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DADOS DE ODINRIGHT
Sobre a obra:
A presente obra é disponibilizada pela equipe eLivros e
seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer
conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos
acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da
obra, com o fim exclusivo de compra futura.
É expressamente proibida e totalmente repudíavel a
venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente
conteúdo.
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dominio publico e propriedade intelectual de forma
totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e
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a um novo nível."
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Tradução 
Renato Marques
(a partir da tradução para 
o inglês de M. D. Eder) 
Ano de publicação: 1920
A psicologia dos sonhos – Sigmund Freud
Copyright © 1900 by Sigmund Freud
Copyright © 2024 by Novo Século Ltda.
EDITOR: Luiz Vasconcelos
GERENTE EDITORIAL: Letícia Teó�lo
COORDENAÇÃO EDITORIAL: Driciele Souza
PRODUÇÃO EDITORIAL: Érica Borges Correa
REVISÃO: Bruna Tinti
PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO: Manoela Dourado
CAPA: Ian Laurindo
EBOOK: Sergio Gzeschnik
Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográ�co da Língua Portuguesa (1990), em
vigor desde 1º de janeiro de 2009.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Freud, Sigmund, 1856-1939
A psicologia dos sonhos / Freud Sigmund ; tradução de Renato Marques. – São Paulo : Novo
Século, 2024.
ISBN 978-65-5561-839-6
1. Psicanálise 2. Sonhos I. Título II. Marques, Renato.
24-0493 CDD 150.195
Índice para catálogo sistemático:
1. Autoajuda
Alameda Araguaia, 2190 – Bloco A – 11º andar – Conjunto 1111 | 06455 -000
– Alphaville Industrial, Barueri – SP – Brasil | Tel.: (11) 3699 -7107 | atendim
ento@gruponovoseculo.com.br | www.gruponovoseculo.com.br
mailto:atendimento@gruponovoseculo.com.br
http://www.gruponovoseculo.com.br/
SUMÁRIO
Sobre Sigmund Freud
Sobre a interpretação do sonho na experiência psicanalítica
Introdução
Capítulo 1 
Os sonhos têm signi�cado
Capítulo 2 
O mecanismo dos sonhos
Capítulo 3 
Por que os sonhos camu�am o desejo
Capítulo 4 
Análise dos sonhos
Capítulo 5 
O sexo nos sonhos
Capítulo 6 
O desejo nos sonhos
Capítulo 7 
A função dos sonhos
Capítulo 8 
O processo primário e o primário secundário – Regressão
Capítulo 9 
O inconsciente e o consciente – Realidade
Notas do tradutor
S
SOBRE SIGMUND FREUD
igmund Freud foi um médico neurologista que nasceu na
Morávia, mas morou grande parte da sua vida em Viena. Realizou
parte de seus estudos em Paris e, em decorrência do avanço do regime
nazista, se refugiou com a família em Londres, onde anos depois, em
consequência de um câncer, faleceu.
Nascido em uma família judia, Freud teve uma infância
in�uenciada pela cultura e tradições judaicas, bem como por sua
relação com o pai, que exerceu uma forte ingerência em sua vida e
pensamento. Após completar os estudos de medicina na Universidade
de Viena, trabalhou em diversos hospitais e clínicas, onde teve contato
com pacientes que vivenciavam sofrimentos psíquicos de diferentes
tipos. Em sua importante passagem por Paris, foi aluno de Jean-
Martin Charcot, médico e pesquisador, também interessado na área
neurológica, tendo in�uenciado Freud em seus primeiros passos,
forjando o que depois viria a ser nomeado como “método
psicanalítico”. Já naquele período, entre 1885 e 1886, Freud construía as
observações clínicas que o levaram a desenvolver teorias
revolucionárias sobre a mente humana e a psicopatologia. Foi
trilhando este percurso que fundou a psicanálise, revolucionando a
compreensão da psiquê humana e da psicopatologia.
Em 1900 publicou A interpretação dos sonhos, obra fundamental,
traduzida nesta edição por A psicologia dos sonhos, que lançou as bases
da psicanálise. Uma das contribuições mais importantes de Freud foi
sua teoria do aparelho psíquico, que o dividia em três instâncias: o
Isso, o Eu e o Supereu. Defendeu que grande parte dos processos
psicológicos é in�uenciada por impulsos inconscientes, que podem
ser agradáveis para uma das instâncias do aparelho psíquico e
simultaneamente desagradáveis para a outra parte, abrindo caminho
para os con�itos psíquicos. Além disso, Freud desenvolveu técnicas
terapêuticas, como a associação livre e a interpretação dos sonhos,
para acessar o inconsciente e tratar “distúrbios mentais”. Ao longo de
sua carreira, enfrentou críticas e controvérsias, tanto por suas teorias
quanto por sua abordagem terapêutica. No entanto, sua in�uência no
campo da saúde mental, na psicologia e na cultura ocidental é
inegável. Suas ideias sobre a mente humana, o inconsciente e a
sexualidade moldaram o pensamento moderno e continuam a ser
objeto de estudo e debate até os dias atuais. Freud deixou um legado
duradouro não apenas no campo que ele mesmo inaugurou, mas
também na literatura, na arte e na cultura popular. Sua abordagem
pioneira e sua curiosidade infatigável sobre a psiquê humana o
tornaram uma �gura central na história da psicologia e um dos
intelectuais mais in�uentes do século XX.
A
SOBRE A INTERPRETAÇÃO DO SONHO
NA EXPERIÊNCIA PSICANALÍTICA
psicologia dos sonhos, obra publicada inicialmente em 1899, foi
considerada por Freud o marco inicial da psicanálise, por esse
motivo, ele insistiu para que fosse lançada no ano de 1900, justamente
para favorecer a ideia de um começo, foi assim então que nasceu a
psicanálise. Foi a partir do sonho que Freud postulou sobre uma
experiência psíquica que ocorre enquanto dormimos, diferente do
sonho enquanto devaneio ou de uma “intuição”, aspiração de
determinado acontecimento para o futuro. Nesta perspectiva,
considerar uma interpretação dos sonhos signi�ca dizer de antemão
que eles podem ser interpretáveis, diferentemente do campo místico
ou �losó�co. Portanto, é com entusiasmo que apresentamos esta
tradução que traz a obra seminal de Sigmund Freud, A psicologia dos
sonhos, texto subversivo, que trouxe uma nova possibilidade de
compreensão da psiquê humana por meio da concepção de que os
sonhos são a “via régia para o inconsciente”. Esta obra lançou as bases
da psicanálise e marcou um ponto de virada na compreensão da
mente humana.
Para compreender a importância desta obra, é crucial considerar o
contexto histórico em que ela foi escrita. No �m do século XIX, a
psicologia estava emergindo como uma disciplina experimental e
distinta da �loso�a, e Freud, como um médico neurologista,
perscrutava novas fronteiras a respeito da psiquê humana. Nesse
período, a abordagem predominante para compreender os sonhos era
de natureza supersticiosa ou espiritual, mas Freud trouxe uma
perspectiva cientí�ca e rigorosa para analisar esse fenômeno cotidiano
e intrigante, que possibilitava a compreensão dos fatos patológicos.
A psicologia dos sonhos tem como objetivo principal desvendar o
signi�cado oculto por trás dos sonhos, não por meio de um sentido
único para determinado episódio que se repete entre aqueles que
dormem, mas destacar exatamente aquilo que há de mais singular no
fenômeno do sonho por intermédio do que se pode relatar após o
despertar. Freud argumentou neste trabalho que os sonhos são
expressões do inconsciente, contendo desejos recalcados,
pensamentos e afetos que não são acessíveis à consciência durante o
estadodo conteúdo manifesto dos sonhos pelo conteúdo latente:
os sonhos nunca se ocupam de coisas que não merecem nossa
preocupação durante o dia; e as trivialidades que não nos incomodam
não têm o poder de nos acossar enquanto dormimos.
No exemplo que selecionamos para análise, o que instigou o sonho?
Foi o acontecimento realmente sem importância de um amigo que me
convidou para aproveitar uma corrida gratuita no táxi dele. A cena do
table d’hôte no sonho contém uma alusão a esse motivo insigni�cante,
pois na conversa estabeleci uma comparação entre o táxi e o table
d’hôte. Mas posso indicar o acontecimento importante que tem como
substituto o episódio trivial. Poucos dias antes, eu havia desembolsado
uma grande quantia em dinheiro para um familiar que me é muito
querido. Não é de admirar, diz o pensamento onírico, que se essa
pessoa é grata a mim por esse gesto, esse amor não é gratuito. Mas o
amor que não custará nada é um dos pensamentos principais do
sonho. O fato de, pouco antes disso, eu ter feito várias corridas de táxi
com o parente possibilitou que a carona que peguei com meu amigo
me levasse a recordar a ligação com a outra pessoa. A impressão
insigni�cante que, por meio dessas rami�cações, provoca o sonho é
subordinada a uma outra condição que não é válida para a verdadeira
fonte do sonho – a impressão deve ser recente, tudo proveniente do
dia do sonho.
Não posso abandonar a questão do deslocamento onírico sem levar
em consideração um processo notável na formação dos sonhos, no
qual a condensação e o deslocamento trabalham em conjunto em
direção a um �m. Na condensação, já examinamos o caso em que duas
concepções oníricas que têm algo em comum, algum ponto de contato,
são substituídas no conteúdo do sonho por uma imagem mista, em
que o germe distinto corresponde ao que elas têm em comum, e as
modi�cações secundárias indistintas correspondem aos aspectos em
que diferem entre si. Quando à condensação se acrescenta o
deslocamento, não haverá a formação de uma imagem mista, mas,
sim, de um meio comum que manterá a mesma relação com os
elementos individuais que a resultante no paralelogramo de forças
com seus componentes. Em um dos meus sonhos, por exemplo, fala-se
em uma injeção de propil. À primeira análise, descobri um incidente
insigni�cante, mas verdadeiro, em que a amila desempenhou um
papel como a instigadora do sonho. Ainda não posso justi�car a troca
de amila por propil. Ao conjunto de ideias do mesmo sonho, porém,
pertence a lembrança da minha primeira visita a Munique, quando
�quei impressionado com o Propileu, a porta monumental no alto da
Acrópole. As circunstâncias concomitantes da análise tornam
admissível que a in�uência desse segundo grupo de concepções tenha
causado o deslocamento de amila para propil. O propil é, por assim
dizer, a ideia média entre amila e o Propileu; entrou no sonho como
uma espécie de “acordo” por meio de condensação e deslocamento
simultâneos. A necessidade de descobrir algum motivo para esse
desconcertante trabalho do sonho é ainda mais necessária no caso do
deslocamento do que no da condensação.
Embora o trabalho de deslocamento deva ser considerado o
principal responsável por não sermos capazes de reencontrar ou
reconhecer os pensamentos oníricos no conteúdo do sonho (a menos
que o motivo das mudanças seja suposto), é outra forma de
transformação – mais suave, que será considerada com os
pensamentos oníricos – que leva à descoberta de um ato novo, mas
facilmente compreendido, de trabalho do sonho. Os primeiros
pensamentos oníricos que são desvendados pela análise amiúde
surpreendem por sua formulação inusitada. Não parecem ser
expressos na forma sóbria que o nosso raciocínio prefere; em vez
disso, são expressos simbolicamente por alegorias e metáforas,
semelhantes à linguagem �gurativa dos poetas. Não é difícil encontrar
os motivos para esse grau de restrição na expressão das ideias oníricas.
O conteúdo dos sonhos consiste principalmente em cenas visuais;
portanto, as ideias oníricas devem, em primeiro lugar, estar
preparadas para fazer uso dessas formas pictóricas de representação.
Imaginemos que o discurso de um líder político ou de um advogado
teve de ser transposto para a pantomima, e será fácil compreender as
transformações pelas quais o trabalho do sonho �ca limitado por
conta das relações com essa “dramatização do conteúdo do sonho”.
Em torno do material psíquico dos pensamentos oníricos, sempre
encontramos reminiscências de impressões marcantes, não raro da
primeira infância – cenas que, em regra, foram assimiladas
visualmente. Sempre que possível, essa parte das ideias oníricas
exerce uma in�uência decisiva sobre a modelagem do conteúdo do
sonho; funciona como um núcleo de cristalização, atraindo e
reorganizando o material dos pensamentos oníricos. Não raro, a cena
dos sonhos nada mais é do que uma repetição modi�cada, piorada por
interpolações de acontecimentos que deixaram a impressão marcante;
os sonhos apenas muito raramente recriam reproduções precisas e
não misturadas de cenas reais.
O conteúdo dos sonhos, entretanto, não consiste exclusivamente em
cenas, mas também inclui fragmentos dispersos e desconexos de
imagens visuais, de conversas e até mesmo de pensamentos
inalterados. Será, talvez, pertinente exempli�carmos, de forma
sucinta, os meios de dramatização que estão à disposição do trabalho
do sonho para a repetição dos pensamentos oníricos na linguagem
peculiar dos sonhos.
Os pensamentos oníricos que averiguamos na análise apresentam-
se como um complexo psíquico cuja superestrutura é das mais
intrincadas. Suas partes mantêm uma relação muito diversa entre si,
formam panos de fundo e primeiros planos, estipulações, digressões,
ilustrações, demonstrações e protestos. Pode-se dizer que é quase uma
regra que uma cadeia de pensamentos seja seguida por outra, que a
contradiz. Não está ausente nenhuma característica conhecida por
nossa razão enquanto estamos acordados. Para que de tudo isso surja
um sonho, o material psíquico é submetido a uma pressão que a
condensa em grau extremo; a um encolhimento e a um deslocamento
interno que criam ao mesmo tempo novas superfícies; a um
entrelaçamento seletivo entre os constituintes mais bem adaptados
para a construção dessas cenas. Tendo em conta a origem desse
material, há razões para aplicar o termo “regressão” ao processo. Os
encadeamentos lógicos, que até então mantinham unida a matéria
psíquica, perdem-se nessa transformação para o conteúdo dos sonhos.
O trabalho do sonho assume, por assim dizer, apenas o conteúdo
essencial dos pensamentos oníricos para sua elaboração. Resta ao
trabalho de análise restaurar a conexão que o trabalho do sonho
destruiu.
Os meios de expressão dos sonhos devem, portanto, ser
considerados escassos em comparação com os da nossa imaginação,
embora os sonhos não renunciem a todas as reivindicações de
restituição da relação lógica com os pensamentos oníricos. Em vez
disso, conseguem, com uma frequência tolerável, substituí-los por
características formais próprias.
Devido à indubitável ligação que existe entre todas as partes dos
pensamentos oníricos, os sonhos são capazes de incorporar esse
material em uma única cena. Eles mantêm uma conexão lógica como
aproximação no tempo e no espaço, tal qual o pintor que, para compor
seu quadro do Parnaso, agrupa todos os poetas que, embora nunca
tenham estado todos juntos no pico de uma montanha, ainda assim
formam em termos ideais uma comunidade. Os sonhos dão
continuidade a esse método de apresentação em sonhos individuais e,
muitas vezes, quando apresentam dois elementos próximos no
conteúdo onírico, asseguram alguma conexão interna especial entre o
que ambos representam nos pensamentos oníricos. Deve-se, além
disso, observar que, na análise, todos os sonhos produzidos em uma
mesma noite dão provas de que se originam da mesma esfera de
pensamento.
A conexão causal entre duas ideias é ou deixada sem apresentação,
ou substituída por duas longas porções diferentes de sonhos, uma
após a outra. Essa apresentaçãoé amiúde invertida, sendo o início do
sonho a dedução e o seu �m, a hipótese. Nos sonhos, a transformação
direta de uma coisa em outra parece servir à relação de causa e efeito.
Os sonhos nunca expressam a alternativa “ou um, ou outro”, “ou isto,
ou aquilo”, mas aceitam que ambas as opções têm direitos iguais na
mesma conexão. Quando a fórmula “ou-ou” é utilizada na reprodução
de sonhos, deve ser substituída, como já mencionei, por “e”.
As concepções que se opõem umas às outras são preferencialmente
expressas nos sonhos pelo mesmo elemento.II Nos sonhos, parece não
haver “não”. A oposição entre duas ideias, a relação de conversão, é
representada neles de uma forma das mais extraordinárias, expressa
pela inversão de outra parte do conteúdo do sonho, como se fosse um
apêndice. Mais adiante trataremos de outra forma de expressar
desacordo. A sensação de “movimento tolhido”, muito comum nos
sonhos, serve ao propósito de representar divergência de impulsos –
um “con�ito de vontades”.
Apenas uma das relações lógicas – a de similaridade, identidade,
acordo, consonância – encontra-se em alto grau de desenvolvimento
no mecanismo de formação dos sonhos. O trabalho do sonho utiliza
esses casos como ponto de partida para a condensação, reunindo tudo
o que mostra essa concordância em uma nova unidade.
Decerto, essas observações curtas e grosseiras não são su�cientes
como uma estimativa da abundância dos meios formais do sonho para
apresentar as relações lógicas dos pensamentos oníricos. Nesse
aspecto, os sonhos individuais serão elaborados de maneira mais
adequada ou mais descuidada, nosso texto terá sido seguido com
maior ou menor exatidão; expedientes auxiliares do trabalho do
sonho terão sido levados mais ou menos em consideração. Neste
último caso, parecem obscuros, intrincados, incoerentes. Quando os
sonhos parecem escancaradamente absurdos, quando contêm em seu
conteúdo um óbvio paradoxo, é proposital. Seu aparente desrespeito
por todas as a�rmações lógicas expressa uma parte do conteúdo
intelectual das ideias oníricas. O absurdo nos sonhos denota
desacordo, desprezo, desdém nos pensamentos oníricos. Como essa
explicação está em total desacordo com a visão de que os sonhos
devem sua origem à atividade cerebral dissociada e acrítica, enfatizarei
meu ponto de vista por meio de um exemplo:
1. “Um de meus conhecidos, o sr. M., foi atacado em um ensaio da
autoria de ninguém menos que Goethe, com um injusti�cável
grau de violência, de acordo com a opinião geral. Naturalmente, o
sr. M. �cou devastado por conta do virulento ataque. Ele se queixa
disso muito amargamente durante um jantar, mas essa
experiência pessoal não faz diminuir sua respeitosa admiração
por Goethe. Agora tento esclarecer os dados cronológicos, que me
parecem improváveis. Goethe morreu em 1832. Como seu ataque
ao sr. M deve, decerto, ter ocorrido antes, o sr. M. devia ser, então,
um homem ainda na �or da idade. Parece-me plausível que ele
tivesse dezoito anos. Não tenho certeza, no entanto, de em que
ano de fato estamos, de modo que todo o meu cálculo cai na
obscuridade… Ademais, o ataque estava incluído no conhecido
ensaio de Goethe sobre a ‘Natureza’.”
O absurdo do sonho torna-se ainda mais �agrante quando a�rmo
que o sr. M. é um jovem homem de negócios sem quaisquer interesses
poéticos ou literários. Minha análise desse sonho mostrará o grau de
método que existe nessa loucura. O sonho extraiu seu material de três
fontes:
1. O sr. M., a quem fui apresentado em um jantar, implorou-me um
dia que examinasse seu irmão mais velho, que vinha dando sinais
de desarranjo mental. Em conversa com o paciente, ocorreu um
episódio constrangedor. Sem motivo aparente, ele revelou
algumas das aventuras juvenis de seu irmão. Perguntei ao
paciente o ano de seu nascimento (no sonho, o ano da morte) e o
levei a fazer vários cálculos que pudessem revelar a debilidade de
sua memória.
2. Um periódico médico que estampava na capa meu nome, entre os
de outros colaboradores, publicou uma resenha devastadora de
um livro de F., um amigo meu de Berlim, escrita por um crítico
muito jovem e imaturo. Entrei em contato com o editor, que, de
fato, expressou o seu pesar pelo ocorrido, mas não prometeu
qualquer reparação. Por causa disso, rompi minhas ligações
pro�ssionais com a revista; em minha carta de desligamento,
expressei a esperança de que as nossas relações pessoais não
fossem prejudicadas por essa situação. Aqui está a verdadeira
fonte do sonho. A recepção depreciativa do trabalho do meu
amigo causou-me profunda impressão. A meu juízo, continha
uma descoberta biológica fundamental que somente agora,
passados vários anos, começa a cair nas graças dos doutos
professores e especialistas.
3. Pouco antes, uma paciente me deu o histórico médico de seu
irmão, que, aos berros de “Natureza! Natureza!”, tinha perdido o
juízo. Os médicos consideraram que suas delirantes exclamações
resultavam da leitura do belo ensaio de Goethe e indicaram que o
paciente vinha trabalhando demais, com excessivo empenho nos
estudos. Expressei a opinião de que me parecia mais plausível
que a exclamação “Natureza!” deveria ser entendida naquele
sentido sexual conhecido também pelos menos instruídos em
nosso país. Pareceu-me que essa ideia fazia sentido, porque mais
tarde o infeliz jovem acabou por mutilar seus órgãos genitais. O
paciente tinha 18 anos quando o surto ocorreu.
A primeira pessoa nos pensamentos do sonho por trás do ego era
meu amigo que havia sido tratado de forma tão escandalosa. “Agora
tento esclarecer os dados cronológicos.” O livro do meu amigo trata
das relações cronológicas da vida e, entre outras coisas, correlaciona a
duração da vida de Goethe com um número de dias que é, em muitos
aspectos, importante para a biologia. O ego é, contudo, representado
como um paralítico geral (“Não tenho certeza, no entanto, de em que
ano de fato estamos”). O sonho mostra meu amigo comportando-se
como um paralítico total e, portanto, descamba para um amontoado
de absurdos. Mas os pensamentos oníricos chegam com ironia: “Claro
que ele é louco, um parvo, e vocês são os gênios que entendem de
tudo. Mas não deveria ser o contrário?”. Essa inversão ocorreu
obviamente no sonho em que Goethe atacou o jovem, o que é absurdo,
embora qualquer pessoa, por mais jovem que seja, possa hoje em dia
facilmente atacar o grande Goethe.
Estou preparado para a�rmar que nenhum sonho é inspirado por
quaisquer outras emoções que não sejam egoístas. Nesse sonho, o ego
não representa, de fato, apenas meu amigo, mas representa também a
mim mesmo. Identi�co-me com ele porque o destino da sua
descoberta me parece típico da aceitação da minha própria
descoberta. Se eu publicasse a minha própria teoria, que enfatiza a
predominância do papel da sexualidade na etiologia dos distúrbios
psiconeuróticos (ver a alusão ao paciente de 18 anos – “Natureza!
Natureza!”), a mesma crítica seria dirigida a mim, e inclusive agora eu
enfrentaria igual desprezo.
Quando acompanho de perto os pensamentos oníricos, encontro
apenas o escárnio e o desprezo como correlatos do absurdo dos
sonhos. É bem sabido que a descoberta de um crânio de ovelha
rachado no Lido, em Veneza, deu a Goethe a pista para a chamada
“teoria vertebral do crânio”. Meu amigo se vangloria por ter, em seus
tempos de estudante, criado um rebuliço pela demissão de um
professor idoso que havia feito um bom trabalho (incluindo pesquisas
nessa mesma disciplina de anatomia comparada), mas que, devido à
“decrepitude”, tornou-se incapaz de lecionar. A agitação que o meu
amigo causou teve êxito porque nas universidades alemãs não há
limite de idade para o trabalho acadêmico. “A idade não é proteção
contra a insensatez”.
No hospital daqui, durante anos tive a honra de servir sob as ordens
de um chefe que, havia muito fossilizado, por décadas a �o mostrou
ser um notório imbecil e, ainda assim, tinha autorização para
continuar atuando em seu cargo de responsabilidade. Uma
característica, à semelhança da descoberta no Lido, impõe-se aqui a
mim. Foi para se referira esse homem que alguns jovens colegas do
hospital adaptaram um dito popular à época: “Não foi nenhum
Goethe que escreveu isto”, “Não foi nenhum Schiller que compôs isto”
etc.22
Ainda não esgotamos a nossa avaliação do trabalho do sonho. Além
da condensação, do deslocamento e do arranjo de�nido da matéria
psíquica, devemos atribuir-lhe ainda outra atividade – uma que, com
efeito, não é compartilhada por todos os sonhos. Não tratarei
exaustivamente dessa parte do trabalho do sonho; apenas salientarei
que a maneira mais rápida de chegar a uma concepção dela é
presumir, provavelmente de maneira injusta, que ela só atua a
posteriori – depois que o conteúdo do sonho já foi construído. Seu
modo de ação consiste, assim, em coordenar as partes do sonho de tal
modo que estas se amalgamem em um todo coerente, em uma
composição onírica. O sonho ganha uma espécie de fachada que, de
fato, não esconde todo o seu conteúdo. Há uma espécie de explicação
preliminar a ser reforçada por interpolações e ligeiras alterações. Essa
elaboração do conteúdo do sonho não deve ser muito acentuada; o
equívoco dos pensamentos oníricos aos quais dá origem é meramente
super�cial, e nosso primeiro trabalho na análise de um sonho é nos
livrar dessas tentativas iniciais de interpretação.
Os motivos para essa parte do trabalho do sonho são fáceis de
avaliar. Essa elaboração �nal do sonho deve-se a uma preocupação com
a inteligibilidade – fato que, de imediato, revela a origem de uma ação
que se comporta em relação ao efetivo conteúdo onírico, tal como a
nossa ação psíquica normal se comporta em relação a alguma
percepção apresentada que é do nosso agrado. Assim, o conteúdo dos
sonhos �ca resguardado sob o pretexto de certas expectativas; em
termos perceptivos, é classi�cado pela pressuposição de que seja
inteligível, correndo o risco de ser falsi�cado, ao passo que, de fato, os
equívocos mais extraordinários surgem quando não se consegue
correlacionar o sonho com nada que já seja conhecido. Todos estamos
conscientes de que somos incapazes de olhar para qualquer série de
sinais desconhecidos, ou de ouvir uma conversa com palavras que
desconhecemos, sem fazermos, imediatamente, mudanças perpétuas
por meio da nossa preocupação com a inteligibilidade, recorrendo a
algo com que tenhamos familiaridade.
Podemos chamar de “bem constituídos” os sonhos que resultam de
uma elaboração análoga, em todos os aspectos, à ação psíquica da
nossa vida de vigília. Em outros sonhos não existe tal ação; não se faz
nem sequer uma tentativa de trazer à tona ordem e signi�cado.
Consideramos que os sonhos são “maluquices” porque, ao
acordarmos, é com esta última parte do trabalho do sonho, a sua
elaboração, que nos identi�camos. Até agora, porém, no que diz
respeito à nossa análise, os sonhos, que se assemelham a uma mistura
de fragmentos desconexos, têm tanto valor quanto aquele de
superfície lisa e lindamente lustrosa. No primeiro caso, somos
poupados, até certo ponto, do trabalho de esquadrinhar a
superelaboração do conteúdo onírico.
Ainda assim, seria um erro ver na fachada onírica nada mais que a
elaboração equivocada e um tanto arbitrária dos sonhos, realizada no
âmbito de nossa vida psíquica. Não é raro que na construção dessa
fachada sejam empregados desejos e fantasias, já moldados nos
pensamentos oníricos; eles são semelhantes aos da nossa vida de
vigília – os “sonhos lúcidos”23, como são chamados com muita
propriedade. Esses desejos e fantasias, que a análise revela em nossos
sonhos noturnos, muitas vezes se apresentam como repetições e
remodelações das cenas da infância. Assim, a fachada do sonho pode
nos mostrar diretamente o seu verdadeiro cerne, distorcido pela
mistura com outros materiais.
Além dessas quatro atividades, não há mais nada a se descobrir no
trabalho do sonho. Se nos mantivermos bem atentos à de�nição de
que o seu trabalho denota a transferência dos pensamentos oníricos
para o conteúdo onírico, seremos obrigados a dizer que o trabalho do
sonho não é criativo, não desenvolve fantasias próprias, não julga nem
decide nada. Não faz nada além de preparar o material para
condensação e deslocamento, e remodelá-lo para a dramatização, à
qual deve ser acrescentado o último mecanismo inconstante – a
elaboração explicativa.
1.
É verdade que se encontra no conteúdo dos sonhos muita coisa que
pode ser entendida como o resultado de outro desempenho de caráter
mais intelectual; mas a análise mostra, sempre de forma conclusiva,
que essas operações intelectuais já estavam presentes nos
pensamentos oníricos e apenas foram incorporadas pelo conteúdo
onírico.
O silogismo em um sonho nada mais é do que a repetição de um
silogismo nos pensamentos oníricos; parece inofensivo quando é
transferido para o sonho sem modi�cação, mas torna-se absurdo se no
trabalho do sonho for transferido para outro material. Um cálculo no
conteúdo do sonho signi�ca simplesmente que houve um cálculo nos
pensamentos oníricos; embora este seja sempre correto, o cálculo no
sonho pode fornecer os resultados mais tresloucados pela
condensação de seus fatores e pelo deslocamento das mesmas
operações para outras materiais. Até mesmo as falas que se encontram
no conteúdo do sonho não são composições novas, são uma mixórdia
reunida a partir de outras falas, conversas ouvidas ou palavras lidas; as
palavras são copiadas com �dedigna exatidão, mas a ocasião de sua
expressão é bastante esquecida e seu signi�cado sofre violentas
modi�cações.
Talvez não seja excessivo corroborar com exemplos essas
a�rmações:
Um sonho bem construído e
aparentemente inofensivo de uma
paciente
Ela sonhou que foi ao mercado com a cozinheira, que carregava a
cesta. Quando pediu alguma coisa ao açougueiro, ele lhe disse: “Isso aí
2.
já acabou tudo”, e quis lhe dar alguma outra coisa, comentando: “Isto
aqui é muito bom”. Ela recusou e se dirigiu ao verdureiro, que quis lhe
vender uma hortaliça especí�ca, amarrada em maços pretos. Ela
disse: “Isso eu não reconheço; não vou aceitar”.
O comentário “Isso aí já acabou tudo” surgiu do tratamento. Poucos
dias antes, eu mesmo explicara à paciente que as primeiras
reminiscências da infância haviam desaparecido – acabaram-se todas
–, mas foram substituídas por transferências e sonhos. Portanto, o
açougueiro sou eu.
A segunda observação, “Isso eu não reconheço”, surgiu em um
contexto muito diferente. Na véspera, a paciente havia repreendido,
aos berros, a cozinheira (que, aliás, também aparece no sonho):
“Comporte-se direito; isso eu não reconheço” – isto é, “Não reconheço
esse tipo de comportamento; eu não vou aceitar isso”. A parte mais
inofensiva dessa fala foi alcançada por meio de um deslocamento do
conteúdo do sonho; nos pensamentos oníricos, apenas a outra parte
da fala desempenhou um papel, porque o trabalho do sonho
transformou uma situação imaginária em algo totalmente
irreconhecível e inofensivo (embora, em certo sentido, eu me
comporte de maneira indecorosa com essa senhora). A situação que
resultou nessa fantasia nada mais é do que uma reedição de algo que
realmente ocorreu.
Um sonho aparentemente sem sentido
diz respeito a números
Ela quer pagar alguma coisa; a �lha tira da bolsa três �orins e 65
kreuzers; mas ela diz: ‘O que você está fazendo? Custou apenas 21
kreuzers’.”
3.
A pessoa que teve esse sonho era uma estrangeira que matriculara a
�lha na escola em Viena e poderia continuar sob meu tratamento
enquanto a �lha permanecesse na cidade. No dia anterior ao sonho, a
diretora da escola lhe recomendou que mantivesse a criança mais um
ano na escola. Neste caso, ela teria conseguido prolongar o tratamento
comigo por mais um ano. As cifras do sonho tornam-se importantes se
tivermos em mente que “tempo é dinheiro”. Um ano equivale a 365
dias ou, expresso em valores monetários, 365 kreuzers, o que equivale a
3 �orins e 65 kreuzers. Os 21 kreuzers correspondem às três semanas que
faltavam entre o dia do sonho e o término do período letivo, ou seja,
até o �m do tratamento. Obviamente as considerações �nanceiras
levaram a senhoraa recusar a proposta da diretora e são responsáveis
pelos valores triviais que aparecem no sonho.
Uma jovem senhora, já casada há dez
anos, soube que uma amiga sua, a
senhorita Elise L.,
mais ou menos da da mesma idade, �cou noiva. Isso deu origem ao
seguinte sonho:
ela está sentada com o marido no teatro; um dos lados da plateia está
bastante vazio. Seu marido diz a ela que Elise L. e o noivo pretendiam
vir, mas só conseguiram alguns assentos baratos, três por 1 �orim e 50
kreuzers, e estes lugares eles não podiam aceitar. Na opinião dela, isso
não deveria ter tido tanta importância assim.
São de nosso interesse aqui a origem dos números que aparecem no
material dos pensamentos oníricos e as transformações pelas quais
passaram esses valores. De onde veio a quantia de 1 �orim e 50
kreuzers? De uma ocorrência banal do dia anterior. Sua cunhada
recebera 150 �orins de presente do marido e teve pressa para gastar o
dinheiro (rapidamente comprou alguns adornos). Observe que 150
�orins equivalem a cem vezes 1 �orim e 50 kreuzers. Quanto ao número
três, referente aos ingressos, a única ligação é que Elise L. é
exatamente três meses mais nova que a mulher que sonhou. A cena do
sonho é a repetição de uma pequena aventura pela qual é sempre alvo
de jocosas provocações do marido. Certa vez, ela teve demasiada
pressa para conseguir comprar a tempo ingressos antecipados para
determinada peça e, ao chegarem ao teatro, um dos lados da plateia
estava praticamente às moscas. Portanto, foi totalmente desnecessário
ela ter tido tanta pressa. Também não devemos deixar passar em
branco o absurdo do sonho de duas pessoas comprarem três ingressos
para uma mesma peça.
Agora, as ideias oníricas. “Foi uma estupidez me casar tão cedo; não
havia a necessidade de eu ter tido tanta pressa. O exemplo de Elise L. me
mostra que, se eu tivesse esperado, mais tarde teria conseguido um
marido; na verdade, um marido cem vezes melhor. Com meu dinheiro
(dote), eu poderia ter comprado três homens tão bons quanto ele.”
I “Ich möchte gerne etwas geniessen ohne ‘Kosten’ zu haben.”, trocadilho com a palavra kosten, que
tem duas acepções – “gosto” e “custo”. Em Die Traumdeutung, terceira edição, nota de rodapé
da p. 71, o professor Freud observa que “o melhor exemplo de interpretação de sonhos que nos
deixaram os antigos baseia-se em um trocadilho” (“A interpretação dos sonhos”, de
Artemidoro de Daldis). “Ademais, os sonhos estão tão intimamente ligados à linguagem que
Ferenczi de fato ressalta que cada língua tem sua própria linguagem de sonhos. Um sonho é,
via de regra, intraduzível para outras línguas.” (Nota do tradutor da edição em língua inglesa.)
II É digno de nota que eminentes �lólogos a�rmem que as línguas mais antigas usavam a
mesma palavra para expressar antíteses bastante gerais. No ensaio “Ueber den Gegensinn der
Urworter”, de C. Abel (1884), citam-se os seguintes exemplos desse tipo de palavras de língua
inglesa: gleam-gloom [brilho-escuridão]; to lock-loch [trancar-lago], down-The Downs [para
baixo-ancoradouro]; to step-to stop [pisar-parar]. Em seu ensaio sobre a origem da linguagem
(The Origin of Language, Linguistic Essays, p. 240), Abel a�rma: “Quando o inglês diz ‘sem’
[without], seu julgamento não é baseado na justaposição comparativa de dois opostos, with
(‘com’) e out (‘fora’); originalmente, with signi�cava without (‘sem’), como ainda se pode ver no
vocábulo withdraw [‘retirar’, ‘sacar’]. Bid inclui o sentido oposto de ‘pedir’ e ‘dar’” (Abel Carl.
“The English Verbs of Command”, Linguistic Essays, p. 104; ver também Freud, “Über den
Gegensinn der Urworte”; Jahrbuch für Psychoanalytische und Psychopathologische Forschungen,
Parte I, p. 179). (Nota do tradutor da edição em língua inglesa.)
N a exposição anterior, aprendemos algo sobre o trabalho do
sonho. Devemos considerá-lo um processo psíquico muito
especial, que, até onde sabemos, não se assemelha a nada mais.
Transferiu-se para o trabalho do sonho aquele assombro que seu
produto, os sonhos, despertava em nós. Na realidade, o trabalho do
sonho é apenas o primeiro reconhecimento de um grupo de processos
psíquicos aos quais deve ser atribuída a origem dos sintomas
histéricos, as ideias de pavor mórbido, obsessões e delírios. A
condensação e, sobretudo, o deslocamento são características
indefectíveis nesses outros processos.
Por outro lado, a preocupação com a aparência permanece peculiar
ao trabalho do sonho. Se essa explicação alinhar o sonho com a
formação da doença psíquica, torna-se ainda mais importante
compreender as condições essenciais de processos como a construção
do sonho. Será provavelmente uma surpresa saber que nem o estado
de sono nem a doença estão entre as condições indispensáveis. Uma
série de fenômenos da vida cotidiana dos indivíduos saudáveis, os
esquecimentos, os lapsos de linguagem, as falhas ao segurar objetos,
juntamente com certa classe de erros, originam-se de um mecanismo
psíquico análogo ao dos sonhos e dos outros membros desse grupo.
O deslocamento é o cerne do problema e o mais impressionante de
todos os desempenhos oníricos. Uma investigação aprofundada da
questão demonstra que a condição essencial do deslocamento é
puramente psicológica; é da natureza de uma motivação. Encontramos
o caminho debatendo exaustivamente experiências que não podemos
evitar na análise dos sonhos. Tive de interromper bruscamente as
relações dos meus pensamentos oníricos na análise do meu sonho-
exemplo citado anteriormente, porque encontrei algumas
experiências que não desejo que pessoas desconhecidas saibam e as
quais eu não poderia relatar sem causar graves danos a importantes
considerações. Acrescentei que não adiantaria nada se eu escolhesse
outro sonho em vez daquele especí�co analisado; pois, em todo sonho
cujo conteúdo é obscuro ou complexo, eu me depararia com
pensamentos oníricos a exigir sigilo.
Se, no entanto, continuo a análise por minha própria conta, sem
levar em consideração outras pessoas (para quem, com efeito, um
acontecimento tão pessoal quanto o meu sonho não pode ter
importância), chego, en�m, a ideias que me surpreendem, que eu não
sabia serem minhas, que não me parecem somente estranhas, mas
também desagradáveis, e às quais eu gostaria de me opor com
veemência, ao mesmo tempo que o encadeamento de ideias que
perpassa a análise se intromete de maneira inexorável em mim. Posso
apenas levar em conta tais circunstâncias admitindo que esses
pensamentos fazem realmente parte da minha vida psíquica e são
dotados de certa intensidade ou energia psíquica. Contudo, em
virtude de uma condição psicológica peculiar, os pensamentos não
puderam tornar-se conscientes para mim. Chamo essa condição
especí�ca de “repressão” ou “recalque”. Portanto, para mim é
impossível não reconhecer alguma relação casual entre a obscuridade
do conteúdo do sonho e esse estado de repressão – essa incapacidade
de consciência. Daí concluo que a causa da obscuridade é o desejo de
dissimular esses pensamentos. Assim, chego ao conceito da “distorção
onírica” como a ação do trabalho do sonho e do deslocamento, que
serve para disfarçar esse objeto.
Testarei isso em meu próprio sonho, que selecionei para análise, e
indagarei: qual é o pensamento que, bastante inócuo em sua forma
distorcida, provoca minha mais viva oposição em sua forma real?
Lembro-me de que a corrida gratuita de táxi me trouxe à memória
uma recente e dispendiosa viagem que �z com um parente, a
interpretação do sonho sendo que eu gostaria de um dia sentir alguma
afeição pela qual não tivesse que pagar nada, e que, pouco antes desse
sonho, tive de desembolsar para essa mesma pessoa uma polpuda
soma em dinheiro. Nesse contexto, não posso deixar de pensar que me
arrependo de ter desembolsado o dinheiro. Somente quando
reconheço esse sentimento é que há algum sentido em meu desejo, no
sonho, de uma afeição que não acarretasse nenhum gasto. E, no
entanto, posso a�rmar, por minha honra, que não hesitei um só
momento quando foi necessário desembolsar aquela quantia. O
arrependimento, acontracorrente, era inconsciente para mim. Por que
não se tornou consciente é outra questão, que nos afastaria da
resposta que, embora seja do meu conhecimento, pertence a outro
lugar.
Se eu submeter à análise o sonho de outra pessoa, em vez do meu, o
resultado será o mesmo; os motivos para convencer os outros, no
entanto, mudam. No sonho de uma pessoa saudável, a única maneira
de capacitá-la a aceitar essa ideia reprimida é a coerência dos
pensamentos oníricos. Ela tem a liberdade de rejeitar essa explicação;
mas, se estivermos lidando com uma pessoa que sofre de alguma
neurose – de histeria, digamos –, o reconhecimento dessas ideias
reprimidas é obrigatório devido à ligação delas com os sintomas da
doença da pessoa e com a melhoria resultante da troca dos sintomas
pelas ideias reprimidas. Tomemos como exemplo o paciente de quem
mencionei o sonho sobre os três ingressos de teatro por um �orim e
cinquenta kreuzers. A análise mostra que ela não tem o marido em alta
conta, que se arrepende de ter se casado com ele e que �caria feliz em
trocá-lo por outra pessoa. É verdade que ela a�rma que ama o marido,
que a sua vida emocional nada sabe sobre essa depreciação (sua ideia
de que poderia ter arranjado outro homem cem vezes melhor!), mas
todos os sintomas dela levam à mesma conclusão do sonho. Quando
as suas lembranças recalcadas voltaram a se avivar em um certo
período em que ela teve consciência de que não amava o marido, seus
sintomas se dissiparam e, com isso, desapareceu sua resistência à
interpretação do sonho.
Uma vez de�nido o conceito de repressão ou recalque, juntamente
com a distorção onírica em relação ao material psíquico sufocado,
estamos em condições de apresentar uma exposição geral dos
principais resultados que a análise dos sonhos fornece. Aprendemos
que os sonhos mais inteligíveis e providos de sentido são os desejos
irrealizados; os desejos que nos sonhos �guram como realizados são
conhecidos pela consciência, coisas que �caram pendentes da vida
diurna e são dignas de interesse absorvente. A análise de sonhos
obscuros e intrincados revela algo muito semelhante: também aí a
cena do sonho representa como realizado algum desejo
invariavelmente oriundo dos pensamentos oníricos, mas a imagem é
irreconhecível e somente é esclarecida via análise. O desejo em si é
reprimido, estranho à consciência, ou está intimamente ligado a
pensamentos recalcados. A fórmula para esses sonhos pode ser
de�nida da seguinte forma: são realizações disfarçadas de desejos
reprimidos. É interessante notar que estão certos os indivíduos que
consideram os sonhos previsões do futuro. Embora o futuro mostrado
pelo sonho não seja aquele que ocorrerá, mas aquele que gostaríamos
que ocorresse. Nesse ponto, a psicologia popular procede em
conformidade com seu costume: acredita naquilo em que deseja
acreditar.
Os sonhos podem ser enquadrados em três classes, de acordo com
sua relação com a realização do desejo. No primeiro grupo, vêm
aqueles que exibem um desejo não reprimido e indisfarçado; são os
sonhos de tipo infantil, cada vez mais raros entre os adultos. Em
segundo lugar, os sonhos que expressam de forma velada algum
desejo reprimido; estes constituem, de longe, o maior número dos
nossos sonhos e requerem análise para serem compreendidos. Na
terceira e última classe, estão os sonhos em que existe repressão, mas
sem ocultação ou com uma ligeira dose de disfarce. São
invariavelmente acompanhados por um sentimento de pavor que
interrompe e encerra o sonho. Nesse caso, esse sentimento de angústia
substitui o deslocamento do sonho; a meu juízo é o trabalho do sonho
que impede a angústia nos sonhos do segundo tipo. Não é muito difícil
provar que o que atualmente está presente como pavor intenso nos
sonhos já foi outrora desejo e agora é secundário em relação à
repressão.
Existem também sonhos claros e bem-de�nidos, com conteúdo
doloroso, sem a presença de qualquer ansiedade ou angústia. Não
podem ser considerados sonhos de pavor; contudo, sempre foram
usados para provar a desimportância e a futilidade psíquica dos
sonhos. A análise de um exemplo de sonho desse tipo mostrará que
pertence à nossa segunda classe de sonhos – uma realização
perfeitamente bem disfarçada de desejos reprimidos. Ao mesmo
tempo, a análise demonstrará como esse trabalho de deslocamento é
adaptado com excelência para dissimular desejos.
