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Sumário
Capa
Créditos
Folha de Rosto
Sobre a estupidez
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Sobre a estupidez
Uber die dummheit
Robert Musil
© Editora Âyiné, 3ª edição, 2020
Tradução: Simone Pereira Gonçalves
Preparação: Maria Fernanda Alvares
Revisão: Daniela Lima, Ana Martini
Projeto gráfico: Luísa Rabello
Imagem de capa: Julia Geiser
Conversão para ePub: Cumbuca Studio
ISBN 978-65-86683-32-5
Editora Âyiné
Belo Horizonte, Veneza
Direção editorial: Pedro Fonseca
Assistência editorial: Érika Nogueira Vieira, Luísa Rabello
Produção editorial: André Bezamat, Rita Davis
Conselho editorial: Lucas Mendes de Freitas,
Simone Cristoforetti, Zuane Fabbris
Praça Carlos Chagas, 49 – 2º andar
30170-140 Belo Horizonte – mg
+55 31 3291-4164
www.ayine.com.br
info@ayine.com.br
Sobre a estupidez1
Senhoras e senhores, quem se aventura hoje a falar sobre a
estupidez de certo modo corre o risco de arruinar-se, o que pode ser
interpretado como presunção e até como distúrbio do
desenvolvimento contemporâneo. Eu mesmo já escrevi há muitos
anos: «Se a estupidez não fosse tão parecida, a ponto de confundir-
se, com o progresso, o talento, a esperança ou a melhora, ninguém
desejaria ser estúpido». Isso aconteceu em 1931 e ninguém ousará
duvidar que o mundo desde então viu outros progressos e melhoras!
Assim surge aos poucos uma da questão inevitável: o que é afinal a
estupidez?
Tampouco eu gostaria de desconsiderar que, como escritor,
conheço a estupidez há muito tempo, poderia inclusive dizer que em
algumas ocasiões tivemos uma relação de colegas. E na literatura,
tão logo um homem abre os olhos, se vê confrontado com uma
resistência quase indescritível que parece poder assumir todas as
formas: seja pessoal, como a digna de um professor de história da
literatura que, habituado a mirar distâncias incontroláveis, erra
desastrosamente o alvo quando se trata da atualidade; seja essa
impalpável, geral, como a da transformação do juízo crítico no
comercial, desde que Deus, em sua bondade de difícil compreensão
para nós, concedeu a linguagem humana também aos produtores
de filmes sonoros. Já descrevi em outra ocasião fenômenos desse
tipo; mas não é necessário repetir ou completar o que já disse (e, ao
que parece, seria mesmo impossível diante da tendência à
colossalidade de tudo hoje em dia): basta salientar como conclusão
segura que a constituição inartística de um povo não se manifesta
somente em épocas ruins e de modo rude, mas também em épocas
boas e sob todas as formas, sendo a opressão e a proibição
diferentes apenas no que se refere ao nível de doutorados honoris
causa, nomeações acadêmicas e distribuição de prêmios.
Sempre supus que essa resistência pluriforme à arte e ao espírito
mais refinado, por parte de um povo que se vangloria de seu amor à
arte, não fosse mais do que estupidez, de um gênero particular
talvez, uma estupidez artística ou afetiva especial, mas que se
manifesta de modo que o que denominamos estética também seja
uma estupidez estética; e hoje também não vejo muitos motivos
para manter distância dessa concepção. É claro que não se pode
atribuir somente à estupidez todas as deformações de um desejo
tão humano como a arte; é preciso, especialmente como as
experiências dos últimos anos ensinaram, atribuí-las também a tipos
distintos de falta de caráter. Mas não se pode objetar que o conceito
de estupidez não tem nada a procurar aqui porque se refere ao
intelecto e não aos sentimentos, e a arte, ao contrário, depende
destes. Isso seria um erro. Mesmo o prazer estético é julgamento e
sentimento. E peço-lhes permissão não só para evocar a grande
fórmula, que retirei de Kant, o filósofo que fala de uma faculdade de
juízo estético e de um juízo de gosto, como também para repetir as
antinomias a que isso leva:
Tese: o juízo do gosto não se fundamenta em conceitos, pois do
contrário seria possível discuti-lo (decidir mediante
demonstrações).
Antítese: o juízo do gosto fundamenta-se em conceitos, pois do
contrário não seria possível nem sequer discuti-lo (aspirar a uma
concordância).
Gostaria de perguntar agora: será que um juízo análogo com uma
antinomia análoga não estaria na base da política e naturalmente da
confusão da vida? E não se pode, onde o juízo e a razão se sentem
em casa, esperar também por suas irmãs e irmãzinhas, as formas
distintas da estupidez? Sobre sua importância não há mais nada a
acrescentar. Erasmo de Rotterdam escreveu em sua encantadora e
ainda hoje atual obra, Elogio da loucura, que sem algumas
estupidezes o ser humano nem sequer viria ao mundo.
***
O domínio violento e vergonhoso que a estupidez exerce sobre
nós é revelado por muitas pessoas que se mostram surpresas de
maneira amável e conspiratória quando alguém, em quem confiam,
pretende evocar esse monstro pelo nome. No início, não só fiz essa
experiência comigo mesmo, como também descobri seu valor
histórico, quando, à procura de predecessores no estudo da
estupidez, me chamou a atenção que poucos se tornaram
conhecidos; os sábios aparentemente preferem escrever sobre a
sabedoria. Recebi de um amigo erudito a publicação de uma
palestra proferida em 1866 por J.E. Erdmann, discípulo de Hegel e
professor em Halle. Em sua palestra intitulada «Sobre a estupidez»,
o autor revela que, ao ser anunciado, o tema foi acolhido com
risadas; e, desde que sei que isso pode acontecer até mesmo com
um hegeliano, estou convencido de que há uma peculiaridade na
atitude das pessoas em relação a quem quer que discorre sobre a
estupidez, e me sinto muito inseguro , convencido de ter desafiado
um poder psicológico violento e profundamente ambivalente.
Por isso, prefiro admitir de saída minha fraqueza em relação à
estupidez: não sei o que ela é. Não descobri nenhuma teoria sobre
a estupidez pela qual eu pudesse me aventurar a salvar o mundo;
não encontrei sequer uma investigação dentro dos limites da
prudência científica que a tivesse como objeto ou simplesmente um
consenso sobre seu conceito que resultasse bem ou mal do
tratamento de fenômenos análogos. Talvez se deva a meu
desconhecimento, mas é mais provável que a pergunta «o que é a
estupidez?» corresponda tão pouco aos hábitos do pensamento de
nossa época quanto às perguntas sobre o que é o bem, a beleza ou
a eletricidade. Apesar disso, não deixa de ser atraente o desejo de
definir esse conceito e de responder da maneira mais sóbria
possível a uma questão preliminar a toda vida. Assim, um dia
também não resisti à questão do que «realmente» é a estupidez, e
não sob que forma ela se apresenta, o que estaria mais em
consonância com minha obrigação e competência profissionais. E
como eu não queria a ajuda da literatura e nem podia fazer isso
cientificamente, tentei da maneira mais ingênua, como é sempre
óbvio nesses casos, rastrear o uso da palavra «estúpido» e de sua
família, procurando os exemplos mais comuns e tentando juntar o
que acabava de escrever. Infelizmente esse procedimento tem em si
sempre algo de caça à borboleta branca da couve: perseguimos o
que acreditamos observar por um tempo, sem perder de vista, mas
outras borboletas muito parecidas se aproximam vindo de outras
direções por caminhos idênticos, em zigue-zague, e logo não
sabemos mais se a borboleta que estamos vendo continua sendo a
mesma. Dessa forma, os exemplos da família estupidez nem
sempre deixam distinguir se de fato estão relacionados
originariamente ou apenas de modo superficial, e se não é só de
relance que dirigimos a atenção de um a outro, e não será nada fácil
conciliá-los todos sob um mesmo teto que pertença de fato a um
estúpido.
