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UNIVERSIDADE FEDERAL DOS VALES DO JEQUITINHONHA E MUCURI Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas Ana Mara Fonseca Nunes DESENVOLVIMENTO DE UMA METODOLOGIA ELETROANALÍTICA UTILIZANDO A VOLTAMETRIA DE PULSO DIFERENCIAL PARA A DETERMINAÇÃO DE BENZNIDAZOL Diamantina 2021 Ana Mara Fonseca Nunes DESENVOLVIMENTO DE UMA METODOLOGIA ELETROANALÍTICA UTILIZANDO A VOLTAMETRIA DE PULSO DIFERENCIAL PARA A DETERMINAÇÃO DE BENZNIDAZOL Dissertação apresentada ao programa de Pós- Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, como requisito para obtenção do título de Mestre. Orientadora: Prof. Dr.a Andréa Renata Malagutti Diamantina 2021 Catalogação na fonte - Sisbi/UFVJM A532 2021 Nunes, Ana Mara Fonseca Desenvolvimento de uma metodologia eletroanalítica utilizando a voltametria de pulso diferencial para a determinação de benznidazol [manuscrito] / Ana Mara Fonseca Nunes. -- Diamantina, 2021. 79 p. : il. Orientadora: Prof.ª Andréa Renata Malagutti. Dissertação (Mestrado em Ciências Farmacêuticas) -- Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas, Diamantina, 2021. 1. Doença de chagas. 2. Métodos eletroanalíticos. 3. Amostras biológicas. 4. Nanossistemas lipídicos. I. Malagutti, Andréa Renata . II. Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. III. Título. Elaborada pelo Sistema de Geração Automática de Ficha Catalográfica da UFVJM com os dados fornecidos pelo(a) autor(a). Bibliotecário Rodrigo Martins Cruz / CRB6-2886 Técnico em T.I. Thales Francisco Mota Carvalho 09/08/2021 SEI/UFVJM - 0428811 - Pós-graduação: Folha de aprovação https://sei.ufvjm.edu.br/sei/controlador.php?acao=documento_imprimir_web&acao_origem=arvore_visualizar&id_documento=463232&infra_siste… 1/2 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DOS VALES DO JEQUITINHONHA E MUCURI ANA MARA FONSECA NUNES DESENVOLVIMENTO DE UMA METODOLOGIA ELETROANALÍTICA UTILIZANDO VOLTAMETRIA DE PULSO DIFERENCIAL PARA A DETERMINAÇÃO DE BENZNIDAZOL Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêu�cas da Universidade Federal dos Vales do Jequi�nhonha e Mucuri, nível de Mestrado, como requisito parcial para obtenção do �tulo de Mestre em Ciências Farmacêu�cas. Orientadora: Profa. Dra. Andréa Renata Malagu� Data de aprovação 06/08/2021. Prof. Dr. Lucas Franco Ferreira Instituto de Ciência e Tecnologia - UFVJM Prof. Dr. Wallans Torres Pio dos Santos Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde - UFVJM Profa. Dra. Andréa Renata Malagutti Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde - UFVJM Documento assinado eletronicamente por Wallans Torres Pio dos Santos, Servidor, em 06/08/2021, às 18:05, conforme horário oficial de Brasília, com fundamento no art. 6º, § 1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015. Documento assinado eletronicamente por Lucas Franco Ferreira, Servidor, em 06/08/2021, às 18:05, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Decreto/D8539.htm 09/08/2021 SEI/UFVJM - 0428811 - Pós-graduação: Folha de aprovação https://sei.ufvjm.edu.br/sei/controlador.php?acao=documento_imprimir_web&acao_origem=arvore_visualizar&id_documento=463232&infra_siste… 2/2 conforme horário oficial de Brasília, com fundamento no art. 6º, § 1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015. Documento assinado eletronicamente por Andrea Renata Malagu�, Membro, em 06/08/2021, às 18:09, conforme horário oficial de Brasília, com fundamento no art. 6º, § 1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015. A auten�cidade deste documento pode ser conferida no site h�ps://sei.ufvjm.edu.br/sei/controlador_externo.php? acao=documento_conferir&id_orgao_acesso_externo=0, informando o código verificador 0428811 e o código CRC FBE675CC. Referência: Processo nº 23086.009158/2021-81 SEI nº 0428811 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Decreto/D8539.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Decreto/D8539.htm https://sei.ufvjm.edu.br/sei/controlador_externo.php?acao=documento_conferir&id_orgao_acesso_externo=0 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus por ter me concedido saúde para concluir esse trabalho em meio a esses tempos difíceis que estamos vivendo, no qual tivemos que nos isolar, nos adaptar e nos reinventar. Ao meu marido Ricardo, meu melhor amigo e incentivador, por todo apoio, carinho e compreensão, por nunca duvidar da minha capacidade e estar sempre ao meu lado. Obrigada por me ajudar a enxergar minhas falhas e também meus acertos, por ser meu exemplo, motivo de orgulho e admiração. A minha filha Sarah, por ser meu porto seguro, meu incentivo diário para superar dificuldades, obstáculos e desejar ser sempre melhor. Aos meus pais, Ataides e Neuza, e minha irmã Mariana, que mesmo distantes sempre acreditaram e apoiaram minhas decisões, sempre se fizeram presente em minha vida. Agradeço pelos conselhos, pelas críticas construtivas, por todo o carinho e amizade, por estarem sempre dispostos a me ajudar. A minha sogra, Cida, pelo apoio e amizade, por muitas vezes disponibilizar o seu tempo, cuidando muito bem da minha filha, para que eu pudesse me dedicar a esse trabalho. A minha orientadora, Andréa, por todos os ensinamentos, por todo o acolhimento e atenção dispensada, por estar sempre presente e disponível para me auxiliar. Agradeço também pela confiança e pela enorme contribuição na minha formação profissional. Ao professor Guilherme, pela atenção, ensinamentos e pelas amostras fornecidas para a realização desse trabalho. Aos demais professores do corpo docente dessa Universidade, que contribuíram de alguma forma com a minha formação acadêmica. Aos técnicos Dilton e Fernando, por toda a ajuda e conhecimentos compartilhados. A Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) pelo auxílio financeiro em forma de bolsa de estudo concedida. A todos que de alguma forma, estiveram presentes nessa etapa da minha vida, que contribuíram direta ou indiretamente para a minha formação pessoal e profissional durante esses dois anos. “O sucesso é a soma de pequenos esforços repetidos dia após dia.” Robert Collier. RESUMO O benznidazol (BZN) é o único fármaco disponível no Brasil para o tratamento da doença de Chagas (DC) embora não seja o ideal, pois possui alta toxicidade, farmacocinética irregular e seu efeito na fase crônica da doença ainda é questionável. Tais fatores tornam necessário o desenvolvimento de métodos alternativos confiáveis e eficazes para a determinação analítica do fármaco em amostras biológicas e farmacêuticas. Sendo assim, o objetivo desse trabalho foi desenvolver um método eletroanalítico para a determinação do BZN em urina e em formulação farmacêutica usando a voltametria de pulso diferencial (VPD) e o eletrodo carbono vítreo (GCE). Inicialmente a voltametria cíclica (VC) foi empregada para realizar um estudo preliminar do perfil voltamétrico do BZN sobre a superfície do GCE e verificar a influência do pH, da velocidade de varredura, e do eletrólito suporte no comportamento do analito. Durante a varredura catódica por VC, verificou-se a presença de um pico bem definido irreversível no potencial de -0,58 V. Tendo como base esse pico catódico, um método eletroanalítico foi otimizado e validado em consonância com guias nacionais e internacionais para a determinação do fármaco por VPD. Este método foi aplicado em urina e em uma formulação farmacêutica de BZN incorporado a carreadores lipídicos nanoestruturados (CLN-BZN). Todos os paramêtros analisados foram atendidos de(nFE /2RT). E = amplitude de pulso 3.7 Validação As técnicas analíticas descritas na farmacopeia brasileira para identificação do BZN são espectroscopia de absorção no infravermelho, espectroscopia de absorção no ultravioleta e cromatografia em camada delgada. Para a quantificação a técnica descrita é a espectroscopia de absorção no ultravioleta (FARMACOPEIA BRASILEIRA, 2019). As técnicas eletroanalíticas podem ser usadas como uma alternativa complementar conforme mencionado anteriormente, devendo, para isso, atender aos parâmetros de validação de método analítico. Validar um método analítico não é um processo simples e requer planejamento e tempo. Muitos parâmetros devem ser avaliados a fim de estimar o nível de aplicabilidade, relevância e significância estatística do método (RIBANI et al., 2004; VOIGT, 2018). Embora existam diferenças nos parâmetros técnicos definidos pelas varias agências reguladoras, o Conselho Internacional para Harmonização de Requisitos Técnicos para Registro de Medicamentos de Uso Humano (ICH) elaborou um guia, o guia Q2 (R1) intitulado “Validação de Procedimentos Analíticos: Texto e 38 metodologia” que é um guia internacionalmente reconhecido e descreve os parâmetros que devem ser considerados durante o exercício de validação (ICH, 2005). No Brasil, duas agências credenciadoras verificam a competência de laboratórios de ensaios: A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), através da RDC n°166 de julho de 2017; e o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (INMETRO) através do documento DOQ-CGCRE-008) (RIBANI, Marcelo et al., 2004). Neste contexto, é importante ressaltar a diferença entre resoluções e guias; resoluções são normas jurídicas que devem ser obedecidas e os guias são documentos que sugerem uma linha a ser seguida sendo, portanto, abertos para interpretação. No Brasil, o DOQ-CGRE-008 (INMETRO) e a RDC 166/2017 (ANVISA) estão alinhados com o guia Q2 do ICH. Os parâmetros mais comumente avaliados para validação de um método analítico, de acordo com esses documentos são: seletividade, linearidade, limite de detecção (LD), limite de quantificação (LQ), exatidão, precisão e robustez. A validação desse método foi realizada seguindo às resoluções dos órgãos fiscalizadores nacionais mencionados em consonância com as recomendações do Guia internacional ICH. 3.7.1 Seletividade De acordo com o art. 19 da RDC 166/2017 da ANVISA a seletividade pode ser definida como: “A capacidade do método de identificar ou quantificar o analito de interesse inequivocamente, na presença de componentes que podem estar presentes na amostra, como impurezas, diluentes e componentes da matriz”. (RDC Nº 166/17). Assim sendo, a seletividade assegura que não haja interferência de outras espécies na identificação ou quantificação de determinado composto. Em eletroquímica a seletividade deve assegurar que o pico de resposta gerado no voltamograma corrente versus potencial seja exclusivamente do analito de interesse. 39 3.7.2 Lineridade Ainda de acordo com a RDC 166/2017 da ANVISA o art. 23 diz que: “A linearidade de um método deve ser demonstrada por meio da sua capacidade de obter respostas analíticas diretamente proporcionais à concentração de um analito em uma amostra.” (RDC 166/2017 ANVISA) A mesma resolução menciona, nos artigos 24 e 25 respectivamente, que deve haver uma relação linear em toda a faixa estabelecida para o método, devendo ser utilizadas pelo menos cinco concentrações diferentes da substância química em soluções preparadas no mínimo em triplicata. Para um método eletroanalítico a linearidade é uma medida de quão bem a curva de calibração da resposta eletroanalitica versus a concentração do analito se correlacionam (GUMUSTAS; OZKAN, 2011). Assim, o coeficiente de correlação (R) obtido na curva de calibração é um bom indicativo do quanto à reta pode ser considerada adequada como modelo matemático (INMETRO, 2020). Sendo recomendado um valor de R acima de 0,990 pela ANVISA. 3.7.3 Limite de detecção (LD) Ainda de acordo com a legislação supracitada: “O limite de detecção deve ser demonstrado pela obtenção da menor quantidade do analito presente em uma amostra que pode ser detectado, porém, não necessariamente quantificado, sob as condições experimentais estabelecidas” (ANVISA RDC 166/2017 Art. 49). Várias abordagens podem ser empregadas para definir o limite de detecção do método, como a avaliação visual, relação sinal-ruído, estimativa a partir da curva analítica ou pelo desvio padrão do branco na curva analítica (ANVISA, 2017; INMETRO, 2020). Sendo esta última, utilizada para o cálculo do LD do presente método, de acordo com a Equação 5 (fórmula 1 do anexo II RDC 166/2017). 𝐿𝐷 = 3,3 𝑥 𝑆𝑏𝑏 (5) 40 Sb = Desvio padrão de 10 brancos. b = coeficiente angular da curva analítica. 3.7.4 Limite de quantificação (LQ) “O limite de quantificação é a menor quantidade do analito em uma amostra que pode ser determinada com precisão e exatidão aceitáveis sob as condições experimentais estabelecidas.” (ANVISA, RDC 166/2017, Art. 55). Sendo assim, o LQ representa teoricamente a menor quantidade do analito que pode ser quantificada. As mesmas abordagens empregadas para definir o LD podem ser empregadas para definir o LQ. Para muitas aplicações farmacêuticas e biológicas, o LQ é um parâmetro mais útil do que LD (GUMUSTAS; OZKAN, 2011). O LQ do método foi obtido pela Equação 6 (fórmula 3 do anexo II RDC 166/2017). 