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DIREITO PENAL Dr. Nelson Speranza Filho GUIA DA DISCIPLINA 1 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. FORMAÇÃO DO DIREITO DO PENAL Objetivo: Apresentar os principais aspectos com relação à formação do Direito Penal. Introdução Olá, desejo a você boas-vindas à nossa disciplina de Direito Penal. Neste primeiro módulo estudaremos as bases históricas, evolução e escolas teóricas sobre o Direito Penal. Estas informações serão úteis para que você possa compreender como o Direito Penal mudou a medida que nossa sociedade evoluiu, tutelando interesses diferentes ao passo que nosso próprio entendimento sobre nossa sociedade também mudou. 1.1. Evolução do Direito Penal O conceito de Direito Penal pode ser dividido em alguns aspectos, mas de forma sintetizada podemos conceitua-lo como: um conjunto de normas que qualifica comportamentos humanos (reprováveis e danosos) como infrações penais (crimes ou contravenções penais), define seu agente (crime comum ou crime próprio) e fixa pena (sanções ou medidas de segurança), ou seja, trata-se de um instrumento de controle (controle social), que tem como finalidade manter a ordem e disciplina social, bem como, a convivência harmônica entre seus membros. O Direito Penal pode ser visto por três prismas: Nos tempos mais antigos, que aqui chamaremos de primitivo, não se falava em “castigo” como uma forma de promoção de justiça, mas sim como a vingança, pura e simples, em face do causador do dano. Direito Penal Delimita ao cidadão o espaço de sua liberdade Previne infrações e diminui a violência social por meio da ameaça da pena. Limita a atuação estatal (do Estado) 2 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Tendo em vista a “vingança” temos o que se chama de “Fase da Vingança Penal”, ela se dividia em: Tipo de Vingança Características Divina I. Período em que se acreditava no misticismo, crenças e no sobrenatural; II. Sociedades Totêmicas; III. O indivíduo que ofendia o totem era punido por seu grupo, por temerem vinganças dos deuses (raios, trovões etc.); IV. A satisfação divina era ligada as penas cruéis e desumanas. Privada I. A punição daquele que praticava o crime era executada pela própria vítima ou pessoas de seu grupo social; II. Surge o Código de Hamurabi (Babilônia), Talião (“Olho por olho e dente por dente”). Pública I. Houve uma maior organização do que se entendia por sociedade e o Estado se fortalece; II. O Estado passa a ser o legitimado para intervir nas relações conflitosas; III. Sanções cruéis; IV. As penas transcendem (passam) da pessoa do criminoso. O Direito Penal começa a evoluir, vejamos seu caminhar: Direito Penal Características Romano¹ I. Deixa de justificar as punições de acordo com as “razões divinas”; II. As penas passam a ser individualizadas e racionalizadas; Medieval I. Há possibilidade de transacionar a punição com uma indenização (chamou-se de composição); II. Difundido em razão da expansão do cristianismo, o Direito Penal Canônico inclui a recuperação como uma das justificativas da pena; III. A privação de liberdade passa a ser a principal espécie de pena; 3 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância IV. Nasce a nomenclatura que usamos no nosso sistema penal: “sistema penitenciário”. Estados Absolutos I. Concentração de poderes nas mãos de um único indivíduo; II. As punições passam a ter como características o temor e o exagero das penas, com a finalidade de intimidar os indivíduos (a não mais cometerem determinada ação e a população não delinquir); III. Desproporção entre a pena e o crime; Período Humanista I. Início do Renascimento; II. Justificativas racionais para apenar o indivíduo; III. Valoriza-se o livre-arbítrio e a noção de culpabilidade. ¹A Lei de Talião – “olho por olho e dente por dente”, a qual se encontra referências bíblicas, é tida como uma das primeiras limitações à interferência penal. Essa ideia é concretizada no Código de Hamurabi e também, a partir daí, começa a ganhar fora a noção de publicização (tornar público) das normas e a relação de proporcionalidade entre infração cometida e pena atribuída em resposta. 1.2. Escolas do Direito Penal Após o Renascimento, as fases do Direito Penal deixam de ser analisadas por períodos como vínhamos fazendo até então e passam a serem identificadas por Escolas. Essas Escolas são reconhecidas em função da semelhança de teses sobre a estrutura do crime e a finalidade da pena. De forma sintética trago abaixo quadro (adaptado) elaborado por Rogério Sanches Cunha (2016, p. 48 e 49), que elenca as principais Escolas e suas características: Escola Expoentes Crime Delinquente Pena Observações 4 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Clássica (1) Gaetano Filiangeri, Giovanni Carmignani, Domenico Romagnosi (2) Pellegrino Rossi, Francesco Carrara, Enrico Pessina. é um ente jurídico, pois consiste na violação de um direito. é ser livre que pratica o delito por escolha moral, alheia a fatores externos. (1) é forma de prevenção de novos crimes, defesa da sociedade: “punir ne peccetur”. (2) é uma necessidade ética, reequilíbrio do sistema (inspiração em Kant e Hegel: punirtur quia peccatum est). Se funda nos ensinamentos de Cesare Beccaria (Do Delito e das Penas); é uma reação ao Absolutismo. Positiva¹ Cesare Lombroso, Enrico Ferri, Rafael Garofalo. Decorre de fatores naturais e sócias. Não é dotado de livre- arbítrio; é um ser anormal sob as óticas biológicas e psíquica. Funda-se na defesa social; objetiva a prevenção de crimes; deve ser indeterminada, adequando-se ao criminoso para corrigi-lo. *Garofalo vê a pena como forma de eliminar o criminoso grave, defendendo até a pena de morte. É uma doutrina determinista, tendo introduzido a ideia do “criminoso nato” (Lombroso). Penal Humanista Vicenzo Lanza é o desvio moral de conduta; o que não viola a moral, não é crime. é o imputável, único passível de educação. é forma de educar o culpado. Pena é educação. Introduz a noção de “delinquência artificial” – o crime que não viola a moral. Técnico- Jurídica (1) Karl Binding, Arturo Rocco, Vicenzo Manzini, Giacomo Delitala (2) Maggiorie, Bettiol, Petrocelli, Battagliani. é uma relação jurídica de caráter tanto humano quanto social. é dotado de livre-arbítrio e responsável moralmente. Meio de defesa contra a perigosidade do agente; tem por objetivo castigar o delinquente. Aproxima-se da Escola Clássica; rechaça a filosofia do Direito Penal; reestabelece a Ciência Penal. 5 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Correcionalista Karl David August Roeder É um ente jurídico. Criação da sociedade; não é natural. É um ser anormal, portador de uma vontade reprovável. É a correção da vontade do criminoso e não a retribuição a um mal motivo pelo qual pode ser indeterminada. Pena e medida de segurança são institutos dependentes. Preconiza a ideia de ressocialização do delinquente. Na Espanha, foram adeptos: Gines de los Ríos, Alfredo Calderón e Pedro Dourado Montero. ¹ Dentro da Escola Positiva devemos nos aprofundar. A Escola Positiva se divide em três fases, nas palavras de Vinícius Peluso (2020, p. 95-97)1: “Os três principais positivistas (Cesare Lombroso, Enrico Ferri e Raffaele Garofalo), apesar de concordarem no núcleo essencial do positivismo, divergiam consideravelmente em suas doutrinas,dos antecedentes para explicar a relação de causalidade, a teoria considera como causa, tudo que tenha contribuído, de qualquer modo, para o resultado. 41 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Para descobrir se um evento é ou não considerado causa, o método utilizado é o da eliminação hipotética: exclui-se hipoteticamente esse evento da cadeia causal e se verifica o resultado ainda teria ocorrido sem aquele. Se o resultado persistir mesmo com a exclusão do evento significa que aquele não é a causa do resultado, mas se o resultado deixar de acontecer com a exclusão do evento, daí sim será considerado causa. Há críticas ao critério da eliminação hipotética, por ela permite um regresso ao infinito. A Teoria da Equivalência dos Antecedentes admite uma exceção: a causa superveniente relativamente independente é capaz de romper o nexo causal, ou seja, na ocorrência de uma causa relativamente independente, um evento que pelo método da eliminação hipotética poderia ser considerado causa não o será. Você pode estar se perguntando: o que é a causa superveniente relativamente independente. Certo? Para entender esse conceito precisamos entender a classificação das causas em: 1. Dependentes: é o que costuma acontecer, é o desdobramento esperado da conduta. Ex. ao se disparar uma arma de fogo em direção ao coração de alguém é esperado que a pessoa morra. 2. Independentes: são aquelas que estão fora da linha normal de desdobramento causal da conduta. Em outras palhas, não se sabia que ao praticar a conduta haveria aquela causa. Ex. não é uma consequência normal de um simples susto a morte por parada cardíaca. As causas independentes podem ser: I. Relativamente Independentes: quando precisam da associação da conduta para que venham gerar resultado. II. Absolutamente independentes: quando são capazes de gerar o resultado independentemente da conduta. Ex. o agente planeja a morte da vítima, quando esta está passando antes mesmo do agente atirar, a vítima sofre um ataque cardíaco e vem a falecer. Veja que o resultado aconteceria independente da conduta. 42 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Cada uma das categorias acima pode atuar em momentos diferentes, de forma preexistente (anterior a conduta), concomitante (coincide no tempo com a conduta) e superveniente (posterior a conduta). Bem, agora que você domina os conceitos, vamos analisar em que casos há nexo de causalidade. a. Nas causas dependentes sempre haverá nexo entre a conduta e o resultado; b. se houver causa relativamente independente não há nexo causal entre a conduta e o resultado, porque ainda que a conduta venha a ser eliminada, o resultado mesmo assim permaneceria; c. causa relativamente independente, o art. 13, §3º, CP diz que, quando a causa relativamente independente for superveniente, não será considerado existente o nexo causal. Tipicidade: é a adequação perfeita entre o fato concreto e o tipo incriminador. A princípio, o juízo da tipicidade nos permite concluir que uma conduta é proibida pelo ordenamento jurídico, porém, como veremos mais adiante, apenas com a verificação da antijuridicidade é que será possível a certeza de que a conduta é realmente proibida pelo ordenamento. O tipo legal é composto de elementares e circunstâncias, vejamos: Elementares: são todos os componentes essenciais, indispensáveis para a existência do tipo penal. Ausente a elementar, o tipo penal desaparece (atipicidade absoluta) ou o tipo penal será outro (atipicidade relativa). A princípio os elementos estão descritos no caput do artigo (norma penal), mas também há algumas exceções em que as figuras típicas são descritas em parágrafos. Circunstâncias: São dados assessórios que estão agregados ao tipo penal e cuja sua função é influenciar a fixação da pena. 43 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A circunstância não é imprescindível para a existência do crime, podendo apenas torná-lo mais ou menos grave. DIAS, Jorge de Figueiredo. Direito Penal: parte geral. 2 ed. Tomo I. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 2007. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal: parte geral (arts. 1º ao 120) 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2016. 44 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5 TIPO PENAL Objetivos: Apresentar conceitos de tipo penal, consumação e erro de tipo. Introdução Olá, estudado o conceito de crime e fato típico, agora vamos analisar alguns elementos essenciais ao Direito Penal, intimamente relacionados com o crime e com a norma penal. Diante disso neste módulo estudaremos os seguintes tópicos: 1. Tipo penal 2. Consumação e tentativa 3. Erro de tipo 4. Crime impossível 5.1 Tipo Penal O vocábulo “tipo penal” é usado com o sentido de “modelo de conduta proibida”. O tipo legal é um dos postulados básicos do princípio da reserva legal (já estudados anteriormente). De acordo com o art. 5º, XXXIX da Constituição da República Federativa do Brasil: “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”. A tipicidade penal pode ser considerada dolosa ou culposa, como passaremos a ver nos próximos itens. O dolo e a culpa são chamados de elementos subjetivos do tipo. Subjetividade tem a ver diretamente com a vontade do agente delituoso, não é algo concreto, mas o que se passa no momento da ação com aquele que pratica o fato criminoso. a. Dolo – o dolo encontra-se disposto no art. 18, I, Código Penal: 45 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Art. 18: Diz-se crime: Crime Doloso I. doloso, quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo [...]. Em breve leitura ao artigo podemos encontrar duas formas de dolo, ou seja, quando o indivíduo quer o resultado ou quando assume o risco de produzi-lo. Daí nasce as duas espécies de dolo, o dolo direto e o dolo eventual. O dolo direto ocorre quando o indivíduo possui a previsão do resultado e dirige sua ação com a finalidade de alcançar tal objetivo. Ex. indivíduo aponta arma para o coração de outro e atira, ele possuía o dolo de matar aquele, visto que o resultado morte era previsto. Já o dolo eventual ocorre quando se prevê o resultado e o agente aceita o risco de produzi-lo, ou seja, apesar do indivíduo não querer o resultado, ele continua sua ação ainda que haja o risco do resultado se concretizar. Ex. motorista dirigindo embriagado que, apesar de não querer atropelar e matar nenhum pedestre, assume o risco e se dirige em nestas condições não permitidas em lei. A princípio todas as infrações penais (crimes e contravenções penais) serão punidos na forma dolosa, excepcionalmente o crime será considerado culposo. O crime será considerado culposo se existir figura expressamente tipificada, caso contrário não há que se falar em culpa. b. Culpa – a culpa encontra-se disposta no art. 18, II, Código Penal: Art. 18: Diz-se crime: [...] Crime culposo II. culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia [...]. Para que a vida em sociedade seja possível é necessário que todos tomem cuidados, ainda que estes não estejam dispostos em lei. 46 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Quando um dever de cuidado está expresso em nosso Código Penal como uma conduta criminosa e este é quebrado temos um resultado objetivamente previsível. Esta previsibilidade é relacionada com o sentimento de certo e errado do homem médio (o homem comum). Como você pode perceber o tipo penal culposo não se reduz a uma conduta, o próprio tipo penal faz referência ao resultado quando estese der por: imprudência, negligência ou imperícia. Mas do que se tratam essas modalidades? Vamos juntos: a. Imprudência: é um ato positivo, é um fazer por parte do agente delituoso (criminoso). É a prática de um fato tido como perigoso, ou seja, um descuido. Decorre de uma conduta comissiva (ação). Ex. Passar com o carro em um farol fechado. b. Negligência: trata-se de uma ação negativa, uma omissão praticada pelo agente delituoso. A negligência ocorre antes do cometimento da ação. Ex. o indivíduo não verifica os freios do automóvel antes de colocá-lo em movimento. c. Imperícia: É a falta de habilidade no exercício de uma profissão ou atividade. Ex. médico que realiza intervenção cirúrgica sem o conhecimento necessário sobre seus procedimentos. A culpa pode ser dividida, ainda, em: Culpa Inconsciente ou sem previsão Consciente ou com previsão O agente não prevê o que era previsível. Ex. Indivíduo dirige em alta velocidade para chegar logo em casa, sem sequer cogitar a ideia de que aquela velocidade pode resultar em um acidente ou em um atropelamento. O agente prevê o resultado, mas acredita sinceramente que ele não ocorrerá. 47 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A culpa consciente não se confunde com o dolo eventual, há de certo uma semelhança, em ambos o agente tem possibilidade de prever o resultado, no entanto, na culpa consciente o agente não aceita o resultado, já no dolo eventual o resultado é aceito pelo agente. 5.2 Consumação e Tentativa Para que entenda melhor o conceito de consumação e tentativa vou explicar de forma breve o que o Direito Penal chama de iter criminis, ou seja, o caminhar do crime. Este caminho possui quatro etapas: Com isso vemos que a execução do fato criminoso está ligada diretamente como verbo de cada tipo, ou seja, quando o agente delituoso começa a praticar o verbo do tipo tem-se o início da sua execução. Ocorre o que chamamos de crime consumado, quando realizado todos os elementos do tipo penal. Iter Criminis Cogitação Consumação Execução Preparação Trata-se da fase em que o agente apenas está planejando a prática do crime. Está fase é impunível. Nesta fase todos os elementos do tipo são realizados. Aqui o crime sai da sua fase preparatória e começa a ser executado com a prática do primeiro ato idôneo e inequívoco à consumação do crime. O ato idôneo é aquele capaz de produzir o resultado e ato inequívoco que induz o resultado. Nesta fase se inicia a lesão ao bem jurídico tutelado, ou seja, o agente inicia a realização do núcleo do tipo. Nesta fase o crime já é punível. É a fase em que há prática dos atos antecedentes necessários ao início da execução. Não se fala ainda em fato típico, salvo, o ato preparatório constituir crime autônomo. 48 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Art. 14, CP: Diz-se crime: Crime Consumado I. consumado, quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição legal [...]. Considera-se crime exaurido aquele em que o agente já passou por todas as etapas do iter criminis, mas continua atingindo o bem jurídico. Esse exaurimento tem a função de influenciar na fixação da pena, conforme os moldes do art. 59, CP. Art. 59, CP: O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime: I. as penas aplicáveis dentre as cominadas; II. a quantidade de pena aplicável, dentro dos limites previstos; III. o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade; IV. a substituição da pena privativa da liberdade aplicada, por outra espécie de pena, se cabível. No entanto, se considera crime tentado (tentativa) aquele que iniciada sua execução não se consuma por circunstâncias alheias à sua vontade. Art. 14, CP: Diz-se crime: [...] Tentativa II. tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. Dentro do estudo de consumação e tentativa dos outros institutos muito importantes, são eles a desistência voluntária, arrependimento eficaz e arrependimento posterior. I. Desistência Voluntária: previsto no art. 15, 1ª parte do Código Penal. Ocorre desistência voluntária quando o indivíduo (agente delituoso) desiste por sua própria vontade (elemento subjetivo) de continuar a ação criminosa, ou seja, não ocorrendo o resultado previamente pretendido. Nas palavras de Rogério Sanches Cunha (2016, p. 357), ele “abandona o dolo inicial”. Somente admitido na tentativa imperfeita ou inacabada. Não há que se falar em desistência voluntária em crimes compostos de único ato. 49 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O Prof. Rogério Sanches Cunha (2016, p. 357) faz a seguinte menção: “lembrando a fórmula de Frank, enquanto na tentativa o agente quer prosseguir, mas não pode, na desistência voluntária o agente pode prosseguir, mas não quer”. Vejamos o art. 15, CP: “O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução [...] só responde pelos atos já praticados”. Conseguimos perceber que o legislador (autor da lei) se satisfaz pela voluntariedade da desistência, ou seja, não precisa ela ser espontânea. Como assim? Ainda que haja, por exemplo, apelo (pedido) de terceiros para que o mesmo cesse (pare) a ação criminosa e este ceda aos pedidos (influência subjetiva externa) daquele e pare o fato criminoso, para a doutrina e aqueles que irão aplicar a norma penal entende-se como desistência voluntária. Quando tratamos de interferência externa ela pode ser: subjetiva ou objetiva, o quadro (CUNHA, 2016, p. 358) a seguir exemplifica essa diferença: Interferência Instituto Exemplo Externa Objetiva Tentativa Disparo de alarme sonoro, acender luz de uma janela, pedestre passando pelo local etc. Externa Subjetiva Desistência Voluntária Pedido de terceiro No que a desistência voluntária se diferencia da tentativa pura e simples? Enquanto na tentativa – art. 14, II, CP, a consumação não ocorre por circunstâncias alheias à vontade do agente criminoso (agente quer prosseguir, mas não pode), na desistência voluntária ela deixa de se consumar por circunstâncias inerentes a sua vontade (o agente pode prosseguir, mas não quer). Na primeira o dolo é de consumação, ou seja, ele pretendia o fim, já na segunda o dolo é abandonado. A tentativa possui como consequência a diminuição da pena de 1/3 a 2/3, já na desistência voluntária o agente somente responderá pelos atos praticados. II. Arrependimento eficaz: está previsto no art. 15, 2ª parte do CP: “[...] ou impede que o resultado se produza, só responde pelos atos já praticados”. 