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Contábil Prof. Marcos Antonio Barbosa de Lima PeríCia Indaial – 2023 1a Edição Impresso por: Elaboração: Prof. Marcos Antonio Barbosa de Lima Copyright © UNIASSELVI 2023 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI. Núcleo de Educação a Distância. LIMA, Marcos Antonio Barbosa de. Perícia Contábil. Marcos Antonio Barbosa de Lima - SC: Arqué, 2023. 218 p. ISBN 978-65-5646-622-4 ISBN Digital 978-65-5646-623-1 “Graduação - EaD”. 1. Laudo 2. Justiça 3. Vistoria CDD 657 Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679 Prezado acadêmico, estudaremos neste material didático a Perícia Contábil. Trata-se de um tema de grande relevância no seu processo de formação profissional, pois lhe trará uma base teórico-profissional necessária para oportunidades no mercado de trabalho, pois a sua atuação não é apenas no vasto contexto da Justiça Estadual, Justiça do Trabalho e Justiça Federal; o perito contábil também tem oportunidades de atuar nas cisões e fusões empresariais, cenários mais comuns de atuação do profissional perito contador. Na Unidade 1 abordaremos a perícia como prova judicial, a perícia contábil, o profissional perito judicial e seu campo de atuação. Trataremos da legislação pertinente a cada tema. Na Unidade 2, trataremos a respeito dos quesitos, que são as perguntas e as indagações feitas no processo judicial e que limitarão o universo de atuação do perito contador. Estudaremos, ainda, os relatórios periciais, quais sejam: o laudo pericial contábil e o parecer técnico contábil. Por fim, na Unidade 3, aprenderemos a respeito da Arbitragem, trazendo as noções deste tema e a legislação aplicável, finalizando com a mediação. Este material didático é de relevante significado nos seus estudos como pro- fissional contador, pois tratará de assuntos relevantes concernentes ao perito contábil, que, espero, o torne um profissional qualificado para atuar em um mercado de trabalho tão promissor. Excelentes estudos! Profº. Marcos Antonio Barbosa de Lima APRESENTAÇÃO GIO Olá, eu sou a Gio! No livro didático, você encontrará blocos com informações adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender melhor o que são essas informações adicionais e por que você poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto estudado em questão. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. Diante disso, você verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os seus estudos com um material atualizado e de qualidade. Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confira, acessando o QR Code a seguir. Boa leitura! Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. 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QR CODE SUMÁRIO UNIDADE 1 — PERÍCIA, PERITO JUDICIAL E CAMPO DE ATUAÇÃO ......................1 TÓPICO 1 — PROVA PERICIAL ................................................................................. 3 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 3 2 PROVAS EM JUÍZO ............................................................................................... 3 2.1 PROVAS EM JUÍZO .............................................................................................................. 4 3 PROVA PERICIAL .................................................................................................8 3.1 PROVA PERICIAL ...................................................................................................................9 3.1.1 Modalidades da prova pericial ..................................................................................11 3.1.2 Ônus da prova ............................................................................................................13 RESUMO DO TÓPICO 1 .......................................................................................... 15 AUTOATIVIDADE ................................................................................................... 16 TÓPICO 2 — PERÍCIA CONTÁBIL........................................................................... 19 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 19 2 BREVE HISTÓRICO ............................................................................................. 19 2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS ...................................................................................................20 3 PERÍCIA CONTÁBIL ...........................................................................................22 3.1 CONCEITO ........................................................................................................................... 22 3.2 OBJETO E OBJETIVO DA PERÍCIA CONTÁBIL ............................................................27 3.3 PROCEDIMENTOS PERICIAIS ......................................................................................... 29 3.4 APLICAÇÕES DA PERÍCIA CONTÁBIL ...........................................................................31 3.5 VOCABULÁRIO, VERNÁCULO E LINGUAJAR NA PERÍCIA CONTÁBIL ..................34 RESUMO DO TÓPICO 2 ..........................................................................................39AUTOATIVIDADE .................................................................................................. 40 TÓPICO 3 — PERITO JUDICIAL .............................................................................45 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................45 2 PERITO CONTÁBIL .............................................................................................45 2.1 CADASTRO NACIONAL DE PERITOS CONTÁBEIS (CNPC) ........................................50 2.2 RECUSA, IMPEDIMENTOS E SUSPEIÇÃO .....................................................................51 2.2.1 Recusa ......................................................................................................................... 