***
Sob tais circunstâncias é quase indiferente como se começa.
Vamos então começar de algum modo, e o melhor é que seja logo
pela dificuldade inicial que consiste no seguinte: quem quiser falar
sobre a estupidez ou presenciar esse diálogo de maneira proveitosa
deverá pressupor que não é estúpido; e, portanto, demonstrar que
se acha inteligente, embora, em geral, fazer isso seja considerado
sinal de estupidez. Se queremos responder à pergunta «Porque é
estúpido demonstrar que se é inteligente?», impõe-se uma resposta
que parece ter a poeira da mobília dos antepassados, pois ela
entende ser mais prudente não demonstrar que se é inteligente. É
provável que essa prudência profundamente desconfiada, não mais
compreensível hoje, provenha de relações em que para o mais fraco
era com efeito mais inteligente não ser considerado inteligente: sua
inteligência podia representar uma ameaça para o mais forte. A
estupidez, ao contrário, faz a desconfiança adormecer; ela
«desarma», como se diz ainda. Vestígios dessa antiga esperteza,
dessa estupidez astuta, encontram-se em relações de dependência,
em que as forças estão distribuídas de modo tão desigual que o
mais fraco procura sua salvação se fazendo de mais tolo do que é;
por exemplo, encontram-se no dito caráter finório, na relação entre
criados e senhores de linguagem culta, na relação entre soldado e
superior, entre aluno e professor e entre pais e filhos. Aquele que
tem o poder se irrita menos com o fraco que não pode do que com o
fraco que não quer. A estupidez o leva ao «desespero», ou seja,
inconfundivelmente a um estado de fraqueza!
Assim, concorda-se da maneira mais acertada que a inteligência
o «exaspera». Ela é bem apreciada na pessoa subserviente, desde
que esteja ligada a uma devoção incondicional. No momento em
que lhe falta esse certificado de boa conduta e torna-se incerto se
ela serve de vantagem para os senhores, será muito menos
denominada inteligência do que imodéstia, insolência ou
deslealdade; e resulta com frequência em uma relação na qual, para
o dominador, contradiz pelo menos a honra e a autoridade, ainda
que não ameace realmente o dominador no tocante a sua
segurança. Na educação isso se manifesta no fato de um aluno
talentoso e insubordinado ser tratado com mais severidade do que
aquele que se opõe por obtusidade. Na moral isso levou à ideia de
que uma vontade é tanto mais perniciosa quanto maior for a
consciência contra a qual ela age. Até a própria justiça não ficou
completamente imune a esse preconceito pessoal e na maioria das
vezes condena com especial desprezo a execução inteligente de um
crime «refinado» e «a sangue-frio». E na política qualquer um pode
encontrar exemplos onde quer que vá buscá-los.
Mas a estupidez — é preciso objetar — também pode irritar e não
acalma de modo algum sob todas as circunstâncias. Em suma,
normalmente provoca impaciência, mas em casos excepcionais
pode provocar inclusive crueldade; e os excessos abomináveis
dessa crueldade mórbida, comumente denominada sadismo,
mostram com frequência pessoas estúpidas no papel da vítima. É
evidente que isso provém de que é muito mais fácil elas caírem nas
mãos dos cruéis do que outros; mas parece ter uma relação com o
fato de sua passividade perceptível por todos os lados aguçar
ferozmente a imaginação como o cheiro de sangue aguça a fera,
seduzindo essas pessoas para um deserto aonde a crueldade vai
simplesmente «longe demais» por não encontrar barreiras em mais
nada. Existe um traço de sofrimento naquele que inflige sofrimento,
uma fraqueza embutida em sua rudeza; e, embora a privilegiada
indignação da empatia ofendida raramente deixe isso transparecer,
tanto em relação à crueldade quanto em relação ao amor existem
sempre dois que combinam entre si. Abordar isso seria importante o
suficiente em uma humanidade tão atormentada como a atual por
sua «covarde crueldade contra os mais fracos» (segundo a
descrição mais usual do conceito de sadismo); mas, levando em
conta o contexto traçado de acordo com sua linha principal e na
coleta rápida dos primeiros exemplos, inclusive o que já foi dito deve
ser considerado divagação e assim não há mais nada para
aproveitar, a não ser que pode ser estúpido gabar-se de inteligente,
embora também nem sempre seja inteligente ganhar fama de
estúpido. Aqui é impossível generalizar; ou a única generalização
admissível deveria ser a de que o mais inteligente neste mundo é se
fazer notar o mínimo possível. Na verdade, muitas vezes se chegou
a essa conclusão sobre toda sabedoria. Contudo, mais frequente
ainda é fazer apenas um uso parcial, simbólico e representativo
dessa tímida conclusão, e isso nos leva a considerar o âmbito das
regras da modéstia e das regras mais abrangentes, sem ser
necessário abandonar completamente a área da estupidez e da
inteligência.
Tanto por medo de parecer estúpido como por medo de ferir o
decoro, muitas pessoas até se consideram inteligentes, mas não o
dizem. E, quando se sentem forçadas a falar desse assunto,
parafraseiam-no falando de si: «Eu não sou mais estúpido do que os
outros». Mais comum ainda é fazer a observação da maneira mais
indiferente e objetiva possível: «Posso dizer que possuo uma
inteligência normal». E às vezes aparece velada a convicção da
própria inteligência em expressões como: «Não deixo que me façam
de tolo!». E mais digno de nota ainda é que não só o ser humano
individual, secretamente em seus pensamentos, se vê como
bastante inteligente e bem-dotado, mas também o ser humano com
atuação histórica, que tão logo tenha o poder para tal, diz ou manda
dizer que ele é infinitamente inteligente, iluminado, digno, sublime,
clemente, escolhido por Deus, predestinado para a história. E gosta
de dizer o mesmo de outros quando se sente iluminado por seu
reflexo. Em títulos e formas de tratamento como majestade,
eminência, excelência, magnificência, prelado e afins, isso se
conservou fossilizado e quase inconsciente. Mas se revela de novo
com toda a vitalidade quando o ser humano de hoje fala como
massa. Sobretudo, existe certa classe média baixa do espírito e da
alma que carece de pudor diante da necessidade de presunção,
assim que aparece em defesa do partido, da nação, da seita ou do
movimento artístico e pode falar nós no lugar de eu.
Sob uma reserva compreensível que se pode deixar de lado,
essa presunção pode também ser chamada de vaidade, e de fato a
alma de muitos povos e Estados é hoje dominada por sentimentos
entre os quais a vaidade ocupa inegavelmente o primeiríssimo lugar;
entre a estupidez e a vaidade sempre existiu uma relação íntima, o
que talvez nos dê uma pista. Por isso, uma pessoa estúpida parece
normalmente vaidosa, porque lhe falta a inteligência para escondê-
la; mas na verdade não seria preciso, pois o parentesco entre
estupidez e vaidade é imediato: uma pessoa vaidosa causa a
impressão de desempenhar menos do que poderia; ela se
assemelha a uma máquina que deixa escapar vapor por uma parte
mal vedada. O antigo ditado: «Estupidez e orgulho crescem do
mesmo galho» não quer dizer outra coisa, assim como a expressão
de que a vaidade «cega». Com efeito associamos ao conceito de
vaidade a expectativa de um desempenho baixo, pois a palavra
«vaidoso» diz em seu significado principal quase a mesma coisa do
que «em vão». E essa diminuição do desempenho também se
espera ali onde na verdade se trata de desempenho: vaidade e
talento tampouco estão raramente ligados entre si; mas então temos
a impressão de que se poderia desempenhar mais se o vaidoso não
impedisse. Essa ideia tenaz e persistente da diminuição do
desempenho será depois constatada como a ideia mais comum que
temos de estupidez.