50 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Trata-se de uma “tentativa qualificada”, conforme afirma a doutrina. Nesta situação o agente delituoso pratica todas as fases do crime, ou seja, os atos executórios chegam ao fim e a partir disso busca minimizar o efeito afim impedir que o resultado se consume. Bem como a desistência voluntária, basta que se verifique a real voluntariedade, mas deve ser este arrependimento eficaz, ou seja, ele deve de fato evitar que se produza o resultado e neste, o indivíduo responderá por todos os atos já praticados. O quadro (CUNHA, 2016 p. 360) abaixo traz as principais diferenças e semelhanças entre a desistência voluntária e o arrependimento eficaz, afim que não mais confundamos tais institutos: E para que serviriam tais conceitos? Do ponto de vista prático, desistência voluntáriae arrependimento eficaz excluem a aplicação da pena por tentativa, ou seja, o agente responderá somente pelos atos até então praticados. III. Arrependimento Posterior: disposto no art. 16, CP: Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços. Essa conduta se dá após a consumação do fato delituoso, ou seja, o agente após consumar o ato, de forma voluntária, repara os danos ou restitui a coisa. Desistência Voluntária Arrependimento Eficaz Art. 15, 1ª parte, CP Art. 15, 2ª parte, CP Espécie de tentativa abandonada Espécie de tentativa abandonada Exige voluntariedade Exige voluntariedade e eficácia Ocorre durante a execução Ocorre após a execução O agente abandona o seu dolo antes de esgotar os atos executórios O agente esgota os atos executórios, mas consegue impedir o resultado O crime não se consuma por circunstâncias inerentes à vontade do agente O crime não se consuma por circunstâncias inerentes à vontade do agente Pune-se pelos atos já praticados Pune-se pelos atos já praticados 51 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Devemos nos atentar que esse instituto será aplicado apenas aos crimes que não são praticados com grave ameaça ou violência. A lei busca incentivar aqueles que tenham praticado o crime com uma diminuição obrigatória de 1 a 2/3 da pena, como se verifica no artigo onde se fala “será reduzida”, ou seja, não é uma liberalidade do juiz aplicar ou não a diminuição, ele está vinculado ao texto da lei. Vale ressaltar que diferente do arrependimento eficaz o agente não volta ao estado de licitude, não há que se falar em exclusão de punibilidade, mas somente a redução da pena. Quando o texto legal cita o termo “até o recebimento da denúncia ou queixa” entende-se que somente haverá arrependimento posterior, com incidência da redução da pena se este foi feito até o recebimento da denúncia ou queixa, caso ocorra após não mais se fala em redução, mas poderá incidir em uma circunstância atenuante do art. 65, III, b, Código Penal. Uma dúvida levantada pela doutrina é se: havendo reparação do dano o arrependimento se comunicará ao corréu (aquele que pratica diretamente o núcleo do tipo penal – verbo – junto àquele que realiza a reparação do dano). A resposta é positiva, com fundamento no art. 30 do CP, conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Uma vez reparado o dano integralmente por um dos autores do delito a causa de diminuição de pena do arrependimento posterior, prevista no art. 16, CP, estende- se aos demais coautores, cabendo ao julgador avaliar a fração de redução a ser aplicada, conforme a atuação de cada agente em relação à reparação efetivada. De fato, trata-se de circunstância comunicável, em razão de sua natureza objetiva. Deve-se observar, portanto, o disposto no art. 30 do CP, segundo o qual “não se comunicam as circunstâncias e as condições de caráter pessoal, salvo quando elementares do crime. A recusa da vítima em aceitar a reparação do dano não atingirá o direito do agente delituoso em ser agraciado com a diminuição da pena. 52 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5.3 Erro de Tipo Quando se trata da figura do erro de tipo estamos falando de uma falsa percepção do indivíduo (agente delituoso) sobre as elementares ou circunstâncias do tipo penal. Vejamos o art. 20, caput, CP: “O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei [...]”. É importante explicar que erro de tipo não se confunde com erro de proibição, vejamos quadro (CUNHA, 2016, p. 70-71) exemplificativo: Erro de Tipo Erro de Proibição Há falsa percepção da realidade que circunda o agente. O agente percebe a realidade, equivocando-se sobre a regra de conduta. O agente não sabe o que faz. O agente sabe o que faz, mas ignora ser proibido. “A” sai de festa com guarda-chuva pensando ser seu, mas logo percebe que errou, pois o objeto é de terceiro. “A” encontra um guarda-chuva na rua e acredita que não tem obrigação de devolver, porque “achado não é roubado”. O erro de tipo pode ser essencial ou acidental. De forma simplificada, o erro de tipo essencial ocorre em relação aos elementos principais do tipo, já o erro de tipo acidental se dá em relação aos dados secundários da conduta criminosa. Vejamos cada um separadamente: I. Erro de Tipo Essencial: ele pode ser dividido em inevitável, ou seja, um erro justificável trata-se de um erro impossível de se prever fazendo com que se exclua o dolo e a culpa (não havendo que se falar em consciência do resultado) e evitável, aquele que não é justificável, trata-se de um erro previsível, neste caso exclui-se o dolo (porque não havia consciência), mas se pune a culpa, caso esta seja prevista no tipo criminoso. O erro de tipo essencial pode ainda ser subdividido em: a. Esso sobre a elementar do tipo incriminador: já vimos que o dolo é caracterizado por consciência e vontade, a circunstância elementar é o dado essencial da figura típica, assim sendo, se alguém erra sobre o dado essencial do tipo incriminador não 53 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância poderá ser condenado por ter agido com dolo, ou seja, errar sobre dado essencial do tipo incriminador excluirá o dolo. Ex. um sujeito sai para caçar e acreditando ter visto m animal dispara de uma longa distância. Ocorre que, na verdade ele acerta outro caçador que carregada pele do animal que morreu em virtude de outro disparo. Veja que neste caso o sujeito que caçava erra sobre a sua percepção de realidade: acredita estar disparando contra um animal, quando na verdade se tratava de uma pessoa. Assim, se o sujeito não possui consciência de que dispara contra um homem não que se falar em dolo. Se o erro é inevitável, significa que não foi quebrado qualquer dever de cuidado, então o sujeito não é punível de nenhuma forma, mas se o erro for evitável, o agente poderá ser culpável na modalidade culposa (quando o tipo penal previr expressamente a forma culposa). b. Erro sobre circunstância de tipo incriminador: o sujeito equivoca-se com relação a uma circunstância, nesse caso há exclusão da circunstância desconhecida. Ex.: agente furta algo que acredita ser de pequeno valor, mas por erro subtrai coisa muito valiosa, terá direito ao privilégio do §2º, art. 155, CP. Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: § 2º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa furtada, o juiz pode substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa. c. Erro sobre descriminante: a descriminante é a causa que exclui a ilicitude do fato típico, ocorre quando o agente levado a erro pelas circunstâncias do caso concreto pensa que está agindo em face de uma casa excludente de ilicitude (legítima defesa, estado de necessidade, estrito cumprimento do dever legal ou exercício regular de um direito). Ex. “A” percebe que “B”, seu inimigo, está mexendo no bolso e pensa que ele irá sacar uma arma. “A” então dispara e mata “B”, que somente procurava um lenço (erro de apreciação dos fatos da realidade). As consequências estão expostas no art. 20, §1º, CP. Se o erro for inevitável excluirá o dolo e a culpa, mas se evitável, o agente responde pelo crime culposo, se esta forma estiver prevista. 54 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto emlei. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) § 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível como crime culposo (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984). II. Erro de Tipo Acidental: o erro de tipo acidental recai sobre um dado secundário, ou seja, a intenção de praticar determinada conduta é manifesta e incide na responsabilidade penal do agente. São modalidades do erro de tipo acidental: a. Sobre o objeto – error in objeto: nesta modalidade (sem previsão legal) o indivíduo visa a prática de um tipo penal sobre determinado objeto (coisa), mas acaba agindo sobre bem (coisa/objeto) diverso. Ex. o agente quer furtar algo e por engano furta coisa diversa. O crime continua o mesmo – o furto. Nesta modalidade a consequência pela prática do crime, ainda que tenha recaído sobre objeto diverso, é a mesma que se de fato tivesse atingido o bem que pretendia desde o início da ação criminosa, ou seja, não se exclui nem dolo, nem culpa, o indivíduo será apenado (condenado). b. Sobre a pessoa – error in persona: disposto no art. 20, §3º, CP. Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) § 3 º - O erro quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena. Não se consideram, neste caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime. (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984). Nesta situação há o dolo de lesar uma determinada pessoa, mas por situação diversa, um erro de análise, o agente delituoso acaba atacando pessoa diversa, ou seja, estamos tratando de duas figuras como vítima, a vítima real (aquele que o agente delituoso lesa) e a vítima virtual (aquele que o agente de fato queria lesar). 55 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Ex. “A” pretende matar “B” e por uma confusão acaba matando “C” acreditando ser “B”. O crime continuará sendo homicídio e “A” responderá como se a vítima efetiva “C” fosse à vítima pretendida “B”. Vejamos a relevância prática deste exemplo com análise no art. 61, II, e, CP: Art. 61 - São circunstâncias que sempre agravam a pena, quando não constituem ou qualificam o crime: (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) II - ter o agente cometido o crime: (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) e) contra ascendente, descendente, irmão ou cônjuge [...]. Outro exemplo: sujeito quer matar seu inimigo e após avistar de relance um vulto atira e vem a matar seu próprio pai. Neste caso não incidirá a agravante prevista no art. 61, II, e, CP, se, no entanto, o sujeito quer matar o próprio pai e acaba matando um terceiro desconhecido, neste caso incidirá a agravante mencionada. c. Na execução do crime – aberratio ictus: disposto no art. 73, CP. Art. 73 - Quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente, ao invés de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, responde como se tivesse praticado o crime contra aquela, atendendo-se ao disposto no § 3º do art. 20 deste Código. No caso de ser também atingida a pessoa que o agente pretendia ofender, aplica-se a regra do art. 70 deste Código. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984). Nesta situação há erro no momento da execução do delito, ou seja, o agente atinge pessoa diversa da pretendida, não há que se falar em erro de percepção do agente, mas sim na execução do crime. Ex. O agente quer matar “A”, mira em “A”, mas erra o tiro e atinge “B”. Não se confunde erro na execução com erro quanto à pessoa, o professor Rogério Sanches Cunha (2016, p. 214) pontualmente demonstra essas diferenças, vejamos: 56 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Erro sobre a pessoa Erro na execução Há equívoco na representação da vítima pretendida. Representa-se bem a vítima pretendida. A execução do crime é correta (não há falha operacional). A execução do crime é errada (ocorre falha operacional). A pessoa visada não corre perigo, pois confundida com outra. A pessoa visada corre perigo, não sendo confundida. Nos dois casos o agente responde pelo crime cometido considerando as qualidades da vítima virtual, pretendida. d. Na execução com resultado diverso do pretendido: figura prevista no art. 74 do Código Penal. Art. 74 - Fora dos casos do artigo anterior, quando, por acidente ou erro na execução do crime, sobrevém resultado diverso do pretendido, o agente responde por culpa, se o fato é previsto como crime culposo; se ocorre também o resultado pretendido, aplica-se a regra do art. 70 deste Código. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) Também chamada de aberratio criminis ou aberratio delicti, em outras palavras, o agente delituoso atinge bem jurídico diverso do pretendido. Nesta situação não há que falar em isenção de pena, o agente aqui responderá de forma culposa, caso haja previsão legal. e. Sobre o Nexo Causal: figura ligada ao resultado que se consuma, mas por nexo causal diferente, ou seja, o elo que liga a ação e o resultado é diferente do que o agente pretendia. Se a alteração do curso causal é irrelevante, o sujeito responde pelo crime normalmente. Ex. indivíduo “A” atira “B” de uma ponte com o intuito de matá-la afogada, contudo, antes de cair na água a vítima bate a cabeça e morre. Nesta situação o agressor responderá normalmente pelo crime consumado (o homicídio – art. 121, CP). 57 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5.4 Crime Impossível A figura do crime impossível ou também conhecido como “quase crime” vem disposta no art. 17 do CP: “Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime”. É importante se atentar aos termos “ineficácia absoluta [...] impropriedade do objeto é impossível consumar-se”, ou seja, não há como consumar o fato ainda que a vontade e ação sejam direcionadas aquela finalidade. Trata-se de uma causa excludente de tipicidade. São hipóteses de crime impossível: a. Ineficácia absoluta do meio: o meio empregado ou o instrumento utilizado para a execução do crime jamais o levará à consumação: Ex. indivíduo deseja matar outra pessoa apenas com a força da mente. b. Impropriedade absoluta do objeto material: a pessoa ou coisa sobre qual recai a conduta é absolutamente inidônea para a produção de algum resultado lesivo. Ex. o indivíduo quer matar a sogra, porém quando entra em sua casa com o propósito de matá-la ela já está morta por outra razão que não a prentendida por ele. Outro caso são os flagrantes preparados pela polícia. Ex. Policial disfarçado solicita que um sujeito compre drogas para ele, afim de prender em flagrante aqueles, e o segue até o ponto onde os traficantes vendem as drogas. Não há crime, pois se trata de uma encenação e o bem jurídico está sendo resguardado pela autoridade policial. O sujeito (que compra a droga), não cometerá um crime, mas o traficante sim, visto que, ele já tinha a droga em sua posse independentemente da encenação armada pelo policial. Na sistemática atual do Código Penal, o que importa é a conduta, objetivamente não ter representado nenhum risco à coletividade, pouco importando a postura subjetiva do agente. 58 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O indivíduo, não será punido se é houver absoluta a ineficácia do meio empregado ou se é total a improbidade do objeto material, pois issotorna impossível própria consumação do crime. 59 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância DIAS, Jorge de Figueiredo. Direito Penal: parte geral. 2 ed. Tomo I. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 2007. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal: parte geral (arts. 1º ao 120) 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2016. 60 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 6 ANTIJURIDICIDADE E CULPABILIDADE Objetivos: Analisar os conceitos de antijuridicidade e culpabilidade. Introdução Olá, nesta aula estudaremos dois institutos extremamente importante para o Direito Penal, sendo todos assuntos sempre polêmicos e bastante interessantes. Diante, estudaremos os seguintes tópicos: Antijuridicidade Culpabilidade Concurso de pessoas 6.1 Antijuridicidade Antijuridicidade também chamada de Ilicitude é uma conduta típica não justificada, ou seja, é a contrariedade entre a conduta e o ordenamento jurídico, consiste na prática de uma ação ou omissão ilegal. Em princípio, todo fato típico também é ilícito, o fato típico cria presunção de ilicitude, ou pelo menos seu indício. Contudo, é necessário analisar o caso concreto, porque a própria lei prevê determinadas circunstâncias capazes de afastar a ilicitude do fato, ou seja, o agente delituoso pratica um fato típico, porém a antijuridicidade/ilicitude é afastada. Essas circunstâncias são chamadas de exclusão de antijuridicidade/ilicitude, também chamadas de causas de justificação estão dispostas no art. 23, CP. Conduta Resultado Tipo Penal Violação Desaparece o crime Não há ilicitude. Permitida Há crime Há ilicitude Proibida 61 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Art. 23 - Não há crime quando o agente pratica o fato: I - em estado de necessidade; II - em legítima defesa; III - em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. Excesso punível Parágrafo único - O agente, em qualquer das hipóteses deste artigo, responderá pelo excesso doloso ou culposo. Assim, sabe-se que são causas excludente de ilicitude/antijuridicidade: a. Estado de necessidade; b. Legítima defesa; c. Estrito cumprimento de um dever legal; e d. Exercício regular de um direito. Antes de entrarmos em cada uma das causas excludentes é importante que se saiba que as causas podem ser: I. Causas Legais: as quatro ditas acima; II. Causas Supralegais: são aquelas não previstas em lei, que podem ser aceitas sem que haja afronta ao princípio da legalidade, aqui, trata-se de uma norma não incriminadora. Ex. furar a orelha de um bebê recém-nascido, visto que a sociedade já entende como uma conduta aceita, assim, não se enquadra no crime de lesão corporal. Vamos às causas propriamente ditas: a. Estado de Necessidade: possui previsão legal no art. 24, CP. Art. 24 - Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se. § 1º - Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo. § 2º - Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços. O Estado de Necessidade nos leva a ideia de pesar os bens jurídicos de igual valor para o Direito Penal, permitindo que em uma situação de risco ou ameace um deles a ser “sacrificado”. São requisitos do estado de necessidade: 62 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância I. Perigo atual: existe de fato um risco iminente (prestes a acontecer) gerado por um fato humano, comportamento de um animal (desde que não seja provado por seu dono), fato da natureza e sem destinatário certo (dirigido a qualquer pessoa). II. Situação de perigo não provocada, de forma voluntária, pelo agente; III. Salvar direito próprio ou alheio: direito seu (estado de necessidade próprio) ou de outra pessoa (estado de necessidade alheio). O professor Flávio Monteiro de Barros entende que o indivíduo ao proteger direito alheio estaria pautado (baseando-se) no princípio da solidariedade. IV. Não pode existir dever legal de enfrentar o perigo: quando se fala em “enfrentar o perigo” você precisa entender que somente se enfrentará o perigo desde que possível, ou seja, o agente não é obrigado a colocar sua própria vida em risco para salvar outrem (outra pessoa). Aqui é muito importante saber que relações de contrato de trabalho, promessa feita pelo garantidor (aquele que deve garantir o bem-estar do bem jurídico) e aquele que tem o dever legal de enfrentar o perigo (policiais, por exemplo) enquadram-se no termo “dever legal”, ou seja, não é apenas o agente público (funcionário público) que possui esse dever, as relações privadas também possuem força para dar obrigatoriedade à ação do agente. V. O comportamento lesivo deve ser inevitável: diante da situação de risco ou ameaça ao direito (alheio ou próprio) não há outra escapatória senão aquela determinada ação, ação que foi capaz de gerar o dano. O estado de necessidade pode ser defensivo, quando o bem sacrificado é do próprio agente causador do perigo e agressivo quando o bem sacrificado é de terceiro que não criou ou participou da situação de perigo. VI. Não se pode exigir do agente o sacrifício do interesse ameaçado: nesta situação devemos fazer a ponderação entre o bem protegido e o bem sacrificado. VII. Conhecimento da excludente de antijuridicidade/ilicitude: é a consciência e vontade de se salvar direito próprio ou alheio. 63 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância b. Legítima Defesa: disposta no art. 25, CP: “Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem”. São requisitos da legítima defesa: I. Agressão: trata-se de um ataque humano. A agressão animal se encaixa no estado de necessidade, mas se uma pessoa incita o animal atacar outra pessoa, ai pode- se falar em legítima defesa, pois o animal estaria sendo usado como instrumento do crime. A agressão pode ser: i. ativa: quando há de fato uma ação; ii. passiva: trata-se de uma omissão, mas o agente omitente (aquele que se omite) deve ter a obrigação de atuar/agir. II. Injusta: aquela ilícita, contrária ao ordenamento jurídico. III. Atual ou Iminente: quando falamos em injusta agressão atual estamos nos referindo a uma que está acontecendo naquele momento, no entanto, quando falamos em iminente, trata-se daquela que está prestes acontecer. Não há que se falar em legítima defesa de agressão passada (vingança) ou futura (suposição). Segundo Juan Ferré Olivé, Miguel Núnez Paz, William Terra de Oliveira e Alexis Couto de Brito (2016, p. 266): O caráter atual ou iminente da agressão exige que se determine o momento no qual dita agressão começa e termina, para os fins de legítima defesa. Quanto ao momento do começo, uma parte da doutrina exige a realização do delito em grau de tentativa. Entretanto, esta posição exclui determinadas condutas, como alguns atos preparatórios que evidenciam uma tentativa iminente, ou as hipóteses de não serem consideradas como parte de uma autêntica agressão, dificultar-se-ia enormemente as possibilidades de defesa (conforme Roxin). Por esse motivo, deve- se incorporar a fase final dos atos preparatórios, mas não os momentos anteriores, nem a tentativa inidônea. IV. Uso moderado dos meios necessários: espera-se que haja proporcionalidade entre o ataque e a defesa. 64 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a DistânciaV. Proteção de direito próprio ou alheio: quando se fala em proteção de bem alheio, não há que falar em “autorização para agir” quando tratar-se de bem jurídico indisponível, como, por exemplo, a vida. VI. Conhecimento da situação de fato justificante: o agente deve ter conhecimento, ou melhor, consciência de que está agindo contra um ataque atual ou iminente. O professor Rogério Sanches Cunha (2016, p. 270) traz um quadro (abaixo adaptado) bastante esclarecedor sobre diferenças do estado de necessidade e a legítima defesa, vejamos: Estado de Necessidade Legítima Defesa Conflito de vários bens jurídicos diante da mesma situação de perigo; Ameaça ou ataque a um bem jurídico; Pressupõe um perigo + atual + sem destinatário certo; Pressupõe agressão humana + atual ou iminente + injusta + dirigida (com destinatário certo); Os interesses em conflito são legítimos; Os interesses em conflito são ilegítimos. Outro aspecto importante acerca da legítima defesa é a recente alteração do art. 25, CP, pela Lei nº 13.964 de 24 de setembro de 2019, conhecida popularmente por Pacote Anticrime, no sentido de lhe acrescer o parágrafo único que dispõe: Art. 25. [...] Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo [que acabamos de estudar], considera-se também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes. Vale comentar que a referida alteração não inova no Direito e sequer aperfeiçoa o Código Penal, pois apenas positiva (insere na norma jurídica) caso específico e bastante comum na prática da segurana pública, denominada legítima defesa de terceiro, em que o agente de segurança ou qualquer outra pessoa repele ameaça real ou iminente a terceiro. No caso somente se inseriu no Código Penal dispositivo com a finalidade de conferir maior força a tal instituto na situação descrita envolvendo agentes de segurança pública. Todavia a legítima defesa de terceiro alcança todos e quaisquer agentes que pratiquem a conduta típica nos moldes descritos no art. 25, caput, CP. 65 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância c. Estrito cumprimento de um dever legal: previsto na primeira parte do art. 23, CP (já exposto). Quando alguém age em atendimento aos estritos limites da lei, obviamente não pode estar agindo de forma antijurídica, é o caso, por exemplo, do mandado de prisão executado pelo policial, que se não fosse razão do estrito cumprimento do dever legal, poderia ser tipificado como sequestro. O dever de constar em norma (lei, decreto, regulamento ou qualquer ato administrativo, desde que de caráter geral). Quando há ordem não há estrito cumprimento do dever legal, mas sim obediência hierárquica. O cumprimento deve ser estrito, limitado aos termos da lei, ou seja, havendo abuso no cumprimento do dever, não haverá excludente. É necessário ainda que o agente tenha a consciência de que se cumpre um dever legal, pois do contrário haverá um ilícito. d. Exercício regular de direito: afirma-se que onde houver direito não há que falar em crime, ou seja, o “cidadão comum” está autorizado quando existir um direito definido em lei e esteja condicionado a este exercício. Muito se discute sobre os ofensáculos e defesa mecânica predisposta, que são aparatos visíveis que servem à proteção da propriedade ou de qualquer outro bem, como, por exemplo, as cercas elétricas e os cães bravos. 6.2 Culpabilidade A culpabilidade pode ser conceituada como um juízo de reprovação da conduta realizada pelo agente, juízo este ligado a necessidade da aplicação de uma sanção penal. Que tal conhecermos duas teorias muito debatidas sobre esse assunto? 66 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância De forma sistematizada as teorias são: Os grandes estudiosos do Direito entendem que essas duas teorias deveriam ser vistas em conjunto, visto que uma complementa a outra. Assim, o agente delituoso somente poderia ser condenado se ele no exato momento da ação possuía consciência (de certo e errado) do que estava fazendo e escolheu realizar aquela ação. Você deve se lembrar de que mencionei o seguinte: para os teóricos bipartidos a culpabilidade não é elemento do crime, ou seja, não integra o conceito de crime. Então, se há discussão sobre a culpabilidade é porque já se verificou a existência do fato típico e sua ilicitude. A culpabilidade é pressuposto para imposição de pena, sua ausência não exclui o crime, mas afasta a punibilidade do autor da infração. Em resumo, para a corrente que adota a teoria bipartida, a culpabilidade seria mero pressuposto de aplicação de pena. Já para a corrente que adota a teoria tripartide (teoria esta que prevalece hoje), a culpabilidade integra a estrutura do crime. Prevalece, então, que a culpabilidade é a estrutura relacionada à reprovabilidade. É nesse momento que se analisa se o sujeito (agente delituoso), livre para agir, poderia e deveria ter agido de acordo com o Direito. Se ele não poderia e deveria agir de acordo com o Direito, ele não poderá ser considerado culpável, ou seja, se determinado fato influencia a liberdade entre o caminho Teorias Livre-Arbítrio Determinismo Escola Clássica; Deve ser responsabilizado por suas escolhas. O homem possui capacidade moral para escolher a melhor opção; O homem não é soberano em suas escolhas devido a fatores internos e externos que são capazes de influência-lo. Escola Positiva; 67 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância do legal ou ilegal, isso irá gerar vício na liberdade e deverá ser levado em conta na reprovação do agente. Desta forma, se não havia liberdade, não haverá culpabilidade. Se a liberdade foi restringida, pode ser caso da reprovabilidade também ser diminuída. São elementos estruturais da culpabilidade: a. Imputabilidade: trata-se da capacidade de se imputar (aplicar) uma pena ao agente delituoso, ou seja, sua responsabilização pelos atos praticados até então. Assim, a inimputabilidade, ocorre quando ao agente não pode ser aplicada a sanção (pena) correspondente ao fato criminoso, esta pode ocorrer por: I. Doença mental: são perturbações mentais (psicose, esquizofrenia, paranóia, epilepsia etc.). A dependência patológica de substâncias psicotrópicas (drogas) também é considerada como doença mental. II. Desenvolvimento mental incompleto: é o desenvolvimento mental que ainda não se concluiu. Podemos enquadrar neste os índios (denominados no Direito de silvícolas) não adaptados e os menores de 18 anos. III. Desenvolvimento mental retardado: é o caso dos oligofrênicos, que se classificam em débeis mentais, imbecís e idiotas, dotados de reduzidíssima capacidade mental e dos surdos-mudos que, devido sua anomalia, não possuem capacidade de entendimento e autodeterminação. b. Embriaguez: trata-se de intoxicação aguda e transitória provocada pela ingestão de álcool ou substância de efeito análogo (drogas), cujas consequências variam desde uma ligeira excitação até a perda da consciência. A embriaguez tem relevância no exame de culpabilidade, pois pode eventualmente excluir a liberdade do sujeito para atuar de acordo com o Direito. Ela pode ser dividida em: I. Preordenada: o sujeito se embriaga propositadamente para praticar o crime, buscando através do álcool uma “coragem” que sem ele não teria. Nesta situação, a culpabilidade será agravada, conforme o art. 61, II, l, CP. 68 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Art. 61 - São circunstâncias que sempre agravam a pena, quando não constituem ou qualificam o crime: [...] II - ter o agente cometido o crime: [...] l)em estado de embriaguez preordenada. II. Voluntária ou Culposa: será considerada voluntária quando o indivíduo age com o intuito de se embriagar e culposa quando o indivíduo não toma a devida cautela para impedir a embriaguez. Neste caso, para a jurisprudência (entendimentos reiterados de Tribunais Superiores ao Juiz de primeiro grau) majoritária, o sujeito responde como se estivesse sóbrio, ou seja, a embriaguez voluntária ou culposa não afasta a culpabilidade. Assim, se alguém dirige embriagado e acaba atropelando e matando um pedestre, responderá como se sóbrio estivesse. III. Acidental: esta forma de embriaguez não é resultado da intenção ou falta de cautela do sujeito, mas sim de caso fortuito ou força maior. Parece improvável, mas a doutrina cita como hipótese de embriaguez forçada ou imprevisível a situação em que o indivíduo cai acidentalmente em uma piscina de vinho. O que vale ressaltar é que se o sujeito não era livre no momento da ingestão da substância, então não há culpabilidade. A embriaguez acidental exclui a imputabilidade e a incompleta reduz a pena. IV. Patológica: é o caso do alcóolatra, do dependente de substância química. Nesta situação o agente será equiparado ao doente mental, excluindo-se a imputabilidade. c. Emoção e Paixão: figuras descritas no art. 28, I, CP: “Não excluem a imputabilidade penal: I - a emoção ou a paixão [...]”. Mas ao que se refere à emoção e a paixão? Vejamos. I. Emoção: estado súbito ou passageiro. Pode ser considerado como uma atenuante, nos moldes do art. 65, III, c, CP, ou causa de diminuição da pena, como, por exemplo, no art. 121, §1º e 129, §4º ambos do CP. Art. 65 - São circunstâncias que sempre atenuam a pena: [...] 69 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância III - ter o agente: [...] c) cometido o crime sob coação a que podia resistir, ou em cumprimento de ordem de autoridade superior, ou sob a influência de violenta emoção, provocada por ato injusto da vítima; Art. 121. Matar alguém: Pena - reclusão, de seis a vinte anos. Caso de diminuição de pena § 1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço. Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem: Pena - detenção, de três meses a um ano. [...] Diminuição de pena § 4° Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço. II. Paixão: é um sentimento crônico e duradouro, pode, inclusive, ser entendido como uma doença mental, nos moldes do art. 26, caput, CP. Art. 26 - É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento [...] Nem a emoção, nem a paixão excluem a imputabilidade. d. Potencial consciência da ilicitude: está ligado diretamente com a possibilidade de o agente entender a reprovabilidade da conduta. Vale aqui explicar que o “entender a reprovabilidade” não está ligado com o conteúdo da norma jurídica, mas sim com a percepção de certo ou errado. O desconhecimento da lei é inescusável, ou seja, ninguém pode descumprir a lei alegando que não a conhece. 70 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Contudo, há casos em que dada às circunstâncias específicas, o sujeito não possui nem condições de conhecer do conteúdo do injusto e se ele não possuía condições de se motivar pela norma não poderá ser censurado por ter agido de forma contrária a lei. A causa que exclui a potencialidade da consciência da ilicitude se chama erro de proibição inevitável (art. 21, CP), ou seja, o agente não tinha condições de conhecer a ilicitude do fato em face das circunstâncias que contrariava o ordenamento jurídico, trata- se apenas de uma causa de diminuição da pena. Art. 21 - O desconhecimento da lei é inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço. Parágrafo único - Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência. Ex. trabalhador rural, idoso, que viveu a vida toda em seu sítio, sem televisão e que aprisionava um animal silvestre (infração a lei ambiental). Dadas as circunstâncias, o senhor não tem conhecimento de que pratica uma conduta proibida e também nem poderia tê-lo, já que a prática era comum entre seus pais e avós. e. Exigibilidade de conduta diversa: é a expectativa social que a pessoa tenha outro comportamento e não aquele que de fato teve. Em nosso ordenamento jurídico, a exigibilidade de conduta diversa pode ser excluída por duas causas: I. Coação Moral Irresistível: consiste em ameaça grave contra a qual o homem médio não consegue resistir. A coação moral irresistível não exclui o crime, pois resta um resquício de vontade, mas exclui a culpabilidade. Ex. um sujeito com arma de fogo ordena que um rapaz dê um golpe em sua namorada. II. Obediência hierárquica: o agente atua em cumprimento de uma ordem específica de um superior que tenha com ele uma relação de Direito Público e que seja não manifestamente ilegal. 71 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Se o subordinado cumprir ordem ilegal, reconhecendo sua ilegalidade, responde pelo crime praticado. 6.3 Concurso de Pessoas Concurso de pessoas trata-se da reunião de vários agentes, que concorrem (agem) de forma relevante (e importante que ocorra) para que se realize o evento (ato/fato criminoso). Esta participação, ou cooperação, pode ocorrer nos variados graus de auxílio, bem como nas mais variadas fases do crime (como já estudamos no tópico em que tratamos do iter criminis). Para estarmos diante do concurso de pessoas devem estar presentes alguns requisitos: 1. Presença de dois ou mais agentes: ou como a doutrina (livros que tratam de Direito) costuma chamar: pluralidade de agente e condutas. Neste requisito é importante falarmos sobre a “qualidade” dos agentes criminosos, eles podem ser subdivididos em: a. Autor: aquele que realiza de fato o verbo principal (núcleo) do tipo penal. b. Coautor: figura disposta no art. 29, CP. aquele que pratica o mesmo verbo da conduta descrita no núcleo do tipo, são aqueles que praticam as condutas mais importantes. “Art. 29 - Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade”. É importante saber que, eles responderão pela mesma infração, mas não significa que terão a mesma pena, ou seja, eles irão receber penas proporcionais aos atos pelos quais foram responsáveis. Ex. a pessoa que deu um tiro pode ter a pena menor que seu coautor que deu 10 tiros. c. Partícipe: é aquele que concorre de outra forma, mas relevante, para que se consume o resultado pretendido, ou seja, ele não pratica o núcleo do tipo. São aqueles agentes que praticam as condutas menos importantes, acessórias etc. É importante saber que os partícipes recebem as penas pelos mesmos crimes que os praticados pelos autores, mas sua pena será reduzida entre 1/3 a 1/6, dependendo do grau de 72 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância envolvimento, conforme o art. 29, §1º, CP: “Se a participação for de menor importância, a pena pode ser diminuída de um sexto a um terço”.2. Relevância causal das condutas: demos nos atentar que, quando falamos de concurso de pessoas, necessariamente, haverá uma pluralidade de condutas, mas para que estejamos diante de um real concurso de pessoas estas condutas devem possuir relevância para que se chegue ao fim desejado (a consumação do resultado pretendido). Se uma conduta nada tenha a ver, ou, não possua eficácia, não há que falar em concurso de pessoas. 3. Liame subjetivo entre os agentes: todos aqueles que estejam praticando o fato criminoso devem estar reunidos e atuando de forma consciente na mesma ação criminosa. Caso não haja este vínculo estaremos diante de outra figura, a autoria colateral, que ocorre quando duas ou mais pessoas agem para alcançar um mesmo fim (leia-se resultado), mas ambos agentes não conhecem da intenção do outro. Ex. “A” e “B” querem matar “C”. “C” estava na madrugada perambulando pela cidade e em determinado cruzamento “A” e “B” a sua espera, cada um de um lado da rua, mas sem saber que o outro por ali estava, empunhados de uma arma atiram e acertam “C”, levando-o a óbito. Os agentes agiram ao mesmo tempo, com a mesma finalidade, mas um sem saber do outro, ou seja, não há vínculo subjetivo entre eles. 4. Identidade de infração penal: para que os agentes incorram no concurso de pessoas, devem estes ter contribuído para a mesma ação criminosa, previamente determinada pelos agentes. Comunicabilidade das Circunstâncias, Condições e Elementares: vejamos o art. 30 do CP: “Não se comunicam as circunstâncias e as condições de caráter pessoal, salvo quando elementares do crime”. De acordo com essa regra, as circunstâncias pessoais somente se comunicam ao coautor ou partícipe quando não forem circunstâncias, mas elementares. Vamos juntos estudar cada um dos termos? 1. Circunstâncias: são elementos que estão ligados a figura primária, mas podem agregar dados/detalhes que podem vir a ser tratado como aumento ou diminuição da pena. As circunstâncias podem ser subdivididas em: 73 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância a. Objetivas: estão relacionadas com o fato. Ex. rompimento de obstáculo para realização de um furto a residência. b. Subjetivas: estão relacionadas aos agentes e os motivos que levaram a prática delituosa. Ex. motivo torpe no homicídio. 2. Condições: está ligado diretamente ao indivíduo, ou seja, se considera sua relação com os demais agentes criminosos. Ex. menoridade; parentesco com os demais. 3. Elementares: tem relação com a figura criminosa. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal: parte geral (arts. 1º ao 120) 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2016. DIAS, Jorge de Figueiredo. Direito Penal: parte geral. 2 ed. Tomo I. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 2007. OLIVÉ, Juan Ferré et. al. Direito Penal Brasileiro: parte geral, princípios fundamentais e sistema. 2 ed. São Paulo: SaraivaJur, 2016. 74 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 7 TEORIA GERAL DA PENA Objetivos: Analisar outro foco do Direito Penal, a pena, em um caráter introdutório. Introdução Olá, estudados os institutos relacionados tanto à aplicação do próprio Direito Penal e da norma penal, como do ato delitivo, chegou a hora de analisarmos o outro objeto do Direito Penal: a pena. A aplicação da pena é atividade privativa do Estado, pois ele é o único detentor do chamado direito de punir (jus puniendi), pois esta atividade está intimamente relacionada à atividade do próprio Estado de proteger seus súditos (os administrados). Diante disso, neste módulo vamos estudar os seguintes tópicos: As penas Teorias das penas Espécies de pena 7.1. As Penas Primeiro precisamos conceituar o que é a pena. Pena é a resposta do Estado dada para aquele que comete algum crime ou contravenção, esta pena poderá restringir o indivíduo de algum bem, como, por exemplo, sua locomoção. Lembre-se que para imposta qualquer tipo de pena devemos respeitar o devido processo legal, ou seja, ainda que possamos entender que um crime possa ser perverso ou imperdoável, aquele que, em tese, tenha praticado a ação é um cidadão de direitos e estes devem ser respeitados. Você deve estar se perguntando: Mas qual a finalidade da pena? Antes de te explicar os “porquês” da aplicação de uma pena, quero relembrar alguns princípios (já estudados) que são consideradas características das penas. Vamos lá? a. Legalidade: a pena deve estar prevista em lei (princípio da reserva legal, art. 5º XXXIX da CRFB); 75 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância b. Anterioridade: a pena deve estar prevista em lei vigente ao tempo da infração penal, ou seja, quando for praticado o fato criminoso a pena e o crime já devem estar presentes no ordenamento brasileiro (art. 5º, XXXIX, CRFB); c. Proporcionalidade: a pena deve ser proporcional a atuação do indivíduo na prática criminosa; d. Individualidade: a pena deve ser individualizada segundo as particularidades de cada agente; e. Personalidade: a pena não pode ultrapassar a pessoa do criminoso (art. 5º, XLV, CRFB), mas aqui você deve estar “alerta”, quando falamos que uma pena “não pode ultrapassar a pessoa do criminoso” referimo-nos a privação da liberdade daquele, quanto aos efeitos civis, como, por exemplo, indenizações etc., há outra regra, mas que para nós não interessa no momento, caso haja interesse sobre o assunto nos procure nos fóruns, ou em algum material complementar de Direito Constitucional. f. Humanidade: são expressamente proibidas as penas cruéis. 7.2. Teoria das Penas De forma simples, as penas podem ser divididas em: teorias retributivas ou também chamadas de absolutas, preventivas ou conhecida como relativas e por fim, teorias ecléticas. a. Teorias Retributivas/Absolutas: estas teorias partem de uma concepção de justiça que visa retribuir o mal com o mal. Aqui podemos destacar a influência da Lei de Talião, o famoso “olho por olho e dente por dente”, ou seja, ao mal do crime, retribui-se com o mal da pena. Segundo esta perspectiva não se pune alguém visando algo no futuro, mas sim por algo passado, que é o crime cometido. Um dos postos positivos desta teoria é que ela traz limites à punição, estabelecendo uma proporcionalidade entre o crime e a pena, mas esta teoria, também, 76 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância é muito criticada por não ter fundamento racional que visa pacificação social ou a redução da violência, pautando-se na ideia de vingança. b. Teorias Preventivas/Relativas: para esta teoria a punição visa a prevenção. Aqui, não falamos em retribuir o mal com outro mal, mas sim em punição para prevenir que outro mal ocorra. Esta prevenção se divide em: geral e especial. A prevenção geral, como o próprio nome sugere visa a coletividade (sociedade). Ela ainda se subdivide em negativa e positiva, vamos a elas: I. negativa: a pena é aplicada para intimidar potenciais delinquentes, utilizando o apenado como exemplo; II. positiva: impõe punição com o objetivo de comunicar, isto é, reforçar a vigência da norma que teria sido abalada com a prática delitiva. Com relação à prevenção especial, possui este nome por ser voltada ao indivíduo. Ela também pode ser subdividida em: I. negativa: com a pena o indivíduo fica afastado da sociedade e não pode praticar mais crimes; II. positiva: pune-se para buscar a ressocialização do condenado. O art. 1º da Lei de Execuções Penais (LEP, Lei nº 7.210/84) é inspirado na ideia de ressocialização, vejamos: “Art. 1º A execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado”. c. TeoriasEcléticas: o intuito de somar as qualidades das penas anteriores, surge uma terceira corrente que busca compatibilizar as funções da pena. Assim, a pena deveria sempre perseguir os ideais da ressocialização, mas sempre dentro dos limites da culpabilidade (aqui, o limite do mal causado pode ser considerado influência das teorias retributivas). O Brasil adota a Teoria Eclética, segundo o art. 59, CP: Art. 59 - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e conseqüências do crime, 77 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime: I - as penas aplicáveis dentre as cominadas; II - a quantidade de pena aplicável, dentro dos limites previstos; III - o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade; IV - a substituição da pena privativa da liberdade aplicada, por outra espécie de pena, se cabível. Ou seja, para o sistema normativo brasileiro a pena tem caráter retributivo, preventivo e reeducativo. De forma sistematizada: 7.3. Espécies de Pena A Constituição Federal (CRFB) é muito importante para o estudo do Direito Penal e não somente neste assunto, tenha sempre a Constituição como sua aliada e em mãos. E por que desta afirmação? Simples! A nossa CRFB é quem relaciona as penas permitidas4 no Brasil, vejamos: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] XLVI - a lei regulará a individualização da pena e adotará, entre outras, as seguintes: a) privação ou restrição da liberdade; b) perda de bens; c) multa; d) prestação social alternativa; e) suspensão ou interdição de direitos [...]. 4 Como também elenca as penas vedadas (proibidas) no Brasil no seu art. 5º, XLVII - não haverá penas: a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX; b) de caráter perpétuo; c) de trabalhos forçados; d) de banimento; e) cruéis [...]”. F in a lid a d e d a s P e n a s Teorias Absolutas “retribuir o mal com o mal” Teorias Ecléticas Teorias Relativas Prevenção Geral (foco na sociedade em geral). Prevenção Especial (foco no indivíduo). Negativa: visa intimidar a todos da coletividade. Positiva: visa a ressocialização do condenado. Negativa: visa afastar o delinquente da sociedade. Positiva: Reforça a vigência da norma. 