52 2.2.2 Impedimento e suspeição ..................................................................................... 52 3 PERITO ASSISTENTE ........................................................................................54 LEITURA COMPLEMENTAR ..................................................................................58 RESUMO DO TÓPICO 3 ..........................................................................................63 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................64 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 67 UNIDADE 2 — QUESITOS E RELATÓRIO PERICIAIS: LAUDO E PARECER .................69 TÓPICO 1 — PLANEJAMENTO DA PERÍCIA CONTÁBIL .........................................71 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................71 2 ATOS PREPARATÓRIOS .................................................................................... 72 2.1 ATOS PREPATÓRIOS .........................................................................................................72 2.1.1 Nomeação do perito e indicação do assistente e sua motivação .................74 3 PLANEJAMENTO DA PERÍCIA CONTÁBIL ........................................................ 76 3.1 PLANEJAMENTO DA PERÍCIA CONTÁBIL .....................................................................76 3.1.1 Desenvolvimento do planejamento ......................................................................84 3.1.2 Honorários ..................................................................................................................88 3.1.3 Levantamento dos honorários .............................................................................. 93 3.1.4 Responsabilidade de pagamento dos honorários .......................................... 96 periciais ................................................................................................................................ 96 3.2 DILIGÊNCIAS ..................................................................................................................... 101 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................105 AUTOATIVIDADE .................................................................................................106 TÓPICO 2 — QUESITOS .......................................................................................109 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................109 2 QUESITOS ........................................................................................................109 2.1 QUESITOS ORDINÁRIOS ................................................................................................. 110 3 QUESITOS DA PERÍCIA CONTÁBIL ................................................................. 112 3.1 QUESITOS DA PERÍCIA CONTÁBIL ............................................................................... 112 3.1.1 Quesitos impertinentes........................................................................................... 115 3.1.2 Quesitos suplementares .........................................................................................117 3.1.3 Quesitos para esclarecimento ............................................................................. 118 3.1.4 Caso prático ............................................................................................................. 119 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................ 125 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 126 TÓPICO 3 — RELATÓRIOS PERICIAIS: LAUDO E PARECER .............................. 129 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 129 2 LAUDO PERICIAL CONTÁBIL .......................................................................... 129 2.1 LAUDO PERICIAL ............................................................................................................. 130 3 PARECER PERICIAL CONTÁBIL ...................................................................... 136 3.1 PARECER PERICIAL CONTÁBIL ................................................................................... 136 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................ 139 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................146 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 147 REFERÊNCIAS .....................................................................................................150 UNIDADE 3 — ARBITRAGEM: NOÇÕES E LEGISLAÇÃO APLICÁVEL ................ 153 TÓPICO 1 — NOÇÕES DE ARBITRAGEM.............................................................. 155 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 155 2 ARBITRAGEM .................................................................................................. 156 2.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA ARBITRAGEM ................................................................. 156 2.2 ARBITRAGEM NO CENÁRIO ATUAL ............................................................................ 158 2.3 CONCEITUAÇÃO DE ARBITRAGEM .............................................................................. 161 2.4 PRINCÍPIOS DA ARBITRAGEM ...................................................................................... 162 2.5 LIMITE GERAL IMPOSTO À POSSIBILIDADE DE SOLUÇÃO ARBITRAL ............... 164 2.6 PROCEDIMENTO DA ARBITRAGEM ............................................................................. 165 2.7 SENTENÇA ARBITRAL .....................................................................................................167 3 ÁRBITRO ..........................................................................................................168 3.1 ÁRBITRO ............................................................................................................................ 