𝐿𝑄 = 10 𝑥 𝑆𝑏𝑏 (6) 3.7.5 Exatidão A exatidão é o principal requisito para o desenvolvimento de um método eletroanalítico e, frequentemente o mais difícil de ser determinado (GUMUSTAS; OZKAN, 2011). “A exatidão de um método analítico deve ser obtida por meio do grau de concordância entre os resultados individuais do método em estudo em relação a um valor aceito como verdadeiro” (RDC 166/2017 Art. 42). De acordo com a legislação vigente a exatidão pode ser obtida através de diferentes métodos; como por exemplo, utilizando materiais de referência com valores certificados para comparação com o método proposto, por meio de técnicas oficiais de análise referentes ao analito ou ensaios de recuperação (ANVISA, 2017; ICH, 2015; INMETRO, 2020). Sendo esse último, o mais comumente adotado por possuir vantagens como menor custo e possibilidade de ser feito em qualquer laboratório, uma vez que dispensa a 41 utilização de materiais certificados (RIBANI et al., 2004). A recuperação pode ser calculada pela Equação 7 (INMETRO): 𝑅𝑒𝑐𝑢𝑝𝑒𝑟𝑎çã𝑜(%) = 𝐶1− 𝐶2𝐶3 × 100 (7) C1 = concentração do analito na amostra fortificada C2 = concentração do analito na amostra não fortificada C3 = concentração do analito adicionado à amostra fortificada É importante que sejam estabelecidos critérios de aceitação para recuperação, na Tabela 3 temos os critérios de acordo com o INMETRO. Tabela 3 - Critérios de aceitação para ensaios de recuperação Analito (%) Razão do analito Unidade DPR (%) 100 1 100% 98 – 102 10 10-1 10% 98 – 102 1 10-2 1% 97 – 103 0,1 10-3 0,1% 95 – 105 0,01 10-4 100 ppm 90 – 107 0,001 10-5 10 ppm 80 – 110 0,0001 10-6 1 ppm 80 – 110 0,00001 10-7 100 ppb 80 – 110 0,000001 10-8 10 ppb 60 –115 0,0000001 10-9 1 ppb 40 –120 Fonte: INMETRO, 2020. Adaptado 3.7.6 Precisão “A precisão avalia a proximidade entre os resultados obtidos por meio de ensaios com amostraspreparadas conforme descrito no método analítico a ser validado” (RDC 166/2017 Art. 33). Sendo assim, a precisão descreve a reprodutibilidade das medidas, dependendo apenas da distribuição de erros aleatórios e não estando relacionada com o valor verdadeiro (SKOOG et al., 2006). As três maneiras mais comuns de expressá-la são por meio da repetibilidade, precisão intermediária e da reprodutibilidade. A repetibilidade (precisão intra-ensaio ou intra-dia) expressa à precisão nas mesmas condições de operação em um curto intervalo de tempo. A precisão intermediária (precisão inter ensaios ou 42 inter-dias) expressa variações ocorridas dentro do laboratório, como por exemplo: dias diferentes, analistas diferentes, equipamentos diferentes, etc. A reprodutibilidade expressa a precisão interlaboratorial, sendo assim não é um componente de validação de método executado por um único laboratório (ICH, 2015; INMETRO, 2020). Os valores para precisão são geralmente expressos como desvio padrão (DP) ou desvio padrão relativo (DPR) entre os resultados obtidos de uma série de medidas que foram realizadas exatamente nas mesmas condições (ANVISA, 2017; INMETRO, 2020). Numericamente, um valor alto para esses desvios indica que os resultados estão dispersos e consequentemente o método não é preciso. De acordo com o INMETRO é importante testar as concentrações baixa, média e alta da faixa de trabalho (INMETRO, 2020) e os critérios para aceitação da reprodutibilidade de acordo com o INMETRO estão descritos a seguir na Tabela 4. Tabela 4 - Critérios de aceitação para a reprodutibilidade Analito (%) Razão do analito Unidade DPR (%) 100 1 100% 1,3 10 10-1 10% 1,9 1 10-2 1% 2,7 0,1 10-3 0,1% 3,7 0,01 10-4 100 ppm 5,3 0,001 10-5 10 ppm 7,3 0,0001 10-6 1 ppm 11 0,00001 10-7 100 ppb 15 0,000001 10-8 10 ppb 21 0,0000001 10-9 1 ppb 30 Fonte: INMETRO, 2020. Adaptado 3.7.7 Robustez “A robustez é um parâmetro que indica se o método analítico tem capacidade de resistir a pequenas e deliberadas variações das condições analíticas” (RDC 166/2017). Assim a robustez de um método analítico representa a capacidade do método em não ser afetado por pequenas variações nos seus parâmetros de execução (INMETRO, 2020). De acordo com INMETRO trata-se de um parâmetro opcional dentro dos estudos de validação, muitas vezes estando 43 mais associado a estudos de otimização. Para avaliação da robustez do método os parâmetros a serem avaliadas dependem da técnica utilizada para a identificação/quantificação do analito, sendo que não há parâmetros pré- estabelecidos pela legislação para métodos eletroquímicos. Além disso, devido à natureza das técnicas eletroquímicas, muitas vezes não há a possibilidade de se realizar certas variações, como por exemplo, alterar o eletrólito suporte já definido, a concentração hidrogeniônica do meio, parâmetros da técnica voltamétrica adotada, variar o pH do meio, entre outros (VOIGT, 2018). 44 4 - MATERIAIS E MÉTODOS 4.1 Equipamentos utilizados 4.1.1 Potenciostato A metodologia foi desenvolvida utilizando-se para as medidas eletroquímicas um potenciostato/galvanostato PGSTAT 128 N Autolab Potentiostat (Eco-Chemie, The Netherlands) interfaciado pelo software NOVA® 2.1.4 instalado em um computador. (FIG. 8) Figura 8- Potenciostato/galvanostato Autolab® PGSTAT 128 N Fonte: A autora 4.1.2 Célula eletroquímica e eletrodos A célula eletroquímica de três eletrodos utilizada para a realização das medidas voltamétricas foi composta pelos seguintes eletrodos: ● Eletrodo de trabalho: GCE com área igual a 0,07 cm² ● Eletrodo de referência: Ag/AgCl saturado comercial. ● Contra eletrodo: Placa de platina de 1,00 cm². Os eletrodos foram colocados em um béquer de 25,0 mL e este dentro de uma célula de vidro com capacidade para 50,0 mL com uma tampa adaptada de polietileno contendo quatro orifícios, três para o posicionamento de cada um dos eletrodos e um para utilização do nitrogênio 45 gasoso (que foi utilizado antes de cada uma das análises durante 5 minutos para a remoção do oxigênio dissolvido). Para maior vedação entre a célula de vidro e a tampa foi utilizado plástico filme envolto, conforme pode ser visto na Figura 9. Figura 9 - Célula eletroquímica Fonte: A autora 4.1.3 pHmetro Os ajustes de pH do eletrólito foram realizados com utilização do medidor de pH de bancada da marca Tecnal, modelo Tec-5 previamente calibrado com soluções tampão padrão em temperatura ambiente. 4.1.4 Agitador magnético A homogeneização das soluções foi realizada utilizando-se para essa finalidade o agitador magnético com aquecimento Tecnal modelo Te-0851. 4.1.5 Evaporador rotativo Para a extração do BZN usado para as análises foi utilizado um evaporador rotativo Fisatom 802. 4.1.6 Filtro de seringa micropore Millex 0,45 UI 46 Para a filtração das suspensões contendo CLN foram usados filtros de seringas, com membrana de politetrafluoretileno (PTFE) hidrofóbico de 0,45µm da marca Merck millipore. 4.1.7 Sonda de ultrassom de alta intensidade Durante o preparo das CLNs foi utilizada a sonda de ultrassom Q55 sonicador da marca Qsonica para a homogeinização da emulsão. 4.2 Extração e purificação do BZN O BZN foi extraído de comprimidos de 100 mg do laboratório LAFAPE e purificado seguindo a metodologia descrita por outros trabalhos do grupo (SILVA, 2019). Para a extração, quatro comprimidos de BZN foram triturados com o auxílio de gral e pistilo, transferidos para um béquer e solubilizados com metanol. Após essa etapa, a solução foi mantida sob agitação magnética durante 20 min. A suspensão foi filtrada em papel filtro quantitativo e o solvente removido em evaporador rotativo. O material foi recristalizado com uma mistura de metanol e água (1: 4) e colocados em banho de gelo. Os cristais resultantes foram filtrados a vácuo, e secos em um dessecador. O BZN foi armazenado em contêineres refrigerados no escuro. 4.3 Preparo das CLN As CLNs foram preparadas pelo método homogeneização de fusão a quente associado à sonicação com sonda de ultrassom. A fase oleosa (FO) composta de Crodamol® e Compritol® e a fase aquosa (FA) contendo Super Refined Tween® 80, glicerol e água foram preparadas e pesadas separadamente. O BZN foi previamente solubilizado na FO fundida a uma concentração de 0,05%; e ambas as fases foram aquecidas a 85 ° C. Em seguida, a FA foi vertida lentamente sobre a FO e mantida sob agitação manual constante durante 2 minutos. A emulsão resultante foi imediatamente submetida à homogeinização com uma sonda de ultrassom 47 de alta intensidade por 10 minutos. A formulação resultante foi então resfriada a temperatura ambiente para a formação do CLN. 4.4 Matérias primas, reagentes, e soluções 4.4.1 Matérias primas O Super Refined Tween® 80 e Crodamol® foram fornecidos pela Croda Inc (Edison USA). O Compritol® pela Gattefossé (Lyon, France). 4.4.2 Reagentes Todas as soluções foram preparadas a partir de reagentes de grau analítico (PA) e água deionizada fornecida por um sistema Milli-Q Plus (Millipore). Todos os reagentes utilizados para preparo da solução estoque, soluções eletrolíticas e solução para ajuste de pH, bem como suas fórmulas químicas, procedência e graus de pureza estão resumidos na Tabela 5. Tabela 5 - Lista dos reagentes químicos utilizados, procedência e pureza. Reagente Fórmula Química Marca Pureza (%) Ácido bórico H3BO3 Alphatec 99,5 Ácido acético glacial CH3COOH Proquimios 99,8 Ácido fosfórico H3PO4 Sigma-Aldrich 99,0 Fosfato de potássio dibásico K2HPO4 Próquimios 99,0 Fosfato de potássio monobásico KH2PO4 Alphatec99,0 Hidróxido de sódio NaOH Vetec 97,0 Álcool etílico CH3CH2OH NEON 99,8 Ácido cítrico C6H8O7 Vetec 99,5 Tetraidrofurano (THF) C4H8O NEON 99,0 4.4.3 Soluções 4.4.3.1 Solução estoque de BZN 48 A solução estoque de BZN 1,00 mmol L-1 foi preparada a partir de uma massa de 2,60 mg de BZN dissolvida em 10,0 mL de álcool etílico e mantida sob agitação constante no agitador magnético durante 10 minutos para a homogeneização. Após o preparo, a solução foi armazenada ao abrigo de luz e sob refrigeração em uma temperatura de cerca de 4,00 °C. A Figura 10 mostra um esquema do procedimento de preparo da solução estoque de BZN. Figura 10 - Preparo da solução estoque de BZN 4.4.3.2 Solução tampão Britton-Robinson (BR) A solução tampão BR 0,10 mol L-1 foi preparada a partir da mistura de quantidades equimolares dos ácidos fosfórico, acético e bórico (0,040 mols de cada ácido) dissolvidos em 1,00 L de água deionizada fornecida por um sistema Milli-Q. Para o ajuste do pH foram adicionados pequenos volumes da solução NaOH 1,00 mol L-1 a solução tampão BR. 4.4.3.3 Solução tampão fosfato Para o preparo da solução tampão fosfato 0,10 mol L-1 foram utilizadas quantidades equimolares de fosfato de potássio monobásico e fosfato de potássio dibásico (0,10 mols de cada) dissolvidos em 1,00 L de água deionizada fornecida por um sistema Milli-Q. Para o ajuste do pH foram adicionados pequenos volumes da solução NaOH 1,00 mol L-1 à solução tampão fosfato. 4.4.3.4 Solução tampão McIlvaine 49 Para a obtenção da solução tampão McIlvaine foram utilizadas quantidades equimolares de soluções estoques de fosfato dissódico (0,20 mol L-1) e ácido cítrico (0,10 mol L-1). O ajuste do pH foi feito seguindo o mesmo procedimento realizado para os tampões anteriormente descritos. 4.4.4 Preparo das amostras 4.4.4.1 Preparo das amostras de urina para a determinação do BZN As amostras de urina foram coletadas de voluntários saudáveis e mantidas sob-refrigeração à temperatura de aproximadamente 4,00 oC. Para a fortificação dessas amostras, inicialmente foi preparada uma solução de 0,10 mmol L-1 de BZN, a partir da diluição da solução estoque descrita no item 4.3.3.1 em tampão BR pH 7. A partir dessa solução, foram então preparadas três amostras de urina fortificada nas concentrações de 30,0; 60,0 e 90,0 μmol L-1de BZN; respectivamente. Cada uma dessas amostras foi então diluída na proporção de 1:10 no tampão BR 0,10 mol L-1 (pH = 7,00) para a realização dos estudos de adição e recuperação pelo método proposto, obtendo dessa forma concentrações finais de 3,00; 6,00 e 9,00 μmol L-1 de BZN na célula eletroquímica. A Figura 11 mostra um esquema do procedimento de preparo das amostras de BZN fortificadas com urina. Figura 11- Preparo das amostras de BZN fortificadas com urina 4.4.4.2 Preparo das amostras de CLN para a determinação do BZN Também foram feitas amostras de CLN branco (CLN-BR) fortificadas em três diferentes concentrações. Para essa finalidade foram utilizados três balões volumétricos de 10,0 mL. Inicialmente foram colocados os volumes de 160; 310 e 470 μL de CLN-BR em cada um dos 50 três balões, respectivamente. Em seguida foram adicionados volumes de THF em cada um dos três balões na proporção de 1:5 (5,00 μL de THF para cada 1,00 μL de CLN-BR) para dissolver a matriz lipídica. Então, a partir da solução estoque de BZN foram adicionados os volumes de 300; 600 e 900 μL de BZN, em cada um dos três balões, respectivamente e o volume de cada balão completado com solução tampão BR 0,10 mol L-1 (pH = 7,00). O conteúdo de cada um dos balões foi transferido para um béquer e foi realizada a filtração de cada solução para remover os lipídeos precipitados, utilizando para essa finalidade filtro micropore 0,45µm e seringa de 1,00 mL. Para os estudos de adição e recuperação do BZN nessa amostra, 1 mL desse filtrado foi coletado e diluído na solução tampão BR 0,10 mol L-1 (pH = 7,00) na proporção de 1:10. Obtendo concentrações finais de 3,00; 6,00 e 9,00 μmol L-1 de BZN na célula eletroquímica. 4.4.4.3 Preparo das soluções para o estudo de interferentes na amostra de CLN-BZN As soluções preparadas para avaliar o efeito de interferentes da matriz lipídica e dos solventes utilizados foram designadas: controle 1, controle 2, CLN-BR e CLN-BZN. A solução controle 1 foi preparada com 0,90 mL de etanol, 2,30 mL de THF e o volume final ajustado para 10,0 mL com o tampão BR 0,10 mol L-1 pH 7,00. A solução controle 2 foi preparada da mesma forma, porém sem a adição do THF. O CLN-BZN foi preparado conforme o procedimento descrito no item 4.3.4.2 na concentração de 9,00 µmol L-1 e o CLN-BR foi preparado da mesma forma. A Figura 12 mostra um esquema do procedimento de preparo das amostras de BZN fortificadas com CLN. 51 Figura 12 - Preparo das amostras de BZN fortificadas com CLN 4.5 Metodologia 4.5.1 Determinação do BZN em urina Através do método de adição de padrão foi realizada a determinação do BZN nas amostras de urina. Para essa finalidade, 10,0 mL de cada uma das soluções descritas no item 4.3.4.1 foram adicionadas a célula eletroquímica. Então foram realizados VPDs no intervalo de varredura de Intervalo de varredura: -0,10 a -1,00 V. Posteriormente, foram realizadas adições sucessivas de 100 µL da solução BZN 0,10 mmol L-1 e registrados os voltamogramas obtidos após cada adição. 4.5.2 Determinação do BZN em CLN A determinação do BZN nas amostras de CLN foi realizada como descrito no item anterior, porém utilizando para essa finalidade as amostras descritas no item 4.3.4.2 e realizando a limpeza do eletrodo de trabalho entre as medições eletroquímicas. A limpeza do eletrodo foi feita colocando-o em um béquer com a solução tampão BR 0,10 mol L-1 pH 7,00 e colocando esse béquer no ultrassom para sonicação durante 5 minutos. 