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PERÍCIA CONTÁBIL Prof. Michael Dias Corrêa AULA 4 2 INTRODUÇÃO Os conceitos aplicados aos quesitos do laudo pericial serão explorados inicialmente nesta aula. Eles são essenciais para que o perito possa realizar o seu trabalho e entregar o seu resultado final. As perguntas, respostas e conclusões serão vistas na sequência e demonstram o que é necessário que o profissional faça para executar o trabalho pericial. Posteriormente, será apresentado o conceito de laudo, seus elementos e características. Outro ponto são os atributos intrínsecos e formais do laudo, necessários para sua validação como prova técnica. O estudo de caso apresenta uma situação de atuação extrajudicial, mostrando como funcionam os principais pontos do parecer do profissional que atua nesta área. TEMA 1 – CONCEITOS APLICADOS AOS QUESITOS DO LAUDO PERICIAL No processo que ocorre na justiça civil, o laudo pode ser entendido como o produto final do perito nomeado. Por sua vez, na justiça trabalhista este pode ser compreendido como a quantificação monetária da sentença que já foi proferida pelo juiz (Costa, 2017). Ornelas (2011), por sua vez, entende o laudo sob duas diferentes perspectivas. A primeira delas é a materialização do trabalho do perito e, de forma adicional, como prova pericial. A materialização do trabalho caracteriza-se pela exposição, de forma fiel, e ocorrência das diligências, apresentando as conclusões sobre a matéria submetida. No caso do seu entendimento como prova, este supre as insuficiências do magistrado e membros da justiça no que diz respeito aos conhecimentos técnicos e científicos ligados à matéria que foi julgada. O laudo é a manifestação do perito sobre os fatos patrimoniais devidamente circunstanciados (Sá, 2019). O autor ainda afirma que este é o julgamento baseado nos conhecimentos de um profissional da contabilidade, em relação a eventos ou fatos que foram submetidos à sua apreciação. Palombo (2012) afirma que o laudo é uma forma de expressão da perícia, sendo uma das espécies mais predominantes neste ramo. O laudo é decorrente da necessidade de se examinar a verdade ou não da matéria objeto de conflito. 3 O laudo é diferente de outros tipos de documentos da perícia, uma vez que se destina à prova, com o uso de informações e apresentando opiniões subsidiárias à decisão, mesmo que seja destinado à liquidação de sentença. Exemplificando: em um processo judicial, um advogado precisa argumentar sobre o valor de quotas da sociedade da qual seu cliente saiu; o sócio egresso entende que foi prejudicado e, inconformado, entrou na Justiça para discutir. O advogado sabe que pela lei o sócio tem direito a receber o valor de suas quotas na forma que o contrato estabelecia, mas não tem conhecimentos contábeis suficientes para atestar isso; o Juiz, por sua vez, sendo também advogado, não dispõe de conhecimento especializado para julgar. Requer-se, então, a opinião de um perito-contador. (Sá, 2019, p. 37) Além do laudo é comum que o perito trabalhe com o parecer pericial. Este documento expressa o profissional em relação à determinada matéria, observando as técnicas e abrangências da perícia de forma geral (Palombo, 2012). Entretanto, é utilizado para a defesa de interesses ou ainda elucidação de um assunto. Pode ocorrer na modalidade extrajudicial, quando uma parte necessita, por exemplo, de uma opinião fundamentada de um técnico sobre uma transação ou, ainda, para a realização de negócio. De forma judicial, o parecer pode ser usado por uma das partes, para instruir ou contestar uma ação que esteja sofrendo. Outra possibilidade é a utilização da opinião do assistente, que nada mais é que o parecer no processo de perícia determinada de forma judicial. Outros tipos de documentos que podem ser emitidos pelo perito são o relatório de vistoria, que ocorre em determinada situação temporal, não observando todos os rigores da perícia judicial (Palombo, 2012). Para que o profissional possa elaborar o laudo, ele terá que apresentar os quesitos ou questionamentos necessários para entender a matéria ou lide discutida. Segundo Costa (2017), buscam respostas para entender o que está sendo discutido. As respostas que são apresentadas devem ser objetivas de acordo com os quesitos apresentados, sendo que estas podem ser acompanhadas de (CRCBA, 2020): • Planilhas; • Mapas; • Plantas; 