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Geografia Econômica Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Profa. Dra. Vivian Fiori Revisão Textual: Profa. Ms. Rosemary Toffoli Os Circuitos Espaciais da Economia Urbana 5 • Os Circuitos Espaciais da Economia Urbana • Atividades Comerciais e de Serviços no Brasil • O Turismo Urbano · Discutir algumas situações relativas à urbanização e as atividades econômicas urbanas; · Analisar algumas situações e circuitos espaciais urbanos no Brasil. Para que a temática desenvolvida nesta unidade possa ser bem aproveitada, leia atentamente as concepções teóricas apresentadas e depois os exemplos e as características dos circuitos da economia urbana. Procure compreender os conceitos apresentados e as diversas formas existentes de circuitos espaciais de produção urbanos, considerando-se as atividades de serviços e comerciais. É importante também realizar as atividades propostas, aprofundando as temáticas desenvolvidas. Bom estudo! Os Circuitos Espaciais da Economia Urbana 6 Unidade: Os Circuitos Espaciais da Economia Urbana Contextualização Leia atentamente o texto a seguir. O Estado apresenta-se com um aliado do circuito moderno da economia nos países subdesenvolvidos. O apoio que ele dá às diferentes modalidades de modernização tecnológica assume, pois, os mais variados aspectos. Esse apoio é oferecido ora abertamente, ora de modo mais discreto, mas leva invariavelmente ao agravamento da dependência externa do país e faz a população sofrer as cargas fiscais, sem mesmo dar a contrapartida de uma melhoria da situação de emprego ou de aumento de bem estar. A generosidade oficial para com os monopólios e as corporações ocorre em detrimento da população, particularmente das camadas mais desfavorecidas. Entre as formas de apoio do Estado ao nascimento e ao desenvolvimento do circuito moderno, encontramos a proteção concedida à concentração e aos monopólios, financiamento direto ou indireto das grandes firmas através da construção de infraestruturas caras, a formação profissional, a promoção das indústrias de base, os subsídios à produção e à exportação e todas as formas de acordos com as firmas dominantes da economia, tais como legislações fiscais discriminatórias, leis de investimentos e planos de desenvolvimento. Tudo isso certamente reduz a capacidade de investimento dos Estados nacionais nos setores que interessam diretamente à população. Fonte: Trecho literal extraído de SANTOS, Milton. O espaço dividido: Os dois circuitos da economia urbana: países subdesenvolvidos. Tradução Myrna Rego Viana. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004, p. 160-161 Em muitos países e também no Brasil, o Estado tem se tornado um aliado do circuito superior da economia urbana, que se trata de um circuito de produção mais moderno, envolvido com mais tecnologia, em geral, com maior volume de bens e serviços e de crédito. Ao tratarmos de economia urbana enfatizamos principalmente as atividades de serviços e comerciais, do ponto de vista espacial, envolvidas na produção, circulação e consumo de produtos nas cidades, que podem ocorrer em diversificadas condições. Leia o texto da disciplina para entender melhor estes circuitos espaciais da economia urbana. Bom estudo a todos! 7 Os Circuitos Espaciais da Produção da Economia Urbana Nesta unidade, vamos tratar dos circuitos espaciais da economia urbana, evidenciando algumas situações das atividades de comércio e serviços, principalmente nas cidades brasileiras. Iniciamos esta unidade abordando o conceito dos circuitos espaciais. Trata-se de uma categoria que possibilita a análise das atividades econômicas no espaço geográfico, observando-se desde as formas de produção até o consumo dos produtos e/ou das mercadorias, evidenciando sua relação com o território. Onde se localiza, as situações existentes, as peculiaridades de cada circuito espacial. No território das cidades brasileiras atuam diversificados atores sociais, entre eles as grandes empresas do setor comercial e de serviços, tais como: mantenedoras de shopping centers; lojas de produtos especializados de luxo; lojas varejistas e atacadistas, redes de hipermercados e supermercados; serviços de saúde especializados; comidas rápidas (fast food); bares e restaurantes, academias e fitness; serviços de beleza, meios de hospedagem (hotelaria, flats, etc.), entre tantos outras. Contudo, não existem somente as grandes redes e atores hegemônicos nas cidades. Coexistem com os atores hegemônicos os da economia