78 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O Código Penal, por sua vez, classifica as espécies permitidas de pena da seguinte forma: a. Privativas de Liberdade; b. Restritivas de Direito; e c. Multa. Vamos estudar cada uma delas separadamente abaixo: a. Penas Privativas de Liberdade: existe no Código Penal Brasileiro duas espécies de penas privativas de liberdade, são elas a reclusão e a detenção. O que diferencia essas espécies de penas é o regime penitenciário ao qual elas se sujeitam. I. Reclusão: esta pena pode começar a ser cumprida em três regimes diferentes: i. Regime Fechado: estabelecimentos de segurança máxima e média. Este regime será aplicado quando a pena exceder 8 anos, ou seja, for maior que 8 anos; ii. Regime Semiaberto: é aquele em que a pena será cumprida em colônias penais agrícolas e industriais. Este regime será aplicado, inicialmente, quando a pena aplicada for superior a 4 anos, mas não exceda 8 anos; e iii. Regime Aberto: o sujeito trabalha durante o dia e, durante a noite e nos dias de folga deverá se recolher a casa do albergado ou à prisão. Este regime será aplicado, inicialmente, quando a pena aplicada for igual ou inferior a 4 anos. Antigamente era vedado (proibido) ao condenado reincidente iniciar seu cumprimento de pena em regime semiaberto, não importava o quanto de pena o indivíduo recebia em sua condenação, no entanto, hoje, a Súmula 269 do Superior Tribal de Justiça mudou este entendimento, vejamos: ”É admissível a adoção do regime prisional semi- aberto aos reincidentes condenados a pena igual ou inferior a quatro anos se favoráveis as circunstâncias judicias”. I. Detenção: diferente da pena de reclusão, a pena de detenção nunca poderá começar a ser cumprida no regime fechado. Este tipo de pena possui apenas dois regimes iniciais: 79 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância i. Regime Semiaberto: quando a pena aplicada exceder a 4 anos; ii. Regime Aberto: quando a pena aplicada for igual ou inferior a 4 anos. Se o condenado for reincidente ou se as circunstâncias previstas no art. 59 do Código Penal forem excepcionalmente desfavoráveis, ele iniciará sua pena em regime mais grave, independente da quantidade de pena imposta. b. Penas Restritivas de Direito: As penas restritivas de direitos são uma alternativa à pena privativa de liberdade, são chamadas de substitutivas, porque o Código Penal não comina (aplica) diretamente uma pena restritiva de direito. Para que uma pena restritiva de direitos seja aplicada o juiz deverá dosar a pena privativa de liberdade e depois, se for o caso, substituir pela pena restritiva de direito. O prazo de duração da pena restritiva de direito é o mesmo que o da privativa de liberdade que foi substituída, salvo no caso de prestação de serviço à comunidade, em que é permitido encurtar esse período. Art. 46. A prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas é aplicável às condenações superiores a seis meses de privação da liberdade. § 4o Se a pena substituída for superior a um ano, é facultado ao condenado cumprir a pena substitutiva em menor tempo (art. 55), nunca inferior à metade da pena privativa de liberdade fixada. Existem penas restritivas de direito genéricas e as específicas. As específicas são aquelas que se aplicam apenas em crimes determinados, são situações em que há uma espécie de relação entre a espécie do crime e a espécie da pena, como é o caso da interdição temporária de direitos. Já as genéricas são todas as demais que substituem as penas de quaisquer crimes, como é o caso da prestação de serviço à comunidade e a limitação de final de semana. As espécies de penas restritivas de direitos são: 1. Prestação Pecuniária; 2. Perda de Bens ou Valores; 80 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3. Prestação de Serviços a Comunidade ou Entidades Públicas; 4. Limitação de Final de Semana; 5. Interdição Temporária de Direitos. Os requisitos para a substituição da pena privativa de liberdade pela restritiva de direitos são três e cumulativos, ou seja, é necessária a presença de todos eles: 1. Crimes dolosos praticados sem violência ou grave ameaça à pessoa, quando a pena privativa de liberdade aplicada não for superior a 4 anos ou qualquer que seja a pena se o crime for culposo; 2. Que o condenado não seja reincidente em crime doloso; e 3. Culpabilidade, antecedentes, conduta social e personalidade do condenado, bem como os motivos e as circunstâncias do crime sugiram que seja suficiente à substituição. Quanto à prestação pecuniária: trata-se de pagamento em dinheiro para a vítima, para seus dependentes ou para entidade pública ou privada com destinação social. O valor fixado para as prestações pecuniárias podem variar entre 1 e 360 salários mínimos, este valor será fixado pelo juiz da causa após análise detalhada e principalmente sob o enfoque da proporcionalidade. Se a vítima preferir, o dinheiro poderá ser substituído por outra natureza, como, por exemplo, o pagamento decestas básicas. Não devemos confundir este tipo de pena restritiva de direitos com a pena de multa. A pena de multa, como veremos adiante, é mais branda e é destinada ao Fundo Penitenciário em caso de descumprimento, por exemplo, no caso de multa o débito é inscrito na dívida da Fazenda Pública, já no caso da prestação pecuniária, havendo seu descumprimento, o juiz converterá em pena privativa de liberdade. Com relação à perda de bens ou valores, trata-se de pena que impõe a perda destes em favor do Fundo Penitenciário Nacional. O montante terá como limite o prejuízo causado ou o proveito obtido com o crime (valerá o que for maior). 81 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Note que não se trata de perda do produto do crime, mas sim do patrimônio lícito do condenado. A prestação de serviços à comunidade consiste na atribuição ao condenado a tarefas gratuitas nas escolas, hospitais, clubes, entidades assistenciais etc. Trata-se de uma das penas restritivas de direitos mais aplicada. É possível apenas nas condenações superiores a 6 meses de privação de liberdade. Para cada dia de condenação a pena privativa de liberdade é substituída por um uma hora de tarefas diárias, fixadas de modo a não prejudicar a jornada de trabalho daquele. Com relação à limitação de finais de semana, apesar da previsão legal ela é pouco usada, pois não há mecanismos de implantação atuantes. A limitação de fim de semana obriga, em tese, o condenado a permanecer durante 5 horas aos domingos em casa de albergado ou estabelecimento similar, a fim de atender a atividades educativas (palestras, cursos etc.). A interdição temporária de direitos pode se subdividir em quatro tipos, vejamos: 1. Proibição do exercício de função pública ou mandato eletivo: é a chamada “pena específica”, somente pode ser aplicada nos crimes cometidos no exercício de função pública ou no mandato eletivo (violando deveres inerentes à função); 2. Proibição do exercício de profissão, atividade ou ofício de que dependa de habilitação especial, licença ou autorização do Poder Público; 3. Suspensão da habilitação para dirigir veículo: aplicada nos crimes de trânsito; 4. Proibição de frequentar lugares: exemplo atual desse tipo de pena está no Estatuto do Torcedor (Lei nº 12.299/2010), que incluiu novos crimes e novas penas, dentre elas destaca-se a proibição de frequentar estádios. O torcedor infrator será obrigado a permanecer em repartição pública duas horas antes até dias horas depois de partidas de futebol, de forma que não possa assistir e nem ouvir as partidas. Na condenação igual ou inferior a um ano a substituição pode ser feita por pena de multa ou por uma pena restritiva de direitos, caso seja superior a um ano, a pena privativa 82 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância de liberdade pode ser substituída por uma pena restritiva de direitos e multa ou por duas penas restritivas de direitos. c. Multa: é uma das espécies de pena alternativa, é a única pena alternativa que não pode ser convertida pela privativa de liberdade. A lei manda fixar o número de dias-multa e o valor dos dias-multa, multiplicando um pelo outro e seu resultado é o valor a ser pago pelo condenado. A quantia de dias multa pode variar entre 10 e 360 dias-multa, o critério que o juiz deverá usar para escolher entre o mínimo e o máximo é similar ao das penas privativas de liberdade, com especial atenção ao binômio: gravidade do fato em concreto versus a culpabilidade do autor. Há posição no sentido de que o critério seria a capacidade econômica do condenado. Esses valores, referentes aos dias-multa, são fixados entre 1/30 e 5 salários mínimos, de acordo com a capacidade econômica do condenado e o seu pagamento será destinado ao Fundo Penitenciário e em caso de descumprimento a execução compete a Fazenda Pública. BRAGA, Hans Robert Dalbello. Manual de Direito Penal: Parte Geral. São Paulo: Rideel, 2018. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal: parte geral (arts. 1º ao 120) 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2016. FAVORETTO, Affonso Celso. Direito Penal: Parte geral e parte especial. São Paulo: Rideel, 2018. PASCHOAL, Janaína Conceição. Direito Penal: parte geral. 2º ed. São Paulo: Manole, 2015. PEREIRA, Gisele Mendes. Direito Penal I. Caxias do sul: EDUCS, 2012. THOMAZ, Paulo Amador; BUENO, Alves da Cunha. Direito Penal: Parte Geral. São Paulo: Manole, 2012. 83 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 8 CUMPRIMENTO DA PENA Objetivos: Estudar os regimes de cumprimento de pena assim como diversos institutos penais relacionados ao tema. Introdução Olá, dando continuidade aos nossos estudos sobre as penas, vamos estudar nesta aula o cumprimento da pena, tema muito importante para o entendimento mais completo do Direito Penal e da responsabilidade do Estado no exercício do poder de punir. Neste módulo vamos estudar os seguintes tópicos: Cumprimento da pena Progressão de regime de cumprimento de pena Regressão de regime de cumprimento de pena Falta de vagas em estabelecimento adequado Trabalho e remição Unificação das penas Detração penal Reincidência 8.1 Cumprimento da Pena Para a fixação do regime inicial de cumprimento de pena, o primeiro procedimento a ser feito é análise de qual pena o indivíduo recebeu (privativa de liberdade, restritiva de direitos, multa). Como visto no tópico anterior, apenas a reclusão admite regime inicial fechado. Sendo está aplicada devemos ter em mente qual a quantidade de pena, no caso da reclusão, se a pena não for maior que 4 anos, são possíveis a aplicação dos regimes aberto e semiaberto, somente sendo possível o regime fechado em razão de excepcional circunstância do crime ou em caso de reincidência. 84 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Caso a pena seja maior que 4 anos e menor que 8, poderá ser imposto o regime inicial aberto e semiaberto, aqui também, em função de circunstância de específica gravidade do crime ou de reincidência, o juiz poderá fixar regime mais severo (fechado). Se a pena superar 8 anos deverá, obrigatoriamente, ser fixado como regime inicial o regime fechado. No caso de detenção se a pena não superar 4 anos, são possíveis os regimes aberto e semiaberto. O juiz somente estipulará o semiaberto se houver circunstância que aponte a especial gravidade do fato ou a reincidência. Se a pena superar os 4 anos ou réu for reincidente, será aplicado o regime semiaberto. 8.2 Progressão de Regime de Cumprimento de Pena No módulo anterior mencionei que a Lei de Execuções Penais (LEP, Leinº 7.210/84)) coloca a ressocialização como finalidade principal da pena, assim, para estimular o bom comportamento do condenado e viabilizar a sua reintegração à sociedade, a liberdade do preso vai sendo devolvida gradativamente e é condicionada ao bom cumprimento das suas obrigações. É o que chamamos de regime progressivo de cumprimento de pena. A progressão de regimes também funciona como um importante mecanismo de individualização da pena, pois diferencia o tratamento dado aos que se adequam à proposta de disciplina e trabalho proposta pelo Estado e aqueles que preferem persistir na prática de infrações dentro do estabelecimento carcerário. A progressão de regime consiste na passagem de um regime mais gravoso para um mais ameno (menos gravoso), mas para isso, o condenado precisa cumprir alguns requisitos legais, dispostos no art. 112 da LEP, com alterações importantes trazidas pela Lei nº 13.964/2019 (Paconte Anticrime): Art. 112. A pena privativa de liberdade será executada em forma progressiva com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinadaresultando visões diferenciadas sobre o fenômeno Criminal. Cesare Lombroso – considerado o Pai da Criminologia – é atribuída a criminologia positiva antropológica, utilizando em suas pesquisas e investigações criminológicas o método empírico, através de autópsias e exames físicos, que culminaram com sua famosa tipologia dos criminosos: a. o criminoso nato (atávico); b. o criminoso louco moral (doente); c. o criminoso epilético; d. o criminoso louco; e. o criminoso ocasional; f. o criminoso passional (...) ideia do delinquente nato, enquanto subespécie humana. (...) Já a Enrico Ferri é atribuída a criminologia positiva sociológica, que, como o nome indica, dá especial ênfase à ótica sociológica do fenômeno criminal (...) o crime não seria produto exclusivo de nenhuma patologia individual (...), mas o resultado da contribuição de diversos fatores individuais antropológicos (...). Quanto a Raffaele Garofalo, lhe é imputada a criminologia positivista psicológica que, mediante positivismo moderado e equilibrado – e que o afastou das vertentes antropológicas e sociológica -; procurou definir o crime, como categoria exclusiva da Criminologia, enquanto “delito natural”, ou seja, como série de condutas nocivas per se e que ocorrem em qualquer sociedade em qualquer tempo histórico (...), o Estado deveria eliminar, como na natureza, aquele que não se adapta à sociedade e às exigências de convivência, aceitando penas severas e a pena de morte (...). O quadro acima foi adaptado. Ainda podemos falar em outras escolas importantes: I. Garantismo Penal: que prega o respeito aos direitos e garantias do indivíduo na sua relação com o Estado e tem como uma de suas principais funções a diminuição da violência social. Seu maior expoente (nome) foi Ferrajoli. II. Escola Funcionalista: justifica todos os institutos do Direito Penal a partir de suas funções político-criminais, ou seja, estabelece correlação entre a política criminal e dogmática jurídico-penal. Seu maior expoente foi Claus Roxin. III. Terza Scuola Italiana: o crime nada mais é do que um fenômeno individual e coletivo, seu agente delituoso não é dotado de livre-arbítrio, é considerado anormal. 6 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Para essa escola a pena possui a função de defesa social. É conhecida como uma Escola eclética, visto que, se ampara em conceitos clássicos e positivistas. IV. Escola da Nova Defesa Social: o mal desestabiliza o aprimoramento social, o agente delituoso precisa ser adaptado à ordem social e a pena busca proteger o cidadão, mas sua finalidade precípua é a ressocialização do criminoso e a responsabilização da sociedade para com aquele. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal: parte geral (arts. 1º ao 120) 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2016. PASCHOAL, Janaína Conceição. Direito Penal: parte geral. 2º ed. São Paulo: Manole, 2015. PELUSO, Vinícius de Toledo Piza. Introdução às Ciências Criminais. 2 ed. Salvador: JusPodivm, 2020. PEREIRA, Gisele Mendes. Direito Penal I. Caxias do sul: EDUCS, 2012. THOMAZ, Paulo Amador; BUENO, Alves da Cunha. Direito Penal: Parte Geral. São Paulo: Manole, 2012. 7 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2. NORMA PENAL Objetivo: Estudar a norma penal, compreendendo seus princípios e aplicação. Introdução Olá, neste módulo estudaremos a norma penal, portanto, prepare-se, pois esta é uma das aulas mais importantes da nossa disciplina, pois serve de base para a aplicação de todo o restante da matéria que iremos estudar. Neste módulo estudaremos os seguintes pontos: Teoria geral da norma penal Princípios 2.1. Teoria Geral da Norma Penal Dentro do estudo da teoria geral da norma penal estudados de forma aprofundada os princípios penais. Ao interpretar a lei penal não podemos nos fixar apenas no texto frio e seco (leitura apenas do dispositivo legal) dos artigos, há constante necessidade de se interpretar o porquê daquele texto, o que de fato o legislador quis dizer e qual a melhor forma de se aplicar determinada lei. Os princípios penais, constitucionais e legais vem para dar base, direção aos criadores (legisladores) aplicadores (advogados, juízes etc.) das normas penais. Antes de adentrarmos ao estudo de alguns dos principais princípios que norteiam o Direito Penal é necessário entender a diferença desses para as leis. Vejamos: Princípios Leis Solução de Conflitos I. Havendo conflito entre princípios, deverá ocorrer ponderação de valores. II. Os princípios podem ser aplicados em conjunto, observando sempre a sua compatibilidade. III. Não existe revogação (deixar de existir) de princípios. Havendo conflito entre as leis, apenas uma prevalecerá afastando as demais (princípio da especialidade, estudaremos mais tarde). 8 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Plano de Concretude Aplicam-se em infinitas hipóteses e nas mais diversas facetas do Direito. São elaboradas para regerem um fato em abstrato. 2.2. Princípios Exclusiva Proteção de Bens Jurídicos Luiz Regis Prado (apud CUNHA, 2016, p. 68) em sua doutrina: “Bem jurídico é um ente material ou imaterial havido do contexto social, de titularidade individual ou metaindividual reputado como essencial para a coexistência e o desenvolvimento do homem em sociedade e, por isso, jurídico- penalmente protegido. Deve estar sempre em compasso com o quadro axiológico vazado na Constituição e com o princípio do Estado Democrático e Social de Direito. A ideia de bem jurídico fundamenta a ilicitude material, ao mesmo tempo em que legitima a intervenção penal legalizada”. A ideia de “bem jurídico” se relaciona com aquilo que seja mais importante para a sociedade. Tendo em vista o já dito, o legislador deve ser cauteloso e criterioso ao tipificar uma conduta como criminosa, ou seja, capaz de causar lesão e dano. Intervenção Mínima O Direito tem como principal função assegurar a paz social, a solução de conflitos, permitindo uma convivência harmônica na sociedade, mas há situações em que apenas o Direito Penal poderá intervir para evitar a ocorrência de ilícitos e também, cabe à ele imputar penas e/ou medidas de segurança, somente agirá em ultima ratio (ultimo caso), ou seja, somente quando estritamente necessário, visando a proteção de lesão ao bem jurídico tutelado. Direito Penal Ultima Ratio Fragmentariedade* Subsidiariedade* Aplica sanção (penas ou medidas de segurança) Atua sobre o bem jurídico tutelado Somente agirá quando as demais vertentes fracassarem 9 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Segundo Roberto Bitencourt (apud CUNHA, 2016, p. 70): “Orienta e limita o poder incriminador do Estado, preconizando que a criminalização de uma conduta sé se legitima se constituir meio necessário para proteção de determinado bem jurídico. Se outras formas de sanção ou outros meios de controle social revelaram-se suficientes para tutela desse bem, a sua criminalização é inadequada e não recomendável. Se para o restabelecimento da ordem jurídica violada forem suficientes medidas civil ou administrativas, são essas que devem ser empregadas e não as penas”. Com o mesmo raciocínio encontramos Heleno Cláudio Fragoso (apud CUNHA, 2016, p. 71): “Desde logo se deve excluir do sistema penal a chamada criminalidade de bagatela e os fatos puníveis que se situam puramente na ordem moral. A intervenção punitiva só se legitima para assegurar a ordem externa. A incriminação só se justifica quando está uma causa um bem ou valor social importante. Não é mais possível admitir incriminações que resultem certa concepção moral da vida, da validade geral duvidosa, sustentada pelos quepelo juiz, quando o preso tiver cumprido ao menos: I - 16% (dezesseis por cento) da pena, se o apenado for primário e o crime tiver sido cometido sem violência à pessoa ou grave ameaça; II - 20% (vinte por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime cometido sem violência à pessoa ou grave ameaça; 85 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância III - 25% (vinte e cinco por cento) da pena, se o apenado for primário e o crime tiver sido cometido com violência à pessoa ou grave ameaça; IV - 30% (trinta por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime cometido com violência à pessoa ou grave ameaça; V - 40% (quarenta por cento) da pena, se o apenado for condenado pela prática de crime hediondo ou equiparado, se for primário; VI - 50% (cinquenta por cento) da pena, se o apenado for: a) condenado pela prática de crime hediondo ou equiparado, com resultado morte, se for primário, vedado o livramento condicional; b) condenado por exercer o comando, individual ou coletivo, de organização criminosa estruturada para a prática de crime hediondo ou equiparado; ou c) condenado pela prática do crime de constituição de milícia privada; VII - 60% (sessenta por cento) da pena, se o apenado for reincidente na prática de crime hediondo ou equiparado; VIII - 70% (setenta por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime hediondo ou equiparado com resultado morte, vedado o livramento condicional. § 1o A decisão será sempre motivada e precedida de manifestação do Ministério Público e do defensor. § 2o Idêntico procedimento será adotado na concessão de livramento condicional, indulto e comutação de penas, respeitados os prazos previstos nas normas vigentes. § 1º Em todos os casos, o apenado só terá direito à progressão de regime se ostentar boa conduta carcerária, comprovada pelo diretor do estabelecimento, respeitadas as normas que vedam a progressão. § 2º A decisão do juiz que determinar a progressão de regime será sempre motivada e precedida de manifestação do Ministério Público e do defensor, procedimento que também será adotado na concessão de livramento condicional, indulto e comutação de penas, respeitados os prazos previstos nas normas vigentes. § 3º No caso de mulher gestante ou que for mãe ou responsável por crianças ou pessoas com deficiência, os requisitos para progressão de regime são, cumulativamente: I - não ter cometido crime com violência ou grave ameaça a pessoa; II - não ter cometido o crime contra seu filho ou dependente; III - ter cumprido ao menos 1/8 (um oitavo) da pena no regime anterior; IV - ser primária e ter bom comportamento carcerário, comprovado pelo diretor do estabelecimento; V - não ter integrado organização criminosa. § 4º O cometimento de novo crime doloso ou falta grave implicará a revogação do benefício previsto no § 3º deste artigo. § 5º Não se considera hediondo ou equiparado, para os fins deste artigo, o crime de tráfico de drogas previsto no § 4º do art. 33 da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. § 6º O cometimento de falta grave durante a execução da pena privativa de liberdade interrompe o prazo para a obtenção da progressão no regime de cumprimento da pena, caso em que o reinício da contagem do requisito objetivo terá como base a pena remanescente. Sendo vedada da progressão por salto, ou seja, não é possível passar direto do regime fechado para o aberto. 