</p><p>bad3-tibiraki-a e2-muš3-kalam-ma-ta</p><p>dlu2-lal3-e iri-ni-a ĝiri3-ni-še3 ba-an-šub</p><p>sahar-a im-da-an-tuš tug2 mu-sir2-ra ba-an-mu4</p><p>gal5-la2-e-ne kug dinana-ra gu3 mu-na-de2-e</p><p>dinana iri-zu-še3 ĝen-ba e-ne ga-ba-ab-tum2-mu-un-de3-em</p><p>kug dinana-ke4 gal5-la2-e-ne mu-na-ni-ib-gi4-gi4</p><p>dlu2-lal3 zag ed2-a a2 zid-da gab2-bu-ĝu10 us2-sa</p><p>e-ne ta-gin7 nam-ma-ra-ab-ze2-eĝ3-en-ze2-en</p><p>ga-e-re7-de3-en ĝišhašhur gul-la edin kul-aba4ki-še3 ga-an-ši-re7-en-de3-en</p><p>10.</p><p>Voltando Inana do abismo,</p><p>nas portas de Ganzir, Ninshubur cai aos pés dela:</p><p>vestia andrajos, sentava no pó.</p><p>Os demônios dizem à divina Inana:</p><p>“Vai para tua cidade, nós a levaremos”.</p><p>Divina Inana responde, responde aos demônios:</p><p>“Ela é minha cortesã das belas palavras,</p><p>minha emissária das �éis palavras,</p><p>ela deu ouvidos aos meus conselhos,</p><p>não se descuidou das minhas palavras,</p><p>lançou nas ruínas lamento e mais lamento por mim,</p><p>por mim bateu no sacrário o tambor,</p><p>por mim na casa dos deuses fez vigília e mais vigília,</p><p>carpiu o rosto e carpiu o nariz,</p><p>carpiu as coxas sem que ninguém visse.</p><p>“Na casa de Enlil, em E-kur,</p><p>na casa de Nana, em Urim,</p><p>na casa de Enki, em Eridu,</p><p>ela pisou, sozinha,</p><p>e me trouxe à vida:</p><p>como poderia entregá-la?</p><p>Vamos, vamos a Sig-kurshaga, em Umma”.</p><p>Em Sig-kurshaga, em Umma,</p><p>Shara, em sua cidade, cai aos pés dela:</p><p>vestia andrajos, sentava no pó.</p><p>Os demônios dizem à divina Inana:</p><p>“Vai para tua cidade, nós o levaremos”.</p><p>Divina Inana responde, responde aos demônios:</p><p>“Shara é quem canta para mim</p><p>e faz minhas unhas e meu cabelo:</p><p>como poderia entregá-lo?</p><p>Vamos, vamos a E-mushkalama, em Bad-tibira”.</p><p>E-mushkalama, em Bad-tibira,</p><p>Lulal, em sua cidade, cai aos pés dela:</p><p>vestia andrajos, sentava no pó.</p><p>Os demônios dizem à divina Inana:</p><p>“Vai para tua cidade, nós o levaremos”.</p><p>Divina Inana responde, responde aos demônios:</p><p>“Lulal me segue aqui e acolá, aonde for:</p><p>como poderia entregá-lo?</p><p>Vamos, vamos às campinas de Kulaba, onde brota a macieira”.</p><p>11.</p><p>ĝišhašhur gul-la edin kul-aba4ki-še3 ĝiri3-ni-še3 ba-e-re7re-eš</p><p>ddumu-zid tug2 mah-a i-im-mu4 mah-a dur2-a dur2 im-ma-ĝar</p><p>gal5-la2-e-ne haš4-a-na i-im-dab5-be2-eš</p><p>dugšakir 7-e ga mu-un-de2-eš-am3 (...)</p><p>igi mu-un-ši-in-bar igi uš2-a-ka</p><p>inim i-ne-ne inim lipiš gig-ga</p><p>gu3 i-ne-de2 gu3 nam-tag-tag-ga</p><p>en3-še3 tum3-mu-an-ze2-en</p><p>kug dinana-ke4 su8-ba ddumu-zid-da šu-ne-ne-a in-na-šum2</p><p>lu2 e-ne lu2 mu-un-ne-re7-eš-am3</p><p>lu2 ddumu-zid mu-un-ši-re7-eš-am3</p><p>1u2 nu-zu-me-eš a nu-zu-me-eš</p><p>zid2 dub-dub-ba nu-gu7-me-eš</p><p>a bal-bal-a nu-na8-na8-me-eš</p><p>ur2 dam niĝ2-dug3-ge-eš2 nu-sig9-ge-eš</p><p>dumu niĝ2-ku7-ku7-da ne nu-su-ub-me-eš</p><p>dumu lu2 du10-ub-ta ba-ra-an-zig3-ge-eš</p><p>e2-gi4-a e2 ušbar-ra-ka um-ta-an-ed2-eš</p><p>ddumu-zid-de3 er2 im-da-pad3 sig7-sig7 i3-ĝa2-ĝa2</p><p>ĝuruš-e dutu-ra an-še3 šu-ni ba-an-na-zig3</p><p>dutu murum5-ĝu10-me-en ĝe26-e mussa-zu-me-en</p><p>e2 ama-zu-še3 i3 gur3-ru-me-en</p><p>e2 dnin-gal-še3 ga gur3-ru-me-en</p><p>šu-ĝu10 šu muš-a u3-mu-ni-in-šum2</p><p>ĝiri3-ĝu10 ĝiri3 muš-a u3-mu-ni-in-šum2</p><p>gal5-la2-ĝu10 ga-ba-da-kar nam-mu-un-ha-za-ne</p><p>11.</p><p>Seguiram seus passos até as campinas de Kulaba, onde brota a macieira.</p><p>Lá Dumuzid ostentava vestes majestosas, sentado majestoso sobre o trono.</p><p>Pelas coxas os demônios o agarram,</p><p>Os sete despejam seu leite do manteigueiro, (…)</p><p>Deitou olhos sobre ele: o olhar da morte,</p><p>pronunciou-lhe palavras: as palavras da peste,</p><p>pesava nele a voz: a voz do sacrilégio.</p><p>“Vós demorais. Levai-o!”</p><p>Divina Inana entrega assim Dumuzid às suas mãos.</p><p>Aqueles que foram com ela,</p><p>aqueles que foram buscar Dumuzid,</p><p>desconhecem grãos, desconhecem água,</p><p>não comem a farinha ofertada,</p><p>não bebem a água libada,</p><p>não aceitam belas dádivas,</p><p>não gozam das belas carícias do amor,</p><p>�lho nenhum docemente os beija</p><p>o �lho carregam do colo dos pais,</p><p>a noiva expulsam da casa dos sogros.</p><p>Dumuzid geme e empalidece,</p><p>o jovem ergueu as mãos a Utu, ao céu</p><p>Utu, és meu cunhado meu parente, em matrimônio</p><p>manteiga eu trouxe à casa de tua mãe</p><p>leite eu trouxe à casa de Ningal</p><p>minhas mãos transforma em mãos de cobra</p><p>meus pés transforma em pés de cobra</p><p>que eu fuja dos demônios e eles não me apanhem. (…)</p><p>12.</p><p>kug dinana-ke4 mu-ud-na-ni ir3 gig i3-še8-še8</p><p>(...)</p><p>u2numun2 i3-bu-re u2numun2 i3-ze2-e</p><p>dam lu2 ur2-zu-ne-ne nu2-a me dam kal-la-ĝu10</p><p>dumu lu2 ur2-zu-ne-ne nu2-a me</p><p>dumu kal-la-ĝu10</p><p>me-am3 mu-lu-ĝu10 me-am3 mu-un-KAxX-e (...)</p><p>num-e kug dinana-ra gu3 mu-na-de2-e</p><p>ĝe26-e ki lu2-zu ga-mu-re-pad3 a-na-am3 nig2-ba-ĝu10-um</p><p>kug dinana-ke4 num-e mu-na-ni-ib-gi4-gi4</p><p>za-e ki mu-lu-ĝu10 ba-ab-pad3-de3-en niĝ2-ba a-ra-ba-e (...)</p><p>num-e kug dinana-ke4 im-ma-an-[...]</p><p>ki-sikil dinana-ke4 num-e nam mu-ni-ib2-tar-re</p><p>e2 kaš-a-ka zabar ĝir3-šur2?-a-ke4 hu-mu-ra-[...]</p><p>du5-mu lu2 kug zu-ke4-ne-gin7 nam-X-[...]</p><p>i3-ne-eš nam-tar-ra dinana-ke4 ur5 he2-en-na-nam-ma-am3</p><p>(...)</p><p>za-e mu sa9-am3 nin9-zu mu sa9-am3</p><p>ud za-e al di-di-e ud-bi he2-tuš-e</p><p>ud nin9-zu al di-di-e ud-bi he2-bur2-e</p><p>kug dinana-ke4 ddumu-zid saĝ-bi-še3 (...) bi2-in-šum2-šum2-mu</p><p>(...)</p><p>kug dereš-ki-gal-la-ke4</p><p>za3-mi2-zu dug3-ga-am3</p><p>12.</p><p>Divina Inana chorou lágrimas amargas por seu esposo.</p><p>(...)</p><p>Carpe-se como folhas de espárcio arranca os cabelos como folhas</p><p>Ó esposas no colo dos esposos onde está meu precioso marido?</p><p>Ó �lhos no colo dos pais onde está meu precioso �lho?</p><p>meu homem onde está? (...)</p><p>à divina Inana uma mosca se dirige</p><p>se eu te mostrar onde está seu homem o que ganho em troca?</p><p>divina Inana à mosca responde:</p><p>se me mostrares onde está meu homem a ti darei este presente: (...)</p><p>a mosca ajuda a divina Inana (...)</p><p>Divina Inana decreta o destino da mosca</p><p>“Na cervejaria, na taverna (...)</p><p>como os �lhos dos sábios”</p><p>decretou Inana seu destino e assim passou a ser.</p><p>(…)</p><p>“Tu metade do ano, e tua irmã metade do ano:</p><p>o dia em que fores convocado é o dia em que �carás,</p><p>o dia em que sua irmã for convocada é o dia em que serás liberto”.</p><p>Divina Inana deu Dumuzid em seu lugar.</p><p>(…)</p><p>Divina Ereshkigal,</p><p>doce é louvar-te.</p><p>notas e estrutura</p><p>Meu fascínio pela história, mitologia e literatura do Antigo Oriente Próximo</p><p>me levou, ainda em 2015, a arriscar algumas traduções de poesia suméria</p><p>para o português, todas já devidamente divulgadas no escamandro,</p><p>incluindo “A Descida de Inana”. Para esta tradução, eu me orientei pelo texto</p><p>disponível no Electronic Corpus of Sumerian Literature, mas também recorri</p><p>à tradução e notas disponíveis na obra de �orkild Jacobsen, �e Harps that</p><p>Once... Sumerian Poetry in Translation (Yale University Press, 1997). Sempre</p><p>que possível, consultei o texto original, especialmente para entender a</p><p>dinâmica do uso da sintaxe, os detalhes de vocabulário, repetições, etc. Eu</p><p>não posso a�rmar que tenho algum domínio substancial do sumério, mas</p><p>aprendi o su�ciente sobre o sistema de escrita cuneiforme, o vocabulário e</p><p>gramática para, primeiramente, ter uma ideia do tamanho da minha</p><p>ignorância e, na prática, conseguir me localizar em frases mais simples. A</p><p>versão aqui presente demonstra várias alterações em comparação à</p><p>publicada no escamandro.</p><p>Como já dito, optei por manter um registro mais discursivo, respeitando</p><p>esse caráter narrativo do poema. Para melhor organizar a leitura, os versos</p><p>foram agrupados em estrofes e distribuídos em 12 “movimentos”, de acordo</p><p>com os momentos da história.</p><p>Agradeço imensamente a Guilherme Gontijo Flores pela oportunidade de</p><p>dar pitacos na sua tradução e, claro, por poder participar aqui, mais uma</p><p>vez, lado a lado em um de seus projetos. Agradeço também aos meus</p><p>professores do Laboratório do Antigo Oriente Próximo, da USP, Carlos</p><p>Gonçalves, Marcelo Rede, Anita Fattori e Leandro Ranieri, por terem</p><p>ampliado exponencialmente o meu contato e conhecimento sobre a</p><p>Mesopotâmia, sua cultura e seus idiomas em suas aulas de acadiano e com</p><p>todo o material oferecido.</p><p>Adriano Scandolara</p><p>1º MOVIMENTO – EXÓRDIO</p><p>Do vasto céu: O primeiro verso é uma tradução quase literal do sumério</p><p>original an gal-ta ki gal-še ĝeštug-ga-ni na-an-gub. Ta e še são partículas que</p><p>indicam direção (de/para), gal é “grande” e an e ki descrevem,</p><p>respectivamente, céu e terra. Já ĝeštug tem o sentido literal de “orelha”, mas</p><p>era usado de forma �gurativa para atenção e sabedoria (o deus Enki é</p><p>descrito como um deus literalmente de “grandes orelhas” ou “vasta</p><p>sabedoria/entendimento”, por exemplo). A mesma lógica se aplica em</p><p>acadiano, com o substantivo uznu. Como dito na introdução, muitos</p><p>poemas sumérios começam com uma estrutura em que se repete o primeiro</p><p>verso três vezes, acrescentando um pouco mais de informação a cada</p><p>repetição (primeiro com o sujeito oculto no verbo, depois com a</p><p>apresentação do sujeito “a deusa”, depois com a aparição de Inana).</p><p>Abandonou o sacerdócio e ministério: Ao descer ao mundo dos mortos, “o</p><p>abismo”, Inana está abrindo mão de seu ofícios de sacerdotisa, chamados en</p><p>e lagar, e de todos os templos dedicados a ela. Cada deus geralmente tinha</p><p>uma única cidade principal onde �cava o seu templo, entendido como a casa</p><p>do deus, com frequência chamado de e-alguma coisa, sendo e o termo</p><p>sumério para “casa”. É mais ou menos como se vê hoje com a ideia de</p><p>cidades terem santos padroeiros. Enki residia em Eridu, por exemplo, e</p><p>Marduk, na Babilônia. Inana, porém, tinha sete templos em sete cidades</p><p>diferentes, cada um com seu nome: o templo de Giguna em Zabalam, hoje</p><p>Tell Ibzeikh; E-mush-kalama na cidade de Bad-Tibira, hoje Tell al-Madineh,</p><p>e assim por diante. Essa lista varia um pouco dependendo do manuscrito.</p><p>2º MOVIMENTO – OS PREPARATIVOS PARA A DESCIDA</p><p>Os sete dons: São os me, representações de poderes divinos e dádivas da</p><p>civilização que por vezes aparecem sob forma mais abstrata, por vezes de</p><p>forma mais física. Neste poema, Inana veste-se com apenas sete me, que</p><p>aparecem na forma de peças de roupa e acessórios: um turbante, um</p><p>pingente de lápis-lazúli, um par de contas (literalmente em formato ovoide),</p><p>o al�nete que prende as roupas sobre o peito, o anel de ouro, um bastão de</p><p>lápis-lazúli, usado para medição (um item comum no mundo antigo) e a</p><p>pala, um tipo de vestido. O número sete é relevante, pois aponta para uma</p><p>noção de completude cósmica, remetendo aos sete “planetas” clássicos (a</p><p>lua, Mercúrio, Vênus, o sol, Marte, Júpiter e Saturno), que a todos diz “vem,</p><p>vem”: esse trecho deve ser entendido com uma conotação sexual.</p><p>Ninshubur: Uma deusa intermediária que servia de sukkal (“secretário/a”,</p><p>“conselheiro/a”, vizier) para Ishtar. Ela acompanha e auxilia Inana também</p><p>em várias outras aventuras. O papel desse tipo de divindade na religião era</p><p>servir de intermediários entre os humanos e os deuses maiores. Na versão</p><p>acadiana do poema, Ninshubur é substituída por Papsukkal, um deus</p><p>masculino.</p><p>Carpe teu rosto: O fenômeno do luto no mundo antigo era famosamente</p><p>performático, incluindo muitas vezes gestos de automutilação. Isso parece se</p><p>aplicar tanto na cultura grega quanto na cultura do antigo Israel e, como se</p><p>pode ver, também entre os sumérios. Inana está instruindo Ninshubur,</p><p>portanto, quanto aos ritos adequados do luto.