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VIOLENCIA 1 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Violência Uma parte significativa de quem eu sou foi moldada à base da violência. Especificamente, o tipo de violência que hoje chamamos de bullying. Muito do que faço hoje em dia é informado pelo meu desejo de que outras pessoas não enfrentem o que enfrentei — e entendo que bullying é apenas uma faceta de um problema maior. Para prevenir a violência, primeiro precisamos entender o que ela significa. Afinal, é impossível com- bater o que a gente não conhece. Na busca de respostas, fui atrás de relatórios da organização das nações unidas (ONU) e da campanha mundial pela prevenção da violência. Daqui pra frente, estou traduzindo partes de relatórios disponíveis online em inglês. Como a ONU pensa sobre violência Em primeiro lugar, precisamos entender que nem toda violência é visível. Quando a televisão nos mos- tra guerras, assaltos e assassinatos, fica fácil colocar contornos no que significa ser violento. Entretanto, a noção de violência defendida pela ONU inclui também modalidades invisíveis, sistêmicas, cujos impactos são mais difíceis de mensurar. Afinal, como se mede a dor de passar a infância sendo menosprezado pelos pares? Ou de ser criado por pais ausentes? Há dois pressupostos assumidos pela ONU que precisam ser declarados. O primeiro deles é que é possível prevenir a violência. Ainda que a violência esteja presente em muito do que entendemos como experiência humana, também estão presentes iniciativas diversas — religio- sas, filosóficas, legais e comunitárias — empenhadas em seu enfrentamento. O segundo pressuposto diz respeito ao modo de combater a violência: a ONU assume uma abordagem de saúde pública. Isso significa que o olhar da ONU não está voltado para o paciente individual, mas para atos que beneficiem o maior número de pessoas possível. A abordagem de saúde pública é interdisciplinar e científica, alimentando-se de campos diversos, como medicina, epidemiologia, sociologia, psicologia, criminologia, educação e economia. Ela enfatiza a ação coletiva em cada um desses campos. Seguindo a lógica do método científico, a abordagem de saúde pública passa por quatro passos: Reunir tanto conhecimento básico quanto for possível sobre todos os aspectos da violência. Investigar por que a violência acontece (as causas e correlações, os fatores que aumentam ou dimi- nuem o risco de violência e os fatores que podem ser modificados por intervenção). Explorar modos de prevenir a violência por meio de intervenções. Colocar em ação intervenções que pareçam promissoras, disseminando informações e determinando a relação entre custo e efetividade desses programas. Acima de tudo, o foco de uma abordagem de saúde pública está na prevenção, mais do que na reação à violência. A Definição De Violência A ONU define violência como (a tradução é minha): “o uso intencional de força física ou poder, por ameaça ou ação, contra si mesmo, outra pessoa ou um grupo ou comunidade, que resulta ou tem alta probabilidade de resultar em ferimento, morte, sofrimento psicológico, mal desenvolvimento ou privação”. A palavra intencional diz respeito ao ato em si, independentemente de seus resultados. Já a expres- são o uso de força física ou poder inclui negligência e todos os tipos de abuso físico, sexual ou psico- lógico, bem como suicídio e outras ações autoabusivas. VIOLENCIA 2 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Os resultados possíveis da violência são abrangentes e a razão disso é que não consideremos como violência apenas aquilo que leve a ferimentos ou morte. Há diversos tipos de violência cujas conse- quências podem ser imediatas ou latentes e durar por muitos anos além do abuso inicial. Sobre a intencionalidade, a ONU apresenta duas questões importantes: Embora a violência seja distinguida de eventos não intencionais que levem a danos, a presença da intenção de usar força não necessariamente indica a intenção de causar dano. É o caso de adolescen- tes brigando (socos na cabeça podem causar ferimentos prolongados) ou pais que chacoalham crian- ças para que parem de chorar (correndo o risco de dano cerebral). Algumas pessoas intencionam machucar as outras, mas, baseadas em suas crenças culturais, não percebem seus atos como violentos (é o caso de maridos que batem em mulheres para ensiná-las como agir adequadamente). Outros aspectos da violência, mesmo que não declarados explicitamente, estão incluídos na definição. Por exemplo, estão incluídos atos públicos ou privados, reativos (em resposta a eventos anteriores, como provocações) ou proativos (planejados), criminais ou não. Tipologia da Violência A tipologia proposta pela ONU divide a violência em