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PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. 
É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS.
A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA.
Escritos transdisciplinares de 
riminologia, Direito 
e Processo Penal: 
Homenagem aos Mestres 
Vera Malaguti e Nilo Batista 
Organização 
Márcia Adriana Fernandes e Roberta Duboc Pedrinha 
Colaboração 
Marildo Menegat e Rubens Casara 
ER 
Editora Revan 
PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. 
É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS.
A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA.
Copyright © 2014 by Editora Revan 
Todos os direitos reservados no Brasil pela Editora Revan Ltda. Nenhuma parte desta 
públicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos ou via cópia 
xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. 
E85 
Revisão 
Roberto Teixeira 
Vanessa Salustiano 
Capa e ilustrações 
J. Batista 
Impressão e acabamento 
(Em papel off-set 75 g. após paginação eletrônica, 
em tipos Times new Roman 11/13) 
Divisão Gráfica da Editora Revan 
CIP-BRASIL. Catalogação-na-fonte 
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ 
Escritos transdisciplinares de criminologia, direito e processo penal: homenagem aos 
mestres Vera Malaguti e Nilo Batista / organização Roberta Duboc Pedrinha, Márcia 
Adriana Fernandes; [ilustrações J. Batista]. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Revan, 2014. 
1152p.: il.; 26 cm. 
Inclui bibliografia 
ISBN 978-85-7106-502-4 
1. Direito. 2. Criminologia. 3. Processo penal. 1. Pedrinha, Robelia Duboc. n. Fernandes, 
Márcia Adriana. 
14-10220 
CDU: 34 
Organizadoras da Obra 
Márcia Adriana Fernandes 
Advogada. Mestra em Ciências Penais pela Universidade Candido Mendes (UCAM). Pós-Gradu­
ada em Criminologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pós-Graduada 
em Direitos Humanos pela Universidade Pablo de Olavide (UPO-Espanha). Pós-Graduada em 
Direito e Psicanálise pela Universidade Candido Mendes (UCAM). Graduada em Ciências So­
ciais e Jurídicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Professora Assistente de 
Direito Penal da Graduação e da Pós-Graduação lato senslI de Criminologia, Direito e Processo 
Penal da Universidade Candido Mendes (UCAM). Professora de Execução Penal e Advogada 
do Escritório de Prática Forense do Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais do Rio de Janeiro 
(IBMEC-RJ). Membro Fundadora e Ex-Presidente do Instituto de Estudos Criminais do Estado 
do Rio de Janeiro (IECERJ). Ex-Delegada da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos 
Advogados do Brasil- Seção Rio de Janeiro (OAB-RJ). Ex-Membro integrante do Conselho da 
Comunidade do Estado do Rio de Janeiro (CC). Secretária Executiva e Pesquisadora de Projetos 
da Associação pela Reforma Prisional (ARP). Membro da Associação Brasileira de Professores 
de Ciências Penais (ABPCP). Membro Fundadora e integrante do Conselho Consultivo do Ins­
tituto dos Defensores de Direitos Humanos (IDDH). Membro do Instituto Brasileiro de Ciências 
Criminais (IBCCRIM). 
Roberta Duboc Pedrinha 
Advogada. Doutoranda em Sociologia Criminal pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro 
(IESP-UERJ). Doutoranda em Direito Penal pela Universidade de Buenos Aires (UBA-Argenti­
na). Mestra em Ciências Penais pela Universidade Candido Mendes (UCAM). Pós-Graduada em 
Criminologia pela Universidade de Havana (UH-Cuba). Graduada em Ciências Jurídicas pela 
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Professora e Coordenadora da 
Pós-Graduação lato senslI de Criminologia, Direito e Processo Penal da Universidade Candido 
Mendes (UCAM). Professora de Direito Penal e Coordenadora do Núcleo de Ciências Criminais 
(licenciada) do Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais do Rio de Janeiro (IBMEC-RJ). Pro­
fessora Convidada de Direito Penal da Pós-Graduação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da 
Pós-Graduação da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). Professora Convidada de Criminologia 
da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ). Professora Concursada de 
Criminologia do Ministério de Justiça (MJ) no Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) 
e no Departamento da Polícia Federal da Academia Nacional de Polícia (DPF-ANP). Membro 
Fundadora e Ex-Diretora Acadêmica do Instituto de Estudos Criminais do Estado do Rio de Ja­
neiro (IECERJ). Membro Fundadora e Secretária-Geral do Instituto dos Defensores de Direitos 
Humanos (IDDH). Ex-Coordenadora de 'Sistema Penitenciário e Segurança Pública da Comis­
são de Direitos Humanos e Ex-Membro da Banca Examinadora de Direito e Processo Penal da 
U Ordem dos Advogados do Brasil- Seção Rio de Janeiro (OAB-RJ). Ex-Membro da Comissão 
Permanente de Direito Penal e Membro da Comissão Permanente de Direitos Humanos do Ins­
tituto dos Advogados Brasileiros (IAB). Membro da Associação Brasileira de Professores de 
Ciências Penais (ABPCP). Membro do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). 
Membro da Associação Internacional de Direito Penal (AIDP). Membro do Instituto Carioca de 
Criminologia (ICC). 
PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. 
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NOTAS 
Dedico este artigo a Vera Malaguti e a Nilo Batista, combatentes incansáveis da criminalização da pobreza e 
fornecedores de argumentos preciosos para todos aqueles que estão do lado de cá da guerra contra os pobres. 
2 A pesquisa que originou este artigo foi financiada pelo Edital de Humanidades da FAPERJ. 
3 Historiadora. Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestra em História So­
cial da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Doutora em Antropologia 
Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/Museu Nacional/Universidade Federal 
do Rio de Janeiro (UFRJ). Pós-doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora do 
Programa de Pós-Graduação cm Antropologia SociallMuseu Nacional/UFRJ. Pesquisadora do Observatório 
da Indústria Cultural. 
4 O capitalismo videofinanceiro ao qual se refere Vera Malaguti Batista é um conceito criado por Gilberto 
Felisberto Vasconcellos, inspirado na Escola de Frankfurt, e que busca compreender a "fusão do banco com 
aTV". 