168 RESUMO DO TÓPICO 1 .........................................................................................171 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 172 TÓPICO 2 —LEI DE ARBITRAGEM ....................................................................... 175 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 175 2 CAPÍTULOS I E II DA LEI DE ARBITRAGEM .................................................... 176 2.1 CAPÍTULO I DA LEI DE ARBITRAGEM ..........................................................................176 2.2 CAPÍTULO II DA LEI DE ARBITRAGEM .........................................................................1783 CAPÍTULOS III E IV DA LEI DE ARBITRAGEM .................................................184 3.1 CAPÍTULO III DA LEI DE ARBITRAGEM ....................................................................... 184 3.2 CAPÍTULO IV DA LEI DE ARBITRAGEM ..................................................................... 188 4 CAPÍTULOS V E VI DA LEI DE ARBITRAGEM .................................................. 192 4.1 CAPÍTULO V DA LEI DE ARBITRAGEM ........................................................................192 4.2 CAPÍTULO VI DA LEI DE ARBITRAGEM ..................................................................... 195 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................198 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 199 TÓPICO 3 — MEDIAÇÃO E CONCILIAÇÃO ......................................................... 203 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 203 2 MEDIAÇÃO ...................................................................................................... 203 2.1 MEDIAÇÃO .......................................................................................................................203 3 CONCILIAÇÃO ................................................................................................ 206 3.1 CONCILIAÇÃO ..................................................................................................................206 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................... 208 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................214 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 215 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 217 1 UNIDADE 1 — PERÍCIA, PERITO JUDICIAL E CAMPO DE ATUAÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • estudar a prova pericial; • conhecer a legislação e as normas aplicáveis à perícia; • compreender a perícia contábil, seus conceitos e sua aplicação; • reconhecer o perito judicial. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – PROVA PERICIAL TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – PERÍCIA CONTÁBIL TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – PERITO JUDICIAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 PROVA PERICIAL TÓPICO 1 — UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Para o estudo da prova pericial contábil é necessário o desenvolvimento de uma abordagem interdisciplinar, buscando fazer as inter-relações dos diversos aspectos do Direito Processual Civil com nossa área de estudo, a Ciência Contábil voltada à especialidade da perícia contábil (ORNELAS, 2017). Assim, será necessário que sejam estudados alguns aspectos doutrinários fundamentais quanto ao instituto da prova, tratados por ilustres juristas de nosso país. É conteúdo fora de nosso domínio técnico e científico, mas essencial ao entendimento da prova pericial contábil. A prova pericial, que está expressa no CPC, Art. 464, como: “a prova pericial consiste em exame, vistoria ou avaliação”. Para fazer o exame, a vistoria ou avaliação, o perito baseia-se em fatos documentados. Os procedimentos, que estão elencados nos itens 16 a 29 na NBC TP 01, expressam e ampliam esse conceito, como: exame, vistoria, indagação, investigação, arbitramento, mensuração, avaliação e certificação (MAGALHÃES, 2017). É necessário, então, que o perito tenha algumas noções fundamentais quanto ao instituto da prova, qual sua função, a quem compete o ônus da prova, os meios de prova contábeis disponíveis, bem como os tipos de prova, sobre os quais desenvolverá sua tarefa pericial (ORNELAS, 2017). 2 PROVAS EM JUÍZO Quando duas pessoas fazem um contrato ou um acordo, escrito ou não, e uma delas não cumpre o contratado ou o acordado, a outra parte se sente prejudicada em seus direitos. O ideal, caro acadêmico, seria que a situação fosse resolvida por si só, somente entre as partes envolvidas (MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017). No entanto, você sabia que, na maioria das vezes, há a necessidade da inter- venção de terceiros? Pois bem, a intervenção citada, se faz no Judiciário, onde são apresentadas a queixa e as provas de direitos não atendidos. A busca pela tutela ju- risdicional, que se manifesta com o exercício do direito de petição pelas partes, depende imensamente dos elementos de prova (MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017). É o que veremos a seguir. 