três categorias, de acordo com as características de quem comete o ato violento: Violência auto-infligida; Violência interpessoal; Violência coletiva. Esta categorização inicial estabelece diferenças entre a violência que uma pessoa pratica contra si mesma, a violência causada por outro sujeito ou pequeno grupo de sujeitos, e a violência realizada por grupos maiores, como estados, grupos políticos organizados, milícias e organizações terroristas. Violência auto-infligida Encontra-se subdividade em compartamento suicida e autoabuso. Violência interpessoal Está dividida em duas categorias: em família ou por parceiro íntimo (geralmente em casa) e em comu- nidade (entre sujeitos que não são parentes e que podem ou não se conhecer (geralmente fora de casa). Violência coletiva Está dividida em social, política e econômica. A natureza do ato violento A natureza do ato violento pode ser de quatro tipos: Física; Sexual; Psicológica; Envolvendo privação ou negligência. Esta tipologia, embora imperfeita e longe de ser universalmente aceita, oferece uma estrutura útil para a compreensão dos complexos padrões de violência que ocorrem pelo mundo, incluindo a violência nas vidas cotidianas de pessoas, famílias e comunidades. Ela inclui a natureza dos atos violentos, a VIOLENCIA 3 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR relevância da ambientação, a relação entre agente e vítima e — no caso de violência coletiva — as pos- síveis motivações. Contudo, na pesquisa e na prática, as fronteiras entre os diferentes tipos de violência nem sempre são claras. O modelo ecológico das raízes da violência Não há um fator único que explique por que alguns indivíduos se comportam violentamente ou por que a violência é mais prevalente em algumas comunidades do que em outras. A violência é resultado da interação de fatores individuais, relacionais, sociais, culturais e ambientes. Compreender como esses fatores se relacionam com a violência é um dos passos importantes na abordagem de saúde pública da prevenção da violência. O modelo ecológico considera quatro níveis: individual, relacional, comunitário e social. Individual O primeiro nível do modelo ecológico busca identificar os fatores biológicos e de história pessoal que um indivíduo traz em seu comportamento. Em adição a fatores biológicos e demográficos, também são considerados fatores como impulsividade, baixa escolaridade, abuso de substâncias e antecedentes de agressão e abuso. Em outras palavras, este nível do modelo ecológico se concentra nas caraterís- ticas individuais que aumentam a probabilidade de ser vítima ou perpretador de violência. Relacional O segundo nível do modelo ecológico explora como relações sociais próximas — por exemplo, entre pares, parceiros íntimos e membros da família — aumentam o risco de ser vítima de violência ou de praticar violência. Em casos de violência por um parceiro ou maus tratos a crianças, por exemplo, interagir diariamente ou compartilhar um lar comum com um abusador pode aumentar a oportunidade de encontros violen- tos. Uma vez que os indivíduos estão unidos em uma relação contínua, é provável que a vítima venha a ser abusada repetidamente pelo agressor. No caso de violência interpessoal entre jovens, pesquisas mostram que jovensestão muito mais pro- pícios a se envolver com atividades negativas quando esses comportamentos são encorajados ou aprovados por seus amigos. Pares, parceiros e membros da família têm o potencial de modelar o com- portamento e as experiências de um indivíduo. Comunitário O terceiro nível do modelo ecológico examina os contextos comunitários em que as relações sociais estão mergulhadas — como escolas, locais de trabalho e vizinhanças — e busca identificar as caracte- rísticas destes ambientes que estão associadas com se tornar vítima ou perpetrar violência. Um alto nível de mobilidade residencial (em que pessoas não ficam muito tempo em uma determinada habita- ção, se mudando muitas vezes), heterogeneidade (população altamente diversa, com pouco da “cola” social que mantém comunidades unidas) e alta densidade populacional são exemplos destas caracte- rísticas e cada um já foi associada com violência. Da mesma forma, comunidades caracterizadas por problemas como tráfico de drogas, altos níveis de desemprego ou isolamento social difundido (por exemplo, pessoas que desconhecem seus vizinhos ou não têm envolvimento na comunidade local) também têm maior probabilidade de experimentarem vio- lência. Pesquisas sobre violência mostram que oportunidades para violência são maiores em alguns contextos comunitários que em outros — por exemplo, em áreas de pobreza ou deterioração física, ou onde há pouco suporte institucional. Social O quarto e último nível do modelo ecológico