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PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS. A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA. Escritos transdisciplinares de riminologia, Direito e Processo Penal: Homenagem aos Mestres Vera Malaguti e Nilo Batista Organização Márcia Adriana Fernandes e Roberta Duboc Pedrinha Colaboração Marildo Menegat e Rubens Casara ER Editora Revan PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS. A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA. Copyright © 2014 by Editora Revan Todos os direitos reservados no Brasil pela Editora Revan Ltda. Nenhuma parte desta públicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos ou via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. E85 Revisão Roberto Teixeira Vanessa Salustiano Capa e ilustrações J. Batista Impressão e acabamento (Em papel off-set 75 g. após paginação eletrônica, em tipos Times new Roman 11/13) Divisão Gráfica da Editora Revan CIP-BRASIL. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ Escritos transdisciplinares de criminologia, direito e processo penal: homenagem aos mestres Vera Malaguti e Nilo Batista / organização Roberta Duboc Pedrinha, Márcia Adriana Fernandes; [ilustrações J. Batista]. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Revan, 2014. 1152p.: il.; 26 cm. Inclui bibliografia ISBN 978-85-7106-502-4 1. Direito. 2. Criminologia. 3. Processo penal. 1. Pedrinha, Robelia Duboc. n. Fernandes, Márcia Adriana. 14-10220 CDU: 34 Organizadoras da Obra Márcia Adriana Fernandes Advogada. Mestra em Ciências Penais pela Universidade Candido Mendes (UCAM). Pós-Gradu ada em Criminologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pós-Graduada em Direitos Humanos pela Universidade Pablo de Olavide (UPO-Espanha). Pós-Graduada em Direito e Psicanálise pela Universidade Candido Mendes (UCAM). Graduada em Ciências So ciais e Jurídicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Professora Assistente de Direito Penal da Graduação e da Pós-Graduação lato senslI de Criminologia, Direito e Processo Penal da Universidade Candido Mendes (UCAM). Professora de Execução Penal e Advogada do Escritório de Prática Forense do Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais do Rio de Janeiro (IBMEC-RJ). Membro Fundadora e Ex-Presidente do Instituto de Estudos Criminais do Estado do Rio de Janeiro (IECERJ). Ex-Delegada da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil- Seção Rio de Janeiro (OAB-RJ). Ex-Membro integrante do Conselho da Comunidade do Estado do Rio de Janeiro (CC). Secretária Executiva e Pesquisadora de Projetos da Associação pela Reforma Prisional (ARP). Membro da Associação Brasileira de Professores de Ciências Penais (ABPCP). Membro Fundadora e integrante do Conselho Consultivo do Ins tituto dos Defensores de Direitos Humanos (IDDH). Membro do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). Roberta Duboc Pedrinha Advogada. Doutoranda em Sociologia Criminal pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Doutoranda em Direito Penal pela Universidade de Buenos Aires (UBA-Argenti na). Mestra em Ciências Penais pela Universidade Candido Mendes (UCAM). Pós-Graduada em Criminologia pela Universidade de Havana (UH-Cuba). Graduada em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Professora e Coordenadora da Pós-Graduação lato senslI de Criminologia, Direito e Processo Penal da Universidade Candido Mendes (UCAM). Professora de Direito Penal e Coordenadora do Núcleo de Ciências Criminais (licenciada) do Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais do Rio de Janeiro (IBMEC-RJ). Pro fessora Convidada de Direito Penal da Pós-Graduação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Pós-Graduação da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). Professora Convidada de Criminologia da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ). Professora Concursada de Criminologia do Ministério de Justiça (MJ) no Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) e no Departamento da Polícia Federal da Academia Nacional de Polícia (DPF-ANP). Membro Fundadora e Ex-Diretora Acadêmica do Instituto de Estudos Criminais do Estado do Rio de Ja neiro (IECERJ). Membro Fundadora e Secretária-Geral do Instituto dos Defensores de Direitos Humanos (IDDH). Ex-Coordenadora de 'Sistema Penitenciário e Segurança Pública da Comis são de Direitos Humanos e Ex-Membro da Banca Examinadora de Direito e Processo Penal da U Ordem dos Advogados do Brasil- Seção Rio de Janeiro (OAB-RJ). Ex-Membro da Comissão Permanente de Direito Penal e Membro da Comissão Permanente de Direitos Humanos do Ins tituto dos Advogados Brasileiros (IAB). Membro da Associação Brasileira de Professores de Ciências Penais (ABPCP). Membro do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). Membro da Associação Internacional de Direito Penal (AIDP). Membro do Instituto Carioca de Criminologia (ICC). PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS. A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA. 48 ~ NOTAS Dedico este artigo a Vera Malaguti e a Nilo Batista, combatentes incansáveis da criminalização da pobreza e fornecedores de argumentos preciosos para todos aqueles que estão do lado de cá da guerra contra os pobres. 2 A pesquisa que originou este artigo foi financiada pelo Edital de Humanidades da FAPERJ. 3 Historiadora. Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestra em História So cial da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Doutora em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pós-doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora do Programa de Pós-Graduação cm Antropologia SociallMuseu Nacional/UFRJ. Pesquisadora do Observatório da Indústria Cultural. 