</p><p>Ekur, casa de Enlil: Literalmente “a casa da montanha”, a morada do deus</p><p>Enlil, associada ao seu templo na cidade de Nipur. Sobre o deus em si, cf. a</p><p>nota para estrofe 3 da “Exaltação”.</p><p>Urim: a cidade de Ur.</p><p>Emudkura, Ekishnuĝal: Dois nomes para o mesmo templo, ao deus Nana,</p><p>deus sumério da lua, em Ur. Sobre o deus em si, cf. as notas para as estrofes</p><p>5 e 12 da “Exaltação”.</p><p>Eridu: Mitologicamente a primeira cidade da história, segundo os</p><p>sumérios, onde “a coroa (nam-lugal) desceu dos céus”, de acordo com a Lista</p><p>dos Reis Sumérios, fundando a civilização. É onde se localiza o aquífero</p><p>conhecido como Absu, Apsu ou Abzu, a morada do deus Enki.</p><p>Enki: O deus da sabedoria e da magia, chamado pelo nome Ea em</p><p>acadiano. Uma das �guras mais benévolas da mitologia mesopotâmica, no</p><p>tocante ao apreço pela humanidade, Enki desempenha vários papéis</p><p>importantes, sendo um dos principais membros do panteão: ele vence o</p><p>Absu, um monstro aquático primordial, que passa a lhe servir de morada;</p><p>ele cria o ser humano a partir da argila; ele é o responsável por repartir os</p><p>dons (me) entre os deuses; ele aconselha o sábio Adapa em suas interações</p><p>com o deus Anu; e é ele quem adverte o sábio Ziusudra, chamado de</p><p>Utnapishtim ou Atra-hasis em acadiano, para que construa uma arca</p><p>quando Enlil ameaça destruir a humanidade, tal como consta no mito do</p><p>dilúvio que depois é incluído</p><p>no Épico de Gilgámesh. A relação de Enki com</p><p>Inana é curiosa, pois aqui ele a salva da morte, mas num outro mito ela o</p><p>embebeda para roubar os me. Enki ainda era um grande nome para a</p><p>astronomia mesopotâmica, e as três grandes faixas por meio das quais os</p><p>antigos repartiam o céu eram atribuídas a ele, a Enlil e a Anu. Ele também</p><p>era invocado com frequência em textos mágico-religiosos de exorcismo.</p><p>3º MOVIMENTO – CHEGADA AO MUNDO DOS MORTOS</p><p>Ganzir: Ganzir ou Ganzer era um dos nomes mais raros do submundo,</p><p>também chamado de Kur, Irkalla, Aralli ou, em acadiano, Erṣetu e Kurnugu.</p><p>Neti: Um deus menor do submundo, que guarda os portões infernais. Na</p><p>versão acadiana do poema, o guardião se chama Bidu.</p><p>Ereshkigal: a rainha do mundo dos mortos, literalmente “senhora” (eresh)</p><p>da “terra” (ki) “vasta” (gal). Ereshkigal é irmã de Inana e uma deusa tão</p><p>temida, por conta de seus domínios sombrios, que praticamente não existia</p><p>iconogra�a dela, e eram raros os templos dedicados à deusa. Em momentos</p><p>posteriores da história mesopotâmica, ela se casa com o deus guerreiro</p><p>Nergal, que obtém, assim, poder sobre o submundo também. No período</p><p>helenístico, em fórmulas mágicas encontradas nos Papiros Mágicos Gregos,</p><p>ela parece ter sido sincretizada com a deusa grega Hécate.</p><p>Gugalana: O marido de Ereshkigal, grafado gud-gal-an-na, literalmente</p><p>“Grande (gal) Touro (gud) do Céu (an-na)”, possivelmente a �gura</p><p>mitológica que os sumérios entendiam que era representada pela</p><p>constelação de Touro. Alguns autores interpretam o nome Gugalana como</p><p>Gugal-anna, gugal sendo uma palavra em sumério com o sentido de</p><p>“inspetor de canais”, logo Gugalana seria “o inspetor dos canais do céu”,</p><p>porém a gra�a em cuneiforme usada na “Descida de Inana” não sustenta</p><p>essa leitura. No Épico de Gilgámesh, Inana/Ishtar faz descer o Touro do Céu</p><p>para castigar Gilgámesh e Enkídu, mas a dupla o mata. Não se deve</p><p>presumir qualquer relação de continuidade entre as duas histórias, no</p><p>entanto, pois no Épico, Gilgámesh conhece o destino funesto de</p><p>Dumuzid/Tamuz, o que só ocorre no �nal do mito da Descida de Inana, no</p><p>qual Gugalana já está morto desde o princípio.</p><p>4º MOVIMENTO – NETI CONSULTA ERESHKIGAL</p><p>Precipitou-se de E-ana: Este trecho repete os versos em que Inana se adorna</p><p>com os dons (me) no segundo movimento. A menção aos sete dons é</p><p>importante, pois ela irá se despir deles na sequência.</p><p>5º MOVIMENTO – A MORTE DE INANA</p><p>Quando Inana entrou: Assim como ela se adorna com os 7 me no segundo</p><p>movimento do poema, aqui observamos conforme ela é obrigada a se despir</p><p>deles, removendo uma peça de roupa a cada um dos 7 portões. A estrutura</p><p>segue uma fórmula que se repete.</p><p>Os Anuna: Cf. nota da parte 5 da “Exaltação”. Neste momento em</p><p>especí�co do mito, porém, o termo parece aludir aos juízes do submundo.</p><p>Por vezes, especialmente em pontos posteriores da história mesopotâmica, o</p><p>termo era usado para distinguir entre dois grupos de deuses, os Anuna e os</p><p>Igigi.</p><p>6º MOVIMENTO – NINSHUBUR CUMPRE SUA PALAVRA</p><p>Passaram-se três dias e três noites: Todas as estrofes deste trecho são</p><p>construídas a partir de repetições do segundo movimento, primeiro com a</p><p>descrição das instruções precisas repassadas a Ninshubur por Inana, quanto</p><p>à forma de guardar o luto, depois com as interações entre Ninshubur e os</p><p>deuses Enlil, Nana e Enki. As respostas dos deuses são o único material</p><p>inédito aqui.</p><p>Dons do abismo não são dons que se deseje...: Uma possível alusão à noção</p><p>de que os deuses do mundo dos mortos existem à parte do restante do</p><p>mundo, distantes das decisões que dizem respeito ao mundo dos vivos, que</p><p>são tomadas nos estratos superiores, celestes, do cosmo.</p><p>7º MOVIMENTO – A RESPOSTA DE ENKI</p><p>Ele apanhou pó de sob a unha: Enki, como um deus criador, havia criado os</p><p>seres humanos a partir da terra, da argila. Os seres que ele cria aqui são, de</p><p>certa forma, criaturas menores, concebidas a partir da terra também, mas de</p><p>forma mais singela. Seus nomes são Kurĝara e Galatura, e os nomes em</p><p>português são uma tentativa de tradução criativa com base na morfologia</p><p>destes nomes, kur (montanha/abismo) + ĝar (dispor, posicionar), e gala</p><p>(lamentar, chorar) + tur (pequeno). Seus nomes remetem também a</p><p>posições no culto a Inana/Ishtar, ocupados por sacerdotes que cumpriam a</p><p>função de cantores e porta-estandartes nas cerimônias. Entende-se que esses</p><p>sacerdotes costumavam exercer uma sexualidade não normativa e talvez</p><p>fossem o que se entende hoje como homossexuais ou transexuais (sabe-se</p><p>que é difícil aplicar as categorias de identidade sexual modernas para a</p><p>antiguidade). Os detalhes exatos de como isso se dava, no entanto, são</p><p>obscuros.</p><p>Repousava Ereshkigal: Neste trecho inteiro, Enki dá as instruções ao chora-</p><p>miúdo e ao deita-abismo. Ereshkigal é descrita como uma mãe que acabou</p><p>de dar à luz, mas a imagem de sua descrição remete a uma �gura enlutada,</p><p>como quem enterra os próprios �lhos, como interpreta Jacobsen. O que</p><p>chora-miúdo e deita-abismo fazem aqui é demonstrar compaixão por</p><p>Ereshkigal, que se sente compelida a recompensá-los por isso. Eles devem,</p><p>no entanto, recusar a oferta e solicitar o corpo de Inana. É interessante que,</p><p>contrariando outras noções de divindades do submundo, como Hades, que</p><p>era infértil, Ereshkigal é chamada de “mãe”.</p><p>8º MOVIMENTO – A RESSURREIÇÃO DE INANA</p><p>O chora-miúdo e o deita-abismo deram ouvidos às palavras de Enki: Todo</p><p>este trecho repete as instruções dadas por Enki no movimento anterior.</p><p>9º MOVIMENTO – A LEI DO SUBMUNDO</p><p>Quem já voltou do abismo?: Um lugar-comum recorrente da mitologia</p><p>suméria é a irreversibilidade da morte. Os domínios de Ereshkigal são o</p><p>lugar de onde não há retorno, o que é enfatizado também no Épico de</p><p>Gilgámesh e no mito do casamento de Nergal e Ereshkigal.</p><p>Demônios: Havia diversos seres sobrenaturais que habitavam o imaginário</p><p>mesopotâmico, além dos deuses. Alguns desses seres, como os lamassu,</p><p>representados no estatuário local como �guras colossais aladas com corpo</p><p>de animal e rosto humano e que talvez tenham servido de inspiração para o</p><p>conceito hebraico dos keruvim, ou querubim, eram benévolos e agiam como</p><p>guardiões. Outros eram malé�cos e causavam todo tipo de malefícios,</p><p>sobretudo na forma de doenças, por isso costumam ser chamados de</p><p>“demônios”, apesar de, em sumério e babilônico, existirem dezenas de</p><p>termos que descrevem seus tipos especí�cos: lilitu, lamashtu, utukku, rabiṣu,</p><p>etemmu, etc. Na demonologia posterior, in�uenciada pela literatura</p><p>apocalíptica judaica e pelo evangelho cristão, demônios são anjos caídos que</p><p>habitam o inferno, muitos dos quais são deuses de outras nações, todos</p><p>liderados por Satã, entendido como inimigo de Deus, mas é óbvio que não</p><p>se deve aplicar esse tipo de conceito no entendimento mesopotâmico do que</p><p>é um demônio. A literatura mágica mesopotâmica era rica em textos sobre</p><p>estes seres e nem sempre há um consenso sobre seu lugar no cosmos, ora</p><p>eles são subprodutos da criação, impedidos de participarem dela, seres de</p><p>“puro alheamento”, como o descreve Franz Wiggermann (cf. “�e</p><p>Mesopotamian Pandemonium”), ora in�igem seus males à humanidade sob</p><p>comando dos deuses. Em todo caso, o que é recorrente na literatura</p><p>demonológica é que 1) eles causam malefícios à humanidade; 2) não</p><p>recebem culto, nem oferendas, como a penúltima estrofe deixa claro; e 3)</p><p>podem ser expulsos por um exorcista que invoque o poder dos deuses,</p><p>geralmente Enki/Ea, Marduk e Utu/Shámash. Os demônios especí�cos deste</p><p>poema são os gallu, que habitam o submundo e, pelo que parece, são</p><p>responsáveis por levar os mortos para lá, mas esta não é a regra para todos</p><p>os demônios.</p><p>10º MOVIMENTO – A ESCOLHA DE INANA</p><p>Umma: Cidade suméria, hoje Umm al-Aqarib. De novo, o texto segue o</p><p>padrão de mencionar o nome do templo primeiro e depois o nome da</p><p>cidade.</p><p>Shara: Um deus menor, padroeiro de Umma, identi�cado em alguns textos</p><p>como �lho de Inana, mas aqui ele desempenha o papel de esteticista da</p><p>deusa, por assim dizer.</p><p>Lulal: Outro deus menor, padroeiro do templo Emushkalama em Bad-</p><p>tibira, ambos já mencionados no 2º movimento</p><p>do texto. Em outros textos,</p><p>ele é descrito, assim como Shara, como um �lho de Inana. A deusa poupa a</p><p>ambos, por demonstrarem seu luto.</p><p>Kulaba: Um distrito da cidade de Úruk.</p><p>11º MOVIMENTO – A MORTE DE DUMUZID</p><p>Dúmuzid: Nome que signi�ca “�lho preferido” ou “�lho justo” (dumu + zid)</p><p>também chamado Dúmuzi, Du’uzu, em acadiano, ou Tamuz, em hebraico, é</p><p>um deus que já foi tema de vastas discussões na academia, muitas vezes com</p><p>conclusões equivocadas. Entende-se que ele fosse um tipo de deus que</p><p>morre e renasce, associado ao ciclo das estações, mas muito do que se diz</p><p>sobre ele é fruto de compreensões falhas da mitologia comparada de Frazer</p><p>e outros do �nal do século XIX. O que se sabe é que é um deus pastor,</p><p>possivelmente um rei divinizado, pois seu nome consta na Lista de Reis</p><p>Sumérios. No entanto, ele é também conhecido como um deus da vegetação,</p><p>um atributo que não se aplica a ele, de fato, pelo menos não num primeiro</p><p>momento. O deus da vegetação era originalmente Damu, mas é possível que</p><p>ambos tivessem sido sincretizados. O festival celebrando sua morte era</p><p>comemorado todos os anos no mês que leva seu nome, equivalente à</p><p>segunda metade de junho e começo de julho. Há inúmeros poemas</p><p>celebrando o amor sexual entre Inana e Dumuzi, e vários outros ligados à</p><p>sua morte. “A Descida de Inana” representa um momento menos feliz para o</p><p>casal, no entanto, pois o fato de ele não estar de luto pela morte da deusa a</p><p>leva a condená-lo à morte, num acesso de raiva.</p><p>Deitou olhos sobre ele: Num detalhe interessante de amarração estrutural,</p><p>este trecho repete, palavra por palavra, a condenação sofrida pela própria</p><p>Inana, ao sentar no trono de sua irmã, no 5º movimento do poema.