4 • Desenhos; • Fotografias. Também devem ser adicionados outros elementos que sejam necessários ao esclarecimento do objeto da perícia, seja para o juiz, partes ou órgão do Ministério Público (CRCBA, 2020). Ainda de acordo com o órgão, o parecer, emitido pelos assistentes, também deverá ter o mesmo suporte documental, demonstrando a sua base de sustentação. TEMA 2 – PERGUNTAS, RESPOSTAS E CONCLUSÕES De acordo com Costa (2017), o uso dos quesitos está relacionado a questionamentos ou ainda solicitações que envolvam respostas para que ocorra a solução de um litígio. Os quesitos podem ser elaborados pelas partes, o que será feito pelo assistente técnico. Quando estes são levantados e levam em consideração o objeto de discussão, os quesitos visam receber as respostas do perito nomeado para propor uma solução à lide. O autor ainda destaca o fato de que em alguns processos a parte não contrata perito assistente e opta por elaborar quesitos. Nesta situação estes devem ser elaborados pelo próprio advogado que a defende. Ornelas (2011) cita que podem existir diferentes formas de abordagem em relação aos quesitos. De acordo com o autor, o questionário básico é aquele com os quesitos que podem ser elaborados pelo magistrado ou pelas partes antes das diligências, ou ainda, antes do desenvolvimento da prova pericial e da entrega da peça técnica. São as perguntas de natureza técnica ou científica naturalmente relacionadas aos pontos convertidos fixados pelo magistrado ou pelo Tribunal Arbitral, a serem respondidas pelo perito. São, em geral, apreciadas pelo magistrado ou pelo Tribunal Arbitral e pelas partes a fim de evitar indagações impertinentes, fora do âmbito da lide proposta e/ou dos pontos controvertidos fixados, bem como diligências desnecessárias ou procrastinatórias. (Ornelas, 2011, p. 73) Para o autor, nesta categoria surgem dois tipos de questionamentos, os pertinentes e impertinentes. No primeiro caso o objetivo é esclarecer situações em relação a questões patrimoniais, vinculados a pontos controvertidos. Os 5 impertinentes, por sua vez, abordam pontos não relacionados com o debate nos autos do processo. Em relação aos quesitos impertinentes, quando algo extrapola o campo contábil não é mais responsabilidade do perito-contador. Caso seja solicitado, por exemplo, a interpretação de um texto da lei, o profissional não é obrigado a responder, já que foge aos seus limites de responsabilidade, a menos que a lei tenha ligação com o campo de contabilidade. Outro exemplo, é aquele relacionado à saúde de um empregado, fugindo esta questão da matéria contábil, devendo ser dirigida, por exemplo, a um médico (Sá, 2019). Sá (2019) cita, adicionalmente, o caso dos quesitos suplementares. De acordo com o autor estes não representam uma nova perícia, ou o estabelecimento de um novo exame. Mas adiciona elementos que se fazem necessários. Este tipo de quesito deve ocorrer durante as diligências. Esta situação pode ocorrer após a entrega dos laudos, quando o juiz abre as partes dos laudos, surgindo, então, a necessidade complementar, em razão de as “respostas” demandarem novos exames pertinentes. Neste caso o juiz deve deferir o pedido, pois caso não faça, mesmo que requerido, não será motivo para trabalho pericial. Na sequência, quando o perito realizar seus trabalhos com base nos questionamentos complementares, deve identificar no laudo esta natureza. Configura-se, desta forma,um novo laudo, porém vinculado ao primeiro. Palombo (2012), por sua vez, chama os quesitos de elucidativos. Segundo o autor, estes questionamentos visam um esclarecimento sobre determinado ponto ou pontos do laudo. Estas questões também podem ser usadas, caso necessário, para a impugnação das conclusões ou do laudo da perícia. Se isto ocorrer o profissional será chamado para prestar informações sobre o que foi solicitado, sendo necessário a fundamentação sobre as conclusões obtidas ou ainda reformulando o trabalho pericial. Em relação aos prazos ritos e prazos envolvendo os quesitos quando são estabelecidas as questões sobre o que está sendo discutido, as partes determinam os quesitos ou perguntas sobre o assunto. Conta-se, também, neste caso, com a possibilidade dos quesitos suplementares (Palombo, 2012). A apresentação dos quesitos segue o que determina o CPC (Brasil, 2015): 6 Art. 465. O juiz nomeará perito especializado