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Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas Sistematização, Análise e Interpretação do Novo Instituto Processual - Aluísio Gonçalves de Castro Mendes - 1 ed - (2017)

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importador	e	o	distribuidor	em	caso	de	reprodução	no	exterior	(art.	104	da	Lei	n.	9.610/98).
Capa:	Danilo	Oliveira
Produção	digital:	Ozone
Fechamento	desta	edição:	17.07.2017
CIP	–	Brasil.	Catalogação	na	fonte.
Sindicato	Nacional	dos	Editores	de	Livros,	RJ.
M491i
Mendes,	Aluisio	Gonçalves	de	Castro
Incidente	de	resolução	de	demandas	repetitivas	:	sistematização,	análise	e	interpretação	do
novo	instituto	processual	/	Aluisio	Gonçalves	de	Castro	Mendes.	–	Rio	de	Janeiro	:	Forense,
mailto:faleconosco@grupogen.com.br
http://www.grupogen.com.br
2017.
Inclui	bibliografia
ISBN:	978-85-309-7656-9
1.	Processo	civil	-	Brasil.	I.	Título.
17-43303
CDU:	347.91./95(44)
Aos	professores	e	amigos
JOSÉ	CARLOS	BARBOSA	MOREIRA,
LUIZ	FUX,
PAULO	CEZAR	PINHEIRO	CARNEIRO,
CÂNDIDO	RANGEL	DINAMARCO,
HUMBERTO	THEODORO	JÚNIOR,
JOSÉ	ROBERTO	DOS	SANTOS	BEDAQUE,
JOSÉ	ROGÉRIO	CRUZ	E	TUCCI	e
LEONARDO	GRECO,
expoentes	maiores	do	Direito	Processual
no	Brasil	e	no	Mundo,	eternamente	grato
pelo	exemplo	e	pelos	valiosos	ensinamentos.
Para	a	minha	amada	esposa,	MARJORIE,
e	meus	adoráveis	filhos,	CHRISTIAN	e	CAROLINA,
fontes	inesgotáveis	de	felicidade,
que	são	a	minha	razão	de	viver.
Aos	meus	queridos	pais,	OLIVIA	(in	memoriam)	e	ALUIZIO,
e	irmão,	MARCELO,	pela	formação	e	carinho.
Este	 texto	 decorre	 da	 tese	 apresentada	 como	 requisito	 parcial	 para	 a
obtenção	da	Cátedra	 em	Direito	Processual	Civil	 na	 conceituada	Faculdade	de
Direito	 da	 Universidade	 do	 Estado	 do	 Rio	 de	 Janeiro	 (UERJ).	 A	 renomada
Comissão	 Examinadora	 do	 concurso	 de	 promoção	 foi	 composta	 por	 uma
constelação	 do	 Direito	 Processual:	 Paulo	 Cezar	 Pinheiro	 Carneiro,	 Luiz	 Fux,
Humberto	Theodoro	Júnior,	Cândido	Rangel	Dinamarco,	Leonardo	Greco,	José
Rogério	 Cruz	 e	 Tucci	 e	 José	 Roberto	 dos	 Santos	 Bedaque.	 Extremamente
honrado,	 houve	 a	 aprovação	 por	 unanimidade,	 após	 longo	 e	 rigoroso	 exame,
realizado	 diante	 de	 um	 Salão	 Nobre	 repleto	 de	 colegas	 e	 amigos	 professores,
magistrados,	 promotores,	 advogados,	 doutorandos,	 mestrandos,	 profissionais	 e
estudiosos	do	Direito,	a	quem	agradeço	pelo	apoio	e	pelo	carinho.	Em	especial,
destaco	a	presença	de	Rodrigo	Fux	e	de	Carlos	Roberto	Barbosa	Moreira,	que
representava	 a	 família	 do	 querido	 mestre	 e	 referência	 eterna,	 Professor	 José
Carlos	Barbosa	Moreira.
A	 trajetória	 da	 titularidade	 na	UERJ	 foi	 trilhada	 e	 alcançada	 em	 conjunto
com	 o	 Professor	 Humberto	 Dalla	 Bernardina	 de	 Pinho.	 Por	 certo,	 será	 uma
grande	responsabilidade,	da	nossa	parte,	a	incumbência	de	manter	a	tradição,	o
renome	e	a	qualidade	do	ensino	do	Direito	Processual,	considerando	a	excelência
dos	juristas	que	fizeram	a	história	da	nossa	Congregação.	É	com	muita	honra	que
passamos	 a	 integrar	 a	 seleta	 categoria	 de	 Professor	 Titular	 da	 Faculdade	 de
Direito	da	UERJ,	composta	atualmente	pelos	docentes	Alexandre	Aragão,	Ana
Paula	 de	 Barcellos,	 Carmen	 Tibúrcio,	 Daniel	 Sarmento,	 Gustavo	 Binenbojm,
Gustavo	 Tepedino,	 Heloísa	 Helena	 Barboza,	 Luís	 Roberto	 Barroso,	 Luiz	 Fux,
Maria	 Celina	 Moraes,	 Maria	 Teresa	 Lima,	 Nelson	 Massini	 e	 Paulo	 Cezar
Pinheiro	Carneiro.	Na	UERJ,	 todo	 o	 procedimento	 ocorreu	 durante	 a	 gestão	 e
contou	 com	 o	 apoio	 dos	 magníficos	 Reitor,	 Vice-Reitora	 e	 Sub-Reitor,
respectivamente,	 Professores	 Ruy	 Garcia	 Marques,	 Georgina	 Washington	 e
Egberto	Moura,	e	do	Diretor	e	Vice-Diretor	da	Faculdade	de	Direito,	Professores
Ricardo	Lodi	e	Ivan	Garcia.
Registre-se	que	a	posição	de	Professor	Titular,	agora	obtida	na	UERJ,	após
dezessete	 anos	 de	 docência	 na	 instituição,	 tive	 o	 prazer	 de	 alcançar,	 também,
alguns	anos	atrás,	na	Universidade	Estácio	de	Sá	(Unesa),	cujo	Programa	de	Pós-
Graduação	 em	Direito	 (PPGD)	 tenho	 a	 satisfação	 de	 integrar	 desde	 o	 ano	 de
2002,	 sendo	 atualmente	 coordenado	 pelo	 Professor	 Carlos	 Eduardo	 Japiassu	 e
supervisionado	pelo	Vice-Reitor	de	Pós-Graduação	e	Pesquisa,	Professor	Rafael
Mario	 Iorio	 Filho,	 a	 quem	 rendo	 as	 homenagens	 e	 os	 agradecimentos	 pelo
constante	apoio.
A	 obra	 resultou	 de	 pesquisa	 desenvolvida	 com	 a	 colaboração	 de	 várias
instituições	 e	 pessoas.	 Ressalto,	 inicialmente,	 que	 me	 deixou	 extremamente
lisonjeado	 o	 convite	 formulado	 pelo	 Instituto	 Max	 Planck	 de	 Luxemburgo,
dirigido	pelo	Professor	Burkhard	Hess,	para	 figurar	como	o	primeiro	professor
brasileiro	a	usufruir	da	oportunidade	de	estadia	nesta	entidade	especializada	no
Direito	 Processual,	 tendo	 desfrutado,	 na	 ocasião,	 do	 agradável	 convívio	 de
estimados	 colegas	 e	 amigos,	 dentre	 os	 quais	 os	 Professores	 Peter	 Gottwald,
Eduardo	 Oteiza	 e	 Marta	 Requejo	 Isidro.	 A	 permanência	 contou	 com	 o
fundamental	apoio	da	Fundação	Alexander	von	Humboldt,	do	Tribunal	Regional
Federal	 da	 2ª	 Região	 e	 do	 Conselho	 da	 Justiça	 Federal,	 salientando	 nestes
últimos	 o	 apoio	 de	 todos	 os	 eminentes	 pares,	 especialmente	 dos
Desembargadores	Poul	Erik	Dyrlund	e	André	Fontes	(presidente	anterior	e	atual,
respectivamente),	Guilherme	Couto	de	Castro	(relator)	e	da	Ministra	Laurita	Vaz
(no	exercício	da	presidência	do	CJF).
Durante	 o	 processo	 de	 elaboração	 da	 tese,	 pude	 contar	 com	 a	 inestimável
colaboração	da	qualificada	assessoria	do	gabinete	no	tribunal	(Adiel	de	Araújo,
Ana	 Maria	 Leandro,	 Ana	 Paula	 Rebelo,	 Bruno	 Machado,	 Cinthia	 Leitão,
Clarissa	 Braga,	 Eduardo	 Cordeiro,	 Felipe	 Lazzarini,	 Gustavo	 Braga,	 Larissa
Pochmann,	 Marcela	 Cardoso,	 Marcela	 Nápoli,	 Márcia	 Lopes,	 Mário	 Eduardo
Serrano,	Paulo	Renato	Martins,	Rafael	Gomes,	Tatiane	Melo,	Thiago	Sanches	e
Victor	 Branco),	 que	 foi	 essencial	 para	 que	 a	 dedicação	 à	 atividade	 acadêmica
pudesse	ser	conciliada	com	a	manutenção	da	prestação	judicial	em	dia.
Para	 a	 consecução	 da	 escrita	 final,	 tive,	 mais	 uma	 vez,	 o	 imprescindível
apoio	 da	 eterna	 amiga	 Beatriz	 Chargel,	 a	 quem	 sou	 sempre	 grato	 e	 que	 não
poupou	esforços	no	sentido	de	contribuir	para	a	 revisão	e	o	aprimoramento	do
texto.
Por	 fim,	mas	não	menos	 importante,	 registro	a	 felicidade	de	 ter	este	 livro,
repleto	 de	 significado	 para	 a	minha	 vida	 acadêmica	 e	 profissional,	 publicado,
com	a	 prestimosa	 colaboração	do	 amigo	Guilherme	Zincone,	 pela	 conceituada
Editora	 Forense,	 referênciaem	média	11.256	processos	por	ano,	1.125	por	mês,	281
por	semana,	56	por	dia	útil.
No	primeiro	grau11	da	Justiça	Estadual,	Federal	e	do	Trabalho,	entraram,	nos
anos	 de	 1990,	 1994,	 1998,	 2007,	 2011	 e	 2015,	 ao	 todo,	 5.117.059,	 5.147.652
10.201.289,	 19.274.760,	 24.227.727	 e	 23.281.308	 processos,	 respectivamente.
No	ano	de	2015,	eram	69.988.968	processos	pendentes,	 totalizando	93.270.276
processos	 em	 tramitação	 somente	 no	 primeiro	 grau.	 Considerando	 que	 se
encontravam	providos	14.882	cargos	de	juiz	de	primeiro	grau,	havia	uma	média
de	6.267	processos	por	magistrado,	tendo	em	vista	os	casos	novos	e	pendentes.
Se	 contabilizados	 apenas	 os	 novos	 processos	 recebidos,	 cada	 juiz	 recebeu,	 no
ano	de	2015,	1.564	casos	novos,	 ou	 seja,	 contabilizados	os	períodos	de	 férias,
156	processos	novos	por	mês,	 39	por	 semana,	 quase	oito	 processos	novos	por
dia.	 Portanto,	 cada	 juiz	 teria,	 basicamente,	 uma	 hora	 para	 cada	 processo,
levando-se	em	conta	que	os	60	minutos	seriam	destinados	para	a	realização	de
todos	 os	 atos	 processuais,	 dentre	 os	 quais	 a	 leitura	 da	 petição	 inicial	 e	 da
contestação,	 elaboração	 de	 despachos	 e	 decisões	 interlocutórias,	 realização	 de
audiências,	eventual	recebimento	de	advogados,	prolação	da	sentença	e	todos	os
atos	praticados	em	termos	de	cumprimento	ou	execução	da	sentença.
Por	 fim,	 o	 quadro	 geral	 do	 Poder	 Judiciário	 reflete	 este	 número
extraordinário	de	demandas.	Foram	101.216.596	(cento	e	um	milhões,	duzentos
e	dezesseis	mil,	 quinhentos	 e	noventa	 e	 seis)	 processos	 recebidos	 em	 todos	os
órgãos	 jurisdicionais	 no	 ano	 de	 2015,	 perfazendo	 uma	média	 global	 de	 5.837
novos	processos	por	magistrado,	representando	583	processos	por	mês,	145	por
semana,	 29	 por	 dia.	 Portanto,	 cada	 juiz	 recebe,	 em	média,	 3,65	 processos	 por
hora.	 Sendo	 assim,	 cada	 magistrado	 pode	 dispor	 de	 16	 minutos	 para	 cada
processo,	 considerando	 uma	 jornada	 ininterrupta	 de	 8	 horas	 por	 dia,	 durante
cinco	dias	por	semana,	descontando	neste	cálculo	os	feriados	e	o	recesso	forense
do	final	do	ano,	mas	computando	as	férias	legais.
Deve-se	 levar	 em	 conta	 também	 o	 próprio	 custo	 financeiro	 com	 o	 Poder
Judiciário	 e	 com	o	 número	 elevado	 de	 processos.	Os	 dados	 oficiais	 apontam12
que	 o	 custo	 total	 do	 Poder	 Judiciário	 no	 Brasil,	 em	 2015,	 foi	 de	 R$
79.227.335.015.	O	número	de	processos	 existentes,	 considerando	os	pendentes
(73.936.309)	mais	os	casos	novos	(27.280.287),	 totaliza	101.216.596.	Portanto,
cada	processo	custou	em	2015,	em	média,	R$	782,75.
A	 perspectiva	 de	 incremento	 do	 acesso	 à	 Justiça13	 e	 da	 existência	 de
processos	menos	formalistas,	mais	simples,	céleres	e	eficazes,	pode-se	dizer,	está
presente	em	todo	o	mundo,	seja	nas	discussões	relacionadas	com	os	projetos	de
reforma	do	Poder	Judiciário,	como	ocorreu	na	Argentina14	e	no	Brasil15,	seja	nos
debates	acerca	de	modificações	propostas	para	o	direito	processual,	como,	v.g.,
na	Alemanha.16
2.2.
Para	 o	 pleno	 funcionamento	 do	 Estado	 Democrático	 de	 Direito,	 a
possibilidade	de	solução	dos	conflitos	mediante	o	devido	processo	legal	deve	ser
efetiva	e	não	apenas	formal.	Para	tanto,	devem	ser	equacionadas	as	modificações
sociais,	econômicas,	políticas	e	culturais	existentes.
O	 direito	 processual,	 assim,	 deve	 estar	 preparado	 para	 enfrentar	 uma
realidade,	 em	que	o	contingente	populacional	mundial	ultrapassa	o	patamar	de
sete	 bilhões	 de	 pessoas17,	 no	 qual	 a	 revolução	 industrial	 transforma-se	 em
tecnológica,	 diminuindo	 as	 distâncias	 no	 espaço	 e	 no	 tempo,	 propiciando	 a
massificação	e	globalização	das	relações	humanas	e	comerciais18.
Na	 verdade,	 a	 necessidade	 de	 instrumentos	 supraindividuais	 não	 é	 nova,
pois	 há	 muito	 tempo	 ocorrem	 lesões	 a	 direitos,	 que	 atingem	 coletividades,
grupos	 ou	 certa	 quantidade	 de	 indivíduos,	 que	 poderiam	 fazer	 valer	 os	 seus
direitos	de	modo	coletivo.	A	diferença	é	que,	na	atualidade,	 tanto	na	esfera	da
vida	 pública	 como	privada,	 as	 relações	 de	massa	 expandem-se	 continuamente,
bem	 como	 o	 alcance	 dos	 problemas	 correlatos,	 fruto	 do	 crescimento	 da
produção,	dos	meios	de	comunicação	e	do	consumo,	bem	como	do	número	de
funcionários	 públicos	 e	 de	 trabalhadores,	 de	 aposentados	 e	 pensionistas,	 da
abertura	de	capital	das	pessoas	 jurídicas	e	consequente	aumento	do	número	de
acionistas	e	dos	danos	ambientais	causados.	Multiplicam-se,	portanto,	as	lesões
sofridas	 pelas	 pessoas,	 seja	 na	 qualidade	 de	 consumidores19,	 contribuintes,
aposentados,	 servidores	públicos,	 trabalhadores,	moradores	etc.,	decorrentes	de
circunstâncias	de	fato	ou	relações	jurídicas	comuns.
OS	INSTRUMENTOS	PROCESSUAIS	COLETIVOS	E	O	ACESSO
À	JUSTIÇA
Os	danos	 resultantes	das	 lesões	 supramencionadas	 são,	 frequentemente,	 se
considerados	 separadamente,	 em	 termos	 econômicos,	 de	 pequena	 monta,
fazendo	com	que,	na	relação	custo-benefício,	o	ajuizamento	de	ações	individuais
seja	desestimulante	e,	na	prática,	quase	que	inexistente,	demonstrando,	assim,	a
fragilidade	e	as	deficiências	em	relação	ao	acesso	à	Justiça.	A	eventual	falta	ou
deficiência	dos	instrumentos	processuais	adequados	para	os	chamados	danos	de
“bagatela”,20	 que,	 considerados	 globalmente,	 possuem	 geralmente	 enorme
relevância	 social	 e	 econômica,	 estimula	 a	 repetição	 e	 perpetuação	 de	 práticas
ilegais	 e	 lesivas.	 Por	 conseguinte,	 tendem	 a	 se	 beneficiar,	 em	 vez	 de	 serem
devidamente	 sancionados,	 os	 fabricantes	 de	 produtos	 defeituosos	 de	 reduzido
valor,	 os	 entes	 públicos	 que	 cobram	 tributos	 indevidos	 ou	 não	 concedem	 os
direitos	 funcionais	 cabíveis	 e	 os	 fornecedores	 que	 realizam	 negócios
abusivamente,	 apenas	para	citar	 alguns	exemplos.	De	pouca	ou	nenhuma	valia
passam	 a	 ser	 as	 normas	 de	 direito	 material,	 que	 estabelecem	 direitos	 para	 os
lesados,	se	a	referida	proteção	não	encontra	 também	amparo	efetivo	nos	meios
processuais	disponíveis.
Dentro	 da	 ideia	 custo-benefício,	 a	 questão	 pode	 ser	 enfrentada	 sob	 duas
vertentes.	Em	primeiro	 lugar,	estão	os	 lesados	que	dispõem	de	 recursos	para	o
pagamento	 das	 despesas	 processuais,	 mas	 estas	 representariam	 valor
aproximadamente	 igual	ou	superior	ao	próprio	benefício	pretendido.	 Junte-se	a
isso	 que	 a	 pretensão,	 sob	 o	 prisma	 da	 renda	 e	 do	 padrão	 de	 vida	 da	 pessoa
atingida,	 terá	 um	 valor	 patrimonial	 irrisório,	 não	 compensando	 sequer	 a
utilização	 de	 tempo	 e	 esforços,	 que,	 se	 quantificados,	 significariam	 montante
acima	da	pretensão	almejada.	Sob	prisma	relativamente	diverso,	encontram-se	as
pessoas	 desprovidas	 dos	 meios	 necessários	 para	 o	 pagamento	 de	 custas	 e
despesas	 processuais,	 além	 dos	 honorários	 advocatícios.	 Embora	 gozem	 de
isenção	legal	no	que	diz	respeito	a	essas	verbas,	os	gastos	com	tempo	e	dinheiro,
necessários	para	o	encaminhamento	do	problema,	seriam	excessivos,	na	medida
em	 que	 os	 dias	 e	 as	 horas	 são	 absorvidos	 na	 labuta,	 indispensável	 para	 a
subsistência	própria	e/ou	da	família.
O	desequilíbrio	entre	as	partes	pode	 ser	 também,	por	outro	 lado,	um	fator
decisivo	 para	 que	 a	 pessoa	 lesada	 deixe	 de	 buscar	 individualmente	 a	 proteção
judicial	ou,	então,	para	a	própria	correlação	de	forças	na	relação	processual.	A
tendência	 é	 que	 o	 causador	 da	 lesão	 disponha	 de	 mais	 recursos	 materiais	 e
humanos	e,	portanto,	em	tese,	se	apresente	mais	bem	preparado	para	o	embate,
provido	 que	 estará	 para	 a	 contratação	 de	 profissionais	 de	 qualidade	 e	 para	 a
produção	de	provas	que	lhe	sejam	favoráveis	–	desigualdade	que	se	mostra	ainda
mais	gritante	quando	o	lesado	não	dispõe	de	recursos	próprios	para	custear	a	sua
defesa,	 tendo	 em	 vista	 as	 limitações	 materiais	 dos	 órgãos	 encarregados	 da
assistência	judiciária	gratuita.
Com	a	cumulação	de	demandas,	 a	 situação	 tende	a	 ser	 alterada,	 tendo	em
vista	 que	 o	 próprio	 valor	 patrimonialda	 causa,	 que	 individualmente	 seria
mínimo,	passa	a	ser	de	grande	relevância,	chegando,	por	vezes,	a	 importâncias
astronômicas,	 o	 que,	per	 se,	 já	 pode	 ser	 suficiente	 para	 ensejar	 o	 interesse	 de
bons	profissionais	para	a	causa,	além	de	recursos	necessários	para	a	propositura
e	 colheita	 de	 provas.	 As	 ações	 coletivas,	 se	 bem	 estruturadas,	 podem	 ser,
portanto,	 um	 efetivo	 instrumento	 para	 o	 aperfeiçoamento	 do	 acesso	 à	 Justiça,
eliminando	os	entraves	relacionados	com	os	custos	processuais	e	o	desequilíbrio
entre	as	partes.	Assim,	por	exemplo,	são	investidas	nas	causas	coletivas	vultosas
somas	de	dinheiro	nos	escritórios	de	advocacia	norte-americanos;	na	Alemanha,
há	partidos,	sindicatos21	e	associações	que	dispõem	de	forte	estrutura,	 inclusive
econômica,	 para	 prover	 a	 contratação	 de	 profissionais	 e	 os	 meios	 de	 prova
necessários,	 situação	essa	que	não	 se	encontra	ainda	devidamente	 resolvida	no
sistema	brasileiro.
O	 processo	 coletivo	 pode	 servir,	 igualmente,	 para	 garantir	 a	 importância
política	 de	 determinadas	 causas,	 relacionadas,	 dentre	 outras,	 com	 os	 direitos
civis,	 minorias	 e	 meio	 ambiente.	 Foi	 o	 que	 ocorreu,	 por	 exemplo,	 nas	 class
actions,	 ajuizadas	 nos	Estados	Unidos,	 visando	 ao	 pagamento	 de	 indenizações
para	os	judeus	que	realizaram	trabalhos	forçados	durante	o	regime	nazista	ou	nas
que	visaram	à	invalidação	de	regras	discriminatórias	contra	negros.
Por	 fim,	 o	 problema	 da	 falta	 de	 formação	 e	 informação	 jurídica	 ainda
representa	sério	entrave	para	o	acesso	à	Justiça22.	O	processo	coletivo	pode,	no
entanto,	superar	ou	atenuar	o	problema,	na	medida	em	que	o	direito	das	pessoas
menos	 esclarecidas	 juridicamente	 não	 ficará	 relegado	 ao	 abandono,	 porque
poderá	 ser	defendido	por	 terceiro,	 legitimado	extraordinariamente	para	a	 tutela
transindividual.	A	iniciativa	quanto	à	propositura	da	ação,	bem	como	da	eventual
necessidade	de	comunicação	aos	lesados,	informando	sobre	o	litígio,	proposta	de
acordo	 etc.,	 ficará	 sob	 a	 responsabilidade	 do	 demandante	 coletivo,	 também
chamado	de	autor	ideológico	ou	parte	representativa.
2.3. O	IRDR	COMO	INSTRUMENTO	DE	ECONOMIA	JUDICIAL	E
PROCESSUAL
O	direito	processual	é	um	direito	eminentemente	 instrumental	e,	como	 tal,
serve	para	a	realização	do	direito	material.	Consequentemente,	o	processo,	como
um	todo,	bem	como	os	respectivos	atos	e	procedimentos	devem	estar	inspirados
na	 economia	 processual.	 Esse	 princípio,	 por	 sua	 vez,	 precisa	 ser	 entendido	 de
modo	mais	amplo,	sob	o	ponto	de	vista	subjetivo,	como	orientação	geral	para	o
legislador	e	para	o	aplicador	do	direito	processual	e,	objetivamente,	como	sede
para	a	escolha	das	opções	mais	céleres	e	menos	dispendiosas	para	a	solução	das
lides.
Sobre	 o	 assunto,	 escreveu	 Andrea	 Giussani:23	 “La	 maggioranza	 della	 più
recente	dottrina	statunitense	converge	nell’individuare	una	delle	finalità	primarie
delle	 class	 actions	 nella	 realizzazione	 di	 obiettivi	 di	 economia	 processuale.	 In
proposito	si	deve	mettere	in	evidenza	che	il	principio	di	pragmatici	fondamentali
della	 disciplina	 positiva	 del	 processo	 civile	 nordamericano,	 almeno	 presso	 le
corti	 federali:	 si	 è	 trattato	 infatti	 di	 uno	 dei	 principali	 elementi	 ispiratori	 della
riforma	del	1938,	e	in	tale	occasione	è	stato	recepito	dalla	Rule	1	delle	Federal
Rules	 of	Civil	 Procedure.	 (…)	Va	 sottolineato	 immediatamente	 che	 si	 tratta	 di
una	 finalità	 intensa	 in	modo	affatto	conforme	alla	prevalenza	degli	obiettivi	di
risoluzione	 dei	 conflitti.	 L’economia	 processuale,	 secondo	 la	 concezione
prevalente	 negli	 Stati	Uniti,	 consiste	 infatti	 nel	 risolvere	 la	 liti	 al	minor	 costo
possibile”.
A	 questão24	 não	 deixa	 de	 ser	 também	 lógica,	 pois,	 a	 priori,	 os	 conflitos
eminentemente	 singulares	 devem	 ser	 resolvidos	 individualmente,	 enquanto	 os
litígios	de	natureza	essencial	ou	acidentalmente	coletiva	precisam	contar	com	a
possibilidade	 de	 solução	 metaindividual.	 A	 inexistência	 ou	 o	 funcionamento
deficiente	de	mecanismos	coletivos	dentro	do	ordenamento	jurídico	processual,
nos	 dias	 de	 hoje,	 dá	 causa	 à	multiplicação	 desnecessária	 do	 número	 de	 ações
distribuídas,	 de	 decisões	 proferidas	 e	 de	 recursos	 interpostos,	 agravando	 ainda
mais	 a	 sobrecarga	 do	 Poder	 Judiciário.	 Na	 verdade,	 são	 lides	 com	 enorme
semelhança,	pois	decorrem	de	questão	comum	de	fato	ou	de	direito,	passando	a
ser	 decididas	de	modo	mecânico	pelos	 juízes,	 através	do	que	 se	 convencionou
chamar	 de	 sentenças-padrão	 ou	 repetitivas,	 vulgarizando-se	 a	 nobre	 função	 de
julgar.	 É	 o	 que	 vem	 ocorrendo,	 v.g.,	 na	 Justiça	 Federal	 brasileira.	 Nas
circunscrições	 do	 Rio	 de	 Janeiro	 e	 de	 Niterói25,	 por	 exemplo,	 as	 sentenças-
padrão	representaram,	no	cômputo	do	total	de	sentenças	cíveis	de	mérito,	entre
os	 anos	 de	 1998	 e	 2001,	 respectivamente,	 62,5%	 e	 73%.	 A	 atividade	 judicial
descaracteriza-se,	com	essa	prática,	por	completo,	passando	a	ser	exercida	e	vista
como	mera	repetição	burocrática,	desprovida	de	significado	e	importância.
Com	 a	 pulverização	 de	 ações,	 a	 causa	 também	 é	 fracionada	 e	 acaba	 não
sendo,	de	fato,	decidida	por	nenhum	dos	juízes	de	primeiro	ou	de	segundo	grau,
na	medida	em	que	a	lide	estará	sendo	apreciada,	simultaneamente,	por	centenas
ou	milhares	de	julgadores.	Consequentemente,	apenas	o	pronunciamento	final	ou
dos	tribunais	superiores	passa	a	 ter	relevância,	sob	o	ponto	de	vista	da	solução
do	conflito.
A	falta	de	solução	adequada	para	os	conflitos	coletivos,	em	sentido	 lato,	é
responsável,	 portanto,	 em	 grande	 parte,	 pelo	 problema	 crônico	 do	 número
excessivo	de	processos	em	todas	as	instâncias,	não	podendo,	por	conseguinte,	ser
tratado	como	situação	que	diga	respeito	apenas	ao	Supremo	Tribunal	Federal	ou
aos	 tribunais	 superiores26.	 Por	 outro	 lado,	 costuma-se	 enfatizar,	 diante	 do
problema,	a	necessidade	de	mais	 juízes.	Não	obstante	a	carência	de	 julgadores
ser	realidade	que	demande	solução,	a	comparação	do	número	de	processos	com
o	de	juízes	não	deve	ser	analisada	apenas	sob	o	prisma	deste	último.	O	aumento
do	número	de	juízes	pode	e	deve	ser	acompanhado	da	diminuição	do	número	de
processos,	 mediante	 o	 aperfeiçoamento	 do	 sistema	 processual,	 como	 pretende
demonstrar	 o	 presente	 trabalho.	 Junte-se	 a	 isso	 que	 a	 confrontação	 numérica
entre	países	não	vem,	por	vezes,	sendo	feita	com	o	rigor	científico	recomendado
pelo	 direito	 comparado,	 pois	 não	 tem	 sido	 acompanhada	 do	 estudo	 dos
sistemas27.
O	 aumento	 do	 número	 de	 juízes	 depara-se	 também	 com	 dificuldades
conjunturais	e	locais.	Sob	o	ponto	de	vista	conjuntural,	trabalha-se,	no	contexto
mundial,	 atualmente,	 com	a	 redução	do	 tamanho	do	Estado,	 tendo	em	vista	os
problemas	de	déficit	público	e	do	endividamento	estatal.	No	âmbito	 regional	e
local,	por	outro	lado,	não	se	pode	pretender	equiparar,	em	termos	proporcionais,
o	número	de	juízes	em	Estados	não	desenvolvidos	ou	em	desenvolvimento	com
o	contingente	existente	nos	países	ricos.	As	modificações	e	proposições	levadas
a	cabo	nos	países	do	chamado	 terceiro	mundo	devem	ser	consentâneas	com	as
suas	 limitações	 financeiras,	o	que	 reforça,	 ainda	mais,	 a	 importância	e	o	papel
central	 de	 um	 eficiente	 sistema	processual	 civil	 coletivo,	 como	 solução	 para	 a
sobrecarga	do	Poder	Judiciário	e	melhoria	dos	serviços	judiciais.
A	 perspectiva	 de	 soluções	 não	 dispendiosas,	 no	 entanto,	 se	 faz	 presente
mesmo	 nos	 países	 mais	 desenvolvidos	 e	 ricos,	 como	 ressalta	 Giussani:	 “La
rilevanza	applicativa	del	principio	di	economia	processuale	ha	però	compiuto	un
vero	 e	 proprio	 ‘salto	 di	 qualità’	 a	 partire	 degli	 anni	 ’60,	 allorché	 nella	 cultura
giuridica	nordamericana	si	è	ravvisata	la	necessità	di	rispondere	a	una	tendenza
all’esplosione’	del	contenzioso	civile”.28	De	fato,	a	explosão	do	contencioso	civil
deixou	 de	 ser	 uma	 tendência,	 parase	 consubstanciar	 em	 realidade	 mundial,
embora	com	peculiaridades	nacionais.	No	Brasil	e	nos	países	da	América	Latina,
o	 incremento	 do	 número	 de	 ações	 ajuizadas	 passou	 a	 ser	 extremamente
significativo	 a	 partir	 do	 final	 da	 década	 de	 80,	 com	 a	 democratização	 dos
regimes	políticos	e	o	fortalecimento	dos	órgãos	judiciários.	No	âmbito	global,	o
aumento	 do	 número	 de	 processos	 judiciais	 cíveis	 pode	 ser	 considerado	 como
resultado	da	chamada	onda	renovatória	do	acesso	à	Justiça,29	tendo	em	vista	que
várias	 medidas	 foram	 adotadas	 para	 facilitar	 o	 exercício	 do	 direito	 de	 ação,
removendo	ou	atenuando	várias	barreiras	existentes.
Diante	 da	 explosão	 de	 litígios,	 outras	 soluções	 foram	 ensaiadas	 ou
incrementadas,	 algumas	de	 cunho	 restritivo,	 no	 âmbito	material	 ou	processual,
com	o	não	reconhecimento	de	novos	direitos	ou	a	limitação	do	direito	de	ação,
como	 formulado	 pela	 teoria	 norte-americana	 da	 judicial	 restraint;30	 ou,	 então,
buscando-se	a	criação	e/ou	fortalecimento	de	mecanismos	extrajudiciais	ou	não
contenciosos	 para	 a	 resolução	 dos	 conflitos,	 como,	 v.g.,	 a	 arbitragem	 e	 a
conciliação.
Porém,	 como	 assinalado	 por	Giussani,	 a	 “judicial	 economy,	 per	 converso,
2.4.
indipendentemente	 dal	 sistema	 giurisdizionale	 in	 cui	 venga	 adottata	 come
finalità,	 si	 traduce	 in	 un’ampliamento	 della	 capacità	 del	 sistema	 di	 risolvere
conflitti	a	parità	di	ricorse	disponibili,	e	può	addirittura	favorire	l’attuazione	del
diritto	 sostanziale	 promovendo	 l’eguaglianza	 delle	 opportunità	 di	 risorse
finanziarie	tra	le	parti	(sebbene	non	la	elimini	del	tutto	ed	in	alcune	ipotesi,	come
si	vedrà	fra	breve,	l’accentui).	L’economia	processuale,	infatti,	può	giustificare	la
compressione	 delle	 garanzie	 processuali	 individuali	 anche	 in	 un	 ordinamento
non	 particolarmente	 interessato	 all’attuazione	 del	 diritto	 sostanziale	 in	 senso
stretto:	 per	 insistere	 sulla	 ormai	 consueta	 metafora,	 essa	 può	 ridurre	 il	 potere
delle	parti	di	giocare	quelle	carte	che	limitino	la	possibilità	degli	altri	consociati
di	 giocare	 a	 loro	 volta	 (compatibilmente,	 come	 si	 è	 osservato,	 con	 il	 rispetto
delle	garanzie	costituzionali	e	con	l’esigenza	di	non	sopprimere	surrettiziamente
i	loro	diritti	soggettivi	sostanziali)”31.
O	PRINCÍPIO	DA	IGUALDADE	DIANTE	DA	LEI	E	A
SEGURANÇA	JURÍDICA
Com	 a	multiplicação	 de	 ações	 individuais,	 que	 tramitam	 perante	 diversos
órgãos	 judiciais,	 por	 vezes	 espalhados	 por	 todo	 o	 território	 nacional,	 os	 juízes
chegam,	 com	 frequência,	 a	 conclusões	 e	 decisões	 variadas	 e	 até	 mesmo
antagônicas.	Não	raramente	essas	decisões	de	variado	teor	acabam	por	transitar
em	julgado,	diante	da	não	interposição	tempestiva	de	recurso	cabível	ou	pelo	não
conhecimento	deste	em	razão	de	outra	causa	de	inadmissibilidade.
Por	conseguinte,	pessoas	em	situações	fáticas	absolutamente	idênticas,	sob	o
ponto	de	vista	do	direito	material,	recebem	tratamento	diferenciado	diante	da	lei,
decorrente	 tão	 somente	da	 relação	processual.	O	direito	processual	passa	a	 ter,
assim,	caráter	determinante	e	não	apenas	instrumental.	E,	sob	o	prisma	do	direito
substancial,	 a	 desigualdade	 diante	 da	 lei	 torna-se	 fato	 rotineiro	 e	 não	 apenas
esporádico,	consubstanciando,	portanto,	ameaça	ao	princípio	da	isonomia.
A	miscelânea	de	pronunciamentos,	 liminares	 e	definitivos,	diferenciados	 e
antagônicos,	do	Poder	Judiciário	passa	a	ser	 fonte	de	descrédito	para	a	própria
função	 judicante,	 ensejando	 enorme	 insegurança	 jurídica	 para	 a	 sociedade.
2.5.
2.6.
Consequentemente,	quando	ocorre	tal	anomalia,	a	função	jurisdicional	deixa	de
cumprir	a	sua	missão	de	pacificar	as	relações	sociais.
O	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 pode,	 entretanto,
cumprir	 um	 grande	 papel,	 no	 sentido	 de	 serem	 eliminadas	 as	 disfunções
supramencionadas,	 na	 medida	 em	 que	 concentra	 a	 resolução	 de	 questões
comuns,	 eliminando	 ou	 reduzindo	 drasticamente	 a	 possibilidade	 de	 soluções
singulares	e	contraditórias,	para	questões	jurídicas,	no	âmbito	do	direito	material
e	processual.
OS	MEIOS	PROCESSUAIS	COLETIVOS	COMO
INSTRUMENTO	PARA	O	EQUILÍBRIO	DAS	PARTES	NO
PROCESSO
Embora	 haja	 formalmente	 a	 igualdade	 das	 partes	 no	 processo,	 no	 plano
material	e	prático	acabam	os	litigantes,	por	vezes,	dispondo	de	gritante	diferença
se	comparados	os	meios	disponíveis	para	o	embate	judicial.	É	o	que	ocorre	com
frequência	 nas	 causas	 potencialmente	 coletivas,	 quando	 consumidores,
aposentados,	 funcionários	 públicos,	 contribuintes	 e	 moradores,	 dentre	 outros,
isoladamente,	 encontram-se	 em	 posição	 de	 fraqueza	 diante	 do	 porte	 de
adversários	 como	 grandes	 comerciantes	 ou	 produtores,	 de	 empreendedores
imobiliários	ou	do	próprio	Estado.
Na	 verdade,	 a	 parte	 contrária	 aos	 interesses	 coletivos	 possui	 sempre	 a
dimensão	global	dos	atos	por	ela	praticados,	tendo,	portanto,	uma	ideia	exata	do
alcance	 de	 outras	 eventuais	 ações	 ajuizadas,	 bem	 como	das	 possibilidades	 das
perdas	delas	decorrentes.
A	 possibilidade	 de	 os	 interesses	 e	 direitos	 lesados	 serem	 defendidos
concomitantemente	 faz	 que	 a	 correlação	 de	 forças	 entre	 os	 litigantes	 seja
redimensionada	em	benefício	da	parte	individualmente	fraca,	mas	razoavelmente
forte	 quando	 agrupada,	 levando	 por	 terra,	 assim,	 a	 política	 maquiavélica	 da
divisão	para	reinar.
OS	MECANISMOS	COLETIVOS	COMO	INSTRUMENTO	PARA
O	CUMPRIMENTO	DO	DIREITO	MATERIAL
O	 cometimento	 de	 atos	 ilícitos	 pode	 representar,	 pelo	 menos	 sob	 a	 ótica
limitada	 e	 imediatista,	 um	 proveito	 para	 o	 autor	 da	 conduta	 contrária	 ao
ordenamento.	 Isso	 pode	 ocorrer	 especialmente	 quando	 o	 malfeito	 provoca
prejuízos	 em	 maior	 escala	 e	 apenas	 um	 percentual	 não	 significativo	 busca	 o
ressarcimento	dos	danos	causados.
Não	 por	 outra	 razão	 se	 desenvolveu	 a	 denominada	 teoria	 da	 punitive
damages,	ou	seja,	a	cominação	de	condenações	com	o	intuito	de	provocar	uma
punição,	 suscetível,	 por	 sua	vez,	de	 incitar	 e	 coagir	o	 responsável	pelo	dano	a
não	mais	prosseguir	no	cometimento	dos	atos	ilícitos	praticados.
Entretanto,	 se	 apenas	 um	 número	 reduzido	 de	 pessoas	 afetadas	 procura	 a
satisfação	dos	seus	direitos	e	isso	pode	ocorrer,	como	visto	nos	itens	anteriores,
tendo	em	vista	uma	série	de	fatores,	como	a	falta	de	informação,	de	tempo	e	de
recursos	 do	 lesado,	 a	 relação	 custo-benefício	 sob	 o	 prisma	 individual,	 as
dificuldades	 de	 acesso	 à	 justiça	 etc.,	 as	 condenações	 impostas,	 ainda	 que
acrescidas	 de	 multas	 punitivas,	 poderão	 ser	 insuficientes	 para	 a	 coibição	 da
prática	do	ato	ilícito.	Junte-se	a	isso	que,	quanto	menor	a	quantidade	de	pessoas
que	buscar	o	ressarcimento,	maior	teria	que	ser	a	condenação	a	título	de	punitive
damages,	o	que,	em	regra,	enseja	questionamentos,	por	parte	dos	 tribunais,	em
termos	 de	 desproporcionalidade	 entre	 o	 prejuízo	 sofrido	 e	 a	 compensação
advinda,	 ensejando	 o	 que	 se	 chama	 normalmente	 de	 “enriquecimento	 sem
causa”.
As	 ações	 coletivas,	 portanto,	 cumprem	 mais	 esta	 função,	 ou	 seja,	 a	 de
propiciar	 que	 a	 totalidade,	 ou	 pelo	 menos	 uma	 quantidade	 mais	 significativa,
alcance	os	seus	direitos,	fazendo	com	que	não	haja,	por	parte	do	cometedor	do
ato	ilícito,	uma	apropriação	indevida,	dimensionada	pelas	dificuldades	de	acesso
à	justiça.	Pois,	deste	modo,	não	haveria	punição	real,	mas,	sim,	locupletamento	e
estímulo	para	a	continuidade	da	prática	de	atos	em	desconformidade	com	a	lei.
A	 Suprema	 Corte	 Canadense32	 foi	 precisa,	 ao	 apontar,	 este	 importante
escopo	 para	 as	 ações	 coletivas:	 “class	 actions	 serve	 efficiency	 and	 justice	 by
ensuring	that	actual	and	potential	wrongdoers	do	not	ignore	their	obligations	to
2.7.
the	public.	Without	class	actions,	 those	who	cause	widespread	but	 individually
minimal	harm	might	not	take	into	account	the	full	costs	of	their	conduct,because
for	 any	 one	 plaintiff	 the	 expense	 of	 bringing	 suit	 would	 far	 exceed	 the	 likely
recovery.	 Cost-sharing	 decreases	 the	 expense	 of	 pursuing	 legal	 recourse	 and
accordingly	deters	potential	defendants	who	might	otherwise	assume	that	minor
wrongs	would	not	result	in	litigation”33.
O	PAPEL	E	OS	LIMITES	DO	INCIDENTE	DE	RESOLUÇÃO	DE
DEMANDAS	REPETITIVAS
O	 Direito	 Processual	 deve	 oferecer	 possibilidades,	 dentro	 de	 uma
perspectiva	 de	 eficiência	 e	 adequação,	 para	 a	 resolução	 dos	 litígios,	 dentro	 de
uma	perspectiva	multiportas.	Desse	modo,	o	princípio	inscrito	no	art.	5º,	inciso
XXXV,	 da	 Constituição	 da	 República,	 da	 inafastabilidade	 da	 jurisdição34,	 é
essencial,	pois	os	meios	oferecidos	não	podem,	naturalmente,	vulnerar	a	garantia
inscrita	constitucionalmente.	Esta	primeira	afirmação	é	importante	no	sentido	de
se	indicar	que,	não	obstante	sejam	muito	importantes	as	soluções	consensuais	e
os	 instrumentos	 tipicamente	 coletivos,	 estes	 não	 podem	 impedir,	 sempre	 que
ameaçado	 ou	 violado	 um	 direito	 individual,	 que	 os	 seus	 titulares	 busquem	 a
proteção	jurisdicional.	Podem	e	devem	ser	introduzidos	mecanismos	de	estímulo
ou	 de	 facilitação	 para	 que	 estes	 meios,	 consensuais	 ou	 coletivos,	 sejam
efetivamente	utilizados.
O	 próprio	CPC-2015	 inseriu,	 no	 rol	 do	 art.	 139,	 o	 inciso	X,	 como	poder-
dever	dirigido	ao	 juiz,	no	sentido	de	oficiar	o	Ministério	Público,	a	Defensoria
Pública	e,	na	medida	do	possível,	outros	legitimados	a	que	se	referem	o	art.	5º	da
Lei	 nº	 7.347,	 de	 24	 de	 julho	 de	 1985,	 e	 o	 art.	 82	 da	 Lei	 nº	 8.078,	 de	 11	 de
setembro	de	1990,	para,	se	for	o	caso,	promover	a	propositura	da	ação	coletiva
respectiva,	 quando	 se	 deparar	 com	 diversas	 demandas	 individuais	 repetitivas.
Entretanto,	 o	 magistrado	 não	 poderá,	 obviamente,	 obstaculizar	 as	 demandas
repetitivas	 individuais	 até	 então	 ajuizadas	 ou	 que	 venham	 a	 ser	 propostas	 no
futuro.
Do	mesmo	modo,	a	regra	do	art.	139,	inciso	X,	se,	por	um	lado,	representa
claro	estímulo	ao	processo	coletivo,	por	outro,	não	pode	significar	 sequer	uma
imposição	 aos	 legitimados	 para	 a	 propositura	 da	 ação	 coletiva,	 na	medida	 em
que	estes	últimos	devem	aferir	a	presença	dos	requisitos	necessários	para,	como
indicado	na	lei	(se	for	o	caso),	a	proposição.
É	 de	 se	 salientar	 também	 que,	 em	 relação	 às	 ações	 coletivas,	 há	 no
ordenamento	 brasileiro	 restrições	 legais,	 especialmente	 no	 art.	 1º,	 parágrafo
único,	da	Lei	nº	7.347/1985,	incluído	por	força	da	Medida	Provisória	nº	2.180,
ainda	que	se	possa	questionar	a	sua	constitucionalidade,	afastando	o	cabimento
de	 ação	 civil	 pública	 para	 a	 veiculação	 de	 pretensões	 que	 envolvam	 tributos,
contribuições	 previdenciárias	 e	 o	 Fundo	 de	 Garantia	 do	 Tempo	 de	 Serviço	 –
FGTS	ou	outros	fundos	de	natureza	institucional	cujos	beneficiários	podem	ser
individualmente	 determinados.	 Nestes	 casos,	 a	 inevitabilidade	 das	 demandas
individuais	 estaria	 patente.	 Portanto,	 o	 IRDR	 e	 os	 recursos	 repetitivos	 seriam
praticamente	 os	 únicos	 meios	 para	 se	 lograr	 a	 economia	 processual	 e	 a
preservação	do	princípio	da	isonomia.
Entretanto,	mesmo	nas	demais	hipóteses,	 em	que	não	há	 restrição	 legal,	 o
sistema	 não	 poderia	 permanecer	 passivo	 diante	 da	multiplicação	 de	 processos
individuais,	 congestionando	 o	 Poder	 Judiciário	 e	 ensejando	 decisões	 de	 teor
diverso,	diante	de	questões	 jurídicas	 comuns,	 comprometendo	a	 celeridade	 e	 a
credibilidade	da	prestação	jurisdicional.
Embora	a	própria	denominação	do	 IRDR	 indique	o	 escopo	voltado	para	 a
uniformização	 do	 entendimento	 nas	 demandas	 repetitivas,	 o	 seu	 regramento
legal	 acabou	 propiciando	 ao	 instituto	 uma	 abrangência	 ainda	 mais	 ampla,
porque,	 em	 tese,	 cabível	 a	 sua	 aplicação	 mesmo	 para	 casos	 heterogêneos,	 se
houver,	 em	 termos	 de	 direito	 material	 ou	 processual,	 controvérsia	 sobre	 uma
questão	 comum	 de	 direito	 que	 seja	 relevante	 para	 o	 processamento	 ou
julgamento	do	pedido	formulado.	É	o	que	se	pode	deduzir	do	contido	no	inciso	I
do	art.	976	do	CPC-2015.
A	hipótese	acima,	ou	seja,	de	aplicação	do	IRDR	em	demandas	relacionadas
a	 direitos	 individuais	 heterogêneos	 não	 pode	 ser	 desprezada	 quanto	 ao	 seu
alcance	 e	 importância	 para	 o	 sistema,	 na	 medida	 em	 que	 a	 questão	 comum35
1
pode	 se	 fazer	 presente	 em	 diversos	 processos,	 ainda	 que	 fundados	 em	 fatos
diversos.	A	questão	comum	pode	se	fazer	presente	na	própria	alegação	de	defesa,
não	sendo,	portanto,	a	base	para	a	demanda	repetitiva.
Muitos	 exemplos	 podem	 ser	 oferecidos,	 em	 sede	 de	 direito	 material	 ou
processual:	a)	o	alcance	da	ressalva	contida	no	§	5º	do	art.	37	da	Constituição	da
República36,	 em	 termos	de	 imprescritibilidade,	 para	 as	 ações	de	 ressarcimento,
fundadas	 em	 ato	 ilícito	 que	 causem	 prejuízo	 ao	 erário;	 b)	 a	 invocação,	 em
controle	 concreto,	 de	 inconstitucionalidade	 formal	 de	 uma	 lei,	 na	 qual	 haja	 a
regulamentação	 de	 situações	 diversas;	 c)	 necessidade	 de	 prévio	 requerimento
administrativo37,	 para	 se	 postular	 judicialmente	 pretensões	 administrativas	 ou
previdenciárias;	 d)	 a	 constitucionalidade,	 em	 controle	 difuso,	 de	 critério
estabelecido	para	a	concessão	de	assistência	jurídica.
Naturalmente,	 nestas	 hipóteses	 não	 seria	 possível	 o	 ajuizamento	 de
demandas	coletivas	e,	portanto,	o	 IRDR	seria	o	meio	de	coletivização	possível
para	 que	 a	 questão	 comum	 pudesse	 ser,	 de	 modo	 concentrado	 e	 mais	 célere,
definida,	possibilitando	o	acesso	à	justiça,	a	economia	processual	e	a	isonomia.
Portanto,	 o	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 insere-se
dentro	de	uma	perspectiva	instrumentalista38	do	processo,	que	precisa	oferecer	os
meios	tecnicamente	adequados	para	a	consecução	do	direito	material	em	tempo
razoável,	 de	 modo	 isonômico	 e	 econômico,	 ensejando	 a	 devida	 segurança
jurídica.
Sobre	este	fenômeno,	dentre	outros	que	devem	ser	criticamente	analisados,
José	 Carlos	 Barbosa	Moreira	 escreveu:	 “Não	 poucos	 críticos	 da	 situação
atual	deixam	entusiasmar-se	por	um	determinado	remédio	que	 lhes	parece
capaz	 de	 debelar	 todos	 os	 males.	 Só	 têm	 olhos	 para	 suposta	 panaceia.
Desdobram-se,	 a	 propósito	 de	 tudo	 e	 até	 sem	 propósito	 algum,	 em
exortações	ao	uso	da	receita.	Há	casos	de	autêntica	obsessão.	(...)	A	verdade
é	que	simplesmente	não	existe	fórmula	de	validade	universal	para	resolver
por	 inteiro	 a	 equação.	 Temos	 de	 combinar	 estratégias	 e	 táticas,	 pondo	 de
lado	o	receio	de	parecermos	incoerentes	se,	para	enfermidades	de	diferente
2
3
4
5
6
7
diagnóstico,	 experimentarmos	 remédios	 também	 diferenciados.	 O
simplismo	das	palavras	de	ordem,	já	indesejável	na	política,	revela-se	aqui
funesto.”	O	futuro	da	Justiça:	alguns	mitos.	Temas	de	Direito	Processual	–
Oitava	Série,	São	Paulo:	Saraiva,	2004,	p.	6-7.
Nesse	 sentido,	 CARNEIRO,	 Paulo	 Cezar	 Pinheiro;	 PINHO,	 Humberto
Dalla	Bernardina	de	(coords.),	Novo	Código	de	Processo	Civil:	Lei	13.105,
de	16	de	março	de	2015	–	anotado	e	comparado,	Rio	de	Janeiro:	Forense,
2015,	 p.	 569:	 “Uma	 das	 mais	 importantes	 inovações	 do	 Código	 é	 o
incidente	 de	 resolução	 de	 demandas	 repetitivas,	 que	 tem	 por	 escopo
promover	 uma	 superior	 concretização	 dos	 princípios	 da	 isonomia	 e	 da
segurança	jurídica”.
Como	 indica	 Luiz	 Fux:	 “O	 excesso	 de	 demandas	 mercê	 de	 pertencer	 ao
campo	 interdisciplinar	 da	 sociologia	 jurídica	 encontra	 amparo	na	 cláusula
do	acesso	à	justiça,	garantido	pelo	princípio	constitucional	de	que	nenhum
direito	ou	ameaça	a	direito	deve	escapar	à	apreciação	do	Poder	Judiciário.
(...)	O	 incidente	 revela-se	 vantajoso	 ao	 permitir	 a	 solução	 de	milhares	 de
demandas	com	idêntica	questão	jurídica,	por	meio	de	solução	única,	mercê
de	 tornar	 obrigatória	 a	 normação	 adotada	 que	 irá	 influir,	 inclusive	 na
admissibilidade	de	eventuaisrecursos	para	os	tribunais	locais	ou	superiores,
porquanto	fixada	a	tese,	a	sua	adoção	será	obrigatória”,	em	Teoria	Geral	do
Processo,	2.	ed.,	Rio	de	Janeiro:	Forense,	2016.
O	tema	foi	inicialmente	tratado	pelo	autor	no	livro	Ações	coletivas	e	meios
de	resolução	coletiva	de	conflitos	no	direito	comparado	e	nacional,	4.	ed.,
São	Paulo:	Revista	dos	Tribunais,	2014.
MENDES,	 Aluisio	 Gonçalves	 de	 Castro,	 Problemas	 e	 reforma	 do	 Poder
Judiciário	no	Brasil,	Revista	da	Escola	da	Magistratura	Regional	Federal,
v.	2.	Rio	de	Janeiro:	Escola	da	Magistratura	Regional	Federal,	2000.
A	 Alemanha	 é	 considerada	 o	 país	 com	 melhor	 relação	 entre	 número	 de
juízes	por	habitante	(um	para	cada	4.100	habitantes,	levando-se	em	conta	a
existência	 de	 uma	 população	 de	 82	 milhões	 de	 pessoas	 e	 20	 mil	 juízes,
segundo	 Perfil	 da	 Alemanha,	 p.	 15	 e	 198).	 Todavia,	 vários	 aspectos	 do
direito	 processual	 alemão	 foram	 objeto	 de	 discussão,	 tendo	 em	 vista	 a
proposta	 governamental	 de	 reforma	 do	 Código	 de	 Processo	 Civil	 (ZPO),
convertida	em	lei	no	mês	de	junho	de	2001.	A	Zivilprozessordnung	 (ZPO)
alemã	data	de	1877	e	tem	passado	por	constantes	atualizações	e	alterações.
Os	 dados	 foram	 extraídos	 diretamente	 do	 site	 do	 STF:
.	 Acesso	 em:	 2	 nov.
2015.
A	nova	sistemática	foi	regulamentada	apenas	na	Emenda	Regimental	nº	21,
de	30.04.2007,	que	foi	publicada	e	entrou	em	vigor	em	03.05.2007.
Dados	 retirados	 do	 site	 do	 STJ,	 disponível	 em:
,	em	02.11.2016.
Segundo	 o	 relatório	 Justiça	 em	 Números	 de	 2016,	 disponível	 no	 site	 do
CNJ:	 .	Acesso	 em:	 3
nov.	2016,	eram	estimados	nesta	data	7.461.819.961	de	pessoas.
Vide	MARINONI,	Luiz	Guilherme.	Novas	 linhas	do	processo	civil.	2.	ed.
São	Paulo:	Malheiros,	1996,	p.	53	e	ss.
A	 perspectiva	 de	 um	 processo	 civil	 para	 o	 direito	 do	 consumidor	 foi
reclamada	 e	 abordada	 por	 Harald	 Koch,	 no	 seu	 livro
Verbraucherprozeßrecht:	 verfahrensrechtliche	 Gewährleistung	 des
Verbraucherschutzes.	Heidelberg:	C.	 F.	Müller	 Jur.	Verlag,	 1990.	 (Direito
processual	 do	 consumidor:	 a	 garantia	 processual	 da	 proteção	 do
consumidor).	 Vide,	 também,	 a	 oportuna	 observação	 feita	 pelo	 National
Consumer	 Council,	 ao	 ser	 inquirido	 sobre	 novos	 procedimentos	 para
demandas	 coletivas,	 que	 acabou	 sendo	 consignada	 no	 relatório	 final	 do
Lorde	Woolf	sobre	acesso	à	Justiça:	“As	we	become	an	 increasingly	mass
producing	and	mass	consuming	society,	one	product	or	service	with	a	flaw
has	the	potential	to	injure	or	cause	other	loss	to	more	and	more	people.	Yet
our	 civil	 justice	 system	 has	 not	 adapted	 to	 mass	 legal	 actions.	 We	 still
largely	 treat	 them	as	a	collection	of	 individual	cases,	with	 the	 findings	 in
one	case	having	only	 limited	relevance	in	 law	to	all	of	 the	others”	(Como
nos	 tornamos,	de	modo	crescente,	uma	sociedade	de	produção	e	consumo
em	massa,	um	produto	ou	serviço	defeituoso	tem	o	potencial	de	prejudicar
ou	 causar	 dano	 para	mais	 e	mais	 pessoas.	O	 nosso	 sistema	 judicial	 ainda
não	está	adaptado	para	as	ações	judiciais	de	massa.	Nós	ainda	as	tratamos,
em	 grande	 parte,	 como	 uma	 coleção	 de	 casos	 individuais,	 possuindo
relevância	 limitada	 o	 julgamento	 de	 um	 caso	 sobre	 todos	 os	 demais)
(Woolf,	Lord	M.	R.	Final	report	on	access	to	justice.	jul.	1996).
Vide	SCHÄFER,	Hans-Bernd,	Anreizwirkungen	bei	der	Class	Action	und
der	 Verbandsklage	 In:	 BASEDOW,	 Jürgen	 (org.).	 Die	 Bündelung
gleichgerichteter	 Interessen	 im	Prozeß.	 Tübingen:	Mohr	Siebeck,	 1999;	 e
ALEXANDER,	Janet	Cooper,	An	introduction	to	class	action	procedure	in
the	 United	 States,	 que	 pode	 ser	 acessado	 em:
.
Só	 para	 se	 ter	 uma	 ideia,	 uma	 das	 maiores	 preocupações	 dos	 sindicatos
alemães	 é	 com	 o	 aspecto	 financeiro.	 As	 entidades	 procuram	manter,	 sob
sigilo	absoluto,	vultosas	economias,	pois	representam	poder	de	pressão	nas
negociações,	tendo	em	vista	que	os	sindicatos	se	preparam	para	custear	os
http://www.worldometers.info/licensing/
https://law.duke.edu/grouplit/papers/classactionalexander.pdf
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salários	 da	 categoria	 durante	 a	 greve.	Assim	 sendo,	 quanto	mais	 dinheiro
em	 caixa,	 por	 mais	 tempo	 poderá	 ser	 mantida	 a	 greve,	 o	 que,	 por
conseguinte,	irá	influenciar	no	poder	de	barganha	e	na	fixação	do	acordo.
O	tema	foi	especificamente	abordado	por	Luiz	Guilherme	Marinoni,	Novas
linhas	do	processo	civil,	cit.,	p.	32-34,	53-54.
Studi	sulle	“class	actions”,	Milão:	Cedam,	1996,	p.	195	e	ss.
Como	será	visto	na	seção	seguinte.
Segundo	 boletim	 estatístico	 fornecido	 pelo	 Setor	 de	 Organização	 e
Informática	da	Seção	Judiciária	do	Estado	do	Rio	de	Janeiro.
Nesse	 sentido,	 a	 introdução	 dos	 recursos	 repetitivos,	 nos	 anos	 de	 2006	 e
2008,	 é	 complementada	 no	 CPC/2015	 com	 a	 criação	 do	 IRDR,	 fazendo
com	que	a	sistemática	seja	adotada	para	todo	o	Poder	Judiciário.
É	 o	 que	 ocorre,	 por	 exemplo,	 nas	 comparações	 com	 a	 Alemanha,	 que
possui,	de	fato,	um	número	elevado	de	juízes	(exatos	20.300,	em	janeiro	de
2016;	 número,	 aliás,	 menor	 do	 que	 os	 20.999	 que	 funcionavam	 em
dezembro	 de	 1999),	 mas	 esse	 fato	 também	 ocorre	 porque	 os
Landesgerichte,	que	exercem	ora	a	 função	de	primeiro	grau	de	 jurisdição,
ora	 a	 de	 revisordos	 pronunciamentos	 dos	 Amtsgerichte,	 são	 órgãos
colegiados,	 fazendo	 com	 que	 haja	 o	 incremento	 do	 número	 de	 juízes	 em
proporção	não	coincidente	com	a	de	órgãos	julgadores.
GIUSSANI,	Andrea,	Studi	sulle	“class	actions”,	cit.,	p.	197.
CAPPELLETTI	Mauro;	GARTH,	Bryant,	Acesso	à	justiça,	cit.
GIUSSANI,	Andrea,	Studi	sulle	“class	actions”,	cit.,	p.	199.
Idem,	p.	200.
No	julgado	Western	Canadian	Shopping	Centres	Inc.	v.	Dutton,	2001	SCC
46,	[2001]	2	S.C.R.	534.
Em	 livre	 tradução:	 “as	 ações	 de	 classe	 propiciam	 eficiência	 e	 justiça,
assegurando	 que	 os	malfeitores	 de	 fato	 e	 em	 potencial	 não	 ignorem	 suas
obrigações	para	 com	o	público.	Sem	ações	 coletivas,	 aqueles	que	 causam
danos	 generalizados,	 mas	 mínimos	 individualmente,	 poderão	 não	 ter	 que
arcar	 integralmente	 com	os	 custos	 provenientes	 de	 suas	 condutas,	 porque
para	cada	demandante	a	despesa	com	o	ajuizamento	de	uma	ação	individual
poderá	exceder	em	muito	a	recompensa.	A	repartição	de	despesas	(em	uma
ação	coletiva)	reduz	os	custos	com	o	ajuizamento	de	medidas	processuais	e,
assim,	sendo	poderá	deter	potenciais	demandados	que	assumiriam,	de	outro
modo,	que	os	danos	de	bagatela	produzidos	não	resultariam	em	litígios”.
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MENDES,	Aluisio	Gonçalves	 de	Castro.	 Princípio	 da	 Inafastabilidade	 da
Prestação	 Jurisdicional	 à	 Luz	 do	Acesso	 à	 Justiça.	 In:	 TORRES,	Ricardo
Lobo;	 KATAOKA,	 Eduardo	 Takemi;	 GALDINO,	 Flavio.	 Dicionário	 de
princípios	jurídicos.	São	Paulo:	Elsevier	&	Campus,	2011.
A	análise	deste	aspecto	somente	é	 realizada	neste	 tópico,	 sob	o	prisma	da
função,	mas	será	retomada	em	outros	momentos,	como	no	capítulo	sobre	o
cabimento,	a	suspensão	dos	processos	individuais	etc.
Como	 se	 sabe,	 a	 questão	 foi	 apreciada	pelo	Plenário	 do	STF,	 no	Recurso
Extraordinário	 nº	 669.069,	 Rel.	 Min.	 Teori	 Zavascki,	 com	 trânsito	 em
julgado	em	31.08.2016.
A	questão	foi	decidida	pelo	Plenário	do	STF,	no	Recurso	Extraordinário	nº
631.240,	Rel.	Min.	Roberto	Barroso,	em	03.09.2014,	com	a	fixação	de	teses
e	regras	de	transição	para	variados	benefícios	e	situações	diversas.
Vide	especialmente:	DINAMARCO,	Cândido	Rangel.	A	instrumentalidade
do	 processo.	 3.	 ed.	 São	 Paulo:	 Malheiros,	 1993;	 Instituições	 de	 Direito
Processual	Civil.	 São	 Paulo:	Malheiros,	 2001;	Fundamentos	 do	 Processo
Civil	 moderno.	 5.	 ed.	 São	 Paulo:	 Malheiros,	 2002;	 BEDAQUE,	 José
Roberto	dos	Santos.	Direito	e	processo:	influência	do	direito	material	sobre
o	 processo.	 2.	 ed.	 São	 Paulo:	Maheiros,	 2001;	Efetividade	 do	 processo	 e
técnica	 processual.	 São	 Paulo:	 Malheiros,	 2006;	 Instrumentalismo	 e
garantismo:	visões	opostas	do	fenômeno	processual?	In:	BEDAQUE,	José
Roberto	 dos	 Santos;	 CINTRA,	 Lia	 Carolina	 Batista;	 EID,	 Elie	 Pierre.
Garantismo	 processual:	 Garantias	 processuais	 aplicadas	 ao	 processo.
Brasília:	Gazeta	Jurídica,	2016.
3.1. TEST	CLAIMS	(DEMANDAS	TESTE),	PILOT	JUDGMENTS
(JULGAMENTOS	PILOTO),	MUSTERVERFAHREN
(PROCEDIMENTO	MODELO),	GROUP	LITIGATION	ORDER
(DECISÃO	SOBRE	LITÍGIOS	DE	GRUPO)	E	OUTROS
JULGAMENTOS	DE	QUESTÕES	COMUNS	OU	POR
AMOSTRAGEM
No	 direito	 estrangeiro,	 as	 ações	 coletivas	 vêm	 se	 fortalecendo	 de	 modo
progressivo.	Mas	também	outros	institutos	vêm	se	desenvolvendo.	Em	especial,
o	 sistema	 de	 procedimento-modelo,	 test	 claim	 ou	 julgamento	 piloto,	 nas	 suas
variadas	configurações,	vem	assumindo	um	papel	destacado.	Nesse	contexto,	é
que	 se	 faz	 importante	 a	 análise	 dos	 equivalentes	 históricos	 do	 Incidente	 de
Resolução	de	Demandas	Repetitivas	no	direito	estrangeiro.	Várias	experiências
podem	 ser	 mencionadas:	 as	 antigas	 ações	 de	 ensaio	 (test	 claims)	 norte-
americanas	 e	 inglesas;	 os	 dois	 sistemas	 de	Musterverfahren	 na	 Alemanha;	 a
previsão	 contida	 na	 legislação	 de	 fundos	 de	 investimento	 da	 Suíça;	 o
mecanismo,	 não	 mais	 vigente,	 da	 agregação	 de	 ações	 no	 Regime	 Processual
Experimental	 português;	 a	 extensão	 de	 efeitos	 na	 jurisdição	 contenciosa
administrativa	da	Espanha;	a	Group	Litigation	Order	(GLO)1	da	Inglaterra	e	do
País	de	Gales;	e	até	mesmo	em	tribunais	internacionais,	como	o	Pilot-judgment
procedure	 da	 Corte	 Europeia	 de	 Direitos	 Humanos2.	 É	 de	 se	 ressaltar	 que	 os
novos	 instrumentos	 foram	 estabelecidos	 sem	 prejuízo	 das	 respectivas	 ações
coletivas,	ou	seja,	das	Verbandsklagen	 (ações	associativas)	na	Alemanha3	e	das
representatives	 actions	 (ações	 representativas)	 na	 Inglaterra	 e	 País	 de	 Gales,
ocorrendo	do	mesmo	modo	nos	demais	países.
O	 estudo	 das	 experiências	 supramencionadas	 é	 de	 grande	 relevância,
especialmente	 para	 a	 realização	 efetiva	 da	 comparação	 entre	 os	 respectivos
mecanismos,	sob	o	ponto	de	vista	das	pertinentes	características,	em	termos	de
finalidades,	concepção,	regramento,	efeitos	e	resultados	práticos.
