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REFERENCIAL TEÓRICO 
 
 A proteção dos direitos das crianças e adolescentes no contexto da 
violência doméstica é uma questão central na promoção de uma sociedade mais justa 
e igualitária. Segundo a Convenção sobre os Direitos da Criança (1989), ratificada 
pelo Brasil, as crianças e adolescentes devem ser protegidos de todas as formas de 
violência, inclusive a doméstica, que podem ter impactos devastadores no 
desenvolvimento emocional e psicológico dos indivíduos. De acordo com autores 
como Celeste Maria Leite (2006), a violência doméstica não afeta apenas o ambiente 
familiar, mas interfere diretamente na formação da identidade e da autoestima dos 
menores, gerando um ciclo de sofrimento e marginalização. 
 Além disso, a intersecção entre a violência doméstica e as vulnerabilidades 
socioeconômicas das famílias intensifica a complexidade da situação. Estudos de 
Silvia Pimentel (2010) mostram que crianças e adolescentes que vivem em contextos 
de pobreza e violência têm suas chances de acesso a direitos fundamentais, como 
educação e saúde, comprometidos, o que agravam a reprodução de ciclos de 
violência. Nesse contexto, a violência doméstica não afeta apenas a saúde física e 
mental dos menores, mas também limita suas oportunidades de desenvolvimento e 
de integração social. A falta de uma rede de proteção sólida e eficaz, aliada à carência 
de espaços seguros e acolhedores, resulta em um quadro em que muitos 
permanecem vulneráveis e sem acesso à ajuda necessária. 
 Os enfrentados na análise dos desafios de comportamento de consumo 
entre crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica são múltiplos e 
envolvem a interação de fatores psicológicos, sociais e culturais. Segundo o psicólogo 
e sociólogo Zygmunt Bauman (2000), em uma sociedade líquida, onde os vínculos 
são frágeis e a busca por consumo se sobrepõe às relações interpessoais genuínas, 
os jovens em situação de vulnerabilidade tendem a buscar no consumo uma forma de 
resgatar a sensação de controle e poder sobre suas vidas. 
 Essa dinâmica, porém, pode ser enganosa, uma vez que o consumo não 
resolve as questões subjacentes ao trauma e à violência, mas muitas vezes exacerba 
sentimentos de inadequação e baixa autoestima. Além disso, a pressão social e a 
 
exposição constante às redes de consumo, como aponta Bauman, criam um paradoxo 
no qual, mesmo em condições de violência doméstica, os adolescentes procuram 
pertencer a padrões e estilos de vida que são, em grande parte, inalcançáveis para 
aqueles que vivem em contextos de abuso. 
 A linha entre autonomia e conformismo torna-se tênue, e a tomada de 
decisão por esses indivíduos muitas vezes reflete uma adaptação ao contexto de 
violência em vez de uma busca genuína 
 Diversas pesquisas já foram realizadas abordando a relação entre 
violência doméstica e os comportamentos de consumo entre crianças e adolescentes, 
refletindo as consequências dessa dinâmica no desenvolvimento psicológico e social 
dos jovens. Uma pesquisa relevante é de Souza et al. (2015), que investigou a clareza 
entre a violência doméstica e o comportamento de consumo em adolescentes de 
famílias em situação de vulnerabilidade. 
 Os resultados indicaram que os adolescentes expostos à violência 
doméstica tendem a adotar padrões de consumo que buscam suprir uma lacuna 
emocional, como o uso de bens e a busca por uma imagem de poder ou 
independência. Esses comportamentos estavam, muitas vezes, associados a uma 
tentativa de indenização por danos emocionais pela violência familiar. A pesquisa 
também apontou que o consumo, embora momentaneamente esmagador, não 
resolve os conflitos internos e pode agravar problemas como ansiedade, depressão e 
a busca por formas de automedicação, como o uso de substâncias psicoativas. 
 Para finalizar este capítulo, é importante destacar que o próximo, dedicado 
à metodologia da pesquisa, apresenta uma descrição detalhada dos procedimentos 
adotados para investigar a relação entre violência doméstica e comportamento de 
consumo em crianças e adolescentes. Nele serão apresentados os métodos de coleta 
de dados, os instrumentos utilizados, como questionários e entrevistas, bem como as 
técnicas de emprego de análises para garantir a robustez e a validade dos resultados.

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