5 Ver, por exemplo, http://wwwl.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fqOII0200737.htm. visitado em 30/10/2013. 
li A versão do inspetor sobre o caso Tim Lopes pode ser lida aqui: http://www.professordanielgomes.com 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
BACK, Les. Netv ethnicities and urban culture. Racism and l11ulticulture in youg lives. New York, Saint 
Martin's Press, 1996. 
BATISTA, Vera Malaguti. "O Alemão é muito mais complexo". Texto apresentado no 170 Seminário Interna-
cional de Ciências Criminais em São Paulo, 23/07/2011. 
BHABBA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte, Ed.UFMG, 1998. 
BOURDIEU, Pierre. A distinção. A crítica social do julgamento. São Paulo, Edusp, 2007. 
ELIAS, Norbert. O processo civilizado!: Uma história dos costumes. Rio de Janeiro, 
Jorge Zahar, 1990. 
FERRO, Marc. História das colonizações. Das conquistas às independências. Séculos XII a XX. São Paulo, 
Cia das Letras, 1996. 
FORTES, Rafael (org.). Segurança pública, direitos humanos e violência. Rio de Janeiro, Luminária Academia, 
2008. 
GILROY, Paul. Atlântico Negro. Mode1'l1idade e dupla consciência. São PaulolRio de Janeiro, Ed. 34/UCAM, 
2001. 
_____ ; e HALL, Stuart. Da diáspora. Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 
2003. 
LIMA, Antonio Carlos de Souza. Um grande cerco de paz. Poder tutelar, indianidade e formação do Estado no 
Brasil. Petrópolis, Vozcs, 1995. 
LOPES, Adriana Carvalho Lopes. FUl1k-se quem quiser. O batidão negro na cidade carioca. Rio de Janeiro, 
Bom Texto/FAPERJ, 2012. 
Aborto: um tema recorrente 
Alberto Silva Fra11co1 
1. Ser convidadopara participar de um livro em homenagem aos Profs. Nilo Batista e Vera 
Malaguti Batista constituiu um prêmio inesperado que me causou - confesso - momentos de ini­
bição. Um e outro representam, no Brasil, o que há de mais científico e o que há de mais sério no 
campo do direito penal e da criminologia. O conhecimento dogmático e o comprometimento ideo­
lógico, que estão presentes em cada livro publicado ou em cada palestra proferida, atestam a solidez 
conceitual de que ambos são portadores. E isto chama a atenção num mundo em que os valores se 
liquefazem: perdem os seus referenciais e se mostram fluidos e flexíveis. 
Quando os conheci - e já se vão tantos anos -, guardei dentro de mim a sensação de extrema 
satisfação por ter entrado em contato com pessoas tão qualificadas, seja como seres humanos, seja 
como cientistas. E os encontros que se sucederam só serviram para confirmar e reforçar a impressão 
inicial. Daí a profunda admiração que lhes tributo, o que me trouxe tantas dificuldades para eleger 
um tema que pudesse estar à altura dos homenageados. 
Depois de tanto pensar, resolvi regressar a um problema que, de longa data, me preocupa: a 
questão do aborto. Em 1992, teci algumas considerações sobre o aborto por indicação eugênica num 
artigo que fez parte de um livro em homenagem ao prof. Manoel Pedro PimenteJ.2 Dois anos depois, 
no ano de 1994, fiz parte da Comissão do Ministério da Justiça destinada à produção de um Esboço 
de Anteprojeto da Parte Especial do Código Penal. Nesse trabalho, admitiram-se quatro hipóteses 
de justificação do delito de aborto: o aborto voluntário, o aborto terapêutico, (juntar texto)o aborto 
ético e o aborto em razão de malformações graves e irreversíveis.3 O Esboço do Anteprojeto não foi 
adiante e continuou a dormir, a sono solto, nos escaninhos do Ministério da Justiça. Mais dois anos 
se passaram e, em 2006, publiquei um longo artigo sobre a matéria na Revista do Instituto de Ciên­
cias Penais de Minas Gerais. 4 Nesse intervalo de tempo, a legislação penal brasileira permaneceu 
estática, sem nenhuma alteração, atarraxada à datado Código Penal de 1940, ou seja, há 72 ". Apesar 
do distanciamento amedrontado do legislador penal, a questão do aborto requer, em medida cada vez 
mais acentuada, um posicionamento adequado. O aborto foi o leitmotiv de muitas discussões acalo­
radas, no ano de 20 I O, por ocasião da última campanha para a Presidência da República, na qual os 
candidatos mais votados assumiram o compromisso de deixar inalterada a legislação penal sobre o 
tema. Ao mesmo tempo, transita pelo Congresso Nacional- correndo-se o grave risco de ser apro­
vado - o chamado Estatuto do Nascituro, exemplo fiel de um projeto de lei retrógrado na medida 
em que deixa patente seu objetivo de diminuir as poucas causas de exclusão de ilicitude admitidas 
na arcaica legislação penal. A problemática do aborto guarda ainda atualidade e deve ser revisitada, 
sobretudo, no momento em que se discute a apregoada Reforma do Código Penal Brasileiro, a par­
tir de Comissão formada pelo Senado Federal, no ano de 2011. Por todas essas razões - e porque 
minhas convicções deram muitos passos adiante a ponto de reconhecer, hoje, a necessária exclusão 
tipológica do aborto -, uma nova incursão sobre a temática pareceu-me apropriada para responder 
ao convite que me foi endereçado. 
2. Embora tenha plena consciência de que o aborto só terá equacionamento na área da saúde 
pública - o que significa retirá-lo integralmente do campo penal-, centrarei minhas considerações 
na argumentação posta em relevo pelos que consideram ser inadmissível suprimi-lo do rol de figuras 
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típicas, mesmo em casos legalmente determinados. A argumentação favorável à criminalização do 
aborto parte de quatro premissas: a) a vida humana constitui um valor absoluto, no campo da moral, 
isto é, um valor que se sobrepõe a todos os outros valores, sendo certo que, na perspectiva do direito, 
a inviolabilidade do direito à vida está também acima dos demais direitos fundamentais e não poderá 
ser, em nenhuma situação concreta, relativizada; b) o direito é um conceito cuja área de abrangência 
é superposta à da moral, e não se pode conceber que o direito aja contra os ditames da moral; c) a 
vida começa no momento da concepção; d) ao embrião e ao feto deve ser reconhecida a qualidade 
subjetiva de pessoa humana. Todas essas premissas conduziriam à conclusão de que o aborto de­
veria ser estruturado como tipo penal, excluindo-se peremptoriamente a sua descriminalização. Tal 
conclusão seria, sem dúvida, lógica e valorativamente correta, se as premissas não fossem falsas. 