</p><p>Utu: O deus sumério do sol, conhecido como Shámash em acadiano.</p><p>Utu/Shámash, como uma divindade solar, era entendido como um juiz, de</p><p>cujo olhar nada escapa. A ascendência de Inana varia de mito em mito, mas</p><p>Utu costuma ser consistentemente �lho de Nana, por isso aqui o vemos</p><p>como cunhado de Dumuzid. Nos trechos omitidos por estarem</p><p>excessivamente fragmentados, Utu atende à prece de Dumuzid e o</p><p>transforma numa cobra, mas, de algum modo, os demônios o capturam</p><p>ainda assim.</p><p>Ningal: cf. nota para a parte 14 da “Exaltação”.</p><p>12º MOVIMENTO – EPÍLOGO</p><p>Divina Inana chorou lágrimas amargas por seu esposo: Este verso e os</p><p>seguintes sugerem algum tipo de arrependimento. Porém esta última parte</p><p>está fragmentada demais para se entender o que acontece. Há uma cena em</p><p>que a mosca parece auxiliar Inana a buscar Dumuzid de volta, mas as ações</p><p>e falas são obscuras.</p><p>Você metade do ano, e sua irmã metade do ano: A irmã de Dumuzid era</p><p>Geshtinana, a deusa do vinho (do sumério ĝeštin, “parreira”). De novo,</p><p>infelizmente este trecho está fragmentado demais para entendermos o que</p><p>está acontecendo, mas esta estrofe parece descrever o acordo ao qual todas</p><p>as partes chegaram, en�m.</p><p>Divina Ereshkigal, doce é louvar-te: Em sumério, kug Ereshkigal, zami-zu</p><p>dug-a-am. Kug signi�ca “puro”, “reluzente”, “divino”, e zami é “louvor”,</p><p>“cântico” ou, por vezes, “lira”. Essa fórmula era comum no encerramento dos</p><p>hinos sumérios.</p><p>COORDENAÇÃO EDITORIAL</p><p>Fabiana Vieira Gibim, Rodrigo Corrêa,</p><p>Gustavo Racy e Alex Peguinelli</p><p>TRADUÇÃO</p><p>Guilherme Gontijo Flores e Adriano Scandolara</p><p>PREPARAÇÃO</p><p>Gustavo Racy</p><p>REVISÃO</p><p>Fabiana Gibim e Alex Peguinelli</p><p>EBOOK</p><p>Rodrigo Corrêa</p><p>sobin�uencia.com</p><p>prefácio</p><p>introdução</p><p>nota sobre a leitura dos textos originais</p><p>nin-me-sharasenhora dos dons a exaltação de Inana</p><p>notas e estrutura</p><p>a descida de inana ao mundo dos mortos</p><p>notas e estrutura</p><p>sobrevivência de um poema como “A Exaltação de</p><p>Inana”.</p><p>A princípio, porque é a primeira obra assinada de que temos notícia.</p><p>Contando o poema com mais de 4000 anos de idade, Enheduana não é</p><p>apenas a primeira poeta mulher da história, mas a primeira pessoa, de</p><p>qualquer gênero, em qualquer tempo, em qualquer lugar, que escreveu o que</p><p>chamamos de literatura e deixou sua marca para a posteridade: “pela</p><p>primeira vez na história mundial, foi possível ligar uma obra de poesia a um</p><p>indivíduo com nome, e assim nasceu a autoria” (HELLE, 2019: 1).</p><p>O aedo Homero, o profeta Moisés, o sábio Viasa, – os nomes, masculinos,</p><p>a quem foram atribuídas a Ilíada e a Odisseia, a Torá e o Mahabharata, essas</p><p>vastas revisitações de material épico, prévio e anônimo – foram superados,</p><p>com vários séculos de vantagem, por uma mulher, em louvor a uma</p><p>divindade também feminina – Inana, rainha do céu e da terra, e senhora das</p><p>mulheres, bēlet iššī, como consta no hino do rei Ammi-ditana a Ishtar, seu</p><p>equivalente babilônico. E ela em nada lhes deve em matéria de violência: tu</p><p>massacre nas cabeças || saibam todos / tu comes mortos feito cão. Nenhuma</p><p>fragilidade ou delicadeza nesses momentos. É monótono bater nessa tecla</p><p>ainda, mas não deixa de ser surpreendente como nada é menos embasado</p><p>do que os estereótipos modernos de gênero.</p><p>A segunda ironia, que é a que mais me faz rir, é o fato de que os sumérios</p><p>não costumavam assinar seus textos. A autoria como um conceito, no</p><p>Ocidente e Oriente Próximo, só se torna corrente bem mais tarde, e a maior</p><p>parte do material poético mesopotâmico é anônimo – do Épico de</p><p>Gilgámesh, por exemplo, sabemos apenas o nome de quem o compilou, o</p><p>sacerdote Sin-léqi-unnínni. Os gregos, por outro lado, eram famosamente</p><p>competitivos, e a imortalização, pela voz do poeta, do nome do herói que</p><p>morre em combate, esse desejo de Aquiles pela morte gloriosa, encontra</p><p>uma outra manifestação, mais sutil, na imortalização do nome do poeta</p><p>também. Isso, para não falarmos nada das competições de teatro, e a</p><p>obsessão pela perfeição, pela palavra certa, que vira palhaçada na mão de</p><p>Aristófanes, quando ele faz Dionísio pesar os versos dos tragediógrafos</p><p>mortos na balança.</p><p>Talvez seja uma coisa meio indo-europeia3. Na cultura de escribas da</p><p>Mesopotâmia, o anonimato era a norma, porque a escrita era uma arte</p><p>esotérica, apenas para os iniciados, capazes de determinar o que era a</p><p>Tradição – e nada mais tradicional do que aquilo que não foi dito e pensado</p><p>por ninguém em especí�co, logo foi dito e pensado por todo mundo4. Mas</p><p>Enheduana se trai em seu ocultamento ao se inserir no poema: eu</p><p>Enheduana / o mel da minha voz || virou babélico veneno / meu traço mais</p><p>feliz || agora é pó. E é aqui que o que poderia ser apenas mais um dos muitos</p><p>hinos dedicados aos deuses assume uma dimensão pessoal e trágica.</p><p>Mas o que aconteceu com Enheduana? Quem foi essa mulher? E por que</p><p>seu “traço mais feliz agora é pó”?</p><p>a princesa do primeiro império da história</p><p>Tudo começa com o rei Sharru-kin, também conhecido como Sargon ou</p><p>Sargão, uma �gura curiosa e, em muitos quesitos, lendária. Suas conquistas</p><p>foram incríveis – há quem o descreva como o primeiro imperador da</p><p>história –, mas suas origens são obscuras e uma série de histórias, de</p><p>variados graus de �ccionalização, foram produzidas posteriormente, uma</p><p>das quais relata que ele teria sido abandonado por sua mãe nas águas de um</p><p>rio, dentro de um cesto, o que reconhecemos como a história de Moisés.</p><p>Sharru-kin foi o fundador da primeira dinastia do Império Acadiano, por</p><p>volta de XXIV–XXIII a.C., um império que, em seu auge, estendeu-se da</p><p>Suméria até o litoral sírio e talvez até mesmo chegando à ilha de Chipre. A</p><p>Suméria, como se sabe, é o nome dado à região ao sul da Mesopotâmia,</p><p>próximo ao Golfo Pérsico, povoada pelas mais antigas cidades-estado de que</p><p>se tem notícia: Eridu, Ur, Úruk, Nipur, Kish, Lagash. Falantes de uma língua</p><p>isolada e de etnia desconhecida, até hoje é difícil dizer de onde vieram ou</p><p>para onde foram os sumérios, mas a eles é creditada a invenção da escrita,</p><p>da cerveja, da roda e outras coisas igualmente desimportantes. Sharru-kin,</p><p>porém, não foi o chefe de um império sumério, e sim acadiano – isto é, da</p><p>cidade-estado de Acade, um pouco mais ao noroeste, de origem semítica,</p><p>cujas ruínas até hoje não foram descobertas. Ou, melhor dizendo, ele era</p><p>originalmente sumério, de Kish, mas foi trazido a Acade após Kish ser</p><p>dominada, e foi lá que ele ascendeu ao trono, em circunstâncias lendárias.</p><p>Sob seu reinado, como dito, Acade se expandiu, tornou vassalas inúmeras</p><p>outras cidades e espalhou seu idioma, um parente do hebraico, do árabe e do</p><p>aramaico, por toda a região conquistada. Assim, o acadiano se torna a língua</p><p>franca da Mesopotâmia, um privilégio que perdurou até a sua primazia ser</p><p>vencida, no I milênio a.C., pelo grego koiné e pelo aramaico. No entanto, a</p><p>língua suméria, que gradualmente deixou de ser falada, seguiu sendo usada</p><p>para propósitos literários, mágicos e religiosos.</p><p>Enheduana viveu provavelmente entre 2285 e 2250, mas essas datas</p><p>também nunca são de�nitivas, porque as coisas �cam muito nebulosas com</p><p>um passado tão distante. Foi uma �lha de Sharru-kin, ocupando o cargo de</p><p>EN/entu, ou Suma Sacerdotisa, do templo de Ur dedicado ao deus Nana,</p><p>conhecido como Sîn ou Suen entre os povos semíticos, um deus lunar que</p><p>consta entre os mais importantes do panteão. Como comenta Malcolm</p><p>Nikolas Virtanen (2019), Enheduana não deveria ter sido seu nome de</p><p>nascença, mas o nome artístico, por assim dizer, pois é um nome sumério</p><p>que signi�ca “sacerdotisa (EN), adorno (HEDU) do céu (ANA)”. Assim, ela</p><p>incorporou o que é possivelmente a �gura mais arquetípica da poesia,</p><p>enquanto princesa, poeta e sacerdotisa. Da nobreza do espírito reivindicada</p><p>pelos poetas a seu papel mágico-religioso que se tornou um tipo de lugar-</p><p>comum dos séculos XIX e XX d.C., tudo encontra nela um antepassado.</p><p>De evidências arqueológicas para sua existência histórica, a mais famosa é</p><p>um objeto devocional encontrado no templo de Ningal, a esposa do deus</p><p>Nana. É um disco de calcita de 25 centímetros de diâmetro, possivelmente</p><p>inspirado na forma e aparência da lua cheia, com a imagem, em relevo, de</p><p>um sacrifício aos deuses diante de um zigurate, organizado por Enheduana,</p><p>acompanhada por outros adoradores. Sua inscrição diz: “Enheduana,</p><p>sacerdotisa de Nana, esposa de Nana, �lha de Sharru-kin, rei do mundo, no</p><p>templo da deusa Inana em Ur...”. A presença deste disco no templo para os</p><p>séculos por vir, com efeito, serviu para perpetuar sua posição nele – “sua</p><p>imagem e a inscrição de seu nome foram colocados no disco para</p><p>imortalizar Enheduana, para ela ser representada para todo o sempre, e</p><p>nisso podemos ver que o projeto foi bem-sucedido” (BAHRANI, 2001: 117).</p><p>O item, catalogado com o código B16665, está hoje em exposição no Penn</p><p>Museum. Além disso, há também selos cilíndricos com seu nome, como um</p><p>de lápis-lazúli que consta no acervo do British Museum. Tais objetos eram</p><p>usados como carimbo e assinatura para documentos o�ciais.</p><p>O complexo de edifícios ligados aos templos era a estrutura mais</p><p>importante de qualquer cidade da antiga Mesopotâmia, servindo não apenas</p><p>como foco de atividades religiosas, mas também como biblioteca, armazém</p><p>e centro de redistribuição de recursos. Logo, colocar a própria �lha no papel</p><p>de liderança religiosa foi, é claro, um ato de estratégia política. Ur era uma</p><p>cidade suméria, a�nal, e uni�car toda a Mesopotâmia era claramente uma</p><p>das ambições de Sharru-kin, o que é coerente com ainda outro projeto</p><p>literário, o dos chamados Hinos Templários (Sumerian Temple Hymns).</p><p>Totalizando mais de 500 versos, os Hinos Templários foram compilados</p><p>(talvez em parte compostos) também por Enheduana, criando “algo que</p><p>ninguém jamais criara antes”, como se lê em seu colofão. Essa série de breves</p><p>poemas religiosos, 42 ao todo, dirigidos aos templos de Enki, Enlil, Ninlil,</p><p>Ninurta e tantos outros deuses antigos, serviu para criar um sentido de</p><p>união em todo o sistema religioso mesopotâmio e ligá-lo</p><p>ao poder estatal.</p><p>De quebra, é possível que tenha tido um papel importante em cimentar o</p><p>sincretismo religioso entre os deuses semíticos, como Ishtar, Sîn e Shamash,</p><p>e suas contrapartes sumérias em Inana, Nana e Utu, respectivamente. Pelo</p><p>que comentam os autores, o impacto dessa estratégia foi considerável, e</p><p>todos os governantes dos cinco séculos seguintes �zeram questão de</p><p>também colocar suas �lhas como sacerdotisas de Nana em Ur.</p><p>Além dos Hinos Templários e do poema aqui apresentado, Nin-me-šara</p><p>(literalmente “A Senhora dos Dons”, as primeiras palavras do poema) ou “A</p><p>Exaltação de Inana”, como �cou conhecido, a carreira poética de Enheduana</p><p>inclui ainda In-nin ša-gur-ra (...) e In-nin me-huš-a, conhecido como o</p><p>poema de Inana e Ebih. Todas estas obras, compostas em língua suméria,</p><p>estão disponíveis gratuitamente online, em tradução em prosa para o inglês,</p><p>no projeto fenomenal que é o Electronic Corpus of Sumerian Literature</p><p>(ETCSL). De toda a sua obra, que totaliza centenas de versos, porém, “A</p><p>Exaltação de Inana” é talvez o poema mais complexo e interessante, e é uma</p><p>sorte imensa termos a oportunidade de lê-lo em português na tradução</p><p>atenta, sonora e apurada do poeta, pesquisador e tradutor Guilherme</p><p>Gontijo Flores.