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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ FICHAMENTO DA OBRA "DOS DELITOS E DAS PENAS" DE CESARE BECCARIA MARINGÁ 2021 BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas. Tradução: J. Cretella Jr. e Agnes Cretella. São Paulo/SP: Editora Revista dos Tribunais, 1999. A obra, caracteriza-se como um conjunto de conceitos e ideais que Beccaria construiu sobre determinados assuntos, com ênfase na questão dos delitos e das penas. O autor inicia apontando que as leis são convenções humanas com a finalidade de possibilitar aos homens independentes uma vivência em sociedade, o autor destaca que as leis deveriam ser convencionais, elaboradas pelos homens, e que muitas vezes foram instrumentos de suas paixões, nunca sendo elaboradas de forma prudente, ou visando o bem estar da maioria. Visa que sábias foram as nações que não esperaram por revoluções, mas que criaram leis eficazes que apressaram a passagem de um tempo para o outro. Quanto ao direito de punir, o autor afirma que este pertence exclusivamente ao soberano, fundada na necessidade de defender as liberdades humanas, das usurpações particulares, cada indivíduo abdica de uma porção mínima da sua própria liberdade para garantir uma vivência em sociedade, o conjunto agregado dessas mínimas porções é que forma o direito de punir. O autor ainda afirma que as somente as leis poderiam determinar as penas para os respectivos crimes, estando a autoridade atrelada ao próprio legislador, alega ainda que a sociedade constitui um contrato de duas pontas, nas quais, ambas são obrigadas. Referente a proporção entre os delitos e as penas, Beccaria afirma que as penas devem ser colocadas em conformidade com a forma pela qual ofendem a sociedade, garantindo que haja um equilíbrio referente a punição e ao respectivo crime, conclui afirmando que o dano causado a nação é a verdadeira medida do delito para a aplicação de uma pena. No que tange a finalidade da pena, alega que o intuito das penas é unicamente o de impedir que o réu venha eventualmente a causar novos danos aos outros indivíduos da sociedade, o dissuadindo de agir. No capítulo que aborda as testemunhas, afirma se que é necessário averiguar a credibilidade da testemunha e das provas do crime, para a primeira precisa se analisar o interesse que a testemunha viria a ter com o decorrer do processo, já no caso das provas, é necessário que as mesmas sejam independentes entre si, para o caso de ocorrer falhas, não resulte em um efeito dominó, os julgamentos também devem ser públicos. Elenca se ainda no decorrer da obra, uma discussão sobre a aplicabilidade e a legitimidade da tortura, o autor acredita que a crueldade utilizada nos métodos de tortura, viola o princípio da liberdade do réu, uma vez que o mesmo ainda não foi condenado, outro ponto destacado pelo autor é o fato de que a tortura aplicada a um suposto culpado com maior tolerância a dor, resultaria em silencio, já o mesmo método aplicado a um inocente sem tolerância a dor resultaria em uma falsa confissão. “Tão pouca é a liberdade de dizer a verdade entre os espasmos e as dilacerações, quanto o era então impedir sem fraude os efeitos do fogo e da água fervente”. Referente a duração da pena, defende o autor que esta, deverá ser imposta de modo mais breve possível, desde que devidamente comprovado a culpa do réu, consequentemente a pena será mais útil e justa. O mesmo aplica-se ao processo que deverá transcorrer no menor intervalo de tempo possível. Para o autor pequenos furtos sem traços de violência devem ser punidos com pena pecuniária. Quem procura enriquecer à custa alheia deve ser privado dos próprios bens. Ainda quanto ao banimento e confisco, para o autor o primeiro é inferior a perda dos bens, devendo haver casos em que, proporcionalmente ao delito, haja a perda de todos ou de parte dos bens. Já no que se refere ao confisco coloca se a prêmio a cabeça dos fracos e faz recair sobre o inocente a pena do culpado, deixando-o na desesperada necessidade de cometer delitos. O autor ainda trata da questão das branduras da penas, alegando que a crueldade das penas não é o ponto principal de impedimento