Uma jovem sonhou que via diante de si o cadáver do único �lho que
restara a sua irmã, no mesmo ambiente em que alguns anos antes
havia de fato visto o corpo sem vida do primeiro �lho da irmã. Ela não
sentiu nenhuma dor, mas naturalmente lutou contra a ideia de que a
cena representasse um desejo seu. Essa ideia tampouco era necessária.
Anos antes, no funeral da primeira criança, ela viu e conversou pela
última vez com o homem a quem amava. Se o segundo �lho morresse,
ela com certeza encontraria o homem novamente na casa da irmã. Ela
deseja reencontrá-lo, mas luta contra esse sentimento. No dia do
sonho, ela comprou ingresso para uma palestra que anunciava a
presença do homem que ela sempre amou. O sonho é simplesmente
um sonho de impaciência, que costuma ocorrer com pessoas prestes a
viajar, antes de ir ao teatro ou que simplesmente antecipam prazeres
futuros. O anseio é encoberto pela mudança da cena para uma ocasião
em que qualquer sentimento de alegria estaria fora de lugar, mas
quando antes existira de fato. Convém notar, ainda, que o
comportamento emocional no sonho é adaptado não às ideias oníricas
deslocadas, mas às ideias oníricas reais, embora suprimidas. A cena
antecipa o tão esperado e desejado encontro, dessa forma, não há
nenhum apelo para emoções dolorosas.
Até agora, não houve razão para os �lósofos se envolverem com uma
psicologia da repressão. Devemos ser capazes de construir uma
concepção clara quanto à origem dos sonhos como os primeiros
passos nesse território desconhecido. O esquema que formulamos não
apenas a partir do estudo dos sonhos já é, a bem da verdade, um tanto
complicado, mas não conseguimos encontrar nenhum mais simples
que fosse su�ciente. A�rmamos que nosso aparelho psíquico contém
dois procedimentos para a construção de pensamentos. O segundo
tem a vantagem de que seus produtos encontram um caminho aberto
para a consciência, ao passo que a atividade do primeiro
procedimento é desconhecida para si mesma e só pode chegar à
consciência por meio do segundo. Na fronteira desses dois
procedimentos, em que o primeiro transpõe para o segundo,
estabelece-se uma censura que só permite a passagem do que lhe
agrada, restringindo todo o resto. Aquilo que é censurado está,
segundo a nossa de�nição, em estado de repressão. Sob certas
condições, uma das quais é o estado de sono, o equilíbrio de poder
entre os dois procedimentos é tão alterado que o que é reprimido não
pode mais ser contido. No estado de sono, isso pode ocorrer talvez por
negligência do censor; o que até agora foi recalcado conseguirá
encontrar uma rota de acesso para a consciência. Porém, como a
censura nunca está ausente, mas apenas desprevenida, certas
alterações devem ser permitidas de modo a aplacá-la. É um acordo
que nesse caso se torna consciente – uma concessão entre o que um
procedimento tem em vista e as exigências do outro. A repressão, o
afrouxamento da censura, o acordo de conciliação, o meio-termo –
esse é o alicerce básico para a origem de muitos outros processos
psicológicos, tal como se dá nos sonhos. Nesses acordos de concessão,
podemos observar também os processos de condensação, de
deslocamento, de aceitação de associações super�ciais que
encontramos no trabalho do sonho.
Não cabe a nós negar a atuação de um elemento demoníaco na
construção de nossa explicação do trabalho do sonho. A impressão
que �ca é que a formação de sonhos obscuros ocorre como se uma
pessoa que dependesse de outra tivesse algo a lhe dizer com a
obrigação de soar agradável aos ouvidos desta. É por meio do uso
dessa imagem que formulamos para nós mesmos os conceitos de
distorção onírica e de censura, e nos aventuramos a cristalizara nossa
impressão em uma teoria psicológica bastante rudimentar, mas, pelo
menos, de�nida com clareza. Qualquer que seja a explicação que o
futuro possa oferecer acerca destes primeiro e segundo
procedimentos, esperaremos uma con�rmação do nosso correlato de
que o segundo controla o acesso à consciência e pode excluir da
consciência o primeiro procedimento.
Uma vez terminado o estado de sono, a censura retoma o domínio
completo e agora é capaz de revogar o que foi concedido em um
momento de fraqueza. Nossa experiência, con�rmada incontáveis
vezes, nos convenceu de que o esquecimento dos sonhos é que explica
isso em parte. Durante o relato de um sonho, ou em sua análise, não é
raro que algum fragmento onírico seja subitamente esquecido. Essa
fração obliterada contém, invariavelmente, o melhor e mais rápido
caminho de acesso para a compreensão do sentido do sonho.
Provavelmente, é por isso que cai no esquecimento – isto é, em uma
renovada supressão.
Considerando o conteúdo do sonho como a representação de um
desejo realizado e atribuindo-se sua imprecisão às mudanças feitas
pelo censor no material recalcado, já não há di�culdade para
compreender a função dos sonhos. Em contraste fundamental com
aqueles que a�rmam que o sono é perturbado pelos sonhos, a nosso
ver, o sonho é o guardião do sono. No que diz respeito aos sonhos das
crianças, nossa hipótese deverá encontrar pronta aceitação.
O estado de sono – ou a mudança psíquica para o sono, qualquer
que seja – é provocado pelo fato de a criança receber ordens de ir
dormir ou ser compelida a isso pelo cansaço, decisão cujo único
auxílio é a remoção de todos os estímulos que possam sugerir outros
objetos ao aparelho psíquico. Os meios que servem para manter
distantes os estímulos externos são conhecidos; mas quais são os
meios que podemos empregar para enfraquecer os estímulos
psíquicos internos que frustram o sono? Vejamos o caso de uma mãe
que põe o �lho para dormir. A criança está cheia de súplicas; quer
outro beijo; quer brincar mais um pouco. Suas exigências são
parcialmente atendidas, em parte drasticamente adiadas pela mãe
para o dia seguinte. É evidente que esses desejos e necessidades, que
agitam a criança, são obstáculos para o sono. Todo mundo conhece a
encantadora história (de Baldwin Groller)24 do menino malcriado que
acordou à noite aos gritos: “Eu quero o rinoceronte!”. Um menino
realmente bem-comportado, em vez de gritar, teria sonhado que estava
a brincar com o rinoceronte. Uma vez que se acredita no sonho que
realiza o desejo durante o sono, ele cancela o desejo e torna o sono
possível. Não se pode negar que essa noção está em consonância com
a imagem onírica, porque está revestida da aparência psíquica da
probabilidade; a criança não tem a capacidade – que será adquirida
mais tarde – de distinguir alucinações ou fantasias da realidade.
O adulto já aprendeu a fazer essa diferenciação; já adquiriu também
a futilidade do desejo e, graças à prática contínua, consegue adiar seus
desejos e aspirações, até que lhe possam ser concedidos, de algum
modo indireto, por uma alteração no mundo externo. Por essa razão, é
raro que o indivíduo adulto tenha seus desejos realizados durante o
sono pela curta via psíquica. É até possível que isso nunca aconteça, e
que tudo o que nos parece um sonho de criança exija uma explicação
muito mais elaborada. De sorte que, para os adultos – para cada
pessoa sã, sem exceção –, criou-se uma diferenciação da questão
psíquica que a criança não conhecia. Chegou-se a um procedimento
psíquico que, alicerçado nas experiências de vida que lhe dão
consistência, exerce com poder zeloso e possessivo uma in�uência
dominadora e restritiva sobre as emoções psíquicas; por conta de sua
relação com a consciência e por sua mobilidade espontânea, essa
in�uência severa é dotada dos mais fortes recursos de poder psíquico.
Por serem inúteis para a vida, as emoções infantis foram em parte
excluídas desse procedimento, e todos os pensamentos oriundos
dessas emoções se encontram em estado de repressão. Embora o
procedimento pelo qual reconhecemos o nosso ego normal dependa
do desejo de dormir, ele parece compelido pelas condições
psico�siológicas do sono a abandonar parte da energia com que estava
habituado durante o dia para manter subjugado o que foi reprimido.
Na realidade, esse afrouxamento é inofensivo; por mais que as
emoções do espírito da criança possam ser instigadas, seu acesso à
consciência é difícil, encontra empecilhos e é bloqueado em
consequência do estado de sono. O perigo do sono perturbador deve,
contudo, ser evitado.
Além disso, devemos admitir que, mesmo no sono profundo,
alguma quantidade de atenção livre é exercida como proteção contra
estímulos sensoriais que poderiam, por acaso, fazer um despertar
parecer mais aconselhável do que a continuação do sono. Caso
contrário, não poderíamos explicar o fato de sempre sermos
despertados por estímulos de certa qualidade. Como salientou o velho
�siologista Burdach25, a mãe desperta quando o �lho choraminga; o
moleiro, quando cessa seu moinho; e a maioria das pessoas, quando
alguém chama suavemente seu nome. Essa atenção em estado de
alerta tira proveito dos estímulos internos decorrentes dos desejos
reprimidos e os funde no sonho, que, como em um acordo de
conciliação, satisfaz simultaneamente aos dois procedimentos. O
sonho cria uma forma de liberação psíquica para o desejo que é
suprimido – ou formado com a ajuda da repressão –, na medida em
que o apresenta como realizado. Também atende ao outro
procedimento, pois assegura a continuidade do sono. Aqui, nosso ego
se comporta alegremente como uma criança; torna as imagens do
sonho críveis, ao declarar, por assim dizer: “Muito bem, você tem
razão, mas me deixe continuar dormindo”. O desdém que mostramos
pelos sonhos quando estamos acordados, e que associamos ao
absurdo e à aparente ilogicidade dos sonhos, provavelmente nada
mais é do que o raciocínio do nosso ego adormecido sobre os
sentimentos relativos ao que foi reprimido; seria mais apropriado
atribuir isso à incompetência dos elementos perturbadores do nosso
sono. Durante o sono, de vez em quando temos consciência desse
desdém; quando o conteúdo do sonho transcende em excesso a
censura, pensamos: “É apenas um sonho” e continuamos a dormir.
Não é uma objeção a essa concepção existirem limites para o sonho
em que sua função – impedir a interrupção do sono – não possa mais
ser mantida; é o caso dos sonhos de pavor iminente. Aqui há uma
alteração para outra função – suspender o sono no momento
adequado. Age como um vigia noturno dos mais conscienciosos e
responsáveis, que primeiro cumpre o seu dever de reprimir os
distúrbios para não acordar o indivíduo, mas também cumpre muito
bem o seu dever quando desperta a rua caso as causas da perturbação
lhe pareçam graves e ele próprio se julgue incapaz de enfrentá-las
sozinho.
Essa função dos sonhos torna-se especialmente bem evidente
quando surge algum incentivo para a percepção sensorial. Que os
sentidos despertados durante o sono in�uenciam o sonho é fato bem
conhecido e pode ser veri�cado via experimentos; é um dos resultados
líquidos e certos, mas muito superestimados, da investigação médica
dos sonhos. Até agora, estamos às voltas com um enigma insolúvel
relacionado a essa descoberta. O estímulo aos sentidos que o
investigador utiliza para afetar a pessoa adormecida não é
devidamente reconhecido no sonho, mas entremescla-se a uma série
de possíveis interpretações inde�nidas, cuja determinação parece ser
deixada ao livre-arbítrio psíquico. É claro que não existe esse livre-
arbítrio psíquico. A um estímulo sensorial externo, a pessoa
adormecida pode reagir de várias maneiras. Ou desperta, ou consegue
continuar dormindo a despeito do estímulo. Neste último caso, ela
pode fazer uso do sonho para descartar o estímulo externo, e isso,
repete-se, de mais de uma maneira. Por exemplo, ela pode deter o
estímulo sonhando com uma situação ou cena que lhe é
absolutamente intolerável. Foi esse o meio utilizado por alguémque
sofria de um doloroso abscesso no períneo. Sonhou que montava a
cavalo e usou como sela o cataplasma, com o qual pretendia aliviar
suas dores e, assim, escapou da causa do problema. Ou, como ocorre
com mais frequência, o estímulo externo recebe uma nova
interpretação, o que leva a pessoa a associá-lo a um desejo reprimido
que procura a sua realização e a despojá-lo de sua realidade, tratando-
o como se fosse uma parte do material psíquico. Assim, alguém
sonhou que havia escrito uma comédia que incorporava um tema
de�nido; a peça estava sendo encenada; o primeiro ato terminou sob
aplausos entusiásticos, uma ruidosa salva de palmas. Nesse momento,
o sonhador deve ter conseguido prolongar o sono apesar da
perturbação, pois ao acordar não ouviu mais o barulho; o sonhador
concluiu, corretamente, que alguém devia estar sacudindo um tapete
ou batendo um colchão. Os sonhos que surgem com um barulho alto
logo antes do despertar tentam, todos, encobrir o estímulo ao
despertar com alguma outra explicação e, dessa forma, prolongar o
sono por um pouco mais de tempo.
Quem aceita com convicção essa censura como o principal motivo
para a distorção onírica não �cará surpreso ao saber que, como
resultado da interpretação dos sonhos, a análise atribui a maioria dos
sonhos dos adultos a desejos eróticos. Essa a�rmação não é extraída
de sonhos de óbvia natureza sexual, que são conhecidos por todos os
sonhadores por experiência própria e em geral são os únicos descritos
como “sonhos sexuais”. Esses sonhos sempre têm uma dose su�ciente
de mistério, devido à escolha das pessoas que são transformadas em
objetos sexuais, à eliminação de todas as barreiras restritivas que
impedem as necessidades sexuais do sonhador em seu estado de
vigília, aos muitos lembretes estranhos sobre os detalhes daquilo que
se chamam de “perversões”. Entretanto, a análise constata que, em
muitos outros sonhos em cujo conteúdo manifesto nada se encontra
de erótico, o trabalho de interpretação os mostra, na realidade, como a
realização de desejos sexuais; por outro lado, grande parte dos
pensamentos produzidos quando estamos acordados – os
pensamentos que foram guardados como mero excedente do dia –
chega à apresentação nos sonhos com a ajuda de desejos eróticos
reprimidos.
No que diz respeito à explicação dessa a�rmação, que não é um
postulado teórico, devemos nos lembrar de que nenhuma outra classe
de instintos exigiu uma supressão tão vasta a mando da civilização
quanto as pulsões sexuais, embora o seu domínio pelos processos
psíquicos mais elevados seja, na maioria das pessoas, o que mais
rapidamente é abandonado. Desde que travamos conhecimento de
formas de compreensão da sexualidade infantil, muitas vezes tão vaga
em sua expressão, tão invariavelmente negligenciada e mal-
interpretada, temos razão em dizer que quase todas as pessoas
civilizadas mantiveram, em algum aspecto ou outro, o tipo infantil de
vida sexual; assim, entendemos que os desejos sexuais infantis
reprimidos fornecem os impulsos mais frequentes e mais potentes
para a formação dos sonhos.III Se os sonhos, que são a expressão de
algum desejo erótico, conseguem fazer com que seu conteúdo
manifesto pareça inocentemente assexual, isso só é possível de uma
maneira. O material dessas apresentações sexuais não pode ser
exibido como tal, mas deve ser substituído por alusões, sugestões e
meios indiretos semelhantes; diferentemente de outros casos de
apresentação indireta, os utilizados nos sonhos devem ser desprovidos
de compreensão direta. Os meios de apresentação que atendem a
esses requisitos são comumente chamados de “símbolos”. Tais
símbolos têm recebido interesse especial, uma vez que se observou
que os sonhadores falantes de uma mesma língua utilizam símbolos
semelhantes – com efeito, em certos casos a comunidade de símbolos
é maior que o âmbito da comunidade de mesma fala. Como os
próprios sonhadores não conhecem o signi�cado dos símbolos que
utilizam, segue sendo um enigma a origem da sua relação com o que
eles substituem e denotam. O fato em si é indubitável e se torna
importante para a técnica de interpretação dos sonhos, pois, com o
auxílio do conhecimento desse simbolismo onírico, é possível
compreender o signi�cado dos elementos de um sonho, de fragmentos
dele e até, vez por outra, de sonhos inteiros, sem a necessidade de
questionar o sonhador quanto às suas próprias ideias. Assim, nos
aproximamos da noção popular de uma interpretação dos sonhos e,
por outro lado, aplicamos novamente a técnica dos antigos, entre os
quais a interpretação dos sonhos era idêntica à sua explicação por
meio de símbolos.
Embora o estudo do simbolismo onírico esteja muito longe de ser
completo e de�nitivo, agora dispomos de uma série de a�rmações
gerais e de observações especí�cas que são bastantes acertadas.
Existem símbolos que têm praticamente sempre o mesmo signi�cado
universal: imperador e imperatriz (rei e rainha) signi�cam sempre pai
e mãe; um aposento representa uma mulherIV; e assim por diante. Os
sexos são representados por uma grande variedade de símbolos,
muitos dos quais seriam à primeira vista bastante incompreensíveis, se
as pistas sobre seu signi�cado não tivessem sido frequentemente
obtidas por meio de outros canais. Existem símbolos de circulação
universal, encontrados em todos os sonhadores, de uma mesma gama
linguística e cultural; há outros de signi�cado individual mais restrito,
que uma pessoa constrói a partir de seu próprio material. Na primeira
classe de símbolos, podem ser diferenciados aqueles cuja
reivindicação é imediatamente reconhecida pela substituição de coisas
sexuais na linguagem comum (aqueles, por exemplo, decorrentes da
agricultura, como reprodução, sementes) de outros cujas referências
sexuais parecem remontar aos primeiros tempos e até as profundezas
mais obscuras da nossa construção de imagem. O poder de construir
símbolos nessas duas formas especiais de símbolos não desapareceu.
Coisas recém-inventadas, a exemplo do dirigível, logo começam a ser
utilizadas universalmente como símbolos sexuais.
Seria um grande equívoco supor que um conhecimento mais
profundo do simbolismo onírico (a “linguagem dos sonhos”) nos
eximiria de perguntar ao indivíduo sonhador a respeito de suas
impressões sobre o sonho e nos devolveria toda a técnica dos
ancestrais intérpretes de sonhos. Além dos símbolos individuais e das
variações no uso do que é geral, nunca se sabe se um elemento do
sonho deve ser compreendido simbolicamente ou em seu signi�cado
próprio; com certeza, nem todo o conteúdo do sonho deve ser
interpretado em termos simbólicos. O conhecimento dos símbolos
oníricos apenas nos ajudará a compreender partes do conteúdo do
sonho e não tornará supér�uo o uso das regras técnicas previamente
de�nidas. Mas estas devem ser de grande utilidade na interpretação
dos sonhos, precisamente quando as impressões do sonhador são
restritas, insu�cientes ou ausentes. O simbolismo onírico também se
mostra indispensável para a compreensão dos sonhos “típicos” e dos
sonhos “recorrentes”. O simbolismo onírico nos leva muito além dos
sonhos; não pertence apenas ao campo deles, mas é igualmente
dominante nas lendas, nos mitos e nas sagas, na inteligência e no
folclore. O simbolismo onírico nos obriga a buscar o signi�cado
interno dos sonhos nessas produções. No entanto, devemos
reconhecer que o simbolismo não é um resultado do trabalho do
sonho, mas é provavelmente uma peculiaridade do nosso pensamento
inconsciente, que fornece ao trabalho do sonho o material para a
condensação, o deslocamento e a dramatização.
III FREUD, Sigmund. “Three contributions to sexual theory” (Três contribuições para a teoria
sexual). Tradução de A. A. Brill. In: Journal of Nervous and Mental Disease, 1905, Nova York.
IV O trecho iniciado com “e” que termina em “canais”, na sentença seguinte, é um pequeno
resumo da passagem no original. Como este livro será lido por leigos, o trecho foi traduzido
em respeito ao leitor de língua inglesa. (Nota do tradutor da edição em língua inglesa.)T alvez agora comecemos a suspeitar que a interpretação dos
sonhos é capaz de nos dar pistas sobre a estrutura do nosso
aparelho psíquico, conclusões que, até o momento, em vão tempos
esperado que a �loso�a nos propicie. Contudo, não seguiremos esse
caminho, mas retornaremos ao nosso problema original tão logo
tivermos elucidado a questão da distorção ou des�guração dos sonhos.
Veio à baila a questão de que maneira os sonhos com conteúdo
desagradável ou a�itivo podem ser analisados como a realização de
desejos. Vemos agora que isso é possível caso tenha ocorrido a
distorção ou des�guração do sonho, quando o conteúdo desagradável
serve apenas como um disfarce para o que é desejado. Tendo em
mente as nossas suposições em relação às duas instâncias psíquicas,
podemos seguir adiante e a�rmar: na verdade, os sonhos
desagradáveis contêm algo que é desagradável para a segunda
instância, mas simultaneamente realiza um desejo da primeira. São
sonhos de desejos (ou desejos oníricos), no sentido de que todo sonho
se origina na primeira instância, ao passo que a segunda é defensiva,
atua em relação aos sonhos apenas para repelir, mas não de maneira
criativa. Se nos limitarmos a uma re�exão sobre qual é a contribuição
da segunda instância para o sonho, jamais poderemos chegar a uma
compreensão dos sonhos. Se �zermos isso, todos os enigmas que os
autores encontraram nos sonhos permanecerão sem solução.
A hipótese de que os sonhos têm realmente um signi�cado secreto,
de que, ao �m e ao cabo, são a realização de um desejo, deve ser
provada, em cada caso especí�co, por meio de uma análise. Assim,
selecionarei alguns sonhos de conteúdo a�itivo e doloroso e tentarei
analisá-los. São, em parte, sonhos de pacientes histéricos, que exigem
longas declarações preliminares e, vez por outra, também um exame
dos processos psíquicos que ocorrem na histeria. Não posso, contudo,
escapar dessa di�culdade adicional na exposição.
Como eu já disse, quando submeto a tratamento analítico um
paciente psiconeurótico, seus sonhos são sempre um dos temas das
nossas conversas. O tratamento deve, portanto, dar a ele todas as
explicações psicológicas, por meio das quais eu próprio chego à
compreensão dos seus sintomas, e aqui estou sujeito a críticas
implacáveis, que talvez não sejam menos incisivas do que a que devo
esperar dos meus colegas de pro�ssão. Com perfeita regularidade,
meus pacientes contradizem a minha tese de que todos os sonhos são
realizações de desejos. Cito a seguir alguns exemplos do material
onírico apresentados a mim como provas em contrário para refutar
esse posicionamento.
“O senhor sempre me diz que o sonho é um desejo realizado”,
começa a declarar uma de minhas pacientes, uma jovem muito
inteligente, “pois agora eu vou lhe contar um sonho cujo conteúdo é
exatamente o oposto, um sonho em que um desejo meu não é
realizado. Como o senhor concilia isso com a sua teoria? O sonho é o
seguinte:
“Quero oferecer um jantar para convidados em minha casa, mas não
tendo nada à mão a não ser um pouco de salmão defumado, penso em
ir fazer compras no mercado, mas me ocorre que é domingo à tarde,
quando todos os estabelecimentos estão fechados. Em seguida, tento
telefonar para alguns fornecedores, mas o telefone está com defeito…
assim, só me resta renunciar ao meu desejo de oferecer um jantar.”
Respondo, logicamente, que somente com análise poderia entender
o signi�cado desse sonho, embora eu admita que à primeira vista
parece sensato e coerente e demonstra ser o oposto de uma realização
de desejo. “Mas que acontecimento deu origem ao sonho?”, pergunto.
“Você sabe que o material que serve de estímulo para um sonho está
sempre nas experiências do dia anterior.”
Análise: o marido da paciente, um açougueiro honesto e íntegro,
comentara com ela no dia anterior que estava engordando demais e
que, por isso, tinha a intenção de iniciar um tratamento para a
obesidade. Ele acordaria cedo, faria exercícios físicos, seguiria uma
dieta rigorosa e, acima de tudo, não aceitaria mais nenhum convite
para jantares. A paciente passa a me contar, rindo, que o marido, à
mesa de uma pousada onde costumava almoçar, travou contato com
um pintor, que insistiu em pedir permissão para pintar seu retrato,
porque ele, o artista, nunca havia encontrado um rosto de feições tão
expressivas. No entanto, com seu jeito áspero, o marido respondeu que
se sentia muito grato pela homenagem, mas estava bastante
convencido de que uma parte do traseiro de uma linda jovem
agradaria mais ao artista do que todo o seu rosto.V Minha paciente
disse que na época estava muito apaixonada pelo marido e caçoava
bastante dele. Ela também lhe implorou que não lhe trouxesse
nenhum caviar.
O que isso signi�ca? Ela explicou que, na realidade, havia muito
tempo desejava comer um sanduíche de caviar todas as manhãs, mas
relutava em arcar com tamanha despesa. É claro que o marido lhe
forneceria imediatamente o caviar, tão logo o pedisse a ele; mas, ao
contrário, ela insistiu com veemência que ele não lhe trouxesse o caviar,
porque assim poderia continuar a caçoar dele por mais tempo.
Essa explicação me parece forçada e absurda. Motivos não
admitidos costumam se esconder atrás de explicações insatisfatórias.
Isso nos faz lembrar dos pacientes hipnotizados por Bernheim26, que
cumpriam um comando pós-hipnótico e que, ao serem questionados
sobre os motivos de seu comportamento, em vez de responderem “Não
sei por que �z isso”, tinham de inventar uma razão obviamente
inadequada. Alguma coisa similar provavelmente se aplicava ao caso
do caviar da minha paciente. Vi que ela foi compelida a criar para si
um desejo não realizado na vida. Seu sonho mostrava, também, a
reprodução do desejo como realizado. Mas por que ela precisa de um
desejo não realizado?
As ideias que a minha paciente havia apresentado até então eram
insu�cientes para a interpretação do sonho. Eu insisti que ela falasse
mais. Após uma breve pausa, que corresponde à superação de uma
resistência, ela relata que no dia anterior �zera uma visita a uma
amiga, de quem sentia muito ciúme, pois seu marido (de minha
paciente) vivia cobrindo de elogios essa mulher. Felizmente, a amiga é
muito magra e esguia, e o marido dela gosta de silhuetas mais
curvilíneas. E do que essa amiga magra fala? Naturalmente, de seu
desejo de se tornar um pouco mais robusta. Ela também perguntou à
minha paciente: “Quando vai nos convidar de novo para jantar? Você
sempre tem uma mesa tão farta!”.
Agora o signi�cado do sonho estava claro, e pude dizer à minha
paciente: “É como se, no momento em que ela fez o pedido, você
tivesse pensado: ‘Claro, vou convidá-la para que possa se empanturrar
de comida na minha casa e engordar e se tornar ainda mais agradável
aos olhos do meu marido’… Pre�ro não oferecer jantares nunca mais’.
O sonho, então, diz a você que não pode dar um jantar, cumprindo,
portanto, o seu desejo de não contribuir em nada para tornar mais
roliço o corpo da sua amiga”. A resolução do marido de recusar
convites para jantar a �m de emagrecer ensinou à minha paciente que
as pessoas engordam com as coisas que são servidas em festas e
reuniões sociais. Agora bastava apenas um pouco de conversa para
con�rmar a solução. A origem do salmão defumado do sonho ainda
não havia sido identi�cada. “Como lhe ocorreu o salmão mencionado
no seu sonho?” “Salmão defumado é o prato predileto dessa minha
amiga”, respondeu a paciente. Acontece que eu também conheço a
mulher em questão, e posso corroborar essa informação a�rmando
que ela se ressente tanto de não comer salmão quanto a minha
paciente se ressente de não comer caviar.
O sonho admite, ademais, outra interpretação, mais exata,
necessária apenas por uma circunstância subordinada. As duas
interpretações não se contradizem, mas antes se complementam e
constituem um belo exemplo da usual ambiguidade dos sonhos, bem
como de todas as outras formações psicopatológicas. Vimos que, ao
mesmo tempo que sonhava com a negação ou renúncia de um desejo,
minha paciente estava, na realidade, ocupada em garantirum desejo
não realizado (os sanduíches de caviar). Também a sua amiga
manifestou o desejo – a saber, de engordar –, e não nos surpreenderia
se a nossa senhora tivesse sonhado que o desejo da amiga não se
concretizava, pois o próprio desejo de minha paciente era o de que um
desejo de sua amiga – ganhar peso – não se realizasse. Em vez disso,
porém, ela sonha que um de seus próprios desejos não foi realizado. O
sonho, portanto, torna-se passível de uma nova interpretação se
partirmos da premissa de que nele não é ela mesma a pessoa indicada,
mas, sim, a amiga: ela se colocou no lugar da amiga, ou, digamos, se
identi�cou com ela.
Creio que ela de fato fez isso e, como prova dessa identi�cação,
criou um desejo não realizado na vida real. Mas qual é o signi�cado
dessa identi�cação histérica? Para esclarecer tal ponto, é necessária
uma exposição completa e minuciosa. A identi�cação é um fator
extremamente importante no mecanismo dos sintomas histéricos; é
um recurso que permite aos pacientes se capacitarem a representar
em seus sintomas não apenas as suas próprias experiências, mas
também as experiências de um grande número de outras pessoas, e
sofrer, por assim dizer, por toda uma multidão de pessoas e
desempenhar sozinhas, por meio de sua própria personalidade, todos
os papéis de uma peça. Nesse ponto, é possível fazer a objeção de que
se trata de uma bem conhecida imitação histérica, a capacidade dos
sujeitos histéricos de copiar todos os sintomas que os impressionam
quando ocorrem em outros indivíduos, como se a sua piedade fosse
estimulada até o ponto da reprodução. Mas isso indica apenas de que
maneira o processo psíquico deságua em uma imitação histérica; o
modo como um ato psíquico ocorre e o ato em si são duas coisas
diferentes. Este último é um pouco mais complexo do que se costuma
imaginar que seja a imitação comum de sujeitos histéricos: consiste
em um processo inconsciente concluído, como um exemplo mostrará.
O médico que atende a uma paciente com um tipo especí�co de
espasmo, internada na companhia de outros pacientes no mesmo
quarto do hospital, não se surpreende quando, certa manhã, é
informado de que esse peculiar ataque histérico encontrou
imitadores. O médico simplesmente diz a si mesmo: “Os outros a
viram e �zeram o mesmo: isso é infecção psíquica”. Sim, mas a
infecção psíquica ocorre mais ou menos da seguinte maneira: via de
regra, os pacientes sabem mais uns dos outros do que o médico sabe a
respeito de cada um deles e se preocupam uns com os outros assim
que termina a visita médica à enfermaria. Se um dos pacientes tiver
um ataque hoje, logo se saberá entre os demais pacientes que a causa
foi o recebimento de uma carta de casa, o reavivamento de uma paixão
amorosa ou algo parecido. A solidariedade dos pacientes é despertada,
e neles se completa o seguinte silogismo, que, contudo, não consegue
chegar à consciência: “Se é possível ter esse tipo de ataque por causa
disso, eu também posso ter o mesmo tipo de ataque, pois tenho os
mesmos motivos”. Se fosse um ciclo capaz de se tornar consciente,
talvez se expressasse na forma de medo de sofrer o mesmo ataque;
entretanto, ocorre em outra esfera psíquica e, por conseguinte,
culmina na concretização do temido sintoma. A identi�cação não é,
portanto, uma simples imitação, mas uma simpatia baseada na mesma
a�rmação etiológica; expressa uma analogia (“como se”) e se refere a
algum elemento comum que permaneceu no inconsciente.
Utiliza-se a identi�cação com mais frequência na histeria para
expressar um elemento sexual em comum. Uma mulher histérica se
identi�ca mais rapidamente – embora não de forma exclusiva – com
as pessoas com quem teve relações sexuais ou com quem tenha tido
relações sexuais com as mesmas pessoas que ela. A linguagem leva em
consideração esse conceito: diz-se que dois amantes são “uma mesma
pessoa”. Nas fantasias histéricas, assim como nos sonhos, para a
identi�cação é su�ciente que a pessoa pense em relações sexuais,
tenham ocorrido na realidade ou não. Minha paciente estava apenas
seguindo as regras dos processos de pensamento histérico ao dar
expressão ao ciúme da amiga (que ela mesma admite ser injusti�cado,
na medida em que se coloca no lugar da outra e se identi�ca com ela
por meio da criação de um sintoma – o desejo renunciado). Posso
esclarecer melhor o processo com considerações especí�cas, da
seguinte forma: no sonho, minha paciente se colocou no lugar da
amiga, porque a amiga assumiu o lugar dela em relação ao marido e
porque ela (a paciente) gostaria de ocupar o lugar da amiga na estima
do marido.VI
No caso de outra paciente, a mais espirituosa de todas as minhas
sonhadoras, a contradição com a minha teoria dos sonhos foi
resolvida de maneira mais simples, embora de acordo com o padrão
de que a não realização de um desejo signi�ca a realização de outro.
Um dia, eu lhe expliquei que os sonhos são realizações de desejos. No
dia seguinte, ela me relatou um sonho no qual viajava com a sogra até
um balneário onde passariam juntas as férias de verão. Ora, eu sabia
que ela havia rejeitado veementemente a ideia de passar o verão perto
da sogra. Eu sabia, também, que ela, para sua alegria, conseguira
evitar o contato com sogra por se hospedar em um resort distante.
Agora o sonho invertia essa solução; não seria isso a mais �agrante
contradição da minha teoria de que nos sonhos os desejos são
realizados? Decerto bastava apenas fazer as inferências desse sonho
para chegar à interpretação. De acordo com esse sonho, eu estava
errado. Era, portanto, desejo dela que eu estivesse errado, e o sonho lhe
mostrou esse desejo realizado. Mas o desejo de que eu estivesse errado,
concretizado no tema da casa de veraneio, dizia respeito a um assunto
mais sério. Naquela época, eu havia concluído, com base no material
fornecido pela análise dessa paciente, que em determinado momento
de sua vida devia ter ocorrido algo que tinha papel signi�cativo em
sua doença. Ela negou, uma vez que nenhum indício disso estava
presente em sua memória. Logo pudemos constatar que eu estava
certo. O seu desejo de que eu estivesse errado, que se transformou em
seu sonho de férias com a sogra, correspondia ao desejo justi�cado de
que aquelas coisas, que na altura eram apenas suspeitas, nunca
tivessem ocorrido.
Sem nenhuma análise, e apenas por meio de uma suposição, tomei
a liberdade de interpretar um pequeno acontecimento no caso de um
amigo, que havia sido meu colega de classe ao longo de todo o curso
secundário. Certa vez, ele ouviu uma palestra que proferi para uma
pequena plateia sobre a noção inédita dos sonhos como a realização
de desejos. Ele foi embora para casa, sonhou que havia perdido todos
os seus casos judiciais – ele era advogado – e depois veio se queixar
comigo a respeito disso. Eu lhe dei uma resposta esquiva: “Não se pode
ganhar todos os casos”, mas pensei comigo mesmo: “Durante os oito
anos na escola eu me sentei na primeira �leira da classe, na condição
de melhor aluno, enquanto ele mudava de um lugar para o outro entre
os alunos medianos, será que por isso naturalmente não alimenta
ainda um desejo, remanescente da infância, de que eu, pelo menos
uma vez na vida, fracasse de forma retumbante?”.
Da mesma forma, uma paciente me relatou um sonho de caráter
mais sombrio como uma contradição à minha teoria dos sonhos de
desejo. A paciente, uma moça, começou assim:
“O senhor deve estar lembrado de que agora a minha irmã só tem um
�lho, Karl; ela perdeu o mais velho, Otto, enquanto eu ainda morava
na casa dela. Otto era meu favorito; a verdade é que eu o criei. Eu
também gosto do outro garotinho, mas não tanto quanto do falecido.
Ontem à noite sonhei que via Karl morto diante de mim. Ele estava
deitado em seu caixãozinho, com as mãos cruzadas sobre o peito:
havia velas por toda parte e, em suma, era exatamente igual ao
velório do pequeno Otto, o que me deixou profundamente chocada.
Agora me diga, o que isso signi�ca? O senhor me conhece: sou
realmente uma pessoa tão má a ponto de desejar que minha irmã
perca o único �lhoque ainda tem? Ou o sonho signi�ca meu desejo de
que Karl estivesse morto no lugar de Otto, de quem eu gosto muito
mais?”
Assegurei-lhe que esta última interpretação era impossível. Depois
de alguma re�exão, consegui formular a interpretação correta do
sonho, que posteriormente ela con�rmou.
Tendo �cado órfã ainda em tenra idade, a menina foi criada na casa
de uma irmã muito mais velha e conheceu, entre os amigos e visitantes
que frequentavam a casa, um homem que deixou em seu coração uma
impressão duradoura. Durante algum tempo, pareceu que essas
relações um tanto veladas terminariam em casamento, mas esse
desfecho feliz foi frustrado pela irmã, cujos motivos nunca
encontraram uma explicação completa. Após o rompimento, o
homem amado de minha paciente deixou de frequentar a casa; já a
paciente foi morar sozinha, algum tempo depois da morte do pequeno
Otto, a quem agora se voltaram seus afetos. Mas ela não conseguiu se
desvencilhar do interesse amoroso pelo amigo da irmã, com o qual se
envolvera. Seu orgulho ordenava que ela o evitasse; mas era
impossível transferir o seu amor para outros pretendentes que se
apresentavam. Sempre que o homem a quem ela amava, que era por
pro�ssão um literato, anunciava uma palestra em qualquer lugar, ela
dava um jeito de estar na plateia; e também aproveitava todas as outras
oportunidades para contemplá-lo a distância, sem que ele percebesse.
Lembrei-me de que, no dia anterior, ela me dissera que o seu homem
de letras assistiria a um certo concerto, e que ela também iria até lá,
para ter o prazer de vê-lo mais uma vez. Isso foi no dia do sonho; e o
concerto aconteceria no dia em que ela me relatou o sonho. Agora
pude ver facilmente a interpretação correta e lhe perguntei se ela
conseguia pensar em algum fato ocorrido após a morte do pequeno
Otto. Ela respondeu, de imediato: “Certamente; naquela época o
professor voltou depois de uma longa ausência, e eu o vi mais uma vez
ao lado do caixão do pequeno Otto”. Exatamente como eu esperava.
Interpretei o sonho da seguinte maneira: “Se o outro menino morresse
agora, a mesma coisa se repetiria. Você passaria o dia com sua irmã, o
professor certamente apareceria para oferecer condolências, e você o
veria novamente nas mesmas circunstâncias daquela época. O sonho
não signi�ca nada além desse seu desejo de revê-lo, contra o qual você
está lutando interiormente. Eu sei que você carrega na bolsa o ingresso
para o concerto de hoje. Seu sonho é um sonho de impaciência; ele
antecipou em várias horas o encontro que acontecerá logo mais”.
Para disfarçar o seu desejo, ela obviamente escolheu uma situação
em que desejos desse tipo são comumente sufocados – uma situação
tão repleta de tristeza que é impossível pensar no amor. No entanto, é
muito provável que, mesmo na situação real no caixão do menino a
quem ela amava ainda mais – e que o sonho copiou �elmente –, ela
não tenha sido capaz de reprimir seus sentimentos de afeto pelo
visitante ausente de quem sentia tanta saudade.
Uma explicação diferente foi encontrada no caso de um sonho
semelhante de outra paciente, que na juventude se distinguira por seu
raciocínio rápido e seu comportamento alegre, qualidades que ela
ainda demonstrava, pelo menos nas ideias que lhe ocorreram no
decurso do tratamento. Em conexão com um sonho mais longo, essa
senhora teve a impressão de ter visto sua �lha, de 15 anos, morta diante
dela, dentro de uma caixa. Essa paciente estava fortemente inclinada a
converter essa imagem onírica em uma objeção à teoria da realização
dos desejos, embora ela mesma suspeitasse de que o detalhe da caixa
devia levar a uma concepção diferente do sonho.VII No decorrer da
análise, ocorreu-lhe que, em uma reunião festiva ocorrida na noite
anterior, a conversa girou em torno da palavra inglesa box e de suas
inúmeras possibilidades de tradução para o alemão, como box
[Schachtel, “caixa”], theatre box [Loge, “camarote de teatro”], chest
[Kasten, “arca”], box on the ear [Ohrfeige, “murro no ouvido”] etc. A
partir de outros componentes do mesmo sonho, agora é possível
acrescentar que a senhora tinha adivinhado a relação entre a palavra
inglesa “box” e a palavra alemã Büchse, e desde então estava
assombrada pela lembrança de que Büchse (assim como box) é usada
na linguagem vulgar para designar o órgão genital feminino. Portanto,
era possível supor, levando em consideração suas noções sobre
anatomia topográ�ca, que a criança que jazia na caixa signi�cava uma
criança no ventre da mãe. Nessa fase da explicação, a paciente já não
negava que a imagem do sonho correspondia realmente a um dos seus
desejos. Como tantas outras jovens, ela não �cou nada feliz quando
engravidou, e mais de uma vez admitiu para mim o desejo de que sua
�lha morresse antes de nascer; em um acesso de raiva após uma cena
violenta com o marido, ela chegou a esmurrar o abdômen para ferir a
criança que estava dentro dela. Portanto, a criança morta era, na
verdade, a realização de um desejo, que �cou de lado durante quinze
anos, e não é de estranhar o fato de que a realização do desejo não foi
mais reconhecida depois de um intervalo tão longo, pois, nesse meio-
tempo, houve muitas mudanças.
O grupo de sonhos a que pertencem os dois últimos sonhos
mencionados, tendo como conteúdo a morte de parentes queridos,
será considerado novamente sob o título de “sonhos típicos”. Serei,
então, capaz de mostrar por meio de novos exemplos que, apesar de
seus conteúdos indesejáveis, todos esses sonhos devem ser
interpretados como realizações de desejos. Quanto ao sonho seguinte,
que novamente me contaram a �m de me dissuadir de fazer uma
precipitada generalização da teoria do desejo nos sonhos, estou em
dívida não com um paciente, mas com um inteligente jurista
conhecido meu. Diz-me meu informante:
“Eu sonho que estou passando a pé na frente da minha casa com uma
senhora de braço dado comigo. Uma carruagem fechada está
esperando; um cavalheiro se aproxima de mim, apresenta-se como
agente da polícia e exige que eu o acompanhe. Peço a ele algum tempo
para organizar meus assuntos. O senhor supõe que se trata de um
desejo meu ser preso?”
“Claro que não”, tive de admitir. “O senhor sabe qual era a acusação
que o levou a ser preso?” “Sim, acredito que foi infanticídio.”
“Infanticídio? Mas o senhor sabia que esse crime somente pode ser
cometido pela mãe contra o �lho recém-nascido?” “Isso é verdade.”VIII
“E em que circunstâncias o senhor sonhou; o que aconteceu na noite
anterior?” “Isso eu pre�ro não contar, é um assunto delicado.” “Mas eu
preciso saber, caso contrário teremos de desistir da interpretação do
sonho.” “Pois bem, então vou lhe contar. Não passei a noite em casa,
mas na residência de uma senhora que signi�ca muito para mim.
Quando acordamos pela manhã, novamente algo se passou entre nós.
Então eu dormi de novo e sonhei o que acabei de relatar a você.” “A
mulher é casada?” “Sim.” “E o senhor não deseja ter um �lho com
ela?” “Não, uma gravidez poderia nos denunciar.” “Então o senhor não
pratica coito normal?” “Tomo a precaução de retirar antes da
ejaculação.” “Posso presumir que o senhor usou essa técnica várias
vezes durante a noite e pela manhã estava inseguro, sem saber com
certeza se havia conseguido?” “Pode ser que sim.” “Então o seu sonho
é a realização de um desejo. Nele, o senhor obteve a certeza de que não
gerou um �lho ou, o que dá no mesmo, de que matou uma criança.
Posso demonstrar facilmente os elos. O senhor se lembra de que, há
poucos dias, falávamos sobre as vicissitudes do matrimônio (Ehenot,
“angústia conjugal”, em alemão) e sobre a incoerência de se permitir a
prática do coito desde que não haja fecundação, ao passo que toda
delinquência após o óvulo e o sêmen se encontrarem e se formar um
feto é punida como crime? Nesse sentido, recordamos também a
controvérsia medieval sobre o momento em que a alma está realmente
alojada no feto, uma vez que o conceito de homicídio só se torna
admissível desse instante em diante. Sem dúvida o senhor também
conhece o horrendo poema de Lenau27, que equiparade vigília. Deste modo, ao interpretar um sonho, podemos
acessar aspectos da psiquê humana e ter acesso aos processos mentais
que in�uenciam a nossa vida, sem nos darmos conta.
Neste livro, Freud introduziu conceitos fundamentais que se
tornariam pedras angulares da psicanálise, tais como o inconsciente, o
desejo recalcado e os complexos edipianos. Ele explorou a estrutura e
o conteúdo dos sonhos, argumentando que até mesmo os elementos
aparentemente absurdos ou perturbadores têm signi�cados que
re�etem os con�itos e as preocupações do sonhador.