examina os fatores sociais mais amplos que influenciam as taxas de violência. Estão incluídos aqui os fatores que criam um clima adequado para a violência, VIOLENCIA 4 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR aqueles que reduzem as inibições contra a violência e aqueles que criam e sustentam lacunas entre diferentes segmentos da sociedade — ou tensões entre diferentes grupos ou países. Alguns desses fatores incluem: Normas culturais que apoiam a violência como um modo aceitável de resolver conflitos; Atitudes que tratam suicídio como uma questão de escolha individual em vez de um ato de violência que pode ser prevenido; Normas que dão prioridade aos direitos parentais em vez de ao bem-estar das crianças; Normas que fortalecem a dominação masculina sobre mulheres e crianças; Normas que apoiam o uso de força excessiva pela polícia contra cidadãos; Normas que apoiam conflitos políticos. Os fatores sociais amplos incluem políticas de saúde, educacionais, econômicas e sociais que mantêm altos níveis de desigualdade econômica ou social entre grupos na sociedade. Conexões complexas Enquanto alguns fatores de risco possam ser únicos para um tipo particular de violência, os muitos tipos de violência usualmente compartilham vários fatores de risco. As normas culturais predominantes, a pobreza, o isolamento social e outros fatores como abuso de álcool e substância e acesso a armas de fogo são fatores de risco para mais de um tipo de violência. Como resultado, não é incomum que sujeitos em risco de violência experimentem mais de um tipo de violência. Mulheres correndo risco de violência física por parceiros íntimos, por exemplo, também cor- rem risco de violência sexual. Também não é incomum detectar relações entre diferentes tipos de violência. Pesquisas mostraram que exposição a violência no lar está associada com se tornar vítima ou perpetrador de violência na adolescência e vida adulta. A experiência de ser rejeitado, negligenciado ou sofrer indiferença nas mãos dos pais dá às crianças maior risco para comportamentos agressivos e antissociais, incluindo compor- tamentos abusivos quando adultos. Como prevenir a violência? Intervenções de saúde pública são tradicionalmente caracterizadas em termos de três níveis de pre- venção: Prevenção primária — abordagens que visam prevenir a violência antes que ela ocorra. Prevenção secundária — abordagens que se concentram em respostas imediatas à violência, como cuidados pré-hospitalares, serviços de emergência ou tratamento para doenças sexualmente transmis- síveis decorrentes de um estupro. Prevenção terciária — abordagens que se concentram em cuidados de longo prazo frente à violência, como reabilitação e reintegração e tentativas de diminuir traumas e reduzir deficiências de longo prazo associadas com violência. A violência é um problema multifacetado com raízes biológicas, psicológicas, sociais e ambientais, por isso precisa ser enfrentada em diversos níveis ao mesmo tempo. O modelo ecológico serve um propó- sito duplo neste sentido: cada nível representa um risco, mas também pode ser pensado como um ponto central para intervenção. Lidar com a violência em vários níveis envolve cuidar de todos os seguintes aspectos: Atentar para fatores de risco individuais e agir para modificar comportamentos de risco individuais; VIOLENCIA 5 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Influenciar relações pessoais e trabalhar para criar ambientes familiares saudáveis, bem como oferecer auxílio profissional e apoio para famílias disfuncionais; Monitorar locais públicos como escolas, ambientes de trabalho e vizinhanças e agir para tratar de pro- blemas que possam levar à violência; Atacar a desigualdade de gênero e atitudes e práticas culturais prejudiciais; Agir sobre os fatores culturais, sociais e econômicos mais amplos que contribuem para a violência e agir para mudá-los, incluindo medidas para reduzir o abismo entre os ricos e pobres e para garantir acesso igualitário a bens, serviços e oportunidades. Em várias partes do mundo, tradições e especificidades culturais às vezes são dadas como justificativas para certas práticas sociais que perpetuam violências. A opressão das mulheres é um dos exemplos mais conhecidos, mas muitos outros podem ser dados. Normas culturais precisam ser lidadas com sensibilidade e respeito em todos os esforços de preven- ção — sensibilidade porque as pessoas com frequência são fervorosamente apegadas às suas tradi- ções, e com respeito porque a cultura com frequência é uma fonte de proteção contra violência. A ex- periência mostra que é importante conduzir consultas prévias e contínuas com líderes religiosos e tra- dicionais, grupos leigos e figuras proeminentes na comunidade, como