Nenhuma delas, em verdade, assenta-se na realidade, de sorte que a conclusão representa um todo 
vazio, sem nenhum suporte que o sustente em chão firme. É um castelo de cartas que se esboroa ao 
menor sopro. 
3. Não é exato que a vida humana seja um valor moral absoluto. "Basta pensar nos muitos ca­
sos nos quais justificamos (em nossos Direitos e em nossos juízos morais) a existência de ações que 
atentam contra a vida dos outros ou contra a própria vida: a legítima defesa, o estado de necessidade 
e a guerra (ao menos, em determinadas circunstâncias) são ( ... ) de aceitação praticamente universal; 
o suicídio, a eutanásia ou a pena de morte podem ser considerados como hipóteses que caem numa 
zona de penumbra." "A vida humana é um valor moral fundamental, mas pode entrar em conflito 
com outro e resultar derrotado. Dito ainda de uma outra maneira, a vida humana não nos apresenta, 
em nossos juízos morais, razões de caráter absoluto, mas sim, simplesmente, razões prima facie que, 
consideradas todas as circunstâncias, podem resultar convincentes ou não."5 
Por outro lado, a inviolabilidade do direito à vida, constante do texto constitucional brasileiro, 
não se traduz também em princípio de caráter absoluto. Por sinal, não há falar, em termos constitu­
cionais, de princípio que se sobreleve sobre todos os outros, assumindo a característica marcante de 
Superioridade total. "Princípios contêm normalmente maior carga valorativa, um fundamento ético, 
uma decisão política relevante e indicam uma determinada direção a seguir. Ocorre que, em uma 
ordem pluralista, existem outros princípios que abrigam decisões, valores ou fundamentos diversos, 
por vezes, contrapostos. A colisão de princípios, portanto, não é só possível, como faz parte da lógica 
do sistema, que é dialético. Por isso, a sua incidência não pode ser posta em termos de tlldo ou nada, 
de validade ou invalidade."ó Daí porque, em havendo conflito entre dois princípios fundamentais 
" - o que ocorre, por exemplo, quando algo é proibido de acordo com um princípio e, de acordo 
com outro, permitido -, um dos princípios terá que ceder. Isto não significa, contudo, nem que o 
princípio cedente deva ser declarado inválido, nem que nele deverá ser introduzida uma cláusula de 
exceção. Na verdade, o que ocorre é que um dos princípios tem precedência em face do outro sob 
determinadas condições. Sob outras condições a questão de precedência pode ser resolvida de forma 
oposta. Isso é o que se quer dizer quando se afirn1a que, nos casos concretos, os princípios têm pesos 
diferentes e que os princípios com maior peso têm precedência" ( ... ) "Conflitos entre regras ocorrem 
na dimensão da validade enquanto as colisões entre princípios - visto que só princípios válidos po­
dem colidir - ocorrem para além dessa dimensão, na dimensão do peso. "7 
Ora, é inquestionável existir uma colisão de direitos fundamentais na questão do aborto. 
De um lado, o direito à vida é um dos direitos fundamentais reconhecidos no texto da Cons­
tituição Federal (capu! do art. 5°). Ao incluir o direito à vida entre outros direitos fundamentais, o 
legislador não realizou nenhuma avaliação axiológica.Cada um e todos os direitos fundamentais 
situam-se num mesmo patamar, não havendo nenhum tipo de superposição ou de graduação de um 
em relação ao outro. Mas se a vida é um direito fundamental, tal direito envolve também a vida 
intrauterina? A questão é controvertida, mas comporta, em relação ao aborto, o seu exame na pers­
pectiva da chamada solução de prazo. O texto constitucional é silente a respeito, mas, com ele, não 
colide o entendimento de que o conceito de vida, para que possa ser compreendido na sua plenitude, 
deve abarcar não somente a vida independente, como a vida humana em formação. A caracterização 
~ 51 
da vida humana dependente, como bem jurídico constitucional, vincular-se-ia ao princípio da digni­
dade da pessoa humana, na medida em que se exigiria do Estado o dever de respeitar a vida humana 
e, nessa hipótese, uma vida em processo de formação representaria um valor merecedor de tutela. 
Por outro lado, não se pode olvidar de que todos os direitos fundamentais estão ancorados na 
ideia-chave da dignidade da pessoa humana, que é o princípio que baliza e, de certo modo, matiza 
o conteúdo de todos os direitos fundamentais, permitindo dar à própria Constituição o toque de uni­
dade e de harmonia. E "dignidade representa, simultaneamente, expressão da autonomia da pessoa 
humana (vinculada à ideia de autodeterminação no que diz respeito a decisões essenciais a respeito 
de sua própria existência), bem como necessidade de sua proteção e/ou assistência por parte da co­
munidade e do Estado, especialmente quando fragilizada ou até mesmo - e principalmente - quando 
ausente a capacidade de autodeterminação".8 
Ora, no aborto, não se pode perder de vista que, além do direito à vida, são enfocados outros 
direitos fundamentais, como o direito da mulher à autodeterminação, como expressão da autonomia 
da pessoa humana, o direito à igualdade etc. Com inteira propriedade, Rodolfo Vasquez, parafrase­
ando L. Villoro, enfatiza que "penalizar o aborto seria uma verdadeira violência contra os direitos 
da mulher, e, em concreto: 
contra o direito de todo indivíduo de decidir sobre seu próprio corpo, isto é, violência ao 
direito à privacidade da mulher; 
contra o direito de todo indivíduo de decidir sobre seu próprio plano de vida e realizá-lo, isto 
é, violência ao direito à autonomia da mulher; 
contra o direito de todo indivíduo à preservação da saúde ou à integridade física e mental, 
isto é, violência ao direito à dignidade da pessoa; 
contra a igualdade de oportunidades, porque a penalização do aborto, como bem demonstrou 
o pensamento feminista, seria um fator a mais de discriminação sexual, isto é, violência ao direito 
de igualdade da mulher".9 
No aborto, o direito à vida é posto emjogo, mas, nesse mesmo jogo, confronta-se com outros 
direitos de igual valor, ou seja, com os direitos reconhecidos constitucionalmente às mulheres, quase 
todos eles remetidos ao princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. Como equacionar 
tais direitos em situação de enfrentamento? É mister que se desenvolva um raciocínio de pondera­
ção, isto é, que se atribua a cada um desses direitos fundamentais um determinado peso. Partindo-se 
da premissa de que nenhum direito fundamental tem caráter absoluto, torna-se necessário, levando­
-se em conta o processo de gravidez, que se façam concessões recíprocas entre os referidos direitos 
fundamentais, de forma a não sacrificar nenhum deles por inteiro. Se é certo que o direito à vida 
pode antecipar-se ao nascimento, ampliando-se o conceito de vida, não é correto que se possa fazer 
uma equiparação entre a vida humana autônoma e a vida humana em formação. Há um inequívoco 
desnível axiológico entre uma e outra e tal desnível tem repercussão quando se tem de fazer uma 
ponderação entre direitos fundamentais. Assim, em havendo, até o terceiro mês de gravidez (alguns 
cogitam de 10 semanas e não de doze), um período de absoluta incerteza do ponto de vista científico 
quanto à presença plena de vida humana, força é convir que não se pode, nessa fase, maximizar o 
direito à vida em detrimento do exercício, por parte da gestante, de direitos fundamentais que lhe são 
também constitucionalmente garantidos. Por outro lado, superado o prazo de 12 ou de 10 semanas (a 
chamada solução de prazo), permitir o aborto, a não ser em situações fáticas previamente configura­
das (o denominado modelo de indicações), seria atribuir à gestante um direito ilimitado, em prejuízo 
do direito à vida humana, nesta altura, já consolidada. A composição entre os direitos fundamentais 
em colisão conduz, portanto, à aceitação da solução de prazo, conjugada ao modelo de indicações. 
