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Fisiopatologia da Reprodução Unidade 1 Embriologia e anatomia funcional macro e microscópica do trato genital feminino O trato genital feminino é composto por um par de ovários, tubas uterinas, útero, vagina e vulva, sabendo que cada uma dessas estruturas possui uma função específica na reprodução: os ovários são responsáveis pela produção de gametas e de hormônios sexuais femininos, principalmente o estrógeno e a progesterona; as tubas uterinas têm a função de capturar os óvulos após a ovulação; o útero é o órgão capaz de nutrir e abrigar o embrião até o seu completo desenvolvimento, além de produzir hormônios, como a prostaglandina; a vagina é um órgão que tem função tanto na cópula quanto no momento do parto; já a vulva é a parte mais externa do trato genital feminino. OVÁRIOS Nas fêmeas, os ovários têm a função de formação dos gametas e de produção dos hormônios sexuais femininos (estrógeno e progesterona). Enquanto a produção desses hormônios se inicia após a maturação sexual dos animais, o gameta feminino, ou ovócito, começa a ser produzido ainda durante a fase embrionária da fêmea, mas seu completo desenvolvimento e maturação vai acontecer apenas após a puberdade (HYTTEL; SINOWATZ; VEJLSTED, 2010). Os ovários se desenvolvem a partir das cristas gonadais, as quais se formam pela migração das células primordiais germinativas (ou gonócitos) que, no início do desenvolvimento embrionário, estão presentes próximas ao saco vitelínico. Quando essas células primordiais germinativas alcançam as cristas gonadais, elas permanecem principalmente na região cortical do que será o futuro ovário e são rodeadas pelas células foliculares, dando origem à ovogônia (DYCE, 2010; HAFEZ; HAFEZ, 2000). No início dessa fase, as ovogônias sofrem diversas multiplicações por mitose e, em seguida, começam a se dividir por meiose, originando os ovócitos primários que, ao serem rodeados pelas células foliculares, formarão os folículos primordiais (SÁNCHEZ; SMITZ, 2012). Esses, por sua vez, permanecem estacionados na prófase 1 da meiose e inativos até a fêmea atingir a puberdade, quando, com o estímulo hormonal, ocorre a maturação dos folículos, seu desenvolvimento em folículo primário, secundário e terciário e a ovulação. Representação esquemática da ovogênese dos mamíferos. (A) Representa as células foliculares, (B) representa as células germinativas primordiais e (C) representa as ovogônias. O folículo primordial é composto pelo ovócito primário rodeado pelas células foliculares. (1) Indica a mitose e (2) indica o processo de meiose. O aparecimento dos folículos primordiais acontece em momentos diferentes em cada espécie. Em bovinos, eles aparecem no terceiro mês da gestação; em suínos, próximo ao segundo mês da gestação. Em cães e gatos, entretanto, os folículos primordiais aparecem apenas após o nascimento, sendo em cães com 3 semanas de vida e gatos com 11 dias de vida. ÚTERO E TUBAS UTERINAS No período embrionário, as tubas uterinas são originadas por uma estrutura denominada ducto paramesonéfrico e tem como função capturar os óvulos liberados pelo ovário e auxiliar o transporte dos espermatozoides para que ocorra a fertilização. Anatomicamente, podemos dividir as tubas uterinas em quatro regiões: fímbrias, infundíbulo ampola e istmo. As fímbrias são as estruturas responsáveis por capturar os óvulos e, assim como o infundíbulo, possuem células ciliadas que vão auxiliar na captura e no transporte deles. É o batimento das células ciliadas em direção ao útero e a contração da tuba uterina que permitem o encontro de óvulo e espermatozoide, processo conhecido como fertilização, e impedem a implantação do embrião nessa região. É no útero que deve acontecer a implantação do embrião, por ser o órgão capaz de nutrir e acomodar o embrião até o momento do parto. Além disso, o útero também contribui para