4 O capitalismo videofinanceiro ao qual se refere Vera Malaguti Batista é um conceito criado por Gilberto Felisberto Vasconcellos, inspirado na Escola de Frankfurt, e que busca compreender a "fusão do banco com aTV". 5 Ver, por exemplo, http://wwwl.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fqOII0200737.htm. visitado em 30/10/2013. li A versão do inspetor sobre o caso Tim Lopes pode ser lida aqui: http://www.professordanielgomes.com REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BACK, Les. Netv ethnicities and urban culture. Racism and l11ulticulture in youg lives. New York, Saint Martin's Press, 1996. BATISTA, Vera Malaguti. "O Alemão é muito mais complexo". Texto apresentado no 170 Seminário Interna- cional de Ciências Criminais em São Paulo, 23/07/2011. BHABBA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte, Ed.UFMG, 1998. BOURDIEU, Pierre. A distinção. A crítica social do julgamento. São Paulo, Edusp, 2007. ELIAS, Norbert. O processo civilizado!: Uma história dos costumes. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990. FERRO, Marc. História das colonizações. Das conquistas às independências. Séculos XII a XX. São Paulo, Cia das Letras, 1996. FORTES, Rafael (org.). Segurança pública, direitos humanos e violência. Rio de Janeiro, Luminária Academia, 2008. GILROY, Paul. Atlântico Negro. Mode1'l1idade e dupla consciência. São PaulolRio de Janeiro, Ed. 34/UCAM, 2001. _____ ; e HALL, Stuart. Da diáspora. Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2003. LIMA, Antonio Carlos de Souza. Um grande cerco de paz. 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Quando os conheci - e já se vão tantos anos -, guardei dentro de mim a sensação de extrema satisfação por ter entrado em contato com pessoas tão qualificadas, seja como seres humanos, seja como cientistas. E os encontros que se sucederam só serviram para confirmar e reforçar a impressão inicial. Daí a profunda admiração que lhes tributo, o que me trouxe tantas dificuldades para eleger um tema que pudesse estar à altura dos homenageados. Depois de tanto pensar, resolvi regressar a um problema que, de longa data, me preocupa: a questão do aborto. Em 1992, teci algumas considerações sobre o aborto por indicação eugênica num artigo que fez parte de um livro em homenagem ao prof. Manoel Pedro PimenteJ.2 Dois anos depois, no ano de 1994, fiz parte da Comissão do Ministério da Justiça destinada à produção de um Esboço de Anteprojeto da Parte Especial do Código Penal. Nesse trabalho, admitiram-se quatro hipóteses de justificação do delito de aborto: o aborto voluntário, o aborto terapêutico, (juntar texto)o aborto ético e o aborto em razão de malformações graves e irreversíveis.3 O Esboço do Anteprojeto não foi adiante e continuou a dormir, a sono solto, nos escaninhos do Ministério da Justiça. Mais dois anos se passaram e, em 2006, publiquei um longo artigo sobre a matéria na Revista do Instituto de Ciên cias Penais de Minas Gerais. 4 Nesse intervalo de tempo, a legislação penal brasileira permaneceu estática, sem nenhuma alteração, atarraxada à datado Código Penal de 1940, ou seja, há 72 ". Apesar do distanciamento amedrontado do legislador penal, a questão do aborto requer, em medida cada vez mais acentuada, um posicionamento adequado. O aborto foi o leitmotiv de muitas discussões acalo radas, no ano de 20 I O, por ocasião da última campanha para a Presidência da República, na qual os candidatos mais votados assumiram o compromisso de deixar inalterada a legislação penal sobre o tema. Ao mesmo tempo, transita pelo Congresso Nacional- correndo-se o grave risco de ser apro vado - o chamado Estatuto do Nascituro, exemplo fiel de um projeto de lei retrógrado na medida em que deixa patente seu objetivo de diminuir as poucas causas de exclusão de ilicitude admitidas na arcaica legislação penal. A problemática do aborto guarda ainda atualidade e deve ser revisitada, sobretudo, no momento em que se discute a apregoada Reforma do Código Penal Brasileiro, a par tir de Comissão formada pelo Senado Federal, no ano de 2011. Por todas essas razões - e porque minhas convicções deram muitos passos adiante a ponto de reconhecer, hoje, a necessária exclusão tipológica do aborto -, uma nova incursão sobre a temática pareceu-me apropriada para responder ao convite que me foi endereçado. 2. Embora tenha plena consciência de que o aborto só terá equacionamento na área da saúde pública - o que significa retirá-lo integralmente do campo penal-, centrarei minhas considerações na argumentação posta em relevo pelos que consideram ser inadmissível suprimi-lo do rol de figuras PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS. A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA. 50 ~ típicas, mesmo em casos legalmente determinados. A argumentação favorável à criminalização do aborto parte de quatro premissas: a) a vida humana constitui um valor absoluto, no campo da moral, isto é, um valor que se sobrepõe a todos os outros valores, sendo certo que, na perspectiva do direito, a inviolabilidade do direito à vida está também acima dos demais direitos fundamentais e não poderá ser, em nenhuma situação concreta, relativizada; b) o direito é um conceito cuja área de abrangência é superposta à da moral, e não se pode conceber que o direito aja contra os ditames da moral; c) a vida começa no momento da concepção; d) ao embrião e ao feto deve ser reconhecida a qualidade subjetiva de pessoa humana. Todas essas premissas conduziriam à conclusão de que o aborto de veria ser estruturado como tipo penal, excluindo-se peremptoriamente a sua descriminalização. Tal conclusão seria, sem dúvida, lógica e valorativamente correta, se as premissas não fossem falsas. Nenhuma delas, em verdade, assenta-se na realidade, de sorte que a conclusão representa um todo vazio, sem nenhum suporte que o sustente em chão firme. É um castelo de cartas que se esboroa ao menor sopro. 