</p><p>O começo da “Exaltação” é bastante típico de outros hinos em louvor aos</p><p>deuses, onde observamos uma série de epítetos que descrevem os feitos e</p><p>poderes de Inana, com uma força de linguagem que busca presenti�car a</p><p>deusa em toda sua potência. Compreensivelmente, esse não é o tipo de</p><p>material que mais apela à sensibilidade moderna, dada a nossa preferência</p><p>por imagens e construções originais, ao passo que as fórmulas de louvor</p><p>antigas eram tradicionais, e os pesquisadores com frequência apontam para</p><p>a semelhança tanto entre as fórmulas de um hino para outro quanto com o</p><p>que se encontra, por exemplo, nos salmos do Antigo Testamento5 – outra</p><p>obra monumental da lírica devocional semítica, mas a cujo poder estético</p><p>estamos anestesiados pelos séculos de discurso moral-religioso. E ainda</p><p>assim, mesmo aqui Enheduana se destaca pelo seu poder imagético: Inana</p><p>envenena as terras dos inimigos como um dragão; com a sua força, “dente</p><p>corta pedra”; e os deuses são comparados a morcegos, revoando na noite,</p><p>em temor pelo seu poder. São construções incomuns e com um forte apelo</p><p>sensorial: quem consegue resistir à imagem mental, ao arrepio na espinha,</p><p>de alguém cortando pedra com os dentes?</p><p>O ponto em que o poema se torna pessoal é quando Enheduana trata de</p><p>seu exílio. Sabemos que, em algum momento, um certo Lugalane ascende ao</p><p>poder em Ur e se rebela contra o governo de Naram-Sin, o neto e sucessor</p><p>de Sharru-kin que ascende ao trono como chefe do império acadiano. No</p><p>processo de rebelião, Enheduana é expulsa de Ur e, não por acaso, não tem</p><p>nada de bom a dizer de Lugalane (vide a estrofe 11 do poema). Ela o acusa</p><p>de ter profanado os ritos, arruinado o templo e se insinuado sexualmente até</p><p>para a cunhada. Enheduana então conta que pediu ajuda ao deus de seu</p><p>sacerdócio, Nana, o deus da lua – mas sem sucesso. A tradição dos poemas</p><p>de lamentação também tem um longo histórico na literatura do Antigo</p><p>Oriente e do Mediterrâneo, e paralelos podem ser traçados com livros como</p><p>Lamentações, no Antigo Testamento, e com os momentos mais dolorosos da</p><p>épica e tragédia gregas, que tratam dos efeitos da devastação das guerras –</p><p>material com o qual Gontijo já trabalhou em suas Troiades.</p><p>Porém, se as preces de Enheduana ao deus a quem ela o�cialmente serve,</p><p>Nana, caem em ouvidos moucos, quem acaba se mobilizando é a deusa</p><p>Inana, a mais imprevisível das divindades. Inana atende à sua súplica e a</p><p>restaura à sua posição original, numa demonstração de poder – ela que é</p><p>“devastação dos rebeldes”, “ruína sobre as cabeças”, “intrépida e indomável”.</p><p>E assim, apesar de ser a sacerdotisa de uma outra divindade, “A Exaltação” é</p><p>dedicada a ela e se conclui com uma interessante nota metapoética, em que</p><p>Enheduana descreve o processo de compor o poema em seu louvor: plena e</p><p>replena pari a canção || por ti senhora excelsa / o que eu te recitei || à meia-</p><p>noite / repetirá o cantor || ao meio dia. Como �ca evidente, a sua salvação</p><p>depende dos seus dotes poéticos, da sua capacidade de apelar ao coração da</p><p>deusa, uma habilidade, porém, que Enheduana parece ter perdido na</p><p>metade da “Exaltação”, pela nona estrofe. Nesse sentido, o poema em si é a</p><p>instanciação da sua salvação, é a prova de que ela recuperou seus poderes e</p><p>conseguiu convencer a deusa a vir em seu auxílio, ou seja, é ao mesmo</p><p>tempo invocação e ex-voto de agradecimento, com pretensões a ser</p><p>reiterado por cantores num futuro interminável. É a pro�ssão de fé no poder</p><p>das palavras, a que os poetas retornarão nos milênios por vir. Nota-se,</p><p>portanto, que, longe de ser apenas um simples poema devocional, é também</p><p>uma obra de imensa so�sticação conceitual e estética.</p><p>E isso nos leva à questão de que há muito se discute se Enheduana de fato</p><p>escreveu a obra que lhe é atribuída – o que faria com que estes versos sobre</p><p>“parir a canção” soassem especialmente cínicos, se não fosse o caso. Não é</p><p>raro o fenômeno do ghostwriting na antiguidade. Apesar de a maioria das</p><p>obras mesopotâmicas serem anônimas, como dito, de vez em quando uma</p><p>canção é atribuída a este ou aquele rei, do mesmo modo que os Salmos</p><p>foram atribuídos, em sua maior parte, a David, e os Provérbios a Salomão.</p><p>Nada impediria, portanto, que outros (e outras) poetas anônimos tivessem</p><p>sido os responsáveis pela “Exaltação de Inana”, fossem estes contemporâneos</p><p>a Enheduana (mais ou menos como a maioria dos artistas pop hoje</p><p>depende, na verdade, da criatividade de seus produtores), fossem eles</p><p>posteriores, escrevendo um tipo de �cção dramática histórica em sua voz, ao</p><p>modo de uma persona. Ao mesmo tempo, ainda que exista essa</p><p>possibilidade, considerando como o serviço religioso mesopotâmico era</p><p>notoriamente musical, não é inverossímil pressupor que uma sacerdotisa do</p><p>patamar de Enheduana tivesse os dotes poéticos necessários para uma tal</p><p>composição. Esse tipo de dúvida é, no limite, insolúvel. Os fatos,</p><p>incontornáveis, são que Enheduana foi uma �gura de imensa importância,</p><p>como atesta o seu disco votivo, e que “A Exaltação de Inana” teve um</p><p>tamanho impacto poético e religioso (há um autor que atribui a ele não</p><p>apenas o peso da invenção da autoria como até mesmo da invenção do</p><p>conceito de uma cultura suméria!), que faz dele um dos poemas</p><p>proporcionalmente mais importantes da história.</p><p>o terror da divindade</p><p>Inana, ou Ishtar, como era chamada entre os semitas de Acade, da Babilônia</p><p>e da Assíria, é uma das divindades mais fascinantes da religião</p><p>mesopotâmica. Seus principais domínios são o amor, o sexo, a guerra, ela</p><p>tem associações com o planeta Vênus e aparece com alguma frequência na</p><p>mitologia. No Épico de Gilgámesh, ela corteja o herói, mas é repelida e mata</p><p>seu companheiro, Enkídu, como vingança; em “Enki e a Ordem do Mundo”,</p><p>ela embebeda o deus da sabedoria para roubar os me, os artefatos que</p><p>representam atributos da civilização (os “poderes”, como traduzido por</p><p>Pozzer, vertidos como “dons” em nossas traduções), após sentir que tinha</p><p>sido negligenciada na sua distribuição; na “Descida de Inana ao Mundo dos</p><p>Mortos”, ela desce ao reino subterrâneo de sua irmã, Eréshkigal, buscando</p><p>ampliar os seus domínios, mas acaba morrendo e ressuscitando, sendo</p><p>responsável, no processo, pela morte também de seu marido, o deus pastor</p><p>Dúmuzid, Tammuz ou Tamuz, outro deus do tipo que morre e ressuscita.</p><p>Diferente de outras divindades, com domínios mais bem de�nidos e</p><p>ligados a funções cósmicas, Inana apresenta certas incongruências. Outros</p><p>deuses têm uma caracterização mais simples, ao passo que Inana/Ishtar nos</p><p>oferece uma mitologia complexa. Ela é uma deusa da fertilidade (quando ela</p><p>morre, cessa todo desejo sexual no mundo), mas não costuma ser entendida</p><p>como uma deusa mãe; é uma deusa que morre e renasce, como Tamuz,</p><p>Osíris, Dionísio; nos mitos, é uma �gura terrível, ambiciosa, voluntariosa e</p><p>destrutiva, mas há poemas mais leves,</p><p>eróticos, que tratam de seu caso de</p><p>amor com Tamuz, ou nos quais se lê que a cerveja alegra o seu coração.</p><p>Tudo aponta para uma possível natureza compósita, a amálgama de cultos</p><p>a diferentes divindades reunidas sob um mesmo nome, mas, no �m,</p><p>representa um dos grandes apelos desta deusa. Tzvi Abusch (1995), melhor</p><p>do que qualquer um, resume este apelo quando a descreve, nos seguintes</p><p>termos:</p><p>Nos textos literários mesopotâmicos, Inana/Ishtar tem uma personalidade coerente</p><p>e verossímil, ainda que complexa. Inana/Ishtar é uma mulher jovem, independente</p><p>e voluntariosa das classes superiores. Ela é o produto de um mundo urbano e tem</p><p>uma associação íntima a cidades, mais do que a funções cósmicas. Ela parece estar</p><p>em constante movimento, talvez por conta de sua associação com os corpos celestes</p><p>e mulheres livres; em todo caso, seu movimento expressa e ampli�ca uma</p><p>qualidade de descontentamento e inquietude que a caracterizam. Inana/Ishtar</p><p>muitas vezes aparece como um ser sexualmente atraente, mas permanece</p><p>insatisfeita e é constantemente “injuriada”, belicosa e contenciosa. Ela tem</p><p>tendências à raiva e à fúria e “perturba o céu e a terra” (somos tentados a falar em</p><p>termos de “feridas psíquicas” de infância). Seus papéis (como esposa, mãe, etc.) não</p><p>são concretizados plenamente: ela se comporta como se fosse incompleta. No</p><p>entanto, às vezes há perdas reais: seu marido, por exemplo, sofre uma morte</p><p>prematura. Mas, enquanto a morte de Tammuz re�ete o ciclo da fertilidade e é</p><p>enfatizado compreensivelmente em seu culto e mitos relacionados, essa perda</p><p>permanece um fato determinante na formação de sua personalidade, mesmo</p><p>quando sua personalidade e história estão livres do contexto de fertilidade. Ishtar</p><p>nos lembra Gilgámesh, um indivíduo poderoso, de grande energia, que sempre</p><p>permanece insatisfeito com o papel ou quinhão que lhe é dado e o tempo todo é</p><p>levado a ir além. Os dois parecem ser as contrapartes masculina e feminina um do</p><p>outro (Abusch, 1995: pg 453).</p><p>Ela não é, portanto, apenas uma deusa da fertilidade ou a deusa do sexo e</p><p>da guerra – uma combinação que, para muitos, soa um tanto incongruente</p><p>–, mas a deusa da própria força vital, da energia do desejo do qual a guerra e</p><p>o sexo são manifestações. Talvez por isso ela tenha encontrado ressonância</p><p>entre tantos adoradores: a complexidade de seu personagem oferece um</p><p>forte apelo emocional e uma humanização que a aproxima de seus devotos.</p><p>Ao mesmo tempo, seu poder é divinamente vasto. Não é surpreendente,</p><p>portanto, que seu culto tenha se disseminado por todo o Antigo Oriente</p><p>Próximo... e é possível que Enheduana tenha tido um papel considerável</p><p>nisso.</p><p>Uma de suas histórias especialmente enigmáticas, apesar de sua</p><p>popularidade, diz respeito à sua descida ao mundo dos mortos – também</p><p>chamada de descida aos infernos, ao Hades, ao mundo inferior, ao</p><p>submundo ou ao Infra Mundo. Nesse poema mitológico, Inana desce aos</p><p>domínios de sua irmã Eréshkigal por motivos que nunca são explicitados no</p><p>texto. Porém, ciente do perigo de sua jornada, ela instrui sua cortesã</p><p>Ninshubur quanto ao que fazer caso ela não retorne e, quando o pior</p><p>acontece e Inana �ca presa no submundo, transformada num cadáver</p><p>pendurado sobre um gancho, Ninshubur recorre ao deus Enki, o deus</p><p>criador da humanidade e senhor da sabedoria, para que ele a socorra. Então</p><p>ele cria dois seres a partir da terra sob suas unhas, gala-tura e kur-ĝara. A</p><p>dupla de seres arti�ciais desce ao submundo, levando a água e a erva da</p><p>vida, e ajuda Eréshkigal, que aparentemente sofria os pesares do luto por</p><p>seus �lhos (o texto não é muito claro). Em troca, ela permite que eles levem</p><p>o cadáver de Inana, que ressuscita em contato com a água e a erva da vida.</p><p>Restaurada, ela está prestes a sair do submundo, quando um grupo de seres</p><p>ctônicos, os galla ou gallu, que podem ser traduzidos como “demônios”,</p><p>barram sua saída, pois ninguém pode entrar e sair do mundo dos mortos</p><p>sem que outro assuma o seu lugar. Ela precisa escolher sua vítima, portanto,</p><p>dentre as várias pessoas de seu convívio – todas as quais estão de luto por</p><p>sua morte, o que é o motivo por ela não conseguir tomar uma decisão... até</p><p>que ela encontra seu marido Dúmuzid/Tamuz feliz da vida sentado no seu</p><p>trono. E aí ela não tem dúvidas.