Sabe-se que o comportamento vaidoso não é evitado por ser
estúpido, mas principalmente por ser um distúrbio do decoro.
«Autoelogio fede», diz um provérbio, e significa que a bazófia, falar
muito de si e vangloriar-se, não só é considerada imprudente como
também inconveniente. Se não me engano, as exigências da
decência, que nesse caso deixam de ser cumpridas, fazem parte
dos diversos tipos de regra do recato e do distanciamento,
destinados a preservar a própria presunção, embora se
pressuponha que esta não seja menor no outro do que em si
mesmo. Essas regras de distanciamento dirigem-se também contra
o uso de palavras diretas, regulamentam o modo de cumprimentar-
se e a forma de tratamento, não permitem que se contradiga o outro
sem desculpar-se, ou que uma carta comece com a palavra Eu, em
suma, exigem a observação dealgumas regras para não sermos
«inconvenientes» uns com os outros. Sua tarefa é equilibrar e
aplainar o trato entre as pessoas, facilitar o amor ao próximo e o
amor-próprio e ao mesmo tempo manter uma temperatura média da
inter-relação humana. Essas normas se encontram em toda
sociedade, mais nas primitivas do que nas altamente civilizadas, e
até o animal sem linguagem as conhece, o que se pode ler
facilmente em muitos de seus rituais. De acordo com essas regras
do distanciamento não só é proibido elogiar-se a si mesmo, mas
também os outros de maneira inconveniente. Dizer para alguém que
ele é um gênio ou um santo seria quase tão terrível quanto afirmar a
mesma coisa de si próprio; e, segundo a sensibilidade atual, sujar a
própria cara e descabelar-se não seria melhor do que xingar outra
pessoa. Satisfazemo-nos com as observações de que não somos
mais estúpidos ou piores do que os outros, como mencionamos
acima.
Evidentemente, em situações de ordem são os comentários
desmedidos e depravados que atraem. Como falamos antes da
vaidade em que povos e par- tidos se vangloriam no que se refere à
inspiração, é preciso acrescentar que a maioria que vive sem
inibições — exatamente como o megalômano individual em seus
sonhos acordados — não monopolizou apenas a sabedoria, mas
também a virtude, e se sente corajosa, nobre, invencível, devota e
bela; e que existe uma tendência no mundo de as pessoas, quando
aparecem em grande número, se permitirem tudo que lhes é
proibido como indivíduos. Esses privilégios de um «nós» que se
tornou maiúsculo dão exatamente a impressão de que a crescente
civilização e a domesticação do indivíduo são compensadas por um
crescimento proporcional da descivilização das nações, dos Estados
e das alianças ideológicas; e obviamente nisso se revela um
distúrbio afetivo, um distúrbio do equilíbrio afetivo, que na verdade
precede à oposição entre Eu e Nós e também a qualquer avaliação
moral. Mas isso ainda é — é preciso questionar-se — estupidez?
Tem de algum modo uma relação com a estupidez?
Prezados ouvintes! Ninguém duvidará disso! Mas, antes de
responder, vamos tomar fôlego com um exemplo que não é
desagradável. Todos nós, principalmente nós homens, e
especialmente todos os escritores conhecidos, conhecemos a
senhora que gostaria de confiar-nos o romance de sua vida e cuja
alma parecia sempre estar em circunstâncias interessantes sem que
tivesse alcançado o sucesso que, ao contrário, espera de nós. Essa
senhora é estúpida? Alguma coisa da profusão de impressões do
que vem a seguir costuma nos sussurrar: sim, ela é! Mas tanto a
cortesia quanto a justiça exigem que se admita que ela não o é
completamente e sempre. Ela fala muito de si e fala muito. Ela faz
julgamentos precisos e sobre qualquer coisa. É vaidosa e imodesta.
Ensina-nos o tempo todo. Costuma não estar bem na vida amorosa
e sua vida tampouco é bem-sucedida.
Mas não há outros tipos de pessoas a quem tudo ou a maioria
disso corresponde? Falar muito de si é, por exemplo, mau hábito
dos egoístas, dos inquietos ou até mesmo de um tipo de
melancólico. E todas essas características correspondem
principalmente à juventude; entre seus fenômenos do crescimento,
faz parte falar muito de si, ser vai- dosa, querer sempre ensinar, não
estar com a vida em ordem, em suma, apresentar exatamente os
mesmos desvios de inteligência e decência, sem que por isso seja
estúpida ou mais estúpida do que é natural para quem não se
tornou ainda inteligente!
Senhoras e senhores! Os julgamentos da vida cotidiana e de sua
antropologia costumam acertar, mas também erram. Eles não se
originaram pela vontade de uma doutrina correta, apenas
apresentam movi- mentos de aprovação e defesa do espírito. O
exemplo só ensina que algo pode mas não precisa ser estúpido, que
o significado muda conforme o contexto em que aparece e que a
estupidez está estreitamente entrelaçada com outras coisas sem
que em qualquer lugar sobressaia o fio que desmancha o tecido de
uma só vez. Até mesmo a genialidade e a estupidez estão
indissoluvelmente relacionadas, e, como é proibido falar demais e
falar demais de si própria sob pena de ser considerada estúpida, a
humanidade contorna essa ameaça de modo particular: através do
poeta. Este pode narrar, em nome do humanitarismo, que saboreou
algo ou que o Sol está no céu, pode revelar-se, contar segredos,
fazer confissões, dar satisfação pessoal sem considerações (é o
que, pelo menos, muitos poetas fazem!); e é como se tudo se
apresentasse como uma exceção em que a humanidade se
permitisse algo que em geral se proibiria. Desse modo, ela fala
incessantemente de si mesma e através do poeta já contou milhões
de vezes as mesmas histórias e experiências, só variando as
circunstâncias sem que lhe aparecesse algum progresso ou ganho
de sentido: será que pelo uso que faz de sua poesia e pela
adaptação da poesia a esse uso, ela não deveria ser suspeita de
estupidez? Quanto a mim, não considero isso totalmente impossível.
Entre as áreas de aplicação da estupidez e da imoralidade —
hoje não se entende mais esta palavra como se costumava
entendê-la antigamente em sentido lato, o qual é quase o mesmo
que falta de espírito, mas não ausência de inteligência —, existe de
qualquer modo uma identidade e uma diferença intrincadas. E essa
pertença mútua é sem dúvida parecida, como J.E. Erdmann, em um
trecho importante de sua palestra citada acima, expressou com as
seguintes palavras que a rudeza é «a prática da estupidez».
Segundo ele, «palavras […] não são o único fenômeno de um
estado de espírito. O mesmo se manifesta em atos, a estupidez
também. Não só ser estúpido, mas agir estupidamente, cometer
estupidezes» — ou seja, a prática da estupidez — «ou a estupidez
em ação denominamos rudeza». Essa proveitosa afirmação não
quer dizer nada além de que a estupidez é uma falha de
sentimentos — porque é isso a rudeza. E isso remete diretamente
ao sentido de um «distúrbio afetivo» e «distúrbio do equilíbrio
afetivo», o que já insinuamos acima sem que encontrássemos uma
explicação. Também a explicação contida nas palavras de Erdmann
não pode corresponder completamente à verdade, pois
independente de sua explicação visar apenas os indivíduos rudes e
impolidos, em contraste com a «educação», e não abranger de
modo algum todas as formas de aplicação da estupidez, a rudeza
não é somente uma estupidez, e a estupidez não é somente uma
rudeza, ficando ainda algo a esclarecer na relação entre afeto e
inteligência, quando estes se unificam na «estupidez aplicada», que
de início é melhor que seja novamente enfatizada por meio de
exemplos.