curandeiros tradicionais, na hora de planejar e colocar em ação programas de prevenção à violência. Sete estratégias para prevenir a violência A violência pode ser prevenida. Esta não é uma questão de crença, mas uma declaração baseada em evidências. A ONU apresenta sete proposições baseadas em rigorosas revisões de literatura exami- nando evidências científicas sobre a eficiência de intervenções para prevenir violência interpessoal e auto-infligida: Desenvolver relações seguras, estáveis e saudáveis entre crianças e seus pais e cuidadores; Desenvolver habilidades de vida em crianças e adolescentes; Reduzir a disponibilidade do uso danoso de álcool; Reduzir o acesso a armas, facas e pesticidas; Promover igualdade de gênero para prevenir a violência contra mulheres; Mudar normas culturais e sociais que apoiam a violência; Criar programas de identificação, cuidado e apoio a vítimas. Últimas palavras Os relatórios da organização das nações unidas nos oferecem pistas sobre ações que podem nos ajudar a enfrentar a incidência de violência. Elas devem ser trabalhadas em nível coletivo, mas também individual. O primeiro passo é sempre juntar informações e criar consciência. Quando começamos a identificar o que é violência — em especial aquilo que estamos acostumados a ignorar —, podemos finalmente iniciar um trabalho para enfrentá-la. Criar ambientes seguros e relações não-violentas exige disposição e energia, mas é o que precisamos para viver melhor. Nos tempos de escola, quando eu sofria com bullying, minha vida teria sido melhor se eu ou algum dos profissionais da educação ao meu redor tivéssemos acesso a informação. Eu precisava de apenas uma pessoa armada com conhecimento e disposição para intervirem meu favor e começar um movimento de mudança. Violência significa usar a agressividade de forma intencional e excessiva para ameaçar ou cometer al- gum ato que resulte em acidente, morte ou trauma psicológico. VIOLENCIA 6 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR A violência se manifesta de diversas maneiras, em guerras, torturas, conflitos étnico-religiosos, precon- ceito, assassinato, fome, etc. Pode ser identificada como violência contra a mulher, a criança e o idoso, violência sexual, violência urbana, etc. Existe também a violência verbal, que causa danos morais, que muitas vezes são mais difíceis de esquecer do que os danos físicos. A palavra violência deriva do latim “violentia”, que significa “veemência, impetuosidade”. Mas na sua origem está relacionada com o termo “violação” (violare). Quando se trata de direitos humanos, a violência abrange todos os atos de violação dos direitos: civis (liberdade, privacidade, proteção igualitária); sociais (saúde, educação, segurança, habitação); econô- micos (emprego e salário); culturais (manifestação da própria cultura) e políticos (participação política, voto). Violência doméstica A violência doméstica é o tipo de violência que ocorre em um contexto familiar, ou seja, entre parentes. Poderá ser entre o pai e a mãe, entre os pais e os filhos, etc. Abusos sexuais a crianças e maus tratos a idosos também constituem violência doméstica. Existem cinco tipos de violência doméstica: a física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Diariamente, cerca de 2 mil pessoas apresenta queixas na polícia, alegando ter sofrido violência doméstica. Violência urbana A violência urbana também consiste em um tipo de violação da lei penal. Consiste na prática de crimes diversos contra pessoas (assassinatos, roubos e sequestros), e contra o patrimônio público, influenci- ando de forma negativa o convívio entre as pessoas e a qualidade de vida. Esse tipo de violência manifesta-se particularmente nas grandes cidades. Um dos principais fatores que gera a violência urbana é o crescimento acelerado e desordenado das cidades. Como consequência surgem graves problemas sociais como fome, miséria, desemprego e marginalização, que associados à ineficiência das políticas de segurança pública contribuem para o aumento dos atos de violência. O termo deriva do latim violentia, ou seja, força ou vigor contra qualquer coisa ou ente. Dessa forma, violência é o uso da força que resulta ferimentos, tortura ou morte, ou o uso de palavras ou ações que machucam as pessoas ou, ainda, abuso do poder. A violência é característica do animal humano, faz parte dele, provém do instinto. Porém, após o longo processo de civilização do ser humano, conseguimos atenuar o nível de violência do homem, classifi- cando-o como civilizado. Civilizado significa capaz de conviver em harmonia com outro ser humano. Para àqueles incapazes de conviver em harmonia criamos a segregação, ou seja, separação do ser humano impossibilitado de ser civilizado. Essa solução é o