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Curso de Direito Disciplina: Criminologia Professora Dra. Lidiane Moura Lopes Roteiro Esquematizado CRIMINOLOGIA e GÊNERO: A MULHER Bibliografia base: MENDES, Soraia da Rosa. Criminologia feminista: novos paradigmas. 2. ed. Editora Saraiva: São Paulo, 2017. Estudo dos processos de: a) criminalização e de vitimização das mulheres; b) análise do processo de etiquetamento da mulher na Justiça Criminal. Inquietações: existe uma criminologia feminista? O papel da mulher na história – Eva. A mulher que evitou uma guerra no relato bíblico: Abigal (sabedoria) x Nabal (descontrole). A Santa Inquisição – o papel das “bruxas”: a construção da “mulher” como um “grupo” perigoso. Parte da ideia de que a vontade humana de se inclinar para a prática do mal existe em pessoas biologicamente inferiores. A mulher na “criminologia” Medieval: para Eugenio Raúl Zaffaroni, o livro “Malleus Maleficarum” ou “Martelo das Feiticeiras”, representa o primeiro discurso criminológico. Estabelecendo uma relação direta entre a feitiçaria e a mulher. Na obra constam afirmações relativas: a) à perversidade b) à malícia c) à fraqueza física e mental d) à pouca fé das mulheres, e e) aos perigos dos seus feitiços aos quais os homens estariam expostos. Segue ilustrativo trecho da obra: [...] “Não há veneno pior que o das serpentes; não há cólera que vença a da mulher. É melhor viver com um leão e um dragão que morar com uma mulher maldosa. Toda a malícia é leve, comparada com a malícia de uma mulher”. E diz Sêneca no seu Tragédias: [...] “A mulher que solitária medita, medita no mal”. Relação entre a mulher e a feitiçaria: as mulheres seriam mais fracas na mente e no corpo, isso explica o fato de se entregarem com mais frequência aos atos de bruxaria. Kramer e Sprenger defendiam a existência de três classes de homens abençoados por Deus, a quem a “abominável raça” das mulheres não teria o poder de injuriar com suas bruxarias: 1ª) os juízes, os que administram a justiça pública contra as feiticeiras, e as levam a julgamento pelos seus crimes – quem exerce o poder punitivo é imune ao mal; 2ª) os religiosos, aos quais, de acordo com rituais tradicionais e santos, a Igreja concede poderes para exorcizá-las, com o uso da água benta, pela ingestão do sal sagrado, pela condução das velas bentas no Dia da Purificação de Nossa Senhora e das folhas de palma no Domingo de Ramos. 3ª) os abençoados pelos Anjos do Senhor (?). Se a mulher acusada confessa – é “culpada” e deve ser punida; se não confessa, mente usando a força da própria maldade e deve ser igualmente punida. Os manuais de inquisidores, em especial o “Martelo das Feiticeiras” representavam uma compilação de crenças na alardeada propensão, quase que exclusiva, da mulher à prática de delitos. Reprimenda às bruxas – justificativa: existia um mal que ameaçava destruir a humanidade. Esse mal lançava mão de todos os meios e a defesa contra ele também não deveria ter limitações na tarefa de derrotá-lo – usando a tortura nos interrogatórios e aplicando, não raras vezes, a pena capital. Há quem considere os assassinatos de mulheres ocorridos ao longo dos tempos como um grande e constante genocídio. Temas importantes na análise da criminologia feminista: a) a violência de gênero; b) o encarceramento feminino; c) aborto versus direito à autodeterminação – que no Brasil está em apreciação pelo STF (material de apoio). Influências relevantes na ideia do “Feminismo”: 1. Simone de Beauvoir: nascida no dia 9 de janeiro de 1908, em Paris, foi escritora, filósofa, intelectual, ativista e professora. Integrante do movimento existencialista francês, Beauvoir foi considerada uma das maiores teóricas do feminismo moderno. Pensamentos de Beauvoir: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Retirado da obra “O Segundo Sexo” - apresenta um “existencialismo feminista” que prescreve uma revolução moral. Como uma existencialista, Beauvoir acreditava que a existência precedia a essência e, portanto, não se nasce mulher, torna-se. E mais, Beauvoir rejeitou modelos, hierarquias e valores. Defendendo que: “Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado, que qualificam de feminino”. Ela nunca casou e também não teve filhos e, segundo relatos, mantinha relacionamentos com mulheres, incluindo algumas de suas alunas, o que acabou por lhe trazer complicações no mundo acadêmico. Em outubro de 1929, resolve com Jean-Paul Sartre firmar um contrato de “convivência”. Há relatos, inclusive, que Sartre ficava com algumas das amantes de Beauvoir. Obra relevante para a temática: "Os atos performativos e a constituição do gênero”, de Judith Butler. 