dos delitos, e sim a certeza de que haverá uma consequência, a confiabilidade de um castigo, mesmo que não tão severo, tem maior impacto na mentalidade dos delinquentes que um castigo extremamente severo, no qual, existe a possibilidade de não aplicação. É necessário apenas que “a pena produza efeito, basta que o mal que ela inflige exceda o bem que nasce do delito e, nesse excesso de mal, deve ser calculada a infalibilidade da pena e a perda do bem que o crime deveria produzir”. Aborda se ainda a questão controvérsia quanto a pena de morte, para o autor a pena de morte não é um direito, exacerbando a autoridade de punição, caracterizando uma guerra da nação contra o cidadão, reforça a ideia de que a extensão da pena é um aspecto mais relevante que sua intensidade, a pena de morte torna se um espetáculo. A pena de morte embora forte, não suprime o rápido esquecimento presente na sociedade. Para uma pena ser justa, deve conter apenas os requisitos suficientes para afastar os homens da prática de delitos. O autor traz em seu 29º capítulo a noção de prisão, destacando que a pena deve ser obrigatoriamente precedida de um delito positivado em lei, podendo apenas esta determinar os casos puníveis, as provas devem estar catalogadas em lei e não segundo o arbítrio do juiz, alega também que o homem após cumprir sua pena, não deveria ser excluído e julgado pela sociedade, também o criminosos só pode ser julgado no perante a sociedade da qual era membro e no local respectivo em que cometeu o delito, o direito de mandar punir não é de um só, mas de todos os cidadãos ou do soberano, um indivíduo pode renunciar somente à sua porção de direito, mas não anular a dos outros. No capítulo de processos e prescrições, o autor elenca que após a apresentação das provas e decidida a certeza do crime é necessário fornecer ao réu um tempo breve para sua defesa, as leis devem fixar o prazo de tempo para realizar essa defesa e também para a apresentação de provas. Quanto a prescrição dos crimes o autor afirma nos delitos menores e obscuros, a prescrição deve pôr fim à incerteza do cidadão quanto à sua sorte, sendo menos provável a inocência do réu, deverá somar-se o tempo da instrução e, sendo menores os danos da impunidade, será menor o prazo da prescrição já nos delitos mais graves, por serem mais raros, deve reduzir-se o tempo de instrução por causa da maior probabilidade de inocência do réu, devendo aumentar o prazo da prescrição. No capítulo seguinte aborda se os delitos de prova difícil alegando que é extremamente contraditório que os delitos mais cruéis ou os mais obscuros, sejam provados pelas conjecturas e pelas provas mais frágeis e equívocas. São os delitos de difícil prova, aqueles que, acolhem as presunções tirânicas, as quase-provas, as semi-provas, a exemplo a tortura sobre a pessoa do acusado, sobre as testemunhas e até mesmo sobre toda a família de um infeliz, em regra geral, em cada delito que, porventura, deva geralmente ficar impune, a pena toma-se um incentivo. “É próprio de nossa imaginação que as dificuldades, se não são intransponíveis ou demasiado grandes, relativamente à preguiça da alma de cada homem, excitam mais vivamente a mente e engrandecem o objeto”. Beccaria também aborda a questão do suicido elencando que parece ser um crime que não pode admitir pena já que não seria possível punir um corpo já morto, ou mesmo inocentes que não detém responsabilidade sobre o ato, destaca que quem teme a dor obedece às leis, mas que todas as fontes de dor se extinguem pela morte. O delito não pode ser punido nem depois nem por antecipação, segundo o autor é preciso em vez de castigar proporcionar aos cidadãos um maior bem-estar relativo de cada um, garantindo uma maior felicidade, não referente a luxos, mas sim a segurança e a liberdade. Demonstra que, se a lei que prende os súditosa seu país é inútil, também o será a lei que condena o suicídio. Sobre o tema contrabando, o autor alega que é um verdadeiro delito que prejudica toda a nação, mas cuja pena não deve ser infamante, porque, cometido, não produz infâmia na opinião pública. Ressalta que a aplicação da pena deve estar em conformidade com a gravidade do delito, e que