***
A fim de destacar os contornos do conceito de estupidez, é
necessário, sobretudo, afrouxar o julgamento de que a estupidez é
simplesmente ou principalmente uma falta de inteligência; como já
mencionamos, a ideia mais generalizada que temos dela parece ser
a da falha nas mais diversas atividades, um defeito físico e
intelectual em geral. Para isso existe em nossos regionalismos
linguísticos um exemplo expressivo, a denominação da surdez, ou
seja, de um defeito físico, com a palavra derisch ou terisch, que
significa törisch [surdo], e é semelhante à palavra töricht [estúpido].
Acusações de estupidez como essa são utilizadas popularmente
também em outros casos. Quando um competidor esportivo diminui
seu desempenho no momento decisivo ou comete um erro, diz: «Eu
estava abobado!» ou «Não sei onde estava com a cabeça!»,
embora a participação da cabeça na natação ou no boxe seja
considerada limitada. Também entre garotos e membros de
associações esportivas, aquele que é desajeitado será tachado de
estúpido, mesmo que seja um Hölderlin. Há relações comerciais em
que uma pessoa é considerada estúpida por não ser astuta ou
inescrupulosa. No total, são essas estupidezes relacionadas aos
antigos tipos de inteligência que nos dias de hoje são publicamente
reverenciadas; e, se não me engano, na antiguidade germânica não
apenas as ideias morais, mas os conceitos de mestria, experiência e
sabedoria, ou seja, os conceitos intelectuais,também estavam
relacionados à guerra e à luta. Portanto, toda inteligência tem sua
estupidez, e até mesmo a psicologia animal descobriu em seus
testes de inteligência que «todo tipo de desempenho» pode ser
atribuído a um «tipo de estupidez».
Portanto, se quiséssemos procurar o conceito mais genérico
possível de inteligência, o resultado dessa comparação seria o
conceito de competência, e tudo que fosse incompetente poderia
ser também chamado de estúpido; na realidade é assim quando
uma competência pertencente a uma estupidez não é denominada
literalmente inteligência. A competência que estará em primeiro
plano e preencherá o conceito de inteligência e estupidez com seu
conteúdo em determinado momento vai depender da forma de vida.
Em épocas de insegurança pessoal, a astúcia, a violência, o sentido
aguçado e a competência física caracterizarão o conceito de
inteligência. Em épocas caracterizadas por uma concepção de vida
mais espiritual — com a necessária reserva, pode-se dizer burguesa
—, eles serão substituídos pelo trabalho intelectual. Dito de forma
mais correta, a atividade superior do espírito deveria fazê-lo, mas no
decurso das coisas resultou a predominância do desempenho
racional, que se encontra escrito na cara vazia, sob a testa rígida da
humanidade atarefada; e assim resulta que hoje a inteligência e a
estupidez, como se não pudessem ser de outro modo, são
relacionadas apenas ao intelecto e ao grau de sua competência,
embora isso seja parcial em maior ou menor grau.
A concepção de incompetência ligada originalmente à palavra
«estúpido» — tanto no significado da incompetência para tudo
quanto no significado de qualquer incompetência específica — tem
também uma consequência bem impressionante, ou seja, de que
«estúpido» e «estupidez», por significarem a incompetência geral,
poderiam representar ocasionalmente toda palavra que deva
designar uma incompetência específica. Esse é um dos motivos
pelos quais a acusação mútua de estupidez é bastante difundida
hoje em dia. (Em outro contexto, essa é também uma das razões
pelas quais é tão difícil delimitar o conceito, como mostraram nossos
exemplos.) Vejamos as anotações que se encontram nas margens
dos romances mais ambiciosos que permaneceram por muito tempo
no quase anonimato das bibliotecas circulantes; aqui onde o leitor
se encontra a sós com o poeta, seu julgamento se expressa
preferencialmente com a palavra «estúpido!» ou com seus
equivalentes, «imbecil!», «absurdo!», «estupidez indizível!» e afins.
E também são essas as primeiras palavras de indignação quando o
ser humano aparece em massa em apresentações de teatro ou
exposições de quadros e se escandaliza com o artista. Devemos
também pensar aqui na palavra kitsch, preferida a qualquer outra
como primeiro julgamento mesmo entre artistas; sem que, ao menos
pelo que eu saiba, se possa definir seu conceito e esclarecer seu
uso, exceto pelo verbo verkitschen, que na linguagem coloquial quer
dizer «vender barato» ou «vender com prejuízo». Kitsch tem,
portanto, o significado de mercadoria de preço demasiado baixo ou
mercadoria barata, e acredito que esse sentido obviamente abstrato
está sempre subjacente à palavra quando ela é utilizada
inconscientemente de modo correto.
Visto que o sentido de mercadoria barata, tralha, conforme o
significado ligado a ela de mercadoria sem valor, imprestável, está
contido na palavra «incompetência» e em «imprestabilidade», e
forma a base para o uso da palavra «estúpido», não é exagero
afirmar que tendemos a qualificar de «meio estúpido» tudo o que
não nos convém — especialmente quando, independente disso,
fazemos de conta que apreciamos algo como elevado ou estético.
E, quanto à definição desse «meio» estúpido, é significativo que o
uso das expressões de estupidez esteja intimamente impregnado de
um segundo uso que engloba as expressões também imperfeitas
«ordinário» e «sórdido», o que dirige nosso olhar para o que já
observamos, para o destino comum dos conceitos de «estúpido» e
«indecente». Pois não só kitsch, a expressão estética de origem
intelectual, mas também as palavras morais como «imundo!»,
«repugnante!», «sórdido!», «doentio!», «insolente!», são críticas de
arte e julgamentos sobre a vida essencialmente subdesenvolvidos.
Mas talvez essas expressões contenham também um esforço
intelectual, uma diferença de significado, ainda que sejam usadas
indistintamente; por último, são substituídas pela expressão meio
perplexa «Que ordinário!», a qual substitui tudo e pode compartilhar
o domínio do mundo com a expressão «Que estupidez!». Pois é
evidente que ambas as palavras podem substituir ocasionalmente
todas as outras, porque «estúpido» adquiriu o sentido de
incompetência geral e «ordinário» o de atentado à moral; e, se
ficamos à escuta do que as pessoas falam hoje umas das outras,
parece que o autorretrato da humanidade, que se origina
descontroladamente a partir de fotografias em grupo recíprocas,
compõe-se apenas de variações dessas duas palavras de cores
feias e indistintas.
Talvez valha a pena pensar sobre isso. Sem dúvida, as duas
apresentam o nível mais baixo de um julgamento ainda não
amadurecido, uma crítica total- mente sem estrutura, que sente que
algo está errado, mas que não sabe dizer o quê. O uso dessas
palavras é a mais simples e pior expressão de rejeição que se pode
encontrar, ela é o começo de uma refutação e também seu fim. Isso
tem algo de «curto-circuito» em si e é mais compreensível quando
se considera que «estúpido» e «ordinário», seja qual for seu
significado, também são palavras de insulto. Pois é sabido que o
significado de termos insultantes se baseia menos em seu conteúdo
do que em seu uso; e muitos, entre nós, podem gostar de burros,
mas ficarão ofendidos se forem chamados assim. O xingamento não
representa a imagem que evoca, mas sim uma mistura de ideias,
sentimentos e intenções que ele não pode expressar nem de longe,
mas apenas assinalar. Diga-se de passagem, o xingamento tem
algo em comum com as palavras da moda e as palavras
estrangeiras, por isso estas parecem indispensáveis, mesmo que
sejam completamente substituíveis. Por esse motivo, há algo bem
excitante que coincide com sua intenção, mas não com seu
conteúdo; talvez isso fique mais claro nas palavras dos jovens para
provocar e importunar: uma criança pode dizer «Busch!» ou
«Moritz!»2 e com isso enfurecer a outra devido a relações secretas.