Freud descreveu detalhadamente sua técnica de interpretação de
sonhos, que envolve análise cuidadosa dos elementos manifestos e
latentes do estado onírico, assim como associações livres e
transferência de pensamentos. Ele ilustrou sua abordagem com
exemplos clínicos e autobiográ�cos, oferecendo insights valiosos sobre
como aplicar sua metodologia na prática clínica.
A psicologia dos sonhos não apenas revolucionou a psicologia e a
psicanálise, mas também impactou signi�cativamente diversas áreas,
incluindo a literatura, a arte e a cultura popular. As ideias de Freud
sobre os sonhos continuam a inspirar pesquisadores, psicoterapeutas
e estudiosos ainda hoje, demonstrando sua relevância duradoura e sua
posição como uma das obras mais in�uentes, porque não, da história
da psicologia. Por �m, A psicologia dos sonhos é uma obra indispensável
para qualquer pessoa instigada pela complexidade da psiquê humana,
oferecendo uma janela fascinante para os mistérios do inconsciente e
abrindo caminho para uma compreensão mais abrangente do ser
humano.
P
DEBORAH KLAJNMAN
ós-doutoranda pela USP, doutora em Psicanálise pela
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) com cotutela
em Psicologia pela Université Côte d’azur (UNICE- França), mestre em
Clínica e Pesquisa em Psicanálise pela UERJ, especialista em Clínica
Psicanalítica pelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB) e graduada
em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Tem
experiência em docência, psicologia clínica, saúde mental com ênfase
em Psicanálise, psicologia hospitalar e assistência social. Autora dos
livros: Todo mundo é louco, ou seja, delirante: novas hipóteses e uma
concepção desde Freud e A realidade psíquica na neurose e na psicose: de
Freud a Lacan.Consultora do MEC em processos de autorização de
cursos de graduação em Psicologia. Atualmente atende em consultório
particular, é professora universitária. Pesquisa os seguintes temas:
psicopatologia, diagnóstico diferencial e metapsicologia psicanalítica,
direitos humanos e negacionismo em sua articulação com a
Psicanálise.
P
MAICO COSTA
ós-doutorado pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São
Paulo (USP), sob supervisão do psicanalista Prof. Dr. Paulo Cesar
Endo. Doutorado pelo curso de Pós- Graduação em Psicologia e
Sociedade (UNESP – Campus de Assis), sob �nanciamento da
FAPESP. Mestrado em Psicologia pela UNESP – Campus Assis, sob
�nanciamento da FAPESP. Aprimoramento pelo Programa de
Aprimoramento Pro�ssional em Saúde Mental e Saúde Pública do
Departamento Regional de Saúde (DRS) IX – Marília/SP. Graduado
em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho” – FCL/Unesp, Assis, SP. Foi membro do Laboratoire Centre de
Recherches Psychanalyse, Médecine et Société – Université Paris
Diderot 7. Psicólogo da Comissão de Inclusão e Pertencimento –
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Membro aspirante do Departamento de Psicossomática Psicanalítica
do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo. Sua ênfase de trabalho e
pesquisa, além de interesse, depositam-se nos seguintes temas:
políticas públicas e políticas sociais; saúde pública e saúde coletiva;
movimento sanitário e reforma sanitária; atenção psicossocial;
Psicanálise e hospital; Psicanálise e psicossomática; Psicanálise e
saúde coletiva; Psicanálise e políticas públicas; Psicanálise e política;
Marx e Psicanálise. Autor de quatro livros: Clínica e Psicologia no
contexto hospitalar: contribuições da reforma sanitária e da saúde coletiva;
Urgência e sujeito numa unidade hospitalar: ensaios sobre a práxis da
Psicanálise na instituição de saúde; Dor (psíquica) e psicossomática: breves
considerações sobre a clínica e a teoria psicanalítica na urgência hospitalar e
Psicanálise e política: os limites de uma práxis.
C
INTRODUÇÃO
om razão, a pro�ssão médica é conservadora. Não se deve
considerar a vida humana o material adequado para
experimentos tresloucados. O conservadorismo, por outro lado, é
amiúde uma desculpa bem-vinda para mentes preguiçosas, relutantes
em adaptarem-se a condições suscetíveis a rápidas mudanças.
Basta lembrarmo-nos da desdenhosa recepção dada às descobertas
de Freud no campo do inconsciente.
Quando Freud, depois de anos de persistentes observações, decidiu
comparecer diante de entidades médicas para, modestamente, relatar
aos colegas alguns fatos que apareciam repetidas vezes em seus
próprios sonhos, além de serem recorrentes também nos sonhos de
seus pacientes, ele foi ridicularizado de início; depois, contestado e
rechaçado com a má fama de excêntrico.
A expressão “interpretação dos sonhos” era – e ainda é – repleta de
associações desagradáveis e não cientí�cas. Normalmente, remete-nos
a uma grande variedade de noções infantis e supersticiosas, que
constituem o estofo dos livros sobre sonhos que apenas gente
ignorante e primitiva lê.
A riqueza de detalhes e o in�nito cuidado para jamais deixar sem
explicação algum fato, inerentes à maneira como Freud demonstrou
ao público o resultado de suas investigações, impressionam um
número cada vez maior de cientistas sérios, mas o exame das
evidências que ele apresentou exige um trabalho árduo e pressupõe
uma mente absolutamente aberta.
Por essa razão, ainda hoje encontramos pessoas que, embora
desconheçam por completo os escritos de Freud e sequer se
interessem o su�ciente pelo tema para tentar sugerir uma
interpretação de seus próprios sonhos ou dos sonhos dos seus
pacientes, zombam das teorias freudianas e as combatem,
respaldando-se em a�rmações que Freud jamais fez.
Algumas delas, a exemplo do professor Boris Sidis1, chegam por
vezes a conclusões estranhamente semelhantes às de Freud; contudo,
em sua ignorância da literatura psicanalítica, não são capazes de dar
ao estudioso austríaco o devido crédito por observações feitas
anteriormente às suas.
Há, ainda, outro grupo de pessoas que transforma o estudo dos
sonhos em alvo de escárnio porque nunca empreendeu uma
investigação aprofundada do assunto, que não ousa encarar os fatos
revelados pelo estudo dos sonhos. Os sonhos nos contam muitas
verdades biológicas desagradáveis acerca de nós mesmos, e apenas
mentes muito livres podem se desenvolver com base em uma dieta
dessas. O autoengano é uma planta que de�nha rapidamente na
atmosfera translúcida da investigação dos sonhos.
Os fracos e neuróticos, apegados à própria neurose, não estão ávidos
por lançar um holofote tão potente para iluminar os cantos escuros da
sua psicologia.
As teorias de Freud não são, em absoluto, teóricas.
Movido pelo fato de que aparentemente havia sempre uma estreita
ligação entre os sonhos de seus pacientes e as anormalidades mentais
deles, Freud se dispôs a reunir milhares de sonhos e compará-los aos
históricos clínicos que tinha em mãos.
Ele não começou com um viés preconcebido, na esperança de
encontrar provas que pudessem corroborar seus pontos de vista. Em
vez disso, esquadrinhou os fatos várias vezes, “até que começassem a
lhe dizer alguma coisa”.
Sua atitude em relação ao estudo dos sonhos foi, em outras
palavras, a de um estatístico que não sabe e não tem meios de prever
quais conclusões inevitáveis lhe serão impostas pelas informações que
está coletando, mas que está totalmente preparado para aceitá-las.
Foi, sem dúvida, um processo novo em psicologia. Até então, os
psicólogos sempre se mostraram habituados a formular – o que
Bleuler2 chamou de “costumes autistas”, isto é, lançando mão de
métodoso infanticídio à
prevenção da gravidez.” “Estranhamente, pensei em Lenau durante a
tarde.” “Outro eco do seu sonho. E agora demonstrarei ao senhor a
outra realização de desejo subordinada em seu sonho. O senhor passa
na frente de sua casa de braços dados com a senhora. Ou seja, você a
está levando para sua casa, em vez de passar a noite com ela na casa
dela, como o senhor fez na realidade. Talvez haja mais de uma razão
para o fato de a realização do desejo, que é a essência do sonho, se
disfarçar de uma forma tão desagradável. No meu ensaio sobre a
etiologia das neuroses de ansiedade, o senhor verá que aponto o coitus
interruptus (coito interrompido) como um dos fatores que causam o
desenvolvimento do medo neurótico. Seria condizente com isso que,
se após repetidas práticas sexuais do tipo mencionado, o senhor
�casse com um estado de ânimo desconfortável, uma inquietação que
agora se torna um elemento na composição do seu sonho. O senhor
também faz uso desse estado de espírito desagradável para encobrir a
realização do desejo. Além disso, a menção ao infanticídio ainda não
foi explicada. Por que esse crime, que é tão especí�co das mulheres,
ocorreu ao senhor?” “Devo confessar-lhe que estive envolvido em um
caso assim há anos. Por minha culpa, uma moça tentou se proteger das
consequências de um relacionamento comigo fazendo um aborto.
Nada tive a ver com a execução do plano, mas naturalmente �quei
muito tempo preocupado com a possibilidade de o caso vir a público.”
“Eu compreendo. Essa lembrança forneceu uma segunda razão pela
qual a suposição de ter feito mau uso do recurso anticoncepcional
deve ter sido dolorosa para o senhor.”
Um jovem médico, que ouvia o relato desse sonho, deve ter �cado
sugestionado, pois se apressou em imitá-lo em seu próprio sonho,
aplicando o mesmo modo de pensamento a outro tema. Um dia antes,
ele entregara a declaração de imposto de renda, que preencheu com
perfeita idoneidade, mesmo porque tinha poucos rendimentos a
declarar. Ele sonhou que um conhecido seu, que acabava de sair de
uma reunião da Comissão Tributária, foi procurá-lo para lhe informar
de que todas as demais declarações de rendimentos foram aprovadas
sem contestação, mas que a dele havia despertado suspeitas
generalizadas e que ele seria punido com uma pesada multa. O sonho
é a mal disfarçada realização do desejo de ser reconhecido como um
médico de grande renda e muitas posses.
Além desta, fez lembrar a história da jovem que foi aconselhada a
não aceitar o pedido de casamento de seu pretendente porque ele era
um homem de temperamento explosivo, que certamente a trataria
com violência e maus-tratos depois que se casassem. A resposta da
moça foi: “Eu adoraria que ele me espancasse!”. Seu desejo de se casar
era tão forte que ela aceitava o desconforto que lhe diziam estar ligado
ao matrimônio – e que estava previsto para ela –, a ponto de
transformá-lo em desejo.
Se eu agrupo os sonhos desse tipo, que ocorrem com muita
frequência – e que parecem contradizer categoricamente minha teoria,
na medida em que contêm como tema a negação de um desejo ou de
alguma ocorrência claramente indesejados –, sob o título de “sonhos
de contradesejo”, observo que todos podem ser associados a dois
princípios, dos quais um ainda não foi mencionado, embora
desempenhe um papel relevante nos sonhos dos seres humanos. Um
dos motivos que inspiram esses sonhos é o desejo de parecer que estou
errado. Esses sonhos ocorrem regularmente no decorrer do meu
tratamento se o paciente mostrar resistência contra mim, e posso
contar, com elevado grau de certeza, que causarei esse sonho depois de
ter explicado ao paciente uma única vez a minha teoria de que os
sonhos são a realização de desejos.IX Posso, de fato, esperar que isso
aconteça em um sonho apenas para realizar o desejo de que possa
parecer que estou errado. O último sonho que relatarei, entre aqueles
que ocorreram durante o tratamento, mostra, de novo, exatamente
isso.
Uma jovem, que tem se empenhado muito para continuar a fazer o
tratamento comigo, contra a vontade dos seus familiares e das
autoridades que ela consultou, sonha o seguinte:
“Em casa, seus familiares a proibiram de continuar a vir para as
minhas consultas. Ela, então, me lembra da promessa que eu lhe
�zera de que a trataria de graça, se necessário, ao que respondo: ‘Não
posso fazer concessão nenhuma em questões �nanceiras’”.
Não é nada fácil, neste exemplo, demonstrar a realização de um
desejo, mas em todos os casos desse tipo existe um segundo problema,
cuja solução ajuda, também, a resolver o primeiro enigma. De onde
ela tira as palavras que põe na minha boca? É claro que eu nunca lhe
disse nada parecido, mas um de seus irmãos, aquele que exerce maior
in�uência sobre ela, teve a gentileza de atribuir a mim esse
comentário. É, então, o propósito do sonho provar que o irmão estava
certo; e ela não tenta dar a razão a ele apenas nos sonhos; era seu
propósito na vida, e o motivo de ela estar doente.
O outro motivo para os sonhos de contradesejo é tão óbvio que há o
perigo de deixá-lo despercebido, como aconteceu comigo durante
algum tempo. Na constituição sexual de muitas pessoas, existe um
componente masoquista, que decorre da inversão do componente
agressivo e sádico em seu oposto. Essas pessoas são chamadas de
masoquistas “ideais”, por buscarem prazer não na dor corporal que
lhes pode ser in�igida, mas na humilhação e no castigo da alma. É
claro que essas pessoas podem ter sonhos de contradesejo e sonhos
desprazerosos, que, no entanto, para elas nada mais são do que a
realização de desejos, pois proporcionam satisfação às suas
inclinações masoquistas. Citarei aqui um desses sonhos. Um rapaz –
que durante anos havia atormentado seu irmão mais velho, por quem
tinha inclinações homossexuais, mas que havia passado por uma
mudança completa de caráter – tem o seguinte sonho, composto por
três partes:
1. Ele é “insultado” por seu irmão.
2. Dois homens adultos trocam carícias com intenções homossexuais.
3. O irmão vendeu a empresa que o rapaz almejava administrar
futuramente.
Ele desperta deste último sonho com os sentimentos mais
desagradáveis; não obstante, trata-se de um sonho masoquista, que
pode ser assim traduzido: seria muito útil para mim se meu irmão �zesse a
venda contra o meu interesse, como punição por todos os tormentos que ele
sofreu em minhas mãos.
Espero que a discussão apresentada e os exemplos mencionados
sejam su�cientes – até que novas objeções possam ser levantadas –
para fazer parecer crível que até mesmo os sonhos com um conteúdo
doloroso devem ser analisados como a realização de desejos.
Tampouco parecerá uma questão de mero acaso que, no decurso da
interpretação desses sonhos, sempre nos deparamos com assuntos
sobre os quais não gostamos de falar ou nos quais relutamos em
pensar. A sensação desagradável que esses sonhos despertam é
simplesmente idêntica à antipatia que tenta – geralmente com êxito –
nos impedir de tratar ou discutir esses assuntos, e que deve ser
superada por todos nós, se, apesar de seu desagrado, julgarmos
necessário enfrentá-los. Mas esse sentimento de desprazer, que ocorre
também nos sonhos, não exclui a existência de um desejo; todos nós
temos desejos que não gostaríamos de revelar a outras pessoas, e
desejos que não queremos admitir nem sequer a nós mesmos. Com
base em outros fundamentos, é justi�cável ligarmos o caráter
desprazeroso de todos esses sonhos ao fato da des�guração do sonho e
concluirmos que esses sonhos são distorcidos, e que a realização de
desejo neles é disfarçada até o ponto de se tornar irreconhecível por
causa de uma repugnância, uma vontade de suprimir, que existe em
relação ao tema do sonho ou em relação ao desejo que o sonho cria.
Assim, no �m �ca claro que a des�guração do sonho é na realidade
um ato da censura. Levando em consideração tudo o que a análise dos
sonhos desagradáveis trouxe à luz, modi�cando a nossa fórmula da
seguinte maneira: o sonho é a realização (disfarçada) de um desejo
(reprimido ou recalcado).
Ora, ainda restauma espécie particular de sonhos de conteúdo
doloroso, sonhos de ansiedade, cuja inclusão na categoria de sonhos
de desejo encontrará menos aceitação entre os não iniciados. Mas
posso resolver em pouquíssimo tempo o problema dos sonhos de
ansiedade, pois o que eles revelam não é um aspecto novo do
problema dos sonhos; trata-se, no caso deles, de uma questão de
compreensão da ansiedade neurótica em geral. O medo ou a angústia
que sentimos nos sonhos são apenas aparentemente explicados pelo
conteúdo dos sonhos. Se submetermos seus conteúdos à análise,
tomaremos consciência de que o medo ou a angústia oníricos não se
justi�cam melhor pelo conteúdo dos sonhos do que o medo ou a
angústia em uma fobia se justi�cam pela ideia da qual a fobia
depende. Por exemplo, é verdade que é possível cair de uma janela e
que é necessário ter algum cuidado quando se está perto de uma, mas
é inexplicável por que a ansiedade na fobia correspondente é tão
grande e por que ela acossa suas vítimas em uma extensão muito
maior do que a sua origem justi�ca. Portanto, a mesma explicação que
se aplica à fobia se aplica em igual medida aos sonhos de ansiedade.
Em ambos os casos, a ansiedade está apenas super�cialmente ligada à
ideia que a acompanha e se origina de outra fonte.
Devido à íntima relação entre o medo onírico e o medo neurótico, a
discussão do primeiro obriga-me a fazer referência ao segundo. Em
um pequeno ensaio sobre “A neurose de ansiedade”X, argumentei que
a angústia neurótica tem origem na vida sexual e corresponde a uma
libido que foi desviada de seu objeto e não conseguiu ser aplicada.
Desta fórmula, cuja validade tem sido provada com clareza cada vez
maior, podemos deduzir a conclusão de que o conteúdo dos sonhos de
ansiedade é de natureza sexual, sendo a libido pertencente à qual o
conteúdo foi transformado em medo.
V A expressão “posar para um retrato”. Goethe: “E, se não tiver nenhum traseiro / Como
poderá o sr. Lorde sentar-se?”.
VI Lamento introduzir excertos da psicopatologia da histeria que, dada a representação
fragmentada e totalmente desvinculada do contexto do tema, não são capazes de exercer
efeito muito esclarecedor. Se essas passagens puderem lançar alguma luz sobre as íntimas
ligações entre a questão do sonho e das psiconeuroses, então terão servido ao propósito pelo
qual as inseri.
VII Algo como o salmão defumado no sonho do jantar adiado.
VIII Muitas vezes acontece de o primeiro relato de um sonho ser incompleto, e a lembrança
das partes omitidas ocorre apenas no decorrer da análise. Essas partes acrescentadas
posteriormente costumam invariavelmente fornecer a chave para a interpretação do sonho.
Ver, por exemplo, a análise sobre o esquecimento dos sonhos, apresentada mais adiante.
IX “Sonhos de contradesejo” similares têm sido repetidamente relatados a mim, nos últimos
anos, por alunos que reagiram dessa maneira ao primeiro contato com a minha “teoria dos
sonhos como desejos”.
X Ver “Selected papers on hysteria and other psychoneuroses”, em Journal of Nervous and
Mental Diseases, Monograph Series, traduzido por A. A. Brill, p. 133.
Q uanto mais nos ocupamos com a solução dos sonhos, mais
dispostos devemos estar a reconhecer que a maioria dos sonhos
dos adultos versa sobre material sexual e dá expressão a desejos
eróticos. Somente quem realmente analisa os sonhos, isto é, quem
avança do seu conteúdo manifesto para os pensamentos oníricos
latentes, pode formar uma opinião sobre o assunto – nunca a pessoa
que se contenta em registrar o conteúdo manifesto (a exemplo de
Näcke28 em seus escritos sobre sonhos sexuais). Reconheçamos
imediatamente que esse fato nada tem de surpreendente, mas está em
completa harmonia com os pressupostos fundamentais da explicação
dos sonhos. Nenhum outro impulso teve de sofrer, desde a infância,
tanta supressão quanto o impulso sexual, em seus numerosos
componentes; nenhum outro impulso sobreviveu a tantos e tão
intensos desejos inconscientes, que agora agem no estado de sono de
modo a produzir sonhos. Na interpretação dos sonhos, a signi�cância
dos complexos sexuais jamais deve ser esquecida, tampouco se deve
exagerá-los a ponto de serem considerados exclusivos.
A interpretação cuidadosa permite asseverar que muitos sonhos
devem ser interpretados como bissexuais, na medida em que resultam
em uma irrefutável interpretação secundária de que realizam
sentimentos homossexuais – isto é, sentimentos que são comuns à
atividade sexual normal do indivíduo que sonha. Mas o fato de que
todos os sonhos devem ser interpretados bissexualmente parece-me
uma generalização tão indemonstrável quanto improvável, a qual eu
não gostaria de corroborar. Acima de tudo, eu não saberia descartar o
fato aparente de que existem muitos sonhos que satisfazem a outras
necessidades além – no sentido mais amplo – das eróticas, como
sonhos com fome e sede, os de conveniência etc. Da mesma forma,
a�rmações semelhantes “de que por trás de todo sonho encontra-se o
espectro de uma sentença de morte” (Stekel)29 ou de que todo sonho
mostra “uma continuação da linha feminina para a masculina” (Adler)
parecem-me ir muito além do que é admissível na interpretação dos
sonhos.
Já a�rmamos em outro lugar que amiúde os sonhos evidentemente
inocentes incorporam desejos eróticos grosseiros, e poderíamos
con�rmar isso por meio de numerosos exemplos novos. Contudo,
muitos sonhos que parecem insigni�cantes, e dos quais nunca se
suspeitaria de qualquer signi�cado particular, podem ser atribuídos,
após análise, a sentimentos de desejo inconfundivelmente sexuais,
que muitas vezes são de natureza inesperada. Por exemplo, quem
poderia ter suspeitado da presença de um desejo sexual no sonho
citado a seguir, antes da elaboração de sua interpretação? O sonhador
relata:
“Entre dois imponentes palácios senhoriais ergue-se uma casinha, um
pouco recuada, cujas portas estão fechadas. Minha esposa me conduz
pelo pedaço de rua que leva até a casinha e empurra a porta; em
seguida, entro com facilidade, esgueirando-me a passos rápidos para
avançar por um pátio que se inclina obliquamente para cima”.
Claro está, qualquer pessoa que tenha alguma experiência na
tradução de sonhos perceberá, de imediato, que penetrar em espaços
estreitos e abrir portas trancadas pertence ao simbolismo sexual mais
comum, e facilmente encontrará nesse sonho uma representação de
tentativa de coito por trás (entre as duas imponentes nádegas do corpo
feminino). A passagem estreita que sobe por uma inclinação é,
obviamente, a vagina; a ajuda prestada pela esposa do homem que
teve o sonho exige a interpretação de que, na realidade, é apenas a
grande consideração que tem pela esposa o fator responsável por
impedir que ele tente concretizar esse tipo de penetração. Além do
mais, a averiguação mostra que no dia anterior havia ido residir na
casa do sonhador uma jovem por quem ele se atraiu e que lhe deu a
impressão de que não rechaçaria totalmente a uma abordagem do
tipo. A casinha entre os dois palácios origina-se de uma reminiscência
do bairro de Hradčany [em alemão, Hradschin, ou o “Distrito do
Castelo”], em Praga, e, portanto, é mais uma referência à moça, que é
natural daquela cidade.
Quando enfatizo junto a um paciente a frequência dos sonhos
edipianos – em que o sonhador tem relações sexuais com a própria
mãe –, obtenho a resposta: “Não consigo me lembrar de ter tido
sonhos desse tipo”. Imediatamente depois, porém, vem à tona a
lembrança de algum outro sonho disfarçado e insigni�cante, que o
paciente sonhou repetidas vezes, e a análise mostra que se trata de um
sonho com o mesmo conteúdo – isto é, outro sonho edipiano. Posso
assegurar ao leitor que os sonhos velados de relações sexuais com a
própria mãe são muito mais frequentes do que os sonhos
escancarados de mesmo teor.
Há sonhos sobre paisagens e locais em que a ênfase sempre recai
sobre a declaração peremptória: “Eu já estive lá antes”. Nesse caso, a
localidade é sempre o órgão genital da mãe da pessoa que sonha; com
efeito, não existe nenhum outro lugar sobre o qual se possaa�rmar
com toda certeza que já se esteve lá antes.
Um grande número de sonhos, muitas vezes repletos de medo e
angústia por dizerem respeito a conteúdos como passar por espaços
estreitos ou permanecer na água, baseia-se em fantasias sobre a vida
embrionária, sobre a permanência no ventre materno e sobre o ato do
nascimento. O que se segue é o sonho de um jovem que, em sua
imaginação, ainda como embrião, aproveitou a oportunidade para
espionar a cópula entre seu pai e sua mãe.
“Ele está em um poço profundo, no qual há uma janela, como no
Túnel de Semmering. A princípio ele vê pela janela uma paisagem
vazia, e então compõe nela uma imagem, que surge imediatamente à
mão e preenche o espaço vazio. A imagem representa um campo que
está sendo arado em toda a sua extensão por algum equipamento, e o
ar aprazível, a ideia de trabalho duro que o acompanha, e os torrões
de terra preto-azulados causam uma impressão das mais agradáveis.
Ele, então, segue em frente e vê uma escola primária aberta… e �ca
surpreso que nela se dedique tanta atenção às sensações sexuais das
crianças, o que o faz pensar em mim.”
Eis aqui um lindo sonho com água de uma paciente, que no
decorrer do tratamento adquiriu sentido extraordinário: “Em sua
estação de veraneio, no lago, ela mergulha na água escura, em um lugar onde
a lua pálida se re�ete na água”.
Sonhos desse tipo são sonhos de parto; sua interpretação é realizada
invertendo o fato relatado no conteúdo manifesto do sonho; assim, em
vez de “mergulhar na água”, entende-se “sair da água”, isto é, “nascer”.
O lugar onde a pessoa nasce é reconhecido se pensarmos no sentido
giriesco da palavra francesa la lune (traseiro). A lua pálida torna-se,
assim, o “fundo” branco (o bumbum, o traseiro), que a criança logo
supõe ser o lugar de onde ela veio. Ora, qual pode ser o signi�cado do
desejo da paciente de nascer em uma estação de veraneio? Perguntei
isso à sonhadora, e ela respondeu sem hesitação: “O tratamento não
me fez parecer que eu havia nascido de novo?”. Assim, o sonho torna-
se um convite para que eu continuasse o processo de cura no
balneário, ou seja, para eu visitá-la lá; talvez também contenha uma
alusão muito tímida ao desejo de se tornar mãe.XI
Outro sonho de parto, com sua interpretação, eu tomo emprestado
do trabalho de E. Jones:30
“Ela estava de pé na praia observando um menino, que parecia ser o
�lho dela, a brincar na água à beira-mar. O menino faz isso até água
cobri-lo quase por inteiro, e ela só conseguia enxergar a cabeça dele
balançando para cima e para baixo perto da superfície. A cena então
mudou para o saguão lotado de um hotel. O marido dela se afastou, e
ela entabulou conversa com ‘um desconhecido’.”
A segunda metade do sonho, constatou-se na análise, representa
uma escapada do marido e a entrada em relações íntimas com uma
terceira pessoa, claramente indicada como o irmão do sr. X,
mencionado em um sonho anterior. A primeira parte do sonho era,
muito evidentemente, uma fantasia de nascimento. Tanto nos sonhos
como na mitologia, a saída de uma criança das águas uterinas – seu
parto – costuma ser representado, por distorção, como a entrada da
criança na água; entre vários outros exemplos, os nascimentos de
Adônis, Osíris, Moisés e Baco são ilustrações bem conhecidas disso. O
movimento da cabeça para cima e para baixo na água lembrou à
paciente a sensação dos movimentos do feto que ela teve em sua única
gestação. Pensar no menino entrando na água induziu um devaneio
em que ela se viu tirando-o da água, carregando-o até o quarto dele,
dando-lhe banho, vestindo-o e instalando-o em sua casa. A segunda
metade do sonho, portanto, representa pensamentos sobre a fuga, que
pertenciam à primeira metade do conteúdo latente subjacente; a
primeira metade do sonho correspondia à segunda metade do
conteúdo latente, a fantasia do nascimento. Além da inversão da
ordem, novas inversões ocorreram em cada uma das metades do
sonho. Na primeira metade, a criança entrou na água, e depois sua
cabeça balançava; nos pensamentos oníricos subjacentes, primeiro
ocorreram os movimentos do feto, e depois a criança saiu da água
(dupla inversão). Na segunda metade, o marido da sonhadora a
abandonou; nos pensamentos oníricos, ela deixou o marido.
Outro sonho de nascimento é relatado por Abraham31 sobre uma
jovem que aguardava ansiosamente seu primeiro parto. De um lugar
no chão da casa, sai um canal subterrâneo que leva diretamente à água
(canal de parto, líquido amniótico). Ela levanta a porta de um alçapão
no chão e imediatamente aparece uma criatura vestida com uma
pelagem amarronzada, semelhante a uma foca. Essa criatura se
transforma no irmão mais novo da mulher sonhadora, com quem ela
sempre manteve um relacionamento maternal.
Sonhos de “salvamento” estão ligados aos sonhos de nascimento.
Salvar, especialmente salvar da água, equivale a dar à luz quando
quem sonha é uma mulher; esse sentido, entretanto, é modi�cado
quando quem sonha é um homem.
Ladrões, assaltantes e fantasmas, dos quais sentimos medo antes de
ir para a cama, e que vez por outra chegam a perturbar até o nosso
sono, têm origem em uma mesma reminiscência infantil. São os
visitantes noturnos que acordam as crianças e as carregam pelo quarto
para impedir que molhem a cama, ou levantam as cobertas para
veri�car onde as crianças põem as mãos enquanto dormem. Na
análise de alguns sonhos de ansiedade, consegui induzir uma
recordação exata desses visitantes noturnos. Em todos os casos, os
ladrões sempre representavam o pai da pessoa que sonhava; já os
fantasmas provavelmente correspondiam a pessoas do sexo feminino
com camisolas brancas.
Depois que nos familiarizamos com o abundante uso de
simbolismo para a representação de material sexual nos sonhos,
naturalmente conjecturamos se muitos desses símbolos parecem ter
um signi�cado �xo, �rmemente estabelecido, tais quais os sinais da
taquigra�a. É tentadora a ideia de compilar um “novo livro de sonhos”,
baseado no método da decifração. Nesse sentido, pode-se observar
que esse simbolismo não pertence de forma peculiar aos sonhos, mas
é característico do pensamento inconsciente, sobretudo o das massas
populares, e pode ser encontrado com maior perfeição no folclore, em
mitos, lendas, modos de falar, provérbios, expressões idiomáticas e
piadas correntes de um país, mais do que nos sonhos.
O sonho aproveita esse simbolismo para dar uma representação
disfarçada a seus pensamentos latentes. Entre os símbolos utilizados
dessa forma, é claro que há muitos que regularmente, ou quase
regularmente, signi�cam a mesma coisa. É necessário apenas ter em
mente a curiosa plasticidade do material psíquico. De vez em quando,
pode ser que um símbolo no conteúdo do sonho tenha de ser
interpretado não em termos simbólicos, mas de acordo com seu
verdadeiro signi�cado; em outro momento, o indivíduo sonhador,
devido a um conjunto peculiar de lembranças, pode criar para si
mesmo o direito de usar qualquer coisa como símbolo sexual, mesmo
que normalmente não seja usado dessa forma. Tampouco os símbolos
sexuais empregados com mais frequência são sempre inequívocos.
Feitas essas restrições e ressalvas, posso chamar a atenção para o
seguinte: na maioria dos casos, o imperador e a imperatriz (ou o rei e a
rainha) representam realmente os pais da pessoa que sonha; o próprio
sonhador é o príncipe ou a princesa. Todos os objetos alongados,
varas, troncos de árvores e guarda-chuvas (o ato de colocar o guarda-
chuva na vertical e abri-lo pode ser comparado a uma ereção!)
representam o membro masculino. O mesmo vale para todas as armas
alongadas e a�adas, facas, punhais, adagas, sabres e lanças. Um
símbolo frequente, pouco inteligível, da mesma coisa é a lixa de unha
(por causa do atrito e da raspagem?). Maletas, pequenos estojos,
caixas, caixões, armários e fogões correspondem às partes femininas.
O simbolismo da chave e da fechadura foi elegantemente empregado
por Uhland32, em sua balada sobre o “Grafen Eberstein” (conde
Eberstein), para fazer uma piada obscena. Sonhar que se caminha poruma �eira de quartos é sonhar com um bordel ou harém. Sonhar com
degraus, escadas de mão, escadarias e lances de escadas, ou subir e
descer sobre elas, são representações simbólicas do ato sexual. Paredes
lisas pelas quais a pessoa sonhadora sobe, fachadas de casas sobre as
quais ela desce, muitas vezes sob grande angústia, correspondem ao
corpo humano ereto, e provavelmente repetem nos sonhos as
reminiscências de uma criança pequena sendo erguida nos braços de
seus pais, babás ou pais adotivos. Paredes “lisas” são homens. Muitas
vezes, em um sonho de ansiedade, a pessoa que sonha se agarra com
�rmeza a alguma projeção na fachada de uma casa. Mesas, mesas
postas e tábuas são mulheres, talvez pela antítese, uma vez que nos
símbolos os contornos dos corpos femininos são eliminados. Visto que
“cama e mesa” (mensa et thorus) constituem o casamento, a mesa
amiúde ocupa o lugar da cama nos sonhos, e, na medida do possível, o
complexo de apresentação sexual é transposto para o complexo
alimentar. Quanto aos artigos de vestuário, o chapéu feminino pode,
em geral, ser interpretado sem sombra de dúvida como o órgão genital
masculino. Nos sonhos de homens, muitas vezes encontramos a
gravata como símbolo do pênis; na verdade, isso não ocorre apenas
porque as gravatas são alongadas, �cam penduradas e são
características do vestir do homem, mas também porque o usuário
pode escolhê-las à vontade, liberdade que é proibida pela natureza no
aspecto original do símbolo. As pessoas que fazem uso desse símbolo
nos sonhos têm uma extravagante predileção por gravatas e possuem
vastas coleções da peça.
Nos sonhos, todas as máquinas e todos os aparelhos complicados
são muito provavelmente órgãos genitais, em cuja descrição o
simbolismo onírico se mostra tão incansável quanto o trabalho do
chiste. Da mesma forma, nos sonhos, muitas paisagens, especialmente
com pontes ou montanhas cobertas de vegetação, podem ser
facilmente reconhecidas como descrições dos órgãos genitais. Por �m,
quando encontramos neologismos incompreensíveis, podemos pensar
em combinações constituídas por componentes com signi�cado
sexual. A presença de crianças nos sonhos também signi�ca os órgãos
genitais, já que homens e mulheres têm o hábito de se referir
afetuosamente ao seu órgão genital como “meu pequeno” ou “minha
pequena”. Um símbolo muito recente do órgão genital masculino
merece menção: o dirigível, cuja utilização é justi�cada por sua
relação com o ato de voar, bem como, vez por outra, devido ao seu
formato. Sonhar que se brinca com uma criança pequena ou sonhar
em bater em uma criança é muitas vezes a representação do onanismo.
Vários outros símbolos, em parte ainda não su�cientemente
veri�cados, são fornecidos por Stekel, que os ilustra com exemplos. De
acordo com ele, direita e esquerda devem ser concebidas, nos sonhos,
em um sentido ético. “A via à direita signi�ca sempre o caminho da
retidão; a via à esquerda, o caminho para o crime. Assim, ‘esquerda’
pode signi�car homossexualidade, incesto e perversão, ao passo que
‘direita’ signi�ca casamento, relações sexuais com uma prostituta etc.
O signi�cado é sempre determinado pelo ponto de vista moral
individual do sonhador”. Nos sonhos, os parentes geralmente
desempenham o papel dos órgãos genitais. Na interpretação de Stekel,
não conseguir alcançar uma carruagem signi�ca um pesar por não
poder compensar uma diferença de idade. A bagagem que um viajante
carrega é o fardo do pecado que o oprime. Também quanto aos
números, que ocorrem com frequência nos sonhos, Stekel atribui um
signi�cado simbólico �xo, mas essas interpretações não parecem ter
sido su�cientemente veri�cadas, tampouco parecem ter validade
geral, embora a interpretação em casos individuais possa em geral ser
reconhecida como plausível. Em um livro recém-publicado por W.
Stekel, Die Sprache des Traumes [A linguagem do sonho], que não pude
1.
utilizar, há uma lista dos símbolos sexuais mais comuns, cujo objetivo
é provar que todos os símbolos sexuais podem ser usados
bissexualmente. Ele a�rma: “Existe algum símbolo que (contanto que
de alguma forma a fantasia permita) não possa ser empregado
simultaneamente no sentido masculino e feminino?”. Sem dúvida, a
oração condicional entre parênteses elimina muito do caráter absoluto
dessa a�rmação, pois isso não é, de forma alguma, permitido pela
fantasia. Não creio, contudo, que seja supér�uo a�rmar que, de acordo
com a minha experiência, a noção geral de Stekel tem de dar lugar ao
reconhecimento de uma maior multiplicidade. Além desses símbolos,
frequentes em igual medida nos órgãos genitais masculinos e
femininos, há outros que designam de forma preponderante, ou quase
exclusiva, um dos sexos, e há ainda outros em que apenas o signi�cado
masculino ou apenas o feminino é conhecido. De fato, a fantasia não
permite a utilização de objetos e armas longos e �rmes como símbolos
dos órgãos genitais femininos, ou de objetos ocos (baús, bolsas etc.)
como símbolos dos órgãos genitais masculinos. É verdade que a
tendência do sonho e da fantasia inconsciente de utilizar o símbolo
sexual bissexualmente trai uma característica arcaica, pois na infância
a distinção nos órgãos genitais é desconhecida, e os mesmos órgãos
genitais são atribuídos a ambos os sexos. Essas sugestões muito
incompletas talvez sejam su�cientes para estimular outros estudiosos
a elaborarem uma lista mais cuidadosa.
Acrescentarei agora alguns exemplos da aplicação desses símbolos
nos sonhos, que servirão para mostrar que se torna impossível
interpretar um sonho sem levar em conta o simbolismo onírico, e
como ele se intromete de modo obrigatório em muitos casos.
O chapéu como símbolo do homem (do
órgão genital masculino)
(FRAGMENTO DO SONHO DE UMA JOVEM QUE, POR TER MEDO DA TENTAÇÃO,
SOFRIA DE AGORAFOBIA)
“Estou caminhando pela rua no verão; uso um chapéu de palha de
formato peculiar; cuja parte central é virada para cima e as laterais
pendem para baixo [a descrição �cou obstruída neste ponto], de tal
forma que um dos lados é mais baixo que o outro. Estou alegre e com
um humor con�ante e, ao passar por uma tropa de jovens policiais,
penso comigo mesma: ‘Nenhum de vocês pode ter segundas intenções
a meu respeito’”. Como ela não conseguiu fazer nenhuma associação
com o chapéu, eu lhe disse: “O chapéu é na verdade um órgão genital
masculino, com a parte central erguida e as duas partes laterais
pendentes”.
De caso pensado, abstive-me de interpretar esses detalhes relativos
à desigual inclinação para baixo das duas peças laterais pendentes,
embora sejam precisamente essas individualidades nas determinações
que apontam o caminho para a interpretação. Prossegui dizendo que,
se ela tivesse apenas um homem com um genital tão viril, não teria de
temer os policiais – isto é, não teria nada a desejar deles, visto que em
decorrência de suas fantasias de tentação ela �cava impossibilitada de
sair desacompanhada e sem proteção. Esta última explicação do seu
medo eu já tinha conseguido dar a ela repetidas vezes, com base em
outro material. É extraordinária a maneira como a sonhadora se
comportou após essa interpretação. Ela retirou sua descrição do
chapéu e alegou não ter dito que as duas peças laterais estavam
penduradas para baixo. No entanto, eu tinha plena certeza do que
ouvira para me permitir ser enganado, portanto insisti. Ela �cou em
silêncio por algum tempo e, en�m, encontrou coragem para me
perguntar por que um dos testículos do marido era mais baixo que o
outro, e se a mesma coisa acontecia com todos os homens. Com a
2.
minha explicação do detalhe peculiar do chapéu, ela acabou
aceitando toda a interpretação do sonho.
Eu já estava familiarizado com o simbolismo do chapéu muito antes
de essa paciente me relatar seu sonho. A partir de outros casos, menos
transparentes, fui levado a acreditar que o chapéu também pode
representar o órgão genital feminino.
“Meu pequenino”/“minha pequenina”
como órgão genital – ser atropelado como
símbolo de relação sexual
(OUTRO SONHO DA MESMA PACIENTE AGORAFÓBICA)
“Sua mãe mandoua �lhinha dela embora, de modo que a criança teve
de seguir sozinha. Ela embarca em um trem com a mãe até a ferrovia
e vê a �lhinha caminhar diretamente até os trilhos, sendo impossível
evitar que a criança seja atropelada. Ela ouve o estalar dos ossos da
menina. (A partir disso, ela tem uma sensação de desconforto, mas
nenhum pavor verdadeiro.) Em seguida, olha pela janela do vagão do
trem, para veri�car se as partes não podem ser vistas por trás. Depois,
repreende a mãe por ter mandado a pequenina embora sozinha.”
Análise: não é tarefa fácil dar aqui uma interpretação completa do
sonho, pois faz parte de um ciclo de sonhos, e só pode ser plenamente
compreendido em conexão com os outros. É difícil obter o material
necessário, com su�ciente isolamento, para provar o simbolismo. De
início, a paciente descobre que a viagem de trem até a ferrovia deve ser
interpretada historicamente como uma alusão à sua saída de um
sanatório (para o tratamento de doenças nervosas), por cujo
superintendente ela estava decerto apaixonada. Sua mãe a levou
embora desse lugar, e no dia de sua partida o médico foi até a estação
ferroviária e lhe entregou um buquê de �ores; ela se sentiu
incomodada porque sua mãe presenciou essa homenagem. Aqui a
mãe aparece, portanto, como um elemento que atrapalhava seus casos
amorosos e, de fato, era o papel que essa rigorosa mulher
desempenhara durante a adolescência da �lha. O pensamento
seguinte estava associado à frase: “Em seguida, ela olha pela janela do
vagão do trem para veri�car se as partes não podem ser vistas por trás”. Na
fachada do sonho, naturalmente seríamos levados a pensar nas partes
do corpo mutilado da �lhinha atropelada. O pensamento, porém,
toma uma direção bem diferente. Ela se lembra de que certa vez viu o
pai nu, por trás, no banheiro, e então começa a falar sobre a diferença
sexual e a�rma que os órgãos genitais do homem podem ser vistos por
trás, mas os da mulher, não. Acerca disso, ela própria oferece a
interpretação de que “a �lhinha” signi�cava o órgão genital, e a sua
“pequenina” (a paciente tem uma �lha de 4 anos) é a sua própria
genitália. Ela repreende a mãe por querer que ela viva como se não
tivesse órgãos genitais e reconhece essa mesma reprovação na frase
introdutória do sonho: “Sua mãe mandou a �lhinha dela embora, de modo
que a criança teve de seguir sozinha”. Em sua fantasia, andar sozinha
pelas ruas signi�ca não ter um homem nem ter relações sexuais (do
latim coire, “junto”, “em companhia”, “reunir-se”, que originou a
palavra “coito”), e disso ela não gosta. Segundo todos os seus
depoimentos, quando menina ela sofreu um bocado por causa do
ciúme da mãe, pois demonstrava preferência pelo pai.
O “pequenino” e a “pequenina” foram apontados como símbolos
dos órgãos genitais masculinos ou femininos por Stekel, aos quais se
refere, neste contexto, a um uso bastante amplo da linguagem. A
interpretação mais profunda deste sonho especí�co depende de outro
sonho da mesma noite, em que a sonhadora se identi�ca com o irmão.
Ela era uma “moleca”, uma menina com características
3.
masculinizadas, e sempre ouvia que deveria ter nascido menino. Essa
identi�cação com o irmão mostra com especial clareza que “a
pequenina” representa o órgão genital. A mãe ameaçava o irmão (ou a
menina) de castração, o que só poderia ser entendido como um castigo
por brincar com suas partes íntimas, e a identi�cação, portanto,
mostra que ela mesma se masturbava quando criança, embora esse
fato agora estivesse preservado em sua memória apenas como algo
relativo ao irmão. De acordo com as a�rmações desse segundo sonho,
em uma idade bastante precoce ela adquiriu conhecimento sobre o
órgão genital masculino, do qual mais tarde se esqueceu. Além disso, o
segundo sonho aponta para a teoria sexual infantil de que as meninas
se originam dos meninos por meio da castração. Depois que lhe contei
sobre essa crença infantil, ela imediatamente a con�rmou com uma
anedota em que um menino pergunta a uma menina: “Foi cortado?”,
ao que a menina responde: “Não, sempre foi assim”. Portanto, mandar
embora a pequenina (o genital) no primeiro sonho refere-se, também,
à ameaça de castração. Por �m, ela culpa a mãe por não ter nascido
menino. O fato de que “ser atropelada” simboliza a relação sexual não
seria evidente neste sonho se não tivéssemos certeza disso com base
em muitas outras fontes.