52 5 - RESULTADOS E DISCUSSÃO 5.1 – Voltametria cíclica (VC) 5.1.1 – Perfil da redução do BZN sobre a superfície do GCE O estudo preliminar do perfil voltamétrico do BZN foi realizado por VC para analisar a redução desse analito sobre a superfície do GCE. O voltamograma cíclico foi obtido utilizando uma concentração de 1,00 x 10- 4mol L-1 do BZN registrado em tampão BR 0,10 mol L-1 (pH 7,00) no intervalo de varredura de 0,20 a -1,20 V. Como podemos observar na Figura 13, o BZN apresentou um pico de redução irreversível e bem definido em cerca de -0,58 V. Figura 13 - Voltamograma cíclico do BZN 1,00 x 10-4 mol L-1 registrado em tampão BR 0,10 mol L-1 (pH 7,00). Eletrodo de trabalho: GCE. Eletrodo auxiliar: Platina. Eletrodo de referência: Ag/AgCl. Intervalo de varredura: 0,20 a -1,20 V. v = 100 mV s -1 5.1.2 – Variação do pH Para avaliar a influência do pH na resposta eletroquímica do BZN, foi realizado o estudo da variação do pH do meio contendo esse analito na concentração de 1,00 x 10-4 mol L-1 no intervalo de 2,00 a 12,0 como pode ser visto no voltamograma cíclico da Figura 14. 53 Figura 14 - Voltamogramas cíclicos do BZN 1,00. x 10-4 mol L-1 registrados em tampão BR 0,10 mol L-1 em diferentes valores de pH. Eletrodo de trabalho: GCE. Eletrodo auxiliar: Platina. Eletrodo de referência: Ag/AgCl. Intervalo de varredura: 0,10 a -1,00. De acordo com o resultado apresentado na Figura 14, foi possível avaliar a relação entre a Ip e o pH. Esta relação é apresentada na Figura 15, onde, verifica-se que a Ip aumenta no intervalo de pH de 2,00 a 7,00 e a partir do pH 7,00 pode-se observar uma diminuição no valor corrente de pico. Então, para fins analíticos o pH 7,00 foi escolhido para ser utilizado no decorrer deste estudo devido a apresentar um maior valor de corrente de pico. Figura 15 - Relação corrente de pico(Ip) vs pH 54 Também, de acordo com o resultado apresentado na Figura 15, foi possível avaliar o efeito do pH no potencial de pico (Ep) de redução do BZN, como mostra a Figura 16. Verifica-se, nesta Figura, que o potencial de pico catódico do BZN (Epc) é deslocado para valores mais negativos com o aumento do pH até o pH 7,00 indicando que a transferência de elétrons é dependente do pH do meio. Para valores de pH maiores que 7,00 nenhuma variação significativa de Ep foi observada. Figura 16 - Relação potencial de pico (Ep) vs pH Adicionalmente, conforme podemos observar na Figura 16 existe uma relação linear entre pH e Ep até o pH 7,0. Essa relação pode ser representada pela equação de regressão linear obtida para a reta Ep vs pH dada a segui: Ep=-0,241(±0,009)-0,0575(±0,002)pH (8) Como pode ser visto na equação 8, a inclinação da reta no intervalo de pH de 2,00 a 7,00 foi aproximadamente 0,058V, que está próximo ao valor 0,059V esperado pela equação de Nernst. Isso sugere que o mesmo número de prótons e elétrons estão envolvidos na reação de redução do BZN. (WANG, 2000) Utilizando os valores de Ep e Ep/2 no pH 7,00 foi feito o cálculo do número de prontos e elétrons envolvidos na reação de redução, conforme segue: 55 |𝐸𝑝 − 𝐸𝑝 2 ⁄ | = 47,7 m𝑉𝛼𝑛 |580 m𝑉 − (−556 𝑚𝑉)| = 47,7 m𝑉𝛼𝑛 |-24 mV| = 47,7 𝑚𝑉𝛼𝑛 𝛼𝑛 = 47,7 m𝑉24 m𝑉 = 1,99 Se 𝛼 = 0,50 (para compostos orgânicos) 𝛼𝑛 = 1,990,50 = 3,98 ≈ 4 elétrons Esse resultado está de acordo, com o resultado descrito por La-Scalea et al (2002). De acordo com o mecanismo já descrito por esse autor, primeiramente, a redução do composto leva a formação de um derivado nitroso com o envolvimento de dois elétrons na reação. Esse derivado também se reduz, com o envolvimento de mais dois elétrons, levando a formação de um derivado hidroxilamina e totalizando quatro elétrons na reação química de redução. A Figura 17 mostra o mecanismo de redução do BZN. Figura 17 - Mecanismo de redução do BZN Fonte: HALL; WILKINSON, 2012. Adaptado 5.1.3 – Escolha do eletrólito suporte Após escolhido o pH 7,00 para ser utilizado no decorrer deste estudo, foi feita a escolha do eletrólito suporte para dar prosseguimento aos experimentos. Em sistemas eletroquímicos o eletrólito suporte é responsável pela manutenção da força iônica alta e constante na solução, eliminando a migração do analito para a superfície do eletrodo, e influenciando diretamente na intensidade da Ip (AGOSTINHO et al., 2004, SKOOG et al., 2006), sendo um parâmetro importante sobre a resposta eletroanalítica. Para essa finalidade foram avaliadas três soluções tampão com capacidade 56 tamponante no pH 7,00: tampão BR, tampão Mcvaille (MV) e tampão fosfato, todos a 0,10 mol L-1, como mostra a Figura 18. Figura 18 - Voltamogramas cíclicos de 1,00. 10-4mol L-1 BZN em diferentes eletrólitos suporte. Intervalo de varredura: 0,10 a -1,00 V. Velocidade de varredura = 100 mV s -1. Como pode ser observado na Figura 18, os três tampões utilizados apresentaram boas respostas analíticas para uma concentração 1,00 x 10- 4mol L-1 de BZN, onde verifica-se nos voltamogramas um pico de redução bem definido em aproximadamente -0,58 V. Porém, apesar das respostas analíticas serem muito próximas, o tampão BR apresentou uma intensidade de Ip um pouco maior, além disso, não foi possível continuar os experimentos utilizando o tampão fosfato (que seria mais fácil de preparar) devido a uma contaminação em um dos reagentes usados para prepará-lo, sendo por esse motivo escolhido o tampão BR para os demais experimentos a serem realizados. 5.1.4 – Estudo da variação da velocidade de varredura Com o objetivo de avaliar a natureza do transporte do material eletroativo para a superfície do eletrodo foi feito um estudo da variação da velocidade de varredura por voltametria cíclica. Para essa finalidade foram obtidos os voltamogramas cíclicos de uma solução 1,00 x 10-4 mol L-1 de BZN, variando-se a velocidade de varredura de 10,0 a 800 mVs-1. O registro desses voltamogramas é mostrado na Figura 19, onde pode ser observado que com o aumento da velocidade de varredura ocorre também o aumento 57 na intensidade da corrente do pico; porém após a velocidade de 100 mVs-1 ocorre uma grande perda na resolução da corrente de pico. Figura 19 - Voltamogramas cíclicos do BZN 1,00. 10-4mol L-1 registrados em tampão BR 0,10 mol L -1 pH 7,00. Intervalo de varredura: 0,10 a -1,20 V. Velocidades de varredura = 10,0 a 800 mV s -1. Na Figura 20 é possível observar que a Ip variou linearmente em função da raiz quadrada da velocidade de varredura. Figura 20 - Corrente de pico (Ip) em função da raiz quadrada da velocidade de varredura A relação linear entre Ip e a raiz quadrada da velocidade de varredura é típica para um sistema irreversível (WANG, 2000; PACHECO et al., 2013), conforme mostrado na equação de Randles-Sevcik: 𝐼𝑝= -2,99 ×105 𝑛(𝛼 𝑛)12 𝐴[O]∞ 𝐷12 𝑉12, já abordada no tópico 3.6.1 (Equação 3). Além disso, ainda, de acordo com os critérios de reversibilidade em VC, esta 58 relação linear indica que o processo de transporte de massa do analito até a superfície do eletrodo é controlado por difusão (BARD, FAULKNER; 2001). Outro critério de diagnóstico usado para confirmar a natureza do transporte de massa utilizando VC é através da análise da relação linear entre log (Ip) vs log(v). Quando se obtém uma relação linear entre log (Ip) em função de log (v) com coeficiente angular próximo de 0,50 o processo é controlado por difusão, para um coeficiente angular próximo de 1,00 o processo é controlado por adsorção (BARD, FAULKNER; 2001; COMPTON, 2018). Essa relação log Ip em função de log v é mostrada na Figura 21. Figura 21 - Log Ip em função de log v A equação matemática que representa a regressão linear mostrada na Figura 21 é dada a seguir: logIp = -4,18(±0,02)+0,44(±0,01)logv (9) R = 0,998 Como pode ser observado na Equação 9, o valor do coeficiente angular é próximo a 0,50 confirmando que o transporte de massa é controlado por difusão. 5.2 – Otimização dos parâmetros experimentais da VPD Como abordado anteriormente, a VPD foi a técnica eletroanalítica escolhida para a validação do método. O motivo da escolha da técnica VPD 59 ao invés de escolher a VOQ (voltametria de onda quadrada) deve-se ao fato de que a redução do BZN é um processo irreversível. Na técnica VOQ, a corrente resultante é dada pela diferença entre as correntes diretas e inversas. Sendo assim, quanto maior a reversibilidade da reação, maior é a contribuição da corrente inversa, o que aumenta significativamente a corrente resultante e a resposta em termos de intensidade de corrente. Para sistemas irreversíveis, no entanto, praticamente não há contribuição da corrente inversa medida por VOQ (SOUZA; MACHADO; AVACA; 2003). Por esse motivo, com o uso da VOQ o ganho de sensibilidade não é significativo para sistemas irreversíveis quando comparado ao uso da técnica de VPD, que é uma técnica com menos parâmetros a serem otimizados por isso foi escolhida neste trabalho. Depois da escolha da técnica, a primeira etapa no desenvolvimento de uma metodologia eletroanalítica é a otimização dos parâmetros experimentais a fim de se obter uma melhor resposta analítica para o método. Sendo assim, realizou-se o estudo da variação dos parâmetros da técnica de voltametria de pulso diferencial: velocidade de varredura (v) e amplitude de pulso, uma vez que estes parâmetros estão diretamente relacionados com a resposta analítica. A variação da velocidade de varredura foi feita variando simultaneamente o potencial depulso e o intervalo de tempo no software NOVA® 2.1.4. 5.2.1 – Estudo da variação da velocidade de varredura (v) Foi realizado o estudo da variação da velocidade de varredura (v) a partir de voltamogramas de pulso diferenciais registrados para uma solução de BZN 1,00 x 10-4 mol L-1 em tampão BR 0,10 mol L-1 pH 7,00 variando- se a velocidade de varrredura no intervalo de 1,00 a 10,0 mV s-1 enquanto a amplitude de pulso foi mantida constante em 30,0 mV. O resultado é apresentado na Figura 22. 60 Figura 22 - Voltamogramas de pulso diferencial de uma solução de BZN 1,00 x 10- 4 mol L-1 em tampão BR 0,10 mol L-1 pH 7,00; amplitude de 30,0 mV e com velocidades de pulso variando de 1,00 a 10,0 mV s -1. Intervalo de varredura: 0,10 a -1,20 V. A partir dos voltamogramas de pulso diferencial mostrados na Figura 22 foi possível avaliar o efeito do aumento da velocidade de varredura na resposta da Ip (Figura 23). Figura 23 - Relação da dependência da corrente de pico (Ip) em função da velocidade do pulso. Conforme pode ser observado na Figura 23, houve um aumento significativo da intensidade da Ip até a velocidade de 6,00 mV s-1. Depois de atingido esse valor a intensidade da corrente se manteve praticamente constante até a velocidade de 10,0 mV s-1. Porém nesse valor de velocidade já ocorre a visível perda de resolução do voltamograma como pode ser visto 61 na Figura 22. Por esse motivo a velocidade de 6,00 mV s-1 foi escolhida para ser usada no desenvolvimento do método de análise do BZN. 5.2.2 – Estudo da variação da amplitude de pulso (a) Após o estudo da variação da velocidade de varredura (v), foi realizado o estudo da variação da amplitude de pulso (a). Para essa finalidade foram registrados os voltamogramas de pulso diferencial de uma solução de BZN 1,00 x 10-4 mol L-1 em tampão BR 0,10 mol L-1 pH 7,00 com a velocidade do pulso mantida a 6,00 mVs-1 e variando-se a amplitude de pulso no intervalo de 10,0 a 100 mV, como mostra a Figura 24. Figura 24 - Voltamogramas de pulso diferencial de uma solução de BZN 1,00 x 10-4 mol L-1 em tampão BR 0,10 mol L-1 pH 7,00; velocidade do pulso de 6,00 mVs-1 e amplitude de pulso variando de 10,0 a 100 mV, registrados no intervalo de varredura de 0,10 a -1,20. A partir dos voltamogramas de pulso diferencial mostrados na Figura 21, foi avaliada a relação da corrente de pico catódica (Ipc) do BZN em função do aumento da amplitude (a), como apresentado na Figura 25. 62 Figura 25 - Dependência da corrente de pico (Ip) em função da amplitude de pulso (a) Como pode ser visto na Figura 25, houve um aumento da corrente de pico (Ip) com a variação crescente da amplitude de pulso até o valor de 100 mV. Adicionalmente, verifica-se nos voltamogramas já apresentados na Figura 24 que o aumento de Ip em função do aumento da amplitude ocorreu sem perda da resolução do sinal voltamétrico, pois se verifica que não houve alargamento da base do voltamograma, que se manteve com o mesmo perfil em todo intervalo de amplitude estudado. Sendo assim a amplitude de 100 mV foi escolhida para ser usada no desenvolvimento do método de análise do BZN. 5.3 - Avaliação da linearidade do método Após a otimização dos parâmetros: velocidade de varredura (6,00 mVs-1) e amplitude de pulso (100 mV) da técnica de voltametria de pulso diferencial, foi realizado o estudo da variação de concentração do BZN utilizado o método de adição de padrão e foram registrados os voltamogramas de soluções de BZN no intervalo de concentração de 1,00 a 10,6 µmol L-1 em solução tampão BR 0,10 mol L-1 pH 7,00 como mostra a Figura 23. 