Como já foi enfatizado pelo Plenário do Tribunal Constitucional de Portugal,JO tal entendi­
mento tem "como característica fundamental um crescendo de intensidade tuteladora, consoante o 
maior tempo de gravidez, compondo o que poderemos designar um regime tr(lásico: num período 
inicial, a decisão é deixada à responsabilidade última da mulher; em fases subsequentes, a inter­
rupção fica dependente de certas indicações, sendo proibida, em princípio, no último estádio de 
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desenvolvimento do feto. Esta tutela progressiva, utilizando como critério o tempo de gestação, 
representa, em si mesma, uma opção básica determinada pelo intuito de harmonização dos bens em 
colisão. Ela procura repercutir, no plano da valoração ético-jurídica, a mutabilidade dos dados bio­
lógicos que conformam a vida ainda não nascida e o significado que ela assume para os termos da 
peculiar relação - sem paralelo em qualquer outro conflito de bens jus fundamentais - que se estabe­
lece entre o nascituro e a gestante". Note-se que a relação nascituro-gestante, relação essa que pode 
ser definida pela locução "dualidade na unidade", significa, nas 1 O ou 12 semanas de gestação, o 
reconhecimento de uma unidade que, com o transcorrer do processo de gravidez, se torna dualidade. 
A tutela penal só se justifica quando se detecta a presença dessa dualidade. 11 Isso não quer dizer que 
o Estado não dê respaldo ao embrião na fase unitária. Pode fazê-lo, fora do campo penal, na medida 
em que disponibiliza à grávida aconselhamento, em consulta de caráter obrigatório, a fim de que 
tenha uma decisão consciente e responsável. "Informá-la do apoio que o Estado pode dar C ... ) mais 
não é, ao fim e ao cabo, do que 'abrir-lhe perspectivas de uma vida futura com a criança'C ... ) como 
expressiva da única solução que traduz 'a mínima tentativa de, através da liberdade da mulher Ce não 
contra ela) procurar salvaguardar a vida' ."12 
A solução de prazo é perfeitamente compatível com os termos do art. 5° capllt Uuntar texto) 
da Constituição Federal brasileira. Não se pode extrair do princípio da inviolabilidade do direito à 
vida a conclusão de que haja para o legislador infraconstitucional "uma imposição implícita (abso­
luta) de criminalização ( ... ) pois é livre para decidir de acordo com as concepções político-criminais 
que o guiem e com respeito pelos princípios da necessidade, da subsidiariedade e da adequação da 
tutela penal, do sentido e da extensão com que deseje consagrar cláusulas de justificação ou de im­
punidade do fato". 13 'Desta forma, nada obsta que se determine, em nível de legislação ordinária, o 
prazo de 10 ou 12 semanas como marco final para a impunidade da interrupção da gravidez. Não se 
alegue ser o Brasil subscritor do Pacto de San José da Costa Rica, pelo qual a vida humana estaria 
protegida desde a concepção (art. 4.1). Mesmo que se atribua força constitucional ao referido Pac­
to, em virtude da Emenda Constitucional n. 45/2004, nada dá suporte à afirmação de que a tutela, 
a partir da concepção, deva ser necessariamente de caráter penal. A criação de aconselhamentos 
psicológicos à gestante oua implantação de políticas públicas dirigidas ao planejamento familiar 
constituem medidas alternativas bem mais eficientes de proteção ao embrião do que a proibição pe­
nai contida na figura típica do aborto. Por outro lado, embora a legislação penal do Código de 1940 
admita, na configuração do tipo do aborto, o modelo de indicações, é ele muito precário em face dos 
avanços tecnológicos postos a serviço da ciência médica. Destarte, a solução de prazo não representa 
nenhum agravo ao direito à vida e guardaria plena constitucionalidade "um sistema que combinasse 
equilibradamente o sistema de indicações com o sistema de prazos, principalmente se tal sistema se 
combinasse por sua vez com um consistente e adequado sistema de aconselhamento" .14 
4. Não guarda também pertinência o argumento de que são coincidentes as balizas da moral 
e do direito. O direito estaria sempre acoplado à moral. Em particular, o direito penal seria o braço 
armado pronto a ser acionado contra os que não se ajustam às regras da moral. 
Tal asserção é absolutamente inválida. 
Antes de tlldo, porque a tese da existência de vasos comunicantes entre moral e direito - e, em 
particular, o direito penal- não encontra suporte na realidade fática.Um comportamento imoral não 
implica, ipso facto, a criação de um tipo penal. A criminalização e a punibilidade de ações humanas 
não se sustentam nessa vinculação, mas, sim, num razoável distanciamento entre os dois conceitos. 