Para	 que	 se	 possa	 realizar	 uma	 análise	 minimamente	 aprofundada	 e
considerando	 que	 o	 presente	 texto	 não	 se	 resume	 a	 um	 trabalho	 de	 direito
comparado,	optou-se	pelo	recorte	principalmente	da	experiência	alemã	em	torno
do	Musterverfaren.	Naturalmente,	um	ou	outro	aspecto	do	sistema	adotado	em
outros	 países	 poderá	 ser	 referido.	Esta	 escolha	 não	 foi	 aleatória,	 naturalmente.
Ela	se	deu	com	base	em	algumas	razões.
Em	 primeiro	 lugar,	 deve	 ser	 ressaltado	 o	 caráter	 preponderante	 que	 a
experiência	 alemã	 vem	 tendo	 em	 torno	 do	 denominado	 procedimento	modelo.
Como	 se	 verá	 adiante,	 a	 vivência	 em	 torno	 do	 instituto	 remonta	 ao	 final	 da
década	de	1970,	quando	se	 iniciou,	ainda	sem	regulamentação	 legal,	o	seu	uso
pelos	órgãos	judiciais	com	competência	para	as	causas	administrativas.
O	debate	em	torno	da	sua	utilização,	e	constitucionalidade,	chegou	em	1980
à	 Corte	 Constitucional.	 Em	 seguida,	 discutiu-se	 a	 sua	 regulamentação,	 que
entrou	em	vigor	em	1991,	na	Verwaltungsgerichtsordnung	 (VwGO)4	–	Estatuto
alemão	da	Jurisdição	Administrativa.
Em	 2005,	 é	 introduzido,	 em	 caráter	 experimental,	 um	 novo	 sistema	 de
Musterverfahren	no	âmbito	das	ações	relacionadas	ao	mercado	de	capitais,	com
a	 aprovação	 da	 KapMuG	 (Gesetz	 über	 Musterverfahren	 in
kapitalmarktrechtlichen	 Streitigkeiten	 –	 Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz
ou	 Lei	 sobre	 o	 Procedimento-Modelo	 nos	 conflitos	 jurídicos	 do	 mercado	 de
capital),	 tendo	a	 sua	vigência	 renovada	em	2010	e,	depois,	bastante	 reformado
em	 2012,	 com	 derrogação	 prevista	 para	 2020,	 caso	 não	 seja	 incorporado	 em
definitivo	 até	 lá.	 Neste	 interregno,	 houve,	 ainda	 em	 2008,	 a	 introdução	 do
3.2.
modelo	 público	 de	 Musterverfahren,	 adotado	 pela	 Justiça	 Administrativa,
também	 no	 ordenamento	 legal	 do	 ramo	 jurisdicional	 alemão	 que	 cuida	 da
Assistência	 e	Previdência	Social	 (Sozialgerichtsgesetz).	 Portanto,	 sob	o	prisma
desta	espécie	de	mecanismo,	o	procedimento-modelo	alemão	é	o	mais	regulado	e
o	mais	analisado	e	comentado	no	âmbito	nacional	e	internacional.
Há	 ainda	mais	 dois	motivos	que	 justificam	a	 escolha.	A	Alemanha	 é	 uma
referência	fundamental	no	âmbito	do	Direito	Processual	Civil,	dentro	da	família
do	Civil	 Law.	 A	 influência	 da	 escola	 processual	 alemã	 no	 cenário	 mundial	 é
notória,	 tendo	 direta	 e	 indiretamente	 significativa	 repercussão	 no	 Direito
Processual	Civil	brasileiro.	E,	de	modo	publicamente	assumido,	o	 Incidente	de
Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 inspirou-se,	 em	 termos	 de	 experiência
estrangeira,	 principalmente	 no	 instrumento	 alemão5.	 Esta	 influência,	 contudo,
não	foi	absoluta.	Muito	pelo	contrário,	o	 Incidente	de	Resolução	de	Demandas
Repetitivas	também	buscou	inspiração	no	próprio	Direito	Processual	brasileiro6
e,	 por	 outro	 lado,	 ousou	 inovar	 em	 vários	 aspectos,	 o	 que	 torna	 o	 estudo
comparado,	no	caso,	entre	os	dois	institutos	(o	Musterverfahren	e	o	IRDR),	um
exercício	complexo	e	desafiador.
Esta	 comparação	 com	 as	 principais	 fontes	 de	 inspiração	 do	 direito
estrangeiro	 se	 iniciarácom	a	 exposição	do	desenvolvimento	 do	procedimento-
modelo	 na	Alemanha,	 neste	 capítulo,	mas	 se	 prolongará	 ao	 longo	 dos	 demais,
sempre	 que	 a	 comparação	 puder	 fornecer	 subsídios	 para	 a	 análise	 do	 instituto
nacional.
O	SURGIMENTO	DO	MUSTERVERFAHREN	(PROCEDIMENTO-
PADRÃO)	NA	ALEMANHA:	A	EXPERIÊNCIA	PRÁTICA	SEM
PREVISÃO	LEGAL
Nas	 décadas	 de	 1960	 a	 1980,	 a	 Administração	 Pública	 da	 Alemanha
enfrentou	 uma	 grande	 quantidade	 de	 objeções	 a	 projetos	 relacionados	 com	 a
construção	de	usinas	nucleares.	Os	números	foram	expressivos:	16	mil	diante	do
centro	de	Breisig;	25	mil	quanto	a	Lingen	II;	55	mil	no	que	diz	respeito	a	Biblis;
64	 mil	 para	 com	 Breisach;	 75	 impugnações	 dirigidas	 a	 Brokdorf;	 e	 100	 mil
diante	do	centro	nuclear	de	Wyhl7.	Houve	 também	um	significativo	número	de
questionamentos	contrários	a	projetos	de	aeroportos	em	solo	germânico:	14	mil
ao	de	Bielefeld	Nagelholz;	15	mil	objeções	ao	de	Hamburg--Kaltenkirchen;	e	30
mil	ao	de	Düsseldorf.
A	legislação	alemã	prevê	a	possibilidade	de	um	controle	administrativo	dos
projetos	 públicos,	 com	 a	 possibilidade	 de	 se	 acessar	 a	 Justiça	 Administrativa
contra	a	decisão	proferida	no	procedimento	de	controle	perante	a	Administração
Pública.	 Este	 controle	 massivo	 administrativo	 deslocou-se,	 no	 momento
seguinte,	para	o	ramo	especializado	do	Poder	Judiciário.
A	quantidade	elevada	de	procedimentos	administrativos	e	judiciais	começou
a	ser	percebido	pelo	governo	alemão	e	pela	academia.	No	ano	de	1975,	o	então
professor	 da	 Universidade	 de	 Speyer,	 Hans-Werner	 Laubinger,	 elabora,
atendendo	 solicitação	 do	Ministério	 da	 Justiça,	 um	 parecer	 sobre	 um	 possível
regramento	 legal	 futuro	 para	 procedimentos	 de	 massa	 no	 Direito	 Processual
Administrativo	 e	 no	 Direito	 Processual	 para	 as	 Cortes	 Administrativas
(Gutachten	 über	 eine	 künftige	 gesetzliche	 Regelung	 für	 Massenverfahren	 im
Verwaltungsverfahrensrecht	 und	 im	 Verfahrensrecht	 für	 die
Verwaltungsgerichte).
Em	 1979,	 diante	 do	 projeto	 de	 construção	 do	 aeroporto	 internacional	 de
Munique,	foram	ajuizadas	5.724	demandas	perante	o	Tribunal	Administrativo	de
Munique.	 Considerando	 a	 avalanche	 de	 demandas,	 as	 dificuldades	 para	 o
andamento	 concomitante	 destes	 processos	 e	 verificando	 que	 havia	 uma
identidade	muito	significativa,	em	termos	de	fatos	e	alegações,	o	órgão	judicial
de	primeiro	grau	(Verwaltungsgericht	München)	 resolve	 inovar,	 efetuando	uma
triagem	inicial	de	40	procedimentos,	que	teriam	seguimento	para	processamento,
produção	 de	 provas	 e	 julgamento.	 Os	 demais	 permaneceriam	 suspensos,	 por
tempo	 indeterminado,	 aguardando	 o	 julgamento	 paradigmático	 dos
procedimentos-modelo	(Musterverfahren).
É	de	 se	 ressaltar	que,	na	época,	1979-1980,	 a	 legislação	alemã	não	previa
expressamente	 o	 referido	 procedimento	 adotado	 (Musterverfahren).	 A	 decisão
adotada	pelo	órgão	de	primeiro	grau	de	Munique	foi	questionada	perante	a	Corte
Constitucional	 (Bundesverfassungsgericht)	 da	 República	 Federativa	 da
Alemanha	 que,	 no	 mesmo	 ano,	 decidiu	 pela	 constitucionalidade	 da	 medida
adotada	 pelo	 tribunal	 de	 primeira	 instância,	 entendendo	 ainda	 que	 a	 queixa
constitucional	havia	sido	abusivamente	utilizada,	razão	pela	qual	fixou	multa	por
litigância	de	má	fé	contra	os	queixosos8.
Na	ocasião,	a	Corte	Suprema	alemã	considerou	que	o	 tribunal	de	primeiro
grau	 estava	diante	de	um	problema	processual	 e	 que	 se	deveria	 analisar	 o	que
poderia	o	órgão	judicial	efetuar.	Em	especial,	afastou	as	alegações	de	afronta	ao
art.	19,	(4),	1;	e	art.	3,	(1),	ambos	da	Lei	Fundamental.	Os	dispositivos	tratam,
respectivamente,	dos	princípios	da	 inafastabilidade	da	prestação	 jurisdicional	e
da	igualdade	perante	a	lei.
Na	 motivação,	 mencionou-se	 que	 o	 primeiro	 dispositivo	 constitucional
garante	 a	 mais	 completa	 proteção	 judicial	 possível	 contra	 a	 alegada	 lesão	 à
esfera	jurídica	dos	cidadãos	praticada	pelo	Poder	Público.	Entendeu-se	que	isso
garantia	 também	 um	 procedimento	 judicial	 dentro	 de	 tempo	 razoável,	 o	 que
estaria	sendo	viabilizado	mediante	a	inovação	experimentada.
No	 mais,	 afirmou	 a	 Suprema	 Corte	 que	 o	 procedimento	 adotado	 não
afastaria	a	proteção	judicial	daqueles	que	tiveram	os	processos	suspensos,	após	o
julgamento	 padrão,	 com	 a	 formulação	 de	 sentenças	 padrão	 (Musterurteile),
porque	teriam	os	seus	direitos	processuais	preservados	e,	em	caso	de	premência,
poderiam,	mesmo	antes,	requerer	medidas	de	urgência.
Por	 fim	 e	 em	 síntese,	 afastou	 a	 alegação	 de	 abuso	 de	 autoridade,	 por
entender	 que	 a	 escolha	 feita	 pelo	 órgão	 judicial	 foi	 realizada	 a	 partir	 de
fundamentos	 plausíveis,	 em	 razão	 da	 economia	 propiciada	 pela	 escolha	 de
alguns	dos	5.724	procedimentos	para	a	realização	das	provas	e	o	prosseguimento
do	processo9.
Dos	40	procedimentos-modelo	inicialmente	selecionados,	34	chegaram,	em
27.05.1981,	 a	 decisões	 finais	 de	 improcedência,	 contra	 as	 quais	 foram
interpostas	 apelações	 em	 31	 processos.	 Em	 1991,	 encerraram-se	 todos	 os
processos,	 após	 os	 julgamentos	 dos	 recursos	 perante	 os	 tribunais	 de	 2º	 grau	 e
superior	(Verwaltungsgerichtshof	e	Bundesverwaltungsgericht).
Estima-se10	que	a	economia	obtida	com	a	suspensão	dos	processos,	no	caso
do	 aeroporto	 de	 Munique,	 foi	 de	 89	 milhões	 de	 marcos	 alemães	 (moeda	 da
época),	equivalentes	a	cerca	de	45,5	milhões	de	euros	ou	160	milhões	de	reais11.
A	 criação	 e	 a	 utilização	 do	 procedimento-modelo	 na	 Alemanha	 suscitam
uma	 primeira	 reflexão	 quanto	 à	 prescindibilidade	 de	 previsão	 legal	 para	 a
aplicação	da	técnica.	A	resposta	da	Corte	Constitucional	foi	clara	no	sentido	de
que	 a	 técnica	 de	 processamento	 e	 de	 julgamento	 foi	 uma	 solução	 prática	 e
consentânea	 com	 os	 princípios	 constitucionais,	 especialmente	 o	 do	 acesso	 à
justiça	 e	 da	 inafastabilidade	 da	 prestação	 jurisdicional,	 cuja	 garantia	 deve
abranger	a	ideia	de	efetividade	do	processo	dentro	de	uma	duração	razoável.
Portanto,	os	órgãos	judiciais,	ao	elaborarem	o	procedimento-modelo,	agiram
em	conformidade	com	a	previsão	maior	da	Carta	Magna,	não	se	verificando,	em
tese,	qualquer	mácula	para	as	partes	que	tiveram	os	seus	processos	suspensos,	na
medida	em	que	não	se	obstaculizariam	os	direitos	processuais	a	serem	exercidos
quando	 da	 aplicação	 do	 entendimento	 firmado	 nos	 processos	 que	 ficaram
aguardando,	bem	como	da	possibilidade	de	serem	requeridas	eventuais	medidas
urgentes.	 Contudo,	 a	 Corte	 Constitucional	 alemã	 ficou	 adstrita	 aos
questionamentos	 firmados	naquele	 julgamento,	 sem	se	pronunciar	 sobre	outras
questões,	como	a	própria	sistemática	de	aplicação	do	entendimento	firmado	nos
julgamentos	 modelo	 nos	 processos	 pendentes,	 tendo	 em	 vista	 que	 ainda	 não
havia	uma	clara	regulamentação	da	questão.
É	 de	 se	 concluir,	 portanto,	 sobre	 a	 possibilidade	 dos	 próprios	 tribunais
estabelecerem	mecanismos	de	gestão,	como	o	do	procedimento	modelo,	com	o
escopo	de	garantir	a	economia	processual	e,	consequentemente,	do	princípio	do
acesso	 à	 justiça	 e	 da	 efetividade	 do	 processo	 dentro	 de	 um	 tempo	 razoável.
Nesse	sentido,	pode-se	apontar,	no	Brasil,	que	o	regramento	das	ações	coletivas
e	dos	recursos	repetitivos,	inicialmente,	à	luz	do	CPC	revogado	e	da	legislação
especial,	não	previa,	por	exemplo,	a	suspensão	de	ofício	dos	processos,	mas,	tão
somente,	a	suspensão	requerida,	no	caso	das	ações	coletivas,	e	o	sobrestamento
dos	recursos,	na	hipótese	dos	repetitivos.	Entretanto,	a	suspensão	dos	processos
incorporou-se	na	prática	 forense,	 inclusive	do	Supremo	Tribunal	Federal	e	dos
3.3.
Tribunais	 Superiores12,	 a	 partir	 de	 razões	 de	 ordem	 prática.	 Por	 fim,	 esta
sistemática	foi	sedimentada	no	Código	de	Processo	Civil	de	2015.
A	INTRODUÇÃO	DO	MUSTERVERFAHREN	NO
ORDENAMENTO	JURÍDICO	ALEMÃO
Com	 a	 experiência	 prática	 do	 procedimento-modelo	 na	 Justiça
Administrativa	deMunique	e	a	sua	chancela	pela	Corte	Constitucional,	houve	o
encaminhamento,	em	27.04.1990,	da	proposta	de	inserção	de	um	novo	parágrafo
(93a)	 no	 Estatuto	 da	 Justiça	 Administrativa	 (Verwaltungsgerichtsordnung	 –
VwGO),	 de	 1960,	 prevendo	 expressamente,	 no	 ordenamento	 legal,	 o
Musterverfahren.	O	parlamento	alemão	aprovou	em	17.12.1990,	o	projeto	de	lei,
entrando	 em	 vigor	 o	 novel	 §	 93a,	 com	 a	 regulamentação	 do	 procedimento
modelo	no	âmbito	da	jurisdição	administrativa,	em	01.01.1991.
Em	 seguida,	 o	 julgamento-padrão	 foi	 introduzido	 no	 âmbito	 do	 mercado
mobiliário	mediante	 a	 edição	 da	Lei	 sobre	 procedimento-modelo	 nos	 conflitos
jurídicos	 do	 mercado	 de	 capitais	 (Gesetz	 über	 Musterverfahren	 in
kapitalmarktrechtlichen	 Streitigkeiten	 –	 KapMuG),	 de	 16.08.2005,	 que	 entrou
em	 vigor	 em	 01.11.2005.	 A	 referida	 lei	 foi	 concebida	 como	 uma	 experiência
temporária,	 com	 término	 de	 vigência	 inicialmente	 previsto	 para	 01.11.2010.
Mas,	o	período	de	vigência	acabou	sendo	prorrogado13	até	31.10.2012.	Por	fim,
uma	nova	 versão	 da	 lei	 entrou	 em	vigor	 no	 dia	 01.11.2012,	 sofrendo	 pequena
alteração	 em	 04.07.2013.	 O	 texto	 atual14	 manteve	 o	 caráter	 temporário	 da
KapMuG,	 prevendo	 expressamente,	 no	 seu	 §	 28,	 a	 sua	 derrogação	 a	 partir	 de
01.11.2020.
A	 edição	 da	 KapMuG	 decorreu	 da	 grande	 quantidade	 de	 demandas
individuais	que	foram	ajuizadas	na	Alemanha,	especialmente	em	Frankfurt,	em
face	 da	 empresa	 Deutsche	 Telekom,	 que	 possui	 cerca	 de	 três	 milhões	 de
acionistas,	sob	o	fundamento	de	que	a	demandada	teria	produzido,	nos	anos	de
1999	 e	 2000,	 prospectos	 com	 informações	 incorretas,	 gerando	 prejuízos	 aos
investidores.	O	número	elevado	de	processos,	aproximadamente	doze	mil	apenas
no	Landesgericht	de	Frankfurt,	ensejou	demora	nos	 julgamentos	e	 reclamações
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3
que	chegaram	até	a	Corte	Constitucional	alemã,	sob	a	alegação	de	denegação	de
justiça,	 tendo	a	Corte	Suprema,	 já	 em	2004,	 apontado	para	os	órgãos	 judiciais
envolvidos	 que	 deveriam	 adotar	 outros	 procedimentos	 como	 o	 julgamento	 de
casos-modelo	para	a	prestação	jurisdicional.15
Por	 fim,	 no	 ano	 de	 2008,	 o	 legislador	 alemão	 insere16	 o	 instrumento	 do
procedimento-modelo	também	no	âmbito	do	ramo	do	Poder	Judiciário	que	cuida
dos	conflitos	envolvendo	a	previdência	e	assistência	social,	com	a	introdução	do
parágrafo	114a	na	Sozialgerichtsgesetz,	contendo	praticamente	o	mesmo	texto	do
parágrafo	93a	do	Estatuto	da	Justiça	Administrativa.
É	de	se	notar	que	os	procedimentos	adotados	nos	ramos	administrativo	e	da
previdência	 e	 assistência	 social	 são	 idênticos,	 mas	 diferem	 do	 que	 foi
estabelecido	para	o	mercado	de	capitais,	razão	pela	qual	serão	expostos,	objetiva
e	 separadamente,	 nos	 capítulos	 seguintes.	Em	 termos	metodológicos,	 ao	 longo
dos	dois	capítulos	se	fará	não	apenas	uma	descrição	dos	dois	sistemas	existentes
na	Alemanha,	mas	se	 tentará	 realizar	a	comparação	 interna.	Embora	 tida	como
fonte	secundária,	a	experiência	inglesa	também	será	detalhada	em	outro	capítulo.
Por	 fim,	 os	 elementos	 colhidos	 do	 direito	 estrangeiro	 servirão	 também	 para	 a
realização	do	cotejo	com	as	soluções	adotadas	para	o	IRDR	no	direito	brasileiro.
A	Inglaterra	e	o	País	de	Gales	editam,	em	2000,	o	seu	primeiro	Código	de
Processo	 Civil,	 com	 a	 previsão	 das	 decisões	 de	 litígios	 de	 grupo	 (Group
Litigation	Order),	ao	lado	da	própria	demanda-teste	(test	claim).
Vide	 ESCHMENT,	 Jörn.	 Musterprozesse	 vor	 dem	 Europäischen
Gerichtshof	für	Menschenrechte.	Frankfurt:	Peter	Lang,	2010.
Para	um	estudo	mais	geral	sobre	a	tutela	coletiva	na	Alemanha,	podem	ser
indicadas,	 dentre	 outras	 que	 serão	 mencionadas,	 as	 seguintes	 obras:
BASEDOW,	Jürgen;	HOPT,	Klaus	J.;	KÖTZ,	Hein;	BETGE,	Dietmar.	Die
Bündelung	 gleichgerichteter	 Interessen	 im	 Prozeß.	 Tübingen:	 Mohr
Siebeck,	 1999;	 BRÖNNEKE,	 Tobias	 (Hrsg.)	Kollektiver	 Rechtsschutz	 im
Zivilprozeßrecht.	 Baden-Baden:	 Nomos,	 2001;	 BURCKHARDT,	 Markus.
Auf	em	Weg	zu	einer	class	action	 in	Deutschland?	Baden-Baden:	Nomos,
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6
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2005;	 EINHAUS,	 Stefan.	 Kollektiver	 Rechtsschutz	 im	 englischen	 und
deutschen	 Zivilprozessrecht.	 Berlin:	 Duncker	 &	 Dumblot,	 2008;
HALFMEIER,	 Axel.	 Popularklagen	 im	 Privatrecht.	 Tübingen:	 Mohr
Siebeck,	 2006;	 KESKE,	 Sonja	 E.	 Group	 Litigation	 in	 European
Competition	 Law:	 A	 Law	 and	 Economics	 Perspective.	 Intersentia,	 2010;
KOHLER,	 Kristin.	 Die	 grenzüberschreitende	 Verbraucherberbandsklage
nach	dem	Unterlassungsklagengesetz	im	Binnenmarkt.	Frankfurt	am	Main:
Peter	 Lang,	 2008;	 LANGE,	 Sonja.	 Das	 begrenzte	 Gruppenverfahren.
Tübingen:	Mohr	Siebeck,	2011;	OR-GEL,	Marc.	Class	arbitration:	Von	der
Gruppenklage	 zum	 Gruppenschiedsverfahren	 und	 zurück?	 Eine
Untersuchung	zum	U.S.-amerikanischen	Schiedsverfahrensrecht.	Tübingen:
Mohr	 Siebeck,	 2013;	 SÄCKER,	 Franz	 Jürgen.	 Die	 Einordnung	 der
Verbandsklage	in	das	Szstem	des	Privatrechts.	München:	C.	H.	Beck,	2006.
§	93a.
Na	exposição	de	motivos	redigida	pela	comissão	que	elaborou	o	anteprojeto
do	 novo	 Código	 de	 Processo	 Civil	 brasileiro,	 indica-se	 expressamente	 a
inspiração	no	direito	alemão.
Não	 obstante	 a	 fonte	 estrangeira,	 pode-se	 apontar	 que	 o	 novo	 instituto,
encontra	 raízes	 também	 nos	 denominados	 incidentes	 de	 recursos
repetitivos,	 previstos	 nos	 artigos	 543-B	 e	 543-C	 do	 CPC/1973,
respectivamente	para	os	recursos	extraordinário	e	especial,	a	partir	dos	anos
de	 2006	 e	 2008.	 Estes	 mecanismos	 propiciaram	 razoável	 redução	 no
número	 de	 processos	 em	 tramitação	 no	 Supremo	 Tribunal	 Federal	 e	 no
Superior	Tribunal	de	Justiça.	O	incidente	agora	proposto	terá	como	objetivo
a	 redução	 do	 número	 de	 processos	 nos	 tribunais	 de	 segundo	 grau	 e	 a
suspensão	 dos	 processos	 em	 primeiro	 grau,	 propiciando	 economia,	 mas
também	uniformidade	e	segurança	na	prestação	jurisdicional.
Os	 dados	 são	 mencionados	 na	 obra	 de	 Walter	 Christian	 Schmel,
Massenverfahren	 vor	 den	 Verwaltungsbehörden	 und	 den
Verwaltungsgerichten:	 Darstellung	 des	 Problems	 und	 Überprüfung	 der
besonderen	Regelungen	zur	Behandlung	und	Bewältigung,	Berlin:	Duncker
&	Humblot,	de	1982.
BVerfG,	 decisão	 de	 27.03.1980,	 Az.	 2	 BvR	 316/80,	 assim	 ementada:
Verfassungsrechtliche	Unbedenklichkeit	bei	Auswahl	von	Musterverfahren
–	Flughafen	München.	Es	ist	von	Verfassungs	wegen	nicht	zu	beanstanden,
wenn	 ein	Verwaltungsgericht	 für	 die	mündliche	Verhandlung	 von	 den	 bei
ihm	 anhängigen	 5.724	Verfahren	 gegen	 den	 Planfeststellungsbeschluß	 für
9
einen	 Flughafen	 einige	 auswählte	 und	 die	 Verhandlung	 der	 anderen
einstweilen	zurückstellt.
“Gründe:	 Das	 Verwaltungsgericht	 verstößt	 nicht	 gegen	 Verfassungsrecht,
wenn	es	für	die	mündliche	Verhandlung	im	April,	Mai,	Juni	und	Juli	1980
von	 den	 bei	 ihm	 anhängigen	 5.724	 Verfahren	 gegen	 den
Planfeststellungsbeschluß	 für	 den	 Flughafen	M.	 einige	 auswählte	 und	 die
Verhandlung	der	anderen	einstweilen	zurückstellt.
Es	 liegt	 auf	 der	 Hand,	 daß	 das	 vorliegende	 Großverfahren,	 an	 dem	 eine
Vielzahl	 von	 Klägern	 beteiligt	 ist	 und	 das	 eine	 komplexe
Behördenentscheidung	 zum	 Gegenstand	 hat,	 das	 Verwaltungsgericht	 vor
ungewöhnliche	 verfahrensrechtliche	 Probleme	 stellt.	 Die	 Frage,	 welche
prozessualen	 Maßnahmen	 das	 Gericht	 zur	 Durchführung,	 Vereinfachung
und	 Beschleunigung	 dieses	 Großverfahrens	 im	 einzelnen	 treffen	 kann,
bestimmt	 sich	 in	 erster	 Linie	 nach	 einfachem	 Prozeßrecht,	 dessen
Anwendung	 und	 Auslegung	 vom	 Bundesverfassungsgericht	 grundsätzlich
nicht	 nachgeprüft	 wird.	 Es	 mag	 dahinstehen,	 ob	 die	 Durchführung	 einer
einzigen	 mündlichen	 Verhandlung	 für	 alle	 5.724	 anhängigen	 Verfahren
überhaupt	möglich	wäre,	was	mit	guten	Gründen	bezweifelt	werden	kann.
Mit	seinem	Vorgehen	verkennt	das	Verwaltungsgericht	jedenfalls	nicht	die
Tragweite	der	Grundrechte	der	Beschwerdeführer.
1.	Art.	19	Abs.4	Satz	1	GG	ist	nicht	verletzt.	Diese	Vorschrift	gewährleistet
einen	 möglichst	 lückenlosen	 gerichtlichen	 Schutz	 gegen	 die	 behauptete
Verletzung	der	Rechtssphäre	des	Einzelnen	durch	Eingriffe	der	öffentlichen
Gewalt	 (BVerfGE	 8,	 274	 [326],	 stRspr).	 Sie	 garantiert	 auch	 die
Wirksamkeit	 des	 Rechtsschutzes;	 der	 Bürger	 hat	 einen	 substantiellen
Anspruch	 auf	 eine	 möglichst	 wirksame	 gerichtliche	 Kontrolle	 (BVerfGE
40,	272	[275],	stRspr).	Dies	erfordert	die	Durchführung	eines	gerichtlichen
Verfahrens	 innerhalb	 angemessener	 Zeit.	 Die	 Bemessung	 der
Verfahrenskosten	darf	nicht	in	einer	Weise	erfolgen,	die	es	dem	Betroffenen
praktisch	unmöglich	macht,	das	Gericht	anzurufen	 (vgl.	BVerfGE	11,	139
[143]).
a)	Für	die	Beschwerdeführer,	über	deren	Verfahren	das	Verwaltungsgericht
demnächst	 verhandeln	 will,	 wird	 der	 Rechtsschutz	 nicht	 in
verfassungsrechtlich	 unzulässiger	 Weise	 erschwert.	 Zwar	 mag	 sich	 das
Prozeßkostenrisiko	 für	 sie	 erhöhen,	 wenngleich	 sich	 auch	 nicht	 ohne
weiteres	mit	einer	Steigerung	der	Gerichtskosten	und	der	Anwaltsgebühren
rechnen	 müssen,	 weil	 sich	 der	 Gegenstandswert	 bei	 Anfechtungsklagen
gegen	Planfeststellungsbeschlüsse	nach	der	herrschenden	Meinung	aus	der
Beeinträchtigung	 des	 einzelnen	 Klägers	 errechnet.	 Die	 Beschwerdeführer
können	im	Hinblick	auf	Art.	19	Abs.	4	Satz	1	GG	aber	nicht	verlangen,	daß
das	 Prozeßkostenrisiko	 durch	 gleichzeitige	 Verhandlung	 aller	 beim
Verwaltungsgericht	anhängiger	Verfahren	möglichst	niedrig	gehalten	wird.
Das	 Kostenrisiko	 ist	 für	 sie	 im	 Rahmen	 des	 bei	 einem	 Großverfahren
Möglichen	 abschätzbar.	 Sie	 mußten	 ohnedies	 von	 vornherein	 damit
rechnen,	 daß	 das	 Verwaltungsgericht	 zunächst	 nur	 über	 einige	 Verfahren
verhandeln	 würde.	 Im	 übrigen	 hat	 keiner	 der	 Beschwerdeführer
vorgetragen,	daß	er	zur	Rechtsverfolgung	außerstande	sei	und	die	für	diesen
Fall	vorgesehene	Möglichkeit	der	Beantragung	des	Armenrechts	(vgl.	§	166
VwGO	iVm	§§	114	ff.	ZPO	)	bereits	vergeblich	ausgeschöpft	hätte.
b)	Auch	für	die	Beschwerdeführer,	deren	Verfahren	das	Verwaltungsgericht
vorerst	 zurückgestellt	 hat,	 wird	 der	 Rechtsschutz	 nicht	 in
verfassungsrechtlich	unzulässiger	Weise	erschwert.	Ihnen	werden	nach	dem
Ergehen	 der	 ‚Musterurteile‘	 noch	 alle	 prozessualen	 Möglichkeiten
offenstehen,	 umfassenden	 gerichtlichen	 Schutz	 zu	 erlangen.	 Unbeschadet
der	 bereits	 ergangenen	 Entscheidungen	 werden	 sie	 ihre	 besonderen
Anliegen	 vorbringen	 und	 eine	 umfassende	 Nachprüfung	 des
Planfeststellungsbeschlusses	 herbeiführen	 können.	 Bei	 einem	 etwaigen
Baubeginn	steht	 ihnen	die	Möglichkeit	offen,	vorläufigen	Rechtsschutz	zu
begehren.	 Angesichts	 des	 außerordentlichen	 Umfangs	 des	 gesamten
Verfahrens	 kann	 derzeit	 auch	 nicht	 davon	 ausgegangen	 werden,	 daß	 die
zurückgestellten	 Verfahren	 unangemessen	 verzögert	 werden,	 wenn	 das
Verwaltungsgericht	 für	 sie	 vorerst	 einen	 Termin	 zur	 mündlichen
Verhandlung	nicht	anberaumt.
2.	Das	Vorgehen	des	Verwaltungsgerichts	verstößt	nicht	gegen	Art.	3	Abs.	1
GG.	Das	Verwaltungsgericht	 handelte	 nicht	willkürlich.	 Es	 gibt	 sachliche
Gründe	dafür,	zunächst	nur	für	einige	der	5.724	Verfahren	eine	mündliche
Verhandlung	 anzuberaumen.	 Diese	 Gründe	 bedürfen	 keiner	 weiteren
Darlegung.	Das	Verwaltungsgericht	 ist	 auch	 bemüht,	 die	Auswahl	 der	 zu
verhandelnden	Verfahren	nach	sachlichen	Gesichtspunkten	zu	treffen.	Daß
für	 dieses	 Vorgehen	 eine	 besondere	 gesetzliche	 Ermächtigung	 in	 der
Verwaltungsgerichtsordnung	 fehlt,	 stößt	 nicht	 auf	 verfassungsrechtliche
Bedenken.
Da	 die	 Verfassungsbeschwerde	 offensichtlich	 der	 Verzögerung	 des
verwaltungsgerichtlichen	Verfahrens	 dienen	 soll,	 ist	 sie	mißbräuchlich	 im
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Sinne	 des	 §	 34	 Abs.	 5	 BVerfGG.	 Den	 Beschwerdeführern	 wird	 daher
jeweils	eine	Gebühr	in	Höhe	von	einhundert	Deutsche	Mark	auferlegt.
Diese	Entscheidung	ist	unanfechtbar.”	BVerfG,	Beschluß	vom	27.03.1980	–
Aktenzeichen	2	BvR	316/80.
Os	 dados	 foram	 indicados	 por	 Jan	 J.	 Kruppa,	 na	 obra	 Kapitalanleger-
Musterverfahrensgesetz	(KapMuG)	–	Bestandsaufnahme	und	Perspektiven,
Hamburg:	Kovac,	2011,	p.	82.
As	conversões	 foram	feitas,	 respectivamente,	 levando	em	consideração	os
valores	de	câmbio	indicados	pelo	site	https://coinmill.com	e	pelo	 jornal	O
Globo	(http://oglobo.globo.com/),	acessados	em	10.11.2016.
No	Superior	Tribunal	 de	 Justiça,	 a	 questão	 foi	 debatida	 especialmente	 no
REsp	 nº	 1.110.549	 –	 RS,	 que	 pode	 ser	 considerado	 um	 marco	 sobre	 o
assunto,	 tendo	se	originado	de	situação	que	guarda	certa	similitude	com	o
contexto	 alemão.	 A	 situação	 surgiu	 por	 ocasião	 do	 lapso	 final	 para	 o
ajuizamento	 de	 demandas	 relacionadas	 aos	 expurgos	 inflacionários	 em
cadernetas	de	poupança,	quando	houve	um	número	muito	elevado	de	novos
processos,	especiamente	no	Rio	Grande	do	Sul.	Houve	varas	que	receberam
milhares	de	processos	em	apenas	alguns	dias,	 tendo	se	 tornado	 inviável	o
processamento	 destas	 demandas,	 diante	 da	 falta	 de	 recursos	 materiais	 e
humanos	disponíveis.	Como	solução	para	o	problema,	os	juízes	de	primeiro
grau	 começaram	 a	 entender	 que	 deveriam	 priorizar	 as	 ações	 coletivas,
separando-as	 por	 instituição	 financeira,	 suspendendo	 os	 respectivos
processos	 individuais	 até	 a	 decisão	 final	 coletiva.	 Com	 o	 trânsito	 em
julgado	 da	 decisão	 coletiva,	 haveria,	 conforme	 o	 caso	 de	 procedência	 ou
não	 dos	 pedidos	 formulados	 coletivamente,	 a	 aplicação	 do	 resultado	 nos
respectivos	processos	individuais	suspensos.
Por	força	do	art.	5.º	da	Lei	de	24.07.2010.
Vide	 o	 texto	 vigente,	 na	 íntegra,	 nas	 versões	 em	 alemão	 e	 em	 inglês,	 em
Vide	BverfG	(2004)	3321.
Mediante	 a	 Lei	 para	 a	 modificação	 do	 Estatuto	 da	 Justiça	 Social	 e	 do
Estatuto	 da	 Justiça	 do	 Trabalho	 (Gesetz	 zur	 Änderung	 des
Sozialgerichtsgesetzes	 und	 des	Arbeitsgerichtsgesetzes	 (SGGuaÄndG),	 de
26.03.2008,	que	entrou	em	vigor	no	dia	01.04.2008,	nos	termos	do	art.	5º.
https://coinmill.com
http://oglobo.globo.com/
https://www.gesetze-im-internet.de/kapmug_2012/
https://www.gesetze-im-internet.de/englisch_kapmug/index.html
4.1.
Capítulo	4
O	MUSTERVERFAHREN	(PROCESSO-
MODELO)	DA	JURISDIÇÃO	ADMINISTRATIVA
E	DA	PREVIDÊNCIA	E	ASSISTÊNCIA	SOCIAL
CONSIDERAÇÕES	INICIAIS.	O	REGRAMENTO	SUCINTO	E
UNIFICADO	PARA	O	MUSTERVERFAREN	NO	DIREITO
PÚBLICO
Os	Estatutos	da	Jurisdição	Administrativa	(Verwaltungsprozessordnung),	no
§	93a1,	e	da	Previdência	e	Assistência	Social	(Sozialgerichtsgesetz),	no	§	114a2,
possuem	 praticamente	 a	 mesma	 previsão	 no	 que	 diz	 respeito	 ao
Musterverfahren.3
As	 respectivas	 normas	 estão	dispostas	 em	um	único	dispositivo4,	 como	 se
indicou	 acima,	 subdividido	 em	 duas	 partes	 (1)	 e	 (2),	 contendo	 a	 primeira	 três
orações,	enquanto	a	segunda	parte,	seis.	É	de	se	notar,	portanto,	que	se	trata	de
um	 regramento	 extremamente	 sucinto.	 Esta	 característica	 poderia	 ser	 atribuída
ao	caráter	incipiente	do	instituto,	quando	da	sua	aprovação,	em	1990.	Mas,	como
supramencionado,	foi	praticamente	mantido	in	totum	o	texto,	quando	transposto
para	o	Estatuto	da	 Justiça	Social	 (Previdenciária),	 no	 ano	de	2008,	 denotando,
assim,	o	propósito	de	manter	um	regramento	objetivo	e	unificado	no	âmbito	do
direito	público.
O	 regramento	 mínimo	 indica	 o	 comando	 no	 sentido	 de	 manutenção	 do
“devido	 processo	 legal”	 a	 partir	 das	 normas	 comuns,	 preservando,	 assim,	 não
apenas	o	“juiz	natural”,	mas	o	próprio	procedimento	e	julgamento	que	os	casos-
piloto	teriam,	se	desprovidos	da	qualidade	paradigmática5.
4.2.
No	 Musterverfahren	 há	 o	 julgamento	 completo	 do(s)	 pedido(s)
formulado(s),	havendo,	portanto,	cognição	ampla	e	exauriente,	com	a	apreciação
das	questões	de	fato	e	de	direito.	Por	esta	razão,	a	produção	de	prova	é	ampla.
CABIMENTO	E	ADMISSIBILIDADE.ESCOLHA	DOS
PROCEDIMENTOS-MODELO
O	 legislador	 estabeleceu,	 na	 primeira	 parte	 de	 cada	 um	 dos	 respectivos
dispositivos6,	 que	 se	 a	 conformidade	 jurídica	 de	 uma	medida,	 nas	 respectivas
áreas	 administrativa	 ou	 social,	 for	 questionada	 em	mais	 de	 vinte7	 processos,	 o
órgão	judicial	poderá	prosseguir	com	um	ou	mais	processos	adequados,	que	se
tornarão	 os	 processos-modelo	 (padrão,	 piloto,	 test	 claims)	 ou	 paradigmáticos
para	o	julgamento	dos	demais,	que	ficarão	suspensos.	A	norma	estabelece	mais
de	vinte,	portanto	exige-se	a	existência	de,	no	mínimo,	21	(vinte	e	um)	processos
nos	 quais	 se	 impugna	 a	 conformidade	 jurídica	 da	 medida	 praticada	 pela
repartição	pública.	No	estatuto	da	Jurisdição	Social,	especificou-se	ainda	que	a
multiplicidade	de	processos	seria	perante	o	mesmo	órgão	judicial.
A	utilização	do	verbo	können	(poder)	indica	que	caberá	ao	órgão	judicial	a
análise	da	conveniência	a	partir	do	número,	mas	também	de	outros	fatores,	como
a	maior	 ou	menor	 homogeneidade	 das	 situações	 individuais	 ou	 das	 alegações
formuladas.	Cabe	aqui	mencionar	que	a	própria	questão	da	divisibilidade	parece
ser	 de	 grande	 importância	 para	 a	 decisão,	 pois,	 em	 caso	 de	 indivisibilidade,	 a
concentração	do	julgamento	será	fundamental	diante	do	caráter	unitário.
A	 norma	 se	 utiliza	 da	 denominação	 procedimento-modelo
(Musterverfahren)	para	os	processos	escolhidos	para	o	processamento	e	para	o
julgamento,	mencionando	que	 os	 demais	 ficarão	 suspensos.	Na	 doutrina	 e	 nos
tribunais,	 estes	 processos	 sobrestados	 são	 denominados	 de	 Nachverfahren
(procedimentos	posteriores).
A	 norma	 prevê	 expressamente	 que	 as	 partes	 deverão	 ser	 ouvidas
previamente	em	relação	à	adoção	do	procedimento,	em	observância	ao	princípio
do	contraditório.	Mas,	a	decisão	judicial	tomada	em	relação	ao	estabelecimento
do	 procedimento-padrão	 é	 irrecorrível.	 As	 duas	 regras,	 embora	 voltadas	 para
objetivos	opostos,	são	muito	importantes	e,	de	certo	modo,	se	complementam.
A	primeira	é	a	expressão	da	concepção	mais	ampla	e	tradicional	do	princípio
do	 contraditório	 no	 direito	 germânico,	 inscrito	 como	 regra	 geral	 no	 §	 139	 da
Zivilprozessordnung	(ZPO),	o	Estatuto	do	Processo	Civil	alemão,	que	serviu	de
inspiração	 para	 o	 art.	 10	 do	Código	 de	 Processo	Civil	 brasileiro	 de	 2015.	No
caso	 do	 procedimento-modelo	 (Musterverfahren)	 do	 direito	 público,	 a
determinação	da	condução,	mediante	a	técnica	do	julgamento	piloto,	não	precisa
ser	requerida,	podendo	e	devendo,	quando	for	o	caso	da	sua	aplicabilidade,	ser
estabelecida	de	ofício	pelo	órgão	judicial.	Entretanto,	a	oitiva	prévia	das	partes	é
fundamental,	 não	 apenas	 para	 que	 possam	 se	 manifestar	 sobre	 a	 adoção	 do
procedimento-modelo,	 oferecendo	 argumentos	 e	 dados	 a	 favor	 ou	 contra,	mas
para	 que	 possam,	 também	 e	 desde	 já,	 contribuir	 para,	 em	 caso	 de
admissibilidade,	o	esclarecimento	em	relação	aos	fundamentos	das	demandas	e	a
escolha	das	causas	para	o	processamento	e	o	julgamento	paradigmático.
A	primeira	parte	da	norma	estabelece	que	a	triagem,	para	o	processamento	e
julgamento	 piloto,	 poderá	 recair	 em	 um	 ou	 mais	 processos	 adequados.	 O
legislador	 não	 estabeleceu	 parâmetros	 para	 a	 seleção.	 No	 entanto,	 alguns
julgados	fizeram	expressa	menção	aos	critérios	que	foram	sopesados.
Por	 exemplo,	 já	 no	 primeiro	 caso,	 do	 aeroporto	 de	Munique,	 em	 1980,	 a
decisão	 adotou	 um	 parâmetro	 mais	 subjetivo,	 indicando	 que	 os	 maiores
interessados	foram	escolhidos	a	partir	de	dados	como	o	de	autores	que	possuíam
propriedades	 dentro	 da	 área	 do	 planejado	 aeroporto	 e	 propriedades	 no	 âmbito
limítrofe	da	planejada	zona	de	proteção8.
Em	 julgado	 proferido	 em	 2008,	 o	 Tribunal	 Federal	 Administrativo
(Bundesverwaltungsgericht	 –	 BVerwG)9	 foi	 taxativo	 no	 sentido	 de	 que	 os
procedimentos-modelo	 precisam	 preencher	 duas	 exigências,	 sobre	 as	 quais	 os
órgãos	 judiciais	 possuem	 responsabilidade	na	 seleção:	 (a)	 deve-se	garantir	 que
todos	 os	 pontos	 de	 vista	 sejam	 examinados,	 de	 modo	 a	 serem	 aferidas	 as
pretensões	formuladas	nas	demandas	propostas;	(b)	deve-se	estar	seguro	de	que
os	 processos	 escolhidos	 como	 Musterverfahren	 não	 estejam	 sobrecarregados
com	outros	problemas	específicos,	que	não	sejam	representativos	para	a	maioria
dos	interessados.
Em	síntese,	se	procurou	fixar	que	a	escolha	deve	ser	norteada	por	critérios
objetivos,	 a	 partir	 das	 questões	 suscitadas	 nos	 processos,	 de	 modo	 que	 os
processos	escolhidos	para	o	julgamento	piloto	sejam	representativos,	de	modo	a
concentrar,	 nos	 que	 servirão	 de	 modelo,	 o	 espectro	 de	 questões	 a	 serem
resolvidas	 em	 todos	 os	 demais	 processos	 e,	 além	 disso,	 que	 não	 contenham
também	outras	peculiaridades.	Este	segundo	aspecto	serve,	na	verdade,	para	que
o	órgão	 judicial	possa	 se	concentrar,	 com	exclusividade	ou	predominância,	 em
questões	comuns,	não	perdendo	tempo	e	energia	com	outras	questões	peculiares.
A	orientação	acima	se	justifica	não	apenas	para	a	celeridade	no	julgamento	dos
procedimentos-modelo.	Mas,	também,	por	razões	lógicas,	em	relação	aos	demais
processos.	 Em	 primeiro	 lugar,	 porque	 as	 questões	 peculiares	 provavelmente
dependerão	do	 julgamento	 das	 questões	 comuns,	 que	 poderão	 ser	 preliminares
ou	prejudiciais	em	relação	à	apreciação	das	particularidades.	Pode-se	pensar,	por
exemplo,	 que	 a	 questão	 comum	 diga	 respeito	 à	 necessidade	 de	 requerimento
administrativo,	 como	 condição	 da	 ação	 (interesse)	 para	 a	 postulação	 judicial,
sendo,	portanto,	preliminar.	A	questão	comum	pode	ser	também	a	alegação,	por
parte	 da	 administração	 demandada,	 da	 existência	 de	 prescrição,	 ou	mesmo	 se
houve	 uma	 falha	 no	 serviço	 público.	 Portanto,	 a	 análise	 prévia	 apenas	 destas
questões	 comuns	 pode	 representar	 grande	 economia,	 isonomia	 e	 segurança
jurídica.
Do	mesmo	modo,	o	Tribunal	de	Apelação	de	Kassel10,	em	julgado	proferido
em	 2008,	 esclareceu,	 em	 síntese,	 que	 os	 procedimentos-modelo	 devem	 ter	 a
capacidade	 de	 responder	 às	 muitas	 questões	 levantadas,	 cuidando	 do	 grande
número	 de	 típicas	 perplexidades	 comuns	 existentes.	 Por	 sua	 vez,	 o	 exame	 da
constelação	de	questões	atípicas	deve	ser	conferido	aos	Nachverfahren,	ou	seja,
aos	processos	que	serão	apreciados	posteriormente.
Na	 escolha	 dos	 processos-modelo,	 três	 critérios	 podem	 ser	 extraídos	 da
norma	 legal	 e	 das	 decisões	 supramencionadas:	 a)	 objetivo,	 sob	 o	 prisma	 das
questões	 fáticas	 e	 jurídicas	 levantadas	 no	 conjunto	 de	 processos;	 b)	 subjetivo,
decorrente	 da	 aferição	 das	 partes	 que	 possuem	um	 interesse	mais	 significativo
em	relação	ao	objeto	da(s)	causa(s)-piloto;	c)	eletivo,	decorrente	da	necessidade
de	 se	 estabelecer	 o	 contraditório	 prévio,	 possibilitando,	 assim,	 que	 haja	 pelas
próprias	 partes	 a	 escolha	 dos	 processos-modelo,	 levando-se	 em	 conta	 a
necessária	 abrangência	 das	 matérias	 fáticas	 e	 jurídicas	 pelo	 processo,	 ou
processos,	 representativo(s)	da	controvérsia,	mas	 também	a	escolha	consensual
não	apenas	dos	processos-piloto,	mas	dos	representantes	adequados.
A	irrecorribilidade,	quanto	à	admissibilidade,	por	outro	lado,	procura	evitar
que	 este	 debate	 preliminar,	 sobre	 a	 adoção	 do	 procedimento-modelo,	 acabe	 se
prolongando	e	atrasando	o	processamento	e	o	julgamento	dos	Musterverfahren	e,
consequentemente,	também	dos	processos	sobrestados.	Por	outro	lado,	as	partes,
tanto	 dos	 procedimentos-modelo	 quanto	 dos	 processos	 suspensos,	 não	 ficarão,
naturalmente,	 desprovidas	 da	 possibilidade,	 em	 cada	 momento	 oportuno,	 de
impugnação	 em	 relação	 ao	 mérito,	 invocando	 inclusive	 a	 inaplicabilidade	 da
decisão-modelo	aos	seus	respectivos	casos.
No	 sistema	 de	 procedimento-modelo	 para	 o	 julgamento	 dos	 casos
administrativos	 e	 previdenciários,	 a	 decisão	 de	 admissibilidade,	 bem	 como	 o
processamento	 e	 julgamentodo	 Direito	 Processual,	 e	 que	 integra	 o	 prestigiado
Grupo	Editorial	Nacional	|	GEN,	manifestando	os	agradecimentos	aos	estimados
Editores	Francisco	Bilac	Pinto	e	Henderson	Fürst.
PREFÁCIO
O	Professor	Aluisio	Mendes	me	honra	com	o	convite	para	prefaciar	o	 seu
novo	 livro	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas,	 que	 foi	 a	 tese
apresentada	 no	 concurso	 de	 Professor	 Titular	 de	 Processo	 Civil	 para	 a
Universidade	 do	 Estado	 do	 Rio	 de	 Janeiro,	 no	 qual	 o	 autor	 foi	 aprovado,
unanimemente,	 pelos	 componentes	 da	 banca	 examinadora:	 Professores	 Paulo
Cezar	 Pinheiro	 Carneiro,	 Leonardo	 Greco,	 Cândido	 Rangel	 Dinamarco,
Humberto	Theodoro	Júnior	e	José	Rogério	Cruz	e	Tucci.
O	 tema	 escolhido	 pelo	 autor	 –	 incidente	 de	 resolução	 de	 demandas
repetitivas	–	é,	possivelmente,	o	mais	importante,	complexo	e	inovador	instituto
contido	no	novo	Código	de	Processo	Civil.	Adianto,	desde	logo,	que	é	o	melhor
e	mais	 completo	 trabalho	 escrito	 sobre	 o	 tema,	 até	 os	 dias	 de	 hoje,	 que	 tive	 a
oportunidade	de	ler.
O	autor	não	se	limitou	a	desenvolver	o	tema,	o	que	de	fato	fez	com	maestria,
esgotando-o	 em	 todos	 os	 seus	 pormenores,	 antes	 situou	 o	 IRDR	 no	 contexto
sociojurídico	do	mundo	contemporâneo,	apresentando	suas	fontes	de	inspiração:
test	 clains	 (demandas	 teste),	 pilot	 judgments	 (julgamentos--piloto),
Musterverfahren	 (procedimento	modelo),	group	 litigation	order	 (decisão	 sobre
litígios	de	grupo)	e	outros	julgamentos	de	questões	comuns	ou	por	amostragem.
Na	sequência,	fez	uma	vigorosa	incursão	no	estudo	dos	precedentes	e	o	papel	da
jurisprudência	nos	sistemas	do	common	law	e	do	civil	law	para	assentar	as	bases
do	 seu	estudo.	Mas	não	 foi	 só,	na	abordagem	do	 instituto,	o	Professor	Aluisio
Mendes	apresenta	de	 forma	absolutamente	precisa	e	 fidedigna	a	genealogia	do
IRDR,	 desde	 a	 formulação	 da	 proposição	 na	 comissão	 de	 juristas,	 texto	 da
proposta	do	projeto	do	novo	Código	de	Processo	Civil,	 até	as	aprovações	pelo
Senado,	 pela	 Câmara	 dos	 Deputados,	 inclusive	 a	 redação	 final	 do	 texto
sancionado.
Todos	 os	 detalhes	 relevantes	 sobre	 o	 tema,	 tais	 como	 natureza	 jurídica,
objeto,	 cabimento,	 legitimidade,	 competência,	 intervenientes,	 o	 papel	 do	 juiz,
das	 partes,	 do	 Ministério	 Público	 e	 da	 Defensoria	 Pública,	 passando	 pelo
procedimento	 desde	 a	 fase	 de	 admissibilidade,	 divulgação,	 publicidade	 e	 a
suspensão	dos	processos,	até	as	fases	de	instrução	e	julgamento	com	a	fixação	da
tese	 jurídica,	 o	 seu	 âmbito	 de	 abrangência	 e	 os	 recursos	 cabíveis,	 foram
detidamente	examinados.
Deixei	 conscientemente	 de	 antecipar	 detalhes,	 outras	 propostas	 e	 temas
versados	 pelo	 autor,	 porque	 o	 prefácio,	 como	 um	 trailer	 que	 é,	 não	 visa
dispensar	a	 leitura	do	 livro,	muito	menos	resumi-lo,	mas	antes	aguçar	o	desejo
daqueles	que	virão	a	lê-lo.
Tenho	 certeza	 de	 que	 o	 livro	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas
Repetitivas	será	um	marco	na	 literatura	 jurídica	sobre	o	 tema,	servindo	a	 todos
aqueles	que	têm	a	sua	atuação	voltada	para	a	defesa	dos	direitos	transindividuais.
Paulo	Cezar	Pinheiro	Carneiro
Professor	Titular	de	Teoria	Geral	do	Processo	da
Universidade	do	Estado	do	Rio	de	Janeiro.
Junho	de	2017
O	 novo	 Código	 de	 Processo	 Civil	 preocupou-se,	 sobretudo,	 com	 a
funcionalidade	 do	 processo,	 consagrando,	 entre	 suas	 normas	 fundamentais,	 a
instrumentalidade,	 a	 efetividade	 e	 a	 eficiência	 como	 princípios	 determinantes
para	a	implantação	de	uma	prestação	jurisdicional	justa,	adequada	e	tempestiva.
Nessa	linha	de	orientação,	um	dos	mais	relevantes	institutos	introduzidos	no
ordenamento	 jurídico	 instrumental	 pátrio	 pela	 codificação	 de	 2015	 foi,
incontestavelmente,	o	incidente	de	resolução	de	demandas	repetitivas	(IRDR).	A
inspiração	 mais	 próxima	 foi	 buscada,	 pelo	 legislador,	 no	 direito	 alemão,	 sem
embargo	 de	 que	 elementos	 procedimentais	 de	 igual	 espírito	 já	 fossem
conhecidos	 do	 processo	 civil	 nacional,	 embora	 tímidos	 e	 pouco	 explorados	 na
vivência	 de	 nossos	 tribunais.	 É	 de	 se	 lembrar,	 v.g.,	 dos	 incidentes	 de
uniformização	de	jurisprudência	e	de	declaração	de	inconstitucionalidade,	além
da	técnica	de	julgamento	dos	recursos	repetitivos	nos	tribunais	superiores.
A	 simbiose	 da	 experiência	 estrangeira	 com	 os	 antecedentes	 históricos	 de
nossa	 prática	 processual	 gerou,	 no	 IRDR,	 um	 instituto	 aprimorado	 com
características	próprias	e	com	alto	potencial	de	enfretamento	da	enorme	crise	da
justiça	 civil	 gerada	 pela	 moderna	 sociedade	 dominada	 pela	 litigiosidade	 de
massa,	 crescente	 numa	 progressão	 avassaladora,	 a	 desafiar	 a	 capacidade	 de
absorção	pelas	estruturas	arcaicas	da	justiça	estatal.
Como	 toda	 inovação	 jurídica	 de	 grandes	 dimensões,	 o	 IRDR	 vem
despertando	intensos	debates	em	torno	dos	mais	variados	aspectos,	desafiando	os
processualistas	a	investigar	e	definir,	com	maior	precisão,	as	características	e	o
papel	atribuídos	ao	novel	incidente	processual.
Nessa	 perspectiva,	 a	 obra	 que	 o	 Professor	 Aluisio	 Gonçalves	 de	 Castro
Mendes	está	lançando	apresenta-se	como	um	esforço	vitorioso	e	exemplar,	visto
que	logra	não	só	definir	e	posicionar	o	IRDR	dentro	das	estruturas	do	processo
civil	 brasileiro,	 como	 correlacioná-lo,	 no	 âmbito	 do	 direito	 comparado,	 com
figuras	afins	já	praticadas	no	estrangeiro.
Ciente	 de	 que	 o	 direito	 é	 um	 produto	 histórico	 cultural,	 o	 autor,	 com
propriedade,	 expõe	 os	 antecedentes	 nacionais	 do	 instituto	 inovador	 do
CPC/2015,	com	exploração	de	interessantes	apanhados	jurisprudenciais.
Já	à	luz	do	instituto,	tal	como	modelado	pelo	direito	positivo	atual,	o	autor
cuida	de	precisar-lhe	a	natureza	e	de	analisar	seus	pressupostos	processuais,	seu
cabimento	 e	 seus	 requisitos,	 levando	 em	 conta,	 ainda,	 a	 legitimação	 para
provocar	o	incidente	e	a	competência	para	admiti-lo,	processá-lo	e	julgá-lo.
A	abordagem	dos	aspectos	procedimentais	é	ampla	e	minuciosa.	Apenas	a
título	 de	 exemplificação,	 podem	 ser	 destacados	 títulos	 como	 os	 relacionados
com	 a	 técnica	 da	 fixação	 da	 tese	 jurídica	 assentada	 no	 julgamento	 do	 IRDR;
com	 a	 importância	 do	 contraditório	 ampliado;	 com	 o	 sistema	 recursal	 a
observar.
É	 notável	 a	 demonstração	 da	 constitucionalidade	 dos	 mecanismos	 de
julgamento	 por	 amostragem	 e	 da	 força	 vinculante	 das	 teses	 assim	 enunciadas
pelos	 tribunais	 superiores.	 Objeções	 como	 “violação	 da	 separação	 entre	 os
Poderes”,	“ofensa	aos	princípios	do	acesso	à	justiça	e	ao	contraditório”,	violação
à	 liberdade	 do	 “exercício	 do	 direito	 de	 ação”,	 são	 todas	 convincentemente
rebatidas.
Nesse	terreno,	merece	ser	registrada	a	existência	de	objeção	que	condiciona
o	 cabimento	 do	 IRDR	 à	 existência	 de	 processos	 em	 curso	 no	 tribunal,	 ao
argumento	de	que	sua	suscitação	com	base	em	procedimentos	ainda	no	1º	grau
de	 jurisdição	 ofenderia	 a	 definição	 de	 competência	 dos	 tribunais	 feita	 pela
Constituição.
A	 rejeição	desse	entendimento	 foi	 adequadamente	 formulada	pela	 tese	ora
editada,	diante	da	demonstração	de	que	a	Constituição	não	trata	da	matéria	como
objeto	 de	 reserva	 exclusiva	 da	 ordem	 constitucional.	 A	 própria	 Constituição
deixa	 o	 tema	 a	 cargo	 de	 legislação	 infraconstitucional.	 Ademais,	 quando	 a
evolução	 da	 ordem	 jurídica	 teve	 de	 inovar	 ou	 acrescer	 competências	 para	 os
tribunais	 superiores,	 o	 STF	 não	 viu	 nisso	 ofensa	 à	 Constituição,	 como	 bem
demonstrado	pelo	Professor	Castro	Mendes.
A	 nosso	 ver,	 uma	 conclusão	 geral	 sobre	 o	 tema,	 pode	 ser	 estabelecida
levando	em	conta	a	posição	histórica	e	sistemática	adotada	pela	Suprema	Corte:
as	 atribuições	 de	 competência	 formuladas	 pela	 Constituição,	 sem	 dúvida,
representam	 um	mínimo	 que	 o	 legislador	 ordinário	 não	 pode	 ignorar	 e,	muito
menos,	 reduzir.	 Não	 há,	 porém,	 vedação	 na	 Constituição	 a	 que	 odos	 processos	 escolhidos,	 ocorre	 perante	 o	 órgão
judicial	de	primeiro	grau.
Deve-se	consignar,	todavia,	que	a	primeira	instância	é	composta	de	tribunais
colegiados,	 permitindo-se,	 entretanto,	 em	 determinados	 casos,	 que	 o
processamento	e	o	julgamento	possam	ocorrer	monocraticamente.
Embora	 a	 norma	 não	 impeça	 expressamente	 a	 possibilidade	 do
procedimento-modelo	ser	delegado	ao	juiz	presidente	ou	relator11,	a	hipótese	de
transferência	para	o	processamento	e	decisão	por	juiz	singular	não	parece	ser	a
mais	conveniente,	em	razão	de	alguns	motivos.	O	primeiro	é	que,	no	§	93a	(2),
1,	 se	 estabelece	 que,	 após	 o	 julgamento	 definitivo	 transitado	 em	 julgado	no(s)
procedimento(s)-modelo	(Musterverfahren),	poderá	haver	uma	decisão	extensiva
aos	 processos	 que	 estavam	 suspensos,	 desde	 que	por	 unanimidade.	 Portanto,
não	faria	sentido	se	exigir	um	julgamento	colegiado,	nas	decisões	subsequentes,
sem	que	o	mesmo	ocorra	no	processo	paradigmático	a	ser	seguido.	Em	segundo
lugar,	 o	 estatuto	 (VwGO,	 §	 6,	 (1),	 1	 e	 2)	 prevê	 que,	 como	 regra,	 haja	 a
4.3.
transferência	 do	 processamento	 e	 do	 julgamento	 ao	 juiz	 singular	 integrante	 da
câmara,	quando	(1)	a	questão	não	apresentar	complexidade,	de	fato	ou	de	direito;
(2)	a	questão	não	requerer	aplicação	de	princípio,	hipóteses	que	poderão	ocorrer
no	Musterverfahren.	Entretanto,	ainda	que	improvável	e	em	caráter	excepcional,
a	delegação	poderá	 existir,	 com	base	no	§	87a,	 (2)	 e	 (3),	 para	o	presidente	ou
para	o	relator,	se	houver	concordância	das	partes12.
É	 importante	 registrar	 que	 não	 se	 prevê,	 pelo	 menos	 no	 formato	 do
procedimento-padrão	 perante	 a	 Jurisdição	 Administrativa,	 bem	 como	 no	 da
Previdência	 e	 Assistência	 Social,	 qualquer	 regra	 especial	 de	 competência	 ou
mesmo	quanto	ao	seguimento	e	julgamento	do	procedimento-padrão.	Portanto,	o
tribunal	de	primeiro	grau	é	quem	realizará	o	juízo	de	admissibilidade,	bem	como
o	processamento,	instrução	e	julgamento	do	Musterverfahren.	Do	mesmo	modo,
prevalecerão	as	regras	gerais	para	o	procedimento-modelo	no	âmbito	recursal.
PROCESSAMENTO	E	JULGAMENTO	DO
MUSTERVERFAHREN	E	DOS	NACHVERFAHREN
Na	 segunda	 parte13,	 preocupou-se	 o	 legislador	 em	 regular	 os	 efeitos	 e
desdobramentos	do	procedimento-padrão	nos	processos	individuais	que	ficaram
suspensos.
Com	 o	 trânsito	 em	 julgado	 da	 sentença	 ou	 do	 acórdão	 proferido	 no
procedimento-padrão,	o	tribunal	de	primeira	instância,	depois	de	ouvir	as	partes,
poderá	 mediante	 simples	 decisão	 se	 pronunciar	 sobre	 o	 mérito	 nos	 processos
individuais	 se	 considerar,	 por	 unanimidade,	 que	 estes	 não	 possuem
peculiaridades	essenciais,	 fáticas	ou	 jurídicas,	em	relação	ao(s)	 julgamento(s)--
modelo.	As	partes	deverão	ser	 intimadas	deste	pronunciamento,	que	poderá	ser
impugnado	mediante	apelação.
O	 legislador	alemão,	corretamente,	preocupou-se,	no	 regramento	aprovado
em	1990,	com	o	duplo	controle	quanto	à	verificação	da	identidade	das	questões
fáticas	e/ou	 jurídicas	existentes	nos	processos	paradigmáticos	e	os	sobrestados.
A	 primeira	 verificação	 é	 feita	 quando	 da	 suspensão	 do	 processo.	 Em	 seguida,
após	o	julgamento	do	procedimento-modelo,	a	norma	legal	exige	que	haja	nova
1
apreciação,	determinando	que	se	faça	por	decisão	colegiada	a	verificação	quanto
à	existência	ou	não	de	peculiaridades	essenciais,	fáticas	ou	jurídicas,	bem	como
se	os	fatos	pertinentes	aos	processos	suspensos	foram	devidamente	esclarecidos,
tudo	 considerando	 os	 processos-modelo	 já	 decididos.	 Esta	 decisão	 deve	 ser
precedida	da	manifestação	das	partes	e	os	tribunais	somente	poderão	considerar
os	 processos	 sobrestados	 em	 condição	 de	 julgamento	 imediato,	 ou	 seja,
afastando	 a	 existência	 de	 particularidades	 essenciais	 ou	 a	 necessidade	 de	 se
prosseguir	com	a	dilação	probatória,	se	for	tomada	por	unanimidade.
O	 órgão	 judicial	 poderá	 também	 determinar	 a	 introdução	 de	 provas
produzidas	no	procedimento-modelo	em	outros	processos,	bem	como	ordenar	a
realização	 de	 novas	 provas,	 dentre	 as	 quais	 depoimentos	 de	 testemunhas	 ou
mesmo	perícia	 pelo	mesmo	perito	 ou	por	 outro.	 Igualmente,	 o	 tribunal	 poderá
denegar	 a	 produção	 de	 novas	 provas	 acerca	 de	 fatos	 que	 tenham	 sido
demonstrados	 no(s)	 procedimento(s)-modelo,	 segundo	 a	 sua	 livre	 convicção,	 e
retarde	a	solução	do	litígio.
Verwaltungsgerichtsordnung	(VwGO),	§	93a:
(1)	 Ist	die	Rechtmäßigkeit	einer	behördlichen	Maßnahme	Gegenstand	von
mehr	als	zwanzig	Verfahren,	kann	das	Gericht	eines	oder	mehrere	geeignete
Verfahren	vorab	durchführen	(Musterverfahren)	und	die	übrigen	Verfahren
aussetzen.	 Die	 Beteiligten	 sind	 vorher	 zu	 hören.	 Der	 Beschluß	 ist
unanfechtbar.
(2)	Ist	über	die	durchgeführten	Verfahren	rechtskräftig	entschieden	worden,
kann	 das	 Gericht	 nach	 Anhörung	 der	 Beteiligten	 über	 die	 ausgesetzten
Verfahren	durch	Beschluß	entscheiden,	wenn	es	einstimmig	der	Auffassung
ist,	daß	die	Sachen	gegenüber	rechtskräftig	entschiedenen	Musterverfahren
keine	 wesentlichen	 Besonderheiten	 tatsächlicher	 oder	 rechtlicher	 Art
aufweisen	 und	 der	 Sachverhalt	 geklärt	 ist.	 Das	 Gericht	 kann	 in	 einem
Musterverfahren	 erhobene	 Beweise	 einführen;	 es	 kann	 nach	 seinem
Ermessen	 die	 wiederholte	 Vernehmung	 eines	 Zeugen	 oder	 eine	 neue
Begutachtung	 durch	 denselben	 oder	 andere	 Sachverständige	 anordnen.