no objeto da perícia e fixará de imediato o prazo para a entrega do laudo. § 1º Incumbe às partes, dentro de 15 (quinze) dias contados da intimação do despacho de nomeação do perito: I - arguir o impedimento ou a suspeição do perito, se for o caso; II - indicar assistente técnico; III - apresentar quesitos. (grifo nosso) O juiz é o responsável por indeferir, se for o caso, quesitos considerados impertinentes, ou ainda a inserção de outros que forem necessários (Brasil, 2015). A seguir, exemplos de como podem funcionar estes quesitos em distintos processos de perícia. Quadro 1 – Exemplos de quesitos Tipo Exemplo 1. Quesitos elaborados em um processo envolvendo financiamento habitacional. Queira o senhor perito relatar se o contrato firmado entre as partes está enquadrado como financiamento habitacional nos moldes do Sistema Financeiro da Habitação. 2. Quesitos elaborados em um processo envolvendo contrato de abertura de crédito e financiamento. Relate o senhor perito qual o instrumento contratual objeto desta lide e quais as suas principais cláusulas no que tange ao prazo, taxa e valor. Houve prorrogações? 3. Quesitos elaborados em um processo envolvendo questionamentos sobre pagamentos de impostos. Identifique o senhor perito, comparando as datas de competência e as guias acostadas nos autos (bem como o cômputo de eventuais acréscimos), se os supostos débitos arrolados na inicial foram pagos. 4. Quesitos elaborados em um processo envolvendo INSS sobre obras de engenharia na construção de unidade habitacional. Queira o senhor perito relatar se foi efetuado o cálculo da mão de obra empregada em conformidade com o § 4º do artigo 33 da Lei n. 8.212/91. 5. Quesitos elaborados em um processo envolvendo auto de infração da Secretaria da Receita Federal. Compulsando os autos, pode o perito informar se a autora estava autorizada mediante decisão judicial a compensar prejuízos fiscais acumulados, independentemente da limitação prevista no artigo 42 da Lei n. 8.981/95? 6. Quesitos elaborados em um processo envolvendo empréstimos e financiamentos para pessoa jurídica. Ao senhor perito, solicitamos caracterizar o crédito indicando o valor, o prazo, a forma de pagamento, a data de vencimento e os juros contratados. 7. Quesitos elaborados em um processo envolvendo o financiamento à pessoa física. Solicitamos ao senhor perito relacionar a data de vencimento e pagamento das parcelas honradas pelo réu. 8. Quesitos elaborados em um processo envolvendo financiamento para o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). As cláusulas determinadas pela legislação da Lei n. 10.260/01, que rege o Fies, estão sendo rigorosamente cumpridas? 9. Quesitos elaborados em um processo envolvendo financiamento de crédito rotativo para pessoa jurídica. Queira o senhor perito informar o valor e a modalidade do contrato de crédito rotativo firmado pelas partes, incluindo esclarecimentos adicionais sobre a data de vencimento da obrigação, forma de pagamento, prazo, taxa de juros pactuada, período de pactuação, garantias e encargos previstos na cláusula de inadimplência. 10. Quesitos elaborados em um processo envolvendo financiamento para aquisição de materiais de construção denominado Construcard. Defina o senhor perito o fenômeno contábil da capitalização de juros e, com base no extrato e na aplicação da tabela Price, informe se ela ocorreu. 7 Fonte: Costa, 2017, p. 41. Sá (2019) afirma que se o perito for inquirido, por exemplo, sobre a capacidade de liquidez de uma empresa, não bastará ele informar se existe ou não o poder de solvência, é preciso que ele torne a justificativa pertinente. Outro requerimento é a argumentação teórica sólida sobre o que foi respondido pelo profissional. O autor ainda relata que o profissional pode utilizar, para validar seus argumentos, o embasamento com citações de autores clássicos e que tenham reconhecida competência. Assim, se o quesito indagar se o capital foi suficiente ou não para que ocorra a exploração de um determinado negócio e caso os dirigentes tenham se omitido em realizar aportes, a resposta do profissional deve ser alicerçada em argumentos derivados da Ciência Contábil. Palombo (2012) afirma que os quesitos devem ser transcritos e respondidos na ordem que deram entrada nos autos, independentemente da natureza deste. Para a sua elaboração deve-se evitar conotações