popular. Por isso, Milton Santos (2004) faz uma distinção entre o que denomina de circuito espacial de produção superior (incluindo um superior marginal) e o circuito inferior. Por meio destas duas categorias pode-se compreender a totalidade das relações econômicas no espaço geográfico, as relações existentes e as formas de coexistências. Importante ressaltar que não são existências dicotômicas, separadas, mas em várias circunstâncias tais circuitos se entrelaçam e relacionam e não devem ser analisadas de forma compartimentalizada. Saiba Mais Circuitos da Economia O sistema superior utiliza um importante e elevado nível tecnológico, uma tecnologia de “capital intensivo”, enquanto no circuito inferior a tecnologia é “trabalho intensivo”, geralmente do local de origem ou localmente adaptada ou recriada. O primeiro é imitativo, enquanto o segundo dispõem de um considerável potencial criativo. As atividades do circuito superior dispõem de crédito bancário. Acontece, frequentemente, que as grandes firmas criam e controlam os bancos, o que é também um meio de controlar outras atividades e eventualmente de absorvê-las. Uma boa parte dessa manipulações é levada a cabo por intermédio de títulos. Tal é o “crédito burocrático” a que se refere Caplovitz (1963). As atividades do circuito inferior estão simultaneamente baseadas no crédito e no dinheiro líquido. Mas, neste caso, o crédito é de natureza diferente, com uma larga porcentagem de crédito pessoal direto, indispensável para o trabalho das pessoas que não têm possibilidade de acumular dinheiro. Em função da obrigação de reembolsar periodicamente uma porção do débito aos empregadores, a busca ao dinheiro líquido torna-se desenfreada. Os próprios intermediários, os atacadistas, por exemplo, necessitam de dinheiro líquido para saldar seus compromissos. As atividades do circuito superior manipulam grandes volumes de bens, no comércio e nos setores de fabricação, trabalham com pequenas quantidades, Contudo, também no circuito superior as quantidades podem ser limitadas: é o caso das butiques especializadas, onde os preços muito elevados são devidos à qualidade do produto oferecido e uma demanda muito específica, ditada pela moda ou por um certo tipo de clientela. Fonte: Trecho literal extraído de SANTOS, Milton. Da totalidade ao lugar. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005, p. 100-101. 8 Unidade: Os Circuitos Espaciais da Economia Urbana Há casos de complementaridade entre estes circuitos, podemos citar como exemplo as confecções de roupas em São Paulo, que aliam o circuito superior do comércio varejista das grandes lojas e, de outro lado, o circuito inferior das pequenas oficinas de costuras, cujos trabalhadores em sua maioria são imigrantes bolivianos. Circuito superior É mais integrado em redes, dispõe de maior crédito bancário, em geral com grandes volumes de bens e de capital, maior uso de técnicas corporativas e novas tecnologias, bem como mais marketing e propaganda em grande escala. Se observarmos uma grande rede de lojas do comércio varejista, há um circuito espacial que envolve: suprimentos para a loja (de diversificados fornecedores), centro de distribuição dos produtos (centro logístico), inúmeros depósitos, e por fim, a cadeia de lojas distribuídas por todo território nacional. Além disso, se utilizam das formas de crédito existentes no mercado, tais como: boleto bancário, carnê, cartões de crédito de diferentesmarcas, mas também de sua própria rede de financiamento. Estão envolvidos na venda de sua marca setores da comunicação da própria empresa e também serviços contratados de propaganda e publicidade, algumas delas em rede nacional de televisão, por exemplo. Então, todos estes setores envolvem o circuito espacial da empresa, que alcança uma escala nacional e às vezes também global. Citamos como exemplos as grandes redes de hipermercados e supermercados, caso da marca Carrefour, por exemplo. Circuito Inferior Em geral, é mais enraizado na escala loca (embora não exclusivamente), tem maior grau de informalidade, e em algumas cidades abrigam grande número de trabalhadores. Alcançam também o sistema bancário, atualmente, por exemplo, com o uso de máquinas de cartões de crédito, já difundidos em todos os setores e circuitos espaciais, mas com menor volume de capital, menor uso de novas tecnologias e técnicas consideradas menos “modernas”. Seu sistema de marketing e propaganda também tem uma escala local, sem, em geral, atingir grandes meios de comunicação de massa, tais