O que se pode dizer de insultos, provocações, palavras da moda
e palavras estrangeiras também se pode dizer de palavras
engraçadas, slogans, palavras-chave e palavras de amor. E o que
todas elas têm em comum, embora sejam tão diferentes, é o fato de
estarem a serviço de um afeto, e justamente sua imprecisão e
inobjetividade no uso lhes permitem suplantar campos de palavras
mais certeiras, mais objetivas e mais corretas. Às vezes, é evidente
que existe uma necessidade disso na vida e não devemos negar
seu valor; mas sem dúvida é estúpido o que acontece nesses casos,
ou seja, trilhar os mesmos caminhos da estupidez. A maneira mais
clara de estudar essa relação é através de um exemplo exagerado
de aturdimento, através do pânico. Quando algo tem efeito muito
forte sobre alguém, seja um susto ou uma pressão psíquica
persistente, pode acontecer que esse alguém de repente «perca a
cabeça». Ele pode começar a berrar, assim como uma criança, pode
sair correndo «às cegas» de um perigo ou também lançar-se às
cegas ao perigo, pode ser acometido de uma tendência explosiva à
destruição, ao xingamento ou à lamentação. Em suma, em vez de
agir objetivamente, o que sua situação requereria, cometerá uma
abundância de atos que são aparentemente sempre e, com muita
frequência, de fato inúteis e contraproducentes. Conhece-se melhor
esse tipo de oposição através do «terror pânico»; mas, se não se
entende a palavra em sentido estrito, pode-se falar também de
pânicos de raiva, de cobiça e inclusive de ternura, e, sempre que um
estado de excitação se manifesta de forma tão intensa, cega, sem
sentido e irrefreável. O pânico de coragem, que sediferencia
daquele do medo simplesmente pelo sentido invertido do efeito, já
foi observado há muito tempo por um homem tão genial quanto
corajoso.
O que acontece, quando se entra em pânico, é considerado
psicologicamente uma interrupção da inteligência e, em geral, de
uma disposição mais elevada do espírito, em cujo lugar aparece um
antigo mecanismo psíquico; mas deve-se acrescentar que com a
paralisia e o estrangulamento do intelecto nesses casos não há
apenas um declínio rumo ao ato instintivo, mas uma passagem por
esse estado até o instinto de extrema necessidade e uma forma de
agir bem aflita. Esse modo de agir tem a forma de confusão
completa, não tem método e está aparentemente abandonado pela
razão e por todo instinto de salvação; mas seu plano inconsciente é
substituir a qualidade dos atos por sua quantidade, e sua astúcia
nada modesta baseia-se na probabilidade de que entre cem
tentativas às cegas se encontre um bilhete premiado. Uma pessoa
que perde a cabeça, um inseto que bate tanto tempo contra a janela
quase fechada até «lançar-se» à liberdade por casualidade através
da parte que ficou aberta, em sua confusão, não faz nada além do
que a técnica bélica faz com reflexão calculada quando «cobre» o
alvo com uma disparada de tiros ou com tiros dispersos, sim,
quando usa um obus ou uma granada.
Em outras palavras, significa substituir uma ação com um objetivo
preciso por uma ação maciça, e nada é tão humano quanto
substituir a natureza das palavras ou das ações por sua quantidade.
Ora, no uso de palavras indistintas há muita semelhança com o uso
de muitas palavras, pois quanto mais indistinta for uma palavra
maior será a abrangência daquilo a que ela se refere; e o mesmo
vale para a inobjetividade. Se esses modos de falar são estúpidos,
através deles a estupidez terá parentesco com o estado de pânico,
e também o uso desmedido dessa acusação e de seus similares
não estará longe da tentativa de salvação psíquica com métodos
arcaicos, primitivos e, como se pode dizer com razão, patológicos. E
com efeito pode-se reconhecer no emprego correto da acusação,
segundo a qual algo é realmente estúpido ou ordinário, não só uma
interrupção da inteligência, mas também a tendência cega à
destruição ou à fuga desprovida de sentido. Essas palavras não são
apenas xingamentos, mas representam um acesso de xingamentos.
Quando somente através delas uma pessoa consegue expressar
algo, ela está próxima do ato de violência. Voltando aos exemplos
mencionados acima, nesses casos, quadros são atacados a guarda-
chuvadas (e, ainda por cima, em vez de quem os pintou), livros são
lançados por terra como se desse modo pudessem ser
desenvenenados. Mas também existe uma pressão debilitante que
precede esse ato de violência que supostamente deveria liberá-la:
quase se asfixia com a raiva; «nenhuma palavra basta», a não ser
as mais genéricas e mais pobres de sentido; «fica-se sem
palavras», «precisa-se de ar». Esse é o grau de falta de linguagem,
falta de reflexão que antecede a explosão. Significa um estado
grave de insuficiência e por fim a explosão será em geral introduzida
com as palavras profundamente inteligíveis, que «algo se tornou
demasiado estúpido». Mas esse algo é si próprio. Em épocas em
que se valoriza muito o grande e resoluto dinamismo, é necessário
lembrar-se daquilo que lhe é tão semelhante a ponto de se confundir
com ele.
***
Senhoras e senhores, hoje em dia se fala muitas vezes de uma
crise de confiança no humanitarismo, uma crise da confiança a qual
se tinha até agora no sentido de humanidade. A crise também
poderia ser denominada pânico, o qual está a ponto de substituir a
segurança, não nos permitindo conduzir nossas questões em
liberdade e de forma racional. E não podemos nos enganar de que
esses dois conceitos éticos e também ético-estéticos, liberdade e
razão, legados da idade clássica do cosmopolitismo alemão como
um emblema da dignidade humana, já não gozavam de boa saúde
desde meados do século XIX ou logo depois. Aos poucos «caíram
em desuso», não se sabia mais o que fazer com eles, e se foram
encolhidos foi mais em razão do êxito dos amigos do que o dos
adversários. Também não devemos nos enganar de que nós, ou os
que vierem depois, não voltaremos a essas ideias inalteradas.
Nossa tarefa, assim como o sentido das provas impostas ao
espírito, será muito mais realizar a transição para o novo, sempre
necessária e muito desejada, com o mínimo possível de perdas.
Essa é a tarefa raramente compreendida, dolorosa e cheia de
esperança de todas as gerações. E quando se perdeu o que deve
ocorrer no justo momento, ou seja, a transição para as ideias que se
transformam, mas que conservam em parte o passado, mais
necessárias ainda nessa atividade são ideias auxiliares do que é
verdadeiro, racional, importante, inteligente e também, no espelho
invertido, do que é estúpido. Mas qual conceito ou conceito parcial
de estupidez se pode formar quando os conceitos de inteligência e
sabedoria oscilam? Eu gostaria apenas de dar um pequeno exemplo
do quanto as opiniões mudam com o tempo. Em um manual de
psiquiatria muito conhecido antigamente, apresentava-se a pergunta
«O que é justiça?» e a resposta «Quando o outro é punido!» como
um caso de imbecilidade, embora elas formem hoje a base de uma
opinião jurídica muito debatida. Receio que mesmo as explanações
mais modestas não possam ser concluídas sem ao menos indicar
um núcleo independente de mudanças temporais. Disso resultam
ainda algumas questões e observações.