</p><p>Inana, entretanto, se arrepende de seu veredito e empreende uma segunda</p><p>jornada para negociar o retorno de Dúmuzid, quando, aparentemente, �ca</p><p>acordado que ele passará uma certa parte do ano no submundo e outra parte</p><p>ativo na superfície. Esta é uma parte crucial do mito, pois a morte de</p><p>Dúmuzid era o motivo para festivais muitíssimo populares no Oriente</p><p>Próximo, que ocorriam todo verão, num mês mais ou menos equivalente à</p><p>metade de junho e metade de julho, período em que o Sol transita pelo</p><p>signo de Câncer. A este mês dava-se o nome de Du’uzu no calendário</p><p>babilônico – outro nome para o deus Dúmuzid – e até hoje se chama Tamuz</p><p>no calendário judaico. Há, inclusive, uma menção (furiosa) ao deus no livro</p><p>de Ezequiel, na Bíblia, que sugere que o culto ao casal talvez fosse comum no</p><p>antigo Israel: “Lá eu vi mulheres sentadas, chorando por Tamuz” (Ez. 8:14).</p><p>E é possível ainda que esse mito tenha inspirado também o mito de Vênus e</p><p>Adônis – este último sendo um nome estranho ao grego, de clara origem</p><p>semita. Infelizmente, no entanto, tal como consta nas tabuletas de argila, “A</p><p>Descida de Inana” é obscuro o modo como essa negociação e retorno de</p><p>Dúmuzid se dão, sobretudo por conta das avarias sofridas pelas tabuletas,</p><p>que impossibilitam a leitura.</p><p>“A Descida de Inana ao Mundo dos Mortos” também está incluída neste</p><p>volume, constituindo, assim, uma representação de dois momentos da</p><p>deusa: sua exaltação e humilhação, Inana como a deusa poderosa que vem</p><p>em auxílio de sua serva durante a sua “noite escura da alma”, mas também a</p><p>deusa cuja ambição foi frustrada, �agrando-se, ela mesma, em necessidade</p><p>de ser socorrida – o que, como vimos, é profundamente humano.</p><p>A popularidade da “Descida de Inana” foi tamanha que uma segunda</p><p>versão do mito, bastante posterior, foi reelaborada no dialeto assírio do</p><p>idioma acadiano. Os a�cionados por literatura mesopotâmica certamente já</p><p>ostentam em suas estantes o volume Ao Kurnugu, Terra Sem Retorno:</p><p>Descida de Ishtar ao Mundo dos Mortos, a tradução e estudo magistrais do</p><p>Prof. Jacyntho Lins Brandão da versão acadiana do poema. Como Brandão</p><p>deixa claro, trata-se de dois poemas distintos, tanto em matéria de estilo</p><p>quanto de narrativa. O que parece ser uma marca signi�cativa do estilo</p><p>sumério, evidente na “Descida”, mas também em outros poemas como</p><p>“Ninurta e a Tartaruga” e “O sonho de Dúmuzid”, é o uso da repetição, como</p><p>se nota nos versos de abertura que vão se desdobrando devagar para</p><p>encenar, aos poucos, a aparição da deusa: Do vasto céu, || voltou-se à terra</p><p>vasta. / Do vasto céu, || a deusa voltou-se à terra vasta. / Do vasto céu, ||</p><p>Inana voltou-se à terra vasta. Esse recurso não consta no poema em</p><p>acadiano, o que, como é de se esperar, resulta em uma obra muito mais</p><p>enxuta.</p><p>Mas há outras diferenças mais sutis. O papel cósmico de Ishtar como</p><p>deusa da fertilidade é ressaltado no poema em acadiano, de modo que,</p><p>quando ela morre “À vaca o boi não cobria, o asno à asna não emprenhava /</p><p>À moça, na rua, não emprenhava o moço // Dorme o moço em sua alcova /</p><p>Dorme a moça só consigo”. Sua caracterização é mais rebelde e impetuosa,</p><p>como se observa no Épico de Gilgámesh, e, assim como no épico, ela repete</p><p>a ameaça, ao entrar no submundo, de arrombar as portas e permitir que os</p><p>mortos saiam e devorem os vivos, caso não façam a sua vontade. Seu</p><p>ajudante também muda – de Ninshubur para o deus intermediário</p><p>Papsukkal – e desaparece a ênfase dada pelo poema sumério à importância</p><p>dos devidos ritos funerários. A morte ocupa um lugar central na “Descida</p><p>de Inana”, como comenta Kátia Pozzer em sua leitura do poema, a grande</p><p>questão contra a qual nos debatemos, enquanto mortais, e eis uma bela</p><p>instanciação de como os povos mesopotâmicos lidaram com esta questão –</p><p>não por acaso, “A Descida” termina com um</p><p>louvor à deusa dos mortos,</p><p>Eréshkigal, detalhes ausentes na versão acadiana. Por isso, como Brandão</p><p>(2017) insiste, é importante enxergar as duas obras como poemas distintos,</p><p>embora obviamente interrelacionados.</p><p>Em comparação com “A Exaltação”, “A Descida” apresenta uma poética</p><p>bem menos lírica e mais centrada na narrativa. Onde Enheduana deixa</p><p>lacunas e alude enigmaticamente aos eventos, o autor ou autora da</p><p>“Descida” seleciona alguns momentos chave, como o pedido que Ninshubur</p><p>deve fazer a cada um dos deuses ou o ato de despir-se dos me a cada portão,</p><p>para repeti-los, talvez como um tipo de refrão, o que sugere uma possível</p><p>dinâmica musical, e não é difícil imaginar o público esperando esses</p><p>momentos para cantar junto. Apesar disso, há sim trechos de grande beleza</p><p>e precisão verbais como nessas súplicas aos deuses, versos de forte peso</p><p>emocional, e no veredicto dos juízes infernais.</p><p>reesboçando uma poética de 5000 anos</p><p>É triste que ainda não temos um arcabouço teórico robusto o bastante para</p><p>lidar com a poética do Antigo Oriente Próximo – certamente nada que se</p><p>compare com o que temos para a poesia grega e latina. O que podemos dizer</p><p>do material original da “Exaltação de Inana”?</p><p>Primeiramente, uma breve introdução à língua suméria: trata-se de uma</p><p>língua aglutinativa, constituindo palavras que são frases inteiras ao somar</p><p>unidades carregadas de sentido que, com frequência, consistem em apenas</p><p>uma única sílaba. Para dar um exemplo, lu quer dizer “pessoa”; gal, “grande”,</p><p>por isso lugal é “rei”, literalmente um grande indivíduo. Já nam é um pre�xo</p><p>que deriva abstrações a partir de nomes concretos, por isso nam-lugal</p><p>signi�ca monarquia, a coroa, o conceito de ser rei, ao passo que se usa</p><p>su�xos como ene para indicar plural, ĝu, zu e outros como possessivos (meu</p><p>e teu) e gin para criar comparações. Assim, lugal-ene seria “reis”, lugal-ĝu,</p><p>“meu rei” e lugal-gin, “como um rei”. As cadeias verbais, por outro lado, são</p><p>ainda mais complexas, utilizando partículas para indicar gênero (não</p><p>masculino e feminino, mas as categorias “animado” e “inanimado”), tempo e</p><p>modo verbal, caso, agentes e pacientes do verbo, negação, etc. Por isso, como</p><p>resultado, formam-se longos encadeamentos que constituem as palavras, na</p><p>medida em que conseguimos identi�car limites claros de um vocábulo a</p><p>outro, mas o efeito que se tem, dada a presença de unidades monossilábicas,</p><p>é o de uma língua ágil e concisa. Por exemplo, no verso sobre quebrar pedras</p><p>com os dentes lê-se, no original:</p><p>nin-ĝu a ni-za zu zu i-gu-e</p><p>Literalmente, “minha senhora (nin-ĝu), com tua força/braço/asa (a ni-za),</p><p>pedra (zu) dente (zu) come (i-gu-e)”. De quebra há um trocadilho aí, pois</p><p>dente e pedra são homofônicos em sumério (a distinção se dá, na escrita,</p><p>pelo uso do chamado determinativo6), e o grau de polissemia da língua é tal</p><p>que há estudiosos que postulam a possibilidade de que fosse uma língua</p><p>tonal.</p><p>Em termos de estrutura poética, entende-se que a poesia suméria</p><p>constituía versos formados por dois ou até três hemistíquios, unidades</p><p>marcadas por uma breve pausa chamada de cesura. Por sua vez, esses versos</p><p>se inseriam em estruturas mais amplas de dois ou três versos cada, unidos</p><p>tematicamente. Via de regra, tem-se um primeiro verso que apresenta o</p><p>tema, por exemplo, seguido por um outro verso que o desenvolve, que o</p><p>responde, via paralelismo, ou que o contradiz. Algo semelhante acontece</p><p>também na poesia semítica. Para ilustrar, tudo isso pode ser observado na</p><p>quinta estrofe:</p><p>Minha senhora o Anuna || os grandes deuses</p><p>feito morcegos na noite || revoam de ti</p><p>não ousam cruzar || o teu olhar terrível</p><p>não ousam chegar || à tua expressão terrível</p><p>quem acalmaria || teu peito em fúria?</p><p>teu peito malévolo || é sem calmaria</p><p>O primeiro verso fala dos deuses Anuna, ou Anunaki, o que se costuma</p><p>entender como os deuses do submundo – a primeira metade os introduz e a</p><p>segunda os descreve. No verso seguinte, há a comparação com morcegos,</p><p>que revoam, fugindo da deusa: assim a primeira metade do primeiro verso</p><p>constitui o sujeito da frase, e a segunda metade do segundo verso, seu</p><p>predicado. O restante serve de intermédio, como um sanduíche. Os dois</p><p>versos seguintes apresentam o paralelismo da repetição “não ousam cruzar”/</p><p>“não ousam chegar”, ao passo que o par �nal trata da fúria de Inana:</p><p>primeiro com a pergunta retórica, à qual o segundo verso responde, numa</p><p>estrutura espelhada. Essa estrutura, ressaltando visualmente os</p><p>hemistíquios, também foi mantida em minha tradução da “Descida de</p><p>Inana”7.</p><p>A tradução poética de uma obra assim exige um elevado grau de precisão</p><p>verbal, uma atenção para a estrutura e para a sonoridade que vai muito além</p><p>de reprodução de métrica. Dada a concisão da língua suméria, é muito fácil</p><p>desdobrar um único verso em um longo palavrório prosaico e sem ritmo. Eu</p><p>diria que é esse um dos principais méritos da tradução do Gontijo: ele</p><p>mantém essa agilidade musical com uma habilidade certamente derivada de</p><p>sua experiência com a tradução de poemas clássicos e canções. Ao mesmo</p><p>tempo, ele não nos priva da experiência da estranheza que é ser confrontado</p><p>com um poema de uma cultura tão distante no tempo e no espaço.</p><p>Parte desse efeito deriva de um trabalho apurado com a sintaxe,</p><p>aproveitando a estrutura original, destacada visualmente, para realçar a</p><p>individualidade de cada unidade poética. Assim obtemos partes separadas,</p><p>em stacatto, que são unidas tematicamente: Ashimbabbar || não disse o</p><p>veredito / e daí se dissesse? || e daí se não dissesse? / afeita a triunfos || fui</p><p>expulsa do templo / fugi feito andorinha || a vida devorada.</p><p>Em dado momento (v. 65), Enheduana se refere a Inana como uma mulher</p><p>que é zid šag zalag-zalag-ga, o que signi�ca “coração justo” (zid šag) e</p><p>“intensamente radiante” (zalag-zalag), haja visto que a palavra para</p><p>“radiante”, zalag, aparece duplicada, como é comum em certas línguas.</p><p>Valendo-se de um raro neologismo, Gontijo diz “justa misericordiclara”. Do</p><p>mesmo modo, no segundo verso, melem gurru, literalmente “que</p><p>veste/ostenta o brilho”, é vertido como “circunradiante”. No mais, há uma</p><p>grande riqueza no uso de expressões poéticas – “babélico veneno”, “lepra do</p><p>tempo”, “caminha teu caminho da casa dos suspiros”, “o sangue segue em</p><p>rios”, “foi dia bom em roupa �na”. É impossível a�rmar que tipo de impacto</p><p>teriam aos ouvidos sumérios, mas constituem formas de impressionante</p><p>vitalidade aos nossos ouvidos.</p><p>Celebremos, portanto, o duplo retorno do exílio de Enheduana: primeiro,</p><p>seu exílio no espaço, que lhe foi imposto por Lugalane e do qual a</p><p>misericordiosa Inana a restaurou. Depois, o exílio do tempo, a mortalha dos</p><p>milênios que impôs o silêncio à sua voz, �nalmente ouvida em todo o</p><p>mundo no século XX (teria Inana aqui a resgatado também?). Que ela seja</p><p>ouvida, em todo o seu veneno e mel, também em português.</p><p>bibliogra�a</p><p>ABUSCH, T. 1995. “Ishtar”. In Karel Van der Toorn (ed.). Dictionary of Deities and</p><p>Demons In the Bible. Leiden: Brill.</p><p>BRANDÃO, J. L. 2019. Ao Kurnugu, terra sem retorno: Descida de Ishtar ao mundo</p><p>dos mortos. Tradução, introdução e estudo de Jacyntho Lins Brandão. Curitiba:</p><p>Kotter Editorial.</p><p>BAHRANI, Z. 2001. Women of Babylon: Gender and representation in Mesopotamia.</p><p>Londres: Routledge.</p><p>DUPLA, S. A. 2019. Imaginário e Devoção no Culto à Deusa Mesopotâmica</p><p>Inana/Ishtar (2112-1600). Tese (Doutorado em História) - Programa de Pós-</p><p>Graduação em História, Universidade Estadual de Maringá.