63 Figura 26 - Voltamogramas de pulso diferencial de soluções contendo BZN nas concentrações de (a) 1,00 (b) 1,96 (c) 2,91 (d) 3,85 (e) 4,76 (f) 5,66 (g) 6,54(h) 7,41 (i) 8,26 (j) 9,09 (k)9,82 (l) 10,6 µmol L -1 registrados em tampão BR 0,10 mol L-1 pH 7,00; a v= 6,00 mV s-1 e amplitude de 100 mV. Intervalo de varredura: -0,10 a -1,00 V. A partir dos voltamogramas apresentados na Figura 26, e com a finalidade de avaliar a linearidade do método, foi construída uma curva analítica a qual relaciona a Ip medida em função do aumento da concentração de BZN, a qual é mostrada na Figura 27. Figura 27 - Curva Analítica: corrente de pico (Ip) em função da concentração do BZN. 64 É possível observar na Figura 27 que existe uma relação linear entre a Ip e a concentração do BZN em todo o intervalo de concentração estudado (1,00 a 10,6 µmol L-1). Essa relação linear é expressa pela Equação 10. Ip (μA) = -0,25 ± 0,01 [BZN] / μmol L−1 + 6,36 ± 0,01 (μA) (10) R=0,999 A partir do coeficiente angular (b) da equação da curva analítica e do valor do desvio padrão (3,41 x 10-9) da medida de corrente de 10 voltamogramas do branco (registrados no valor do Epc do BZN) foram calculados os limites de detecção (LD) e o limite de quantificação, usando as equações 5 e 6, respectivamente. O valor do LD calculado foi de 0,044 µmol L-1 e o valor do LQ calculado foi de 0,135 µmol L-1 no intervalo de concentração de 1,00 a 10,6 µmol L-1. Considerando, a informação citada anteriormente, de que somente 5,00% do fármaco é excretado em sua forma inalterada na urina, a concentração final de BZN na urina humana seria de aproximadamente 12,8 µmol L-1. Levando em consideração o fato de que a amostra de urina necessita ser diluída dez vezes para a realização das análises é necessário que o limite de detecção seja menor do que 1,28 µmol L-1. Com isso, é importante ressaltar que mesmo sendo muito baixa a taxa de excreção do fármaco na forma inalterada na urina, o LD (0,044 µmol L-1) e o LQ (0,135 µmol L-1) obtidos pelo método proposto são baixos o suficiente para que o BZN possa ser detectado e quantificado na urina humana, e até mesmo o menor sinal mensurável (menor ponto da curva analítica) está abaixo desse valor (1,00 µmol L-1), o que demonstra que o método desenvolvido é viável e altamente sensível para estes propósitos. 5.4 - Avaliação da precisão do método A precisão do método foi avaliada por meio da repetibilidade dos resultados de medidas realizadas em três níveis de concentrações (baixo, médio e alto) dentro do intervalo da curva analítica (1,96; 6,54 e 10,6 µmol L-1). Foram registradas oito medidas sucessivas da Ip em um mesmo dia (n = 65 8) para avaliar a repetibilidade intra-dia e três medidas em diferentes dias para avaliar a repetibilidade inter-dia (n = 3). Em ambos os casos o desvio padrão relativo (DPR) foi calculado e o resultado é apresentado na Tabela 6. Tabela 6- DPR intra-dia e inter-dia avaliados para três níveis de concentração de BZN Concentração BZN (µmol L -1) DPR intra-dia (%) n = 8 DPR inter-dia (%) n = 3 1,96 1,48 1,24 6,54 1,53 1,27 10,6 2,45 1,62 Conforme pode ser observado na Tabela 6, tanto os valores de DPR inter-dia como os valores obtidos intra-dia, para todas as concentrações avaliadas, apresentaram valores muito inferiores aos 11,0 % estabelecidos pelo DOQ- CGCRE-008 de 04/2020 do INMETRO, conforme abordado anteriormente na Tabela 4. Esse resultado comprova que o método analítico desenvolvido é preciso. 5.5 - Avaliação da seletividade do método proposto para análise de BZN em urina e na formulação farmacêutica 5.5.1 - Estudo de interferentes na urina Para avaliar a seletividade do método para determinação de BZN em amostra de urina, foi realizado um estudo de interferentes com substâncias que estão presentes na urina humana (ácido cítrico, ácido úrico e ácido ascórbico). As soluções dos interferentes estudados foram preparadas na proporção de 1:500 (6,00 µmol L-1 BZN: 3000 µmol L-1 interferentes). Para avaliar a resposta voltamétricae a possível interferência dessas substâncias, foram registrados os VPDs na presença e na ausência dos interferentes e a resposta relativa foi obtida através da medida da diferença na intensidade da corrente do pico nas duas situações. Todas as medidas foram realizadas em 66 triplicata e a resposta foi expressa em porcentagem. Os resultados são apresentados na Tabela 7. Tabela 7 - Efeito de alguns compostos interferentes na determinação do BZN em urina Substâncias interferentes Resposta relativa (%) n = 3 Ácido úrico 96,3 ± 2,47 Ácido ascórbico 84,1 ± 3,70 Ácido cítrico 110 ± 1,58 É possível observar que as respostas relativas do BZN, mesmo na presença dos interferentes numa proporção de 1:500, foram satisfatórias. Conforme pode ser observado na Tabela 7, o ácido que interferiu na resposta em maior proporção foi o ácido ascórbico, que interferiu quase 16% na resposta relativa do BZN. Vale ressaltar que essa interferência, apesar de diminuir a intensidade do sinal de resposta do fármaco, não impede que a análise seja realizada. Assim sendo, o método proposto é seletivo para determinação de BZN em amostras de urina. 5.5.2 – Estudo de interferentes na formulação farmacêutica A seletividade do método para a análise de BZN na formulação farmacêutica foi avaliada através do estudo de interferentes dos componentes da matriz (CLN-BR) e dos solventes utilizados para a preparação da amostra. Para essa finalidade, VPDs foram registrados com as soluções: Controle 1, Controle 2, CLN-BR e CLN-BZN, as quais foram previamente descritas no item 4.3.4.3. Além de uma solução BZN obtida através da diluição da solução estoque, na mesma concentração que o CNL- BZN (9,00 µmol L-1). O resultado desse estudo é apresentado na Figura 28. 67 Figura 28 - Voltamogramas de pulso diferencial registrados para as soluções Controle 1 (vermelho), Controle 2 (azul escuro), Solução BZN 9,00 µmol L-1 (preto), CLN – BR (verde), CLN- BZN (azul claro) em tampão BR 0,10 mol L-1 pH 7,00; a v= 6,00 mV s-1 e amplitude de 100 mV. Intervalo de varredura: -0,10 a -1,00 V. -1,0 -0,8 -0,6 -0,4 -0,2 0,0 0,0 -0,8 -1,6 -2,4 -I / A E / (V) vs E Ag/AgCl BZN solução 9 mol L -1 Controle 1 - etanol / tampão BR / THF Control 2 - etanol / tampão BR CLN-BR CLN-BZN Como pode ser visto na Figura 28, o CLN-BZN e o THF apresentam sinais no mesmo potencial de pico do BZN, porém esse sinal representa no máximo 20% da resposta analítica do BZN e por esse motivo não interfere significativamente na análise. Além disso, é perceptível que apesar do CLN- BZN estar presente na mesma concentração do BZN em solução, o CLN- BZN apresentou uma Ip menor se comparado à solução de BZN em etanol. Apesar da diferença na intensidade da corrente de pico nas duas soluções contendo o BZN ter sido pequena (12%) esse fato sugere que o teor de encapsulação do BZN no CLN não correspondia a 100% na data em que foi realizada a análise. Esse dado é útil, pois pode ser usado para estimar a estabilidade da formulação CLN-BZN e determinar por quanto tempo a encapsulação é efetiva sem que haja alteração na concentração esperada de BZN. 5.6 - Avaliação da exatidão do método proposto para análise de BZN 5.6.1 - Adição e recuperação na amostra de urina 68 Para avaliar a exatidão do método proposto para detecção do BZN em urina, foram realizados testes de adição e recuperação. Para essa finalidade foram registrados VPDs de soluções obtidas a partir da diluição de amostras de urina que foram fortificadas com o BZN em três diferentes níveis de concentração dentro do intervalo da curva analítica (3,00; 6,00 e 9,00 µmol L-1), com três replicatas em cada nível, de acordo com a RDC 166/2007. O procedimento para o preparo dessas soluções está descrito no item 4.3.4.1. O percentual de recuperação foi calculado utilizando a fórmula abordada na Equação 7. O resultado está apresentado na Tabela 8. Tabela 8 - Resultados da adição e recuperação de BZN em amostras de urina [BZN] µmol L−1 Recuperação (%) n = 3 3,00 97,7 ± 2,10 6,00 101 ± 1,60 9,00 104 ± 3,90 Conforme os resultados apresentados, a aplicação da metodologia proposta para à análise do BZN em urina mostrou valores de recuperação próximos a 100% nos três níveis de concentração de BZN estudados. Oque comprova que o método apresenta boa exatidão para a quantificação do BZN nesse tipo de amostra. 5.6.2 - Adição e recuperação na formulação farmacêutica Para avaliar a exatidão do método proposto para detecção do BZN na formulação CLN-BZN, também foram realizados testes de adição e recuperação. Para essa finalidade foram registrados VPDs de soluções obtidas a partir da diluição de amostras de CLN-BR que foram fortificadas com o BZN em três diferentes níveis de concentração dentro do intervalo da curva analítica (3,00; 6,00 e 9,00 µmol L-1), com três replicatas em cada nível. O procedimento para o preparo dessas soluções está descrito no item 69 4.3.4.2. O percentual de recuperação também foi calculado utilizando a fórmula abordada na Equação 7. O resultado está apresentado na Tabela 9 Tabela 9 - Resultados da adição e recuperação de BZN [BZN] µmol L−1 Recuperação (%) n = 3 3,00 105 ± 3,2 6,00 91,5 ± 3,9 9,00 82,6 ± 3,9 Conforme os resultados apresentados, a aplicação da metodologia proposta também é adequada para a quantificação do BZN na formulação contendo CLN-BZN, uma vez que mostrou percentuais de recuperação adequados nos três níveis de concentração de BZN estudados, de acordo com os critérios r pelo INMETRO conforme foi abordado na Tabela 3. 70 6 - CONCLUSÃO Através da resposta voltamétrica das soluções contendo o BZN na superfície do eletrodo de trabalho GCE foi possível concluir que o pH do meio influencia na transferência de elétrons durante a reação química de redução do analito em meio ácido, e que o mesmo apresenta uma melhor resposta em intensidade do sinal da Ip no pH 7,00. Também foi possível verificar que quatro prótons e quatro elétrons estão envolvidos nessa reação, caracterizada como irreversível e controlada por difusão. Além disso, foi possível concluir que o BZN apresenta uma resposta analítica semelhante em todos os eletrólitos suporte testados. Após a otimização dos parâmetros analíticos para a validação do método por VPD, foi comprovada a sua linearidade no intervalo de 1,00 a 10,6 µmol L-1, e os valores de LD e LQ foram obtidos; 0,044 e 0,135 µmol L-1, respectivamente. Por meio de estudos de repetibilidade intra-dia e inter- dia o método mostrou ser preciso, uma vez que apresentou um DPR menor que 2,50% para as três concentrações analisadas. A seletividade do método também ficou comprovada por meio do estudo de interferentes para as duas amostras testadas. Por fim, foi atestada a exatidão do método por meio de estudos de adição e recuperação em ambas as amostras analisadas, e os resultados foram satisfatórios dentro dos limites recomendados pela literatura. Sendo assim, o método desenvolvido é promissor, uma vez que atende todos os parâmetros estabelecidos pela legislação. Além disso, representa um método simples e de baixo custo que pode ser empregado como método alternativo para a detecção e quantificação de BZN na formulação farmacêutica CLN-BZN e em urina humana. 71 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGOSTINHO, S. M. L.; VILLAMI, R. F. V.; NETO, A. A.; ARANHA, H. O eletrólito suporte e suas múltiplas funções em processos de eletrodo. Química Nova, v. 27, p. 813-817, 2004. ALDASORO, Edelweiss et al. What to expect and when: benznidazole toxicity in chronic Chagas’ disease treatment. Journal of Antimicrobial Chemotherapy, v. 73, n. 4, p. 1060-1067, 2018. ALEIXO, Luiz Manoel. Voltametria: conceitos e técnicas. 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A precisão foi avaliada por meio do valor do desvio padrão relativo (DPR) entre análises realizadas inter-dia e intra-dia, apresentando resultados inferiores a 2,50 %. Por meio do estudo de interferentes o método se mostrou seletivo para o BZN uma vez que não houve interferência significativa dos potenciais interferentes em nenhuma das amostras. A exatidão foi avaliada por estudos de adição e recuperação, onde foram obtidos percentuais de recuperação dentro dos limites recomendados pela literatura. Portanto, o método desenvolvido pode ser aplicado com sucesso como uma alternativa na determinação do BZN em urina e em CLN-BZN. Palavras chave: Doença de chagas. Métodos eletroanalíticos. Amostras biológicas. Nanossistemas lipídicos. ABSTRACT Benznidazole (BZN) is the only drug available in Brazil to treat Chagas disease (CD). However, it is not ideal due to its high toxicity, irregular pharmacokinetics, and effect on the chronic phase of the disease is still questionable. Such factors make it necessary to develop reliable and effective alternative methods for the analytical determination of BZN in biological and pharmaceutical samples. Therefore, this work's objective was to develop an electroanalytical method to determine BZN by differential pulse voltammetry (DPV) and glassy carbon electrode (GCE) in urine and in pharmaceutical formulation. Initially, cyclic voltammetry (CV) was used to determine the electrochemical behavior of BZN on the GCE surface and verify the influence of pH, scan rate, and supporting electrolytes. During the CV cathodic scan, we found a defined irreversible peak at a potential of -0.58 V. Based on this cathodic peak; an electroanalytical method was optimized and validated according to national and international guidelines for this drug determination by DPV. This method was applied in urine and in a pharmaceutical formulation of BZN incorporated into nanostructured lipid carriers (NLC-BZN). The results were satisfactory for the analyzed parameters, with low detection and quantification limits (0.044 and 0.135 µmol L-1, respectively) and a linear range in the concentration between 1.00 to 10.6 µmol L-1. The method's precision was assessed by inter and intraday repeatability voltammograms with results below 2.50%. Through the interferences studies, the methodology proved to be selective for BZN since there was no significant interference from potential interferences in any of the samples. Recovery tests showed that the accuracy was within limits recommended by the literature. Therefore, the developed method can be successfully applied as an alternative to determine BZN in urine and NLC-BZN. Keywords: Chagas Disease. Electroanalytical methods. Biologic samples. Lipid nanosystems. LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1 - CICLO DE VIDA DO T. CRUZI ................................................................................. 20 FIGURA 2 - INCIDÊNCIA DA DOENÇA DE CHAGAS NO MUNDO .................................................. 21 FIGURA 3 - SINAIS DE PORTA DE ENTRADA. (A) E (B) SINAL ROMAÑA. (C) E (D) CHAGOMA DE INOCULAÇÃO ................................................................................................................. 22 FIGURA 4 - ESTRUTURA QUÍMICA DO BZN ............................................................................. 