este delito é fruto da própria lei, que dificultando o processo alfandegário cultiva um terreno propício ao contrabando, os homens sobre os quais as consequências remotas causam fraquíssimas impressões, não enxergam o dano que lhes pode causar o contrabando. Assim, muitas vezes, usufruem-lhe as vantagens apresentadas por ele, não percebendo o prejuízo que vem a causar na sociedade. No que tange aos devedores o autor afirma que precisa se distinguir o falido doloso e o inocente, para o primeiro deve se aplicar a pena dos falsários de moedas, já para o segundo garantir a livre escolha dos meios para recuperar-se, negando à terceira a liberdade de fazê-lo, e outorgando aos credores a mesma liberdade. A distinção entre pena grave e pena leve, entretanto, deve ser estabelecida pela cega e imparcial lei e não pela arbitrária e perigosa prudência dos juízes. Refere se ainda de forma sucinta aos asilos e as recompensas, o primeiro ele afirma que não se difere da impunidade, possuindo um governo e uma soberania própria que pode dar origem a revoluções, já o segundo afirma tratar se dá utilidade da recompensa, expondo todos os cidadãos como justiceiros do Estado, em vez de prevenir o delito ensejar o caos. No capítulo XXXVI o autor trata das atentivas, cúmplices e da impunidade, alegando que não é porque as leis não castiguem a intenção que o crime deixe de merecer pena, delito que comece com ação que revele o ânimo de cometê-lo, merece uma pena. O mesmo vale para os cúmplices que devem ser punidos mesmo que não sejam executores, nos casos de delação algumas nações oferecem a impunidade, mas deveriam unir a impunidade ao banimento do delator. O autor ainda aborda a questão dos interrogatórios sugestivos alegando que são aqueles que indagam sobre a espécie, e não, como deveriam, sobre o gênero, traça um paralelo com a aplicação da tortura afirmando que a dor sugerirá, ao forte, obstinado em forma de silencio e ao fraco sugerirá a confissão, para livrar-se do tormento presente, mais eficaz, nesse momento, do que a futura dor. As formalidades e o cerimonial são necessários para a administração da justiça, porque produzem impressões eficazes sobre os homens imitadores e escravos do hábito. Por fim introduz a ideia de que a pena é desnecessária quando não a dúvida que tal acusado tenha cometido tal delito, o que torna o interrogatório inútil, da mesma forma que é inútil a confissão do delito, quando outras provas justificam a condenação. Alega que existem leis com falsas ideias de utilidade, fontes de erro e de equívocos, como o caso da lei que proíbe porte de armas desarmam apenas os que não têm vocação nem determinação para os crimes, o que acarreta aos agredidos uma posição de vulnerabilidade, ao invés de diminuir o número de homicídios, aumentam-no por ser mais confiável assaltar os desarmados do que os armados. Para o autor formas de prevenir os delitos são: evitar a proibição de um número absurdo de ações; elaborar leis claras e precisas, levando da nação a defendê-las e que nenhuma parte da nação seja empregada em destruí-las. Fazer com que as leis favoreçam menos as classes dos homens do que os próprios homens. Fazer ainda com que os homens as temam, e temam apenas a elas. O autor afirma que os magistrados não devem ser corruptos, quanto mais membros, maior a fiscalização e a distribuição de poder, quanto as graças e ao perdão afirma que penas mais brandas erradicam a necessidade de clemência e perdão, ambos deveriam ser suprimidos por uma legislação perfeita em que as penas fossem brandas e o método de julgamento regular e rápido. Que as leis sejam, pois, inexoráveis, e inexoráveis sejam também seus executores, nos casos particulares, mas que o legislador seja brando, indulgente, humano. Por fim concluí que “o grau das penas deva ser relativo ao estado da própria nação”, uma nação jovem precisa de um código mais severo, uma nação envelhecida precisa de leis mais brandas e para que a pena não seja a violência de um ou de muitos contra o cidadão particular, deverá ser essencialmente pública, rápida, necessária, a mínima dentre as passíveis, nas dadas circunstâncias ocorridas, proporcional ao delito e ditada pela lei.