psicológicas ou ainda preconceitos. Ainda segundo Palombo (2012), a necessidade da transcrição tal como foi formulada deve ser pautada no fato de que o perito não deve fazer correção de erros linguísticos, mesmo que estes sejam cometidos, até porque uma vírgula poderá alterar o sentido do que foi dito. A resposta, também, deve ocorrer de forma sequencial, mantendo a pergunta e a resposta na mesma página do laudo, o que visa facilitar a sua leitura e entendimento. A resposta também deve ser circunstanciada, observando a essência da questão formulada, o que pode ocorrer quando o objeto da perícia já está determinado, o que auxilia a evitar o excesso de referências a outras partes ou ainda aos anexos. A resposta deve ser sempre com clareza, e detalhes que sejam suficientes para serem entendidos. Deve-se evitar respostas que sejam simplesmente “sim” ou “não” (Palombo, 2012). Assim, os quesitos podem ser entendidos como questionamentos, sendo que estes podem ser elaborados na afirmativa. Têm como objetivo adquirir solução sobre o que é discutido nos autos, sendo redigidos pelo assistente técnico e, de forma, obrigatoriamente devem ser respondidos pelo perito. 8 Os quesitos também podem partir do magistrado, e servem para dirimir dúvidas e outros questionamentos que surgem durante o processo de perícia. TEMA 3 – LAUDO Segundo Magalhães et al. (2004), a perícia produz, de maneira psicológica, o efeito de um juiz arbitral, sendo este fundamentado em princípios técnicos/científicos e que devem ser orientados por um critério de imparcialidade. Segundo os autores, um laudo pericial de qualidade é aquele que é acatado tanto pelas partes como pelo julgador do litígio. De acordo com a NBC TP 01 (CFC, 2016), o laudo está intimamente ligado à perícia, já que irá comprovar o trabalho realizado pelo profissional 1. A perícia contábil é o conjunto de procedimentos técnico- científicos destinados a levar à instância decisória elementos de prova necessários a subsidiar a justa solução do litígio ou constatação de fato, mediante laudo pericial contábil e/ou parecer pericial contábil, em conformidade com as normas jurídicas e profissionais e com a legislação específica no que for pertinente. 2. O laudo pericial contábil e o parecer pericial contábil têm por limite o objeto da perícia deferida ou contratada. A seguir pode ser observado um modelo de laudo, com suas principais características: Quadro 2 – Modelo de laudo AÇÃO DE (indicar o tipo de ação) Processon. (especificar a vara) ___ VARA __________ DA _____________ (COMARCA, CIRCUNSCRIÇÃO, SEÇÃO JUDICIÁRIA), (especificar Cidade e Estado). MM. Juiz (inserir nome) Escrivão/Diretor de secretaria Autor Embargante Requerente: João da Silva Réu Embargado Requerido: José dos Santos Objeto da perícia Perícia Societária Advogados: Autor Embargante Requerente: Réu Embargado Requerido: Perito do Juízo: Indicar o seu nome (inscrição no CRC) XXXXX Assistente técnico: Autor Embargante Requerente: Réu Embargado Requerido: Orientação observada pelo signatário deste, quando na função como perito do Juízo O entendimento do signatário é que a principal função dos técnicos auxiliares, em particular, a do perito do juízo, é proporcionar ao meritíssimo juiz todos os elementos elucidativos das controvérsias suscitadas nos autos, principalmente das que são tidas como pontos cruciais ou essenciais, sem o conhecimento das quais, o douto juiz não poderá se pronunciar conveniente e adequadamente. Dentro deste espírito, as respostas elaboradas estão sempre procurando se isentar do entendimento da aplicabilidade das normas legais, por se tratar de mérito especificamente do juízo, o que enseja se abstrair das indagações concernentes à interpretação das leis. CORPO DA PERÍCIA Metodologia Aplicada 1 – Síntese das alegações das partes 2 – Relato dos fatos 9 2 – Exposição do desenvolvimento dos trabalhos de campo e das planilhas elaboradas Apresentação dos quesitos e respostas na sequência apresentada nos autos Pergunta – Resposta: Conclusão Nos termos expressos da Resolução do Conselho Federal de Contabilidade NBC TP 01/2015, itens 64 e 65, apresenta-se a conclusão do presente trabalho, ressalvando que estão sendo consideradas as limitações deste profissional contábil quanto a não interpretar legislação ou qualquer norma firmada entre as partes, nos termos da orientação apresentada na folha de