</p><p>HALLO, W. W., & DIJK, J. J. A. 1968. �e Exaltation of Inana. New Haven: Yale</p><p>University Press.</p><p>HELLE, S. 2019. “Enheduana and the Invention of Authorship”. Authorship, 8, n. 1,</p><p>p.1-20.</p><p>LENZI, A. 2011. Reading Akkadian Prayers & Hymns: An Introduction (Ancient Near</p><p>East Monographs, 3). Atlanta: Society of Biblical Literature.</p><p>POZZER, K. M. P. 2020, “Uma Viagem ao Mundo dos Mortos: histórias de amor e</p><p>ódio na Mesopotâmia”. In: Margarida Maria de Carvalho; Luciane Munhoz de</p><p>Omena, (orgs.). Narrativas e Materialidades sobre a Morte nas Antiguidades</p><p>Oriental, Clássica e Tardia. Curitiba, p.</p><p>27-42.</p><p>SIN-LÉQI-UNÍNNI. 2017. Ele que o abismo viu: Epopeia de Gilgámesh. Tradução do</p><p>Acádio, introdução e comentários de Jacyntho Lins Brandão. Belo Horizonte:</p><p>Autêntica.</p><p>VAN DER TOORN, K. (2014). Scribal Culture and the Making of the Hebrew Bible.</p><p>Londres: Harvard University Press.</p><p>WEST, M. L. (2007). Indo-European Poetry and Myth. Oxford: Oxford University</p><p>Press.</p><p>VIRTANEN, M. N. 2019. �e Collapse of the Akkadian Empire: A Review of Historical</p><p>and Textual Sources. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade de</p><p>Helsinque.</p><p>3 Ainda que especulativamente, essa seja a tese de M. L. West em Indo-European Poetry</p><p>and Myth (2007) .</p><p>4 Sobre isso, cf. VAN DER TOORN, K. 2007. Scribal Culture and the Making of the</p><p>Hebrew Bible. Oxford: Oxford University Press.</p><p>5 Um bom exemplo são as comparações feitas entre os hinos a Marduk, Ishtar e outros</p><p>deuses e trechos bíblicos na obra organizada por Alan Lenzi, Reading Akkadian Prayers</p><p>& Hymns: an Introduction (2011).</p><p>6 O determinativo é um recurso das escritas cuneiforme e hieroglí�ca que consiste em</p><p>um símbolo que aparece antes de certas palavras para determinar sua categoria. Como</p><p>tal, ele é lido, mas não pronunciado. Existem determinativos para prefaciar nomes de</p><p>deuses, mas também pedras, aves, tipos de madeira, nomes de cidade, etc.</p><p>7 A bem da verdade, a minha tradução do poema foi publicada inicialmente, numa</p><p>primeira versão, no escamandro em junho de 2015. Na época eu ainda não havia tido</p><p>contato com o conceito dos hemistíquios na poesia suméria, que se observa na edição</p><p>de Hallo & Dijk da “Exaltação”. A �m de corrigir estes e outros pontos da tradução, o</p><p>texto, é claro, foi revisto.</p><p>nota sobre a leitura</p><p>dos textos originais</p><p>Junto com as traduções dos poemas, estão sendo oferecidas também</p><p>transcrições dos textos originais sumérios. Como dito, as tabuletas foram</p><p>escritas em cuneiforme, um sistema de escrita complexo e que se</p><p>desenvolveu de maneira bastante orgânica e, francamente, caótica. Não</p><p>queremos oferecer uma leitura acadêmica, destinada a sumerólogos, mas</p><p>sim uma experiência acessível a todos leitores e leitoras com interesse nessa</p><p>poesia vital. Por isso, é necessária esta breve nota indicando algumas</p><p>convenções na forma como o texto original é transcrito.</p><p>A primeira coisa que deve chamar a atenção é a presença de números.</p><p>Como dito na introdução, o sumério conta com muitas sílabas homofônicas,</p><p>e os números são usados nas transcrições para distingui-los. A palavra e, por</p><p>exemplo, costuma signi�car “casa”, tanto que e-gal é “palácio”, “grande casa”...</p><p>mas, para ser mais exato, é a variante e2 que signi�ca casa. A variante e3 é o</p><p>verbo “sair” e e6 é “tira de couro”. Não sabemos exatamente como eles</p><p>faziam para distinguir na oralidade entre as variações homofônicas – por</p><p>isso a suspeita possível de que o sumério seria uma língua tonal.</p><p>Depois temos o fato de que, apesar de, na maioria das vezes, o texto</p><p>descrever uma aproximação do valor fonético, às vezes há símbolos cuja</p><p>sonoridade é desconhecida. Eles permitem a tradução ainda, pois</p><p>apresentam conteúdo semântico (por isso são chamados logogramas), mas</p><p>não se sabe como eram pronunciados. Essas sequências são representadas</p><p>por letras em maiúscula como KAxLI, “garganta”, onde se observa o</p><p>logograma LI dentro do logograma KA (“voz”). Também não sabemos como</p><p>eram pronunciadas as palavras para indicar quantidades, pois logogramas</p><p>especí�cos para numerais eram usados.</p><p>As palavras em sobrescrito indicam determinativos, símbolos que não</p><p>eram pronunciados, mas apareciam antes ou depois das palavras para</p><p>indicar sua categoria, especialmente antes de nomes próprios ou nomes</p><p>especí�cos. Diĝir, representado por um d antes do nome, sempre aparece</p><p>antes do nome de deuses (como em “dinana”) já na4 indica nomes de pedras</p><p>(como “na4 za-gin”, lápis lazúli), ki no �nal aponta para nomes de cidades, e</p><p>assim por diante.</p><p>Um último detalhe importante é a presença de caracteres especiais, š e ĝ. O</p><p>š tem o som chiado, como em “chão”, já o ĝ, às vezes também transcrito</p><p>como j ou ng, é o equivalente ao nosso “nh”, como em “minha”.</p><p>Assim sendo, se olharmos os versos iniciais da “Exaltação”:</p><p>nin me šar2-ra ud dalla e3-a</p><p>munus zid me-lem4 gur3-ru ki aĝ2 an uraš-a</p><p>Seria possível pronunciá-los mais ou menos como: nin me chara ud dalla</p><p>ea / munus zid melem gurru ki anhan uracha.</p><p>nin-me-shara</p><p>senhora dos dons</p><p>a exaltação de Inana</p><p>Por Enheduana (c. 2285-2250 a.C.)</p><p>tradução de Guilherme Gontijo Flores</p><p>1.</p><p>nin me šar2-ra ud dalla e3-a</p><p>munus zid me-lem4 gur3-ru ki aĝ2 an uraš-a</p><p>nu-gig an-na suh-gir11 gal-gal-la</p><p>aga zid-de3 ki aĝ2 nam-en-na tum2-ma</p><p>me 7-bi šu sa2 dug4-ga</p><p>nin-ĝu10 me gal-gal-la saĝ keše2-bi za-e-me-en</p><p>me mu-e-il2 me šu-zu-še3 mu-e-la2</p><p>me mu-e-ur4 me gaba-za bi2-tab</p><p>1.</p><p>Senhora dos dons lume ofuscante</p><p>a justa circunradiante amada de An e Urash</p><p>hierodula de An multiadornada</p><p>que amas a tiara justa de alta sacerdotisa En</p><p>que agarras na mão todos os sete dons</p><p>senhora e guardiã dos grandes dons</p><p>dons tomaste dons ataste à mão</p><p>dons reuniste dons comprimiste no peito</p><p>2.</p><p>ušumgal-gin7 kur-re uš11 ba-e-šum2</p><p>diškur-gin7 ki šegx(KAxLI) gi4-a-za dezina2 la-ba-e-ši-ĝal2</p><p>a-ma-ru kur-bi-ta ed3-de3</p><p>saĝ-kal an ki-a dinana-bi-me-en</p><p>izi bar7-bar7-ra kalam-e šeĝ3-ĝa2</p><p>an-ne2 me šum2-ma nin ur-ra u5-a</p><p>inim kug an-na-ta inim dug4-dug4</p><p>biludada gal-gal-la niĝ2-zu a-ba mu-un-zu</p><p>2.</p><p>Feito um dragão envenenaste a terra estranha</p><p>o grão de Ezina não aguenta teu trovoar na terra feito Ishkur</p><p>feito uma inundação que desce da montanha</p><p>supremo ser de céu e terra Inana</p><p>que choves chamas sobre a nação</p><p>que tens o dom de An senhora sobre a fera</p><p>que às ordens de An enuncias o divino</p><p>são teus os grandes ritos quem há de sondá-los?</p><p>3.</p><p>kur gul-gul ud-de3 a2 ba-e-šum2</p><p>ki aĝ2 den-lil2-la2 kalam-ma ni2 mi-ni-ri</p><p>a2 aĝ2-ĝa2 an-na-ke4 ba-gub-be2-en</p><p>nin-ĝu10 za-pa-aĝ2-zu-še3 kur i3-gam-gam-e</p><p>ni2 me-lem4 u18-lu-da nam-lu2-ulu3</p><p>niĝ2-me-ĝar ĝiri3-bi u3-mu-ri-gub</p><p>me-ta me huš-bi šu ba-e-re-ti</p><p>i-dub er2-ra-ke4 ĝal2 ma-ra-ab-taka4</p><p>e2 a-nir gal-gal-la sila-ba mu-ri-du</p><p>3.</p><p>Devastação das terras que deste asa à tempestade</p><p>amada de Enlil sobrevoas a nação</p><p>tu prestas serviço aos decretos de An</p><p>senhora ao teu clamor se curva a terra estranha</p><p>e quando a humanidade vem a ti</p><p>em temor e tremor por teu relume tempestuoso</p><p>assim recebes a paga devida</p><p>cantando um lamento por ti pranteia</p><p>por ti cruzam o caminho da casa dos suspiros</p><p>4.</p><p>igi me3-ta niĝ2 ma-ra-ta-si-ig</p><p>nin-ĝu10 a2 ni2-za na4zu2 zu2 i3-gu7-e</p><p>ud du7-du7-gin7 i3-du7-du7-de3-en</p><p>ud gu3 ra-ra-da gu3 im-da-ab-ra-ra-an</p><p>diškur-da šegx(KAxLI) mu-da-an-gi4-gi4-in</p><p>im-hul-im-hul-da im-da-kuš2-u3-de3-en</p><p>ĝiri3-za nu-kuš2-u3 i3-im-si</p><p>balaĝ a-nir-ra-ta i-lu im-da-ab-be2</p><p>4.</p><p>Na frente de batalha a teus pés tudo tomba</p><p>em tua asa senhora o dente corta pedra</p><p>feito o ataque da tormenta tu atacas</p><p>no troar do trovão tu atroas</p><p>com Ishkur sempre tu estrondas</p><p>feito o vento malino tu roncas</p><p>teus pés se fartam do infatigável</p><p>na balang dos suspiros tu lanças um lamento</p><p>5.</p><p>nin-ĝu10 da-nun-na diĝir gal-gal-e-ne</p><p>su-dinmušen dal-la-gin7 du6-de3 mu-e-ši-ib-ra-aš</p><p>igi huš-a-za la-ba-sug2-ge-eš-am3</p><p>saĝ-ki huš-a-za saĝ nu-mu-un-de3-ĝa2-ĝa2</p><p>šag4 ib2-ba-za a-ba ib2-te-en-te-en</p><p>šag4 hul-ĝal2-la-za te-en-ten-bi mah-am3</p><p>nin ur5 i3-sag9 nin šag4 i3-hul2</p><p>ib2-ba nu-te-en-te-en dumu gal dsuen-na</p><p>nin kur-ra dirig-ga a-ba ki-za ba-an-tum3</p><p>5.</p><p>Minha senhora o Anuna os grandes deuses</p><p>feito morcegos na noite revoam de ti</p><p>não ousam cruzar o teu olhar terrível</p><p>não ousam chegar à tua expressão terrível</p><p>quem acalmaria teu peito em fúria?</p><p>teu peito hostil é sem calmaria</p><p>senhora que animas o rim que alegras o coração</p><p>de fúria inacalmável �lha maior de Suen</p><p>senhora suprema na terra quem te renega louvor?</p><p>6.</p><p>hur-saĝ ki-za ba-e-de3-gid2-de3-en dezina2 niĝ2-gig-bi</p><p>e2-gal-la-ba izi mu-ni-in-ri-ri</p><p>id2-ba uš2 ma-ra-an-de2 uĝ3-bi ba-ra-na8-na8</p><p>ugnim-bi ni2-bi-a ma-ra-ab-lah5-e</p><p>zu2 keše2-bi ni2-bi-a ma-ra-ab-si-il-le</p><p>ĝuruš a2-tuku-bi ni2-bi-a ma-ra-ab-sug2-ge-eš</p><p>iri-ba ki-e-ne-di-ba</p><p>mir i-ib2-si</p><p>ĝuruš šag4-gan-bi LU2-eš2 ma-ra-ab-sar-re-eš</p><p>6.</p><p>Se o monte não te louva maldito �ca o grão de Ezina</p><p>os seus portais tu transformas em cinzas</p><p>ali o sangue segue em rios o povo passa sede</p><p>entrega de bom grado seus combatentes</p><p>desmonta de bom grado seus regimentos</p><p>oferta de bom grado seus fortes num des�le</p><p>a tormenta invadiu as danças da cidade</p><p>que entrega os jovens todos como teus prisioneiros</p><p>7.</p><p>iri kur za-ra li-bi2-in-dug4-ga-am3</p><p>a-a ugu-zu li-bi2-in-eš-am3</p><p>inim kug-zu bi2-in-dug4 ki ĝiri3-za he2-eb-gi4</p><p>šag4 tur3-bi-ta ĝiri3 he2-eb2-ta-an-ze2-er</p><p>munus-bi dam-a-ni-ta sag9-ga na-an-da-ab-be2</p><p>ĝi6 u3-na ad na-an-di-ni-ib-gi4-gi4</p><p>niĝ2 kug šag4-ga-na nam-mu-da-an-bur2-re</p><p>u3-sumun2 zid-zid dumu gal dsuen-na</p><p>nin an-ra dirig-ga a-ba ki-za ba-an-tum3</p><p>7.</p><p>Na cidade que não clama “Esta terra é tua”</p><p>que não conclama “É do teu pai teu criador”</p><p>tu deste a ordem santa e dás agora as costas</p><p>e removeste os pés do tal curral</p><p>mulher ali não fala mais de amor com seu marido</p><p>e à noite não há mais o sussurro conjunto</p><p>e ela não mais revela o seu tesouro interno</p><p>vaca selvagem feroz �lha mais velha de Suen</p><p>suprema sobre An quem te renega louvor?</p><p>8.</p><p>me zid-de3 nin gal nin-e-ne</p><p>šag4 kug-ta e3-a ama ugu-ni-ir dirig-ga</p><p>gal-zu igi-ĝal2 nin kur-kur-ra</p><p>zi-ĝal2 uĝ3 lu-a šir3 kug-zu ga-am3-dug4</p><p>diĝir zid me-a tum2-ma gal-bi dug4-ga-zu mah-am3</p><p>šag4 su3-ra2 munus zid šag4 zalag-zalag-ga me-zu ga-mu-ra-ab-dug4</p><p>8.</p><p>Tu dos justos dons senhora das senhoras</p><p>nascida em santo ventre suprema sobre a própria mãe</p><p>onisciente sábia senhora de todas as terras</p><p>sustento de tantos teu santo canto aqui recito</p><p>deusa certa e justa aos dons numa exaltada aclamação</p><p>justa misericordiclara aqui recito os dons que tens</p><p>9.</p><p>ĝi6-par3 kug-ĝa2 hu-mu-ši-in-kur9-re-en</p><p>en-me-en en-he2-du7-an-na-me-en</p><p>gima-sa2-ab i3-gur3-ru asil-la2 i3-dug4</p><p>ki-sig10-ga bi2-ib-ĝar ĝe26-e nu-mu-un-til3-le-en</p><p>ud-de3 ba-te ud mu-da-bil2</p><p>ĝissu ne ba-te u18-lu-da im-mi-dul</p><p>ka lal3-ĝu10 šu uh3-a ba-ab-dug4</p><p>niĝ2 ur5 sag9-sag9-ĝu10 sahar-ta ba-da-gi4</p><p>9.</p><p>No sagrado Gipar penetrei teu serviço</p><p>eu sacerdotisa En eu Enheduana</p><p>trazendo o cesto ritual eu entoei um canto de alegria hoje na ala da lepra aí</p><p>não vivo mais</p><p>vem a luz do dia e essa luz me assombra</p><p>vem sombra à luz do dia na tempestade de areia</p><p>o mel da minha voz é um babélico fel</p><p>meu traço mais feliz agora é pó</p><p>10.