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DIREITO DE FAMÍLIA RODRIGO GONÇALVES U N I D A D E 1 UNIDADE 1| INTRODUÇÃO Por nosso senso comum, o nosso conceito de família primeiramente nos remete a uma imagem de pais e filhos agregados em uma mesma moradia, mediante laços fortes de natureza advindos da biologia. Embora esse conceito decorra de uma verdade proposta por um longo processo de construção natural e histórica, nos últimos séculos, podemos acompanhar uma mudança social que diversifica esse conceito. Fonte: pixabay. UNIDADE 1 | OBJETIVOS 1. Definir o conceito, o objeto e a natureza jurídica do direito de família. 2. Aplicar os princípios do direito de família. 3. Discernir sobre os novos arranjos familiares. 4. Compreender o sistema de proteção jurídica à família. NATUREZA JURÍDICA DO DIREITO DE FAMÍLIA Por muitos e muitos séculos, a religião e o estado caminharam lado a lado. Nas mais variadas culturas, era comum um sentimento voltado ao patrimonialismo. Ou seja, mais do que a união de uma entidade familiar, as sociedades entendiam que havia uma fusão patrimonial. Nesse sentido, uma família era uma composição de um homem e uma mulher, com a finalidade de constituição de um patrimônio e de uma descendência familiar. Fonte: pixabay. O ato constitutivo de um matrimônio era algo que havia tanta solidez, que na Antiguidade Clássica, esta reunião de pessoas para constituição de uma família recebia o nome de epístion, ou seja, “aquilo que está junto ao fogo” (COULANGES, 2004 p.26). Os atos jurídicos passavam pelo crivo da religião, e através dela havia a autenticidade que família precisavam para lograr a união. Não havia, em princípio um controle de natalidade familiar. Os filhos eram entendidos como bênçãos e frutos sagrados da união. E a linhagem era formada pelos parentes do sexo masculino por linha. Com o crescimento populacional e a ampliação das relações interpessoais, aliadas ao distanciamento do laço religioso formador, as entidades familiares foram estatuindo regras pautadas nos laços cognáticos, ou seja, aqueles que vislumbram nome (descendência) e consanguinidade (laços biológicos). Mais tarde, o termo família iria sair do radical latino famel, que significa servo ou conjunto de escravos pertencentes ao mesmo patrão (FARIAS; ROSENVALD, 2010 p. 09). Consolida-se aqui, portanto, a figura do paterfamilias — ou patriarca, pois é do pai a responsabilidade e a chefia de toda a família Já na Idade Média, a família contraiu um pensamento de natureza econômica, constituindo-se, além dos ditos acima, uma unidade de produção. “Cada lar era uma pequena oficina, da qual todos os membros da família retiravam sua subsistência” (VENOSA, 2013 p. 05). O Decreto nº 180 foi um marco, instituía que o casamento civil ou o religioso eram as únicas formas válidas de instituição de uma família, tornando qualquer outro padrão familiar marginalizado pelo Estado. Nesse sentido, dentre outras garantias, a Constituição Federal de 1988, por meio dos parágrafos do artigo 226, bem como dos artigos 227 a 230, trouxe indicadores legais e abriu uma janela para uma revisão de toda uma codificação civil, uma vez que esta carta legal elevou o direito de família ao âmbito constitucional, abrindo para nós as portas para novas conceituações de família. HOJE, NO ÂMBITO DO DIREITO DE FAMÍLIA Hoje, no âmbito do direito de família, considera-se entidade familiar qualquer agrupamento humano fundado no afeto e/ou por laços consanguíneos, consolidados a partir de um casamento (ato formal), devendo todos os membros serem respeitados e protegidos com a finalidade de ter seus potenciais desenvolvidos de forma sã no espaço em que convivem. Fonte: pixabay. O conceito jurídico de família ainda era restrito, uma vez que, em 1988, mesmo com uma nova conceituação nascente devido a uma a constituição, o código civil vigente era o de 1916, além disso, embora a lei já mencionada seja um grande avanço, ela não tratou de conceituar família, deixando a jurisprudência avançar nesse debate. No que tange ao direito familiar, o Código Civil de 2002 avança no reconhecimento de outras entidades familiares formadas a partir de relações baseadas no afeto, mas não estão formalmente inseridas nos moldes matrimoniais legais, como a união estável, famílias monoparentais, anaparentais, homoafetivas, entre outras tantas. A Lei nº 10.836/2004, que institui o Bolsa Família, conceitua família como uma unidade nuclear, eventualmente ampliada por outros indivíduos que com ela possuam laços de parentesco ou de afinidade, que forme um grupo doméstico vivendo sob o mesmo teto e que se mantém pela contribuição de seus membros. Na contemporaneidade, não se pode cogitar mais que o Poder Público possa impedir o pleno exercício do afeto inserido nas garantias legais da dignidade e da liberdade dos constituintes de conduzirem suas opções