3. Não é exato que a vida humana seja um valor moral absoluto. "Basta pensar nos muitos ca sos nos quais justificamos (em nossos Direitos e em nossos juízos morais) a existência de ações que atentam contra a vida dos outros ou contra a própria vida: a legítima defesa, o estado de necessidade e a guerra (ao menos, em determinadas circunstâncias) são ( ... ) de aceitação praticamente universal; o suicídio, a eutanásia ou a pena de morte podem ser considerados como hipóteses que caem numa zona de penumbra." "A vida humana é um valor moral fundamental, mas pode entrar em conflito com outro e resultar derrotado. Dito ainda de uma outra maneira, a vida humana não nos apresenta, em nossos juízos morais, razões de caráter absoluto, mas sim, simplesmente, razões prima facie que, consideradas todas as circunstâncias, podem resultar convincentes ou não."5 Por outro lado, a inviolabilidade do direito à vida, constante do texto constitucional brasileiro, não se traduz também em princípio de caráter absoluto. Por sinal, não há falar, em termos constitu cionais, de princípio que se sobreleve sobre todos os outros, assumindo a característica marcante de Superioridade total. "Princípios contêm normalmente maior carga valorativa, um fundamento ético, uma decisão política relevante e indicam uma determinada direção a seguir. Ocorre que, em uma ordem pluralista, existem outros princípios que abrigam decisões, valores ou fundamentos diversos, por vezes, contrapostos. A colisão de princípios, portanto, não é só possível, como faz parte da lógica do sistema, que é dialético. Por isso, a sua incidência não pode ser posta em termos de tlldo ou nada, de validade ou invalidade."ó Daí porque, em havendo conflito entre dois princípios fundamentais " - o que ocorre, por exemplo, quando algo é proibido de acordo com um princípio e, de acordo com outro, permitido -, um dos princípios terá que ceder. Isto não significa, contudo, nem que o princípio cedente deva ser declarado inválido, nem que nele deverá ser introduzida uma cláusula de exceção. Na verdade, o que ocorre é que um dos princípios tem precedência em face do outro sob determinadas condições. Sob outras condições a questão de precedência pode ser resolvida de forma oposta. Isso é o que se quer dizer quando se afirn1a que, nos casos concretos, os princípios têm pesos diferentes e que os princípios com maior peso têm precedência" ( ... ) "Conflitos entre regras ocorrem na dimensão da validade enquanto as colisões entre princípios - visto que só princípios válidos po dem colidir - ocorrem para além dessa dimensão, na dimensão do peso. "7 Ora, é inquestionável existir uma colisão de direitos fundamentais na questão do aborto. De um lado, o direito à vida é um dos direitos fundamentais reconhecidos no texto da Cons tituição Federal (capu! do art. 5°). Ao incluir o direito à vida entre outros direitos fundamentais, o legislador não realizou nenhuma avaliação axiológica.Cada um e todos os direitos fundamentais situam-se num mesmo patamar, não havendo nenhum tipo de superposição ou de graduação de um em relação ao outro. Mas se a vida é um direito fundamental, tal direito envolve também a vida intrauterina? A questão é controvertida, mas comporta, em relação ao aborto, o seu exame na pers pectiva da chamada solução de prazo. O texto constitucional é silente a respeito, mas, com ele, não colide o entendimento de que o conceito de vida, para que possa ser compreendido na sua plenitude, deve abarcar não somente a vida independente, como a vida humana em formação. A caracterização ~ 51 da vida humana dependente, como bem jurídico constitucional, vincular-se-ia ao princípio da digni dade da pessoa humana, na medida em que se exigiria do Estado o dever de respeitar a vida humana e, nessa hipótese, uma vida em processo de formação representaria um valor merecedor de tutela. Por outro lado, não se pode olvidar de que todos os direitos fundamentais estão ancorados na ideia-chave da dignidade da pessoa humana, que é o princípio que baliza e, de certo modo, matiza o conteúdo de todos os direitos fundamentais, permitindo dar à própria Constituição o toque de uni dade e de harmonia. E "dignidade representa, simultaneamente, expressão da autonomia da pessoa humana (vinculada à ideia de autodeterminação no que diz respeito a decisões essenciais a respeito de sua própria existência), bem como necessidade de sua proteção e/ou assistência por parte da co munidade e do Estado, especialmente quando fragilizada ou até mesmo - e principalmente - quando ausente a capacidade de autodeterminação".8 Ora, no aborto, não se pode perder de vista que, além do direito à vida, são enfocados outros direitos fundamentais, como o direito da mulher à autodeterminação, como expressão da autonomia da pessoa humana, o direito à igualdade etc. Com inteira propriedade, Rodolfo Vasquez, parafrase ando L. Villoro, enfatiza que "penalizar o aborto seria uma verdadeira violência contra os direitos da mulher, e, em concreto: contra o direito de todo indivíduo de decidir sobre seu próprio corpo, isto é, violência ao direito à privacidade da mulher; contra o direito de todo indivíduo de decidir sobre seu próprio plano de vida e realizá-lo, isto é, violência ao direito à autonomia da mulher; contra o direito de todo indivíduo à preservação da saúde ou à integridade física e mental, isto é, violência ao direito à dignidade da pessoa; contra a igualdade de oportunidades, porque a penalização do aborto, como bem demonstrou o pensamento feminista, seria um fator a mais de discriminação sexual, isto é, violência ao direito de igualdade da mulher".9 No aborto, o direito à vida é posto emjogo, mas, nesse mesmo jogo, confronta-se com outros direitos de igual valor, ou seja, com os direitos reconhecidos constitucionalmente às mulheres, quase todos eles remetidos ao princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. Como equacionar tais direitos em