Representação dos órgãos genitais por
estruturas, escadas e poços
(SONHO DE UM JOVEM INIBIDO POR UM COMPLEXO PATERNO)
“Ele está passeando com o pai em um lugar que certamente é o
Wurstelprater [Parque Prater, em Viena], pois avista-se a Rotunda,
em frente à qual há uma pequena estrutura frontal em que está
amarrado um balão cativo; o balão, porém, parece bastante �ácido e
murcho. O pai lhe pergunta para que serve tudo aquilo; apesar de
surpreso, ele explica ao pai. Eles entram em um pátio onde se
deparam com uma grande folha de �andres [uma �na chapa de ferro
laminado, coberta com uma camada de estanho] estendida. O pai
quer arrancar um considerável pedaço dela, mas primeiro olha em
volta para ver se há alguém observando. Ele diz ao pai que basta falar
com o vigia e então poderá pegar, sem o menor problema, o pedaço
que bem quisesse. Do outro lado do pátio, uma escada desce até um
poço, cujas paredes são acolchoadas por um material macio, feito
uma carteira de couro. Na extremidade desse poço há uma
plataforma mais extensa, e então começa um novo poço.”
Análise: este sonho pertence a um tipo de paciente que não é
favorável do ponto de vista terapêutico. Submetidos à análise, esses
pacientes não oferecem nenhuma resistência até certo ponto, mas a
partir daí permanecem quase inacessíveis. O rapaz analisou esse
sonho quase sozinho. A “Rotunda”, disse ele, “é meu órgão genital, o
balão cativo na frente é meu pênis, cuja �acidez me preocupa”.
Devemos, no entanto, interpretar em maior grau de detalhe; a
Rotunda são as nádegas, que as crianças costumam associar aos
órgãos genitais; a estrutura frontal menor é o saco escrotal. No sonho,
o pai do rapaz lhe pergunta para que serve tudo aquilo – isto é, sobre a
�nalidade e a disposição dos órgãos genitais. É bastante evidente que
esse estado de coisas deveria ser invertido, e que ele (o sonhador) é
quem deveria fazer as perguntas. Como na realidade ele nunca fez
essas indagações ao pai, devemos conceber o pensamento onírico
como um desejo, ou interpretá-lo como uma oração condicional, nos
seguintes termos: “Se eu tivesse pedido ao meu pai esclarecimentos
sobre coisas sexuais”. Em breve, encontraremos a continuação desse
pensamento em outro trecho do sonho.
O pátio onde está estendida a folha de �andres não deve ser
entendido simbolicamente em uma primeira instância, mas deriva do
local de trabalho do pai. Por motivos de discrição, inseri a folha de
�andres em substituição a outro material com o qual o pai lida, sem,
contudo, alterar nada na expressão verbal do sonho. O rapaz sonhador
havia entrado no estabelecimento do pai e passou a ter uma terrível
aversão às práticas questionáveis, das quais dependia a maior parte
dos lucros da empresa. Portanto, a continuação do pensamento onírico
mencionado (“Se eu tivesse perguntado a ele”) seria “Ele teria me
enganado, assim como engana seus clientes”. Quanto a arrancar um
naco da folha de �andres, que serve para representar a desonestidade
comercial do pai, o próprio sonhador dá uma segunda explicação – a
saber, o onanismo. Eu não apenas estava inteiramente familiarizado
com essa leitura, como ela condiz muito bem com o fato de que o
caráter secreto da masturbação é expresso pelo seu inverso (“Porque
alguém pode praticar isso abertamente”). Ademais, concorda
inteiramente com as nossas expectativas de que a atividade
masturbatória seja novamente atribuída ao pai, tal como aconteceu
com a pergunta na primeira cena do sonho. O rapaz imediatamente
interpretou o poço como uma vagina, referindo-se ao revestimento
macio das paredes. Também constatei, com base em outros casos, que
o ato de coito na vagina é descrito comouma descida, em vez de
subida (que é a maneira usual).XII
O próprio rapaz que teve o sonho deu uma explicação biográ�ca
para os detalhes de que no �m do primeiro poço via-se uma
plataforma mais alongada e depois um novo poço. Havia algum tempo
ele tivera relações sexuais com mulheres, mas depois desistiu por
causa de inibições e, agora, com a ajuda do tratamento, esperava
retomar esses relacionamentos O sonho, porém, torna-se mais vago no
�m, e para o intérprete experiente �ca evidente que, em sua segunda
cena, a in�uência de outro sujeito começa a se a�rmar; os negócios do
pai e suas práticas desonestas signi�cam a primeira vagina
4.
5.
representada como um poço, de modo que podemos pensar que isso
aponta para uma referência à mãe do sonhador.
O genital masculino simbolizado por
pessoas; o feminino, por uma paisagem
(SONHO DE UMA MULHER DE CLASSE BAIXA, CUJO MARIDO É POLICIAL,
RELATADO POR B. DATTNER)
“Então alguém invadiu a casa e, sobressaltada, chamei um policial.
Mas ele entrou junto com dois vagabundos, por consentimento
mútuo, em uma igrejaXIII, à qual se chegava subindo muitos degrausX
IV. Atrás da igreja havia uma montanha,XV no topo da qual se via um
denso bosqueXVI. O policial estava equipado com capacete, gorjal e
capaXVII. Os dois vagabundos, que acompanhavam o policial de
forma bastante pací�ca, usavam aventais semelhantes a sacos
amarrados nos �ancosXVIII. Uma estradinha levava da igreja à
montanha. Ambos os seus lados estavam cobertos de grama e mato,
que se tornava cada vez mais espesso à medida que chegava perto do
cume da montanha, onde se espalhava em uma imensa �oresta.”
Um sonho com escadas
(RELATADO E INTERPRETADO POR OTTO RANK)33
Pelo seguinte sonho de polução transparente, estou em dívida de
gratidão para com o mesmo colega que nos forneceu o sonho de
irritação dental:
“Desço correndo a escadaria da casa de dois andares, perseguindo
uma garotinha, a quem desejo punir porque ela aprontou alguma
coisa comigo. Ao pé da escada, alguém (uma mulher adulta?) segura a
criança para mim. Eu a agarro, mas não sei se consigo bater nela,
pois de repente me vejo no meio da escada, copulando com a menina
(no ar, por assim dizer). A bem da verdade não é uma cópula, eu
apenas esfrego meu órgão genital na parte externa da genitália dela e,
enquanto faço isso, vejo tudo com muita nitidez, com a mesma nitidez
com que vejo a cabeça dela, que está virada de lado. Durante o ato
sexual, vejo pendurados à esquerda e acima de mim (também como se
estivessem no ar) dois pequenos quadros, pinturas de paisagens,
representando uma casa em um descampado. No menor deles, meu
sobrenome está no lugar em que deveria aparecer a assinatura do
pintor; a pintura parece destinada a ser meu presente de aniversário.
Uma pequena placa pendurada na frente dos quadros informa que
também é possível obter quadros mais baratos. Em seguida, vejo a
mim mesmo, muito vagamente, deitado na cama, tal como me vi ao
pé da escada, e sou acordado por uma sensação de umidade
decorrente da polução.”
Análise: na noite da véspera ao sonho, o sonhador havia ido a uma
livraria, onde, enquanto esperava, examinou alguns quadros que lá
estavam expostos e que representavam motivos semelhantes aos do
sonho. Ele se aproximou de um pequeno quadro, que lhe agradou em
especial, a �m de ver o nome do artista, que, no entanto, lhe era
totalmente desconhecido. Mais tarde, nessa mesma noite, na
companhia de amigos, ouviu falar de uma criada da Boêmia que se
gabava de que seu �lho ilegítimo fora “feito na escada”. O sonhador
pediu pormenores desse inusitado acontecimento e soube que a
criada levou o amante até a casa dos pais dela, onde não houve
oportunidade para consumar as relações sexuais, e que o homem, por
demais excitado, consumou o ato na escada. Em uma espirituosa
alusão à maliciosa expressão sobre os falsi�cadores de vinho, o
sonhador observou: “A criança realmente brotou nos degraus da
adega”. Essas experiências do dia anterior, bastante destacadas no
conteúdo do sonho, foram prontamente reproduzidas pelo sonhador.
Mas ele reproduziu, com a mesma facilidade, um antigo fragmento de
uma reminiscência infantil, também utilizado pelo sonho. A escada
fazia parte da casa de dois andares na qual ele passara a maior parte
da infância e onde pela primeira vez tomou conhecimento das
questões sexuais. Nessa casa, ele costumava, entre outras coisas, descer
pelo corrimão com as pernas escarranchadas, o que despertava nele
excitação sexual. No sonho, ele também desce as escadas muito
rapidamente – tão velozmente que, de acordo com suas próprias
declarações inequívocas, ele mal roçava os degraus individuais, mas
antes “voava” ou “deslizava” escada abaixo, como costumávamos dizer.
Levando-se em conta a referência a essa experiência infantil, o início
do sonho parece representar o fator da excitação sexual. Na mesma
casa e na residência adjacente, o sonhador participava de lutas e
brincadeiras físicas com as crianças vizinhas, atividades nas quais se
satisfazia da mesma forma que no sonho. Tendo em mente a
investigação de Freud sobre o simbolismo sexual,XIX em que sonhar
com escadas ou subir escadas simboliza quase sempre o coito, a
interpretação desse sonho torna-se transparente. A sua força motriz,
bem como o seu efeito, como é demonstrado pela polução, é de
natureza puramente libidinal. A excitação sexual foi despertada
durante o estado de sono (o que no sonho é representado pela rápida
corrida ou deslizamento pelas escadas) e o �o sádico nisso é, com base
nas brincadeiras belicosas, indicado por ele perseguir e dominar a
menina. A excitação libidinosa aumenta e impulsiona a ação sexual
(representados no sonho por ele agarrar a menina e levá-la até o meio
da escada). Até esse ponto, o sonho seria de puro simbolismo sexual e
obscuro para o intérprete de sonhos inexperiente. Mas essa satisfação
simbólica, que teria assegurado um sono tranquilo, não foi su�ciente
para a poderosa excitação libidinosa. A excitação leva ao orgasmo e,
6.
assim, todo o simbolismo da escada é desmascarado como um
substituto para o coito. Freud enfatiza o caráter rítmico de ambas as
ações como uma das razões para a utilização sexual do simbolismo da
escada, com o que esse sonho parece corroborar especialmente, pois,
segundo a a�rmação expressa do sonhador, o ritmo do ato sexual – e
seu movimento para cima e para baixo – foi a característica mais
marcante de todo o sonho. Ainda outra observação acerca dos dois
quadros, que, além do seu signi�cado real, também têm o valor de
Weibsbilder (literalmente, “quadros de mulheres” – expressão
idiomática corriqueira na língua alemã para designar “mulheres”).
Isso é imediatamente demonstrado pelo fato de que o sonho trata de
um quadro grande e de um pequeno, assim como o conteúdo do
sonho apresenta uma menina grande (mulher adulta) e uma menina
pequena. O fato de que “também é possível obter quadros mais
baratos” aponta para o complexo de prostituição, assim como o
sobrenome do sonhador no quadro menor e o pensamento de que a
pintura se destinaria a ser seu presente de aniversário são indícios de
complexo paterno (“nascer na escada” – “ser concebido na cópula”).
A obscura cena �nal, em que o sonhador vê a si mesmo no patamar
da escada, deitado na cama e sentindo-se molhado, parece remontar à
infância, muito além do onanismo infantil, e, lógico, tem seu protótipo
em cenas igualmente prazerosas de fazer xixi na cama.
Um sonho com escada modi�cado
Para um de meus pacientes, um homem muito nervoso, que era
abstêmio, tinha fantasias �xas com a mãe e sonhava repetidamente
estar subindo escadas acompanhado dela, certa vez comentei que a
masturbação em doses moderadas seria menos prejudicial para ele do
que a abstinência sexual autoimposta. Essa in�uência desencadeou o
seguinte sonho:
“Seu professor de piano o repreende por negligenciar a forma de tocar
piano e por não praticar os Études, de Moscheles, e o Gradus ad
Parnassum, de Clementi”. Em relação a isso, ele observou que o
Gradus é apenas uma série de “degraus”,e que o próprio teclado do
piano é apenas uma espécie de escada, porque tem escalas.
É correto a�rmar que inexiste uma série de associações que não
possa ser adaptada à representação de fatos sexuais. Concluo com o
sonho de um jovem químico que vem tentando abandonar o hábito da
masturbação, substituindo-o por relações sexuais com mulheres.
Declaração preliminar: no dia anterior ao sonho, ele dera
instruções a um de seus alunos sobre a reação de Grignard,34 na qual o
magnésio tem de ser dissolvido em éter absolutamente puro, sob a
in�uência catalítica do iodo. Dois dias antes, no decorrer dessa mesma
reação, ocorreu uma explosão na qual um dos químicos queimou a
mão.
Sonho 1. “Ele deve produzir brometo de fenilmagnésio; ele vê o aparelho
com particular clareza, mas substitui o magnésio por si mesmo. Agora, está
em um curioso estado oscilatório, em que �ca repetindo para si mesmo: ‘Esta
é a coisa certa, está funcionando, meus pés estão começando a se dissolver e
meus joelhos estão �cando moles’. Então, ele se abaixa e estica os braços para
apalpar os pés e, enquanto isso (ele não sabe como), tira as pernas de dentro
do cadinho e novamente diz para si mesmo: ‘Isso não pode estar certo… Sim,
mas deve ser assim, deve ser assim, foi feito corretamente’. Em seguida, ele
acorda parcialmente e, semiadormecido, repete o sonho para si
mesmo, porque quer contá-lo para mim. É evidente que ele tem medo
da análise do sonho, �ca muito agitado durante esse instável estado de
semissono e repete continuamente: “Fenil, fenil”.
Sonho 2. “Ele está com a família inteira; são onze e meia, e deveria estar
na Estação Schottenthor para se encontrar com certa dama, mas só acordou
às onze e meia. Ele diz para si mesmo: ‘Agora é tarde demais; até chegar lá já
será meio-dia e meia’. No instante seguinte, ele vê com particular nitidez toda
a família reunida em torno da mesa: sua mãe e a criada com a terrina de
sopa. Então, ele diz para si mesmo: ‘Bem, se já estamos almoçando,
certamente não conseguirei escapar’.”
Análise: ele tem certeza de que no primeiro sonho também há uma
referência à dama com quem ele se encontrará (o sonho ocorreu na
noite anterior ao esperado rendez-vous). O aluno a quem ele deu as
instruções é um sujeito particularmente desagradável; ele havia dito
ao jovem aspirante a químico: “Isto não está certo”, porque o magnésio
ainda não havia dado sinais de ter sido afetado, e o aluno respondeu
com indiferença, como se não se desse a mínima: “Sim, sem dúvida,
não está certo”. O aluno deve ser a representação do próprio paciente;
ele é tão indiferente em relação à sua análise quanto o estudante à sua
síntese; o “ele” do sonho, porém, o que realiza a operação, sou eu
mesmo. Como ele devia parecer desagradável a meus olhos por ser tão
indiferente diante do sucesso alcançado! Ademais, o paciente é o
material com o qual é feita a análise (a síntese), pois estava em jogo o
êxito do tratamento. As pernas do sonho são um resquício de uma
impressão da noite anterior. Em uma aula de dança, ele se encontrou
com uma mulher a quem desejava conquistar; ele a puxou várias vezes
para junto de si, apertando-a com tanta força que, em dado momento,
ela gritou. Depois que parou de pressionar as pernas dela, ele sentiu
que a mulher respondeu fazendo �rme pressão contra a parte inferior
das coxas dele, descendo até logo acima dos joelhos, no ponto
mencionado no sonho. Nessa situação, então, a mulher é o magnésio
na observação de que as coisas �nalmente estão funcionando. O
sonhador é feminino em relação a mim, assim como é masculino com
a mulher. Se está funcionando com a mulher, o tratamento também
funcionará. Apalpar a região dos joelhos e tomar consciência dessa
parte do próprio corpo remete à masturbação e corresponde ao
cansaço do dia anterior… O encontro com a mulher estava de fato
marcado para onze e meia. Seu desejo de faltar ao encontro –
dormindo além da conta – e de permanecer com seus objetos sexuais
habituais (isto é, com a masturbação) corresponde à sua resistência.
XI Foi apenas recentemente, depois de muito tempo, que aprendi a apreciar a importância das
fantasias e dos pensamentos inconscientes sobre a vida no útero, que oferecem uma
explicação para o curioso pavor que muitas pessoas sentem de serem enterradas vivas; e
também proporcionam a base inconsciente mais profunda para a crença na vida após a morte,
o que simplesmente representa uma projeção no futuro dessa estranha vida antes do
nascimento. Além disso, o ato de nascer é a primeira experiência de medo e angústia e,
portanto, fonte e modelo dessas emoções.
XII Cf. Zentralblatt für Psychoanalyse, v. i.
XIII Ou capela (= vagina).
XIV Símbolo da cópula, do coito.
XV Mons veneris.
XVI Crines púbis (pelos pubianos).
XVII Demônios com mantos e capuzes, de acordo com a explicação de um homem versado
no assunto, são de natureza fálica.
XVIII As duas metades do escroto.
XIX Cf. Zentralblatt für Psychoanalyse, v. I.
S em dúvida, o fato de os sonhos não serem nada além da realização
de um desejo parecia estranho a todos nós – e isso não apenas por
causa das contradições apresentadas pelos sonhos de ansiedade.
Depois que as primeiras explicações analíticas nos ensinaram que
por trás dos sonhos ocultam-se um signi�cado e um valor psíquico,
nem de longe estávamos preparados para esperar que esse signi�cado
fosse simples. Segundo a de�nição de Aristóteles – correta, mas
insu�ciente de tão concisa –, o sonho é o pensamento que persiste
durante o estado de sono (contanto que a pessoa durma).
Considerando-se que durante o dia nossos pensamentos produzem
uma gama tão variada de atos psíquicos – julgamentos, conclusões,
contradições, expectativas, intenções etc. –, por que deveriam nossos
pensamentos adormecidos serem obrigados a se restringirem apenas à
produção de desejos? Não existem, pelo contrário, inúmeros sonhos
que apresentam um ato psíquico diferente em forma de sonho – por
exemplo, uma preocupação? E o sonho muito transparente do pai não
é exatamente dessa natureza? Pelo clarão de luz que lhe incide sobre
os olhos durante o sono, o pai chega à preocupada conclusão de que
uma vela havia caído e poderia ter incendiado o cadáver; ele
transforma essa conclusão em sonho, investindo-a com uma situação
dotada de signi�cado e ocorrida no tempo presente. Qual é o papel
que a realização do desejo desempenha neste sonho, e do que
devemos suspeitar: da in�uência predominante do pensamento que
continuou da vigília ou do pensamento incitado pela nova impressão
sensorial?
Todas essas considerações são justas e nos forçam a examinar mais
profundamente o papel desempenhado nos sonhos pela realização do
desejo e o signi�cado dos pensamentos da vida de vigília que
continuam durante o sono.
Na verdade, a realização do desejo já nos induziu a separar os
sonhos em dois grupos. Encontramos alguns sonhos que eram
claramente a realização de desejos; e outros em que era impossível
reconhecer a realização do desejo e nos quais esse processo era
amiúde disfarçado por todos os meios disponíveis. Nesta última
categoria de sonhos, reconhecemos a in�uência da censura onírica. Os
sonhos de desejo indisfarçados foram encontrados, sobretudo, nas
crianças, mas os sonhos de desejo sinceros e fugazes pareceram
(enfatizo propositadamente essa palavra) ocorrer também em adultos.
Podemos agora perguntar de onde se originam os desejos que se
realizam nos sonhos. Mas a que oposição ou a que diversidade
atribuímos esse “de onde”? Penso que se trata da oposição entre a vida
cotidiana consciente e uma atividade psíquica que permanece
inconsciente e que só se pode fazer notar durante a noite. Encontro,
assim, uma possibilidade tríplice para a origem de um desejo. Na
primeira origem possível, o desejo é despertado durante o dia e,
devido a circunstâncias externas, não encontra satisfação, restando,
assim, para a noite um desejo reconhecido, mas não realizado. Na
segunda possibilidade, o desejo pode vir à tona durante o dia, mas é
rejeitado; resta um desejo não realizado e reprimido. Ou, naterceira
possibilidade, o desejo pode não ter qualquer relação com a vida
cotidiana e pertencer aos desejos que se originam durante a noite a
partir da supressão. Se seguirmos agora o nosso esquema do aparelho
psíquico, poderemos localizar os desejos de primeira ordem no
sistema Pcs. (pré-consciente). Poderemos presumir que os desejos de
segunda ordem foram forçados a recuar do sistema Pcs. para o sistema
Ics. (inconsciente), único lugar em que conseguem continuar a existir,
se tanto; quanto aos sentimentos de desejo de terceira ordem,
consideramos que são totalmente incapazes de deixar o sistema Ics.
Isso suscita a questão de saber se os desejos que surgem dessas
diferentes fontes têm o mesmo valor para o sonho e se têm o mesmo
poder de incitar um sonho.
Ao examinarmos os sonhos que temos à nossa disposição para
responder a essa questão, somos imediatamente levados a acrescentar,
como quarta fonte dos desejos oníricos, os verdadeiros estímulos ao
desejo que surgem durante a noite, por exemplo, a sede e o desejo
sexual. Torna-se, então, evidente que a fonte/origem dos desejos
oníricos não afeta a sua capacidade de instigar um sonho. O fato de
que um desejo reprimido durante o dia se a�rma no sonho pode ser
demonstrado por muitos exemplos. Mencionarei um sonho muito
simples desse tipo. Uma jovem um tanto sarcástica, cuja amiga, alguns
anos mais nova, acaba de �car noiva, é indagada ao longo do dia por
conhecidos se conhece o noivo e o que pensa dele. Ela responde
apenas com elogios incondicionais, silenciando, assim, o seu próprio
julgamento, pois, na verdade, o rapaz era uma pessoa das mais banais.
Na noite seguinte, ela sonha que lhe fazem as mesmas perguntas e que
ela responde com uma fórmula: “No caso de repetição de pedidos, bastará
mencionar o número”. Por �m, aprendemos por meio de numerosas
análises que, em todos os sonhos que foram sujeitos a distorção, o
desejo brotou do inconsciente e não foi capaz de alcançar a percepção
no estado de vigília. Destarte, todos os desejos parecem ter o mesmo
valor e força para a formação dos sonhos.
Neste momento, não sou capaz de provar que a situação seja de fato
diferente, mas estou fortemente inclinado a presumir uma
determinação mais rigorosa para o sonho de desejo.
Os sonhos infantis não deixam dúvida de que um desejo não
realizado durante o dia pode fazer as vezes de instigador do sonho.
Mas não devemos nos esquecer de que, a�nal de contas, é o desejo de
uma criança, que é apenas um impulso de desejo com a intensidade
típica das crianças. Tenho fortes dúvidas sobre se um desejo não
realizado durante o dia teria força su�ciente para criar um sonho em
um adulto. Antes, parece-me que, à medida que aprendemos a
controlar os nossos impulsos por meio da atividade intelectual, cada
vez mais rejeitamos, por ser inútil, a formação ou retenção de desejos
intensos que são tão naturais na infância. Nisso, de fato, pode haver
variações individuais; algumas pessoas conservam por mais tempo
que outras o tipo infantil de processos psíquicos. As diferenças são as
mesmas que encontramos no gradual declínio da imaginação visual,
originalmente muito vívida nos primeiros anos de vida.
Em geral, porém, sou da opinião de que os desejos não realizados
do dia são insu�cientes para produzir um sonho nos adultos. Admito
prontamente que os instigadores de desejos originados no consciente
contribuem para a incitação dos sonhos, mas provavelmente nada
além disso. O sonho não teria origem se o desejo pré-consciente não
fosse reforçado por outra fonte.
Essa fonte é o inconsciente. Acredito que o desejo consciente só
consegue ser um instigador de sonhos se conseguir despertar um
desejo inconsciente de teor semelhante e dele obter reforço. Seguindo
as sugestões obtidas por meio da psicanálise das neuroses, acredito
que esses desejos inconscientes estão sempre ativos, em alerta e
prontos para a qualquer momento se expressarem, sempre que
encontram oportunidade de se unir a uma emoção da vida consciente,
e que transferem sua maior intensidade para a intensidade menor
deste último.XX Portanto, pode parecer que apenas o desejo consciente
foi realizado em um sonho; mas uma ligeira peculiaridade na
formação desse sonho nos colocará no caminho do poderoso aliado
oriundo do inconsciente. Esses desejos sempre ativos e, por assim
dizer, imortais do inconsciente fazem lembrar os lendários Titãs, que,
desde tempos imemoriais, suportam o peso das maciças montanhas
que um dia foram arremessadas por cima deles pelos deuses
vitoriosos, e que ainda hoje vez por outra estremecem, nos abalos
resultantes das convulsões de seus poderosos membros. A�rmo que
esses desejos encontrados na repressão são, em si, de origem infantil,
como aprendemos com a investigação psicológica das neuroses. Eu
gostaria, portanto, de retirar a opinião anteriormente expressa, de que
a origem dos desejos oníricos é irrelevante, e substituí-la pela seguinte:
o desejo que é manifestado no sonho tem de ser um desejo infantil. No
adulto, origina-se no inconsciente, ao passo que, na criança, na qual
ainda não existe separação e censura entre o pré-consciente e o
inconsciente, ou quando essa divisão está apenas em processo de
formação, é um desejo não realizado e não recalcado do estado de
vigília. Estou ciente de que não se pode comprovar que essa
concepção tenha validade geral; no entanto, a�rmo que com
frequência é possível demonstrá-la, mesmo quando não se suspeita
dela, e que não pode ser refutada de forma geral. Os sentimentos de
desejo que permanecem do estado de vigília consciente são, portanto,
relegados a uma posição de segundo plano na formação do sonho. No
conteúdo onírico, atribuirei a eles apenas a parte conferida ao material
das sensações reais durante o sono. Se eu agora levar em conta aquelas
outras instigações psíquicas remanescentes do estado de vigília que
não são desejos, apenas me aferrarei à rota traçada para mim por essa
linha de raciocínio. Quando decidimos ir dormir, somos capazes de
encerrar temporariamente a soma de energia dos nossos pensamentos
de vigília. Dormirá bem o indivíduo que conseguir fazer isso.
Napoleão I tinha a reputação de ter sido um modelo desse tipo, mas
nem sempre conseguimos realizá-lo ou realizá-lo à perfeição.
Problemas por resolver, preocupações persistentes e um volume
avassalador de impressões dão continuidade à atividade do
pensamento mesmo durante o sono, mantendo os processos psíquicos
no sistema que denominamos Pcs. (pré-consciente). Esses processos
mentais que persistem durante o sono podem ser divididos nos
seguintes grupos: (1) aqueles que não foram interrompidos durante o
dia devido a algum impedimento fortuito; (2) aqueles que �caram
inacabados pela paralisia temporária da nossa capacidade mental, ou
seja, o que não foi resolvido; (3) aqueles que foram rejeitados e
suprimidos durante o dia; estes se aliam ao poderoso grupo (4),
formado por aqueles que foram ativados em nosso inconsciente
durante o dia pelo trabalho do pré-consciente; por �m, podemos
acrescentar o grupo (5), que consiste nas impressões indiferentes –
portanto, não resolvidas – do dia. Não devemos subestimar as
intensidades psíquicas introduzidas no sono por esses resquícios da
vida de vigília, especialmente aqueles que emanam do grupo dos
desejos não resolvidos. Essas excitações certamente continuam a lutar
para se expressar durante a noite, e podemos presumir, com igual
certeza, que o estado de sono impossibilita a continuação habitual do
processo de excitação no pré-consciente e o término da excitação ao se
tornar consciente. Até o ponto em que pudermos normalmente tomar
consciência de nossos processos de pensamento, mesmo durante a
noite, não estamos dormindo.
Não me aventurarei a a�rmar que mudanças são produzidas pelo
estado de sono no sistema pré-consciente, mas não há dúvida de que o
caráter psicológico do sono se deve essencialmente à mudança de
energia nesse mesmo sistema, que também domina o poder de
motilidade, paralisada durante o sono. Em contraste com isso, parece
não havernada na psicologia do sonho que justi�que a suposição de
que o sono produz quaisquer alterações, exceto secundárias, nas
condições do sistema inconsciente. Assim, para a excitação noturna na
força não resta outro caminho senão aquele seguido pelas excitações
de desejo provenientes do inconsciente. Essas excitações devem
buscar reforço no inconsciente e seguir os desvios das excitações
inconscientes. Mas qual é a relação entre os resíduos pré-conscientes
diurnos e o sonho? Não há dúvida de que penetram em abundância
sonho adentro, que utilizam o conteúdo onírico para se intrometerem
na consciência mesmo durante a noite; na verdade, de tempos em
tempos até mesmo dominam o conteúdo do sonho e o impelem a dar
prosseguimento ao trabalho do dia. Também é certo que os restos do
dia podem ter um caráter tão diferente quanto o dos desejos, mas é
altamente instrutivo – e até mesmo decisivo para a teoria da realização
de desejos – ver quais condições eles têm de cumprir para serem
recebidos no sonho.
Retomemos como exemplo um dos sonhos já citados, a saber, o
sonho em que meu amigo Otto parece apresentar os sintomas da
doença de Graves [uma forma de hipertireoidismo]. A aparência do
meu amigo me causou certa preocupação durante o dia, e essa
preocupação, como tudo o mais que se referia a ele, me afetou. Posso,
também, presumir que esses sentimentos me acompanharam sono
adentro. Eu provavelmente estava empenhado em descobrir o que
havia de errado com ele. Durante a noite, minha preocupação
encontrou expressão no sonho que descrevi, cujo conteúdo não
apenas era sem sentido, como também não demonstrava qualquer
realização de desejo. Mas comecei a investigar a origem dessa
expressão incongruente da preocupação que senti durante o dia, e a
análise revelou a ligação. Identi�quei meu amigo Otto como um certo
Barão L. e eu mesmo como um certo Professor R. Só havia uma
explicação para eu ter sido impelido a selecionar apenas essa
substituição para o pensamento do dia. Eu devia ter sempre estado
preparado no inconsciente a me identi�car com o Professor R., pois
essa identi�cação signi�cava a realização de um dos desejos imortais
da infância, a saber, o de me tornar uma pessoa grande. Ideias
repulsivas a respeito do meu amigo, que certamente teriam sido
repudiadas no estado de vigília, aproveitaram a oportunidade para se
imiscuir no sonho, mas a preocupação diurna também encontrou
alguma forma de expressão por meio de uma substituição no
conteúdo do sonho. O pensamento diurno, que não era um desejo em
si, mas, sim, uma preocupação, de alguma forma teve de encontrar
uma conexão com o desejo infantil agora inconsciente e reprimido, o
que lhe permitiu, então, embora já devidamente modi�cado e
preparado, “originar-se” na consciência. Quanto mais dominante for
essa preocupação, mais forte deverá ser a conexão a ser estabelecida;
entre o conteúdo do desejo e o da preocupação não há necessidade de
haver ligação, tampouco nenhuma associação desse tipo estava
presente nos nossos exemplos.
Agora somos capazes de de�nir com precisão o papel
desempenhado nos sonhos pelo desejo inconsciente. Posso admitir
que existe toda uma classe de sonhos em que a instigação se origina,
de forma preponderante ou até mesmo exclusiva, dos resquícios da
vida cotidiana; e acredito que até mesmo meu acalentado desejo de
me tornar, em algum momento futuro, um “professor extraordinarius”
teria me permitido dormir um sono tranquilo naquela noite, se minha
preocupação com a saúde de meu amigo ainda não estivesse ativa.
Porém, essa preocupação por si só não teria produzido um sonho; a
força motriz necessária ao sonho tinha de contar com a contribuição
de um desejo, e cabia à preocupação obter para si um desejo que
agisse como força propulsora do sonho.
Para falar em termos �gurativos, é bem possível que um
pensamento diurno desempenhe no sonho o papel de um empreiteiro
(empreendedor). Porém, como se sabe, não importa que ideia o
empreiteiro tenha em mente, e por mais desejoso que ele esteja de
colocá-la em prática, nada pode realizar sem capital. Ele deve
depender de um capitalista para custear as despesas necessárias, e
esse capitalista, que fornece as despesas psíquicas para o sonho, é
invariável e indiscutivelmente um desejo oriundo do inconsciente, seja
qual for a natureza do pensamento ocorrido no estado de vigília.
Noutros casos, o próprio capitalista é o empreiteiro do sonho; este, de
fato, parece ser o caso mais comum. Um desejo inconsciente é
produzido pelo trabalho diário, que, por sua vez, cria o sonho. Além
disso, os processos oníricos correm em paralelo com todas as outras
possibilidades da relação econômica aqui utilizadas como ilustração.
Assim, o próprio empreendedor pode contribuir com algum capital,
ou vários empreendedores podem procurar a ajuda do mesmo
capitalista, ou, ainda, vários capitalistas podem se reunir e fornecer
conjuntamente o capital de que o empreendedor necessita.
Dessa forma, há sonhos produzidos por mais de um desejo onírico,
e muitas variações semelhantes que podem facilmente ser ignoradas e
não nos interessam mais. O que deixamos inacabado nessa discussão
dos desejos oníricos poderemos desenvolver mais tarde. O tertium
comparationis35 nas comparações que acabamos de empregar – ou seja,
a soma colocada à nossa livre disposição em uma distribuição
adequada – admite uma aplicação ainda mais re�nada para a
ilustração da estrutura do sonho. Podemos reconhecer na maioria dos
sonhos um ponto central especialmente marcado por perceptível
intensidade. Esse ponto central é, normalmente, a representação
direta da realização do desejo; pois, se des�zermos os deslocamentos
do trabalho do sonho por um processo de retrogressão, constataremos
que a intensidade psíquica dos elementos dos pensamentos oníricos é
substituída pela intensidade perceptível dos elementos no conteúdo
onírico. Os elementos adjacentes à realização do desejo muitas vezes
nada têm a ver com o seu sentido, mas revelam-se como derivados de
pensamentos dolorosos que se opõem ao desejo. Contudo, devido à
sua ligação o mais das vezes arti�cial com o elemento central,
adquiriram intensidade su�ciente para lhes permitir chegar à
expressão nos sonhos. Assim, a força de expressão da realização do
desejo se difunde por determinada esfera de associação, dentro da
qual todos os elementos – inclusive aqueles que são em si impotentes
– adquirem a capacidade de se expressar. Nos sonhos com vários
desejos fortes, podemos facilmente separar as esferas das diferentes
realizações de desejos individuais; as lacunas no sonho também
podem muitas vezes ser explicadas como zonas fronteiriças ou
limítrofes.
Embora as observações anteriores tenham limitado
consideravelmente o signi�cado dos resquícios do dia para o sonho,
ainda assim valerá a pena dar-lhes alguma atenção. Eles devem ser um
ingrediente essencial na formação dos sonhos à medida que a
experiência revela o fato surpreendente de que todo sonho apresenta
em seu conteúdo um vínculo com alguma impressão diurna recente,
muitas vezes do tipo mais insigni�cante. Até agora, não conseguimos
ver qualquer necessidade desse acréscimo à mistura dos sonhos. Essa
necessidade aparece apenas quando acompanhamos de perto o papel
desempenhado pelo desejo inconsciente e depois procuramos
informações na psicologia das neuroses. Aprendemos, assim, que a
ideia inconsciente, como tal, é absolutamente incapaz de entrar no
pré-consciente, e que só pode exercer uma in�uência ali, unindo-se a
uma ideia inofensiva já pertencente ao pré-consciente, para o qual
transfere sua intensidade e sob o qual se permite encobrir-se. Esse é o
fato da transferência que fornece uma explicação para tantas
ocorrências surpreendentes na vida psíquica dos neuróticos.
A ideia do pré-consciente, que, assim, obtém uma imerecida
abundância de intensidade, pode ser mantida inalterada pela
transferência, ou pode se ver forçada a passar por uma modi�cação,
por imposição do conteúdo da ideia transferidora. Espero que o leitor
perdoe o meu gosto por fazer analogiascom a vida cotidiana, mas
sinto-me tentado a dizer que as relações existentes para a ideia
reprimida são semelhantes à situação vigente na Áustria para os
dentistas norte-americanos, que estão proibidos de exercer a pro�ssão
a menos que obtenham autorização de um médico com quali�cação
regular para usar seu nome na placa pública e, assim, atender aos
requisitos legais. Ademais, assim como naturalmente não são os
médicos mais requisitados que �rmam essas alianças com os dentistas,
também na vida psíquica apenas as ideias pré-conscientes ou
conscientes são escolhidas para cobrir uma ideia recalcada e que não
atraíram, elas próprias, grande dose da atenção que está atuando no
pré-consciente. O inconsciente enreda com suas conexões
preferencialmente aquelas impressões e ideias do pré-consciente que
passaram despercebidas como irrisórias, ou aquelas que logo foram
privadas dessa atenção por conta da rejeição. É um fato conhecido dos
estudos de associação, con�rmado por todas as experiências, que as
ideias que formaram ligações íntimas em uma direção assumem uma
atitude quase negativa em relação a grupos inteiros de novas ligações.
Certa vez tentei, a partir desse princípio, desenvolver uma teoria para
a paralisia histérica.
Se presumirmos que a mesma necessidade de transferência das
ideias reprimidas que aprendemos a conhecer por meio da análise das
neuroses também faz sentir a sua in�uência no sonho, podemos
explicar de uma tacada só dois enigmas relativos aos sonhos, a saber:
que toda análise de sonho mostra um entrelaçamento de uma
impressão recente, e que esse elemento recente é, amiúde, do caráter
mais insigni�cante. Podemos acrescentar o que já aprendemos em
outra parte: o motivo pelo qual esses elementos recentes e triviais
entram com tanta frequência no conteúdo do sonho como substitutos
dos pensamentos oníricos mais profundos é que eles têm menos a
temer da censura imposta pela resistência. Mas, embora essa ausência
de censura explique apenas a preferência por elementos triviais, a
presença constante de alguns elementos recentes aponta para a
existência de uma necessidade de transferência. Ambos os grupos de
impressões satisfazem à exigência da repressão, que estabelece
material ainda livre de associações – as indiferentes porque não
ofereceram incentivo para associações amplas, e as recentes porque
não tiveram tempo su�ciente para formar essas associações.
Vemos, assim, que os resíduos do dia, entre os quais podemos agora
incluir as impressões indiferentes, quando participam da formação do
sonho não apenas tomam emprestado do inconsciente a força motriz à
disposição do desejo reprimido, mas também oferecem ao
inconsciente algo indispensável, a saber, o vínculo necessário à
transferência. Se aqui tentássemos penetrar mais a fundo nos
processos psíquicos, teríamos primeiro de lançar mais luz sobre o jogo
das emoções entre o pré-consciente e o inconsciente, ao qual, de fato,
somos empurrados pelo estudo das psiconeuroses, ao passo que o
sonho em si não oferece nenhuma ajuda nesse sentido.
Tenho apenas uma derradeira observação a fazer acerca dos
resíduos diurnos. Não há dúvida de que são eles os verdadeiros
perturbadores do sono, e não o sonho, que, pelo contrário, se esforça
para proteger o sono. Mas voltaremos a esse ponto mais adiante.
Até agora discutimos os desejos oníricos, rastreamos a origem do
sonho de desejo até situá-la na esfera do inconsciente e analisamos as
suas relações com o resto do dia, que por sua vez podem ser desejos,
emoções psíquicas de qualquer outro tipo ou simplesmente
impressões recentes. Assim, demos margem a quaisquer a�rmações
que possam ser feitas acerca da importância da atividade do
pensamento consciente nas formações oníricas em todas as suas
variações. Baseando-nos em nossa série de pensamentos, não nos
seria impossível explicar que mesmo aqueles casos extremos em que o
sonho, dando continuidade às atividades diurnas, leva a uma
conclusão feliz para um problema não resolvido, propicia um exemplo
– cuja análise poderia revelar sua fonte em um desejo infantil ou
recalque – que fornece essa aliança e o bem-sucedido fortalecimento
dos esforços da atividade pré-consciente. Mas ainda não chegamos
nem sequer um passo mais perto da solução do enigma: por que o
inconsciente só pode fornecer a força motriz para a realização do
desejo durante o sono? A resposta a essa pergunta deve elucidar a
natureza psíquica dos desejos; e será dada com a ajuda do quadro
esquemático do aparelho psíquico.
Não temos dúvida de que esse aparelho atingiu a sua atual perfeição
por meio de um longo período de desenvolvimento. Procuremos
reconduzi-lo a uma etapa inicial da sua atividade. A partir de
suposições, a serem con�rmadas em outro momento, sabemos que a
princípio o aparelho se esforçou para manter-se tão livre de estímulos
e excitações quanto possível. Por conseguinte, em sua primeira
formação, o esquema tomou a forma de um aparelho re�exo, que lhe
permitia descarregar prontamente por meio de uma via motora
qualquer estímulo sensorial que sobre ele incidisse. Mas essa função
simples foi perturbada pelas exigências da vida, que também
fornecem o impulso para o desenvolvimento posterior do aparelho. As
exigências da vida manifestaram-se primeiro na forma de grandes
necessidades físicas. A excitação despertada pela necessidade interior
busca uma saída na motilidade, o que pode ser descrito como
“mudanças internas” ou como “expressão das emoções”. A criança
faminta chora ou se remexe, inquieta e impotente, mas a sua situação
permanece inalterada, pois a excitação que procede uma necessidade
interior requer não uma eclosão momentânea, mas uma força em ação
contínua. Uma mudança só pode ocorrer se, de alguma forma,
experimentar-se um sentimento de grati�cação – que, no caso da
criança com fome, deve ser por meio de ajuda externa –, a �m de
eliminar a excitação interna. Um componente essencial dessa
experiência é o aparecimento de certa percepção (de comida, no nosso
exemplo), cuja imagem mnêmica permanece a partir de então
associada ao traço mnêmico da excitação produzida pela necessidade.
Graças à ligação que foi estabelecida, da próxima vez que essa
necessidade for despertada, surgirá um sentimento psíquico que
reavivará a imagem mnêmica da percepção anterior, e assim evocará a
própria percepção anterior, isto é, na verdade, restabelecerá a situação
da primeira grati�cação. A esse sentimento chamamos de desejo; o
reaparecimento da percepção constitui a realização do desejo, e o
renascimento pleno da percepção pela excitação do desejo constitui o
caminho mais curto para a realização do desejo. Podemos supor uma
condição primitiva do aparelho psíquico em que esse caminho é
realmente percorrido, isto é, onde o desejo se funde em uma
alucinação. Essa primeira atividade psíquica visa, portanto, a uma
identidade perceptiva, ou seja, almeja uma repetição da percepção que
é vinculada à realização do desejo.
Essa atividade mental primitiva deve ter sido modi�cada pela
amarga experiência prática, que a transforma em uma atividade
secundária mais conveniente. O estabelecimento da percepção de
identidade no curto caminho regressivo dentro do aparelho não traz
consigo, sob nenhum outro aspecto, o resultado que inevitavelmente
se segue ao reavivamento da mesma percepção a partir do exterior. A
grati�cação não acontece, e a necessidade persiste. Para equalizar a
soma de energia interna com a externa, a primeira deve ser
continuamente mantida, tal como de fato acontece nas psicoses
alucinatórias e nos delírios de fome, que esgotam a capacidade
psíquica de apegar-se ao objeto de desejo. A �m de fazer um uso mais
adequado da força psíquica, torna-se necessário inibir a regressão
plena para evitar que ela se estenda além da imagem mnêmica, de
onde poderá selecionar outros caminhos que conduzam, ao �m e ao
cabo, ao estabelecimento da desejada identidade a partir do mundo
exterior. Essa inibição e o consequente desvio da excitação tornam-se
tarefa de um segundo sistema que domina a motilidadede forma alguma endossados por evidências – algumas
hipóteses atraentes, que, ao brotarem em seu cérebro, já vinham
totalmente armadas, tal qual Minerva nasceu do cérebro de Júpiter já
munida de armas.
Depois disso, estendiam sobre essa estrutura in�exível a pele de
uma realidade que eles já haviam matado de antemão.
É apenas para mentes que padecem das mesmas distorções,
também inclinadas ao autismo, que essas estruturas vazias e arti�ciais
parecem moldes aceitáveis para o pensamento �losó�co.