ápice ao qual chegamos para a solução do problema atualmente, pelo menos do ponto de vista da aprovação social. Segundo o dicionário (qual??), violência “é a ação ou efeito de violentar, de empregar força física, contra alguém ou algo, ou ainda, intimidação moral contra alguém”. Para a comunidade internacional de direitos humanos (especificar a obra, se houver, ano e página): A violência é compreendida como todas as violações dos direitos civis, como a vida, a propriedade, a liberdade de ir e vir, de consciência e de culto. Políticos, como o direito a votar e a ser votado, ter participação política. Sociais, como habitação, saúde, educação, segurança. Econômicos, como em- prego e salário. Culturais, como o direito de manter e manifestar sua própria cultura. Já a organização mundial da saúde (oms) define violência como “a imposição de um grau significat ivo de dor e sofrimento evitáveis”. Mas especialistas afirmam que o conceito é muito mais amplo e ambíguo do que essa mera constatação de que a violência é a imposição de dor, a agressão cometida por uma pessoa contra outra; mesmo porque a dor é um conceito muito difícil de ser definido. VIOLENCIA 7 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Violência é um comportamento que causa dano a outra pessoa, ser vivo ou objeto. Invade a autonomia, integridade física ou psicológica e mesmo a vida de outro. Diferencia-se de força, palavras que costu- mam estar próximas na língua e pensamento cotidiano. Enquanto força designa, em sua acepção filo- sófica, a energia ou firmeza de algo, a violência caracteriza-se pela ação corrupta, impaciente e base- ada na ira, que não convence ou busca convencer o outro, simplesmente o agride. Sendo assim, a violência é um dos temas mais avassaladores, dentre tantos quantos assaltam nossa preocupação quotidiana, tanto nas ruas e nos campos quanto nas rodovias e nas cidades. Violência dolosa, violência culposa, violência preterintencional. Violência é o uso abusivo ou injusto do poder, assim como o uso da força que resulta em ferimentos, sofrimento, tortura ou morte. As constantes notícias de violência preocupam o cidadão comum e, naturalmente, também as autori- dades. São ações de violência desmedida contra a integridade física do cidadão (atingindo indiscrimi- nadamente crianças, jovens, adultos, idosos) contra a vida, contra o patrimônio. Parece que ninguém está imune a isto, pois não raro, nos deparamos com famosos sendo atingidos por este tipo de ação. É evidente que tais atitudes não ocorrem só em lugares específicos. Há muito isto deixou de ser carac- terística dos locais de concentração de população de baixa renda. A realidade está aí para mostrar que tanto o pobre quanto aquele de melhor situação econômica e social pode ser alvo da violência quanto pode praticar atos de violência. Estamos em contato diário com a violência que se expande no seu aspecto material, físico, patrimonial. Mas e a violência psicológica? A lei maria da penha, a que trata da violência contra a mulher, lei 11.340 de agosto de 2006 definiu o que é violência psicológica em seu artigo 7, inciso ii dizendo: que violência psicológica é aquela “en- tendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, compor- tamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isola- mento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;”. A partir desta definição vale a reflexão sobre a prática da violência psicológica no dia a dia das pessoas, das crianças, mais especificamente. Quantas vezes já não nos deparamos com mães chamando as crianças de burra, relaxada, feia, gorda, sem a intenção de gerar maiores danos senão aquele momentâneo de puni-la por qualquer ato que possa ter cometido no seu cotidiano. Entretanto, este tipo de comportamento gera danos sim, de forma mais profunda, contundente, estigmatizando a criança, baixando a autoestima e condicionando-a a viver enquadrada dentro daquele perfil ou estereótipo no qual foi enquadrado, na maioria das vezes pelo familiar mais próximo, que ela ama e que não tem a intenção de desagradar ou ferir, aceitando como um dogma algo que não corresponde à realidade. São de violência psicológica também aquelas ações denominadas de “bullying” e que são praticadas na escola, gerando danos posto que são realizadas repetidamente por colegas mais “valentes” ou mais fortes, impossibilitando sua defesa, gerando medo, submissão ou raiva, podendo transformar o agre- dido em futuro agressor. São de violência psicológica aquelas vivenciadas pela criança que vive em lares no qual existe violência física e psicológica contra a mãe e consequentemente contra os filhos queassistem impotentes toda sorte de agressão e maus tratos. Mudando o enfoque, não podemos caracterizar como violência