o transporte dos espermatozoides pela contração do miométrio. Outra função importante é a produção de prostaglandina, hormônio que provoca a regressão do corpo lúteo. Anatomicamente, o útero dos animais domésticos possui três regiões: cornos uterinos, corpo uterino e cérvix uterina. Essa última é uma estrutura que funciona como um esfíncter, composta por tecido conjuntivo e uma fina camada muscular, e exerce funções importantes no processo reprodutivo e durante a gestação. Segundo Hafez e Hafez (2000, tradução nossa), ela “facilita o transporte do esperma através do muco cervical até o lúmen uterino, atua como uma reserva de esperma e tem um papel na seleção de espermatozoides viáveis, prevenindo o transporte de espermatozoides não viáveis ou defeituosos”. Durante a gestação, a cérvix altera sua composição bioquímica, indicando também uma alteração na sua função nesse período, já que essas mudanças irão facilitar a sua dilatação durante o parto e permitir a produção de um muco no canal cervical, formando uma barreira e impedindo a entrada de bactérias, prevenindo, assim, infecções (HAFEZ; HAFEZ, 2000). O útero possui três camadas: o endométrio, que é a camada interna e possui glândulas que aumentam e produzem secreções conforme há uma elevação nos níveis de progesterona produzidas pelo corpo lúteo; o miométrio, que é a camada muscular do útero capaz de contrair durante o parto; e o perimétrio, camada mais externa do órgão. Assim como as tubas uterinas, o útero também é originado dos ductos paramesonéfricos, e sua morfologia depende da extensão da fusão desses ductos, que difere em cada uma das espécies. Dessa maneira, podemos classificar o útero como útero duplo, útero simples e útero bicornual. O útero duplo é encontrado em roedores e lagomorfos e “consiste em um par de tubos que se abrem separadamente dentro da vagina” (DYCE, 2010), havendo também duas cérvices uterinas para cada um dos tubos, ou seja, nesse tipo de útero quase não há fusão entre os ductos paramesonéfricos. O útero simples é aquele em que há quase a completa fusão entre os ductos paramesonéfricos, característicos das mulheres e primatas, em que há apenas uma cavidade uterina presente. A maior parte dos animais domésticos, como bovinos, caprinos, suínos e felinos, apresenta um útero bicornuado, ou seja, há apenas uma cérvix uterina que se abre para dois cornos uterinos. Nesse caso, podemos perceber que há uma fusão intermediária dos ductos paramesonéfricos. VAGINA E VULVA A vagina pode ser dividida anatomicamente em duas partes: cranial e caudal. A parte cranial é uma passagem da cérvix até o óstio uretral e, por sua vez, a parte caudal, ou vestíbulo, compreende a região do óstio uretral até a vulva. Sabe-se que a vagina exerce diferentes funções no processo reprodutivo, entre as quais podemos citar a contração que permite o transporte de espermatozoides e a dilatação que possibilita a passagem do feto durante o parto. Entre a junção da vagina cranial e o vestíbulo, temos o hímen, o qual pode ser tão proeminente em algumas vacas que impede a cópula. No vestíbulo, são encontradas glândulas vestibulares que produzem uma secreção capaz de lubrificar a vagina durante a cópula e tem um odor característico e estimulante para o macho. O clitóris também se encontra na região do vestíbulo e é composto por um tecido erétil e diversas terminações nervosas. De acordo com Dyce (2010), o clitóris é o homólogo feminino do pênis. A vulva é a parte mais externa do trato genital feminino e “os lábios correspondem aos lábios menores (internos) da anatomia humana; os lábios maiores (externos) estão suprimidos nas espécies domésticas” (DYCE, 2010). A vagina origina-se de parte do ducto paramesonéfrico e do seio urogenital, enquanto a vulva se desenvolve a partir do tubérculo urogenital e das pregas urogenitais Embriologia e anatomia funcional macro e microscópica do trato genital