4 2.1 PROVAS EM JUÍZO De acordo com Moura (2020), prova pode significar comprovar, evidenciar, demonstrar, formar juízo de, reconhecer, confirmar, autenticidade de alguma coisa, demonstração pela qual se verifica a exatidão de cálculo. Assim, a prova em juízo é aplicada com vistas a demonstrar a existência do ato, isto é, aquilo que atesta a veracidade de alguma coisa; é uma demonstração evidente, atestando ou garantindo uma intenção, um sentimento, um testemunho (MOURA, 2020). Müller, Timi e Heimonski (2017) afirmam que a prova judicial objetiva demonstrar a correção da causa de pedir ou de contestar. Calma, caro acadêmico, explicaremos melhor a seguir: As provas em juízo, ou seja, as provas produzidas na fase de instrução do processo judicial, têm intuito de convencer o juiz a respeito da pretensão da autora ou da resistência do réu. Em outras palavras, caro acadêmico: a prova é o meio pelo qual o litigante, que alegou um fato contestado pelo outro, se serve para demonstrar ao Juízo a sua existência e realidade, a saber, sua veracidade. As provas produzidas são importantes, pois auxiliam na elucidação de litígios, tendo em vista que essas provas podem ser consideradas como a reconstrução da história do que aconteceu (MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017; ORNELAS, 2017; MOURA, 2020). E, caso não existissem as provas judiciais? Ora, caro acadêmico, caso não existissem as provas, o magistrado ficaria na dependência do “disse me disse”. Por isso que na legislação do nosso país, os meios de prova que podem existir num processo são, entre outros: • documentos; • testemunhas; • declarações das partes; • vistorias; • perícias; • inspeções judiciais. Os doutrinadores da área do direito afirmam que os litigantes devem compor uma base qualificada de provas; usando agora uma expressão em latim: “allegatio et non probatio, quasi non allegatio”, isto é, o alegado sem a prova que o sustente é o mesmo que não alegado, em outras palavras, podemos afirmar que o alegado sem prova não está revestido da credibilidade necessária. 5 Podemos extrair das obras dos autores Müller, Timi e Heimonski (2017), Ornelas (2017) e Moura (2020), que a importância da prova em juízo reside no fato de que esta é a comprovação, por meios lícitos, da veracidade, isto é, a autenticidade dos fatos que auxiliam a evidenciar a convicção jurídica. Nisso, podemos afirmar, caro acadêmico, que a prova utilizada em juízo é o conjunto de fatos que levam à convicção. O Código Civil brasileiro, instituído pela Lei nº 10.406 de 10 de janeiro de 2002, nos traz, em seu Artigo 212, os meios de se obter as provas em um processo: Art. 212. Salvo o negócio a que se impõe forma especial, o fato jurídico pode ser provado mediante: I - confissão; II - documento; III - testemunha; IV - presunção; V – perícia (BRASIL, 2002). Podemos afirmar, ainda, que as provas permitidas na legislação de nosso país são todas as legais e moralmente legítimas, mesmo que não expressamente previstas na legislação.Temos como fonte os Artigos 369 a 380 do Código de Processo Civil (CPC), Lei nº 13.105 de 16 de março de 2015, que, a seguir, abordaremos. O Artigo 369 do CPC, nos diz o seguinte: Art. 369. As partes têm o direito de empregar todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, para provar a verdade dos fatos em que se funda o pedido ou a defesa e influir eficazmente na convicção do juiz (BRASIL, 2015). Vemos, portanto, que as partes devem empenhar-se de todos os meios legais para a produção de provas com vistas a evidenciar a verdade dos fatos e, com isso, obter o deslinde da lide. Enquanto o Artigo 370 afirma que “Caberá ao juiz, de ofício ou a requerimento da parte, determinar as provas necessárias ao julgamento do mérito. Parágrafo único. O juiz indeferirá, em decisão fundamentada, as diligências inúteis ou meramente protelatórias” (BRASIL, 2015). O juiz solicita, por meio de despacho saneador, que as partes apresentem as provas que desejam produzir. Aceitando esse pedido, em sentença determina a produção de provas e, se aceitar a prova pericial, nomeia o perito, mandando as partes apresentarem os quesitos. Dessa forma, mantém o controle dos autos e afasta solicitações inúteis utilizadas com o propósito de protelar o andamento do processo (MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017). 6 O Artigo 371, nos evidencia o seguinte: “O juiz apreciará a prova constante dos autos, independentemente do sujeito que a tiver promovido, e indicará na decisão as razões da formação de seu convencimento” (BRASIL, 2015). Então, caro acadêmico, vemos que o juiz deverá evidenciar na sua decisão os motivos (ou razões) da formação do seu convencimento. O juiz, no exercício da sua função, poderá utilizar-se de prova que fora produzida em outro processo, conforme determina o Artigo 372: “O juiz poderá admitir a utilização de prova produzida em outro processo, atribuindo-lhe o valor que considerar adequado, observado o contraditório” (BRASIL, 2015). No que se refere ao ônus da prova, ou seja, o encargo da prova, é trazido nos termos do Artigo 373 do CPC: O ônus da prova incumbe: I- ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II- ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. § 1º Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. § 2º A decisão prevista no § 1º deste artigo não pode gerar situação em que a desincumbência do encargo pela parte seja impossível ou excessivamente difícil. § 3º A distribuição diversa do ônus da prova também pode ocorrer por convenção das partes, salvo quando: I- recair sobre direito indisponível da parte; II- tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito. § 4º A convenção de que trata o § 3º pode ser celebrada antes ou durante o processo (BRASIL, 2015). No ordenamento jurídico pátrio, o ônus da prova é de quem acusa, assim, a parte que acusa tem que comprovar o que foi dito. Portanto, conforme o inciso I supra, o ônus da prova cabe ao autor. No entanto, no inciso II, parágrafo 1º, o juiz poderá atribuir o ônus da prova de modo diverso, dando direito à parte do contraditório para se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. E todos os fatos trazidos aos autos necessitam ser provados? Bem, caro acadêmico, o Artigo 374 do CPC, nos traz esta resposta, vejamos: Não dependem de prova os fatos: I - notórios; II - afirmados por uma parte e confessados pela parte contrária; III - admitidos no processo como incontroversos; IV - em cujo favor milita presunção legal de existência ou de veracidade (BRASIL, 2015). 