psi- cológica a imposição de padrões de beleza, pela mídia, pela sociedade, de que só é belo quem se enquadra nos padrões de magreza ditados pela indústria de beleza mundial, fazendo com que desde pequenas as crianças saibam ou recebam a informação de que só é feliz, bem sucedido, com maiores chances de sucesso se estiverem enquadrados nestes moldes? O assunto é tão vasto e tão sério que valeria muito mais aprofundamento. Na verdade o objetivo ime- diato é alertar, para conscientizar que a violência psicológica é mais comum do que imaginamos, em qualquer ambiente, independente de classe social, raça, religião. Para saúde mental de todos na famí- lia, para que as crianças se desenvolvam de forma saudável é importante um ambiente alegre, de amizade, carinho, respeito, fraternidade e amor, que permita a elevação da autoestima e a reprodução VIOLENCIA 8 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR de atitudes positivas, benéficas e que impulsionem para o seu pleno desenvolvimento como ser hu- mano. Vale ressaltar que isto vale para qualquer ambiente, ou seja, familiar, escolar, profissional. Antes de tudo, você sabe conceituar e estabelecer as diferenças entre gênero, identidade de gênero, sexualidade e sexo? É inegável que diante de tantos conceitos que buscam explicitar tanto a identidade como a expressão sexual e comportamental humana, às vezes, pode surgir uma certa confusão na hora de defini-los. De modo geral, para as ciências sociais, o gênero se refere a um conjunto de atributos particulares da masculinidade e da feminilidade. Nesse sentido, entende-se que o gênero é uma construção social que não decorre de aspectos naturais. Em outras palavras, as características sociais entre homens e mulheres, que definem os seus papéis e responsabilidades dentro de uma sociedade, não são estabelecidas pelo sexo – como determinação biológica – mas influenciadas pela cultura. Ou seja, gênero é um elemento subjetivo não estático que refere a ser menino ou menina, homem ou mulher em uma determinada cultura. Dessa maneira, as pessoas podem se identificar com gêneros diferentes dos que lhes foram atribuídos em seu nascimento, isso é conhecido como identidade de gênero. Já o sexo é definido pelas caracte- rísticas biológicas congênitas que diferenciam homens e mulheres. Por fim, temos a sexualidade a qual corresponde a como o indivíduo pode, ou não, ser atraído de maneira sexual, ou romântica pelos gê- neros. E o que é violência de gênero? A violência de gênero se define como qualquer tipo de agressão física, psicológica, sexual ou simbó- lica contra alguém em situação de vulnerabilidade devido a sua identidade de gênero ou orientação sexual. De acordo com a estimativa global publicada pela oms (organização mundial da saúde) em 2017, uma em cada três mulheres em todo o mundo, especificamente 35%, já foram vítimas de violên- cia física ou sexual durante a sua vida. Dessa forma, constata-se que as mais atingidas por essa coer- ção são pessoas do sexo feminino. Contudo, vale lembrar que homens e minorias sexuais e de gênero também podem ser alvos dessas agressões. No plano do direito internacional dos direitos humanos não existe uma definição precisa do que é vio- lência de gênero, pois, por muito tempo, o conceito de gênero foi considerado como sinônimo de sexo. Por isso, a ONU (organização das nações unidas) adota uma concepção amplificada da definição de violência contra mulher em alguns tratados internacionais que versam sobre o tema. Por exemplo, tem-se o caso da convenção sobre eliminação de todas as formas de discriminação con- tra as mulheres (cedaw, sigla em inglês) que foi promulgada em 1979 pelas nações unidas e ratificada por 188 países. A regulamentação, que busca estabelecer parâmetros mínimos nas ações estatais para promover os direitos humanos das mulheres e reprimir violações, define como discriminação: “toda a distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício pela mulher, independentemente de seu estado civil, com base na igualdade do homem e da mulher, dos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural e civil ou em qualquer outro campo” (artigo 1°, cedaw). Já a convenção interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, a qual ocor- reu no ano de 1994 em Belém no Pará e que foi assinalada por 32 dos 35 estados do continente americano, definiu essa prática como uma ofensa à dignidade humana e manifestação das relações de poder historicamente desiguais entre mulheres e homens. Não obstante, ressalta-se que embora os termos sejam utilizados como sinônimos, nem todo ato contra a mulher é violência de gênero. Isso por que para que uma agressão seja classificada como violência de gênero deve ser direcionada a vítima em