masculino As principais funções do sistema genital masculino são a produção, maturação,armazenamento e transporte de espermatozoides, além da produção da testosterona. São diversas estruturas que compõe o trato genital masculino e que são responsáveis por essas funções: testículo, escroto, epidídimo, ductos deferentes, glândulas sexuais acessórias, pênis e prepúcio TESTÍCULOS E ESCROTO Os testículos são estruturas ovais que têm sua origem embrionária a partir das cristas gonadais, como acontece nas fêmeas. Entre os seus principais componentes, podemos citar a túnica albugínea, que recobre o testículo, e o parênquima testicular, composto pelo mediastino testicular, rede de testículo, septos e túbulos seminíferos contorcidos. Os túbulos seminíferos contorcidos estão localizados nos lóbulos testiculares e são separados pelos septos testiculares. Cada lóbulo possui de dois a cinco túbulos que se unem na região do mediastino testicular, formando a rede do testículo. É nos túbulos seminíferos que acontece a espermatogênese, pois nas suas paredes encontramos dois tipos principais de células: as células espermatogenéticas e as células de Sertoli, “responsáveis pela regulação da espermatogênese, fornecendo os nutrientes para as células espermatogenéticas durante os diferentes estágios de desenvolvimento e a liberação de espermatozoides no lúmen do túbulo” (KÖNIG; LIEBICH, 2016). Entre esses túbulos, no tecido intersticial, estão as células de Leydig, que têm como principal função a produção da testosterona. Durante a fase embrionária, os testículos se desenvolvem na cavidade abdominal e, posteriormente, eles devem descer e ficam abrigados no escroto. A descida do testículo acontece em momentos diferentes para cada espécie doméstica e é importante para garantir que a espermatogênese, uma vez que se faz necessário que os testículos estejam em uma temperatura de 2 ºC a 4 °C abaixo da temperatura corporal (HYTTEL; SINOWATZ; VEJLSTED, 2010; KLEIN, 2014). O escroto é o envoltório do testículo e epidídimo, sendo composto por uma camada de pele, uma camada subcutânea fibromuscular (ou túnica dartos), pela fáscia espermática e pelo músculo cremaster. A pele do escroto possui receptores que são capazes de provocar a diminuição da temperatura corporal e a túnica dartos permite alterar a espessura do escroto em resposta a mudanças da temperatura ambiente (DYCE, 2010; HAFEZ; HAFEZ, 2000; KÖNIG; LIEBICH, 2016). EPIDÍDIMO E DUCTOS DEFERENTES O epidídimo é um túbulo próximo ao testículo que tem como função o armazenamento e a maturação dos espermatozoides produzidos pelos túbulos seminíferos testiculares. Ele pode ser dividido anatomicamente em três regiões: cabeça, localizada no polo superior do testículo e que se prolonga ao lado dele, formando a região conhecida por corpo e a cauda que está do epidídimo e próxima ao polo inferior do testículo (DYCE, 2010; KLEIN, 2014; KÖNIG; LIEBICH, 2016). Segundo Klein (2014), “os espermatozoides que entram na cabeça do epidídimo [...] são imóveis e incapazes de fertilizar. Somente após passar por migração e maturação na cabeça e corpo do epidídimo, os espermatozoides adquirem tanto a motilidade quanto a capacidade de fertilização”. É na cauda do epidídimo que a maior parte dos espermatozoides fica armazenado por um tempo variável (de 3 a 13 dias), de acordo com a atividade sexual dos machos. Em até 10 dias de repouso sexual, o nível máximo de capacidade de armazenamento de espermatozoides é atingido, e ejaculações diárias ou a cada dois dias reduzem a reserva deles em até 25% (DYCE, 2010; HAFEZ; HAFEZ, 2000; KLEIN, 2014; KÖNIG; LIEBICH, 2016). Na continuação do epidídimo em direção à uretra, se forma o ducto (ou canal) deferente cuja principal função é o transporte dos espermatozoides. Os ductos deferentes, junto com veias, artérias, nervo e vasos linfáticos testiculares, são envolvidos por uma camada da