situação de enfrentamento? É mister que se desenvolva um raciocínio de pondera ção, isto é, que se atribua a cada um desses direitos fundamentais um determinado peso. Partindo-se da premissa de que nenhum direito fundamental tem caráter absoluto, torna-se necessário, levando -se em conta o processo de gravidez, que se façam concessões recíprocas entre os referidos direitos fundamentais, de forma a não sacrificar nenhum deles por inteiro. Se é certo que o direito à vida pode antecipar-se ao nascimento, ampliando-se o conceito de vida, não é correto que se possa fazer uma equiparação entre a vida humana autônoma e a vida humana em formação. Há um inequívoco desnível axiológico entre uma e outra e tal desnível tem repercussão quando se tem de fazer uma ponderação entre direitos fundamentais. Assim, em havendo, até o terceiro mês de gravidez (alguns cogitam de 10 semanas e não de doze), um período de absoluta incerteza do ponto de vista científico quanto à presença plena de vida humana, força é convir que não se pode, nessa fase, maximizar o direito à vida em detrimento do exercício, por parte da gestante, de direitos fundamentais que lhe são também constitucionalmente garantidos. Por outro lado, superado o prazo de 12 ou de 10 semanas (a chamada solução de prazo), permitir o aborto, a não ser em situações fáticas previamente configura das (o denominado modelo de indicações), seria atribuir à gestante um direito ilimitado, em prejuízo do direito à vida humana, nesta altura, já consolidada. A composição entre os direitos fundamentais em colisão conduz, portanto, à aceitação da solução de prazo, conjugada ao modelo de indicações. Como já foi enfatizado pelo Plenário do Tribunal Constitucional de Portugal,JO tal entendi mento tem "como característica fundamental um crescendo de intensidade tuteladora, consoante o maior tempo de gravidez, compondo o que poderemos designar um regime tr(lásico: num período inicial, a decisão é deixada à responsabilidade última da mulher; em fases subsequentes, a inter rupção fica dependente de certas indicações, sendo proibida, em princípio, no último estádio de PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS. A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA. 52 ~ desenvolvimento do feto. Esta tutela progressiva, utilizando como critério o tempo de gestação, representa, em si mesma, uma opção básica determinada pelo intuito de harmonização dos bens em colisão. Ela procura repercutir, no plano da valoração ético-jurídica, a mutabilidade dos dados bio lógicos que conformam a vida ainda não nascida e o significado que ela assume para os termos da peculiar relação - sem paralelo em qualquer outro conflito de bens jus fundamentais - que se estabe lece entre o nascituro e a gestante". Note-se que a relação nascituro-gestante, relação essa que pode ser definida pela locução "dualidade na unidade", significa, nas 1 O ou 12 semanas de gestação, o reconhecimento de uma unidade que, com o transcorrer do processo de gravidez, se torna dualidade. A tutela penal só se justifica quando se detecta a presença dessa dualidade. 11 Isso não quer dizer que o Estado não dê respaldo ao embrião na fase unitária. Pode fazê-lo, fora do campo penal, na medida em que disponibiliza à grávida aconselhamento, em consulta de caráter obrigatório, a fim de que tenha uma decisão consciente e responsável. "Informá-la do apoio que o Estado pode dar C ... ) mais não é, ao fim e ao cabo, do que 'abrir-lhe perspectivas de uma vida futura com a criança'C ... ) como expressiva da única solução que traduz 'a mínima tentativa de, através da liberdade da mulher Ce não contra ela) procurar salvaguardar a vida' ."12 A solução de prazo é perfeitamente compatível com os termos do art. 5° capllt Uuntar texto) da Constituição Federal brasileira. Não se pode extrair do princípio da inviolabilidade do direito à vida a conclusão de que haja para o legislador infraconstitucional "uma imposição implícita (abso luta) de criminalização ( ... ) pois é livre para decidir de acordo com as concepções político-criminais que o guiem e com respeito pelos princípios da necessidade, da subsidiariedade e da adequação da tutela penal, do sentido e da extensão com que deseje consagrar cláusulas de justificação ou de im punidade do fato". 13 'Desta forma, nada obsta que se determine, em nível de legislação ordinária, o prazo de 10 ou 12 semanas como marco final para a impunidade da interrupção da gravidez. Não se alegue ser o Brasil subscritor do Pacto de San José da Costa Rica, pelo qual a vida humana estaria protegida desde a concepção (art. 4.1). Mesmo que se atribua força constitucional ao referido Pac to, em virtude da Emenda Constitucional n. 45/2004, nada dá suporte à afirmação de que a tutela, a partir da concepção, deva ser necessariamente de caráter penal. A criação de aconselhamentos psicológicos à gestante oua implantação de políticas públicas dirigidas ao planejamento familiar constituem medidas alternativas bem mais eficientes de proteção ao embrião do que a proibição pe nai contida na figura típica do aborto. Por outro lado, embora a legislação penal do Código de 1940 admita, na configuração do tipo do aborto, o modelo de indicações, é ele muito precário em face dos avanços tecnológicos postos a serviço da ciência médica. Destarte, a solução de prazo não representa nenhum agravo ao direito à vida e guardaria plena constitucionalidade "um sistema que combinasse equilibradamente o sistema de indicações com o sistema de prazos, principalmente se tal sistema se combinasse por sua vez com um consistente e adequado sistema de aconselhamento" .14 4. Não guarda também pertinência o argumento de que são coincidentes as balizas da moral e do direito. O direito estaria sempre acoplado à moral. Em particular, o direito penal seria o braço armado pronto a ser acionado contra os que não se ajustam às regras