O enfoque pragmático de que “a verdade é o que funciona” ainda
não havia sido enunciado quando Freud publicou suas
revolucionárias ideias sobre a psicologia dos sonhos. Depois que ele
divulgou sua interpretação acerca dos sonhos, tornaram-se óbvios
para o mundo cinco fatos de primeira grandeza.
Em primeiro lugar, Freud apontou para uma conexão constante
entre alguma parte de cada sonho e algum detalhe da vida do
indivíduo sonhador durante o estado de vigília anterior. Isso
estabelece de maneira categórica uma relação entre a condição de
estar acordado e a de dormir e elimina a visão até então predominante
de que os sonhos são fenômenos puramente despropositados,
desprovidos de sentido, que vêm não se sabe de onde e levam a lugar
nenhum.
Em segundo lugar, Freud, depois de estudar a vida e os modos de
pensar do indivíduo sonhador, e de registrar todos os seus
maneirismos e detalhes aparentemente insigni�cantes de sua conduta
a revelar pensamentos secretos, chegou à conclusão de que havia em
cada sonho a tentativa – bem-sucedida ou não – de realizar algum
desejo3, consciente ou inconsciente.
Em terceiro lugar, Freud provou que muitas das nossas visões
oníricas são simbólicas, o que nos leva a considerá-las imagens
absurdas e ininteligíveis; a universalidade desses símbolos, contudo, as
torna bastante transparentes para o observador treinado.
Em quarto lugar, Freud mostrou que os desejos sexuais
desempenham um papel enorme no nosso inconsciente, um papel
que a hipocrisia puritana sempre tentou minimizar, se não ignorar por
completo.
Por �m, Freud estabeleceu uma conexão direta entre sonhos e
insanidade, entre as visões simbólicas do nosso sono e as ações
simbólicas dos indivíduos com distúrbios mentais.
Ao dissecar os sonhos de seus pacientes, decerto Freud fez muitas
outras observações, mas nem todas despertaram tanto interesse
quanto as já mencionadas, tampouco foram tão revolucionárias ou
propensas a exercer tamanha in�uência na psiquiatria moderna.
Outros pesquisadores também se embrenharam na trilha que o
pioneiro Freud desbravou em direção ao inconsciente humano. As
contribuições de Jung4, de Zurique; Adler5, de Viena; e Kempf6, de
Washington, d.c., ao estudo do consciente levaram esse campo do
conhecimento a lugares que o próprio Freud jamais sonhou alcançar.
No entanto, nunca é exagero enfatizar que, não fosse a teoria
freudiana dos sonhos como a realização de desejos, jamais poderiam
ter sido formuladas a “teoria da energia psíquica”, de Jung, nem a
teoria da “inferioridade e compensação dos órgãos”, de Adler,
tampouco o “mecanismo dinâmico”, de Kempf.
Freud é o pai da psicologia anormal moderna e estabeleceu o ponto
de vista psicanalítico. Ninguém que não domine sólidos
conhecimentos na tradição freudiana pode almejar realizar qualquer
obra de valor no campo da psicanálise.
Por outro lado, que ninguém repita a absurda a�rmação de que o
freudismo é uma espécie de religião limitada por dogmas e que exige
um ato de fé. O freudismo propriamente dito foi apenas um estágio no
desenvolvimento da psicanálise, um estágio a partir do qual todos –
exceto alguns fanáticos seguidores do campo, totalmente desprovidos
de originalidade – evoluíram. Milhares de pedras foram acrescentadas
à estrutura erguida pelo médico vienense e, com o passar do tempo,
muitas outras mais serão.
Porém, as novas adições a essa estrutura ruiriam como um castelo
de cartas não fossem os alicerces originais, tão indestrutíveis quanto a
descrição de Harvey7 acerca da circulação sanguínea.
Independentemente de quaisquer acréscimos ou alterações à
estrutura original, o ponto de vista analítico permanece inalterado.
Essa perspectiva não apenas está revolucionando todos os métodos
de diagnóstico e tratamento de distúrbios mentais, mas também
instigando os médicos inteligentes e atualizados a revisarem
inteiramente a sua atitude em relação a quase todos os tipos de
doença.
As insanas já não são mais pessoas absurdas e dignas de pena,
fadadas a serem amontoadas em manicômios até que a natureza os
cure ou os alivie de seus sofrimentos por meio da morte. Os indivíduos
que não se tornaram insanos em decorrência de lesões no cérebro ou
no sistema nervoso são vítimas de forças inconscientes que os levam a
fazer coisas anormais que eles poderiam aprender a fazer
normalmente, contanto que recebessem ajuda.
A investigação aprofundada da própria psicologia está substituindo
com êxito os sedativos e tratamentos baseados no repouso.
Os médicos que lidam com casos “puramente” físicos começaram a
levar em consideração, com a devida seriedade, os fatores “mentais”
que predispuseram o paciente a certas doenças.
As ideias de Freud também tornaram inevitável uma revisão de
todos os valores éticos e sociais e lançaram uma inesperada luz sobre
as realizações literárias e artísticas.
Contudo, o ponto de vista freudiano – ou, em termos mais amplos, o
ponto de vista psicanalítico – permanecerá sempre um enigma para
aqueles que, por preguiça ou indiferença, se recusarem a
esquadrinhar ao lado do grande vienense o campo ao longo do qual
ele avançou com cautela, tateando o caminho. Jamais �caremos
convencidos enquanto não repetirmos, sob a orientação de Freud,
todos os seus experimentos clínicos.
Devemos segui-lo pelo matagal do inconsciente, através do
território que nunca tinha sido cartografado antes porque os �lósofos
acadêmicos, adeptos da postura do menor esforço, decidiram a priori
que não poderia ser mapeado.
Os geógrafos antigos, ao esgotarem seu estoque de informações
sobre terras distantes, cediam a um anseio nada cientí�co de fantasia
e, sem qualquer evidência a corroborar seus devaneios, preenchiam os
espaços em branco de seus mapas representando trechos inexplorados
com legendas divertidas, como “Aqui há leões”.
Graças à interpretação freudiana dos sonhos, “o caminho
auspicioso” rumo ao inconsciente está agora aberto a todos os
desbravadores. Nessa trilha, eles não encontrarão leões – mas, sim, o
próprio homem e o registro de toda a sua vida e de sua luta contra a
realidade.
Só depois de vermos o indivíduo tal qual o seu inconsciente o
apresenta a nós – revelado por seus sonhos – é que o
compreenderemos plenamente. Pois, como disse Freud a Putnam8:
“Somos o que somos porque fomos o que fomos”.
Contudo, não foram poucos os estudiosos sérios que desanimaram
ao tentar estudar a psicologia dos sonhos.
O livro em que Freud originalmente apresentou ao mundo sua
interpretação dos sonhos era em igual medida um registro
circunstancial e legítimo a ser objeto da análise detida de cientistas
que sobre ele se debruçassem com vagar, e não para ser assimilado em
poucas horas pelo leitor médio e atento. Na ocasião, Freud não podia
deixar de lado nenhum detalhe que, por meio de evidências, pudesse
tornar sua tese extremamente inovadora em algo aceitável para os
leitores dispostos a esmiuçar dados.
O próprio Freud, contudo, percebeu a magnitude da tarefa que a
leitura de sua magnum opus [obra-prima] impunha àqueles que não
estavam preparados para tanto por meio de um longo treinamento
psicológico e cientí�co. A partir disso, abstraiu da gigantesca obra as
partes que constituem o essencial de suas descobertas.
Os editores do presente livro merecem crédito por apresentarem ao
público leitor a essência da psicologia de Freud nas palavras do
próprio mestre, em um formato que não desencoraja os iniciantes
tampouco parece elementar demais para os que já estão mais
avançados no estudo psicanalítico.
A psicologia dos sonhos é o cerne dasvoluntária,
isto é, por meio de cuja atividade o dispêndio da motilidade é agora
dedicado a propósitos evocados de antemão. Mas toda essa
complicada atividade mental, que se desdobra desde a imagem
mnêmica até o estabelecimento da identidade perceptiva a partir do
mundo exterior, representa apenas um desvio que foi imposto pela
experiência à realização do desejo.XXI Pensar nada mais é do que o
equivalente do desejo alucinatório; e, se o sonho for chamado de
realização de desejo, isso se torna evidente, pois nada além de um
desejo pode impelir à ação nosso aparelho psíquico. O sonho, que ao
realizar seus desejos percorre o curto caminho regressivo, preserva
para nós apenas um exemplo da forma primária do aparelho psíquico
que foi abandonada por ser inconveniente. O que antes dominava o
estado de vigília, quando a vida psíquica ainda era jovem e inepta,
parece ter sido banido para o estado de sono, assim como reaparecem
novamente nos quartos de brinquedo o arco e a �echa, armas
primitivas descartadas pelos adultos evoluídos. Os sonhos são um
fragmento da vida psíquica infantil já abandonada. Nas psicoses, esses
modos de funcionamento do aparelho psíquico, normalmente
suprimidos no estado de vigília, rea�rmam-se e, então, revelam a sua
incapacidade de satisfazer as nossas necessidades no mundo exterior.
Os sentimentos de desejo inconscientes evidentemente se esforçam
para se a�rmar também durante o dia, e os fatos da transferência, bem
como as psicoses, nos ensinam que lutam para penetrar na
consciência e dominar o controle da motilidade pela estrada que leva
ao sistema pré-consciente. É, portanto, o censor situado entre o
inconsciente e o pré-consciente, cuja existência nos é imposta pelo
sonho, que devemos reconhecer e honrar como o guardião da nossa
saúde psíquica. Mas não é por um ato de descuido que esse guardião
diminui a sua atividade de vigilância durante a noite e permite que as
emoções reprimidas do inconsciente se expressem, possibilitando
novamente a regressão alucinatória? Creio que não, pois, quando o
guardião crítico descansa – e temos provas de que o seu sono não é
profundo –, ele toma o cuidado de fechar a porta de acesso à
mobilidade. Sejam quais forem os sentimentos do inconsciente,
normalmente inibidos, que possam zanzar pela cena, não precisam de
interferência; permanecem inócuos, porque são incapazes de pôr em
movimento o aparelho motor, o único capaz de exercer uma in�uência
modi�cadora sobre o mundo exterior. O estado de sono garante a
segurança da fortaleza que está sob guarda. As condições são menos
inofensivas quando o que provoca um deslocamento de forças não é
um afrouxamento noturno na operação do censor crítico, mas um
enfraquecimento patológico deste último ou de uma intensi�cação
patológica das excitações inconscientes, e isso enquanto o pré-
consciente está carregado de energia e os caminhos para a motilidade
estão abertos. O guardião é, então, dominado, as excitações
inconscientes subjugam o pré-consciente; por meio disso, dominam
nossa fala e ações, ou então impõem a regressão alucinatória, regendo
assim um aparelho (que não foi projetado para uso dele) em virtude
da atração exercida pelas percepções sobre a distribuição de nossa
energia psíquica. A essa condição chamamos de psicose.
Estamos agora na melhor posição para completar a nossa
construção psicológica, que foi interrompida pela introdução dos dois
sistemas, o Ics. (inconsciente) e o Pcs. (pré-consciente). Temos, contudo,
amplas razões para dedicar atenção ainda mais profunda ao desejo
como única força motriz psíquica no sonho. Explicamos que a razão
pela qual os sonhos são, em todos os casos, a realização de um desejo é
porque são produtos do inconsciente, sistema que não conhece outro
objetivo em sua atividade senão a realização de desejos, e que não tem
outras forças à sua disposição a não ser os sentimentos de desejo. Se
aproveitarmos por mais um momento o direito de elaborar, a partir da
interpretação dos sonhos, especulações psicológicas tão abrangentes,
teremos o dever de demonstrar que estamos, desse modo, trazendo os
sonhos para uma relação que também pode abarcar outras estruturas
psíquicas. Se existe um sistema do inconsciente – ou algo
su�cientemente análogo a ele para os propósitos de nossa discussão –,
os sonhos não podem ser sua única manifestação. Todos os sonhos
podem ser a realização de um desejo, mas deve haver outras formas de
realização anormal de desejo além da dos sonhos. De fato, a teoria de
todos os sintomas psiconeuróticos culmina na proposição de que eles
também devem ser considerados como realizações de desejos
inconscientes. Nossa explicação faz dos sonhos apenas os primeiros
membros de um grupo de extrema importância para os psiquiatras, e
cuja compreensão signi�ca a solução da parte puramente psicológica
do problema da psiquiatria. Contudo, outros membros desse grupo de
realizações de desejos – por exemplo, os sintomas histéricos –
evidenciam uma qualidade essencial que até agora não consegui
encontrar nos sonhos. Assim, pelas investigações a que me referi
tantas vezes neste tratado, sei que a formação de um sintoma histérico
necessita da combinação de ambas as correntes da nossa vida
psíquica. O sintoma não é apenas a expressão de um desejo
inconsciente realizado, mas deve ser acompanhado por outro desejo
do pré-consciente que é realizado pelo mesmo sintoma; assim, o
sintoma é pelo menos duplamente determinado, uma vez por cada um
dos sistemas con�itantes. Assim como no sonho, não há limite para
outras sobredeterminações dos sintomas. A meu ver, a determinação
que não deriva do inconsciente é invariavelmente um encadeamento
de pensamentos em reação contra o desejo inconsciente, por exemplo,
uma autopunição. Por isso posso dizer, em geral, que um sintoma
histérico só se desenvolve quando as realizações de dois desejos
contrastantes, cada qual originado em um sistema psíquico diferente,
são capazes de combinar-se em uma única expressão. (Compare com a
minha última formulação sobre a origem dos sintomas histéricos em
um tratado publicado no Zeitschrift für Sexualwissenschaft por
Hirschfeld36 e outros, 1908.)
Exemplos sobre esse ponto seriam de pouca serventia, pois nada
além de uma revelação exaustiva das complicações em questão seria
convincente. Portanto, contento-me com a mera a�rmação e citarei um
exemplo apenas à guisa de explicação, não como uma tentativa de
convencimento. O vômito histérico de uma de minhas pacientes
revelou ser, por um lado, a realização de uma fantasia inconsciente
que remontava à sua puberdade – o desejo de que ela poderia estar
continuamente grávida e ter uma in�nidade de �lhos –,
posteriormente acrescido do desejo de que ela poderia ter seus �lhos
com o maior número possível de homens. Em oposição a esse desejo
imoderado surgiu um poderoso impulso defensivo. Porém, como os
vômitos poderiam estragar a silhueta da paciente e deteriorar sua
beleza, de modo que ela deixaria de ter encantos aos olhos alheios, o
sintoma era, portanto, condizente com sua tendência de pensamentos
punitivos e, sendo assim admissível de ambos os lados, teve permissão
para se tornar uma realidade. Essa é a mesma maneira de consentir na
realização de um desejo que a rainha dos partos escolheu para o
triúnviro Crasso. Acreditando que o general havia empreendido sua
campanha militar pela cobiça por ouro, ela ordenou que ouro
derretido fosse despejado dentro da garganta do cadáver do romano.
“Agora tens aquilo por que ansiaste.” Até aqui, tudo o que sabemos
sobre os sonhos é que expressam a realização de um desejo do
inconsciente; e aparentemente o pré-consciente dominante só permite
isso depois de ter submetido o desejo a algumas distorções.
Na verdade, não estamos em condições de demonstrar
regularmente uma sequência de pensamentos antagônica aos desejos
oníricos e que, como sua contrapartida, seja realizada no sonho.
Apenas de vez em quando encontramos no sonho vestígios de
formações reativas – por exemplo, a ternura pelo amigo R. no “sonho
do tio”. Mas a contribuiçãodo ingrediente do pré-consciente, que aqui
está ausente, pode ser encontrada em outro lugar. Embora o sistema
dominante se recolha em um desejo de dormir, o sonho pode dar
expressão, com múltiplas distorções, a um desejo do inconsciente e
realizar esse desejo produzindo as necessárias mudanças de energia
no aparelho psíquico, e pode �nalmente fazê-lo persistir durante toda
a duração do sono.XXII
Em geral, esse persistente desejo de dormir por parte do pré-
consciente facilita a formação dos sonhos. Façamos referência ao
sonho do pai que, pelo clarão de luz proveniente da câmara mortuária,
chegou à conclusão de que o corpo do �lho estava em chamas.
Mostramos que uma das forças psíquicas decisivas para que o pai
chegasse a essa conclusão, em vez de ser despertado pelo brilho da
luz, foi o desejo de prolongar por um momento a vida da criança vista
no sonho. Outros desejos provenientes da repressão provavelmente
nos escapam, porque não somos capazes de analisar esse sonho. Mas
como segunda força motriz do sonho podemos mencionar o desejo do
pai de dormir, pois, tal como a vida da criança, o sono do pai é
prolongado por mais um momento pelo sonho. O motivo subjacente é:
“Que o sonho prossiga, caso contrário eu terei que acordar”. O que
ocorre nesse sonho vale também para todos os outros sonhos: o desejo
de dormir serve de apoio ao desejo inconsciente. Relatamos alguns
sonhos que aparentemente eram sonhos de conveniência. Mas, a bem
da verdade, todos os sonhos podem reivindicar essa mesma
designação.
A e�cácia do desejo de continuar a dormir pode ser percebida mais
facilmente nos sonhos de despertar, que transformam o estímulo
sensorial objetivo de modo a torná-lo compatível com a continuação
do sono. Eles entrelaçam esse estímulo no sonho a �m de privá-lo de
quaisquer alegações que possa fazer à guisa de aviso do mundo
exterior. Mas esse desejo de continuar a dormir deve também
participar na formação de todos os outros sonhos que possam
perturbar o estado de sono apenas a partir de dentro. “Está tudo bem,
continue dormindo, a�nal é só um sonho” – essa é em muitos casos a
sugestão que o pré-consciente faz ao consciente quando o sonho vai
longe demais; e isso também descreve, de modo geral, a atitude da
nossa atividade psíquica dominante em relação aos sonhos, embora o
pensamento permaneça tácito. Devo chegar à conclusão de que,
durante todo o nosso estado de sono, temos tanta certeza de que
estamos sonhando quanto temos certeza de que estamos dormindo.
Somos compelidos a ignorar a objeção levantada contra essa
conclusão de que a nossa consciência nunca é dirigida para o
conhecimento da primeira dessas certezas (o sono), e que é dirigida
para o conhecimento da segunda (o sonho) apenas em ocasiões
especiais, quando o censor é pego de surpresa.
Contra essa objeção, podemos dizer que há pessoas que estão
inteiramente conscientes de que dormem e de que sonham, e que
aparentemente são dotadas da faculdade de guiar conscientemente
sua vida onírica. Quando um desses sonhadores �ca insatisfeito com o
rumo do sonho, interrompe-o sem acordar e reinicia-o de modo a
continuá-lo com um rumo diferente – tal qual o dramaturgo popular
que, a pedidos, dá um �m mais feliz à sua peça. Ou, em outra ocasião,
caso seu sonho o tenha colocado em uma situação sexualmente
excitante, ele pensa enquanto dorme: “Não me interessa continuar
este sonho e me esgotar em uma polução; pre�ro adiá-lo em favor de
uma situação real”.
XX Compartilham esse caráter de indestrutibilidade com todos os atos psíquicos realmente
inconscientes, ou seja, os atos psíquicos que pertencem apenas ao sistema do inconsciente.
Esses caminhos estão constantemente abertos e nunca caem em desuso; conduzem a descarga
do processo de excitação todas as vezes que se tornam dotados da excitação inconsciente. Em
termos metafóricos, sofrem a mesma forma de aniquilamento que os mortos do mundo
subterrâneo na Odisseia, que despertavam para uma nova vida no momento em que bebiam
sangue. Os processos que dependem do sistema pré-consciente são indestrutíveis de maneira
diferente. A psicoterapia da neurose baseia-se nessa diferença.
XXI Le Lorrain enaltece, de maneira justi�cada, a realização do desejo no sonho: “Sans fatigue
sérieuse, sans être obligé de recourir à cette lutte opiniâtre et longue qui use et corrode les jouissances
poursuivies” [“Sem cansaço sério, sem ser obrigado a recorrer à luta obstinada e longa que
desgasta e corrói os gozos perseguidos”].
XXII Essa ideia foi emprestada da teoria do sono, de [Ambroise-Auguste] Liébault, que retomou
a pesquisa com a hipnose em nossos dias (Du sommeil provoqué etc.; Paris, 1889).
U ma vez que sabemos que, durante a noite, o pré-consciente �ca
suspenso pelo desejo de dormir, podemos levar adiante a nossa
investigação inteligente do processo onírico. Mas primeiro vamos
resumir o conhecimento já adquirido acerca desse processo.
Mostramos que a atividade de vigília – as horas em que a pessoa está
acordada – deixa pendentes restos diurnos dos quais a soma de
energia não pode ser inteiramente removida; ou a atividade de vigília
reaviva durante o dia um dos desejos inconscientes; ou ambas as
condições ocorrem simultaneamente; já descobrimos as muitas
variações que podem ocorrer. O desejo inconsciente se vincula aos
resquícios diurnos, ou no decurso do dia ou pelo menos depois do
início do sono, e efetua uma transferência para eles. Isso produz um
desejo que é transferido para o material recente, ou o desejo recém-
suprimido volta à vida ao receber um reforço do inconsciente. Agora
esse desejo tenta chegar à consciência pelo caminho normal dos
processos de pensamento via o sistema pré-consciente (ao qual de fato
pertence) por meio de um dos seus elementos constituintes. No
entanto, é confrontado pela censura, que ainda está ativa e a cuja
in�uência agora sucumbe. Nesse momento, adota a distorção para a
qual o caminho já fora pavimentado pela transferência do desejo para
o material recente. Até aí, está a caminho de se
tornar algo semelhante a uma obsessão, um delírio ou algo
semelhante, isto é, um pensamento reforçado por uma transferência e
distorcido em sua expressão pela censura. Mas seu avanço posterior é
agora impedido pelo estado de dormência do pré-consciente; esse
sistema aparentemente se protegeu contra invasões diminuindo suas
excitações. O processo onírico, portanto, percorre um caminho
regressivo, que acabou de ser aberto pela peculiaridade do estado de
sono, e, assim, segue a atração exercida sobre ele pelos grupos de
lembranças, que existem, em parte, apenas como energia visual ainda
não traduzida em termos dos sistemas posteriores. Ao longo desse seu
caminho regressivo, o sonho assume a forma de dramatização. O tema
da compressão será discutido mais adiante. O processo onírico
completou agora a segunda parte de sua trajetória, repetidas vezes
interrompida. A primeira parte estendeu-se progressivamente das
cenas ou fantasias inconscientes até o pré-consciente, ao passo que a
segunda gravita desde o advento da censura de volta até as percepções.
Mas, quando o processo onírico se torna um conteúdo da percepção,
ele encontra, por assim dizer, um meio de se esquivar do obstáculo
criado no pré-consciente pela censura e pelo estado de sono.
Consegue chamar a atenção para si e ser notado pela consciência. Pois
esta, que para nós signi�ca um órgão sensorial para a apreensão de
qualidades psíquicas, pode receber estímulos de duas fontes –
primeiro, da periferia de todo o aparelho, a saber, do sistema
perceptivo; em segundo lugar, do prazer e da dor, que constituem a
única qualidade psíquica produzida na transformação da energia no
interior do aparelho. Todos os outros processos do sistema, mesmo os
do pré-consciente, são desprovidos de qualquer qualidade psíquica e,
portanto, não são objetos da consciência, na medida em que não
proporcionam prazer nem dor à percepção. Assim, teremos de
presumir que essas liberações de prazer e dor regulam
automaticamente a saída dos processos de ocupação. Contudo, paratornar possíveis funções mais delicadas, descobriu-se mais tarde que
era necessário tornar o curso das apresentações menos dependente
das manifestações de dor. Para tanto, o sistema pré-consciente
necessitava de algumas qualidades próprias que pudessem atrair a
consciência, e muito provavelmente as recebeu por meio da conexão
dos processos pré-conscientes com o sistema mnêmico dos sinais da
fala, sistema este que não é desprovido de qualidades. Por intermédio
das qualidades desse sistema, a consciência, que até então tinha sido
um órgão sensorial apenas para as percepções, torna-se agora também
um órgão sensorial para uma parte dos nossos processos mentais.
Assim, temos agora, por assim dizer, duas superfícies sensoriais, uma
dirigida às percepções e a outra aos processos de pensamento pré-
conscientes.
Devo presumir que a superfície sensorial da consciência devotada
ao pré-consciente torna-se menos excitável pelo sono do que aquele
direcionado aos sistemas Pcpt. (ou sistemas perceptivos). O abandono
do interesse pelos processos mentais noturnos tem de fato um
propósito. Nada deve perturbar a mente; o pré-consciente exige o
sono, quer dormir. No entanto, uma vez que o sonho se torna uma
percepção, ele é capaz de excitar a consciência por meio das
qualidades adquiridas. A excitação sensorial cumpre a função a que
realmente foi destinada, ou seja, direciona parte da energia à
disposição do pré-consciente na forma de atenção dada àquilo que
causa o estímulo. Devemos admitir, portanto, que o sonho
invariavelmente nos desperta, ou seja, põe em atividade uma parte da
força dormente no pré-consciente. Essa força transmite ao sonho
aquela in�uência que descrevemos como elaboração secundária, para
�ns de conexão e de compreensibilidade. Isso signi�ca que o sonho é
tratado por essa força como qualquer outro conteúdo da percepção;
está sujeito às mesmas ideias de expectativa, pelo menos na medida
em que o material admita. No que tange à direção nessa terceira parte
do sonho, pode-se dizer que aqui novamente se trata de um
movimento progressivo.
Para evitar mal-entendidos, não será inoportuno dizer algumas
palavras sobre as peculiaridades temporais desses processos oníricos.
Em uma discussão muito interessante, aparentemente sugerida pelo
enigmático sonho de Maury37 com a guilhotina, Goblot38 tenta
demonstrar que o sonho não requer outro momento além do período
de transição entre o sono e o despertar. O despertar requer tempo,
pois o sonho acontece nesse período. Tendemos a acreditar que a
imagem �nal do sonho é tão forte que obriga a pessoa que sonha a
despertar; mas, na verdade, essa imagem só é forte porque o sonhador
já está muito próximo do despertar quando ela aparece. “Un rêve c’est
un réveil qui commence.”XXIII
Dugas já enfatizou que Goblot foi forçado a repudiar muitos fatos
para generalizar sua teoria. Além disso, há sonhos dos quais não
despertamos, por exemplo, algumas vezes sonhamos que estamos
sonhando. Com base no nosso conhecimento acerca do trabalho do
sonho, não podemos de forma alguma concordar que os sonhos se
estendem apenas ao longo do período do despertar. Pelo contrário,
devemos considerar que parece provável que a primeira parte do
trabalho do sonho comece durante o dia, quando ainda estamos sob o
domínio do pré-consciente. A segunda fase do trabalho do sonho, a
saber, a modi�cação por intermédio da censura, a atração exercida
pelas cenas inconscientes e a penetração na percepção, deve
transcorrer ao longo de toda a noite. E provavelmente temos sempre
razão quando a�rmamos ter a sensação de havermos sonhado a noite
inteira, embora não saibamos dizer com o quê. Todavia, não creio que
seja necessário presumir que, até o momento da tomada de
consciência, os processos oníricos realmente sigam a sequência
cronológica que descrevemos, isto é, que há primeiro os desejos
oníricos transferidos, depois a distorção da censura e, depois, ainda, a
mudança regressiva de direção e assim por diante. Fomos obrigados a
formar essa sucessão para �ns de descrição; na realidade, porém,
trata-se mais de uma questão de tentar simultaneamente este e aquele
caminho, e de emoções oscilando de um lado para outro, até que, por
�m, devido à distribuição mais conveniente, assegura-se um
agrupamento especí�co que se torna permanente. Com base em certas
experiências pessoais, estou inclinado a acreditar que o trabalho do
sonho muitas vezes requer mais de um dia e uma noite para produzir
seu resultado; se isso for verdade, o extraordinário engenho
manifestado na construção dos sonhos perde todo o seu encanto. A
meu ver, mesmo a consideração pela compreensibilidade como uma
ocorrência de percepção pode surtir efeito antes que o sonho atraia
para si a consciência. Certamente, a partir daí o processo é acelerado,
pois os sonhos passam a ser submetidos ao mesmo tratamento que
qualquer outra percepção. É como ocorre com os fogos de artifício,
que exigem horas de preparação e apenas um instante para se
consumirem.
Por meio do trabalho do sonho, agora o processo onírico ganha
intensidade su�ciente para atrair a consciência para si e despertar o
pré-consciente, que é bastante independente do tempo ou da
profundidade do sono, ou, sendo sua intensidade insu�ciente, deve
esperar até encontrar a atenção que é acionada imediatamente antes
do despertar. Em sua maioria, os sonhos parecem operar com
intensidades psíquicas relativamente leves, pois aguardam o despertar.
Isso, contudo, explica o fato de, com regularidade, ao sermos
subitamente despertados de um sono profundo, lembramo-nos de
alguma coisa que sonhamos. Aqui, assim como no despertar
espontâneo, a primeira coisa que vemos é o conteúdo de percepção
criado pelo trabalho do sonho, e o olhar seguinte percebe o conteúdo
que é produzido de fora.
Mas de maior interesse teórico são aqueles sonhos capazes de nos
acordar em meio ao sono. Devemos ter em mente a utilidade
universalmente demonstrada em outros momentos e perguntar por
que o sonho ou o desejo inconsciente tem o poder de perturbar o
sono, isto é, a realização do desejo pré-consciente. Isso provavelmente
se deve a certas relações de energia das quais não temos
conhecimento. Se tivéssemos esse entendimento, provavelmente
descobriríamos que a liberdade dada ao sonho e o dispêndio de certa
quantidade de atenção desapegada representam para o sonho uma
economia de energia, tendo em vista o fato de que o inconsciente deve
ser controlado durante a noite, assim como durante o dia. A
experiência nos mostra que o sonho, mesmo que interrompa o sono
repetidas vezes durante a mesma noite, ainda permanece compatível
com o sono. Acordamos por um instante e imediatamente voltamos a
adormecer. É como espantar uma mosca durante o sono: acordamos
ad hoc e, quando retomamos o sono, eliminamos a perturbação. Como
demonstram exemplos conhecidos do sono das amas de leite etc., a
realização do desejo de dormir é bastante compatível com a
manutenção do dispêndio de certa dose de atenção em determinada
direção.
Mas devemos aqui tomar conhecimento de uma objeção que se
baseia em um melhor conhecimento dos processos inconscientes.
Embora nós mesmos tenhamos descrito os desejos inconscientes
como sempre ativos, a�rmamos, no entanto, que não são
su�cientemente fortes durante o dia para se tornarem perceptíveis.
Todavia, se enquanto dormimos o desejo inconsciente mostra seu
intenso poder para formar um sonho e, com ele, despertar o pré-
consciente, por que então essa intensidade se exaure depois de
tomarmos conhecimento do sonho? Não pareceria mais provável que
o sonho se renovasse continuamente, tal qual a incômoda mosca que,
depois de ter sido enxotada, tem prazer em voltar sempre? O que
justi�ca a nossa a�rmação de que o sonho elimina a perturbação do
sono?
É a mais pura verdade que os desejos inconscientes permanecem
sempre ativos. Representam caminhos que são transitáveis sempre
que uma soma de excitação faz uso deles. Além disso, uma
peculiaridade notável dos processos inconscientes é o fato de
permanecerem indestrutíveis.Nada pode acabar no inconsciente;
nada pode cessar ou ser esquecido. Adquirimos essa impressão com
clareza e intensidade, sobretudo no estudo das neuroses, em especial a
histeria. O �uxo inconsciente de pensamento, que leva à descarga por
meio de um ataque, torna-se novamente transitável assim que ocorre o
acúmulo de uma quantidade su�ciente de excitação. Uma humilhação
vivenciada trinta anos antes, depois de ter acesso à fonte inconsciente
de afeto, opera ao longo de todos esses trinta anos como uma
humilhação recente. Sempre que é tocada, essa memória é revivida e
se mostra investida de uma carga de excitação, que em seguida é
descarregada em um ataque motor. É justamente aqui que começa a
atuação da psicoterapia, cuja tarefa é provocar o ajuste e o
esquecimento dos processos inconscientes. Na verdade, o
desvanecimento das memórias e o enfraquecimento dos afetos, que
tendemos a considerar como evidentes e a explicar como uma
in�uência primária do tempo nas memórias psíquicas, são na
realidade mudanças secundárias resultantes de um trabalho
meticuloso. É o pré-consciente que realiza esse trabalho; e o único
caminho a ser seguido pela psicoterapia é subjugar o inconsciente à
dominação do pré-consciente.
Existem, portanto, duas saídas para o processo emocional
inconsciente individual. Ou é abandonado à própria sorte e, nesse
caso, no �m, acaba irrompendo em algum lugar e assegura, pela
primeira vez, uma descarga para sua excitação na motilidade; ou
sucumbe à in�uência do pré-consciente, e sua excitação �ca con�nada
por meio dessa in�uência em vez de ser descarregada. No sonho, é este
último processo que ocorre. Devido ao fato de ser dirigida pela
excitação da consciência, a energia do pré-consciente, que confronta o
sonho quando ele chega à percepção, restringe a excitação
inconsciente do sonho e a torna inócuo, impedindo-a de agir como
fator perturbador. Quando o indivíduo sonhador desperta por um
momento, na verdade, afugentou a mosca que ameaçava perturbar seu
sono. Podemos compreender que é realmente mais conveniente e
econômico dar total controle ao desejo inconsciente e abrir caminho à
regressão para que possa formar um sonho e, depois, restringir e
ajustar esse sonho por meio de um pequeno dispêndio de trabalho do
pré-consciente, do que refrear o inconsciente durante todo o período
de sono. De fato, era de se esperar que o sonho, mesmo que
originalmente não tenha sido um processo propício, adquirisse
alguma função no jogo de forças da vida psíquica. Agora vemos qual é
essa função. Aos sonhos coube a tarefa de levar a emoção liberada do
inconsciente novamente ao domínio do pré-consciente; assim,
proporciona alívio para a excitação do inconsciente e atua como uma
válvula de segurança para este último e, ao mesmo tempo, assegura o
sono do pré-consciente com um leve dispêndio do estado de vigília.
Tal como as outras formações psíquicas do grupo do qual faz parte, o
sonho se oferece como um acordo de conciliação que serve
simultaneamente a ambos os sistemas, realizando os dois desejos, na
medida em que sejam compatíveis entre si. Uma olhada na “teoria da
excreção” de Robert39 mostrará que devemos concordar com esse
autor em seu ponto principal – na determinação da função do sonho
–, embora divergindo dele em nossas hipóteses e no tratamento do
processo onírico.
A quali�cação que acabamos de mencionar – com uma ressalva:
contanto que os dois desejos sejam compatíveis entre si – contém uma
sugestão de que pode haver casos em que a função do sonho termina
em �asco. O processo onírico é, em primeira instância, admitido como
uma realização de desejo do inconsciente, mas se essa tentativa de
realização de desejo perturba o pré-consciente a tal ponto que ele não
consegue mais se manter dormindo, o sonho então rompe o acordo de
conciliação e deixa de cumprir a segunda parte de sua tarefa. O
compromisso é, então, imediatamente interrompido e substituído pela
vigília completa. Aqui também não é culpa do sonho se, embora
normalmente desempenhe o papel de guardião do sono, ele for
obrigado a atuar como perturbador do sono, o que tampouco deve nos
levar a nutrir quaisquer dúvidas acerca de sua e�cácia. Não é o único
caso no organismo em que um arranjo que em circunstâncias normais
é útil e e�caz tornar-se ine�caz e perturbador tão logo haja a
modi�cação de algum elemento nas condições de sua origem; assim, a
perturbação serve ao menos ao novo propósito de anunciar a
mudança e de pôr em jogo contra si os meios de ajuste e regulação do
organismo. Nesse contexto, é natural que eu tenha em mente o caso
dos sonhos de ansiedade, e para não dar a impressão de que estou
tentando excluir esse testemunho contrário à teoria da realização de
desejos onde quer que a encontre, tentarei uma explicação dos sonhos
de ansiedade, oferecendo pelo menos algumas sugestões.
Há muito tempo deixou de nos parecer uma contradição o fato de
que um processo psíquico gerador de ansiedade ainda possa ser uma
realização de desejo. Podemos explicar essa ocorrência pelo fato de o
desejo pertencer a um sistema (o inconsciente), ao passo que o outro
sistema (o pré-consciente) rejeitou e suprimiu esse desejo. A sujeição
do inconsciente pelo pré-consciente não está completa nem mesmo
em perfeita saúde psíquica; a medida dessa supressão indica o grau de
nossa normalidade psíquica. Os sintomas neuróticos mostram que
existe um con�ito entre os dois sistemas; os sintomas são o resultado
de um acordo de conciliação que por algum tempo põe �m a esse
con�ito. Por um lado, os sintomas oferecem ao inconsciente um
escoadouro para a descarga de sua excitação, e lhe servem como porta
de saída, enquanto, por outro lado, propiciam ao pré-consciente a
capacidade de, até certo ponto, dominar o inconsciente. É bastante
instrutivo levar em consideração, por exemplo, o signi�cado de
qualquer fobia histérica ou de agorafobia. Imaginemos um neurótico
incapaz de atravessar sozinho a rua, algo que com toda razão
poderíamos chamar de “sintoma”. Tentamos eliminar esse sintoma
incitando-o à ação da qual ele se considera incapaz. O resultado será
um ataque de ansiedade, assim como um ataque de ansiedade na rua
costuma ser a causa que desencadeia um ataque de agorafobia.
Aprendemos, assim, que o sintoma foi constituído para nos proteger
contra o surto da ansiedade. A fobia se ergue diante da ansiedade
como uma fortaleza em uma área de fronteira.
A menos que investiguemos o papel desempenhado pelos afetos
nesses processos, o que aqui só pode ser feito de forma imperfeita, não
poderemos dar continuidade à nossa discussão. Portanto, levemos
adiante a proposição de que a razão pela qual a supressão do
inconsciente se torna absolutamente necessária é que, se a descarga da
apresentação corresse por conta própria, desenvolveria no
inconsciente um afeto que originalmente tinha o caráter prazeroso,
mas que, desde o aparecimento do processo de recalque, se torna
doloroso. O objetivo – bem como o resultado – da supressão é impedir
o desenvolvimento dessa dor. A supressão se estende à ideação
inconsciente, porque a liberação da dor pode emanar dessa ideação.
Aqui é lançado o alicerce para uma suposição muito de�nida acerca
da natureza do desenvolvimento afetivo. É considerada uma atividade
motora ou secundária, cuja chave de inervação está localizada nas
apresentações do inconsciente. Por meio do domínio do pré-
consciente essas apresentações tornam-se, por assim dizer,
estranguladas e inibidas na saída dos impulsos de desenvolvimento da
emoção. O perigo, que se deve ao fato de o pré-consciente deixar de
ocupar a energia, consiste, portanto, no fato de que as excitações
inconscientes liberam um afeto tal que – em consequência da
repressão que ocorreu anteriormente – só pode ser percebido como
dor ou ansiedade.
Esse perigo é liberado durante todo o processo onírico. As
condições que determinam sua realização consistem no fato de que os
recalques ocorreram e que os desejos emocionais reprimidos se
tornarão su�cientemente fortes. Ficam, portanto, inteiramente fora do
domíniopsicológico da estrutura dos sonhos. Não fosse pelo fato de
nosso tema estar conectado à questão da geração da ansiedade por um
único fator – a saber, a libertação do inconsciente durante o sono –, eu
poderia me eximir de entrar na discussão dos sonhos de ansiedade e,
assim, evitar todas as obscuridades que a cercam.
Como já repeti muitas vezes, a teoria da ansiedade pertence à
psicologia das neuroses. Eu diria que a ansiedade nos sonhos é um
problema de ansiedade, e não um problema dos sonhos. Não temos
mais nada a ver com ela depois de termos demonstrado uma vez seu
ponto de contato com o tema do processo onírico. Só me resta uma
coisa a fazer. Como a�rmei que a ansiedade neurótica se origina de
fontes sexuais, posso submeter os sonhos de ansiedade à análise a �m
de demonstrar o material sexual contido em seus pensamentos
oníricos.
Por boas razões, abstenho-me de citar aqui qualquer um dos
numerosos exemplos colocados à minha disposição por pacientes
neuróticos; pre�ro citar sonhos de ansiedade de pessoas jovens.
Pessoalmente, faz décadas que não tenho nenhum sonho de
ansiedade em si, mas recordo-me de um que tive aos meus 7 ou 8 anos
de idade, que submeti à interpretação cerca de trinta anos depois. O
sonho foi muito nítido e me mostrou minha querida mãe adormecida,
com um semblante singularmente calmo, sendo carregada para o
quarto e deitada na cama por duas (ou três) pessoas com bicos de
pássaro. Acordei aos prantos e aos gritos, despertando meus pais. As
�guras muito altas do meu sonho – com bicos de ave e vestidas de
maneira peculiar – eu havia extraído das ilustrações de uma edição da
Bíblia, de Philippson. Acredito que representavam divindades com
cabeças de gavião de altos-relevos de uma tumba egípcia. A análise do
sonho introduziu, também, a reminiscência do �lho de um zelador,
um menino travesso que costumava brincar conosco na campina que
havia na frente da minha casa; eu acrescentaria que o nome dele era
Philip. Creio que foi da boca desse menino que ouvi pela primeira vez
a palavra vulgar que signi�ca relação sexual e é substituída entre as
pessoas instruídas pelo vocábulo latino coitus, mas à qual o sonho
alude distintamente pela seleção das cabeças dos pássaros. Devo ter
suspeitado do signi�cado sexual da palavra pela expressão facial do
meu professor, um homem sábio e versado nas coisas do mundo. As
feições de minha mãe no sonho foram copiadas da �sionomia do meu
avô, que eu vira alguns dias antes de seu falecimento, roncando em
estado de coma. A interpretação da elaboração secundária do sonho
deve ter sido, portanto, a de que minha mãe estava morrendo; o alto-
relevo da tumba também condiz com isso. Acordei com essa ansiedade
e não consegui me acalmar enquanto não acordei meus pais. Lembro-
me de que de repente me acalmei ao �car cara a cara com minha mãe,
como se precisasse da garantia de que ela não estava morta. Mas essa
interpretação secundária do sonho só foi efetuada sob a in�uência da
ansiedade já desenvolvida. Não �quei assustado por sonhar que
minha mãe estava à morte, mas interpretei o sonho dessa maneira na
elaboração pré-consciente porque já estava sob o domínio da
ansiedade. Minha angústia, contudo, poderia ser atribuída, por meio
da repressão, a um desejo obscuro e obviamente sexual, que
encontrara sua expressão satisfatória no conteúdo visual do sonho.
Um homem de 27 anos de idade, gravemente enfermo havia um
ano, relatou que entre seus 11 e 13 anos foi atormentado por sonhos
aterrorizantes: um homem brandindo um machado corria atrás dele;
ele queria escapar, mas sentia-se paralisado e não conseguia sair do
lugar. Isso pode ser considerado um bom exemplo de um sonho de
ansiedade dos mais comuns, e aparentemente irrelevante quanto ao
cunho sexual. Na análise, o sonhador primeiro se deparou com uma
história (cronologicamente posterior ao sonho) que lhe fora contada
por seu tio, de como certa noite havia sido atacado por um indivíduo
de aparência suspeita. Essa ocorrência levou o sonhador a acreditar
que ele próprio já poderia ter ouvido falar de um episódio semelhante
por ocasião do sonho. Em relação ao machado, ele se lembrou de que,
durante esse período de sua vida, certa vez machucara a mão com um
machado enquanto rachava lenha. Isso o levou imediatamente ao seu
relacionamento com o irmão mais novo, a quem costumava maltratar
e derrubar. Em particular, ele se lembrou de um dia em que, calçando
botas, chutou a cabeça do irmão até arrancar sangue, ao que sua mãe
comentou: “Meu medo é que um dia ele o mate”. Enquanto ele
aparentemente ainda estava pensando no tema da violência, de súbito
ocorreu-lhe uma reminiscência de quando ele tinha 9 anos de idade.
Seus pais voltaram tarde da noite e foram para a cama, e ele �ngiu
estar dormindo. Logo depois, ouviu sons de pessoas ofegando e outros
ruídos que lhe pareceram estranhos, além de conseguir entrever a
posição dos pais na cama. Associações posteriores mostraram que ele
havia estabelecido uma analogia entre a relação de seus pais e sua
própria relação com o irmão caçula. Ele classi�cou o que ocorria entre
seu pai e sua mãe na categoria “violência e confronto físico” e, dessa
forma, chegou a uma concepção sádica do ato do coito, como acontece
frequentemente entre as crianças. O fato de que muitas vezes notava
sangue na cama da mãe corroborou sua concepção.