Beweisanträge	 zu	Tatsachen,	 über	 die	 bereits	 im	Musterverfahren	Beweis
2
3
4
erhoben	 wurde,	 kann	 das	 Gericht	 ablehnen,	 wenn	 ihre	 Zulassung	 nach
seiner	 freien	 Überzeugung	 nicht	 zum	 Nachweis	 neuer
entscheidungserheblicher	 Tatsachen	 beitragen	 und	 die	 Erledigung	 des
Rechtsstreits	 verzögern	 würde.	 Die	 Ablehnung	 kann	 in	 der	 Entscheidung
nach	Satz	1	erfolgen.	Den	Beteiligten	steht	gegen	den	Beschluß	nach	Satz	1
das	 Rechtsmittel	 zu,	 das	 zulässig	 wäre,	 wenn	 das	 Gericht	 durch	 Urteil
entschieden	 hätte.	 Die	 Beteiligten	 sind	 über	 dieses	 Rechtsmittel	 zu
belehren.
Sozialgerichtsgesetz	(SGG),	§	114a:
(1)	 Ist	die	Rechtmäßigkeit	einer	behördlichen	Maßnahme	Gegenstand	von
mehr	 als	 20	 Verfahren	 an	 einem	 Gericht,	 kann	 das	 Gericht	 eines	 oder
mehrere	geeignete	Verfahren	vorab	durchführen	(Musterverfahren)	und	die
übrigen	 Verfahren	 aussetzen.	 Die	 Beteiligten	 sind	 vorher	 zu	 hören.	 Der
Beschluss	ist	unanfechtbar.
(2)	 Ist	 über	 die	 durchgeführten	Musterverfahren	 rechtskräftig	 entschieden
worden,	 kann	 das	 Gericht	 nach	 Anhörung	 der	 Beteiligten	 über	 die
ausgesetzten	Verfahren	 durch	Beschluss	 entscheiden,	wenn	 es	 einstimmig
der	 Auffassung	 ist,	 dass	 die	 Sachen	 gegenüber	 dem	 rechtskräftig
entschiedenen	 Musterverfahren	 keine	 wesentlichen	 Besonderheiten
tatsächlicher	oder	rechtlicher	Art	aufweisen	und	der	Sachverhalt	geklärt	ist.
Das	Gericht	kann	 in	 einem	Musterverfahren	erhobene	Beweise	 einführen;
es	kann	nach	seinem	Ermessen	die	wiederholte	Vernehmung	eines	Zeugen
oder	eine	neue	Begutachtung	durch	denselben	oder	andere	Sachverständige
anordnen.	Beweisanträge	zu	Tatsachen,	über	die	bereits	im	Musterverfahren
Beweis	 erhoben	wurde,	 kann	 das	Gericht	 ablehnen,	wenn	 ihre	 Zulassung
nach	 seiner	 freien	 Überzeugung	 nicht	 zum	 Nachweis	 neuer
entscheidungserheblicher	 Tatsachen	 beitragen	 und	 die	 Erledigung	 des
Rechtsstreits	 verzögern	 würde.	 Die	 Ablehnung	 kann	 in	 der	 Entscheidung
nach	Satz	1	erfolgen.	Den	Beteiligten	steht	gegen	den	Beschluss	nach	Satz
1	 das	 Rechtsmittel	 zu,	 das	 zulässig	 wäre,	 wenn	 das	 Gericht	 durch	 Urteil
entschieden	hätte.	Die	Beteiligten	sind	über	das	Rechtsmittel	zu	belehren.
No	 link	 ,
encontra--se	 a	 tradução	 em	 inglês	 do	 parágrafo	 93a	 do	 Estatuto	 da
Jurisdição	Administrativa.
Os	estatutos	legais	alemães	se	utilizam	tradicionalmente	de	parágrafos	(§),
em	vez	de	artigos,	embora	a	Grundgesetz	(GG),	ou	seja,	a	Lei	Fundamental
ou	Constituição,	se	utilize	destes	últimos.
https://www.gesetze-im-internet.de/englisch_vwgo/index.html5
6
7
8
9
10
11
12
13
A	tradicional	denominação	test	claim	parece,	de	fato,	ser	menos	apropriada,
pois	 perpassa	 a	 ideia	 de	 algo	 experimental,	 dotado	de	provisoriedade.	No
entanto,	 os	 casos	 escolhidos	 seriam	 processados	 e	 julgados,	 com	 caráter
definitivo,	com	a	aplicação	da	ratio	decidendi	aos	demais	casos.
Parágrafos	93a	da	VwGO	e	114a	da	SGG.
A	 norma	 administrativa	 (93a),	 em	 vigor	 desde	 01.01.1991,	 previa,
inicialmente,	um	número	maior	que	50	processos.	Entretanto,	o	parâmetro
foi	 modificado	 para	 mais	 de	 20	 procedimentos,	 com	 a	 aprovação	 da	 6.
VwGoÄndG	(BGBl.	I	S	1626),	que	entrou	em	vigor	em	01.01.1997.
KRUPPA,	 Jan	 J.	 Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz	 (KapMuG)	 –
Bestandsaufnahme	und	Perspektiven,	Hamburg:	Kovac,	2011,	p.	93-94.
Vide	 a	 decisão	 em	 http://www.dfld.de/Presse/LaO/2008/081103a.pdf,
acessado	 em	 11.11.2016.	 Mencionada	 por	 Jan	 J.	 Kruppa,	 na	 obra
supramencionada,	p.	94-95.
Vide:	 .	Acesso	 em:	 11
nov.	2016.	Mencionada	por	Jan	J.	Kruppa,	na	obra	mencionada,	p.	94.
Estas	 são	 as	 duas	 possibilidades	 previstas	 no	 §	 87a	 (2)	 e	 (3).	 A	 regra
atualmente,	por	força	do	§	6	da	VwGO,	é	de	que	a	câmara	transfira	o	litígio
a	um	dos	seus	membros,	para	que	processe	e	julgue	monocraticamente,	se,
nos	 termos	 da	 alínea	 (1),	 itens	 1	 e	 2,	 a	 questão	 não	 apresentar
complexidade,	de	fato	ou	de	direito;	e	a	questão	não	requerer	a	aplicação	de
um	princípio.
Vide	 sobre	 a	 questão:	 Schoch/Schneider/Bier/Rudisile,
Verwaltungsgerichtsordnung:	 VwGO	 –	 Loseblatt-Kommentar.	 31.	 Auf.,
Munique:	C.	H.	Beck,	2016,	§	93a	Rn.	12.
Parágrafos	93a	da	VwGO	e	114a	da	SGG.
http://www.dfld.de/Presse/LaO/2008/081103a.pdf
http://www.dfld.de/Presse/LaO/2008/081103a.pdf
5.1.
A	 lei	 sobre	 procedimento-padrão	 para	 os	 litígios	 jurídicos	 envolvendo	 o
mercado	 de	 capitais	 (Gesetz	 über	 Musterverfahren	 in	 kapitalmarktrechtlichen
Streitigkeiten	–	KapMuG)1	previu,	em	linhas	gerais,	um	sistema	também	calcado
na	possibilidade	de	 julgamento	de	um	caso-piloto,	 contendo	questões	 jurídicas
ou	fáticas	comuns	a	outros	processos.	Estabeleceu,	assim	como	descrito	no	item
anterior,	 que	 o	 julgamento	 do	 caso-modelo	 servirá	 como	 paradigma	 para	 o
julgamento	dos	processos	 individuais,	que	permaneceriam	suspensos	durante	o
processamento	 e	 julgamento	 do	 procedimento-padrão.	 A	 KapMuG	 fixou,
entretanto,	 um	 conjunto	 de	 regras	 específicas,	 o	 que	 acabou	 criando	 uma
razoável	diferença	entre	este	sistema	e	o	descrito	no	capítulo	anterior2.
Em	 linhas	 gerais,	 o	 incidente	 pode	 ser	 resumido	 em	 três	 fases,	 que
correspondem	às	três	seções	da	lei.	A	primeira,	perante	o	órgão	de	primeiro	grau,
no	qual	é	formulado	e	apreciado	um	requerimento	de	admissibilidade,	havendo	a
determinação	 de	 publicidade,	 em	 caso	 de	 deferimento.	 A	 segunda	 consiste	 no
processamento	e	 julgamento	do	caso-piloto	pelo	 tribunal	de	 segundo	grau.	Por
fim,	na	 terceira	 fase,	os	processos	 individuais	serão	 julgados	em	conformidade
com	o	entendimento	firmado	no	caso-modelo.
A	FASE	DE	ADMISSIBILIDADE	DA	INSTAURAÇÃO	DO
PROCEDIMENTO-PADRÃO	(MUSTERVERFAHREN)
No	 regime	 do	 mercado	 mobiliário,	 não	 se	 previu,	 como	 no	 âmbito	 da
jurisdição	 administrativa	 e	 também	 no	 da	 previdência	 e	 assistência	 social,	 a
determinação	 de	 ofício	 do	 incidente	 de	 julgamento	 padrão.	 Mas,	 sim,	 o
requerimento,	 que	 poderá	 ser	 formulado	 tanto	 por	 autores	 como	 por
demandados,	perante	o	próprio	juízo	de	primeira	instância.	O	objeto	da	demanda
poderá	 ser	 apenas	 uma	 pretensão	 de	 condenação	 em	 perdas	 e	 danos	 ou	 de
cumprimento	 de	 um	 contrato	 relacionado	 com	 o	 mercado	 de	 capitais.	 O
requerente	da	declaração	padrão	(Musterfestellung)	deverá	indicar	o	objetivo	da
declaração	 e	 as	 informações	 públicas	 pertinentes	 ao	mercado	 de	 capitais,	 bem
como	as	situações	fáticas	e	meios	de	prova	que	pretende	produzir.	Deverá	ainda
demonstrar	que	o	processo	possui	um	significado	para	a	 resolução	de	questões
jurídicas	 que	 se	 encontram	 na	 mesma	 situação.	 O	 órgão	 judicial	 deverá
oportunizar	 a	 manifestação	 da	 parte	 contrária	 sobre	 o	 requerimento	 de
instauração	do	procedimento-padrão.
Nos	 termos	 do	 inciso	 1	 do	 3º	 parágrafo,	 o	 requerimento	 de	 declaração-
padrão	deve	ser	rejeitado,	em	decisão	irrecorrível,	quando	a	decisão	do	conflito
não	 depender	 da	 declaração	 pretendida;	 o	 meio	 de	 prova	 indicado	 for
inapropriado;	 não	 se	 demonstrar	 que	 a	 decisão	 padrão	 terá	 significado	 para	 a
solução	 de	 outros	 conflitos;	 ou	 o	 pedido	 de	 declaração-padrão	 servir	 para
manobras	protelatórias.
O	 requerimento	 de	 procedimento-padrão	 admitido	 deve	 se	 tornar
publicamente	 conhecido	 mediante	 inserção	 no	 órgão	 oficial	 federal
(Bundesanzeiger),	com	a	indicação	dos	principais	dados,	conforme	indicado	no
inciso	 2	 do	 §	 3º	 da	 referida	 lei.	 O	 processo-padrão	 será	 também	 objeto	 de
inscrição	 em	 um	 registro	 eletrônico	 e	 de	 acesso	 gratuito,	 segundo	 a	 Lei	 de
Procedimento-padrão	de	conflitos	no	mercado	mobiliário.	A	comunicação	deve
conter	 a	 descrição	 das	 partes	 litigantes	 e	 dos	 seus	 representantes	 legais,	 dos
investidores	e	acionistas	interessados	no	procedimento-padrão,	o	órgão	judicial,
o	 número	 do	 processo	 e	 a	 data	 da	 inserção	 no	 registro	 (Klageregister).	 Os
requerimentos	 que	 tiverem	 fundamento	 comum,	 envolvendo	 idêntico	 bem	 da
vida,	deverão	ser	registrados	na	mesma	sequência,	não	havendo	a	necessidade	de
repetição	da	comunição	no	órgão	oficial.
5.2.
O	Ministério	da	Justiça	possui	a	incumbência	de	regulamentar	e	controlar	o
cadastro3	 (registro)	 dos	 procedimentos-padrão,	 cujo	 acesso	 será	 gratuito,
devendo-se	 zelar,	 contudo,	 pelo	 cumprimento	 das	 normas	 referentes	 ao
tratamento	 de	 dados	 e	 bancos	 de	 informação,	 bem	 como	 pela	 segurança	 do
sistema.	 O	 órgão	 judicial	 tem	 a	 responsabilidade,	 contudo,	 pela	 veracidade	 e
correção	dos	dados	informados	ao	cadastro.	Os	dados	serão	apagados	em	caso	de
inadmissibilidade	ou	após	a	conclusão	do	procedimento-padrão.
Com	 a	 publicação	 da	 comunicação	 da	 existência	 do	 requerimento	 do
procedimento-padrão,	 o	 processo,	 no	 qual	 se	 instaurou	 o	 incidente,	 será
suspenso.	 Em	 seguida,	 se	 forem	 formulados	 pelo	 menos	 mais	 nove
requerimentos4	 de	 instauração	 de	 procedimento-padrão,	 com	 o	 mesmo
fundamento,	 em	 qualquer	 comarca,	 no	 prazo	 de	 seis	 meses,	 a	 contar	 da
publicação	 mencionada,	 o	 órgão	 judicial	 perante	 o	 qual	 foi	 apresentado	 o
primeiro	 requerimento	 de	 instauração	 de	 procedimento-padrão	 admitido
proferirá	uma	decisão,	 irrecorrível,	 fixando	os	pontos	 controvertidos	 comuns	 a
serem	decididos	pelo	respectivo	tribunal	de	segundo	grau	(Oberlandesgericht).
Se	no	referido	prazo	de	seis	meses	não	houver	o	ajuizamento	de	mais	nove
requerimentos	 de	 procedimento-padrão	 em	demandas	 homogêneas,	 o	 incidente
de	julgamento	padrão	será	revertido,	dando-se	continuidade	ao	processamento	e
julgamento	como	simples	processo	individual.
PROCESSAMENTO	DO	PROCEDIMENTO-PADRÃO
(DURCHFÜHRUNG	DES	MUSTERVERFAHRENS)
A	decisão	de	admissibilidade	será	publicada	no	Klageregister,	produzindo	a
suspensão	de	 todos	os	processos	 individuais	 já	 ajuizados	ou	que	venham	a	 ser
instaurados	 até	 o	 trânsito	 em	 julgado	 da	 decisão-padrão,	 que	 dependam	 do
julgamento	da	questão-padrão,	e	os	autos	remetidos	para	o	tribunal	de	segundo
grau	(Oberlandesgericht).
O	legislador	alemão	introduziu	importante	inovação,	quanto	à	prescrição,	na
versão	vigente	(2012/2013),	em	razão	das	modificações	 introduzidas	na	Lei	do
Procedimento-Padrão	 no	 Mercado	 Mobiliário	 KapMuG	 (§	 10	 Abs.	 2)	 e	 no
Código	 Civil	 (Bürgerliches	Gesetzbuch	 –	 BGB	 –	 §	 204	 Abs.	 1	 n.	 6a).	 Pelas
novas	 regras,	 os	 titulares	 de	 pretensões,	 as	 quais	 dependam	 do	 julgamento	 do
procedimento-padrão,	mas	 que	 aindanão	 tenham	 ajuizado	 as	 suas	 respectivas
demandas,	 poderão	 inibir	 o	 prazo	 prescricional	 mediante	 a	 notificação
(Zustellung)	 do	 seu	 requerimento	 de	 inscrição	 no	 registro	 do	Musterverfahren,
desde	 que	 proponham	 a	 sua	 ação	 dentro	 do	 prazo	 de	 até	 três	 meses	 após	 o
trânsito	em	julgado	da	decisão-padrão	(Musterentscheid).
Prosseguindo	 no	 procedimento-padrão,	 o	Oberlandesgericht	 efetuará,	 em
decisão	 irrecorrível,	 a	 escolha	 das	 partes,	 dentre	 aqueles	 processos	 que
tramitavam	perante	o	juízo	de	origem,	que	figurarão	como	autor	(Musterkläger)
e	réu	(Musterbeglagte)	no	incidente,	sem	prejuízo	da	condição	e	participação	dos
demais	interessados	na	condição	de	intervenientes	(Beigeladenen).	Na	seleção,	o
tribunal	levará	em	conta	o	valor	da	pretensão,	o	objeto	do	procedimento	padrão	e
o	entendimento	da	maioria	dos	 autores	 em	 relação	a	quem	deverá	 ser	o	 autor-
líder	do	procedimento	padrão	(Musterkläger).
Os	autores	e	réus	dos	processos	suspensos	serão	considerados	intervenientes
no	 procedimento-padrão,	 nos	 termos	 do	 §	 9,	 (3),	 da	KapMuG,	 que	 estabelece
ainda	que	os	 custos	proporcionais	 do	procedimento-padrão	 serão	 incluídos	nas
despesas	de	cada	processo	individual.	Entretanto,	a	norma	dispõe	expressamente
que	os	intervenientes	não	precisam	ser	mencionados	nos	despachos	e	decisões.	A
intimação	 dos	 intervenientes	 para	 os	 atos	 processuais	 e	 audiências	 poderá	 ser
feita	mediante	comunicação	pública,	servindo	para	tal	finalidade	a	realizada	pela
divulgação	 no	 Klageregister.	 Para	 tanto,	 entre	 a	 comunicação	 e	 o	 dia	 da
audiência,	haverá	um	prazo	dilatório	mínimo	de	quatro	semanas.
A	 lei	 prevê	 que,	 não	 havendo	 disposições	 específicas	 em	 contrário,	 serão
aplicadas	as	 regras	da	Zivilprozessordnung	 (Código	de	Processo	Civil	alemão).
Há	também	a	previsão	expressa	da	possibilidade	de	introdução	de	autos	virtuais,
com	processamento	 eletrônico,	 em	 conformidade	 com	 regras	 regulamentares	 a
serem	fixadas,	no	âmbito	das	suas	atribuições,	pela	União	e	pelos	Estados.
Em	preparação	à	audiência,	estabelece	a	 lei	que	o	presidente,	ou	um	outro
membro	por	 ele	 designado,	 do	 tribunal	 de	 2º	 grau	poderá	 fixar	 um	prazo	para
que	os	intervenientes	possam	complementar	as	alegações	e	esclarecer	os	pontos
controvertidos,	 dando-se	 ciência	 e	 abrindo-se,	 em	 seguida,	 a	 oportunidade	 de
contraditório	ao	autor	e	réu	do	procedimento-padrão.
As	 manifestações	 dos	 participantes	 (autor,	 réu	 e	 intervenientes)	 do
procedimento-modelo	e	as	decisões	interlocutórias	proferidas	pelo	Tribunal	de	2º
Grau	 serão	 introduzidas	 e	 conhecidas	 mediante	 sistema	 eletrônico	 de
informações,	acessível	apenas	aos	sujeitos	processuais	do	Musterverfahren,	nos
termos	do	§	12	(2).
A	 desistência	 superveniente	 por	 parte	 de	 um	 dos	 requerentes	 do
procedimento-padrão	não	terá	qualquer	efeito	na	tramitação	do	caso-piloto.	Mas,
se	 proveniente	 do	 autor-condutor	 (líder)	 do	 procedimento-padrão,	 assim	 como
em	 razão	 da	 perda	 superveniente	 da	 capacidade	 para	 ser	 parte,	 processual	 ou
postulatória,	como	a	morte	do	autor	ou	a	sua	incapacidade,	ou	mesmo	em	função
da	instauração	de	um	processo	de	insolvência,	o	tribunal	deverá	indicar	um	outro
autor-condutor	para	o	procedimento-padrão.	A	desistência	por	parte	de	um	dos
intervenientes	 também	 não	 produzirá	 qualquer	 modificação	 na	 tramitação	 do
procedimento-teste.
No	 processamento	 do	 procedimento-piloto,	 o	 legislador	 previu	 que	 os
intervenientes	receberão,	no	momento	da	sua	intervenção,	o	processo	no	estado
em	 que	 se	 encontra.	 Estarão	 autorizados	 a	 utilizar	 de	 todos	 os	 meios	 e
instrumentos	 de	 postulação	 e	 defesa,	 bem	 como	 participar	 de	 todos	 os	 atos
processuais,	desde	que	as	suas	manifestações	e	condutas	não	contrariem	a	parte
principal,	ou	seja,	o	autor	ou	o	réu	(Musterkläger	ou	Musterbeklagter).
Em	 relação	 ao	 objeto	 da	 declaração	 do	 procedimento-padrão,	 poderão	 o
autor,	o	réu	e	os	intervenientes	do	caso-piloto	requerer,	até	o	término	deste,	que	o
tribunal	 se	 pronuncie	 também	 sobre	 outros	 pontos	 controvertidos,	 quando	 o
julgamento	 dos	 processos	 individuais	 depender	 da	 apreciaçãos	 destas	 questões
não	 apontadas	 inicialmente.	 A	 decisão	 quanto	 ao	 cabimento	 e	 utilidade	 do
alargamento	 do	 objeto	 do	 procedimento-padrão	 será	 proferida	 pelo	 órgão	 de
origem	(de	primeiro	grau),	sendo	irrecorrível	e	ficando	vinculado	o	 tribunal	de
segundo	 grau,	 nos	 termos	 do	 §	 15	 da	 KapMuG,	 que	 providenciará,	 junto	 ao
Klageregister,	a	publicidade	da	decisão	pertinente	à	extensão	dos	pontos	comuns
a	serem	apreciados.
Em	continuidade	e	 tendo	em	vista	o	procedimento	oral	seguido,	o	 tribunal
irá	 proferir,	 ao	 final,	 uma	 decisão-padrão	 (Musterentscheid)	 sobre	 os	 pontos
controvertidos	 anteriormente	 definidos	 e	 que	 são	 fundamentais	 e	 prejudiciais
para	 a	 apreciação	 dos	 processos	 individuais	 suspensos.	Neste	 pronunciamento,
não	 deve	 haver	 menção	 aos	 nomes	 dos	 intervenientes.	 As	 partes	 devem	 ser
intimadas	da	decisão-padrão,	inclusive	mediante	publicação.
Na	 versão	 anterior	 da	 KapMuG,	 a	 lei	 germânica	 proibia	 que	 o
procedimento-padrão	fosse	encerrado	mediante	composição	das	partes,	salvo	se
estivessem	 acordes	 todos	 os	 sujeitos	 do	 processo,	 ou	 seja,	 autor,	 réu	 e
intervenientes,	conforme	previsto	na	parte	final	da	alínea	3	do	§	14	da	KapMuG
anteriormente	vigente.
No	 texto	 atual,	 o	 legislador	 alemão	 adotou	 uma	 importante	 inovação,	 ao
inserir	um	sistema	de	comunicação	da	proposta	de	acordo,	com	a	possibilidade
de	autoexclusão	(opt	out	–	Austritt	em	alemão)	por	parte	dos	 interessados.	O	§
17	 estabelece	 que	 autor	 e	 réu	 do	 procedimento-padrão	 poderão	 formular	 uma
proposta	 de	 acordo	 ou	 aceitar	 uma	 proposição	 do	 tribunal,	 com	 o	 objetivo	 de
encerrar	 o	 procedimento-padrão	 e	 o	 processo	 originário.	 No	 entanto,	 a
proposição	 deve	 ser	 levada	 ao	 conhecimento	 dos	 interessados,	 que	 terão	 a
oportunidade	 de	 se	 manifestar,	 no	 prazo	 de	 um	 mês	 após	 a	 comunicação	 da
proposta	 de	 acordo,	 requerendo	 a	 sua	 exclusão,	 se	 não	 concordarem	 com	 a
oferta,	 nos	 termos	 do	 §	 19	 da	KapMuG.	 Para	 que	 o	 acordo	 seja	 homologado,
estabeleceu-se,	no	§	17,	como	 limite	que	menos	de	30%	(trinta	por	cento)	dos
interessados	exerçam	o	direito	de	autoexclusão.	Portanto,	se	este	percentual	for
atingido,	a	proposta	de	conciliação	não	será	acolhida.	Não	havendo	pedidos	de
exclusão	 ou	 se	 estes	 não	 alcançarem	 o	 percentual	 indicado,	 apenas	 os	 que
manifestarem	 a	 exclusão	 ficarão	 desvinculados	 do	 acordo	 firmado	 e	 que	 será
homologado,	 incidindo	 sobre	 todos	 os	 interessados	 que	 não	 manifestaram,
tempestivamente,	a	sua	contrariedade	em	relação	à	composição.
O	 recurso	 cabível	 contra	 a	 decisão-padrão	 (Musterentscheid)	 é	 a
Rechtsbeschwerde,	 que,	 neste	 caso,	 possui	 uma	 função	 equiparável	 ao	 nosso
recurso	 ordinário.	 Isso	 porque	 a	 Rechtsbeschwerde,	 nos	 termos	 do	 §	 574	 do
Código	de	Processo	Civil	alemão	(ZPO),	é	cabível	não	apenas	com	a	função	de
uniformização	 do	 direito,	 mas	 também	 quando	 os	 tribunais	 de	 segundo	 grau
decidem	 valendo-se	 da	 sua	 competência	 originária,	 ou	 seja,	 como	 órgão	 de
primeira	instância.	No	caso,	o	Tribunal	de	Justiça	(Oberlandesgericht)	processa
e	 julga	 o	 Musterverfahren	 em	 primeira	 instância,	 resolvendo,	 como
supramencionado,	 questões	 comuns	de	 direito	 ou	de	 fato.	 Portanto,	 em	 tese,	 o
recurso	em	questão	 tem	esta	potencial	natureza	dúplice.	Na	prática,	contudo,	é
de	 esperar	 que	 as	 questões	 de	 direito	 tenham	 prevalência	 tanto	 na	 decisão
inicialmente	 adotada	 pelo	 Tribunal	 de	 Justiça,	 como	 no	 pronunciamento	 a	 ser
proferido	 pelo	Bundesgerichtshof	 (BGH,	 equivalente	 ao	 Superior	 Tribunal	 de
Justiça	brasileiro),	composto	de	128	membros.
A	 Rechtsbeschwerde	 poderá	 ser	 interposta	 por	 qualquer	 um	 dos	 sujeitosprocessuais	do	procedimento-modelo	 (autor,	 réu	e	 intervenientes).	Não	poderá,
entretanto,	 ser	 impugnado	 o	 pronunciamento	 de	 admissibilidade	 do
procedimento-piloto	efetuado	pelo	juízo	de	origem.
O	 BGH	 comunicará	 os	 interessados	 (autores	 dos	 processos	 individuais
suspensos),	 mediante	 aviso	 público	 no	 Cadastro	 de	 Procedimentos-Padrão
(Klageregister),	 que	 terão	 um	 prazo	 peremptório	 de	 um	 mês,	 a	 contar	 da
comunicação,	para	requererem,	se	assim	o	desejarem,	o	ingresso	na	condição	de
intervenientes	no	processo	de	julgamento	da	Rechtsbeschwerde.
No	 âmbito	 do	 processamento	 e	 julgamento	 da	 Rechtsbeschwerde,	 os
interesses	 das	 partes	 serão	 representados	 por	 condutores	 ou	 líderes,
denominados,	 respectivamente,	 de	 Musterrechtsbeschwerdeführer	 e
Musterrechtsbeschwerdegegner	 (parte	 recorrente	 e	 recorrida	 do	 procedimento-
padrão).	 Se	 o	 recorrente	 era	 o	 líder,	 permanecerá,	 como	 regra	 nesta	 condição,
ressalvando-se,	 aqui,	 também	 as	 possibilidades	 de	 sucessão	 ou	 substituição	 já
ventiladas.	Mas,	se	o	recurso	foi	interposto	por	um,	ou	vários,	dos	intervenientes
da	 fase	 anterior,	 será	 designado	 como	 condutor	 do	 recurso	 o	 que	 efetuara	 a
interposição	da	primeira	Rechtsbeschwerde.
5.3. VINCULAÇÃO	DA	DECISÃO-PADRÃO	(WIRKUNG	DES
MUSTERENTSCHEIDS)
A	questão	da	vinculação	parece	ser	um	ponto	central5	para	o	procedimento
padrão,	 tanto	 para	 o	 direito	 alemão	 quanto	 para	 esta	 espécie	 de	 instrumento	 e
também	 para	 as	 demais	 que	 compõem	 o	 denominado	 Direito	 Processual
Coletivo.	 Especialmente	 se	 considerados	 os	 efeitos	 produzidos,	 em	 termos	 de
vinculação,	para	os	que	não	participaram	efetivamente	do	processo.	Portanto,	o
cotejo	das	soluções	dadas	no	direito	estrangeiro	com	as	possibilidades	existentes
no	direito	brasileiro	pode	ser	muito	útil	para	o	aprofundamento	do	estudo	e	do
debate	sobre	o	tema,	que	sempre	foi	de	enorme	relevância	no	âmbito	das	ações
coletivas,	dos	acordos	coletivos	e	dos	procedimentos-padrão,	inclusive	no	novel
IRDR	brasileiro,	como	se	verá	no	momento	oportuno.
A	 Lei	 do	 Procedimento-Modelo	 para	 os	 litígios	 no	 mercado	 de	 capitais
(KapMuG)	 é	 expressa,	 no	 seu	 §	 22,	 no	 sentido	 de	 que	 a	 decisão	 modelo
(Musterentscheid)	 vincula	 os	 órgãos	 judiciais,	 em	 relação	 ao	 julgamento	 dos
processos	 que	 foram	 suspensos	 e	 que	 dependem	 da	 solução	 da	 pertinente
declaração	 ou	 interpretação	 da	 questão	 jurídica	 decidida	 no	 procedimento--
padrão6.
A	 decisão	 proferida	 no	 procedimento-padrão	 produzirá	 efeitos	 a	 favor	 ou
contra	 todos	 os	 participantes	 do	Musterverfahren,	 sejam	 as	 partes	 principais
(Musterkläger	e	Musterbelagten)	ou	os	 interessados	(Begeladenen).	Do	mesmo
modo,	 ficam	 vinculados	 se	 tiverem	 manifestado	 a	 desistência	 apenas	 após	 o
prazo	definido	no	§	24,	ou	seja,	de	um	mês	após	a	comunicação	da	suspensão
dos	processos.
Embora	tenha	adotado	o	efeito	vinculante	para	todos	os	sujeitos	processuais,
conferiu-se	 tratamento	 parcialmente	 diferenciado	 entre	 os	 que	 foram	 parte	 no
procedimento-padrão,	 ou	 seja,	 autor	 e	 réu	 do	 processo	 piloto	 (Musterkläger	 e
Musterbeklagten),	e	os	interessados	dos	processos	suspensos	(Beigeladenen)7.
Em	relação	ao	autor	e	 réu	do	procedimento-padrão	propriamente	dito,	não
houve	 qualquer	 previsão	 restritiva	 quanto	 à	 vinculação,	 razão	 pela	 qual	 a
doutrina	vem	apontando	que	o	tratamento	conferido	foi	o	da	coisa	julgada.
1
Quanto	 aos	 Beigeladenen	 (que	 tiveram	 os	 seus	 processos	 individuais
suspensos	por	força	da	instauração	do	incidente	de	procedimento-modelo),	a	lei
alemã	 previu	 expressamente	 em	 que	 hipótese	 se	 poderá	 afastar	 o	 efeito
vinculativo	nos	processos	 individuais	 em	 face	de	demandado	comum.	Trata-se
de	uma	atuação	viciada	do	autor	do	procedimento-modelo,	se	os	intervenientes,
na	situação	e	no	 tempo	em	que	 intervieram,	foram	impedidos	de	se	pronunciar
ou	 utilizar	 dos	 meios	 processuais	 de	 ataque	 e	 defesa	 cabíveis	 ou,	 por
desconhecimento,	 tenham	 deixado	 de	 se	 valer	 também	 destes	 meios,	 que	 não
foram	usados	pela	parte	principal	por	dolo	ou	falta	grave.
Vide,	 dentre	 outras	 referências,	 os	 seguintes	 trabalhos	 sobre	 o
Musterverfahren	 no	 âmbito	 do	 mercado	 mobiliário:	 BERGMEISTER,
Felix.	Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz	 (KapMuG).	Tübingen:	Mohr
Siebeck,	 2009;	 GEIGER,	 Caroline.	 Die	 Gruppenklage	 im
Kapitalmarktrecht.	 Tübingen:	 Mohr	 Siebeck,	 2015;	 HALFMEIER,	 Axel;
ROTT,	 Peter;	 FEESS,	 Eberhard.	 Kollektiver	 Rechtsschutz	 im
Kapitalmarktrecht.	 Frankfurt	 School	 Verlag,	 2010;	 HANISCH,	 Brigitte.
Das	 Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz	 (KapMuG).	 Baden-Baden:
Nomos,	 2011;	 HEITZIG,	 Markus.	 Das	 Kapitalanleger-
Musterverfahrensgesetz	als	Lösung	zur	Bewältigung	von	Massenverfahren.
Westfälische	Wilhelms-Universität,	 2010;	 HESS,	 Burkhard;	 REUSCHLE,
Fabian;	 RIMMELSPACHER,	 Bruno	 (Hrsg.)	 Kölner	 Kommertar	 zum
KapMuG.	 2.	 Auf.	 Köln:	 Carl	 Heimanns,	 2014;	 HEUFE,	 Stephanie.	Das
Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz	 (‚KapMuG‘).	 Berlin:	 Duncker	 &
Humblot,	 2012;	 KESKE,	 Sonja	 E..	 Group	 Litigation	 in	 European
Competition	 Law:	 A	 Law	 and	 Economics	 Perspective.	 Intersentia,	 2010;
KILIAN,	Thomas.	Ausgewählte	Probleme	des	Musterverfahrens	nach	dem
KapMuG.	Baden-Baden:	Nomos,	 2007;	KRENZER,	Sina.	Die	Grundzüge
des	 deutschen	Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetzes	 (KapMuG)	&	 der
Fall	 Deutsche	 Telekom.	 GRIN	 Verlag,	 2010;	 KRUPPA,	 Jan	 J.
Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz	(KapMuG)	–	Bestandaufnahme	und
Perspektiven.	 Hamburg:	 Dr.	 Kovac,	 2011;	 LESER	 Christoph.	 Die
Bindungswirking	 des	 Musterentscheids	 nach	 dem
2
3
4
5
Kapitalanlegermusterverfahrensgesetz.	 Baden-Baden:	 Nomos,	 2014;
PRUSSEIT,	Peter.	Die	Bindungswirkung	des	Musterentscheides	nach	dem
KapMuG.	 Sierke	 Verlag,	 2009;	 RAU,	 Carina.	 Das	 Kapitalanleger-
Musterverfahrensgesetz	 vor	 dem	 Hintergrund	 von	 Dispositions-und
Verhandlungsgrundsatz.	Hamburg:	Dr.	Kovac,	2008;	REUSCHLE,	Fabian.
Das	 Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz	 –	 KapMuG:	 Erläuterung	 –
Texte	–	Materialien.	Bundesanzeiger(Verlag),	 2005;	RÖSSLER,	Eberhard.
Das	 Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz	 (KapMuG)	 unter	 besonderer
Berücksichtigung	 der	 rechtlichen	 Stellung	 der	 Beigeladenen.	 Hartung-
Gorre	 (Verlag),	 2008;	 SCHILLING,	 Alexander.	 Das	 Kapitalanleger-
Musterverfahrensgesetz	und	die	class	action	im	Rechtsvergleich.	Hamburg:
Dr.	 Kovac,	 2010;	 STEINBERGER,	 Elisabeth.	 Die	 Gruppenklage	 im
Kapitalmarktrecht.	 Baden-	 Baden:	 Nomos,	 2016;	 VORWERK,	 Volkert;
WOLF,	 Christian.	 Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz.	 C.	 H.	 Beck,
2007.
Para	 uma	 análise	 (crítica)	 em	 termos	 de	 adequação	 dos	 instrumentos
coletivos,	 inclusive	 da	 KapMuG,	 em	 relação	 ao	 sistema	 jurídico	 alemão:
GOTTWALD,	 Peter.	 Kollektiver	 Rechtsschutz	 in	 Deutschland	 –	 nur
KapMuG	oder	mehr?	In:	MIKROULEA	Alexandra	et	alii	(org.),	Festschrift
für	Nikolaos	Klamaris,	v.	II,	Atenas:	Sakkoulas,	2016.
O	 cadastro	 é	mantido	 junto	 ao	Bundesanzeiger,	 uma	 espécie	 de	 imprensa
oficial,	que	possui	diversas	atribuições	de	registro	e	comunicação.
A	 interpretação	desta	 exigência	 ensejou	dúvida,	 no	 sentido	de	 se	 saber	 se
precisavam	 ser,	 ao	 todo,	 dez	 requerimentos	 formulados	 por	 autores	 de
processos	 diversos	 ou	 não,	 ou	 seja,	 se	 litisconsortes	 do	 mesmo	 processo
poderiam	 ser	 contabilizados,	 individualmente,	 para	 o	 fim	 de	 totalizar	 o
número	 estabelecido.	 O	 Bundesgerichtshof	 (BGH)	 decidiu	 no	 sentido	 da
possibilidade	 do	 número	 ser	 contado	 por	 litisconsorte.	 Desse	 modo,	 um
único	requerimento	subscrito	por	dez	litisconsortes	já	satisfaria	o	requisito
numérico.	BGH,	Beschluss	vom	16.06.2009,	NJW	2009,	2539-2541.	Vide
KRUPPA,	 Jan	 J.	 Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz	 (KapMuG)	 –
Bestandsaufnahme	und	Perspektiven,	cit.,	p.	42-43.
A	 importância	 do	 tema	 foi	 sentida	 porinúmeros	 autores	 alemães.	 Vide,
dentre	 outros:LESER,	 Christoph.	 Die	 Bindugswirkung	 des
Musterentscheids	 nach	 dem	 kapitalan-	 legermusterverfahrensgesetz,
Baden-Baden:	 Nomos,	 2014.	 Esta	 obra	 foi	 concluída	 no	 final	 de	 2008,
quando	 ainda	 vigente	 a	 redação	 anterior	 da	 KapMuG.	 Entretanto,	 foi
6
7
atualizada,	 em	 termos	 de	 literatura	 e	 julgados,	 até	 setembro	 de	 2013,
recebendo	 ainda,	 na	 parte	 final,	 um	 novo	 capítulo,	 no	 qual	 se	 abordou	 a
reforma	da	KapMuG	e	o	novel	§	22.
Há	grande	controvérsia	na	doutrina	alemã	sobre	a	terminologia	e	a	natureza
desta	 vinculação,	 especialmente	 em	 relação	 aos	 interessados,	 que	 tiveram
os	seus	processos	suspensos.	Nesse	sentido:	HESS,	Burkhard;	REUSCHLE,
Fabian;	 RIMMELSPACHER,	 Bruno.	 Kölner	 Kommentar	 zum	 KapMuG:
Gesetz	 über	 Musterverfahren	 in	 kapitalmarktrechlichen	 Streitigkeiten
(Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz	 –	 KapMuG),	 cit.;	 HALFMEIER,
Axel,	 Zur	 Neufassung	 des	 KapMuG	 und	 zur	 Verjährungshemmung	 bei
Prospekthaftungsanspruchüchen,	Der	Betrieb,	n.	38,	2012,	p.	2145	e	ss.;	e
também	a	obra	mencionada	na	nota	anterior.
HESS,	Burkhard;	REUSCHLE,	Fabian;	RIMMELSPACHER,	Bruno,	cit.
Capítulo	6
A	GROUP	LITIGATION	ORDER	DO	DIREITO
BRITÂNICO1
O	século	XX	termina	com	uma	grande	novidade	para	o	direito	na	Inglaterra
e	 no	 País	 de	 Gales,	 com	 a	 aprovação	 e	 entrada	 em	 vigor	 de	 um	 Código	 de
Processo	Civil,	 denominado	Rules	 of	Civil	Procedure.	Com	a	nova	 legislação,
passam	os	 ingleses	 a	 contar	 com	um	sistema	de	normas	 escritas	 no	 âmbito	do
direito	 processual	 civil,	 em	 substituição	 aos	 costumes	 e	 regras	 específicas
editadas	pelas	diversas	cortes.	Para	a	elaboração	do	Código,	em	vigor	desde	26
de	 abril	 de	 1999,	 segundo	 José	 Carlos	 Barbosa	 Moreira2,	 foi	 “dado	 o	 passo
decisivo	 em	 1994,	 quando	 o	 então	 Lord	 Chancellor	 incumbiu	 eminente
magistrado,	Lord	Woolf	of	Barnes,	de	empreender	pesquisa	relativa	à	situação	da
Justiça	civil	inglesa	e	de	oferecer	sugestões	para	melhorar-lhe	o	desempenho,	ao
qual	se	irrogavam	defeitos	do	gênero	lamentados	mundo	afora,	em	tantos	outros
sistemas	 judiciais:	 excessiva	 lentidão,	 custo	 exorbitante,	 desnecessária
complexidade	 e	 consequentes	 incertezas.	 O	 trabalho	 levado	 a	 cabo	 por	 Lord
Woolf	 achou	 expressão	 em	 dois	 relatórios	 sobre	 o	 acesso	 à	 Justiça,	 o	 Interim
Report	 de	 1995	 e	 o	 Final	 Report	 do	 ano	 subsequente,	 cujas	 conclusões
suscitaram,	como	era	de	esperar,	reações	contrastantes,	variáveis	entre	um	apoio
entusiástico	e	uma	veemente	rejeição.	Entretanto,	o	Civil	Procedure	Act	de	1997
anunciava	 o	 próximo	 advento	 de	 um	 código	 unifi-cador;	 e	 a	 mudança	 de
governo,	 com	 a	 ascensão	 dos	 trabalhistas	 ao	 poder,	 não	 arrefeceu	 o	 ímpeto
reformista.	Designado	para	reexaminar	o	assunto,	Sir	Peter	Middleton	elaborou
novo	 relatório,	 publicado	 naquele	mesmo	 ano,	 onde	 se	 recomendava	 a	 adoção
das	soluções	propostas	por	Lord	Woolf,	com	algumas	modificações”.
Lord	Woolf,	que	exercia	as	suas	funções	judicantes	na	presidência	da	Seção
Civil	da	Court	of	Appeal,	estava	particularmente	preocupado	com	os	litígios	que
causavam	 problemas	 para	 o	 sistema	 judiciário	 civil	 e	 em	 desenvolver	 novos
mecanismos	que	incrementassem	o	acesso	à	Justiça,	e,	dentro	deste	contexto,	as
providências	relacionadas	com	as	ações	denominadas	multipartidárias	mereciam
destaque	 acentuado3.	 As	 novas	 regras	 processuais	 deveriam,	 conforme
mencionado	 no	 item	 2	 do	 Capítulo	 17,	 denominado	Multi-Party	 Actions,	 do
Relatório	Final	do	Lord	Woolf,	alcançar	os	seguintes	objetivos:	a)	providenciar	o
acesso	 à	 Justiça,	 quando	 um	 grande	 número	 de	 pessoas	 fosse	 afetado	 pela
conduta	 de	 outra,	 mas	 o	 dano	 individual	 fosse	 diminuto	 a	 ponto	 de	 tornar
economicamente	 inviável	 a	 propositura	 de	 uma	 ação	 individual;	 b)	 propiciar
métodos	expeditos,	efetivos	e	proporcionais	para	a	resolução	de	casos	em	que	os
prejuízos	 individuais	 sejam	 grandes	 o	 suficiente	 para	 justificar	 demandas
singulares,	 mas	 que	 não	 podem	 ser	 satisfatoriamente	 conduzidos	 com	 os
procedimentos	 normais,	 tendo	 em	 vista	 o	 número	 de	 autores	 e	 a	 natureza	 das
questões	envolvidas;	c)	atingir	um	equilíbrio	entre	os	direitos	de	autores	e	réus,
que	 seriam	 normalmente	 exercidos	 em	 termos	 de	 persecução	 e	 defesa,	 e	 os
interesses	 de	um	grupo	para	 exercer,	 como	um	 todo,	 o	 seu	direito	 de	 ação,	 de
modo	efetivo4.
O	 Código	 inglês	 de	 Processo	 Civil	 faz	 parte,	 na	 verdade,	 de	 um	 grande
projeto	de	reforma	do	sistema	judicial	civil	da	Inglaterra,	mudança	esta	que	vem
sendo	apregoada	como	a	maior	dos	últimos	cem	anos5	 e	que,	com	a	edição	do
novo	 estatuto,	 completou	 a	 sua	 primeira	 e	 mais	 importante	 fase.	 As	Rules	 of
Civil	 Procedure	 encontram-se	 dispostas	 em	 partes,	 além	 de	 disposições
complementares,	 como	 Schedules,	 Index	 e	 um	 glossário.	 Para	 cada	 parte	 há,
também,	uma	respectiva	diretriz	prática	(practice	direction),	que,	muitas	vezes,
serve,	expressamente,	como	complemento	para	as	rules.
Mas	 o	 Código	 de	 Processo	 Civil	 inglês	 não	 representou	 uma	 inovação
apenas	 para	 os	 ingleses	 ou	 para	 a	common	law.	O	 novo	 estatuto,	 refletindo	 as
preocupações	contidas	nos	 relatórios	de	Lord	Woolf,	 fez	questão	de	 incorporar
no	 seu	 texto	 normas	 expressamente	 dispostas	 sobre	 demandas	 coletivas,
principalmente	concentradas	na	Part	19,	sob	a	denominação	de	parties	andgroup
litigation.	O	 título	encontra-se	 subdividido	em	 três	 seções	específicas,	 além	da
Norma	 19.1,	 que	 se	 pretende	 geral:	 addition	 and	 substitution	 of	 parties,
representative	parties	e	group	litigation.
As	 Seções	 II	 e	 III	 estão	 diretamente	 relacionadas	 com	 o	 tema	 da	 tutela
coletiva,	embora	apenas	a	última	seja,	de	fato,	uma	 inovação	no	direito	 inglês.
As	 disposições	 relacionadas	 com	 as	 representative	 parties	 marcam	 a
continuidade	das	representative	actions,	havendo	grandes	semelhanças	entre	as
normas	 anteriormente	 inscritas	 na	Order	 5,	 Rules	 12	 e	 13,	 das	 Rules	 of	 the
Supreme	 Court,	 e	 os	 preceitos	 agora	 previstos	 nas	 Regras	 19.66	 e	 19.77.
respectivamente,	das	Rules	of	Civil	Procedure.
A	Seção	III,	do	Título	19,	das	Rules	of	Civil	Procedure	é	 toda	destinada	à
group	 litigation,	 embora	 haja,	 também,	 normas	 relacionadas	 com	 o	 processo
coletivo	em	outras	partes	do	Código,	como,	v.g.,	a	prevista	na	Regra	48.6A	(5),
que	 diz	 respeito	 às	 custas	 judiciais.	 Registre-se,	 também,	 que	 a	 Practice
Direction	 19b,	 destinada	 à	 complementação	 das	 regras	 contidas	 no	 Código,
relacionada	com	os	litígios	de	grupo,	é	extremamente	importante,	sob	o	aspecto
normativo,	 não	 se	 limitando,	 portanto,	 a	 regulamentar	 as	 normas	 previstas	 no
estatuto	processual,	razão	pela	qual	deve	ser	vista	e	estudada	em	conjunto	com
as	rules.	Todavia,	 encontram-se	nas	practice	directions,	 tão	 somente,	 preceitos
relacionados	com	os	litígios	de	grupo	em	que	os	interesses	coletivos,	em	sentido
estrito,	 são	 pleiteados	 no	 polo	 ativo,	 embora,	 pelo	 Código,	 seja	 possível	 a
presença	 multi-individual	 também	 na	 parte	 demandada.	 Nesse	 caso,	 as	 cortes
devem	formular,	quando	necessário,	as	diretrizes	cabíveis.8
Segundo	as	Regras	19.109	e	19.11	(1)10	do	Código	de	Processo	Civil	inglês,
um	caso	pode	receber	o	tratamento	de	litígio	coletivo	–	Group	Litigation	Order
(GLO)	–	sempre	que	houver	pretensões	fundadas	ou	que	contenham	questões,	de
fato	 ou	 de	 direito,	 comuns	 ou	 relacionadas	 (GLO	 issues).	 O	 procedimento
coletivo	pode	ser	determinado	de	ofício	pelo	órgão	 judicial11	ou	requerido	pela
parte12,	devendo	haver,	todavia,	consulta	prévia	ao	Serviço	de	Informação	sobre
Ações	Coletivas	da	Law	Society,	para	se	aferir	sobre	a	existência	de	outros	casos
relacionados	com	as	questões	comuns	sugeridas.13	E,	caso	a	autorização	para	o
processamento	 coletivo	 seja	 concedida,	 devem	 ser	 enviadascópias	 da	 decisão
judicial	 (order),	 que	 a	 admitiu,	 para	 a	Law	Society	 e	 para	 o	Senior	Master	 da
Queen’s	Bench	Division	of	the	Royal	Courts	of	Justice,	com	o	intuito	de	se	dar
conhecimento	e	publicidade	sobre	a	existência	da	respectiva	demanda	coletiva,
nos	 termos	da	diretriz	 prática	 nº	 11	 sobre	group	 litigation.	Não	 há,	 entretanto,
qualquer	 imposição	 apriorística	 e	 absoluta	 no	 sentido	 de	 se	 proceder	 à
notificação	das	demais	pessoas	interessadas.	Assim	sendo,	poderão	as	cortes	agir
com	 discrição	 na	 avaliação	 pertinente	 à	 necessidade	 e	 à	 viabilidade	 da
notificação.	A	imposição	ou	não	da	obrigatoriedade	quanto	à	comunicação	será,
como	consta	dos	itens	47	a	50	do	relatório	final	do	Lord	Woolf,	decidida	no	caso
concreto,	 levando-se	 em	 consideração	 fatores	 como	 a	 sistemática	 adotada	 em
relação	 à	 vinculação	 dos	 efeitos	 (opt-out	 ou	 opt-in),	 a	 dimensão	 do	 grupo,	 o
valor	individual	das	pretensões,	os	custos	estimados	para	a	notificação	etc.14.
Não	obstante	as	observações	contidas	no	relatório	Woolf,	as	Rules	of	Civil
Procedure	acabaram	adotando	e	regulando,	principalmente,	o	sistema	do	opt-in,
centrado	na	adoção	de	um	registro15,	 junto	à	management	court,	 de	 pretensões
que	 seriam	 inscritas	no	 referido	assentamento	e	que,	por	 conseguinte,	 ficariam
vinculadas	 ao	 julgamento	 da	 questão	 comum.	 Observe-se,	 no	 entanto,	 que,
embora	 estabelecido	 o	 regime	 sob	 a	 forma	 de	 opt-in,	 as	 possibilidades	 de
atrelamento	são	muito	mais	amplas	do	que	as	adotadas	nos	sistemas	ordinários
de	inclusão.	Isso	porque	a	vinculação	ocorre,	de	regra,	em	relação	às	pretensões
que	 se	 encontram	 registradas	 no	 momento	 do	 julgamento,	 mas	 podem	 ser
estendidas,	também,	a	casos	que	sejam	posteriormente	inscritos,	se	a	corte	assim
determinar,	 como	 consta	 na	 Regra	 19.12	 (1)	 do	 Código	 de	 Processo	 Civil16.
Entretanto,	 a	 corte	 poderá	 estabelecer	 um	 prazo	 para	 que	 se	 efetue,
independentemente	de	permissão	específica,	o	registro	de	pretensões	calcadas	na
mesma	questão	comum17.
As	novas	regras	são	extremamente	flexíveis	em	vários	sentidos	e	conferem
amplos	 poderes	 aos	 juízes18.	 Em	 primeiro	 lugar,	 há	 que	 se	 destacar	 que	 o
processo	pode	conter	questões	predominantemente	coletivas	e	outras	de	natureza
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individual,	 sendo	 possível,	 portanto,	 a	 repartição	 do	 procedimento	 tendo	 em
vista	estas	peculiaridades.	Ou	ainda,	como	previsto	na	Rule	19.15,19	pode	haver	a
determinação	pela	Corte	para	que	haja	um	processo	teste	ou	modelo	(test	claim),
cujo	resultado	possui,	a	priori,	efeito	vinculante	em	relação	às	demais	demandas
previamente	 registradas.	As	questões	comuns	ou	as	ações	de	ensaio	devem	ser
processadas	e	julgadas	por	um	determinado	órgão	judicial	(management	court),20
que	 ficará	 prevento	 para,	 inclusive,	 efetuar,	 também,	 o	 registro	 de	 pretensões
individuais	relacionadas	com	a	common	question	ou	com	a	 test	claim.	Todavia,
as	questões	 individuais	 são	normalmente	 julgadas	por	 tribunais	 locais,	 levando
em	consideração	a	decisão	coletiva	ou	o	resultado	da	ação	de	ensaio	e	eventuais
diretrizes	formuladas	pela	management	court.21
Por	fim,	cabe	assinalar,	ainda,	que	o	estatuto	processual	 inglês	fez	questão
de	 regular,	 na	Regra	 48.6A	 (costs	where	 the	 court	 has	made	 a	 grouplitigation
order),	com	detalhes,	o	problema	da	repartição	das	custas,	diante	da	formulação
de	questões	coletivas	e	individuais.22
O	presente	capítulo	tomou	como	base	o	que	foi	anteriormente	exposto	em
MENDES,	 Aluisio	 Gonçalves	 de	 Castro.	 Ações	 coletivas	 e	 meios	 de
resolução	coletiva	de	conflitos	no	direito	comparado	e	nacional.	4.	ed.	São
Paulo:	Revista	dos	Tribunais,	2014,	item	3.2.
Uma	novidade:	o	Código	de	Processo	Civil	inglês,	p.	180.
Na	Introdução	ao	Capítulo	17	do	Final	Report,	afirmou	Lord	Woolf:	“The
second	 part	 of	 my	 Inquiry	 was	 partly	 intended	 to	 deal	 with	 types	 of
litigation	causing	particular	problems	for	the	system	of	civil	justice.	It	was
also	designed	to	examine	specific	developments	which	would	further	access
to	 justice.	Clearly	 the	 arrangements	 for	multi-party	 actions	must	 be	 near
the	top	of	the	list	in	both	respects”.
“The	new	procedures	should	achieve	 the	following	objectives:	 (a)	provide
access	 to	 justice	 where	 large	 numbers	 of	 people	 have	 been	 affected	 by
another’s	conduct,	but	individual	loss	is	so	small	that	it	makes	an	individual
action	 economically	 unviable;	 (b)	 provide	 expeditious,	 effective	 and
proportionate	 methods	 of	 resolving	 cases,	 where	 individual	 damages	 are
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large	enough	to	justify	individual	action	but	where	the	number	of	claimants
and	 the	 nature	 of	 the	 issues	 involved	 mean	 that	 the	 cases	 cannot	 be
managed	satisfactorily	in	accordance	with	normal	procedure;	(c)	achieve	a
balance	between	 the	normal	 rights	of	 claimants	 and	defendants,	 to	pursue
and	 defend	 cases	 individually,	 and	 the	 interests	 of	 a	 group	 of	 parties	 to
litigate	the	action	as	a	whole	in	an	effective	manner.”
Nesse	sentido	são	as	palavras	do	Lord	Chancellor,	no	prefácio	atualizado	do
Código:	“On	26th	April	1999,	I	introduced	the	most	fundamental	change	to
the	civil	justice	system	in	England	and	Wales	for	over	100	years.	This	first
phase	 of	 the	 civil	 justice	 reforms	 introduced	 a	 unified	 code	 of	 civil
procedure	applicable	 to	all	civil	courts,	ending	unnecessary	distinctions	of
practice	and	procedure	between	the	High	Court	and	the	county	courts”.
“(1)	Where	more	than	one	person	has	the	same	interest	in	a	claim	–	(a)	the
claim	may	be	begun;	or	(b)	the	court	may	order	that	the	claim	be	continued,
by	 or	 against	 one	 or	more	 of	 the	 persons	who	 have	 the	 same	 interest	 as
representatives	of	any	other	persons	who	have	 that	 interest.	 (2)	The	court
may	direct	that	a	person	may	not	act	as	a	representative.	(3)	Any	party	may
apply	 to	 the	 court	 for	 an	 order	 under	 paragraph	 (2).	 (4)	Unless	 the	 court
otherwise	directs	any	judgment	or	order	given	in	a	claim	in	which	a	party	is
acting	 as	 a	 representative	 under	 this	 rule	 –	 (a)	 is	 binding	 on	 all	 persons
represented	 in	 the	 claim;	 but	 (b)	 may	 only	 be	 enforced	 by	 or	 against	 a
person	who	is	not	a	party	to	the	claim	with	the	permission	of	the	court.	(5)
This	rule	does	not	apply	to	a	claim	to	which	rule	19.7	applies.”
“(1)	This	rule	applies	to	claims	about	–	(a)	the	estate	of	a	deceased	person;
(b)	property	subject	to	a	trust;	or	(c)	the	meaning	of	a	document,	including	a
statute.	(2)	The	court	may	make	an	order	appointing	a	person	to	represent
any	other	person	or	persons	in	the	claim	where	the	person	or	persons	to	be
represented	 –	 (a)	 are	 unborn;	 (b)	 cannot	 be	 found;	 (c)	 cannot	 easily	 be
ascertained;	or	 (d)	 are	 a	 class	of	persons	who	have	 the	 same	 interest	 in	 a
claim	and	–	(i)	one	or	more	members	of	that	class	are	within	subparagraphs
(a),	(b)	of	(c);	or	(ii)	to	appoint	a	representative	would	further	the	overriding
objective.	(3)	An	application	for	an	order	under	paragraph	(2)	–	(a)	may	be
made	by	–	(i)	any	person	who	seeks	to	be	appointed	under	the	order;	or	(ii)
any	party	to	the	claim;	and	(b)	may	be	made	at	any	time	before	or	after	the
claim	has	started.	(4)	An	application	notice	for	an	order	under	paragraph	(2)
must	be	served	on	–	(a)	all	parties	to	the	claim,	if	the	claim	has	started;	(b)
the	person	 sought	 to	be	 appointed,	 if	 that	person	 is	not	 the	 applicant	or	 a
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party	to	the	claim;	and	(c)	any	other	person	as	directed	by	the	court.	(5)	The
court’s	approval	is	required	to	settle	a	claim	in	which	a	party	is	acting	as	a
representative	 under	 this	 rule.	 (6)	 The	 court	 may	 approve	 a	 settlement
where	 it	 is	 satisfied	 that	 the	 settlement	 is	 for	 the	 benefit	 of	 all	 the
represented	persons.	(7)	Unless	the	court	otherwise	directs,	any	judgment	or
order	given	in	a	claim	in	which	a	party	is	acting	as	a	representative	under
this	rule	–	(a)	is	binding	on	all	personsrepresented	in	the	claim;	but	(b)	may
only	be	enforced	by	or	against	a	person	who	is	not	a	party	to	the	claim	with
the	permission	of	the	court.”
Practice	Direction	19b,	n.	1.
“A	Group	Litigation	Order	(GLO)	means	an	order	made	under	rule	19.11	to
provide	for	the	case	management	of	claims	which	give	rise	to	common	or
related	issues	of	fact	or	law	(the	‘GLO	issues’).”
“The	court	may	make	a	GLO	where	there	are	or	are	likely	to	be	a	number	of
claims	giving	rise	to	the	GLO	issues.”
Practice	 Direction	 19b,	 GLO	 made	 by	 court	 of	 its	 own	 initiative,	 n.	 4:
“Subject	 to	obtaining	 the	 appropriate	 consent	 referred	 to	 in	paragraph	3.3
and	the	procedure	set	out	in	paragraph	3.4,	the	court	may	make	a	GLO	of
its	 own	 initiative.	 (CPR	3.3	 deals	with	 the	 procedure	 that	 applies	when	 a
court	proposes	to	make	an	order	of	its	own	initiative)”.
Practice	Direction	19b,	n.	3.1:	“An	application	for	a	GLO	must	be	made	in
accordance	with	CPR	Part	23,	may	be	made	at	any	time	before	or	after	any
relevant	claims	have	been	issued	and	may	be	made	either	by	a	claimant	or
by	a	defendant”.
Practice	 Direction	 19b,	 preliminary	 steps,	 n.	 2:	 “Before	 applying	 for	 a
Group	 Litigation	 Order	 (‘GLO’)	 the	 solicitor	 acting	 for	 the	 proposed
applicant	should	consult	the	Law	Society’s	Multi	Party	Action	Information
Service	 in	order	 to	obtain	 information	about	other	cases	giving	rise	 to	 the
proposed	GLO	issues”.
“47.	If	members	of	a	group	are	to	opt	out,	or	to	join	the	register,	they	must
know	about	the	multi-party	action.	Notice	may	also	be	necessary	at	various
other	times	throughout	the	course	of	the	proceedings,	e.g.,	determination	of
generic	 issues;	on	settlement.	 In	 reaching	 the	decision	on	notice	 the	court
must	have	in	mind	the	cost	of	such	notice	and	its	usefulness:	in	some	cases
notice	 may	 be	 so	 expensive	 as	 to	 be	 disproportionate	 to	 the	 costs	 and
benefits	 of	 the	 litigation,	 or	 it	 may	 not	 serve	 a	 useful	 purpose.	 48.	 In	 a
15
multi-party	 action	 where	 there	 are	 many	 claims,	 each	 of	 which	 is	 small,
there	 is	 little	 to	 recommend	 in	 a	 rule	 making	 notice	 to	 each	 potential
claimant	 mandatory.	 The	 costs	 of	 identifying	 potential	 claimants,	 and
preparing	 and	 sending	 the	 notice,	 will	 make	 the	 litigation	 as	 a	 whole
uneconomic.	 In	 any	 event,	 where	 such	 claimants	 receive	 the	 notice	 and
choose	to	opt	out,	they	will	receive	nothing.	Because	with	small	claims	it	is
uneconomic	 for	 them	 to	 litigate	 individually,	 they	 will	 almost	 invariably
remain	members	of	 the	group.	In	 the	United	States,	 in	small	claims	group
actions,	 very	 few	 of	 the	 tens	 of	 thousands	 –	 in	 some	 cases	millions	 –	 of
potential	claimants	actually	notified	choose	to	opt	out.	Accordingly,	courts
must	have	the	discretion	to	dispense	with	notice	enabling	parties	to	opt	out
having	regard	to	factors	such	as	the	cost,	the	nature	of	the	relief,	the	size	of
individual	 claims,	 the	 number	 of	 members	 of	 a	 group,	 the	 chances	 that
members	will	wish	to	opt	out	and	so	on.	49.	Once	the	claims	become	more
substantial,	 however,	 individual	 notice	 is	 economically	 possible.	 It	 is
difficult	 to	 set	 a	 figure	 and	 the	matter	must	 be	 left	 to	 judicial	 discretion,
taking	 into	 account	 the	 factors	 I	 have	 already	mentioned.	Yet	 even	 if	 the
court	 decides	 that	 notice	must	 be	given	 to	members	of	 a	 group,	 it	 should
have	 a	 discretion	 as	 to	 how	 this	 is	 to	 be	 done	 –	 individual	 notification,
advertising,	 media	 broadcast,	 notification	 to	 a	 sample	 group,	 or	 a
combination	 of	 means,	 or	 different	 means	 for	 different	 members	 of	 the
group.	 In	 each	 case	 the	 court	 must	 take	 into	 account	 the	 likely	 cost	 and
benefit	before	deciding	on	the	course	of	action.	50.	The	court	should	have	a
discretion	to	order	by	whom	the	advertising	should	be	undertaken.	The	Law
Society’s	working	party	recommended	that	the	Law	Society	should	provide
further	guidance	 to	 solicitors	on	advertisements	placed	 in	 the	early	 stages
prior	 to	 the	 establishment	 of	 a	 group	 action.	 I	 welcome	 that.	 The	 Law
Society	 also	 recommended	 that	 the	 timing	 and	 placement	 of	 subsequent
advertisements	 should	 be	 approved	 by	 the	 court.	 There	 is	 also	 a	 need	 to
approve	the	content	of	the	advertisements	and	for	the	court	to	decide	on	the
appropriate	 body	 who	 should	 place	 the	 advertisement	 –	 either	 the	 lead
solicitor,	 the	 Law	 Society	 itself	 with	 its	 substantial	 media	 expertise,	 the
Legal	Aid	Board	or	the	court	itself.”
Practice	Direction	19b,	The	group	register,	n.	6.1:	“Once	a	GLO	has	been
made	a	Group	Register	will	be	established	on	which	will	be	entered	 such
details	as	 the	court	may	direct	of	 the	cases	which	are	 to	be	 subject	 to	 the
GLO”.
16
17
18
19
20
“19.12	 –	 Effect	 of	 the	 GLO:	 (1)	Where	 a	 judgment	 or	 order	 is	 given	 or
made	in	a	claim	on	the	group	register	in	relation	to	one	or	more	GLO	issues
–	(a)	that	judgment	or	order	is	binding	on	the	parties	to	all	other	claims	that
are	on	 the	group	register	at	 the	 time	 the	 judgment	 is	given	or	 the	order	 is
made	 unless	 the	 court	 orders	 otherwise;	 and	 (b)	 the	 court	 may	 give
directions	as	to	the	extent	to	which	that	judgment	or	order	is	binding	on	the
parties	to	any	claim	which	is	subsequently	entered	on	the	group	register.”
Practice	Direction	19b,	Cut-off	dates,	n.	13:	“The	management	court	may
specify	 a	 date	 after	which	 no	 claim	may	 be	 added	 to	 the	Group	Register
unless	the	court	gives	permission.	An	early	cut-off	date	may	be	appropriate
in	the	case	of	‘instant	disasters’	(such	as	transport	accidents).	In	the	case	of
consumer	 claims,	 and	 particularly	 pharmaceutical	 claims,	 it	 may	 be
necessary	to	delay	the	ordering	of	a	cut-off	date”.
Como	afirma	Christopher	Hodges,	no	texto	Multi-party	actions:	a	European
approach:	“The	primary	virtue	of	this	approach	is,	therefore,	its	flexibility.
The	Rule	enables	all	similar	cases	to	be	transferred	to	a	single	management
court	 and	 to	 be	 managed	 in	 a	 consistent,	 but	 not	 necessarily	 identical,
fashion.	The	Rule	is	an	enabling	mechanism	and	leaves	extensive	discretion
to	the	managing	judge.	It	may	be,	for	example,	that	individual	cases	are	not
resolved	together,	or	that	the	result	in	a	small	number	of	test	cases	does	in
fact	 bind	 all	 the	 others.	The	English	Rule	 adopts	 a	minimalist	 procedural
approach:	all,	it	is	suggested,	that	is	necessary”.
“(1)	Where	a	direction	has	been	given	for	a	claim	on	the	group	register	to
proceed	as	a	test	claim	and	that	claim	is	settled,	the	management	court	may
order	 that	 another	 claim	 on	 the	 group	 register	 be	 substituted	 as	 the	 test
claim.	(2)	Where	an	order	is	made	under	paragraph	(1),	any	order	made	in
the	 test	 claim	before	 the	date	of	 substitution	 is	 binding	on	 the	 substituted
claim	unless	the	court	orders	otherwise.”
“19.11	–	Group	Litigation	Order:	 (1)	 (…).	 (2)	A	GLO	must	–	 (a)	 contain
directions	 about	 the	 establishment	 of	 a	 register	 (the	 “group	 register”)	 on
which	the	claims	managed	under	the	GLO	will	be	entered;	(b)	specify	the
GLO	issues	which	will	identify	the	claims	to	be	managed	as	a	group	under
the	GLO;	 and	 (c)	 specify	 the	 court	 (the	 “management	 court”)	which	will
manage	the	claims	on	the	group	register.	(3)	A	GLO	may	–	(a)	in	relation	to
claims	which	raise	one	or	more	of	the	GLO	issues	–	(i)	direct	their	transfer
to	the	management	court;	(ii)	order	their	stay	(GL)	until	further	order;	and
(iii)	direct	their	entry	on	the	group	register;	(b)	direct	that	from	a	specified
21
22
date	claims	which	raise	one	or	more	of	the	GLO	issues	should	be	started	in
the	 management	 court	 and	 entered	 on	 the	 group	 register;	 and	 (c)	 give
directions	for	publicising	the	GLO.”