O direito penal "não tem a missão de impor ou de reforçar a (ou uma determinada) moral" 15 e, por 
isso, não cabe tipificar condutas só porque são elas consideradas imorais ou reprováveis eticamente. 
Tanto isto é exato que comportamentos, que são havidos pacificamente como atentatórios à moral, 
tais como, por exemplo, a prostituição em si mesma, os atos homossexuais entre adultos, a leitura 
de livros pornográficos, o incesto, o adultério etc. não comportam tipificação penal. "O Estado, em 
suma, não deve imiscuir-se coercitivamente na vida moral dos cidadãos, nem tampouco promover 
coativamente sua moralidade, mas somente tutelar sua segurança ü'npedindo que se lesionem uns 
~ 53 
aos outros"16. Com razão, afirma-se não ser "dever do estado erigir-se em tutor da moralidade; não 
é dever do direito penal promover a afirmação de uma particular concepção ética, utilizando-se para 
isso, a sanção penal" .17 
Depois, porque há inquestionáveis desencontros de opiniões quando se discute se determina­
das ações ou normas de comportamento são morais ou não. Se se leva em conta o próprio aborto, não 
faltará quem diga que tal conduta deva ser penalmente tipificada porque imoral e quem a considere 
juridicamente permitida porque não afronta a moral. Não há prova cabal de que o aborto seja um 
comportamento carregado de imoralidade, e portanto, preso ao campo da moral, por laços indestru­
tíveis. Mesmo que se parta de uma moral puramente consequencial, não corresponderia à verdade 
que a criminalização do aborto trouxesse resultádos sociais e individuais mais favoráveis do que a 
ausência de processo tipificador. Os sofrimentos impostos às mulheres, na sua liberdade de auto­
determinação, nos seus direitos reprodutivos e na sua integridade física e psíquica, recomendariam 
antes a permissividade do aborto do que a sua construção como tipo penal. "Mesmo que se conside­
rasse que uma conduta é (intrinsecamente ou não) imoral, disso não se segue necessariamente que 
deva estar proibida juridicamente". 18 
Po/'jim, porque vale a pena pôr em ressalto duas outras considerações. A primeira é a de que 
o ponto de partida do direito penal deve estar arrimado na sua função social. "Logicamente, tudo 
que vá além dela não pode ser objeto do direito penal. O direito penal tem como finalidade dar aos 
cidadãos uma existência pacífica, livre e socialmente segura, na medida em que tais objetivos não 
podem ser obtidos mediante outras medidas sociopolíticas menos intrusivas na esfera da liberda­
de dos cidadãos".19 Além da característica de ser subsidiário, o direito penal deve ter por diretriz 
"definir os bens jurídicos como realidades ou fins que são necessários para uma vida social livre e 
segura que garanta os direitos humanos e fundamentais do indivíduo, ou para o funcionamento do 
sistema estatal erigido para a consecução de tal fim".20 Destarte, o ponto nuclear do direito penal 
está, portanto, na ofensa grave a bens jurídicos, cuja proteção constitui o 1110dllS operandi e o eixo 
central da disciplina penal. A moral, a religião, os tabus, enquanto conceitos introjetados em nível 
estritamente pessoal, não são capazes de agravar nenhum bem jurídico tutelado e, portanto, são um 
indiferente penal. A segunda consideração é a de que o Estado, na sua configuração mais moderna, 
ou seja, o Estado Democrático de Direito, é um Estado pluralista, isto é, um Estado que convive com 
as mais diversas concepções políticas, morais, éticas ou religiosas e que, portanto, não impõe, pela 
força estatal, qualquer dessas concepções mesmo quando elas expressem o entendimento da maioria 
de seus cidadãos. Essa visão pluralista deixa patente que o Estado Democrático de Direito tem ne­
cessariamente de ser um Estado laico. "Democrácia pluralista e laicidade do Estado constituem um 
binômio indissolúvel no sentido, ao menos, de que a primeira não pode existir no contexto de um 
Estado confessional. ( ... ) Não há laicidade sem democracia e não há democracia sem laicidade."21 
A conclusão que se extrai de todo o contexto é que, ainda que seja entendido como um ato imoral, 
ou mesmo de oposição a valores religiosos e até contrarie a opinião da maior parte dos cidadãos, 
não caberia, numa democracia pluralista e laica, o aborto ser incluido na tipologia penal. Vale aqui o 
ensinamento de Faria Costa: "o Estado não pode arrogar-se a finalidade de reprimir comportamentos 
imorais. Na verdade, não existindo uma concepção moral única - as sociedades atuais são transver­
salmente plurais e hipercomplexas - mas diversas formas de estar no 'mundo', fácil é ver que esta 
fragmentariedade torne impossível que o legislador dê preferência, tutelado com a anna da pena, a 
uma particular concepção que não é patrimônio de todos."22 
5. O conceito de vida está bem longe de encontrar um ponto conceitual aglutinador e o ar­
gumento de que há vida a partir da concepção - posição ardorosamente defeL1dida, desde os fins do 
século XIX pela Igreja Católica e por segmentos protestantes - não encontra o necessário respaldo 
quer no campo religioso, quer ainda no campo científico. 