como TV, rádio e/ou jornais de grande circulação. Usam de meios mais simples de propaganda, tais como folhetos, alto-faltante, carros de som, tripés ou placas, em alguns casos até escritos a mão, feitos pelo próprio dono do negócio. Este é o caso de salões de beleza populares, bares e lojas populares etc. Quanto maior a aglomeração urbana, maior a possibilidade de ganhar escala e neste sentido, algumas atividades acabam induzindo a existência de outras. Este é o caso, por exemplo, de Universidades, que acabam atraindo em seu entorno serviços de fotocopias, bares e restaurantes, estacionamentos etc. São atividades complementares e juntas ganham escala. A aglomeração permite ganho de escala, pois juntas as atividades podem atrair mais consumidores e obterem mais lucros. Neste sentido, a cidade grande e/ou metrópole reúne as principais características que atendem a este requisito de “economia de aglomeração”, conforme explica E. A. Johnson: 9 Por outro lado, as metrópoles econômicas nacionais usufruem de uma posição estratégica na moderna rede de transportes. Isso lhes assegura relações mais fáceis com o resto do território, aumentando assim sua capacidade de competição. A experiência prova aos empresários que investir fora dos pontos de crescimento é pouco ou nada viável (JOHNSON apud SANTOS, 2004, p. 307). Cabe ao Estado a realização das obras de infraestrutura, que facilitem a realização das atividades comerciais e de serviços. Contudo, como o espaço é, ao mesmo tempo, articulado e fragmentado, tais condições não ocorrem de forma homogênea por todo o território de uma cidade, sobretudo nos países subdesenvolvidos, onde há grandes desigualdades espaciais. Assim, há lugares que atendem a uma demanda das classes mais abastadas e outros mais populares, evidenciando a segmentação territorial, conforme as parcelas das classes sociais. Circuito Inferior da Economia O trabalho em geral é intenso; com menos burocracia; com jornada às vezes longa, mas flexível; os preços nem sempre são rígidos, valendo-se da pechincha; e a publicidade em alguns casos e feita no corpo a corpo, muito comum nos centros das grandes cidades, onde ambulantes vendem seus produtos anunciando eles próprios suas mercadorias (SALVADOR, 2002). Contudo, pode haver distinções nestas características, conforme o tipo de atividade realizada, mesmo dentro do circuito inferior. As técnicas, por exemplo, são adaptadas conforme as condições e conhecimentos existentes entre os que realizam atividades deste circuito. Tais circuitos também possuem a sua rede de fornecedores e na outra ponta de consumidores, que se realizam em certos lugares. Sendo, assim formam um circuito espacial de produção. Desse modo, há distinções entre os circuitos espaciais de produção no espaço urbano e várias situações que podem ser estudadas caso a caso. 10 Unidade: Os Circuitos Espaciais da Economia Urbana Atividades Comerciais e de Serviços no Brasil No Brasil devido à estabilização monetária, pós Plano Real (1994), e também ao crescimento econômico das últimas décadas permitiram que um maior número de pessoas consumisse produtos e serviços que anteriormente eram circunscritos as classes médias e alta. Há uma segmentação dos serviços, conforme as classes sociais, mas um número crescente de brasileiros passou a consumir mais, sobretudo com a financeirização do sistema de crédito, que se adaptou às demandas dos mais pobres. Há assim, atividades turísticas, por exemplo, que vendem pacotes turísticos com boletos bancários a preços mais baixos, permitindo as classes populares viajarem de avião, situação que era menos comum anteriormente. Portanto, o crédito vem sendo oferecido por instituições bancárias e não bancárias, adaptado aos interesses dos produtores destas atividades de serviços e comerciais. Contudo, dada a facilidade do crédito, tanto através do cartão de crédito, que está disseminado pelo território brasileiro, nas diversas classes sociais, quanto por outras formas de crédito, há casos de endividamento das classes populares e média. Sobre esta questão Diego S. C. de Oliveira Salvador comenta: Nessa perspectiva, já podem ser encontradas atividades do circuito inferior que oferecem a seus clientes crédito financeiro como uma forma de pagamento. Assim, eles têm a possibilidade de pagar por suas compras, ou pelo serviço que lhes é prestado, com cartão de crédito, podendo, inclusive, parcelar o valor a ser pago. [...] Os pobres vêm sendo alvo de campanhas publicitárias, desencadeadas por empresas do circuito superior, quer lhes oferecem empréstimos, planos odontológicos, seguros pessoais e compra parcelada de produtos a altíssimos juros mensais, mas sem complicações burocráticas, o que conduz vários desses agentes a graves situações de endividamento e inadimplência. SALVADOR, 2002, p. 53 O setor de serviços é o que mais emprega no Brasil, tanto no emprego formal (registro em carteira ou formalmente constituído) quanto no informal, mais comum no circuito inferior da economia. 