rosto deste laudo. Por este motivo, considera a delimitação indicada como “OBJETO DA PERÍCIA” e passa a concluir: (VERIFICAR O QUE SE ENQUADRA E CONSIDERE A OPÇÃO QUE TERÁ QUE ADOTAR): Conclusão – o perito-contador deve, na conclusão do Laudo Pericial Contábil, considerar as formas explicitadas nos itens abaixo: a) omissão de fatos: o perito do juízo não pode omitir nenhum fato relevante encontrado no decorrer de suas pesquisas ou diligências, mesmo que não tenha sido objeto de quesitação e desde que esteja relacionado ao objeto da perícia; Laudo Pericial Contábil b) a conclusão com quantificação de valores é viável em casos de: apuração de haveres; liquidação de sentença, inclusive em processos trabalhistas; resolução de sociedade; avaliação patrimonial, entre outros; c) pode ocorrer que, na conclusão, seja necessária a apresentação de alternativas, condicionada às teses apresentadas pelas partes, casos em que cada uma apresenta uma versão para a causa. O perito deve apresentar as alternativas condicionadas às teses apresentadas, devendo, necessariamente, ser identificados os critérios técnicos que lhes deem respaldo; d) a conclusão pode ainda reportar-se às respostas apresentadas nos quesitos; e) a conclusão pode ser, simplesmente, elucidativa quanto ao objeto da perícia, não envolvendo, necessariamente, quantificação de valores. ......................, ..... de ............... de ......... Nome do perito-contador Registro no CRC XXXXXX Fonte: elaborado com base em Amaral Pires, 2019, p. 321-323. Assim, segundo Ornelas (2011, p. 92), o laudo deverá observar uma organização básica, com alguns tópicos que permitem que este seja lógico e inteligível para todos os envolvidos. Esta estrutura está apresentada a seguir: 1. Das considerações preliminares a. Dos aspectos gerais dos autos b. Das diligências c. Dos procedimentos técnicos adotados d. Da responsabilidade profissional 2. Do Arbitramento a. Das premissas adotadas b. Dos critérios adotados c. Da demonstração dos cálculos d. Da fixação dos valores arbitrados 3. Do Encerramento Anexos Documentos O autor ainda destaca a necessidade especial no caso da perícia de avaliação, especificamente aquela relacionada com a apuração de haveres. 10 Nesta situação deve-se desenvolver um laudo que seja adequado à esta natureza pericial. Entende-se, desta forma, que o laudo irá variar de acordo com a perícia, sendo necessárias algumas adaptações para que este atinja seu objetivo. O laudo extrajudicial também deverá observar certas características ou ainda recomendações conforme afirmam Magalhães et al. (2004), entre elas destacam-se as seguintes: • A introdução deve indicar quem foi o perito responsável, sobre o que foi a perícia e o instrumento contratual apontando as suas principais características; • A visão do conjunto que se restringe à matéria examinada, permite a indicação de métodos e recurso técnicos e humanos que serão utilizados; • Documentos e livros examinados, apresentando a relação de todos utilizados; • Comentários periciais, sendo que o perito deve elaborar a fundamentação teórica e legal que foi usada para sustentar as conclusões do perito; • O encerramento deve ser assinado digitalmente, ou em conjunto, quando o tipo de perícia exigir mais de um profissional. De acordo com o CPC (Brasil, 2015) , a entrega do laudo deve observar as seguintes questões: Art. 477. O perito protocolará o laudo em juízo, no prazo fixado pelo juiz, pelo menos 20 (vinte) dias antes da audiência de instrução e julgamento. § 1º As partes serão intimadas para, querendo, manifestar-se sobre o laudo do perito do juízo no prazo comum de 15 (quinze) dias, podendo o assistente técnico de cada uma das partes, em igual prazo, apresentar seu respectivo parecer. § 2º O perito do juízo tem o dever de, no prazo de 15 (quinze) dias, esclarecer ponto: I - sobre o qual exista divergência ou dúvida de qualquer das partes, do juiz ou do órgão do Ministério Público; II - divergente apresentado no parecer do assistente técnico da parte. § 3º se ainda houver necessidade de esclarecimentos, a parte requererá ao juiz que mande intimar o perito ou o assistente técnico a comparecer à audiência de instrução e julgamento, formulando, desde logo, as perguntas, sob forma de quesitos. A NBC TP 01 (CFC, 2016) complementa este raciocínio quando relata que a conclusão dos trabalhos periciais ocorre com a entrega do laudo pericial e com o assistente técnico oferecendo seu parecer pericial contábil, de acordo com os prazos e regras vigentes. 