da moral. Tal asserção é absolutamente inválida. Antes de tlldo, porque a tese da existência de vasos comunicantes entre moral e direito - e, em particular, o direito penal- não encontra suporte na realidade fática.Um comportamento imoral não implica, ipso facto, a criação de um tipo penal. A criminalização e a punibilidade de ações humanas não se sustentam nessa vinculação, mas, sim, num razoável distanciamento entre os dois conceitos. O direito penal "não tem a missão de impor ou de reforçar a (ou uma determinada) moral" 15 e, por isso, não cabe tipificar condutas só porque são elas consideradas imorais ou reprováveis eticamente. Tanto isto é exato que comportamentos, que são havidos pacificamente como atentatórios à moral, tais como, por exemplo, a prostituição em si mesma, os atos homossexuais entre adultos, a leitura de livros pornográficos, o incesto, o adultério etc. não comportam tipificação penal. "O Estado, em suma, não deve imiscuir-se coercitivamente na vida moral dos cidadãos, nem tampouco promover coativamente sua moralidade, mas somente tutelar sua segurança ü'npedindo que se lesionem uns ~ 53 aos outros"16. Com razão, afirma-se não ser "dever do estado erigir-se em tutor da moralidade; não é dever do direito penal promover a afirmação de uma particular concepção ética, utilizando-se para isso, a sanção penal" .17 Depois, porque há inquestionáveis desencontros de opiniões quando se discute se determina das ações ou normas de comportamento são morais ou não. Se se leva em conta o próprio aborto, não faltará quem diga que tal conduta deva ser penalmente tipificada porque imoral e quem a considere juridicamente permitida porque não afronta a moral. Não há prova cabal de que o aborto seja um comportamento carregado de imoralidade, e portanto, preso ao campo da moral, por laços indestru tíveis. Mesmo que se parta de uma moral puramente consequencial, não corresponderia à verdade que a criminalização do aborto trouxesse resultádos sociais e individuais mais favoráveis do que a ausência de processo tipificador. Os sofrimentos impostos às mulheres, na sua liberdade de auto determinação, nos seus direitos reprodutivos e na sua integridade física e psíquica, recomendariam antes a permissividade do aborto do que a sua construção como tipo penal. "Mesmo que se conside rasse que uma conduta é (intrinsecamente ou não) imoral, disso não se segue necessariamente que deva estar proibida juridicamente". 18 Po/'jim, porque vale a pena pôr em ressalto duas outras considerações. A primeira é a de que o ponto de partida do direito penal deve estar arrimado na sua função social. "Logicamente, tudo que vá além dela não pode ser objeto do direito penal. O direito penal tem como finalidade dar aos cidadãos uma existência pacífica, livre e socialmente segura, na medida em que tais objetivos não podem ser obtidos mediante outras medidas sociopolíticas menos intrusivas na esfera da liberda de dos cidadãos".19 Além da característica de ser subsidiário, o direito penal deve ter por diretriz "definir os bens jurídicos como realidades ou fins que são necessários para uma vida social livre e segura que garanta os direitos humanos e fundamentais do indivíduo, ou para o funcionamento do sistema estatal erigido para a consecução de tal fim".20 Destarte, o ponto nuclear do direito penal está, portanto, na ofensa grave a bens jurídicos, cuja proteção constitui o 1110dllS operandi e o eixo central da disciplina penal. A moral, a religião, os tabus, enquanto conceitos introjetados em nível estritamente pessoal, não são capazes de agravar nenhum bem jurídico tutelado e, portanto, são um indiferente penal. A segunda consideração é a de que o Estado, na sua configuração mais moderna, ou seja, o Estado Democrático de Direito, é um Estado pluralista, isto é, um Estado que convive com as mais diversas concepções políticas, morais, éticas ou religiosas e que, portanto, não impõe, pela força estatal, qualquer dessas concepções mesmo quando elas expressem o entendimento da maioria de seus cidadãos. Essa visão pluralista deixa patente que o Estado Democrático de Direito tem ne cessariamente de ser um Estado laico. "Democrácia pluralista e laicidade do Estado constituem um binômio indissolúvel no sentido, ao menos, de que a primeira não pode existir no contexto de um Estado confessional. ( ... ) Não há laicidade sem democracia e não há democracia sem laicidade."21 A conclusão que se extrai de todo o contexto é que, ainda que seja entendido como um ato imoral, ou mesmo de oposição a valores religiosos e até contrarie a opinião da maior parte dos cidadãos, não caberia, numa democracia pluralista e laica, o aborto ser incluido na tipologia penal. Vale aqui o ensinamento de Faria Costa: "o Estado não pode arrogar-se a finalidade de reprimir comportamentos imorais. Na verdade, não existindo uma concepção moral única - as sociedades atuais são transver salmente plurais e hipercomplexas - mas diversas formas de estar no 'mundo', fácil é ver que esta fragmentariedade torne impossível que o legislador dê preferência, tutelado com a anna da pena, a uma particular concepção que não é patrimônio de todos."22 5. O conceito de vida está bem longe de encontrar um ponto conceitual aglutinador e o ar gumento de que há vida a partir da concepção - posição ardorosamente defeL1dida, desde os fins do século XIX pela Igreja Católica e por segmentos protestantes - não encontra o necessário respaldo quer no campo religioso, quer ainda no campo científico. A tese de que há vida no momento em que se forma o zigoto parte da ideia fulcral de que toda e qualquer expressão de vida tem um valor sagrado que lhe é intrínseco. "A fonte própria desse valor intrínseco e sagrado" é a consideração de que a vida humana" é a mais excelsa criação de PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS. A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA. 