11 Figura 1: Participação do Setor de Serviços no PIB e no Trabalho Formal – Brasil (%) 57,3% 58,2% PIB Postos de trabalho 72,7% 2007 2012 76,1% Fonte: Dados IBGE e MTE, 2012 Conforme se observa no gráfico 1, a participação do setor de serviços no Brasil em relação ao emprego formal- considerando-se o número de postos de trabalho alcançou em 2012, 76,1%, sendo o setor da economia que mais emprega no Brasil. O setor terciário abriga inúmeros tipos de serviços, em variadas condições de trabalho e salários, envolvendo o trabalho imaterial. Há diversificadas atividades entre elas destacamos: educacionais, de advocacia, contábil, de serviços mecânicos, de consertos de aparelhos de diferentes tipos, porteiros, serviços de limpeza, guias turísticos, entre tantos outras. Há muita informalidade nas atividades de serviços, caso dos camelôs e ambulantes que vendem seus produtos diversificados nas médias e grandes cidades brasileiras, principalmente nas metrópoles. Contudo, há também pequenos e microempresários deste setor, assim como grandes empreendedores do setor de serviços, incluindo-se àqueles de franquias, ou de grandes empresas que formam uma rede no território brasileiro. Um exemplo típico atual são as academias de ginástica, que já possuem algumas marcas disseminadas e com maior capilaridade no território brasileiro. Alguns autores distinguem o setor terciário que requer mais conhecimento técnico e qualificação intelectual, chamando-o de terciário moderno ou quaternário, mas nas publicações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em geral são usadas a nomenclatura de setor Terciário. 12 Unidade: Os Circuitos Espaciais da Economia Urbana Conforme explica a pesquisadora Anita Kon sobre estes termos: Além do mais, os setores de serviços aqui considerados compreendem não apenas acategoria de atividades Terciárias, como determinada nas hipóteses mais tradicionais neoclássicas de Fisher (1930) e Colin Clark (1940) sobre os três setores da economia, ou seja, Primário, Secundário e Terciário, mas se referem principalmente à expansão desta hipótese para a visão mais recente dos setores Quaternário ou Terciário Superior e Quinário da economia. Se a visão neoclássica considera o setor Terciário como relacionado a todos os produtos não materiais ou intangíveis (comércio e serviços), no entanto muitos estudiosos consideram que os serviços intelectuais – como geração e troca de informação, telecomunicações, educação, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias da informação, da comunicação e tecnologia de ponta, e outros serviços baseados no conhecimento – não podem ser simplesmente considerados como parte desta categoria, desde que tem características muito específicas: os trabalhadores devem ser altamente qualificados e os investimentos em pesquisa e inovação no caso dessas atividades são muito maiores. KON, 2013, p. 58 Neste sentido, distingue-se a forma clássica de definir os setores, para destacar àquelas atividades intelectuais, que envolvam mais conhecimento técnico-científico, para o terciário moderno ou quaternário. Aprofundando o Tema Setores Quaternário e Quinário Os termos setores Quaternário e Quinário vêm aparecendo na literatura técnico- acadêmica mais recentemente. Leia o texto a seguir, que define os termos: Segundo Michèle Debonneuil (2010), criadora do termo setor Quaternário, esta categoria engloba produtos do setor Secundário e Terciário que não são apenas bens ou serviços na acepção anterior das palavras, mas “novos serviços que incorporam bens”, tais como a disponibilização temporária de bens, de pessoas ou de combinações de bens e de pessoas. Já o setor Quinário inclui os serviços sem objetivo de lucro como a saúde, a educação, a cultura, a investigação (não remunerada), a polícia, os bombeiros, outras instituições não governamentais (ONGs), e ainda atividades de serviços domésticos prestados a famílias. Estas organizações são usualmente consideradas como incluídas nos setores Terciário e Quaternário, porém a necessidade de separá-las em um grupo específico se justifica principalmente porque para operarem requerem uma base populacional e de impostos gerados por outros setores com fins lucrativos e oferecem uma importante contribuição para a geração de renda e valor adicionado de uma economia. O conceito de Quinário leva em conta não apenas a categorização a partir da condição de atividade lucrativa ou não lucrativa, mas sim a base do uso do conhecimento, medindo então políticas e sistemas de inovação. Fonte: KON, 2013, p. 59. 