túnica vaginal e formam o cordão espermático A vasectomia ou deferentectomia é uma cirurgia comumente realizada em humanos para a esterilização, e que já é empregada em cães. A cirurgia consiste em fazer a ligadura dos ductos deferentes e, ao contrário da orquiectomia (procedimento que consiste na retirada dos testículos e epidídimo), ela permite que o animal continue produzindo espermatozoides, mas impede que eles saiam no fluido ejaculatório. A vantagem desse tipo de cirurgia é que o animal continua produzindo seu principal hormônio andrógeno, a testosterona Durante a fase embrionária, o epidídimo, os ductos deferentes e as glândulas acessórias têm sua origem nos ductos mesonéfricos e necessitam do estímulo hormonal da testosterona produzida pelas células de Leydig, que estão localizadas nos testículos primordiais para sua formação. GLÂNDULAS ACESSÓRIAS As glândulas acessórias são glândulas localizadas na parte pélvica da uretra e têm como função a produção de secreções, contendo frutose e citrato, que auxiliam na nutrição e transporte dos espermatozoides. Assim, no momento da ejaculação, essas secreções, conhecidas como plasma seminal, são liberadas na uretra e se misturam com as secreções produzidas no ducto deferente, formando o sêmen. Os animais domésticos apresentam quatro glândulas acessórias: ampola, glândula bulbouretral, vesícula seminal e a próstata. Essas glândulas possuem tamanhos diferentes em cada espécie, e os cães, por exemplo, apresentam apenas a ampola e a próstata, enquanto os bovinos e equinos apresentam o conjunto de quatro glândulas. PÊNIS E PREPÚCIO O pênis é o órgão copulatório dos machos por onde passa a urina e o sêmen e, em estado de repouso, é coberto por uma camada de pele denominada prepúcio. Esse órgão pode ser dividido anatomicamente em três regiões: raiz do pênis, corpo do pênis e glande do pênis. O corpo do pênis é uma estrutura cilíndrica recoberta pela túnica albugínea e preenchida pelo corpo cavernoso, estrutura que é preenchida de sangue durante a ereção e pelo corpo esponjoso, que circunda a uretra (DYCE, 2010; HAFEZ; HAFEZ, 2000; KÖNIG; LIEBICH, 2016; REECE, 2017). O corpo cavernoso pode mudar entre as diferentes espécies domésticas, permitindo classificar o pênis em dois tipos: pênis fibroelástico e pênis musculocavernoso. No pênis fibroelástico, presente em ruminantes e suínos, o corpo cavernoso possui pequenos espaços sanguíneos e, em repouso, é possível identificar a flexura sigmoide. Nesse caso, a ereção acontece principalmente quando essa flexura fica reta e não é necessário um grande volume sanguíneo. Já no pênis musculocavernoso, presente em equinos e carnívoros, os espaços sanguíneos no corpo cavernoso são maiores, e há a necessidade de um maior volume de sangue para a ereção Diferenças na estrutura do corpo cavernoso do (A) cão, que apresenta pênis musculocavernoso e do (B) touro, que apresenta pênis fibroelástico. Além das diferenças na constituição do corpo cavernoso, as espécies domésticas também apresentam pênis com características únicas (KÖNIG; LIEBICH, 2016): • No cão e no gato, a parte mais distal do corpo cavernoso forma o osso peniano; • O gato apresenta papilas queratinizadas no pênis, as quais somem quando o animal é castrado; • O porco apresenta glande em saca-rolha (a terminação do seu pênis gira em torno do seu eixo). • Em pequenos ruminantes, o processo uretral se prolonga alguns centímetros depois da glande. A Figura 10 mostra as diferenças da parte livre do pênis nas espécies domésticas e suas características: Representação esquemática da glande no touro (A), carneiro (B), porco (C), cavalo (D). Durante a vida embrionária, assim como acontece com o epidídimo, ductos deferentes e glândulas acessórias, a formação do pênis a partir dos ductos mesonéfricos e pregas urogenitais é mediada pela testosterona produzida pelas células de Leydig dos testículos primordiais. A