Nesse	 sentido,	 encontra-se	 previsto	 na	 Practice	 Direction	 –	 Group
Litigation:	“15.1	The	management	court	may	give	directions	–	 (1)	 for	 the
trial	 of	 common	 issues;	 and(2)	 for	 the	 trial	 of	 individual	 issues.	 15.2
Common	 issues	and	 test	claims	will	normally	be	 tried	at	 the	management
court.	 Individual	 issues	may	be	directed	 to	be	 tried	 at	 other	 courts	whose
locality	is	convenient	for	the	parties”.
“(1)	This	rule	applied	where	the	court	has	made	a	Group	Litigation	Order
(GLO).	 (2)	 In	 this	 rule	 –	 (a)	 ‘individual	 costs’	 means	 costs	 incurred	 in
relation	 to	 an	 individual	 claim	 on	 the	 group	 register;	 (b)	 ‘common	 costs’
means	–	(i)	costs	incurred	in	relation	to	the	GLO	issues;	(ii)	individual	costs
incurred	 in	 a	 claim	while	 it	 is	 proceeding	 as	 a	 test	 claim,	 and	 (iii)	 costs
incurred	by	the	lead	solicitor	in	administering	the	group	litigation;	and	(c)
‘group	litigant’	means	a	claimant	or	defendant,	as	the	case	may	be,	whose
claim	is	entered	on	the	group	register.	(3)	Unless	the	court	orders	otherwise,
any	order	for	common	costs	against	group	litigants	imposes	on	each	group
litigant	several	liability(GL)	for	an	equal	proportion	of	those	common	costs.
(4)	The	general	 rule	 is	 that	where	 a	 group	 litigant	 is	 the	paying	party,	 he
will,	 in	addition	 to	any	costs	he	 is	 liable	 to	pay	 to	 the	 receiving	party,	be
liable	for	–	(a)	the	individual	costs	of	his	claim;	and	(b)	an	equal	proportion,
together	with	all	the	other	group	litigants,	of	the	common	costs.	(5)	Where
the	 court	 makes	 an	 order	 about	 costs	 in	 relation	 to	 any	 application	 or
hearing	 which	 involved	 –	 (a)	 one	 or	 more	 GLO	 issues;	 and	 (b)	 issues
relevant	only	to	individual	claims,	the	court	will	direct	the	proportion	of	the
costs	that	is	to	relate	to	common	costs	and	the	proportion	that	is	to	relate	to
individual	 costs.	 (6)	 Where	 common	 costs	 have	 been	 incurred	 before	 a
claim	is	entered	on	the	group	register,	the	court	may	order	the	group	litigant
to	be	 liable	for	a	proportion	of	 those	costs.	 (7)	Where	a	claim	is	 removed
from	the	group	register,	the	court	may	make	an	order	for	costs	in	that	claim
which	includes	a	proportion	of	the	common	costs	incurred	up	to	the	date	on
which	the	claim	is	removed	from	the	group	register.	(Part	19	sets	out	rules
about	group	litigation)”.
7.1.
A	exposição	histórica	 em	 torno	da	elaboração	do	 instituto	do	 Incidente	de
Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 é	 importante,	 especialmente	 por	 dois
motivos.	O	primeiro,	naturalmente,	diz	 respeito	à	documentação	e	perpetuação
de	 todo	 o	 processo	 prévio	 e	 legislativo	 que	 resultou	 na	 criação	 do	 IRDR.	 O
segundo,	 que	 decorre	 do	 primeiro,	 está	 relacionado	 ao	 fornecimento	 de
elementos	 que	 propiciem	 a	 melhor	 compreensão	 do	 instituto,	 a	 partir	 de	 uma
interpretação	autêntica	e	sistemática.
A	FORMULAÇÃO	DA	PROPOSIÇÃO	NA	COMISSÃO	DE
JURISTAS,	O	(ANTE)PROJETO	DE	NOVO	CÓDIGO	DE
PROCESSO	CIVIL	E	O	TEXTO	APROVADO	NO	SENADO
FEDERAL
O	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas,	 como	 mencionado
anteriormente,	 surgiu	 na	 Comissão	 de	 Juristas	 designada	 pelo	 Senado	 Federal
para	 a	 elaboração	do	Anteprojeto	de	novo	Código	de	Processo	Civil.	Logo	no
início	 dos	 trabalhos,	 sob	 a	 presidência	 de	 Luiz	 Fux,	 estabeleceu-se	 que	 cada
integrante	formularia	proposições	para	serem	debatidas.	A	proposta	do	instituto
foi	apresentada	na	Comissão	por	Paulo	Cezar	Pinheiro	Carneiro,	tendo	recebido,
inicialmente,	 a	 denominação	 de	 Incidente	 de	 Coletivização.	 A	 ideia,	 acolhida
pela	Comissão,	buscava	estabelecer	um	mecanismo	que	pudesse	ser	utilizado	a
partir	da	primeira	instância,	sempre	que	identificada	controvérsia	com	potencial
de	gerar	 relevante	multiplicação	de	processos	fundados	em	idêntica	questão	de
direito	e	de	causar	grave	insegurança	jurídica.	Pretendia-se	o	fortalecimento	do
precedente,	 sucedendo,	 mas	 diferenciando-se,	 contudo,	 do	 incidente	 de
uniformização	de	jurisprudência,	do	Código	de	Processo	Civil	de	1973.
No	 primeiro	 documento	 público	 em	 que	 foram	 expostas	 as	 proposições
formuladas	pela	Comissão,	o	novo	instituto	já	assumia	uma	posição	de	destaque:
“Tendo	 como	 premissa	 esse	 objetivo,	 construiu-se	 a	 proposta	 de
instituição	de	um	incidente	de	coletivização	dos	denominados	litígios
de	massa,	o	qual	evitará	a	multiplicação	das	demandas,	na	medida	em
que	 o	 seu	 reconhecimento	 numa	 causa	 representativa	 de	milhares	 de
outras	 idênticas,	 imporá	 a	 suspensão	 de	 todas,	 habilitando	 o
magistrado	na	ação	primeira,	dotada	de	amplíssima	defesa,	com	todos
os	 recursos	 previstos	 nas	 leis	 processuais,	 proferir	 uma	 decisão	 com
largo	espectro,	definindo	o	direito	controvertido	de	 tantos	quantos	 se
encontram	 na	 mesma	 situação	 jurídica,	 trazendo	 uma	 solução	 de
mérito	consagradora	do	princípio	da	isonomia	constitucional.”1
O	 texto	 acima	 poderia	 sugerir	 que	 o	 novo	 instituto	 seria	 semelhante	 ao
Musterverfahren	 (procedimento-modelo)	 adotado	 na	 Alemanha	 no	 âmbito	 do
direito	 público	 (nos	 ramos	 da	 Administração	 Pública	 e	 da	 Previdência	 e
Assistência	Social),	que	é	processado	e	julgado,	inicialmente,	pelo	próprio	órgão
de	primeiro	grau.
Em	 junho	 de	 2010,	 veio	 a	 lume	 o	 texto	 do	 Anteprojeto	 de	 novo	 CPC,
confirmando	 a	 inspiração	 alemã,	 mas	 dentro	 de	 um	 regramento
significativamente	mais	próximo	do	sistema	adotado	para	o	Musterverfahren	do
mercado	 de	 capitais,	 introduzido	 com	 a	 KapMuG,	 em	 2005,	 como	 se	 pode
observar	na	respectiva	exposição	de	motivos:
Proporcionar	 legislativamente	 melhores	 condições	 para
operacionalizar	 formas	 de	 uniformização	 do	 entendimento	 dos
Tribunais	brasileiros	acerca	de	teses	jurídicas	é	concretizar,	na	vida	da
sociedade	brasileira,	o	princípio	constitucional	da	 isonomia.	Criaram-
se	 figuras,	 no	 novo	 CPC,	 para	 evitar	 a	 dispersão18	 excessiva	 da
jurisprudência.	 Com	 isso,	 haverá	 condições	 de	 se	 atenuar	 o
assoberbamento	de	 trabalho	no	Poder	 Judiciário,	 sem	comprometer	a
qualidade	da	prestação	jurisdicional.	Dentre	esses	instrumentos,	está	a
complementação	e	o	reforço	da	eficiência	do	regime	de	julgamento	de
recursos	 repetitivos,	 que	 agora	 abrange	 a	 possibilidade	 de	 suspensão
do	 procedimento	 das	 demais	 ações,	 tanto	 no	 juízo	 de	 primeiro	 grau,
quanto	dos	demais	 recursos	extraordinários	ou	especiais,	que	estejam
tramitando	 nos	 tribunais	 superiores,	 aguardando	 julgamento,
desatreladamente	 dos	 afetados.	 Com	 os	 mesmos	 objetivos,	 criou-se,
com	 inspiração	 no	 direito	 alemão,19	 o	 já	 referido	 incidente	 de
Resolução	de	Demandas	Repetitivas,	que	consiste	na	identificação	de
processos	 que	 contenham	 a	 mesma	 questão	 de	 direito,	 que	 estejam
ainda	 no	 primeiro	 grau	 de	 jurisdição,	 para	 decisão	 conjunta.20	 O
incidente	 de	 resolução	 de	 demandas	 repetitivas	 é	 admissível	 quando
identificada,	 em	 primeiro	 grau,	 controvérsia	 com	 potencial	 de	 gerar
multiplicação	 expressiva	 de	 demandas	 e	 o	 correlato	 risco	 da
coexistência	de	decisões	conflitantes.	É	instaurado	perante	o	Tribunal
local,	por	iniciativa	do	juiz,	do	MP,	das	partes,	da	Defensoria	Pública
ou	 pelo	 próprio	 Relator.	 O	 juízo	 de	 admissibilidade	 e	 de	 mérito
caberão	 ao	 tribunal	 pleno	 ou	 ao	 órgão	 especial,	 onde	 houver,	 e	 a
extensão	da	eficácia	da	decisão	acerca	da	tese	jurídica	limita-se	à	área
de	 competência	 territorial	 do	 tribunal,	 salvo	decisão	 em	contrário	 do
STF	ou	dos	Tribunais	superiores,	pleiteada	pelas	partes,	 interessados,
MP	ou	Defensoria	Pública.	Há	a	possibilidade	de	intervenção	de	amici
curiae.	 O	 incidente	 deve	 ser	 julgado	 no	 prazo	 de	 seis	 meses,	 tendo
preferência	sobre	os	demais	feitos,	salvo	os	que	envolvam	réu	preso	ou
pedido	de	habeas	corpus.	O	recurso	especial	e	o	recurso	extraordinário,
eventualmente	 interpostos	 da	 decisão	 do	 incidente,	 têm	 efeito
suspensivo	 e	 se	 considera	 presumida	 a	 repercussão	geral,	 de	 questão
constitucional	 eventualmente	 discutida.	 Enfim,	 não	 observada	 a	 tese
firmada,	caberá	reclamação	ao	tribunal	competente”.2
A	configuração	inicialdo	IRDR	revela	a	criação	de	um	instituto	novo,	que,
embora	tenha	recebido	a	inspiração	alemã,	assumia	características	próprias,	com
a	conjugação	de	instrumentos	nacionais	e	a	introdução	de	aspectos	genuínos.
No	ordenamento	brasileiro,	pode-se	assinalar	que	o	Incidente	de	Resolução
de	 Demandas	 Repetitivas	 complementa	 o	 sistema	 de	 julgamento	 de	 litígios
seriados	que	foi	inaugurado,	respectivamente	em	2006	e	2008,	com	os	recursos
extraordinários	 e	 especiais	 repetitivos.	 Estes	mecanismos	 careciam	 de	 solução
que	 propiciasse	 economia	 mais	 efetiva	 para	 toda	 a	 estrutura	 jurisdicional,	 em
especial	para	o	primeiro	e	segundo	graus	de	jurisdição,	que	continuavam	tendo
que	 julgar	 de	 modo	 atomizado	 e	 anti-isonômico	 as	 demandas	 de	 massa	 e	 as
questões	 comuns.	 Nesse	 sentido,	 o	 art.	 848	 do	 anteprojeto,	 na	 essência
reproduzido	no	texto	final	do	art.	928	do	CPC,	já	apontava	para	um	sistema	de
julgamento	 de	 casos	 repetitivos,	 ainda	 que	 algumas	 peculiaridades	 fossem
mantidas	para	cada	uma	das	espécies	(IRDR	e	recursos	repetitivos).
Em	segundo	 lugar,	o	antigo	 Incidente	de	Uniformização	de	 Jurisprudência
era,	de	certo	modo,	sucedido	pelo	IRDR,	no	anteprojeto,	e	depois	também	pelo
Incidente	 de	 Assunção	 de	 Competência	 (IAC).	Mas,	 o	 projetado	 Incidente	 de
Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 incorporava	 ainda	 a	 sistemática	 de	 outro
mecanismo	 já	 conhecido	 do	 ordenamento	 jurídico	 brasileiro:	 o	 Incidente	 de
Declaração	 de	 Inconstitucionalidade,	 especialmente	 no	 que	 dizia	 respeito	 ao
procedimento	de	fracionamento	do	julgamento	em	duas	fases:	a)	o	órgão	judicial
fracionário	ou	de	primeiro	grau	suscitariam	o	incidente	e,	depois	de	apreciado	o
seu	mérito,	efetuariam	o	julgamento	do	caso	concreto;	b)	o	órgão	mais	amplo	do
tribunal,	 inicialmente	 o	 plenário	 ou	 o	 órgão	 especial	 (na	 redação	 final,	 o	 que
fosse	definido	pelo	 regimento	 interno),	 apreciaria	 a	 admissibilidade	 e	o	mérito
do	 incidente,	 que	 seria	 concentrado	 na	 resolução	 da	 “questão	 jurídica”,	 com	 a
fixação	da	“tese	 jurídica”.	Por	 fim,	haveria	 semelhança	quanto	à	 suspensão	do
processo,	 que	 ficaria	 aguardando	 a	 apreciação	 do	 incidente,	 e	 no	 efeito
vinculativo	do	julgamento	proferido	no	incidente,	pois	o	órgão	originário	ficaria
7.2.
adstrito	ao	posicionamento	adotado	na	resolução	do	incidente.
A	técnica	do	incidente	de	declaração	de	inconstitucionalidade,	na	versão	do
IRDR,	seria,	contudo,	ampliada	nas	suas	potencialidades,	principalmente	quanto
a	 dois	 aspectos:	 a)	 seria	 adotada	 também	 diante	 de	 processos	 que	 estivessem
tramitando	 no	 juízo	 de	 primeiro	 grau;	 b)	 contra	 a	 decisão	 proferida	 no	 IRDR,
caberia	diretamente	a	interposição	dos	recursos	especial	e	extraordinário.
O	anteprojeto	da	Comissão	de	Juristas	 foi	convertido	no	Projeto	de	Lei	nº
166,	de	2010,	tendo	sido	o	teor	do	texto	referente	ao	Incidente	de	Resolução	de
Demandas	Repetitivas,	 praticamente,	mantido3	 na	 sua	 integralidade,	 na	 versão
que	foi	aprovada,	em	primeiro	turno,	no	Senado	Federal.
A	VERSÃO	DO	INCIDENTE	DE	RESOLUÇÃO	DE	DEMANDAS
REPETITIVAS	NO	TEXTO	APROVADO	NA	CÂMARA	DOS
DEPUTADOS4
No	 substitutivo	 aprovado	 na	 Câmara	 dos	 Deputados,	 houve	modificações
significativas	em	relação	ao	texto	anteriormente	aprovado	no	Senado	Federal.
A	 primeira	 dela	 foi	 quanto	 ao	 afastamento	 do	 caráter,	 de	 certo	 modo,
preventivo,	que	estava	presente	na	versão	anterior,	pois	o	incidente	seria	cabível
“sempre	 que	 identificada	 controvérsia	 com	 potencial	 de	 gerar	 relevante
multiplicação	 de	 processos”.	 No	 texto	 da	 Câmara,	 passou-se	 a	 exigir	 “efetiva
repetição	de	processos”.	Esta	primeira	mudança	no	texto,	por	si	só,	não	ensejou
maiores	 resistências,	 tanto	 que	 foi	 posteriormente	 mantida,	 como	 se	 verá
oportunamente,	na	redação	final	aprovada	no	Senado	Federal.
Houve	 significativa	 redução	 no	 campo	 de	 cabimento	 e	 de	 aplicação	 do
Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas	 em	 razão	 (a)	da	 exclusão	do
juiz	 do	 rol	 de	 legitimados	 para	 suscitar	 o	 incidente;	 (b)	 do	 incidente	 somente
poder	 ser	 provocado	 na	 pendência	 de	 processo	 no	 tribunal,	 afastando-se	 o
cabimento	do	 incidente	 enquanto	não	houver	processo,	 tramitando	no	 tribunal,
que	contenha	a	controvérsia	sobre	a	questão	comum	de	direito.
No	que	diz	respeito	à	legitimação,	se,	por	um	lado,	houve	a	exclusão	do	juiz
de	primeiro	grau,	por	outro,	a	redação	da	Câmara	ampliou	a	relação,	para	incluir
a	 pessoa	 jurídica	 de	 direito	 público	 e	 a	 associação	 civil	 cuja	 finalidade
institucional	 inclua	 a	defesa	do	 interesse	ou	direito	objetivo	do	 incidente.	Esta
ampliação,	 entretanto,	 não	 subsistiu	 na	 redação	 final	 aprovada	 no	 Senado
Federal.
Importante	acréscimo	realizado	na	Câmara,	mas	que	não	perdurou	no	texto
que	acabou	sendo	chancelado	no	Senado,	 foi	o	da	suspensão	da	prescrição	em
relação	 às	 pretensões	 pertinentes	 à	 questão	 de	 direito	 submetida	 ao	 IRDR.	 A
previsão,	 como	 se	 verá	 oportunamente,	 que	 se	 encontra	 presente,	 com
peculiaridades,	 também	 no	 procedimento-modelo	 do	 mercado	 de	 capitais	 no
ordenamento	 alemão,	 parece	 ser	 uma	 peça	 importante	 dentro	 do	 sistema	 de
julgamento	de	causas	 repetitivas,	para	que	o	 incidente	de	 resolução	da	questão
comum	 possa	 alcançar	 o	 seu	 objetivo	 pleno.	 Se	 devidamente	 divulgada	 a	 sua
pendência	 e	 a	 desnecessidade	 do	 ajuizamento	 das	 demandas	 repetitivas,	 em
razão	da	suspensão	do	lapso	prescricional,	parece	ser	indubitável	que	a	medida
seria	 um	 grande	 estímulo	 no	 sentido	 de	 se	 conter	 o	 ajuizamento	 em	 massa
durante	a	pendência	do	IRDR.
Por	 outro	 lado,	 na	 Câmara	 foram	 incorporadas	 importantes	 regras	 que
acabaram	 se	mantendo	 no	 texto	 definitivo,	 como:	 a)	 a	 da	 possibilidade	 de	 ser
novamente	 suscitado	 incidente	 anteriormente	 inadmitido	 por	 falta	 de
pressuposto,	desde	que	este	esteja	presente	na	reiteração;	b)	a	do	descabimento
do	 incidente	 quando	 a	 questão	 de	 direito	 já	 estiver	 afetada	 para	 decisão	 em
recurso	extraordinário	ou	especial	repetitivo;	c)	a	isenção	de	custas	no	IRDR.
Quanto	ao	prazo	para	o	julgamento	do	Incidente	de	Resolução	de	Demandas
Repetitivas,	o	lapso	de	seis	meses	foi	ampliado	para	um	ano,	que	se	manteve	na
redação	final,	sendo,	de	fato,	mais	consentâneo	com	a	realidade	dos	tribunais	no
âmbito	nacional.
Por	 fim,	 mas	 não	 menos	 importante	 foi	 a	 inclusão	 feita	 na	 Câmara	 dos
Deputados,	 no	 sentido	 de	 se	 estabelecer	 que	 a	 tese	 jurídica	 fixada	 a	 partir	 do
julgamento	do	incidente	seria	aplicada	a	todos	os	processos	que	tramitem	na	área
do	respectivo	tribunal,	inclusive	àqueles	que	tramitem	nos	juizados	especiais
do	respectivo	Estado	ou	região.	A	sugestão	de	inclusão,	que	foi	apresentada	pela
7.3.
Comissão	 Permanente	 de	 Processo	 Civil	 da	 Associação	 dos	 Juízes	 Federais
(AJUFE),	possui	grande	alcance,	considerando	o	excessivo	volume	de	processos
que	tramitam	no	âmbito	dos	juizados	especiais5.	Entretanto,	a	proposta	era	mais
ampla,	 pois	 atribuía	 aos	 próprios	 órgãos	 dos	 juizados	 especiais	 a	 competência
para	 a	 apreciação	 do	 IRDR,	 compatibilizando-se,	 assim,	 com	 a	 respectiva
estrutura	e	competência6.
O	IRDR	NA	REDAÇÃO	FINAL	APROVADA	NO	SENADO
FEDERAL	E	NO	TEXTO	SANCIONADO
A	análise	detalhada	da	redação	final	aprovada	se	fará	ao	longo	dos	próximos
capítulos.	 Cabe,	 neste	 momento,	 apenas	 assinalar	 que	 a	 modificação	 mais
sensível	efetuada	por	ocasião	da	aprovação	final	no	Senado	Federal	foi	quanto	à
concepção	pretendida	pela	Câmara	dos	Deputados,	no	sentido	de	condicionar	o
cabimento	 do	 Incidente	 de	Resolução	 de	Demandas	 repetitivas	 à	 existência	 de
processo	 em	 tramitação	 no	 tribunal	 de	 segundo	 grau.	 Como	 já	 apontado,	 esta
visão	já	se	contrapunha	ao	anteprojeto	redigido	pela	Comissão	de	Juristas,	bem
como	à	versão	aprovada	em	primeiro	turno	no	Senado.
Ressalte-se	que	o	objetivo	do	IRDR	estava	focadona	economia	processual,
na	 isonomia,	 na	 segurança	 jurídica	 e	 na	 busca	 da	 duração	 razoável	 dos
processos.	Em	princípio,	para	que	estes	objetivos	já	pudessem	se	sentir,	de	modo
mais	direto,	em	todo	o	Poder	Judiciário,	pretendia-se	a	sua	utilização	de	modo
mais	 amplo,	 o	 que	 seria	 atingido	 se	 o	 incidente	 pudesse	 ser	 acionado	 mais
rapidamente,	 ou	 seja,	 a	 partir	 da	 multiplicação	 em	 primeiro	 grau,	 sem	 a
necessidade	de	se	aguardar	que	chegassem	aos	 tribunais	de	segundo	grau,	 seja
por	força	de	ação	originária	ou	de	recurso.
O	 tema	 foi	 enfrentado,	 com	 destaque,	 no	 parecer	 final	 apresentado	 pelo
Relator	no	Senado	Federal7,	concluindo	no	sentido	de	que:
Os	 §§	 1º,	 2º	 e	 3º	 do	 art.	 988	 do	 SCD	 desfiguram	 o	 incidente	 de
demandas	 repetitivas.	 Com	 efeito,	 é	 nociva	 a	 eliminação	 da
possibilidade	da	sua	instauração	em	primeira	instância,	o	que	prolonga
situações	de	 incerteza	e	estimula	uma	desnecessária	multiplicação	de
demandas,	 além	 de	 torná-lo	 similar	 à	 hipótese	 de	 uniformização	 de
jurisprudência.
Na	verdade,	os	supramencionados8	§§	1º	e	2º,	do	art.	988	do	Substitutivo	da
Câmara	dos	Deputados	(SCD),	foram,	de	fato,	excluídos	do	texto,	enquanto	o	§
3º	teve	a	sua	redação	deslocada	para	outro	artigo	e	alterada,	para	reincluir	o	juiz
no	rol	dos	que	poderiam	suscitar	o	incidente.
Registre-se	 que	 houve	 a	 supressão	 de	 parte	 dos	 legitimados	 arrolados	 no
dispositivo	 do	 substitutivo	 da	 Câmara	 (pessoa	 jurídica	 de	 direito	 público	 e
associação	 civil	 cuja	 finalidade	 institucional	 inclua	 a	 defesa	 do	 interesse	 ou
direito	objeto	do	incidente)	sem	que	houvesse	motivação	explicitada	no	parecer
final	subscrito	pelo	relator.
Duas	 outras	 significativas	modificações	 foram	 sentidas	 no	 texto	 final,	 em
relação	ao	teor	do	projeto	aprovado	na	Câmara	dos	Deputados.
A	 primeira	 foi	 a	 que	 introduziu	 o	 parágrafo	 único	 no	 art.	 978	 do	 novo
Código	de	Processo	Civil.	Estabeleceu-se	que	o	órgão	colegiado	 incumbido	de
julgar	 o	 incidente	 e	 de	 fixar	 a	 tese	 jurídica	 julgará	 igualmente	 o	 recurso,	 a
remessa	 necessária	 ou	 o	 processo	 de	 competência	 originária.	 Este	 dispositivo
vem	 sendo	 objeto	 de	 grande	 controvérsia,	 a	 começar	 pela	 sua
constitucionalidade	 formal	 e	 material9.	 No	 âmbito	 formal	 do	 processo
legislativo,	porque	a	norma	não	constava	em	nenhum	dos	 textos	anteriormente
aprovados,	 respectivamente	 no	 Senado	 Federal	 ou	 na	 Câmara	 dos	 Deputados,
embora,	no	parecer	final,	se	tenha	afirmado	que	já	estivesse	implícita	na	redação
do	SCD.	Sob	o	prisma	material,	a	norma	afrontaria	o	disposto	no	art.	96,	I,	a,	da
Constituição	 da	República,	 na	medida	 em	que	 esta	 teria	 previsto	 que	 compete
privativamente	 aos	 tribunais	 a	 elaboração	 dos	 seus	 regimentos	 internos,
dispondo	 sobre	 a	 competência	 e	 o	 funcionamento	 dos	 respectivos	 órgãos
jurisdicionais	 e	 administrativos.	 É	 de	 se	 notar	 que	 o	 próprio	 parecer	 final	 do
Senado,	 em	 referência	 a	 outro	 dispositivo10,	 foi	 enfático,	 ao	 afirmar	 que
“desborda	de	seus	limites	quando	invade,	com	muita	intensidade,	autonomia	de
organização	 interna	 do	 tribunal	 por	 meio	 do	 regimento	 interno”.	 No	 plano
material,	porque	a	norma	estaria	em	afronta	ao	art.	96,	inciso	I,	da	Constituição
da	 República,	 que	 atribui	 privativamente	 aos	 tribunais	 a	 elaboração	 dos	 seus
regimentos	 internos,	 dispondo	 sobre	 a	 competência	 e	 o	 funcionamento	 dos
respectivos	 órgãos	 jurisdicionais.	 Portanto,	 não	 caberia	 ao	 CPC	 a	 fixação	 de
competência	interna	dos	tribunais.
A	 outra	 alteração	 significativa	 foi	 a	 supressão	 da	 norma	 pertinente	 à
suspensão	da	prescrição	das	pretensões,	nos	casos	em	que	se	repete	a	questão	de
direito.	A	justificativa	apresentada11	foi	“que	tal	matéria	é	afeta	ao	Direito	Civil	e
em	razão	de	a	suspensão	da	prescrição	perdurar	durante	a	tramitação	do	processo
nos	 termos	 do	 parágrafo	 único	 do	 art.	 202	 do	 Código	 Civil.	 Não	 é	 oportuno
inserir,	 na	 norma	 processual,	 um	 dispositivo	 que	 poderá	 conflitar	 com	 esse
dispositivo	do	Código	Civil”.	O	 relator	parece	 ter	 incorrido	em	equívoco.	 Isso
porque	 a	 previsão	 contida	 no	 SCD	diz	 respeito	 à	 suspensão	 da	 prescrição	 das
pretensões,	 abrangendo,	 portanto,	 aquelas	 que	 ainda	 não	 tenham	 sido
demandadas.	Como	supramencionado12,	a	norma	poderia	ter	um	elevado	alcance,
tornando	 desnecessário,	 e	 talvez	 improvável,	 o	 ajuizamento	 de	 inúmeras
demandas,	 enquanto	 estiver	 pendente	 o	 respectivo	 Incidente	 de	 Resolução	 de
Demandas	 Repetitivas	 (IRDR),	 propiciando	 enorme	 economia	 para	 o	 Poder
Judiciário	e	para	as	partes,	especialmente	nas	hipóteses	em	que	o	resultado	for
desfavorável	às	pretensões.	Por	sua	vez,	o	argumento	topográfico,	pertinente	ao
Código	Civil,	é	completamente	insuficiente,	pois:	a)	a	pureza	material	nunca	foi
absoluta;	 pelo	 contrário,	 a	 história	 demonstra	 a	 reiterada	 prática	 no	 sentido	do
cruzamento	 de	 normas	 entre	 os	 respectivos	 estatutos;	 b)	 a	 norma	 teria	 relação
direta	 com	 o	 novo	 instituto	 processual	 criado,	 sendo	 natural,	 portanto,	 que
disciplinasse	 os	 efeitos	 decorrentes	 da	 sua	 utilização,	 como	 efetuado,	 por
exemplo,	 pelo	 legislador	 alemão	 na	 lei	 sobre	 o	 procedimento-modelo	 nos
conflitos	 relacionados	 ao	 direito	 do	 mercado	 mobiliário13	 –	 Gesetz	 über
Musterverfahren	 in	 kapitalmarktrechtlichen	 Streitigkeiten	 (Kapitalanleger-
Musterverfahrensgesetz	–	KapMuG).
Por	 fim,	 ainda	 quanto	 ao	 processo	 legislativo,	mas	 na	 sua	 etapa	 final,	 ou
seja,	quando	da	sanção	presidencial,	há	que	se	apontar	a	modificação	realizada,	a
título	de	revisão	de	redação,	no	texto	aprovado	no	Senado	Federal,	que	acabou
1
2
sendo	 encaminhado	 ao	 Poder	 Executivo,	 no	 art.	 977,	 com	 repercussão	 no	 art.
986,	do	Código	de	Processo	Civil.	Na	redação	aprovada,	o	art.	977,14	que	tratava
dos	legitimados	para	suscitar	o	incidente,	continha	dois	incisos,	ipsis	litteris:	“I	–
pelo	juiz	ou	relator,	por	ofício;	II	–	pelas	partes,	pelo	Ministério	Público	ou	pela
Defensoria	Pública”.	Entretanto,	o	texto	que	passou	por	“revisão	de	redação”,	foi
submetido	 ao	 Executivo	 e	 acabou	 sendo	 sancionado	 e	 publicado	 continha	 os
seguintes	três	incisos:	“I	–	pelo	juiz	ou	relator,	por	ofício;	II	–	pelas	partes,	por
petição;	III	–	pelo	Ministério	Público	ou	pela	Defensoria	Pública,	por	petição”.
Por	 sua	 vez,	 o	 artigo	 que	 correspondia	 (983),	 no	 parecer	 final	 aprovado,	 ao
disposto	 no	 art.	 986,	 fazia	 referência	 ao	 então	 inciso	 II,	 que	 compreendia	 as
partes,	o	Ministério	Público	e	a	Defensoria	Pública.	Entretanto,	a	reestruturação
realizada,	 após	 a	 aprovação	 final	 no	 Senado,	 não	 foi	 seguida	 no	 art.	 986,	 que
atribui	a	legitimidade	para	o	requerimento	de	revisão	da	tese	firmada	em	IRDR
apenas	 aos	 legitimados	 mencionados	 no	 inciso	 III	 (limitados	 ao	 Ministério
Público	 e	 à	 Defensoria	 Pública).	 A	 revisão	 operada	 extrapolou,	 portanto,	 os
limites	 do	 poder	 de	 revisão,	 alterando	 o	 alcance	 da	 norma,	 em	 afronta	 ao
processo	 legislativo,	 devendo-se	 assegurar,	 não	 apenas	 em	 razão	 desta
inconstitucionalidade	 formal,	 mas	 também,	 como	 decorrência	 do	 princípio	 do
acesso	 à	 justiça	 e	da	 inafastabilidade	da	prestação	 jurisdicional,	 a	 legitimidade
das	partes	em	relação	ao	procedimento	de	revisão	das	teses	firmadas	em	sede	de
julgamento	de	questões	comuns	(repetitivas),	tanto	no	âmbito	do	IRDR	como	no
dos	recursos	repetitivos15.
O	documento,	subscrito	pelo	presidente	da	Comissão,	Luiz	Fux	e	datado	de
janeiro	 de	 2010,	 encontra-se	 disponível	 em:
legislador
comum	adicione	novas	atribuições	às	Cortes	Judiciárias.
É	 emblemática	 a	 posição	 do	 STF,	 por	 exemplo,	 adotada	 em	 relação	 às
modernas	 leis	 que	 sucessivamente	 foram	 incluindo	 a	 competência	 para	 decidir
com	força	vinculante	erga	omnes.	Quando,	pela	primeira	vez,	o	tema	foi	tratado
em	 emenda	 constitucional,	 apenas	 para	 a	 ação	 declaratória	 de
constitucionalidade,	o	STF	validou	igual	previsão	feita	em	lei	infraconstitucional
para	a	ação	direta	de	inconstitucionalidade.	E	o	argumento	decisivo	foi	o	de	que
o	 fato	 de	 a	 regra	 ter	 sido	 tratada	 pela	 Constituição	 para	 uma	 causa,	 não	 é
empecilho	 para	 que	 o	 legislador	 comum	 a	 estenda	 a	 outra	 causa,	 de	 igual
natureza.
Idêntica	foi	a	posição	do	STF	em	face	da	reclamação	constitucional,	que	a
CF	 inclui	 apenas	 na	 competência	 dos	 Tribunais	 Superiores,	 o	 que,	 entretanto,
não	 deveria	 impedir	 que	 o	 legislador	 estadual	 também	 o	 ingerisse	 na
competência	dos	tribunais	de	justiça.
Enfim,	 pensamos	 que	 a	 linha	 de	 orientação	 histórica	 do	 STF	 permite	 a
conclusão	 de	 que	 as	 competências	 judiciais	 traçadas	 pela	Constituição	 são	 um
mínimo	e	não	um	máximo,	intransponível	pela	legislação	infraconstitucional.	O
dinamismo	 dos	 tempos	 modernos	 e	 a	 concorrência	 das	 múltiplas	 garantias
fundamentais	que	hão	de	ser	implementadas	pelo	processo	judicial	impedem	que
se	 avaliem	 as	 regras	 constitucionais	 sobre	 competência	 de	 maneira	 estática	 e
inflexível.
Sobre	o	acesso	aos	 tribunais	superiores,	para	expandir	os	efeitos	do	 IRDR
além	da	circunscrição	territorial	do	tribunal	de	segundo	grau	em	que	o	incidente
se	instaurou,	houve	expressa	e	convincente	explanação	do	autor.
A	 tese	 do	 Professor	 Castro	 Mendes,	 a	 propósito,	 reconhece	 que,	 sem	 o
concurso	 dos	 Recursos	 Especial	 e	 Extraordinário,	 o	 IRDR	 não	 cumpriria	 seu
objetivo	 institucional	de	eliminar	a	divergência	em	torno	de	norma	federal,	em
todo	 o	 território	 nacional.	Daí	 a	 previsão	 de	medida	 cautelar	 de	 suspensão	 de
processos	em	todo	o	País,	deferível	pelo	STF	ou	pelo	STJ,	enquanto	se	aguarda	o
julgamento	do	tribunal	local	(art.	982,	§§	3º	e	4º).
Mas	a	 simples	medida	 cautelar	não	vai	 além	da	 suspensão	 temporária	dos
processos	 em	 curso	 fora	 da	 jurisdição	 do	 tribunal	 por	 onde	 corre	 o	 IRDR.	 É
preciso,	 após	a	 fixação	da	 tese	pelo	 tribunal	 local,	que	haja	um	 julgamento	de
mérito	do	Tribunal	Superior	sobre	o	tema	objeto	do	IRDR.
O	 interesse	nesse	 recurso	especial	ou	extraordinário	nem	sempre	se	baseia
na	sucumbência	ou	na	insurreição	contra	o	decidido	pelo	tribunal	local.	Aqueles
que	se	acham	sob	a	jurisdição	do	órgão	que	julgar	o	IRDR	só	têm	interesse	em
recorrer	 para	 o	 STF	 ou	 STJ	 se	 foram	 imediatamente	 prejudicados	 pelo
julgamento	do	incidente.
Diversa,	porém,	é	a	situação	dos	promoventes	da	medida	cautelar	deferida
pelo	STF	ou	pelo	STJ,	em	caráter	preparatório	da	possível	extensão	da	eficácia
do	julgamento	do	IRDR	para	todo	o	território	nacional.
Esse	 desiderato,	 provisoriamente	 assegurado	 em	 sede	 cautelar,	 ficará
frustrado	se	contra	o	julgado	do	tribunal	local,	não	se	interpuser,	em	tempo	hábil,
o	 recurso	para	o	STF	ou	STJ.	É	que	a	 suspensão	cautelar	cessará,	ex	 lege,	“se
não	 for	 interposto	 recurso	 especial	 ou	 recurso	 extraordinário	 contra	 a	 decisão
proferida	no	incidente”	(art.	982,	§	5º).
Dir-se-á	 que,	 em	 semelhante	 conjuntura,	 o	 RE	 e	 o	 REsp	 estariam	 sendo
manejados	 sem	 que	 se	 atendesse	 aos	 requisitos	 constitucionais	 da	 ofensa	 à
Constituição	ou	à	Lei	Federal.	Mas	não	é	bem	isso	o	que	acontece.	Se	se	tem	em
mira	a	garantia	de	obter-se	a	solução	da	questão	federal	com	eficácia	nacional,	a
persistência	 do	 efeito	 do	 IRDR	 apenas	 na	 área	 de	 jurisdição	 do	 tribunal,	 em
detrimento	 daqueles	 que	 obtiveram	 a	medida	 cautelar	 do	 art.	 982,	 §§	 3º	 e	 4º,
estaria,	 sem	 dúvida,	 acarretando-lhes	 violação	 da	 garantia	 constitucional	 da
isonomia	e	segurança	jurídica,	ou	de	ter	a	lei	federal	aplicada	a	todos	de	maneira
uniforme.
Mesmo,	portanto,	quando	o	terceiro	interessado	recorre	ao	STF	ou	ao	STJ,
apenas	 para	 ampliar	 o	 efeito	 do	 IRDR	 para	 todo	 o	 território	 nacional,	 o	 faz
dentro	dos	requisitos	constitucionais	dos	recursos	extraordinário	e	especial.
É	esse	detalhe	da	recorribilidade	prevista	para	o	julgamento	do	IRDR	que,	a
meu	ver,	merece	ponderação	e	realce.	Na	verdade,	o	que	visou	o	novo	CPC	foi
incluir	o	STF	e	o	STJ	como	sujeitos	que	também	participem	da	função	atribuída
ao	 IRDR,	 tendo	 em	 conta	 a	 necessidade	 inegável	 de	 que	 a	 uniformização	 da
interpretação	 e	 aplicação	 da	 Constituição	 e	 da	 lei	 federal	 nunca	 devem
permanecer	 restritas	ao	âmbito	dos	Tribunais	 locais.	É	algo	semelhante	ao	que
levou	 o	 legislador	 a	 criar	 ou	 ampliar	 remédios	 processuais	 para,	 por	 exemplo,
solucionar	no	STJ	conflitos	jurisprudenciais	entre	os	Juizados	Especiais	e	aquela
Corte	 Superior,	 bem	 como	 a	 estender	 a	 reclamação	 constitucional,	 por
jurisprudência	do	STF	e	por	disposição	de	lei	comum,	para	defesa	da	autoridade
dos	julgados	dos	tribunais	locais.
Registra	 o	 estudo,	 a	 respeito	 dos	 recursos	 especial	 e	 extraordinário	 no
campo	do	 IRDR,	 lições	doutrinárias	no	 sentido	de	que	a	competência	definida
constitucionalmente	se	mostra	inalterável	pelo	legislador	ordinário.
É	muito	 importante,	 todavia,	 advertir	 que	 os	 conceitos	 em	 que	 se	 apoia	 a
regra	constitucional	muitas	vezes	são	fixados	pela	lei	ordinária.
Por	 exemplo,	 a	 coisa	 julgada	 é	 protegida	 constitucionalmente	 contra	 a
retroatividade	 da	 lei.	Mas	 a	 Constituição	 não	 define	 o	 que	 é	 a	 coisa	 julgada.
Assim,	o	legislador	ordinário	pode	ora	ampliar,	ora	reduzir	o	conceito	e	extensão
da	 incidência	 da	 coisa	 julgada,	 como	 por	 exemplo,	 se	 passa	 entre	 as	 ações
singulares	e	as	ações	coletivas.
Da	 mesma	 maneira,	 muitos	 institutos	 previstos	 na	 Constituição	 têm	 sido
ampliados	 não	 só	 por	 lei,	 mas	 até	 por	 interpretação	 jurisprudencial	 evolutiva,
como,	por	exemplo,	no	caso	da	reclamação	e	da	força	vinculante	da	decisão	da
ação	direta	de	inconstitucionalidade.
Por	isso,	tenho	como	ultrapassada	pela	vivência	pretoriana	a	antiga	tese	da
absoluta	intocabilidade	das	competências	constitucionais.
Se,	porém,	esta	inflexibilidade	ainda	pode	prevalecer	para	as	competências
políticas	 delineadas	 pela	 Constituição,	 não	 vale,	 entretanto,	 em	 caso	 de
competência	processual,	que	põe	em	jogo	as	garantias	dos	direitos	fundamentais,
cuja	 tutela	 reclama	cada	vez	mais	 regras	maleáveis	e	dinâmicas,	e	não	 rígidas,
estáticas	e	intocáveis.
Muitas	 vezes,	 alargar	 competência	 jurisdicional,	 para	 abranger	 hipóteses
novas,	 em	vez	de	atritar	 com	o	 sistema	constitucional,	 o	 reforça	e	 incrementa,
sem,	 reduzir	 qualquer	 outra	 competência	 anteriormente	 atribuída	 pela
Constituição	 a	 órgão	 diverso.	 Por	 exemplo:	 o	 incidente	 de	 resolução	 de
demandas	repetitivas	não	existia	ao	 tempo	em	que	a	CF	definiu	a	competência
do	STF	e	do	STJ	para	os	recursos	extraordinário	e	especial.	Não	há,	a	meu	ver,
ofensa	à	Lei	Maior	em	ampliar	o	 terreno	de	admissibilidade	daqueles	 recursos
extremos,	para	neles	incluir	o	acórdão	do	tribunal	local	em	IRDR.
Na	sequência,	abordagens	inteligentes	foram	feitas	no	ensaio	ora	divulgado,
sobre	 cognição	 e	 fundamentação	 na	 aplicação	 da	 tese	 assentada	 no	 IRDR	 ao
caso	concreto,	assim	como	seu	afastamento	por	distinção	ou	superação.
Importante,	 ainda,	 foi	 o	 tratamento	 do	 tema	 relacionado	 à	 revisão	 da	 tese
pelo	próprio	tribunal	que	a	fixou.
No	fecho	do	riquíssimo	estudo,	quase	uma	centena	de	conclusões	resumem
os	resultados	do	notável	esforço	doutrinário	desenvolvido	e	levado	a	cabo	com
sucesso	pelo	autor.	Ali,	mais	do	que	um	simples	rol	de	títulos,	o	leitor	encontrará
um	catálogo	completo	do	pensamento	exposto	 ao	 longo	da	obra,	 facilitando,	 a
um	 só	 tempo,	 uma	 visão	 de	 conjunto	 e	 o	 acessoessa
possibilidade	não	é	recente.	Alfredo	Buzaid	já	aludia	a	ela,	advertindo	que
https://www.senado.gov.br/senado/novocpc/pdf/1a_e_2a_Reuniao_PARA_grafica.pdf
há	uma	grande	diferença	entre	as	decisões	adaptadas	ao	contexto	histórico
em	que	proferidas	e	aquelas	que	prestigiam	interpretações	contraditórias	da
mesma	 disposição	 legal,	 apesar	 de	 iguais	 as	 situações	 concretas	 em	 que
proferidas.	 Nesse	 sentido:	 “Na	 verdade,	 não	 repugna	 ao	 jurista	 que	 os
tribunais,	 num	 louvável	 esforço	 de	 adaptação,	 sujeitem	 a	 mesma	 regra	 a
entendimento	 diverso,	 desde	 que	 se	 alterem	 as	 condições	 econômicas,
políticas	e	sociais;	mas	repugna-lhe	que	sobre	a	mesma	regra	jurídica	deem
os	 tribunais	 interpretação	diversa	e	até	contraditória,	quando	as	condições
em	que	 ela	 foi	 editada	 continuam	as	mesmas.	O	dissídio	 resultante	de	 tal
exegese	 debilita	 a	 autoridade	 do	 Poder	 Judiciário,	 ao	 mesmo	 passo	 que
causa	 profunda	 decepção	 às	 partes	 que	 postulam	 perante	 os	 tribunais
(Uniformização	de	Jurisprudência.	Revista	da	Associação	dos	Juízes	do	Rio
Grande	do	Sul,	34/139,	jul.	1985).	19	No	direito	alemão	a	figura	se	chama
Musterverfahren	 e	 gera	 decisão	 que	 serve	 de	 modelo	 (=	 Muster)	 para	 a
resolução	 de	 uma	 quantidade	 expressiva	 de	 processos	 em	 que	 as	 partes
estejam	 na	 mesma	 situação,	 não	 se	 tratando	 necessariamente,	 do	 mesmo
autor	 nem	 do	 mesmo	 réu.	 (Ralf-Thomas	 Wittmann.	 Il	 ‘contenzioso	 di
massa’	 in	 Germania,	 in:	 Giorgetti	 Alessandro	 e	 Valerio	 Vallefuoco,	 Il
Contenzioso	 di	 massa	 in	 Italia,	 in	 Europa	 e	 nel	mondo,	 Milão:	 Giuffrè,
2008,	 p.	 178).	 20	 Tais	 medidas	 refletem,	 sem	 dúvida,	 a	 tendência	 de
coletivização	 do	 processo,	 assim	 explicada	 por	 Rodolfo	 de	 Camargo
Mancuso:	“Desde	o	último	quartel	do	século	passado,	foi	tomando	vulto	o
fenômeno	da	‘coletivização’	dos	conflitos,	à	medida	que,	paralelamente,	se
foi	 reconhecendo	 a	 inaptidão	 do	 processo	 civil	 clássico	 para
instrumentalizar	 essas	 megacontrovérsias,	 próprias	 de	 uma	 conflitiva
sociedade	 de	 massas.	 Isso	 explica	 a	 proliferação	 de	 ações	 de	 cunho
coletivo,	 tanto	 na	Constituição	Federal	 (arts.	 5º,	XXI;	LXX,	 ‘b’;	LXXIII;
129,	 III)	 como	 na	 legislação	 processual	 extravagante,	 empolgando
segmentos	 sociais	 de	 largo	 espectro:	 consumidores,	 infância	 e	 juventude;
deficientes	físicos;	 investidores	no	mercado	de	capitais;	 idosos;	 torcedores
de	modalidades	 desportivas,	 etc.	 Logo	 se	 tornou	 evidente	 (e	 premente)	 a
necessidade	da	oferta	de	novos	 instrumentos	capazes	de	recepcionar	esses
conflitos	 assim	potencializado,	 seja	 em	 função	 do	 número	 expressivo	 (ou
mesmo	 indeterminado)	 dos	 sujeitos	 concernentes,	 seja	 em	 função	 da
indivisibilidade	 do	 objeto	 litigioso,	 que	 o	 torna	 insuscetível	 de	 partição	 e
fruição	 por	 um	 titular	 exclusivo”	 (A	 resolução	 de	 conflitos	 e	 a	 função
judicial	 no	 Contemporâneo	 Estado	 de	 Direito.	 São	 Paulo:	 Revista	 dos
3
4
5
6
7
8
Tribunais,	2009,	p.	379-380).
Houve	modificações	tão	somente	na	ordem	e	numeração	de	alguns	artigos.
Vide	 os	 arts.	 895	 a	 906	 do	 Anteprojeto	 e	 arts.	 930	 a	 941	 do	 Projeto	 nº
166/2010,	na	versão	aprovada	no	Senado.
Sobre	 as	 duas	 versões,	 ou	 seja,	 a	 do	 Senado	 em	 primeiro	 turno	 e	 a	 da
Câmara	dos	Deputados,	vide	BUENO,	Cassio	Scarpinella.	Projetos	de	novo
Código	de	Processo	Civil	comparados	e	anotados:	Senado	Federal	PLS	nº
166/2010	e	Câmara	dos	Deputados	PL	nº	8.046/2010,	São	Paulo:	Saraiva,
2014.
Os	números	são	elevados.	Somente	em	2015,	foram	6.360.854	casos	novos
nos	juizados	especiais,	representando	28,63%	do	montante	protocolado	em
primeiro	grau.	Dos	processos	pendentes	em	primeiro	grau	(68.475.728),	no
final	 de	 2015,	 7.763.123	 estavam	 nos	 juizados	 especiais,	 representando
11,33%	do	total	de	processos	no	primeiro	grau	de	jurisdição.	Os	dados	são
da	 Justiça	 em	 Números	 2016,	 disponível	 em:
,	 acesso
em	15	nov.	2016.
A	 proposta	 era	 de	 que	 os	 órgãos	 equivalentes	 nos	 juizados	 especiais,	 tais
como	as	turmas	reunidas,	no	âmbito	regional	ou	estadual,	de	acordo	com	a
estruturação	pertinente,	ficassem	com	a	competência	para	os	Incidentes	de
Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 que	 fossem	 suscitados	 pelos	 órgãos
dos	 juizados	 especiais,	 sem	 prejuízo	 da	 vinculação	 às	 teses	 fixadas	 pelos
Tribunais	Regionais	ou	de	Justiça,	quando	matéria	comum	fosse	afetada	a
estes	órgãos.	A	questão	será	apreciada	oportunamente	no	capítulo	destinado
à	competência.
Trata-se	 do	 parecer	 final	 nº	 956,	 de	 2014,	 da	 Comissão	 Temporária
destinada	a	estudar	o	Substitutivo	da	Câmara	ao	Projeto	de	Lei	do	Senado
nº	166,	de	2010,	que	estabelece	o	Código	de	Processo	Civil,	cujo	relator	era
o	então	Senador	Vital	do	Rêgo.
A	redação	dos	dispositivos	era	a	seguinte:
“§	1º	O	incidente	pode	ser	suscitado	perante	tribunal	de	justiça	ou	tribunal
regional	federal.
§	 2º	 O	 incidente	 somente	 pode	 ser	 suscitado	 na	 pendência	 de	 qualquer
causa	de	competência	do	tribunal.
§	 3º	O	 pedido	 de	 instauração	 do	 incidente	 será	 dirigido	 ao	 presidente	 do
tribunal:
http://www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/pj-justica-em-numeros
9
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14
15
I	–	pelo	relator	ou	órgão	colegiado,	por	ofício;
II	 –	 pelas	 partes,	 pelo	 Ministério	 Público,	 pela	 Defensoria	 Pública,	 pela
pessoa	 jurídica	 de	 direito	 público	 ou	 por	 associação	 civil	 cuja	 finalidade
institucional	inclua	a	defesa	do	interesse	ou	direito	objeto	do	incidente,	por
petição”.
Como	será	analisado	no	capítulo	da	competência.
No	caso,	o	art.	991,	§§	1º	a	3º,	do	Substitutivo	da	Câmara	dos	Deputados.
Vide	parecer	final,	p.	179.
No	parecer	final,	p.	180,	alínea	“e”,	referindo-se	ao	art.	990,	§	5º,	do	SCD.
No	item	anterior,	7.2.
Como	 mencionado	 anteriormente.	 Vide	 o	 capítulo	 específico	 sobre	 a
KapMuG.
Que	correspondia	ao	art.	974	do	parecer	final	apresentado.	Vide	página	511
do	referido	documento.
O	tema	será	oportunamente	enfrentado	no	capítulo	pertinente	à	revisão	da
tese	jurídica.
8.1.
Capítulo	8
CONSIDERAÇÕES	PRÉVIAS	SOBRE
PRECEDENTES	E	JURISPRUDÊNCIA:
PAPEL,	FATORES	E	PERSPECTIVAS	NO
DIREITO	BRASILEIRO	CONTEMPORÂNEO.	O
CARÁTER	VINCULATIVO	NO	ART.	927	DO
NOVO	CÓDIGO	DE	PROCESSO	CIVIL
INTRODUÇÃO	(OU	BREVE	RETROSPECTO	SOBRE	O	TEMA
NOS	ÚLTIMOS	25	ANOS)	A	PARTIR	DA	VIVÊNCIA	E	DO
OLHAR	DO	AUTOR
Em	primeiro	lugar,	é	importante	consignar	que,	sob	o	prisma	acadêmico,	o
tema	começou	a	fazer	parte	das	inquietações	do	autor	destas	linhas	já	nos	idos	de
1990-1992,	 por	 ocasião	 das	 lições	 recebidas	 de	 José	 Carlos	 Barbosa	Moreira,
que	 já	 assinalava	 o	 pensamento	 advindo	 de	 Rubens	 Limongi	 França,	 como
representante	 de	 corrente,	 então	 minoritária,	 que	 defendia	 a	 inclusão	 da
jurisprudência	como	uma	das	fontes	formais	do	Direito,	com	reflexos	no	Direito
Processual.
Em	seguida,	no	ano	de	1993,	na	qualidade	de	mestrando	na	Faculdade	de
Direito	da	Universidade	de	São	Paulo,	o	contato	com	esta	linha	de	pensamento
foi	intensa	por	ocasião	da	audiência	nas	aulas	de	Carlos	Alberto	Bittar,	que,	na
condição	 de	 discípulo	 de	 Rubens	 Limongi	 França,	 recomendava	 vivamente	 a
leitura	das	obras	do	mestre,	dentre	as	quais	O	direito,	a	 lei	e	a	 jurisprudência,
editada	em	1974.
É	de	 se	 registrar	 que,	 no	 ano	 de	 1993,	 foi	 introduzida	 a	 previsão	 de	 ação
direta	de	constitucionalidade,	no	art.	102,	 inciso	I,	alínea	a,	da	Constituição	da
República,	ao	lado	da	ação	direta	de	inconstitucionalidade.	E,	como	no	§	1º,	no
art.	102,	foi	inserida	norma	estabelecendo	expressamente	a	eficácia	contra	todos
e	 o	 efeito	 vinculante	 para	 as	 decisões	 definitivas	 de	 mérito,	 proferidas	 pelo
Supremo	Tribunal	Federal,	nas	ações	declaratórias	de	constitucionalidade.	Pode-
se	 dizer	 que	 o	 efeito,	 por	 sinal,	 já	 deveria	 ser	 concebido	 naturalmente	 com
caráter	 vinculante	 e	 erga	 omnes,	 diante	 do	 caráter	 concentradoe	 difuso	 do
respectivo	 controle	 nas	 ações	 diretas	 de	 constitucionalidade.	Do	 contrário,	 não
faria	qualquer	sentido	prático	ou	jurídico.
O	tema	do	caráter	vinculativo,	propriamente	dito,	dos	precedentes	judiciais
talvez	tenha	ficado,	de	certo	modo,	adormecido	nos	anos	seguintes.	Sem	dúvida,
eram	tempos	de	redemocratização	do	país,	de	redescoberta	do	Poder	Judiciário	e
de	 afirmação	 da	 independência	 deste	 e	 dos	 seus	magistrados,	 que	 passariam	 a
exercer	um	controle	mais	efetivo	sobre	a	constitucionalidade	das	leis	e	dos	atos
estatais.
Entretanto,	 a	 importância	 da	 jurisprudência,	 especialmente	 dos	 Tribunais
Superiores,	começava	a	se	 impor,	ainda	que	de	modo	relativamente	singelo,	ao
se	conferir	poderes	para	o	Relator	decidir	monocraticamente.
E	 as	modificações	 legislativas	 foram	 sendo	 paulatinamente	 introduzidas	 e
ampliadas.	Em	1995,	a	Lei	nº	9.139	modifica	a	redação	do	art.	557	do	Código	de
Processo	 Civil	 de	 1973,	 que,	 na	 sua	 redação	 original	 previa,	 apenas	 para	 o
agravo,	 em	 caso	 de	 manifesta	 improcedência,	 a	 possibilidade	 de	 decisão
monocrática	indeferitória,	para	permitir	que	o	Relator	pudesse,	nos	recursos	em
geral,	 negar	 seguimento	 (leia-se	 provimento),	 se	 a	 pretensão	 fosse	 contrária	 à
súmula	do	tribunal	ou	de	tribunal	superior.
Logo	 depois,	 em	 1998,	 a	 Lei	 nº	 9.756	 efetua	 nova	 modificação	 no
respectivo	 art.	 557,	 estabelecendo-se	 que	 o	 recurso	 deveria	 ser	 improvido
monocraticamente	pelo	Relator	se	estivesse	em	confronto	(sentido	contrário)	não
apenas	 com	 a	 súmula,	 mas	 com	 a	 jurisprudência	 dominante	 (a	 qualificação
talvez	fosse	despicienda)	do	respectivo	tribunal,	do	Supremo	Tribunal	Federal	ou
de	Tribunal	Superior.	E,	no	parágrafo	único	do	mencionado	dispositivo,	amplia-
se	 também	 a	 possibilidade	 de	 julgamento	 monocrático,	 para	 o	 provimento	 do
recurso,	diante	de	decisão	que	estivesse	em	manifesto	confronto	com	súmula	ou
jurisprudência	do	Supremo	Tribunal	Federal	ou	de	Tribunal	Superior.	Mas,	não
se	 permitia	 o	 mesmo	 se	 a	 súmula	 ou	 a	 jurisprudência	 fosse	 do	 respectivo
tribunal.
Em	2004,	o	tema	volta	à	baila	com	a	Emenda	Constitucional	nº	45,	diante	da
nova	 redação	 do	 §	 2º	 do	 art.	 102	 da	 Constituição	 da	 República,	 prevendo
expressamente	 que,	 tanto	 nas	 ações	 diretas	 de	 constitucionalidade	 quanto	 de
inconstitucionalidade,	as	decisões	definitivas	de	mérito	proferidas	pelo	Supremo
Tribunal	 Federal	 produziriam	 eficácia	 contra	 todos	 e	 efeito	 vinculante,
relativamente	aos	demais	órgãos	do	Poder	Judiciário	e	à	administração	pública
direta	e	indireta,	nas	esferas	federal,	estadual	e	municipal.
A	EC	nº	45	inseriu	ainda	o	art.	103-A	na	Constituição	Federal,	instituindo	a
denominada	Súmula	Vinculante	do	Supremo	Tribunal	Federal,	cujos	enunciados
possuem	efeito	vinculante	em	relação	aos	demais	órgãos	do	Poder	Judiciário	e	à
administração	pública	direta	e	indireta,	nas	esferas	federal,	estadual	e	municipal.
A	 doutrina,	 por	 sua	 vez,	 já	 apontava	 para	 o	 fortalecimento	 desta
aproximação	 do	 direito	 processual	 brasileiro	 com	 institutos	 do	 common	 law,
indicando	 o	 efeito	 vinculante	 de	 decisões	 judiciais	 como	 sinal	 de	 uma
aproximação	 com	 o	 sistema	 de	 precedentes,	 ou	 stare	 decisis.	 Nesse	 sentido,
Barbosa	 Moreira	 enunciava	 o	 exemplo	 da	 súmula	 vinculante,	 recentemente
criada,	no	texto	O	processo	civil	entre	dois	mundos,	no	ano	de	2004.
Na	experiência	prática,	na	qualidade	de	magistrado,	é	de	se	assinalar	que	o
autor	destas	 linhas	 sempre	 foi	 um	adepto	da	vinculação,	 por	 entender	que	não
haveria	sentido	em	se	insurgir	contra	entendimentos	já	firmados	pelos	tribunais
superiores	e	aos	quais	 se	encontrava	vinculado.	Do	mesmo	modo,	quando,	 em
2005,	 foi	 convocado	 para	 o	 Tribunal	 Regional	 Federal,	 procurou,	 de	 maneira
geral,	alinhar	os	seus	votos	com	o	pensamento	consolidado	nos	órgãos	judiciais
colegiados	em	que	participou	e	isso	não	se	modificou	quando	foi	promovido	ao
cargo	 de	 desembargador.	 Pelo	 contrário,	 sob	 vários	 aspectos,	 que	 serão	 em
8.2.
seguida	 abordados,	 consolidou-se	 o	 entendimento	 a	 favor	 dos	 julgamentos	 em
conformidade	 com	 a	 jurisprudência	 e	 com	 os	 precedentes,	 mesmo	 quando
possuísse	posicionamento	pessoal	em	outra	direção.
O	tema	dos	precedentes,	na	vida	docente	deste	autor,	é	introduzido	nas	aulas
ministradas	nos	Programas	de	Pós-Graduação	em	Direito,	na	UERJ	e	na	Unesa,
e	 acaba	 se	 materializando,	 em	 um	 primeiro	 momento,	 na	 orientação	 de
mestrandos	 e	 doutorandos.	 Nesse	 sentido,	 iniciam-se	 as	 primeiras	 orientações
sobre	 o	 tema,	 dos	 mestrandos	 Luiz	 Norton	 Baptista	 de	 Mattos,	 em	 2006,
Gustavo	Santana	Nogueira,	em	2008,	e	Daniela	Pereira	Madeira,	em	2010,	que
resultaram	 em	 excelentes	 trabalhos,	 dois	 deles	 publicados	 (Súmula	 vinculante:
análise	 das	 principais	 questões	 jurídicas	 no	 contexto	 da	 reforma	 do	 Poder
Judiciário	 e	 do	 Processo	Civil	 brasileiro.	 Coord.	Alexandre	 Freitas	 Câmara	 e
Aluisio	 Gonçalves	 de	 Castro	 Mendes.	 Rio	 de	 Janeiro:	 Lumen	 Juris,	 2010.
(Coleção	 Direito	 Processual	 Civil	 Moderno)	 e	 Stare	 decisis	 et	 non	 quieta
movere:	a	vinculação	aos	precedentes	no	direito	comparado	e	brasileiro.	Rio	de
Janeiro:	 Lumen	 Juris,	 2011),	 dos	 dois	 primeiros	 mencionados.	 No	 âmbito	 do
doutorado,	 pode-se	 mencionar	 também	 a	 ótima	 tese	 “Modificações	 na
Jurisprudência	e	Proteção	da	Confiança”,	apresentada	por	Odilon	Romano	Neto,
no	ano	de	2016.
Nesta	 caminhada,	 chega-se	 ao	 Código	 de	 Processo	 Civil	 de	 2015,	 que
contém,	no	rol	das	suas	grandes	inovações,	o	fortalecimento	da	jurisprudência	e
dos	precedentes,	especialmente	manifestado	nos	arts.	926	e	927,	que	será	objeto
de	maior	análise	nos	itens	seguintes.
Mas	 não	 menos	 importante,	 foi	 a	 oportunidade	 de	 organizar,	 ao	 lado	 de
Teresa	 Arruda	 Alvim	 Wambier	 (que	 inaugurou	 o	 projeto,	 com	 o	 primeiro
volume,	 e	 seguiu	 firme	 na	 coordenação	 dos	 dois	 outros	 volumes)	 e	 de	 Luiz
Guilherme	 Marinoni,	 a	 obra	 Direito	 Jurisprudencial,	 volume	 II.	 Por	 fim,
encontra-se	 no	 prelo	 o	 terceiro	 volume	 desta	 coleção	 que	 vem	 reunindo
primorosos	 textos	 sobre	 o	 tema	 da	 jurisprudência	 e	 dos	 precedentes,	 agora
dividindo	a	organização	com	Teresa	Arruda	Alvim	e	Dierle	Nunes.
COMMON	LAW	E	CIVIL	LAW
O	estudo	do	“direito	 jurisprudencial”	encontra,	de	certo	modo,	como	pano
de	 fundo,	 as	 características	 das	 duas	 famílias	 jurídicas	 ocidentais,	 ou	 seja,	 do
civil	 law	e	do	common	law.	 Isso	porque	a	posição	do	precedente,	 sob	variados
aspectos,	assume,	tradicionalmente,	um	papel	diferenciado	nos	dois	sistemas.
A	 doutrina	 contemporânea	 vem	 apontando,	 contudo,	 certa,	 digamos,
aproximação	 entre	 estas	 duas	 realidades.	 José	 Carlos	 Barbosa	 Moreira,	 por
exemplo,	em	artigo	publicado	sob	o	sugestivo	título	“O	processo	civil	brasileiro
entre	 dois	 mundos”,1	 afirma	 ser	 “indubitável	 que	 o	 peso	 do	 universo	 anglo--
saxônico	tem	aumentado	no	direito	brasileiro,	talvez	mais	noutros	campos,	agora
diretamente	alcançados	pelas	vagas	da	globalização	econômica,	mas	também	no
terreno	 do	 processo	 civil”,	 citando,	 como	 sinais	 desta	mudança,	 a	 presença	 da
fórmula	“devido	processo	legal”,	as	técnicas	de	proteção	coletiva	dos	direitos	e
interesses	supraindividuais,	as	experiências	de	small	claim	courts	para	a	criação
e	 fortalecimento	 dos	 Juizados	 Especiais,	 a	 inspiração	 no	 mecanismo	 norte-
americano	 da	 certiorari	 para	 o	 instituto	 da	 repercussão	 geral	 e,	 por	 fim,	 a
eficácia	 vinculativa	 para	 os	 enunciados	 da	 súmula	 do	 STF,	 como	 “versão
bastante	mitigada	do	mecanismo	dos	binding	precedents	norte-	-americanos,	em
todo	caso	fonte	indiscutível	de	inspiração”.2
De	fato,	a	 realidade	contemporânea,	a	partir	da	dinamização	dos	meios	de
comunicação	 e	 de	 locomoção,	 vem	 assinalando	 para	 a	 interlocução	 e
aproximação	 entre	 as	 culturas,	 especialmente	 em	paísesem	que	há	uma	maior
liberdade	 e	 poder	 aquisitivo.	 Neste	 contexto,	 a	 ciência,	 inclusive	 jurídica	 e
processual,	acaba	iniciando	ou	aprimorando	conhecimentos	além	das	respectivas
fronteiras.	 Por	 conseguinte,	 há	 incremento	 no	 intercâmbio	 acadêmico	 e
profissional,	sendo	crescente	o	interesse	no	estudo	das	soluções	engendradas	por
outros	 países	 e	 culturas	 jurídicas,	 fortalecendo-se	 a	 curiosidade	 sobre	 o
funcionamento	 de	 outros	 sistemas	 e	 o	 incremento	 do	 direito	 processual
comparado3
É	 interessante	 notar,	 contudo,	 que	 a	 aproximação	 supramencionada	 é,	 por
vezes,	 relativa,	 pois,	 embora	 se	procure	 estudar	 e	 conhecer	melhor	 a	 realidade
alheia,	inclusive	com	a	eventual	introdução	de	mecanismos	inspirados	no	direito
estrangeiro,	 as	 diferenças	 estruturais,	 culturais	 e	 sistêmicas	 podem	 continuar
sendo	gritantes,	ou,	talvez,	possam	ficar	ainda	mais	perceptíveis,	o	que	não	deixa
de	ser,	ou	poder	ser,	um	segundo	passo	para	uma	reanálise	dos	institutos	e,	por
conseguinte,	modificações	mais	profundas.