2. Judith Butler: nasceu em 24 de fevereiro de 1956, em ler Cleveland (EUA), é pesquisadora e filósofa. Responsável na atualidade pelas principais teorias contemporâneas sobre o “Feminismo” e a chamada “Teoria queer”. Butler se define como uma pessoa não-binária. Ou seja: não é estritamente feminina e nem masculina, estando fora do binário de gênero (feminino ou masculino). Butler também defende que as performances femininas são forçadas e reforçadas por práticas sociais históricas. Ou seja: são “significados” socialmente estabelecidos. Criminologia e “Teoria queer”: a chamada “Teoria Queer” critica a divisão entre heterossexualidade e homossexualidade, por criar uma espécie de imposição de saber e de poder, classificando o “diferente” (homo) como um ser anormal, que possui um desvio. Consequência: numa visão preconceituosa, tanto os mecanismos de controle social, formais, quanto informais, atuam de forma “preconceituosa” e “estigmatizante” com relação ao grupo de pessoas com orientação sexual fora do “padrão” imposto pela sociedade. A “Criminologia queer” está alicerçada em algumas premissas, criticando: a) a heteronormatividade – como único modelo possível; b) as identidades fixas; c) o binário heterossexual e homossexual e de gênero (masculino x feminino); d) a criminalização e patologização das orientações sexuais. Como tem repercutido nos Tribunais: STF (ADI 5543): entendeu inconstitucional a restrição de doação de sangue por homens homossexuais. Na ocasião, o ministro Edson Fachin, relator da ação, destacou que não se pode negar a uma pessoa que deseja doar sangue um tratamento não igualitário, com base em critérios que ofendem a dignidade da pessoa humana. Fachin acrescentou ainda que para a garantia da segurança dos bancos de sangue devem ser observados requisitos baseados em condutas de risco e não na orientação sexual para a seleção dos doadores, pois configura-se uma “discriminação injustificável e inconstitucional”. Quando nasce a ideia de uma “criminologia feminista”? O campo de análise da criminalidade feminina se desenvolveu, originalmente, através da transferência e adaptação das categorias antropológicas, biométricas e psicológicas de classificação para a elaboração de um tipo criminológico da mulher-delinquente. O trabalho que inaugura os estudos sobre a criminalidade feminina é o livro de Lombroso e Ferrero, “A Mulher Delinquente, a Prostituta e a Mulher Normal”, de 1893. Na obra, Lombroso e Ferrero delimitam as espécies de delitos praticados pelas mulheres, sendo os mais recorrentes: a) delitos de paixão b) delitos sexuais c) delitos da maternidade Concluem que a mulher apresenta características patológicas e antropométricas (biológicos e psicológicos) que a tornam uma mulher-delinquente ou “prostituta”. Classificaram as mulheres na seguinte tipologia deliquente: a) a criminosa-nata b) a ocasional ou passional c) a prostituta-nata d) a prostituta ocasional e) as loucas f) as epiléticas; e g) as histéricas (colabora para ser alçada ao “estigma” de louca). Mas ainda permanecia uma grande dúvida: “por que mulheres delinquem menos que homens?” A criminologia feminista se propõe ainda a discutir criticamente o controle social da mulher, entendido como o “o conjunto de tudo o quanto se faz para reprimir,vigiar, encarcerar (em casa ou em instituições) as mulheres, mediante a articulação de mecanismos de exercício de poder do Estado, da sociedade e da família” (MENDES, 2017). Ética feminista: se forma pela constatação de que são seres humanos reais em condições históricas, sociais e culturais de dominação e subordinação – o que influencia no fenômeno da criminalidade envolvendo a mulher (vítima ou autora). A criminologia feminista se contrapõe à ideia de superioridade masculina, que inferioriza e violenta as mulheres; busca ainda a ressignificação do papel da mulher na sociedade – através de uma grande bandeira de luta: o reconhecimento da igualdade de gênero. Denuncia: o “sexismo institucional” que reproduz as diversas formas de violência contra a mulher nos meios formais de controle social e, especificamente, na elaboração, interpretação, aplicação das leis penais e processuais penais, abrangendo também a fase da execução penal. Na elaboração das leis: cultura de superioridade masculina no Poder Legislativo. Na aplicação das leis: falta de representatividade, nas políticas públicas no Poder Executivo, capazes de realizar os direitos fundamentais em favor das mulheres. No Judiciário: revitimização processual ou vitimização secundária da mulher. Importância da Lei LEI Nº 14.245, DE 22 DE NOVEMBRO DE 2021 - Altera os Decretos-Leis nos 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), e 3.689, de 3 de outubro de 1941 (Código de Processo Penal), e a Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995 (Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais), para coibir a prática de atos atentatórios à dignidade da vítima e de testemunhas e para estabelecer causa de aumento de pena no crime de coação no curso do processo (Lei Mariana Ferrer). O que é o sexismo institucional? Consiste em práticas de exclusão promovidas por entidades, organizações e comunidades que impõem às mulheres restrições, impedindo que tenham as mesmas oportunidades que os homens. Ex: direito ao voto. Limitação ao número de vagas para mulheres na polícia. Alternativas ao combate à violência de gênero contra a mulher: 1. Grupo de Mulheres Cidadania Feminina (Fundo Brasil de Direitos Humanos): ONG que mantém, desde 2003, um projeto chamado “Apitaço: Mulheres enfrentando a violência”. Adaptação de experiências que já existem em alguns países sul-americanos: “busca estimular a reação, por parte de outras mulheres e da comunidade, contra ações de violência doméstica ou sexista, no momento em que ocorrem, pelo uso de apitos em frente ao local do crime, como forma de denúncia e constrangimento do agressor” (MENDES, 2017). Projeto das “apitadeiras”: “Num seminário, descobri (a coordenadora do projeto) que, na década de 70, mulheres colombianas saíam às ruas apitando e batendo em panelas para denunciar e protestar contra a agressão feminina. Trouxe a ideia para a comunidade e as pessoas foram se identificando. Aos poucos, um número cada vez maior de mulheres começou a sair às ruas, também apitando, inibindo possíveis criminosos e mostrando que elas podem, sim, reagir. A violência predominante é a doméstica. Às vezes, a própria mulher que está prestes a sofrer a agressão apita. As vizinhas ouvem e começam a apitar também, e assim sucessivamente. Mas às vezes ela não pode reagir, então a iniciativa tem de partir das colegas. Por isso ficamos constantemente atentas a barulhos, gritos e xingamentos”. (FUNDO BRASIL DE DIREITOS HUMANOS). Em termos práticos: “A princípio, nós mesmas tentamos resolver o problema. Cercamos o agressor e tentamos tirar a vítima de lá e levá-la para o nosso grupo. A intenção é deixar o agressor constrangido e inibido o suficiente para ir embora. Mas nem sempre isso acontece, porque o homem pode ser mais violento ou estar alterado, por exemplo. Intimidá-lo fica mais difícil. Nesses casos, chamamos a polícia”. (FUNDO BRASIL DE DIREITOS HUMANOS). Conclusão: o direito penal não precisa ser a primeira porta, ou, menos ainda, a única porta para a solução de conflitos. Seria o movimento das “apitadeiras” uma espécie de “Garantismo Positivo”? O que é o garantismo positivo? Garantismo Positivo: veda a proibição da proteção deficiente, obrigando o Estado a agir, por meio da tutela penal, na proteção de bens jurídicos fundamentais. Ausência do Estado. Garantismo Negativo: visa a proteção dos direitos fundamentais através da proteção contra os excessos estatais. Linha tênue para que não se tenha a impunidade. Alessandro Baratta (Criminologia Crítica) – propõe a ampliação do “direito penal constitucional”, entendido como uma política “integral” de proteção dos direitos, primando por um atuar na proteção dos direitos fundamentais, surgindo a ideia de um garantismo positivo (= resposta às necessidades de segurança). Continua o autor, pontuando que: “A segurança dos cidadãos corresponde à necessidade de estar e sentir-se garantidos no exercício de todos os direitos: direito à vida, à liberdade, ao livre desenvolvimento da personalidade e das próprias capacidades, direito a expressar-se e a comunicar-se, direito à qualidade de vida, assim como o direito de controlar e influir sobre as condições das quais depende, em concreto, a existência de cada um”. Crítica da criminologia feminista à criminologia crítica: a criminologia crítica se limita à análise dos fatores econômicos como relacionados ao processo de criminalização e a ocorrência de delitos, mas não se preocupa com os fatores de gênero, de orientação sexual, de identidades de gênero e raciais, que exercem grande influência nos estudos criminológicos – quanto às causas e efeitos das condutas crimininosas. Síndrome da Barbie: consiste na coisificação da mulher desde criança – que é preparada desde criança para servir. Dessa forma, é constatado quando os pais, familiares e amigos, presenteiam a menina com bonecas, maquiagens, esmalte, brinquedos de utensílios doméstico, gerando um verdadeiro padrão no comportamento que desde criança a mulher deve seguir, consequentemente esta pratica condiciona a mulher a se vislumbrar não como sujeito de direito, mas sim um objeto que deve seguir os padrões impostos, deturpando o importante papel da mulher frente à sociedade. image1.png image2.jpeg