de vida e suas formas de constituição familiar. O direito de família repousa em duas grande pilastras, quais sejam: o direito existencial de família, firmado na pessoa humana, e, assim, fazendo parte de normas correlacionadas à ordem pública, advindas primeiramente da Constituição Federal; e o direito patrimonial de família, cujas raízes encontram-se no direito privado propriamente dito, com o foco no patrimônio. PRINCÍPIOS DO DIREITO DE FAMÍLIA Pela leitura do Código Civil atual, é nulo o contrato em que os companheiros em uma união estável renunciem, por forma direta ou indireta, ao direito aos alimentos. Em contrapartida, é válido o contrato de convivência, ou seja, aquele em que os pactuantes em regime de união estável firmam as cláusulas concernentes aos efeitos patrimoniais da relação (art. 1.725 do CC). Fonte: pixabay. O código civil, no que concerne à organização das leis relativas ao direito de família, demonstra essa divisão como tendência. Os arts. 1.511 a 1.638 tratam do direito pessoal ou existencial. Já os arts. 1.639 a 1.722 prelecionam o direito patrimonial e correlatos. Princípio de proteção da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF/1988): Em um plano geral, podemos dizer que a dignidade humana deve ser abalizada a partir da realidade a qual o ser humano encontra-se inserido em seu contexto social. Por exemplo, podemos introjetar a incidência da dignidade humana nas relações familiares, nos casos em que haja o abandono paterno-filial (abandono afetivo). PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE FAMILIAR (ART. 3º, I, DA CF/1988) A solidariedade social está consagrada como objetivo fundamental da República Federativa do Brasil, conforme redação dada pelo art. 3º, inc. I, da CF/1988. Tal princípio encontra berço no direito de família, uma vez que a entidade familiar está fundada na solidariedade recíproca. Fonte: pixabay. Sobre a solidariedade patrimonial, é importante destacar que o CC/2002 trouxe incrementos interessantes. Consta no art. 1.694, § 2º do CC, que o cônjuge culpado pelo fim do relacionamento pode pleitear os alimentos necessários, ou seja aqueles que são indispensáveis à sobrevivência, face ao cônjuge inocente. Ressalva-se que isso só poderá ser proposto caso o cônjuge culpado não tenha condições para o trabalho, tampouco parentes em condições de prestar os alimentos. É o que diz a redação do art. 1.704, parágrafo único, do CC. Princípio da não intervenção ou da liberdade (art. 1.513 do CC): No art. 1.513 do CC Brasileiro, é constante que “é defeso a qualquer pessoa de direito público ou direito privado interferir na comunhão de vida instituída pela família”. Trata-se aqui de uma ramificação do princípio da liberdade. No direito de família, dizemos que trata-se do princípio da não intervenção na ótica do direito de família. Princípio do maior interesse da criança e do adolescente (art. 227, caput, da CF/1988 e arts. 1.583 e 1.584 do CC): Fala-se que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito,à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Princípio da afetividade: Esta é, sem dúvida, uma das grandes inovações lógicas do novo CC de 2002, pois, como já dissemos, a construção do entendimento de família perpassou os laços sanguíneos para dar espaço aos laços afetivos, e estes, por sua vez, são sim a grande fonte que realmente une as famílias. Princípio da função social da família (art. 226, caput, da CF/1988): A família é a célula de uma sociedade, é por ela e para o bem-estar dela que se iniciam todas as transformações sociais. Enquanto de um lado a Constituição de 1988 tentou com muito esforço traçar curvas que delimitam o Estado brasileiro, de outro, ela trouxe ou pelo menos iniciou um sistema protetivo para cada tipo de constituinte, nas diversas fases etárias. Princípio da boa-fé objetiva: Aprovado na I Jornada de Direito Civil, que define a boa-fé objetiva como a exigência de comportamento leal das partes, dessa forma, a boa-fé objetiva não é em si, uma regra normatizada, e sim um dever de cuidado, respeito para com o outro. É na boa-fé que reside o dever de informar, de agir com colaboração, confiança, lealdade e probidade. Tal princípio é bem visualizado em diversos artigos do CC no que tange o direito de família. NOVOS ARRANJOS FAMILIARES Com o advento da Constituição Federal de 1988, no campo do direito de família, houve o reconhecimento de direitos de personagens jurídicas anteriormente marginalizadas. Assim, a mulher, a criança, o adolescente, o jovem e o idoso ganharam status constitucional (Capítulo VII, do Título VIII – Da Ordem Social). Fonte: pixabay. No entanto, antes de adentremos no conteúdo legal, tratando de normas de casamento, divórcio, alimentos, guarda etc., devemos entender como as famílias estão organizadas. Por óbvio, seria um esforço colossal apresentar um quadro