13 Dentro das técnicas globais que vêm sendo disseminadas em todo o mundo, sobretudo nas metrópoles, é a da terceirização dos serviços. Se antigamente o trabalho da indústria ou mesmo das empresas com atividades comerciais eram empregados diretos da empresa, atualmente eles são contratados por empresas terceirizadas, ou seja, por outras empresas de serviços especializados. Desse modo, há uma indústria com empregados diretos e inúmeros contratados mediante a existência de outra empresa terceirizada. Exemplificando: o serviço de limpeza é terceirizado, o de segurança, o de alimentação também etc. Isto diminui os custos da indústria, mas cria formas de trabalho em geral mais flexíveis e com baixos salários aos que são empregados desta maneira. Ao mesmo tempo, os serviços vão se tornando cada vez mais especializados. Há empresas só para serviços de saúde para idosos, outras especializadas em lazer para crianças, outras de alimentação japonesa e assim por diante. As atividades de lazer, por exemplo, cada vez mais cooptadas pelo processo de produção capitalista, torna-as mercadorias. No Brasil, até os anos 1980 eram comuns no Brasil as crianças brincando nas ruas, atualmente os espaços das ruas foram tomados por motos, automóveis e caminhões, prevalecendo o uso do território para a circulação de pessoas e mercadorias em detrimento de possibilidades de usos aos moradores em geral e, sobretudo para as crianças brincarem. Por isso, cresce o número de atividades de lazer que são pagas, em espaços privados, para os diferentes segmentos sociais e fragmentos territoriais das cidades brasileiras. Torna-se mais uma das contradições do mundo contemporâneo, já que todos trabalham cada vez mais dentro dos parâmetros capitalistas, com mais flexibilidade (horários flexíveis em vários setores de serviços e atividades comerciais aos sábados e aos domingos etc.) e em seus momentos de ócio, de descanso, também pagam para ter lazer. Quer relaxar? Pague! A etimologia, ou seja, o significado da palavra negócio é literalmente “negar o ócio”, ou seja, negar o descanso. O nosso tempo, portanto, vai sendo engolido pelo processo capitalista. Nas grandes metrópoles, há serviços 24 horas, nas lojas de conveniências, em alguns supermercados, em diversos tipos de serviços, pois “tempo é dinheiro no capitalismo”, como diz a frase que já se tornou popular. Em São Paulo, por exemplo, encontram-se acadêmicas de ginástica abertas 24 horas. O fato é que a atividade das grandes empresas de serviços e comerciais acabam servindo de parâmetro para outras e segue uma lógica global-nacional, de fusões e aquisições, formando grandes oligopólios tal qual o que ocorrem na indústria. 14 Unidade: Os Circuitos Espaciais da Economia Urbana O poder dessas empresas, das grandes corporações, leva a um uso corporativo do território, arrastando sua lógica para todos os lugares, como explicam os geógrafos Maria Laura Silveira e Milton Santos: Na medida em que as grandes empresas arrastam, na sua lógica, outras empresas, industriais, agrícolas e de serviços, e também influenciam fortemente o comportamento do poder público, na União, nos Estados e nos municípios, indicando-lhes formas de ação subordinadas, não será exagero dizer que estamos diante de um verdadeiro comando da vida econômica e social e da dinâmica territorial por um número limitado de empresas [...] Muitas delas são mais fortemente relacionadas com o próprio território e, portanto, mais dependentes da sociedade próxima e das virtualidades materiais e sociopolíticas de cada área, o que permite certa horizontalização de atividade. O papel de comando, todavia, é reservado às empresas dotadas de maior poder econômico e político, e os pontos do território em que elas se instalam constituem meras bases de operação, abandonadas logo que as condições deixam de lhes ser vantajosas. As grandes empresas, por isso mesmo, apenas mantêm relações verticais com tais lugares. SANTOS; SILVEIRA, 2001, p. 123 Os autores chamam atenção para o fato daquelas empresas que