A tese de que há vida no momento em que se forma o zigoto parte da ideia fulcral de que 
toda e qualquer expressão de vida tem um valor sagrado que lhe é intrínseco. "A fonte própria desse 
valor intrínseco e sagrado" é a consideração de que a vida humana" é a mais excelsa criação de 
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Deus".23 Destarte, o aborto é imoral "porque insulta o dom de Deus de criar a vida".24 Tal posicio­
namento corresponde a um ato de fé, que não foi partilhado, durante séculos e séculos, pela própria 
Igreja Católica. Até a Encíclica Apostolicae Sedis, de Pio IX,25 em 1869, Doutores da Igreja não 
atribuíam à fecundação a relevância que agora lhe é emprestada. São Jerônimo dizia "que as se­
mentes se formam gradualmente no útero e não se reputa que exista homicídio até que os elementos 
dispersos recebam sua aparência e seus membros".26 A tese era a de que Deus introduzia a alma não 
no momento da concepção, mas apenas quando se iniciava, no embrião, a atividade intelectiva. A 
animação não era instantânea, mas retardada, e tal retardamento vinculava-se também ao sexo do 
embrião, numa perspectiva extremamente machista: no quadragésimo dia, em se tratando de homem 
e, no nonagésimo, de mulher. São Tomás de Aquino afirmava, por sua vez, que "o embriãoviável".38 
De todo o contexto apresentado, extrai-se uma conclusão de razoúvel consistência. Se se 
levar em conta a tese da animação retardada (no caso da mulher); se, no enfoque científico, se der 
validade à tese do início da atividade cerebral; se se puserem de lado ambos os posicionamentos 
para dar abrigo a um conceito cultural de vida, força é convir que, apesar das posturas contrastantes, 
todas elas têm um dado em comum: o tempo de 12 semanas durante o qual não se reconhece vida 
humana individualizada, o que reforça o entendin1ento de que, nesse espaço temporal, a colisão en-
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tre o direito à vida e os direitos constitucionais das mulheres deve ser sopesada em favor dos direitos 
constitucionais das mulheres. "Deixar que até este momento (até o fim do primeiro trimestre da 
gravidez) seja a mulher quem decida se deseja ou não seguir adiante com a gestação é, em princípio, 
uma questão moralmente mais simples do que permitir o aborto em outros casos. Isso explica por 
que um filósofo da moral, como Jolm Rawls, tenha podido escrever que negar à mulher esse direito 
(decidir interromper sua prenhez até esse momento) implicaria, pura e simplesmente, atuar de ma­
neira irraciona.I"39 
6. A derradeira viga de suporte dos que defendem a criminalização do aborto reside na afir­
mação de que deve ser reconhecida, ao embrião e ao feto, a qualidade subjetiva de pessoa humana. 
Quando, no passado, a Igreja Católica defendia a animação instantânea, levava-se em consideração 
que o aborto era um agravo ao poder criador de Deus e que, portanto, a vida tinha um quê de sagra­
do que não poderia ser sacrificado. Com o passar do tempo, adotou-se uma outra argumentação: o 
embrião/feto era, em verdade, uma pessoa com o direito de não ser morta e, portanto, uma pessoa 
humana que possuía dignidade e não teria justificação imolá-la em nome de nenhum outro valor ou 
interesse. Tal posicionamento não encontra alicerce de sustentação: a fragilidade desse último ponto 
de arrimo desequilibrou a construção argumentativa e provocou seu desabamento final. 
Em primeiro lugar porque, embora se admita, em tese, o argumento da extensão da proteção 
constitucional à vida intra-uterina, isto não significaria, por si só, que a Constituição Federal teria 
reservado um tratamento jurídico igualitário para a vida fora do útero da mulher e para a vida dela 
dependente. Em momento algum, foi instituída, em termos constitucionais, a equivalência entre 
a vida pré-natal e a vida pós-natal. A proteção "da vida humana em gestação não terá de assumir 
o mesmo grau de densificação nem as mesmas modalidades que a proteção do direito à vida in­
dividualmente subjetivado em cada ser humano já nascido em cada pessoa".40 Daí, não guardar 
incompatibilidade, em nível constitucional, a intervenção penal diferenciada entre a vida do nas­
cituro, em suas diversas fases, e a do ser humano já nascido. Nada impede, portanto, sob o prisma 
penal, que se reconheça o direito à vida em relação ao embrião/feto, após um determinado lapso 
temporal do processo gestatório e que se exclua o tratamento punitivo antes do decurso desse lapso. 
O embrião, "ao menos antes que se possa predicar deles alguma propriedade como a sensibilidade, a 
capacidade de sentir prazer e dor (o que não ocorre antes do final do terceiro mês de gravidez)" ( ... ) 
" não são entidades dotadas de dignidade porque não possuem nenhuma propriedade que pudesse 
justificar essa atribuição. Isso não quer dizer que careçam de todo valor, mas sim que o valor que po­
dem ter é inferior ao do próprio embrião em momentos posteriores de seu desenvolvimento, e, desde 
logo, incomparavelmente menor que o de uma pessoa adulta".41 "É constitucionalmente viável que 
a ponderação de interesses em causa", na busca de soluções dos bens em conflito, "leve em conta 
o tempo da gestação precisamente porque, com o desenrolar do processo ontogenético, a realidade 
existencial de um dos bens a tutelar assume controles gradativamente distintos, assim se alterando 
também, correspondentemente, o ponto de equilíbrio a estabelecer com as exigências decorrentes 
do estatuto jusfundamental da mulher grávida. O conteúdo da posição jusfundamental da mulher e 
o papel do Estado no exercício do seu dever de proteção devem ser avaliados de modo diferente na 
fase inicial e em estádio mais adiantado da gestação".42 Isto não quer dizer que o Estado abandone 
sem nenhuma tutela o direito à vida do embrião entre a fecundação e o início da atividade cerebral 
ou entre a concepção e o momento em que a mãe assume o compromisso relacional com o filho. Mas 
tal tutela jurídica não deverá ser necessariamente penal. 
Em segundo lugar porque não tem cabimento a afirmação de que o zigoto está vivo e 
dispõe de ADN próprio da espécie humana e que, por via de consequência, o óvulo fecundado 
pelo espermatozoide seria, sob tal ângulo, uma pessoa. A presença do código genético não é 
peculiaridade específica e irrepetível do zigoto. "Qualquer célula de um ser humano contém o 
código genético completo e individualizado de seu portador, sem que este mero fato torne tal 
célula valiosa por si mesma. Quanto às células iniciais de um embrião que tem a capacidade de 
desenvolvimento até formar um ser humano propriamente dito, a única coisa que o argumento do 
~ 57 
~~digo genético pode demonstrar é apenas que o valor do embrião ou do feto não depende de que 
Ja seja pessoa (no sentido moral), mas sim de sua capacidade para ser pessoa no futuro. "43 E o 
zigoto revela, sob esse ângulo, incapacidade de desencadear a embriogênese visto que não dispõe 
ainda "de toda informação necessária para o processo embriogenético que determinará as carac­
terísticas biológicas do futuro indivíduo". Seu "potencial de capacidade informativa é adquirido 
com o tempo por interação de outras células"44 e sobretudo com o intercâmbio de informações da 
própria mãe. Ademais cabe acrescentar que não é de todo exata a afirmação de que "a constituição 
g~n.ét.ica do embrião, em fase de zigoto, seja irrepetível. Até a segunda semana, o embrião pode 
dIVldl1'-se e dar origem a gêmeos, o que vale dizer que o apregoado valor da irrepetibilidade não 
é uma característica que se pode atribuir ao organismo em desenvolvimento, mas sim ao corpo 
cromossômico",45 Por fim, a impropriedade argumentativa mostra-se ainda mais explícita quando 
se enfrenta a questão dos embriões crioconservados em laboratórios de reprodução assistida. Se 
cada embrião crioconservado tem um código humano único e contém uma vida, não seria caso 
de tornar-se obrigatória sua implantação ou de mantê-los indefinidamente com sua vida interior 
ou, enfim, de proibir, em qualquer circunstância, que pudessem ser objeto de pesquisa científica 
porque, nessa hipótese, estar-se-ia pondo fim a uma vida? 