54 ~ Deus".23 Destarte, o aborto é imoral "porque insulta o dom de Deus de criar a vida".24 Tal posicio namento corresponde a um ato de fé, que não foi partilhado, durante séculos e séculos, pela própria Igreja Católica. Até a Encíclica Apostolicae Sedis, de Pio IX,25 em 1869, Doutores da Igreja não atribuíam à fecundação a relevância que agora lhe é emprestada. São Jerônimo dizia "que as se mentes se formam gradualmente no útero e não se reputa que exista homicídio até que os elementos dispersos recebam sua aparência e seus membros".26 A tese era a de que Deus introduzia a alma não no momento da concepção, mas apenas quando se iniciava, no embrião, a atividade intelectiva. A animação não era instantânea, mas retardada, e tal retardamento vinculava-se também ao sexo do embrião, numa perspectiva extremamente machista: no quadragésimo dia, em se tratando de homem e, no nonagésimo, de mulher. São Tomás de Aquino afirmava, por sua vez, que "o embriãoviável".38 De todo o contexto apresentado, extrai-se uma conclusão de razoúvel consistência. Se se levar em conta a tese da animação retardada (no caso da mulher); se, no enfoque científico, se der validade à tese do início da atividade cerebral; se se puserem de lado ambos os posicionamentos para dar abrigo a um conceito cultural de vida, força é convir que, apesar das posturas contrastantes, todas elas têm um dado em comum: o tempo de 12 semanas durante o qual não se reconhece vida humana individualizada, o que reforça o entendin1ento de que, nesse espaço temporal, a colisão en- PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS. A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA. 56 ~ tre o direito à vida e os direitos constitucionais das mulheres deve ser sopesada em favor dos direitos constitucionais das mulheres. "Deixar que até este momento (até o fim do primeiro trimestre da gravidez) seja a mulher quem decida se deseja ou não seguir adiante com a gestação é, em princípio, uma questão moralmente mais simples do que permitir o aborto em outros casos. Isso explica por que um filósofo da moral, como Jolm Rawls, tenha podido escrever que negar à mulher esse direito (decidir interromper sua prenhez até esse momento) implicaria, pura e simplesmente, atuar de ma neira irraciona.I"39 6. A derradeira viga de suporte dos que defendem a criminalização do aborto reside na afir mação de que deve ser reconhecida, ao embrião e ao feto, a qualidade subjetiva de pessoa humana. Quando, no passado, a Igreja Católica defendia a animação instantânea, levava-se em consideração que o aborto era um agravo ao poder criador de Deus e que, portanto, a vida tinha um quê de sagra do que não poderia ser sacrificado. Com o passar do tempo, adotou-se uma outra argumentação: o embrião/feto era, em verdade, uma pessoa com o direito de não ser morta e, portanto, uma pessoa humana que possuía dignidade e não teria justificação imolá-la em nome de nenhum outro valor ou interesse. Tal posicionamento não encontra alicerce de sustentação: a fragilidade desse último ponto de arrimo desequilibrou a construção argumentativa e provocou seu desabamento final. Em primeiro lugar porque, embora se admita, em tese, o argumento da extensão da proteção constitucional à vida intra-uterina, isto não significaria, por si só, que a Constituição Federal teria reservado um tratamento jurídico igualitário para a vida fora do útero da mulher e para a vida dela dependente. Em momento algum, foi instituída, em termos constitucionais, a equivalência entre a vida pré-natal e a vida pós-natal. A proteção "da vida humana em gestação não terá de assumir o mesmo grau de densificação nem as mesmas modalidades que a proteção do direito à vida in dividualmente subjetivado em cada ser humano já nascido em cada pessoa".40 Daí, não guardar incompatibilidade, em nível constitucional, a intervenção penal diferenciada entre a vida do nas cituro, em suas diversas fases, e a do ser humano já nascido. Nada impede, portanto, sob o prisma penal, que se reconheça o direito à vida em relação ao embrião/feto, após um determinado lapso temporal do processo gestatório e que se exclua o tratamento punitivo antes do decurso desse lapso. O embrião, "ao menos antes que se possa predicar deles alguma propriedade como a sensibilidade, a capacidade de sentir prazer e dor (o que não ocorre antes do final do terceiro mês de gravidez)" ( ... ) " não são entidades dotadas de dignidade porque não possuem nenhuma propriedade que pudesse justificar essa atribuição. Isso não quer dizer que careçam de todo valor, mas sim que o valor que po dem ter é inferior ao do próprio embrião em momentos posteriores de seu desenvolvimento, e, desde logo, incomparavelmente menor que o de uma pessoa adulta".41 "É constitucionalmente viável que a ponderação de interesses em causa", na busca de soluções dos bens em conflito, "leve em conta o tempo da gestação precisamente porque, com o desenrolar do processo ontogenético, a realidade existencial de um dos bens a tutelar assume controles gradativamente distintos, assim se alterando também, correspondentemente, o ponto de equilíbrio a estabelecer com as exigências decorrentes do estatuto jusfundamental da mulher grávida. O conteúdo da posição jusfundamental da mulher e o papel do Estado no exercício do seu dever de proteção devem ser avaliados de modo diferente na fase inicial e em estádio mais adiantado da gestação".42 Isto não quer dizer que o Estado abandone sem nenhuma tutela o direito à vida do embrião entre a fecundação e o início da atividade cerebral ou entre a concepção e o momento em que a mãe assume o compromisso relacional com o filho. Mas tal tutela jurídica não deverá ser necessariamente penal. Em segundo lugar porque não tem cabimento a afirmação de que o zigoto está vivo e dispõe de ADN próprio da espécie humana e que, por via de consequência, o