25 FIGURA 5 - APLICAÇÃO DO POTENCIAL COM VARREDURA LINEAR PARA VOLTAMETRIA CÍCLICA ..................................................................................................................................... 34 FIGURA 6 - VOLTAMOGRAMAS CÍCLICOS PARA CARACTERÍSTICOS PARA OS DIFERENTES SISTEMAS DE REAÇÕES ELETRÓDICAS.............................................................................. 36 FIGURA 7 - (A) SINAIS DE EXCITAÇÃO PARA A VPD; ............................................................... 37 FIGURA 8- POTENCIOSTATO/GALVANOSTATO AUTOLAB® PGSTAT 128 N ............................ 44 FIGURA 9 - CÉLULA ELETROQUÍMICA ..................................................................................... 45 FIGURA 10 - PREPARO DA SOLUÇÃO ESTOQUE DE BZN ........................................................... 48 FIGURA 11- PREPARO DAS AMOSTRAS DE BZN FORTIFICADAS COM URINA.............................. 49 FIGURA 12 - PREPARO DAS AMOSTRAS DE BZN FORTIFICADAS COM CLN ............................... 51 FIGURA 13 - VOLTAMOGRAMA CÍCLICO DO BZN 1,00 X 10-4 MOL L-1 REGISTRADO EM TAMPÃO BR 0,10 MOL L-1 (PH 7,00). ELETRODO DE TRABALHO: GCE. ELETRODO AUXILIAR: PLATINA. ELETRODO DE REFERÊNCIA: AG/AGCL. INTERVALO DE VARREDURA: 0,20 A -1,20 V. V = 100 MV S -1 .......................................................................................................... 52 FIGURA 14 - VOLTAMOGRAMAS CÍCLICOS DO BZN 1,00. X 10-4 MOL L-1 REGISTRADOS EM TAMPÃO BR 0,10 MOL L-1 EM DIFERENTES VALORES DE PH. ELETRODO DE TRABALHO: GCE. ELETRODO AUXILIAR: PLATINA. ELETRODO DE REFERÊNCIA: AG/AGCL. INTERVALO DE VARREDURA: 0,10 A -1,00. ........................................................................................ 53 FIGURA 15 - RELAÇÃO CORRENTE DE PICO (IP) VS PH .............................................................. 53 FIGURA 16 - RELAÇÃO POTENCIAL DE PICO (EP) VS PH ............................................................ 54 FIGURA 17 - MECANISMO DE REDUÇÃO DO BZN .................................................................... 55 FIGURA 18 - VOLTAMOGRAMAS CÍCLICOS DE 1,00. 10-4MOL L-1 BZN EM DIFERENTES ELETRÓLITOS SUPORTE. INTERVALO DE VARREDURA: 0,10 A -1,00 V. VELOCIDADE DE VARREDURA = 100 MV S -1. ............................................................................................. 56 FIGURA 19 - VOLTAMOGRAMAS CÍCLICOS DO BZN 1,00. 10-4MOL L-1 REGISTRADOS EM TAMPÃO BR 0,10 MOL L -1 PH 7,00. INTERVALO DE VARREDURA: 0,10 A -1,20 V. VELOCIDADES DE VARREDURA = 10,0 A 800 MV S -1. .................................................................................. 57 FIGURA 20 - CORRENTE DE PICO (IP) EM FUNÇÃO DA RAIZ QUADRADA DA VELOCIDADE DE VARREDURA .................................................................................................................. 57 FIGURA 21 - LOG IP EM FUNÇÃO DE LOG V ............................................................................. 58 FIGURA 22 - VOLTAMOGRAMAS DE PULSO DIFERENCIAL DE UMA SOLUÇÃO DE BZN 1,00 X 10-4 MOL L-1 EM TAMPÃO BR 0,10 MOL L-1 PH 7,00; AMPLITUDE DE 30,0 MV E COM VELOCIDADES DE PULSO VARIANDO DE 1,00 A 10,0 MV S -1. INTERVALO DE VARREDURA: 0,10 A -1,20 V. .............................................................................................................. 60 FIGURA 23 - RELAÇÃO DA DEPENDÊNCIA DA CORRENTE DE PICO (IP) EM FUNÇÃO DA VELOCIDADE DO PULSO. ................................................................................................. 60 FIGURA 24 - VOLTAMOGRAMAS DE PULSO DIFERENCIAL DE UMA SOLUÇÃO DE BZN 1,00 X 10- 4MOL L-1 EM TAMPÃO BR 0,10 MOL L-1 PH 7,00; VELOCIDADE DO PULSO DE 6,00 MVS-1 E AMPLITUDE DE PULSO VARIANDO DE 10,0 A 100 MV, REGISTRADOS NO INTERVALO DE VARREDURA DE 0,10 A -1,20. ......................................................................................... 61 FIGURA 25 - DEPENDÊNCIA DA CORRENTE DE PICO (IP) EM FUNÇÃO DA AMPLITUDE DE PULSO (A) ..................................................................................................................................... 62 FIGURA 26 - VOLTAMOGRAMAS DE PULSO DIFERENCIAL DE SOLUÇÕES CONTENDO BZN NAS CONCENTRAÇÕES DE (A) 1,00 (B) 1,96 (C) 2,91 (D) 3,85 (E) 4,76 (F) 5,66 (G) 6,54(H) 7,41 (I) 8,26 (J) 9,09 (K)9,82 (L) 10,6 µMOL L -1 REGISTRADOSEM TAMPÃO BR 0,10 MOL L-1 PH 7,00; A V= 6,00 MV S-1 E AMPLITUDE DE 100 MV. INTERVALO DE VARREDURA: -0,10 A -1,00 V. ................................................................................................................................. 63 FIGURA 27 - CURVA ANALÍTICA: CORRENTE DE PICO (IP) EM FUNÇÃO DA CONCENTRAÇÃO DO BZN. ............................................................................................................................. 63 FIGURA 28 - VOLTAMOGRAMAS DE PULSO DIFERENCIAL REGISTRADOS PARA AS SOLUÇÕES CONTROLE 1 (VERMELHO), CONTROLE 2 (AZUL ESCURO), SOLUÇÃO BZN 9,00 µMOL L-1 (PRETO), CLN – BR (VERDE), CLN- BZN (AZUL CLARO) EM TAMPÃO BR 0,10 MOL L-1 PH 7,00; A V= 6,00 MV S-1 E AMPLITUDE DE 100 MV. INTERVALO DE VARREDURA: -0,10 A - 1,00 V. .......................................................................................................................... 67 LISTA DE TABELAS TABELA 1 - PROPRIEDADES FISICO-QUÍMICAS DO BZN ............................................................. 26 TABELA 2 - GRUPOS ELETROATIVOS. ...................................................................................... 32 TABELA 3 - CRITÉRIOS DE ACEITAÇÃO PARA ENSAIOS DE RECUPERAÇÃO ................................. 41 TABELA 4 - CRITÉRIOS DE ACEITAÇÃO PARA A REPRODUTIBILIDADE ........................................ 42 TABELA 5 - LISTA DOS REAGENTES QUÍMICOS UTILIZADOS, PROCEDÊNCIA E PUREZA. ............... 47 TABELA 6- DPR INTRA-DIA E INTER-DIA AVALIADOS PARA TRÊS NÍVEIS DE CONCENTRAÇÃO DE BZN ............................................................................................................................... 65 TABELA 7 - EFEITO DE ALGUNS COMPOSTOS INTERFERENTES NA DETERMINAÇÃO DO BZN EM URINA ............................................................................................................................ 66 TABELA 8 - RESULTADOS DA ADIÇÃO E RECUPERAÇÃO DE BZN EM AMOSTRAS ......................... 68 TABELA 9 - RESULTADOS DA ADIÇÃO E RECUPERAÇÃO DE BZN ................................................ 69 LISTA DE EQUAÇÕES Equação 1 – 𝐸 = 𝐸° − 𝑅𝑇/𝑛𝐹 ∑(𝜗𝑖 ln 𝑎𝑖) .......................................................................... 36 Equação 2 – 𝐼𝑝= -2,69 × 105 𝑛32 𝐴𝐷12 [O]∞ 𝑉12 ..................................................................... 37 Equação 3 – 𝐼𝑝= -2,99 × 105 𝑛(𝛼𝐶 𝑛)12 𝐴[O]∞ 𝐷12 𝑉12 ......................................................... 37 Equação 4 – 𝐼𝑝 = 𝑛𝐹𝐴𝐷12𝐶√𝜋𝑡𝑚 [1−𝜎1+𝜎] .......................................................................................... 39 Equação 5 – 𝐿𝐷 = 3,3 𝑥 𝑆𝑏𝑏 .................................................................................................... 41 Equação 6 – 𝐿𝑄 = 10 𝑥 𝑆𝑏𝑏 .................................................................................................... 42 Equação 7 – Recuperação(%) = 𝐶1− 𝐶2𝐶3 × 100 .................................................................. 43 Equação 8 – y = -0,24 (±0,03) - 0,06 (±0,01) x ................................................................... 56 Equação 9 – y = -4,18 (±0,02) + 0,44 (±0,01) x R = 0,998 ................................................. 60 Equação 10– Ip (μA) = -0,25 ± 0,01 [BZN] / μmol L−1 + 6,36 ± 7,41 x 10-9(μA)................. 66 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS a Amplitude de pulso Ag/AgCl Prata/Cloreto de prata ai Atividade ANVISA Agência Nacional de Vigilância Sanitária Bu4NBF4 Tetrafluorborato de tetrabutilamônio BZN Benznidazol b Coeficiente angular da curva analítica BR Britton-Robinson CCC Cardiopatia Chagásica Crônica CLN-BR Carreadores lipídicos nanoestruturados - branco CLN-BZN Carreadores lipídicos nanoestruturados incorporados ao Benznidazol DC Doença de Chagas DMSO Dimetilsulfóxido DNA Ácido desoxirribonucléico DTU Unidades discretas de tipagem DP Desvio padrão DPR Desvio padrão relativo EQM Eletrodos quimicamente modificados Ep Potencial de pico Epc Potencial de pico catódico FA Fase aquosa FO Fase oleosa GCE Eletrodo carbono vítreo (do inglês: glassy carbon electrode) GSH Glutationa Reduzida GSSG Glutationa Oxidada HPH Homogeneização de alta pressão i Corrente faradaíca IC Insuficiência cardíaca ICH Conferência Internacional de harmonização INMETRO Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial Ipc Corrente de pico Ipc Corrente de pico catódico Ks Velocidade de transferência de carga LD Limite de detecção LQ Limite de quantificação Log P Coeficiente de partição Log D Coeficiente de distribuição mL Mililitro mV Milivolt NADPH Nicotinamida adenina dinucleótido fosfato NFX Nifurtimox NLS Nanopartículas lipídicas sólidas NPL Nanopartículas lipídicas OMS Organização Mundial da Saúde pKa O negativo do logaritmo da constante de acidez, Ka R Coeficiente de correlação RDC Resolução da diretoria colegiada SCB Classificação biofarmacêutica SOD Superóxido dismutase SUS Sistema único de saúde T. cruzi Trypanossoma cruzi THF Tetraidrofurano v Velocidade de varredura v1/2 Raiz quadrada da velocidade de varredura V Volts VC Voltametria Cíclica VPD Voltametria de Pulso Diferencial µA Microampère α Coeficiente de transferência eletrônica SUMÁRIO 1 - INTRODUÇÃO .................................................................................................. 15 2 - OBJETIVOS ....................................................................................................... 17 2.1 - Objetivo geral ....................................................................................... 17 2.2- Objetivos específicos ............................................................................. 17 3 - REFERENCIAL TEÓRICO................................................................................ 18 3.1 Doença de Chagas .................................................................................. 18 3.2 Benzinidazol (BZN)................................................................................ 24 3.3 NPL ........................................................................................................ 27 3.3.1 BZN incorporado ao CLN (CLN-BZN) ..................................................... 29 3.4 Métodos de análise do BZN .................................................................... 29 3.5 Métodos eletro analíticos - Breve histórico ............................................. 30 3.6 Métodos eletroanalíticos - Aplicação ...................................................... 31 3.6.1 Voltametria cíclica (VC)............................................................................33 3.6.2 Voltametria de pulso diferencial (VPD) ..................................................... 36 3.7 Validação ............................................................................................... 37 3.7.1 Seletividade ............................................................................................... 38 3.7.2 Lineridade ................................................................................................. 38 3.7.3 Limite de detecção (LD) ............................................................................ 39 3.7.4 Limite de quantificação (LQ)..................................................................... 40 3.7.5 Exatidão .................................................................................................... 40 3.7.6 Precisão ..................................................................................................... 41 3.7.7 Robustez ................................................................................................... 42 4 - MATERIAIS E MÉTODOS ............................................................................... 44 4.1 Equipamentos utilizados ......................................................................... 44 4.1.1 Potenciostato ............................................................................................. 44 4.1.2 Célula eletroquímica e eletrodos ................................................................ 44 4.1.3 pHmetro .................................................................................................. 45 4.1.4 Agitador magnético ................................................................................... 45 4.1.5 Evaporador rotativo ................................................................................... 45 4.1.6 Filtro de seringa micropore Millex 0,45 UI ................................................ 45 4.1.7 Sonda de ultrassom de alta intensidade ...................................................... 46 4.2 Extração e purificação do BZN ............................................................... 46 4.3 Preparo das CLN .................................................................................... 46 4.4 Matérias primas, reagentes, e soluções. ................................................... 47 4.4.1 Matérias primas ......................................................................................... 47 4.4.2 Reagentes .................................................................................................. 47 4.4.3 Soluções .................................................................................................... 47 4.4.3.1 Solução estoque de BZN......................................................................... 47 4.4.3.2 Solução tampão Britton-Robinson (BR) .................................................. 48 4.4.3.3 Solução tampão fosfato........................................................................... 48 4.4.3.4 Solução tampão McIlvaine ..................................................................... 48 4.4.4 Preparo das amostras ................................................................................. 