11 Segundo Magalhaes et al. (2004), no caso do parecer pericial, além das respostas aos quesitos, devem ser identificadas as repostas inadequadas que existem no laudo. Reforça-se a diferença que existe na perícia na justiça do trabalho. Nesta área, o assistente técnico também entregará laudo e não o parecer, sendo que os prazos são os mesmos para ambas as partes (Brasil, 2015). A apresentação do laudo, de forma lógica, organizada e tecnicamente correta obriga o profissional a pensar de forma crítica e permite que seja criado uma peça inteligível para os leitores. Isto permite a sua leitura uma vez que a estes não possuem os mesmos conhecimentos que o perito. Assim, reforça-se o fato de que, de acordo com esta organização, estes poderão entender os termos utilizados no processo, além disso outros aspectos como: • Fatores levados em consideração; • O próprio pedido; • A prova técnica; • As características do processo em geral. Conclui-se, desta forma, que um laudo pericial precisa ser técnico, observando as normas e regras vigentes e permitindo que aqueles que fazem parte do processo conheçam o que o profissional utilizou para chegar às conclusões, os métodos utilizados e o desenvolvimento do trabalho pericial como um todo. TEMA 4 – ATRIBUTOS INTRÍNSECOS E FORMAIS O laudo ou, ainda, o parecer, como produtos finais, devem obedecer aos ritos da perícia e mantercertas características ou atributos que permitem a sua validação como prova técnica (Pires, 2019). Os atributos intrínsecos são características ligadas ao ordenamento do conteúdo que será apresentado nos materiais periciais (Ornelas, 2011). Segundo Pires (2019), primeiramente este documento precisa ser objetivo, o que significa que deve ser ligado à exclusão do julgamento do escriba ou ainda da pessoa que está realizando o trabalho. 12 Este objetivo está ligado ao ramo da própria Ciência Contábil, que apresenta suas conclusões de forma objetiva, com base em fundamentação lógica. O rigor técnico também deve ser observado, já que o perito não deve divagar em seu trabalho, de acordo com a disciplina dos conhecimentos que possui. Para isso poderá usar o arcabouço teórico da Ciência Contábil e as Normas Brasileiras de Contabilidade vigentes (Pires, 2019). A argumentação está relacionada com os elementos que embasaram as conclusões do perito. Este objetivo está relacionado a fatos e documentos que são utilizados na perícia. A concisão, por sua vez, exige que o perito dê respostas diretas, apresentando um texto exato e que seja satisfatório, de acordo com o que está sendo perguntado, não ultrapassando o limite da perícia. Se este limite não for indicado, o perito deve indicar o objeto da ação e alinhar o objeto para o limite formal. A exatidão ordena que o perito não faça suposições, mas somente afirme quando tiver segurança sobre o que está falando. Caso o perito não tenha certeza, não deverá emitir opinião. A clareza observa a questão da elaboração do laudo para terceiros, ou ainda, pessoas que não são especialistas. Assim, o uso da terminologia deve permitir que estes usuários entendam o que está escrito. Partindo da clareza, Ornelas (2011) complementa que o laudo deverá possuir características intrínsecas, tais como: • Ser completo; • Claro; • Ligado ao objeto; • Fundamentado. O conteúdo do laudo pericial contábil, independentemente da quantidade de capítulos em que for organizado, deve possibilitar a apreensão de duas grandes partes: uma expositiva, outra conclusiva, ou melhor, relatório e parecer (Ornelas, 2011, p. 77). A observância destes atributos se faz necessária para que o laudo seja mais fácil e simples em sua compreensão, tendo, assim, uma linguagem 13 acessível e evitando que o perito faça divagações e que a peça final apresentada seja o mais organizada possível. No caso dos atributos formais ou extrínsecos existe uma ligação com a forma escrita do laudo, assinatura do perito e exigência de rubrica em todas as folhas. A rubrica representa a firma abreviada do perito, o que deve ocorrer em todas as vias, mostrando o que o perito o verificou e o atestou. A NBC TP 01 (CFC, 2016) relata sobre a linguagem que o perito deverá observar: 3. A linguagem adotada pelo perito deve ser clara, concisa, evitando o prolixo e a tergiversação, possibilitando aos julgadores e às partes o devido conhecimento da prova técnica e interpretação dos resultados obtidos. As respostas aos quesitos devem ser objetivas, completas e não lacônicas. Os termos técnicos devem ser inseridos no laudo e no parecer, de modo a se obter uma redação que qualifique o trabalho pericial, respeitadas as Normas Brasileiras de Contabilidade. 