têm uma lógica menos global, inseridas na vida cotidiana dos lugares, produzindo maior relação com o lugar, com a escala local-regional- tendo assim maior horizontalidade. O conceito de horizontalidade refere-se às relações e redes estabelecidas no próprio local. Antigamente as redes de relações eram mais locais, o dono do supermercado era da região ou da mesma cidade, a dona da loja de varejo também, seus funcionários eram da região e suas formas de organizar o trabalho tinham uma maneira de empresa familiar com um relacionamento mais próximo- face a face. Contudo, atualmente vem diminuindo nas grandes metrópoles do mundo tais formas de serviços e atividades comerciais. Este é o caso do antigo dono do mercadinho de seu bairro, que foi substituído por uma grande rede de supermercado (nacional ou internacional), ou de um serviço de mecânico, substituído por empresas de autocenter, ou, ainda, pequenas farmácias de bairro, trocadas por grandes redes de farmácia. Tais situações ainda ocorrem em cidades pequenas, com menor dinâmica econômica, mas nas médias e grandes cidades vêm ocorrendo um fenômeno de subordinação à lógica global- nacional, das grandes empresas, docapitalismo global. Esta é a lógica do grande capital, no qual as grandes empresas compram as pequenas ou se fundem com outras, formando grandes redes. As pequenas nem sempre continuam tendo escala para competirem com estas que seguem esta lógica global. Desse modo, a lógica global-nacional é uma verticalidade, que vem de fora, sendo estranha ao local e nem sempre produzindo uma horizontalidade. Alguns espaços acabam comandando este processo, desde as grandes metrópoles do mundo ou até mesmo as metrópoles nacionais, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, que produzem serviços especializados, de diferentes tipos e são responsáveis pela seleção e divulgação da maioria das informações divulgadas pelas grandes redes de TV, rádio e mídia impressa do país. 15 Assim, alguns espaços são mais luminosos e outros mais opacos, como afirmam os autores: Chamaremos de espaços luminosos aqueles que mais acumulam densidades técnicas e informacionais, ficando assim mais aptos a atrair atividades com maior conteúdo em capital, tecnologia e informação. Por oposição, os subespaços onde tais características estão ausentes seriam os espaços opacos. Entre esses extremos haveria toda uma gama de situações. Os espaços luminosos, pela sua consistência técnica e política, seriam os mais suscetíveis de participar de regularidades e de uma lógica obediente aos interesses das maiores empresas. SANTOS, SILVEIRA, 2001, p. 264 Há uma hierarquia urbana no território brasileiro e também no mundo, que faz com que algumas porções ou subespaços das grandes metrópoles concentrem um maior número de atividades de serviços e possuam uma hinterlândia que pode alcançar o nível nacional-global. Hinterlândia É a área de abrangência que uma determinada atividade alcança ou por ela é influenciada. Em certos tipos de serviços a hinterlândia de São Paulo é nacional, caso dos serviços especializados de saúde, já que há produção do conhecimento, técnicas e usos de tecnologias que permitem a alguns hospitais e clínicas de São Paulo ser bastante avançados e ter uma abrangência nacional. Isto não significa que todos tenham acesso a tais serviços, pois há uma segmentação territorial, na qual a dimensão socioeconômica é um fator fundamental para ter ou não acesso a estes serviços especializados de ponta. Pode-se morar numa grande metrópole e não ter acesso a estas benesses, a estes serviços especializados, pois eles são privados e nem todos podem pagá-los. Desse modo, tais serviços não produzem extensão nem a todas as pessoas, nem a todos os territórios, ou seja, promovem uma distância que não é apenas métrica, mas também existencial, pois posso estar próxima fisicamente de um hospital ou clínica de saúde, mas distante de alcançá-la do ponto de vista econômico. Um sistema que tem se tornado comum atualmente é o de franquias das empresas de serviços e atividades comerciais tais como de: alimentação, calçados e acessórios, educação e treinamento, escolas de idiomas, limpeza e conservação, móveis e decoração, óticas e fotografias, vestuário, lazer, academia de ginástica, pet shops (lojas de serviços para animas de estimação), livrarias e papelarias, entre outras. Franquia Estabelece uma relação entre o franqueado e o franqueador de uma determinada marca de serviços. Em praças de alimentação de shopping centers muitos dos serviços de alimentação são franquias, com serviços de fast food (comidas rápidas). Por meio delas o franqueado usa o nome da marca, também segue um padrão do tipo de produtos oferecidos, da forma de serviços etc. Por isso, o franqueado paga pela franquia, pelo treinamento e conhecimento já existente, bem como pela assistência contínua feita pelo franqueador. Esta situação acaba criando uma homogeneização do serviço. Assim, por exemplo, ao comer numa determinada franquia de “fast food”, tanto faz se você está no Ceará ou no Rio Grande do Sul, seu prato será praticamente o mesmo. 