7 Vemos, portanto, que o Artigo 374 (BRASIL, 2015) nos afirma que é desnecessário provar os pontos incontroversos, ou seja, aqueles que não estão sendo discutidos, os confessados, os notórios. Podemos afirmar, portanto, se não há desacordo, acordado está. O Artigo 375 do CPC (BRASIL, 2015) nos relata que “o juiz aplicará as regras de experiência comum subministradas pela observação do que ordinariamente acontece e, ainda, as regras de experiência técnica, ressalvado, quanto a estas, o exame pericial”. Vemos neste artigo que o exame pericial é uma das maneiras que o juízo tem ao seu dispor para solucionar a lide. De acordo com o Artigo 376 do CPC (BRASIL, 2015), “a parte que alegar direito municipal, estadual, estrangeiro ou consuetudinário provar-lhe-á o teor e a vigência, se assim o juiz determinar”. Geralmente, a parte não tem a obrigação de provar a existência, bem como a validade da legislação que tenha sido utilizada nos autos, tendo em vista que a legislação deve ser, presumivelmente, conhecida pelo juiz, a quem cabe aceitá-la e aplicá-la ao caso concreto, ou rejeitar e afastar a sua aplicação. No entanto, há uma exceção expressa no CPC, em seu Artigo 376 supra. Dando continuidade, temos o Artigo 377 no qual consta: A carta precatória, a carta rogatória e o auxílio direto suspenderão o julgamento da causa no caso previsto no art. 313, inciso V, alínea “b”, quando, tendo sido requeridos antes da decisão de saneamento, a prova neles solicitada for imprescindível. Parágrafo único. A carta precatória e a carta rogatória não devolvidas no prazo ou concedidas sem efeito suspensivo poderão ser juntadas aos autos a qualquer momento (BRASIL, 2015). Para compreendermos o Artigo 377 teremos, caro acadêmico, que explicar o termo ‘carta precatória’. Por definição, carta precatória, de acordo com Müller, Timi e Heimonski (2017), é o instrumento utilizado para requisitar a outro juiz o cumprimento de algum ato necessário ao andamento do processo. É através da carta precatória que são solicitadas a citação, a penhora, a apreensão ou qualquer outra medida processual, que não poderia ser executada no juízo em que o processo se encontra, devido à incompetência territorial, em outras palavras, a designação do ato está subordinada ao juízo de outra localidade. Uma vez que já temos conhecimento da definição de carta precatória, vemos no Artigo 377, que a perícia pode ocorrer por carta precatória, ou seja, o processo de origem se encontra em outra comarca. Assim, o juiz realiza um pedido ao juízo de outra comarca para citar o réu, ou a testemunha, ou proceder à perícia, estabelecendo-se entre as comarcas cooperação mútua, tendo em vista que não existe hierarquia nessa relação entre magistrados. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art313vb https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art313vb 8 O Artigo 378 do CPC facilitou a realização das diligências periciais, vejamos: “ninguém se exime do dever de colaborar com o Poder Judiciário para o descobrimento da verdade” (BRASIL, 2015). O CPC traz, no Artigo 379, o direito constitucional das partes de não produzirem provas contra si: Preservado o direito de não produzir prova contra si própria, incumbe à parte: I- comparecer em juízo, respondendo ao que lhe for interrogado; II- colaborar com o juízo na realização de inspeção judicial que for considerada necessária; III- praticar o ato que lhe for determinado (BRASIL, 2015). E, encerrando as disposições gerais do CPC que tratam das provas, temos o Artigo 380: Incumbe ao terceiro, em relação a qualquer causa: I- informar ao juiz os fatos e as circunstâncias de que tenha conhecimento; II- exibir coisa ou documento que esteja em seu poder. Parágrafo único. Poderá o juiz, em caso de descumprimento, deter- minar, além da imposição de multa, outras medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias (BRASIL, 2015). Vemos neste artigo que o magistrado poderámultar ou determinar medidas indutivas e coercitivas aos terceiros que não colaborarem para a instrução processual. Enfatiza, ainda, a necessidade de colaboração para a produção da prova adequada. 3 PROVA PERICIAL Prezado acadêmico, já sabemos, conforme estudado anteriormente, os diversos meios de prova que podem existir num processo judicial. Lembra quais são eles? Vamos recordar juntos, então. São exemplos de meios de provas: documentos, testemunhas, declarações das partes, vistorias, perícias, inspeções judiciais. Vamos, agora, fazer uma imersão no meio de prova perícia, também chamado de prova pericial. Moura (2020) afirma que, de modo amplo, entende-se por perícia um meio de prova, tendo em vista que através dessa prova se examinam e se verificam fatos da causa. A perícia, de acordo com o princípio da lei processual, é a medida que vem mostrar o fato, quando não haja meio de prova documental para revelá-lo ou, ainda, quando se deseja esclarecer as circunstâncias a respeito do fato e que não se encontrem devidamente definidos nos autos do processo (MOURA, 2020). 9 A perícia tem como finalidade a prova, quer seja no âmbito judicial, arbitral ou extrajudicial e visa subsidiar a justiça, servindo como elemento para uma decisão. A perícia é fonte de prova e seu objetivo principal é a prova (MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017; ORNELAS, 2017; CREPALDI, 2019; MOURA, 2020). 