O	 estudo	 dos	 precedentes	 representa,	 naturalmente,	 ponto	 central	 nesta
comparação	entre	as	famílias	jurídicas	do	common	law	e	do	civil	law,	tendo	em
vista	 o	 papel	 central	 que	 o	 instituto	 representa	 no	 primeiro	 sistema,
considerando-se	que	o	direito	costumeiro	é	declarado,	reconhecido	ou	criado4	a
partir	da	ratio	decidendi	dos	casos	julgados.	Representa,	assim,	parâmetro	para	a
sociedade,	 base	 para	 o	 ensino,	 para	 a	 prática	 profissional	 do	 direito	 e	 para	 os
próprios	julgadores.	O	método	indutivo	do	common	law	contrapõe-se,	assim,	ao
dedutivo	do	nosso	sistema,	que	sempre	procurou	priorizar	a	interpretação	a	partir
do	arcabouço	constitucional	e	 legal5	A	própria	caracterização	da	 jurisprudência
como	 forma	 ou	 fonte	 de	 expressão	 do	 direito	 sempre	 foi	 vista	 como	 posição
minoritária,	embora	defendida	por	juristas	como	Limongi	França6	Este,	por	sua
vez,	afirmava	que7	“os	juristas	estão	marcadamente	divididos,	com	referência	à
posição	da	jurisprudência	como	forma	geral	de	expressão	do	direito,	a	ponto	de
podermos	 dividi-los,	 em	 três	 grupos	 bem	 distintos.	 O	 primeiro,	 seria	 o	 dos
negativistas,	que	atribuem	pouco	ou	nenhum	valor	à	jurisprudência	como	tal.	O
segundo,	 dos	 que	 exacerbam	 o	 valor	 da	 mesma,	 e	 que	 chamaríamos	 de
jurisprudencialistas.	 O	 terceiro,	 o	 dos	 que	 se	 poderiam	 denominar	 realistas,
pois,	segundo	nos	parece,	colocam	a	questão	nos	seus	devidos	termos”.	Concluía
que8	 “a	 jurisprudência	 (não	 os	 julgados,	mas	 a	 repetição	 constante,	 racional	 e
pacífica	 destes)	 pode	 adquirir	 verdadeiro	 caráter	 de	 preceito	 geral.	 É,	 a	 nosso
ver,	 quando,	 pela	 força	 da	 reiteração	 e,	 sobretudo,	 da	 necessidade	 de	 bem
regular,	 de	 modo	 estável,	 uma	 situação	 não	 prevista,	 ou	 não	 resolvida
expressamente	 pela	 lei,	 ela	 assume	 os	 caracteres	 de	 verdadeiro	 costume
judiciário”.
Por	 outro	 lado,	 registre-se	 que	 a	 preocupação	 da	 doutrina,	 em	 relação	 ao
tema	da	jurisprudência,	não	se	limita	mais	apenas	à	discussão	de	outrora,	ou	seja,
sobre	a	sua	inclusão	ou	não	no	rol	das	fontes	do	direito,	assim	caracterizada	pela
sua	 eficácia	 vinculativa	 (binding	 precedent)	 e	 não	 apenas	 persuasiva.	 Embora
este	 aspecto	 continue	 sendo	 nuclear,	 as	 inquietações	 passaram	 a	 abarcar	 a
necessidade	 de	 uma	 ampliação	 e	 aprofundamento	 do	 objeto	 do	 estudo	 do
precedente.	 Por	 conseguinte,	 os	 olhares	 passaram	 a	 se	 voltar	 para	 a	 prestação
jurisdicional	como	um	todo,	envolvendo	uma	análise	do	papel,	das	estruturas	e
do	modo	como	vem	sendo	exercida	a	atividade	judicante	no	Brasil.
O	 estudo	 do	 precedente,	 no	 âmbito	 do	 common	 law,	 vem	 propiciando
profundas	 reflexões	 na	 teoria	 da	 decisão	 judicial,	 vista	 tradicionalmente,	 na
nossa	 realidade	 do	 civil	 law,	 como	 pronunciamento	 capaz	 de	 encerrar	 um
conflito,	 caracterizado	 pela	 pretensão	 resistida,	mas	 não	 como	 formuladora	 de
um	ponto	de	referência	normativo	para	o	sistema,	com	capacidade	de	vinculação
vertical	e	horizontal,	a	partir	de	uma	tese	jurídica	(ratio	decidendi	ou	holding),
que	precisa	ser	abstraída	do	julgado.
O	sistema	do	stare	decisis	et	non	quieta	movere9	(mantenha-se	o	decidido	e
não	 mova	 o	 que	 se	 encontra	 assentado),	 no	 common	 law,	 trabalha	 com	 uma
lógica	de	segurança	jurídica,	de	racionalidade,	de	isonomia	e	de	previsibilidade,
a	partir	de	uma	tese	jurídica	acolhida	por	uma	corte	judicial	e	que,	em	princípio
não	deve	ser	modificada	pelo	próprio	órgão	prolator	ou	cortes	inferiores	(eficácia
horizontal	e	vertical),	salvo	se	houver	uma	forte	razão	para	a	alteração	da	norma
estabelecida	(overruling).	Não	havendo	motivos	para	a	superação	do	precedente,
os	 demais	 casos	 deverão	 seguir	 o	 entendimento	 já	 firmado,	 estabelecido.	 O
direito	 costumeiro	 trabalha,	 assim,	 com	 uma	 metodologia	 de	 estudo	 dos
precedentes,	a	partir	dos	quais	se	extrai	a	razão	de	decidir	que	estará	norteando
os	casos	futuros	a	partir	de	elementos	que	foram	considerados	essenciais	para	a
tomada	 de	 decisão	 condutora.	 Por	 sua	 vez,	 se	 o	 futuro	 caso	 envolver	 outros
elementos	 essenciais	 peculiares,	 a	 corte	 deverá	 efetuar	 todo	 um	 trabalho	 de
argumentação,	no	sentido	de	demonstrar	que	o	novo	caso	não	se	enquadra	dentro
das	 características	 do	 precedente	 “a”	 ou	 “b”	 e	 que,	 portanto,	 merecerá	 a
construção	 de	 raciocínio	 diverso	 (“c”),	 distinto	 do	 aplicado	 anteriormente,
técnica	esta	denominada	distinguishing.
As	duas	famílias	jurídicas	reservam,	assim,	nítida	diferença	para	o	papel	do
precedente	 judicial,	 sob	o	ponto	de	vista	 teórico	 e	prático.	Registre-se	que,	 no
8.3.
que	 concerne	 aos	 precedentes,	 a	 ampliação	 e	 o	 aprofundamento	 do	 estudo	 do
tratamento	dado	pelos	países	de	common	law	poderão	propiciar	uma	mudança	de
paradigma	 nos	 países	 de	 civil	 law,	 mas	 isto	 ainda	 se	 encontra	 relativamente
distante	da	nossa	realidade	prática,	não	obstante	modificações	que	se	revelam	na
direção	 do	 fortalecimento	 dos	 precedentes	 judiciais	 no	 ordenamento	 jurídico
brasileiro.
A	IMPORTÂNCIA	DOS	PRECEDENTES	E	DA
JURISPRUDÊNCIA
Dentro	 da	 visão	 clássica	 da	 separação	 de	 poderes,	 caberia	 ao	 Poder
Judiciário	 tão	 somente	 a	 interpretação	 das	 normas	 editadas	 pelo	 Poder
Legislativo.	 Não	 se	 pretende,	 naturalmente,	 neste	 momento,	 se	 revolver	 um
quadro	mais	complexo	em	torno	da	questão.	Mas,	de	antemão,	pelo	menos	duas
hipóteses	podem	ensejar	uma	atividade	inovadora	por	parte	do	Poder	Judiciário:
(a)	quando	os	preceitos	estabelecidos	pelo	Legislador	ensejarem	diversidade	de
interpretação,	de	modo	que	haja	a	necessidade	de	se	fixar	o	devido	balizamento	e
padrão	normativo	de	conduta	e	seja	o	Poder	Judiciário	provocado	a	fazê-lo;	(b)
quando	 o	 caso	 concreto	 não	 se	 enquadrar	 em	 preceito	 legislativo	 anterior	 e
houver	demanda	sobre	a	questão,	levando	o	Poder	Judiciário,	diante	da	proibição
do	non	liquet,	a	enfrentar	pioneiramente	o	assunto.
Em	sentido	lato,	parece	que	ambas	as	hipóteses	supramencionadas	possam
ser	 tratadas	 como	 hard	 cases,	 pois,	 nas	 duas,	 o	 órgão	 judicial	 é	 instado	 a	 se
antecipar,	 de	 maneira	 inovadora	 e	 procurando	 estabelecer	 um	 liame
argumentativo	 com	 os	 princípios,	 regras	 e	 precedentes	 existentes	 no
ordenamento,	 de	 modo	 a	 se	 constituir	 em	 sintonia	 com	 o	 sistema	 jurídico.
Embora,	 na	 prática,	 as	 decisões	 judiciais	 nem	 sempre	 desenvolvam,	 com
profundidade,	esta	linha	de	fundamentação,	não	sendo	rara	a	prática	evasiva	de
se	 reportar	 tão	 somente	 ao	 sentir,	 ao	 parecer	 ou	 entendimento	 pessoal	 do
julgador	 ou	 a	 normas	 ou	 precedentes	 genéricos,	 sem	 que	 sejam	 enfrentadas,
respectivamente,	 os	 raciocínios	 divergentes	 ou	 a	 falta	 de	 preceito	 específico
sobre	a	questão	posta	em	juízo.
O	caráter	inovador	ou	criativo	das	decisões	judiciais	não	decorre,	portanto,
principalmente	da	vontade	do	próprio	 julgador,mas	das	 circunstâncias	 sociais,
razão	pela	qual	se	toma	a	liberdade	de	criticar	a	expressão,	pejorativa	por	sinal,
“ativismo	judicial”.	Esta	denominação	poderia	ser	empregada,	com	razão,	diante
de	uma	manifestação	do	órgão	 judicial	desprovida	de	provocação	pelas	partes,
como,	 por	 exemplo,	 a	 de	 julgamento	 extra	 petita	 ou	 fora	 dos	 contornos	 de
equilíbrio	na	condução	do	processo.
No	mundo	 contemporâneo,	 é	 fato	 notório	 e	 incontroverso	 que	 se	 vive	 em
uma	 sociedade	 a	 cada	 dia	mais	 dinâmica,	 na	 qual	 as	 inovações	 tecnológicas	 e
comportamentais	 são	 a	 tônica.	 A	 edição	 de	 normas	 escritas,	 pelo	 Poder
Legislativo,	pressupõe	a	existência	ou	previsibilidade	de	um	fato	a	ser	regulado.
Por	 sua	 vez,	 o	 processo	 legislativo,	 em	 sentido	 amplo,	 nas	 sociedades
democráticas,	é	marcado	por	ritos	procedimentais,	que	buscam	assegurar	o	pleno
debate	 e	 participação	 dos	 representantes	 do	 povo,	 demandando	 tempo.
Entretanto,	 a	 vida	 não	 para.	 Os	 debates	 e	 conflitos	 acabam	 sendo	 levados	 ao
Poder	Judiciário.	É	interessante	notar	que,	embora	o	processo	judicial	possa	ter
uma	 duração	 até	mesmo	 prolongada	 até	 o	 seu	 término,	 o	 encaminhamento	 do
conflito	ao	Poder	Judiciário	e	a	possibilidade	de	uma	decisão	judicial,	ainda	que
em	 caráter	 apenas	 antecipatório,	 não	 demandam	 maior	 demora	 ou	 mesmo
eventualmente	 custos	 elevados,	 o	que	o	 torna	 suscetível	 de	 rápida	ou	 imediata
provocação.
A	 dificuldade	 de	 previsibilidade,	 por	 parte	 do	 legislador,	 faz	 que	 se	 tente
contornar	o	problema	mediante	a	edição	de	preceitos	mais	gerais,	com	cláusulas
mais	 abertas,	 consideradas	 mandamentos	 de	 otimização,	 os	 denominados
princípios,	que	compõem	as	normas,	 ao	 lado	das	 regras.	Nesse	 sentido,	afirma
Robert	Alexy10	que	o	“ponto	decisivo	na	distinção	entre	regras	e	princípios	é	que
princípios	 são	 normas	 que	 ordenam	 que	 algo	 seja	 realizado	 na	maior	 medida
possível	 dentro	das	possibilidades	 jurídicas	 e	 fáticas	 existentes.	Princípios	 são,
por	 conseguinte,	 mandamentos	 de	 otimização,	 que	 são	 caracterizados	 por
poderem	ser	satisfeitos	em	graus	variados	e	pelo	fato	de	que	a	medida	devida	de
sua	satisfação	não	depende	somente	das	possibilidades	fáticas,	mas	também	das
possibilidades	 jurídicas.	 O	 âmbito	 das	 possibilidades	 jurídicas	 é	 determinado
pelos	princípios	e	regras	colidentes.	Já	as	regras	são	normas	que	são	sempre	ou
satisfeitas	ou	não	satisfeitas.	Se	uma	regra	vale,	então,	deve	se	fazer	exatamente
aquilo	 que	 ela	 exige;	 nem	 mais,	 nem	 menos.	 Regras	 contêm,	 portanto,
determinações	 no	 âmbito	 daquilo	 que	 é	 fática	 e	 juridicamente	 possível.	 Isso
significa	que	a	distinção	entre	regras	e	princípios	é	uma	distinção	qualitativa,	e
não	uma	distinção	de	grau.	Toda	norma	é	ou	uma	regra	ou	um	princípio”.	Dentro
desta	concepção	mais	estrita,	as	duas	possibilidades	supramencionadas	de	hard
cases	poderiam	ser	esquematizadas	do	seguinte	modo:	(a)	a	colidência	de	regras,
com	 o	 pronunciamento	 judicial	 a	 partir	 de	 princípios;	 (b)	 ausência	 de	 regras,
com	 decisão	 judicial	 também	 calcada	 em	 princípios.	 Em	 ambas,	 a	 atividade
concretizadora,	em	termos	de	regras,	adviria	do	Poder	Judiciário.
Portanto,	pode-se	afirmar	que	os	precedentes	passam	a	ter	mais	significado
para	a	definição	das	normas	de	conduta,	no	cenário	atual,	não	apenas	nos	países
de	common	law,	mas	também	para	os	ordenamentos	considerados	de	civil	law.
Em	 termos	 formais,	 o	 ordenamento	 processual	 brasileiro	 se	 referia
especialmente	 à	 jurisprudência	 ou	 apenas	 a	 um	 dos	 seus	 instrumentos	 de
exteriorização:	 a	 súmula.	 Entretanto,	 a	 evolução	 do	 sistema	 pressupõe	 o
amadurecimento	 do	 tratamento	 conferido	 tanto	 à	 jurisprudência	 quanto	 aos
precedentes.
Isso	porque	ambos	representam	estágios	correlacionados	do	fortalecimento
do	pronunciamento	judicial,	envolvendo	as	suas	diversas	qualidades.
Dentro	 deste	 cenário,	 as	 decisões	 judiciais	 passam	 a	 ter	 uma	 importância
não	apenas	sob	o	prisma	da	resolução	do	caso	concreto,	mas	como	fixadoras	de
padrões	de	conduta.	Muitos	exemplos	poderiam	demonstrar	esta	afirmação.	Em
seguida,	serão	apontados	dois.
O	 primeiro	 diz	 respeito	 à	 proibição	 do	 fumo	 nas	 aeronaves,	 estabelecida
inicialmente	 a	 partir	 de	 uma	 decisão	 judicial	 proferida	 em	 ação	 civil	 pública,
ajuizada	 pelo	Ministério	 Público	 Federal,	 no	 ano	 de	 1998,	 quando	 ainda	 não
havia	 lei	 que	 expressamente	 proibisse	 esta	 prática	 em	 voos	 de	 longa	 duração.
Levando-se	 em	consideração	princípios	 como	o	da	 segurança	 e	da	 saúde,	 bem
como	 a	 analogia	 com	 outras	 regras,	 a	 Justiça	 Federal	 do	 Rio	 Grande	 do	 Sul
8.4.
determinou	 a	 proibição	 do	 fumo	 em	 todas	 as	 aeronaves,	 em	 voos	 nacionais,
durante	todo	o	percurso.11
O	segundo	exemplo	pode	ser	apontado	nos	julgamentos	proferidos	pelo	STF
na	 ADPF	 132/RJ	 e	 na	 ADIn	 4.277/DF,	 declarando	 a	 inconstitucionalidade	 de
distinção	 de	 tratamento	 legal	 às	 uniões	 estáveis	 constituídas	 por	 pessoas	 de
mesmo	 sexo,	 o	 que	 acabou	 por	 ensejar	 a	 edição	 da	 Res.	 175/2013,	 do	 CNJ,
ampliando	a	 incidência	do	posicionamento	 firmado	para	aplicá-lo	aos	casos	de
habilitação,	celebração	de	casamento	civil,	ou	de	conversão	de	união	estável	em
casamento,	entre	pessoas	de	mesmo	sexo.
Em	 ambos	 os	 casos,	 as	 decisões	 judiciais	 proferidas	 representaram
importantes	 inovações,	 que	 se	 anteciparam	 em	 relação	 a	 eventuais	 mudanças
legais,	 ensejando	 provimento	 de	 caráter	 criador	 e	 pacificador	 para	 as	 relações
sociais.
O	STARE	DECISIS	E	AS	QUALIDADES	DOS	PRECEDENTES	E
DA	JURISPRUDÊNCIA
O	funcionamento	do	stare	decisis	 se	baseia	na	 ideia	de	segurança	 jurídica,
previsibilidade	e	de	isonomia,	com	a	sociedade	podendo	se	nortear	a	partir	dos
valores	 e	 das	 normas	 estabelecidas	 com	 base	 nos	 costumes	 reconhecidos	 ou
estabelecidos	 nos	 precedentes	 judiciais.	 Portanto,	 a	 delimitação	 das	 razões	 de
decidir	 e	 das	 circunstâncias	 essenciais	 do	 caso	 julgado	 é	 fundamental	 para	 a
caracterização	do	que	está	abarcado	ou	não	nos	limites	do	entendimento	firmado
pela	corte.	Esta	operação	costuma	distinguir,	portanto,	a	essência	da	tese	jurídica
assumida	 (ratio	 decidendi)	 de	 elementos	 acidentais	 ou	 pronunciados	 a	 latere
(obter	dicta)	no	julgamento.
Por	sua	vez,	o	precedente	possui	uma	eficácia	horizontal	e	vertical,	ou	seja,
vinculando	o	próprio	órgão	judicial	prolator	e	os	que	estão	em	posição	inferior,
ou	melhor,	submetidos	em	termos	de	meios	de	impugnação	ao	seu	julgamento.
Naturalmente,	 o	 seu	 ponto	 de	 vista	 poderá	 influenciar	 e	 ser	 considerado	 por
instâncias	 superiores,	 mas	 sem	 qualquer	 efeito	 vinculativo.	 Entretanto,	 se
reformada	a	decisão,	o	pronunciamento	proferido	pela	instância	superior	passará
a	ser	vinculante.
O	sistema	trabalha,	assim,	com	uma	ideia	de	manutenção	de	entendimento
se	 não	 houver	 nenhum	 fator	 relevante	 a	 determinar	 uma	 mudança	 de
entendimento,	o	que,	naturalmente,	é	possível,	mas	não	frequente.	E,	de	qualquer
modo,	quando	overruled,	ou	seja,	superada	a	tese	anterior,	há	que	se	realizar	toda
uma	construção	argumentativa	a	justificar	a	alteração	de	entendimento.	As	cortes
são,	portanto,	muito	ciosas	no	sentido	da	preservação	dos	seus	precedentes.	Por
outro	lado,	parece	haver	um	respeito	em	relação	a	este	posicionamento	por	parte
das	instituições	jurídicas.	Naturalmente,	esta	respeitabilidade,	ou	melhor,	solidez
decorre	 e	 é	 proporcional,	 em	 boa	 medida,	 à	 capacidade	 de	 fundamentação
contida	nas	razões	da	decisão	(ratio	decidendi).
Gustavo	 Santana	Nogueira12	 entretanto,	 discorre	 que,	 entre	 os	 fatores	 que
costumam	 influenciar	 a	 força	 do	 precedente,	 nos	 Estados	Unidos	 da	América,
estão	se	o	mesmo	versa	sobre	matéria	constitucional13	os	juízes	que	participaram
da	votação,	o	placar	da	votação,	a	idade	do	precedente	e	a	repercussão	em	casos
futuros.
No	 direito	 britânico,	 a	 forçavinculante	 do	 precedente	 ficou	 assentada
especialmente	 em	 1898,	 a	 partir	 do	 caso	 London	 Tramways	 v.	 London	 City
Council,	 julgado	pela	House	of	Lords14	 tendo-se,	na	ocasião,	 ressaltado	que	ela
própria	 estaria	 ungida	 pelas	 suas	 decisões	 e	 não	 poderia	 se	 afastar	 delas	 nos
casos	similares	futuros.15	A	rigidez	desta	vinculação	gerou	críticas,	no	sentido	de
que	restringiria	o	natural	desenvolvimento	do	direito	e	a	sua	conformidade	com
as	mudanças	operadas	nos	padrões	 e	 na	 cultura	 da	 sociedade.	Desperta	 para	 o
problema,	a	própria	House	of	Lords	retratou-se	oficialmente,	em	1966,	mediante
uma	declaração	sobre	“precedente	judicial”,	publicada	em	todos	os	repositórios
jurídicos	 da	 Inglaterra.	No	documento,	 ressaltou-se	 que	o	 uso	do	precedente	 é
uma	base	indispensável	sobre	a	qual	se	decide	qual	é	o	direito	e	a	sua	aplicação
para	os	 casos	 individuais.	Entretanto,	 os	membros	da	Corte	 reconheceram	que
uma	aderência	 extremamente	 rígida	 ao	precedente	poderia	 conduzir	 à	 injustiça
em	 um	 caso	 específico	 e	 também	 indevidamente	 restringir	 o	 normal
desenvolvimento	 do	 direito.	 Propuseram,	 assim,	 a	 modificação	 da	 respectiva
prática,	 em	 relação	 às	 decisões	 anteriores	 da	 House	 of	 Lords	 que	 seriam
normalmente	 vinculantes,	 afastando-se	 de	 uma	 decisão	 anterior	 quando	 se
mostrar	 correto	 que	 assim	 seja	 feito.	 Por	 conseguinte,	 ressaltaram	 que,	 na
aplicação	 deste	 novo	 entendimento,	 os	 julgadores	 daquela	 corte	 levariam	 em
consideração	o	perigo	de	se	causar	distúrbio	retrospectivamente	em	relação	aos
negócios	 contratuais,	 direitos	de	propriedade	e	disposições	 fiscais	 já	 em	vigor,
bem	quanto	ao	direito	penal.16
Não	 obstante	 a	 ressalva	 final,	 a	 possibilidade	 de	 superação	 do	 precedente
(overruling)	poderia	ocorrer	mesmo	nas	áreas	mais	sensíveis	mencionadas.	Isso
ficou	claro	no	caso	Regina	v.	Shivpuri,	envolvendo	matéria	criminal,	conforme
desdobramento	que	se	verá	em	seguida.
No	ano	de	1975,	a	House	of	Lords	julgou	o	caso	Regina	v.	Smith,	no	qual	o
réu	foi	acusado	de	tentar	manusear	ou	negociar	produtos	roubados.	Demonstrou-
se	que,	embora	o	réu	acreditasse	que	os	bens	haviam	sido	subtraídos,	na	verdade
não	tinham	sido	roubados,	o	que	normalmente	pode	ser	classificado	como	crime
impossível.	A	tese	foi	acolhida	pela	House	of	Lords,	que	absolveu	o	acusado.
Posteriormente,	 no	 ano	 de	 1981,	 o	 legislador	 britânico	 editou	 o	Criminal
Attempts	 Act,	 no	 qual	 previa,	 na	 Seção	 1,	 item	 2,	 que	 “uma	 pessoa	 pode	 ser
condenada	 por	 tentativa	 de	 cometimento	 de	 um	 crime,	 previsto	 nesta	 seção,
mesmo	 quando	 os	 fatos	 sejam	 de	 tal	 modo	 que	 a	 consumação	 do	 crime	 seja
impossível...”.	 De	 se	 notar	 ainda	 que	 a	 Comissão	 Legislativa	 havia	 publicado
uma	 exposição	 de	 motivos,	 na	 qual	 mencionava	 exatamente	 o	 exemplo	 do
acusado	 que	 estaria	 com	objetos	 que	 supunha	 roubados,	mas	 que,	 na	 verdade,
não	haviam	sido	subtraídos.
Em	seguida,	a	House	of	Lords	é	chamada	a	julgar,	no	ano	de	1985,	o	caso
Anderton	 v.	 Ryan,	 no	 qual	 a	 ré	 havia	 adquirido	 um	 equipamento	 de	 vídeo,
pensando	 que	 o	mesmo	 fosse	 roubado,	 embora,	 de	 fato,	 não	 o	 fosse.	A	 ré	 foi
acusada	 de	 ter	 praticado	 a	 conduta,	 mencionando-se	 expressamente	 o	 novo
Criminal	Attempts	Act,	de	1981.	A	ré	 foi	absolvida	em	primeira	 instância,	pela
Trial	 Court,	 mas	 condenada	 em	 segundo	 grau,	 pela	 Divisional	 Court	 of	 the
Queen’s	Bench	Division.	Por	último,	 a	Casa	dos	Lordes	 restabeleceu	o	 teor	da
decisão	 de	 primeiro	 grau,	 julgando	 a	 ré,	 senhora	Anderton,	 não	 culpada,	 com
base	no	precedente	Regina	v.	Smith	e	desconsiderando	o	Criminal	Attempts	Act
de	 1981.	 O	 caso	 foi	 extremamente	 debatido	 na	 literatura	 jurídica,	 que
majoritariamente	criticou	de	modo	severo	a	falta	de	aplicação	do	ato	legislativo
recentemente	editado.
Por	fim,	ocorre	o	julgamento	do	caso	Regina	v.	Shivpuri,	no	ano	de	1987,	no
qual	o	réu	é	acusado	do	crime	de	tentativa	de	tráfico	de	droga,	que	pensava	ser
heroína,	violando	o	Criminal	Attempts	Act	1981.	Na	verdade,	a	 substância	não
era	heroína,	mas,	sim,	uma	substância	vegetal	inofensiva.	O	réu	foi	condenado,
em	primeiro	 grau,	 pela	Trial	 Court,	 sendo	mantida	 a	 condenação	 pela	 divisão
criminal	da	Court	of	Appeal	e	pela	House	of	Lords.	O	réu	alegou	o	precedente
Anderton,	pois,	do	mesmo	modo	que	a	ré,	equivocadamente,	havia	pensado	que
o	material	era	roubado,	ocorrera	com	Shivpuri	em	relação	à	droga,	o	que	tornaria
ambos	os	crimes	impossíveis.
Expressando	 a	maioria	 da	 então	 Suprema	Corte	 britânica,	 o	 voto	 de	Lord
Bridge	 of	Harwich	 assume	 que	 não	 seria	 o	 caso	 de	 se	 efetuar	 a	 distinção	 em
relação	 ao	 julgamento	 proferido	 em	Anderton	 v.	 Ryan.	 Mas,	 sim	 e	 ainda	 que
tivesse	 participado	 da	 decisão	 anterior,	 que	 aquele	 pronunciamento	 anterior
estava	 errado.	 Indagou,	 então,	 o	 que	 deveria	 ser	 feito.	 E	 que,	 não	 sendo	 a
hipótese	 distinta,	 pela	 aplicação	 estrita	 da	 doutrina	 do	 precedente,	 o	 apelo
deveria	ser	provido.	Pergunta	ainda	se	seria	permitida	a	superação	do	precedente
com	 base	 no	 Practice	 Statement	 (Judicial	 Precedent)	 [1966]	 não	 obstante	 a
especial	 necessidade	 de	 segurança	 no	 direito	 penal,	 para	 responder
afirmativamente	 pela	 possibilidade	 de	 afastamento	 do	 precedente.	 Para	 tanto,
fundamenta,	 em	 síntese:	 (1)	que	 a	decisão	proferida	no	 caso	Anderton	v.	Ryan
era	 bem	 recente,	 que	 a	 Practice	 Statement,	 sobre	 precedente	 judicial
representava	um	efetivo	abandono	da	pretensão	de	infalibilidade	da	corte	e	que,
se	 um	 sério	 erro	 contido	 em	 uma	 decisão	 do	 tribunal	 estivesse	 distorcendo	 o
direito,	quanto	mais	 rápido	 se	pudesse	corrigir	o	 equívoco	melhor;	 (2)	que	ele
não	entendia	factível	que	alguém	pudesse	ter	acreditado	que	se	tratava	de	afirmar
que	a	conduta	anterior	havia	sido	feita,	inocentemente,	de	acordo	com	a	lei	e	que
agora	 não;	 (3)	 não	 se	 poderia	 desconsiderar	 a	 mudança	 realizada	 pela	 lei	 de
198117
Como	 se	 pode	 ver	 e	 retomando	 a	 indicação	 das	 qualidades	 desejáveis	 em
relação	aos	precedentes	e	à	 jurisprudência,	pode-se	apontar	que,	 em	 termos	de
mutabilidade,	 o	 compromisso	 deve	 ser,	 em	 primeiro	 lugar,	 no	 sentido	 da
segurança	 jurídica,	 ou	 seja,	 os	 precedentes	 devem	 vincular	 os	 próprios	 órgãos
prolatores	 e	 os	 submetidos	 à	 sua	 jurisdição.	 No	 entanto,	 isso	 não	 significa
imutabilidade	absoluta.
Por	 conseguinte,	 os	 precedentes	 podem	 ser	 superados	 pela	 alteração	 das
condições	 em	 que	 foram	 proferidos,	 como,	 por	 exemplo,	 pela	 mutação
constitucional	ou	legal	superveniente,	tal	como	supramencionado	no	caso	Regina
v.	 Shivpuri;	 bem	 como	 pelo	 reconhecimento	 de	 erro	 anteriormente	 cometido,
para	 que	 serve	 também	 o	 exemplo	 anterior	 britânico;	 ou	 ainda	 por	 não	 se
enquadrar	 mais	 dentro	 dos	 valores	 supervenientemente	 assumidos	 pela
sociedade.	Neste	último	contexto,	a	história	aponta	inúmeros	exemplos,	como	as
alterações	 de	 paradigmas	 em	 relação	 à	 escravidão,	 no	 Poder	 Judiciário	 norte-
americano,	 ou	 mesmo	 dos	 casos	 de	 segregação,	 como	 Brown	 v.	 Board	 of
Education,	 ou,	 ainda,	 na	 própria	 experiência	 brasileira,	 diante	 da	 aceitação	 da
relação	de	 casamento	 e	 união	 estável,	 entre	 pessoas	do	mesmo	 sexo,	 nas	mais
variadas	esferas.
O	ponto	de	equilíbrio,	em	relação	ao	respeito	aos	precedentes,	parece	estar
distante	 na	 realidade	 brasileira,	 que	 precisa,	 sem	 dúvida,	 amadurecer	 neste
aspecto,	 diante	 da	 profusão	 de	 decisões	 divergentes	 proferidas	 e	 do	 caráter
meramente	persuasivo	considerado	no	que	toca	não	apenas	aos	precedentes,	mas
até	mesmo	a	jurisprudência	e	os	enunciados	contidos	nas	súmulas.	Por	exceção,
o	 binding	 effect	 é	 reconhecido	 apenas	 na	 súmula	 vinculante	 do	 STF	 e	 nos
julgamentos	 em	 sede	 de	 controle	 abstrato	 de	 constitucionalidade	 e
inconstitucionalidade	no	âmbito	doSTF.
Por	 certo,	 para	 que	 o	 precedente	 seja	 respeitado,	 impõe-se	 uma	mudança
cultural	 e,	 eventualmente,	 legislativa,	 no	 sentido	 de	 que	 os	 órgãos	 judiciais
tenham	que	observar	os	precedentes	e,	somente	com	a	devida	fundamentação,	a
partir	dos	métodos	de	distinção	ou	de	superação,	ousar	não	aplicar	o	precedente.
8.5.
8.5.1.
Os	precedentes	precisam	dispor	de	clareza,	solidez	e	profundidade	nos	seus
fundamentos,	pois,	do	contrário,	dificilmente	serão	respeitados	e	seguidos.	Isso
não	 significa	 que	 este	 cuidado	 tenha	 que	 estar	 presente	 em	 todas	 as	 decisões
judiciais.	 Esclarecendo,	 as	 decisões	 judiciais,	 em	 geral,	 precisam	 estar
fundamentadas.	Mas,	 se	 não	 representam	 inovação,	 mas	 simples	 aplicação	 de
precedentes,	 poderão,	 naturalmente,	 se	 valer	 dos	 fundamentos,	 e
consequentemente	da	 clareza,	 solidez	 e	profundidade	contidos	no	 leading	case
seguido.	Portanto,	a	preocupação	reforçada	com	a	fundamentação	seria	inerente
aos	precedentes	e	também	às	decisões	que	venham	se	distanciar	do	precedente,
seja	a	partir	do	distinguishing	ou	do	overruling.
Os	 precedentes	 devem	 ser	 firmados	 dentro	 de	 um	 tempo	 razoável.	 Isso
significa	que	os	tribunais,	especialmente	em	casos	repetitivos,	devem	julgar	com
o	 devido	 amadurecimento	 as	 causas,	 procurando	 ter	 o	 domínio	 das	 teses	 e
argumentações	formuladas	em	um	conjunto	de	processos,	para	que	possa	melhor
decidir	 o	 precedente.	 O	 julgamento	 tardio,	 assim	 como	 precoce,	 pode	 ser
deletério	para	o	sistema	jurídico.	A	demora	no	julgamento	produz,	naturalmente,
incerteza	e	acúmulo	de	demandas,	diante	da	 falta	de	definição	sobre	a	questão
em	 aberto.	 O	 pronunciamento	 precoce,	 assim	 entendido	 como	 o	 proferido	 em
momento	 em	 que	 o	 órgão	 julgador	 ainda	 não	 equacionou	 devida,	 ampla	 e
profundamente	 todas	 as	 teses	 e	 argumentos	 pertinentes,	 pode	 tornar	 a
fundamentação	menos	 sólida	 e	 qualificada,	motivo	 de	 enfraquecimento	 para	 o
precedente,	causando	maior	probabilidade	de	modificação.
As	qualidades	 supramencionadas	 estão	 imbricadas	 com	alguns	 fatores	que
serão	analisados	nos	próximos	itens.
PRINCIPAIS	FATORES	QUE	INFLUENCIAM	EM	TERMOS	DE
PRECEDENTES	NO	CONTEXTO	BRASILEIRO
Fatores	culturais
O	 aspecto	 cultural	 é	 primordial,	 sob	 o	 ponto	 de	 vista	 do	 papel	 e
funcionamento	dos	precedentes.	Nesta	seara,	a	cultura	brasileira	é	marcada	pelo
8.5.2.
paradoxo.	 Se,	 por	 um	 lado,	 almeja	 a	 segurança	 jurídica,	 a	 igualdade	 e	 a
previsibilidade,	 por	 outro,	 é	 fortemente	 marcada	 pelo	 desejo	 de	 mudança,
decorrente	de	um	sentimento	de	insatisfação	com	o	status	quo.
A	 visão	 institucional	 é	 suplantada,	 rotineiramente,	 pelo	 personalismo;	 os
direitos	 e	 deveres	 são,	 com	 frequência,	 sufocados	 pelo	 poder	 ou	 pela	 falta	 de
informação	 e	 educação.	 A	 luta	 contra	 o	 passado	 autoritário	 confunde-se,	 por
vezes,	com	a	liberdade	sem	limites.
No	 cenário	 jurídico,	 isso	 se	 reflete	 na	 personificação	 de	 julgados,	 no
inconformismo	 renitente	 diante	 de	 posicionamentos	 assentados	 pelos	 tribunais,
na	 visão	 belicista	 dos	 conflitos,	 no	 número	 diminuto	 de	 processos	 resolvidos
pela	 conciliação	 ou	 por	 meios	 consensuais,	 na	 elevada	 resistência	 diante	 do
cumprimento	de	deveres	e	decisões	judiciais,	até	mesmo	por	órgãos	integrantes
da	administração	pública.
Por	 certo,	 a	 configuração	multicultural	 do	 país,	 ao	mesmo	 tempo	 em	 que
propicia	 uma	 realidade	 dinâmica	 e	 plural	 na	 sua	 essência,	 acentua	 a
heterogeneidade.	Há,	portanto,	uma	profusão	de	valores,	credos,	expectativas	e
objetivos,	 que	 contribuem	 para	 um	 contexto	 em	 ebulição,	 em	 que	 a
homogeneidade	 da	 jurisprudência	 ou	 a	 previsibilidade	 dos	 precedentes	 nem
sempre	encontram	um	porto	seguro.
Educação	jurídica
A	educação	jurídica	brasileira	é	calcada,	em	termos	gerais,	na	dogmática	e
no	 positivismo.	 Há	 também,	 infelizmente,	 um	 desnível	 considerado	 entre	 as
instituições	universitárias.	De	certo	modo,	uma	elite	composta	das	universidades
públicas	e	algumas	instituições	privadas,	nas	quais	o	corpo	docente	possui	uma
formação	 e	 titulação	 mais	 qualificada,	 bem	 como	 um	 corpo	 discente	 em
quantitativo	 mais	 reduzido.	 Por	 outro	 lado,	 houve,	 nas	 últimas	 décadas,	 um
crescimento	 enorme	 do	 número	 de	 cursos	 privados	 de	 direito,	 bem	 como	 do
respectivo	 número	 de	 estudantes	 de	 direito,	 que	 acabam	 esbarrando	 nas
dificuldades	 de	 aprendizado	 e	 qualificação.	 Por	 fim,	 o	 próprio	mercado	 acaba
não	absorvendo	ou	propiciando	boas	condições	para	um	número	tão	elevado	de
8.5.3.
bacharéis	 que	 se	 formam	 constantemente	 no	 país.	 O	 número	 elevado	 de
candidatos	e	o	montante	de	não	aprovados	em	concursos	públicos	e	nos	exames
da	 Ordem	 dos	 Advogados	 do	 Brasil	 indicam	 a	 massificação	 e	 perda	 de
qualidade.
A	 formação	 jurídica	 é	 calcada	 principalmente	 no	 estudo	 do	 ordenamento
jurídico	 a	partir	 da	 constituição	 e	das	 leis,	 sendo	manifestamente	 secundário	o
estudo	 de	 casos	 e	 principalmente	 das	 razões	 das	 decisões	 proferidas	 pelos
tribunais.	 Por	 vezes,	 os	 julgados	 são	 analisados	 tão	 somente	 com	 base	 no
resultado	do	julgamento,	sem	a	análise	e	comparação	das	razões	de	decidir	dos
pronunciamentos	judiciais.
A	diversidade	do	ensino	oferecido	e	 também	na	aferição	do	conhecimento
adquirido	 pelos	 estudantes	 de	 direito	 proporciona	 grandes	 diferenças	 nas
carreiras	jurídicas	e	no	nível	dos	profissionais.	Na	Alemanha18	por	exemplo,	os
estudantes	 de	direito	 submetem-se	 a	 dois	 exames	 estatais	 (Staatsexamen),	cuja
aprovação	é	exigida	para	todas	as	carreiras	jurídicas,	o	que	acaba	estabelecendo
um	padrão	mínimo	de	conhecimento	e	qualificação	para	 todos	os	profissionais
da	área	jurídica.
Por	outro	lado,	no	Brasil,	a	metodologia	é	fundada	no	estudo	de	manuais	e
textos	 legais,	bem	como	a	demonstração	do	conhecimento	por	meio	de	provas
discursivas.	A	resolução	de	casos,	quando	existente,	é	formulada,	na	maioria	das
vezes,	a	partir	da	subsunção	dos	fatos	aos	dispositivos	constitucionais	e	legais.	A
metodologia	 de	 estudos	 de	 casos,	 centrada	 nas	 razões	 de	 decidir	 e	 no
comparativo	e	sistematização	de	julgados	é	desenvolvida	em	quantidade	ínfima
de	instituições.
Por	 conseguinte,	 os	 estudantes	 de	 direito	 sequer	 desenvolvem,	 a	 contento,
habilidades	 calcadas	na	 análise	de	 casos	 concretos,	 razão	pela	qual,	 por	vezes,
apresentam	dificuldades	para	a	elaboração	de	pareceres	ou	sentenças.
Estrutura	e	organização	do	Poder	Judiciário
A	 influência	 da	 estrutura	 e	 da	 organização	 do	 Poder	 Judiciário	 para	 o
sistema	 de	 precedentes	 tem	 recebido,	 de	 certo	 modo,	 por	 parte	 da	 academia,
pouca	 atenção.19	 Entretanto,	me	 parece	 que	 é	 um	 fator	 de	 grande	 importância
para	 o	 aprimoramento	 da	 prestação	 jurisdicional	 e	 de	 fundamental	 relevância
para	o	fortalecimento	dos	precedentes	judiciais,	especialmente	nos	países	de	civil
law.
O	primeiro	 aspecto	 a	 ser	 observado	 é	 que,	 ao	 longo	 dos	 tempos,	 o	 Poder
Judiciário	 foi,	 gradativamente,	 ampliando	 o	 seu	 universo	 de	 alcance.	 Há,
portanto,	 uma	 enorme	 gama	 de	 matérias	 que	 são	 apreciadas	 pelos	 juízes:
conflitos	 envolvendo	 famílias,	 funcionários	 públicos,	 contribuintes,	 questões
ambientais,	 aposentadorias,	 pensões,	 crimes	 das	 mais	 diversas	 naturezas,
execuções	 fiscais,	 licitações,	 contratos,	 relações	 trabalhistas,	 militares,
financeiras,	 administrativas,	 de	 marcas,	 patentes,	 consumeristas,	 eleitorais,
responsabilidade	civil,	desastres	aéreos,	terrestres,	marítimos	e	fluviais	etc.
Em	 segundo	 lugar,	 o	 número	 de	 processos	 também	 aumentou
vertiginosamente20.	O	resultado	deste	crescimento	avassalador	e	combinado	com
o	 fenômeno	da	 ampliação	 e	 diversificação	de	 assuntos	 e	matérias	 tratados	 nos
processos	é	a	maior	dificuldade	para	que	os	magistrados,	como	um	todo,	possam
desenvolver,	 em	 tempo	 razoável,com	 qualidade	 e	 segurança,	 a	 prestação
jurisdicional.
Os	dois	 aspectos	 supramencionados	 (diversidade	de	matérias	 e	quantidade
de	 processos)	 acabam	 esbarrando	 em	 um	 terceiro	 elemento	 de	 dificuldade:	 a
relativa	falta	ou	reduzida	especialização	dos	órgãos	julgadores.	O	fenômeno,	de
certo	modo,	pode	ser	indicado	como	estando	na	contramão	da	história	moderna	e
contemporânea,	 na	 qual	 a	 sociedade,	 a	 indústria,	 os	 serviços,	 as	 empresas,	 o
ensino	 e	 os	 profissionais	 caminharam	no	 sentido	 da	 especificação	 e	 repartição
das	 áreas	 de	 estudo	 e	 de	 trabalho.	No	 próprio	 ensino	 jurídico	 e	 na	 advocacia,
constata-se	o	crescente	incremento	desta	ramificação.
No	 entanto,	 pode-se	 apontar,	 ainda,	 no	 Brasil,	 como	 deveras	 limitada	 a
especialização	 dos	 órgãos	 judiciais.	 Façamos	 uma	 comparação,	 por	 exemplo,
com	a	Alemanha21,	país	que	possui	menos	da	metade	da	nossa	população	e	um
território	 bem	 menor.	 O	 que	 temos	 sob	 a	 jurisdição	 dita	 comum	 encontra-se
dividido	na	Alemanha	nos	ramos	das	Justiças	Administrativa,	Financeira,	Social
8.5.4.
e	Comum.	O	Bundesgerichtshof,	equivalente	ao	nosso	STJ,	mas	que	não	julga	as
matérias	 administrativas,	 financeiras	 e	 previdenciárias,	 é	 composto	 por	 128
ministros,	subdivididos	em	24	órgãos	especializados	(Senate),	com	competência
exclusiva	para	cada	matéria22.	Não	há,	por	conseguinte,	competência	concorrente
entre	 as	 turmas	 (Senate).	 Portanto,	 cada	 órgão	 fracionário	 possui	 competência
exclusiva	 para	 determinadas	 matérias.	 Por	 exemplo,	 direitos	 autorais	 ou	 de
propriedade	 intelectual	 são	 julgados	 apenas	 pelo	 Primeiro	 Senado	Cível;	 já	 as
causas	de	direito	societário	no	Segundo	Senado	Cível;	as	causas	sucessórias	pelo
Quarto	Senado	Cível;	os	conflitos	envolvendo	locações	residenciais	e	comerciais
pelo	 Quarto	 Senado;	 os	 crimes	 envolvendo	 meios	 de	 transporte	 pelo	 Quarto
Senado	Criminal;	para	as	causas	agrícolas	há	um	Senado	Especial	e	por	aí	em
diante.
É	de	se	constatar,	naturalmente,	que	a	realidade	brasileira	destoa	bastante	da
estrutura	alemã.	No	nosso	país,	até	pouco	tempo	atrás,	a	divisão	estava	limitada
às	 matérias	 criminais	 e	 cíveis.	 Nos	 últimos	 vinte	 anos,	 houve	 um	 avanço	 na
especialização.	Entretanto,	em	geral,	nos	tribunais	e	na	primeira	instância,	tanto
na	 Justiça	 Comum,	 como	 nos	 ramos	 especializados	 (Trabalho,	 Eleitoral	 e
Militar),	 ainda	 há	 uma	 concentração	 grande	 de	 matérias	 nos	 mesmos	 órgãos
judiciais.	 Com	 isso,	 a	 estrutura	 judiciária	 brasileira	 ainda	 é	 marcada	 pela
generalidade,	ou	clínica	geral,	o	que,	na	opinião	do	autor	deste	texto,	acaba	não
contribuindo	para	a	melhoria	da	prestação	jurisdicional,	em	termos	de	duração,
qualidade	e	segurança	na	prestação	jurisdicional.	Representa,	assim,	um	grande
problema	 para	 o	 fortalecimento	 do	 sistema	 de	 precedentes.	 Por	 certo,	 a
estabilidade	 e	 previsibilidade	 dependem	 do	 conhecimento	 aprofundado	 das
matérias,	 o	 que	 se	 torna	 humanamente	 impossível	 diante	 do	 amplo	 rol	 de
assuntos	que	são	encaminhados,	hodiernamente,	ao	Poder	Judiciário.
O	papel	dos	profissionais	do	direito
Nos	 países	 em	 que	 há	 um	maior	 respeito	 e	 consideração	 em	 relação	 aos
precedentes	 judiciais,	 os	 profissionais	 da	 área	 jurídica	 possuem	 o	 dever	 de
conhecer	e	de	agir	de	acordo	com	os	precedentes.	Representa,	assim,	um	dever
8.6.
funcional	para	os	juízes	e	advogados.
Para	 os	magistrados,	 significa	 o	 efeito	 vinculante	 horizontal	 e	 vertical,	 no
sentido	de	seguirem	as	teses	consagradas	nos	próprios	tribunais	e	nos	tribunais
superiores.
A	advocacia	passa	a	ter	o	dever	de	colaborar	com	o	sistema,	orientando	os
seus	 clientes	 sobre	 as	 posições	 consolidadas	 nos	 tribunais	 e	 exercendo	 o
patrocínio	 de	 acordo	 com	 esta	 orientação.	 Isso	 não	 pode,	 naturalmente,
constranger	o	advogado	ou	as	partes	a	defender	teses	jurídicas	que	se	oponham
ao	 status	 quo.	 Entretanto,	 para	 que	 não	 fique	 caracterizada	 uma	 espécie	 de
“litigância	de	má	fé”,	deve	haver	fundadas	razões	para	se	alimentar	a	expectativa
de	mudança,	que	deve	estar	devidamente	fundamentada.
Isso	 pode	 ocorrer	 mesmo	 em	 países	 de	 civil	 law.	 Christoph	 Kern23	 ao
discorrer	 sobre	 os	 padrões	 profissionais	 na	 Alemanha,	 aponta	 que	 deve	 ser
notado	que	os	tribunais	consideram,	de	longa	data,	que	os	advogados	devem,	em
princípio,	conhecer	o	direito	e	a	sua	interpretação	pelas	cortes.	Em	particular,	os
advogados	possuem	o	dever,	em	relação	aos	seus	clientes,	de	esclarecê-los	sobre
todos	 os	 precedentes	 relevantes,	 com	 os	 quais	 devem	 estar	 alinhados	 os	 seus
aconselhamentos	jurídicos	e	as	estratégias	processuais.	Se	o	cliente	sofrer	danos
em	 consequência	 da	 violação	 deste	 dever	 jurídico,	 o	 patrocinado	 poderá
demandar	o	respectivo	advogado,	bem	como	a	sua	companhia	de	seguro,	para	a
respectiva	 compensação.	 Entretanto,	 pondera	 o	 autor	 alemão,	 que	 por	 mais
estrita	 que	 seja	 a	 responsabilidade,	 o	 dever	 de	 conhecer	 e	 respeitar	 os
precedentes	 somente	 fará	 sentido	 se	 o	 advogado	 supõe	 que	 os	 tribunais
normalmente	 seguirão	os	 precedentes.	 Por	 fim,	 conclui	 que	 a	 existência	 de	 tal
dever,	portanto,	é	um	sinal	do	alto	respeito	que,	normalmente,	as	cortes	alemãs
demonstram	pelos	precedentes	e	isso,	ao	mesmo	tempo,	reforça	o	respeito.
AS	FONTES	FORMAIS	DO	DIREITO	NO	BRASIL
A	discussão	em	torno	do	caráter	vinculativo	ou	não	dos	precedentes	remete,
como	supramencionado,	a	uma	polêmica	antiga,	que	poderia	ser	estruturada	em
três	 correntes:	 a)	 negativista,	 que	 não	 considera	 a	 jurisprudência	 ou	 os
precedentes	 como	 fonte	 formal	 do	 direito;	 b)	 afirmativa,	 no	 sentido	 de	 que	 se
poderia	aplicar	no	Brasil	o	sistema	de	stare	decisis,	a	partir	dos	precedentes	em
geral;	c)	 realistas,	que	considerariam	como	fonte	 formal	apenas	os	precedentes
identificados	como	vinculativos	na	legislação	ou	que	tivessem	a	característica	de
reiteração	nas	cortes,	caracterizando	um	verdadeiro	costume	judiciário.
O	tema,	por	si	só,	merece	o	devido	aprofundamento.	Mas,	a	leitura	do	texto
constitucional	 parece	 indicar	 que,	 em	 geral,	 adota-se,	 no	 Brasil,	 em
conformidade	com	a	família	de	civil	law,	o	sistema	da	legalidade.	Portanto,	para
o	cidadão	isso	representa	a	liberdade	de	fazer	ou	não	fazer,	que	somente	poderá
ser	privada	em	virtude	de	lei,	nos	termos	do	inciso	II,	do	art.	5º	da	Constituição.
Por	outro	lado,	para	os	órgãos	estatais,	como	se	sabe,	representa	a	possibilidade
de	 realização	 de	 atos	 em	 conformidade	 com	 a	 previsão	 legal,	 observando-se,
assim,	 o	 princípio	 da	 legalidade,	 nos	 termos,	 dentre	 outros,	 do	 art.	 37	 da
Constituição.
Por	 sua	 vez,	 em	 relação	 à	magistratura,	 é	 de	 se	 notar	 que	 a	 Constituição
estabeleceu	 principalmente	 normas	 organizacionais	 e	 os	 principais	 princípios
que	regem	a	atividade	jurisdicional,	remetendo	à	lei	complementar,	de	iniciativa
do	Supremo	Tribunal	Federal,	 o	denominado	Estatuto	da	Magistratura.	Houve,
contudo,	como	mencionado	na	 introdução,	a	 inclusão,	no	capítulo	do	Supremo
Tribunal	Federal,	de	duas	normas	(arts.	102,	§	2º,	e	103-A),	que	estabeleceram,
respectivamente,	 o	 efeito	 vinculante,	 em	 relação	 às	 decisões	 definitivas	 de
mérito	 em	 controle	 concentrado	 de	 constitucionalidade	 e	 aos	 enunciados	 da
“súmula	vinculante”.	É	de	se	 registrar	que,	no	caso,	o	efeito	vinculante	não	se
encontra	 restrito	 aos	 demais	 órgãos	do	Poder	 Judiciário	 somente,	mas	 abrange
também,	expressamente,	os	órgãos	da	administração	pública	direta	e	indireta,	nas
esferas	federal,	estadual	e	municipal.
No	atual	estatuto	da	magistratura,	a	Lei	Complementar	nº	35/79	prevê,	no
art.	 35,	 inciso	 I,	 como	 dever	 do	 juiz,	 cumprir	 e	 fazer	 cumprir,	 com
independência,	serenidade	e	exatidão,	as	disposições	legais	e	os	atos	de	ofício.
Em	síntese,	em	termos	de	disposições	normativas	sobre	as	fontes	formais	do
direito	 brasileiro,	 o	 tratamento	 geralnão	 foi	 feito	 no	 âmbito	 constitucional.	A
8.7.
matéria,	como	fonte	formal	em	termos	gerais,	não	foi	reservada	também	ao	nível
de	 lei	 complementar,	 salvo	no	aspecto	 relacionado	ao	estatuto	da	magistratura.
Registre-se	que	a	Lei	Complementar	nº	95/98	 tratou	apenas	de	outros	aspectos
pertinentes	à	elaboração,	redação,	alteração	e	consolidação	das	leis.
Portanto,	a	previsão	pertinente	às	fontes	formais	pode	ser	extraída	do	art.	4º
do	DL	nº	4.657/1942,	que	estabelece	que,	quando	a	lei	for	omissa,	o	juiz	decidirá
o	caso	de	acordo	com	a	analogia,	os	costumes	e	os	princípios	gerais	de	direito.
Sendo	assim,	o	que	se	pretende	demarcar,	como	primeira	premissa,	é	que	a
Constituição	 fixa	 tão	 somente	 o	 primado	 da	 lei	 como	 fonte	 formal	 do	 direito
brasileiro.	Mas,	ao	fazê-lo,	o	realiza	com	limitações	que	não	se	aplicam	ao	tema
das	fontes	formais	para	a	decisão	do	juiz	em	geral.	Por	isso,	a	complementação
realizada	 na	 denominada	 Lei	 de	 Introdução	 às	 normas	 do	 Direito	 Brasileiro,
conforme	 redação	 dada	 pela	 Lei	 nº	 12.376,	 de	 2010,	 não	 padece	 de	 qualquer
vício	de	constitucionalidade,	ao	prever	que	os	 juízes	deverão	decidir	o	caso	de
acordo	com	a	analogia,	os	costumes	e	os	princípios	gerais	do	direito.	E,	 como
decorrência,	 não	 se	 torna	 aceitável	 a	 alegação	 de	 que	 apenas	 a	 Constituição
poderia	fixar	normas	de	caráter	vinculativo	para	os	órgãos	judiciais.
Como	 consequência	 lógica	 do	 raciocínio	 acima	 exposto,	 pode-se	 afirmar
que	o	novo	Código	de	Processo	Civil,	sendo	uma	lei	ordinária,	é,	assim,	também
fonte	primária	e	básica	no	direito	brasileiro.	Por	conseguinte,	os	 juízes	devem,
nos	 termos	 do	 art.	 35,	 inciso	 I,	 da	 Lei	 Complementar	 nº	 35,	 cumprir	 e	 fazer
cumprir	 as	 normas	 legalmente	 estabelecidas,	 dentre	 as	 quais	 a	 do	 art.	 927	 do
novo	CPC.
A	IDEIA	DE	INDEPENDÊNCIA	FUNCIONAL	DOS
MAGISTRADOS
Poder-se-ia,	 contudo,	 objetar	 ainda	 com	 base	 no	 próprio	 Estatuto	 da
Magistratura,	que	o	efeito	vinculativo	seria	passível	de	afastamento	em	razão	da
expressão	“com	independência,	serenidade	e	exatidão”,	do	contrário	a	primeira
qualidade	ficaria	tolhida.	Mas	esta	objeção,	com	a	máxima	vênia,	não	parece	se
coadunar	 com	 a	 norma	 estabelecida.	 Pois,	 naturalmente,	 não	 se	 pretendeu
mencionar	 a	 independência	 diante	 da	 norma.	 Mas,	 sim,	 que	 a	 sua	 aplicação
deveria	 ser	 feita	 com	 independência,	 ou	 seja,	 não	 se	 curvando	 aos	 demais
poderes,	sujeitos,	fatores	e	interesses	políticos,	econômicos,	religiosos	e	de	outra
natureza	envolvidos.
É	 claro	 que	 se	 pode	 extrair	 esta	 independência	 até	 mesmo	 em	 relação	 a
outros	membros	do	Poder	 Judiciário,	na	eventualidade	de	 se	 tentar	 influenciar,
de	 modo	 indevido,	 sub-reptício,	 a	 decisão	 do	 juiz.	 Isso	 não	 possui	 qualquer
relação	 com	 o	 cumprimento	 da	 lei	 e	 do	 caráter	 vinculativo	 estabelecido	 nas
hipóteses	previstas	nos	incisos	do	art.	927	do	Código	de	Processo	Civil.
O	Código	de	Processo	Civil	não	afastou	a	independência	dos	magistrados	e,
mesmo	no	que	diz	 respeito	 à	 interpretação	das	normas	não	efetuou	vinculação
absoluta.	Isso	porque	não	há	um	sistema	absoluto	de	precedentes,	ou	seja,	apenas
nas	situações	indicadas	no	art.	927	haverá	efeito	vinculativo,	embora	se	possa	e
se	deva	também,	na	totalidade	ou	maioria	dos	casos,	se	estimular	a	observância
do	 entendimento	 firmado	pelos	 tribunais	 superiores	 ou	 pelo	 tribunal	 ao	 qual	 o
órgão	 judicial	 está	 vinculado,	 ainda	 que	 em	 razão	 do	 caráter	 persuasivo	 dos
precedentes.
Por	outro	lado,	o	caráter	vinculativo	não	dispensa	a	análise	do	caso	concreto
e	 dos	 argumentos	 apresentados.	Não	 se	 trata	 de	 trabalho	mecânico.	Há	que	 se
verificar	 a	 identidade	 ou	 não	 das	 circunstâncias	 determinantes,	 com	 a	 devida
fundamentação,	para	que	 se	possa	analisar	a	 subsunção	ou	a	distinção	do	caso
concreto	com	os	precedentes.	Mas,	naturalmente,	esta	operação	não	deve	servir
de	 instrumento	 para	 se	 escamotear	 a	 necessidade	 de	 observância.	 Marinoni24
discorreu	 muito	 bem	 sobre	 os	 aspectos	 culturais	 que	 tanto	 influenciam	 na
tendência	à	observância	ou	não	dos	precedentes.	Poder-se-ia	acrescentar	que	há
uma	forte	cultura	de	descumprimento	de	normas	e	de	padrões	no	comportamento
existente	 na	 sociedade	 brasileira.	 E	 os	 juízes	 precisam	 perceber	 que,	 ao	 se
desconsiderar	 os	 precedentes,	 se	 está	 enfraquecendo	 as	 decisões	 judiciais	 e,
consequentemente,	as	normas	legais.
A	legitimidade	do	Poder	Judiciário,	e	também	as	suas	condições	de	trabalho
acabam	sendo	 influenciadas	pelo	 seu	próprio	comportamento.	Afinal,	 se	o	 juiz
8.8.
não	 segue	 o	 que	 é	 fixado	 pelo	 Supremo	 Tribunal	 Federal	 ou	 pelos	 Tribunais
Superiores,	porque	os	comerciantes	ou	cidadãos	em	geral	se	sentirão	estimulados
a	cumprir	as	decisões	judiciais?
OS	PRECEDENTES	E	O	CONTEXTO	ATUAL	DO	PODER
JUDICIÁRIO	BRASILEIRO
O	 contexto	 atual	 da	 prestação	 jurisdicional	 apresenta,	 por	 certo,	 uma
realidade	difícil	e	complexa.	Embora	existam	aspectos	extremamente	positivos,
como	a	estruturação	do	Poder	Judiciário	a	partir	do	ingresso	na	carreira	mediante
concursos	públicos,	fortalecendo	a	sua	independência;	a	ampliação	do	acesso	à
Justiça;	 a	 alta	 produtividade;	 a	 publicidade	 dos	 atos	 processuais	 e	 o	 bom
funcionamento	 de	 tutelas	 de	 urgência	 e	 de	 evidência,	 há	 notórios	 problemas,
dentre	 os	 quais	 o	 número	 elevadíssimo	 de	 processos	 (cem	milhões,	 para	 uma
população	 de	 duzentos	 milhões),	 a	 consequente	 demora	 no	 julgamento	 dos
processos	 e	 eventual	 perda	 de	 qualidade	 na	 prestação	 jurisdicional	 em	 razão
desta	desproporção	 entre	o	número	de	 julgadores	 e	de	processos,	 bem	como	a
falta	de	uniformidade	das	decisões,	levando	à	quebra	da	isonomia	e	da	segurança
jurídica.
Não	se	precisa	ser	um	estudioso	do	processo,	para	se	perceber	que	a	falta	de
unidade	 na	 interpretação	 das	 normas	 pelos	 órgãos	 judiciais	 faz	 crescer	 não
apenas	o	número	de	recursos,	mas	também	o	número	de	demandas	ajuizadas.	É
claro,	 se	 há	 sempre	 uma	 possibilidade	 de	 se	 obter	 uma	 solução	 favorável	 no
Judiciário,	 porque	 as	 pessoas,	 naturais	 ou	 jurídicas,	 iriam	 ajustar	 o	 seu
comportamento	 ao	 da	 jurisprudência?	 Por	 que	 não	 demandar	 ou	 resistir	 à
pretensão,	ainda	quando	os	 tribunais	superiores	ou	a	 jurisprudência	do	 tribunal
local	 esteja	 em	 sentido	 oposto,	 se	 há	 também	 juízes	 e	 tribunais	 desafiando	 o
entendimento	majoritário.	Não	por	outra	razão,	já	se	falou	de	“loteria	judiciária”,
o	que	expressa,	naturalmente,	sentido	altamente	depreciativo.
A	ideia	de	independência	dos	magistrados	suscita	a	falsa	ideia	e	afirmação
de	que	os	juízes	podem	julgar,	sempre,	a	partir	das	suas	convicções	pessoais.	Na
verdade,	 isso	 nunca	 foi	 possível.	 O	 juiz	 está	 adstrito	 às	 fontes	 normativas	 do
8.9.
direito.	 E,	 naturalmente,	 os	 tribunais	 superiores	 têm	 uma	 finalidade
expressamente	 prevista	 na	 constituição,	 começando	 pelo	 Supremo	 Tribunal
Federal,	na	guarda	da	Carta	Magna.
Não	se	pode	conceber	um	sistema	judicial	que	não	guarde	e	tenha	coerência,
a	partir	de	funções	constitucionalmente	delimitadas.	E	os	próprios	tribunais,	de
certo	 modo,	 foram	 e	 continuam	 sendo	 ainda	 benevolentes	 com	 a	 indefinição.
Conformam-se,	 por	 exemplo,	 com	 decisões	 desencontradas	 entre	 órgãos
fracionários	ou	dentro	do	próprio	órgão,	sem	buscar	uma	definição.
Mas,	a	simples	definição	de	questões	jurídicas	não	é	suficiente	para	conter	o
problema,	 se	 não	 for	 suficientemente	 debatida	 e	 embasada	 em	 sólidos
fundamentos	 jurídicos,	 pois	 a	 fragilidade	 nos	 argumentos	 do	 pronunciamento
judicial	enfraqueceria	sobremaneira	a	jurisprudência,	a	ponto	de	comprometer	a
sua	estabilidade.
A	JURISPRUDÊNCIA	E	OS	PRECEDENTES	EM	PAÍSES	DE
COMMON	E	CIVIL	LAW
Retornando	 um	 pouco	 à	 discussão	 sobre	 as	 fontes	 formais	 do	 direito,	 é
importante	notar	que,	 tanto	nos	países	de	common	law,	como	nos	de	civil	 law,não	 há,	 necessariamente,	 normas	 expressas	 a	 determinar	 o	 caráter	 vinculativo
dos	 precedentes.	 Pelo	 contrário,	 não	 há,	 em	 regra,	 na	 constituição	 ou	 em	 lei
ordinária,	 a	 norma,	 que	 é	 abstraída	 principalmente	 dos	 costumes	 jurídicos	 e
como	decorrência	lógica	do	sistema	judicial	estabelecido.
Mesmo	quando	existente	uma	norma	expressa	neste	sentido,	como	ocorre	na
Alemanha,	 em	 relação	 às	 decisões	 da	 Corte	 Constitucional
(Bundesverfassungsgericht),	 isso	ocorre	mediante	 a	previsão	apenas	 em	norma
ordinária.	Vide,	 neste	 sentido,	 a	 disposição	 contida	 no	 §	 31	 (1)	 da	 lei	 sobre	 a
Corte	 Federal	Constitucional	 da	Alemanha,	 que	 estabelece	 que	 as	 decisões	 do
Tribunal	Federal	Constitucional	vinculam	os	órgãos	constitucionais	da	União	e
dos	Estados,	bem	como	 todos	os	órgãos	 judiciais	 e	 repartições	públicas25.	Não
há,	 portanto,	 qualquer	 norma	 constitucional	 que	 preveja	 esta	 vinculação,	 mas
apenas,	 como	 dito,	 a	 norma	 infraconstitucional	 apontada.	 E	 não	 há	 nenhuma
8.10.
objeção	à	constitucionalidade	desta	norma.	Pelo	contrário,	vem-se	interpretando
de	 modo	 ampliativo	 a	 disposição,	 para	 abranger	 não	 apenas	 a	 decisão
propriamente	 dita,	 ou	 seja,	 na	 parte	 dispositiva,	mas	 os	 próprios	 fundamentos
utilizados	pela	Corte26.
Em	relação	aos	demais	tribunais,	embora	não	haja	norma	expressa	de	caráter
vinculativo,	 a	 persuasão	 é	 praticamente	 total,	 sendo	 o	 próprio	 ensino
extremamente	calcado	nas	decisões	proferidas27.
O	SISTEMA	DE	PRONUNCIAMENTOS	VINCULATIVOS	NO
CONTEXTO	DO	NOVO	CÓDIGO	DE	PROCESSO	CIVIL
Com	a	edição	do	novo	Código	de	Processo	Civil,	pode-se	dizer	que	há	um
sistema	de	pronunciamentos	qualificados,	ou	de	jurisprudência	e	de	precedentes
definido	 legalmente	 e	 que,	 nestes	 termos,	 não	 pode	 ser	 considerado	 como	 um
regime	típico	de	stare	decisis,	ou	seja,	que	os	precedentes	em	geral	passam	a	ter
um	caráter	vinculativo	no	sentido	vertical	e	horizontal.	Mas,	por	outro	lado,	não
existe	 apenas	 um	 mero	 efeito	 persuasivo	 nas	 hipóteses	 indicadas	 nos	 cinco
incisos	do	art.	 927.	Embora,	 como	 já	mencionado,	 as	duas	primeiras	 situações
não	constituam	 inovação,	porque	 já	 se	encontravam	anteriormente	previstas	na
própria	Constituição	da	República.