16 Unidade: Os Circuitos Espaciais da Economia Urbana Existem franquias de lojas de conveniência, vinculadas às empresas de distribuição de petróleo, situadas em postos de gasolina, que têm um padrão de layout (traçado), ou seja, da disposição das prateleiras, das gôndolas, dos balcões, das geladeiras e dos caixas, situando-se de maneira prática para o consumidor (SILVA, 2002). Desse modo, existem diferentes condições que permeiam a existência dos serviços e das atividades comerciais no Brasil e no mundo. Mas, em geral, a lógica global vem prevalecendo em relação às atividades que são produtos apenas da escala local. O Turismo Urbano Uma atividade importante para a economia é o turismo. Há diferentes classificações e expressões sobre os tipos de turismo, caso de ecoturismo, turismo sol e praia, turismo cultural, turismo rural e também turismo urbano, entre tantas outras designações, algumas de uso mais acadêmico e outras mais dos segmentos de propaganda e marketing turístico. Turismo Urbano É aquele com vínculo direto com as atividades urbanas, que, portanto, em alguns casos atendem tanto aos próprios moradores quanto aos turistas. O turismo é uma prática social cujo principal consumo é o espaço. Considerando-se que o espaço geográfico é um conjunto de sistemas de ações e objetos, tais objetos são consumidos pelos turistas. Como explica a geógrafa Rita de Cássia Ariza da Cruz: Diversas particularidades caracterizam a relação turismo-território no que concerne à produção e ao consumo de territórios pelo turismo. Uma dessas especificidades diz respeito ao fato de o principal objeto de consumo do turismo ser o espaço, entendido como o conjunto indissociável de objetos e de ações, de fixos e de fluxos. Nenhuma outra atividade consome, elementarmente, espaço, como faz o turismo e esse é o fator importante da diferenciação entre turismo e outras atividades produtivas. É pelo processo de consumo dos espaços pelo turismo que se gestam os territórios turísticos. (CRUZ, 2001, p. 17) Estes em geral têm relação com a questão cultural, com o patrimônio urbano, com os setores gastronômicos, com os negócios e com atividades de lazer. Podem incluir desde pequenas cidades, que às vezes tornam-se especializada em um tipo de turismo urbano, quanto mais comumente nas metrópoles, onde há uma diversificação de equipamentos turísticos e meios de hospedagem. A infraestrutura para o turismo urbano é fundamental, principalmente as turísticas como os meios de hospedagem tais como: pousadas, hotéis, flats, hostels (tipo de albergue de custos menores, mas com ambiente informal e comunitário) etc. Nas grandes metrópoles é comum o turismo de negócios, já que empresários e executivos viajam para realizar negócios e acabam utilizando-se do potencial turístico dessas cidades, entre eles hotéis, bares e restaurantes, museus, casas de shows, teatros entre outros equipamentos culturais e de entretenimento. 17 Há também um submundo, ou de turismo underground, com segmentos de atividades noturnas relacionadas à música, entretenimento e também de atividades sexuais, das quais vivem inúmeras pessoas. O geógrafo Flávio Bezerra da Silva chama atenção para este tipo de lazer e também de atividade turística relacionada a equipamentos de entretenimento sexual, citando como exemplo a cidade de São Paulo: Porém, observando a cidade atentamente, notamos a existência de equipamentos dando suporte a um novo tipo de turismo, com fluxos de pessoas relacionando-se com os mesmos, em suas opções de lazer. Tais equipamentos são: boates, cinemas, pornôs, clínicas de massagem, clubes de swing, motéis, prives e sex-shops. Este turismo será chamado de underground e terá como referência a busca de práticas sexuais a partir do anonimato e da clandestinidade (SILVA, 2009, p. 704). Há também atividades culturais, com equipamentos como museus, centros culturais, livrarias, que demandam mão-de-obra especializada. Em cidades europeias