3.1 PROVA PERICIAL A prova pericial é o exame elaborado pelo profissional com formação e conhecimento sobre a área com base no Código de Processo Penal (CPP) e no Código de Processo Civil (CPC). A função da perícia judicial é fornecer ao juiz que atua no processo elementos de convicção sobre fatos que dependem de conhecimento técnico ou científico (CREPALDI, 2019). A palavra perícia vem do latim perita, e significa “conhecimento adquirido pela experiência”. Quando necessitamos de uma opinião válida e competente, ou quando buscamos um entendedor de um determinado tema, buscamos um perito (SANTOS, 2020). Quem de nós, assistindo um telejornal, ou navegando numa página da internet, ou na nossa rede social, já se deparou com notícias do tipo: “Peritos da Polícia Federal concluem inspeção ao sistema eletrônico de votação no TSE. Durante toda a semana, especialistas realizaram diversos testes em todas as etapas do sistema” (TSE, 2022, s. p.). Ou deste tipo: “Após perícia, PF localiza contratante de fake news em Cuiabá. Ele foi conduzido para a sede da corporação, onde prestou depoimento” (SBT NEWS, 2022, s.p.). E como esta: “Perícia divulga 5 fatores que contribuíram para queda do Edifício Andrea. O prédio desabou no dia 15 de outubro de 2019. Nesta quinta-feira (30), as autoridades divulgaram em coletiva de imprensa que três pessoas foram indiciadas. Nenhuma delas chegou a ser presa” (DIÁRIO DO NORDESTE, 2020, s. p.). Ou como esta? “Juiz determina perícia em empresa para apurar salário extra folha. Uma operadora de telemarketing procurou a Justiça do Trabalho alegando recebimento de salário extra folha, uma das violações aos direitos trabalhistas mais difíceis de serem comprovadas” (JUSBRASIL, 2023, s. p.). 10 Como exemplificado anteriormente, caro acadêmico, existem vários tipos de perícia, a depender do ramo do conhecimento. Portanto, as perícias podem ser de vários tipos, com finalidades voltadas para cada uma das situações específicas, por exemplo: • perícia criminal; • perícia ambiental; • perícia de engenharia; • perícia tecnológica; • perícia médica; • perícia contábil. O ambiente pericial é extremamente voltado à justiça, pois a perícia busca, independentemente do tipo, a solução do litígio, seja em ambiente judicial ou extrajudicial, ou ainda no aspecto arbitral. Numa perícia, busca-se a opinião do investigador (que denominamos perito), muitas vezes num ambiente de controvérsia, dúvida, indícios de fraude, de erros, de problemas (MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017). Observe este exemplo de um ambiente pericial: uma parte acha que deve R$ 100,00 (cem reais) e a outra entende que deve pagar R$ 80,00 (oitenta reais). Qual das partes está correta? Neste caso, o perito buscará responder essa questão. Há uma resposta ou uma solução para a controvérsia? Talvez, o perito conclua que ambas as partes estejam erradas, tendo em vista que o valor devido é R$ 92,75 (noventa e dois reais e setenta e cinco centavos). IMPORTANTE A perícia, de acordo com Müller, Timi e Heimonski (2017), tem como finalidade, ainda, um esclarecimento sobre determinado fato ocorrido, podendo ter vários propósitos, a saber: administrativos, judiciais, políticos, fiscais ou propósitos especiais. Assim, para identificarmos o propósito da perícia, temos que indagar para que queremos a perícia: para atender a uma necessidade judicial? A uma necessidade extrajudicial? A um fato administrativo? Ao término de uma sociedade empresarial? A uma apuração de haveres? Ou para casos especiais, como uma situação relacionada a desvios de recursos de uma instituição municipal, por exemplo? Assim, podemos concluir que a prova pericial é baseada no conhecimento técnico, na experiência, na expertise, nas normas, no estudo formal do expert, que tem competência para formar uma opinião sobre assuntos relacionados aos pontos controversos de um processo judicial. Nisso, a prova pericial é de suma importância para auxiliar o juiz na sua decisão, transformando os fatos relativos à lide, de natureza técnica ou científica, em verdade formal, em certeza jurídica (MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017; ORNELAS, 2017; CREPALDI, 2019; MOURA, 2020; SANTOS, 2020). 11 Prova: é todo meio legal usado no processo (administrativo e/ou judicial), capaz de demonstrar a verdade dos fatos alegados. Prova pericial: no rol das provas, a de maior hierarquia. No jargão forense, a “rainha das provas” – sua antítese, a prova testemunhal, é a “prostituta das provas” (CREPALDI, 2019, p. 126). IMPORTANTE 3.1.1 Modalidades da prova pericial De acordo com o Artigo 464 do CPC, existem três modalidades de prova pericial, requisitadas de acordo com a necessidade e a área técnica de conhecimento: Art. 464. A prova pericial consiste em exame, vistoria ou avaliação. § 1º O juiz indeferirá a perícia quando: I- a prova do fato não depender de conhecimento especial de técnico; II- for desnecessária em vista de outras provas produzidas; III- a verificação for impraticável. § 2º De ofício ou a requerimento das partes, o juiz poderá, em subs- tituição à perícia, determinar a produção de prova técnica simplificada, quando o ponto controvertido for de menor complexidade. § 3º A prova técnica simplificada consistirá apenas na inquirição de especialista, pelo juiz, sobre ponto controvertido da causa que demande especial conhecimento científico ou técnico. § 4º Durante a arguição, o especialista, que deverá ter formação aca- dêmica específica na área objeto de seu depoimento, poderá valer-se de qualquer recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens com o fim de esclarecer os pontos controvertidos da causa (BRASIL, 2015). A seguir, de acordo com os autores Moura (2020), Sousa (2020), Crepaldi (2019) e Ornelas (2017), trataremos cada uma das modalidades de prova pericial: • Exame: inspeção de pessoas, animais, coisas ou bens móveis. É a análise ou observação de pessoas, animais ou coisas, com o objetivo de extrair informações. Por exemplo: livros contábeis e fiscais, documentos, contratos, verificação de cálculos. • Vistoria: constatação in loco do estado ou da situação de determinada coisa ou bem imóvel. É a análise de bens imóveis in loco, com o objetivo de verificar se há dano ou avaria. Por exemplo, a vistoria em imóveis, em máquinas, em equipamentos, estoques de mercadorias. • Avaliação: verificação ou atribuição de valor a alguma coisa, bem ou obrigação. É a atribuição ou verificação de valor a alguma coisa, obrigação ou bem. Por exemplo, avaliação de bens feita em inventário, em partilhas ou em processos administrativos,bem como nas execuções para estimação de valores a partilhar ou em penhora. 