razão de sua identificação sexual ou de gênero. Por que a violência de gênero ocorre? VIOLENCIA 9 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Para entendermos melhor como a violência de gênero ocorre, é preciso primeiro compreender como os gêneros se relacionam e o como o pensamento cultural, que vigora a séculos, impõe as vítimas um lugar social que propicia o ciclo da violência. Ainda no século xx, especificamente na década de 80, a palavra gênero passou a integrar o dicionário feminista e, desde então, passou a ser objeto de estudo de muitos cientistas sociais, especialmente de teóricas do feminismo. Pioneiramente, logo no início do centenário, a antropóloga margaret mead afir- mava que os papéis sociais distribuídos entre homens e mulheres provinham, justamente, das diferen- ças sexuais. Seguindo a lógica, a historiadora joan scott definiu o gênero como uma categoria de análise histórica das relações de poder sustentadas e constituídas pelo discurso. Como leciona a autora, existe uma “tendência universal a associar o masculino com a cultura e a considerar que o feminino se en- contrava mais perto da natureza”. Diante do exposto, infere-se que a sociedade segue um padrão cri- ado historicamente, conservado pelos jargões culturais, e que classifica o mundo em esferas: mascu- lino e feminino. Nesse sentido, são estabelecidas relações de gênero, elos sociais de poder entre homens e mulheres nos quais cada um recebe um papel social de acordo com suas diferenças sexuais. Não é preciso ir longe para reconhecer que boa parte desses vínculos revelam a desigualdade existente entre os gêneros ao reproduzir padrões sociais rígidos e discriminatórios que são, em sua maioria, imperceptíveis. Isso acontece, por exemplo, quando aspectos como o heroísmo, a bravura e a força são associadas à masculinidade ao passo que a sensibilidade, o sentimentalismo e a delicadeza à feminilidade. Somado a isso, as concepções sociais sobre a representação da masculinidade induz a ideia de que os “homens são superiores”. Desse modo, cria-se um modelo de “dominação masculina” que é incen- tivado desde a infância, como descrevia o antropólogo pierre bourdieu, o qual induz o indivíduo a de- monstrar a sua força de supremacia e controle contra outros dotados de virilidade sensível. Portanto, o pensamento social machista legitima o uso da violência, seja física ou verbal, como justificativa para afirmar ou reafirmar a posição hierárquica de superioridade. E quais as principais formas de violência de gênero? Violência física Dentre todas as formas de violência, esta é provavelmente uma das mais comuns. Nela o agressor faz uso da força física ou de objetos para ferir fisicamente a vítima, isso pode lhe causar cicatrizes e até levar a morte. Neste último caso, quando o crime ocorre contra uma mulher por conta da condição de sexo feminino, fala-se em feminicídio. Este crime hediondo é tipificado no art. 121 do código penal brasileiro. Segundo levantamento feito pela organizaçãogênero e número, em 2017, foram registrados 225 casos de violência por dia contra a população LGBT+ e nas agressões físicas protocolizadas 67% das vítimas eram mulheres. Em outra pesquisa realizada no mesmo ano pela transgender europe (TGEU), obser- vou-se que o país foi responsável por mais da metade das mortes por assassinato de pessoas trans em todo o mundo. Violência sexual A organização mundial da saúde (OMS) define violência sexual como: “todo ato sexual, tentativa de consumar um ato sexual ou insinuações sexuais indesejadas; ou ações para comercializar ou usar de qualquer outro modo a sexualidade de uma pessoa por meio da coerção por outra pessoa, independentemente da relação desta com a vítima, em qualquer âmbito, incluindo o lar e o local de trabalho”. Assim, pode ser praticada por qualquer pessoa independentemente desta manter vínculo com a vítima. No âmbito nacional, os conceitos desta conduta são expostos no artigo 180 do código penal e no art. 7°, III da lei 11.340 (lei maria da penha). VIOLENCIA 10 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR No cenário brasileiro, conforme dados do fórum de segurança pública, nos casos de violência sexual registrados em 2018, mais de 80% das vítimas eram do sexo feminino. Em geral, no país, ocorrem cerca de 180 estupros por dia. Uma outra pesquisa da organização gênero e número evidenciou ainda que estes ataques também visam a comunidade LGBT+. Em média, 6 mulheres lésbicas foram estupradas por dia em 2017. Na maior parte desses casos, o agressor é motivado pela insatisfação com a sexualidade da vítima, por considerá-la uma transgressão às regras morais, sociais ou biológicas. Este delito é definido como estupro corretivo e tipificado no artigo 226, alínea b, do