e também em cidades mexicanas este tipo de turismo é bastante difundido.Turismo de Eventos Relacionados principalmente a grandes feiras e exposições temáticas, situadas em geral grandes centros de exposição ou em espaços que são readequados para estes fins. São comuns feiras de livros, de informática, de automóvel, de produtos cosméticos, de vestuário, de diversos produtos industrializados, gastronômicos, utilidades para o lar, entre tantas outras. Atualmente há um calendário de feiras e exposições no Brasil. Há também Congressos, Encontros e Simpósios que são eventos de negócios e acadêmicos, que envolvem rede hoteleira, já que os hotéis são adaptados para receber estes tipos de eventos. Logo, o turismo urbano pode se realizar a partir de vários atrativos, que ora se complementam, ora não. E pode ter relação com o circuito superior e também inferior. Na maior parte das vezes a definição de um lugar turístico não ocorre no próprio local e sim de uma demanda das áreas mais centralizadas em termos de comando, relacionando fatores endógenos (do próprio local), com exógenos (exterior ao local). No entanto, sobra para a localidade turística obras públicas buscando criar infraestrutura que possa atender ao turista. Assim, como para diversificados empreendedores as atividades turísticas, tais como restaurantes e bares, meios de hospedagem etc. Existem grandes redes de hotéis internacionais e nacionais vinculadas às atividades de turismo urbano, com características do circuito superior da economia. Contudo, o ideal é que exista participação de atores sociais que não sejam apenas relacionados às grandes redes, com participação maior da comunidade na construção de espaços que sejam de interesse turístico, caso de pequenas pousadas e restaurantes, entre outras atividades. Por isso é fundamental uma política pública e planejamento que visem a criar oportunidades para as diversas classes e grupos sociais estarem envolvidos no turismo. 18 Unidade: Os Circuitos Espaciais da Economia Urbana Como comenta a pesquisadora em turismo: Distribuição espacial da riqueza não é o mesmo, entretanto, que distribuição estrutural da riqueza. Por isso, muitos lugares pobres, capturados pela atividade do turismo, viram suas economias dinamizadas e assistiram a profundas transformações em seus territórios sem que, necessariamente, suas populações se tivessem tornado automaticamente detentoras de melhores condições de vida e de renda. Ingenuidade teórica ou manipulação inescrupulosa de dados e informações, é isso, todavia, que o discurso dominante sobre o turismo quer fazer crer. CRUZ, 2006, p. 339 Dessa forma, é necessário criar mecanismos para que haja a participação de diversos segmentos sociais nas atividades turísticas e não somente com os grandes atores do circuito superior da economia. Finalizando esta unidade verificamos que existem diferentes circuitos espaciais urbanos, existindo e coexistindo em diversificadas condições sociais e econômicas. 19 Material Complementar Livros: CRUZ, Rita de Cássia Ariza da. Planejamento governamental do turismo: convergências e contradições na produção do espaço. In: Amalia Inés Geraiges de Lemos, Mónica Arroyo, María Laura Silveira (orgs.). América Latina: cidade, campo e turismo. São Paulo: CLACSO, 2006. http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/edicion/lemos/19cruz.pdf. Acesso em 07/04/2015. SALVADOR, Diego Salomão Candido de Oliveira. Espaço geográfico e circuito inferior da economia urbana. Revista Mercator, Fortaleza, v. 11, n. 25, maio-ago, 2002, p. 47-58. http://www.mercator.ufc.br/index.php/mercator/article/viewFile/673/417. Acesso em 05/04/2015. 20 Unidade: Os Circuitos Espaciais da Economia Urbana Referências CRUZ, Rita de Cássia Ariza da. Política de turismo e território. São Paulo: Contexto, 2001. CRUZ, Rita de Cássia Ariza da. Planejamento governamental do turismo: convergências e contradições na produção do espaço. In: Amalia Inés Geraiges de Lemos, Mónica Arroyo, María Laura Silveira (orgs.). América Latina: cidade, campo e turismo. São Paulo: CLACSO, 2006. Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/edicion/lemos/19cruz. pdf. Acesso em 07/04/2015. SALVADOR, Diego Salomão Candido de Oliveira. Espaço geográfico e circuito inferior da economia urbana. Revista Mercator, Fortaleza, v. 11, n. 25, maio-ago, 2002, p. 47-58. Disponível em: http://www.mercator.ufc.br/index.php/mercator/article/viewFile/673/417. Acesso em 05/04/2015. SANTOS, Milton. 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