8.3 Regressão de Regime de Cumprimento de Pena Trata-se da passagem de um regime mais ameno para um mais severo. 86 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A regressão, ao contrário da progressão pode se dar por salto, ou seja, a passagem direta do regime aberto para o fechado. A regressão pode ter como justificativa a prática de crime doloso, a falta grave ou a condenação por crime anterior se a soma da pena restante com a nova pena tornar inviável a manutenção no regime. Ex. o indivíduo cumpre pena de 5 anos em regime semiaberto e posteriormente sobre nova condenação a 6 anos de prisão. Somando, ele terá 11 anos a cumprir, certo? Assim sendo, a pena final superior a 8 anos, deverá ser cumprida em regime fechado. Antes da decisão da regressão, deve ser sempre garantido o direito de defesa ao condenado. 8.4 Falta de Vagas em Estabelecimento Adequado Embora a progressão por salto seja, em tese, proibida pela lei penal, ela tem sido admitida em alguns julgados, isso porque o art. 185 da LEP ressalta que há excesso de execução sempre que algum fato for praticado além dos limites fixados na sentença, norma penal ou regulamento, “Art. 185. Haverá excesso ou desvio de execução sempre que algum ato for praticado além dos limites fixados na sentença, em normas legais ou regulamentares”. Você deve estar se perguntando o seguinte: o que fazer então se o sujeito tiver direito ao regime semiaberto (seja originariamente ou em razão de progressão) e não houver vagas no estabelecimento adequado? Neste caso, ainda não há consenso e há alguns julgados nos dois sentidos, vejamos: a. manutenção do condenado no regime fechado até que seja encontrada vaga; e b. o preso permanece em regime aberto até que se consiga vaga no semiaberto. 87 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 8.5 Trabalho e Remição O trabalho é um direito do preso e uma forma de incentivar a ressocialização do condenado. Muitos criticam a atual lei penal brasileira dizendo que ela é muito leniente nesse tocante e que o trabalho deveria ser obrigatório, essas críticas são compreensíveis, porém não deveriam se dirigir à lei e sim à inexistência de mecanismos de operacionalização, isso porque o trabalho obrigatório já foi estipulado há muito tempo na LEP, em específico nos seus artigos 39 e 50. Art. 39. Constituem deveres do condenado: [...] V - execução do trabalho, das tarefas e das ordens recebidas; Art. 50. Comete falta grave o condenado à pena privativa de liberdade que: [...] VI - inobservar os deveres previstos nos incisos II e V, do artigo 39, desta Lei. O condenado que injustificadamente se nega a trabalhar recebe uma sanção, que seria prejudicial à possibilidade de progressão de regime, livramento condicional e saída temporária. Sabemos que a própria Constituição (CRFB) veda (proíbe) o trabalho forçado, mas não há inconstitucionalidade em recompensar o que trabalha em oposição ao que não trabalha. O trabalho externo também seria admitido em princípio, porém os casos concretos são muito raros já que ele prescinde de vigilância contínua e cautelas contrafuga. A remição é a contagem dos dias trabalhados como cumprimento da pena, na razão de 3 para um, ou seja, para cada 3 dias trabalhados 1 dia será remido (descontado) de sua pena. Com relação a jornada de trabalho deve respeitar o limite mínimo de 6 horas, sendo respeitado o descanso semanal. Vale lembrar que a remição vale apenas para os regimes semiaberto e fechado. O preso que cometer falta grave perde o direito aos dias remidos e a contagem se inicia novamente do zero, no entanto, a jurisprudência (decisões reiteradas dos Tribunais 88 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Superiores) tem entendido que se a remição já foi declarada judicialmente há força de coisa julgada. 8.6 Unificação das Penas Na hipótese de um indivíduo ser condenado a penas que somadas excedam 30 anos, haverá a unificação das penas para atender ao limite máximo estipulado no art. 7º, §1º, CP. A unificação da pena é feita pelo Juiz das Execuções Penais, que é diferente daquele que julgou o crime e determinou a condenação. Mas de que valeriam então as condenações superiores há 30 anos como frequentemente ocorre na prática? Prevalece na jurisprudência o entendimento de que a contagem de prazo para a concessão de benefícios comoa progressão e o livramento condicional, por exemplo, estão subordinadas às penas efetivamente aplicadas ao condenado e não a pena máxima unificada de 30 anos. Boa parte da doutrina, no entanto, discorda, mas ficaremos aqui, para facilitar seu estudo com o entendimento jurisprudencial. 8.7 Detração Penal A detração penal consiste no computo, na pena privativa de liberdade, do temo de prisão provisória. No caso de conversão de pena restritiva de direitos em pena privativa de liberdade é também possível à detração, desde que respeitado o prazo mínimo de 30 dias. Dessa fora, mesmo que falte apenas 3 dias para a conclusão da pena restritiva de direitos, caso ela seja revogada e convertida em prisão, o sujeito teria que cumprir os 30 dias mínimos de privação de liberdade. 8.8 Reincidência Antes de entrarmos no estudo das espécies de pena, quero esclarecer brevemente a figura da reincidência, pois ela influencia na fixação do regime da pena. 89 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A reincidência é considerada uma circunstância agravante genérica. Ocorre reincidência quando o agente, após ter sido definitivamente condenado pela prática de crime, no Brasil ou no estrangeiro, comete novo crime. Todos os que não são reincidentes denominam-se primários. O fato de o crime ser doloso ou culposo não influi na fixação da pena. Abaixo há uma tabela para melhor exemplificar quais as circunstâncias delitivas geram reincidência, de acordo com o Código Penal e a Lei de Contravenções Penais. BRAGA, Hans Robert Dalbello. Manual de Direito Penal: Parte Geral. São Paulo: Rideel, 2018. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal: parte geral (arts. 1º ao 120) 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2016. FAVORETTO, Affonso Celso. Direito Penal: Parte geral e parte especial. São Paulo: Rideel, 2018. PASCHOAL, Janaína Conceição. Direito Penal: parte geral. 2º ed. São Paulo: Manole, 2015. PEREIRA, Gisele Mendes. Direito Penal I. Caxias do sul: EDUCS, 2012. THOMAZ, Paulo Amador; BUENO, Alves da Cunha. Direito Penal: Parte Geral. São Paulo: Manole, 2012. Primeira Condenação Segunda Condenação Efeito Crime Contravenção Gera reincidência Crime Crime Gera reincidência Contravenção Contravenção Gera reincidência Contravenção Crime Não gera reincidência 90 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 9 APLICAÇÃO DA PENA Objetivos: Analisar diversos institutos relacionados à aplicação da pena. Introdução Olá, enfim, chegamos ao úttimo módulo da nossa disciplina de Direito Penal. Espero que você tenha aproveitado bastante os conteúdos aqui estudados, pois serão muito úteis na sua carreira. Neste último módulo vamos estudar diveros institutos relacionados com a aplicação pena: Medida de segurança Aplicação da pena Suspensão condicional da pena Livramento condicional Concurso de crimes Efeitos da condenação Reabilitação 9.1 Medida de Segurança Vimos que o crime é formado pelo fato típico, antijurídico e culpável, mas o que acontece quando alguém pratica um fato típico e antijurídico, porém não é culpável? Não será aplicada uma pena? Não será aplicada uma pena, mas sim uma medida de segurança. O que é a medida de segurança? A medida de segurança é uma sanção penal com finalidade unicamente preventiva, ela é aplicada com o intuito de submeter a tratamento o autor do fato típico e ilícito que demonstrou ser portador de periculosidade e que não tem plena ou parcial capacidade de culpabilidade. Os pressupostos para aplicação da medida de segurança são: 91 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O menor de 18 anos está sujeito a uma legislação especial denominada Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei n. 8.069/90. a. Prática de uma infração penal: para que seja aplicada a medida de segurança é imprescindível que o sujeito tenha praticado um fato típico e antijurídico. Caso o sujeito não tenha praticado um ilícito penal não é possível aplicar uma medida de segurança simplesmente por haver uma doença mental ou desenvolvimento mental retardado ou incompleto. Neste caso, a pessoa tem direito a tratamento, porém não é caso de sanção penal. b. Periculosidade: Consiste na perturbação mental, compreendendo a doença mental, o desenvolvimento mental incompleto e a dependência. Entendida como o potencial para prática de novos atos lesivos, ou seja, a probabilidade que o agente tem de praticar novas infrações. A periculosidade pode ser dividida em: b.1 Presumida: ocorre na hipótese do inimputável. O inimputável que pratica infração penal é sempre considerado perigoso e por esse motivo, sempre receberá medida de segurança. b.2 Real: ocorre na hipótese do semi-imputável. É aquela que precisa ser demonstrada e comprovada no caso concreto. O juiz verifica se é caso de aplicação de pena ou medida de segurança. Há dois sistemas de aplicação da medida de segurança: a. Vicariante: pelo sistema vicariante é impossível a aplicação cumulativa de pena e medida de segurança. O juiz precisa escolher entre uma e outra, esse é o sistema adotado pelo nosso Código Penal. Assim: 1. o imputável recebe pena; 2. o inimputável recebe medida de segurança; e 3. o semi-imputável recebe pena ou medida de segurança. 92 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância b. Duplo Binário: de acordo com este sistema aplica-se pena e medida de segurança cumulativamente (não é aplicado no Brasil). Quanto às espécies de Medidas de Segurança, são elas: a. Medida de Segurança Detentiva: é a interação na casa de custódia e tratamento psiquiátrico (manicômio), trata-se de uma medida de segurança obrigatória para crimes punidos com reclusão. b. Medida de Segurança Restritiva: consiste no tratamento ambulatorial. O condenado fica em liberdade e vai algumas vezes por semana ao consultório médico. Essa medida de segurança é aplicada a crimes punidos com detenção. Veja bem, se a pena for de reclusão, você viu que se aplica obrigatoriamente a medida de segurança detentiva, o juiz poderá escolher entre internação e tratamento ambulatorial. Com relação ao prazo de aplicação da medida de segurança: a medida de segurança é aplicada por tempo indeterminado, o que quer dizer que ela persiste enquanto não cessar a periculosidade. Então, em tese, ela pode durar a vida inteira do condenado. Após um prazo mínimo, entretanto, que varia de 1 a 3 anos (de acordo com a gravidade do crime), será realizado um exame de cessação de periculosidade. Se o exame de cessação de periculosidade der negativo, ou seja, a periculosidade não tenha cessado, o internado deve ter seu exame renovado de ano em ano. Excepcionalmente, havendo fundadas razões, o exame de cessação de periculosidade pode ser feito antes do decurso do prazo mínimo. Há uma corrente minoritária defensora do estabelecimento de um prazo máximo que seria o limite em abstrato da infração praticada, ou seja, se o Código Penal prevê que para um crime se aplica uma pena que pode variar de 1 a 4 anos, então a medida de segurança aplicável ao inimputável nesse caso, também, seria limitada aos 4 anos, mas esta não é a posição mais aceita pelos nossos Tribunais, que entendem que a medida de segurança, por não ser pena, mas sim um tratamento, deve persistir enquanto durar a periculosidade. 93 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Vale a pena abrir uma reflexão sobre esse tocante. Se uma pessoa pratica o crime de furto e é imputável, a pena máxima aplicada será de 4 anos, mas se aquele que cometer o crime de furto foi inimputável, o indivíduo pode ficar em medida de segurança por muito mais que quatro anos e issoé bastante comum, pois não raro os juízes são rigorosos para permitir a liberdade de um inimputável, temendo que ele volte a permitir a liberdade de um inimputável, temendo que ele volte a praticar um ilícito. É muito frequente na mídia e no senso comum a associação entre aplicação de medida de segurança e a imputabilidade. Trata-se, geralmente, de uma falsa concepção, já que a realidade dentro dos hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico, muitas vezes, é pior do que as de uma casa de detenção ou do que uma penitenciária. Ademais, essa ausência de um limite máximo para o tempo de privação de liberdade é outra característica que revela a rigidez da medida de segurança. Referente à desinternação e liberação do indivíduo. Cessada a periculosidade, o sujeito será desinternado (hipótese de internação) ou liberado (hipótese de tratamento ambulatorial), mas, apenas, condicionalmente, pois se dentro de um ano praticar qualquer fato sugestivo de sua periculosidade, a medida de segurança será restaurada (não há necessidade da prática de um crime; qualquer fato praticado em discordância com a normalidade pode restabelecer a medida de segurança). As Medidas de Segurança na Lei de Drogas (Lei n. 11.343/2006) foram alteradas com pela Lei n. 13.840/2019. Com relação à internação do inimputável a nova lei trouxe mudanças muito bruscas, aqui não interessa ficarmos fazendo comentários positivos ou negativos a ela, mas para você estudante que visa atuar na área de segurança pública é importante saber que a internação pode se dar de duas formas: 1. Voluntária: aquela em que o sujeito está de acordo com sua internação. Lembrando que deverá ser precedida de declaração escrita do solicitante que opta por este tratamento, seu término deve ser determinado pelo médico responsável pelo individuo ou solicitação daquele que quer interromper o tratamento. 2. Involuntária: contrária a já ensinada, se dará sem o consentimento do dependente, a pedido do familiar o responsável legal, ou até mesmo na falta absoluta deste por servidor público da área de saúde, assistência social ou órgãos públicos (integrantes do Sisnad – Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas), salvo se este agente for servidor da área de segurança pública. 94 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 9.2 Aplicação da Penal 1. Elementares: chamamos de elementar o componente essencial da figura típica, sem o qual a tipicidade não existe (atipicidade absoluta) ou se transforma em outra figura (atipicidade relativa). Normalmente estão contidas no caput dos artigos, onde encontramos a descrição do tipo penal, contudo, algumas elementares são descritas em seus parágrafos. 2. Circunstâncias: A circunstância é todo elemento acessório, não fundamental para a existência do crime. As circunstâncias estão agregadas à figura típica e influenciam na dosimetria da pena, elas não alteram o crime, somente influi na maior ou menor gravidade do delito e podem ser subdivididas em: a. Objetivas: dizem respeito ao fato e não ao agente; b. Subjetivas: referem-se ao sujeito. c. Judiciais: presentes no art. 59, CP, são elas chamadas dessa forma, pois admitem liberdade de interpretação do magistrado. Ex. culpabilidade, antecedentes criminais, conduta social, personalidade etc. (que também podem influenciar na reprovabilidade da conduta do agente). d. Legais: são aquelas elencadas no CP e podem ser genéricas (contidas na parte geral do Código) ou específicas (quando estão na parte especial do CP, parte esta que trata especificamente dos crimes). e. Agravantes e Atenuantes: causas de aumento e diminuição de pena. Que tal fazermos breve análise sobre cada circunstância? Vamos juntos? 1. Agravantes: estão nos artigos 61 e 62 do Código Penal. O art. 61, inciso I traz a reincidência como uma circunstância agravante (aplicável nos crimes dolosos e culposos), já o inciso II destaca outras agravantes aplicadas somente aos crimes dolosos. É de extrema importância que você acompanhe seus estudos com a leitura do Código Penal, caso você não possua o material impresso segue o link para acompanhar pelo computador: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto- lei/del2848compilado.htm 95 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Já o art. 62 traz as agravantes aplicadas ao autor nos crimes em que haja concurso de pessoas (assunto estudado em material anterior lembre-se que estudamos de forma dividida apenas para facilitar seu entendimento, mas o Direito é uma coisa só - uno). b. Atenuantes: são previstas no art. 65, CP, mas o art. 66 prevê que o juiz leve em conta outras atenuantes que não estejam previstas em lei. c. Causas de aumento e diminuição: são aquelas que alteram a pena com o uso de frações, por exemplo, aumentam em metade, diminuem em um terço etc. Elas podem ser genéricas (parte geral do CP) ou específicas (parte especial do CP). d. Qualificadoras: para uma primeira corrente as qualificadoras seriam circunstâncias do crime, pois somente influenciam na pena, não modificando o tipo penal. A qualificadora aumenta os limites da pena. Em uma segunda corrente, predominante no Brasil, entende que as qualificadoras são circunstâncias elementares. Vejamos o que o CP diz a respeito das circunstâncias no art. 30, CP: “Não se comunicam as circunstâncias e as condições de caráter pessoal, salvo quando elementares do crime”. Vou tentar sintetizar o que acontece quando há concurso de agentes (mais de uma pessoa na prática criminosa) para ficar mais claro: 1. As circunstâncias de caráter pessoal (também chamadas de circunstâncias subjetivas) não se comunicam no concurso de agentes. 2. As circunstâncias subjetivas referem-se ao sujeito e não ao fato objetivamente considerado – primariedade, reincidência, parentesco, motivo do crime, antecedentes, personalidade etc.; 3. As circunstâncias de caráter objetivo se comunicam. São aquelas circunstâncias que dizem respeito ao fato: lugar do crime, meios empregados, modo de execução, características das vítimas, emprego de arma, meio cruel, repouso noturno etc.; 4. As elementares sempre se comunicam, não importa se de caráter pessoal ou não. Dosimetria da Pena: O magistrado para aplicar a pena deve dosa-la respeitando um sistema trifásico, ou seja, seguir um padrão na forma de dosar e aplicar a pena é algo fundamental para segurança jurídica, afinal, como seria se cada julgador adotasse um critério diferente? 96 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Assim, a fixação de um critério compatibiliza as ideias de individualização da pena e da legalidade. Suas fases: 1ª fase – aplicam-se as circunstâncias judiciais - dentro dos limites previstos no tipo simples ou qualificado: A primeira providência que deve se tomar é verificar se há qualificadoras ou não, pois assim você é capaz de determinar a pena mínima e máxima em abstrato. Se houver qualificadora, os limites que valerão serão os estabelecidos pelo tipo qualificado, senão, os limites serão os determinados pelo tipo simples. Dentro dos limites estabelecidos, a pena-base será fixada levando em conta as circunstâncias judiciais (art. 59, CP), o juiz sempre irá partir da pena mínima e a seu prudente arbítrio avaliar se é ou não caso de aumentar ou diminuir em cada circunstância judicial. Na primeira fase, a pena não sai dos limites do mínimo e do máximo previstos para o tipo (simples ou qualificado, conforme for o caso). Assim, se todas as circunstâncias forem favoráveis ao agente, o juiz ainda assim, vai partir do mínimo. 2ª fase - agravantes e atenuantes genéricas: nessa fase incidirão as agravantes e atenuantes (art. 65 e 66, CP). O quanto aumentar ou diminuir a pena ficará a critério do juiz. Nesta fase a penanão extrapola os limites de mínimo e máximo. 3ª fase - causas de aumento e diminuição: o julgador avaliará as causas de aumento e diminuição da pena, ou seja, aquelas em que a lei manda aumentar ou diminuir a pena em frações (1/6, 2/3 etc.). 9.3 Suspensão Condicional da Pena (SURSIS) A suspensão condicional da pena ficou popularmente conhecida como sursis por causa da palavra em francês surseoir, que significa suspender. 97 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Trata-se de um benefício que suspende a execução da pena privativa de liberdade, uma vez preenchidos os requisitos legais. A suspensão é concedida mediante condições impostas pelo juiz, por isso a suspensão é condicional. São requisitos: a. Objetivos: 1. pena privativa de liberdade; 2. pena não superior a 2 anos (igual ou inferior); 3. impossibilidade de substituição por pena restritiva de direito (em outras palavras, a susris é subsidiária em relação à pena restritiva de direito). b. Subjetivos: 1. Não ser reincidente em crime doloso (é aquele que, após ser condenado por crime doloso com pena transitada em julgado, comente outro crime doloso). Porém, se a primeira condenação foi à pena de multa, então cabe sursis. 