49 4.4.4.1 Preparo das amostras de urina para a determinação do BZN ................... 49 4.4.4.2 Preparo das amostras de CLN para a determinação do BZN.................... 49 4.4.4.3 Preparo das soluções para o estudo de interferentes na amostra de CLN-BZN..................................................................................................................... 50 4.5 Metodologia ........................................................................................... 51 4.5.1 Determinação do BZN em urina ................................................................ 51 4.5.2 Determinação do BZN em CLN ................................................................ 51 5 - RESULTADOS E DISCUSSÃO ......................................................................... 52 5.1 – Voltametria cíclica (VC) ...................................................................... 52 5.1.1 – Perfil da redução do BZN sobre a superfície do GCE .............................. 52 5.1.2 – Variação do pH....................................................................................... 52 5.1.3 – Escolha do eletrólito suporte ................................................................... 55 5.1.4 – Estudo da variação da velocidade de varredura ....................................... 56 5.2 – Otimização dos parâmetros experimentais da VPD .............................. 58 5.2.1 – Estudo da variação da velocidade de varredura (v) .................................. 59 5.2.2 – Estudo da variação da amplitude de pulso (a) ......................................... 61 5.3 - Avaliação da linearidade do método ..................................................... 62 5.4 - Avaliação da precisão do método .......................................................... 64 5.5 - Avaliação da seletividade do método proposto para análise de BZN em urina e na formulação farmacêutica ......................................................................... 65 5.5.1 - Estudo de interferentes na urina ............................................................... 65 5.5.2 – Estudo de interferentes na formulação farmacêutica ............................... 66 5.6 - Avaliação da exatidão do método proposto para análise de BZN........... 67 5.6.1 - Adição e recuperação na amostra de urina ............................................... 67 6 - CONCLUSÃO .................................................................................................... 70 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 71 15 1 - INTRODUÇÃO A doença de Chagas (DC) é uma doença de grande impacto social, especialmente em países da América Latina, estando no ranking da Organização Mundial da Saúde (OMS) entre as 17 doenças tropicais mais negligenciadas do mundo (FERREIRA et al., 2019). Atualmente, o benznidazol (BZN) é o único medicamento disponível para o tratamento da doença no Brasil e na maioria dos países da América Latina (RIBEIRO, V., et al., 2020 ). Trata-se de um derivado nitroimidazólico, usado especialmente na fase aguda da doença, na fase crônica ou em episódios de reativação, o BZN é menos eficaz e induz a inúmeras reações adversas (ALDASORO et al., 2018; COURA et al., 1997). Devido à importância mundial do controle da DC, especialmente na América latina, a falta de fármacos disponíveis para o tratamento desta doença e a toxicidade do BZN, se torna extremamente importante o desenvolvimento de um método eficaz de quantificação desse fármaco. As metodologias de análise recomendadas em monografias oficiais para análises farmacêuticas são, em sua maioria, realizadas empregando técnicas espectrofotométricas e cromatográficas (BRITISH PHARMACOPOEIA, 2011; FARMACÓPEIA BRASILEIRA, 2019; UNITED STATES PHARMACOPEIA, 2011). Buscando métodos alternativos, as técnicas eletroanalíticas têm sido cada vez mais empregadas por analistas e vem ganhando espaço nos últimos anos como métodos alternativos e complementares de análises farmacêuticas (WANG, 2002). Essas técnicas são capazes de fornecer limites de detecção baixos e um amplo conjunto de informações capazes de descrever e caracterizar um sistema eletroquímico. Uma das principais vantagens dos métodos eletroquímicos quando comparados aos cromatográficos é a possibilidade de análise direta da amostra, sem a necessidade de etapas de separação preliminares (GALLI et al., 2006) o que pode levar a uma redução considerável do consumo de solventes durante a análise. Além disso, esses métodos possuem baixo custo 16 de instrumentação, simplicidade, alta sensibilidade, seletividade e rapidez de análise (WANG;COMPTON, 2021). A voltametria é uma técnica eletroanalítica baseada nos fenômenos que ocorrem na interface eletrodo de trabalho - solução. Entre os vários tipos de materiais que podem ser utilizados na fabricação de eletrodos de trabalho, o carbono apresenta vantagens como: baixo custo, ampla janela de potencial e atividade eletrocatalítica para uma variedade de reações redox. Além disso, é um material relativamente inerte. (MCCREERY, 2008). A partir de uma busca na literatura utilizando como fontes de busca o google acadêmico e o Science Research não foi possível encontrar trabalhos eletroquímicos para a determinação do BZN em nenhum tipo de amostra utilizando a técnica de Voltametria de Pulso Diferencial (VPD). Assim este trabalho apresenta pela primeira vez uma metodologia utilizando a técnica VPD para análise e determinação de BZN em amostras de urina e em uma formulação farmacêutica de BZN incorporado a carreadores lipídicos nanoestruturados (CLN-BZN) utilizando o eletrodo carbono vítreo (GCE) como eletrodo de trabalho. 17 2 – OBJETIVOS 2.1 - Objetivo geral Desenvolver uma metodologia eletroanalítica para a análise do BZN e aplicá-la na determinação do mesmo em amostras de urina e em CLN-BZN. 2.2- Objetivos específicos ● Determinar a resposta voltamétrica das soluções contendo o BZN e a influência do pH e dos diferentes eletrólitos nestas respostas; ● Obter informações sobre o potencial redox e o número de elétrons para a reação química de redução do BZN; ● Otimizar os parâmetros da técnica VPD; ● Desenvolver uma metodologia eletroanalítica nas condições otimizadas para a quantificação do BZN; ● Aplicar a metodologia desenvolvida na análise de urina ● Aplicar a metodologia desenvolvida na análise de CLN-BZN 18 3 - REFERENCIAL TEÓRICO 3.1 Doença de Chagas A DC é uma antropozoonose causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi (T. Cruzi) que foi descoberta no Brasil em 1909 pelo médico Carlos Chagas (ECHEVERRIA; MORILLO, 2019; BERN et al., 2019; LIDANI et al., 2019). O médico, após isolar o T. cruzi, elucidou todo o ciclo biológico da doença e posteriormente identificou o vetor e o hospedeiro (BERN et al., 2019; DIAS et al., 2009; LIDANI et al., 2019; RASSI JR ; RASSI; MARIN-NETO, 2010). Porém, há evidências de que a doença pode ter surgido antes de Cristo, uma vez que vários estudos isolaram o T. cruzi em tecido de múmias andinas pré-colombianas datadas de 7050 aC. (ECHEVERRIA; MORILLO, 2019 ). Há a estimativa de que cerca de sete milhões de pessoas em todo o mundo estejam infectadas com a doença, que é encontrada principalmente em áreas endêmicas de países da América Latina (WHO, 2021). O T. cruzi, possui capacidade de infectar qualquer célula, especialmente macrófagos, fibroblastos e células epiteliais (LIDANI et al., 2019). Trata-se de um parasita intracelular hemoflagelado pertencente à ordem Kinetoplastida, família Trypanosomatidae. (LIDANI et al., 2019; SOBRINHO et al., 2007). Ele faz parte de um ecossistema exclusivamente americano, e pode ser encontrado desde o sul dos Estados Unidos até o sul da Argentina e do Chile (SOBRINHO et al., 2007). O parasita possui três formas morfológicas principais durante o seu ciclo de vida: amastigota, epimastigota e tripomastigota. As duas primeiras são formas proliferativas que se replicam por fissão binária. A primeira é encontrada nas células de mamíferos e a segunda no intestino do vetor triatomíneo. A forma tripomastigota, é a forma infectante, não é replicativa e pode ser encontrada na corrente sanguínea do hospedeiro ou no reto e nas fezes de vetores (BERN et al., 2019; RASSI JR; RASSI; MARIN-NETO, 2010, LIDANI et al., 2019 ; SOBRINHO et al., 2007). O parasito é transmitido ao homem através de um vetor. Os insetos hematófagos transmissores da DC são conhecidos no Brasil principalmente 19 como “barbeiro” ou “percevejo”, porém recebem inúmeros nomes vulgares, dependendo do país e da região que se encontram. Trata-se de insetos pertencente à ordem Heteroptera, família Reduviidae, subfamília triatominiae (GALVÃO, 2014; VERMELHO; RODRIGUES; SUPURAN, 2020). Aproximadamente 140 espécies de triatomíneos são capazes de transmitir o T. cruzi, mas as principais responsáveis pela transmissão desse parasita ao homem são aquelas propensas a habitar ambientes domésticos. Entre essas espécies estão o Triatoma infestans e Panstrongylus megistus em alguns países da América do Sul, Triatoma dimidiata no sul do México e América Central e Rhodnius prolixus na América Central e norte da América do Sul (RASSI JR; RASSI; MARIN-NETO, 2010). Embora o Triatoma infestans tenha sido erradicado do Brasil em 2006 (FERREIRA; SILVA, 2006), o país possui uma enorme diversidade de outas espécies, principalmente na região Nordeste. Essas espécies possuem hábitos noturnos e são comumente encontradas em ambientes domésticos e locais escuros, como fendas em paredes, atrás de móveis ou dentro de currais (BERN et al., 2019) sendo mais comum em áreas pobres e regiões rurais, priorizando pessoas socialmente excluídas (KIRCHHOFF, 1993). Sendo assim, a transmissão vetorial da DC está relacionada com os aspectos sociais, culturais e econômicos de uma população. Existem inúmeros mamíferos que são reservatórios da doença. Animais como macacos, gambás, tatus, roedores, preguiça e morcegos são reservatórios silvestres da doença; cães, gatos, ratos domésticos são exemplos de reservatórios domésticos (DIAS, 1992). O ciclo de vida do T. cruzi se inicia quando o triatomíneo se alimenta do sangue do homem ou animal infectado (CLAYTON, 2010). Ao se alimentar, o inseto elimina suas fezes e urina na pele do hospedeiro, que ao coçar o local da picada ou levar a mão nas mucosas permite a entrada do parasito na corrente sanguínea, nas formas tripomastigotas metacíclicas, que são capazes de invadir várias células. Dentro das células, o parasita assume a forma amastigota, que se multiplica por divisão binária e após a multiplicação se diferenciam novamente em tripomastigotas, que destroem as células e ficam circulantes na corrente sanguínea, podendo infectar novas células. A partir de então, se o triatomíneo picar um hospedeiro infectado e 20 ingerir os tripomastigotas circulantes, estes irão se diferenciar em epimastigotas no intestino médio do inseto, e essas epimastigotas posteriormente se multiplicarão e irão se diferenciar em tripomastigotas metacíclicas no intestino posterior do triatomíneo, dando início ao um novo ciclo de transmissão (PÉREZ-MOLINA; MOLINA, 2018, RASSI JR; RASSI; MARIN-NETO, 2010). O ciclo de vida do T. cruzi está esquematizado na Figura 1. Figura 1 - Ciclo de vida do T. cruzi 1-Picada do triatomíneo e passagem dos trypanosomas para o hospedeiro (na forma tripomastigota) pelas fezes do inseto. 2-Penetração das tripomastigotas nas células e diferenciação em amastigotas. 3- Multiplicação das formas amastigotas por divisão binária. 4-As formas amastigotas intracelulares se transformam em tripomastigoas saem da célula e entram na corrente sanguínea. 4.1- As formas tripomastigotas podem infectar outras células e tornam a se transformar em amastigotas intracelulares, em novos locais de infecção. Podem ficar visíveis os sintomas clínicos nesse ponto. 5- Picada do triatomíneo (hospedeiro infectado) e ingestão de protozoários na forma tripomastigota pelo inseto. 6-Trypanosomas na forma epimastigota no estômago do inseto 7-Multiplicação dos trypanosomas no estômago do inseto.8-Trypanosomas na forma tripomastigota no intestino do inseto. Fonte: Wikpédia. Adaptado. Além deste ciclo de vida complexo, o parasita possui um polimorfismo genético considerável. As espécies de T. cruzi possuem uma grande variedade de genótipos e fenótipos relatados até agora. Atualmenteas cepas No triatomíneo No hospedeiro 4.1 Início da infecção Diagnóstico 21 do parasita são divididas em sete unidades discretas de tiapagem (Discrete Typing Unit - DTUs), designinadas de TcI até TcVI e a TcBat, identificada em morcegos recentemente (LIMA et al., 2014; VERMELHO; RODRIGUES; SUPURAN, 2020) e cada DTU contém várias cepas que possuem grande diversidade genotípica e fenotípica (VERMELHO; RODRIGUES; SUPURAN, 2020). Embora em menor proporção, a DC também pode ser transmitida por outros mecanismos, como; por via oral (através da ingestão de água ou alimentos contaminados), por transfusão sanguínea ou por transmissão vertical durante a gestação (ALDASORO et al., 2018; ECHEVERRIA, 2019; BERN, 2019). A transmissão do T. cruzi por transfusão sanguínea é a principal forma de transmissão em países não endêmicos (PÉREZ- MOLINA; MOLINA, 2018) e nas últimas décadas, um grande aumento no número de casos nesses países tem sido observado. Isso pode ser considerado como um impacto da migração legal e ilegal para esses países, tornando a doença um problema de saúde pública mundial (CONNERS et al., 2016). Nesse contexto, a doença já está presente em países não endêmicos da América do Norte, Europa e região do Pacífico Ocidental (LIDANI et al., 2019). (FIG. 2) Figura 2 - Incidência da doença de Chagas no mundo Fonte: Drugs for neglected disease initiative. Adaptada. A DC apresenta fisiopatologia complexa e apresenta duas fases: A fase aguda e a fase crônica. A primeira é caracterizada por uma alta parasitemia, geralmente assintomática (BARRETT et al., 2003; PÉREZ- MOLINA; MOLINA, 2018). Quando ocorrem manifestações sintomáticas como febre prolongada, cefaleia e esplenomegalia, geralmente cessam em 22 60 