código penal. Ademais, o abuso sexual infantil tem altos índices no brasil. De acordo com o ministério da saúde, 42% de crianças e adolescentes que sofrem abuso sexual são vítimas recorrentes e 72% das pessoas es- tupradas são menores de idade. Práticas culturais nocivas Existem algumas práticas culturais que ferem os direitos universais do indivíduo e são classificadas como violência de gênero. De acordo com o fundo de população das nações unidas (UNFPA, sigla em inglês) esses costumes “violam os direitos humanos relacionados à igualdade, segurança da pessoa, saúde e autonomia na tomada de decisões”. O casamento infantil, por exemplo, entra neste ponto. O fundo das nações unidas para infância (UNI- CEF) define o casamento infantil como qualquer união formal ou informal em que uma das partes é menor de 18 anos. Segundo o órgão, esta prática constitui uma violação dos direitos humanos das crianças e dos adolescentes. Globalmente, mais de 650 milhões de mulheres são vítimas dessa realidade. Como alerta o relatório do UNFPA, o brasil apresenta uma média maior que a global de casos de casamento infantil. Aqui, 1 em cada 4 meninas se casa antes dos 18 anos. O infanticídio é outra prática que afeta a proteção a vida. Essa prática é comum em alguns países asiáticos devido políticas públicas de reprodução e culturas nacionais. Conforme relatório publicado pelo centro asiático de direitos humanos, china e índia lideram a lista mundial de morte de bebês do sexo feminino. Violência virtual Existem várias manifestações online que intimidam e causam constrangimento às pessoas devido a sua identidade de gênero. Uma delas é a prática de revenge porn, ou pornografia de vingança em tradução literal. Neste o ato, a vítima é intimidada a ter seus vídeos ou fotos intimas compartilhadas. Nesta prática, o objetivo de publicar o material íntimo de caráter erótico ou sexual é de privar o indiví- duo, principalmente mulheres heterossexuais e LGBT+, de exercer a sua sexualidade livremente. Vale lembrar que o compartilhamento de nudes da ex-namorada, da blogueira, da conhecida ou da ficante é crime tipificado no art. 218-c do código penal que prevê pena de reclusão de 1 a 5 anos. Outras formas bem conhecidas de violência online são o cyberstalking e o discurso de ódio. O primeiro se define pelo monitoramento e vigilância constante das atividades de uma pessoa, da vida cotidiana ou de informações pessoais públicas ou privadas, por meio da internet. Este tipo de perseguição ob- sessiva pode gerar sérias consequências psicológicas à vítima. Das pessoas que buscaram assistência no helpline em 2019, canal que oferece orientação sobre segurança na internet, aproximadamente 85% eram do sexo feminino. Por fim, o discurso de ódio que se refere a palavras, símbolos ou falas proferidos com a intenção de instigar a violência, o ódio e a discriminação contra outras pessoas devido a sua raça, cor, etnicidade, sexo, religião ou nacionalidade. Nas denúncias registradas no Safernet Brasil, entre os anos de 2006 e 2019, o racismo corresponde a 28% dos crimes de ódio e 68% das vítimas que procuram ajudam no helpline são mulheres. Violência simbólica VIOLENCIA 11 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Essa expressão foi criada pelo sociólogo francês pierre bourdieu e se refere a uma forma de violên- cia “imperceptível” praticada através de comportamentos, pensamentos e até mesmo modelos de or- ganização das instituições sociais. Este conjunto de mecanismos criam uma estrutura simbólica que impõe concepções transmitidas como legítimas e que visam dissimular o pensamento da vítima esta- belecendo a dominação do agressor. O “manterrupting” é um exemplo desse tipo de violência de gênero. A prática ocorre quando um ho- mem, com intuito de calar ou impedir a participação da mulher em uma conversa, não a deixa se ex- pressar ou interrompe a fala dela. Existe ainda o “mansplaining” que é quando o indivíduo do sexo masculino busca menosprezar o conhecimento da mulher julgando-a como incapaz ou desqualificada. E como denunciar? Se você sofreu ou conhece alguém que foi vítima de violência de gênero há diversas formas de procurar ajuda! Existem delegacias especializadas de atendimento à mulher que recebem denúncias de agressão e concedem, junto à justiça, medidas protetivas de urgência para os casos mais graves. Por telefone, é possível contatar sem nenhum custo adicional a central de atendimento à mulher, discando o 180, acionar a polícia militar por meio do número 190 e discar 100 em casos de exploração sexual de crian- ças e adolescentes. Vale lembrar que qualquer pessoa, independentemente da idade, pode comunicar a polícia sobre um crime. _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________