Por último porque não merece acolhida o argumento substitutivo, ou seja, o de que o zigoto 
não é uma pessoa real, mas pessoa em potência e, por tal razão, caberia sua preservação. Na medida 
em que se afirma que o zigoto é um ser humano em potência, confirma-se que não é um ser humano. 
"O ente potencial não tem em si valor senão na medida em que alberga a promessa de ser valioso. 
Com frequência, rechaçou-se a equivalência do potencial com o atual, assinalando-se que, se algo é 
potencialmente valioso, significa que, de pronto, ainda não é esse algo valioso e, portanto, não pode 
assumir o valor que ainda não tem. A partir da arte, podemos ver que a ideia de potencialidade não 
tem solidez a menos que seja contextualizada, pois um pigmento, uma porção de argila ou um bloco 
de mármore podem chegar a ser uma obra de arte única, mas isto não converte tais materiais em 
arte potencial. Têm valor porque potencialmente podem chegar a ser algo valioso, mas esse valor 
potencial não possui o mesmostatus daquele em que eventualmente se tornará".4(, Além disso, o 
argumento teria alguma substância se se comprovasse a proporção com que cada fecundação produz 
uma gravidez viável que se finda com o nascimento de um ser humano. Calcula-se que 50% dos 
ovos fecundados são abortados, de forma espontânea, por diversas causas, no período compreendido 
entre a fecundação e a nidação. Dos embriões implantados, por sua vez, apenas 30% conduzem a 
um feto com possibilidade de desenvolvimento. "A estatística demonstra que o destino habitual do 
e~l1.brião implantado não é atingir o estágio de pessoa, mas, sim, morrer por antecipação. A proba­
bilidade de que uma concepção produza um recém-nascido é muito inferior à probabilidade ele que 
ocorram abortos ainda que não medeie ou se tenha produzido intervenção humana deliberaela.'''1"I 
7. CO/1sideraçõesfinais. De tudo quanto foi exposto, não se poderá fugir a duas conclusões 
inamovíveis: a) punir o aborto significa atribuir ao Estado o duplo poder de intervir numa questão 
íntima, de caráter moral, que deve ser deixada à consciência e à vontade da mulher grávida e de 
arrostar flagrantemente direitos fundamentais postos à disposição de toda e qualquer mulher; b) 
despenalizar o aborto não tem nem o propósito de justificá-lo moralmente, nem de incentivá-lo em 
sua prática, mas tão somente de permitir à mulher que, livremente, incorpore ou não o filho ao seu 
projeto existencial. 
p,..lém dessas conclusões, cabe uma outra observação de extrema validade. Entre os princípios 
sem registro expresso que decorrem do regime e dos princípios adotados pela Constituição Federal 
(ar!. 5°, ~ 2° da CF), inclui-se o princípio constitucional da efetividade, eficácia ou idoneidaele ela 
intervenção penal. "O Direito Penal somente pode e deve intervir quando seja minimamente eficaz 
e adequado para a prevenção do delito, e portanto, eleve renunciar a sua intervenção quanelo seja 
político-criminalmente inoperante, ineficaz, inadequado ou, inclusive, contraproducente para evitar 
elelitos."48 Leva-se, portanto, em consideração, em face elo princípio ora exposto a equação custo/ 
benefício. Naela justifica que o Estado penal intervenha se o custo dessa intervenção seja tão elevado 
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que sua omissão se mostre menos lesiva ao bem jurídico do que o resultado do enquadramento típi­
co. Isto significa, em síntese, que toda configuração típica deve apresentar a capacidade de ser apta 
e efetiva na preservação do bem jurídico tutelado, de modo que a inocuidade do tipo penal revela 
a desnecessidade do comportamento tipológico. Ora, como exemplo ilustrativo dessa ineficácia e 
inoperância, revela-se o aborto, cuja cifra negra ou oculta atinge índices altíssimos, confirmando 
a inefetividade ou a inadequação dessa figura criminosa. As cifras negras ou ocultas falam por si 
mesmas: não apenas o tipo aborto não impediu, nem diminuiu sua prática, mas sua proibição penal 
provocou a produção clandestina de abortos, em condições sanitárias inadequadas, com as conse­
quentes mortes e graves enfermidades para as mulheres. E aqui se vislumbra algo mais: as gritantes 
diferenças sociais. Enquanto as mulheres de alto e médio estrato social encontram clínicas onde 
praticam livremente o aborto sem preocupação alguma com a intervenção penal estatal, as mulheres 
economicamente menos favorecidas recorrem a medicamentos ou a instrumentos que provocam 
sequelas que às levam a hospitais públicos a partir dos quais a /lotitia criminis do aborto é comuni­
cada à autoridade policial. E mesmo assim, o número de abortos que chegam à Polícia e, depois, ao 
Judiciário, é simplesmente ridículo. 
O caminho mais certo e correto a ser trilhado, em matéria de aborto, não seria, em verdade, 
criminalizá-lo - mesmo com a exclusão de ilicitude decorrente da composição entre a solução de 
prazo e o modelo de indicações -, mas provocar uma viragem de 360 graus no seu questiona­
mento, com a exclusão do aborto dos códigos penais para regulá-lo com normas atinentes à saúde 
pública, em geral, e à saúde física e mental das mulheres grávidas. "O debate sobre sua mora­
lidade e imoralidade deve ser reservado às consciências individuais e discutido, com seriedade 
que merece, em aulas universitárias, mas ante as graves injustiças de que são objeto as mulheres, 
muito ganharíamos começando por distinguir o âmbito da moralidade do âmbito do direito e da 
política, adotando e exercendo uma atitude de denúncia pública e ativa."49 Só assim a punição 
penal deixaria de ser - isso sim - um mal absoluto e uma forma atentatória contra a dignidade da 
mulher, como pessoa humana. 