dias, mesmo sem nenhum tratamento (BARRETT et al., 2003). Os sinais clínicos típicos nessa fase da doença são o sinal Romaña e o chagoma de inoculação (FIG. 3). (ALEXANDRE et al., 2014, Pérez-Molina; Molina, 2018, RASSI et al., 2010). O sinal Romaña é o sinal de porta de entrada do parasita através das membranas oculares e é caracterizado por um inchaço indolor de uma ou ambas as pálpebras de um olho. O chagoma de inoculação é o sinal de porta de entrada do parasita através da pele e é caracterizado por uma lesão eritematosa, cercada por inchaço e indolor (RASSI et al., 2010). A doença aguda grave pode ocorrer em até 5% dos pacientes e inclui manifestações como miocardite aguda, derrame do pericárdico e meningoencefalite, podendo ser letal (PÉREZ-MOLINA; MOLINA, 2018). Figura 3 - Sinais de porta de entrada. (A) e (B) Sinal Romaña. (C) e (D) Chagoma de inoculação Fonte: RASSI et al., 2010. Com a diminuição da parasitemia para níveis indetectáveis, tem início a fase crônica, na qual estão presentes duas formas da doença: indeterminada (latente, pré-clínica) e determinada (clínica). A forma clínica se subdivide nas formas cardíaca, digestiva e cardiodigestiva (RASSI et al., 2010). A forma indeterminada representa até 70% dos casos de pacientes chagásicos crônicos. Nesta forma da doença os pacientes que apresentaram ou não os sintomas durante a fase aguda, nunca desenvolverão a doença clinicamente aparente. Os pacientes que desenvolverão uma forma determinada da doença poderão desenvolver as formas cardíaca, digestiva (megaoesôfago e megacólon) ou cardiodigestiva. Isso pode ocorrer décadas https://www.sciencedirect.com/topics/medicine-and-dentistry/myocarditis https://www.sciencedirect.com/topics/medicine-and-dentistry/pericardial-fluid https://www.sciencedirect.com/topics/medicine-and-dentistry/pericardial-fluid https://www.sciencedirect.com/topics/medicine-and-dentistry/meningoencephalitis 23 após a infecção inicial (CARVALHO; GOLDENBERG; CAMPOS DE CARVALHO, 2017; RASSI et al., 2010; PÉREZ-MOLINA; MOLINA, 2018.). A forma cardíaca, conhecida como cardiomiopatia chagásica crônica (CCC) geralmente manifesta-se por arritmias cardíacas, insuficiência cardíaca (IC) e tromboembolismo. As arritmias são responsáveis pela maioria das mortes na cardiomiopatia chagásica, podendo levar os pacientes a morte súbita. A IC é a segunda causa de morte mais comum, além de impactar negativamente a qualidade de vida do paciente. O tromboembolismo é responsável pelas mortes restantes, sendo o cérebro o local mais comumente afetado, causando acidentes vasculares cerebrais (CARVALHO; GOLDENBERG; CAMPOS DE CARVALHO, 2017). A forma digestiva é caracterizada pela formação de megacólon e megaesôfago. Isso ocorre devido à dilatação crônica destas vísceras por destruição dos plexos mioentéricos de Meissner e Auerbach. O Megaesôfago causa dificuldade de deglutição, dor epigástrica e regurgitação, podendo levar à desnutrição do paciente. O megacólon causa constipação grave e distensão abdominal, podendo levar a complicações como obstrução intestinal e/ou constipação crônica (CARVALHO; GOLDENBERG; CAMPOS DE CARVALHO, 2017; SALVADORI et al., 2018). A forma cardiogestiva é a associação das formas cardíaca e digestiva (RASSI et al., 2010). Mesmo após mais de um século da descoberta da DC apenas dois fármacos têm se demonstrado eficaz contra o T. cruzi e são aprovados pela FDA (Food and Drug Administration) para o tratamento da doença: o nifurtimox (NFX) e o BZN (KRATZ, 2019; PERON et al., 2017; PÉREZ- MOLINA; MOLINA, 2018; VERMELHO; RODRIGUES; SUPURAN, 2020). O NFX foi o primeiro medicamento proposto para o tratamento da DC, age impedindo o metabolismo dos carboidratos do T. cruzi através da inibição da síntese do ácido pirúvico (BERN et al., 2019). O BZN é considerado o fármaco de primeira escolha, uma vez que o mesmo possui melhor tolerância e dados de eficácia mais abrangentes (BERN et al., 2019). Além disso, é único tratamento disponível no Brasil e na maioria dos países da América Latina atualmente (PERON et al., 2017; PÉREZ-MOLINA; 24 MOLINA, 2018). Os dois fármacos possuem reações adversas semelhantes. (VERMELHO; RODRIGUES; SUPURAN, 2020), porém o NFX possui menor tolerância digestiva, o que pode levar o paciente à anorexia (BERN et al., 2019; DIAS et al., 2016). Tanto o BZN quanto o NFX exibem alta taxa de cura na fase aguda da doença, porém ainda não há um consenso sobre a efetividade do uso dos mesmos na fase crônica. Muitos fármacos foram propostos como candidatos a tratamento da doença. Os azóis posaconazol e ravuconazol foram testados em estudos recentes, mas até então nenhum mostrou eficácia terapêutica aceitável. (BERN et al., 2019; KRATZ, 2019; VERMELHO; RODRIGUES; SUPURAN, 2020 ). Apesar disso, esses fármacos podem ser úteis em algumas situações específicas, como por exemplo, nas reativações em imunodeprimidos, se houver impossibilidade do uso do tratamento de escolha. Outros antifúngicos azólicos como cetoconazol, itraconazol, fluconazol e o alopurinol também podem ser utilizados nessas condições, uma vez que são reconhecidos como supressores da parasitemia por T. cruzi (DIAS et al., 2016). O fato de o parasita possuir uma grande diversidade genética torna mais difícil à descoberta de novos fármacos para o seu tratamento. Isso acorre porque os protocolos de triagem para obtenção de novas drogas incluem apenas cepas de referência contra T. cruzi e o critério para a escolha de uma cepa de referência não é científico, a seleção é baseada em disponibilidade e experiência histórica (VERMELHO; RODRIGUES; SUPURAN, 2020). 3.2 Benzinidazol (BZN) O BZN [N-benzyl-(2-nitroimidazol) acetamida], (Figura 4) foi desenvolvido inicialmente, em 1972, no Brasil, pela farmacêutica Roche (Rochagan® e Radanil®). Atualmente é fabricado exclusivamente pelo Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe), no Brasil e pelo laboratório privado Elea (Abarax®), Argentina (RIBEIRO et al., 2020). Em 2018 tornou-se comercialmente disponível nos Estados Unidos,onde é comercializado pela Exeltis, uma divisão americana da Insud Pharma (BERN et al., 2019). 25 É comercializado no Brasil nas dosagens de 100 e 12,5 mg, para uso adulto e pediátrico, respectivamente. A dose diária recomendada para o tratamento é de 5 a 10 mg por Kg (durante 60 dias). No Brasil o medicamento é distribuído gratuitamente pelo Sistema único de Saúde (SUS) e não há distribuição ao mercado farmacêutico geral (DIAS et al., 2016; FERREIRA et al., 2019). Figura 4 - Estrutura química do BZN Fonte: STRECK et al., 2011 O BZN é pouco solúvel em água, sendo muito solúvel em dimetilsufóxido (DMSO) e fracamente solúvel em solventes como etanol e metanol (FARMACOPEIA BRASILEIRA, 2019). Não há um consenso entre os autores sobre a sua classificação no sistema de classificação biofarmacêutica (SCB), havendo divergências entre diferentes trabalhos que analisaram as suas características. O SCB divide os fármacos em classes de acordo com a solubilidade aquosa e a permeabilidade intestinal. Alguns autores como De Moura et al. (2018) classificam o BZN como pertencente ao grupo II, fármacos com baixa solubilidade e alta permeabilidade; outros como Kasim et al. (2004) acreditam que o fármaco pertence ao grupo III, ou seja, alta solubilidade e baixa permeabilidade; de acordo com estudos de Maximiano; Costa; e Souza (2010) ele seria classificado como grupo IV : baixa solubilidade e baixa permeabilidade. Algumas propriedades físico- químicas do BZN estão resumidas na Tabela 1, abaixo: 26 Tabela 1 - Propriedades fisico-químicas do BZN Solubilidade molar 1,50. 10-3 mol / L* Densidade 1,35 g/cm3** Coeficiente de partição (log P) 0,910 ± (0.554)* * Temp: 25,0 °C, pH 7,00 ** Temp: 20,0 °C, Press: 760 Torr Fonte: Dados obtidos do Scifinder (2021) O BZN é administrado por via oral, sua absorção é rápida e quase completamente pelo trato gastrointestinal. É metabolizado pelo fígado, com biotransformação parcial (RIBEIRO et al., 2009). Segundo um estudo realizado por PERIN et al. (2017) a biodistribuição do BNZ é extensa, atingindo órgãos como o coração e cólon, que são os órgãos mais relevantes afetados pela infecção pelo T. cruzi; esse estudo também sugere que o fármaco possui uma baixa biodisponibilidade e inadequada biodistribuição, devido a sua baixa solubilidade aquosa. O tempo de meia vida plasmática é de aproximadamente 12 horas, sendo o pico em 3,5 horas, com concentrações máximas de 2,20 μg / mL (MOLINA et al., 2017). Sua taxa de ligação a proteínas plasmáticas é de 44,0%, atingindo sua concentração máxima (2,22 a 2,80 μg/ml) em 2 a 4 horas (RIBEIRO, C., et al., 2009). É excretado pela urina e fezes, tanto na forma inalterada como de seus metabólitos (RAAFLAUB, 1980). De acordo com Workman et al., (1984) 5,00% do fármaco é excretado em sua forma inalterada na urina. O mecanismo de ação do BZN até hoje não está completamente elucidado. Vários estudos têm atribuído diferentes mecanismos de ação ao BZN (TEMPERTON et al., 1998; PEDROSA et al., 2001; MAYA et al., 2007; DIAS et al., 2009).O mais aceito sugere que o BZN atua após a sua ativação por uma reação catalisada por enzimas nitroredutases tipo I (TcNTR). Neste processo as TcNTR dependentes de NADH reduzem o resíduo 2-nitroimidazol do BZN a hidroxilamina em uma transferência de duas etapas (dois elétrons por etapa). A hidroxilamina é convertida em dialdeído glioxal, que é altamente reativo e capaz de formar ligações covalentes em DNA, RNA e proteínas do parasita, promovendo assim dano oxidativo e perda da capacidade de reprodução ao T. cruzi (CALDAS, SANTOS, NOVAES,2019; PAULAI, SERRANO, TAVARES, 2009; 27 RIBEIRO, C., et al., 2009 ; DIAS et al., 2009). Porém, devido a sua alta reatividade, essas espécies reativas formadas podem atuar também em outros sistemas, como por exemplo, no hospedeiro (humano), o que justifica os efeitos citotóxicos do medicamento (RIBEIRO, C., et al., 2009; DIAS et al., 2009). Como citado anteriormente o BZN possui efeitos citotóxicos, e esses são de grande relevância no tratamento. Ferreira et. al., (2019) evidenciam que 38% dos pacientes podem apresentar reações adversas ao tratamento, oque pode levar ao abandono do mesmo. Vários estudos foram realizados com pacientes durante o tratamento medicamentoso com o BZN para identificar a natureza dessas reações. As principais incluem Rash cutâneo, tremores, cefaleia, sintomas gastrointestinais, náuseas, vômitos, anemia, problemas respiratórios e até mesmo sintomas neurológicos. Essas reações variam de acordo com alguns fatores como idade do paciente e esquema terapêutico adotado (CHIAPPAUX et al., 2013 ; COURA et al., 1997; DE ANDRADE et al., 1996; ESTANI et al., 1988; MORILO et al., 2015). Uma alternativa para reduzir esses efeitos adversos seria a encapsulação desses fármacos em nanopartículas lipídicas (NPL). 3.3 NPL As NPL são sistemas de liberação de fármacos, desenvolvidas nos anos 90, como um sistema alternativo de encapsulação de princípios ativos em relação aos sistemas coloidais tradicionais, como emulsões, lipossomas, nanoemulsões e nanopartículas (SOUTO et al., 2011). As NPL são capazes de aumentar a solubilidade e a permeabilidade do fármaco, além de direcioná-lo ao alvo específico diminuindo assim a sua toxicidade (ALMEIDA et al., 2017). Além disso, aumentam a estabilidade química do fármaco, pois são capazes de protegê-lo contra a degradação no trato gastrointestinal e durante o seu armazenamento (SHUKLA et al., 2018). O fato de a matriz lipídica ser feita de lipídios fisiológicos é uma vantagem, pois são biocompatíveis, oque diminui o risco de toxicidade aguda e crônica (MEHNERT; MÄDER, 2002). https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0169409X12002815#! https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0169409X12002815#! 28 Nanopartículas lipídicas sólidas (NLS) correspondem à primeira geração de partículas transportadoras lipídicas de matriz sólida (LOPES et al., 2018). Essas partículas possuem diâmetro entre aproximadamente 50 e 1000 nm e são produzidas principalmente pelo método de homogeneização, geralmente pelo uso de homogeneização de alta pressão (HPH) (BATTAGLIA; GALLARATE, 2012; SHUKLA et al., 2018). As NLS possuem propriedades únicas, como grande área de superfície, alta capacidade para o carreamento de drogas, direcionamento específico do local de ação, facilidade de produção em larga escala usando a técnica de HPH e aumento da biodisponibilidade de qualquer agente terapêutico (GHASEMIYEH; MOHAMMADI-SAMANI, 2018; SHUKLA et al., 2018). Os ingredientes gerais para a preparação das NLS incluem lipídios sólidos (triglicerídeos, ácidos graxos, esteroides ou ceras) surfactante(s) não iônicos e água (MEHNERT; MÄDER, 2002; SHUKLA et al., 2018). Os lipídios usados para a preparação dos NLS devem ser biocompatíveis, biodegradáveis e sólidos à temperatura ambiente (SHUKLA et al., 2018). Apesar de possuir muitas vantagens, esse tipo de NLP possui algumas limitações. Logo após a sua produção, o lipídio sólido recristaliza em formas polimórficas instáveis (α e β0) e com o tempo tendem a transitar para formas mais estáveis, que são as modificações βi e β. Essas transações polimórficas podem levar o fármaco a ser expelido da matriz, o que limita a sua capacidade de carreamento e ele pode não ser capaz de atingir os níveis terapêuticos desejados. Além disso, pode haver uma mudança no perfil de liberação do medicamento durante o tempo de armazenamento, o que contribui para uma diminuição da estabilidade física do NLS em longo prazo (LOPES et al., 2018). Os Carreadores Lipídicos Nanoestruturados (CLN) foram desenvolvidos como uma segunda geração de NLS, com o objetivo de contornar as limitações mencionadas (COLA et al., 2016; LOPES et al., 2018). Diferentedas NLS a fase lipídica dos CLNs é composta por uma mistura de um lipídeo sólido e um lipídio líquido (um óleo, por exemplo). A presença do óleo evita a recristalização perfeita do lipídio sólido, e apesar da inserção do óleo, a matriz lipídica continua sendo sólida em temperatura ambiente e corporal (LOPES et al., 2018). https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0169409X12002815#! https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0169409X12002815#! 