4. Tratando-se de termos técnicos atinentes à Ciência Contábil, devem ser acrescidos dos seus respectivos conceitos doutrinários, sentido e alcance contabilístico de cada um dos termos técnicos, além de esclarecimentos adicionais ou em notas de rodapé. É recomendada a utilização daqueles termos já consagrados pela literatura contábil. Pires (2019) relata que as normas da ABNT devem ser observadas e refletem em diversos aspectos do trabalho do perito, entre eles: • As margens; • O tamanho da letra que será utilizada; • A forma de disposição dos títulos; • Outros pontos previamente definidos. Segundo o autor, a disposição de cada peça pericial deve observar as particularidades do trabalho que será inserido nos autos. Como os trabalhos eram realizados de maneira escrita, ou ainda, antes da inserção dos processos digitais, também eram observadas questões ligadas à disposição do texto em relação às margens. Isto era feito para que, no caso de encadernação, a leitura não ficasse prejudicada. A introdução da informatização, ou seja, dos processos eletrônicos, e a necessidade de juntada de arquivos tipo “pdf” ou em configuração de texto que deve ser feita sem a permissão de alteração, a formatação deve observar as mesmas questões do processo físico, com as mesmas observações quanto às margens, por exemplo (Pires, 2019). 14 Adicionalmente, deve-se, no caso das planilhas eletrônicas, fazer a observação da forma de paisagem, com o cabeçalho para dentro, de forma que o conteúdo tenha visualização simples quando observado no computador. Entende-se, desta forma, que na perícia todos os aspectos são voltados para a padronização e para uma tentativa de deixar os documentos mais objetivos para que todos os envolvidos possam ter acesso à informação. Outros pontos observados em relação aos atributos formais, sempre buscando a padronização (Pires, 2019): • Cabeçalho com o nome do profissional, e no rodapé deve ser colocado o endereço; • A numeração das páginas deve ser feita no rodapé, com alinhamento no centro ou ainda à direita; • A folha ou tamanho da página deve ser A4; • A fonte utilizada deverá facilitar a leitura de todos os envolvidos; • Espaçamento entre as linhas que vise uma maior fluidez na leitura e na compreensão dos usuários. Outro ponto essencial é a revisão por parte do perito, para que o laudo não contenha erros ou ainda omissões. Nestes casos, todo o trabalho que foi realizado poderá ser comprometido em função de questões de não observação dos aspectos extrínsecos. Outra necessidade em relação ao formalismo é o uso do vernáculo pátrio, ou ainda, a língua oficial do país. Neste caso o português brasileiro deverá ser adotado, sem estrangeirismos ou gírias. Segundo Pires (2019), ainda é preciso observar os seguintes aspectos: • Processo de revisão gramatical; • Revisão de concordância, seja ela verbal e nominal; • Uso de linguagem acessível e que permita o entendimento do que está escrito para todos aqueles que acessam o laudo. A questão da linguagem é reforçada pela NBC TP 01 (CFC, 2016), que orienta em relação às características que devem ser observadas pelo perito. De acordo com a norma, tanto o laudo quanto o parecer são orientados pelo perito e pelo assistente técnico, respectivamente, adotando padrão próprio e com a estrutura legal que está prevista na norma. 15 Adicionalmente, observando as disposições da norma devem ser observados os seguintes tópicos em relação à linguagem: • Deve ser clara; • Concisa; • Não pode ser prolixa; • Deve evitar rodeios. Estes tópicos precisam ser observados para que tanto os julgadores quando as partes possam ler e interpretar o conteúdo que foi elaborado pelos profissionais da área. Apresentação do laudo pericial contábil e do parecer pericial contábil 41. Tratando-se de termos técnicos atinentes à Ciência Contábil, devem ser acrescidos dos seus respectivos conceitos doutrinários, sentido e alcance contabilístico de cada um dos termos técnicos, além de esclarecimentos adicionais ou em notas de rodapé. É recomendada a utilização daqueles termos já consagrados pela literatura contábil. 