2. Circunstâncias judiciais favoráveis. Preenchido todos os requisitos, o juiz determinará a suspensão condicional da pena por um determinado período, se o condenado cumprir todas as condições durante o período determinado, a pena será extinta. Esse período de prova fixado pelo juiz pode variar de 2 a 4 anos, mas se o condenado descumprir as condições, a execução deixa de estar suspensa e o condenado terá que cumprir a pena toda. Uma observação: o fato de o réu ser revel (não se defender no processo e, portanto, ser presumido culpado) ou o fato de estar foragido não impede, a princípio, o sursis, uma vez que a lei não elenca essas hipóteses entre os requisitos. Espécies de SURSIS a. Etário: aplica-se ao condenado maior de 70 anos à data da sentença. É cabível se a pena for igual ou inferior a 4 anos, seu período de prova varia de 4 a 6 anos; b. Humanitário: concedido por motivo de saúde. É aplicável se a pena for igual ou inferior a 4 anos, seu período de prova pode variar de 4 a 6 anos. c. Simples: é aquele que impõe a prestação de serviço à comunidade ou a limitação de fim de semana durante o primeiro ano do período de prova. d. Especial: se o condenado houver reparado o dano, salvo impossibilidade de fazê-lo e se as circunstâncias do art. 59, CP forem inteiramente favoráveis, serão aplicadas cumulativamente as seguintes condições: proibição de frequentar determinados lugares, 98 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância proibição de se ausentar da comarca onde reside sem prévia autorização do juiz e comparecimento mensal obrigatório em juízo. É, portanto, mais benéfico que o susris simples, então, além dos requisitos genéricos, o condenado deve reparar o dano (quando possível) e ter as circunstâncias judiciais inteiramente favoráveis para fazer jus a este benefício. Em todas as espécies o julgador pode impor condições não previstas em lei. Revogação do Sursis: a revogação pode ser obrigatória, ou facultativa. Neste último caso, se o juiz não quiser revogar o sursis ele pode: a. advertir novamente o condenado; b. tornar mais severas as condições impostas, ou c. prorrogar o período de prova até o máximo. As causas de revogação obrigatória são: a. condenação transitada em julgado pela prática de crime dolos; b. não reparação do dano, salvo impossibilidade de fazê-lo; c. descumprimento das condições legais do sursis simples. A lei ainda prevê como causa de revogação obrigatória a hipótese de o indivíduo não pagar multa, embora solvente. Essa causa, todavia, estaria revogada para boa parte da doutrina, pois não existe mais a possibilidade de conversão de multa em pena privativa de liberdade, porém, há muitos casos em que os julgadores continuam revogando a susris em caso de inadimplemento da multa. As causas de revogação facultativa são: a. condenação transitada em julgado pela prática de crime culposo ou contravenção, salvo se imposta pena de multa; b. descumprimento de qualquer outra condição (condições legais do sursis especial e condições judiciais). Claro que o juiz sempre deve dar a oportunidade para o condenado justificar seu descumprimento. 99 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Com relação a prorrogação automática: após o trânsito em julgado da condenação, é realizada a audiência admonitória (art. 160, LEP), é a partir dessa audiência que começa a ser contado o período de prova. Se após a audiência admonitória o acusado for processado pela prática de crime ou contravenção, o período de prova será prorrogado até o trânsito em julgado desse processo, isso porque, como você viu, o trânsito em julgado de sentença condenatória pode autorizar ou determinar o sursis. O Inquérito Policial não enseja a prorrogação. 9.4 Livramento Condicional O livramento condicional consiste na antecipação da liberdade ao condenado que preenche os requisitos legais. O intuito é facilitar a reintegração social, estimular o bom comportamento e diminuir os efeitos do cárcere. Veja o livramento condicional é diferente da suspensão condicional da pena: o sursis suspende a execução da pena antes mesmo do início de seu cumprimento, já o livramento condicional pressupõe o cumprimento de parte da pena. São requisitos: a. Objetivos: 1. ser a pena privativa de liberdade; 2. essa pena deve ser igual ou superior a 2 anos; 3. reparação do dano, salvo impossibilidade de fazê-lo; 4. cumprimento de parte da pena; 5. mais de 1/3 se o condenado não for reincidente em crime doloso e tiver bons antecedentes; 10 0 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 6. mais da metade se o condenado for reincidente em crime doloso, mas tiver mais antecedentes, a solução é escolher uma fração entre 1/3 e 1/2, de acordo com os antecedentes; 7. 2/3 no caso de condenação por crime previsto na Lei de Crimes Hediondos. b. Subjetivos: o apenado deverá comprovar (segundo as alterações trazidas pelo Pacote Anticrime, Lei 13.964/2019): 1. bom comportamento durante a execução da pena; 2. não cometimento de falta grave nos últimos 12 (doze) meses; 3. bom desempenho no trabalho que lhe foi atribuído; 4. aptidão para prover a própria subsistência mediante trabalho honesto; 5. para crimes dolosos, cometidos com violência ou grave ameaça contra a pessoa, é necessário mais um requisito: verificação de que cessou a periculosidade do agente; 6. para crimes previstos na Lei dos Crimes Hediondos é necessário mais um requisito: não ser reincidente em nenhum dos crimes previstos naquela lei – trata-se de reincidência específica. Antes da concessão do livramento condicional o Ministério Público e a defesa devem ser ouvidos. São condições para concessão do livramento condicional: a. Obrigatórias: 1. comparecimento mensal em juízo; 2. não sai da comarca sem avisar o juízo; 3. obter ocupação lícita dentro de um prazo razoável. b. Facultativas: são aquelas que o juiz pode impor além das obrigatórias, como, por exemplo, não mudar de endereço sem avisar o juiz, recolher-se em sua residência após determinado horário e proibição de frequentar determinados lugares. Sobre a revogação: ela pode ser obrigatória ou facultativa. a. obrigatória: 1. houver condenação a pena privativa de liberdade transitada em julgado por crime cometido anteriormente ou durante a vigência do benefício. b. facultativa: 10 1 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. houver condenação transitada em julgado por contravenção penalou pena não privativa de liberdade; 2. o condenado descumprir as obrigações impostas na sentença. Se o juiz decidir não revogar o livramento condicional, ele pode ainda advertir o sentenciado ou exacerbar as condições impostas. 9.5 Concurso de Crimes O concurso de crimes acontece quando há prática de mais de um crime por um mesmo agente. A forma de aplicação da pena varia de acordo com o tipo de concurso. Há dois sistemas de aplicação de pena: a. sistema de cúmulo material: consiste na soma das penas. b. sistema de exasperação da pena: aplica-se a pena de um só dos crimes, aumentando-a de uma determinada quantia. E há três modalidades de concurso de crime: a. material ou conhecido como real: um agente mediante duas ou mais condutas produz dois ou mais resultados que podem ou não ser idênticos. Quando os resultados forem idênticos o concurso material será chamado de homogêneo. Ex. o agente delituoso mata a vítima e a testemunha. Quanto estes crimes forem diferentes, chama-se de heterogêneo. Ex. o agente delituoso estupra a vítima e depois a mata. b. formal ou conhecido como ideal: quando o agente mediante uma única conduta produz mais de um crime, idênticos ou não. Há concurso formal perfeito quando os resultados derivam de um único desígnio, ou seja, uma única finalidade. Ex. uma pessoa mata X, atira em Y com o intuito de matá-la, porém atinge também Z. Ambas vitimas morrem em razão de um único desígnio que era matar Y. Aplicação da pena: aplica-se a pena do mais grave, aumentando-se de 1/6 até a 1/2. É o sistema de exasperação da pena e o aumento varia de acordo como número de resultados. Ocorre o concurso formal imperfeito quando os resultados derivam de desígnios autônomos (sendo necessário que haja dolo). Ex. o sujeito quer matar uma criança que está no colo da mãe, ele percebe que se atirar na criança corre risco de matar também a mãe, mesmo assim assume o risco e dispara. 10 2 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Aplicação da pena: neste caso, aplica-se o sistema do cúmulo material, ou seja, somam-se as penas. c. continuado: ocorre quando o agente mediante uma ou mais condutas produz dois ou mais resultados da mesma espécie que pela semelhança de tempo, lugar e modo de execução podem ser tidos uns como continuação do outro. Os requisitos do crime continuado são: a. pluralidade de condutas; b. pluralidade de crimes da mesma espécie (previstos no mesmo tipo penal); c. condições semelhantes de lugar (até cidades próximas são aceitas); d. modo de execução semelhantes. O CP adota a teoria objetiva pura (art. 71 não menciona o requisito subjetivo). O que quero dizer é que, não seria necessária a consciência do agente de que um delito seja continuidade do outro (unidade de desígnios), bastando os requisitos objetivos acima, mas há corrente minoritária em nosso Tribunais que entende que esse requisito subjetivo seria sim necessário. Ainda com relação ao crime continuado, vamos saber um pouco mais sobre a sua aplicação da pena: no crime continuado se aplica o sistema de exasperação da pena, ou seja, a pena de um dos crimes aumenta de 1/6 a 2/3 (se não houver violência ou grave ameaça a pessoa) ou aumenta até o triplo (se houver violência ou grave ameaça a pessoa, que é o que chamamos de crime continuado qualificado). O sistema de exasperação da pena foi criado com o intuito de amenizar os efeitos do concurso material, já que o sistema de soma de penas permitiria a imposição de penas graves demais, por exemplo, mesmo quando crimes seriam pouco graves, mas cometidos em grande número, se aplicado o sistema do cúmulo material, a pena seria bastante gravosa. Então, vale ressaltar que se eventualmente, em um caso de aplicação de sistema de exasperação de pena tornar apena maior do que a resultante da soma, então se deve aplicar a regra do concurso material. Isso porque, se o instituto da exasperação da pena foi criado justamente para amenizar o do cúmulo material, não tem sentido mantê-lo na hipótese em que se torna mais gravoso. Vale uma última observação com relação a pena de multa: no concurso de crime as penas de multa são aplicadas distinta e integralmente. 10 3 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 9.6 Efeitos da Condenação A condenação tem numerosos efeitos penais secundários. Nós vimos isso quando falamos, por exemplo, da reincidência, susris etc. Esses efeitos estão, portanto, espalhados ao longo do CP. Meu intuito aqui, não é enumerar todos eles porque isso se tornaria algo muito maçante, mas é apenas dar uma ideia de alguns dos principais efeitos extrapenais, que são tratados nos artigos 91 a 92, CP. Art. 91 - São efeitos da condenação: I - tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime; II - a perda em favor da União, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boa- fé: a) dos instrumentos do crime, desde que consistam em coisas cujo fabrico, alienação, uso, porte ou detenção constitua fato ilícito; b) do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente com a prática do fato criminoso [...]. É importante comentarmos sobre recente alteração do Código Penal pela Lei nº 13.964/2019, que incluiu naquele diploma legal o art . 91-A, que disciplina mais um efeito da condenação, a perda de bens pelo condenado: Art. 91-A. Na hipótese de condenação por infrações às quais a lei comine pena máxima superior a 6 (seis) anos de reclusão, poderá ser decretada a perda, como produto ou proveito do crime, dos bens correspondentes à diferença entre o valor do patrimônio do condenado e aquele que seja compatível com o seu rendimento lícito. § 1º Para efeito da perda prevista no caput deste artigo, entende-se por patrimônio do condenado todos os bens: I - de sua titularidade, ou em relação aos quais ele tenha o domínio e o benefício direto ou indireto, na data da infração penal ou recebidos posteriormente; II - transferidos a terceiros a título gratuito ou mediante contraprestação irrisória, a partir do início da atividade criminal. § 2º O condenado poderá demonstrar a inexistência da incompatibilidade ou a procedência lícita do patrimônio. § 3º A perda prevista neste artigo deverá ser requerida expressamente pelo Ministério Público, por ocasião do oferecimento da denúncia, com indicação da diferença apurada. § 4º Na sentença condenatória, o juiz deve declarar o valor da diferença apurada e especificar os bens cuja perda for decretada. § 5º Os instrumentos utilizados para a prática de crimes por organizações criminosas e milícias deverão ser declarados perdidos em favor da União ou do Estado, dependendo da Justiça onde tramita a ação penal, ainda que não ponham em perigo a segurança das pessoas, a moral ou a ordem pública, nem ofereçam sério risco de ser utilizados para o cometimento de novos crimes. A sentença penal condenatória permite a execução direta na área cível, sendo apenas necessária uma fase chamada de liquidação, que visa apurar o quanto devido. 10 4 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Há o confisco dos instrumentos do crime, ressalvado o interesse dos terceiros de boa-fé. O confisco é automático, ou seja, não precisa haver menção na sentença. Também o produto do crime ou o valor auferido é confiscado, resguardado, é claro, os direitos da vítima e do terceiro de boa-fé. Já os efeitos do art. 92, precisam sempre vir expressos na sentença condenatória: Art. 92 - São também efeitos da condenação: I - a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo: a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou superior a um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública; b) quando for aplicada pena privativade liberdade por tempo superior a 4 (quatro) anos nos demais casos. II – a incapacidade para o exercício do poder familiar, da tutela ou da curatela nos crimes dolosos sujeitos à pena de reclusão cometidos contra outrem igualmente titular do mesmo poder familiar, contra filho, filha ou outro descendente ou contra tutelado ou curatelado; III - a inabilitação para dirigir veículo, quando utilizado como meio para a prática de crime doloso. Parágrafo único - Os efeitos de que trata este artigo não são automáticos, devendo ser motivadamente declarados na sentença. Não se preocupe em decorar cada caso, está tudo na letra de lei, o que eu quero é que se familiarize com as situações e cate a ideia geral de que a sentença no âmbito penal alcança efeitos que vão além da esfera penal. 9.7. Reabilitação Trata-se de um benefício que tem como objetivo restituir o condenado à situação anterior à condenação, retirando as anotações do seu boletim de antecedentes criminais. Após dois anos da extinção da pena, se o condenado tiver bom comportamento, tiver reparado o dano e estiver residindo no Brasil, ele pode pedir a reabilitação. A reabilitação não impede, contudo, a reincidência, que só ocorre com a prescrição quinquenal, mas o efeito que condenado mais busca é mais moral. 10 5 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância BRAGA, Hans Robert Dalbello. Manual de Direito Penal: Parte Geral. São Paulo: Rideel, 2018. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal: parte geral (arts. 1º ao 120) 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2016. FAVORETTO, Affonso Celso. Direito Penal: Parte geral e parte especial. São Paulo: Rideel, 2018. PASCHOAL, Janaína Conceição. Direito Penal: parte geral. 2º ed. São Paulo: Manole, 2015. PEREIRA, Gisele Mendes. Direito Penal I. Caxias do sul: EDUCS, 2012. THOMAZ, Paulo Amador; BUENO, Alves da Cunha. Direito Penal: Parte Geral. São Paulo: Manole, 2012. 1. FORMAÇÃO DO DIREITO DO PENAL 1.1. Evolução do Direito Penal 1.2. Escolas do Direito Penal 2. NORMA PENAL 2.1. Teoria Geral da Norma Penal 2.2. Princípios 3. APLICAÇÃO DA NORMA PENAL 3.1 Lei Penal no Tempo 3.2 Tempo do Crime 3.3 Lei Penal no Espaço 4 CRIME 4.1 Conceito de Crime 4.2 Fato Típico 5 TIPO PENAL 5.1 Tipo Penal 5.2 Consumação e Tentativa 5.3 Erro de Tipo 5.4 Crime Impossível 6 ANTIJURIDICIDADE E CULPABILIDADE 6.1 Antijuridicidade 6.2 Culpabilidade 6.3 Concurso de Pessoas 7 TEORIA GERAL DA PENA 7.1. As Penas 7.2. Teoria das Penas 7.3. Espécies de Pena 8 CUMPRIMENTO DA PENA 8.1 Cumprimento da Pena 8.2 Progressão de Regime de Cumprimento de Pena 8.3 Regressão de Regime de Cumprimento de Pena 8.4 Falta de Vagas em Estabelecimento Adequado 8.5 Trabalho e Remição 8.6 Unificação das Penas 8.7 Detração Penal 8.8 Reincidência 9 APLICAÇÃO DA PENA 9.1 Medida de Segurança 9.2 Aplicação da Penal 9.3 Suspensão Condicional da Pena (SURSIS) 9.4 Livramento Condicional 9.5 Concurso de Crimes 9.6 Efeitos da Condenação 9.7. Reabilitaçãotêm o poder de fazer lei. Orienta-se o Direito Penal de nosso tempo no sentido de uma nova humanização, fruto de larga experiência negativa”. Desta explicação extraímos duas grandes características do Direito Penal: I. Subsidiariedade: o Direito Penal somente deve ser utilizado quando as demais áreas do direito forem insuficientes para tutelar o bem jurídico; II. Fragmentariedade: o Direito Penal somente deve intervir nas ofensas de maior gravidade ao bem jurídico tutelado que causem abalo na ordem social. Insignificância ou Bagatela Esse princípio deriva do princípio da fragmentariedade. Ainda que criado o tipo penal pode haver situações em que a lesão ao bem jurídico é tão ínfima (mínima/pequena) que é incapaz de atingir de forma relevante o bem, quando isso acontecer estaremos diante de um crime de bagatela. A adequação da conduta-norma é denominada de “tipicidade formal”, hoje se conjuga a tipicidade formal + a tipicidade conglobante (a seguir analisada). A tipicidade conglobante deve ser analisada sob dois enfoques, vejamos: Tipicidade Conglobante A conduta representa relevante lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico – Tipicidade Material; Conduta é determinada ou fomentada pelo Direito Penal – Antinormatividade 10 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O princípio da insignificância está “dentro” do primeiro aspecto da tipicidade conglobante – Tipicidade Material, que também se relacionada com outros princípios, vejamos o quadro: Princípio Tipicidade Material Insignificância Materialmente atípica a conduta que provoca uma lesão irrelevante ao bem jurídico. Lesividade Materialmente atípica a conduta que não provoca sequer ameaça de lesão ao bem jurídico. Adequação Social Materialmente atípica a conduta socialmente adequada. Alteridade Materialmente atípica a conduta que não lesa bem jurídico de terceiro. Atos Determinados por Lei Materialmente atípica a conduta considerada lícita pelo ordenamento jurídico. Quadro adaptado de (CUNHA, 2016, p. 72). O princípio da insignificância pode ser entendido como interpretação restritiva (que diminui sua abrangência) do tipo penal (daquilo que se considera crime). O Supremo Tribunal Federal no Habeas Corpus 108946 (Ministra Relatora Carmen Lúcia – Dje 07/12/2011) aceitou a aplicação do princípio. Veremos sua ementa (resumo): “1. A tipicidade penal não pode ser percebida como trivial exercício adequado da correspondência formal, para a configuração da tipicidade, é necessária uma análise materialmente valorativa das circunstâncias do caso concreto, no sentido de se verificar a ocorrência de alguma lesão grave, contundente e penalmente relevante ao bem jurídico tutelado. 2. O princípio da insignificância reduz o âmbito de proibição aparente da tipicidade legal e, por consequência, torna atípico o fato na seara penal, apesar de haver lesão ao bem juridicamente tutelado pela norma penal”. Os Tribunais Superiores estabelecem alguns requisitos necessários para que possa alegar e aplicar o princípio da insignificância são eles: I. Mínima ofensividade da conduta do agente; 11 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância II. Ausência de periculosidade social da ação; III. Reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; e IV. Inexpressividade da lesão jurídica causada. Vale lembrar que o princípio da insignificância se difere (diferencia) da adequação social. Adequação Social Este princípio tem como maior expoente (grande nome) Hans Welzel, para ele, apesar da conduta se enquadrar no modelo legal (tipo penal), ela não será considerada típica se socialmente adequada ou reconhecida. Vejamos as funções deste princípio: Com relação à adequação social e a intervenção mínima estamos nos referindo aos seguintes aspectos: Exteriorização ou Materialização do Fato Nullum Crimen Sine Actio (não há crime sem fato/ato), o Estado somente pode incriminar condutas humanas voluntárias, ou seja, trata-se do Direito Penal do Fato. P. Adequação Social Funções Restringir a abrangência do Tipo Penal Orientar o legislador na seleção dos bens jurídicos à serem tutelados Processo de descriminalização Excluir condutas aceitas pela sociedade Limitar sua interpretação X Adequação Social Intervenção Mínima Aceitação da conduta pela sociedade Ínfima relevância da lesão ao bem jurídico. 12 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância No Brasil é vedado (proibido) aplicar-se a sanção com base no Direito Penal do Autor, ou seja, aquele que analisa apenas as características do indivíduo (vida passada e recente) ao invés do fato que realizou. Apesar de o ordenamento brasileiro adotar o Direito Penal do Fato, ele leva em consideração circunstâncias relacionadas ao autor na análise da pena, com base na individualização da pena (art. 59 Código Penal). Legalidade Este princípio possui previsão Constitucional (Constituição da República Federativa do Brasil – CRFB) e legal, vejamos: Art. 5º, XXXIX, CRFB: Não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal. Art. 1º, CP: Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal. O Princípio da Legalidade é um limitador do poder estatal em relação à intervenção das liberdades do indivíduo. O vocábulo nullum crimen, nulla poena sine lege é um dos preceitos mais importantes dentro do Estado Democrático de Direito, onde demonstra dois aspectos: 1. Submissão de todos perante a lei; 2. Limita o poder dos governantes, afim que não ajam com excessos quando necessária for sua intervenção. Os termos “crime” e “pena” são utilizados em sentido lato, ou seja, eles abarcam as contravenções penais (sendo então as infrações penais) e as medidas de segurança (dentro das sanções penais). Segundo Alexandre de Moraes (apud CUNHA, 2016, p. 83): 13 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância “Conforme salientam Celso Bastos e Ives Gandra Martins, no fundo, portanto, o princípio da legalidade mais se aproxima de uma garantia constitucional do que de um direito individual, já que ele não tutela, especificamente, um bem da vida, mas assegura ao particular a prerrogativa de repelir as injunções que lhe sejam impostas por uma ou outra via que não seja a lei, pois como já afirmava Aristóteles, “a paixão perverte os Magistrados e os melhores homens: a inteligência sem paixão – eis a lei”. São três os fundamentos deste princípio: Um ponto muito importante a ser evidenciado é que está legalidade defendida é base para o Garantismo de Luigi Ferrajoli (apud CUNHA, 2016, p. 84): “Um esquema epistemológico de identificação da desviação penal destinada a assegurar, em relação, o máximo grau de racionalidade e, pois, o máximo grau de limitação da potestade punitiva e de tutela da pessoa humana contra a arbitrariedade”. O Princípio da Legalidade se desdobra em outros seis segundo o professor Rogério Sanches Cunha (2016, p. 84), de forma sintetizada são eles: 1. Não há crime (ou contravenção penal), nem pena (ou medida de segurança) sem lei – Princípio da Reserva Legal: a infração penal só pode ser criada através de lei em sentido estrito (lei complementar ou ordinária). Compete a União de forma privativa legislar sobre Direito Penal, nos moldes do art. 22, I, CRFB. Fundamentos Político Vinculação dos Poderes Executivo e Judiciário as leis; Respeito a divisão dos Poderes; Lei prévia e clara tem efeito intimidativo. Parlamento (representantes do povo) elaboram as leis. Impede o Poder Punitivo AbstratoJurídico Democrático 14 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Art. 22, I, CRFB: “Compete privativamente a União legislar sobre: I, direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho (...)” [No entanto, a própria CRFB permite que os demais entes tratem desta matéria conforme o parágrafo único do mesmo artigo: “Lei complementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas das matérias relacionadas neste artigo”.] Medida Provisória (MP) e Lei Delegada não podem tratar de Direito Penal incriminador. 