29 3.3.1 BZN incorporado ao CLN (CLN-BZN) Como se sabe, a solubilidade é um parâmetro fundamental para a avaliação da taxa de absorção, permeabilidade e biodisponibilidade de um fármaco. Sendo assim, através de tecnologias farmacêuticas que conseguem melhorar a solubilidade e consequentemente a dissolução do fármaco é possível aperfeiçoar seu potencial terapêutico e eficácia, além de obter uma redução de seus efeitos colaterais (DE MOURA et al., 2018). Neste contexto, e diante das vantagens expostas dos CLNs, Silva (2019) propôs um estudo com o objetivo de desenvolver, caracterizar e avaliar a eficácia tripanocida in vitro dos CLN contendo o BZN (CNL-BZN). Através das avaliações da estabilidade preliminar, da atividade hemolítica, da viabilidade celular e da atividade tripanocida; a autora verificou que esta formulação desenvolvida se mostrou promissora contra a forma amastigota do parasita e dessa forma apresenta potencial para o tratamento da DC. Esta formulação (CLN-BZN) foi utilizada no presente estudo para a quantificação do BZN. 3.4 Métodos de análise do BZN Alguns trabalhos que tratam do desenvolvimento de métodos para a determinação e quantificação do BZN em diferentes tipos de amostras têm sido descritos na literatura, utilizando principalmente técnicas cromatográficas como HPLC-UV (BUFFER; CASTRO; FANELLI 2011; GUERRERO et al., 2011; MARSÓN et al., 2015; PADRÓ et al., 2015 WALTON; WORKMAN 1986), HPLC-PDA (ALMEIDA et al., 2017), UHPLC-UV (DAVANÇO; DE CAMPOS; PECCININI, 2015) LC- MS/MS (MARTÍNEZ et al., 2015), LC-UV (PADRÓ et al., 2013); e Espectrofotometria UV-Vis (PINHO et al., 2016; STRECK et al., 2011). Uma busca na literatura utilizando como fontes de busca o google acadêmico e o Science Research revelou que existem poucos estudos empregando métodos eletroquímicos para o estudo do BZN. O grupo de La- Scalea et al., (2002) investigou a redução eletroquímica do BZN a fim de obter informações sobre o seu mecanismo cinético e eletródico por VC 30 utilizando o GCE como eletrodo de trabalho; e o grupo de Arguelho; Silva; Stradiotto; (2001) utilizou a técnica VPD com a finalidade de esclarecer a ação citotóxica do BZN, usando um eletrodo quimicamente modificado (EQM), preparado pela modificação de um eletrodo de GCE com DNA. O único estudo eletroquímico com a finalidade de desenvolver um método para a quantificação do BZN em amostras reais foi encontrado no trabalho de Barbeira et al., (1999), onde os autores usaram a polarografia de pulso diferencial para desenvolver um método de análise do BZN em formulações farmacêuticas. O comportamento polarográfico do BZN foi estudado usando como eletrólito suporte uma solução de tetrafluorborato de tetrabutilamônio (Bu4NBF4 / 0,10 mol/L-1) solubilizado em uma solução de DMSO. Foram usadas a polarografia de pulso normal e de pulso diferencial no intervalo de potencial de -0,40 a -1,40 V e foi encontrado um pico de redução irreversível no potencial de -0,97V. A determinação nos comprimidos de BZN (100 mg) foi feita pelo método de adição padrão obtendo-se o intervalo linear de 1,00 x 10-6 a 5,00 x 10-3mol L-1, na qual foram obtidos um limite de detecção de 4,00 x 10-7 mol L-1 e um desvio padrão de 9,00 %. No entanto, como pode se verificar, a amostra analisada pelos autores é diferente das amostras empregadas no presente estudo, e além disso, os autores utilizam a técnica de polarografia que faz uso do eletrodo de mercúrio como eletrodo de trabalho, o qual está em crescente desuso atualmente devido, entre outros fatores, à toxidade do mercúrio (SOUZA et al., 2011). 3.5 Métodos eletro analíticos - Breve histórico A Eletroanalítica teve seu grande reconhecimento mundial em 1922 quando Jaroslav Heyrovsky desenvolveu a técnica da polarografia que lhe rendeu o prêmio Nobel em 1959. Anos depois, Royce W. Murray, em 1975, trouxe um novo foco para a eletroanalítica propondo que a modificação do eletrodo de trabalho com imobilização ou incorporação de grupos químicos específicos poderia melhorar a detecção da técnica, a seletividade e a interação entre o analito e o eletrodo, gerando maior aplicabilidade analítica (ZANONI et al., 2017). 31 Ainda na década de 50, com o desenvolvimento das técnicas de pulso, houve um grande aumento de sensibilidade nas análises eletroanalíticas, uma vez que esta técnica é mais sensível do que a de pulso normal, pois ela possibilita a minimização da contribuição da corrente capacitiva no sinal obtido (SOUZA; MACHADO; AVACA; 2003). Além disso, o desenvolvimento sistemas eletroquímicos miniaturizados, fáceis de usar e “ecologicamente corretos” trouxe enormes avanços (WANG, 2002). Nos dias atuais, a evolução eletroanalítica é gigantesca, incluindo o desenvolvimento de eletrodos serigrafados (DOS SANTOS, 2019), eletrodos seletivos de íons de membrana, ultramicroeletrodos, o acoplamento de componentes biológicos com transdutores elétricos, (ZANONI et al., 2017; WANG, 2002) e a fabricação de dispositivos moleculares (PEREIRA et al., 2018, ZANONI et al., 2017; WANG, 2002). Essa ampla variedade de dispositivos levou ao aprimoramento das análises eletroanalíticas em várias áreas do conhecimento permitindo até mesmo a análise in situ, o que oferece inúmeras vantagens. Os sensores químicos amperométricos, por exemplo, dominam o mercado de sensores de glicose no sangue (WANG; COMPTON, 2021). Todos esses fatores levaram a um grande aumento na popularidade da eletroanálise e a sua expansão e aceitação para novas áreas e ambientes. 3.6 Métodos eletroanalíticos - Aplicação As técnicas eletroanalíticas são eficientes para determinação de analitos relacionando os processos e fatores que afetam o transporte de carga através da interface entre as fases químicas, como por exemplo, entre um condutor eletrônico (um eletrodo) e um condutor iônico (um eletrólito) (BARD; FAULKNER, 2001). As técnicas voltamétricas utilizam propriedades elétricas mensuráveis do composto em estudo como corrente, potencial e carga como parâmetros químicos. Sendo assim, em teoria, a única exigência para uma análise voltamétrica é que ocorra na solução em que o analito está presente um processo eletroquímico de oxidação ou redução mensurável em um tempo razoável (BASSET et al., 2002; GALLI et al., 2006). Isto significa que a técnica pode ser aplicada a maior parte dos 32 metais, ânions e a muitas espécies orgânicas (BASSET et al., 2002) . Na Tabela 2 temos um resumo dos principais grupos eletroativos. Tabela 2 - Grupos eletroativos. Grupos Eletrônicos Eletroativos Acetilenos Aldeídos Aromáticos conjugados Ácidos carboxílicos conjugados Compostos diazo Dienos: Ligações duplas conjugadas Dissulfetos Halogenetos Heterociclos Nitrilas Compostos nitro e nitrosos Peróxidos Quinonas Sulfetos Fonte: BASSET et al., 2002. Adaptado Os métodos eletroanalíticos podem ser divididos em interfaciais (baseados em fenômenos observados na interface entre a superfície do eletrodo e a fina camada adjacente) e não interfaciais (baseados em fenômenos que ocorrem no seio da solução). Entre os métodos interfaciais podemos distinguir os dinâmicos (na presença de corrente elétrica) e os estáticos (sem a presença de corrente elétrica). A voltametria esta entre as técnicas eletroanalíticas interfaciais dinâmicas (SCHRÖDER, 2017). Para a realizaçãode um experimento voltamétrico, usa-se uma célula eletroquímica contendo no mínimo dois eletrodos (eletrodo de trabalho e eletrodo de referência) imersos em uma solução contendo o analito e também um excesso de eletrólito não reativo chamado de eletrólito de suporte. O eletrodo de trabalho é aquele no qual o potencial é aplicado versus o eletrodo de referência e o analito é então oxidado ou reduzido (BASSET et al., 2002; SKOOG et al., 2013). A presença de um terceiro eletrodo na célula (contra-eletrodo) apenas assegura o sistema potenciostático (para que não haja passagem de corrente no eletrodo de 33 referência), a corrente de eletrólise flui então entre o eletrodo de trabalho e o contra-eletrodo (SKOOG et al., 2013; ALEIXO, 2003). Com a aplicação do potencial irá ocorrer à reação de oxirredução, e a transferência de elétrons que ocorre durante essa reação irá gerar uma corrente elétrica. O registro da corrente (i) em função do potencial é denominado voltamograma (PACHECO et al., 2013; ALEIXO, 2003, SKOOG et al., 2013) e a medição da grandeza dessa corrente pode ser relacionada com a quantidade de analito presente na solução (PACHECO et al., 2013 ; SKOOG et al., 2013). 3.6.1 Voltametria cíclica (VC) A VC é geralmente a primeira técnica utilizada em um estudo eletroquímico. Trata-se de uma técnica muito útil para adquirir informações sobre os processos eletroquímicos, pois é capaz de informar sobre o comportamento redox de determinado composto químico em uma ampla faixa de potencial (BASSET et al., 2002; PACHECO et al., 2013). Assim sendo, a técnica fornece informações importantes sobre a termodinâmica de processos redox e da cinética de reações de transferência de elétrons do composto em estudo (SKOOG et al., 2006). Por esse motivo a técnica tem ganhado muito espaço nas áreas de eletroquímica, química inorgânica, química orgânica e bioquímica. Para obtenção de um voltamograma cíclico, um potencial é aplicado ao eletrodo de trabalho, e a varredura do potencial é feita linearmente a partir de um valor inicial para um limite pré-determinado, onde a direção da varredura é invertida (PACHECO et al., 2013; ALEIXO, 2003). Os produtos formados na varredura direta podem ser detectados na varredura inversa caso não sejam removidos do eletrodo ou alterados por uma reação química subsequente (PACHECO et al., 2013; KISSINGER, HEINEMAN 1983). Geralmente o sinal de resposta para a VC é uma varredura de potencial linear com forma de um triângulo isósceles (FIG. 5). Podem ser feitas varreduras em sucessivos ciclos para desvendar informações sobre o mecanismo de ação do analito em estudo (SKOOG et al., 2006; MABBOTT, 1983). 34 Figura 5 - Aplicação do potencial com varredura linear para voltametria cíclica Fonte: WANG, 2000. Adaptado Para um sistema reversível os voltamogramas são caracterizados por apresentarem picos na varredura de potencial direta e inversa. Como para estes sistemas o potencial e a velocidade do processo de transferência de elétrons na superfície do eletrodo estão em equilíbrio, à atividade (𝑎𝑖) das espécies envolvidas na reação química pode ser calculada pela equação de Nernst (TOLEDO, 2006): 𝐸 = 𝐸° − 𝑅𝑇/𝑛𝐹 ∑(𝜗𝑖 ln 𝑎𝑖) (1) E0 é o potencial padrão de eletrodo, que é característico para cada semi- reação R é a constante do gás ideal (8,314 J K–1 mol–1) T é temperatura (em Kelvin) n é número de mols de elétrons que aparecem na semi-reação F é a constante de Faraday (96,485 C por mol de elétrons) ln é logaritmo natural (2,303 log) ϑi são os números estequiométricos para as espécies oxidadas e reduzidas. Em sistemas reversíveis a cinética da reação de transferência de carga é rápida (Ks > 10-1 cm.s-1), logo, será a etapa de transferência de massa que irá governar o processo (PACHECO et al., 2013). Assim, a corrente de pico (Ip) é diretamente proporcional à concentração das espécies e à raiz quadrada da velocidade de varredura e pode ser calculada pela 35 Equação 2, conhecida como equação de Randles-Sevick (WANG, 2000; SKOOG et al., 2006): 𝐼𝑝= (2,69× 105 )𝑛32 𝐴𝐶𝐷12𝑣12 (2) A é a área do eletrodo (cm2) n é o número de elétrons transferidos C é a concentração da espécie eletroativa em solução (mol cm-3) D é o coeficiente de difusão (cm2 s-1) v é a velocidade de varredura (Vs-1) Sistemas irreversíveis não obedecem à lei de Nernst, pois neste caso a velocidade de transferência de elétrons é lenta, (quando comparada à velocidade de varredura, Ks Ks > 10-5 cm s-1), a corrente é controlada tanto pela etapa de transferência de massa como pela etapa de transferência de carga. Nesse caso, a equação de Nernst é apenas aproximadamente satisfeita. (WANG, 2000; PACHECO et al., 2013) A Figura 6 mostra os voltamogramas cíclicos hipotéticos observados para um sistema reversível, quase-reversível e irreversível. 36 Figura 6 - Voltamogramas cíclicos para característicos para os diferentes sistemas de reações eletródicas. (a) VCs característicos de um sistema reversível (−) e quase-reversível (- -) (b) VC característico de um sistema irreversível Fonte: BRETT A; BRETT C, 1996. Adaptado. 3.6.2 Voltametria de pulso diferencial (VPD) Como abordado anteriormente, a voltametria cíclica é uma técnica mais exploratória, muito usada para a obtenção de informações qualitativas sobre o analito (embora também possa ser usada para propósitos quantitativos). Para a quantificação de analitos geralmente são empregadas técnicas mais precisas e sensíveis como as técnicas de pulso (CROW, 1994; BRETT A; BRETT C, 1996). Na VPD ocorre à aplicação de um pulso de potencial de pequena amplitude superposto em uma rampa de potencial crescente, como mostra a Figura 7 (a). A corrente é medida em dois intervalos; antes e após a aplicação do pulso e o valor final da corrente é a diferença entre esses dois valores medidos (SOUZA; MACHADO; AVACA. 2003). Dessa maneira, a corrente capacitiva é compensada, pois os seus valores nos dois pontos onde a corrente é medida são muito próximos, o que contribui para um aumento da sensibilidade da técnica (ALEIXO, 2003; BARD; FAULKNER, 2001). O valor gerado pela diferença de correntes é plotado em um gráfico, gerando um voltamograma com a forma de uma curva gaussiana [FIG. 7 (b)] cuja área deste pico é diretamente proporcional à concentração do analito, de acordo com a Equação 4 (PACHECO et al., 2013). 37 Figura 7 - (a) Sinais de excitação para a VPD; (b) Forma de um voltamograma de pulso diferencial. Fonte: PACHECO et al., 2013. Adaptado 𝐼𝑝 = 𝑛𝐹𝐴𝐷12𝐶√𝜋𝑡𝑚 [1−𝜎1+𝜎] (4) 𝑡𝑚= tempo entre a segunda e a primeira leitura de corrente (s). = exp