Ouso dizer que a experiência cotidiana con�rma o fato de que a
relação sexual dos adultos parece algo estranho às crianças que a
observam e desperta nelas a sensação de angústia. Expliquei essa
angústia alegando que a compreensão infantil não é capaz de dominar
a ideia de excitação sexual, que provavelmente também é inaceitável
para as crianças porque seus pais estão envolvidos. Assim, para esse
�lho, a excitação se transforma em angústia. Em um período ainda
mais precoce da vida, a emoção sexual dirigida ao progenitor do sexo
oposto não se depara com recalque, mas encontra livre expressão,
como vimos antes.
Quanto aos terrores noturnos com alucinações (pavor nocturnus) que
ocorrem amiúde com crianças, eu daria, sem a menor hesitação, a
mesma explicação. Também aqui estamos sem dúvida lidando com
sentimentos e impulsos sexuais incompreensíveis e repudiados, que,
se investigados, provavelmente mostrariam uma periodicidade
temporal, pois um aumento da libido sexual pode ser produzido
acidentalmente por meio de impressões emocionais, bem como por
meio de processos espontâneos e graduais de desenvolvimento.
Falta-me o material necessário para corroborar essas explicações a
partir de observações. Por outro lado, parece faltar aos pediatras o
ponto de vista que por si só torna compreensível toda essa série de
fenômenos, seja no aspecto somático, seja no aspecto psíquico. Para
ilustrar com um exemplo cômico de que maneira alguém que usa os
antolhos da mitologia médica pode deixar de compreender esses
casos, relatarei um episódio que encontrei na tese de autoria de
Debacker, de 1881, sobre o pavor nocturnus.40 Um menino de 13 anos, de
saúde frágil, começou a se mostrar inquieto e sonhador; seu sono
tornou-se agitado e cerca de uma vez por semana era interrompido
por um agudo ataque de ansiedade com alucinações. A lembrança
desses sonhos era invariavelmente muito nítida. Assim, o menino
relatou que o diabo gritava com ele: “Agora pegamos você! Agora pegamos
você!”, e a isso se seguia um forte odor de enxofre; o fogo queimava a
pele dele. Atormentado por esses sonhos, ele despertava aterrorizado
e sexualmente excitado. A princípio ele não conseguia gritar; então
sua voz retornava e ele dizia com todas as letras: “Não, não, eu não. Por
quê? Ora, eu não �z nada!” ou “Por favor, não! Eu nunca mais farei
isso”. Vez por outra, ele dizia também: “O Albert não fez isso”. Depois
desses episódios, o menino evitava despir-se, porque, segundo ele, o
fogo só o atacava quando estava despido. Em meio a esses pesadelos
que ameaçavam sua saúde, ele foi despachado para morar no campo,
onde se recuperou em um período de dezoito meses; porém, quando
já tinha 15 anos, confessou:“Je n’osais pas l’avouer, mais j’éprouvais
continuellement des picotements et des surexcitations aus parties; à la �n,
cela m’énervait tant que plusieurs fois j’ai pensé me jeter par la fenêtre du
dortoir” [“Eu não ousava confessá-lo, mas experimentava
continuamente um formigamento e uma hiperexcitação nas partes; no
�m, isso me enervava tanto que diversas vezes pensei em me jogar pela
janela do dormitório”].
Certamente, não é difícil suspeitar de que: 1) o menino havia
praticado masturbação em anos anteriores, o que ele provavelmente
negava, e deve ter sido ameaçado com punição severa por suas
transgressões (sua con�ssão: Je ne le ferai plus [“Eu nunca mais farei
isso”]; sua negação: Albert n’a jamais fait ça [“Albert não fez isso”]; 2) sob
a pressão da chegada da puberdade, a tentação do autoabuso, por
meio das cócegas nos órgãos genitais, foi novamente despertada; 3)
dessa vez, porém, surgiu nele uma luta de repressão, suprimindo a
libido e transformando-a em medo, que posteriormente assumiu a
forma das punições com que no passado havia sido ameaçado.
Vejamos agora, no entanto, as conclusões tiradas pelo nosso autor.
Essa observação mostra:
1. Que a in�uência da puberdade pode ocasionar, em um menino
de saúde delicada, um estado de extrema fraqueza e levar a um
quadro de anemia cerebral bastante acentuada;
2. Essa anemia cerebral produz uma transformação de caráter,
alucinações demonomaníacas e violentíssimos estados de
ansiedade noturna, talvez também diurna;
3. A demonomania e as autorrecriminações da época podem ser
atribuídas às in�uências da educação religiosa que o paciente
recebeu quando criança;
4. Todas as manifestações desapareceram em consequência de uma
longa permanência no campo, dos exercícios físicos e do retorno
da força física após o término do período da puberdade;
5. Uma in�uência predisponente para a origem da condição
cerebral do menino pode ser imputada à hereditariedade e ao
estado si�lítico crônico do pai.
Nas observações �nais, o autor a�rma: “Nous avons fait entrer cette
observation dans le cadre des délires apyrétiques d’inanition, car c’est à
l’ischémie cérébrale que nous rattachons cet état particulier” [“Incluímos
esta observação no quadro dos delírios apiréticos de inanição, pois é à
isquemia cerebral que atribuímos esse estado particular”].
XXIII O sonho é um despertar que começa.
A o me aventurar na tentativa de penetrar mais a fundo na
psicologia dos processos oníricos, empreendi uma tarefa árdua,
da qual, na verdade, meu poder de descrição não está, nem de longe, à
altura. Reproduzir na descrição, por meio de uma sucessão de
palavras, a simultaneidade de uma cadeia de eventos tão complexa e,
ao fazê-lo, parecer imparcial ao longo da exposição de cada argumento
vai muito além de minhas forças. Devo agora apontar o fato de que,
em minha descrição da psicologia dos sonhos, não fui capaz de
acompanhar o desenvolvimento histórico de minhas teorias. Cheguei
aos pontos de vista para a minha concepção do sonho por meio de
investigações anteriores na psicologia das neuroses, às quais não devo
me referir aqui, mas que sou repetidamente forçado a mencionar,
embora preferisse prosseguir na direção oposta e, a partir do sonho,
estabelecer uma conexão com a psicologia das neuroses. Tenho plena
ciência de todos os inconvenientes que essa di�culdade acarreta para
o leitor, mas não conheço nenhuma maneira de evitá-los.
Uma vez que estou insatisfeito com esse estado de coisas, �co feliz
de me debruçar sobre outro ponto de vista que parece aumentar o
valor dos meus esforços. Como foi demonstrado na introdução do
primeiro capítulo, vi-me diante de um tema acerca do qual os juízos
das autoridades se caracterizavam pelas mais agudas contradições.
Após a nossa explanação dos problemas oníricos, encontramos espaço
para a maioria dessas contradições. Fomos forçados, no entanto, a
refutar categoricamente dois desses pontos de vista, a saber, que o
sonho é algo desprovido de sentido e um processo somático. Fora esses
casos, tivemos de aceitar todas as opiniões contraditórias em um ou
outro ponto do complexo argumento e pudemos demonstrar que
haviam descoberto algo que era correto. O fato de que os sonhos dão
continuidade aos impulsos e interesses do estado de vigília foi
inteiramente con�rmado pela descoberta dos pensamentos latentes
do sonho. Esses pensamentos dizem respeito apenas a coisas que
parecem importantes e de grande interesse para nós. Os sonhos nunca
se ocupam com insigni�câncias e bagatelas. Mas também
concordamos com a visão contrária de que os sonhos reúnem os
resíduos insigni�cantes do dia e que, somente depois de terem se
subtraído, até certo ponto, da atividade de vigília é que podem se
apoderar de um evento importante do dia. Constatamos que isso é
válido para o conteúdo dos sonhos, que dá ao pensamento onírico sua
expressão alterada por meio da des�guração. A�rmamos que, pela
natureza do mecanismo de associação, o processo onírico apodera-se
mais facilmente de material recente ou insigni�cante que ainda não
foi requisitado pela atividade mental de vigília; e, por meio da censura,
transfere a intensidade psíquica do material importante, mas também
desagradável, para o material insigni�cante. A hipermnésia do sonho
e o recurso ao material infantil tornaram-se os principais suportes da
nossa teoria. Em nossa teoria do sonho, atribuímos aos desejos
originados na infância o papel de força propulsora indispensável para
a formação dos sonhos. Naturalmente, não poderíamos pensar em
duvidar do signi�cado – demonstrado de forma experimental – dos
estímulos sensoriais objetivos durante o sono; mas mostramos que
esse material tem com os sonhos de desejo a mesma relação que os
resquícios de pensamento deixados pela atividade de vigília. Não
havia necessidade de contestar o fato de que os sonhos interpretam os
estímulos sensoriais objetivos, tal como fazem as ilusões; mas
fornecemos a causa para essa interpretação, motivo que não havia sido
determinado pelas autoridades. A interpretação segue de maneira que
o objeto percebido se torna inofensivo e incapaz de perturbar o sono e
�ca disponível para �ns da realização do desejo. Embora não
admitamos como fontes especiais do sonho o estado subjetivo de
excitação dos órgãos sensoriais durante o sono, o que parece ter sido
demonstrado por Trumbull Ladd41, somos, no entanto, capazes de
explicar essa excitação por meio da revivi�cação regressiva de
memórias ativas por trás do sonho. Uma modesta parte de nossa
concepção também foi atribuída às sensações orgânicas internas que
costumam ser consideradas o ponto fulcral na explicação dos sonhos.
Essas sensações – de cair, de voar ou de estar inibido – constituem um
material pronto para ser usado a qualquer momento pelo trabalho do
sonho, sempre que necessário, para expressar o pensamento onírico.
Parece verdade para a percepção via consciência do conteúdo do
sonho pré-preparado que o processo onírico é rápido e instantâneo; as
partes anteriores do processo onírico provavelmente seguem um curso
lento e oscilante. Solucionamos o enigma do conteúdo onírico
superabundante de material comprimido no mais breve lapso de
tempo, explicando que isso se deve à apropriação de estruturas quase
totalmente formadas da vida psíquica. Julgamos que o fato de os
sonhos serem des�gurados e distorcidos pela memória é correto, mas
não preocupante, pois essa é apenas a última operação manifesta no
trabalho de des�guração que esteve ativo desde o início do trabalho do
sonho.
Na acirrada e aparentemente inconciliável controvérsia sobre se a
vida psíquica dorme à noite ou consegue fazer o mesmo uso de todas
as suas capacidades tal como durante o dia, constatamos que os dois
lados têm razão – concordamos com ambos, embora não plenamente
com nenhum deles. Encontramos provas de que os pensamentos
oníricos representam uma atividade intelectual bastante complexa e
empregam quase todos os recursos fornecidos pelo aparelho psíquico.
Ainda assim, não se pode negar que esses pensamentos oníricos seoriginaram durante o dia, e é imperativo presumir que existe na vida
psíquica um estado de sono. Assim, até mesmo a teoria do sono
parcial entrou em jogo; mas as características do estado de sono não
foram encontradas na desintegração das conexões psíquicas, mas na
cessação do sistema psíquico que domina o dia, decorrente do seu
desejo de dormir. Retrair-se do mundo exterior conserva a sua
importância também para a nossa concepção; embora não seja o único
fator, ainda assim ajuda a regressão a tornar possível a representação
do sonho. É incontestável que devemos rejeitar o direcionamento
voluntário do �uxo de representações, mas a vida psíquica não se
torna desprovida de propósito, pois vimos que, após o abandono da
representação �nal desejada, as indesejadas assumem o comando. Não
apenas reconhecemos as frouxas conexões associativas dos sonhos,
mas colocamos sob seu controle um território muito maior do que se
poderia supor. Descobrimos, no entanto, que essas conexões frouxas
são apenas um falso substituto de outras, que são corretas e sensatas.
Na verdade, também consideramos os sonhos absurdos, mas pudemos
aprender por meio de exemplos o quanto eles são realmente sábios
quando simulam o absurdo. Não negamos nenhuma das funções
atribuídas aos sonhos. O fato de que eles aliviam a mente como uma
válvula de segurança – e que, de acordo com a a�rmação de Robert, a
representação nos sonhos torna inócuos todos os tipos de material
prejudicial – não apenas coincide exatamente com a nossa teoria da
dupla realização dos desejos nos sonhos, mas também nas próprias
palavras de Robert, torna-se ainda mais compreensível para nós do
que para o próprio Robert. A plena liberdade da psique no jogo de
suas faculdades encontra expressão em nós na não interferência no
sonho por parte da atividade pré-consciente. O “retorno da mente, nos
sonhos, ao estado embrionário da vida psíquica” e a observação de
Havelock Ellis42 – “um mundo arcaico de vastas emoções e
pensamentos imperfeitos” – parecem-nos felizes antecipações de
nossas próprias deduções no sentido de que modos primitivos de
atividade que são suprimidos durante o dia participam da formação
dos sonhos; para nós, assim como para Delage43, o material suprimido
torna-se a força propulsora dos sonhos.
Reconhecemos plenamente o relevante papel que Scherner atribui
à fantasia onírica, e até mesmo às interpretações desse autor; mas
fomos obrigados, por assim dizer, a conduzi-las a outro departamento
do problema. Não é o sonho que produz a fantasia, mas a fantasia
inconsciente que desempenha a função principal na formação dos
pensamentos oníricos. Estamos em dívida de gratidão com Scherner
por sua descoberta da origem dos pensamentos oníricos, mas quase
tudo o que ele atribui ao trabalho do sonho é atribuível à atividade do
inconsciente, que atua durante o dia e fornece estímulos não apenas
para sonhos, mas também para sintomas neuróticos. Tivemos de
separar o trabalho do sonho dessa atividade por ser algo totalmente
diferente e muito mais restrito. Por �m, não abandonamos de forma
alguma a relação entre o sonho e os distúrbios mentais, mas, pelo
contrário, demos-lhe uma base mais sólida.
Assim, graças à coesão propiciada pelo novo material da nossa
teoria como que por uma unidade superior, constatamos que se
enquadram na nossa estrutura as conclusões mais variadas e mais
contraditórias das autoridades; algumas delas têm disposições
diferentes, e apenas algumas poucas são rejeitadas por completo. Mas
a nossa própria estrutura ainda está inacabada. Pois, desconsiderando
as muitas obscuridades que necessariamente encontramos no nosso
avanço ao abrir caminho trevas da psicologia adentro, ao que parece
somos agora perturbados por uma nova contradição. Por um lado,
permitimos que os pensamentos oníricos procedam de operações
mentais perfeitamente normais, ao passo que, por outro lado,
descobrimos entre os pensamentos oníricos uma série de processos
mentais inteiramente anormais que se estendem em igual medida aos
conteúdos oníricos. Estes, por conseguinte, repetimos na interpretação
dos sonhos. Tudo o que denominamos “trabalho do sonho” parece tão
distante dos processos psíquicos por nós reconhecidos como corretos
que os julgamentos mais severos dos autores quanto à ín�ma atividade
psíquica dos sonhos nos parecem bem fundamentados.
Talvez somente por meio de um avanço ainda maior seja possível
alcançarmos a elucidação e os aperfeiçoamentos. Escolherei para
análise uma das conjunturas que levam à formação dos sonhos.
Aprendemos que os sonhos substituem uma série de pensamentos
derivados da vida cotidiana que são formados de maneira
perfeitamente lógica. Não podemos, portanto, duvidar de que esses
pensamentos se originam da nossa vida mental normal. Todas as
qualidades que estimamos em nossas operações mentais, e que as
distinguem como atividades complexas de ordem superior,
encontramos repetidas nos pensamentos oníricos. Não há, contudo,
necessidade de presumir que esse trabalho mental seja realizado
durante o sono, pois isso prejudicaria substancialmente a concepção
do estado psíquico de sono a qual adotamos até aqui. É bem possível
que esses pensamentos tenham surgido durante o dia e, passando
despercebidos por nossa consciência desde a sua formação, podem ter
continuado a se desenvolver até �carem completos ao iniciar-se o
sono. Se esse estado de coisas nos permite concluir algo, é que no
máximo serve de prova de que as mais complexas operações do
pensamento são possíveis sem a cooperação da consciência, o que de
qualquer modo já aprendemos por meio de toda psicanálise de
pessoas que sofrem de histeria ou obsessões. Esses pensamentos
oníricos certamente não são em si mesmos incapazes de consciência;
se eles não se tornaram conscientes para nós durante o dia, é possível
que tenha havido diversas razões para isso. O estado de tomada de
consciência depende do exercício de determinada função psíquica, a
saber, a atenção, que parece estar disponível apenas em uma
quantidade de�nida, que pode ter sido retirada da cadeia de
pensamentos em questão para outros objetivos. Outra maneira pela
qual é possível manter esses �uxos mentais afastados da consciência é
a seguinte: nossa re�exão consciente nos ensina que, ao exercermos a
atenção, seguimos um curso de�nido. Mas se esse caminho nos leva a
encontrar uma ideia que não resiste à crítica, nós o interrompemos e
deixamos de lhe dirigir a nossa atenção. Ora, aparentemente o �uxo
de pensamento assim iniciado e abandonado pode continuar a se
desenrolar sem reaver a atenção, a menos que atinja um ponto de
intensidade especialmente acentuada que exija o retorno da atenção.
Uma rejeição inicial, provocada talvez conscientemente pelo
julgamento com base na incorreção ou inadequação para o propósito
real do ato mental, pode, portanto, explicar o fato de que um processo
mental continua até o início do sono, sem ser percebido pela
consciência.
Recapitulando: a esse tipo de �uxo de pensamento chamamos de
“pré-consciente”; acreditamos que seja perfeitamente correto e que
pode muito bem ter sido uma cadeia de pensamentos negligenciada
ou interrompida e suprimida. A�rmemos também, com franqueza, de
que maneira concebemos essa cadeia de representações: acreditamos
que certa quantidade de excitação, a que chamamos de “energia de
ocupação”, é deslocada de uma apresentação �nal ao longo das vias
associativas selecionadas por essa apresentação �nal. Uma cadeia de
pensamentos “negligenciada” é a que não recebeu essa ocupação, e
uma cadeia de pensamentos “reprimida” ou “rejeitada” é aquela da
qual essa ocupação foi retirada; portanto, ambas são deixadas às suas
próprias emoções. O �uxo �nal de pensamentos abastecido de energia
é, sob certas condições, capaz de atrair para si a atenção da
consciência, por meio da qual recebe, então, um “excedente de
energia”. Seremos obrigados, um pouco mais adiante, a elucidar nossa
suposição relativa à natureza e à atividade da consciência.
Uma linha de pensamento assim incitada no pré-conscientepode
desaparecer espontaneamente ou continuar. Concebemos o primeiro
resultado da seguinte forma: a cadeia de pensamentos difunde sua
energia por todos os caminhos de associação que dela emanam e
lança toda a cadeia de ideias em um estado de excitação que, depois
de durar algum tempo, diminui por meio da transformação da
excitação que exige uma saída para a energia adormecida.XXIV Se esse
primeiro resultado for provocado, o processo não terá mais signi�cado
para a formação do sonho. Mas outras representações com �nalidade
estão à espreita no nosso pré-consciente, originadas nas fontes do
nosso inconsciente e nos desejos sempre ativos. Estes podem tomar
posse das excitações no círculo de pensamento que foi deixado por
conta própria, estabelecer uma conexão entre esse círculo e o desejo
inconsciente e transferir para ele a energia inerente ao desejo
inconsciente. Daí em diante, a cadeia de pensamentos negligenciada
ou suprimida estará em condições de persistir, embora esse reforço
não a ajude a obter acesso à consciência. Podemos dizer que a cadeia
de pensamentos, até então pré-consciente, foi “arrastada” para o
inconsciente. Outras conjunturas para a formação do sonho surgiriam
se a cadeia de pensamentos pré-consciente estivesse desde o início
ligada ao desejo inconsciente e, por essa razão, fosse rejeitada pela
ocupação �nal predominante; ou se um desejo inconsciente fosse
ativado por outras razões – possivelmente somáticas – e por si só
buscasse uma transferência para os resíduos psíquicos não ocupados
pelo pré-consciente. Todos esses três casos �nalmente se combinam
em um único resultado, de modo que se estabelece no pré-consciente
uma cadeia de pensamentos que, tendo sido abandonada pela
ocupação pré-consciente, recebe uma ocupação de energia do desejo
inconsciente. A cadeia de pensamentos é, daí em diante, submetida a
uma série de transformações que já não reconhecemos como
processos psíquicos normais e que nos dão um resultado
desconcertante, a saber, uma formação psicopatológica. Vamos
enfatizar e agrupar esses processos.
1. As intensidades das ideias individuais tornam-se passíveis de
descarga na sua totalidade e, passando de uma concepção a outra,
formam representações únicas dotadas de acentuada intensidade.
Por meio da recorrência desse processo, a intensidade de toda
uma série de ideias pode, em última análise, ser reunida em um
único elemento de representação. Trata-se do princípio da
compressão ou condensação. É a condensação a principal
responsável pela estranha impressão dos sonhos, pois não
conhecemos nada que seja análogo a ela na vida psíquica normal
e acessível à consciência. Encontramos aqui, também,
representações que têm grande signi�cado psíquico como
junções ou resultados �nais de cadeias inteiras de pensamento;
mas essa validade não se manifesta em nenhum caráter
su�cientemente visível para a percepção interna; portanto, o que
foi apresentado nele não se torna de forma alguma mais
intensivo. No processo de condensação, toda a conexão psíquica
se transforma em uma intensi�cação do conteúdo da
representação. É o mesmo que acontece quando, na preparação
de um livro para publicação, faço com que as palavras às quais
quero dar ênfase para a melhor compreensão do texto sejam
impressas com espaçamento especial ou letras em negrito. Na
fala, a mesma palavra seria pronunciada em voz alta, com
deliberado vigor. A primeira comparação nos leva imediatamente
a um exemplo retirado do capítulo sobre “o trabalho do sonho” (a
trimetilamina no sonho da injeção de minha paciente Irma). Os
historiadores da arte chamam a atenção para o fato de que as
esculturas históricas mais antigas seguem um princípio
semelhante ao expressar a posição das pessoas representadas
pelo tamanho da estátua. O rei é duas ou três vezes maior que sua
comitiva ou o inimigo derrotado. Porém, uma obra de arte do
período romano utiliza meios mais sutis para atingir o mesmo
propósito. A �gura do imperador é colocada no centro em postura
�rmemente ereta; há especial cuidado com a modelagem
adequada de sua �gura; seus inimigos são vistos encolhidos e
encurvados a seus pés; mas ele não é mais representado como um
gigante entre os anões. Contudo, a reverência do subordinado
diante de seu superior nos dias de hoje é apenas um eco desse
antigo princípio de representação. A direção tomada pelas
condensações do sonho é prescrita, por um lado, pelas
verdadeiras relações pré-conscientes dos pensamentos oníricos e,
por outro, pela atração dos resíduos visuais no inconsciente. O
sucesso do trabalho de condensação produz as intensidades
necessárias para a penetração nos sistemas de percepção.
2. Por meio da livre transferibilidade das intensidades e a serviço da
condensação, formam-se apresentações intermediárias – acordos
de conciliação, por assim dizer – (ver os numerosos exemplos que
forneci). Da mesma forma, isso é algo inaudito no curso normal
de apresentação, em que se trata acima de tudo de uma questão
de seleção e retenção do elemento de apresentação “adequado”.
Por outro lado, as formações compostas e os acordos de
conciliação ocorrem com extraordinária frequência quando
tentamos encontrar a expressão linguística para pensamentos
pré-conscientes na fala; estes são considerados “lapsos de
linguagem”.
3. As apresentações que transferem suas intensidades umas para as
outras mantêm entre si as relações mais frouxas; o que as vincula
são formas de associação rejeitadas por nosso pensamento sério e
relegadas à produção do efeito jocoso. Entre elas, encontramos as
associações sonoras (homofonia) e alguns tipos de consonância.
4. Os pensamentos contraditórios não procuram eliminar-se
mutuamente, mas permanecem lado a lado. Muitas vezes, unem-
se para produzir condensação como se não existisse contradição,
ou formam acordos de conciliação pelos quais nunca deveríamos
perdoar os nossos pensamentos, mas que, com frequência,
aprovamos nas nossas ações.
Esses são alguns dos processos anormais mais evidentes aos quais
os pensamentos previamente formados de modo racional são
submetidos no decorrer do trabalho do sonho. Como principal
característica desses processos, reconhecemos a grande importância
atribuída ao fato de tornar a energia de ocupação móvel e passível de
descarga; o conteúdo e o signi�cado real dos elementos psíquicos, aos
quais essas energias aderem, passam a ser uma questão de
importância secundária. Seria possível pensar que a condensação e a
formação do acordo de conciliação são efetuadas apenas a serviço da
regressão, quando surge a ocasião para transformar pensamentos em
imagens. Mas a análise e – de maneira ainda mais nítida – a síntese de
sonhos que carecem de regressão a imagens (por exemplo, o sonho
“Autodidasker – conversa com o conselheiro N.”) mostram os mesmos
processos de deslocamento e condensação que os demais.
Portanto, não podemos nos furtar a reconhecer que tipos de
processos psíquicos essencialmente diferentes participam da
formação dos sonhos; um deles produz pensamentos oníricos
perfeitamente corretos, equivalentes aos pensamentos normais, ao
passo que o outro aborda essas ideias de maneira bastante
desconcertante e incorreta. Este último processo nós já distinguimos
como o trabalho do sonho propriamente dito. Que elucidações temos
agora a apresentar em relação a esse processo psíquico?
Não seríamos capazes de responder aqui a essa indagação se não
tivéssemos penetrado consideravelmente na psicologia das neuroses,
sobretudo da histeria, pois, a partir disso, aprendemos que os mesmos
processos psíquicos incorretos – assim como outros que não
enumeramos – regem a produção dos sintomas histéricos. Também na
histeria encontramos de imediato uma série de pensamentos
perfeitamente corretos, equivalentes aos nossos pensamentos
conscientes, de cuja existência, contudo, nessa forma nada podemos
aprender, e só conseguimos reconstruí-los a posteriori. Se de alguma
força eles abriram caminho à força até a nossa percepção,
descobrimos, pela análise do sintoma produzido, que esses
pensamentos normaisforam submetidos a um tratamento anormal e
foram transformados no sintoma por meio da condensação e da formação de
acordos de conciliação, através de associações super�ciais, sob a cobertura de
contradições e, por �m, ao longo da via da regressão. Em vista da completa
identidade encontrada entre as peculiaridades do trabalho do sonho e
da atividade psíquica que deságua nos sintomas psiconeuróticos,
devemos nos julgar autorizados a transferir para o sonho as
conclusões que a histeria nos impõe. Da teoria da histeria, tomamos
emprestada a proposição de que a elaboração psíquica anormal de
uma cadeia de pensamento normal ocorre somente quando esta
última for utilizada para a transferência de um desejo inconsciente
que remonta à vida infantil e está em estado de recalque. De acordo
com essa tese, construímos a teoria do sonho com base na suposição
de que os desejos oníricos atuantes invariavelmente se originam no
inconsciente, pressuposto que, como nós mesmos estamos dispostos a
admitir, não pode ser demonstrado de maneira universal, embora
tampouco possa ser refutado. Porém, para explicar o verdadeiro
signi�cado do termo “recalque”, que empregamos tão livremente,
seremos obrigados a fazer mais alguns acréscimos à nossa construção
psicológica. Já elaboramos aqui a �cção de um aparelho psíquico
primitivo, cujo trabalho é regulado pelos esforços para evitar a
acumulação de excitação e, tanto quanto possível, para se manter livre
dela. Por essa razão, ele foi construído segundo o esquema de um
aparelho re�exo; a motilidade, originalmente o caminho para
alterações corporais internas, constituía uma via de descarga à
disposição desse aparelho. Em seguida, discutimos os resultados
psíquicos de um sentimento de grati�cação e a isso pudemos, ao
mesmo tempo, acrescentar a segunda hipótese, a saber: esse acúmulo
de excitação – seguindo certas modalidades que não nos dizem
respeito – é vivenciado como dor e desprazer e aciona o aparelho para
repetir um sentimento de satisfação em que o decréscimo da excitação
é sentido como prazer. A essa corrente que no aparelho emana da dor
e busca o prazer, chamamos de “desejo”. A�rmamos que nada além de
um desejo é capaz de pôr o aparelho em movimento, e que a descarga
de excitação no aparelho é regulada automaticamente pela percepção
do prazer e da dor. O primeiro desejo deve ter sido uma ocupação
alucinatória da memória em busca de grati�cação. Mas essa
alucinação, a menos que fosse mantida até a exaustão, revelou-se
insu�ciente para proporcionar a cessação do desejo e, por
conseguinte, de assegurar o prazer ligado à satisfação.
Destarte, foi necessária uma segunda atividade – em nossa
terminologia, a atividade de um segundo sistema – que não permitisse
à ocupação da memória avançar até a percepção e, a partir daí,
restringir as forças psíquicas, mas, sim, que desviasse a excitação –
oriunda do estímulo do anseio ardente – por um caminho tortuoso e
indireto por meio da motilidade espontânea, que, em última análise,
poderia alterar o mundo exterior de modo a permitir que ocorresse
uma percepção real do objeto de grati�cação. Até aqui, elaboramos o
esquema do aparelho psíquico; esses dois sistemas são o germe do
inconsciente e pré-consciente, que incluímos no aparelho plenamente
desenvolvido.
Para estar em condições de mudar com sucesso o mundo exterior
por meio da motilidade, é necessário o acúmulo de uma grande soma
de experiências nos sistemas mnêmicos, bem como uma �xação
múltipla das relações que são evocadas nesse material de memória por
diferentes apresentações com �nalidade. Prosseguimos agora com
nossa suposição. A atividade múltipla do segundo sistema, que se
alterna entre enviar e retirar energia provisoriamente, deve, por um
lado, ter pleno domínio sobre todo o material da memória, mas, em
contrapartida, seria um gasto supér�uo enviar para os caminhos
mentais individuais grandes quantidades de energia, que escoariam
sem nenhum propósito útil, diminuindo a quantidade disponível para
transformar o mundo exterior. Em nome da conveniência, postulo,
então, que o segundo sistema consegue manter a maior parte da
energia de ocupação em um estado dormente e usar apenas uma
pequena porção para �ns de deslocamento. Os mecanismos desses
processos me são totalmente desconhecidos. Qualquer um que deseje
seguir essas ideias deve tentar procurar as analogias físicas e preparar
o caminho para uma demonstração do processo de movimento na
estimulação do neurônio. Insisto apenas na ideia de que a atividade do
primeiro Sistema ψ (Psi) é direcionada para o livre escoamento (para o
exterior) das quantidades de excitação, e que o segundo sistema, por
meio das energias que dele emanam, provoca uma inibição desse
escoamento, ou seja, produz uma transformação em energia
adormecida, provavelmente aumentando seu nível. Presumo, portanto,
que sob o controle do segundo sistema, em comparação com o
primeiro, a descarga da excitação está vinculada a condições
mecânicas inteiramente diferentes. Depois que termina seu trabalho
mental experimental, o segundo sistema elimina a inibição e o
represamento das excitações e permite que estas �uam ao sabor da
motilidade. Uma interessante cadeia de pensamentos apresenta-se
agora, se considerarmos as relações dessa inibição da descarga pelo
segundo sistema com a regulação por meio do princípio da dor.
Procuremos a antítese do sentimento primário de satisfação, a saber, o
sentimento objetivo de medo. Um estímulo perceptivo atua sobre o
aparelho primitivo, tornando-se fonte de uma emoção dolorosa. A isso
se seguirão, então, manifestações motoras irregulares e
descoordenadas, até que uma faz com que o aparelho se retire da
percepção e, ao mesmo tempo, da dor, mas assim que a percepção
reaparece, essa manifestação se repete imediatamente (talvez como
um movimento de fuga) até a percepção se dissipar de novo. Mas aqui
não restará mais nenhuma tendência para ocupar a percepção da
fonte da dor sob a forma de uma alucinação ou de qualquer outra
forma. Pelo contrário, haverá uma tendência no aparelho primário de
abandonar o quadro de memória dolorosa assim que for de alguma
forma despertado, pois o transbordamento da sua excitação
certamente produziria (ou, em termos mais precisos, começaria a
produzir) dor. O desvio para se afastar da lembrança, que nada mais é
do que uma repetição da fuga anterior para longe da percepção, é
facilitado também pelo fato de que, diferentemente da percepção, a
memória não tem qualidade su�ciente para excitar a consciência e,
assim, atrair para si nova energia.
Esse desvio fácil e regular do processo psíquico para longe da antiga
recordação dolorosa apresenta-nos o modelo e o primeiro protótipo da
repressão psíquica. Como se sabe, uma grande parcela desse desvio para
longe do que é doloroso, semelhante ao comportamento do avestruz,
pode ser facilmente demonstrada mesmo na vida psíquica normal dos
adultos. Em virtude do princípio da dor, o primeiro sistema é,
portanto, totalmente incapaz de introduzir qualquer coisa
desagradável nas associações mentais. O sistema não pode fazer nada
além de desejar. Se esse estado de coisas perdurasse, a atividade
mental do segundo sistema, que deveria ter à sua disposição todas as
memórias armazenadas pelas experiências, seria obstruída. Mas agora
estão abertos dois caminhos: o trabalho do segundo sistema ou se
liberta completamente do princípio da dor e segue seu caminho, sem
prestar atenção à reminiscência dolorosa, ou consegue ocupar a
memória dolorosa de uma maneira que impede a liberação da dor.
Podemos descartar a primeira possibilidade, pois o princípio da dor se
manifesta, também, como regulador da descarga emocional do
segundo sistema. Somos, portanto, direcionados para a segunda
possibilidade, a saber que esse sistema ocupa uma reminiscência de
modo a inibir a sua descarga e, portanto, também a inibir a descarga
comparável a uma inervação motora para o desenvolvimento da dor.
Assim, a partir de duas direções possíveis, somos levados à hipótese de
que a ocupação por meio do segundosistema é ao mesmo tempo uma
inibição da descarga emocional, ou seja, considerando-se o princípio
da dor e o princípio do menor dispêndio de inervação. Contudo,
vamos nos ater ao fato – esta é a chave da teoria do recalque – de que o
segundo sistema só é capaz de ocupar uma ideia quando está em
condições de impedir o desenvolvimento da dor que dela emana.
Tudo o que se retira dessa inibição também permanece inacessível ao
segundo sistema e logo será abandonado devido ao princípio da dor. A
inibição da dor, contudo, não precisa ser completa; deve ter permissão
para começar, pois indica ao segundo sistema a natureza da memória
e possivelmente a sua adaptação defeituosa para o propósito que a
mente procura. Ao processo psíquico admitido apenas pelo primeiro
sistema, chamarei de “processo primário”; e, ao que resulta da inibição
do segundo sistema, de “processo secundário”. Recorrendo a outro
ponto, mostro com que propósito o segundo sistema é obrigado a
corrigir o processo primário. O processo primário busca uma descarga
da excitação a �m de estabelecer uma “identidade perceptiva” com a
soma da excitação assim reunida; já o processo secundário abandonou
essa intenção e assumiu, em vez disso, a tarefa de criar uma
“identidade de pensamento”. Todo ato de pensar é apenas um
caminho tortuoso e indireto que vai da memória da satisfação tomada
como uma representação com meta até a ocupação idêntica da mesma
lembrança, que deve ser novamente alcançada no caminho das
experiências motoras. O estado de pensamento deve se interessar
pelos caminhos de ligação entre as representações sem se deixar
enganar pela intensidade delas. Mas é óbvio que as condensações e as
formações intermediárias ou decorrentes de acordos de conciliação
que ocorrem nas apresentações impedem a obtenção dessa identidade
�nal; ao substituir uma ideia por outra, desviam-se do caminho que de
outra forma teria sido continuado a partir da ideia original. Esses
processos são, portanto, meticulosamente evitados no pensamento
secundário. Também não é difícil compreender que o princípio da dor
impede o progresso do �uxo mental na sua busca da identidade de
pensamento, embora, na verdade, ofereça a ele os pontos de partida
mais importantes. Portanto, a tendência do processo de pensamento
deve ser a de se livrar cada vez mais da regulação exclusiva pelo
princípio da dor e, por meio do trabalho da mente, restringir o
desenvolvimento afetivo ao mínimo necessário para que atue como
sinal. Esse re�namento da atividade deve ser alcançado por meio de
uma recente ocupação excessiva de energia promovida pela
consciência. Mas sabemos que raras vezes esse re�namento é
alcançado com êxito completo, mesmo na vida psíquica mais normal,
e que os nossos pensamentos permanecem sempre acessíveis à
falsi�cação via interferência do princípio da dor. Essa, contudo, não é
a brecha na e�ciência funcional do nosso aparelho psíquico, por meio
da qual os pensamentos que formam o material do trabalho mental
secundário são capazes de abrir caminho para o processo psíquico
primário – com cuja fórmula podemos agora descrever o trabalho que
leva ao sonho e aos sintomas histéricos. Esse caso de insu�ciência
resulta da união dos dois fatores derivados da história da nossa
evolução; um deles pertence exclusivamente ao aparelho psíquico e
exerce in�uência determinante na relação entre os dois sistemas, ao
passo que o outro opera de forma variável e introduz na vida psíquica
forças motrizes de origem orgânica. Ambos têm origem na vida
infantil e resultam da transformação pela qual passou o nosso
organismo psíquico e somático desde a infância. Quando denominei
um dos processos psíquicos do aparelho psíquico de “processo
primário”, �z isso não apenas considerando a ordem de precedência e
capacidade, mas também indicando na nomenclatura as relações
temporais. Até onde nosso conhecimento permite saber, não existe
nenhum aparelho psíquico que detenha apenas o processo primário,
que, nessa medida, é uma �cção teórica; mas muita coisa se baseia no
fato de que os processos primários estão presentes no aparelho desde
o início, ao passo que somente no decorrer da vida os processos
secundários se desenvolvem gradualmente, inibindo os primários e a
eles se sobrepondo, e talvez apenas no auge da vida cheguem a
adquirir completa supremacia sobre eles. Como consequência desse
aparecimento tardio dos processos secundários, a essência do nosso
ser, constituída por sentimentos de desejo inconscientes, não pode ser
apreendida, tampouco inibida pelo pré-consciente, cujo papel se
restringe de uma vez por todas a direcionar os caminhos mais
adequados para os sentimentos de desejo originados no inconsciente.
Esses desejos inconscientes estabelecem para todos os esforços
psíquicos subsequentes uma força compulsiva à qual eles têm de se
submeter e de cujo curso devem se esforçar, se possível, para se
desviar, direcionando-se a objetivos mais elevados. Também como
resultado desse atraso da ocupação do pré-consciente, uma larga
esfera do material da memória permanece inacessível.
Entre esses sentimentos de desejo indestrutíveis e desobstruídos,
originados da vida infantil, há também alguns cuja realização seria
uma contradição com a apresentação �nal do pensamento secundário.
A realização desses desejos não produziria mais um afeto de prazer,
mas, sim, de dor; e é justamente essa transformação do afeto que
constitui a natureza daquilo que chamamos de “repressão” ou
“recalque”, na qual reconhecemos o primeiro passo infantil de proferir
um juízo adverso ou de rejeitar por meio da razão. Investigar de que
maneira e devido a quais forças motrizes essa transformação pode ser
produzida constitui o problema da repressão, da qual aqui precisamos
tratar apenas de modo super�cial. Será su�ciente observar que essa
transformação de afeto ocorre no decurso do desenvolvimento (pode-
se pensar no aparecimento, na vida infantil, da repulsa, que
originalmente estava ausente) e que ela está relacionada à atividade do
sistema secundário. As lembranças das quais o desejo inconsciente
provoca a descarga emocional nunca foram acessíveis ao pré-
consciente, e por essa razão a sua descarga emocional não pode ser
inibida. É precisamente por causa desse desenvolvimento afetivo que
as ideias ainda não são acessíveis aos pensamentos pré-conscientes,
para os quais transferiram sua força de desejo. Pelo contrário, o
princípio da dor entra em ação e leva o pré-consciente a se desviar
desses pensamentos de transferência. Estes, entregues à própria sorte,
são “reprimidos” ou “recalcados”, e assim a existência de um estoque
de memórias infantis, desde o início subtraídas do pré-consciente,
torna-se a condição preliminar da repressão. Nos casos mais
favoráveis, o desenvolvimento da dor termina assim que a energia é
retirada dos pensamentos de transferência no pré-consciente, e esse
efeito caracteriza como oportuna a intervenção do princípio da dor. É
diferente, contudo, quando o desejo inconsciente recalcado recebe um
reforço orgânico, que ele pode emprestar aos seus pensamentos de
transferência e por meio do qual pode capacitá-los a empreender uma
tentativa de penetração com a sua excitação, mesmo depois de terem
sido abandonados pela ocupação do pré-consciente. Segue-se, então,
uma luta defensiva na medida em que o pré-consciente reforça seu
antagonismo contra as ideias reprimidas e, subsequentemente, leva a
uma penetração dos pensamentos de transferência (os veículos do
desejo inconsciente), em alguma forma de acordo de conciliação
obtido via formação de sintomas. Porém, a partir do momento em que
são intensamente ocupados pelo sentimento de desejo inconsciente e
por outro lado abandonados pela ocupação pré-consciente, os
pensamentos recalcados sucumbem ao processo psíquico primário e
lutam apenas pela descarga motora; ou, se o caminho estiver livre,
para a revivi�cação alucinatória da identidade perceptiva desejada. Já
descobrimos anteriormente, de forma empírica, que os processos
incorretos descritos são executados apenas comobras de Freud e de toda a
psicologia moderna. Com um manual simples e compacto como A
psicologia dos sonhos, não haverá mais desculpa para a ignorância
acerca do mais revolucionário sistema psicológico dos tempos
modernos.
André Tridon 
Avenida Madison, 121, Nova York 
Novembro de 1920
D urante a época que podemos chamar de “período pré-cientí�co”,
as pessoas não tinham dúvida ou di�culdade quanto a atribuir
explicações e interpretações para os sonhos. Evocados pela memória
logo ao despertar, os sonhos eram tidos como a manifestação,
amigável ou hostil, de algum poder superior, demoníaco ou divino.
Com o advento do pensamento cientí�co, toda essa expressiva
mitologia foi transferida para a psicologia; e, hoje, entre as pessoas
instruídas, somente uma minoria muito reduzida ainda duvida de que
os sonhos sejam o ato psíquico do próprio indivíduo que sonha.
Todavia, desde a rejeição da hipótese mitológica, os sonhos carecem
de uma interpretação. As condições da origem dos sonhos; sua relação
com a nossa vida psíquica quando estamos acordados; sua
independência em relação a distúrbios que, durante o estado de sono,
parecem impor atenção; suas muitas peculiaridades, que causam
repugnância ao nosso pensamento em vigília; a incongruência entre
suas imagens e os afetos que engendram; e, ainda, a evanescência ou
transitoriedade dos sonhos, a maneira como, ao acordarmos, os nossos
pensamentos despertos os rechaçam como algo bizarro e as nossas
reminiscências os mutilam ou repudiam – todos esses problemas, e
muitos outros, há centenas de anos vêm exigindo respostas e
esclarecimentos que, até agora, nunca puderam ser encontrados a
contento. Antes de mais nada, coloca-se a questão do signi�cado dos
sonhos, que em si é bifronte. Há, em primeiro lugar, o signi�cado
psíquico dos sonhos, a sua posição relativa a outros processos
psíquicos, como uma possível função biológica. Em segundo lugar,
indaga-se: os sonhos têm signi�cado? É possível atribuir sentido ao
conteúdo de cada um deles, assim como fazemos com outras sínteses
mentais?
No que tange à avaliação da signi�cação dos sonhos, podem-se
observar três tendências. Vários �lósofos deram credibilidade a uma
dessas tendências, a que ao mesmo tempo preserva algo da antiga
supervalorização do sonho. Para esses pensadores, o fundamento da
vida onírica é um estado peculiar de atividade psíquica que eles
chegam, inclusive, a celebrar como uma elevação a algum estado
superior. Schubert9, por exemplo, a�rma: “Os sonhos são a libertação
do espírito do jugo da natureza externa, a alma desvencilhando-se dos
grilhões da matéria”. Nem todos os pensadores vão tão longe assim,
mas muitos asseveram que os sonhos têm sua origem em estímulos
concretos da alma e são as manifestações externas de forças anímicas
cuja livre movimentação é impedida por obstáculos durante o dia
(“Fantasia onírica”, de Scherner e Volkelt).10 Um grande número de
observadores reconhece que a vida onírica é capaz de realizações
extraordinárias – pelo menos em certos âmbitos (a “memória”, por
exemplo).