As	hipóteses	elencadas	no	art.	 927	 se	 justificam	plenamente.	Em	primeiro
lugar,	 as	 decisões	 do	 Supremo	 Tribunal	 Federal	 em	 controle	 concentrado	 de
constitucionalidade,	 como	 já	 abordado,	 possuem	 efeito	 erga	 omnes	 e	 caráter
vinculativo	 para	 os	 órgãos	 judiciais	 e	 da	 Administração	 Pública,	 no	 âmbito
federal,	 estadual	 e	 municipal,	 por	 determinação	 da	 própria	 Constituição	 da
República,	 nos	 termos	 dos	 arts.	 102,	 §	 2º,	 e	 103-A.	Não	 poderia	 ser	 de	 outra
maneira,	 ainda	 que	 não	 houvesse	 previsão	 expressa,	 porque	 o	 controle
concentrado	 serve	 exatamente	 para	 isso,	 ou	 seja,	 se	 estabelecer	 uma	decisão	 e
segurança	 jurídica	 geral,	 e	 não	 apenas	 em	 relação	 às	 partes,	 quanto	 à
constitucionalidade	 ou	 não	 da	 norma	 questionada.	 Do	 contrário,	 não	 haveria
controle	 concentrado	 e	 abstrato	 nas	 ações	 diretas	 de	 constitucionalidade	 e	 de
inconstitucionalidade.
Do	 mesmo	 modo,	 os	 enunciados	 da	 súmula	 vinculante	 do	 STF
prescindiriam	da	previsão	contida	no	art.	927.	A	sua	inserção,	portanto,	procurou
apenas	 consolidar	 o	 sistema,	 permitindo-se,	 assim,	 uma	 imediata	 visualização
das	hipóteses	vinculativas.
Mas,	o	Código	pretendeu	ir	além.	Em	primeiro	lugar,	ainda	que	constando
do	inciso	IV,	e	não	chegando	a	estabelecer	uma	vinculação	em	relação	a	todas	as
decisões	proferidas	pelo	Supremo	Tribunal	Federal,	como	fixado	pelo	legislador
alemão,	e	pelos	Tribunais	Superiores,	ampliou	a	abrangência	para	os	enunciados
das	respectivas	súmulas,	desde	que	versando	sobre	matéria	constitucional,	as	do
Supremo	Tribunal	Federal,	e	de	matéria	infraconstitucional,	para	as	do	Superior
Tribunal	de	Justiça.	Preservaram-se,	assim,	as	respectivas	funções	jurisdicionais,
procurando-se	evitar	a	possibilidade	de	dupla	vinculação	ou	de	sobreposição	de
comandos,	ainda	que,	na	prática,	possa	existir	certa	controvérsia	sobre	a	natureza
da	matéria	sumulada.
O	inciso	III	trata,	basicamente,	de	três	sistemáticas:	a)	recursos	repetitivos;
b)	 incidente	de	 resolução	de	demandas	 repetitivas	 (IRDR)	 (rectius	 de	questões
comuns);	 e	 incidente	 de	 assunção	 de	 competência	 (IAC).	 Nas	 duas	 primeiras,
adotou-se	uma	 técnica	de	 concentração,	 a	partir	 de	 casos	ou	questões	 comuns,
respectivamente,	 com	 a	 suspensão	 dos	 demais.	 Naturalmente,	 somente	 farão
sentido	 os	 dois	 instrumentos	 (recursos	 repetitivos	 e	 IRDR),	 se	 a	 decisão
proferida	 de	 modo	 concentrado	 for	 aplicada	 aos	 processos	 dependentes	 do
pronunciamento	 concentrado.	 Representa	 técnica,	 como	 já	 mencionado,
inspirada	no	Musterverfahren	alemão,	ainda	que	com	algumas	peculiaridades.	O
Poder	Judiciário	precisa	adotar	medidas	de	economia	processual,	principalmente
diante	 do	 elevado	 número	 de	 processos	 existentes	 no	 Brasil,	 sem,	 contudo,
descuidar	 da	 preservação	 do	 devido	 processo	 legal	 e	 dos	 direitos	 das	 partes	 e
interessados,	o	que	parece	ter	sido	protegido	nas	respectivas	regulamentações.
Do	mesmo	modo,	o	 incidente	de	assunção	de	competência,	nos	 termos	do
art.	947	do	CPC,	prevê	o	deslocamento	para	órgãos	mais	amplos,	que	devem	ter
a	competência	para	a	uniformização	da	 jurisprudência,	para	decidir	questão	de
direito	com	grande	repercussão	social.	As	normas	processuais	devem	propiciar	a
8.11.
devida	segurança	jurídica.	E,	naturalmente,	as	funções	contemporâneas	do	Poder
Judiciário	são	fundamentais	no	sentido	de	orientar	a	sociedade	diante	de	novos
fatos,	 da	 ausência	 de	 regras	 específicas	 ou	 da	 controvérsia	 estabelecida	 em
relação	à	interpretação	das	normas.	Os	órgãos	judiciários	servem	para	propiciar	a
solução	 dos	 conflitos	 e	 não	 para	 fomentá-los.	 Por	 isso,	 a	 preocupação	 com	 a
isonomia	 e	 com	 a	 segurança	 jurídica.	 Dessa	 forma,	 os	 órgãos	 vinculados	 ao
respectivo	tribunal	devem	seguir	o	entendimento	fixado.
Na	mesma	direção	do	que	se	disse	no	parágrafo	anterior	encontra-se	o	inciso
V,	pois	deve	haver	uma	uniformidade	no	posicionamento	do	tribunal.	Em	vários
países,	 esta	 preocupação	 chega	 a	 se	 materializar,	 nos	 julgamentos	 colegiados,
mediante	 a	 divulgação	 apenas	 do	 pronunciamento	 da	 corte,	 não	 se
disponibilizando	sequer	os	votos	vencidos.	Além	da	coesão	do	tribunal,	busca-se
a	adesão	dos	órgãos	vinculados,	pois	a	manutenção	de	entendimento	divergente
somente	iria	protrair	a	duração	dos	processos,	com	a	necessidade	da	interposição
de	 recursos,	 para	 que	 se	 possa	 efetivar	 no	 caso	 concreto	 o	 pensamento	 já
dominante	em	instância	superior.
A	RUPTURA	NECESSÁRIA	DE	PARADIGMAS	E	OS	SEUS
DESDOBRAMENTOS
Por	 fim,	 ou	 resumindo	 o	 que	 se	 disse	 acima,	 o	 caráter	 vinculativo	 para
determinados	pronunciamentos	 judiciais,	disposto	no	art.	927	do	novo	CPC,	se
afigura	 em	 conformidade	 com	 a	 ordem	 constitucional.	 Mas,	 não	 deixa	 de
representar	 uma	 ruptura	 com	 a	 cultura	 e	 os	 paradigmas	 estabelecidos	 na
comunidade	 jurídica,	 de	 que	 se	 pode	 e	 se	 deve	 sempre	 ajuizar	 uma	 demanda,
resistir	a	uma	pretensão	ou	interpor	um	recurso,	ainda	que	contra	o	entendimento
dos	tribunais,	não	se	impondo	limites	à	inconformidade.
Este	 pensamento	 encontra-se	 incrustado	 nos	 diversos	 profissionais	 do
direito.	 No	 advogado,	 que	 não	 orienta	 o	 seu	 cliente	 quanto	 à	 posição	 dos
tribunais.	No	juiz,	que	não	segue	a	jurisprudência.	Nos	integrantes	dos	tribunais,
que	preferem	divergir,	ao	invés	de	convergir,	diante	do	entendimento	firmado.
Por	 sua	 vez,	 os	 tribunais	 passam	 a	 ter	 uma	 responsabilidade	 maior,	 no
1
2
3
4
5
sentido	 de	 observar	 as	 normas	 processuais,	 especialmente	 a	 de	 buscar	 a
uniformização	da	sua	jurisprudência,	mantendo-a	estável,	íntegra	e	coerente,	nos
termos	doart.	926.	Mas	também	quanto	ao	contraditório	e	fundamentação,	para
que	as	suas	decisões	possam	se	impor	mais	pelo	conteúdo	dos	seus	argumentos,
do	que	pela	autoridade	do	comando	legal.
E,	por	consequência,	 isso	faz	que	a	sociedade,	em	geral,	e	os	profissionais
do	 direito,	 em	 particular,	 passem	 a	 exercer	 um	 controle	 ainda	maior	 quanto	 à
estruturação,	 funcionamento	 e	 composição	 dos	 tribunais,	 para	 que	 a	 sua
organização	e	os	seus	quadros	estejam	sempre	à	altura	dos	novos	tempos	e	das
novas	exigências.
Temas	de	direito	processual:	oitava	série,	São	Paulo:	Saraiva,	2004,	p.	41-
52.
Idem,	p.	47.
Vide,	 especialmente,	Comparative	 civil	 procedure,	 de	 Peter	Gottwald,	 in:
Ritsumeikan	 Law	 Review:	 International	 Edition,	 2005;
Prozeßrechtsvergleichung,	 de	Peter	Gilles,	Köln:	Carl	Heymanns,	1996;	 e
Einführung	in	die	Rechtsvergleichung,	de	Konrad	Zweigert	e	Hein	Kötz,	3.
Auf.,	Tübingen:	J.	C.	B.	Mohr,	1996.
Sobre	o	caráter	declaratório	ou	constitutivo	dos	pronunciamentos	judiciais,
Teresa	 Arruda	 Alvim	 Wambier,	 em	 Precedentes	 e	 evolução	 do	 direito,
leciona	que:	“No	fundo,	não	são	muito	diferentes	as	polêmicas	que	giram
em	torno	da	tal	já	referida	declaratory	theory	do	common	law	 (uma	 teoria
segundo	a	qual	o	juiz	não	cria	direito,	mas	“declara”	o	direito	preexistente)
e	 do	 “positivismo”	 jurídico	 no	 civil	 law	 (o	 juiz	 decide	 conforme	 a	 lei)”.
Para	 concluir	 que:	 “Todos	 sabem	 que	 o	 juiz	 cria	 direito.	 É	mais	 honesto
intelectualmente	 reconhecê-lo	 de	 uma	 vez	 por	 todas	 e	 tentar	 estabelecer
limites	para	esta	‘criatividade’	ou,	em	outras	palavras,	para	o	tal	‘ativismo’
judicial	 –	 que	 são	 conceitos	 muito	 próximos,	 cuja	 essência,	 no	 meu
entender,	como	observei	antes,	é	idêntica”.
Nesse	 sentido,	 José	 Rogério	 Cruz	 e	 Tucci,	 Parâmetros	 de	 eficácia	 e
critérios	 de	 interpretação	 do	 precedente	 judicial:	 “A	 peculiaridade	 da
6
7
8
9
10
11
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13
14
15
16
incidência	 do	 precedente	 em	 cotejo	 com	 a	 aplicação	 da	 lei	 consiste
sobretudo	 na	 amplitude	 da	 área	 de	 discricionariedade	 que	 os	 juízes
possuem.	A	individuação	da	ratio	decidendi	é	uma	operação	heurística	de
natureza	 casuístico-indutiva,	 pela	 qual	 a	 regra	 jurídica	 é	 extraída	 do
confronto	entre	a	anterior	decisão	e	o	caso	concreto	submetido	à	apreciação
judicial.	A	sentença	do	juiz	do	civil	law,	a	seu	turno,	também	pressupõe	um
labor	 intelectual,	 porém,	 de	 cunho	 normativo-dedutivo,	 no	 qual	 deve	 ser
apresentada	 uma	 justificação	 das	 circunstâncias	 fáticas	 e	 jurídicas	 que
determinaram	a	subsunção	destes	a	determinado	texto	de	lei”.
Vide	 os	 livros	Manual	 de	 direito	 civil,	 São	 Paulo:	 Revista	 dos	 Tribunais,
1980,	 e	 especialmente	 O	 direito,	 a	 lei	 e	 a	 jurisprudência,	 São	 Paulo:
Revista	dos	Tribunais,	1974.
Em	O	direito,	a	lei	e	a	jurisprudência,	p.	169-170.
Idem,	p.	178-179.
Vide,	sobre	o	tema,	o	livro	Stare	decisis	et	non	quieta	movere:	a	vinculação
aos	 precedentes	 no	 direito	 comparado	 e	 brasileiro,	 de	 Gustavo	 Santana
Nogueira,	Rio	 de	 Janeiro:	Lumen	 Juris,	 2011,	 fruto	 da	 sua	 dissertação	de
mestrado.
Teoria	dos	direitos	fundamentais,	2.	ed.	São	Paulo:	Malheiros,	2012,	p.	90-
91.
A	 notícia	 sobre	 o	 fato	 está	 disponível	 em:
.
Stare	decisis	et	non	quieta	movere:	a	vinculação	aos	precedentes	no	direito
comparado	e	brasileiro,	p.	174-178.
Segundo	o	autor,	na	obra	 supramencionada	e	com	 lastro	em	Lee	Strang	e
Polly	 Price,	 “os	 precedentes	 sobre	 matéria	 constitucional	 têm	 uma	 força
menor	em	comparação	com	precedentes	que	 interpretam	 leis	escritas	ou	a
common	law,	por	causa	da	grande	dificuldade	de	se	eliminar	um	precedente
constitucional	incorreto	por	meios	extrajudiciais”	(idem,	p.	175).
Sucedida	pela	Supreme	Court	for	the	United	Kingdom,	em	2005.
BYRD,	B.	Sharon.	Einführung	in	die	anglo-amerikanische	Rechtssprache:
Introduction	to	anglo-american	law	and	language.	München:	Beck,	1997.
“Practice	 Statement	 (Judicial	 Precedent)	 [1966]	 3	 All	 E.	 R.	 77	 –	 Before
judgments	 were	 given	 in	 the	 House	 of	 Lords	 on	 July	 26,	 1966,	 Lord
Gardiner,	L.	C.,	made	the	following	statement	on	behalf	of	himself	and	the
Lords	of	Appeal	in	Ordinary:	Their	lordships	regard	the	use	of	precedent	as
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/coti-dian/ff23109823.htm
17
an	 indispensable	 foundation	upon	which	 to	decide	what	 is	 the	 law	and	 its
application	to	individual	cases.	It	provides	at	least	some	degree	of	certainty
upon	which	individuals	can	rely	in	the	conduct	of	their	affairs,	as	well	as	a
basis	 for	 orderly	 development	 of	 legal	 rules.	 Their	 lordships	 nevertheless
recognize	 that	 too	 rigid	 adherence	 to	precedent	may	 lead	 to	 injustice	 in	 a
particular	case	and	also	unduly	restrict	the	proper	development	of	the	law.
They	propose	therefore	to	modify	their	present	practice	and,	while	treating
former	 decisions	 of	 this	 House	 as	 normally	 binding,	 to	 depart	 from	 a
previous	 decision	when	 it	 appears	 right	 to	 do	 so.	 In	 this	 connection	 they
will	 bear	 in	 mind	 the	 danger	 of	 disturbing	 retrospectively	 the	 basis	 on
which	contracts,	settlements	of	property	and	fiscal	arrangements	have	been
entered	into	and	also	the	especial	need	for	certainty	as	to	the	criminal	law.
This	announcement	is	not	intended	to	affect	the	use	of	precedent	elsewhere
than	in	this	House.”
“(...)	 The	 following	 excerpt	 is	 from	 Lord	 Bridge	 of	 Harwich’s	 speech
representing	the	opinion	of	the	majority	of	the	House	of	Lords	in	Regina	v.
Shivpuri:	‘I	am	thus	led	to	the	conclusion	that	there	is	no	valid	ground	on
which	Anderton	v.	Ryan	can	be	distinguished.	 I	have	made	clear	my	own
conviction,	which	as	a	party	to	the	decision	(and	craving	the	indulgence	of
my	noble	and	learned	friends	who	agreed	in	it)	I	am	the	readier	to	express,
that	 the	 decision	 was	 wrong.	 What	 then	 is	 to	 be	 done?	 If	 the	 case	 is
indistinguishable,	 the	application	of	 the	strict	doctrine	of	precedent	would
require	that	the	present	appeal	be	allowed.	Is	it	permissible	to	depart	from
precedent	 under	 the	 Practice	 Statement	 (Judicial	 Precedente)	 [1966]	 1
W.L.R.	1234	notwithstanding	the	especial	need	for	certainty	in	the	criminal
law?	 The	 following	 considerations	 lead	 me	 to	 answer	 that	 question
affirmatively.	First,	I	am	undeterred	by	the	consideration	that	the	decision	in
Anderton	 v.	 Ryan	 was	 so	 recent.	 The	 Practice	 Statement	 is	 an	 effective
abandonment	of	our	pretention	to	infallibility.	If	a	serious	error	embodied	in
a	decision	of	this	House	has	distorted	the	law,	the	sooner	it	is	corrected	the
better.	Secondly,	 I	 cannot	 see	how,	 in	 the	very	nature	of	 the	case,	 anyone
could	have	acted	in	reliance	on	the	law	as	propounded	in	Anderton	v.	Ryan
in	the	belief	that	he	was	acting	innocently	and	now	find	that,	after	all,	he	is
to	be	held	to	have	committed	a	criminal	offence.	Thirdly,	to	hold	the	House
bound	to	follow	Anderton	v.	Ryan	because	it	cannot	be	distinguished	and	to
allow	 the	 appeal	 in	 this	 case	 would,	 it	 seems	 to	 me,	 be	 tantamount	 to	 a
declaration	that	the	Act	of	1981	left	the	law	of	criminal	attempts	unchanged
18
19
20
21
22
23
following	 the	 decision	 in	 Reg.	 v.	 Smith	 [1975]	 A.C.	 476.	 Finally,	 if,
contrary	to	my	present	view,	there	is	a	valid	ground	on	which	it	would	be
proper	to	distinguish	cases	similar	to	that	considered	in	Anderton	v.	Ryan,
my	present	opinion	on	that	point	would	not	foreclose	the	option	of	making
such	a	distinction	 in	some	future	case.”	BYRD,	B.	Sharon.	Einführung	 in
die	 anglo-amerikanische	 Rechtssprache:	 introduction	 to	 anglo-american
law	and	language,	p.	10-11.
Vide	Christoph	A.	Kern,	The	respect	for	court	decisions	in	German	Law.	In:
MENDES,	 Aluisio	 Gonçalves	 de	 Castro;	 WAMBIER,	 Teresa	 Arruda
Alvim.	 O	 processo	 em	 perspectiva:	 jornadas	 brasileiras	 de	 direito
processual	–	Homenagem	a	José	Carlos	Barbosa	Moreira,	p.	147-150.
Christophparticular	 a	 cada	 tema	 e
respectivos	fundamentos.
A	obra	é	densa,	profunda,	pelo	 rigor	 científico	com	que	 foi	 construída.	É,
por	 outro	 lado,	 didática	 porque	 redigida	 em	 linguagem	 precisa	 e	 de	 fácil
compreensão,	 associando	 sempre	 a	 teoria	 aos	 exemplos	 práticos.	 Sua	 larga
utilidade,	pois,	dar-se-á	tanto	no	mundo	acadêmico	como	na	atividade	forense.
Pela	importância	e	novidade	do	tema	explorado,	não	poderia	ser	mais	atual
sua	 publicação,	 de	 cujo	 sucesso	 estou	 plenamente	 seguro,	 principalmente	 pela
matéria	com	que	se	houve	o	autor	na	respectiva	exposição.
Humberto	Theodoro	Júnior
Belo	Horizonte,	junho	de	2017
MATERIAL	SUPLEMENTAR
O	acesso	ao	material	suplementar	é	gratuito.	Basta	que	o	leitor	se	cadastre
em	nosso	site	(www.grupogen.com.br),	faça	seu	login	e	clique	em	Ambiente	de
Aprendizagem,	no	menu	superior	do	lado	direito.
É	 rápido	e	 fácil.	Caso	haja	 alguma	mudança	no	 sistema	ou	dificuldade	de
acesso,	entre	em	contato	conosco	(sac@grupogen.com.br).
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2.1.
2.2.
2.3.
2.4.
2.5.
2.6.
2.7.
3.1.
INTRODUÇÃO
Capítulo	1	–	Posição	propedêutica	do	Incidente	de	Resolução	de	Demandas
Repetitivas	(rectius	de	questão	comum)	(IRDR	ou	IRQC)
Capítulo	2	–	As	funções	do	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas
no	contexto	sociojurídico	do	mundo	contemporâneo
Acesso	à	Justiça	e	a	economia	judicial	e	processual
Os	instrumentos	processuais	coletivos	e	o	acesso	à	Justiça
O	IRDR	como	instrumento	de	economia	judicial	e	processual
O	princípio	da	igualdade	diante	da	lei	e	a	segurança	jurídica
Os	meios	processuais	coletivos	como	instrumento	para	o	equilíbrio	das
partes	no	processo
Os	mecanismos	 coletivos	 como	 instrumento	 para	 o	 cumprimento	 do
direito	material
O	 papel	 e	 os	 limites	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas
Repetitivas
Capítulo	 3	 –	 As	 fontes	 de	 inspiração	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de
Demandas	Repetitivas	no	direito	estrangeiro
Test	 claims	 (demandas	 teste),	 pilot	 judgments	 (julgamentos	 piloto),
Musterverfahren	 (procedimento	 modelo),	 Group	 Litigation	 Order
(decisão	 sobre	 litígios	 de	 grupo)	 e	 outros	 julgamentos	 de	 questões
3.2.
3.3.
4.1.
4.2.
4.3.
5.1.
5.2.
5.3.
7.1.
7.2.
comuns	ou	por	amostragem
O	 surgimento	 do	 Musterverfahren	 (procedimento-padrão)	 na
>Alemanha:	a	experiência	prática	sem	previsão	legal
A	introdução	do	Musterverfahren	no	ordenamento	jurídico	alemão
Capítulo	 4	 –	 O	 Musterverfahren	 (processo-modelo)	 da	 Jurisdição
Administrativa	e	da	Previdência	e	Assistência	Social
Considerações	 iniciais.	 O	 regramento	 sucinto	 e	 unificado	 para	 o
Musterverfaren	no	direito	público
Cabimento	e	admissibilidade.	Escolha	dos	procedimentos-modelo
Processamento	e	julgamento	do	Musterverfahren	e	dos	Nachverfahren
Capítulo	 5	 –	 O	 Musterverfahren	 (procedimento-padrão)	 dos	 litígios
relacionados	ao	mercado	de	capitais	(KapMuG)
A	 fase	 de	 admissibilidade	 da	 instauração	 do	 procedimento-padrão
(Musterverfahren)
Processamento	 do	 procedimento-padrão	 (Durchführung	 des
Musterverfahrens)
Vinculação	da	decisão-padrão	(Wirkung	des	Musterentscheids)
Capítulo	6	–	A	Group	Litigation	Order	do	direito	britânico
Capítulo	 7	 –	 Resgatando	 a	 genealogia	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de
Demandas	Repetitivas	no	direito	nacional
A	formulação	da	proposição	na	Comissão	de	Juristas,	o	(ante)	projeto
de	 novo	 Código	 de	 Processo	 Civil	 e	 o	 texto	 aprovado	 no	 Senado
Federal
A	versão	do	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas	no	texto
aprovado	na	Câmara	dos	Deputados
7.3.
8.1.
8.2.
8.3.
8.4.
8.5.
8.5.1.
8.5.2.
8.5.3.
8.5.4.
8.6.
8.7.
8.8.
8.9.
8.10.
8.11.
O	 IRDR	 na	 redação	 final	 aprovada	 no	 Senado	 Federal	 e	 no	 texto
sancionado
Capítulo	 8	 –	 Considerações	 prévias	 sobre	 precedentes	 e	 jurisprudência:
papel,	 fatores	 e	 perspectivas	 no	 direito	 brasileiro	 contemporâneo.	 O
caráter	vinculativo	no	art.	927	do	novo	Código	de	Processo	Civil
Introdução	(ou	breve	retrospecto	sobre	o	tema	nos	últimos	25	anos)	a
partir	da	vivência	e	do	olhar	do	autor
Common	law	e	civil	law
A	importância	dos	precedentes	e	da	jurisprudência
O	stare	decisis	e	as	qualidades	dos	precedentes	e	da	jurisprudência
Principais	 fatores	 que	 influenciam	 em	 termos	 de	 precedentes	 no
contexto	brasileiro
Fatores	culturais
Educação	jurídica
Estrutura	e	organização	do	Poder	Judiciário
O	papel	dos	profissionais	do	direito
As	fontes	formais	do	direito	no	Brasil
A	ideia	de	independência	funcional	dos	magistrados
Os	precedentes	e	o	contexto	atual	do	Poder	Judiciário	brasileiro
A	jurisprudência	e	os	precedentes	em	países	de	common	e	civil	law
O	 sistema	 de	 pronunciamentos	 vinculativos	 no	 contexto	 do	 novo
Código	de	Processo	Civil
A	ruptura	necessária	de	paradigmas	e	os	seus	desdobramentos
Capítulo	 9	 –	 A	 natureza	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas
Repetitivas
9.1.
9.2.
9.3.
10.1.
10.1.1.
10.1.2.
10.2.
10.3.
10.4.
10.4.1.
10.4.2.
11.1.
11.2.
11.3.
11.4.
Considerações	iniciais	sobre	a	jurisdição.	A	ampliação	da	acep-	ção	de
jurisdição
A	análise	formal	do	IRDR
O	objeto	do	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas
Capítulo	 10	 –	 Cabimento	 e	 requisitos	 para	 o	 incidente	 de	 resolução	 de
demandas	repetitivas
Efetiva	 repetição	 de	 processos	 que	 contenham	 controvérsia	 sobre
questão	comum	de	direito
A	efetiva	repetição	de	processos
A	questão	unicamente	(rectius	comum)	de	direito
Risco	de	ofensa	à	isonomia	e	à	segurança	jurídica
Requisito	 negativo:	 que	 a	 questão	 jurídica	 não	 esteja	 afetada	 em
recurso	especial	ou	extraordinário	repetitivo
A	controvérsia	em	torno	da	exigência	de	que	o	 incidente	 tenha	como
base	apenas	processos	já	em	tramitação	no	tribunal
A	posição	 de	 que	 o	 incidente	 somente	 pode	 ser	 suscitado	 na
pendência	de	causa	no	tribunal
O	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas	pode	ser
suscitado	 a	 partir	 de	 causas	 em	 tramitação	 perante	 juízes	 ou
tribunais	de	segundo	grau
Capítulo	11	–	Legitimidade	e	sujeitos	processuais	no	incidente
Legitimidade	para	o	IRDR
Os	sujeitos	processuais	no	Musterverfahren	alemão
Os	intervenientes	no	IRDR:	a	influência	na	formação	da	tese	jurídica
As	medidas	fundamentais	para	a	preservação	dos	direitos	subjacentes
11.5.
11.5.1.
11.5.2.
11.5.3.
11.5.4.
11.6.
12.1.
12.2.
12.3.
12.4.
12.5.
12.5.1.
12.5.2.
12.5.3.
12.5.4.
ao	IRDR	sob	o	aspecto	subjetivo
Considerações	em	torno	dos	legitimados	para	suscitar	o	IRDR
O	juiz,	o	relator	e	os	órgãos	judiciais	colegiados
As	partes
Ministério	Público
Defensoria	Pública
Despesas	e	honorários	advocatícios	no	IRDR
Capítulo	 12	 –	 Competência	 para	 a	 admissibilidade,	 processamento	 e
julgamento	do	IRDR	e	dos	processos	pendentes
Competência	dos	tribunais	de	segundo	grau
Competência	 funcional	 do	 órgão	 definido	 pelo	 Regimento	 Interno,
com	atribuição	para	a	uniformização	da	jurisprudência
A	 importância	 da	 organização	 e	 da	 especialização	 para	 a
uniformização	 da	 jurisprudência	 e	 a	 fixação	 de	 precedentes
vinculativos
Cabimento	 do	 Incidente	 de	Resolução	 de	Demandas	Repetitivas	 nos
Tribunais	Superiores
Juizados	Especiais
Breve	 digressão	 histórica	 em	 torno	 da	 criação	 dos	 juizados
especiais	no	Brasil
O	art.	98,	I,	da	Constituição	da	República
O	 modelo	 de	 uniformização	 de	 jurisprudência	 nos	 Juizados
Especiais	e	suas	deficiências
O	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 nos
Juizados	Especiais
12.5.5.
13.1.
13.2.
13.3.
14.1.
14.2.
Conclusões	sobre	o	tema	Juizados	Especiais	e	IRDR
Capítulo	 13	 –	 Divulgação	 e	 publicidade	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de
Demandas	Repetitivas.	Cadastro	nos	Tribunais	e	no	Conselho	Nacional
de	Justiça.	A	resolução	nº	235/2016	do	Conselho	Nacional	de	Justiça.	As
dificuldades	 práticas	 para	 a	 implementação	 do	 Cadastro	 Nacional	 de
Incidentes	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas
A	importância	da	comunicação	nos	 julgamentos	de	questõesKern,	no	estudo	supramencionado,	abordou	o	tema	basicamente
sob	o	prisma	do	recrutamento	e	carreira	dos	magistrados,	enaltecendo	que	a
seleção	 a	 partir	 de	 resultados	 obtidos	 em	 exames,	 na	 Alemanha,	 assim
como	no	Brasil,	de	certo	modo,	contribui	para	a	independência	dos	juízes.
E,	no	país	germânico,	para	o	fortalecimento	dos	precedentes.	Vide	p.	151-
152.
Conforme	 dados	 indicados	 no	 primeiro	 capítulo.	 Vide,	 também,	 nesse
sentido:	MENDES,	Aluisio	Gonçalves	de	Castro	Mendes.	Ações	coletivas	e
meios	de	resolução	coletiva	de	conflitos	no	direito	comparado	e	nacional,
4.	 ed.,	 especialmente	 p.	 31,	 e	 Poder	 Judiciário:	 problemas,	 propostas	 e
controle	externo.
Os	 números	 são	 impressionantes	 especialmente	 na	 Corte	 Constitucional
alemã:	entre	1951	e	1997,	houve	apenas	nove	mudanças	de	entendimento,
dentro	de	um	total	de	3.500	decisões.	Ou	seja,	uma	média	de	praticamente
uma	 alteração	 a	 cada	 cinco	 anos.	 Nesse	 sentido,	 Christoph	 Kern,	 The
respect	for	court	decisions	in	German	Law.
São	 12	 Turmas,	 denominadas	 Senate	 em	 alemão,	 Cíveis,	 4	 Turmas
Criminais	 e	 8	 Turmas	 Específicas.	 Todas	 elas	 especializadas	 para	 em
determinadas	matérias,	 sem	que	haja	 competência	 concorrente.	Há,	 ainda,
uma	 quinta	 turma	 criminal,	 com	 competência	 definida	 pelo	 território
específico	de	alguns	estados.
The	respect	for	court	decisions	in	German	Law,	p.	154:	“It	should	also	be
noted	that	courts	have	since	long	held	that	lawyers	must,	in	principle,	know
the	law	and	its	interpretation	by	the	courts.	In	particular,	lawyers	owe	their
clients	a	professional	duty	to	know	all	relevant	precedents	and	to	align	their
legal	 counseling	 and	 procedural	 strategy	 with	 them.	 If	 the	 client	 suffers
24
25
26
27
damages	as	a	consequence	of	a	lawyer’s	violation	of	this	duty,	the	client	can
sue	the	lawyer	and	his	or	her	professional	indemnity	insurance	company	for
compensation.	 (…)	 However	 strict	 the	 liability	 is,	 a	 duty	 to	 know	 and
respect	 precedents	 makes	 only	 sense	 if	 the	 lawyer	 or	 civil	 servant	 must
expect	 that	courts	normally	follow	precedents.	The	existence	of	such	duty
is,	 therefore,	 a	 sign	of	 the	high	 respect	German	courts	normally	 show	 for
precedents;	at	the	same	time,	it	reinforces	this	respect.”
A	ética	dos	precedentes,	São	Paulo:	Revista	dos	Tribunais,	2014.
Gesetz	 über	 das	 Bundesverfassungsgericht
(Bundesverfassungsgerichtsgesetz	 –	 BVerfGG),	 §	 31	 (1)	 Die
Entscheidungen	 des	 Bundesverfassungsgerichts	 binden	 die
Verfassungsorgane	 des	 Bundes	 und	 der	 Länder	 sowie	 alle	 Gerichte	 und
Behörden.
Vide,	 neste	 sentido,	 ROSENBERG,	 Leo;	 SCHWAB,	 Karl	 Heinz;
GOTTWALD,	Peter.	Zivilprozessrecht.	17.	Auflage,	München,	2010,	§	17,
Rn.	4.
Como	 referido	 em	 trabalho	 anterior:	 MENDES,	 Aluisio	 Gonçalves	 de
Castro	Mendes.	Precedentes	e	jurisprudência:	papel,	fatores	e	perspectivas
no	 direito	 brasileiro	 contemporâneo,	 In:	MENDES,	Aluisio	Gonçalves	 de
Castro;	MARINONI,	Luiz	Guilherme;	WAMBIER,	Teresa	Arruda	Alvim.
Direito	Jurisprudencial	–	II,	São	Paulo:	RT,	2014.
9.1. CONSIDERAÇÕES	INICIAIS	SOBRE	A	JURISDIÇÃO.	A
AMPLIAÇÃO	DA	ACEPÇÃO	DE	JURISDIÇÃO
A	jurisdição1	é	uma	das	funções	do	Estado,	mediante	a	qual	o	Poder	Público,
substituindo	 os	 titulares	 dos	 interesses	 em	 conflito,	 resolve,	 imparcialmente,	 a
lide.	 O	 Estado	 irá	 dizer,	 afirmar	 ou	 efetivar	 o	 direito	 a	 ser	 protegido.	 Nas
palavras	de	Chiovenda,2	“é	a	função	do	Estado	que	tem	por	escopo	a	atuação	da
vontade	 concreta	 da	 lei	 por	 meio	 da	 substituição,	 pela	 atividade	 dos	 órgãos
públicos,	da	atividade	de	particulares	ou	de	outros	órgãos	públicos,	já	no	afirmar
a	existência	da	vontade	da	lei,	já	no	torná-la,	praticamente,	efetiva”.
Decorre,	desse	modo,	o	caráter	substitutivo	da	jurisdição,	na	medida	que	o
Estado	proíbe	a	autotutela	e,	portanto,	ao	proibi-la,	estabelece	um	dever	para	si
de	atuar,	de	realizar	uma	atividade,	no	sentido	de	resolver	o	conflito,	impondo	às
partes	uma	solução	que	não	foi	proveniente	dos	envolvidos,	mas,	sim,	decidida
por	 terceiro.	 A	 atuação	 pode	 se	 dar	 tanto	 no	 âmbito	 cognitivo,	 executivo	 ou
cautelar.
Na	 esfera	 cognitiva,	 exercendo	uma	 atividade	 denominada	de	 processo	de
conhecimento,	o	 juiz	vai	atuar	no	sentido	de	conhecer	as	alegações,	o	conflito,
com	o	objetivo	de	afirmar	o	direito.	A	solução	do	conflito	pode	passar	também
por	 uma	 atividade	 executiva,	 ou	 seja,	 já	 há	 uma	 certeza	 em	 relação	 a	 quem
dispõe	do	direito,	 portanto	 não	há	mais	 uma	dúvida	 em	 relação	 a	 quem	esteja
correto,	sob	o	ponto	de	vista	do	ordenamento	jurídico,	mas	há	uma	resistência	ao
cumprimento	 da	 obrigação	 que	 já	 está	 definida.	 A	 certeza	 já	 está
consubstanciada,	materializada,	em	um	título	executivo	judicial	ou	extrajudicial.
O	que	se	vai	reclamar	ou	pedir	para	o	Estado	é,	na	verdade,	a	realização	de	atos
materiais,	para	se	conseguir	que	aquilo	que	deve	ser	seja	efetivamente	prestado.
No	âmbito	cautelar,	a	jurisdição	é	exercida	apenas	com	caráter	preventivo,	para
se	 tomar	 uma	medida	 urgente	 e	 capaz	 de	 assegurar	 provisoriamente,	 enquanto
não	 resolvido	 de	 modo	 definitivo	 em	 outro	 processo,	 um	 direito,	 com
probabilidade	 aparente	 e	 que,	 sem	 a	 atuação	 requerida	 e	 imediata,	 poderia	 se
tornar	impossível	ou	de	difícil	realização.
A	 função	 legislativa	 busca	 a	 produção,	 a	 edição,	 de	 normas	 gerais	 e
abstratas.	 Então,	 o	 que	 se	 estabelece	 na	 verdade	 é	 um	 padrão,	 que	 estará
aguardando,	 a	 partir	 do	momento	de	 sua	vigência,	 a	 realização	de	 fatos	 e	 atos
concretos	que	se	enquadrem	exatamente	à	norma	abstratamente	estabelecida.
A	função	jurisdicional,	em	geral,	também	estabelece,	na	atividade	cognitiva,
uma	norma.	Mas,	classicamente,	não	uma	regra	geral	e	abstrata.	Pelo	contrário,
um	 comando	 concreto,	 ou	 seja,	 fixa	 uma	 determinação	 para	 o	 caso	 concreto,
tanto	 que,	 quando	 se	 forma	 a	 coisa	 julgada,	 provida	 dessa	 definitividade,	 é
fundamental	 se	 delimitar,	 no	 âmbito	 do	 que	 foi	 decidido,	 os	 seus	 limites
objetivos	 e	 subjetivos.	 Isso	 significa	 que	 a	 decisão	 estará	 relacionada	 ao	 caso
concreto,	 tornando-se	 imutável	 apenas	 para	 os	 que	 subjetivamente	 estavam
ligados	ao	processo.
Por	exemplo,	se	há	uma	pessoa	jurídica	ou	uma	pessoa	natural	questionando
o	pagamento	de	um	imposto,	alegando	a	 inconstitucionalidade	da	 lei	que	criou
ou	majorou	o	tributo,	a	parte	irá	a	juízo	pedir	a	devolução	da	quantia	recolhida.
Pede-se	a	devolução	do	tributo	pago	no	ano	passado.	Se	no	ano	seguinte,	voltar	a
ser	 cobrado	 de	 forma	 irregular	 ou	 indevida,	 haverá	 necessidade	 da	 parte	 ir	 ao
Judiciário	para	se	insurgir	contra	o	imposto	exigido.	Então,	são	objetos	diversos.
Quando	 se	 vai	 ao	 juízo	 pedir	 que	 seja	 invalidado	 um	 determinado	 auto	 de
infração,	é	aquele	auto	de	infração	in	concreto	que	será	questionado.	Ainda	que
haja	na	causa,	na	argumentação	levantada,	uma	questão	que	possa	dizer	respeito
a	outras	pessoas	ou	até	àquela	mesma	pessoa	em	outros	casos,	a	norma	judicial
fixada	não	terá	caráter	abstrato	ou	genérico.
A	rigor,	 só	perante	alguns	órgãos	 judiciais3	 é	que	se	pode	 fazer	o	controle
direto	 da	 constitucionalidade	 das	 leis.	 Em	 geral,	 as	 pessoas	 não	 podem
questionar	 de	 forma	 abstrata	 a	 própria	 lei	 ou	 o	 ato	 normativo.	 Por	 isso	 é
importante	saber	qual	foi	o	pedido	feito	na	petição	inicial,	porque	há	o	princípio
da	 congruência.	 O	 juiz	 só	 poderá	 julgar	 aquilo	 que	 foi	 pedido,	 ele	 não	 pode,
portanto,	julgar	nem	fora	do	pedido,	nem	além	do	pedido,	nem	aquém	do	pedido.
O	 magistrado	 precisa	 julgar	 exata	 e	 tão	 somente	 o	 pedido.	 Isso	 difere
substancialmente	 da	 atividade	 legislativa,	 na	 qual	 se	 formulam	 leis	 gerais	 e
abstratas.	 Para	 tanto,	 se	 está	 falando	 do	 ato	 que	 substancialmente	 pode	 ser
considerado	como	lei.
A	 concepção	 tradicional	 supramencionada	 da	 jurisdição	 enfrenta,	 todavia,
algumas	dificuldades	práticas	eteóricas.	Como	enfrentado	no	capítulo	anterior,
pelo	menos	 em	duas	 hipóteses	 pode	 ocorrer	 um	perigoso	 vácuo	 normativo:	 a)
diante	de	 fatos	novos	não	previstos	expressamente	no	ordenamento;	b)	quando
ocorre	controvérsia	em	relação	ao	sentido	da	norma	ou	da	sua	aplicação.	Diante
das	 duas	 situações,	 o	 Poder	 Judiciário	 pode	 ser	 demandado,	 individual	 ou
coletivamente,	 para	 a	 resolução	 do	 conflito.	 Mas,	 além	 disso,	 o	 ordenamento
contém,	 atualmente,	 instrumentos	 de	 controle	 abstrato,	 especialmente	 quanto	 à
constitucionalidade	 das	 normas	 ou	 mesmo	 da	 sua	 omissão.	 Nesta	 última
hipótese,	 a	 própria	 Constituição	 já	 desenhava	 a	 possibilidade	 da	 atuação
normativa,	 abstrata	 e	 geral,	 do	 Poder	 Judiciário.	 Nesse	 sentido,	 podem	 ser
indicados,	por	exemplo,	o	mandado	de	injunção4	coletivo	e	o	poder	normativo	da
Justiça	 do	 Trabalho5.	 Em	 todos	 os	 instrumentos	 apontados	 (ação	 direta	 de
constitucionalidade,	 ação	direta	de	 inconstitucionalidade,	mandado	de	 injunção
coletivo	e	poder	normativo	da	Justiça	do	Trabalho),	fica	patente	a	preocupação	e
a	 abrangência	 coletiva	 destes	 mecanismos,	 não	 se	 limitando	 a	 atuação
jurisdicional	 à	 resolução	de	 casos	 concretos	 e	 individualizados.	Não	há	que	 se
falar,	 por	 outro	 lado,	 em	 quebra	 do	 equilíbrio	 entre	 os	 Poderes.	 Em	 primeiro
lugar,	 porque	 o	 controle	 da	 constitucionalidade	 das	 leis	 é	 uma	 conquista
mundialmente	aceita	e	praticada,	considerando	que	a	ausência	de	controle	é	que
propiciaria	um	poder	desenfreado	para	se	legislar	sem	a	observância	das	normas
9.2.
Constitucionais,	 que	 não	 são	 elaboradas,	 mas	 apenas	 interpretadas	 pelo	 Poder
Judiciário.	 Por	 sua	 vez,	 nas	 duas	 últimas	 ferramentas	 (mandado	 de	 injunção
coletivo	e	poder	normativo	da	Justiça	do	Trabalho),	a	atuação	é	supletiva,	não	se
mantendo	ou	sobrepondo,	respectivamente,	em	relação	às	leis	e	convenções	que
venham	a	ser	editadas.
Esta	 nova	 feição	 da	 jurisdição	 está	 relacionada	 com	 os	 princípios
constitucionais	 do	 acesso	 à	 justiça,	 da	 segurança	 jurídica,	 da	 isonomia	 e	 da
duração	 razoável	 dos	 processos.	 E	 conjuga	 a	 atuação	 coletiva,	 prévia	 e
instrumental	do	Poder	Judiciário.	A	jurisdição	não	fica	mais	adstrita	apenas	aos
conflitos	de	Caio	e	Tício,	para	passar	a	pensar	e	a	se	nortear,	cada	vez	mais,	por
uma	 visão	 geral	 da	 sociedade.	 Outro	 elemento	 fundamental	 é	 que	 o	 Poder
Judiciário	 passa	 a	 se	 preocupar	 mais	 e	 a	 atuar,	 como	 visto	 na	 gênese	 do
Musterverfahren	 alemão,	 também	 a	 partir	 de	 técnicas	 de	 gestão,	 levando-o
inevitavelmente	a	soluções	mais	inteligentes,	eficazes	e	eficientes	em	termos	de
prestação	 jurisdicional.	 Dentro	 deste	 novo	 contexto	 é	 que	 surge,	 e	 deve	 ser
interpretado,	o	novo	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas	(IRDR).
A	ANÁLISE	FORMAL	DO	IRDR
O	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas,	como	a	denominação	já
indica,	 não	 se	 trata	 de	 uma	 demanda	 individual	 ou	 coletiva,	mas,	 sim,	 de	 um
incidente	processual.	Cândido	Rangel	Dinamarco	e	Bruno	Vasconcelos	Carrilho
Lopes	definem,	com	precisão,	o	conceito	de	incidente	processual:
“Incidente	processual.	Conjunto	de	atos	 formalmente	coordenados	a
serem	 realizados	 no	 curso	 do	processo.	É	um	pequeno	procedimento
inserido	no	contexto	do	procedimento	maior.	Exemplos	típicos	são	os
incidentes	de	desconsideração	da	personalidade	jurídica	e	de	arguição
de	inconstitucionalidade”.6
Mas,	 mesmo	 como	 incidente	 processual,	 possui	 peculiaridades
significativas.
A	 primeira	 peculiaridade	 é	 que,	 normalmente,	 os	 incidentes	 processuais,
como	 por	 exemplo	 o	 incidente	 decorrente	 da	 controvérsia	 quanto	 à
admissibilidade	 da	 assistência7;	 de	 desconsideração	 da	 personalidade	 jurídica8;
de	 impedimento	 ou	 suspeição9;	 de	 arguição	 de	 falsidade	 de	 documento10;	 de
remoção11;	 para	 indenizações	 decorrentes	 de	 atos	 processuais,	 como	 a	 prevista
no	§	5º	do	art.	828	do	CPC;	de	assunção	de	competência	ou	mesmo	de	arguição
de	 inconstitucionalidade,	 são	 baseados	 em	 relações	 processuais	 de	 duas	 partes
(autor	e	réu).
Quanto	 ao	 incidente	 de	 assunção	 de	 competência,	 há	 expressa	 disposição
afastando	 a	 admissibilidade	 em	 caso	 de	 repetição	 em	múltiplos	 processos.	No
entanto,	 quanto	 à	 arguição	 de	 inconstitucionalidade,	 bem	 como	 em	 relação	 a
outros,	a	possibilidade	de	o	incidente	ser	representativo	da	controvérsia	existente
em	 vários	 processos	 parece	 ser	 plausível,	 na	 ausência	 de	 regra	 proibitiva.	 Na
arguição	 de	 inconstitucionalidade,	 pelo	 contrário,	 a	 previsão	 contida	 no
parágrafo	 único	 do	 art.	 949,	 quanto	 à	 desnecessidade	 de	 nova	 provocação,
quando	já	houver	pronunciamento	sobre	a	questão,	parece	indicar	claramente	a
possibilidade	 de	 se	 suscitar	 um	 incidente	 representativo	 da	 controvérsia	 de
múltiplos	processos.
Entretanto,	 no	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 o
procedimento	 padrão	 diz	 respeito	 à	 questão	 jurídica	 pertinente	 a	 processos
paralelos12,	nos	quais	figura	sempre	um	número	significativo	de	interessados.	A
metodologia	 é	 inerente	 ao	 procedimento	 estabelecido,	 pois	 haverá	 sempre	 um
interesse	 plúrimo	 em	 relação	 à	 questão	 de	 direito	 a	 ser	 decidida.	 O	 modelo
calcado	em	processos	paralelos	é	algo	relativamente	novo	no	Direito	Processual,
pois	 tradicionalmente	os	processos	e	os	 respectivos	 incidentes	 são	calcados	no
modelo	 da	 dualidade	 de	 partes.	 O	 sistema	 de	 procedimentos	 paralelos	 enseja
uma	 série	 de	 questões	 jurídicas	 processuais	 relacionadas	 a	 este	 novo	modelo,
como	 a	 da	 competência,	 legitimação,	 comunicação	 dos	 interessados,
representação,	 possibilidades	 e	 limites	 para	 a	 intervenção,	 relação	 entre	 o
incidente	 e	 o	 julgamento	 dos	 processos	 paralelos,	 efeito	 vinculativo,	 recursos,
coisa	julgada,	revisão	e	rescisória.
9.3. O	OBJETO	DO	INCIDENTE	DE	RESOLUÇÃO	DE	DEMANDAS
REPETITIVAS
Durante	 o	 processo	 legislativo,	 pode-se	 dizer	 que	 houve,	 de	 certo	 modo,
uma	 controvérsia	 sobre	 a	 concepção	 adotada	 respectivamente	 nas	 versões
aprovadas	no	Senado	Federal	e	na	Câmara	dos	Deputados.	Esta	divergência	foi
marcada	especialmente	pela	abrangência	do	juiz	como	legitimado	e	se	haveria	a
necessidade	de	se	instaurar	o	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas	a
partir	 de	 processos	 que	pudessem	estar	 tramitando	na	 primeira	 instância	 ou	 se
apenas	 quando	 estivessem	 no	 tribunal,	 em	 razão	 de	 competência	 recursal	 ou
originária.	 Esta	 dualidade	 de	 concepções,	 por	 vezes,	 era	 apresentada	 como	 se
fosse	o	próprio	objeto	do	IRDR,	ou	seja,	se	deveria	ser	julgada	apenas	a	questão
jurídica,	com	a	formulação	da	respectiva	tese,	ou	se	também	a	respectiva	causa
em	 concreto.	 Em	 síntese,	 defende-se	 que	 o	 objeto	 do	 incidente	 seja	 (a)	 o
julgamento	apenas	da	questão	jurídica,	com	a	formulação	simplesmente	da	tese
jurídica;	ou	(b)	do	caso	piloto,	portanto	do	respectivo	pedido.
Como	 se	 pode	 constatar	 na	 análise	 do	 processo	 legislativo13,	 o	 Senado
Federal,	 em	 segundo	 turno,	 optou	 expressamente	 pela	 primeira	 concepção,	 ao
excluir	todos	os	dispositivos	inseridos	na	Câmara	dos	Deputados,	que	exigiam	a
presença	prévia	de	processo	em	tramitação	perante	o	tribunal.
A	 redação	 final,	 por	 sua	 vez,	 foi	muito	 clara	 ao	 indicar	 um	procedimento
voltado	para	a	questão	de	direito	controvertida14,	no	qual	o	conteúdo	do	acórdão
abrangerá	 a	 análise	 de	 todos	 os	 fundamentos	 suscitados	 concernentes	 à	 tese
jurídica15	discutida.	Julgado	o	incidente,	a	tese	jurídica16	será	aplicada	a	todos	os
processos	individuais	ou	coletivos	que	versem	sobre	idêntica	questão	de	direito	e
que	 tramitem	 na	 área	 de	 jurisdição	 do	 respectivo	 tribunal17	 (e	 não	 apenas	 no
próprio	 tribunal),	 inclusive	 àqueles	 que	 tramitem	 nos	 juizados	 especiais	 do
respectivo	estado	ou	região,	bem	como	aos	casos	futuros18	que	versem	idênticaquestão	 de	 direito	 e	 que	 venham	 a	 tramitar	 no	 território	 de	 competência	 do
tribunal.	Não	observada,	naturalmente	por	outro	órgão,	a	tese	jurídica	adotada	no
incidente19,	caberá	reclamação.	Se	o	incidente	tiver	por	objeto	questão	relativa	à
prestação	 de	 serviço	 concedido,	 permitido	 ou	 autorizado,	 será	 comunicado	 ao
órgão,	ao	ente	ou	à	agência	 reguladora	competente	para	 fiscalização	da	efetiva
aplicação,	por	parte	dos	entes	 sujeitos	à	 regulação,	da	tese	adotada20.	 Por	 sua
vez,	 o	 art.	 986	 indica	 a	 possibilidade	 da	 revisão	 da	 tese	 jurídica	 firmada	 no
incidente.	 E,	 por	 fim,	 o	 art.	 987,	menciona	 que	 do	 julgamento	 do	mérito	 do
incidente,	 e	 não	 do	 posterior	 julgamento	 de	 processos	 ou	 recursos,	 caberá
recurso	extraordinário	ou	especial,	conforme	o	caso.
Entretanto,	 neste	 momento,	 por	 razões	 metodológicas,	 não	 se	 pretende	 o
prolongamento	desta	discussão	dentro	deste	tópico,	ou	seja,	da	sua	natureza.	Isso
porque	 o	 debate	 pertinente	 ao	 julgamento	 da	 causa	 originária,	 ou	 das	 causas
originárias,	 ou	 não	 pelo	 tribunal,	 ou	 melhor,	 pelo	 mesmo	 órgão,	 e
concomitantemente	 com	 o	 incidente,	 na	 verdade	 não	 diz	 respeito	 à	 natureza,
propriamente	 dita,	 do	 incidente.	 Isso	 porque,	 no	 ordenamento	 brasileiro,	 está
muito	nítido	que	o	objeto	do	incidente	é	a	questão	jurídica,	com	a	formulação
de	 uma	 tese	 jurídica	 A	 controvérsia,	 sim,	 parece	 residir	 em	 relação	 aos
pressupostos	 para	 o	 cabimento	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas
Repetitivas,	ou	seja,	se	deve	haver,	necessariamente,	processo	em	tramitação	no
tribunal,	para	que	esteja,	digamos,	firmada	a	competência	para	o	julgamento	do
incidente	(segundo	a	posição	restritiva)	ou	que	se	poderia	suscitar	o	julgamento	a
partir	de	processos	em	tramitação	no	primeiro	ou	no	segundo	grau	(posição	não
restritiva).
A	discussão	acima,	sobre	o	pressuposto21,	tem	sido	aglutinada	com	o	debate
subsequente	 ao	 julgamento	 do	 IRDR,	 ou	 seja,	 quanto	 à	 constitucionalidade,
formal	 e	 material,	 do	 parágrafo	 único	 do	 art.	 978,	 no	 sentido	 de	 atribuir	 ao
mesmo	 órgão,	 que	 efetua	 a	 apreciação	 do	 incidente,	 com	 a	 fixação	 da	 tese
jurídica,	 a	 competência	para	 julgar	 igualmente	o	 recurso,	 a	 remessa	necessária
ou	o	processo	de	competência	originária	de	onde	se	originou	o	incidente.
A	 segunda	 questão,	 pelo	menos	 em	 tese,	 não	 representa	 uma	 decorrência
lógica	 e	necessária	da	primeira.	Ad	argumentandum	 apenas,	 pode-se	 conceber,
por	 exemplo,	 que	 a	 causa	 em	 tramitação	 no	 tribunal	 seja	 um	 pressuposto,
indispensável,	 por	 exemplo,	 para	 a	 fixação	 da	 competência	 do	 tribunal	 para	 o
incidente	(posição	que	não	será,	em	princípio,	a	adotada	neste	texto).	Mas,	isso
1
2
3
4
5
6
7
não	 significa	 que	 o	 mesmo	 órgão	 interno	 tenha	 que	 julgar	 o	 incidente	 e	 o
processo	em	tramitação	no	tribunal,	se	admitida	a	inconstitucionalidade,	formal
ou	material	do	art.	978	do	Código	de	Processo	Civil.	Do	mesmo	modo,	pode-se
não	admitir	a	tramitação	da	causa	no	tribunal	como	pressuposto,	mas,	por	outro
lado,	se	entender	que	a	 regra	prevista	no	parágrafo	único	do	art.	 978	 seja	uma
norma	 de	 prevenção,	 bem	 como	 que	 não	 tenha	 ocorrido	 qualquer	 violação
formal	 ou	 material.	 Portanto,	 embora	 paralelas	 e	 relacionadas,	 as	 duas
indagações	devem	ser	apreciadas	ao	seu	devido	tempo	e	modo.
Por	 tudo	 isso	e	apenas	para	se	elucidar,	preliminarmente,	o	devido	 lugar	e
tempo	para	a	análise	das	questões,	ou	seja,	dos	requisitos	e	da	competência	para
a	 apreciação	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas,	 é	 que	 se
redigiram	as	linhas	acima,	a	título	de	tentativa	de	saneamento,	para	que	se	possa
tornar	 ainda	 mais	 profícua	 a	 análise	 das	 controvérsias	 mencionadas,	 valendo
indagar	se	estas	próprias	questões	acima	ventiladas	não	poderiam	ser	objeto	de
IRDR.
O	autor	pode	discorrer	mais	 longamente	sobre	a	 jurisdição	em	MENDES,
Aluisio	 Gonçalves	 de	 Castro.	Teoria	 Geral	 do	 Processo.	 Rio	 de	 Janeiro:
Lumen	Juris,	2009.
CHIOVENDA,	 Giuseppe.	 Instituições,	 2.	 ed.,	 v.	 II,	 p.	 11.	 Trad.	 J.
Guimarães	Menegale.	Notas	de	Enrico	Tullio	Liebman.	São	Paulo:	Saraiva,
1943.
Supremo	 Tribunal	 Federal,	 quando	 relacionada	 com	 a	 Constituição	 da
República,	 e	 do	 respectivo	 Tribunal	 de	 Justiça,	 quando	 pertinente	 à
Constituição	do	Estado.
Art.	5º,	inciso	LXXI,	da	Constituição	da	República.
Art.	114,	§	2º,	da	Carta	Magna.
DINAMARCO,	 Cândido	 Rangel;	 LOPES,	 Bruno	 Vasconcelos	 Carrilho.
Teoria	 Geral	 do	 novo	 Processo	 Civil:	 de	 acordo	 com	 a	 Lei	 13.256,	 de
4.2.2016.	São	Paulo:	Malheiros,	2016,	p.	242.
Art.	120,	parágrafo	único,	do	CPC.
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21
Art.	133	e	seguintes	do	CPC.
Arts.	146,	§§	1º,	2º	e	3º,	e	148	do	CPC.
Art.	436,	inciso	III,	do	CPC.
Art.	623,	parágrafo	único,	do	CPC.
Sobre	a	discussão	em	torno	da	bipartição	entre	processos	com	dualidade	de
partes	e	o	da	vinculação	de	procedimentos	paralelos,	vide	HESS,	Burkhard;
REUSCHLE,	Fabian;	RIMMELSPACHER,	Bruno.	Kölner	Kommentar	zum
KapMuG:	 Gesetz	 über	 Musterverfahren	 in	 kapitalmarktrechlichen
Streitigkeiten	 (Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz	 –	 KapMuG),	 2.
Auflage,	Köln:	Carl	Heymanns,	2014,	p.	22.
Conforme	 anteriormente	 mencionado,	 no	 capítulo	 sobre	 a	 genealogia	 do
incidente.
Art.	983	do	CPC.	Grifos	nossos.
Art.	984,	§	2º,	do	CPC.
Art.	985,	caput,	do	CPC.
Art.	985,	inciso	I,	do	CPC.
Art.	985,	inciso	II,	do	CPC.
Art.	985,	§	1º,	do	CPC.
Art.	985,	§	2º,	do	CPC.
A	 utilização	 do	 termo	 pressuposto	 será	 oportunamente	 enfrentada.	 Mas,
desde	 logo,	 justifica-se	 a	 opção,	 por	 se	 entender	 que	 os	 requisitos	 estão
relacionados	 abstratamente	 aos	processos	 em	geral	 e	 não	 às	 condições	da
ação,	na	medida	em	que	a	existência	ou	não	de	processo	em	tramitação	no
tribunal	como	condição	sine	qua	non	independe	da	aferição	em	concreto	de
elementos	como	as	partes,	o	pedido	ou	a	causa	de	pedir.	Nesta	direção,	vide
a	 definição	 de	 pressupostos	 processuais	 em	 DINAMARCO,	 Cândido
Rangel;	 LOPES,	 Bruno	 Vasconcelos	 Carrilho.	 Teoria	 Geral	 do	 novo
Processo	Civil:	de	acordo	com	a	Lei	13.256,	de	4.2.2016,	p.	251.
10.1.
10.1.1.
Capítulo	10
CABIMENTO	E	REQUISITOS	PARA	O
INCIDENTE	DE	RESOLUÇÃO	DE	DEMANDAS
REPETITIVAS
O	incidente	de	resolução	de	demandas	repetitivas	exige	o	risco	de	ofensa	à
isonomia	 e	 à	 segurança	 jurídica,	 diante	 da	 efetiva	 repetição	 de	 processos	 que
contenham	 controvérsia	 sobre	 a	 mesma	 questão	 unicamente	 de	 direito.	 São
requisitos	 cumulativos.	 Há	 ainda	 divergência	 quanto	 à	 existência	 de	 outro
requisito,	 que	 seria	 a	 necessidade	 de	 pendência	 de	 processos	 relacionados	 à
questão	jurídica	objeto	do	IRDR	no	tribunal	perante	o	qual	tramitará	o	incidente.
Estes	tópicos	serão	analisados	separadamente	nos	itens	seguintes.
EFETIVA	REPETIÇÃO	DE	PROCESSOS	QUE	CONTENHAM
CONTROVÉRSIA	SOBRE	QUESTÃO	COMUM	DE	DIREITO
Em	 síntese,	 havendo	 efetiva	 repetição	 de	 processos	 que	 contenham
controvérsia	 sobre	 questão	 comum	 de	 direito,	 de	 ofício	 ou	 a	 requerimento,
poderá	 ser	 suscitado	 o	 incidente,	 que	 será	 apreciado,	 em	 termos	 de
admissibilidade	 e	 mérito,	 pelo	 tribunal	 de	 segundo	 grau,	 com	 a	 suspensão	 de
todos	os	processos	na	área	do	tribunal	que	dependam	da	resolução	da	questão	de
direito.
A	efetiva	repetição	de	processos
O	 primeiro	 elemento	 objetivo,	 portanto,	 é	 a	 existência	 de	 certo	 número
significativo	de	processos	 (repetição	de	processos).	O	 legislador	brasileiro	não
fixou	 um	 número	 mínimo.	 No	 direito	 alemão1,	 o	 procedimento	 modelo
(Musterverfahren),	 no	 âmbito	 administrativo,	 fixou	 inicialmente2	 o	 número
mínimo	de	51	(superior	a	50).	Em	seguida,	no	ano	de	1996,	houve	mudança,	que
entrou	em	vigor	a	partir	de	01.01.1997,	estabelecendo	que	o	número	deveria	ser
superior	a	20	processos,	questionando	a	mesma	medida	administrativa.
O	 referenciallegal	 alemão	 para	 a	 Justiça	 Administrativa	 pode	 ser
considerado	uma	base,	mas	mesmo	nos	casos	práticos	a	quantidade	de	litígios	foi
significativamente	maior.	No	primeiro,	antes	mesmo	da	introdução	na	lei,	foram
5.724.	Em	outros	casos,	o	patamar	foi	sempre	elevado	de	demandas,	como	nos
questionamentos	 relacionados	 ao	 aeroporto	 de	 Leipzig/Halle,	 no	 ano	 de	 2004
(5.700	processos),	do	aeroporto	de	Berlin-Schönefeld,	 também	em	2004	(4.000
demandas	individuais)	e	ao	aeroporto	de	Frankfurt	am	Main,	em	2008	(mais	de
200	processos)3.
A	norma	prevê	que	o	 tribunal	poderá,	 inicialmente,	conduzir	um	ou	vários
procedimentos-modelo.	Portanto,	não	basta	o	número	mínimo.	No	caso	do	plano
de	 transporte	 de	 Kassel,	 foram	 instaurados	 70	 processos.	 Entretanto,	 o	 órgão
judicial	entendeu	que	o	Musterverfahren	não	seria	necessário	e	conveniente	para
a	 solução	 dos	 casos,	 tendo	 indeferido	 o	 processamento	 piloto.	Houve	 recurso,
tendo	o	Tribunal	Superior	da	Justiça	Administrativa	negado	provimento4.
É	 de	 se	 registrar	 certa	 semelhança	 quanto	 ao	 juízo	 feito	 pelos	 tribunais
administrativos	alemães,	com	o	requisito	construído	no	direito	norte-americano,
em	relação	às	class	actions,	no	sentido	da	predominância	das	questões	comuns	e
da	superioridade	do	instrumento	processual	coletivo.	É	uma	análise	prática,	mas
calcada	nos	princípios	do	acesso	à	justiça	e	da	duração	razoável	do	processo,	que
devem	 conduzir,	 em	 síntese,	 ao	 meio	 mais	 adequado	 para	 a	 prestação
jurisdicional.	 Esta	 aferição	 do	 instrumento	 mais	 eficiente	 também	 se	 faz
frequente,	de	modo	geral,	nas	Civil	Procedure	Rules,	da	Inglaterra	e	do	país	de
Gales5.
Na	 esfera	 do	 Musterverfahren	 do	 mercado	 mobiliário,	 o	 legislador	 não
estabeleceu	 na	 KapMuG6	 uma	 quantidade	 mínima	 de	 processos,	 mas,	 sim,	 o
10.1.2.
número	 mínimo	 de	 10	 (dez)	 requerimentos	 de	 instauração	 do	 procedimento-
modelo.	Portanto,	pressupõe-se	que	haja	um	montante	maior	de	processos.
No	direito	brasileiro,	 não	 se	 exigiu	um	número	mínimo	de	 requerimentos.
Pelo	contrário,	se	permitiu	que	houvesse	a	provocação	até	mesmo	de	ofício,	pelo
juiz	ou	pelo	 relator.	Portanto,	o	 importante	é	que	haja	um	número	 suficiente	a
tornar	conveniente	a	utilização	do	incidente.	Nesse	sentido,	parece	que	o	direito
brasileiro	pode	e	deve,	neste	aspecto,	 se	socorrer	dos	critérios	que	norteiam	as
class	 actions	 norte-americanas	 e	 também	 o	Musterverfahren	 da	 jurisdição	 no
âmbito	administrativo,	que	apontam	para	uma	análise	pragmática	em	termos	de
superioridade	 do	 instrumento	 coletivo	 para	 que	 ocorra	 uma	 melhor	 prestação
jurisdicional.	 Os	 norte-americanos	 falam	 em	 predominância	 das	 questões
comuns	e	superioridade	das	class	actions.	De	modo	análogo,	deve	se	analisar	o
Incidente	de	Repetição	de	Demandas	Repetitivas,	ou	seja,	quanto	à	capacidade
deste	 instrumento	 para	 ser,	 de	 fato,	 o	 mecanismo	 processual	 mais	 adequado
diante	do	contexto.	Portanto,	se	a	efetiva	repetição	de	processos,	que	dependam
da	 resolução	 da	 questão	 controversa,	 não	 for	 efetivamente	 significativa	 em
termos	numéricos,	 o	 resultado	obtido	poderá	não	 ser	 tão	 relevante,	 a	 ponto	de
compensar	as	mudanças	processuais	decorrentes,	especialmente	a	suspensão	dos
processos	e	o	procedimento	especial	estabelecido	nos	tribunais.
Nesse	 sentido,	 deve-se	 levar	 em	 conta	 não	 apenas	 o	 número	 existente	 de
processos	em	um	determinado	órgão	jurisdicional,	mas	também	em	outros	e	até
mesmo	 quanto	 à	 potencial	 multiplicação	 de	 novos	 casos	 futuros,	 embora	 seja
necessária,	no	momento	da	provocação,	uma	efetiva	repetição	de	processos.
A	questão	unicamente	(rectius	comum)	de	direito
Estar-se-á	 diante	 de	 questão	 de	 direito,	 que	 poderá	 ser	 material	 ou
processual.	A	identidade	apenas	fática	não	autoriza,	ao	contrário	do	que	ocorre
no	regime	alemão,	a	instauração	do	incidente	brasileiro.	Por	outro	lado,	o	texto
legal	 (inciso	 I	 do	 art.	 976)	 utiliza-se	 da	 expressão	 “unicamente	 de	 direito”.	O
objetivo	do	legislador	foi	ressaltar	que	apenas	as	questões	de	direito	poderão	ser
definidas	no	incidente.
As	 questões	 de	 fato,	 que	 poderão	 ou	 não	 guardar	 também	 identidade,
embora	 possam	 ser	 admitidas	 como	 passíveis	 de	 apreciação	 concentrada	 em
outros	ordenamentos,	como	no	Musterverfahren	alemão,	não	foram	concebidas
dentro	 do	 objeto	 de	 apreciação	 no	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas
Repetitivas,	segundo	a	previsão	expressa	do	Código	de	Processo	Civil.	Isso	não
significa,	 contudo,	 que,	 para	 a	 resolução	 dos	 casos	 concretos,	 não	 haja	 a
necessidade	de	aferição,	e	eventual	produção	de	prova,	em	relação	às	questões
fáticas.	Mas,	 esta	 análise,	 segundo	 o	 sistema	 brasileiro	 concebido,	 deverá	 ser
feita	em	momento	posterior	e	de	modo	individualizado	em	cada	processo.