óvulo fecundado pelo espermatozoide seria, sob tal ângulo, uma pessoa. A presença do código genético não é peculiaridade específica e irrepetível do zigoto. "Qualquer célula de um ser humano contém o código genético completo e individualizado de seu portador, sem que este mero fato torne tal célula valiosa por si mesma. Quanto às células iniciais de um embrião que tem a capacidade de desenvolvimento até formar um ser humano propriamente dito, a única coisa que o argumento do ~ 57 ~~digo genético pode demonstrar é apenas que o valor do embrião ou do feto não depende de que Ja seja pessoa (no sentido moral), mas sim de sua capacidade para ser pessoa no futuro. "43 E o zigoto revela, sob esse ângulo, incapacidade de desencadear a embriogênese visto que não dispõe ainda "de toda informação necessária para o processo embriogenético que determinará as carac terísticas biológicas do futuro indivíduo". Seu "potencial de capacidade informativa é adquirido com o tempo por interação de outras células"44 e sobretudo com o intercâmbio de informações da própria mãe. Ademais cabe acrescentar que não é de todo exata a afirmação de que "a constituição g~n.ét.ica do embrião, em fase de zigoto, seja irrepetível. Até a segunda semana, o embrião pode dIVldl1'-se e dar origem a gêmeos, o que vale dizer que o apregoado valor da irrepetibilidade não é uma característica que se pode atribuir ao organismo em desenvolvimento, mas sim ao corpo cromossômico",45 Por fim, a impropriedade argumentativa mostra-se ainda mais explícita quando se enfrenta a questão dos embriões crioconservados em laboratórios de reprodução assistida. Se cada embrião crioconservado tem um código humano único e contém uma vida, não seria caso de tornar-se obrigatória sua implantação ou de mantê-los indefinidamente com sua vida interior ou, enfim, de proibir, em qualquer circunstância, que pudessem ser objeto de pesquisa científica porque, nessa hipótese, estar-se-ia pondo fim a uma vida? Por último porque não merece acolhida o argumento substitutivo, ou seja, o de que o zigoto não é uma pessoa real, mas pessoa em potência e, por tal razão, caberia sua preservação. Na medida em que se afirma que o zigoto é um ser humano em potência, confirma-se que não é um ser humano. "O ente potencial não tem em si valor senão na medida em que alberga a promessa de ser valioso. Com frequência, rechaçou-se a equivalência do potencial com o atual, assinalando-se que, se algo é potencialmente valioso, significa que, de pronto, ainda não é esse algo valioso e, portanto, não pode assumir o valor que ainda não tem. A partir da arte, podemos ver que a ideia de potencialidade não tem solidez a menos que seja contextualizada, pois um pigmento, uma porção de argila ou um bloco de mármore podem chegar a ser uma obra de arte única, mas isto não converte tais materiais em arte potencial. Têm valor porque potencialmente podem chegar a ser algo valioso, mas esse valor potencial não possui o mesmostatus daquele em que eventualmente se tornará".4(, Além disso, o argumento teria alguma substância se se comprovasse a proporção com que cada fecundação produz uma gravidez viável que se finda com o nascimento de um ser humano. Calcula-se que 50% dos ovos fecundados são abortados, de forma espontânea, por diversas causas, no período compreendido entre a fecundação e a nidação. Dos embriões implantados, por sua vez, apenas 30% conduzem a um feto com possibilidade de desenvolvimento. "A estatística demonstra que o destino habitual do e~l1.brião implantado não é atingir o estágio de pessoa, mas, sim, morrer por antecipação. A proba bilidade de que uma concepção produza um recém-nascido é muito inferior à probabilidade ele que ocorram abortos ainda que não medeie ou se tenha produzido intervenção humana deliberaela.'''1"I 7. CO/1sideraçõesfinais. De tudo quanto foi exposto, não se poderá fugir a duas conclusões inamovíveis: a) punir o aborto significa atribuir ao Estado o duplo poder de intervir numa questão íntima, de caráter moral, que deve ser deixada à consciência e à vontade da mulher grávida e de arrostar flagrantemente direitos fundamentais postos à disposição de toda e qualquer mulher; b) despenalizar o aborto não tem nem o propósito de justificá-lo moralmente, nem de incentivá-lo em sua prática, mas tão somente de permitir à mulher que, livremente, incorpore ou não o filho ao seu projeto existencial. p,..lém dessas conclusões, cabe uma outra observação de extrema validade. Entre os princípios sem registro expresso que decorrem do regime e dos princípios adotados pela Constituição Federal (ar!. 5°, ~ 2° da CF), inclui-se o princípio constitucional da efetividade, eficácia ou idoneidaele ela intervenção penal. "O Direito Penal somente pode e deve intervir quando seja minimamente eficaz e adequado para a prevenção do delito, e portanto, eleve renunciar a sua intervenção quanelo seja político-criminalmente inoperante, ineficaz, inadequado ou, inclusive, contraproducente para evitar elelitos."48 Leva-se, portanto, em consideração, em face elo princípio ora exposto a equação custo/ benefício. Naela justifica que o Estado penal intervenha se o custo dessa intervenção seja tão elevado PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS. A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA. 58 ~ que sua omissão se mostre menos lesiva ao bem jurídico do que o resultado do enquadramento típi co. Isto significa, em síntese, que toda configuração típica deve apresentar a capacidade de ser apta e efetiva na preservação do bem jurídico tutelado, de modo que a inocuidade do tipo penal revela a desnecessidade do comportamento tipológico. Ora, como exemplo ilustrativo dessa ineficácia e inoperância, revela-se o aborto, cuja cifra negra ou oculta atinge índices altíssimos, confirmando a inefetividade ou a inadequação dessa figura criminosa. As cifras negras ou ocultas falam