Em nítida contradição com essa linha de pensamento, para a
maioria dos autores médicos, é difícil admitir que os sonhos sejam
uma espécie de fenômeno psíquico. A seu juízo, os sonhos são
instigados e iniciados exclusivamente por estímulos provenientes dos
sentidos (estímulos sensoriais) ou do corpo (estímulos somáticos), que
ou chegam desde o exterior para afetar a pessoa adormecida, ou são
perturbações acidentais de seus órgãos internos. O que se sonhou não
pode ter maior pretensão de signi�cado ou importância do que o som
produzido pelos dez dedos de uma pessoa bem pouco familiarizada
com a música ao deslizá-los pelas teclado de um piano. Os sonhos
devem ser considerados, no dizer de Binz, “como processos somáticos
inúteis sempre e, em muitos casos, mórbidos ou patológicos”11. Todas
as peculiaridades da vida onírica são explicáveis como um esforço
incoerente – devido a algum estímulo �siológico – de certos órgãos ou
dos elementos corticais do cérebro que, de resto, está adormecido.
A visão popular, minimamente afetada pela opinião cientí�ca e
desinteressada quanto à origem dos sonhos, mantém-se aferrada à
�rme convicção de que os sonhos realmente têm um signi�cado, de
alguma forma predizem o futuro, e que de algum modo é possível
desvendar seu sentido a partir de um processo de interpretação de seu
conteúdo amiúde bizarro e enigmático. A leitura dos sonhos consiste
em substituir os acontecimentos de um sonho, tal como é lembrado,
por outros acontecimentos. Isso é feito ou cena por cena, de acordo
com alguma chave rígida, ou o sonho em sua totalidade é substituído
por outra coisa da qual era um símbolo. Pessoas sérias riem desses
esforços: “Os sonhos não passam de espuma!”12.
Um dia descobri, para meu grande espanto, que a visão popular –
baseada em superstições, e não a perspectiva médica – era a que mais
se aproximava da verdade sobre os sonhos. Cheguei a novas
conclusões sobre os sonhos por meio do emprego de um novo método
de inquirição psicológica, que me prestou bons serviços na
investigação de fobias, obsessões, delírios e congêneres, e que, desde
então, sob o nome de “psicanálise”, encontrou aceitação por toda uma
escola de investigadores. As múltiplas analogias existentes entre a vida
onírica e as mais diversas condições de enfermidade psíquica no
estado de vigília têm sido corretamente apontadas por vários
observadores médicos. Parecia, portanto, a priori, auspicioso aplicar à
interpretação dos sonhos métodos de investigação que haviam sido
testados em processos psicopatológicos. As obsessões e aquelas
sensações peculiares do pavor obsessivo permanecem tão estranhas à
consciência normal quanto os sonhos são à nossa consciência de
vigília; para a consciência, a origem das obsessões e fobias é tão
desconhecida quanto a dos sonhos. Foram considerações e �ns de
ordem prática que nos impeliram a compreender a origem e a
formação dessas doenças. A experiência nos mostrou que a cura dos
sintomas e o consequente domínio das ideias obsessivas ocorriam
quando se revelavam as sequências de pensamentos, os elos entre as
ideias mórbidas e os demais conteúdos psíquicos até então ocultos da
consciência. O procedimento que empreguei para a interpretação dos
sonhos decorreu, portanto, da psicoterapia.
Esse procedimento é fácil de se descrever, embora colocá-lo em
prática exija instrução, treinamento e experiência. Suponha que o
paciente esteja sofrendo de um pavor mórbido intenso. Solicitamos a
ele que direcione sua atenção para a ideia em questão sem, no entanto,
meditar sobre ela, como vem fazendo com tanta frequência. Todas as
impressões que lhe ocorrerem a respeito, sem qualquer exceção,
devem ser comunicadas ao médico. Se em seguida o paciente declarar
que não é capaz de concentrar a sua atenção em absolutamente nada,
essa a�rmação deve ser contestada pelo médico, que lhe assegurará,
da forma mais enérgica e categórica possível, que esse estado de
completo vazio mental é uma total impossibilidade.
A bem da verdade, em breve ocorrerão diversas ideias e impressões,
às quais outras se associarão, e que serão invariavelmente
acompanhadas pela expressão da opinião do observador de que são
irrelevantes, não têm signi�cado nem importância. Notar-se-á, de
imediato, que foi essa atitude autocrítica que impediu o paciente de
comunicar as ideias que, com efeito, antes já havia excluído da
consciência. Se o paciente puder ser induzido a abandonar essa
autocrítica e seguir o encalço das linhas de pensamento produzidas
pela concentração da atenção, será possível obter um conteúdo
psíquico bastante signi�cativo, material que, de pronto constataremos,
mostra claras e evidentes ligações com a ideia patológica em questão.
Sua conexão com outras ideias será manifesta e mais tarde permitirá a
substituição da ideia mórbida por uma nova, perfeitamente adaptada
à continuidade psíquica.
Este não é o lugar para examinar em minúcias a hipótese em que se
baseia tal experimento, tampouco as deduções decorrentespensamentos que
existem sob a repressão. Agora, compreendemos outra parte da
conexão. Esses processos incorretos são os sistemas primários do
aparelho psíquico; eles aparecem onde quer que os pensamentos
abandonados pela ocupação pré-consciente sejam deixados por sua
própria conta e possam ser preenchidos com a energia sem inibições,
que busca um escoadouro do inconsciente. Podemos acrescentar mais
algumas observações para corroborar a concepção de que esses
processos, designados como “incorretos”, não são na verdade
falsi�cações do pensamento normal defeituoso, mas modos de
atividade do aparelho psíquico quando se veem livres de inibição.
Vemos, assim, que a transferência da excitação pré-consciente para a
motilidade ocorre sob a batuta dos mesmos processos, e que a
vinculação das apresentações pré-conscientes com as palavras
manifesta prontamente os mesmos deslocamentos e misturas que são
atribuídos à desatenção. Por �m, eu gostaria de apresentar a prova de
que o aumento do trabalho resulta necessariamente da inibição desses
cursos primários, pelo fato de ganharmos um efeito cômico, um
excedente de energia a ser descarregado pelo riso, se permitirmos que
essas cadeias de pensamento cheguem à consciência.
A teoria das psiconeuroses assevera com total certeza que apenas os
sentimentos de desejos sexuais da vida infantil sofrem repressão
(transformação emocional) durante o período de desenvolvimento da
infância. Estes são capazes de retornar à atividade em um período
posterior de desenvolvimento e são passíveis de reavivamento, seja
como consequência da constituição sexual do indivíduo – que, na
verdade, deriva da bissexualidade original –, seja como consequência
de in�uências desfavoráveis do sistema sexual; portanto, fornecem a
força motriz que impulsiona toda sorte de formações de sintomas
psiconeuróticos. Somente por meio da introdução destas forças
sexuais é que poderão ser preenchidas as lacunas ainda demonstráveis
na teoria da repressão. Deixarei em aberto a questão de se o postulado
dos fatores sexuais e infantis também pode ser proposto para a teoria
dos sonhos; �cará inacabada essa teoria aqui porque já dei um passo
além do demonstrável ao assumir que os desejos oníricos se originam
invariavelmente no inconsciente.XXV Tampouco investigarei mais a
fundo a diferença no jogo das forças psíquicas na formação dos
sonhos e na dos sintomas histéricos, pois, para isso, deveríamos deter
um conhecimento mais explícito de um dos temas a serem
comparados. Mas considero outro ponto importante e confessarei aqui
que foi precisamente por causa dele que acabo de empreender toda a
discussão relativa aos dois sistemas psíquicos, aos seus modos de
funcionamento e ao recalque. Pois agora não importa se concebi de
maneira aproximadamente correta as relações psicológicas em
questão ou, como é muito possível em temas tão difíceis, de forma
equivocada e fragmentária. Quaisquer que sejam as alterações a serem
feitas na interpretação da censura psíquica e na elaboração correta e
anormal do conteúdo dos sonhos, continua a ser válido o fato de que
esses processos atuam ativamente na formação dos sonhos e mostram
em essência uma analogia das mais estreitas com os processos
observados na formação dos sintomas histéricos. Os sonhos não são
fenômenos patológicos e não deixam atrás de si um rastro de
enfraquecimento das faculdades mentais. É possível rejeitar sem
maiores comentários a objeção de que não é possível extrair nenhuma
dedução a respeito dos sonhos de pessoas saudáveis a partir dos meus
próprios sonhos e dos sonhos de pacientes neuróticos. Portanto,
quando tiramos conclusões dos fenômenos quanto às suas forças
motrizes e impulsoras, reconhecemos que o mecanismo psíquico
utilizado pelas neuroses não é criado pelo impacto de uma
perturbação mórbida da vida psíquica, mas já se encontra presente e
pronto na estrutura normal do aparelho psíquico. Os dois sistemas
psíquicos, a censura no cruzamento entre um e outro, a inibição e o
encobrimento de uma atividade pela outra, as relações de ambos com
a consciência – ou o que quer que possa oferecer uma interpretação
mais correta das condições reais em seu lugar –, tudo isso faz parte da
estrutura normal do nosso instrumento psíquico, e os sonhos nos
indicam um dos caminhos que conduzem ao conhecimento dessa
estrutura. Se, além do nosso conhecimento, quisermos nos contentar
com um mínimo que já foi perfeitamente estabelecido, diremos que os
sonhos nos dão a prova de que o material suprimido continua a existir
até mesmo nas pessoas normais e permanece capaz de atividade
psíquica. Os próprios sonhos são manifestações desse material
reprimido; em teoria, isso é verdade em todos os casos; de acordo com
substancial experiência, isso é verdade pelo menos em um grande
número daqueles que exibem de forma mais visível as características
notáveis da vida onírica. O material psíquico suprimido, que no estado
de vigília foi impedido de se expressar e cortado da percepção interna
pelo ajuste antagônico das contradições, durante a noite encontra
formas e meios de se intrometer na consciência, sob o domínio das
formações de acordos de conciliação. “Flectere si nequeo superos,
Acheronta movebo” [Se não posso dobrar os céus, moverei o Aqueronte
(o inferno)]. De qualquer forma, a interpretação dos sonhos é a via
régia para o conhecimento do inconsciente na vida psíquica. Por meio
da análise dos sonhos, �zemos alguns progressos no sentido de chegar
a um entendimento da composição desse que é o mais maravilhoso e
misterioso dos instrumentos; certamente não fomos muito longe, mas
já �zemos o bastante para um começo que nos permite avançar, com
base em outras estruturas ditas patológicas, em direção a uma análise
aprofundada do inconsciente. As enfermidades – pelo menos aquelas
que são corretamente denominadas “funcionais” – não se devem à
destruição desse aparelho e ao estabelecimento de novas cisões em
seu interior; antes, devem ser explicadas dinamicamente por meio do
fortalecimento e do enfraquecimento dos componentes em ação no
jogo de forças pelo qual tantas atividades �cam ocultas durante a
função normal. Conseguimos demonstrar em outro texto como a
composição do aparelho a partir dos dois sistemas permite um
re�namento até mesmo da atividade normal que seria impossível para
um único sistema.
XXIV Cf. as signi�cativas observações de J. Breuer em nosso Studies on hysteria (1895), 2ª ed.,
1909.
XXV Aqui, e em outros trechos, há no tratamento do tema algumas lacunas que deixei
intencionalmente, porque as preencher exigiria, por um lado, um esforço muito grande e, por
outro, uma extensa referência a materiais alheios ao sonho. Assim, evitei a�rmar se vinculo à
palavra “suprimido” outro sentido que não o da palavra “reprimido” ou “recalcado”. Ficou
claro apenas que estes últimos enfatizam mais do que o primeiro a relação com o
inconsciente. Não entrei no problema cognato de por que os pensamentos oníricos também
sofrem distorção por parte da censura quando abandonam a continuação progressiva para a
consciência e escolhem o caminho da regressão. Tenho estado acima de tudo ansioso por
despertar o interesse pelos problemas aos quais conduz a análise mais aprofundada do
trabalho do sonho e por indicar os outros temas que serão a�ns a este ao longo do caminho.
Nem sempre foi fácil decidir em que ponto a perseguição deveria ser interrompida. O fato de
eu não ter tratado exaustivamente o papel desempenhado pela vida psicossexual no sonho e
de ter evitado a interpretação de sonhos de conteúdo sexual óbvio deve-se a uma razão
especial que talvez não corresponda às expectativas do leitor. Na verdade, está muito longe das
minhas ideias e dos princípios por mim expressos em neuropatologia considerar a vida sexual
como um pudendum, que deveria ser ignorado pelos médicos e investigadores cientí�cos.
Também considero ridícula a indignação moral que levou o tradutor de Artemidoro de Daldis
a ocultar do conhecimento do leitor o capítulo que versava sobre sonhos sexuais contido em O
simbolismodos sonhos. Quanto a mim, fui movido apenas pela convicção de que, na explicação
dos sonhos sexuais, eu seria obrigado a me enredar profundamente nos problemas ainda
inexplicados da perversão e da bissexualidade, razão pela qual reservei esse material para
outra ocasião.
E m uma análise mais detida, descobrimos que não se trata da
existência de dois sistemas próximos à extremidade motora do
aparelho, mas da existência de dois tipos de processos ou modos de
descarga emocional, cuja suposta existência foi explicada nas
discussões psicológicas do capítulo anterior. Para nós, isso dá no
mesmo, pois devemos estar sempre preparados para abandonar as
nossas ideias auxiliares quando nos julgarmos em posição de
substituí-las por outra coisa que se aproxime mais da realidade
desconhecida. Tentemos agora corrigir alguns pontos de vista que
talvez tenham sido formulados de maneira equivocada enquanto
consideramos os dois sistemas, no sentido mais literal e grosseiro,
como duas localidades dentro do aparelho psíquico, concepções que
deixaram seus vestígios nos termos “repressão” ou “recalque” e
“penetração.” Assim, quando falamos que uma ideia inconsciente se
esforça para ser transferida para o pré-consciente a �m de mais tarde
penetrar na consciência, o que temos em mente não é que uma
segunda ideia deva ser formada em um novo local, como uma
entrelinha perto da qual a original continua a existir. Além disso,
quando falamos de penetração na consciência, desejamos
cuidadosamente evitar qualquer ideia de mudança de localização. Ao
a�rmarmos que uma ideia pré-consciente é reprimida e depois
assimilada pelo inconsciente, essas imagens, tomadas de empréstimo
da ideia de uma disputa por território, podem nos tentar a presumir
como verdade literal que um arranjo é rompido em uma dada
localidade psíquica e substituído por um novo agrupamento, em outra
localidade. Para fazer as comparações, substituímos essas metáforas
por algo que pareceria corresponder melhor à verdadeira situação,
dizendo em vez disso que uma ocupação energética é deslocada ou
retirada de um determinado arranjo, de modo que a formação
psíquica cai sob o domínio de um sistema ou dele é subtraída. Aqui,
mais uma vez substituímos um modo de apresentação tópico por um
dinâmico; não é a formação psíquica que nos aparece como fator
motriz, mas sua inervação.
Todavia, considero conveniente e justi�cável que nos aprofundemos
ainda mais na concepção ilustrativa dos dois sistemas. Evitaremos
qualquer aplicação errada dessa forma de representação se
lembrarmos que as apresentações, os pensamentos e as estruturas
psíquicas não devem geralmente estar localizados nos elementos
orgânicos do sistema nervoso, mas, por assim dizer, entre eles, onde as
resistências e os caminhos formam os correlatos correspondentes a
eles. Tudo o que pode se tornar objeto de nossa percepção interna é
virtual, como a imagem no telescópio produzida pela passagem dos
raios de luz. Mas temos razão para supor a existência dos sistemas,
que nada têm de psíquico em si e que nunca se tornam acessíveis à
nossa percepção psíquica, correspondendo às lentes do telescópio que
projetam a imagem. Se prosseguirmos com essa analogia, podemos
dizer que a censura entre dois sistemas corresponde à refração que
ocorre com os raios de luz durante a sua passagem para um novo meio.
Até aqui, viemos fazendo psicologia por nossa própria conta; agora
é hora de examinar as opiniões teóricas que regem a psicologia atual e
testar sua relação com nossas teorias. O problema do inconsciente na
psicologia é, de acordo com as palavras abalizadas de Lipps44, menos
uma questão psicológica do que uma questão de psicologia. Enquanto
a psicologia lidou com essa questão com a explicação verbal de que o
“psíquico” signi�ca o “consciente” e que as “ocorrências psíquicas
inconscientes” são um óbvio contrassenso, qualquer estimativa
psicológica das observações obtidas pelos médicos a partir de estados
mentais anormais �cou fora de cogitação. Médicos e �lósofos
concordam somente quando ambos reconhecem que os processos
psíquicos inconscientes são “a expressão apropriada e bem justi�cada
de um fato estabelecido”. Aos médicos, resta rejeitar com um encolher
de ombros a a�rmação de que “a consciência é a qualidade
indispensável do psíquico”; se o seu respeito pelas declarações dos
�lósofos ainda for su�cientemente forte, os médicos podem presumir
que eles e os �lósofos não cuidam do mesmo assunto e não praticam a
mesma ciência. Pois uma única observação inteligente da vida
psíquica de um neurótico, bem como uma única análise de um sonho
lhes imporá a convicção inalterável de que podem ocorrer as mais
complexas e racionais operações mentais, às quais ninguém recusará o
nome de “ocorrências psíquicas” sem excitar a consciência da pessoa.
É verdade que os médicos não tomam conhecimento desses processos
inconscientes até que tenham exercido um efeito sobre a consciência
que permita a comunicação ou a observação. Mas esse efeito da
consciência pode apresentar um caráter psíquico bastante diferente do
processo inconsciente, de modo que a percepção interna não pode
reconhecer um como substituto do outro. Os médicos devem se
reservar o direito de penetrar, por um processo de dedução ou
inferência, desde o efeito na consciência até o processo psíquico
inconsciente; eles aprendem, assim, que o efeito sobre a consciência é
apenas um produto psíquico remoto do processo inconsciente e
constatam que este último não se tornou consciente como tal – já
existia e estava em operação, sem se revelar de forma alguma à
consciência.
Uma reação proveniente da supervalorização da qualidade da
consciência torna-se a condição preliminar indispensável para
qualquer compreensão correta do comportamento do psíquico. Nas
palavras de Lipps, deve-se aceitar que o inconsciente é a base geral da
vida psíquica. O inconsciente é o círculo maior que inclui dentro de si
o círculo menor do consciente; tudo o que é consciente tem sua etapa
preliminar no inconsciente, ao passo que o inconsciente pode parar
nessa etapa e ainda assim reivindicar que lhe seja atribuído o valor
pleno como atividade psíquica. Em termos mais adequados, o
inconsciente é o verdadeiro psíquico; sua natureza interior é tão
desconhecida para nós quanto a realidade do mundo exterior, e nos é
relatada de maneira tão imperfeita e incompleta pelos dados da
consciência quanto o mundo externo por meio das indicações de
nossos órgãos sensoriais.
Uma série de problemas oníricos de que se ocuparam intensamente
os autores mais antigos será deixada de lado quando a antiga oposição
entre a vida consciente e a vida onírica for abandonada e ao psíquico
inconsciente for atribuído ao seu devido lugar. Assim, muitas das
atividades cuja performance nos sonhos despertavam nosso espanto já
não devem mais ser atribuídas ao sonho, mas ao pensamento
inconsciente, que é tão ativo durante o dia quanto à noite. Se, segundo
Scherner, os sonhos parecem brincar com uma representação
simbólica do corpo, sabemos que esse é o trabalho de certas fantasias
inconscientes que provavelmente cederam às emoções sexuais, e que
essas fantasias encontram expressão não apenas nos sonhos, mas
também nas fobias histéricas e em outros sintomas. Se o sonho dá
continuidade às atividades diurnas e as conclui, inclusive trazendo à
luz inspirações valiosas, temos apenas que subtrair dele o disfarce do
sonho como uma façanha do trabalho do sonho e uma marca do
auxílio prestado por forças obscuras nas profundezas da mente (vide o
diabo no sonho de Tartini com sua sonata45). A tarefa intelectual em si
deve ser atribuída às mesmas forças psíquicas que realizam todas
essas tarefas durante o dia. Provavelmente, estamos inclinados em
demasia a superestimar o caráter consciente até mesmo das produções
intelectuais e artísticas. A partir das comunicações de algumas pessoas
extremamente produtivas, como Goethe e Helmholtz46, aprendemos,
de fato, que as partes mais essenciais e originais das suas criações lhes
vieram sob a forma de inspiraçõese já chegaram à sua percepção
praticamente concluídas. Não há nada de estranho no auxílio da
atividade consciente em outros casos em que houve a necessidade de
um esforço conjunto de todas as forças psíquicas. Mas é um privilégio
do qual a atividade consciente abusa, sempre que tem permissão para
esconder de nós todas as demais atividades das quais participa.
Não valeria muito a pena discutir a signi�cância histórica dos
sonhos como um tema especial. Quando, por exemplo, um grande
líder for instigado por um sonho a realizar um empreendimento
ousado, cujo êxito tenha o efeito de modi�car a história do mundo,
surgirá um novo problema somente se o sonho, considerado um poder
estranho, for contrastado com outras forças psíquicas mais
conhecidas. O problema, porém, desaparece quando consideramos o
sonho uma forma de expressão de sentimentos que são carregados de
resistência durante o dia e que à noite podem receber reforços de
profundas fontes emocionais. Mas o grande respeito que os antigos
demonstravam pelos sonhos baseia-se em uma suposição psicológica
correta. É uma homenagem prestada ao que há de insubmisso e
indestrutível na mente humana, e ao demoníaco que fornece os
desejos oníricos e que encontramos novamente em nosso
inconsciente.
Não é de forma irre�etida que utilizo a expressão “no nosso
inconsciente”, pois o que assim designamos não coincide com o
inconsciente dos �lósofos, tampouco com o inconsciente de Lipps.
Nestes últimos usos, o termo pretende designar simplesmente o
oposto de consciente. Que existam também processos psíquicos
inconscientes além dos conscientes é a tese contestada com vigor e
defendida com veemência. Lipps nos dá a teoria mais abrangente de
que tudo o que é psíquico existe como inconsciente, mas que parte
dele também pode existir como consciente. Mas não foi para provar
essa teoria que apresentamos os fenômenos oníricos e da formação de
sintomas histéricos; a observação da vida normal por si só é su�ciente
para estabelecer essa verdade, sem sombra de dúvida. O fato novo que
descobrimos com a análise das formações psicopatológicas e, com
efeito, do primeiro membro dessa classe – os sonhos – é que o
inconsciente (isto é, o psíquico) ocorre como uma função de dois
sistemas separados, e acontece como tal inclusive na vida psíquica
normal. Por conseguinte, existem dois tipos de inconsciente, que a
nosso ver os psicólogos ainda não conseguiram diferenciar. Ambos são
inconscientes no sentido utilizado pela psicologia; mas, no nosso
sentido o primeiro, que chamamos de “inconsciente”, é igualmente
incapaz de consciência, ao passo que o segundo chamamos de “pré-
consciente”, porque suas emoções, após a observância de certas regras,
conseguem alcançar a consciência, talvez não antes de terem sido mais
uma vez censuradas, mas ainda independentemente do sistema
inconsciente. O fato de que, para alcançarem a consciência, as
emoções devem atravessar uma série inalterável de acontecimentos ou
uma sucessão de instâncias, como é revelado por meio das alterações
nelas efetuadas pela censura, nos ajudou a construir uma comparação
a partir da espacialidade. Descrevemos as relações dos dois sistemas
entre si e com a consciência a�rmando que o sistema pré-consciente é
como uma tela entre o sistema inconsciente e a consciência. O sistema
pré-consciente não apenas veda o acesso à consciência, mas também
controla a entrada para a motilidade voluntária e é capaz de enviar
uma soma de energia móvel, parte da qual conhecemos como
“atenção”.
Devemos evitar, também, as distinções entre “superconsciente” e
“subconsciente”, que caíram nas graças na literatura mais recente
sobre as psiconeuroses, pois essa distinção parece enfatizar
precisamente a equivalência entre o psíquico e o consciente.
Que papel resta agora em nossa descrição da consciência, que
outrora era todo-poderosa a ponto de a tudo ofuscar? Nada mais que o
de um órgão sensorial para a percepção de qualidades psíquicas. De acordo
com a ideia fundamental do nosso quadro esquemático, só podemos
conceber a percepção consciente como a atividade particular de um
determinado sistema independente para o qual a designação
“consciente” (abreviado como Cs.) parece apropriada. Concebemos
esse sistema como semelhante, em suas propriedades mecânicas, ao
sistema perceptivo Pcpt., portanto suscetível à excitação por qualidades
e incapaz de reter o traço das mudanças, ou seja, é desprovido de
memória. O aparelho psíquico que, com os órgãos sensoriais do
sistema Pcpt., se volta para o mundo exterior é o mundo exterior para o
órgão sensorial da consciência, cuja justi�cação teleológica depende
dessa relação. Aqui, somos mais uma vez confrontados com o
princípio da sucessão de instâncias que parece reger a estrutura do
aparelho. O material sob excitação �ui para o órgão sensorial da
consciência vindo de dois lados: primeiro do sistema Pcpt., cuja
excitação, determinada em termos qualitativos, provavelmente
experimenta uma nova elaboração até chegar à percepção consciente;
e, em segundo lugar, do interior do próprio aparelho, cujos processos
quantitativos são percebidos como uma série qualitativa de prazer e
dor à medida que sofrem certas modi�cações.
Os �lósofos, que aprenderam que estruturas de pensamento
corretas e extremamente complexas são possíveis mesmo sem a
cooperação da consciência, acharam difícil atribuir qualquer função à
consciência; pareceu-lhes um espelhamento supér�uo do processo
psíquico aperfeiçoado. A analogia entre nosso sistema da consciência
e os sistemas perceptivos nos livra desse constrangimento. Sabemos
que a percepção por meio dos nossos órgãos sensoriais resulta no
direcionamento da ocupação da atenção para as vias pelas quais é
difundida a excitação sensorial que chega até nós; a excitação
qualitativa do sistema perceptivo faz as vezes de regulador de descarga
da quantidade móvel do aparelho psíquico. Podemos atrelar a mesma
função ao órgão sensorial sobreposto do sistema da consciência que,
ao perceber novas qualidades, fornece uma nova contribuição para o
direcionamento e a distribuição adequada das quantidades móveis de
ocupação. Por meio das percepções de prazer e dor, ele in�uencia o
curso das ocupações no âmbito do aparelho psíquico, que
normalmente opera de forma inconsciente e por meio do
deslocamento de quantidades. É provável que o princípio da dor
regule primeiro e automaticamente os deslocamentos das ocupações,
mas é bem possível que a consciência dessas qualidades acrescente,
ainda, uma segunda regulação, mais sutil, que pode até opor-se à
primeira e burilar a e�ciência e a capacidade de trabalho do aparelho,
colocando-o em uma posição contrária ao seu desígnio original de
ocupar e desenvolver até mesmo aquilo que está relacionado com a
liberação da dor. Aprendemos com a psicologia das neuroses que uma
parte importante da atividade funcional do aparelho é atribuída a
essas regulações por meio da excitação qualitativa dos órgãos
sensoriais. O controle automático do princípio primário da dor e a
restrição da capacidade mental a ele associada são quebrados pelas
regulações sensíveis, que, por sua vez, são também automatismos.
Aprendemos que o recalque, que, embora de início seja conveniente,
termina, no entanto, em uma rejeição prejudicial da inibição e na
dominação psíquica, se consuma com muito mais facilidade nas
reminiscências do que nas percepções, porque nas primeiras não há
aumento na ocupação por meio da excitação dos órgãos sensoriais
psíquicos. Quando uma ideia a ser rechaçada não conseguiu tornar-se
consciente por ter sucumbido ao recalque, ela só pode ser reprimida
em outras ocasiões porque foi subtraída da percepção consciente em
virtude de outros motivos. São indícios empregados pelo
procedimento terapêutico para provocar uma retrogressão de
recalques já efetivados.
O valor da sobreocupação que é produzida pela in�uência
reguladora do órgão sensorial da consciência na quantidade móvel é
demonstrado com absoluta clareza na conexão teleológica pela
criação de uma nova série de qualidadese, consequentemente, de um
novo processo de regulação que constitui a superioridade do ser
humano sobre os animais. Isso porque os processos mentais são em si
desprovidos de qualidade, exceto pelas excitações prazerosas e
dolorosas que os acompanham, as quais, como sabemos, devem ser
mantidas sob controle em razão de seu potencial efeito como possíveis
perturbações do pensamento. A �m de dotar de qualidades os
processos de pensamento, eles são associados, no ser humano, a
memórias verbais, cujos resquícios qualitativos bastam para atrair
sobre eles a atenção da consciência que, por sua vez, dota o processo
de pensamento de uma nova energia móvel.
A multiplicidade dos problemas da consciência só pode ser
examinada em sua totalidade por meio de uma análise dos processos
mentais na histeria. Em virtude dessa análise, �camos com a
impressão de que a transição do pré-consciente para a ocupação da
consciência também está ligada a uma censura semelhante àquela
existente entre o inconsciente e o pré-consciente. Essa censura
também começa a atuar apenas quando se atinge certo grau
quantitativo, de modo que poucas estruturas de pensamento intensas
lhe escapam. Todo caso possível de pensamento que pode ser
impedido de chegar à consciência, bem como de penetrá-la, dentro de
certas restrições, encontra-se incluído no quadro dos fenômenos
psiconeuróticos; todos os casos apontam para a ligação íntima e
recíproca entre a censura e a consciência. Concluirei essas discussões
psicológicas com o relato de duas ocorrências à guisa de exemplos.
Há alguns anos, por ocasião de uma consulta, minha paciente era
uma menina inteligente e de aparência inocente. Suas roupas tinham
o aspecto estranho; enquanto as outras mulheres geralmente se
vestiam com extremo apuro até a última dobra, uma das meias da
menina estava frouxa e caída, e dois botões de sua blusa estavam
abertos. Ela reclamou de dores em uma das pernas e, sem que eu
solicitasse, exibiu a perna. Sua principal queixa, porém, era a seguinte,
em suas próprias palavras: a sensação de que havia algo “en�ado” dentro
de seu corpo, algo que parecia preso e se sacudia de um lado para o outro e a
sacudia sem parar. Por vezes, isso fazia seu corpo inteiro enrijecer. Ao ouvir
isso, meu colega médico que acompanhava a consulta olhou para
mim; a reclamação era bastante clara para ele. Para nós dois, pareceu
estranho que a mãe da paciente �zesse pouco-caso do problema; é
claro que ela própria devia ter sentido repetidas vezes a mesma
situação descrita pela �lha. Quanto à menina, não tinha noção do
signi�cado de suas palavras, caso contrário jamais teria permitido que
passassem por seus lábios. Aqui, a censura foi ludibriada com tanto
êxito e facilidade que, sob a máscara de uma queixa inocente, admitiu-
se na consciência uma fantasia que de outra forma teria permanecido
no pré-consciente.
Outro exemplo: iniciei o tratamento psicanalítico de um menino de
14 anos que sofria de tiques convulsivos, vômitos histéricos, dor de
cabeça etc., assegurando-lhe que, depois de fechar os olhos, ele veria
cenas ou teria ideias que eu solicitei que me relatasse. Ele respondeu
descrevendo imagens. A última impressão que ele recebeu antes de vir
à consulta foi revivida visualmente em sua memória. Ele havia jogado
damas com o tio e agora via diante de si o tabuleiro. Ele comentou
sobre diversas posições favoráveis e desfavoráveis das peças, sobre
jogadas e movimentos que não era seguro fazer. Em seguida, viu por
sobre o tabuleiro uma adaga, objeto que pertencia a seu pai, mas que
sua fantasia transferiu para o tabuleiro de damas. Em seguida, viu
uma foice; depois, um alfange foi adicionado; e, por �m, a imagem de
um velho camponês cortando a grama em frente à casa de seus pais,
que �cava distante. Poucos dias depois, descobri o signi�cado dessa
série de imagens. Relações familiares lamentáveis deixavam o menino
a�ito. Tratava-se do caso de um pai severo e ranzinza que, infeliz no
casamento, vivia às turras com a mãe; um homem duro, cujos métodos
educativos consistiam em ameaças; o pai se divorciou da terna e
delicada mãe do menino, casou-se de novo e um dia trouxe para casa
uma jovem que anunciou como a nova mãe do rapaz. A doença do
menino de 14 anos eclodiu alguns dias depois. Foi a fúria reprimida
contra o pai que transformou essas imagens em alusões inteligíveis. O
material foi fornecido por uma reminiscência da mitologia. A foice era
o instrumento com o qual Zeus castrou o pai; o alfange e a imagem do
camponês representavam Cronos, o velho violento que devora seus
�lhos e de quem Zeus se vinga de maneira tão pouco �lial. O novo
casamento do pai deu ao menino a oportunidade de retribuir as
censuras e ameaças da �gura paterna – que haviam sido feitas muito
tempo atrás porque a criança brincava com seus órgãos genitais (jogar
damas; os movimentos proibidos; a adaga com a qual é possível matar
uma pessoa). Temos aqui memórias havia muito recalcadas e os seus
resquícios que permaneceram inconscientes e que, sob o disfarce de
imagens sem sentido, deslizaram consciência adentro por caminhos
tortuosos deixados abertos.
Eu esperaria, então, encontrar o valor teórico do estudo dos sonhos
nas suas contribuições para o conhecimento psicológico e na
preparação para a compreensão das neuroses. Quem pode prever a
importância de um conhecimento profundo da estrutura e das
atividades e funções do aparelho psíquico, quando mesmo o nosso
estado atual de conhecimento produz uma bené�ca in�uência
terapêutica sobre as formas curáveis das psiconeuroses? Alguém
poderia perguntar: “E quanto ao valor prático desse estudo para o
conhecimento psíquico e para a descoberta das peculiaridades
secretas do caráter individual?” Os sentimentos e impulsos
inconscientes revelados pelos sonhos não têm o valor das forças reais
na vida psíquica? Devemos fazer pouco-caso do signi�cado ético dos
desejos suprimidos que, assim como agora criam sonhos, poderão um
dia criar outras coisas?
Não me sinto capaz de responder a essas perguntas. Não re�eti com
maior atenção sobre esse aspecto do problema dos sonhos. Acredito,
porém, que, em qualquer caso, o imperador romano errou ao ordenar
a execução de um de seus súditos por este ter sonhado que o havia
assassinado. Ele deveria, primeiro, ter se esforçado para tentar
descobrir o signi�cado do sonho; muito provavelmente não era o que
parecia ser. E mesmo que um sonho de diferente conteúdo tivesse o
sentido de um crime de lesa-majestade, ainda assim seria propício
lembrar as palavras de Platão de que o homem virtuoso se contenta
em sonhar o que o homem perverso faz na vida real. Sou, portanto, de
opinião que é melhor conceder liberdade aos sonhos. Se alguma
realidade deve ser atribuída aos desejos inconscientes, e em que
sentido, não estou preparado para dizer de pronto. A realidade deve,
naturalmente, ser negada a todos os pensamentos de transição – e
intermediários. Se tivéssemos diante de nós os desejos inconscientes,
levados à sua última e mais verdadeira expressão, ainda faríamos bem
em ter em mente que mais de uma única forma de existência deve ser
atribuída à realidade psíquica. As ações e, sobretudo, a expressão
consciente do pensamento são em geral su�cientes para a necessidade
prática de julgar o caráter dos homens. As ações, acima de tudo,
merecem ser colocadas em primeiro lugar; pois muitos dos impulsos
que penetram na consciência são neutralizados por forças reais da
vida psíquica antes de serem convertidos em ação. A bem da verdade,
a razão pela qual frequentemente não encontram nenhum obstáculo
psíquico em seu caminho é porque o inconsciente tem certeza de que
enfrentarão resistências mais tarde, em alguma outra etapa. Em todo
caso, é instrutivo familiarizar-nos com o solo bastante revolvido do
qual brotam orgulhosamente as nossas virtudes. Pois a complexidade
do caráter humano, que, impelido por forças dinâmicas, se movimenta
em todas as direções, apenas muito raramente se submete ao
ajustamento por meio da escolha entre alternativas simples, como
pretendia anossa antiquada �loso�a moral.
E quanto ao valor dos sonhos para o conhecimento do futuro? Isso,
claro está, não podemos levar em consideração. Sentimo-nos
inclinados a substituir “por um conhecimento do passado”. Pois os
sonhos se originam do passado, em todos os sentidos. É certo que a
antiga crença de que os sonhos revelam o futuro não é inteiramente
desprovida de verdade. Ao nos apresentarem a representação de um
desejo como algo realizado, os sonhos certamente nos conduzem ao
futuro; mas esse futuro, que a pessoa que sonha interpreta como
presente, foi moldado por seu desejo indestrutível à imagem e
semelhança do passado.
NOTAS DO TRADUTOR
1 Boris Sidis (1867-1923), psiquiatra, psicólogo, psicanalista e �lósofo da educação ucraniano;
obteve quatro graduações em Harvard, onde posteriormente lecionou psicologia, área em que
foi muito in�uente no século XX, por ser um dos pioneiros no campo da psicopatologia e da
terapia em grupo.
2 O pioneiro psiquiatra suíço Paul Eugene Bleuler (1857-1939), o primeiro a empregar, em 1911,
o termo “autismo”.
3 De acordo com o Dicionário comentado do alemão de Freud, de Luiz Alberto Hanns (Rio de
Janeiro: Imago, 1996), Freud tende a utilizar para o termo “desejo” (Wunsch) a palavra
“realização” (Erfüllung) e para “pulsão” (Trieb), “satisfação” (Befriedigung). Muito raramente
emprega o termo “satisfação” (Befriedigung) em conexão com “desejo”.
4 Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra suíço responsável por fundar a psicologia analítica,
que explora a importância da psique individual e sua busca pela totalidade. Ele ajudou a
popularizar termos comuns da psicologia, como “arquétipo”, o signi�cado de “ego” e a
existência de um “inconsciente coletivo”.
5 Alfred Adler (1870-1937), médico e psicólogo austríaco, fundador da psicologia do
desenvolvimento individual, se notabilizou por sua obra original nas áreas de psicoterapia e
pedagogia.
6 Edward J. Kempf (1885-1972), psiquiatra e psicólogo estadunidense, pioneiro no campo da
medicina psicossomática e conhecido principalmente por sua teoria de que a personalidade
humana é um produto da evolução biológica.
7 William Harvey (1578-1657), médico britânico que, em 1628, demonstrou, por meio da
observação direta da circulação de animais de laboratório, que o sangue proveniente do
ventrículo direito seguia pela artéria pulmonar em direção aos pulmões e retornava ao
coração pelas veias pulmonares.
8 James Jackson Putnam (1846-1918), neurologista norte-americano, presidente da Associação
Americana de Psicanálise e famoso por sua obra sobre o valor do estudo da �loso�a na
preparação para o trabalho psicanalítico.
9 Franz Schubert (1797-1828), compositor austríaco da época do Romantismo.
10 Karl Albert Scherner (1825-1889), �lósofo e psicólogo germânico, autor de Das Leben des
Traums (Berlim: Verlag von Heinrich Schindler, 1861); Johannes Immanuel Volkelt (1848-1930),
�lósofo alemão, autor de Die Traumphantasie (Stuttgart: Meyer und Zeller, 1875).
11 Karl Binz (1832-1913), médico e farmacologista alemão. A citação de Freud provavelmente é
da obra Über den Traum (Sobre o sonho), de 1878.
12 “Träume sind Schäume”, no original em alemão.
13 É um menu de preço �xo para a refeição completa, não selecionável, servido em horários
especí�cos a todos os hóspedes; oposto ao cardápio à la carte, em que existe um preço para
cada item. A tradução literária para esse tipo de casa seria “mesa do an�trião”.
14 Heller, antiga moeda emitida na Suíça e nos estados do Sacro Império Romano, que
sobreviveu em alguns países europeus até o século XX (por exemplo, Áustria, Alemanha e
República Tcheca).
15 Citação de trecho da “Canção do harpista”, do romance Os anos de aprendizagem de Wilhelm
Meister (1795 e 1796), do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). O original em
alemão é “Ihr führt ins Leben uns hinein, / Ihr laßt den Armen schuldig werden” (Tradução
de Nicolino Simone Neto. São Paulo: Ensaio, 1994).
16 Francis Galton (1822-1911), antropólogo, meteorologista, matemático e estatístico inglês,
criador do termo “eugenia” e descobridor da individualidade das impressões digitais (1885),
mais conhecido pelos seus estudos de hereditariedade e inteligência humana.
17 No original, trottoir roulant, invenção exibida pela primeira vez na Exposição de Paris de
1900.
18 No original, Zylinderhut, literalmente “chapéu cilíndrico”.
19 No original, “Mit den Hute in der Hand kommt man duchs ganze Land”.
20 Carl Auer von Welsbach (1858-1929), cientista e inventor austríaco dotado de talento não
apenas para fazer avanços cientí�cos, mas também para transformá-los em produtos de
sucesso comercial. Desenvolveu as pederneiras de ferrocerium, usadas em isqueiros
modernos, o manto de gás que trouxe luz para as ruas da Europa no �m do século XIX e a
lâmpada de �lamento de metal.
21 La dame aux camélias (1848), romance do escritor francês Alexandre Dumas, �lho, que narra
a atribulada história de amor entre Armand Duval, jovem estudante de direito, recatado,
vindo de uma respeitável família burguesa interiorana, e Marguerite Gautier, a mais cobiçada
cortesã dos salões e teatros parisienses.
22 No original, “Das hat kein Goethe g’schrieben, das hat kein Schiller g’dicht…”.
23 Em inglês, daydreams, literalmente “sonhos diurnos”.
24 Pseudônimo de Adalbert Goldscheider (1848-1916), jornalista e escritor austríaco, autor de
populares histórias de detetive.
25 Karl Friedrich Burdach (1776-1847), �siologista alemão.
26 Hyppolyte Bernheim (1837-1919), médico neurologista francês que trabalhava com métodos
de hipnose e escreveu um livro no qual descrevia métodos, usos e discussões a respeito do
tema. Seu livro foi traduzido para o alemão por Freud.
27 Nikolaus Lenau era o pseudônimo de Nikolaus Franz Niembsch Edler von Strehlenau
(1802-1850), poeta austríaco de língua alemã.
28 Paul Adolf Näcke (1851-1913), psiquiatra e criminologista alemão, conhecido por seus
escritos sobre a homossexualidade e por ter cunhado o termo “narcisismo”, em 1899, para
descrever o sujeito cuja excitação sexual está condicionada à imagem de si ou a coisas que
remetam a si mesmo.
29 Wilhelm Stekel (1868-1940), psiquiatra austríaco. Um dos primeiros seguidores de Sigmund
Freud, com quem fundou a primeira sociedade psicanalítica.
30 Alfred Ernest Jones (1879-1958), neuropsiquiatra e psicanalista galês, além de biógrafo
o�cial de Emil Kraepelin. Introduziu a psicanálise na Grã-Bretanha e foi presidente da
Associação Psicanalítica Internacional.
31 Karl Abraham (1877-1925), psicanalista alemão, um dos primeiros discípulos de Freud, com
quem manteve correspondência. Em certa ocasião, Freud se referiu a ele como “meu melhor
aluno”.
32 Johann Ludwig Uhland (1787-1862), poeta alemão do Romantismo.
33 Otto Rank (Otto Rosenfeld, 1884-1939), psicanalista, escritor, professor e terapeuta austríaco.
34 François Auguste Victor Grignard (1871-1935), químico francês, ganhador do Nobel de
Química (em 1912) pela descoberta do reagente de Grignard, empregado em seguida na síntese
de muitos compostos orgânicos.
35 Expressão latina que signi�ca “a terceira parte da comparação”, ou seja, é a qualidade
comum entre os objetos da comparação: estes não têm necessariamente que ser idênticos,
porém devem ter pelo menos uma qualidade em comum (tradicionalmente referida como
tertium comparationis).
36 Magnus Hirschfeld (1868-1935), médico e sexólogo alemão, fundador do Comitê Cientí�co-
Humanitário e considerado um pioneiro na defesa dos direitos dos homossexuais.
37 Louis Ferdinand Alfred Maury (1817-1892), um dos primeiros estudiosos da tradição
cientí�ca ocidental a teorizar sobre os sonhos. Médico francês, ele acreditava na tese de que os
sonhos são consequências de estímulos externos. O mais conhecido sonho de Maury foi
imortalizado por Freud em A interpretação dos sonhos (1900): ele se vê na Revolução Francesa,
na Época do Terror. Testemunha cenas horríveis de assassinato, é levado ao tribunal e
sentenciado à morte na guilhotina.