em que constasse toda a variedade acerca dos arranjos familiares, contudo, aqui deixaremos um quadro com os arranjos que presumimos serem os mais presentes no nosso cotidiano. FAMÍLIA DE ACORDO COM O ARTIGO 226 Na redação do texto constitucional, em seu art. 226, extraímos que a família é decorrente dos seguintes institutos: Casamento civil, sendo gratuita a sua celebração e tendo efeito civil o casamento religioso, nos termos da lei (art. 226, §§ 1º e 2º). Por esse tipo de relação, entendemos que seja uma união entre duas pessoas, que situam-se em uma comunhão plena de vida, baseada na igualdade de direitos e deveres.Fonte: pixabay. União estável: É aquela advinda da convivência pública, contínua e duradoura entre duas pessoas, com o objetivo firmado na constituição de uma família. Não se estabelece prazo mínimo de duração dessa convivência. Atualmente, sequer há a necessidade de o casal residir na mesma unidade habitacional para que tal vínculo reste configurado. A família monoparental caracteriza-se, a priori, quando apenas um dos pais se responsabiliza pelos cuidados. Porém, hoje em dia, nada obsta, um avô que resida com seus netos e deles detenha os cuidados ou a guarda, ou um tio com sobrinhos, por exemplo. Família anaparental: O termo anaparental quer dizer família sem pais, ou seja, formada somente por irmãos. Embora seja atípico esse arranjo de família, ele é extremamente plausível. Sua importância jurídica cresceu em julgamentos enfrentados pelo STJ, como o REsp 57.606/MG, cujo Relator foi o Ministro Fontes de Alencar, da 4.ª Turma daquela corte. Família homoafetiva, cujo o arranjo de família é muitíssimo conhecido atualmente, tratando-se de um constructo familiar formado por pessoas do mesmo sexo. Família pluriparental ou mosaico, é aquela que decorre de vários casamentos, uniões estáveis ou até mesmo advinda de vários relacionamentos afetivos de seus membros. Em regra, ela não gera situações jurídicas precárias, mas, dependendo das circunstâncias, geram situações fatídicas complexas para identificar o nível de parentesco. Os novos arranjos aqui demonstrados foram para demonstrar que as leis acerca do direto de família vieram, como dissemos, para diminuir a marginalização acometida por anos pelo Estado e seus entes. Verificar esses arranjos só denota a versatilidade de formas de família que a atividade humana pode ter. PROTEÇÃO JURÍDICA À FAMÍLIA Apesar de muitas inovações legislativas após 1988, com a nova CF, por quase 15 anos perdurou uma codificação civil de 1916, que era extremamente patriarcalista e já muitíssimo defasada. Fonte: pixabay. Com o advento da industrialização do país, paulatinamente iniciou um processo de permissão para as mulheres trabalharem fora de casa. Uma das inovações no sentido de proteção de família adveio não pela esfera cível, e sim trabalhista. A Consolidação das Leis Trabalhistas de 1943 trazia a concessão de licença-maternidade para as mulheres que exerciam trabalho legalizado, com isso, mulheres e filhos deteriam proteção durante o período de amamentação. A partir daí, com o avanço social, muitas legislações foram criadas empreendendo um empenho significativo na melhoria das relações entre os entes familiares. Um dos marcos legais mais importantes foi o Estatuto da Mulher Casada (Lei nº 4.121/62), com ele, as mulheres saíram do status de relativamente capazes para absolutamente capazes para a vida civil. No entanto, havia muitas lacunas legais a serem preenchidas, muitas injustiças sociais que precisavam ser sanadas, mesmo com advento da nova CF. Para tal empenho, competia aos operadores de direito trazerem conceitos constituídos em outras leis para que os pleitos dos constituintes pudessem ser deliberados pela via judicial. Com o advento do novo CC, novas possibilidades de debates puderam vir a público, sabendo que, hoje, é de senso comum que o conceito de família inicialmente parte da CF, perpassando pelo CC e, em seguida, ramificando para uma gama considerável de leis extravagantes. POLÍTICAS PÚBLICAS DE ATENÇÃO À FAMÍLIA As políticas públicas são frutos decorrentes do estado democrático de direito. Vamos entendê-las da seguinte maneira: não basta somente que o Estado promulgue uma lei que garanta direitos sobre um determinado tipo de pessoa, ele precisa operacionalizar meios para que esses direitos cheguem até a sua destinação devida, daí, ele elabora políticas públicas em favor daquelas pessoas amparadas pela lei. Fonte: pixabay. Portanto, políticas públicas representam uma série de ações, programas, e decisões tomadas pelos entes federativos, com auxílio da sociedade civil no intuito de assegurar determinado direito para diversos grupos sociais ou para algum segmento social específico. Dessa forma, políticas públicas representam a materialização do Estado tentando assegurar algum direito preestabelecido. OBRIGADO!