por si mesmas: não apenas o tipo aborto não impediu, nem diminuiu sua prática, mas sua proibição penal provocou a produção clandestina de abortos, em condições sanitárias inadequadas, com as conse quentes mortes e graves enfermidades para as mulheres. E aqui se vislumbra algo mais: as gritantes diferenças sociais. Enquanto as mulheres de alto e médio estrato social encontram clínicas onde praticam livremente o aborto sem preocupação alguma com a intervenção penal estatal, as mulheres economicamente menos favorecidas recorrem a medicamentos ou a instrumentos que provocam sequelas que às levam a hospitais públicos a partir dos quais a /lotitia criminis do aborto é comuni cada à autoridade policial. E mesmo assim, o número de abortos que chegam à Polícia e, depois, ao Judiciário, é simplesmente ridículo. O caminho mais certo e correto a ser trilhado, em matéria de aborto, não seria, em verdade, criminalizá-lo - mesmo com a exclusão de ilicitude decorrente da composição entre a solução de prazo e o modelo de indicações -, mas provocar uma viragem de 360 graus no seu questiona mento, com a exclusão do aborto dos códigos penais para regulá-lo com normas atinentes à saúde pública, em geral, e à saúde física e mental das mulheres grávidas. "O debate sobre sua mora lidade e imoralidade deve ser reservado às consciências individuais e discutido, com seriedade que merece, em aulas universitárias, mas ante as graves injustiças de que são objeto as mulheres, muito ganharíamos começando por distinguir o âmbito da moralidade do âmbito do direito e da política, adotando e exercendo uma atitude de denúncia pública e ativa."49 Só assim a punição penal deixaria de ser - isso sim - um mal absoluto e uma forma atentatória contra a dignidade da mulher, como pessoa humana. ~ 59 NOTAS Desembargador Aposentado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Ex-Vice-Presidente do Tribu nal de Alçada Criminal. Ex-Presidentc do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). Aborto por indicação eugênica. Estlldos JlIrídicos em homenagem a Manoel Pedro Pimente/.São Paulo: Revista dos Tribunais, 1992, p.80-108. Em artigo posterior, modifiquei, sob alguns ângulos, o trabalho anterior: Anencefalia. Breves considerações médicas, bioéticas, jurídicas e jurídico-penais. Revista dos Tribllnais, vol. 833, março de 2005, p. 399-419. Exclllsão de ilicitllde: Art. 143 - Não constitui crime o aborto praticado por médico: Aborto voluntário I - Se realizado dentro das doze primeiras semanas de gestação, a pedido da gestante, por razões médi cas, econômicas, sociais, familiares ou psicológicas. Nesse caso, o aborto deve ser precedido de consulta médica que proporcione à mulher as informações necessárias sobre o ato e suas consequências. Após 48 (quarenta e oito) horas, mantida sua decisão, a gestante, com o atestado laboratorial de gravidez, deve procurar outro médico, que deve provocar o aborto; Aborto terapêlltico II - Se não há outro meio de salvar a vida ou preservar a saúde da gestante; Aborto ético III - Se a gravidez resulta de fato constitutivo de vio lação sexual ou de abuso sexual ou, ainda, do emprego não consentido de técnicas de reprodução assistida; Aborto em razão de malformações graves e irreversíveis IV - Se se comprova, através de diagnóstico pré -natal, que o nascituro venha a nascer com graves e irreversíveis malformações físicas ou psíquicas, desde que a interrupção da gravidez ocorra até a vigésima quarta semana e seja precedida de parecer de dois médicos diversos daquele que, ou sob cuja direção, o aborto é realizado. "Algumas questões sobre o aborto". Revista ICP. Belo Horizonte: InstihJto de Ciências Penais, vol. I, 2006, p. 15-86. ATIENZA, Manuel. 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Madrid: Editorial Trotta, 2005, p. 503. 111 Acórdão n. 75/20 I O, de 23 de fevereiro de 20 I O, do Tribunal ConstihlCional de Portugal. 11 FIGUEIREDO DIAS, Jorge observa que "naquela dualidade na unidade deva, durante um primeiro período de tempo, predominar a lInidade e a decisão caber essencialmente à grávida; e que decorrido aquele prazo a dllalidade predomine e só em casos graves e determinados deva o interesse do nascihlro ser sacrificado". "Interrupção voluntária da gravidez: uma consideração jurídico-penal". Revista Brasileira de Ciências Cri minais, vol. 86, ano 18, set/out 20 I O, p. 160-161. 12 Acórdão 75/20 I O, de 23de fevereiro de 20 I O, do Tribunal Constitucional de Portugal. 13 FIGUEIREDO DIAS, Jorge de. Comentário Conill1bricellse ao Código Penal, Parte Especial, tomo 2. Coimbra: Coimbra Editora, 1999, p. 172. 14 FIGUEIREDO DIAS, Jorge de. Ob. cit., p.I72. 15 FERRAJOLI, Luigi. Derecho y Razón. Trad.: Alfonso Ruiz Miguel. 7". ed. Madrid: Editorial Trotta, 2005, p.223. 16 FERRAJOLI, Luigi. Ob. cit., p. 223. 17 LARIZZA, Silvia. Direito Penal e Política Criminal no Terceiro Milênio. Perspectivas e tendências. Porto Alegre: PUCRS, 20 11, p. 49. IN ATIENZA, Manuel. Ob. cit., p. 140. 19 ROXIN, Claus. "Es la protección de bienesjurídicos una finalidad de derecho penal?" In: La teoria dei bien jurídico. Barcelona-Madrid: Marcial Pons, 2007, p. 446-448. 20 ROXIN, Claus. Ob. cit.., p. 448. 21 LARIZZA, Silvia. Op. cit., p. 44. 22 FARIA COSTA, José Francisco de. Ler Beccaria hoje. Citado por Lal'izza, Silvia. Ob. cit., p. 49, nota 48. 23 DWORI(IN, Ronald. EI dOluinio de la vida. 8arcelóna: Editorial Ariel, 1994, p. 52. 24 DWORKIN, Ronald. Ob. cit., p. 56. PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS. A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA. 60 ~ 25 ATIENZA, Manuel enfatiza que Pio IX promulgou também a encíclica denominada Si/lahus, na qual "são condenados da forma mais radical os direitos humanos e as liberdades políticas". Ob. cit., p. 117. 26 D\VORI(IN, Ronald. Ob. cit., p. 57. 27 DWORKIN, Ronald. Ob. cit., p. 58. 2está sendo ames-está sendo ames-