É	 de	 se	 indagar,	 contudo,	 se	 a	 opção	 quanto	 à	 impossibilidade	 de	 análise
concentrada	 da	 questão	 fática,	 desde	 que	 comum,	 naturalmente,	 teria	 sido	 a
melhor.	É	claro	que	o	procedimento	modelo	se	tornaria	mais	complexo	e	haveria
as	 dificuldades	 decorrentes	 de	 uma	 eventual	 produção	 de	 prova,	 considerando
que	o	 incidente,	no	Brasil,	 seria	 admitido	e	processado	perante	os	 tribunais	de
segundo	 grau.	 Mas,	 ainda	 assim,	 soluções	 poderiam	 ser	 concebidas,	 como	 às
hipóteses	 em	 que	 houvesse	 apenas	 prova	 documental	 ou	 ainda	 que	 a	 prova
pudesse	 ser	produzida	perante	o	órgão	de	primeiro	grau.	Entretanto,	há	que	 se
convir	que	a	falta	de	experiência	quanto	ao	procedimento	fracionado	do	IRDR,
com	a	limitação	à	questão	jurídica,	talvez	o	torne	de	mais	fácil	absorção,	como
uma	primeira	experiência,	deixando-se	para	um	momento	posterior,	se	positiva	a
experiência,	a	ampliação	do	seu	objeto.	Portanto,	melhor	um	passo	seguro,	ainda
que	 limitado	quanto	 ao	 alcance,	 do	que	uma	entrada	 abrupta	 em	 terreno	 ainda
não	conhecido	e	sedimentado.
O	incidente	poderá	ser	suscitado	em	relação	às	questões	de	direito	material
ou	processual.	Do	mesmo	modo,	poderão	ser	questões	preliminares,	prejudiciais
ou	 posteriores	 ao	 mérito.	 O	 Código	 de	 Processo	 Civil	 não	 exigiu	 que	 fosse
pertinente	ao	mérito	do	pedido	formulado	na	demanda.	Poderá,	portanto,	ser	uma
questão	 prejudicial	 ao	mérito	 (constitucionalidade	 ou	 legalidade	 de	 um	 tributo
criado	 ou	 majorado,	 por	 exemplo)	 ou	 mesmo	 decorrente	 dele	 (como	 a
divergência	 estabelecida	 sobre	 uma	 regra	 pertinente	 à	 fixação	 de	 honorários
advocatícios	de	sucumbência),	mas	 também	uma	questão	processual	preliminar
ao	mérito	 ou	 posterior	 a	 ele,	 como,	 por	 exemplo,	 a	 controvérsia	 relacionada	 à
10.2.
competência	 para	 o	 julgamento	 ou	 pertinente	 ao	 cumprimento	 da	 sentença,
respectivamente.	 Em	 sendo	 assim,	 como	 já	 mencionado	 anteriormente,	 o
incidente	 não	 está	 limitado	 aos	 denominados	 direitos	 individuais	 homogêneos.
Entretanto,	 como	 a	 própria	 denominação	 do	 instituto	 indica,	 as	 demandas
repetitivas,	que	têm	por	base	especialmente	os	direitos	individuais	homogêneos,
são	uma	parte	fundamental	no	espectro	de	abrangência	do	novel	instrumento.
Registre-se	ainda	que,	embora	a	norma	mencione	a	singularidade	da	questão
jurídica,	o	incidente	pode,	e	deve,	dependendo	do	contexto,	reunir	mais	de	uma
questão	 jurídica,	 quando	 se	 fizer	 necessário	 para	 a	 elucidação	 dos	 processos
pendentes.	Esta	foi	uma	preocupação	que	norteou,	praticamente	desde	o	início,	o
Musterverfahren	 alemão,	 no	 sentido	 de	 que	 os	 casos	 escolhidos	 como	modelo
reunissem	 as	 questões	 e	 argumentos	 de	 modo	 representativo,	 de	 modo	 a
possibilitar,	em	seguida	e	a	partir	destes	julgamentos	paradigmáticos,	a	solução
de	 todos	 os	 casos	 pendentes,	 ainda	 que	 as	 alegações	 e	 questões	 não	 estejam
integralmente	 presentes	 em	 todos	 os	 processos.	 É	 o	 que	 vem	 se	 buscando
também	 nos	 recursos	 representativos,	 mediante	 o	 comando	 estabelecido
especialmente	nos	§§	1º,	4º,	5º	e	6º	do	art.	1.036,complementado	pelo	inciso	III
do	art.	1.037,	do	Código	de	Processo	Civil.
Parece	 ser	 possível	 também,	 a	 título	 de	 técnica	 aplicável,	 a	 utilização	 de
subclasses,	como	praticado	no	direito	coletivo	norte	americano.	Desse	modo,	se
há	 questões	 comuns	 relacionadas,	 mas	 que	 podem	 ser	 metodologicamente
separadas,	 com	 o	 objetivo	 de	 facilitar	 o	 julgamento	 do	 incidente	 ou	 dos
processos	pendentes,	realiza-se	a	divisão	das	questões	em	subgrupos,	o	que	pode
contribuir	 também	para	 a	melhor	 delimitação	das	 teses	 e	 a	 posterior	 aplicação
aos	casos	concretos,	nos	processos	suspensos.
RISCO	DE	OFENSA	À	ISONOMIA	E	À	SEGURANÇA	JURÍDICA
O	segundo	requisito,	disposto	no	art.	976,	inciso	II,	do	Código	de	Processo
Civil,	é	que	haja	risco	de	ofensa	à	isonomia	e	à	segurança	jurídica.	Pode-se	falar
aqui	em	risco	concreto	e	não	abstrato.	A	simples	existência	de	vários	processos
em	 tramitação	 perante	 órgãos	 judiciais	 já	 potencializaria	 um	 risco	 eventual	 de
10.3.
que	 fossem	 decididos	 de	 modo	 diverso,	 havendo,	 em	 tese,	 a	 possibilidade	 de
quebra	da	isonomia	e	da	segurança	jurídica.	No	entanto,	se	assim	fosse,	bastaria,
na	verdade,	o	primeiro	requisito,	indicado	no	inciso	I,	do	art.	976,	do	CPC.
Não	basta,	portanto,	que	haja	a	controvérsia	entre	partes,	mas	que	esta	esteja
efetivamente	 ensejando	 divergência	 no	 seio	 do	 Poder	 Judiciário,	 capaz	 de
comprometer,	 de	 fato,	 o	 princípio	 da	 isonomia	 e	 da	 segurança	 jurídica.	E	 este
risco	 deve	 ser	 atual,	 como	 por	 exemplo	 alguns	 juízes	 começam	 a	 conceder	 e
outros	a	negar	a	concessão	de	liminares	ou	de	antecipação	de	tutela.	Do	mesmo
modo,	se	alguns	magistrados	estiverem	julgando	procedente	o	pedido,	enquanto
outros	 improcedente.	Entretanto,	 se	 a	questão	 já	 se	 encontra	pacificada,	 com	a
observância	da	 tese,	mesmo	que	em	razão	de	eficácia	meramente	persuasiva,	a
existência	de	divergência	passada,	ainda	que	este	posicionamento	continue	a	ser
apenas	ressalvado,	de	modo	isolado,	por	um	único	ou	poucos	magistrados,	não
enseja	 o	 IRDR,	 se	 estes	 votos	 ou	 manifestações	 não	 estiverem	 produzindo
resultados	 negativos	 em	 concreto,	 por	 serem	quantitativamente	 insignificantes,
isolados	ou	não	estejam	sendo	reiterados	na	atualidade7.	Contudo,	se	o	problema
ainda	 é	 contemporâneo,	 na	 medida	 em	 que	 ainda	 haja	 a	 efetiva	 repetição	 de
processos	 e	 decisões	 proferidas	 em	 contraposição	 ao	 entendimento
predominante,	 com	 a	 capacidade	 de	 reiteração,	 haverá	 interesse	 (necessidade-
utilidade)	 na	 instauração	 do	 incidente,	 considerando-se	 o	 efeito	 vinculativo	 da
decisão	proferida	no	IRDR.
Se	 a	 questão	 jurídica	 já	 tiver	 sido	 resolvida	 com	 a	 atribuição	 de	 efeito
vinculativo	perante	os	órgãos	judiciais	envolvidos,	como	nas	hipóteses	previstas
no	 art.	 927	 do	Código	 de	Processo	Civil,	 não	 haverá	 também	 interesse	 para	 a
provocação	 do	 IRDR,	 pois,	 se	 houver	 a	 aplicação	 da	 tese,	 se	 estará	 diante	 da
possibilidade	de	interposição	do	respectivo	recurso	ou	de	reclamação,	conforme
o	caso.	Entretanto,	se	o	efeito	vinculativo	não	atinge	apenas	outros	órgãos,	como
na	 hipótese	 de	 IRDR	 apreciado	 por	 outro	 tribunal	 regional	 ou	 estadual,	 o
interesse	 existirá,	 se	 ainda	 não	 interposto	 recurso	 especial	 ou	 extraordinário
repetitivo.
REQUISITO	NEGATIVO:	QUE	A	QUESTÃO	JURÍDICA	NÃO
ESTEJA	AFETADA	EM	RECURSO	ESPECIAL	OU
EXTRAORDINÁRIO	REPETITIVO
O	 terceiro	 requisito	 expresso	no	§	4º,	 do	 art.	 976,	 do	Código	de	Processo
Civil,	é	o	da	inexistência	de	recurso,	especial	ou	extraordinário,	repetitivo,	sobre
a	 mesma	 questão	 jurídica,	 já	 afetado	 por	 tribunal	 superior	 e	 pendente	 de
julgamento.	 A	 razão	 é	 a	 falta	 de	 interesse,	 pois	 a	 questão	 de	 direito,	 nesta
hipótese,	já	será	resolvida,	em	grau	superior	e	com	efeito	vinculativo	em	âmbito
nacional.	Portanto,	 não	 faz	 sentido	que	 concorram,	 em	paralelo,	 o	 instrumento
regional	 ou	 estadual	 com	 o	 mecanismo	 nacional,	 que	 deveria,	 naturalmente,
prevalecer.
A	 norma	 expressa	menciona	 apenas	 a	 afetação,	mas	 se	 deve	 exigir	 que	 a
questão	ainda	esteja	pendente	de	resolução.	Isso	porque,	se	já	julgado	o	recurso
repetitivo,	com	a	apreciação	da	questão	jurídica,	a	tese	firmada	terá,	com	base	no
art.	927,	inciso	III,	in	fine,	efeito	vinculativo	sobre	os	órgãos	judiciais	em	todo	o
território	nacional.	Portanto,	o	desejo	de	suscitar	o	IRDR	esbarrará	no	requisito
indicado	no	requisito	anterior,	pois	não	haverá	mais	o	risco	de	ofensa	à	isonomia
e	à	segurança	jurídica,	porque	pacificada	a	questão.	A	eventual	inobservância	da
tese	deverá	 ser	 corrigida	pelas	vias	ordinárias	ou	mediante	 a	 apelação.	Não	 se
trata	mais,	por	isso,	de	se	iniciar	um	procedimento	com	o	objetivo	de	se	produzir
a	uniformização	da	jurisprudência,	com	a	fixação	de	tese	que	já	fora	firmada.
Por	outro	 lado,	 é	 importante	 também	afirmar	que	os	 recursos	especiais	ou
extraordinários	afetados	à	sistemática	repetitiva	poderão,	posteriormente,	perder
esta	qualidade,	sendo	desafetados,	ou	sequer	ser	conhecidos	(como	na	hipótese
de	não	reconhecimento	da	repercussão	geral8).	Em	assim	sendo,	o	Incidente	de
Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 não	 encontrará	 mais	 óbice	 para	 a
instauração.
A	 afetação	 da	 questão	 jurídica	 a	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demanda
Repetitiva	perante	outro	tribunal	de	segundo	grau,	independentemente	se	federal
ou	estadual,	não	impede,	em	princípio,	a	provocação	de	novos	IRDRs.	Ressalte-
se,	 entretanto,	que	a	provocação	de	novos	 incidentes	 será	possível	 apenas	se	 e
enquanto	 não	 houver	 a	 determinação	 de	 suspensão	 de	 todos	 os	 processos
10.4.
10.4.1.
individuais	 e	 coletivos	 em	 curso	 no	 território	 nacional	 que	 versem	 sobre	 a
questão	objeto	do	incidente,	nos	termos	do	§	3º	do	art.	982	do	CPC.	A	suspensão
dos	 processos	 representará	 a	 sustação	 de	 todos	 os	 atos	 processuais	 que	 não	 se
enquadrem	no	âmbito	da	tutela	de	urgência,	inclusive	dos	respectivos	incidentes.
A	medida	de	suspensão	nacional	tem	exatamente	o	escopo	de	proporcionar	ainda
maior	economia	e	concentração	na	resolução	da	questão	jurídica,	evitando-se	a
proliferação	de	inúmeros	incidentes	com	o	mesmo	objeto.
A	CONTROVÉRSIA	EM	TORNO	DA	EXIGÊNCIA	DE	QUE	O
INCIDENTE	TENHA	COMO	BASE	APENAS	PROCESSOS	JÁ
EM	TRAMITAÇÃO	NO	TRIBUNAL
Como	 mencionado	 anteriormente9,	 no	 decorrer	 do	 processo	 legislativo,
ficaram	caracterizadas	duas	nítidas	concepções	sobre	a	moldura	de	instituto	que
se	 pretendia	 construir,	 que	 correspondiam	 aos	 textos	 aprovados	 no	 Senado
Federal	e	na	Câmara	dos	Deputados.	Em	síntese,	a	concepção	que	predominou
no	Senado,	tanto	na	versão	aprovada	em	primeiro	turno,	quanto	na	redação	final,
foi	 no	 sentido	 de	 que	 o	 incidente	 poderia	 ser	 provocado	 quando	 houvesse
processos	 em	 primeira	 instância	 ou	 no	 tribunal,	 razão	 pela	 qual	 o	 incidente
poderia	ser	suscitado	tanto	pelo	juiz	de	primeiro	grau	quanto	pelo	relator,	assim
como	 pelas	 partes,	 pelo	 Ministério	 Público	 e	 pela	 Defensoria	 Pública.	 No
Substitutivo	da	Câmara	dos	Deputados,	no	entanto,	constavam	dispositivos	que
expressamente	mencionavam	a	exigência	de	que,	para	ser	suscitado,	o	incidente
deveria	tomar	como	base	processos	que	já	estivessem	em	tramitação	no	tribunal
de	 segundo	 grau	 e,	 por	 isso,	 o	 IRDR	 não	 poderia	 ser	 provocado	 pelo	 juiz	 de
primeiro	grau.	Não	obstante	a	clara	manifestação	a	respeito,	no	parecer	final	que
norteou	 o	 texto	 aprovado	 em	 última	 versão	 no	 Senado	 Federal,	 que	 foi
sancionado	e	publicado,	a	controvérsia	ainda	persiste.	Por	certo,	as	duas	posições
encontram-se	 embasadas	 em	 fundamentos	 jurídicos	 sólidos	 e	 serão	 a	 seguir
expostas.
A	posição	de	que	o	incidente	somente	pode	ser	suscitado	na
pendência	de	causa	no	tribunal
O	entendimento,	no	sentido	de	que	o	Incidente	de	Resolução	de	Demandas
Repetitivas	somente	poderá	ser	suscitado	com	lastro	em	processos	que	já	estejam
tramitando	no	tribunal,	possui,	emtermos	de	fundamento,	algumas	nuances,	que
serão	expostas	a	seguir,	de	modo	separado,	por	razões	metodológicas.
a)	 Competência	 dos	 tribunais	 de	 segundo	 grau	 fixada
constitucionalmente
O	primeiro	 argumento	 seria	 de	 que	 os	 tribunais	 de	 segundo	grau	 teriam	 a
sua	 competência	 fixada	 em	 normas	 constitucionais,	 ou	 seja,	 no	 art.	 108	 da
Constituição	 da	 República,	 para	 os	 Tribunais	 Regionais	 Federais,	 e	 nas
Constituições	Estaduais,	por	força	da	determinação	contida	no	§	1º	do	art.	125	da
Magna	Carta.	Portanto,	o	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas,	ou
cláusula	 geral	 que	 pudesse	 abarcar	 esta	 possibilidade,	 deveria	 estar
expressamente	arrolado	nos	respectivos	textos	constitucionais.
Invoca-se	 ainda	 que	 a	 natureza	 incidental	 não	 afastaria	 a	 necessidade	 de
previsão	 constitucional	 expressa,	 pois	mesmo	nestas	 hipóteses	 a	Carta	 Federal
teve	a	preocupação	de	arrolar	a	competência	dos	tribunais,	como	nos	conflitos	de
competência	entre	juízes,	cuja	competência	para	os	TRFs	foi	fixada	no	art.	108,
inciso	I,	alínea	e.
Na	falta	de	previsão	expressa,	os	tribunais	somente	poderiam	conhecer	dos
incidentes	pertinentes	a	processos	que	fossem	da	sua	competência	constitucional.
A	tese,	de	fato,	é	sedutora,	tendo	em	vista	o	princípio	consagrado	do	juiz	natural.
Entretanto,	devem	ser	levados	em	consideração	também	outros	aspectos.
Em	primeiro	 lugar,	o	de	que	a	competência	dos	 tribunais	de	segundo	grau
não	 é	 matéria	 constitucional.	 Poderia	 ser	 considerada	 como	 matéria
constitucional,	no	máximo,	a	organização	e	a	competência	do	Supremo	Tribunal
Federal10.
No	âmbito	dos	tribunais	superiores,	nem	todos	possuem	a	discriminação	da
sua	 competência	 na	 Constituição	 da	 República.	 No	 caso	 dos	 Tribunais
Superiores	 do	 Trabalho,	 Eleitoral	 e	 Militar,	 a	 competência	 é	 fixada	 pelo
legislador	infraconstitucional11.	A	competência	do	Superior	Tribunal	de	Justiça,
de	 fato,	 é	 fixada	 na	 Constituição	 da	 República.	 Entretanto,	 o	 legislador	 já
estabeleceu,	mediante	norma	ordinária,	a	ampliação	desta	competência,	fixando
o	 denominado	 Incidente	 de	 Uniformização	 da	 Jurisprudência	 dos	 Juizados
Especiais	 Federais	 (JEFs),	 nos	 termos	 do	 art.	 14,	 §	 4,	 da	 Lei	 nº	 10.259,	 de
12.07.2001.	De	modo	similar,	também	foi	instituído	o	pedido	de	uniformização
de	 interpretação	 de	 lei	 na	 esfera	 dos	 Juizados	 Especiais	 da	 Fazenda	 Pública,
perante	o	 Superior	 Tribunal	 de	 Justiça,	 na	 hipótese	 do	 art.	 18,	 §	 3º,	 da	Lei	 nº
12.153,	 de	 22.12.2009.	 Em	 ambas	 as	 hipóteses,	 os	 respectivos	 incidentes	 não
estavam	previstos	expressamente	no	rol	do	art.	105	da	Constituição	da	República
e	 eram	 suscitados	 a	 partir	 do	 julgamento	 proferido	 por	 outros	 órgãos	 (Turma
Nacional	de	Uniformização	e	Turmas	Estaduais,	respectivamente).	Por	sua	vez,
estes	 incidentes	 não	 foram	 declarados	 inconstitucionais,	 mas,	 pelo	 contrário,
chancelados	 pelo	 Supremo	 Tribunal	 Federal,	 diante	 da	 necessidade	 de	 se
preservar	 a	 segurança	 jurídica	 e	 da	 compatibilidade	 com	 as	 funções	 exercidas
pelo	Superior	Tribunal	de	Justiça,	justificando-se	a	utilização	destes	incidentes	e
da	 própria	 reclamação,	 em	 caráter	 excepcional,	 diante,	 na	 ocasião,	 da
inexistência	de	procedimento	semelhante	no	âmbito	da	Justiça	Estadual12.
Os	Tribunais	Regionais	Federais	possuem,	de	fato,	a	sua	competência	fixada
na	Constituição	da	República,	nos	termos	do	art.	108,	bem	como	os	Tribunais	de
Justiça	nas	respectivas	Constituições	dos	Estados,	conforme	determinação	do	art.
125,	§	1º,	da	Carta	Federal.	Entretanto,	o	art.	108	da	Constituição	da	República
não	 especifica	 todos	 os	 incidentes	 cabíveis	 e	 apreciáveis	 pelos	 TRFs,
concentrando-se	 principalmente	 nas	 causas	 originárias	 e	 nos	 respectivos
recursos,	modelo	que,	em	regra,	é	adotado	também	nas	Constituições	Estaduais.
Por	isso,	efetuou	menção	apenas	ao	conflito	de	competência	entre	juízes	federais
vinculados	ao	Tribunal,	nos	termos	da	alínea	e,	do	inciso	I,	do	art.	108	da	Magna
Carta.
No	entanto,	a	Constituição	Federal,	assim	como,	em	regra,	as	Estaduais,	não
previram,	 dentro	 da	 lista	 de	 competências	 dos	 TRFs	 ou	 dos	 TJs,	 outros
incidentes,	especialmente	o	de	impedimento	ou	suspeição	do	juiz,	ou	mesmo	de
instrumentos	criados	ou	fortalecidos	mais	recentemente,	como	a	reclamação.	No
caso	 da	 recusa,	 pelo	 juiz,	 quanto	 à	 alegação	 de	 impedimento	 ou	 suspeição,	 o
Código	de	Processo	Civil	de	1973	 já	previa	a	 remessa	ao	 tribunal	da	exceção,
para	julgamento,	norma	esta	que	nunca	foi	afastada,	em	razão	dos	fundamentos
agora	 levantados	em	relação	ao	 IRDR.	No	CPC-2015,	o	mecanismo	deixou	de
ser	chamado	de	exceção,	sendo	denominado	expressamente	de	“incidente”.	Mas,
em	linhas	gerais,	seguindo-se	o	procedimento	anterior,	ou	seja,	não	sendo	o	vício
reconhecido	pelo	juiz,	é	remetido	o	incidente	ao	tribunal,	nos	termos	do	art.	146,
§	1º,	parte	final,	que	terá	a	competência	para	processar	e	julgar	o	incidente.
O	 argumento	 formal	 que	 nega	 a	 competência	 dos	 tribunais	 para	 o	 IRDR
parece	 também	 não	 atentar	 para	 a	 existência	 de	 outras	 hipóteses,	 além	 do
incidente	de	impedimento	ou	de	suspeição	do	juiz,	nas	quais,	de	longa	data,	os
tribunais	 de	 segundo	 grau	 passaram	 a	 receber	 atribuições	 delimitadas	 pela
legislação	 infraconstitucional,	 em	 especial	 pelo	 próprio	 Código	 de	 Processo
Civil.	 É	 o	 que	 ocorre,	 por	 exemplo,	 no	 julgamento	 per	 saltum,	 introduzido
inicialmente	 no	 §	 3º	 do	 art.	 515	 do	 CPC-1973,	 a	 partir	 da	 Lei	 nº	 10.352,	 de
26.12.2001,	e	ampliado	no	CPC-2015,	nos	termos	do	art.	1.013,	§§	3º	e	4º.	São
hipóteses	em	que,	a	rigor,	o	tribunal	estará	julgando	o	mérito	da	causa,	sem	que
tenha	havido	o	arrolamento	expresso	deste	procedimento	na	lista	da	competência
fixada	constitucionalmente.
Diga-se,	de	certo	modo,	o	mesmo	em	relação	à	reclamação,	com	a	agravante
(que	deveria	ser	levantada	pelos	defensores	da	tese	ora	em	comento)	de	que	esta
se	 encontra	 literalmente	 inscrita	 na	 competência	 do	 Supremo	Tribunal	 Federal
(art.	102,	inciso	I,	alínea	l)	e	do	Superior	Tribunal	de	Justiça	(art.	105,	inciso	I,
alínea	 f).	 No	 art.	 108,	 entretanto,	 a	 ausência	 de	 previsão	 literal	 para	 a
competência	dos	Tribunais	Regionais	Federais	não	parece	excluir	este	 tribunal,
bem	 como	 os	Tribunais	 de	 Justiça	 que	 não	 encontrem	 também	 a	 indicação	 da
reclamação	 na	 respectiva	 Constituição	 do	 Estado,	 do	 alcance	 amplo	 da
reclamação	 disciplinada	 nos	 arts.	 988	 a	 993	 do	 Código	 de	 Processo	 Civil	 de
2015.
Há	ainda	que	 se	mencionar	que,	 assim	como	os	 seus	 respectivos	 tribunais
superiores,	 os	 tribunais	 de	 segundo	 grau,	 no	 âmbito	 da	 Justiça	 do	 Trabalho,
Eleitoral	 e	 Militar,	 também	 não	 possuem	 as	 suas	 respectivas	 competências
fixadas	por	norma	constitucional,	o	que	tornaria	o	fundamento	formal	ventilado
desprovido	 de	 abrangência	 mais	 ampla,	 na	 medida	 em	 que	 o	 Incidente	 de
Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 também	 pode	 ser,	 em	 tese,	 desde	 que
preenchidos	 os	 requisitos,	 suscitado	 no	 processo	 trabalhista,	 eleitoral	 e	 penal
(incluindo-se	o	militar).
Ressalte-se	ainda	que	o	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas	é
um	 mecanismo	 processual	 completamente	 novo	 no	 ordenamento	 nacional.
Portanto,	 as	 Constituições,	 Federal	 e	 Estaduais,	 não	 poderiam	 prever	 algo
inexistente	ao	tempo	das	respectivas	promulgações.
Portanto,	o	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas	deve	ser	visto
sob	uma	ótica	mais	ampla	e	menos	formalista,	pois	atende	aos	preceitos	maiores
da	Constituição,	 especialmente	 o	 do	 acesso	 à	 justiça,	 da	 isonomia,	 da	 duração
razoável	 dos	 processos,	 da	 economia	 processual	 e	 da	 segurança	 jurídica.	 As
funções	conferidas	aos	respectivos	órgãos	judiciais,	no	IRDR,	por	sua	vez,	estão
em	 conformidade	 com	 a	 organização	 e	 com	 o	 sistema	 de	 competências
estabelecidos	 na	 Carta	 Magna,	 dentrode	 uma	 concepção	 de	 uniformização
regional	 ou	 estadual	 do	 Direito,	 encontrando	 o	 ápice	 nacional	 nos	 tribunais
superiores.
Longe	 de	 afrontar,	 o	 novel	 incidente	 encontra	 a	 sua	 fonte	 maior	 na
Constituição	 de	 1988,	 considerando	 que	 o	 acesso	 à	 justiça,	 previsto	 no	 inciso
XXV,	 deve	 guardar	 sintonia	 com	 os	 valores	 inscritos	 no	 caput	 do	 art.	 5º,	 a
começar	 pela	 igualdade,	 considerando	 que	 se	 trata	 de	 um	 direito	 não	 apenas
individual,	mas	coletivamente	considerado,	como	enunciado	no	seu	Capítulo	 I,
do	Título	II,	dos	direitos	e	das	garantias	fundamentais.
b)	O	parágrafo	único	do	art.	978	do	Código	de	Processo	Civil
Parte	 da	 doutrina13	 funda	 a	 defesa	 da	 tese	 restritiva,	 no	 sentido	 de	 que	 o
IRDR	somente	poderia	 ser	 suscitado	 se	houvessem	processos	 já	 tramitando	no
tribunal	 e	 apenas	 a	 partir	 destes,	 com	 fulcro	 na	 regra	 enunciada	 no	 parágrafo
único	do	art.	978	do	Código	de	Processo	Civil.	Como	este	dispositivo	estabelece
que	o	órgão	colegiado	incumbido	de	julgar	o	incidente	e	de	fixar	a	tese	jurídica
julgará	igualmente	o	recurso,	a	remessa	necessária	ou	o	processo	de	competência
originária,	 de	 onde	 foi	 suscitado	 o	 IRDR,	 defende-se	 a	 indispensabilidade	 da
presença	destes	no	tribunal,	não	apenas	no	momento	do	julgamento,	mas	da	sua
provocação.
A	 apreciação	 deste	 fundamento	 exige,	 contudo,	 uma	 análise	 da	 norma,
contida	 no	 parágrafo	 único	 do	 art.	 978,	 sob	 dois	 prismas:	 i)	 a	 sua
constitucionalidade,	formal	e	material;	ii)	o	seu	sentido	e	alcance14.
O	parágrafo	único	do	art.	978	já	foi	objeto	de	comentário	inicial,	por	ocasião
da	análise	do	processo	 legislativo,	 ressaltando-se	que	a	 sua	 redação,	 e	 sentido,
não	 se	 faziam	 presentes	 em	 nenhuma	 das	 versões	 aprovadas	 inicialmente	 no
Senado	 Federal	 ou	 na	 Câmara	 dos	 Deputados.	 Portanto,	 estaria	 formalmente
contaminada	pelo	vício	de	inconstitucionalidade,	em	afronta	ao	disposto	no	art.
65	 da	 Magna	 Carta,	 pois	 teria	 havido	 clara	 inovação	 no	 texto	 submetido
unicamente	à	votação	final	e	promulgação.
Em	acréscimo,	 a	 regra	parece	conter	 também	vício	material,	 por	 invadir	 a
competência	 legislativa	 interna	 privativa	 dos	 tribunais,	 para	 dispor	 sobre	 a
competência	 e	 o	 funcionamento	 dos	 respectivos	 órgãos	 jurisdicionais,	 nos
termos	do	art.	96,	inciso	I,	alínea	a,	da	Constituição	da	República.
Por	 último,	 ainda	 que	 a	 norma	 não	 estivesse	 contaminada	 pelos	 vícios
supramencionados,	 restaria	 ainda	a	análise	do	 seu	conteúdo,	 sentido	e	alcance.
Parece	 ser	 evidente	 que	 se	 trata	 de	 uma	 norma	 de	 prevenção,	 provavelmente
motivada	pelo	desejo	de	que	a	aplicação	da	tese	em	concreto	seja	realizada	com
a	devida	fidelidade,	o	que	seria	garantido,	ou	mais	provável,	se	o	mesmo	órgão
judicial	 realizar	 também	 o	 julgamento,	 em	 sede	 de	 competência	 recursal	 ou
originária,	do(s)	processo(s)	de	onde	se	originou	o	IRDR.	É	claro	que	o	IRDR
pode	ter	se	originado	de	processo	já	em	tramitação	no	tribunal.	De	modo	algum,
se	 pretendeu	 afastar	 esta	 possibilidade,	 que	 decorre	 expressamente	 do	 sistema
instituído,	na	medida	em	que	pode	ser	instaurado	pelo	juiz	ou	relator	(inciso	I	do
art.	977),	ensejando	clara	interpretação	de	que	tanto	os	processos	em	tramitação
perante	 a	 primeira	 instância	 quanto	 no	 tribunal	 poderão	 ensejar	 o	 pedido	 de
instauração,	pelo	próprio	órgão	judicial	ou	pelos	demais	legitimados	(incisos	II	e
III	do	art.	977).	O	importante,	contudo,	parece	ser	que	a	existência	eventual	de
uma	regra	de	prevenção,	no	caso,	não	teria	o	condão	de	levar	à	conclusão	de	que
apenas	os	processos	em	tramitação	no	tribunal	poderiam	ensejar	a	instauração	do
IRDR.	Mas,	sim,	que	naqueles	 instaurados	a	partir	de	processos	em	tramitação
no	 tribunal,	 o	 órgão	 competente	 julgaria	 a	 tese	 e	 a	 causa	 em	 concreto,
estabelecendo-se,	 assim,	 vis	 attractiva	 para	 a	 prevenção.	 Os	 demais	 aspectos
relacionados	 à	 competência,	 no	 sentido	 desta	 prevenção,	 serão	 apreciados	 no
capítulo	pertinente.
c)	 O	 raciocínio	 dialético	 no	 sentido	 de	 que	 as	 questões	 jurídicas
precisam	estar	mais	maduras	para	serem	sedimentadas	e	uniformizadas
A	 escolha	 do	modelo	 de	 procedimento	 padrão	 representa,	 por	 certo,	mais
uma	 discussão	 relacionada	 à	 política	 legislativa	 do	 que	 propriamente	 de
interpretação.	Registre-se,	como	já	exposto	no	cotejo	com	o	direito	estrangeiro,
que,	na	Alemanha,	 foram	estabelecidos	dois	 sistemas,	 que	 ainda	 convivem,	de
Musterverfahren.	 O	 procedimento	 modelo	 vigente	 nos	 órgãos	 judiciais	 que
julgam	a	matéria	administrativa	e	de	previdência	e	assistência	social	é	realizado
perante	 a	primeira	 instância,	 sendo	admitido	que	haja	 a	 suspensão	de	 todos	os
processos,	para	que	apenas	um	tribunal	(de	primeira	instância)	possa	processar	e
julgar	 o	 Musterverfahren.	 No	 entanto,	 no	 sistema	 adotado	 para	 os	 litígios
ocorridos	no	mercado	de	capitais,	o	órgão	de	primeiro	grau,	perante	o	qual	houve
o	primeiro	requerimento	de	instauração	do	procedimento-padrão,	apenas	realiza
a	admissibilidade,	 cabendo	ao	 respectivo	Tribunal	de	 Justiça	o	 julgamento	dos
Musterverfahren.
A	 versão	 aprovada	 na	 Câmara	 dos	 Deputados	 estabelecia,	 como
anteriormente	mencionado,	que	o	 IRDR	somente	poderia	 ser	 suscitado	quando
os	 processos	 relacionados	 com	 a	 questão	 jurídica	 controversa	 já	 estivessem
tramitando	no	âmbito	do	tribunal.	Por	certo,	haveria,	com	exceção	dos	processos
que	chegassem	ao	 tribunal	em	razão	da	sua	competência	originária,	um	debate
prévio	no	primeiro	grau	de	jurisdição,	fazendo	com	que	as	causas	já	estivessem
mais	amadurecidas	para	o	julgamento	em	segunda	instância.	No	texto	aprovado,
esta	 possibilidade	 não	 se	 encontra	 descartada.	 Pelo	 contrário,	 ao	 tribunal	 cabe
um	juízo	de	conveniência	a	partir	dos	requisitos	estabelecidos	(efetiva	repetição
de	processos	 e	 risco	de	 ofensa	 à	 isonomia	 e	 à	 segurança	 jurídica),	 que	poderá
10.4.2.
levá-lo	a	certa	dilação	quanto	à	admissibilidade	do	incidente,	quando	considerar
que	ainda	não	há	uma	quantidade	 tão	significativa	de	processos	ou	que	não	se
estabeleceu	um	risco	significativo	de	ofensa	à	 isonomia	e	à	segurança	 jurídica.
Mas,	 a	 opção	 legislativa	 foi	 claramente	 definida,	 no	 sentido	 de	 se	 priorizar	 a
duração	 razoável	 dos	 processos,	 a	 isonomia,	 a	 economia	 processual	 e	 a
segurança	jurídica,	que	serão	agasalhadas	com	a	possibilidade	de	definição	mais
rápida	da	questão	jurídica	e	com	a	técnica	de	concentração	em	torno	desta.
Ressalte-se	 ainda	 que	 houve	 o	 estabelecimento	 de	 um	 procedimento
especial,	 no	 qual	 se	 alargaram	 os	 espaços	 destinados	 ao	 debate,	 como	 será
oportunamente	 visto,	 permitindo-se	 a	 atuação	 paralela	 dos	 interessados15
(pessoas,	órgãos	e	entidades),	a	intervenção	obrigatória	do	Ministério	Público,	a
participação	de	amici	curiae,	a	ampliação	de	prazos	e	a	revisão	da	tese,	além	do
cabimento	eventual	do	recurso	especial	e	extraordinário	diretamente	em	relação
ao	IRDR.	Tudo	isso	representa	um	espaço	privilegiado	de	discussão	em	torno	da
questão	jurídica,	talvez	muito	mais	amplo,	profundo	e	democrático	do	que	o	de
um	 simples	 caso	 individual,	 que	 poderia	 formar	 um	 precedente16,	 até	 mesmo
com	caráter	vinculativo,	se	incidente	uma	das	demais	hipóteses	previstas	no	art.
927	do	CPC.
O	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas	pode	ser
suscitado	a	partir	de	causas	em	tramitação	perante	juízes	ou
tribunais	de	segundo	grau
O	novo	Código	 de	Processo	Civil	 estabeleceu	 uma	 clara	 inovação,	 com	 a
criação	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas,	 a	 partir	 de	 um
sistema	semelhante	ao	do	Musterverfahren	adotado	na	Alemanha	para	os	litígios
do	mercado	 de	 capitais.	Contudo,	 no	modelo	 brasileiro,	 o	 tribunal	 de	 segundo
grau	decide	apenas	em	relação	à	questão	jurídica,	fixando	a	tese	respectiva,	para
que	 haja	 a	 apreciação	 dos	 casos	 concretos	 pelo	 juiznatural,	 ou	 seja,	 o	 órgão
competente	perante	o	qual	tramita	o	processo,	seja	ele	de	primeira	instância	ou	o
próprio	tribunal.
A	opção	representa	uma	opção	política	no	sentido	de	considerar	a	gravidade
dos	 problemas	 existentes,	 destacando-se	 o	 número	 excessivo	 de	 demandas
repetitivas,	o	congestionamento	de	processos	no	Poder	Judiciário,	a	demora	no
julgamento	 dos	 processos,	 a	 diversidade	 de	 pronunciamentos	 em	 torno	 de
questões	 comuns,	 a	necessidade	de	 fortalecimento	da	 isonomia	 e	da	 segurança
jurídica.	 A	 doutrina	 já	 apontava	 a	 necessidade	 do	 estabelecimento	 de
mecanismos	que	propiciassem	maior	 economia	 e	 segurança	 jurídica	no	 âmbito
de	todo	o	Poder	Judiciário	e	não	apenas	na	esfera	dos	tribunais	superiores.	Por
isso,	a	adoção	de	um	instrumento	que	somente	pudesse	ser	acionado	quando	os
processos	 já	 tivessem	 alcançado	 os	 tribunais	 de	 segundo	 grau	 seria	 limitado
quanto	ao	seu	alcance	e	resultado.
O	risco	seria	grande	se	houvesse	a	limitação	pretendida	na	versão	aprovada
na	 Câmara	 dos	 Deputados.	 Isso	 porque	 haveria	 um	 requisito	 necessário,	 que
poderia	 retardar	 a	 instauração	 do	 IRDR,	 a	 ponto	 de	 comprometer	 os	 seus
objetivos.	 Ressalte-se	 que	 o	 novo	 procedimento	 se	 faz	 eficiente	 se	 for
instaurado,	 processado	 e	 julgado	 dentro	 de	 um	 tempo	 razoável.	 Do	 contrário,
poderá	 se	 prolongar	 uma	 situação	 patológica	 de	 quantidades	 imensas	 de
processos	 suspensos	 indefinidamente,	 gerando	 instabilidade	 e	 descrédito	 em
relação	à	prestação	jurisdicional.
O	mecanismo	do	 IRDR	aposta	 em	uma	 solução	a	médio	prazo,	ou	 seja,	 a
partir	de	uma	técnica	de	gestão,	na	qual	a	suspensão	dos	processos	poderá	gerar
economia.	Presume-se	que	os	órgãos	judiciais	poderão	se	concentrar	em	outros
processos.	Em	qualquer	modelo	eficiente	de	gestão,	seria	altamente	questionável
se	todos	os	envolvidos	se	dedicassem	concomitantemente	às	mesmas	funções	e
atividades,	 sem	 que	 houvesse	 uma	 repartição	 mínima	 de	 trabalho.	 Embora	 a
futura	aplicação	da	tese	jurídica	firmada	não	represente	uma	aplicação	mecânica,
na	 medida	 em	 que	 se	 deverá	 analisar	 a	 adequação	 do	 caso	 fático	 à	 tese,	 a
economia	existirá	se,	de	fato,	os	juízes	não	tiverem	que	se	debruçar,	todos,	sobre
as	mesmas	questões	jurídicas.	Se	o	IRDR,	contudo,	somente	se	torna	admissível
em	momento	posterior,	quando	os	processos	alcançaram	os	tribunais,	a	tendência
é	que	os	juízes	já	tenham	despendido	energias	na	análise	das	questões	jurídicas
controversas,	com	a	elaboração	de	decisões	e	sentenças	sobre	a	matéria,	de	modo
que	 a	 economia	 será	 muito	 menor	 do	 que	 se	 poderia	 obter	 em	 um	momento
1
2
3
4
5
6
7
anterior.
Por	 outro	 lado,	 os	 efeitos	 de	 decisões	 proferidas	 em	 sede	 de	 tutela
provisória,	 liminares	 ou	 de	 cumprimento	 de	 sentenças	 também	 poderão
significar	um	risco	muito	maior	de	quebra	da	isonomia	e	da	segurança	jurídica,
decorrente	 da	 maior	 demora	 na	 instauração	 e	 julgamento	 do	 Incidente	 de
Resolução	de	Demandas	Repetitivas.
A	 opção	 pelo	 julgamento	 concentrado	 não	 é	 peculiar	 apenas	 ao	 IRDR.
Representa	 tendência,	 com	 as	 respectivas	 consequências,	 adotada	 pelo
ordenamento	brasileiro.	Nesse	sentido,	podem	ser	apontados	outros	mecanismos,
como	 o	 das	 ações	 diretas	 de	 inconstitucionalidade	 e	 de	 constitucionalidade,	 o
mandado	 de	 injunção	 coletivo	 e	 individual,	 a	 arguição	 de	 descumprimento	 de
preceito	 fundamental,	 os	 recursos	 repetitivos,	 o	 modelo	 de	 arguição	 de
inconstitucionalidade	nos	tribunais	e	a	criação	da	súmula	vinculante	do	Supremo
Tribunal	Federal.
Como	visto,	no	respectivo	capítulo.
Na	primeira	versão	do	§	93a,	aprovada	em	17.12.1990,	que	entrou	em	vigor
a	partir	de	1991.	O	Estatuto	da	Justiça	Administrativa	data	de	21.01.1960,
tendo	entrado	em	vigor	no	dia	01.04.1960.	A	atual	versão	é	de	19.03.1991,
com	modificações	pontuais	posteriores.
Vide	KRUPPA,	Jan	J.,	Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz	(KapMuG)	–
Bestandsaufnahme	und	Perspektiven,	p.	84-88.
BVerwG,	Beschluss	vom	01.04.2009,	Az.	4	B	61.08,	4	B	62.08.
Vide:	MENDES,	Aluisio	Gonçalves	de	Castro.	Ações	coletivas	e	meios	de
resolução	coletiva	de	conflitos	no	direito	comparado	e	nacional.	4.	ed.	São
Paulo:	Revista	 dos	Tribunais,	 2014,	 p.	 63;	HODGES,	Christopher.	Multi-
party	 actions:	 a	 European	 approach.	 Duke	 Journal	 of	 Comparative	 &
International	Law,	vol.	11,	number	2,	Spring,	2001.
Lei	 sobre	 procedimento-modelo	 nos	 conflitos	 jurídicos	 do	 mercado	 de
capitais	 (Gesetz	 über	 Musterverfahren	 in	 kapitalmarktrechtlichen
Streitigkeiten	–	KapMuG).	A	previsão	numérica	se	encontra	no	§	6.
A	 ausência	 deste	 requisito	 (risco	 de	 ofensa	 à	 isonomia	 e	 à	 segurança
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jurídica)	serviu	como	fundamento,	além	de	outros,	para	se	inadmitir	um	dos
primeiros	IRDRs	suscitados	no	Tribunal	Regional	Federal	da	2ª	Região.	O
Ministério	 Público	 Federal	 havia	 proposto	 o	 incidente,	 para	 a	 fixação	 da
tese	de	que	“a	presença	do	Ministério	Público	em	um	dos	polos	da	demanda
é	 suficiente	 para	 ensejar	 a	 competência	 da	 justiça	 federal	 para	 apreciar	 e
julgar	 o	 processo”.	 Entretanto,	 a	 questão	 já	 se	 encontrava,	 como	 se
encontra,	 pacificada	 na	 jurisprudência,	 restando	 apenas	 o	 posicionamento
tópico	 de	 órgãos	 judiciais.	 Nesse	 sentido:	 “4.	 Por	 fim,	 não	 se	 mostraria
apropriada,	de	qualquer	sorte,	à	vista	das	circunstâncias,	a	adoção	do	IRDR
para	ações	civis	públicas	e	ações	de	 improbidade	administrativa	propostas
pelo	Ministério	Público	Federal,	quando	eventual	divergência	seria	de	uma
única	turma	deste	Tribunal	Regional	Federal	da	2ª	Região,	ao	passo	que	o
Superior	Tribunal	de	Justiça	e	o	Supremo	Tribunal	Federal	são	acordes	no
sentido	de	que	a	presença	do	MPF	atrai	a	competência	da	Justiça	Federal.
Basta	 pensar	 que:	 (i)	 admitido	 o	 incidente,	 o	 relator	 suspenderá	 os
processos	pendentes,	 individuais	ou	coletivos,	que	 tramitam	no	Estado	ou
na	 região,	 conforme	 o	 caso	 (art.	 982,	 I,	 do	 CPC);	 (ii)	 a	 extensão	 da
suspensão	 a	 todos	 os	 processos	 individuais	 ou	 coletivos	 em	 curso	 no
território	 nacional,	 como	 previsto	 nos	 §§	 3º	 e	 4º	 do	 art.	 982,	 constituiria
evidente	 demasia,	 diante	 da	 posição	 isolada	 de	 órgão	 judicante;	 (iii)	 o
recurso	extraordinário	ou	especial,	contra	o	julgamento	de	mérito	do	IRDR
tem	 efeito	 suspensivo,	 presumindo-se	 a	 repercussão	 geral	 de	 questão
constitucional	 eventualmente	 discutida	 (art.	 987,	 §	 1º,	 do	 CPC),	 o	 que
potencializa	 a	 duração	 da	 suspensão	 dos	 processos	 e	 facilitaria	 o	 recurso
extraordinário	em	relação	a	questão	já	tranquila	na	Suprema	Corte.”	TRF-2,
IRDR,	 nº	 0003096-69.2016.4.02.0000	 (2016.00.00.003096-9),	 Órgão
Especial,	 Rel.	 Des.	 Luiz	 Paulo	 da	 Silva	 Araujo	 Filho,	 decisão	 em
27.10.2016,	disponibilizada	em	10.11.2016.
Nos	termos	do	art.	1.039,	parágrafo	único,	do	CPC.	Pode-se	pensar	em	uma
situação	 restrita	 a	 uma	 região	 do	 estado,	 em	 que	 haja	 uma	 quantidade
razoável	 de	 demandas	 repetitivas,	 mas	 que	 o	 Supremo	 Tribunal	 Federal
venha	 a	 negar	 a	 repercussão	 geral.	 No	 caso,	 a	 multiplicidade	 local	 de
processos	 e	 o	 risco	 de	 ofensa	 à	 isonomia	 poderão	 ensejar	 o	 interesse	 em
relação	à	instauração	do	IRDR.
Vide	sobre	o	processo	legislativo	no	capítulo	sobre	as	origens	do	Incidente
de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas	no	direito	nacional.
Mesmo	assim,	há	ordenamentos	constitucionais	que	permitem	ao	legislador
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ordinário	 o	 estabelecimento	 complementar	 das	 competências	 da	 Corte
Suprema,	como	ocorre	no	art.	93	(2)	da	Lei	Fundamental	alemã.
Nos	 termos	dos	arts.	 113,	121	e	124,	parágrafo	único,	da	Constituição	da
República,	respectivamente.
Nesse	 sentido,	 RE	 571572	ED,	Re.	Min.	 Ellen	Gracie,	 Tribunal	 Pleno,	 j.
26.08.2009,	DJe	223,	RTJ,	vol.	216-01,	p.	540,	valendo	destacar	na	ementa:
“2.	Quanto	ao	pedido	de	aplicação	da	 jurisprudência	do	Superior	Tribunal
de	 Justiça,observe-se	 que	 aquela	 egrégia	Corte	 foi	 incumbida	 pela	Carta
Magna	 da	 missão	 de	 uniformizar	 a	 interpretação	 da	 legislação
infraconstitucional,	 embora	 seja	 inadmissível	 a	 interposição	 de	 recurso
especial	 contra	 as	 decisões	 proferidas	 pelas	 turmas	 recursais	 dos	 juizados
especiais.	 3.	 No	 âmbito	 federal,	 a	 Lei	 10.259/2001	 criou	 a	 Turma	 de
Uniformização	da	Jurisprudência,	que	pode	ser	acionada	quando	a	decisão
da	 turma	 recursal	 contrariar	 a	 jurisprudência	 do	STJ.	É	 possível,	 ainda,	 a
provocação	dessa	Corte	Superior	após	o	julgamento	da	matéria	pela	citada
Turma	de	Uniformização.	4.	Inexistência	de	órgão	uniformizador	no	âmbito
dos	 juizados	 estaduais,	 circunstância	 que	 inviabiliza	 a	 aplicação	 da
jurisprudência	do	STJ.	Risco	de	manutenção	de	decisões	divergentes	quanto
à	 interpretação	 da	 legislação	 federal,	 gerando	 insegurança	 jurídica	 e	 uma
prestação	jurisdicional	incompleta,	em	decorrência	da	inexistência	de	outro
meio	 eficaz	 para	 resolvê-la.	 5.	 Embargos	 declaratórios	 acolhidos	 apenas
para	declarar	o	cabimento,	em	caráter	excepcional,	da	reclamação	prevista
no	art.	105,	I,	f,	da	Constituição	Federal,	para	fazer	prevalecer,	até	a	criação
da	 turma	 de	 uniformização	 dos	 juizados	 especiais	 estaduais,	 a
jurisprudência	 do	 Superior	 Tribunal	 de	 Justiça	 na	 interpretação	 da
legislação	infraconstitucional”.
Nesse	 sentido:	 CÂMARA,	 Alexandre	 Freitas.	 O	 novo	 processo	 civil
brasileiro,	3.	ed.,	São	Paulo:	Atlas,	2017.
Embora	 sob	 este	 aspecto,	 o	 tema	 possa	 ser	 revisitado	 e	 aprofundado	 no
capítulo	 pertinente	 à	 competência.	No	presente	momento,	 a	 análise	 estará
focada	principalmente	no	debate	pertinente	aos	requisitos.
Art.	983	do	CPC.
O	tema	será	retomado	por	ocasião	da	eficácia	vinculativa	do	IRDR.
11.1. LEGITIMIDADE	PARA	O	IRDR
O	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas	poderá	ser	suscitado	de
ofício,	 pelo	 juiz	 de	 primeiro	 grau	 ou	 pelo	 relator,	 bem	 como	 requerido	 pelas
partes,	 pelo	 Ministério	 Público	 e	 pela	 Defensoria	 Pública,	 por	 petição,	 nos
termos	do	art.	977,	incisos	I,	II	e	III,	do	Código	de	Processo	Civil.
Em	 razão	 da	 natureza	 do	 IRDR,	 este	 procedimento	 se	 caracteriza	 pela
multiplicidade	 de	 interesses	 paralelos,	 que	 serão	 afetados	 em	 razão	 do	 efeito
vinculativo	 da	 decisão	 proferida	 sobre	 a	 questão	 comum.	 Há,	 portanto,	 uma
característica	 muito	 distinta	 do	 processo	 tradicionalmente	 concebido	 como	 de
duas	partes,	ainda	que	possa	haver	o	fenômeno	do	litisconsórcio	em	um	ou	nos
dois	polos	da	relação	processual.	Nos	processos	paralelos,	os	interessados,	assim
considerados	todos	os	que	discutam	nos	respectivos	processos	a	questão	objeto
do	 IRDR,	 não	 figuram,	 em	 princípio,	 como	 parte,	 mas,	 no	 sistema	 brasileiro,
dispõem	 do	 poder	 de	 atuação	 voluntária	 no	 incidente,	 para	 fiscalizar	 e
complementar	as	partes	do	incidente.
No	 Código	 de	 Processo	 Civil,	 há	 menção	 expressa	 aos	 interessados	 em
dispositivos	 como	 o	 §	 4º	 do	 art.	 982,	 para	 requerer	 a	 suspensão	 nacional	 dos
processos,	nos	termos	do	§	3º	do	art.	982;	no	caput	do	art.	983,	que	serão	(rectius
poderão	ser)	ouvidos	pelo	relator,	bem	como	requerer	a	juntada	de	documentos	e
as	diligências	necessárias	para	elucidação	da	questão	de	direito	controvertida;	e
na	 alínea	b,	 inciso	 II,	 do	 art.	 984,	 para	 efetuar	 a	 sustentação	 oral.	 Entretanto,
11.2.
deve	 ser	 tido	 como	 exemplificativo	 o	 rol	 mencionado,	 pois,	 de	 modo	 geral,
poderão	 praticar	 os	 atos	 processuais	 pertinentes	 ao	 incidente,	 considerando	 o
interesse	jurídico	inerente.	Sendo	assim,	ainda	que	não	mencionados,	outros	atos
poderão	 ser	 realizados,	 como	 a	 interposição	 de	 recursos	 ou	 o	 requerimento	 de
revisão	da	 tese,	em	especial	se	a	decisão	não	considerar	aspectos	relevantes	da
fundamentação	esposada	pelos	interessados.
O	 Incidente	 de	 Resolução	 de	Demandas	 Repetitivas	 se	 enquadra	 em	 uma
categoria	 relativamente	 nova	 de	 procedimentos,	 que	 têm	 como	 base	 processos
individuais	 paralelos	 e	 vinculados	 a	 questões	 comuns.	 Diferencia-se,	 em
princípio,	 das	 ações	 coletivas,	 porque	 estas	 se	 fundam	 em	 representantes
adequados,	 segundo	 a	 lei	 ou	 juiz.	 No	 âmbito	 dos	 procedimentos	 modelo,	 o
julgamento	 dos	 casos	 continua	 sendo	 feito	 de	 modo	 individualizado,	 embora
calcados	 em	 um	 pronunciamento	 concentrado	 focado	 em	 questões	 comuns.	 O
modo	de	escolha	das	partes	atuantes	no	procedimento	é	variado.
OS	SUJEITOS	PROCESSUAIS	NO	MUSTERVERFAHREN
ALEMÃO
Na	Alemanha,	os	dois	sistemas	de	Musterverfahren	também	se	diferenciam
sob	o	prisma	subjetivo.	No	âmbito	administrativo	e	social,	a	escolha	é	feita	pelo
órgão	judicial	que,	como	mencionado,	pode	levar	em	consideração	até	mesmo	o
grau	 de	 interesse	 das	 partes	 para	 a	 escolha	 dos	 casos	 que	 deverão	 servir	 de
modelo.	Na	 esfera	 do	mercado	 de	 capitais,	 houve	 um	detalhamento	maior	 das
regras	 aplicáveis	 e,	 como	 mencionado	 anteriormente,	 o	 Tribunal	 de	 Justiça
proferirá,	 em	 decisão	 irrecorrível,	 a	 designação	 das	 partes	 que	 atuarão	 no
procedimento	modelo,	 como	 autor	 (Musterkläger)	 e	 réu	 (Musterbeglagte),	 nos
termos	 do	 §	 9	 (2)	 da	 Lei	 do	 Procedimento-Padrão	 no	 Mercado	 Mobiliário
(KapMuG).	 Como	 critérios	 para	 a	 escolha,	 o	 tribunal	 deverá	 considerar,	 por
expressa	 determinação	 da	 lei,	 (i)	 a	 aptidão	 do	 autor	 para	 conduzir	 de	 modo
apropriado	 o	 procedimento-padrão	 em	 consideração	 aos	 interesses	 das	 partes
paralelas	afetadas;	(ii)	o	acordo	da	maioria	dos	autores	em	relação	a	quem	deva
conduzir	o	procedimento;	(iii)	a	dimensão	da	pretensão	que	está	sendo	deduzida
11.3.
em	cada	processo	relacionado	com	o	procedimento	modelo.
Os	 aspectos	 considerados	 na	 legislação	 alemã	 podem	 e	 devem	 servir	 de
parâmetro,	 de	 lege	 ferenda,	 para	 o	 intérprete	 brasileiro.	 Isso	 porque	 quando	 o
IRDR	for	suscitado	por	sujeito	que	não	seja	parte,	ou	seja,	pelo	órgão	judicial	e,
em	certos	casos,	pelo	Ministério	Público	ou	Defensoria	Pública,	caberá	a	estes	a
escolha	 não	 de	 quem	 irá	 intervir	 no	 incidente,	 mas	 das	 peças	 que	 melhor
representem	a	controvérsia,	a	exemplo	do	que	ocorre	nos	recursos	repetitivos.
OS	INTERVENIENTES	NO	IRDR:	A	INFLUÊNCIA	NA
FORMAÇÃO	DA	TESE	JURÍDICA
No	ordenamento	brasileiro,	portanto,	não	cabe	ao	órgão	judicial	a	escolha	de
quem	irá	intervir	no	incidente.	Entretanto,	quando	este	é	suscitado	pela	parte	ou
mesmo	 pelo	Ministério	 Público	 ou	 Defensoria	 Pública,	 quando	 não	 estiverem
figurando	como	parte,	presume-se	que	o	requerente	irá	acompanhar	e	intervir	no
incidente.	 Contudo,	 quando	 suscitado	 pelo	 órgão	 judicial,	 revela-se	 certa
preocupação	diante	deste	novo	modelo	de	procedimento,	em	que	há	a	figura	dos
processos	paralelos,	com	interessados	que	são	partes	nestes	processos,	mas	que
não	têm	uma	intervenção	provocada	no	incidente.
Há,	portanto,	uma	significativa	mudança	cultural	e	procedimental,	pois,	no
processo	 fundado	 em	 partes	 contrapostas,	 o	 autor	 formula	 a	 sua	 demanda	 e,
como	 tal,	 passa	 a	 integrar	 a	 relação	 processual.	 Por	 sua	 vez,	 o	 réu	 é	 citado	 e
passa	a	integrar	o	polo	passivo.	No	IRDR,	o	procedimento	poderá	ser	provocado,
instaurado	 e	 julgado	 sem	que	 haja	 a	 interferência	 direta	 da	maioria	 das	 partes
interessadas	 na	 solução	 da	 questão	 jurídica	 a	 ser	 dirimida.	 Esta	 característica
vem	fazendo	com	que	o	novel	instituto	receba,	por	parcela	da	doutrina1,	críticas
e	até	mesmo	a	alegação	de	inconstitucionalidade,	em	razão	da	eventual	falta	de
representatividade	adequada.
Entretanto,	há	que	se	cotejar	a	crítica	com	a	sistemática	adotada	em	outros
institutos	 nos	 quais	 se	 produz	 resultado	 semelhante,	 no	 âmbito	 do	 direito
estrangeiro	e	também	do	direito	nacional.	Em	especial,	cabe	aqui	a	comparação2
com	 o	 sistema	 de	 precedentes	 adotado	 nos	 países	 de	 common	 law	 e	 nos
11.4.
pronunciamentoscom	caráter	vinculativo,	nos	termos	do	art.	927	do	Código	de
Processo	Civil.	De	maneira	geral,	e	isso	deve	ser	ressaltado,	ainda	que	de	modo
acaciano,	o	precedente	possui	relevância	especial	para	a	solução	de	outros	casos.
Contudo,	 nunca	 se	 exigiu,	 nos	 precedentes,	 até	 porque	 esta	 característica
somente	é	revelada	no	futuro	e	não	previamente,	a	representatividade	adequada
ou	outros	requisitos	típicos	de	processos	coletivos.	E	as	razões	de	decidir	(ratio
decidendi	 ou	 holding)	 são	 extraídas	 de	 processos	 coletivos	 ou	 individuais
indistintamente,	 sem	 que	 se	 exija	 ou	 faça	 qualquer	 controle	 especial	 quanto	 à
representatividade	adequada.
AS	MEDIDAS	FUNDAMENTAIS	PARA	A	PRESERVAÇÃO	DOS
DIREITOS	SUBJACENTES	AO	IRDR	SOB	O	ASPECTO
SUBJETIVO
Há	 que	 se	 registrar	 que	 no	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas
Repetitivas,	 o	 aspecto	 subjetivo	 não	 foi	 desprezado.	 No	 procedimento,	 estão
previstas	algumas	medidas	que	são	fundamentais	para	a	preservação	dos	direitos
subjacentes	 aos	 interessados	 que	 ficarão	 vinculados	 à	 decisão	 proferida	 no
incidente.	 Dentre	 as	 providências	 previstas,	 devem	 ser	 destacadas	 (a)	 a	 mais
ampla	e	específica	divulgação	e	publicidade,	por	meio	de	registro	eletrônico	no
Conselho	 Nacional	 de	 Justiça	 e	 nos	 bancos	 eletrônicos	 dos	 tribunais;	 (b)	 a
intimação	de	todas	as	partes	dos	processos	suspensos,	que	deve	ser	determinada
pelos	 respectivos	 juízes	 e	 relatores,	 imediatamente	 após	 a	 comunicação	 de
suspensão,	 nos	 termos	 do	 art.	 1.037,	 §	 8º,	 que	 deve	 ser	 aplicado	 também	 nos
casos	de	IRDR,	combinado	com	o	art.	982,	§	1º,	do	CPC;	(c)	a	possibilidade	de
intervenção	 dos	 interessados	 no	 incidente,	 conforme	 supramencionado;	 (d)	 a
intervenção	obrigatória	do	Ministério	Público.
Das	medidas	acima,	a	intimação	das	partes	que	tiveram	os	seus	respectivos
processos	 suspensos	 e	 que	 sofrerão	 o	 efeito	 vinculativo	 previsto	 no	 art.	 927,
inciso	 III,	 do	 Código	 de	 Processo	 Civil,	 parece	 ser	 fundamental	 para	 que	 se
garanta	a	higidez	do	sistema.	A	intimação	se	faz	necessária	sob	dois	aspectos:	(i)
controle	da	identidade	entre	a(s)	questão(ões)	de	direito	objeto	do	IRDR	e	as	que
estejam	sendo	discutidas	no	processo	suspenso,	para	que	se	possa	verificar	se	a
suspensão	 e	 futura	 aplicação	 da	 tese	 jurídica	 são,	 de	 fato,	 pertinentes;	 (ii)
possibilitar	 que	 as	 partes	 do	 processo	 suspenso,	 possam,	 na	 qualidade	 de
interessados,	 acompanhar	 todo	 o	 procedimento	 do	 IRDR,	 exercendo	 os	 seus
respectivos	 direitos,	 inclusive	 aditando	 argumentos,	 requerendo	 a	 juntada	 de
peças	 processuais	 ou	 documentos,	 recorrendo	 e	 realizando	 todos	 os	 atos
necessários	 para	 que	 a	 questão	 jurídica	 seja	 apreciada	 a	 partir	 dos	 seus
fundamentos	e	interesses.
A	inexistência	da	intimação,	preconizada	no	§	8º	do	art.	1.037	do	CPC,	não
deve,	no	entanto,	por	si	só,	conduzir	à	ineficácia	do	efeito	vinculativo	em	relação
à	parte	não	comunicada	e,	muito	menos,	a	qualquer	problema	quanto	à	validade
do	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas.	Parece	que	a	inobservância
da	regra	aplicável	ao	IRDR,	embora	prevista	para	os	recursos	repetitivos,	guarda
certa	 semelhança	 com	 a	 situação	 decorrente	 da	 ausência	 de	 notificação	 ao
membro	da	classe,	nas	class	actions	norte-americanas,	sobre	a	existência	da	ação
de	classe	e	a	possibilidade	do	exercício	do	direito	de	exclusão	(opt-out	right)3.
Em	 ambas	 as	 hipóteses,	 a	 parte	 prejudicada	 deverá	 comprovar	 não	 apenas	 a
ausência	 da	 intimação,	 mas	 também,	 cumulativamente,	 que	 não	 tomou
conhecimento	 do	 IRDR	 e	 que	 os	 argumentos	 jurídicos	 levantados	 no	 seu
processo	 não	 foram	 efetivamente,	 de	 modo	 direto	 ou	 indireto,	 deduzidos	 e
apreciados	no	incidente,	para	que	possa	se	afastar	do	efeito	vinculativo	previsto
nos	arts.	927,	inciso	III,	e	985,	inciso	I,	do	Código	de	Processo	Civil.	Neste	caso,
parece	 que	 os	 princípios	 do	 acesso	 à	 justiça,	 do	 devido	 processo	 legal	 e	 do
contraditório	serviriam	de	óbice	para	a	subsunção	obrigatória	do	caso	concreto	à
tese	 jurídica	firmada.	Como	os	argumentos	não	foram	analisados,	não	ficariam
cobertos	pelo	efeito	vinculativo	do	IRDR	e	poderiam,	assim,	ser	acatados	ou	não
pelo	julgador	no	caso	concreto.	Situação,	portanto,	semelhante	à	do	membro	da
classe	que,	nas	class	actions,	não	é	notificado	e	consegue	comprovar	que	acabou
sendo	 prejudicado	 pela	 impossibilidade	 de	 ter	 exercido	 o	 direito	 de	 exclusão,
porque	teria	fundamentos	capazes	de	ensejar	um	julgamento	diverso	para	o	seu
caso.
As	 garantias	 destacadas	 não	 afastam	 outras	 que,	 ainda	 que	 não	 previstas
11.5.
11.5.1.
expressamente,	 podem	 ser	 adotadas,	 como	 a	 permissão	 de	 que	 os	 interessados
possam	 contar	 com	 o	 apoio	 de	 outros	 legitimados	 coletivos	 para	 a	 defesa	 dos
direitos,	como	entes	públicos	ou	associações4.	Esta	intervenção	pode	ser	útil	para
que	 a	 intervenção	 dos	 interessados	 se	 realize	 de	modo	 eficiente	 e	 organizado,
evitando-se	 a	 habilitação	 multitudinária	 de	 interessados	 e	 as	 consequências
negativas	de	um	eventual	tumulto	processual	em	torno	do	incidente5.
No	sistema	brasileiro,	a	legislação	estabeleceu	basicamente	quem	seriam	os
legitimados,	 a	 intervenção	obrigatória	 do	Ministério	Público6	 e	 a	 possibilidade
de	participação	dos	interessados.
CONSIDERAÇÕES	EM	TORNO	DOS	LEGITIMADOS	PARA
SUSCITAR	O	IRDR
O	juiz,	o	relator	e	os	órgãos	judiciais	colegiados
No	 âmbito	 dos	 legitimados,	 cabe	 destacar	 cada	 uma	 das	 situações.	 Em
primeiro	 lugar,	 o	 Incidente	 de	Resolução	 de	Demandas	Repetitivas	 poderá	 ser
suscitado	pelos	órgãos	 judiciais,	 tendo	o	código	 indicado	expressamente	o	 juiz
ou	o	relator.
Há	 que	 se	 indagar	 se	 o	 órgão	 colegiado	 não	 poderia	 também	 suscitar	 o
incidente.	 E	 o	 ponto	 seria,	 em	 especial,	 relevante	 nas	 hipóteses	 em	 que	 a
necessidade	 de	 decisão	 concentrada	 sobre	 a	 questão	 jurídica	 fosse	 levantada
durante	 julgamento	 colegiado,	 em	 que	 o	 relator	 fosse	 vencido	 neste	 tópico.