glande do pênis se origina dos tubérculos genitais e o corpo do pênis fica preso à cavidade abdominal durante esseperíodo. O prepúcio surge a partir de células da ectoderme que circundam a parte mais distal do pênis. Posteriormente, essa placa se divide, formando uma fenda. As duas camadas de pele passam, então, a recobrir a glande, originado o prepúcio. as principais funções do testículo são: • Produção de espermatozoides • Produção da testosterona Determinação e diferenciação sexual e intersexos Ao nos referirmos às fêmeas das principais espécies de mamíferos domésticos, pensamos em animais que possuem os cromossomos XX e um trato genital composto pelos ovários, tubas uterinas, útero, cérvix e vagina. Da mesma forma, os machos são identificados como tendo cromossomos XY e testículos, epidídimo, pênis e prepúcio. Entretanto, nas fases iniciais de formação do embrião mamífero, há um período de indiferenciação sexual, ou seja, não é possível saber se o embrião é macho ou fêmea (DYCE, 2010; HYTTEL; SINOWATZ; VEJLSTED, 2010; SCHLAFER; FOSTER, 2016). De acordo com Schlafer e Foster (2016), podemos dividir a determinação sexual em 3 momentos: estabelecimento do sexo cromossômico (XX nas fêmeas e XY nos machos), que acontece na fertilização; formação do tecido gonadal embrionário (ovário nas fêmeas e testículos nos machos), que indica o sexo gonadal; e formação do trato genital (útero e vagina nas fêmeas, pênis nos machos), que estabelecem o sexo fenotípico. Assim, podemos compreender que um animal pode apresentar um fenótipo que não corresponde ao seu genótipo, pois são as diversas interações que acontecem durante o período embrionário que vão estabelecer as suas características fenotípicas. É importante, portanto, compreender como acontece a formação dos tratos genitais feminino e masculino, bem como a origem dos animais intersexo. É importante que se diferencie o conceito de genótipo e fenótipo. Quando falamos em genótipo, nos referimos aos genes presentes no cromossomo. Fenótipo é a característica observável de um indivíduo e que depende da interação do genótipo com o ambiente. Resgatamos alguns dos principais conceitos em embriologia para entender como surgem as gônadas e os ductos genitais. A figura abaixo, extraída de Garcia e Férnandez (2012), representa a fase ainda sexualmente não diferenciada do embrião com as principais estruturas que formarão o sistema genital. Na fase sexualmente indiferenciada do embrião, destacam-se três elementos que irão formar o sistema genital e que serão caminhos distintos na determinação sexual do embrião (HYTTEL; SINOWATZ; VEJLSTED, 2010; GARCIA; FERNÁNDEZ, 2012; HAFEZ; HAFEZ, 2000): • A saliência gonadal (ou crista gonadal): origina os ovários nas fêmeas e os testículos nos machos; • Os ductos mesonéfricos (ou ductos de Wolff): formam os túbulos retos, epidídimo e ducto deferente nos machos e se degeneram nas fêmeas; • Os ductos paramesonéfricos (ou ductos de Müller): geram as tubas uterinas e o útero nas fêmeas e se degeneram nos machos. De acordo com Hyttel, Sinowatz e Vejlsted (2010), essa fase de indiferenciação morfológica acontece nos embriões em tempos diferentes para cada espécie, mas sabe-se que há diferenças sutis na evolução de embriões com os cromossomos XY e XX, com a taxa de desenvolvimento dos blastocistos machos maior do que das fêmeas. DIFERENCIAÇÃO DO TRATO GENITAL FEMININO No momento da fertilização, para que haja o desenvolvimento de um indivíduo do sexo feminino, é preciso que aconteça o encontro de um espermatozoide carregando um cromossomo X com o óvulo. Essa fusão gera um indivíduo XX, que é cromossomicamente definido como fêmea. No início, o embrião não apresenta nenhuma característica morfológica que permita identificá-lo a um sexo definido, já que as mesmas estruturas estão presentes em machos e fêmeas; a gônada primitiva é, portanto, bipotente, e o futuro