12 As perícias podem ser classificadas também quanto processo, a saber: em perícia judicial, extrajudicial e arbitral: • Perícia judicial: é aquela realizada dentro dos procedimentos processuais do Poder Judiciário, por solicitação das partes (autor e réu) e por determinação do juiz. Exemplos: apuração de haveres, revisional de contratos, lucros cessantes, litígios trabalhistas, criminal, varas de família, varas de falência e recuperação judicial. • Perícia extrajudicial: é aquela realizada fora do âmbito do Poder Judiciário, por vontade das partes, sendo elas pessoas físicas ou jurídicas, quando não há necessidade de decisão judicial ou arbitral. Por exemplo: avalições de patrimônio e fusões, cisões e incorporações em geral, revisão de contratos para negociação de dívidas, passivo trabalhista. • Perícia arbitral: é aquela realizada no âmbito do juízo arbitral. A Lei nº 9.307, de 23 de setembro de 1996, dispõe sobre a arbitragem. Qualquer pessoa capaz poderá valer-se de arbitragem, cujo objeto da lide é o direito patrimonial disponível. É o mecanismo privado de solução de litígios, sendo um meio alternativo de solução de controvérsias através da intervenção de uma ou de mais pessoas que recebem seus poderes de uma convenção privada. A perícia tem sua aplicação na arbitragem no momento da produção de provas. Prova pericial ou diligência pericial? A obtenção de provas, dos fatos pertinentes ao processo, objetiva responder aos quesitos, que podem ser ordinários (CPC, Art. 465, § 1º, III) e/ou suplementares (CPC, Art. 469) e fazem-se através de diligências periciais; quanto aos quesitos de esclarecimentos (CPC, Art. 361), poderão ser respondidos nas audiências de instrução e/ou antes, por escrito, se assim decidir o juiz. Inicialmente, para o entendimento, é fundamental conhecer os conceitos de “prova pericial” e de “diligência pericial”. Prova pericial – está expressa no CPC (2015), Art. 464, como: “A prova pericial consiste em exame, vistoria ou avaliação.” Para fazer o exame, a vistoria ou avaliação o perito baseia-se em fatos documentados. Os procedimentos, numerados de 16 a 29 na NBC TP 01, expressam e ampliam esse conceito, como: exame, vistoria, indagação, investigação, arbitramento, mensuração, avaliação e certificação: Diligência pericial – conhecendo os quesitos, o perito e/ou assistentes técnicos (se houver) podem iniciar as diligências para obtenção das provas dos fatos. As diligências consistem em todos os meios, lícitos, necessários, para obtenção de provas que possam estar fora dos autos (CPC, Art. 473, § 3º), como, por exemplo, acesso aos livros comerciais obrigatórios, facultativos, auxiliares, fiscais e sociais, e dos documentos de arquivos das partes ou de terceiros e documentos de órgãos públicos, oitiva de testemunhas (exceção) e outros. A obtenção da prova pericial requerida e deferida nem sempre pode ser gerada só com os elementos acostados aos autos; são comuns situações em que informações dos autos são insuficientes. Assim, os peritos poderão buscar dados e provas junto às partes, em repartições públicas e outros locais (CPC, Art. 473, § 3º). Recomenda-se que solicitações INTERESSANTE 13 de documentos sejam feitas segundo as orientações emanadas da NBC TP 01, por escrito, através de Termo de Diligência (modelo no site do CFC), visando orientar quem irá preparar os informes solicitados, estabelecer prazos e comprovar o desempenho do próprio perito judicial. Poderá acontecer de a fonte não apresentar os informes e/ou documentos solicitados no Termo de Diligência, inviabilizando a obtenção da prova diligenciada. Nestas condições, deve o perito peticionar ao juiz com esclarecimentos. No período de diligências o perito deverá: a) registrar as datas, horários, locais das diligências, bem como os nomes e cargos das pessoas que o atenderam; b) documentar, mediante papéis de trabalho, os elementos relevantes que servirão de suporte à conclusão formalizada no laudo e/ou parecer pericial; c) a oitiva de testemunhas, como já mencionado anteriormente (por cautela), deve ser evitada em razão de jurisprudências com restrições a essa prática por parte do perito, pois há orientação de que a prova testemunhal só terá valor probante se reproduzida na presença do juiz (MAGALHÃES, 2017, p. 53-55). 3.1.2 Ônus da prova A palavra ônus é entendida pelos nossos juristas não como dever para com outrem, seja a parte contrária, seja o próprio julgador. Quem afirma ou nega determinado fato é que tem o ônus, o interesse de oferecer ou produzir as provas necessárias que entende possam vir a corroborar as alegações oferecidas (ORNELAS, 2017). O dever de provar compete a quem alega, a quem afirma ou nega determinados fatos da causa. Quem busca a proteção da justiça estatal ou arbitral depara com a necessidade de produzir suas provas. Quem oferecer as provas mais convincentes, fatalmente, obterá sucesso. É de se notar que ninguém está obrigado a produzi-las; todavia, não o fazendo, arcará com as consequências. O Código de Processo Civil trata a questão como incumbência, em seu Art. 333, estipulando que: incumbe: I- ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II- ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor" (BRASIL, 2015). Na produção da prova pericial, é, portanto, indispensável o perito debruçar-se sobre a matéria fática objeto da causa, à luz da classificação contida no dispositivo legal, estudando-a detidamente sob essa ótica, o que lhe vai possibilitar traçar os caminhos técnicos a serem por ele percorridos mesmo porque é inerente a sua função colaborar para o descobrimento da verdade. 