Parece	que,	na	hipótese,	o	posicionamento	minoritário	do	relator	não	poderia	ter
o	condão	de	impedir,	com	base	apenas	na	literalidade	do	inciso	I	do	art.	977	do
CPC.	 Se	 o	 relator	 pode	 suscitar,	 com	muito	maior	 autoridade	 poderá	 o	 órgão
colegiado.	É	o	que	ocorre	em	situações	semelhantes,	como	no	próprio	incidente
de	 arguição	 de	 inconstitucionalidade,	 em	 que	 a	 arguição	 é	 submetida,	 em	 um
primeiro	momento,	ao	órgão	fracionário,	que	acolhendo,	encaminhará	a	questão,
em	conformidade	com	a	estrutura	e	com	o	respectivo	regimento,	ao	plenário	ou
ao	órgão	especial	do	tribunal7.	No	art.	948	do	CPC,	também	se	menciona	que	o
relator	submeterá	a	questão	à	turma	ou	à	câmara.	Contudo,	qualquer	integrante
do	colegiado	poderá,	naturalmente,	suscitar	eventual	inconstitucionalidade	a	ser
declarada.	 Entretanto,	 o	 incidente	 somente	 será	 instaurado	 se	 o	 colegiado,	 por
unanimidade	ou	por	maioria,	entender	pelo	acolhimento.
No	caso	do	 IRDR	exigiu-se,	no	entanto,	menos,	ou	 seja,	 aqui	 se	permitiu,
sim,	com	o	objetivo	de	se	alcançar	um	resultado	mais	rápido,	 tendo	em	vista	a
multiplicidade	de	processos,	que	o	relator,	desde	logo,	se	antecipasse	ao	próprio
órgão	 fracionário,	 para	 suscitar	 direta	 e	 previamente	 o	 incidente.	 Mas,	 não	 o
fazendo	 desde	 logo,	 nada	 impede	 que	 o	 próprio	 relator	 ou	 qualquer	 outro
integrante	do	respectivo	órgão	fracionário	suscite	em	momento	posterior.
Em	 princípio,	 a	 iniciativa	 de	 provocação	 do	 incidente	 pode	 partir	 de
qualquer	 relator	 ou	 órgão	 do	 tribunal.	 Portanto,	 a	 proposta	 de	 instauração	 do
IRDR	pode	partir	de	questões	surgidas	em	casos	que	estejam	em	tramitação	no
Pleno,	nas	Seções	Especializadas	ou	nas	Câmaras	e	Turmas.
Em	 relação	 ao	 órgão	 judicial,	 é	 de	 se	 afirmar	 ainda	 que	 apenas	 poderá
provocar	o	incidente	aquele	que,	de	fato,	possuir	processos	em	que	se	discute	a
questão	controversa	a	ser	dirimidacomuns.
O	 surgimento	 de	 cadastros	 no	 direito	 estrangeiro	 e	 a	 evolução	 no
direito	nacional
O	banco	eletrônico	de	dados	dos	tribunais	e	no	Conselho	Nacional	de
Justiça.	A	Resolução	nº	235/2016	do	CNJ.	Momento	do	lançamento	do
registro.	Dados	essenciais
As	dificuldades	práticas	para	 a	 implementação	do	Cadastro	Nacional
de	Incidentes	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas.
Capítulo	 14	 –	 O	 procedimento	 inicial	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de
Demandas	 Repetitivas.	 Distribuição	 e	 juízo	 de	 admissibilidade;	 a
definição	da	questão	jurídica	objeto	do	incidente
O	 procedimento	 inicial	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas
Repetitivas.	Distribuição.	Juízo	de	admissibilidade
Definição	 do	 objeto	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas
Repetitivas:	a	questão	de	direito
Capítulo	 15	 –	 A	 suspensão	 dos	 processos	 pendentes.	 Competência	 para	 o
estabelecimento	 da	 suspensão.	 Suspensão	 cogente	 ou	 facultativa.
Possibilidade	de	suspensão	parcial.	Tempo	de	suspensão.	Prorrogação	da
suspensão.	Comunicação	da	 suspensão.	Requerimento	de	 suspensão	ou
de	sustação	da	suspensão.	Recursos	contra	a	decisão	sobre	a	suspensão.
Revogação	 da	 suspensão.	 Atos	 processuais	 que	 podem	 ser	 realizados
durante	a	suspensão
15.1.
15.2.
15.3.
15.4.
15.5.
15.6.
15.7.
15.8.
15.9.
15.10.
15.11.
15.12.
16.1.
16.2.
16.3.
16.4.
A	suspensão	dos	processos	pendentes
Competência	para	o	estabelecimento	da	suspensão
Suspensão	cogente	ou	facultativa
Possibilidade	de	suspensão	parcial
Suspensão	em	todo	o	território	nacional
Tempo	de	suspensão
Prorrogação	da	suspensão
Comunicação	da	suspensão	(ou	a	suspensão	efetiva	dos	processos	que
versem	 sobre	 a	 questão	 do	 IRDR).	 Devido	 processo	 legal	 e
contraditório
Requerimento	de	suspensão	ou	de	sustação	da	suspensão
Recursos	contra	a	decisão	sobre	a	suspensão
Cessação	da	suspensão
Atos	processuais	que	podem	ser	realizados	durante	a	suspensão
Capítulo	 16	 –	 Procedimento	 preparatório	 do	 julgamento.	 Informações.	O
papel	 do	 relator	 e	 dos	 sujeitos	 do	 incidente.	 Contraditório.	 Amicus
curiae
Procedimento	preparatório	do	julgamento
Informações.	Fundamentos	em	torno	da	questão	objeto	do	IRDR
O	 papel	 do	 relator	 e	 dos	 sujeitos	 do	 incidente	 na	 preparação	 do
julgamento	 do	 IRDR.	 A	 legitimação	 do	 procedimento	 modelo	 e	 do
sistema	de	processos	paralelos
Definição	 final	 da	 questão	 do	 IRDR.	 Contraditório	 pleno	 e
aprofundado	 em	 torno	 dos	 fundamentos	 pertinentes	 ao	 objeto	 do
IRDR.	Providências	que	podem	ser	tomadas	pelo	relator
17.1.
17.2.
17.3.
17.4.
18.1.
18.2.
18.3.
18.4.
18.5.
18.6.
18.6.1.
18.6.2.
Capítulo	 17	 –	 Julgamento	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas
Repetitivas
O	órgão	competente	e	o	objeto	do	julgamento
De	novo,	a	importância	do	contraditório	ampliado
O	procedimento	para	o	julgamento	do	IRDR
A	fixação	da	tese	jurídica
Capítulo	 18	 –	 Recursos	 contra	 a	 decisão	 proferida	 no	 Incidente	 de
Resolução	de	Demandas	Repetitivas
Recursos	cabíveis:	considerações	gerais
Breve	 histórico	 sobre	 as	 origens,	 influências	 e	 escopos	 dos	 recursos
extraordinário	e	especial	no	Brasil
Os	 recursos	 extraordinários	 e	 especiais	 e	 as	 “causas	 decididas	 em
única	 ou	 última	 instância”.	 A	 visão	 tradicional	 diante	 de	 institutos
como	 o	 incidente	 de	 arguição	 de	 inconstitucionalidade	 e	 de
uniformização	de	jurisprudência
Do	 individual	 para	 o	 coletivo:	 o	 estudo	 do	 desenvolvimento	 dos
instrumentos	processuais	voltados	para	a	solução	de	questões	comuns,
repetitivas	e	coletivas	no	Brasil,	como	premissa	para	a	interpretação	da
expressão	“causas	decididas	em	única	ou	última	instância”
Os	julgados	do	Supremo	Tribunal	Federal	e	o	Enunciado	nº	513	da	sua
Súmula
Fundamentos	 para	 a	 constitucionalidade	 do	 art.	 987	 do	 Código	 de
Processo	Civil
A	previsão	de	causa	decidida	em	única	ou	última	 instância	é
constitucional,	 mas	 a	 sua	 definição	 não	 é	 constitucional,
podendo	ser	fixada	legalmente
O	 novo	 conceito	 de	 jurisdição	 e	 os	 respectivos	 mecanismos
18.6.3.
18.6.4.
18.6.5.
18.6.6.
18.6.7.
18.7.
18.8.
19.1.
19.2.
processuais
Acesso	à	Justiça	e	contraditório	–	o	direito	dos	interessados	de
intervir	no	IRDR	e	de	recorrer	da	decisão	de	mérito	.
Interpretação	 sistemática	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de
Demandas	 Repetitivas	 (I)	 (possibilidade	 de	 suspensão
nacional	 cautelar	 e	 o	 cabimento	 do	 recurso	 extraordinário	 e
especial	diante	do	 julgamento	de	mérito	do	IRDR	–	art.	982,
§§	4º	e	5º	do	CPC)
Interpretação	 sistemática	 do	 Incidente	 de	 Resolução	 de
Demandas	Repetitivas	(II)	(desistência	do	processo	do	qual	se
originou	o	IRDR)
Coisa	julgada	da	questão	prejudicial	e	das	decisões	parciais	de
mérito.	Recursos	excepcionais	contra	o	julgamento	em	agravo
de	instrumento
O	enunciado	nº	513	da	Súmula	do	Supremo	Tribunal	Federal	e
o	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas
Legitimados	para	a	interposição	dos	recursos
Efeitos	devolutivo	e	suspensivo	nos	recursos	extraordinário	e	especial
contra	 a	 decisão	 de	mérito	 no	 Incidente	 de	Resolução	 de	Demandas
Repetitivas.	Presunção	da	repercussão	no	recurso	extraordinário
Capítulo	 19	 –	 Efeito	 vinculativo	 da	 decisão	 proferida	 no	 Incidente	 de
Resolução	de	Demandas	Repetitivas
Delimitação	do	tratamento	do	tema.	O	tratamento	normativo	geral	do
efeito	vinculativo	no	novo	Código	de	Processo	Civil
Levantamento	e	análise	das	principais	críticas	formuladas	por	parte	da
doutrina	 ao	 sistema	 de	 julgamento	 de	 demandas	 repetitivas	 no	 novo
Código	 de	 Processo	 Civil,	 especialmente	 no	 que	 se	 refere	 ao	 efeito
vinculativo
19.3.
19.4.
19.5.
19.6.
20.1.
20.2.
20.3.
20.4.
Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 (ou	 sistema	 de
resolução	de	demandas	repetitivas	ou	de	questões	comuns)	versus	ou
plus	ações	coletivas
Violação	da	separação	ou	colaboração	entre	os	Poderes
A	 alegada	 ausência	 de	 legitimação	 adequada	 para	 a	 defesa	 dos
interesses	coletivos	e	a	ofensa	aos	princípios	do	acesso	à	 justiça	e	ao
contraditório,	na	medida	em	que	pessoas	que	não	tiveram	participação
no	processo,	ou	 seja,	o	 seu	dia	na	corte,	 estariam	sendo	atingidas	no
seu	direito
A	invocação	da	violação	ao	direito	de	ação,	em	razão	da	ausência	da
garantia	do	direito	de	autoexclusão	(opt-out	right)
Capítulo	20	–	Aplicação	da	tese	jurídica.	Cognição,	fundamentação,	vícios	e
meios	 de	 correção.	 Distinção	 e	 superação	 da	 tese	 jurídica	 firmada.
Efeitos	 e	 consequências	 processuais	 decorrentes	 do	 julgamento
repetitivo:	a	construção	de	um	sistema.	Revisão	da	tese
O	âmbito	de	aplicação	da	tese	jurídica
Cognição	 e	 fundamentação	 na	 aplicação	 da	 tese	 ao	 caso	 concreto.
Vícios	 decorrentes	 da	 falta	 de	 motivação	 e	 meios	 de	 correção.
Distinção	e	superação	em	relação	à	tese	firmada
Efeitos	 e	 consequências	 processuais	 decorrentes	 do	 julgamento
repetitivo:	a	construção	de	um	sistema
Revisão	da	tese
Capítulo	 21	 –	 Solução	 consensual	 e	 Incidente	 de	Resolução	 de	Demandas
Repetitivas
PRINCIPAIS	CONCLUSÕES
REFERÊNCIAS
INTRODUÇÃO
Procurou-se	escolher	um	 tema	atual,	 importante	e	 instigante	no	âmbito	do
Direito	 Processual	 Civil.	 O	 incidente	 de	 resolução	 de	 demandas	 repetitivas
(IRDR)	 é	 um	 dos	 principais	 instrumentos	 trazidos	 a	 lume	 pelo	 Código	 de
Processo	Civil	 (CPC)	 brasileiro	 de	 2015.	A	 criação	 do	 novo	 procedimento	 foi
obra	 de	 sofisticada	 engenharia	 realizada	 pela	 Comissão	 de	 Juristas,	 presidida
pelo	 Professor	 e	Ministro	 Luiz	 Fux,	 integrada,	 dentre	 outros,	 pelos	 eminentes
Professores	 Teresa	 Arruda	 Alvim,	 Paulo	 Cezar	 Pinheiro	 Carneiro,	 Humberto
Theodoro	Júnior	e	José	Roberto	dos	Santos	Bedaque,	que	elaborou	o	anteprojeto
do	 novo	 estatuto	 processual.	 Por	 um	 lado,	 foi	 concebido	 sob	 a	 inspiração	 do
direito	 estrangeiro,	 especialmente	 o	 germânico,	 a	 partir	 do	 Musterverfahren
(procedimento-padrão).	 Por	 outro,	 engendrouno	 incidente.	Neste	ponto,	se	 faz	necessário
revolver,	 naturalmente,	 o	 posicionamento	 diante	 dos	 requisitos	 para	 a
instauração.	Para	os	que	entendem	que	a	existência	de	processos	em	tramitação
perante	o	tribunal	é	condição	sine	qua	non	para	que	o	tribunal	tenha	competência
para	 conhecer	 e	 julgar	 o	 incidente,	 afirma-se	 que	 isto	 não	 afastaria,	 por
completo,	o	reconhecimento	da	legitimidade	do	juiz	para	suscitar	o	incidente.	O
magistrado	de	primeiro	grau,	no	caso,	poderia	suscitar	o	 incidente,	 indicando	a
existência	de	processos	no	tribunal	nos	quais	a	questão	jurídica	comum	tivesse
relevância.	Mas,	mesmo	assim,	parece	que	esta	provocação	 teria	que	encontrar
fundamento	na	atuação	em	concreto	do	magistrado	que	estivesse	processando	ou
julgando	 causas	 relacionadas	 com	 a	 questão	 de	 direito	 a	 ser	 dirimida.	 Do
contrário,	 a	 atuação	 do	 magistrado	 estaria	 desvinculada	 das	 suas	 funções
jurisdicionais,	não	se	compatibilizando	com	o	seu	mister	e	com	os	preceitos	do
juiz	natural	e	da	inércia.
Entretanto,	 para	 a	 posição	 que	 afasta	 este	 requisito,	 caberá	 ao	 juiz	 e,	 de
modo	 geral,	 ao	 relator,	 que	 suscitar	 o	 incidente,	 instruir	 o	 ofício	 com	 os
11.5.2.
documentos	 necessários	 à	 demonstração	 do	 preenchimento	 dos	 pressupostos
para	instauração	do	incidente,	nos	termos	do	parágrafo	único	do	art.	977,	a	partir
dos	processos	que	estejam	sob	a	sua	responsabilidade.	Saliente-se,	ainda,	que	o
requisito	da	efetiva	repetição	de	processos	pode	ser	aferido	não	apenas	a	partir
de	um	único	órgão	jurisdicional.	Contudo,	há	que	existir	processos,	ainda	que	em
quantidade	 não	 tão	 expressiva	 como	 em	outros	 órgãos,	 para	 que	 o	magistrado
possa	identificar	a	questão	comum	e	as	peças	representativas	da	controvérsia,	de
modo	 a	 fornecer	 os	 elementos	 necessários	 para	 a	 apreciação	 da	 questão	 de
direito.
As	partes
O	 autor	 ou	 o	 réu	 poderá	 suscitar	 o	 Incidente	 de	 Resolução	 de	Demandas
Repetitivas,	indicando	a	questão	de	direito	do	seu	processo	que	seja	comum	com
a	de	outros	processos,	em	quantidade	significante	e	que	estejam	 tendo	solução
diversa	perante	os	órgãos	 judiciais.	Nada	 impede	que	alguns	autores	ou	 réus	o
façam	 de	 modo	 conjunto.	 O	 dispositivo,	 inciso	 II	 do	 art.	 977	 do	 Código	 de
Processo	Civil,	menciona	as	partes,	mas	a	indicação	do	plural	diz	respeito	a	que
qualquer	 uma	 delas	 poderá	 fazê-lo,	 não	 dependendo,	 naturalmente,	 do
consentimento	 da	 parte	 contrária,	 embora	 nada	 impede	 que	 ambos
convencionem	neste	sentido.
A	 atuação	 das	 partes	 no	 IRDR	 ocorrerá	 não	 apenas	 no	 momento	 do
requerimento,	 mas	 também	 na	 fase	 preparatória	 (nos	 termos	 do	 art.	 983,	 em
prazo	comum,	no	qual	poderão	requerer	a	juntada	de	documentos	e	a	realização
de	diligências	necessárias	para	a	elucidação	da	questão	de	direito);	por	ocasião
do	 julgamento,	 em	sustentação	oral	 (conforme	art.	984,	 inciso	 II,	 alínea	a);	 na
hipótese	de	 interposição	do	 recurso	 especial	 ou	 extraordinário,	 na	 condição	de
recorrente	 ou	 de	 recorrido	 (art.	 987);	 e,	 ainda	 que	 sem	menção	 expressa,	 para
eventual	 postulação	 da	 revisão	 de	 tese.	 Em	 relação	 a	 este	 último	 aspecto,	 que
será	aprofundado	em	capítulo	específico,	cabe	apenas	adiantar	que,	na	 redação
do	texto	aprovado,	o	art.	986	atribuía	a	revisão	aos	legitimados	então	indicados
no	 art.	 977,	 inciso	 II,	 que,	 quando	 aprovado	 no	 Senado,	 reunia	 as	 partes,	 o
11.5.3.
Ministério	Público	e	a	Defensoria	Pública.	No	entanto,	em	revisão	que	antecedeu
o	envio	para	a	 sanção	presidencial,	 realizou-se	o	desmembramento	do	art.	977
em	 três	 incisos	 e	 o	 art.	 986	 passou	 a	 se	 referir,	 em	 manifesta	 violação	 ao
processo	 legislativo,	apenas	ao	 inciso	 III.	Entretanto,	a	manutenção	das	partes,
como	 legitimadas	 para	 a	 revisão,	 não	 deve	 ser	 defendida	 apenas	 em	 razão	 do
indevido	processo	de	revisão,	mas	porque	possuem	direta	relação	com	a	questão
jurídica	apreciada	e	com	a	tese	firmada.
Ministério	Público
A	atuação	do	Ministério	Público	no	 Incidente	 de	Resolução	de	Demandas
Repetitivas	encontra	fundamento,	em	primeiro	lugar,	na	incumbência	de	defesa
da	 ordem	 jurídica,	 nos	 termos	 do	 art.	 127,	 caput,	 combinado	 com	 o	 art.	 129,
inciso	 IX,	 ambos	 da	 Constituição	 Federal.	 No	 caso,	 a	 função	 que	 lhe	 foi
conferida	pelo	Código	de	Processo	Civil,	nos	arts.	976,	§	2º,	e	977,	inciso	III,	é
compatível	 com	 a	 defesa	 da	 ordem	 jurídica,	 considerando	 o	 caráter
uniformizador	do	direito	a	ser	aplicado,	em	prol	do	princípio	da	isonomia	e	da
segurança	 jurídica,	 bem	 como	 do	 acesso	 à	 justiça,	 da	 duração	 razoável	 dos
processos	e	da	economia	processual.	Por	isso,	ainda	quando	não	for	parte,	deverá
zelar	para	que	o	IRDR	busque	a	consecução	destes	valores,	mediante	o	devido
processo	legal.
Em	segundo	lugar,	o	funcionamento	do	Ministério	Público	poderá	também,
eventualmente,	 estar	 voltado	 para	 a	 proteção	 de	 interesses	 coletivos,	 quando	 a
questão	comum	estiver	relacionada	a	direitos	individuais	homogêneos,	entende-
se	que	estes	estão	contidos	na	parte	final	do	inciso	III	do	art.	129	da	Constituição
da	 República.	 Como	 já	 mencionado,	 o	 IRDR	 poderá	 ser	 suscitado	 para	 a
resolução	de	questão	comum	de	direito.	Portanto,	sendo	possível	a	sua	utilização
para	 a	 resolução	 de	 questão	 de	 direito	 comum,	 de	 mérito	 ou	 processual,	 em
processos	cujas	demandas	poderão	ostentar	um	caráter	heterogêneo	em	relação
às	 demandas	 formuladas.	Entretanto,	 e	 provavelmente	 na	maioria	 dos	 casos,	 o
incidente	 servirá,	 como	 o	 próprio	 nome	 indica,	 para	 a	 elucidação	 de	 questão
pertinente	 a	demandas	 repetitivas,	 nas	quais	 são	pleiteados	direitos	 individuais
11.5.4.
11.6.
homogêneos.	Sendo	assim,	a	presença	do	Ministério	Público	se	 fará	necessária
para	 a	 proteção	 dos	 interesses	 coletivos,	 atuando	 na	 condição	 de	 parte	 ou	 em
função	da	sua	intervenção	obrigatória.
Defensoria	Pública
A	Defensoria	Pública	poderá	cumprir	um	importante	papel	no	Incidente	de
Resolução	de	Demandas	Repetitivas.	A	nova	incumbência	dá	prosseguimento	a
uma	 trajetória	 em	 que	 a	 Defensoria	 deixou	 de	 ter	 uma	 atuação	 apenas	 como
representante	judicial	em	caráter	individual	para	assumir	um	papel	institucional
como	legitimado	extraordinário	para	a	defesa	de	direitos	e	 interesses	coletivos.
Representa,	assim,	um	salto	de	qualidade	nas	suas	funções,	pois	pode	deixar	de
ter	 um	 desempenho	 atomizado,	 para	 desenvolver	 um	 trabalho	 mais	 amplo,
molecularizado	e	mais	eficiente,	pois,	com	o	dispêndio	de	menos	recursos,	pode
pleitear	 e	obter	um	alcance	maior	para	 as	pretensões	que	 lhe	 chegam	no	dia	 a
dia.
O	pedido	de	instauração	poderá	ser	feito	não	apenas	quando	for	parte.	Mas
também	 quando	 verificar	 que	 já	 existem	 processos	 em	 profusão	 com	 uma
questão	jurídica	comum,	o	risco	de	ofensa	à	isonomia	e	à	segurança	jurídica	e	a
pertinência	das	demandas	ou	da	questão	comum	com	pessoas	necessitadas,	nos
termos	do	art.	134	da	Constituição	da	República.
Ressalte-se	 que	 o	 funcionamento	 da	 Defensoria	 Pública	 deve	 estar	 em
sintonia	com	as	incumbências	constitucionais,	ou	seja,	com	a	orientação	jurídica
e	defesa	dos	necessitados,	sem	que	esta	tenha	um	caráter	de	exclusividade.
DESPESAS	E	HONORÁRIOS	ADVOCATÍCIOS	NO	IRDR
O	§	5º	do	art.	976	estabeleceu	expressamente	que	não	serão	exigidas	custas
processuais	 no	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas.	 Não	 se
regulamentou,	 entretanto,	 as	 demais	 despesas,	 dentre	 as	 quais	 os	 honorários
advocatícios	 e	 a	 indenização	 de	 viagem	 (que	 pode	 ser	 necessária	 para	 o
deslocamento	 do	 advogado	 para	 a	 sede	 do	 TRF	 ou	 do	 TJ,	 bem	 como	 para	 o
Distrito	Federal,	 se	 interposto	 recurso	 especial	 ou	 extraordinário	 e	 o	 causídico
não	tiver	o	seu	escritório	no	Distrito	Federal).
A	 análise	 dos	 dispositivos	 relacionados	 aos	 honorários	 parece	 também
indicar	 no	 sentido	 de	 que	 no	 IRDR	 não	 haveráelementos	 já	 conhecidos	 e
consagrados	 no	direito	 nacional,	 provenientes	 de	 institutos	 como	os	 incidentes
de	uniformização	de	jurisprudência	e	de	declaração	de	inconstitucionalidade	nos
tribunais,	bem	como	os	recursos	repetitivos.
A	 simbiose	 propiciou	 a	 inventiva	 de	 um	 instituto	 processual	 com
características	próprias,	que	precisam	ser	devidamente	investigadas,	debatidas	e
testadas	à	luz	dos	debates	teóricos	e	dos	resultados	práticos.	Naturalmente,	esta
tese	 estará	 mais	 voltada	 para	 o	 primeiro	 aspecto,	 considerando	 ainda	 a
incipiência	da	sua	prática	pelos	tribunais.
O	 incidente	de	 resolução	de	demandas	 repetitivas	vem	despertando,	 desde
os	tenros	momentos	da	sua	concepção,	acalorados	debates	em	torno	de	variados
aspectos,	sobre	os	quais	este	trabalho	tentará	se	desenvolver,	de	modo	a	oferecer
subsídios	para	o	estudo,	o	conhecimento,	a	interpretação	e	a	aplicação	do	novel
instituto.
Na	primeira	parte,	o	autor	buscará	uma	definição	em	torno	da	identificação
e	posicionamento	do	incidente	de	resolução	de	demandas	repetitivas	no	cenário
jurídico	e	das	suas	principais	funções	no	contexto	sociojurídico	contemporâneo.
Em	seguida,	fará	uma	breve	incursão	no	direito	estrangeiro,	com	ênfase	no
direito	 alemão.	 Desde	 logo,	 constata-se	 a	 necessidade	 de	 maiores
esclarecimentos	quanto	ao	Musterverfahren,	surgido	a	partir	de	ousadas	práticas
judiciais	 realizadas	 no	 final	 do	 século	 passado,	 quando	 ainda	 inexistente
qualquer	previsão	legal	expressa,	mas	que	foram	chanceladas	pela	Corte	Federal
Constitucional	 alemã	 e	 depois	 incorporadas	 na	 legislação.	 Os	 dois	 sistemas
existentes	na	Alemanha,	do	direito	público	e	do	direito	privado,	serão	analisados
em	separado.
A	genealogia	do	incidente	no	direito	nacional	será	resgatada	e	analisada	na
sequência,	bem	como	tecidas	considerações	correlatas	em	torno	do	arcabouço	da
jurisprudência	e	dos	precedentes,	tendo	em	vista	o	aspecto	vinculativo	das	teses
firmadas	 no	 procedimento	 padrão.	 Esta	 parte	 será	 canalizada	 para	 o	 capítulo
seguinte,	 sobre	 a	 natureza	 jurídica	 do	 incidente	 de	 resolução	 de	 demandas
repetitivas.
A	 análise	 dos	 aspectos	 fundamentais	 supramencionados	 será
complementada	 com	 a	 abordagem	 dos	 seus	 pressupostos	 processuais,	 do
cabimento	do	incidente	e	dos	seus	requisitos,	levando-se	em	conta	a	legitimidade
para	 a	 provocação	 do	 instituto	 e	 a	 competência	 para	 a	 sua	 admissibilidade	 e
julgamento.
As	normas	 e	 questões	 pertinentes	 ao	 procedimento	 e	 ao	 sistema	do	 IRDR
serão	 sopesadas	 depois	 em	 capítulos	 destinados	 à	 necessária	 e	 diferenciada
publicidade,	 à	 suspensão	 dos	 processos	 e	 às	 respectivas	 garantias	 a	 serem
observadas,	à	fase	preparatória	e	ao	julgamento	do	incidente.
Por	fim,	serão	enfrentados	os	assuntos	pertinentes	aos	recursos,	à	aplicação
da	tese	jurídica	aos	casos	concretos	e	da	possibilidade	de	soluções	consensuais
no	bojo	do	incidente	de	resolução	de	demandas	repetitivas.
As	 indagações	 em	 torno	 da	 denominação,	 da	 constitucionalidade,	 das
funções,	 da	 natureza,	 da	 eficiência,	 dos	 requisitos	 de	 admissibilidade,	 da
competência,	 da	 legitimidade,	 dos	mecanismos	 relacionados	 ao	 funcionamento
do	 instituto,	 do	 julgamento,	 da	 tese	 firmada,	 da	 sua	 aplicação	 vinculativa,	 do
cabimento	 direto	 dos	 recursos	 especial	 e	 extraordinário	 contra	 a	 decisão	 de
mérito	 proferida	 e	 da	 possibilidade	 de	 soluções	 consensuais	 no	 curso	 do
incidente	 de	 resolução	 de	 demandas	 repetitivas	 serão	 ponderadas	 dentro	 da
hipótese	de	investigação	se	o	instituto	processual	analisado	pode	ser	considerado
um	 efetivo	 meio	 para	 propiciar	 ou	 colaborar	 para	 a	 consecução	 da	 economia
processual,	 da	 duração	 razoável	 dos	 processos,	 da	 isonomia	 e	 da	 segurança
jurídica.
O	Direito	Processual	não	representa	a	panaceia	para	todos	os	problemas	da
humanidade.	Por	certo,	não	pode	e	não	deve	se	encantar	com	devaneios,	ainda
que	teóricos,	ou	falsas	promessas.	Contudo,	tem	a	missão	de	perseguir,	estudar	e
construir	os	meios	mais	adequados	para	a	preservação	dos	direitos.	A	tese	aqui
esposada	 e	 que	 se	 tentará	 demonstrar	 é	 a	 de	 que	 o	 incidente	 de	 resolução	 de
demandas	 repetitivas	 encontra-se	 em	 sintonia	 com	 as	 normas	 e	 os	 propósitos
constitucionais	relacionados	à	prestação	jurisdicional.	Para	tanto,	o	instituto	deve
ser	 concebido,	 interpretado	e	 aplicado	em	sintonia	 com	estes	valores,	 como	 se
tentará	sistematizar	e	apontar	a	seguir.
O	 atual	 Código	 de	 Processo	 Civil	 (CPC)1	 brasileiro,	 Lei	 nº	 13.105,	 de
16.03.2015,	representa,	por	certo,	um	marco	para	o	estudo	do	Direito	Processual
não	apenas	no	âmbito	nacional,	mas	também	no	cenário	internacional,	em	razão,
principalmente,	das	inovações	contidas	na	sua	nova	redação.	Dentre	estas,	uma
das	suas	grandes	apostas,	se	não	a	maior,	é	o	novel	 Incidente	de	Resolução	de
Demandas	Repetitivas	(IRDR),	inserido	no	Capítulo	VIII,	com	a	denominação	e
conteúdo	 destinado	 exclusivamente	 ao	 instituto,	 do	 Título	 I	 (Da	 Ordem	 dos
Processos	e	dos	Processos	de	Competência	Originária	dos	Tribunais),	no	Livro
III	 (Dos	 Processos	 nos	 Tribunais	 e	 dos	 Meios	 de	 Impugnação	 das	 Decisões
Judiciais),	da	Parte	Especial.
A	 gênese	 do	 instituto	 ocorreu	 no	 seio	 da	 Comissão	 do	 Senado,	 quando	 a
Comissão,	 presidida	 por	Luiz	Fux,	 estabeleceu,	 como	metodologia	 inicial,	 que
cada	 um	 dos	 seus	 membros	 apresentasse	 um	 rol	 de	 sugestões	 a	 serem
incorporadas	 no	 estatuto	 que	 se	 pretendia	 elaborar.	Na	 sequência,	 Paulo	Cezar
Pinheiro	 Carneiro	 encaminhou	 a	 ideia	 da	 criação	 do	 instituto	 inicialmente
denominado	de	Incidente	de	Coletivização.	A	proposta	levava	em	consideração	o
desejo	de	fortalecimento	dos	precedentes,	mas	pretendia	também	ter	um	caráter
preventivo	 a	 partir	 da	 própria	 potencialidade	 aferida	 na	 primeira	 instância,
diferenciando-se,	 assim,	 do	 então	 vigente	 incidente	 de	 uniformização	 da
jurisprudência.	 Por	 sua	 vez,	 não	 se	 desejava	 concorrer	 com	 os	 trabalhos	 que
estavam	sendo	empreendidos	pela	Comissão	de	Juristas,	nomeada	pelo	Ministro
da	 Justiça,	 para	 a	 elaboração	 de	 um	 anteprojeto	 de	 nova	 Lei	 da	 Ação	 Civil
Pública,	que	resultou	no	Projeto	de	Lei	nº	5.139/2009.
Em	janeiro	de	2010,	em	documento2	subscrito	por	seu	presidente,	Luiz	Fux,
a	 Comissão	 de	 Juristas	 torna	 público	 as	 linhas	 mestras	 do	 que	 seria	 o	 novo
Estatuto	 Processual,	 exteriorizando,	 logo	 no	 seu	 limiar,	 que	 se	 construiu	 “a
proposta	 de	 instituição	 de	 um	 incidente	 de	 coletivização	 dos	 denominados
litígios	 de	massa,	 o	 qual	 evitará	 a	multiplicação	 das	 demandas,	 na	medida	 em
que	 o	 seu	 reconhecimento	 numa	 causa	 representativa	 de	 milhares	 de	 outras
idênticas,	 imporá	 a	 suspensão	 de	 todas,	 habilitando	 o	 magistrado	 na	 ação
primeira,	dotada	de	amplíssima	defesa,	com	todos	os	recursos	previstos	nas	leis
processuais,	 proferir	 uma	 decisão	 com	 largo	 espectro,	 definindo	 o	 direito
controvertido	 de	 tantos	 quantos	 se	 encontram	 na	 mesma	 situação	 jurídica,
trazendo	 uma	 solução	 de	 mérito	 consagradora	 do	 princípio	 da	 isonomia
constitucional”.	 No	 próprio	 documento,	 se	 indicava	 que	 se	 tratava	 de
denominação	provisória,	tendo	contribuído,	por	certo,	para	a	sua	modificação,	as
dificuldades	com	que	se	deparou,	naquele	momento,	o	referido	Projeto	de	nova
Lei	da	Ação	Civil	Pública.
O	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 encontra-se	 regulado
em	 doze	 artigos	 (976	 a	 987),	 no	 novo	 CPC.	 Embora	 tenha	 sido	 objeto	 de
discussões	 ao	 longo	 da	 tramitação	 legislativa,	 é	 um	 instrumento	 novo	 no
ordenamento	 brasileiro	 e	 que	 também	 não	 seguiu	 um	 padrão	 completamente
coincidente	 com	 os	 meios	 similares	 existentes	 no	 direito	 estrangeiro,
notadamente	 a	 sua	 principal	 fonte	 externa,	 ou	 seja,	 o	 Musterverfahren
(Procedimento	Modelo)	alemão.
A	realidade	do	século	XXI	vemapontando	para	a	conjugação	de	elementos
que	confluem	para	o	incremento	progressivo	de	conflitos	em	massa	e	da	procura
de	 mecanismos	 de	 solução	 dos	 litígios	 em	 escala.	 O	 aumento	 da	 população,
especialmente	sentido	em	países	continentais,	como	o	Brasil,	é	um	dos	fatores.
Por	 outro	 lado,	 a	 melhoria	 gradativa	 das	 condições	 de	 vida,	 do	 acesso	 às
informações	 e	 à	 educação	 impulsiona	 o	 esclarecimento,	 propiciando	 o	 que
Norberto	Bobbio	denominou	de	“era	dos	direitos”,	com	efeitos	multiplicadores
nos	Estados	Democráticos	de	Direito.
O	desaguadouro	natural	das	esperanças,	desilusões	e	pretensões	passa	a	ser
o	Poder	Judiciário,	que,	por	sua	vez,	também	sofre	com	as	limitações	de	recursos
materiais	e	humanos	para	fazer	diante	do	desabrochar	desta	procura	incessante	e
crescente.
Busca-se,	 assim,	 a	 racionalização	 e	 eficiência	 dos	meios	 processuais,	 que
precisam	se	reinventar	para	fazer	frente	às	novas	demandas.	Neste	cenário,	é	que
se	inserem	os	mecanismos	que	possam	tentar	realizar	a	árdua	tarefa	de	julgar	os
litígios	 envolvendo	 direitos	 individuais	 homogêneos	 de	 centenas,	 milhares	 ou
milhões	de	pessoas,	mediante	uma	ou	poucas	ações	coletivas	ou	outros	meios	de
resolução	coletiva	de	demandas	repetitivas,	de	massa	ou	plúrimas.	E	também	os
instrumentos	 voltados	 para	 a	 solução	 de	 questões	 comuns	 enfrentadas	 pelos
órgãos	 judiciários,	 ainda	 que	 em	 demandas	 heterogêneas,	 com	 o	 escopo	 de	 se
garantir,	ao	mesmo	tempo,	a	economia	processual	e	o	princípio	da	isonomia3.
O	 fenômeno	 acima	vem	ocorrendo	 não	 apenas	 na	 realidade	 nacional,	mas
ainda	 que	 com	 graus	 diferenciados,	 considerando	 fatores	 variados,	 como	 a
dimensão	 do	 país,	 o	 quantitativo	 populacional	 e	 a	 sua	 maior	 ou	 menor
concentração,	aspectos	culturais,	econômicos	e	políticos,	praticamente,	em	todo
o	cenário	mundial	e	de	modo	crescente.
Neste	 contexto,	 a	 primeira	 afirmação	 que	 se	 procura	 desenvolver	 neste
trabalho	 é	 no	 sentido	 de	 que	 o	 novo	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas
Repetitivas	está	 inserido	no	âmbito	do	Direito	Processual	Coletivo.	Este	 ramo,
por	 sua	 vez,	 pode	 ser	 subdividido	 em	 três	 subáreas:	 a)	 as	 ações	 coletivas	 ou
representativas	propriamente	ditas,	incluindo	as	suas	várias	subespécies,	como	as
class	 actions,	 as	 ações	 associativas	 (Verbandsklagen),	 ação	 civil	 pública,	 ação
popular,	ações	de	grupo	etc.;	b)	os	meios	consensuais	de	resolução	de	conflitos
coletivos,	 como	 os	 termos	 de	 ajustamento	 de	 conduta;	 c)	 os	 instrumentos	 de
solução	 de	 questões	 comuns	 ou	 de	 julgamentos	 a	 partir	 de	 procedimentos	 ou
casos-modelo,	 como	 as	 test-claims	 (ações	 ou	 demandas	 teste),	 o
Musterverfahren	 (procedimento-modelo),	 o	 Group	 Litigation	 Order	 (GLO)
(Decisão	 sobre	 o	 litígio	 de	 grupo),	 os	 recursos	 repetitivos	 e	 o	 Incidente	 de
Resolução	de	Demandas	Repetitivas	(IRDR)4-5.
Embora	 o	 IRDR	 esteja	 previsto	 no	 Código	 de	 Processo	 Civil,	 a	 sua
aplicação	não	se	encontra	limitada	ao	âmbito	do	Processo	Civil,	tendo	em	vista
que,	 em	 princípio,	 não	 se	mostra	 incompatível	 com	 outros	 ramos	 específicos,
como	o	Processo	Penal,	do	Trabalho	ou	Eleitoral.
O	 art.	 15	 do	 novo	 Código	 de	 Processo	 Civil	 estabelece	 que	 as	 suas
disposições	se	aplicam,	supletiva	e	subsidiariamente,	na	ausência	de	normas	que
regulem	os	processos	eleitorais,	trabalhistas	ou	administrativos.
Por	sua	vez,	o	art.	4º	da	Lei	de	Introdução	às	normas	do	Direito	Brasileiro	já
aponta,	de	longa	data,	que,	quando	a	lei	for	omissa,	o	juiz	decidirá	com	base	na
analogia,	 costumes	 e	 nos	 princípios	 gerais	 do	 direito.	 No	 âmbito	 do	 Direito
Processual,	há	normas	gerais	previstas	na	Constituição	da	República,	em	tratados
e	em	leis	ordinárias,	ao	lado	de	regras	específicas	aplicáveis	apenas	ao	processo
civil,	trabalhista,	penal	ou	eleitoral.	Em	outra	obra6,	o	autor	pode	assinalar	que	o
“direito	 processual	 civil	 é	 o	 que	 possui	 uma	 maior	 abrangência,	 porque	 não
cuida	propriamente	apenas	da	matéria	civil,	mas,	sim,	por	exclusão,	o	que	não	se
encontra	 abrangido	 pelo	 processo	 penal	 ou	 do	 trabalho.	 Por	 conseguinte,	 as
normas	 processuais	 civis,	 na	 verdade,	 estarão	 sendo	 aplicadas	 nos	 processos
envolvendo,	por	exemplo,	matéria	constitucional,	civil,	administrativa,	tributária,
ambiental	e	empresarial”.	Exatamente	em	razão	desta	maior	amplitude,	é	que	as
suas	normas	acabam	regulando	mais	institutos	gerais,	a	ponto	de	ser	denominado
de	 direito	 processual	 comum	 pela	 Consolidação	 das	 Leis	 do	 Trabalho,	 e,
portanto,	 servindo	 como	 fonte,	 supletiva	 e	 subsidiária,	 para	 os	 demais	 ramos
processuais.
O	art.	15	alcança	os	processos	judiciais	e	administrativos.	É	de	se	registrar	a
ausência	 de	 referência	 expressa	 em	 relação	 ao	 processo	 penal.	 Contudo,	 a
omissão	 não	 deve	 ser	 interpretada	 como	 exclusiva.	 Isso	 porque,	 diante	 da
omissão	de	norma	específica,	aplicar-se-á,	à	luz	do	art.	4º	da	Lei	de	Introdução
às	 Normas	 do	 Direito	 Brasileiro	 e	 do	 próprio	 art.	 3º	 do	 Código	 de	 Processo
Penal,	a	analogia	e	os	princípios	gerais	do	direito.
O	 novel	 art.	 15	 reforça	 o	 que	 já	 se	 encontrava	 disposto	 no	 art.	 769	 da
Consolidação	 das	 Leis	 do	 Trabalho,	 em	 relação	 aos	 processos	 trabalhistas.	 E
supre	omissão	existente	no	Código	Eleitoral,	que	fazia	remissão,	no	art.	364,	tão
somente	 ao	 Código	 de	 Processo	 Penal,	 para	 os	 processos	 e	 julgamentos	 dos
crimes	eleitorais.
O	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 integra	 o	 objeto	 de
estudo	mais	 específico	 do	Direito	 Processual	Coletivo7,	 considerando	 que	 este
congrega	 (a)	 as	 ações	 coletivas;	 (b)	 as	 soluções	 consensuais	 para	 conflitos
coletivos;	e	(c)	outros	meios	de	resolução	coletiva	de	questões	comuns	e	litígios
coletivos.
O	Direito	Processual	Coletivo	pode	ser	concebido	como	o	ramo	do	Direito
que	se	ocupa	do	conjunto	de	princípios,	normas	e	institutos	jurídicos	vinculados
aos	 meios	 de	 resolução	 de	 questões	 comuns	 e	 conflitos	 coletivos,	 no	 âmbito
jurisdicional	ou	extrajudicial.
O	Direito	 Processual	Coletivo	 possui	 ampla	 ligação	 com	outros	 ramos	 do
Direito.	 Em	 primeiro	 lugar,	 com	 a	 Teoria	 Geral	 do	 Processo	 e	 os	 respectivos
ramos	do	Direito	Processual	Civil,	do	Direito	Processual	do	Trabalho	e	mesmo
do	Direito	Processual	Penal.
Está	 relacionado	 também	 intrinsecamente	 com	 o	 Direito	 Constitucional,
considerando	 que	 a	 Carta	 Magna	 prevê	 inúmeros	 princípios	 e	 garantias
constitucionais	relacionados	com	o	Direito	Processual	e,	em	especial,	no	que	diz
respeito	 aos	 conflitos	 e	 incidentes	 de	 natureza	 ou	 efeitos	 coletivos.	 Nesse
sentido,	 a	 inafastabilidade	da	 prestação	 jurisdicional	 no	 âmbito	 coletivo,	 como
inscrito	atualmente	em	diversas	Constituições,	como	a	brasileira,	a	portuguesa	e
a	 argentina,	 e	 também	 como	 um	 dever	 do	 Estado,	 conforme	 decidido	 pela
Suprema	Corte	Canadense	no	caso	Western	Canadian	Shopping	Centres	Inc.	V.
Dutton8.	 Do	 mesmo	 modo,	 os	 princípios	 do	 devido	 processo	 legal,	 do
contraditório	 e	 da	 ampla	 defesa,	 da	 publicidade	 e	 da	 celeridade	 possuem
importância	e	aplicação	especial	na	esfera	do	Direito	Processual	Coletivo,	tendo
em	vista	a	irradiação	dos	pronunciamentos	proferidos	e	a	possibilidade	de	serem
1
2
atingidas	as	denominadas	“partes	ausentes”	ou	interessados.
Naturalmente,	os	instrumentos	do	Direito	Processual	Coletivo	possuem	uma
aplicabilidade	maior	 no	 âmbito	 do	Direito	 Processual	Civil9,	mas	 também	 são
muito	 importantes	 na	 esfera	 do	 Direito	 Processual	 do	 Trabalho	 e	 podem	 ser
aplicados	eventualmente	na	seara	do	Direito	Processual	Penal	e	Eleitoral.
A	elaboração	do	novo	Estatuto	Processual	Civil	iniciou-se	formalmente,	no
Senado	 Federal,	 com	 a	 nomeação,	 pelo	 Ato	 nº	 379,	 de	 30.09.2009,	 de
Comissão	 de	 Juristas,	 presidida	 pelo	 Professor	 e	 Ministro	 do	 Supremo
Tribunal	Federal	Luiz	Fux,	tendo	comoRelatora	a	Professora	Teresa	Arruda
Alvim,	 composta	 pelos	 professores	 Adroaldo	 Furtado	 Fabrício,	 Benedito
Cerezzo	Pereira	Filho,	Bruno	Dantas,	Elpídio	Donizetti	Nunes,	Humberto
Theodoro	 Júnior,	 Jansen	Fialho	 de	Almeida,	 José	Miguel	Garcia	Medina,
José	Roberto	dos	Santos	Bedaque,	Marcus	Vinicius	Furtado	Coelho	e	Paulo
Cesar	 Pinheiro	 Carneiro.	 Em	 08.06.2010,	 a	 Comissão	 encaminha	 o
Anteprojeto	ao	Senador	José	Sarney,	que,	na	mesma	data,	o	apresenta	como
Projeto	 de	 Lei	 do	 Senado	 nº	 166.	 No	 dia	 15.12.2010,	 é	 aprovado,	 no
Senado,	Substitutivo	apresentado,	sendo	remetido	à	Câmara	dos	Deputados.
Na	Câmara	 dos	Deputados,	 é	 recebido,	 em	22.12.2010,	 Projeto	 de	Lei	 nº
8.046/2010.	Depois	de	longo	período	em	que	houve	amplo	debate	nacional,
é	 chancelado	 na	Câmara	 novo	 Substitutivo,	 no	 dia	 26.03.2014.	 Em	 razão
das	 modificações	 realizadas	 na	 Câmara,	 retorna	 ao	 Senado,	 onde	 é
aprovado,	no	dia	17.12.2014,	novo	Substitutivo	oferecido	no	Senado,	com
modificações.	 Em	 seguida,	 é	 realizada	 revisão	 final	 de	 redação	 e
encaminhado	 à	 sanção	 presidencial,	 ocorrida	 no	 dia	 16.03.2015,	 com	 a
publicação	da	Lei	nº	13.105	no	dia	17.03.2015	e	entrada	em	vigor	no	dia
18.03.2016.	Em	relação	ao	IRDR,	é	de	se	notar	as	variações	em	torno	das
concepções	e	do	texto	em	cada	uma	das	fases	do	processo	legislativo,	o	que
será	oportunamente	destacado,	em	diversos	momentos	do	presente	trabalho,
especialmente	quando	se	mostrar	relevante	para	a	interpretação	e	aplicação
do	instituto	em	muitos	aspectos.
A	 íntegra	 do	 documento	 pode	 ser	 encontrada	 em:
.	 Acessado	 em
https://www.senado.gov.br/se-nado/novocpc/pdf/1a_e_2a_Reuniao_PARA_grafica.pdf
3
4
5
03.11.2016.
Nesse	sentido,	a	lição	de	Cândido	Rangel	Dinamarco	e	Bruno	Vasconcelos
Carrilho	Lopes:	“A	implantação	dessa	técnica	insere-se	no	contexto	de	um
movimento	voltado	a	superar	os	inconvenientes	dos	microprocessos	que	se
multiplicam	 às	 dezenas,	 centenas	 ou	 quiçá	milhares,	 todos	 portadores	 da
mesma	 questão	 jurídica	 a	 ser	 decidida	 tantas	 vezes	 quantos	 forem	 esses
microprocessos.	 Quando	 tantos	 casos	 tramitam	 isoladamente	 pelo	 Poder
Judiciário,	 sua	 dispersão	 e	 a	 repetição	 do	 julgamento	 da	mesma	quaestio
juris	 constituem	 fatores	 perversos	 de	 contrariedade	 à	 promessa
constitucional	de	tutela	jurisdicional	em	tempo	razoável	(Const.,	art.	5º,	inc.
LXXVIII),	 além	 de	 atentarem	 contra	 o	 desiderato	 de	 harmonia	 entre
julgados”,	em	Teoria	Geral	do	novo	Processo	Civil:	de	acordo	com	a	Lei
13.256,	de	4.2.2016,	 São	Paulo:	Malheiros,	 2016,	 p.	 216,	 no	 item	154.	O
recurso	 especial	 e	 o	 recurso	 extraordinário	 repetitivos	 e	 o	 incidente	 de
resolução	de	demandas	repetitivas.
A	correlação	é	 feita	por	Luiz	Fux:	“Esse	quantitativo	de	demandas	estava
intimamente	 vinculado	 ao	 denominado	 “contencioso	 de	massas”,	 no	 qual
milhares	 de	 ações	 em	 trâmite	 no	 território	 nacional	 versavam	 a	 mesma
questão	 jurídica,	 revelando	 ações	 homogêneas	 que	 não	 deviam	 ser
reguladas	 processualmente	 como	 aquelas	 que	 compõem	a	 litigiosidade	 de
varejo.	Erigiu-se,	então,	o	denominado	incidente	de	resolução	de	demandas
repetitivas	 instaurado	 em	 cada	 unidade	 da	 federação,	 perante	 o	 primeiro
grau	 de	 jurisdição	 para	 o	 tribunal,	 possibilitando	 ao	 juiz,	 às	 partes,	 à
Defensoria	Pública	ou	ao	Ministério	Público	provocarem	uma	manifestação
dos	 tribunais	 locais	 sobre	as	 ações	com	 identidade	de	questões	 jurídicas”,
em	Teoria	Geral	do	Processo,	2.	ed.,	Rio	de	Janeiro:	Forense,	2016,	p.	37.
Humberto	Theodoro	 Júnior,	 na	mesma	direção,	 aponta	 que:	 “A	 sociedade
contemporânea	 sofreu	 profunda	 modificação	 no	 que	 toca	 aos	 conflitos
jurídicos	 e	 aos	 meios	 de	 sua	 resolução	 em	 juízo.	 As	 crises	 de	 direito
deixaram	de	se	instalar	apenas	sobre	as	relações	entre	um	e	outro	indivíduo
e	se	expandiram	para	compreender	outras	numerosas	relações	plurilaterais,
ensejadoras	 de	 conflitos	 que	 envolvam	 toda	 a	 coletividade	 ou	 um	 grande
número	de	seus	membros.	Surgiram,	assim,	os	conflitos	coletivos,	a	par	dos
sempre	 existentes	 conflitos	 individuais.	 É	 que	 o	 relacionamento	 social
passou,	 cada	 vez	 mais,	 a	 girar	 em	 torno	 de	 interesses	 massificados,
interesses	 homogêneos,	 cuja	 tutela	 não	 pode	 correr	 o	 risco	 de	 ser
dispensada	 pela	 Justiça	 de	 maneira	 individual	 e	 distinta,	 isto	 é,	 com	 a
6
7
possibilidade	 de	 soluções	 não	 idênticas,	 caso	 a	 caso.	 Esse	 risco	 põe	 em
xeque	a	garantia	basilar	da	democracia,	qual	 seja,	 a	de	que,	perante	a	 lei,
todos	 são	 necessariamente	 iguais.	 Se	 assim	 é,	 no	 plano	 dos	 direitos
materiais,	 também	 assim	haverá	 de	 ser	 no	 plano	 do	 acesso	 à	 justiça	 e	 da
tutela	 jurisdicional	 proporcionada	 a	 cada	um	e	 a	 todos	que	demandam.	A
igualdade	 em	 direitos	 seria	 quimérica,	 se	 na	 solução	 das	 crises	 fossem
desiguais	 as	 sentenças	 e	os	provimentos	 judiciais.	Os	 tribunais	modernos,
portanto,	 têm	 de	 se	 aparelhar	 de	 instrumentos	 processuais	 capazes	 de
enfrentar	 e	 solucionar,	 com	 adequação	 e	 efetividade,	 os	 novos	 litígios
coletivos,	ou	de	massa.	Dessa	constatação	da	realidade,	nasceram	diversos
tipos	 de	 tutela	 judicial	 coletiva,	 ora	 como	modalidade	 de	 ações	 coletivas
(em	que	num	só	processo	se	define	solução	uniforme	e	geral	para	um	grupo
de	 titulares	 de	 direitos	 individuais,	 semelhantes),	 ora	 como	 incidente
aglutinador	de	ações	originariamente	singulares	(por	meio	do	qual	uma	só
decisão	se	estende	às	diversas	causas	individuais	de	objeto	igual).	Exemplo
típico	de	ação	coletiva	é	a	ação	civil	pública	manejada	por	um	só	autor,	mas
em	 defesa	 de	 um	 grupo	 de	 titulares	 de	 direitos	 subjetivos	 iguais,
qualificados	 como	 direitos	 individuais	 homogêneos.	 Exemplo	 típico	 de
incidente	 de	 potencial	 efeito	 expansivo	 a	 mais	 de	 uma	 causa	 é	 o	 de
uniformização	 de	 jurisprudência	 do	 CPC/1973,	 assim	 como	 o	 do	 sistema
instituído	pelo	CPC/2015	de	julgamento	de	recursos	repetitivos,	no	âmbito
do	 STF	 e	 do	 STJ,	 e	 o	 de	 assunção	 de	 competência.	 O	 Novo	 Código	 de
Processo	 Civil	 deu	 um	 grande	 passo	 no	 terreno	 da	 coletivização	 da
prestação	 jurisdicional	 instituindo	 um	 novo	 incidente	 processual,	 a	 que
atribuiu	 o	 nome	 de	 incidente	 de	 resolução	 de	 demandas	 repetitivas	 (arts.
976	 a	 987),	 e	 cuja	 aplicação	 é	 ampla,	 já	 que	 pode	 acontecer	 perante
qualquer	 tribunal,	seja	da	Justiça	dos	Estados,	seja	da	Justiça	Federal”,	no
Curso	de	Direito	Processual	Civil	–	v.	III,	49.	ed.	Rio	de	Janeiro:	Forense,
2016,	p.	906.
MENDES,	Aluisio	Gonçalves	de	Castro.	Teoria	Geral	do	Processo.	Rio	de
Janeiro:	Lumen	Juris,	2009,	p.	5.
O	autor	procurou	desenvolver	mais	a	ideia	de	perspectiva	multiportas	para	a
resolução	coletiva	de	conflitos	e	de	questões	comuns	no	trabalho	O	direito
processual	 coletivo	 e	 o	 novo	 código	 de	 processo	 civil:	 Estudos	 em
homenagem	 ao	 Professor	 e	 Jurista	 Luiz	 Fux,	 in:	ALVIM,	 Teresa	Arruda;
BEDAQUE,	José	Roberto	dos	Santos;	CARNEIRO,	Paulo	Cezar	Pinheiro;
MENDES,	Aluisio	Gonçalves	de	Castro;	O	novo	processo	civil	brasileiro:
8
9
temas	relevantes	–	Estudos	em	homenagem	ao	Professor,	Jurista	e	Ministro
Luiz	Fux.	São	Paulo:	Revista	dos	Tribunais,	2017	(no	prelo).
MENDES,	 Aluisio	 Gonçalves	 de	 Castro.	 Ações	 coletivas	 e	 meios	 de
resolução	coletiva	de	conflitos	no	direito	comparado	e	nacional.	4.	ed.	São
Paulo:	Revista	dos	Tribunais,	2014,	p.	149	e	399-416.
É	de	se	registrar	que	o	campo	do	Direito	Processual	Civil	pode	ser	mais	ou
menos	amplo,	de	acordo	com	o	ordenamento	nacional,	pois	podem	existir
subdivisões	 internas	 variadas	 no	 Direito	 Processual.	 Por	 exemplo,	 na
Alemanha,	 há	 o	 Direito	 Processual	 Administrativo,	 que	 é	 aplicado	 aos
litígios	 judiciais	 relacionados	 às	 causas	 envolvendo	 a	 Administração
Pública.
Capítulo	2
AS	FUNÇÕESDO	INCIDENTE	DE
RESOLUÇÃO	DE	DEMANDAS	REPETITIVAS
NO	CONTEXTO	SOCIOJURÍDICO	DO	MUNDO
CONTEMPORÂNEO
O	Incidente	de	Resolução	de	Demandas	Repetitivas	não	pode	ser	visto	como
uma	solução	mágica1	 e	 única	para	 os	 problemas	que	 afligem	o	 tratamento	dos
litígios	 no	 Brasil.	 É	 preciso	 compreendê-lo,	 em	 primeiro	 lugar,	 dentro	 de	 um
conjunto	 de	 instrumentos	 no	 seio	 do	Direito	 Processual	 Coletivo,	 ao	 lado	 das
ações	coletivas	e	dos	meios	adequados	e	consensuais	de	resolução	coletiva	das
lides.	 E	 que	 dialoga	 com	 soluções	 dentro	 de	 todo	 o	 Direito	 Processual,	 bem
como	 com	 modificações	 estruturais,	 de	 gestão	 e	 culturais.	 Contudo,	 é,	 sem
dúvida,	um	dos	principais	instrumentos	para	a	consecução	das	funções	almejadas
pelo	novo	Código	de	Processo	Civil2.
Naturalmente,	 por	 razões	 metodológicas,	 este	 texto	 não	 pretende	 avançar
sobre	as	questões	que	extrapolam	o	objetivo	do	trabalho.	Mas,	como	se	poderá
perceber	com	facilidade,	os	três	aspectos	acima	mencionados	(estrutura,	gestão	e
cultura)	 possuem	 importância	 capital	 para	 o	 próprio	 sucesso	 do	 novo
instrumento.
Como	 se	 verá	 adiante,	 o	 IRDR	 está	 voltado,	 precipuamente,	 para	 a
racionalização	dos	julgamentos,	a	partir	da	solução	de	questões	jurídicas	comuns
que	se	repetem	em	inúmeros	processos	e	que	são	apreciadas	exaustivamente	por
inúmeros	 magistrados,	 que	 acabam	 chegando,	 muitas	 vezes,	 a	 conclusões
diversas.	 A	 demanda	 em	 relação	 à	 prestação	 jurisdicional	 é	 extraordinária	 e
2.1.
supera	 a	 capacidade	 de	 oferta	 de	 uma	 prestação	 jurisdicional	 qualitativa	 e
tempestivamente	satisfatória.	A	falta	de	uniformidade	nos	julgamentos	propicia,
por	outro	lado,	a	sensação	de	incerteza	e	de	insegurança.
Para	 que	 o	 Incidente	 de	 Resolução	 de	 Demandas	 Repetitivas	 funcione	 e
produza	 os	 resultados	 esperados,	 há	 que	 encontrar	 tribunais	 e	 magistrados
preparados	para	 a	 nova	 sistemática.	Os	 juízes	 terão	que	 se	 desprender	 de	uma
cultura	 que	 acabou	 se	 consolidando	 de	 automatização	 na	 função	 de	 julgar	 as
questões	 e	 causas	 seriais.	O	mecanicismo	diante	 das	 demandas	 repetitivas	 terá
que	ceder	à	lógica	da	gestão,	na	qual	o	julgamento	reiterado	e	desenfreado	terá
que	 dar	 lugar	 à	 lógica	 da	 racionalização,	 em	 que,	 como	 se	 diz	 atualmente,	 o
“menos	pode	ser	mais”.	O	juiz	ou	o	tribunal	não	irá	julgar	logo	várias	demandas,
mas	 o	 próprio	 órgão	 julgador,	 as	 partes,	 o	Ministério	Público	 ou	 a	Defensoria
Pública	 poderá	 suscitar	 o	 incidente,	 sempre	 que	 se	 deparar	 com	 uma	 questão
jurídica	comum	relevante	para	 inúmeros	processos	 em	 tramitação.	Portanto,	 se
buscará	a	discussão	concentrada	sobre	a	questão	jurídica	comum,	de	modo	a	se
obter	 a	 uniformização.	 O	 resultado	 estatístico	 inicial	 e	 aparente	 pode	 ser	 até
inverso,	 pois	 a	 tendência	 imediata	 será	 o	 aumento	 dos	 acervos,	 em	 razão	 da
suspensão	 dos	 processos.	 Porém,	 em	 uma	 perspectiva	 mais	 prolongada	 e
duradoura,	 a	 economia	 e	 a	 racionalização	 poderão	 apresentar	 resultados
profícuos,	em	termos	de	qualidade	e	quantidade3.
Em	 seguida,	 serão	 analisados,	 de	 modo	 mais	 detalhado,	 o	 contexto
sociojurídico	relacionado	à	solução	dos	litígios	e	o	papel	dos	meios	de	resolução
de	 questões	 coletivas4	 e	 comuns,	 especialmente	 o	 Incidente	 de	 Resolução	 de
Demandas	Repetitivas.
ACESSO	À	JUSTIÇA	E	A	ECONOMIA	JUDICIAL	E
PROCESSUAL
O	Poder	Judiciário	possui	a	função	precípua	de	resolver	as	lides	existentes
na	sociedade.	Essa	tarefa,	por	vezes,	não	é	das	mais	fáceis,	 tendo	em	vista	não
apenas	 a	 complexidade	 das	 causas,	 mas,	 principalmente,	 nos	 dias	 de	 hoje,	 a
quantidade	 de	 processos5	 e	 a	 limitação	 dos	 recursos	 humanos	 e	 materiais
disponíveis6	para	a	pretendida	tarefa	judicante.	O	resultado	é	a	piora	da	prestação
jurisdicional,	tanto	sob	o	aspecto	do	tempo	como	da	qualidade.
A	simples	enumeração	de	alguns	dados	é	suficiente	para	atestar	o	problema
no	 Brasil.	 O	 Supremo	 Tribunal	 Federal7	 recebeu,	 no	 ano	 de	 1940,	 2.419
processos;	em	1970,	6.367	processos;	em	1980,	 foram	9.555;	dez	anos	depois,
18.564;	 no	 ano	 de	 2000	 o	 número	 atingiu	 o	 montante	 de	 105.307	 processos
protocolados;	 e	 em	 2006	 foram	 127.535.	 Com	 a	 adoção	 da	 exigência	 da
repercussão	geral	e	da	sistemática	dos	recursos	repetitivos8,	nos	termos	dos	arts.
543-A	e	543-B,	 introduzidos	no	CPC-1973,	pela	Lei	nº	11.418,	de	19.12.2006,
houve	 considerável	 redução	 nos	 números,	 embora	 a	 curva	 decrescente	 tenha
cessado	 em	 2011,	 retomando-se	 a	 escalada	 de	 aumento	 novamente	 em	 2012.
Portanto,	em	2007,	o	número	caiu	para	119.324.	E,	em	2011,	chegou	ao	patamar
mínimo	de	64.018	protocolados.	Mas,	em	2012,	subiu	para	72.148	e,	em	2015,
atingiu	 o	montante	 de	 93.503	 processos	 protocolados,	 dos	 quais	 65.108	 foram
distribuídos.	 No	 ano	 de	 2015,	 as	 estatísticas	 do	 Supremo	 Tribunal	 Federal
indicam	 que	 foram	 proferidas	 93.713	 decisões	 monocráticas	 e	 10.869
julgamentos	 colegiados.	 Tomando-se	 por	 base	 apenas	 os	 pronunciamentos
colegiados,	 foram	mais	 de	mil	 julgamentos	 colegiados	 por	mês,	 representando
cerca	de	250	por	semana.	Se	considerados	todos	os	pronunciamentos	proferidos
pela	Corte	Suprema,	houve	a	média	anual	de	9.500	processos	por	Ministro,	cerca
de	1.000	processos	por	mês,	250	por	semana	e	50	por	dia.
Cabe	 lembrar	 que	 o	 STF,	 na	 essência,	 é	 a	 Corte	 Constitucional	 brasileira
composta	de	apenas	11	Ministros.	Órgãos	semelhantes,	no	cenário	internacional,
apresentam	 realidade	 completamente	 diversa.	 A	 Suprema	 Corte	 americana
recebeu,	 em	 1945,	 1.460	 casos,	 em	 1960	 foram	 2.313	 e	 nos	 últimos	 anos,
aproximadamente,	 9.200	 petições	 por	 ano,	 das	 quais	 cerca	 de	 apenas	 100	 são
julgadas	em	plenário	com	sustentação	oral.	Em	Portugal,	entraram	no	Tribunal
Constitucional	571	processos	em	1994,	778	no	ano	2000	e	1.133	em	2006.
No	Superior	Tribunal	de	Justiça	brasileiro9,	nos	anos	de	1989	e	1990,	foram
distribuídos,	 respectivamente,	 6.103	 e	 14.087	 processos.	 Em	 2000,	 o	 número
subiu	 para	 150.738	 e,	 em	 2007,	 para	 313.364.	 No	 ano	 de	 2008,	 os	 recursos
especiais	 repetitivos	 foram	 introduzidos	 no	 ordenamento	 nacional,	 com	 o	 art.
543-C,	inserido	no	CPC-1973,	pela	Lei	nº	11.672,	de	08.05.2008,	regulamentado
pela	Resolução	 nº	 8,	 de	 07.08.2008.	No	 ano	 de	 2010,	 o	 número	 de	 processos
distribuídos	caiu	para	228.981.	Entretanto,	voltaram	a	subir	já	no	ano	seguinte,
2011,	 para	 290.901,	 e	 em	 2015	 alcançaram	 o	montante	 de	 332.905	 processos
distribuídos,	 o	maior	 patamar	 de	 todos	 os	 tempos	 no	 STJ.	 Tomando	 por	 base
estes	 últimos	 números	 e	 o	 fato	 de	 que	 três	 Ministros	 ficam	 praticamente
afastados	 da	 atuação	 nas	 Turmas	 e	 Seções,	 cada	Ministro	 recebeu	 uma	média
anual	 de	 11.000	 processos,	 ou	 seja,	 1.109	 processos	 novos	 por	 mês,	 277	 por
semana,	55	por	dia.
No	 Tribunal	 Superior	 do	 Trabalho10,	 por	 sua	 vez,	 o	 crescimento	 foi,	 do
mesmo	modo,	vertiginoso.	Entre	os	anos	de	1941	e	1945,	foram	recebidos	3.192
processos,	ou	seja,	uma	média	de	638	processos	por	ano.	O	número	praticamente
triplica	no	quinquênio	seguinte,	passando	a	12.935	entre	1946	e	1950,	seguindo
uma	trajetória	de	aumento	constante,	que	somente	foi	interrompido	do	lustro	de
1961-1965	para	o	de	1966-1970,	com	os	quantitativos	de	45.551	e	40.554,	fruto
do	período	de	 fechamento	político.	Nos	períodos	posteriores	à	Constituição	de
1988,	 os	 números	 foram	 crescendo	 em	 progressão	 geométrica:	 92.063	 (entre
1986	 e	 1990),	 240.481	 (1991-1995),	 571.352	 (1996-2000),	 602.540	 (2001-
2005),	 904.201	 (2006-2010)	 e	 1.350.831	 (2011-2015).	 A	 quantidade	 de
processos	 recebidos	 em	 2011-2015	 foi,	 portanto,	 em	 setenta	 anos,	 423	 vezes
maior	do	que	o	que	ingressou	em	1941-1945.	Considerando	a	composição	atual
de	27	Ministros,	com	24	compondo	as	Turmas,	cada	Ministro,	com	exercício	da
jurisdição	plena,	julgou

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