ovário vai se originar da região cortical dessa gônada (HYTTEL; SINOWATZ; VEJLSTED, 2010). Nos embriões XX, a ausência do gene SRY e a expressão dos genes WNT4 e DAX1, presente em ambos os sexos, mas que deve ser inibido por um gene presente no cromossomo Y, vão encaminhar as cristas gonadais a se diferenciarem para ovários Com a determinação do sexo cromossômico e gonadal, é preciso, então, que ocorra a diferenciação fenotípica entre machos e fêmeas. Na ausência do hormônio anti-mülleriano e da testosterona produzidos pelos testículos primordiais, os ductos paramesonéfricos originam o útero, tubas uterinas, vagina e vulva, e os ductos mesonéfricos regridem. Nesse momento, temos a determinação do sexo fenotípico das fêmeas. É, portanto, a ausência do cromossomo Y e não a presença de dois cromossomos X que levam o embrião a formar os órgãos sexuais femininos. DIFERENCIAÇÃO DO TRATO GENITAL MASCULINO Os machos são caracterizados cromossomicamente como tendo os cromossomos XY. Assim, para a formação dos órgãos sexuais masculinos, é necessária a presença do gene SRY contido no cromossomo Y e, segundo Hyttel, Sinowatz e Vejsteld (2010), estudos indicam que esse é o único gene necessário nesse processo. É sob a influência desse gene que as células dos cordões sexuais primitivos migram para a medula das gônadas primordiais para formar os cordões testiculares primitivos, onde os testículos vão se desenvolver (HYTTEL; SINOWATZ; VEJLSTED, 2010). A atuação do gene SRY acontece pela inibição do gene DAX1 presente em todos os indivíduos, pois impede a formação dos ovários e trato genital feminino. Nas gônadas primordiais, temos quatro tipos principais de células: células germinativas, células de sustentação, células produtoras de esteroides e células mesenquimais. Com a presença do gene SRY, as células germinativas terão uma parada no seu processo mitótico, as células de sustentação se transformarão nas células de Sertoli e as células produtoras de esteroides se transformarão nas células de Leydig (FOSTER, 2016). É com a formação dos testículos que temos a caracterização gonadal de um macho, porém ainda é preciso que haja a diferenciação dos ductos mesonéfricos nos órgãos sexuais masculinos. Para isso, é necessária a produção do hormônio anti-mülleriano e da testosterona O hormônio anti-mülleriano é produzido pelas células de Sertoli primordiais e impedem o desenvolvimento dos ductos müllerianos, também conhecidos como ductos paramesonéfricos, estimulando a sua regressão. Já a testosterona é produzida pelas células de Leydig embrionária e induz a diferenciação do ducto mesonéfrico nos órgãos do trato genital masculino: epidídimo, ductos deferentes e glândulas acessórias. DETERMINAÇÃO DE INDIVÍDUOS INTERSEXOS Como vimos anteriormente, o sexo de um embrião é definido pelo sexo cromossomal, sexo gonadal e sexo fenotípico. Qualquer alteração na diferenciação gera o que chamamos de indivíduo com distúrbio de diferenciação sexual ou intersexo. Na Figura 12, podemos identificar os momentos mais importantes dessa caracterização. Representação esquemática da formação do sistema genital masculino e feminino. (A) Representação da gônada bipotente, (B) ação do gene SRY presente no cromossomo Y induz o desenvolvimento da gônada masculina primordial (testículo), a ausência do gene nas fêmeas induz o desenvolvimento da gônada feminina primordial (ovário), (C) representação do testículo primordial e ovário primordial. De acordo com Hafez e Hafez (2000, tradução nossa), indivíduos intersexos são definidos como “um animal de sexo equívoco, uma vez que suas características físicas, incluindo a genitália externa, são inconclusivas”, ou seja, um indivíduo intersexo é aquele que pode ter genitália ambígua, ou o seu sexo cromossomal não corresponder ao seu sexo gonadal ou fenotípico (VILLAGÓMEZ e colaboradores, 2009). As alterações na formação das gônadas, trato