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Trecho de antologia de poesia romântica brasileira: reúne poemas (fragmentos) de Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu, acompanhados de vocabulário, notas explicativas e breves comentários biográficos e sobre obras.

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120 –
P
O
R
T
U
G
U
ÊS
Ergueu-se... vem da noite a vagabunda3
Sem xale, sem camisa e sem mantilha,
Vem nua e bela procurar amantes...
É doida por amor da noite a filha.
(...)
Falando ao coração... que nota aérea
Deste céu, destas águas se desata?
Canta assim algum gênio adormecido
Das ondas mortas no lençol de prata?
Minh’ alma tenebrosa4 se entristece,
É muda como sala mortuária...
Deito-me só e triste sem ter fome,
Vendo na mesa a ceia solitária.
Ó lua, ó lua bela dos amores,
Se tu és moça e tens um peito amigo,
Não me deixes assim dormir solteiro,
À meia-noite vem cear5 comigo!
(Álvares de Azevedo)
Vocabulário e Notas
1 – Embuçar: cobrir. 2 – Carapuça: gorro.
3 – Vagabundo: errante. 4 – Tenebroso:
sombrio. 5 – Cear: jantar.
• A Noite na Taverna, escrito à
maneira dos contos fantásticos de
Hoffmann, traz à tona o mundo insólito
da inconsciência e da em briaguez
(incesto, envenenamen to, traição, ne -
crofilia, duelo etc.), através das recor -
dações de alguns jovens embria ga dos,
numa taverna, em noi tes de tem pes -
tade, entre mundanas bêba das,
adormecidas, garrafas va zias etc.
Solfieri, Johann, Gennaro, Bertran,
Arnold e Herman resolvem, por des -
fas tio, contar casos escabrosos e ver -
dadeiros que tivessem vivido.
• Macário, de classificação pro ble -
 mática, oscila entre o teatro, o diário
íntimo e a narrativa. Satã e Penseroso
dialogam no cemitério sobre os vícios e
destinos da cidade de São Paulo, vei -
culando as ideias do próprio poeta.
• Conde Lopo e Poema do Frade
são poemas narrativos, moti va dos
diretamente pela emulação do modelo
byroniano.
� Fagundes Varela (1841-1875)
Autor, dentre outras obras, de
Vozes d’América, Cantos e Fan tasias,
Cantos do Ermo e da Cidade e An chie -
ta ou o Evangelho nas Selvas, rea li zou
uma síntese da poesia ro mântica,
versando temas que vão do india nis -
mo de Gonçalves Dias ao condorei -
rismo de Castro Alves, pas sando pela
poesia gótica, pelo sata nismo, pelo
patriotismo, pelo na tu ralismo e pela
poesia religiosa. Foi um poeta de
transição no Romantismo.
Os temas roceiros e bucó licos
(“Juvenília”, “A Roça”, “A Flor do
Maracujá”), ao lado da duali dade
cidade versus campo, natureza versus
civilização, constituem a parte mais
significativa de sua obra, sem es que -
cer o “Cântico do Calvário”, elegia
dedicada ao filho morto, obrigatória
em qualquer antologia romântica.
A ROÇA
O balanço da rede, o bom fogo
Sob um teto de humilde sapé;
A palestra, os lundus, a viola,
O cigarro, a modinha, o café;
Um robusto alazão, mais ligeiro
Do que o vento que vem do sertão,
Negras crinas, olhar de tormenta,
Pés que apenas rastejam no chão.
(...)
A FLOR DO MARACUJÁ
(...)
Por tudo o que o céu revela!
Por tudo o que a terra dá,
Eu te juro que minh’alma
De tua alma escrava está!...
Guarda contigo este emblema
Da flor do maracujá!
Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em — a —
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, Sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!
CÂNTICO DO CALVÁRIO
Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. — Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro1.
Eras a messe2 de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria,
O porvir de teu pai! Ah! no entanto,
Pomba, — varou-te a flecha do destino!
Astro, — engoliu-te o temporal do norte!
Teto, — caíste! — Crença, já não vives!
(...)
Vocabulário e Notas
1 – Pegureiro: guardador de gado; pastor.
2 – Messe: colheita.
� Casimiro de Abreu (1839-1860)
Poeta da saudade, do amor ado -
les cente, simples, espontâneo, co mu -
ni cativo; sua poesia, muito popu lar,
ainda agrada aos que pedem pou co à
poesia. Essencial mente musical,
Casimiro não tem maior com ple xi da -
de filosófica e psico ló gi ca, e sua obra,
acessível a qualquer leitor alfabeti za -
do, versa sempre as pul sões eróticas
da adolescência, oscilando entre o
amor e o medo; as saudades da infân -
cia, da família e da pátria. Opera uma
“descida de tom” em relação a Gon -
çalves Dias e a Álvares de Azevedo.
As Primaveras, reunião de suas
poesias, incluem os conhecidos
“Meus Oito Anos”, “Amor e Medo”,
“Minha Terra”, “Minha Mãe”, além da
“Canção do Exílio”, derivação imi ta tiva
do poe ma homônimo de Gonçal ves
Dias.
MEU LAR OU CANÇÃO DO EXÍLIO
Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!
Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu
[morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
Os gozos do meu lar!
(...)
AMOR E MEDO
Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
“— Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!”
Como te enganas! meu amor é chama 
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor — eu
[medo!...
(...)
MEUS OITO ANOS
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
(...)
C1_3A_VERMELHO_2021_PORT_GK.qxp 22/09/2020 19:23 Página 120

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