~ 59 
NOTAS 
Desembargador Aposentado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Ex-Vice-Presidente do Tribu­
nal de Alçada Criminal. Ex-Presidentc do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). 
Aborto por indicação eugênica. Estlldos JlIrídicos em homenagem a Manoel Pedro Pimente/.São Paulo: 
Revista dos Tribunais, 1992, p.80-108. Em artigo posterior, modifiquei, sob alguns ângulos, o trabalho 
anterior: Anencefalia. Breves considerações médicas, bioéticas, jurídicas e jurídico-penais. Revista dos 
Tribllnais, vol. 833, março de 2005, p. 399-419. 
Exclllsão de ilicitllde: Art. 143 - Não constitui crime o aborto praticado por médico: Aborto voluntário 
I - Se realizado dentro das doze primeiras semanas de gestação, a pedido da gestante, por razões médi­
cas, econômicas, sociais, familiares ou psicológicas. Nesse caso, o aborto deve ser precedido de consulta 
médica que proporcione à mulher as informações necessárias sobre o ato e suas consequências. Após 48 
(quarenta e oito) horas, mantida sua decisão, a gestante, com o atestado laboratorial de gravidez, deve 
procurar outro médico, que deve provocar o aborto; Aborto terapêlltico II - Se não há outro meio de salvar 
a vida ou preservar a saúde da gestante; Aborto ético III - Se a gravidez resulta de fato constitutivo de vio­
lação sexual ou de abuso sexual ou, ainda, do emprego não consentido de técnicas de reprodução assistida; 
Aborto em razão de malformações graves e irreversíveis IV - Se se comprova, através de diagnóstico pré­
-natal, que o nascituro venha a nascer com graves e irreversíveis malformações físicas ou psíquicas, desde 
que a interrupção da gravidez ocorra até a vigésima quarta semana e seja precedida de parecer de dois 
médicos diversos daquele que, ou sob cuja direção, o aborto é realizado. 
"Algumas questões sobre o aborto". Revista ICP. Belo Horizonte: InstihJto de Ciências Penais, vol. I, 2006, 
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ATIENZA, Manuel. Bioética, Derecho y Argllmentación, 2'.ed., Lima - Bogotá: Palestra e Temis, 2010, 
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BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e Aplicação da Constitlliçc7o. 6". Edição. São Paulo: Editora Sa­
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ALEXY, Robert.Teoria dos direitosfllndamentais. Trad.: Virgílio Afonso da Silva. São Paulo: Malheiros 
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SARLET, Ingo Wolfgang. "Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais". In.: Os Principios 
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VAZQUEZ, Rodolfo. In.: Garantismo, Estlldios sobre EI pensamientojllrídico de LlIigi Ferrajoli. Madrid: 
Editorial Trotta, 2005, p. 503. 
111 Acórdão n. 75/20 I O, de 23 de fevereiro de 20 I O, do Tribunal ConstihlCional de Portugal. 
11 FIGUEIREDO DIAS, Jorge observa que "naquela dualidade na unidade deva, durante um primeiro período 
de tempo, predominar a lInidade e a decisão caber essencialmente à grávida; e que decorrido aquele prazo 
a dllalidade predomine e só em casos graves e determinados deva o interesse do nascihlro ser sacrificado". 
"Interrupção voluntária da gravidez: uma consideração jurídico-penal". Revista Brasileira de Ciências Cri­
minais, vol. 86, ano 18, set/out 20 I O, p. 160-161. 
12 Acórdão 75/20 I O, de 23de fevereiro de 20 I O, do Tribunal Constitucional de Portugal. 
13 FIGUEIREDO DIAS, Jorge de. Comentário Conill1bricellse ao Código Penal, Parte Especial, tomo 2. 
Coimbra: Coimbra Editora, 1999, p. 172. 
14 FIGUEIREDO DIAS, Jorge de. Ob. cit., p.I72. 
15 FERRAJOLI, Luigi. Derecho y Razón. Trad.: Alfonso Ruiz Miguel. 7". ed. Madrid: Editorial Trotta, 2005, 
p.223. 
16 FERRAJOLI, Luigi. Ob. cit., p. 223. 
17 LARIZZA, Silvia. Direito Penal e Política Criminal no Terceiro Milênio. Perspectivas e tendências. Porto 
Alegre: PUCRS, 20 11, p. 49. 
IN ATIENZA, Manuel. Ob. cit., p. 140. 
19 ROXIN, Claus. "Es la protección de bienesjurídicos una finalidad de derecho penal?" In: La teoria dei bien 
jurídico. Barcelona-Madrid: Marcial Pons, 2007, p. 446-448. 
20 ROXIN, Claus. Ob. cit.., p. 448. 
21 LARIZZA, Silvia. Op. cit., p. 44. 
22 FARIA COSTA, José Francisco de. Ler Beccaria hoje. Citado por Lal'izza, Silvia. Ob. cit., p. 49, nota 48. 
23 DWORI(IN, Ronald. EI dOluinio de la vida. 8arcelóna: Editorial Ariel, 1994, p. 52. 
24 DWORKIN, Ronald. Ob. cit., p. 56. 
PESQUISA REALIZADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. 
É PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU A TRANMISSÃO, CONFORME A LEI DE DIREITOS AUTORAIS.
A CONFERÊNCIA DE RECONHECIMENTO DO TEXTO (OCR) NÃO FOI REALIZADA.
60 ~ 
25 ATIENZA, Manuel enfatiza que Pio IX promulgou também a encíclica denominada Si/lahus, na qual "são 
condenados da forma mais radical os direitos humanos e as liberdades políticas". Ob. cit., p. 117. 
26 D\VORI(IN, Ronald. Ob. cit., p. 57. 
27 DWORKIN, Ronald. Ob. cit., p. 58. 
2está sendo ames-está sendo ames-

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