</p><p>nam-ĝu10 dsuen lugal-an-ne2</p><p>an-ra dug4-mu-na-ab an-ne2 ha-ma-du8-e</p><p>a-da-lam an-ra ba-an-na-ab-be2-en an-ne2 mu-e-du8-e</p><p>nam lugal-an-ne2 munus-e ba-ab-kar-re</p><p>kur a-ma-ru ĝiri3-ni-še3 i3-nu2</p><p>munus-bi in-ga-mah iri mu-un-da-ab-tuku4-e</p><p>gub-ba šag4-ga-na ha-ma-sed-de3</p><p>en-he2-du7-an-na-me-en a-ra-zu ga-mu-ra-ab-dug4</p><p>er2-ĝa2 kaš dug3-ga-gin7</p><p>kug dinana-ra šu ga-mu-ni-ri-bar silim-ma ga-mu-ra-ab-dug4</p><p>10.</p><p>Diz-me Suen quem é pra mim agora Lugalane</p><p>diz assim pra An “Que An me liberte”</p><p>só diz assim pra An “Agora” e An me liberta</p><p>o que é viril em Lugalane essa mulher há de levar</p><p>terra e dilúvio jazem aos pés dela</p><p>essa mulher excelsa estremece a cidade</p><p>na certa ela arrefece a ira contra mim</p><p>e eu Enheduana vou recitar a prece dela</p><p>vou dar meu pranto cerveja doce a ela</p><p>à santa Inana um “Salve” saudarei</p><p>11.</p><p>daš-im2-babbar na-an-kuš2-u3-de3-en</p><p>šu-luh an kug-ga-ke4 niĝ2-nam-ma-ni in-kur2</p><p>an-da e2-an-na ha-ba-da-an-kar</p><p>an lu2 gu-la-ta ni2 ba-ra-ba-da-te</p><p>e2-bi la-la-bi ba-ra-mu-un-gi4 hi-li-bi ba-ra-mu-un-til</p><p>e2-bi e2 hul-a hu-mu-un-di-ni-in-kur9</p><p>tab mu-ši-in-kur9-ra-ni ninim-ma-ni hu-mu-un-te</p><p>dsumun2-zid-ĝu10 lu2 hu-mu-sar-re-en lu2 he2-em-mi-dab5-be2-en</p><p>11.</p><p>Que nada afete Ashimbabar</p><p>Lugalane alterou a purga lustral de An</p><p>tomou de An o templo Eana</p><p>recusou reverência de An-Rei</p><p>o templo de charme inquebrável in�nita beleza</p><p>o templo ele próprio levou à ruína</p><p>entrando ali como parceiro chegou-se na cunhada</p><p>divina vaca selvagem afasta e prende esse maldito</p><p>12.</p><p>ki zi-šag4-ĝal2-la-ka ĝe26-e a-na-me-en</p><p>ki-bal hul gig dnanna-za-ke4-eš an-ne2 ha-ba-ab-šum2-mu</p><p>iri-bi an-ne2 ha-ba-ra-an-si-il-le</p><p>den-lil2-le nam ha-ba-da-an-kud-de3</p><p>dumu er2 pad3-da-bi ama-ni na-an-sed4-e</p><p>nin a-nir ki ĝar-ra</p><p>ĝišma2 a-nir-ra-zu ki kur2-ra he2-bi2-ib-taka4</p><p>šir3 kug-ĝa2-ke4-eš i3-ug5-ge-de3-en</p><p>12.</p><p>Neste ponto de sustento o que sou eu agora?</p><p>Uruk se rebela contra teu Nana que An logo a debele</p><p>seja esta cidade por An cindida</p><p>seja por Enlil cidade maldita</p><p>que sua criança chorona não sinta consolo materno</p><p>senhora o lamento se prostra no chão</p><p>teu barco lamentoso aporta em praia hostil</p><p>neste meu canto santo eles devem morrer</p><p>13.</p><p>ĝe26-e dnanna-ĝu10 en3-ĝu10 ba-ra-an-tar</p><p>ki-lul-la he2-eb-gul-gul-en</p><p>daš-im2-babbar-e di-ĝu10 ba-ra-bi2-in-dug4</p><p>bi-in-dug4 nam-ĝu10 li-bi2-in-dug4 nam-ĝu10</p><p>u3-ma gub-gub-ba e2-ta ba-ra-an-e3-en</p><p>simmušen-gin7 ab-ta ba-ra-an-dal-en zi-ĝu10 im-mi-gu7</p><p>ĝiškiši16 kur-ra-ke4 bi2-in-du-e-en</p><p>aga zid nam-en-na mu-da-an-kar</p><p>ĝiri2 ba-da-ra ma-an-šum2 a-ra-ab-du7 ma-an-dug4</p><p>13.</p><p>Quanto a mim Nana me descuidou</p><p>deixou-me à perdição de ataques assassinos</p><p>Ashimbabar não disse o veredito</p><p>e daí se dissesse? e daí se não dissesse?</p><p>afeita a triunfos expulsa fui do templo</p><p>fugi feito andorinha a vida devorada</p><p>forçada a atravessar espinhos de acácia nos montes</p><p>a justa tiara de En me foi tomada</p><p>deram-me adaga e espada “A tua cara” me disseram</p><p>14.</p><p>nin kal-kal-la an-ne2 ki aĝ2</p><p>šag4 kug-zu mah-a ki-bi ha-ma-gi4-gi4</p><p>nitalam ki aĝ2 dušumgal-an-na-ka</p><p>an-ur2 an-pa nin gal-bi-me-en</p><p>da-nun-na-ke4-ne gu2 ĝiš ma-ra-an-ĝar-re-eš</p><p>u3-tud-da-ta nin ban3-da-me-en</p><p>da-nun-na diĝir gal-gal-e-ne a-gin7 ba-e-ne-dirig-ga</p><p>da-nun-na-ke4-ne nundum-nundum-bi-ta ki su-ub ma-ra-ak-ke4-ne</p><p>di ni2-ĝa2 nu-mu-un-til di kur2 di-ĝu10-gin7 igi-ĝa2 mu-un-niĝin2</p><p>ĝiš-nu2 gi-rin-na šu nu-um-mi-la2</p><p>inim dug4-ga dnin-gal lu2-ra nu-mu-na-bur2</p><p>en dadag-ga dnanna-me-en</p><p>nin ki aĝ2 an-na-ĝu10 šag4-zu ha-ma-sed-de3</p><p>14.</p><p>Caríssima senhora amada de An</p><p>retorna-me teu santo excelso coração</p><p>esposa amada do dragão Ushumgalana</p><p>sênior senhora do zênite e do �rmamento</p><p>o Anuna a ti se prostra</p><p>mesmo que sejas caçula por nascença</p><p>o Anuna os grandes deuses agora tu superas</p><p>o Anuna beija o chão com lábios a teus pés</p><p>minha sentença não saiu estranho veredito ante meu veredito</p><p>não estendi as mãos sobre o leito �oral</p><p>nem revelo a ninguém os comandos de Ningal</p><p>eu sou a reluzente sacerdotisa En de Nana</p><p>senhora amada de An misericórdia tem de mim</p><p>15.</p><p>he2-zu he2-zu-am3 dnanna li-bi2-in-dug4-ga za-a-kam bi2-in-dug4-ga</p><p>an-gin7 mah-a-za he2-zu-am3</p><p>ki-gin7 daĝal-la-za he2-zu-am3</p><p>ki-bal gul-gul-lu-za he2-zu-am3</p><p>kur-ra gu3 de2-e-za he2-zu-am3</p><p>saĝ ĝiš ra-ra-za he2-zu-am3</p><p>ur-gin7 ad6 gu7-u3-za he2-zu-am3</p><p>igi huš-a-za he2-zu-am3</p><p>igi huš-bi il2-il2-i-za he2-zu-am3</p><p>igi gun3-gun3-na-za he2-zu-am3</p><p>uru16-na nu-še-ga-za he2-zu-am3</p><p>u3-ma gub-gub-bu-za he2-zu-am3</p><p>dnanna li-bi2-in-dug4-ga za-a-kam bi2-in-dug4-ga</p><p>nin-ĝu10 ib2-gu-ul-en i3-mah-en</p><p>nin ki aĝ2 an-na-ĝu10 mir-mir-za ga-am3-dug4</p><p>15.</p><p>Saibam saibam todos de Nana não é mas teu é que é</p><p>tu excelsa feito o céu de An saibam todos</p><p>tu vasta feito a terra de Ki saibam todos</p><p>tu devastação do rebeldes saibam todos</p><p>tu ruína sobre as terras saibam todos</p><p>tu massacre nas cabeças saibam todos</p><p>tu comes mortos feito cão saibam todos</p><p>teu olhar é terrível saibam todos</p><p>teu olhar terrível levantas saibam todos</p><p>teu olhar reluz saibam todos</p><p>tu intrépida e indomável saibam todos</p><p>tu a triunfante saibam todos</p><p>de Nana não é mas teu é que é</p><p>minha senhora só �z louvor por ti</p><p>senhora amada de An alcei a tua fúria</p><p>16.</p><p>ne-mur mu-dub šu-luh si bi2-sa2</p><p>e2-eš2-dam-kug ma-ra-ĝal2 šag4-zu na-ma-sed-de3</p><p>im-ma-si im-ma-dirig-ga-ta nin UN-gal ma-ra-dug4</p><p>niĝ2 ĝi6 u3-na ma-ra-an-dug4-ga-am3</p><p>gala-e an-bar7-ka šu hu-mu-ra-ab-gi4-gi4</p><p>dam dab5-ba-za-ke4-eš dumu dab5-ba-za-ke4-eš</p><p>ib2-ba-zu ib2-gu-ul šag4-zu nu-te-en-te-en</p><p>16.</p><p>Colhi carvões per�z o lustro</p><p>montei o Eshdamkug acalma o coração por mim</p><p>plena e replena pari a canção por ti senhora excelsa</p><p>o que eu te recitei à meia-noite</p><p>repetirá o cantor ao meio dia</p><p>com teu marido preso com teu rebento preso</p><p>a tua fúria aumenta teu coração se assola</p><p>17.</p><p>nin</p><p>gu2-tuku nir-ĝal2 gu2-en-na-ke4</p><p>sizkur2-ra-na šu ba-an-ši-in-ti</p><p>šag4 kug dinana ki-b</p><p>ud ba-an-na-dug3 la-la ba-an-sud-sud hi-li ma-az ba-an-du8-du8</p><p>iti6 e3-a-gin7 la-la ba-an-guru3</p><p>dnanna u6 zid-de3-eš mu-un-e3</p><p>ama-ni dnin-gal-am3 šudu3 mu-na-an-ša4</p><p>ĝiš-kan4-na-ke4 silim-ma mu-na-ab-be2</p><p>17.</p><p>A senhora perfeita primeira na assembleia</p><p>põe tua mão na prece e sacrifício</p><p>o coração de Inana aqui se restaurou</p><p>foi dia bom em roupa �na vestida toda linda</p><p>feito o luar nascendo em pleno brilho</p><p>quando Nana surgiu pra vista e espanto</p><p>e a mãe Ningal a abençoou</p><p>os celestes umbrais clamaram “Salve!”</p><p>18.</p><p>nu-gig-ra dug4-ga-ni mah-am3</p><p>kur gul-gul an-da me ba-a</p><p>nin-ĝu10 hi-li gu2 e3 dinana za3-mi2</p><p>18.</p><p>Exaltou-se o discurso da santa hierodula</p><p>a devastação das terras que tem os dons de An</p><p>a senhora em �nas vestes louvada seja Inana!</p><p>notas e estrutura</p><p>Sou fascinado por este hino há anos, de modo que o tateava vez por outra,</p><p>sem mergulhar plenamente numa empreitada tradutória, embora nenhuma</p><p>tradução me convencesse poeticamente. Depois de tempos de aproximação</p><p>e distanciamento, decidi enfrentar a peça inteira numa recriação poética</p><p>para vocalização e impressão sacra, como me foi possível. Para tanto, contei</p><p>com um aparato mínimo que me guiasse nas complexidades da poética de</p><p>Enheduana. Eis as principais:</p><p>1. Utilizei primariamente a edição e tradução anotada de William Hallo &</p><p>J. J. A. van Dijk — �e Exaltation of Inana, publicada pela Yale University</p><p>Press em 1969.</p><p>2. Consultei também Enheduanna — Seven Sumerian Temple Hymns, com</p><p>comentário e tradução de Betty De Shong Meador.</p><p>3. Foi de bom uso a tradução de James D. Pritchard, presente em �e</p><p>Ancient Near East, Volume II, publicada pela Princeton University Press,</p><p>Chichester, em 1975.</p><p>4. Consultei ainda o trecho curto traduzido por Ricardo Domeneck, na</p><p>revista Modo de usar & co. e outros trechos traduzidos por Michael R. Burch</p><p>disponíveis em</p><p>http://www.thehypertexts.com/Enheduanna%20Poetry%20Modern%20Engl</p><p>ish%20Translations%20Temple%20Hymns%20Exaltation%20of%20Inana%</p><p>20.htm.</p><p>5. Last but not least, imprescindível consultar �e eletronic text corpus of</p><p>Sumerian literature, que é de onde tirei o texto original transcrito (que aqui</p><p>vai editado com mínimas alterações em direção à edição de Hallo e Dijk),</p><p>mesmo sem ter conhecimento da língua suméria, e �e Pennsylvania</p><p>Sumerian Dictionary, dois corpora eletrônicos gratuitos disponíveis na</p><p>internet.</p><p>Por �m, gostaria de agradecer ao diálogo e aos comentários críticos do</p><p>amigo e parceiro Adriano Scandolara, que me guiaram em momentos</p><p>vários. Foi nessas trocas com ele que surgiu a ideia de juntarmos nossas</p><p>traduções perante o deleite e o horror causados por Inana.</p><p>http://www.thehypertexts.com/Enheduanna%20Poetry%20Modern%20English%20Translations%20Temple%20Hymns%20Exaltation%20of%20Inanna%20.htm</p><p>Segue abaixo uma organização tripartida do hino, com uma explicitação</p><p>temática para o que seria cada Parte. Quando há necessidade de elucidação</p><p>cultural e/ou religiosa, �z notas brevíssimas.</p><p>Guilherme Gontijo Flores</p><p>§</p><p>PARTES 1-8: EXÓRDIO</p><p>Parte 1 — Inana e os dons/me’s</p><p>Inana: Não é nomeada na primeira Parte, porém o contexto já a indicaria</p><p>como Inana, antiga deusa mesopotâmica associada ao sexo, ao amor, à</p><p>beleza, à sedução, mas também à guerra, à justiça e ao poder político.</p><p>Originalmente cultuada em Arata e em Sumer, ela depois passou a ser</p><p>cultuada pelos acádios, babilônios e assírios sob o nome de Ishtar. É descrita</p><p>quase sempre como Rainha do Céu e é a deusa patrona do Eana em Uruk,</p><p>além de estar associada ao planeta Vênus. Seus dois símbolos mais comuns</p><p>são o leão e a estrela de oito pontas, embora ela mesma seja por vezes</p><p>representada como uma vaca selvagem. Filha de Nana e Ningal, era casada</p><p>com Dumuzi/Tamuz, e sua serviçal era a deusa Ninshubur.</p><p>Dons: O que traduzo por dons é o conceito sumério de me que indica uma</p><p>polissemia impressionante: a primeira acepção, e talvez a mais importante, é</p><p>a de seres/artefatos civilizacionais e cósmicos que por vezes aparecem</p><p>materializados, por vezes de modo abstrato, ou mesmo os cargos políticos e</p><p>religiosos; ou que permitem ação do cosmo. No entanto, me também</p><p>signi�ca “batalha”, o verbo “ser”, “desejo”, “lavar”, “re�nar”, “rigidez” e até</p><p>mesmo “silêncio”. Sigo, claro, a partir da primeira acepção e busco desdobrar</p><p>a vagueza do sentido.</p><p>Hierodula: Optei por uma palavra mais incomum para traduzir nugig, um</p><p>termo que designa uma santa sacerdotisa e funciona como epíteto de Inana</p><p>em seu papel de alargadora do poder e legitimadora dos regentes.</p><p>An: Também conhecido como Anu ou Am, é o deus sumério do céu,</p><p>responsável pelas constelações e por reger os espíritos e demônios em geral;</p><p>porém também recebia culto dos acádios, babilônios e assírios. Por vezes é</p><p>representado como um chacal. Em algumas tradições, An aparece como pai</p><p>de Inana, mas o mais comum é ela ser neta dele, sendo �lha de Nana.