Não tenho o direito de apresentar-me como psicólogo e
tampouco quero fazê-lo, mas dar uma olhada rápida nessa ciência é
a primeira coisa da qual se pode esperar ajuda em nosso caso. A
antiga psicologia fazia distinção entre sensação, vontade,
sentimento e imaginação ou inteligência, e para ela estava claro que
estupidez era um grau inferior de inteligência. Mas a psicologia atual
reduziu a importância da distinção elementar entre as capacidades
psíquicas, reconheceu a dependência mútua e a interpenetração
entre diversos desempenhos psíquicos e, com isso, tornou mais
difícil responder à pergunta sobre o que significa estupidez
psicologicamente. É claro que também, de acordo com a concepção
atual, existe uma independência relativa do desempenho intelectual,
mas, mesmo nas situações de maior serenidade, a atenção, a
compreensão, a memória, quase tudo que faz parte do intelecto é
provavelmente dependente das características afetivas. Além disso,
existe tanto na experiência comovente quanto na reflexiva uma
segunda interpenetração entre inteligência e afeto que é
praticamente indissolúvel. E essa dificuldade em separar intelecto e
sentimento no conceito de inteligência se reflete evidentemente no
conceito de estupidez. Quando, por exemplo, o pensamento de
pessoas com debilidade mental é descrito pela psicologia médica
com palavras como pobre, impreciso, incapaz de abstração,
confuso, lento, distraído, superficial, parcial, inflexível, complicado,
com excesso de mobilidade, desconcentrado, pode-se reconhecer
facilmente que essas características indicam, em parte, intelecto,
em parte, sentimento. Então, podemos dizer: estupidez e
inteligência dependem tanto do intelecto quanto do sentimento; se
um ou outro predomina, por exemplo, se na imbecilidade a fraqueza
de inteligência está «em primeiro plano» ou a debilidade do
sentimento para alguns renomados representantes do rigorismo
moral, pode-se deixar essa questão para os especialistas, enquanto
nós leigos nos viramos mais livremente.
Na vida cotidiana se entende «pessoa estúpida» como aquela
que é «um pouco fraca da cabeça». Além disso, há os mais distintos
desvios mentais e psíquicos, pelos quais mesmo uma inteligência
inata ilesa pode ser estorvada, dificultada e enganada, o que enfim
pode desembocar em algo para o qual a linguagem dispõe
novamente apenas da palavra «estupidez». No fundo essa palavra
abrange dois tipos muito diferentes: uma estupidez sincera e
simples e outra que, um pouco paradoxalmente, é até mesmo um
sinal de inteligência. Aprimeira se baseia antes em uma fraqueza
do intelecto, a última antes em um intelecto que é fraco unicamente
em relação a alguma coisa, e essa é de longe a mais perigosa.
A estupidez sincera é de difícil compreensão, de raciocínio lento.
É pobre de ideias, de palavras e desajeitada em seu uso. Prefere as
coisas banais, porque assimila melhor através de sua repetição
frequente, e ao captar algo não tende a soltá-lo facilmente, a deixar
que o analisem ou a interpretá-lo ela mesma. É cheia de vida. Por
um lado, é com frequência imprecisa em seu raciocínio e é fácil que
todos os seus pensamentos paralisem diante de novas
experiências, mas em compensação se apoia de preferência na
experiência sensorial que pode contar nos dedos. Em suma, é a
querida «clara estupidez», e se não fosse às vezes também crédula,
confusa, e ao mesmo tempo não tivesse tanta dificuldade de
aprender a ponto de levar alguém ao desespero, seria um fenômeno
completamente gracioso.
Não posso abrir mão de ilustrar esse fenômeno com alguns
exemplos que o mostram também por outros lados e os quais retirei
do Manual de psiquiatria de Bleuler. O que reduziríamos à fórmula
«médico à cabeceira do doente» um imbecil expressa com as
palavras: «Um homem segura a mão de outro, que está na cama,
além disso há uma freira». É o modo de expressar-se da pintura de
um primitivo. Uma jovem pouco esperta considera uma piada de
mau gosto quando se exige dela que deposite suas economias num
banco para render juros. Ninguém seria tão estúpido de ainda por
cima pagar para guardar dinheiro, responde. Aí se expressa uma
mentalidade cavalheiresca, uma relação com o dinheiro que, em
minha juventude, ainda se via ocasionalmente em pessoas idosas
distintas. Num terceiro imbecil considera-se um sintoma de
imbecilidade quando afirma que uma moeda de dois marcos vale
menos que uma de um marco e duas de cinquenta centavos, pois
assim fundamenta: seria preciso trocá-la e se receberia muito pouco
de volta. Espero não ser o único imbecil neste salão a aprovar
profundamente essa teoria dos valores nas pessoas que não
prestam a atenção ao trocar dinheiro!
Mas, voltando à relação com a arte, a estupidez singela é com
frequência na verdade artística. Em vez de revidar a uma palavra de
estímulo com outra palavra, como era comum antigamente em
alguns experimentos, ela logo responde com frases completas, e,
diga-se o que quiser, essas frases têm algo de poético em si! Repito
citando algumas dessas respostas:
Acender: o padeiro acende a lenha.
Inverno: compõe-se de neve.
Pai: ele me empurrou uma vez escada abaixo.
Casamento: serve para se divertir.
Jardim: no jardim sempre faz bom tempo.
Religião: quando se vai à igreja
Quem foi Wilhelm Tell: ele foi encenado na floresta; com
mulheres e crianças fantasiadas.
Quem foi São Pedro: ele cantou três vezes.
A ingenuidade e a grande concretude dessas respostas, a
substituição de ideias mais elevadas pela narração de uma história
simples, pela importância de coisas supérfluas conferidas a essa
narração, pela narração de circunstâncias e de coisas
suplementares, depois novamente a condensação abreviadora
como no exemplo de São Pedro, essas são práticas ancestrais da
poesia. E, embora eu acredite que um excesso disso — o que está
bem na moda — aproxima o poeta do idiota, não se deve, no
entanto, ignorar seu conteúdo poético. Explica-se assim que o
estúpido pode ser representado na poesia com uma alegria peculiar
em seu espírito.
Com verdadeira e demasiada frequência, essa estupidez singela
contrasta violentamente com uma ambiciosa e superior. Esta não é
tanto uma falta de inteligência, porém muito mais sua falha, porque
tem pretensão de desempenhar o que não lhe compete. Ela pode
ter em si todas as características ruins de um intelecto fraco, mas
tem também todas que são causadas por qualquer afetividade em
desequilíbrio, disforme, fraca, com mobilidade irregular, em suma,
toda aquela que se desvia da saúde. Como não existem
afetividades «padronizadas», nesse desvio se expressa, mais
precisamente, uma interação insuficiente entre as parcialidades do
sentimento e um intelecto que não basta para refreá-las. Essa
estupidez superior é a verdadeira doença da educação
(esclarecendo um mal-entendido, ela significa deseducação,
educação deformada ou errada, desproporção entre matéria e força
da educação) e descrevê-la é quase uma tarefa infinda. Ela atinge
até a mais alta intelectualidade; pois, se a autêntica estupidez é uma
artista silenciosa, a inteligente é a que colabora com a agitação da
vida intelectual, mas de preferência em sua instabilidade e
esterilidade. Há muitos anos escrevi sobre ela: «Não há nenhum
pensamento importante que a estupidez não saiba aplicar, ela se
move em todas as direções e pode vestir todas as roupas da
verdade. A verdade, ao contrário, tem apenas uma roupa em
qualquer ocasião, um só caminho, e sempre está em
desvantagem». A estupidez a que nos referimos aqui não é uma
doença mental, porém a doença mais perigosa da mente, perigosa
para a própria vida.
Decerto cada um de nós deveria rastreá-la dentro de si mesmo e
não somente reconhecê-la em suas irrupções históricas. Mas como
reconhecê-la? E que estigma inconfundível lhe impor?! A psiquiatria
utiliza hoje, como traço distintivo principal para os casos que lhe
concernem, a incapacidade de orientar-se na vida, a falha diante de
todas as tarefas que a vida impõe, ou repentinamente diante de uma
tarefa para a qual não se espera nenhuma falha. Também na
psicologia experimental, que tem principalmente a ver com a pessoa
saudável, a estupidez é definida de modo análogo. «Denominamos
um comportamento estúpido aquele que não executa um
desempenho para o qual existem todas as condições, com exceção
das pessoais», escreve um conhecido representante de uma das
mais novas escolas dessa ciência. Esse traço distintivo da
capacidade de comportar-se objetivamente, portanto da
competência, não deixa nada a desejar aos «casos» claramente
clínicos ou de estações de experimentos com macacos, mas os
«casos» que andam à solta requerem alguns acréscimos porque a
«execução do desempenho» certa ou errada nem sempre é tão
evidente.