2. Não há crime (ou contravenção penal), nem pena (ou medida de segurança) sem lei anterior – Princípio da Anterioridade: a lei que cria o crime e a pena deve ser anterior ao fato que se pretende punir. Como regra, aplica-se o Princípio do tempus regit actum, ou seja, aplica-se a lei vigente a época dos fatos, mas é importante salientar (veremos quando estudarmos a lei penal no tempo) que há casos em que a lei pode ser aplicada a fatos ocorridos fora de sua vigência. 3. Não há crime (ou contravenção penal), nem pena (ou medida de segurança) sem lei escrita: no Direito Brasileiro não contemplamos o Direito Consuetudinário, ou seja, aquele criado a partir da história e costumes da sociedade. Nossas leis devem ser escritas, positivadas. 4. Não há crime (ou contravenção penal), nem pena (ou medida de segurança) sem lei estrita: o Direito Penal Brasileiro proíbe a analogia, ou seja, deve resultar de um processo válido de elaboração que assegure sua legitimidade. Dessa forma, não se pode admitir a punição com base na analogia in malan partem. Em outras palavras, para que o cidadão tenha exata noção do alcance de sua liberdade é preciso que a conduta descrita em lei seja criminosa. Já a analogia in bonam partem é permitida por não violar qualquer função do princípio da legalidade. 15 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Não se admite analogia com relação às formalidades e procedimentos necessários para criação da norma penal. 5. Não há crime (ou contravenção penal), nem pena (ou medida de segurança) sem lei certa – Princípio da Taxatividade ou Determinação: A conduta proibida é descrita na lei pelo que se convencionou chamar de “tipo”. Os tipos penais descrevem os modelos de conduta proibidos pelo legislador. Podemos falar em tipos: a. Tipo Fechado: aquele que traz de forma detalhada a descrição da conduta que o legislador entende como proibida; b. Tipo Aberto: aquele que contém palavras ou expressões dependentes da análise de informações exteriores ao tipo para aferir a ilicitude da conduta. Esse tipo deve ser preenchido pelo juiz na análise do caso concreto, complemento valorativo. Exemplo de tipos abertos são os crimes culposos, em que após análise valorativa do magistrado é que se verá enquadrada a conduta ou não. c. Norma Penal em Branco: depende de complemento normativo. Que se subdivide em: c.1. Própria/ Sentido Estrito/ Heterogênea: o complemento demanda de fonte normativa diversa. Ex. Lei de Drogas (o que é droga) complementada pela Portaria do Ministério da Saúde. c.2 Imprópria/ Sentido Amplo/ Homogênea: seu complemento vem do próprio legislador, pode estar dentro do mesmo diploma ou em diplomas diferentes. Essa definição ainda se divide em: c.2.1 Homovitelina: o complemento se dá com a mesma norma; c.2.2 Heterovitelina: complemento por norma diversa; c.2.3 Ao Revés/ Invertida: o complemento se dá no preceito secundário na sanção e não no tipo penal); c.2.4 Ao Quadrado: o complemento também precisa do complemento; c.2.5 Instâncias Federativas Diversas; 16 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância c.2.6 Competência Internacional. 6. Não há crime (ou contravenção penal), nem pena (ou medida de segurança), sem lei necessária – Princípio da Intervenção Mínima: já exposto acima. Ofensividade ou Lesividade Do vocábulo nullum crimen sine injuria (não há crime sem lesão). Para esse princípio exige-se que a lesão ao bem jurídico tenha de fato ocorrido. Segundo Alice Bianchini, Antonio Molina e Luiz Flávio Gomes (apud CUNHA, 2016, p. 94): “Está atrelado à concepção dualista da norma penal, isto é, a norma pode ser primária (delimita o âmbito do proibido) ou secundária (cuida do castigo, do âmbito da sancionalidade). A norma primária por seu turno, possui dois aspectos: A. ela é valorativa (existe para proteção de um valor); e B. também imperativa (impõe uma determinada pauta da conduta). O aspecto valorativo da norma fundamenta o injusto penal, isto é, só existe crime quando há ofensa concreta a esse bem jurídico. Daí conclui-se que o crime exige, sempre, desvalor da ação (a realização de uma conduta) assim como desvalor do resultado (afetação concreta de um bem jurídico). Sem ambos o desvalores não há injusto penal (não há crime)”. Responsabilidade Pessoal Não há que falar em responsabilidade coletiva, deste princípio desdobram-se: 1. Obrigatoriedade da individualização da acusação: ao acusado deve ser imputado uma situação específica; 2. Obrigatoriedade da individualização da pena: o agente só responde por aquilo que deu causa. Responsabilidade Subjetiva Não basta que o ato tenha sido praticado pelo indivíduo, ele deve incorrer de forma voluntária em dolo ou culpa. Culpabilidade Limitador do poder de punir do Estado, ou seja, somente poderá ser imputada pena ao agente capaz, com potencial consciência da ilicitude e quando exigível conduta diversa. Igualdade ou Isonomia Este princípio está disposto no art. 5º, caput, CRFB: 17 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza; garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e a propriedade, nos termos seguintes:” A igualdade substancial demanda igual tratamento aos iguais, mas desigual aos desiguais, na medida de suas desigualdades, ou seja, deve haver igualdade em relação a aplicação do Direito. Presunção de Inocência ou da Não Culpa Princípio explícito na CRFB, vejamos: “art. 5º, LVII, CRFB: (...) Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória (...)” Ao contrário do que acredita o leigo no Direito, este princípio não afirma que o indivíduo é inocente, mas, sim, afirma que o indivíduo não pode ser considerado culpado enquanto não acabar todas as possibilidades de recurso e defesa. Você pode se perguntar em relação às prisões temporárias e preventivas. Estas não ocorrem pela certeza de ter aquele cometido o fato delituoso, mas sim por haver indícios suficientes de autoria e para preservar investigações (ex. receio que o indivíduo fuja; que ele ameasse testemunhas etc.). O Estatuto de Roma (Decreto nº 4.388/02) traz algumas consequências em relação a este princípio, vejamos: I. prisão do indivíduo somente se dará após sentença condenatória transitada em julgado, salvo prisão cautelar sob fundamentação; II. ônus da prova cabe àquele que deu causa a ação penal; III. condenação deve derivar da certeza do julgador, havendo dúvida, deve ser interpretada em favor do réu – in dubio pro reo. Dignidade da Pessoa Humana As penas impostas devem respeitar a dignidade do indivíduo quanto pessoa humana. Este princípio se mostra tão importante que há diversos documentos internacionais que visam cercar de amarras este, impedindo arbitrariedades dos governantes. 18 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Individualização da Pena Previsto na CRFB, vejamos: “art. 5º, XLVI,CRFB: (...) a lei regulará a individualização da pena e adotará, entre outras, as seguintes: a) privação ou restrição da liberdade; b) perda de bens; c) multa; d) prestação social alternativa; e) suspensão ou interdição de direitos;”. Proporcionalidade Trata-se de desdobramento do princípio da individualização da pena. O indivíduo deve ser punido de forma proporcional ao mal causado, de acordo com o grau de lesão causado ao bem jurídico tutelado, em decorrência, inclusive, ao princípio da dignidade da pessoa humana. Pessoalidade. Este princípio decorre da CRFB, vejamos: “art. 5º, XLV, CRFB: (...) nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a decretação do perdimento de bens ser, nos termos da lei, estendidas aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor do patrimônio transferido”. Em resumo, a pena jamais passará do agente delituoso, no entanto, caso haja necessidade de reparar danos civis (indenizações) e o agente falecer, esta será repassada aos sucessores daquele, no limite da herança. Vedação do bis in idem. É vedado (proibido) que o agente seja condenado duas vezes pelo mesmo fato, ou seja, aquele que tiver sido condenado, com sentença transitada em julgado, não poderá ser novamente condenado/apenado por mesma situação, salvo se, cometer novamente o ato delituoso. 19 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância BRAGA, Hans Robert Dalbello. Manual de Direito Penal: Parte Geral. São Paulo: Rideel, 2018. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal: parte geral (arts. 1º ao 120) 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2016. FAVORETTO, Affonso Celso. Direito Penal: Parte geral e parte especial. São Paulo: Rideel, 2018. PASCHOAL, Janaína Conceição. Direito Penal: parte geral. 2º ed. São Paulo: Manole, 2015. PEREIRA, Gisele Mendes. Direito Penal I. Caxias do sul: EDUCS, 2012. THOMAZ, Paulo Amador; BUENO, Alves da Cunha. Direito Penal: Parte Geral. São Paulo: Manole, 2012. 20 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3. APLICAÇÃO DA NORMA PENAL Objetivo: Estudar a aplicação da norma penal no tempo e no espaço. Introdução Olá, neste módulo continuando nossos estudos sobre a aplicação da norma penal, analisamos a aplicação da norma penal no tempo e no espaço, tema muito importante para a operação do Direito Penal, tanto na prática e teoria quanto em provas de concursos. Neste módulo estudaremos os seguintes pontos: Lei penal no tempo Tempo do crime Lei penal no espaço 3.1 Lei Penal no Tempo Eficácia da Lei Penal no Tempo: Se aplica, em regra, ao crime a lei penal vigente ao tempo em que aquele tenha ocorrido, é o que a doutrina chama de tempus regit actum. Para que uma lei seja aplicada deve existir antes do cometimento do fato e de forma excepcional retroagirá ao tempo do crime, desde que para beneficiar o réu e somente para tal. Essa “movimentação” da lei possui o nome de extra-atividade (que é um gênero), dela derivam: Extra-atividade Retroatividade Ultra-atividade Art. 5º, LX, CRFB. Lei penal aplicada a fato anterior a sua vigência. Possibilidade da lei, ainda que revogada ser aplicada a um fato concreto. Irretroatividade Art. 2º, CP. A lei penal que seja mais severa que a do tempo do crime não pode retroagir. 21 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O art. 4º do Código Penal (CP) adota a teoria da atividade, ou seja, considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que o resultado seja outro. De acordo com outro princípio, o da simultaneidade (ou coincidência ou congruência), para ser aquele o momento da conduta deve estar presente todos os elementos do crime (do tipo penal), sendo eles: fato típico, ilícito e culpável. Sucessão de leis no tempo: a sucessão de leis ocorre quando da data do crime praticado e o término do cumprimento da pena surgir nova(s) lei(s) penal(is). Havendo sucessão de leis no tempo haverá incidência nos princípios supra (acima) citados, ou seja: ultra-atividade, retroatividade e/ou irretroatividade. Rogério Sanches Cunha (2016, p. 104) sintetiza muito bem o tratado, vejamos: Tempo da Realização do Ato Lei Posterior Fenômeno da (IR)retroatividade Fato Atípico Torna o fato típico Lei incriminadora – Irretroatividade, art. 1º. Fato Típico Mantém o fato típico, mas, de qualquer modo, prejudica o réu. Novatio legis in pejus. Irretroatividade – art. 1º. Fato Típico Supressão da figura criminosa. Abolitio criminis – Retroatividade – art. 2º. Fato Típico Mantém o fato típico, mas de qualquer modo favorece o réu. Novatio legis in mellius. Retroatividade – art. 2º, Parágrafo único. Fato Típico O conteúdo típico migra para outro tipo penal. Princípio da continuidade normativo-típica. I. Sucessão Incriminadora: a lei penal não existia no momento da conduta delituosa, mas passa a considerá-lo como tal. Trata-se de norma irretroativa, nos exatos 22 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância termos do art. 1º, Código Penal, ou seja, “Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal”. II. Novatio legis in pejus: a nova lei que venha prejudicar o réu – lex gravior -, também é irretroativa. Neste caso, também se aplica a norma penal do momento da ação criminosa. Vejamos o posicionamento do Supremo Tribunal Federal (STF) com relação aos crimes permanentes (aquele que se prolonga no tempo) e ao crime continuado (mesma espécie de crime praticado na mesma condição de tempo, lugar e modo): Súmula 711 – “A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da permanência”. Segundo Paulo de Queiroz (apud CUNHA, 2016, p. 106): “o agente ao invés de responder por vários crimes em concurso material, deve responder por um único delito, o mais grave se diversos, com aumento de um sexto a dois terços. Portanto, os crimes subsequentes só têm relevância jurídico- penal para efeito da individualização judicial da pena: escolha da pena mais grave (quando diversas as infrações) e fixação do respectivo aumento, pois o primeiro crime prevalece sobre todos os demais como se estes simplesmente não existissem, exceto para efeito da aplicação da pena”. III. Abolitio Criminis: se trata da supressão (deixa de existir) da figura entendida como criminosa. Lei posterior (superveniente) descriminalizadora revoga o tipo penal, conforme menciona o art. 2º, CP, que diz: Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória (...)”. Ao legislador não importa mais proteger o bem jurídico anteriormente tutelado, respeitando-se aqui o princípio da intervenção mínima do Direito Penal. Apenas a título de conhecimento, visto que o estudo será mais aprofundado à aqueles estudiosos do Direito, há duas correntes em relação a natureza jurídica da abolitio criminis: 23 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Lei penal abolicionista não deve respeito à coisa julgada. São efeitos da abolitio criminis: 2 IV. Novatio legis in mellius: se trata de nova lei que beneficia o condenado – lex mitior – nos moldes do parágrafo único do art. 2º, CP, que diz: “A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado”. Natureza Jurídica Extingue a tipicidade Extinguea punibilidade Flávio Monteiro de Barros; Corrente adotada pelo Direito Penal Brasileiro; Por consequência se exclui sua punibilidade. Art. 107, III, CP Efeitos Extrapenais Penais Arts. 91 (São efeitos da condenação: I. tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime) e 92, CP. Permanece a obrigação de indenizar. Serão extintos. Não pode a antiga condenação ser utilizada para fins de reincidência ou constar na folha de antecedentes. 24 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância E a quem caberá aplicar regra que beneficie o acusado/condenado? Rogério Sanches Cunha (2016, p. 108) exemplifica em sua obra: Lei penal abolicionista não deve respeito à coisa julgada. Lei Penal mais Benigna Espécie Que representa mera aplicação matemática. Que implica juízo de valor. Juízo Competente Juízo da Execução Juízo da Revisão Criminal Exemplo Cria-se para um crime patrimonial uma causa de diminuição de pena quando o dano à vítima for inferior a 1 salário mínimo (circunstância que dispensa juízo de valor). Cria-se para um crime patrimonial uma causa de diminuição quando o dano for de pequeno valor (circunstância que demanda juízo de valor). Caberá ao juiz competente, quando antes da sentença sobrevier lei mais benéfica, bem como, se após sentença condenatória (recorrível) caberá a instância superior aplicação da lei mais benéfica. Havendo dúvida sobre qual a lei mais benéfica ao indivíduo deve o magistrado perguntar ao acusado/condenado, com apoio de seu defensor, qual a lei que entende mais benéfica á sua situação, este é o posicionamento do prof. Nelson Hungria. 25 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Importante tratarmos sobre as Leis Temporárias e Leis Excepcionais, vejamos: Lei Temporária Lei Excepcional Temporária em sentido estrito; Tem sua vigência (prazo) determinado de forma prévia (anterior). Temporária em sentido amplo; Editada devido algum evento (natura ou não) transitório e dirá enquanto durar o estado de emergência. - Características: Autorrevogabilidade: ambas autorrevogam-se, ou seja, sua vigência termina quando encerra seu tempo fixado, ou, cessada a situação de anormalidade vivida. Ultra-atividade: Alcanças os fatos praticados durante a sua vigência; Não se sujeitam a abolitio criminis. 3.2 Tempo do Crime Qual lei deve ser aplicada ao criminoso? Seria a do tempo da atividade (ato criminoso) ou aquela em vigor à época da produção do resultado? Na verdade, existem três teorias quanto ao tempo do crime: a. Atividade: se considera praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que seja outro o momento do resultado; b. Resultado: considera como tempo do crime o momento do resultado, ou aquele em que o resultado deveria ocorrer, mesmo que seja diferente do momento da sua ação ou omissão. c. Ubiquidade (ou Teoria Mista): combina as duas teorias anteriores e considera o momento do crime tanto aquele da ação ou omissão, como o do resultado. O nosso Código Penal adota a teoria da atividade em seu art. 4º, que diz: “Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o momento do resultado”. 26 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Ex. um adolescente com 17 anos e 11 meses atira em uma pessoa para matá-la, porém ela morre somente após cinco meses, em decorrência do disparo. O infrator responderá por ato infracional perante o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e não por crime perante o Código Penal, pois, ao tempo do crime (ação de atirar contra a vítima) ele (infrator) não havia atingido a maioridade penal. 3.3 Lei Penal no Espaço Vamos analisar agora as regras que definem qual lei será aplicada no conflito de leis no espaço. Essas regras estão previstas a partir do art. 5º até o artigo 9º do Código Penal. O Princípio da Territorialidade constitui a regra geral e está previsto no art. 5º, caput do Código Penal, segundo o qual se aplica a lei brasileira aos crimes ocorridos no território nacional. O conceito de “território nacional” é jurídico e não geográfico e significa todo lugar em que a lei brasileira exerce sua soberania podendo ser aplicada. Territorialidade “Art. 5º. Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito internacional, ao crime cometido no território nacional. §1º. Para os efeitos penais, consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras, de natureza pública ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem, bem como as aeronaves e as embarcações brasileiras, mercantes ou propriedade privada, que se achem, respectivamente, no espaço aéreo correspondente ou em alto-mar. §2º. É também aplicável a lei brasileira aos crimes praticados a bordo de aeronaves ou embarcações estrangeiras de propriedade privada, achando-se aquelas em pouso no território nacional ou em voo no espaço aéreo correspondente, e estas em porto ou mar territorial do Brasil”. A Intraterritorialidade trata-se da possibilidade de juiz brasileiro aplicar legislação penal estrangeira aos casos praticados no Brasil, hipótese está que não existe em relação as leis civis. Com relação ao lugar do crime, o Código Penal a em seu art. 6º adota a Teoria da Ubiquidade, isto é, considera-se praticado o crime: tanto aquela de ação ou de omissão como o do resultado, ou seja, onde ocorreu ou deveria ocorrer o resultado. 27 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância “Art. 6º. Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado”. É aplicação da lei brasileira aos crimes ocorridos no estrangeiro. Por limitações de tempo e espaço, apenas a título de exemplificação leia atentamente o art. 7º. Extraterritorialidade “Art. 7º. Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro: I. os crimes: a. contra a vida ou a liberdade do Presidente da República; b. contra o patrimônio ou a fé pública da União do Distrito Federal, de Estado, de Território, de Município, de empresa pública, sociedade de economia mista, autarquia ou fundação instituída pelo Poder Público; c. contra a administração pública, por quem está a seu serviço; d. de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no Brasil; II. os crimes: a. que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir; b. praticados por brasileiros; c. praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, quando em território estrangeiro e aí não sejam julgados. §1º. Nos casos do inciso I, o agente é punido segundo a lei brasileira, ainda que absolvido ou condenado no estrangeiro; §2º. Nos casos do inciso II, a aplicação da lei brasileira depende do concurso das seguintes condições: a. entrar o agente no território nacional; b. ser o fato punível também no país em que foi praticado; c. estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza a extradição; d. não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter aí cumprido a pena; e. não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por outro motivo, não estar extinta a punibilidade, segundo a lei mais favorável. §3º. A lei brasileira aplica-se também ao crime cometido por estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil, se, reunidas as condições previstas no parágrafo anterior: a. não foi pedida ou foi negada a extradição; b. houve requisição do Ministro da Justiça”. Quando o indivíduo for processado e jugado tanto no Brasil quanto no estrangeiro e nesse último ter cumprido a pena (total ou parcialmente).Pena cumprida no estrangeiro “Art. 8º. A pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando diversas, ou nela é computada, quando idênticas”. Eficácia de sentença estrangeira “Art. 9º. A sentença estrangeira, quando a aplicação da lei brasileira produz na espécie as mesmas consequências, pode ser homologada no Brasil para: I. obrigar o condenado à reparação do dano, a restituições e à outros efeitos civis II. sujeitá- lo a medida de segurança. Parágrafo único: a homologação depende: a. para os efeitos previstos no inciso I, de pedido da parte interessada; b. para outros efeitos, da existência de tratado de extradição com o país de cuja autoridade judiciária emanou a sentença, ou, na falta de tratado, de requisição do Ministro da Justiça”. Atenua Penas diversas Computa Penas Idênticas 28 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância BRAGA, Hans Robert Dalbello. Manual de Direito Penal: Parte Geral. São Paulo: Rideel, 2018. CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal: parte geral (arts. 1º ao 120) 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2016. FAVORETTO, Affonso Celso. Direito Penal: Parte geral e parte especial. São Paulo: Rideel, 2018. JALIL, Mauricio Schaun; GRECO FILHO, Vicente (Coord.). Código Penal comentado: doutruna e jurisprudência. São Paulo: Manole, 2016. PEREIRA, Gisele Mendes. Direito Penal I. Caxias do sul: EDUCS, 2012. THOMAZ, Paulo Amador; BUENO, Alves da Cunha. Direito Penal: Parte Geral. São Paulo: Manole, 2012. 29 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4 CRIME Objetivo: Estudar um dos objetos de preocupação do Direito Penal: o crime. Introdução Olá, agora que já analisamos as bases do Direito Penal, tanto em relação à sua formação quanto a aplicação de suas normas, vamos estudar o que vem a ser o crime, um dos objetos de normatização do Direito Penal. Neste módulo estudaremos os seguintes tópicos: 1. Conceito de crime 2. Fato típico 4.1 Conceito de Crime Trataremos a partir de agora dos fundamentos e elementos que envolvem o crime (fato jurídico que depende da vontade humana direcionada a uma finalidade). Você já teve ter ouvido falar ou até mesmo lido os seguintes termos: infração penal, delito, crime e contravenção penal. Pois bem, há diferenças muito importantes entre eles. Essas nomenclaturas modificam de acordo como enfoque, vejamos: Enfoque Formal Material Analítico Infração penal é aquilo que está descrito na norma (tipo) penal, sob ameaça de imposição de uma pena. Infração penal é um comportamento humano relevante que pode gerar grave lesão ou perigo ao bem jurídico, também passível de imposição de pena. Trata-se de elementos que estruturam a infração penal, sendo eles o fato típico, ilícito e culpável. 30 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O termo “infração penal” nada mais é que um gênero que se subdivide em duas espécies: crime ou delito; e contravenção penal, também conhecida como crime liliputiano ou crime anão. O “rótulo” do tipo (escolha em qual espécie a ação irá se enquadrar) é dado pelo legislador (aquele que edita a norma) que irá valorar as condutas de acordo com o grau de lesão ao bem jurídico tutelado. Em resumo, será considerado crime as condutas mais gravosas e serão consideradas contravenções condutas menos gravosas. O professor Rogério Sanches (2016, p. 153) traz um quadro abaixo de forma esquematizada as diferenças entre eles, vejamos: CRIME CONTRAVENÇÂO Tipo de pena privativa de liberdade Reclusão, detenção e/ou multa Prisão simples e/ou multa Espécie de ação penal Ação penal privada e ação penal pública (condicionada ou incondicionada) Ação penal pública incondicionada Punição da tentativa Pune a tentativa Não pune a tentativa Regras de extraterritorialidade Admite-se extraterritorialidade Não admite extraterritorialidade Competência para processamento e julgamento Justiça Federal e Estadual Justiça Estadual (salvo na hipótese de foro por prerrogativa) Limite de cumprimento de pena 30 anos 5 anos Período de prova do sursis 2 a 4 anos ou 4 a 6 anos 1 a 3 anos Cabimento de prisão preventiva e temporária Cabe nas hipóteses do art. 313, CPP e art. 1º, III da Lei nº 7.960/89 Não cabe Possibilidde de confisco Só instrumentos do crime podem ser confiscados Não admite confisco de instrumento de contravenção. Algumas explicações sobre algumas nomenclaturas encontradas no quadro: 31 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância a. Ação penal privada: Trata-se de uma ação promovida (movimentada) pelo particular. b. Ação penal pública condicionada: Ação promovida pelo Ministério Público, mas para que ela tenha andamento necessariamente a parte (vítima) precisa impulsionar os trabalhos (investigações etc.), não podem o Delegado ou o Promotor de Justiça dar andamento na ação sem este impulso (Parte final do caput do art. 24, Código de Processo Penal); c. Ação penal pública incondicionada: Assim que o Delegado ou Ministério Público tenham notícia sobre o crime deverá dar início as investigações, sem necessidade de requisição ou representação, desde que haja o mínimo de provas para isso (1ª parte do caput do art. 24, Código de Processo Penal); Art. 24, CPP: “Nos crimes de ação pública, esta será promovida por denúncia do Ministério Público, mas dependerá, quando a lei exigir, de requisição do Ministro da Justiça, ou de representação do ofendido ou de quem tiver qualidade para representá-lo. §1º. No caso de morte do ofendido ou quando declarado ausente por decisão judicial, o direito de representação passará ao cônjuge, ascendente, descendente ou irmão. §2º. Seja qual for o crime, quando praticado em detrimento do patrimônio ou interesse da União, Estado e Municípios, a ação penal será pública”. d. Foro por prerrogativa: algumas pessoas devido aos altos cargos que exercem na Administração Pública possuem alguns “privilégio” em relação ao processamento e julgamento de suas ações. Com relação ao conceito analítico do crime há divergência na doutrina sobre quantas seriam as grandes estruturas que o integrariam. Veja abaixo de forma sistematizada as três teorias predominantes: a. bipartida: crime é fato típico e antijurídico; b. tripartida: crime é fato típico, antijurídico e culpável c. quadripartida: crime é fato típico, antijurídico, culpável e punível Para a teoria bipartida a culpabilidade não compõe a estrutura do crime e é mero pressuposto de aplicação da pena. Há no Brasil, em especial no Estado de São Paulo, muitos defensores desta corrente, porém prevalece, tanto para nossos doutrinadores como para doutrinadores estrangeiros 32 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância que a teoria correta a ser adotada é a tripartida. Para efeito dos nossos estudos será está que adotaremos em nossos estudos. Para entender a estrutura do crime é necessário que você compreenda o significado de alguns termos muito importantes para o Direito penal, são eles: a. sujeito passivo: é o titular do bem jurídico tutelado (protegido) pela norma penal (formalmente seria o Estado e materialmente o titular do bem protegido pela norma penal). É importante avisar que nesta classificação poderá tanto pessoa física (indivíduo) como pessoa jurídica (empresas, autarquias etc.) serem classificadas como sujeito passivo. b. sujeito ativo: aquele que pratica a infração penal, ou seja, pessoa maior de 18 anos, capaz. Há muita discussão se pessoa jurídica – PJ - (empresas, por exemplo) pode ser reconhecida como sujeito ativo na infração penal, está conversa vamos deixarpara outro momento, mas para que você não fique sem resposta, entenda que hoje há três entendimentos, onde o primeiro entende que PJ não pode cometer crime, outra que entende contrário, que pode sim a PJ cometer infração penal e uma terceira que entende que a PJ será responsabilizada, mas seus diretores é quem responde por qualquer tipo de dano causado. c. objeto jurídico: é o bem jurídico tutelado pela norma penal. O objeto material é a pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta do agente. d. punibilidade: é a consequência jurídica pela prática do crime. Possibilita a aplicação da sanção penal. A doutrina trata dos elementos do crime como “substratos”, tendo como base a teoria tripartida como estudamos acima, apenas para relembrarmos, são eles: a. fato típico; b. ilícito; e c. culpável. Vamos estudar um a um a partir de agora. Vamos nessa? 33 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4.2 Fato Típico De acordo com o princípio da exteriorização ou materialização do fato, apenas importam os fatos praticados pelo homem, ou seja, se determinado fato acontecer sem nenhuma participação do homem, ao direito penal não interessará. Este fato humano, indesejável, não querido, deve causar um resultado que se amolde a um tipo penal (norma penal, fato entendido como criminoso) e é o que chamamos de fato típico ou fato tipicamente penal. Segundo o professor Rogério Sanches Cunha (2016, p. 177): Fato típico, portanto, pode ser conceituado como ação ou omissão humana, antissocial que, norteada pelo princípio da intervenção mínima, consiste numa conduta produtora de um resultado que se subsumi ao modelo de conduta proibida pelo Direito Penal, seja no crime ou contravenção penal. A partir do conceito trazido pelo professor Rogério Sanches encontramos os elementos do fato típico, sendo eles: Vamos analisar cada um destes elementos. Conduta: é o comportamento humano consciente em uma ação (fazer) ou omissão (deixar de fazer) voltada a uma finalidade. O Código Penal Brasileiro adota a Teoria Finalista, no entanto, a doutrina mais moderna entende que a teoria que deveria ser adotada é a Teoria Funcionalista. Vamos estudar cada uma destas teorias e trazer, também, as críticas feitas a elas: Fato Típico Tipicidade Resultado Nexo Causal Conduta 34 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Teoria Finalista: esta teoria foi criada por Hans Welzel no século XX (1930/1960), para essa teoria a conduta é um comportamento humano voluntário psiquicamente dirigido a um fim. A finalidade é o que distingue esta teoria das demais existentes (lembrando que há muito mais que duas teorias, mas para nosso estudo basta conhecermos estas duas que são as principais e as mais cobradas em provas de concurso). É a finalidade que transforma ação em ato de vontade, visto que, toda conduta possui um querer visando um resultado específico. A teoria da finalidade é defendida por um grande autor de nome Jorge de Figueiredo Dias (2007, p. 183), acompanhe: A verdadeira ‘essência’ da ação humana foi encontrada por Wezel na verificação de que o homem dirige finalisticamente os processos causais naturais em direção a fins mentalmente antecipados, escolhendo para o efeito os meios correspondentes: toda a ação humana é assim supradeterminação final de um processo causal. Eis a natureza ontológica da ação, a partir do qual todo o sistema do facto punível haveria de ser construído. De maneira sistemática, para os finalistas (aqueles que adotam esta como a teoria que explica a conduta) o crime é: O finalismo é adotado pela maioria das doutrinas brasileiras e deriva do art. 20, CP, afirma-se que é também adotado por ele, visto que, ao tratar sobre o erro do tipo, o Crime Fato Típico Antijurídico Culpável Dolo Culpa Consciência Vontade Objeto da Valoração Valoração do Objeto Juízo de reprovação 35 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância legislador trata da consequência que recai sobre a consciência do agente (elemento do dolo) a exclusão do fato típico. As críticas feitas são: 1º. Esta teoria se concentra no desvalor da conduta e esquece do desvalor do resultado; 2º. Ela não explica o crime culposo, pois não trata da ação dirigida a um fim quando o resultado (naturalístico – que gera alteração no mundo real) é involuntário. Teoria Funcionalista: esta teoria surge em meados da década de 70 e é a partir dela que se passa a entender que o Direito Penal possui uma missão/função, onde seus dispositivos devem ser aplicados de acordo com essa função. Ainda dentro desta teoria encontramos duas correntes muito importantes são elas: a. Teoria Funcionalista Teleológica: também conhecida como dualista, moderada ou da política criminal. Seu maior nome é Claus Roxin. Para Roxin a função do direito penal é a proteção dos bens jurídicos, ou seja, a proteção dos valores essenciais à convivência social harmônica, assim, a intervenção do Direito Penal deve se dar apenas aos fatos materialmente relevantes para a sociedade. Assim, conceitua-se conduta como: um comportamento humano voluntário que causa relevante e intolerável lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico tutelado. Essa teoria divide o crime em quatro elementos: Crime Fato Típico Culpabilidade Responsabilidade Antijurídico Imputabilidade Necessidade de pena Exigibilidade de conduta diversa Potencial consciência da ilicitude Limite da sanção 36 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A principal crítica a essa teoria é a substituição da culpabilidade pela responsabilidade, onde aquela apenas funciona como limitador de pena. b. Teoria Funcionalista Radical – também chamada de Radical, Sistêmica ou Mista. O grande nome desta teoria foi Günter Jakobs. Para Jakobs o Direito Penal tem a função determinada pelo sistema social, ou seja, preocupa-se com as regras que regulam as relações sociais. Assim, a função principal desta teoria era assegurar a vigência do sistema. Temos então uma conduta humana voluntária, que causa um dano evitável, viola um sistema e frustra as expectativas normativas. O Funcionalismo Radical “desenterram” o Direito Penal do Inimigo, ou seja, o indivíduo infrator era visto como um infiel, um inimigo ao sistema social e não mais deveriam ser considerados cidadãos. São Tomás de Aquino corrobora com esse pensamento, ele afirmava que a “dignidade humana não estava em todos os homens e sim, somente naqueles virtuosos”. A título de conhecimento, caso haja mais interesse em estudar o Direito Penal do Inimigo, grandes autores apontam como características deste as seguintes: a. ele criminaliza os atos preparatórios da ação criminosa3; b. a tipificação/normatização do que é considerado crime está disposta de forma vaga, abstrata, ou seja, dá margens a interpretações; c. o Direito Penal pune o autor pelo o que ele é e não pelo que fez; d. restringe garantias penais e processuais; e. as regras de execução penal (forma com que a pena será cumprida e suas regras de diminuição, benefícios ao condenado) são impostas com muito mais rigor. 3 Exceção a está regra é encontrada na Lei nº 13.260/16, onde se pune os atos preparatórios do crime em tela: “Art. 5º Realizar atos preparatórios de terrorismo com o propósito inequívoco de consumar tal delito: Pena - a correspondente ao delito consumado, diminuída de um quarto até a metade. § lº Incorre nas mesmas penas o agente que, com o propósito de praticar atos de terrorismo: I - recrutar, organizar, transportar ou municiar indivíduos que viajem para país distintodaquele de sua residência ou nacionalidade; ou II - fornecer ou receber treinamento em país distinto daquele de sua residência ou nacionalidade. § 2º Nas hipóteses do § 1o, quando a conduta não envolver treinamento ou viagem para país distinto daquele de sua residência ou nacionalidade, a pena será a correspondente ao delito consumado, diminuída de metade a dois terços. 37 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Entre tantas outras características, mas estas já demonstram quão duro e cruel era a visão do Direito Penal do Inimigo. O Direito Penal moderno é baseado no chamado Direito Penal dos Fatos (ou de condutas) em oposição ao Direito Penal do Autor. Em outras palavras, ninguém pode ser punido em razão do ser ou do pensar, mas sim do fazer. Quando não há consciência, também não há conduta, como, por exemplo, indivíduo em estado de sonambulismo. Dá mesma forma, não há conduta quando a ação não é fruto da vontade, como, por exemplo, a coação física irresistível ou ato reflexo. Percebe-se que o conceito de conduta, dito logo no início do nosso tema, engloba a ação (fazer) e a omissão (o não fazer), daí a existência dos crimes ditos como omissivos e comissivos. Crimes Comissivos: acontecem quando a ação proibida é positiva, é um fazer, ou seja, a norma impõe que o sujeito se abstenha de praticar ação descrita pela norma. A título de exemplo temos o tipo penal descrito no art. 155, Código Penal – Furto: “Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel [...]”. Crimes Omissivos: ocorrem quando a norma impõe um dever jurídico de agir, ordena que o sujeito impeça um determinado risco ou resultado lesivo ao bem jurídico, como, por exemplo, o tipo penal descrito no art. 135, CP – Omissão de Socorro. Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública. Os crimes omissivos ainda podem se subdividir em: I. Omissivos Próprios: quando existe um dever genérico de agir, como no caso do art. 135, CP. II. Omissivos Impróprios: quando o sujeito possuía o dever jurídico de agir específico, ou seja, o dever jurídico de impedir aquele resultado. Diz-se que o sujeito assume a posição de garante (garantidor). 38 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O art. 13, §2º, CP destaca as três hipóteses em que o ordenamento faz tal reconhecimento: §2º A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: a. Tenha por lei a obrigação de cuidado, proteção ou vigilância; b. De outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado; c. Com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado. Alguns exemplos trazidos pela doutrina a fim de facilitar o entendimento das alíneas acima são: Alínea A – mãe que deixa de alimentar o filho recém-nascido e permita que ele venha a morrer por inanição. Alínea B – babá que assume a responsabilidade de cuidar de um bebê e não o faz. Alínea C – o irmão, excelente nadador, convida o outro irmão, não tão bom nadador, para nadar uma grande distância no mar. No meio do trajeto o irmão, que sabia nadar muito bem, percebe que o outro se afoga e nada faz advindo aquele ao falecimento. Por ter ele convidado o irmão que não sabia nadar tão bem e nada fez quando ele estava se afogando responderá por sua omissão. Características e Elementos da Conduta: podemos concluir com o visto até aqui que a conduta é: movimento humano voluntário (dominado pela vontade), ou seja, somente o homem pode executar, não obstante, pode ele se utilizar de animais como instrumento para prática de um crime. Conduta Voluntária Não é ato mecânico; Se não for voluntário não há conduta e não configurará o fato típico. Não impede que a decisão não tenha sido tomada de forma livre; O agente se propõe a fazer; Não significa ato livre; 39 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A conduta deve se manifestar no mundo exterior, a mera cogitação é estranha ao direito penal. São elementos da conduta: Formas de conduta: a conduta pode ser: dolosa, culposa, preterdolosa, comissiva ou omissiva. De forma breve iremos analisar cada uma forma de conduta. a. Crime Doloso: o art. 18, I, Código Penal diz que o agente quis ou assumiu o risco de produzir o resultado, ou seja, é a vontade consciente dirigida a um realizar, ou aceitar realizar determinada conduta tipificada. Em nota de rodapé Rogério Sanches Cunha (2016, p. 193) diferencia ainda a vontade do desejo: Vontade e desejo não se confundem. No dolo, o agente quer o resultado delitivo como consequência de sua própria conduta. No desejo, o agente espera o resultado como consequência alheia a sua conduta, direta ou indireta. b. Crime Culposo: o art. 18, II, CP afirma que trata-se de uma conduta voluntária que produz um resultado ilícito não querido, nem aceito pelo agente, ,as que de alguma forma era previsível (culpa inconsciente) ou excepcionalmente previsto (culpa consciente) e que poderia ser evitado se empregado a devida cautela. c. Crime Preterdoloso: trata-se daquele onde há dolo na ação inicial, mas culpa no resultado. Resultado: o resultado é a concretude da ação delituosa, seria a real afronta á norma penal. Elementos da conduta Comportamento voluntário com uma finalidade Exteriorização da vontade Crime doloso Crime culposo Fim é a lesão ao bem jurídico ou exposição ao perigo. Fim é a prática do resultado previsível. Aspecto “mecânico” que consista na ação ou omissão que externe elemento psíquico. 40 Direito Penal Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O resultado pode ser naturalístico, ou seja, há uma real alteração no mundo físico e normativo. Os resultados naturalísticos podem ser: a. Crimes Materiais: o tipo penal traz a descrição do resultado e exige que ele ocorra para a sua consumação. Ex. Homicídio. É necessário que a vítima morra (altere o mundo físico) para que se considere concretizado o tipo penal e seu resultado ocorrido de fato, caso contrário poderá incidir em tentativa de homicídio e não em homicídio. b. Crimes Formais: o tipo traz a descrição do resultado, mas não exige que ele ocorra para a sua consumação. Ex. Extorsão mediante sequestro – art. 159, CP – neste crime, o resultado naturalístico visado é a obtenção da vantagem econômica (resgate), porém, o crime se consuma quando a vítima é arrebatada/sequestrada, ou seja, independe do recebimento ou não do resgate. c. Crime de Mera Conduta: o tipo penal traz apenas descrita a conduta delituosa, mas não faz nenhuma descrição de resultado. Ex. violação de domicílio – art. 150, CP. Com relação ao resultado normativo, ele pode ser: a. Crime de Dano: para que seja considerado de fato consumado deverá haver real lesão ao bem jurídico tutelado pelo Direito Penal. Ex. Homicídio – art. 121, CP – bem jurídico tutelado é a vida (diretamente) e integridade física (indiretamente). b. Crime de Perigo: ocorrerá a consumação pelo simples fato do bem jurídico ter sido exposto ao perigo de lesão. Ex. periclitação da vida ou saúde de outrem – art. 132, CP. Nexo de Causalidade: é o que liga a conduta e o resultado. O nexo causal é a relação de causa e efeito entre a conduta e o resultado. Dizer que existe nexo causal é dizer que, por meio das leis da física, a conduta provocou o resultado. Apenas existe nexo causal em crimes materiais e comissivos (praticados por meio de ação). No Brasil se adota a teoria da equivalência