genital e genitália externa podem se dar por problemas na determinação sexual, ou seja, nos cromossomos sexuais, implicando em distúrbios na formação das gônadasfemininas ou masculinas; ou na diferenciação sexual, em que a genitália não corresponde ao cariótipo sexual (VILLAGÓMEZ e colaboradores, 2009). Entre os distúrbios da determinação sexual, podemos destacar quatro cariótipos: Monossomia do cromossomo X (XO): Relacionada à síndrome de Turner em humanos, os animais que apresentam esse cariótipo são fenotipicamente fêmeas, mas apresentam infertilidade devido à disgenesia gonadal e ao desenvolvimento incompleto do trato reprodutivo feminino. É a anomalia cromossomal mais presente nos animais domésticos, com casos já relatados em éguas, vacas, búfalas, cadelas e gatas. Trissomia do cromossomo X (XXX): Bastante raro em equinos, bovinos, caninos e felinos. Os animais com esse cariótipo apresentam hipoplasia de ovários, corpos uterinos menores e não apresentam estros, sendo fenotipicamente fêmeas. Trissomia XXY: Relacionado à síndrome de Klinefelter em humanos. A existência do cromossomo Y no cariótipo desses animais permite o desenvolvimento de testículos pela presença do gene SRY, o que significa que eles são estéreis devido às falhas da espermatogênese. Quimerismo XX/XY: O mesmo animal apresenta células com cariótipo XX e células com cariótipo XY. É comum em bovinos e denomina-se freemartinismo. Em felinos, muitos casos de quimerismo também já foram relatados e esses animais apresentavam ovários e testículos ou ovotestis. Já em cães, os casos relatados de quimeras apresentaram genitália externa ambígua. Quanto aos distúrbios de diferenciação sexual, temos duas nomenclaturas utilizadas. Alguns autores classificam esses indivíduos como hermafroditas e pseudo-hermafroditas. Os hermafroditas verdadeiros são aqueles que possuem ovários e testículos presentes no mesmo indivíduo ou ovotestis (ovários e testículos presentes na mesma gônada), não importando o sexo cromossômico do animal; enquanto os pseudo-hermafroditas masculinos são os indivíduos que possuem testículos, com o sexo cromossomal podendo ser XX ou XY e genitália externa característico das fêmeas. Contudo, os pseudo-hermafroditas femininos são os animais com cromossomos XX e ovários, mas que possuem a genitália externa virilizada (HAFEZ; HAFEZ, 2000). Na nomenclatura atual, entretanto, evita-se a utilização de termos como hermafrodita, pseudo- hermafrodita e intersexo. Segundo esses autores, a classificação dos distúrbios de diferenciação sexual se dá pela caracterização do sexo cromossomal, pela ativação do gene SRY, pela aparência das gônadas e do trato genital. De acordo com essa nomenclatura, podemos categorizar os distúrbios de diferenciação sexual relacionados aos cromossomos XX e aos cromossomos XY. Assim, na sequência, temos os principais distúrbios de diferenciação sexual que podem acometer as espécies domésticas: Síndrome do sexo reverso XY: A síndrome do sexo reverso refere-se aos animais em que o fenótipo não corresponde ao cariótipo. Dessa forma, pode ocorrer em fêmeas XY e machos XX. A síndrome do sexo reverso XY é o mais comum e acontece devido a uma falha na sequência do gene SRY presente no cromossomo Y. Síndrome do sexo reverso XX: É comum em suínos. Os animais apresentam ovotestis sem células germinativas no tecido testicular. Já foram relatados episódios de ovulação e gestação em animais com esse distúrbio (SCHLAFER; FOSTER, 2016); Distúrbios de diferenciação sexual XY: Há diversos tipos de distúrbios de diferenciação XY, dentre eles podemos destacar a hipospadia (anomalia na formação do trato genital masculino em que o meato urinário está localizado na parte mais ventral do pênis); a hipoplasia testicular; o criptorquidismo e a síndrome da persistência do ducto mülleriano. Distúrbios de diferenciação sexual XX: Os indivíduos com esse distúrbio