Em primeiro lugar, toda a profunda ambiguidade da inteligência e
da estupidez já se encontra na capacidade de uma pessoa
habilitada para a vida se comportar como sempre se comportaria,
sob determinadas circunstâncias, pois o comportamento
«adequado», «competente», pode utilizar uma coisa para a
vantagem pessoal ou, ao contrário, estar a seu serviço, e quem faz
uma coisa costuma considerar estúpido aquele que faz outra coisa.
(Mas, do ponto de vista médico, estúpido é na verdade somente
quem não pode nem uma coisa nem outra.) Em segundo lugar, não
se pode negar que um comportamento não objetivo, até mesmo
inadequado, pode ser com frequência necessário, pois existe um
parentesco entre objetividade e impessoalidade, subjetividade e
inobjetividade, e, por mais que uma subjetividade fácil seja ridícula,
é impossível viver e pensar igualmente um comportamento objetivo.
Equilibrar as duas coisas consiste em uma das dificuldades
principais de nossa cultura. E por fim se pode ainda objetar que no
dia a dia ninguém se comporta de modo tão inteligente quanto
deveria, que cada um de nós é estúpido, se não sempre, pelo
menos de vez em quando. Também se deve diferenciar entre
fracasso e incapacidade, entre estupidez ocasional ou funcional e
constante ou constitucional, entre erro e insensatez. Essa é uma
das questões mais importantes, porque as condições de vida atuais
são assim tão pouco claras, tão difíceis, tão confusas que as
estupidezes ocasionais do indivíduo logo podem tornar-se
facilmente uma estupidez constitucional coletiva.
Isso nos leva a considerar, para além do âmbito das
características pessoais, a ideia de uma sociedade afetada por
defeitos mentais. Não se pode transferir para as sociedades o que
acontece na realidade psicológica do indivíduo, tampouco doenças
psíquicas e estupidez, mas hoje pode-se falar diversas vezes de
uma «imitaçãosocial de defeitos psíquicos». Os exemplos a esse
respeito são bem gritantes.
***
Com esses acréscimos, ultrapassamos, é claro, a área da
explicação psicológica. Esta nos ensina que uma reflexão inteligente
tem determinadas características, como clareza, precisão, riqueza,
dissolubilidade apesar da rigidez e muitas outras que poderiam ser
enumeradas, e que essas características são, em parte, inatas, em
parte, adquiridas junto com os conheci- mentos que acumulamos,
como uma espécie de habilidade de pensar. Bom senso e cabeça
esperta significam bem a mesma coisa. Aqui é preciso superar
apenas a preguiça e a disposição natural, o que também se pode
treinar, e a expressão estranha «esporte mental» não exprime nada
mal o que realmente importa.
A estupidez «inteligente», ao contrário, tem muito mais o espírito
e a afetividade — entenda-se com isso não um simples punhado de
sentimentos — como adversários do que o intelecto. Visto que
pensamentos e sentimentos se movem juntos, mas também porque
neles se exprime a mesma pessoa, alguns conceitos como
estreiteza, amplitude, agilidade, simplicidade e fidelidade podem ser
aplicados tanto ao pensamento quanto ao sentimento. Se a relação
resultante disso não estiver ainda muito clara, ela basta, no entanto,
para poder afirmar que o intelecto também faz parte da afetividade e
que nossos sentimentos não estão desvinculados da inteligência e
da estupidez. Contra essa estupidez deve-se atuar por meio de
exemplos e crítica.
A opinião aqui exposta desvia-se da opinião comum que não é de
modo algum errada, mas extremamente parcial, segundo a qual a
afetividade profunda e autêntica não precisa do intelecto que
inclusive a tornaria impura A verdade é que, em pessoas simples,
algumas características valiosas como fidelidade, constância,
pureza de sentimento e afins aparecem não misturadas, mas
somente porque a concorrência das outras é fraca. Vimos um caso-
limite disso acima, na imagem da imbecilidade amável e
conveniente. Longe de mim querer rebaixar a índole bondosa e
íntegra com essas explicações — sua ausência tem inclusive uma
considerável participação na estupidez superior! —, porém, mais
importante hoje é antepor o conceito de significativo à índole
bondosa e íntegra, o que, além do mais, menciono apenas de
maneira utópica.
O significativo associa a verdade, que podemos perceber nele, às
características do sentimento contidas em nossa confiança em algo
novo, numa compreensão, numa decisão, numa persistência
revigorada em alguma coisa que tenha teor psíquico e espiritual e
«exija» certo comportamento de nós ou dos outros. Assim pode-se
dizer, e é o mais importante em relação à estupidez, que o
significativo é acessível pelo lado racional e afetivo da crítica. O
significativo é também o contrário da estupidez e da rudeza; e a
desproporção geral na qual atualmente os afetos esmagam a razão,
em vez de inspirá-la, dilui o conceito de significado. Já falamos o
suficiente, talvez mais do que devemos. Mas, se tivéssemos que
acrescentar alguma coisa, seria o seguinte: com tudo que foi dito
não existe ainda nenhum sinal seguro de reconhecimento e
diferenciação do significativo e não poderia existir nem de leve um
sinal totalmente suficiente. Mas justamente isso nos leva ao último e
mais importante meio contra a estupidez: a modéstia.
Todos nós somos estúpidos de vez em quando; às vezes
precisamos agir às cegas ou meio às cegas, caso contrário, o
mundo se deteria. Se alguém quisesse derivar dos perigos da
estupidez a regra: «Abstenha-se de julgar e decidir tudo o que você
não entende o bastante!», ficaríamos paralisados. Mas essa
situação, da qual se faz tanto alarde, é análoga àquela que há muito
tempo nos é familiar na área do intelecto. Pois, visto que nosso
conhecimento e nossa sabedoria são incompletos, somos obrigados
a emitir juízos prematuros em todas as ciências, mas com esforço
aprendemos a manter esse erro dentro dos limites conhecidos e
ocasionalmente corrigi-los. Através disso, a correção reaparece em
nosso agir. Na verdade, nada impede que se transfira para outra
área esse julgamento e agir exatos, ao mesmo tempo, orgulhosos e
humildes, e acredito que a intenção «Aja tão bem quanto puder e
tão mal quanto for necessário, e tenha consciência dos limites de
erro de seus atos!» seria já meio caminho andado para um modo de
vida promissor.
Mas com essas alusões já estou há um tempo no fim de minhas
explanações, que, como preveni no início, devem constituir apenas
um estudo preliminar. E declaro ter chegado ao limite, sem
condições de ir mais além. Um passo a mais e já estaríamos fora da
área da estupidez, que mesmo teoricamente é mais variada, e
passaríamos para o reino da sabedoria, uma região desértica e
geralmente evitada.
1 Conferência proferida em Viena em 2 e 17 de março de 1937 a
convite da Österreichische Werkbund [Federação Austríaca do
Trabalho].
2 Referência à obra Max und Moritz, de Wilhelm Busch (1865), que
narra as travessuras de dois meninos endiabrados. [N. T.]