</p><p>Urash: Também conhecida em português como Uras, é uma deusa ctônica</p><p>suméria, a deusa-terra representada como uma das esposas de An; por vezes</p><p>seu nome é aplicado ao próprio An com o sentido de “céu”.</p><p>En: É o termo para designar a sacerdotisa de alto cargo.</p><p>Parte 2 — Inana e An</p><p>Grão de Ezina: No texto sumério aparece dezina2 designando a um só tempo</p><p>os grãos da natureza e a divindade arcaica de Ezina ou Ashnan, senhora da</p><p>fartura e deusa dos cereais. Com isso, optei por traduzir desdobrando o</p><p>nome do grão e da divindade numa locução. O mesmo acontece na Parte 6.</p><p>Ishkur: Também conhecido como Adad (em Ugarit), ou Haddad (entre os</p><p>acádios), ou mesmo Adu, é o deus sumério da tempestade e da chuva, e �lho</p><p>de An. Costuma ser representado como um touro.</p><p>Parte 3 — Inana e Enlil</p><p>Enlil: Também conhecido como Elil, é o deus sumério do ar e dos ventos,</p><p>por isso ligado a tempestades, tal como Ishkur, e �lho de An. Muitas vezes</p><p>imaginado como uma espécie de elo entre o céu e a terra, por estar entre</p><p>eles.</p><p>Casa dos suspiros: É um eufemismo para o mundo dos mortos.</p><p>Parte 4 — Inana e Ishkur</p><p>Balang: Trata-se de balaĝ de um tipo de harpa, harpista ou mesmo de um</p><p>gênero poético sumério, que poderiam ser descritos como hinos dos</p><p>sacerdotes aos deuses, similar a outros hinos sumérios, porém com uma</p><p>maior tendência a repetição ritual.</p><p>Parte 5 — Inana e o Anuna</p><p>Anuna: Também conhecidos como Anunáqui em português, são,</p><p>literalmente, “os �lhos de An(u) (e Ki)” (os deuses do céu e da terra), ou</p><p>seja, a realeza divina entre sumérios, acádios e babilônios.</p><p>Suen: Também conhecido como Suém, Sîn ou Sim, este é o nome acádio</p><p>de Nana.</p><p>Parte 6 — Inana e Ebih, talvez?</p><p>Ebih: O nome do monte não é mencionado ao logo desta Parte, porém a</p><p>descrição de um combate contra a montanha nos relembra o mito em que</p><p>Inana derrotou o monte Ebih de forma violentíssima. Uma tradução inglesa</p><p>dessa narrativa pode ser lida aqui:</p><p>https://etcsl.orinst.ox.ac.uk/section1/tr132.htm.</p><p>Parte 7 — Inana e a cidade de Uruk</p><p>Uruk: Também conhecida em português como Uruque, Unugue, Ereque ou</p><p>Uarca, foi uma cidade antiga da Suméria, a leste do Eufrates, numa região</p><p>pantanosa, donde deriva o nome moderno Iraque. Não é mencionada aqui,</p><p>mas tudo indica que esta seria a idade em questão, pelo culto a Inana e pelo</p><p>levante promovido por Lugalane.</p><p>Curral: Segundo Hallo & Dijk, a imagem de um curral sagrado está no</p><p>repertório sumério e já vem vinculado a Inana. Talvez se tratasse de um</p><p>local metafórico para parturientes, que passam a �car abandonadas. Por</p><p>outro lado, vemos que Uruk é sempre designada como um curral ou redil</p><p>nas tradições mesopotâmicas (o Épico de Gilgamesh na versão acádia de</p><p>Sin-léqi-unnínni usa tal expressão diversas vezes), e assim seria simples ler</p><p>como um simples epíteto tradicional da cidade.</p><p>Vaca selvagem: É a própria Inana, muitas vezes representada como uma</p><p>vaca. Interessante notar que a expressão nada parece ter de negativo e</p><p>aparece recorrentemente na descrição de Nínsun, a mãe de Gilgamesh, mais</p><p>uma vez na sua epopeia em versão acádia, atribuída a Sin-léqi-unínni.</p><p>Parte 8 — Invocação propriamente dita</p><p>Encerrando a longa introdução que lança os atributos tradicionais da deusa,</p><p>seus vínculos com outros deuses e alguns de seus feitos e templos humanos,</p><p>chegamos a uma invocação direta, que nos prepara para os pedidos que vêm</p><p>a seguir.</p><p>Senhora das senhoras: A expressão também guarda dentro de si a</p><p>expressão nin gal, que ecoa o nome de da deusa Ningal, cf. nota à Parte 14.</p><p>PARTES 9-17: O ARGUMENTO</p><p>Parte 9 — Exílio de Ur</p><p>Ur: Foi uma das mais importantes cidades-estado na antiga Suméria, junto</p><p>com Uruk, situada na atual província de Dhi Qar do Iraque. Na Antiguidade</p><p>era uma cidade litorânea na foz do rio Eufrates, no Golfo Pérsico. Seu</p><p>padroeiro era Nana. Ali morava Enheduana até sofrer o exílio, e ali �cava</p><p>um templo central de Inana.</p><p>Gipar: Trata-se de uma construção sucessivamente reconstruída desde as</p><p>dinastias arcaicas até o período neobabilônico (giparu em acádio), que</p><p>servia sobretudo como habitação o�cial para as sacerdotisas En, talvez não</p><p>�casse em Ur, mas em Karzida ou Gaesh.</p><p>Enheduana: Aqui podemos ler a assinatura da poeta como sacerdotisa. Seu</p><p>nome, ao mesmo tempo, apresenta uma transparência, pois pode ser lido</p><p>como en-he2-du7-an-na, “a En ornamento de An”, que ainda ecoa</p><p>sonoramente o nome en3-du-an-na, que tem o sentido de “canção”.</p><p>Cesto ritual: No �m das contas, Eheduana descreve aqui uma série de</p><p>deveres como alta-sacerdotisa, a saber: restauração do Gipar, a puri�cação</p><p>ou os ritos da água, a composição de hinos e a sacrifício das oferendas no</p><p>cesto de gimasab. Esse cesto ritual era usado para trazer grãos, mel e tâmaras</p><p>como oferenda de fertilidade tal como aparece na pedra que ilustra</p><p>Enheduanna; porém talvez celebrando o casamento dos deuses Bau e</p><p>Marduk, o que é um tanto incerto. Nesse sentido, ela exibe os poderes</p><p>fertilidade, fecundidade e boa colheita, ao mesmo tempo em que atua como</p><p>mediadora política e representa a união do divino e do humano, sendo</p><p>capaz de unir Suméria e Acade, norte e sul, duas línguas, dois templos, dois</p><p>cultos, duas deusas (Ishtar e Inana).</p><p>Ala da lepra: Talvez uma designação factual de um leprosário, tudo indica</p><p>que ela esteja o situando ou tratando como metáfora, para as regiões secas e</p><p>desérticas onde teria de morar, a julgar pela tempestade de areia e o pó que</p><p>aparecem depois.</p><p>Babélico: Liberdade minha na tradução, por deliberado equívoco com ba-</p><p>ab-tùma, que não designa babel (uma das designações da Babilônia), apesar</p><p>da sonoridade; mas ao mesmo tempo verte o sentido de “confusão” presente</p><p>em šu-ùh-a.</p><p>Parte 10 — O apelo a Nana-Suen</p><p>Lugalane: Mesmo sendo lido como um nome pessoal para o rei de Uruk e</p><p>rebelde contra as forças acádias de Sargon, pai de Enheduana, podemos</p><p>entrever em lugal-an-ne é o título honorí�co de “rei/senhor”, que servia</p><p>genericamente para regentes locais. O fundamental nesta Parte e na seguinte</p><p>é perceber como Enheduana acusa Lugalane de perverter as práticas rituais</p><p>(a purga lustral, a estrutura do Eana, a possível troca de Enheduana por</p><p>outra sacerdotisa, que seria talvez sua própria cunhada) e mesmo a</p><p>insinuação de algum tipo de abuso sexual.</p><p>Essa mulher: Interpreto nesta passagem difícil, a partir sequência do texto,</p><p>que a mulher é a própria deusa em seu papel vingativo.</p><p>Parte 11 — Acusação a Lugalane</p><p>Ashimbabar: Também conhecido como Sin-Ashimbabar, esse é um epíteto</p><p>de Nana, deus-lua, com o sentido de “o que se ergue reluzente”.</p><p>Eana: Era um templo sumério na cidade de Uruk, servia como morada de</p><p>Inana e An, mencionado também no épico de Gilgamesh., na primeira</p><p>tabuleta. O nome pode ser lido como “casa de An” ou “casa do céu”.</p><p>An-Rei: Minha tradução para an lu gu-la-ta, sendo que lugal designa o rei,</p><p>ou senhor, como epíteto de An. Aqui mantenho a edição de Hallo e Dijk.</p><p>Divina vaca selvagem: Mais uma vez é a própria Inana, como a “vaca</p><p>selvagem” na Parte 7, porém aqui com o logograma que indica sua</p><p>divindade, que traduzi pelo termo “divina”.</p><p>Parte 12 — A maldição de Uruk</p><p>Nana: Deus sumério da lua e da adivinhação, �lho de Enlil e Ninlil. É o pai</p><p>de Inana. Enheduana pede aqui sua ajuda para punir Uruk, apenas no</p><p>contexto especí�co da rebelião guiada por Lugalane.</p><p>Parte 13 — A acusação a Nana</p><p>“A tua cara”: Ao longo de toda esta Parte, Enheduana acusa o deus Nana de</p><p>abandono, seja por ela ter perdido seu posto de sacerdotisa En, seja pelo</p><p>exílio e a queda das forças de Sargon. Ao receber a adaga e espada e a</p><p>informação de que é “a tua cara”, poderíamos entrever uma sugestão de</p><p>suicídio, quando tudo está perdido, ou então uma aproximação de dervixes</p><p>andrógenos (kur-gar-ra) que costumavam ser associados a armas brancas</p><p>(gíri-ba-da-ra). Só resta a Enheduana se voltar para as forças de Inana.</p><p>Parte 14 — O apelo a Inana</p><p>Ushumgalana: Também conhecido como Tamuz, ou Dumuzi, é o deus</p><p>sumério da fertilidade e do pastoreio. O nome poderia ser lido como “mãe-</p><p>dragão do céu”, aparentemente. Ele aparece como um dos maridos de Inana.</p><p>O termo ushumgal, com o sentido de dragão, aparece no primeiro verso da</p><p>Parte 3, como comparação de Inana.</p><p>Sênior senhora: Essa expressão, no original, ecoa o nome de Ningal (cf.</p><p>próxima nota), mais uma vez aproximando Inana de sua mãe, como na parte</p><p>8.</p><p>Ningal: Seu nome ao pé da letra é “grande senhora”, é a deusa da cana entre</p><p>os sumérios, �lha de Enki e Nigikurga e esposa de Nana e mãe de Inana.</p><p>(quando Inana aparece como �lha de An, elas são irmãos) Seu culto se dava</p><p>sobretudo em Ur. Ela era vinculada à oniromancia, e seu divã ritual é o “leito</p><p>�oral” do verso anterior. Com isso, podemos entrever que um dos papéis de</p><p>Enheduana era o de oniromante, interpretando sonhos, um papel que, no</p><p>exílio ela não pode mais cumprir, deixando as cidades desprotegidas.</p><p>Parte 15 — A exaltação de Inana</p><p>Verdadeiro cerne do hino, que justi�ca o nome moderno de “exaltação”, este</p><p>trecho opera um verdadeiro magni�cat arcaico. O resultado é que</p><p>Enheduana aqui celebra os me (“dons”) como atributos de Inana, e não de</p><p>seu pai Nana, e assim dá à deusa um status similar ao de An. É curioso notar</p><p>que os dois primeiros versos são idênticos em todas as versões, ao passo que</p><p>o resto da lista varia de ordem e tamanho em cada tabuleta que nos chegou.</p><p>PARTES 16-18: CONCLUSÃO</p><p>Parte 16 — A composição deste hino</p><p>Toda esta descrição da inspiração e composição poética é praticamente</p><p>única em todo o corpus da literatura suméria e acádia.</p><p>Colhi carvões: Para colocar no incensório e compor como um ritual.</p><p>Eshdamkug: Trata-se do templo dedicado a Inana em Guirsu (ou Girsu),</p><p>e2-eš2-dam-kug, que eu poderia também transliterar por E-eshdam-kug com</p><p>o sentido de “templo-taverna”, ou “templo-bordel”, ao que se deve lembrar</p><p>que Inana é uma deusa vinculada ao sexo e à fertilidade, assim também é</p><p>descrita num leito sexual, assim como a canção é parida por Enheduana.</p><p>Repetirá o cantor: Sugere que Enheduana compõe seu hino pensando já na</p><p>iterabilidade poética, além de indicar registros rituais peculiares, que separa</p><p>compositora de performer, bem como o tempo (noturno) da composição</p><p>inspirada do tempo (diurno) da sua realização pública sagrada. Essa dupla</p><p>temporalidade é reinserida no hino a cada performance.</p><p>Com teu marido preso || com teu rebento preso: parece estranho, depois de</p><p>paci�car a deusa e fazer seu hino, ainda mencionar motivos de ira; isso leva</p><p>Hallo & Dijk a sugerirem que aqui Enheduana retoma os temas tradicionais</p><p>dos lamentos de Inana, já fora do tema central do nosso hino.</p><p>Parte 17 — A restauração de Enheduana</p><p>Os destinos de Enheduana e Inana estão ligados nessa restauração, como</p><p>seria de se esperar, assim o aceite da prece e do hino é também a retomada</p><p>do culto e da posição de En para Enheduana. Seria possível até ler nesta</p><p>parte uma guinada do eu-lírico, que deixaria de ser a nossa poeta</p><p>compositora e seria assumido por uma voz externa ao drama explicitado;</p><p>esse problema de uma guinada à terceira pessoa poderia nos levar a</p><p>perguntar se os versos �nais não seriam uma interpolação. Sem qualquer</p><p>idealismo autoral quanto à Enheduana real, sou da opinião de que a poética</p><p>ritual permite deslocamentos</p>