38 Edmond Goblot (1858-1935), �lósofo e lógico francês, contemporâneode Émile Durkheim
(1856-1917) e Henri Bergson (1859-1941).
39 W. Robert descreve os sonhos como “um processo somático de excreção do qual nos
tornamos cônscios em nossa reação mental a ele”; a seu ver, os sonhos são excreções de
pensamentos que foram sufocados na origem. Ver Der Traum als Naturnotwendigkeit erklärt
(1886).
40 Félix Louis François de Backer (1850-1928), médico francês, autor de Des hallucinations et
terreurs nocturnes chez les enfants et les adolescentes (1881).
41 George Trumbull Ladd (1842-1921), �lósofo, educador e psicólogo estadunidense.
42 Henry Havelock Ellis 9 (1859-1939), médico, psicólogo, escritor e reformador social britânico,
estudou a sexualidade humana. Foi coautor, em 1897, do primeiro livro médico em inglês
sobre a homossexualidade e também publicou trabalhos sobre uma variedade de práticas e
inclinações sexuais, incluindo a psicologia dos transgêneros.
43 Yves Delage (1854-1920), zoólogo francês conhecido por seu trabalho em �siologia e
anatomia de invertebrados.
44 Theodor Lipps (1851-1914), �lósofo, psicólogo e professor alemão, é mais conhecido por sua
teoria da estética, em especial o conceito de Einfühlung (empatia).
45 Diz-se que o virtuoso violinista italiano do período barroco, Giuseppe Tartini (1692-1770),
sonhou que o diabo lhe apareceu em um sonho, oferecendo-se como seu servo em troca de
sua alma. Antes de aceitar, Tartini o desa�ou a tocar uma melodia no seu violino para testar
suas habilidades. O diabo aceitou e tocou. Os sons que saíram do instrumento foram tão
impressionantes que Tartini perdeu o fôlego, o que o fez despertar. Ao acordar, pegou
imediatamente seu violino, tentando reproduzir a melodia. O resultado não foi o esperado.
Ele disse que, embora essa obra fosse a melhor coisa que ele já compusera na vida (o famoso
“Trillo del Diavolo”), era medíocre em comparação ao que tinha presenciado durante o sono.
46 Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz (1821-1894), matemático, médico e físico
alemão.
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A visão popular, minimamente afetada pela opinião cientí�ca e
desinteressada quanto à origem dos sonhos, mantém-se aferrada à
�rme convicção de que os sonhos realmente têm um signi�cado, de
alguma forma predizem o futuro, e que de algum modo é possível
desvendar seu sentido a partir de um processo de interpretação de seu
conteúdo amiúde bizarro e enigmático.
A leitura dos sonhos consiste em substituir os acontecimentos de um
sonho, tal como é lembrado, por outros acontecimentos. Isso é feito ou
cena por cena, de acordo com alguma chave rígida, ou o sonho em sua
totalidade é substituído por outra coisa da qual era um símbolo.
Sigmund Freud (1856-1939)
Conhecido como “pai da psicanálise”, foi um importante neurologista,
nascido no Império Austríaco, atual território da República Tcheca.
Aos 17 anos, ingressou na Universidade de Viena para cursar
medicina, impulsionado pelo interesse em ciências naturais. Na
década de 1880, trabalhando ao lado do francês Jean-Martin Charcot,
teve contato com o método da hipnose para cura dos histéricos.
Inovando o tratamento das doenças nervosas, elaborou o conceito de
inconsciente, a �m de propor a cura pela palavra.
Psicologia dos sonhos é sua primeira grande publicação.
	Capa
	Frontispício
	Copyright
	Sumário
	Sobre Sigmund Freud
	Sobre a interpretação do sonho na experiência psicanalítica
	Introdução
	Capítulo 1 - Os sonhos têm significado
	Capítulo 2 - O mecanismo dos sonhos
	Capítulo 3 - Por que os sonhos camuflam o desejo
	Capítulo 4 - Análise dos sonhos
	Capítulo 5 - O sexo nos sonhos
	Capítulo 6 - O desejo nos sonhos
	Capítulo 7 - A função dos sonhos
	Capítulo 8 - O processo primário e o primário secundário – Regressão
	Capítulo 9 - O inconsciente e o consciente – Realidade
	Notas do tradutor
	Colofão
	Texto de capa
	Contracapade seu
invariável sucesso. Assim, deve ser su�ciente a�rmar que obteremos
material satisfatório para a resolução de todas as ideias mórbidas ao
dirigirmos nossa atenção especialmente para as associações
espontâneas que perturbam os nossos pensamentos – aquelas que em
outras circunstâncias seriam descartadas pelo crítico como lixo
imprestável. Se o procedimento for exercido pela pessoa sobre si
própria, a melhor maneira de ajudar o experimento é tomar nota, de
imediato, de todas as primeiras ideias de sentido indistinto.
Mostrarei agora aonde leva esse método quando o aplico ao exame
dos sonhos. Qualquer sonho pode ser investigado dessa maneira.
Contudo, por certos motivos, escolherei um que eu mesmo tive, o qual
na minha lembrança parece confuso e sem sentido, e em que haja a
vantagem adicional da brevidade. Provavelmente, o sonho que tive
noite passada atenda a esses requisitos. Seu conteúdo, por mim
registrado por escrito imediatamente após despertar, é o seguinte:
“Na companhia de um grupo de pessoas; à mesa de um restaurante,
ou table d’hôte…13 serve-se espinafre. A sra. E. L., sentada ao meu
lado, me dá toda a sua atenção e coloca a mão no meu joelho, em um
gesto que denota intimidade. Em defesa, retiro a mão dela. Então, ela
diz: ‘Mas você sempre teve olhos tão lindos’. Em seguida, vejo
nitidamente algo como o esboço de dois olhos ou o contorno das lentes
de um par de óculos…”
Este é o sonho em sua totalidade ou, pelo menos, tudo de que
consigo me lembrar dele. Parece-me não apenas obscuro e sem
sentido, mas especialmente bizarro. A sra. E. L. é uma pessoa com
quem raramente tenho contato e com quem, até onde eu saiba, jamais
desejei ter um relacionamento mais estreito. Faz muito tempo que não
a vejo, e não creio que tenha havido qualquer menção a ela
recentemente. Nenhuma emoção acompanhou o processo onírico.
Re�etir sobre esse sonho não o torna nem um pouco mais claro ou
compreensível à minha mente. Não obstante, apresentarei agora, sem
premeditação nem crítica, as ideias que a introspecção produziu. Logo
percebo que é vantajoso decompor o sonho em seus elementos e
procurar as ideias que se ligam a cada fragmento.
“Na companhia de um grupo de pessoas; à mesa de um restaurante, ou
table d’hôte…” Imediatamente minha lembrança evoca o ligeiro
acontecimento com que terminou a noite de ontem. Saí de uma
pequena reunião festiva na companhia de um amigo, que se ofereceu
para me levar para casa em seu táxi. Disse ele: “Eu pre�ro ir de táxi,
porque proporciona uma ocupação das mais agradáveis; sempre há
algo para olhar”. Assim que entramos no táxi, e o motorista acionou o
taxímetro, de modo que os primeiros sessenta hellers �caram visíveis,
dei continuidade ao gracejo. “Mal nos acomodamos no assento e já
estamos devendo sessenta hellers14. O táxi sempre me faz lembrar um
table d’hôte. O taxímetro causa em mim a sensação de ser avarento e
egoísta, por me fazer lembrar continuamente da conta que terei de
pagar. Parece-me que o montante da minha dívida aumenta depressa
demais, e sempre tenho medo de �car em desvantagem, assim como
em um table d’hôte não sou capaz de resistir ao medo cômico de estar
recebendo muito pouco e de que tenho eu mesmo que cuidar dos
meus interesses.” Em uma conexão absurda com isso, cito:
Vós nos conduzis em plena vida.
Vós deixais pecar o pobre.15
Outra ideia acerca do table d’hôte: há algumas semanas, �quei muito
zangado com a minha querida esposa à mesa de jantar em uma
estância de tratamento no Tirol, porque ela não foi su�cientemente
reservada em relação a algumas pessoas sentadas à mesa ao lado, com
as quais eu não desejava ter absolutamente nenhum contato. Implorei
a ela que se ocupasse mais comigo do que com os desconhecidos. Foi
exatamente como se eu estivesse em desvantagem mesmo sem
nenhum table d’hôte. Ocorre-me agora o contraste entre o
comportamento da minha mulher à mesa e o da sra. no sonho: “Me dá
toda a sua atenção”.
Ademais, agora percebo que o sonho é a reprodução de uma breve
cena que ocorreu entre mim e minha esposa quando eu a cortejava em
segredo. A carícia que ela me fez por baixo da mesa foi uma resposta à
apaixonada carta de um pretendente. No sonho, contudo, minha
esposa é substituída pela sra. E. L., com quem eu tenho pouquíssima
familiaridade.
A sra. E. L. é �lha de um homem a quem eu devia dinheiro! Não
posso deixar de notar que aqui se revela uma insuspeitada conexão
entre o conteúdo do sonho e os meus pensamentos. Se for seguido o
encadeamento de associações que procedem de um dos elementos do
sonho, logo seremos reconduzidos a outro de seus elementos. Os
pensamentos evocados pelo sonho suscitam associações que não eram
perceptíveis nele próprio.
Quando um indivíduo espera que outras pessoas cuidem dos
interesses dele sem auferir para si mesmas qualquer vantagem, é
costumeiro que elas façam em tom jocoso a ingênua indagação: “Você
acha mesmo que farei isso só por causa dos seus lindos olhos?”. Daí
decorre que o discurso da sra. E. L. no sonho – “Mas você sempre teve
olhos tão lindos” – não signi�ca nada além de “as pessoas sempre
fazem tudo com você por amor a você; você sempre teve de tudo sem
ter de pagar nada”. Logicamente, a verdade é o contrário: sempre
paguei caro por todas as demonstrações de gentileza de outras pessoas
comigo. Ainda assim, o fato de eu ter ido de carona de graça na noite
passada, quando meu amigo me levou para casa em seu táxi, deve ter
me impressionado.
Em todo caso, o amigo que nos recebeu em casa ontem fez de mim,
em muitas ocasiões, seu devedor. Recentemente, deixei passar uma
oportunidade de reembolsá-lo e acertar de vez as contas. De mim, ele
recebeu apenas um presente, um xale de estilo antigo, ao redor do
qual há olhos pintados, uma peça chamada occhiale, que é um amuleto
contra o malocchio (mau-olhado). Além disso, ele é oftalmologista.
Nessa mesma noite, eu lhe perguntei sobre um paciente que eu
encaminhara a ele em busca de uma receita de óculos.
Como já comentei, quase todas as partes do sonho foram trazidas
para essa nova conexão. Ainda posso conjecturar sobre por que no
sonho serviram espinafre, pois essa hortaliça evocava uma pequena
cena que ocorrera recentemente à nossa mesa. Uma criança, cujos
lindos olhos realmente merecem elogios, recusou-se a comer
espinafre. Quando criança, eu era igual; por muito tempo detestei
espinafre, até que mais tarde na vida meu gosto se modi�cou e essa
hortaliça se tornou um dos meus pratos favoritos. A menção a esse
prato aproxima a minha própria infância da do meu �lho. “Você
deveria estar feliz por ter um pouco de espinafre para comer”, dissera
a mãe ao pequeno gourmet. “Algumas crianças �cariam muito felizes
em comer espinafre.” Assim, relembro os deveres dos pais com os
�lhos. As palavras de Goethe – “Vós nos conduzis em plena vida” –
assumem outro signi�cado nesse contexto.
Pararei por aqui a �m de poder recapitular os resultados da análise
do sonho. Ao seguir as associações ligadas aos elementos isolados do
sonho arrancados de seu contexto, cheguei a uma série de
pensamentos e reminiscências em que sou obrigado a reconhecer
expressões interessantes de minha vida psíquica. O material
produzido pela análise do sonho mantém íntima relação com a sua
essência, mas essa relação é tão especial que eu nunca teria sido capaz
de inferir as novas descobertas diretamente a partir do próprio
conteúdo onírico. O sonho era desprovido de paixão, desconexo e
ininteligível. Durante o período de tempo em que fui desdobrando os
pensamentos por trás do sonho, senti emoções intensas e bem
fundamentadas. Os próprios pensamentos se encaixavam
esplendidamente em encadeamentos lógicos vinculados a certas
ideias centrais que sempre se repetem. Essas ideias não representadas
no próprio sonho são, neste caso, as antíteses egoísta × altruísta, estar
em dívida × receber de graça. Eu poderia aproximar mais os �os da
teia que a análise deslindou e, então, seria capaz de mostrar como
todos eles se agregam em um único ponto fulcral; estou impedido de
tornar público esse trabalhopor considerações de natureza privada, e
não cientí�ca. Depois de ter esclarecido muitas coisas minhas que não
admito de bom grado, eu teria de revelar muitas outras que é melhor
que permaneçam em sigilo. Por que, então, não escolho outro sonho
cuja análise seria mais adequada para publicação, de modo que eu
pudesse despertar uma convicção mais justa do sentido e da coesão
dos resultados revelados pela análise? A resposta é que todo sonho
que eu me propusesse a investigar levaria às mesmas di�culdades e
me colocaria sob a mesma necessidade de discrição; nem mesmo se
analisasse o sonho de outra pessoa eu contornaria essa di�culdade.
Isso só poderia ser feito se a oportunidade permitisse abandonar todo
e qualquer disfarce, sem prejuízo para aqueles que con�am em mim.
A conclusão que agora se impõe a mim é que o sonho é uma espécie
de substituição daquelas linhas de pensamento emocionais e
intelectuais que alcancei após uma análise completa. Ainda não
conheço o processo pelo qual o sonho foi gerado a partir desses
pensamentos, mas percebo que é errôneo considerar o sonho como
algo desimportante em termos psíquicos, um processo puramente
físico resultante da atividade de elementos corticais isolados,
despertados do sono.
Devo, ainda, observar como o sonho é muito mais curto do que os
pensamentos que considero serem substituídos por ele, enquanto a
análise descobriu que o sonho foi instigado por um acontecimento
sem importância na noite anterior a ele.
Naturalmente, eu não tiraria conclusões tão abrangentes se
conhecesse apenas a análise de um único sonho. A experiência me
mostrou que, quando sigo honestamente as associações nascidas de
qualquer sonho, revela-se uma linha de pensamento em que as partes
constituintes do sonho reaparecem, interligadas entre si de forma
correta e sensata; portanto, a mais ligeira suspeita de que essa
concatenação foi um mero acidente fortuito, resultante da observação
de uma primeira experiência, deve ser absolutamente abandonada.
Considero, pois, ter o direito de estabelecer essa nova concepção por
meio de uma terminologia apropriada. Faço o cotejo entre o sonho
que a minha memória evoca e o sonho e outros conteúdos adicionais
revelados pela análise: ao primeiro chamo de “conteúdo manifesto do
sonho”; ao último, sem a princípio sugerir novas subdivisões, de
“conteúdo latente do sonho”. Chego, então, a dois novos problemas até
este momento não formulados: (1) Qual processo psíquico
transformou o conteúdo latente do sonho em seu conteúdo manifesto?
(2) Quais motivos tornaram necessária essa transformação? O processo
por meio do qual é efetuada a mudança do conteúdo latente em
conteúdo manifesto é o que chamo de “trabalho do sonho”. Em
contrapartida a isso, está o trabalho de análise, que produz a
transformação inversa. Em relação aos outros problemas do sonho – a
investigação quanto aos estímulos que os instigam, à origem de seus
conteúdos, a seu possível propósito, à função do sonhar, ao
esquecimento dos sonhos –, estes serão discutidos em conexão com o
conteúdo onírico latente.
Tomarei todos os cuidados a �m de evitar a confusão entre o
conteúdo manifesto e o conteúdo latente, uma vez que atribuo todos
os relatos contraditórios e incorretos da vida onírica à ignorância
acerca do conteúdo latente dos sonhos, agora revelado pela primeira
vez por meio da análise.
A conversão dos pensamentos oníricos latentes em conteúdo
manifesto merece nosso estudo minucioso como o primeiro exemplo
conhecido da transformação da matéria psíquica de um modo de
expressão em outro – de um modo de expressão que, além disso, é
imediata e facilmente inteligível, em outro no qual só podemos
penetrar com o auxílio de esforço e orientação, embora este novo
modo deva ser igualmente considerado um feito de nossa própria
atividade psíquica. Do ponto de vista da relação entre o conteúdo
onírico latente e o conteúdo manifesto, os sonhos podem ser divididos
em três classes.
Podemos, em primeiro lugar, distinguir a categoria dos sonhos que
têm um signi�cado e são, ao mesmo tempo, inteligíveis, e que nos
permitem penetrar sem mais delongas na nossa vida psíquica. Esses
sonhos são inúmeros; geralmente curtos, via de regra não são
chamativos nem parecem merecer muita atenção, pois a eles falta tudo
o que é extraordinário, surpreendente ou empolgante. A sua
ocorrência é, ademais, um forte argumento contra a doutrina segundo
a qual os sonhos se originam da atividade isolada de certos elementos
corticais. Faltam todos os sinais de uma atividade psíquica diminuída
ou subdividida. No entanto, nunca levantamos qualquer objeção a que
sejam caracterizados como sonhos, tampouco os confundimos com os
produtos da nossa vida de vigília.
Um segundo grupo é formado por aqueles sonhos que de fato têm
sua própria coerência e um signi�cado distinto, mas parecem
mirabolantes porque somos incapazes de conciliar o seu signi�cado
com a nossa vida mental. É o que acontece quando sonhamos, por
exemplo, que algum ente querido morreu vitimado por sintomas da
peste, quando sabemos não ter nenhum fundamento lógico para
esperar, recear ou presumir algo do tipo; podemos apenas nos
perguntar, em tom de assombro: “Como essa ideia entrou na minha
cabeça?”.
Ao terceiro grupo pertencem os sonhos que são desprovidos de
signi�cado e inteligibilidade; são incoerentes, confusos, complexos e
sem sentido. Um número esmagador de nossos sonhos tem essa
natureza, e isso deu origem à atitude desdenhosa em relação a eles e
fundamentou a teoria médica de que os sonhos têm uma atividade
psíquica limitada. É sobretudo nas tramas oníricas mais longas e
intrincadas que raramente faltam sinais de incoerência.
O contraste entre o conteúdo onírico manifesto e o conteúdo onírico
latente, claro está, tem valor apenas para os sonhos da segunda
categoria e, de modo mais especial, para os do terceiro grupo. É aí que
nos deparamos com problemas que só serão resolvidos quando o
sonho manifesto for substituído por seu conteúdo latente. Foi um
exemplo desse tipo, um sonho complicado e ininteligível, que
submetemos à análise. Contrariando nossas expectativas, porém,
encontramos razões que impediram um conhecimento completo do
pensamento onírico latente. Na repetição de experiências
semelhantes, fomos forçados a supor que existe um vínculo íntimo,
regido por leis próprias, entre a natureza ininteligível e complicada do
sonho e as di�culdades inerentes a comunicar os pensamentos aos
sonhos a eles relacionados. Antes de investigar a natureza desse
vínculo, será vantajoso voltar nossas atenções para os sonhos mais
facilmente inteligíveis do primeiro grupo, no qual, sendo o conteúdo
manifesto e o latente idênticos, parece haver uma omissão do trabalho
do sonho.
A averiguação desses sonhos também é aconselhável de outro ponto
de vista. Os sonhos das crianças são dessa natureza, têm signi�cado e
não são bizarros. A propósito, essa é mais uma objeção à noção que
reduz os sonhos a uma dissociação da atividade cerebral durante o
sono; a�nal, por que essa redução das funções psíquicas deveria ser
uma característica da índole do sono dos adultos, mas não do das
crianças? Temos, no entanto, plenas justi�cativas para esperar que a
explicação dos processos psíquicos nas crianças, por mais
essencialmente simpli�cados que possam ser, sirva como uma
preparação indispensável para a psicologia do adulto.
Citarei, assim, alguns exemplos de sonhos de crianças por mim
coligidos. Uma menina de 19 meses de vida foi obrigada a �car um dia
sem se alimentar porque passou mal pela manhã e, segundo a babá,
vomitou por ter comido morangos. Durante a noite, após um dia
inteiro em jejum, ouviram a menina chamar o nome da babá durante
o sono, acrescentando: “Muango, óvus, papinha”. Ou seja, estava a
sonhar que comia e selecionou em seu cardápio exatamente os
alimentos que, ela supõe, não lhe dariam em grandes quantidades
naquele momento.
Um menino de 22 meses de vida teve o mesmo tipo de sonho sobre
um alimento proibido. No dia anterior, fora instruído a oferecer ao tio
de presenteuma cestinha de cerejas, das quais a criança, é claro, só
pôde provar uma. Ele acordou com a alegre notícia: “O Hermann
comeu todas as cerejas”.
Uma menina de 3 anos e meio fez, durante o dia, um passeio de
barco que, a seu ver, foi curto demais, e chorou quando teve de
desembarcar. Na manhã seguinte, contou a história de que, durante a
noite, tinha estado no mar, continuando a viagem marítima
interrompida.
Um menino de 5 anos e meio não �cou nada satisfeito com seu
grupo durante um passeio pelos arredores da região da montanha de
Dachstein, na Áustria. Sempre que avistava um novo pico, ele
perguntava se aquele era o Dachstein e, por �m, se recusou a
acompanhar o grupo até a cachoeira. Seu comportamento foi
atribuído ao cansaço; mas uma explicação melhor surgiu quando, na
manhã seguinte, o menino relatou seu sonho: ele havia de fato subido o
Dachstein. Ficou claro que sua expectativa era a de que a caminhada
até o Dachstein fosse o objetivo da excursão, e �cou irritado por não
ter vislumbrado a montanha. O sonho lhe deu o que o dia lhe havia
negado.
Uma menina de 6 anos teve um sonho semelhante: por causa do
adiantado da hora, o pai dela abreviou uma caminhada antes de
atingirem o objetivo prometido. No caminho de volta, a menina notou
uma placa informando o nome de outro lugar onde se realizavam
excursões; o pai prometeu levá-la lá também, em alguma outra
ocasião. No dia seguinte, ela deu ao pai a notícia de que havia sonhado
que ele havia ido com ela nos dois lugares.
O que há de elemento comum em todos esses sonhos é por demais
óbvio: eles realizam plenamente desejos que, instigados durante o dia,
permaneceram irrealizados. São, de forma simples e indisfarçável,
realizações dessas vontades.
O seguinte sonho infantil, não muito compreensível à primeira
vista, nada mais é do que um desejo realizado: por causa de sintomas
da poliomielite, uma menina de menos de 4 anos de idade foi levada
do campo para a cidade e passou a noite na casa de uma tia sem �lhos,
onde dormiu em uma cama grande – para ela, naturalmente, era uma
cama imensa. Na manhã seguinte, a menina contou que havia
sonhado que a cama era pequena demais para ela, e a falta de espaço era
tanta que ela não cabia. Explicar esse sonho como um desejo é fácil
quando lembramos que “ser grande” é um desejo expresso com
frequência por todas as crianças. Para a senhorita-pequenina-que-
queria-ser-grande, as dimensões da cama serviram como um violento
lembrete de sua própria pequenez. Essa situação desagradável foi
corrigida no sonho da menina, em que cresceu tanto que a cama �cou
pequena demais para ela.
Mesmo quando os sonhos das crianças são complexos e
requintados, �ca bastante evidente que devem ser compreendidos
como a realização de um desejo. Um menino de 8 anos sonhou que
estava sendo conduzido com Aquiles em um carro de combate guiado
por Diomedes. No dia anterior, estava lendo vorazmente um livro
sobre grandes heróis da Grécia Antiga. É fácil demonstrar que ele
tomou esses heróis como modelos e lamentava não ter vivido naquela
época.
Nesse pequeno conjunto de exemplos, manifesta-se mais uma
característica dos sonhos das crianças: a sua ligação com a vida diurna.
Os desejos realizados nesses sonhos são resquícios do dia ou, via de
regra, da véspera, e o sentimento tornou-se intensamente enfatizado e
�xado nos pensamentos diurnos. Episódios fortuitos e insigni�cantes,
ou o que assim pareçam à criança, não encontram aceitação no
conteúdo do sonho.
Inúmeros exemplos desses sonhos do tipo infantil também podem
ser encontrados entre adultos, mas, como mencionado, estes são, em
sua maioria, exatamente iguais ao conteúdo manifesto. Em geral, um
grupo de pessoas selecionadas aleatoriamente responderá à sede
noturna com um sonho em que está bebendo algo, esforçando-se,
assim, para se livrar da sensação de sede e permitir a continuidade do
sono. Muitas pessoas costumam ter esses sonhos reconfortantes pouco
antes de acordar, justamente quando são chamadas a sair da cama.
Sonham, então, que já estão de pé, que estão tomando banho, ou que
já estão na escola, no escritório etc., onde terão de estar em
determinado horário. Na noite de véspera de uma viagem marcada,
não é raro a pessoa sonhar que já chegou ao destino; antes de ir a uma
peça teatral ou a uma festa, não é incomum que o sonho antecipe, por
assim dizer, via impaciência, o prazer esperado. Outras vezes, o sonho
expressa a realização do desejo de forma um tanto indireta; é
necessário conhecer alguma conexão, alguma sequência – é o
primeiro passo para reconhecer o desejo. Assim, quando um marido
me contou o sonho de sua jovem esposa de que sua menstruação
havia começado, tive de conjecturar que ela devia ter esperado uma
gravidez caso a menstruação não tivesse ocorrido. O sonho é, portanto,
um anúncio da gestação. Seu signi�cado é mostrar o desejo realizado
de que a gravidez não ocorra ainda. Em circunstâncias singulares e
extremas, esses sonhos do tipo infantil tornam-se muito frequentes.
Por exemplo, o líder de uma expedição polar conta-nos que, durante o
rigoroso inverno que passaram no meio do gelo, vivendo à base de
uma dieta monótona e de escassas porções de comida, os membros de
sua equipe sonhavam regularmente, feito crianças, com fartas
refeições, com montanhas de tabaco e que estavam de volta a seu
próprio lar.
Não é incomum que, em um sonho longo, complexo e intrincado, se
destaque uma parte especialmente lúcida, contendo de forma
inequívoca a realização de um desejo, mas atrelada a um material
ininteligível. Ao analisarmos com frequência os sonhos
aparentemente mais transparentes dos adultos, é surpreendente
constatar que estes quase nunca são tão simples como os sonhos das
crianças e que abrangem outro signi�cado além do da realização de
um desejo.
Seria certamente uma solução simples e conveniente para o enigma
se o trabalho de análise nos habilitasse a encontrar a origem dos
sonhos intricados e sem sentido dos adultos nos sonhos do tipo
infantil, que consistem na realização de algum desejo intensamente
vivenciado durante o dia. Mas não há justi�cativa para essa
expectativa. Os sonhos dos adultos geralmente estão repletos dos
materiais mais insigni�cantes e bizarros, e em seu conteúdo não se
encontra nenhum vestígio da realização de qualquer desejo.
Antes de abandonarmos os sonhos infantis, que são obviamente
desejos irrealizados, não podemos deixar de mencionar outra
importantíssima característica dos sonhos, que já foi notada há muito
tempo e que se destaca com mais clareza nessa categoria. Posso
substituir qualquer um desses sonhos por uma frase que expresse um
desiderato: “Se o passeio de barco tivesse durado um pouco mais de
tempo; se eu estivesse limpo e vestido; se eu tivesse permissão para
�car com as cerejas em vez de entregá-las ao meu tio”. Mas o sonho
oferece algo mais do que a escolha, pois nele o desejo já está realizado;
sua realização é real e efetiva. As representações dos sonhos
consistem, sobretudo, se não totalmente, de cenas e, em grande
medida, de imagens sensoriais visuais. Por conseguinte, não está
inteiramente ausente nessa classe de sonhos uma espécie de
transformação que pode, com justeza, ser denominada “trabalho do
sonho”. Uma ideia que existe meramente na região da possibilidade é
substituída por uma visão da sua realização.
S omos compelidos a supor que uma transformação da cena
ocorreu também nos sonhos intrincados, embora não saibamos se
nesse caso houve a realização de algum desejo possível. O sonho
citado no início, que analisamos com certa minúcia, deu-nos ensejo,
em dois trechos, para suspeitar de algo dessa natureza. A análise
revelou que minha esposa estava ocupada com outras pessoas à mesa
e que eu não gostei disso; no sonho em si ocorre exatamente o oposto,
pois a pessoa que substitui minha esposa me dá toda a sua atenção.
Contudo, após uma experiência desagradável, pode alguém
manifestar algo mais prazeroso do que o desejo de que exatamente o
contrário tivesse ocorrido, tal como se passou no sonho? O
pensamentopungente na análise, de que nunca recebi nada de graça,
está igualmente ligado à observação da mulher no sonho: “Você
sempre teve olhos tão lindos”. Portanto, parte da oposição entre o
conteúdo latente do sonho e o conteúdo manifesto do sonho deve ser
atribuída à realização de um desejo.
Outra manifestação do trabalho do sonho que todos os sonhos
incoerentes têm em comum é ainda mais notável. Escolha qualquer
exemplo e compare o número de elementos separados nele, ou a
extensão do sonho, se foi registrado por escrito, com os pensamentos
oníricos produzidos pela análise, e dos quais apenas um vestígio pode
ser reencontrado no próprio sonho. Não pode haver dúvida de que o
trabalho do sonho resultou em uma extraordinária compressão ou
condensação. A princípio, não é fácil formar uma opinião em relação à
extensão da condensação. Quanto mais nos aprofundamos na análise,
mais intensamente �camos impressionados com ela. Não se
encontrará no sonho nenhum fator cujos encadeamentos de
associações não conduzam em duas ou mais direções, nenhuma cena
que não tenha sido montada a partir de duas ou mais impressões e
eventos. Por exemplo: certa vez sonhei com uma espécie de piscina na
qual os banhistas subitamente se espalhavam em todas as direções.
Em um ponto da borda, havia uma pessoa de pé, curvada em direção a
um dos banhistas, como se quisesse arrastá-lo para fora da água. A
cena era um emaranhado de microcenas e se constituía da aglutinação
da lembrança de um acontecimento ocorrido na minha adolescência e
duas imagens, de dois quadros, um dos quais eu tinha visto pouco
antes do sonho. Os dois quadros eram A surpresa no banho, do “Ciclo de
Melusina”, de [Moritz Ludwig von] Schwind (observe os banhistas que
no sonho se separam repentinamente), e O dilúvio, de um mestre
italiano. Já o pequeno incidente de minha puberdade foi que certa vez
presenciei uma senhora, que havia se demorado na piscina até o
horário reservado aos banhistas homens, sendo ajudada a sair da água
pelo instrutor de natação. A cena do sonho selecionada para análise
deu origem a todo um conjunto de reminiscências, cada uma das
quais contribuiu para o conteúdo do sonho. Em primeiro lugar, veio o
pequeno episódio do meu namoro com a minha esposa, ao qual já �z
menção; a pressão de uma mão sob a mesa deu origem, no sonho, ao
“debaixo da mesa” para o qual tive posteriormente de encontrar um
lugar na minha lembrança. É claro que no momento do episódio não
havia nenhuma palavra sobre “Me dá toda a sua atenção”. A análise
me ensinou que esse fator é a realização de um desejo por meio de seu
contrário e está relacionado ao comportamento de minha esposa à
mesa de jantar no table d’hôte. Um episódio exatamente semelhante e
muito mais importante desse período do nosso namoro, em que
�camos separados durante um dia inteiro, está escondido por trás
desta lembrança recente. A intimidade, a mão apoiada no joelho,
refere-se a uma conexão bem diferente e dizia respeito a outras
pessoas. Por sua vez, esse elemento do sonho torna-se novamente o
ponto de partida de duas séries distintas de reminiscências, e assim
por diante.
A matéria dos pensamentos oníricos, que foi acumulada para a
formação da cena onírica, deve ser naturalmente adequada para essa
aplicação. Deve haver um ou mais fatores comuns. O trabalho do
sonho prossegue como Francis Galton16 com suas fotogra�as de
família. Os diferentes componentes se sobrepõem uns aos outros; o
que é comum à imagem composta se destaca claramente, os detalhes
opostos se cancelam entre si. Esse processo de reprodução explica em
parte as a�rmações vacilantes, de uma imprecisão peculiar, em tantos
elementos do sonho. Para a interpretação dos sonhos, vale a seguinte
regra: quando a análise revela incerteza, na forma de um “ou isto…, ou
aquilo”, devemos substituí-la por “e”, tomando cada uma das seções
das aparentes alternativas como uma via de escape separada para uma
série de impressões.
Quando não há entre os pensamentos oníricos nenhum elemento
em comum, o sonho se dá ao trabalho de criar algo a �m de viabilizar
uma representação comum nele. A maneira mais simples de
aproximar dois pensamentos oníricos, que até agora nada têm em
comum, consiste em fazer uma alteração na expressão real de uma
ideia que satisfaça uma ligeira reformulação responsiva na forma da
outra ideia. O processo é análogo ao da elaboração de rimas, em que a
consonância fornece o fator comum desejado. Grande parte do
trabalho do sonho consiste na criação dessas digressões amiúde muito
engenhosas, mas outras vezes exageradas, que variam da apresentação
comum no conteúdo do sonho a pensamentos oníricos que são tão
variados quanto as causas da forma e essência que dão origem aos
sonhos. Na análise do nosso sonho-exemplo, encontro um caso
semelhante de transformação de um pensamento para que possa
coadunar-se com outro que lhe é essencialmente estranho. Ao
prosseguir a análise, deparei-me com o seguinte pensamento: “Eu
gostaria de receber algo de graça”. Mas essa fórmula não é útil ao
sonho. Por isso, é substituída por outra: “Eu gostaria de desfrutar de
algo sem ter de pagar”.I A palavra kost (“custo” ou “gosto”), com sua
dupla acepção, é apropriada para um table d’hôte; além disso, o
vocábulo está presente pelo sentido especial do sonho. Em casa, se
houver um prato que as crianças recusem, a mãe primeiro tenta uma
persuasão delicada, com um “Apenas experimente um pouco, sinta o
gosto”. O fato de o trabalho do sonho usar sem hesitação a
ambiguidade da palavra é certamente digno de nota; a ampla
experiência mostrou, entretanto, que se trata de uma ocorrência das
mais comuns.
Por meio da condensação do sonho, tornam-se explicáveis certas
partes constituintes de seu conteúdo, componentes que são peculiares
apenas à vida onírica e que não são encontradas no estado de vigília.
Tratam-se das pessoas compósitas e mistas, as extraordinárias �guras
compostas, criações comparáveis às fantásticas composições da
imaginação dos orientais; basta um momento de re�exão, e esses seres
são reduzidos à unidade, ao passo que as fantasias do sonho adquirem
sempre novas formas, em uma profusão perpétua e inesgotável. Todos
estamos familiarizados com essas imagens em nossos próprios sonhos;
múltiplas são suas origens. Em meu sonho, posso construir uma
pessoa tomando emprestada uma característica de fulano e outra de
sicrano, ou dando à forma de uma o nome de outra. Posso, também,
visualizar uma pessoa, mas colocá-la em uma situação que ocorreu a
outrem. Há um signi�cado em todos esses casos, quando pessoas
diferentes são amalgamadas em um substituto. Tais casos denotam
um “e”, um “igual a”, uma comparação da pessoa original de um
determinado ponto de vista, comparação que também pode ser
realizada no próprio sonho. Via de regra, porém, a identidade das
pessoas mescladas somente pode ser descoberta pela análise e, no
conteúdo do sonho, é indicada apenas pela formação da pessoa
“combinada”.
A mesma diversidade em seus modos de formação e as mesmas
regras para sua solução valem, também, para a profusa mescla de
conteúdos oníricos, e nem sequer preciso citar exemplos. Sua
estranheza desaparece por completo tão logo decidimos não os
colocar no mesmo nível dos objetos de percepção que conhecemos
quando estamos acordados, mas, sim, lembramo-nos de que
representam a arte da condensação onírica pela exclusão de detalhes
desnecessários. Ganha destaque o caráter comum da combinação. De
maneira geral, a análise também deve fornecer as características
comuns. O sonho diz apenas: Todas essas coisas têm em comum um
elemento “x”. A decomposição dessas imagens mistas por meio da
análise costuma ser o caminho mais rápido para a interpretação do
sonho. Assim, certa vez sonhei que estava sentado com um de meus
antigos professores universitários em um banco, que se remexia em
um movimento veloz e contínuo em meio a outros bancos. Era uma
combinação de sala de aula e uma passarela rolante17. Não levarei mais
adiante o resultado posterior do pensamento. Em outra ocasião, eu
estavasentado no interior de uma carruagem e no meu colo havia um
objeto em formato de cartola, mas que era de vidro transparente18. De
imediato, a cena me trouxe à mente o provérbio: “Quem segura �rme o
chapéu percorre o terreno em segurança”19. Com um ligeiro giro, o
chapéu de vidro me fez lembrar da luz de Auer, e eu sabia que estava
prestes a inventar algo que me tornaria tão rico e independente
quanto sua invenção tornara meu compatriota, o dr. Auer, de
Welsbach20; aí eu poderia viajar em vez de permanecer em Viena. No
sonho, eu viajava com minha invenção, aquela cartola de vidro, que,
verdade seja dita, era bastante bizarra. O trabalho do sonho é
peculiarmente hábil em representar duas concepções contraditórias
por meio da mesma imagem mista. Assim, por exemplo, uma mulher
sonhou que carregava uma �or de talo comprido, como na imagem da
Anunciação (Maria Castidade é o nome dela), mas esse talo estava
enfeitado com grossas �ores brancas assemelhadas a camélias
(contraste com castidade: A dama das camélias)21.
Grande parte do que chamamos de “condensação de sonho” pode
ser formulada assim. Cada um dos elementos do conteúdo do sonho é
sobredeterminado pelo material dos pensamentos oníricos; esse
conteúdo não decorre de um único elemento desses pensamentos,
mas de toda uma série deles. Estes não estão necessariamente
interligados de alguma forma, mas podem pertencer às mais diversas e
distantes esferas de pensamento. O elemento onírico representa
verdadeiramente toda essa disparidade de material no conteúdo do
sonho. Além disso, a análise revela um outro lado da relação entre o
conteúdo dos sonhos e os pensamentos oníricos. Assim como um
elemento do sonho leva a associações com vários pensamentos
oníricos, também, via de regra, um pensamento onírico isolado
representa mais de um elemento onírico. Os �os da associação não
convergem simplesmente dos pensamentos oníricos para o conteúdo
onírico, mas, ao longo do caminho, eles se sobrepõem, se entrecruzam
e se entrelaçam em todos os sentidos.
Juntamente com a transformação de um pensamento em cenas (sua
“dramatização”), a condensação é o traço mais importante e mais
característico do trabalho do sonho. Até o momento, não temos ideia
do motivo que leva a essa compressão do conteúdo.
Nos sonhos complexos e intrincados de que nos ocupamos agora, a
condensação e a dramatização não bastam para explicar totalmente a
diferença entre o conteúdo onírico e os pensamentos oníricos. Há
evidências de que está em ação um terceiro fator, que merece exame
meticuloso.
Quando cheguei à compreensão dos pensamentos oníricos por
meio da minha análise, notei, acima de tudo, que o material do
conteúdo manifesto do sonho é muito diferente daquele do conteúdo
latente. Isso é, admito, uma diferença apenas aparente, que se dissipa
após uma investigação mais detalhada, pois, no �m, acabo por
descobrir todo o conteúdo do sonho realizado nos pensamentos
oníricos, quase todos os pensamentos oníricos novamente
representados no conteúdo do sonho. No entanto, resta de fato certa
diferença.
O conteúdo essencial que sobressaiu de forma clara e ampla no
sonho deve, após a análise, contentar-se com um papel muito
subalterno entre os pensamentos oníricos. Esses mesmos
pensamentos, que, segundo meus sentimentos, têm direito a
reivindicar o maior destaque, ou não estão presentes no conteúdo do
sonho, ou são representados apenas por uma ou outra alusão remota
em alguma região obscura do sonho. Posso, então, descrever esses
fenômenos da seguinte maneira: durante o trabalho do sonho, a
intensidade psíquica de pensamentos e concepções aos quais o sonho
pertence propriamente �ui para outros, que, a meu juízo, não têm
direito algum a essa ênfase. Não existe outro processo que contribua
tanto para ocultar o signi�cado do sonho e para tornar irreconhecível
a ligação entre o conteúdo dele e as ideias oníricas. No decurso desse
processo, que chamarei de “deslocamento onírico”, noto também que
a intensidade psíquica, o signi�cado ou a natureza emocional dos
pensamentos são transpostos na forma de vividez sensorial. O que
estava mais nítido no sonho parece-me, sem maiores considerações, o
mais importante; muitas vezes, porém, em algum elemento obscuro do
sonho posso reconhecer o derivado mais direto do pensamento
onírico principal.
Eu só poderia designar esse deslocamento onírico como a
“transvaloração dos valores psíquicos”. Os fenômenos não terão sido
examinados em todos os seus aspectos a menos que eu acrescente que
esse deslocamento ou transvaloração é partilhado por diferentes
sonhos em graus extremamente variados. Há sonhos que acontecem
quase sem deslocamento algum. Estes têm o mesmo tempo,
signi�cado e inteligibilidade que encontramos nos sonhos que
registraram um desejo. Já em outros sonhos, nem um naco sequer da
ideia onírica reteve seu próprio valor psíquico, ou tudo o que era
essencial nessas ideias oníricas foi substituído por coisas triviais,
embora seja possível encontrar todo tipo de transição entre essas
condições. Quanto mais obscuro e intrincado for um sonho, maior
será a parcela a ser atribuída ao ímpeto de deslocamento em sua
formação.
O exemplo que escolhemos para nossa análise mostra pelo menos
um bocado de deslocamento – que o seu conteúdo tem um centro de
interesse diferente do das ideias oníricas. No primeiro plano do
conteúdo do sonho, a cena principal parece mostrar que uma mulher
quer se insinuar para mim com investidas amorosas; no pensamento
onírico, o interesse principal repousa no desejo de desfrutar um amor
desinteressado, que “não custará nada”; essa ideia está por trás da fala
dela sobre os “lindos olhos” e a rebuscada alusão ao “espinafre”. Se
abolirmos do sonho o deslocamento, chegaremos, via análise, a
conclusões bastante acertadas a respeito de dois problemas muito
controversos acerca dos sonhos, a saber: o que provoca os sonhos; e
qual é a conexão dos sonhos com a nossa vida de vigília. Há sonhos
que revelam clara e imediatamente suas ligações com os
acontecimentos do dia; em outros, não se encontra nenhum vestígio
dessa conexão. Com a ajuda da análise, pode-se demonstrar que cada
sonho, sem qualquer exceção, está ligado a nossas impressões do dia,
ou talvez seja mais correto dizer do dia anterior ao sonho. As
impressões que fazem as vezes de instigadores dos sonhos podem ser
tão importantes que não nos surpreendemos por nos ocuparmos delas
enquanto estamos acordados; neste caso, estamos certos ao dizer que
os sonhos dão continuidade aos interesses mais relevantes da nossa
vida de vigília. O mais comum, porém, quando os sonhos contêm algo
relacionado às impressões do dia, é tratar-se de algo tão trivial,
irrelevante e digno de esquecimento que somente à custa de muito
esforço conseguimos recordá-lo. Por conseguinte, o conteúdo dos
sonhos, mesmo quando coerente e inteligível, parece dizer respeito às
ninharias de pensamento, banalidades tão insigni�cantes que não
merecem o nosso interesse quando estamos acordados. A depreciação
dos sonhos se deve em grande medida à predominância em seu
conteúdo de trivialidades irrelevantes e imprestáveis.
A análise destrói a aparência na qual se baseia esse julgamento
depreciativo. Quando o conteúdo onírico não revela nada além de
alguma impressão insigni�cante como fator instigador dos sonhos, a
análise sempre indica algum evento signi�cativo, o qual foi substituído
por algo insigni�cante com que se estabeleceu abundantes vínculos.
Quando os sonhos se ocupam de concepções desinteressantes e
desimportantes, a análise revela os numerosos caminhos associativos
que conectam o trivial ao crucial na avaliação psíquica do indivíduo
sonhador. Se o que é insigni�cante obtém reconhecimento no
conteúdo onírico em vez das impressões que são de fato o estímulo, ou
no lugar das coisas de efetivo interesse, isso é apenas a ação de
deslocamento. Ao responder às questões sobre o que incita os sonhos
e quais os vínculos deles com os problemas cotidianos, devemos
concluir, em termos do discernimento que nos foi dado pela
substituição

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