Biblioteca antagonista
1 Isaiah Berlin – Uma mensagem para o século xxi
2 Joseph Brodsky – Sobre o exílio
3 E.M. Cioran – Sobre a França
4 Jonathan Swift – Instruções para os criados
5 Paul Valéry – Maus pensamentos & outros
6 Daniele Giglioli – Crítica da vítima
7 Gertrude Stein – Picasso
8 Michael Oakeshott – Conservadorismo
9 Simone Weil – Pela supressão dos partidos políticos
10 Robert Musil – Sobre a estupidez
11 Alfonso Berardinelli – Direita e esquerda na literatura
12 Joseph Roth – Judeus Errantes
13 Leopardi – Pensamentos
14 Marina Tsvetáeva – O poeta e o tempo
15 Proust – Contra Sainte-Beuve
16 George Steiner – Aqueles que queimam livros
17 Hofmannsthal – As palavras não são deste mundo
18 Joseph Roth – Viagem na Rússia
19 Elsa Morante – Pró ou contra a bomba atômica
20 Stig Dagerman – A política do impossível
21 Massimo Cacciari, Paolo Prodi – Ocidente sem utopias
22 Roger Scruton – Confissões de um herético
23 David Van Reybrouck – Contra as eleições
24 V.S. Naipaul – Ler e escrever
25 Donatella Di Cesare – Terror e Modernidade
26 W.L. Tochman – Como se você comesse uma pedra
27 Michela Murgia – Instruções para se tornar um fascista
28 Marina Garcés – Novo esclarecimento radical
29 Ian McEwan – Blues do fim dos tempos
30 E.M. Cioran – Caderno de Talamanca
31 Paolo Giordano – No contágio
32 Francesca Borri – Que paraíso é esse?
33 Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolação...
34 Donatella Di Cesare – Vírus soberano? A asfixia capitalista
Reflexões Sobre as Causas da Liberdade e
da Opressão Social
Weil, Simone
9786586683264
150 p�ginas
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Aos vinte e cinco anos, em 1934, Simone Weil
escreveu essas "reflexões", um verdadeiro talismã que
deveria proteger qualquer pessoa que fosse forçada a
atravessar a imensa massa de mentiras que circunda
a palavra "sociedade". Como sempre nas palavras
mais óbvias, se esconde uma realidade secreta e
imponente, que age sobre nós ainda que ninguém a
reconheça. Weil foi a primeiro a dizer com perfeita
clareza que o homem se emancipou da servidão à
natureza apenas para se submeter a uma opressão
ainda mais sombria, ainda mais caprichosa e
incontrolável: aquela exercida pela própria sociedade,
pois "parece que o homem não consegue aliviar o jugo
das necessidades naturais sem agravar na mesma
proporção o jugo da opressão social, como pelo jogo
de um misterioso equilíbrio". Partindo dessa intuição
fundamental, com uma clara virtude argumentativa,
uma série de raciocínios revelam tanto nos
http://www.mynextread.de/redirect/Amazon+%28BR%29/3036000/9786586683325/9786586683264/3e82a79d404eee83ba6eec9b85b95b61
mecanismos de poder quanto nos de produção e das
trocas as várias faces de uma mesma idolatria. Escrito
quando Hitler estava no poder havia alguns meses e
quando Stalin era reverenciado pela maioria da
intelligentsia como o "pai" de uma nova humanidade,
esse texto não hesita por um instante em descrever o
horror daquele período. Mas, como sempre em Weil, o
olhar é tão preciso exatamente porque vai alémdo
presente imediato e percebe uma imagem inabalável
do bem, em relação à qual julga o mundo. é um olhar
que nos permite "fugir do contágio da loucura e da
vertigem coletiva, reatando, por conta própria, por
cima do ídolo social, o pacto original do espírito com o
universo".
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Estrangeiros residentes
Cesare, Donatella Di
9786586683479
360 p�ginas
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Na paisagem política contemporânea, em que ainda
há o domínio do Estado-nação, o migrante é o
indesejado, sempre acusado de estar fora de seu
lugar, de ocupar o lugar de outro. No entanto, não
existe nenhum direito sobre o território que possa
justificar a política soberanista que fundamenta a
recusa de sua entrada. Dentro de uma ética que
aspira à justiça global, Donatella Di Cesare reflete –
com clareza de conceitos e um estilo por vezes
narrativo – sobre o significado último do migrar, dando
provas também aqui de saber chegar direto ao centro
da questão. Habitar e migrar não se contrapõem,
como crê o senso comum, ainda preso aos velhos
fantasmas do jus sanguinis e do jus soli. Em cada
migrante deve-se reconhecer, em vez disso, a figura
do "estrangeiro residente", o verdadeiro protagonista
do livro. Atenas, Roma, Jerusalém são os modelos de
cidade examinados, em um esplêndido afresco, para
colocar em questão o tema crucial e atual da
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cidadania. Na nova era dos muros, em um mundo
repleto de campos de internamento para estrangeiros,
que a Europa pretende manter à sua porta, Di Cesare
defende uma política da hospitalidade, apartada da
ideia de residência, e propõe um novo sentido do
coabitar.
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A epidemia do novo coronavírus candidata-se a ser a
emergência de saúde mais importante de nossa
época. Ela nos revela a complexidade do mundo em
que habitamos, de suas lógicas sociais, políticas,
econômicas, interpessoais e psíquicas. O que
estamos atravessando requer um esforço de
imaginação que, em um regime normal, não estamos
acostumados a realizar. No contágio, somos um único
organismo, uma comunidade que abarca a totalidade
dos seres humanos. No contágio, a falta de
solidariedade é antes de tudo um defeito de
imaginação. "Não tenho medo de ficar doente. De que,
então? De tudo aquilo que o contágio pode mudar. De
descobrir que o alicerce da civilização que conheço é
um castelo de cartas. Tenho medo da anulação, mas
também de seu oposto: que o medo passe sem deixar
para trás uma mudança."
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O liberalismo em retirada
Luce, Edward
9786586683455
250 p�ginas
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Em O liberalismo em retirada, Edward Luce apresenta
um instigante ponto acerca do enfraquecimento da
hegemonia ocidental e da crise do liberalismo
democrático – de que Donald Trump e seus pares
europeus não são sua causa, mas seu sintoma. Luce
argumenta que estamos em uma trajetória
preocupante, fruto da ignorância do que foi necessário
para a construção do Ocidente, da arrogância em
relação aos perdedores da sociedade, e da
complacência acerca da durabilidade do sistema –
atitudes que vêm emergindo desde a queda do muro
de Berlin, tratada pelo Ocidente como um triunfo
absoluto sobre o Oriente. Não podemos seguir em
frente sem um diagnóstico claro do que deu errado.
Luce contrasta a democracia ocidental e seus ideais
econômicos, que se assentam no pressuposto de um
progresso linear, com visões mais cínicas de força
econômica – simbolizadas pela queda no século XIX e
atual ascensão das economias chinesas e indianas –
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e com o alvorecer de uma nova era multipolar.
Combinando reportagem de campo com um inteligente
apanhado da vasta literatura já disponível, Luce
oferece uma projeção detalhada das consequências
da presidência de Trump e uma análise inovadora de
como aqueles que creem nos valores do iluminismo
devem defendê-los dos múltiplos ataques que virão
nos próximos anos.
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Contra o ódio
Emcke, Carolin
9786586683172
196 p�ginas
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Racismo, fanatismo, sentimento antidemocrático. Em
um espaço público cada vez mais polarizado, impõe-
se um pensamento que só permite duvidar das
opiniões dos outros, nunca das próprias. Carolin
emcke – uma das intelectuais europeias mais
interessantes de sua geração – opõe a essa
homologação a riqueza de uma sociedade aberta a
diferentes vozes: uma democracia se realiza
plenamente apenas com a vontade de defender o
pluralismo e a coragem de se opor ao ódio. Com
esses anticorpos, podemos derrotar os fanáticos
religiosos e nacionalistas, que fabricam consenso,
mas têm medo da diversidade e do conhecimento, as
armas mais poderosas que temos. "emcke demonstra
que o diálogo é possível, e seu livro nos lembra que é
uma tarefa que devemos encarar". Fragmento da
decisão do júri do prêmio da paz dos livreiros alemães.
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	Créditos
	Folha de Rosto
	Sobre a estupidez

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