42. O perito deve elaborar o laudo e o parecer, utilizando-se do vernáculo, sendo admitidas apenas palavras ou expressões idiomáticas de outras línguas de uso comum nos tribunais judiciais ou extrajudiciais. 43. O laudo e o parecer devem contemplar o resultado final alcançado por meio de elementos de prova inclusos nos autos ou arrecadados em diligências que o perito tenha efetuado, por intermédiode peças contábeis e quaisquer outros documentos, tipos e formas NBC TP 01. (CFC, 2016) Pires (2019) complementa que todos os aspectos de formalidade precisam ser seguidos, sendo que desta forma o trabalho será objetivo e a argumentação será coerente com a documentação, que é indicada com a fundamentação durante o trabalho do perito. Existe a relação de lógica do pensamento do perito, que deve ser observada e, caso isto não aconteça, poderá acontecer a nulidade da prova e solicitação de uma segunda perícia. Neste caso o processo será realizado por outro profissional, uma vez que é preciso cumprir o objetivo da perícia, que é resolver a discussão da lide. Por fim, entende-se que todos os tópicos visam a facilitação e a objetividade do laudo e do parecer para que estes cumpram seu objetivo. 16 TEMA 5 – ESTUDO DE CASO OU PRÁTICA A perícia pode ocorrer, principalmente, judicialmente e extrajudicialmente. Suponha que um profissional foi chamado para resolver uma lide, ou seja, uma discussão entre os sócios de uma empresa que foi gerada devido à falta de prestação de contas. Este processo acabou ocorrendo porque este processo administrativo de prestação de contas havia sido instituído na empresa, que era constituída por três sócios, sendo um deles responsável pela administração e, por consequência, pelo processo de prestação de contas de tudo o que ocorria na empresa. Assim, os outros dois sócios contrataram um profissional para que fosse executada a perícia extrajudicial nesta organização. Desta forma, são relatados a seguir os principais pontos que devem ser observados para que este processo possa acontecer na organização. a) Expressão dos atos preparatórios da perícia extrajudicial em um contrato, o que irá diferir da perícia judicial, uma vez que este profissional não será nomeado pelo juiz, mas sim será contratado pelas partes; b) Podem ou não ocorrer os quesitos, ou seja, questionamentos, entretanto, estes devem observar o que foi definido de forma prévia no contrato; c) Para que este tipo de perícia possa acontecer, devem ser verificados os seguintes documentos: a. Sistema contábil; b. Livros; c. Documentos da organização; d. Outros que dão suporte e fazem parte da escrita e dos atos admirativos e de gestão da organização. d) Apresentação do laudo da perícia extrajudicial, que deve ser elaborada com base nos seguintes tópicos: a. Introdução; b. Visão do conjunto; c. Documentos e livros verificados; d. Comentários periciais. Com isso o perito pode concluir se houve fraude ou erro e por que não aconteceu a prestação de contas do sócio que deveria ter feito esta 17 apresentação, identificando os problemas encontrados, caso eles existam. Além disso, ele precisa suportar seus achados e pode fazer recomendações. 18 REFERÊNCIAS BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em: 23 mar. 2022. CFC. NBC TP 01 – Norma técnica de perícia contábil. Disponível em: <https://cfc.org.br/wp-content/uploads/2016/02/NBC_TP_01.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2022. COSTA, J. C. D. da. Perícia contábil: aplicação prática. 1. ed. São Paulo: Atlas, 2017. CRCBA. Cartilha de perícia contábil, mediação, conciliação e arbitragem. Bahia: CRCBA, 2020. Disponível em: <https://www.crcba.org.br/arquivos/CARTILHA-PER%C3%8DCIA-VS5.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2022. MAGALHÃES, A. de D. F. et al. Perícia contábil: uma abordagem teórica, ética, legal, processual e operacional. São Paulo: Atlas, 2004. ORNELAS, M. M. G. Perícia contábil. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2011. PALOMBO, A. L. Perícia contábil. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2012. PIRES, M. A. A. Laudo pericial contábil. 6. ed. Curitiba: Juruá, 2019. SÁ, A. L. de. Perícia contábil. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2019.