normalmente têm o fenótipo de fêmea com alterações relacionadas ao desenvolvimento do ovário (agenesia, duplicação, hipoplasia), formações císticas de estruturas remanescentes, como túbulos e ductos mesonéfricos, e falhas de desenvolvimento do ducto paramesonéfrico. Imagens de diversos distúrbios de diferenciação sexual XX e XY nos animais domésticos. (A) Felino com distúrbio de diferenciação sexual XY testicular. Segundo os tutores, o sexo fenotípico era feminino. Animal apresentava vulva e clitóris aumentado, com algumas espinhas, escroto bífido, com pequenas gônadas. (B) Égua com distúrbio de diferenciação sexual XX apresentando túbulos mesonéfricos remanescentes císticos próximos aos ovários. (C) Felino apresentando distúrbio de diferenciação sexual XY com hipospadia perineal, o canal da uretra está localizado ventralmente ao ânus. (D) Canino com distúrbio de diferenciação sexual XY, apresentando persistência de ductos müllerianos. Animal era fenotipicamente macho, mas apresentava retenção de testículos e cornos e corpo uterino. SINTETIZANDO O sistema genital dos mamíferos é composto por duas gônadas e um trato genital, com órgãos específicos para cada sexo. Nas fêmeas, as gônadas presentes são os ovários, os quais têm a função de produzir e amadurecer os óvulos para que aconteça a ovulação, além da produção do estrógeno e da progesterona. O trato genital feminino é composto pelas tubas uterinas, útero, vagina e vulva. Após a ovulação, esse óvulo é captado pelas fímbrias das tubas uterinas esperando ser fertilizado pelo espermatozoide. A responsabilidade do útero é receber o embrião, permitindo que ele se desenvolva. A vagina e a vulva são estruturas que vão permitir a cópula e a saída do feto no momento do parto. O sistema reprodutivo masculino é composto pelos testículos (gônadas masculinas), responsável pela produção de espermatozoides, a qual acontece nos túbulos seminíferos, onde se encontram as células de Sertoli, e produção de testosterona, função das células de Leydig. Os testículos ficam localizados no escroto, fora da cavidade abdominal. Os espermatozoides produzidos pelos túbulos seminíferos se encaminham para o epidídimo, onde serão armazenados e vão amadurecer. O trato genital masculino contém também os ductos deferentes, estrutura tubular responsável por transportar os espermatozoides até a uretra, glândulas acessórias que vão produzir secreções para nutrir e proteger o espermatozoide, formando o sêmen, pênis, que é o aparelho copulatório e prepúcio, pele que recobre a glande do pênis. No início do desenvolvimento embrionário não é possível diferenciar machos e fêmeas, pois, em ambos os sexos, o embrião possui uma gônada bipotente e a diferenciação em ovários ou testículos é dada pelos cromossomos. Em machos, é no cromossomo Y que está localizado um gene determinante para essa diferenciação, o gene SRY, responsável por determinar os testículos, suas estruturas e principais células (células de Sertoli e Leydig). Com a formação dos testículos, as células de Sertoli passam a produzir o hormônio anti-mülleriano, responsável por regredir os ductos paramesonéfricos e estimular o desenvolvimento do trato genital masculino. Nas fêmeas, como elas não têm esse gene, o desenvolvimento se dá para a formação dos ovários a partir da gônada primordial, regressão dos ductos mesonéfricos e desenvolvimento do trato genital feminino a partir dos ductos paramesonéfricos. No período embrionário, podem acontecer distúrbios que vão influenciar na formação do sistema reprodutor. Os distúrbios de diferenciação sexual podem acontecer por anomalias cromossômicas (indivíduos X0, XXX, XXY ou XX/XY) ou por anomalias durante o desenvolvimento do trato genital, relacionados, então, a defeitos no gene SRY. Fenotipicamente, esses animais podem apresentar diversas conformações das gônadas e do trato genital e, muitas vezes, tornando-se inférteis.