14 Por exemplo, os fatos administrativo-financeiros e patrimoniais obtidos pelo sistema de informações contábeis e respectivo suporte documental. O ônus da prova é um dos institutos mais fundamentais do direito. Sem este instituto seria inviável a aplicação da justiça, tendo em vista que os pedidos e acusações realizados entre as pessoas não precisariam de comprovação, por meio de provas, para serem sustentados. Por exemplo: Antonio entra com uma ação judicial contra Lucy, sua inquilina, cobrando aluguéis em atraso. Para que essa cobrança seja legítima, é fundamental que Antonio consiga comprovar que esses aluguéis são, de fato, devidos por Lucy, comprovando que ela é sua inquilina e, principalmente, que há aluguéis em atraso, sem pagamento. Essa comprovação esperada de Antonio, para que as suas afirmações sejam de fato acatadas pelo juiz, é o que o direito chama de ônus da prova. IMPORTANTE 15 Neste tópico, você aprendeu: • Que a prova em juízo é aplicada objetivando a demonstração da existência do ato, isto é, aquilo que atesta a veracidade de alguma coisa; é uma demonstração evidente, atestando ou garantindo uma intenção, um sentimento, um testemunho. • As provas produzidas na fase de instrução do processo judicial, tem intuito de convencer o juiz a respeito da pretensão da autora ou da resistência do réu. • Os meios de prova que podem existir num processo são, entre outros documentos, testemunhas, declarações das partes, vistorias, perícias, inspeções judiciais. • A prova pericial é o exame elaborado pelo profissional com formação e conhecimento sobre a área com base no Código de Processo Penal (CPP) e no Código de Processo Civil (CPC), cujo objetivo é fornecer ao juiz que atua no processo elementos de convicção sobre fatos que dependem de conhecimento técnico ou científico. • As perícias podem ser de vários tipos, com finalidades voltadas para cada uma das situações específicas, por exemplo: perícia criminal; perícia ambiental; perícia de engenharia; perícia tecnológica; perícia médica; perícia contábil. • As perícias, quanto ao processo, podem ser classificadas em perícia judicial, extrajudicial e arbitral. • As modalidades de prova pericial são: exame, vistoriae avaliação. RESUMO DO TÓPICO 1 16 1 De acordo com os Artigos 369 e 370 do Código de Processo Civil – CPC, as partes terão o direito de empregar todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, para provar suas alegações feitas nos autos no processo, cabendo ao magistrado determinar as provas necessárias ao julgamento do mérito. BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Institui o Código Civil. Brasília, DF: Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, 16 mar. 2015. Sabendo que o CPC descreve os meios de prova, analise as sentenças a seguir: I- O fato jurídico somente poderá ser provado mediante perícia. II- O juiz poderá admitir a utilização de prova produzida em outro processo, atribuindo- lhe o valor que considerar adequado, observado o contraditório. III- A prova utilizada em juízo é o conjunto de fatos que levam à convicção. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças II e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 2 O Código de Processo Civil – CPC, Lei nº 13.105 de 16 de maio de 2015, trata das provas no Capítulo XII, a partir do artigo 369. BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Institui o Código Civil. Brasília, DF: Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, 16 mar. 2015. A partir do CPC, analise as sentenças a seguir: I- As provas permitidas na legislação pátria são todas as legais e moralmente legítimas, mesmo que não expressamente previstas na legislação. II- As provas permitidas na legislação brasileira são somente as previstas em lei. III- As provas moralmente legítimas, mesmo que não expressamente previstas na le- gislação, são permitidas na legislação nacional. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença III está correta. c) ( ) As sentenças I, III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença II está incorreta. AUTOATIVIDADE 17 3 A prova pericial é uma peça relevante numa lide, pois é baseada, sobretudo, em fatos científicos perante uma controvérsia técnica entre as partes envolvidas. Assim, a prova pericial é uma fonte confiável para que o magistrado possa embasar sua decisão de uma forma mais justa em uma ação judicial. Diante do excerto, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) É desnecessário provar os pontos incontroversos, ou seja, aqueles que não estão sendo discutidos, os confessados, os notórios. ( ) A prova pericial consiste, exclusivamente, em exame. ( ) Perícia extrajudicial é aquela realizada fora do âmbito do Poder Judiciário. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 O ambiente pericial é extremamente voltado à justiça, tendo em vista que a perícia persegue a solução do litígio. Numa perícia busca-se a opinião do perito. Disserte sobre a classificação das perícias. 5 O CPC traz as modalidades da prova pericial em seu Artigo 464. Nesse contexto, disserte sobre as modalidades da prova pericial. 18 19 PERÍCIA CONTÁBIL UNIDADE 1 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO A perícia contábil é classificada como um dos gêneros de prova pericial. Assim, é um tipo de prova pericial utilizada pelas pessoas (físicas ou jurídicas) para esclarecer fatos ou questões contábeis controversas, servindo como meio de prova judicial. É solicitada pelo juiz, com vistas a auxiliá-lo na sua decisão como meio de prova para um fato que exija conhecimento técnico da área contábil. Tal prova ou opinião somente poderá ser emitida por especialistas com conhecimentos técnicos e científicos em contabilidade, ou seja, pelo perito contábil (MOURA, 2020; SANTOS, 2020; ORNELAS, 2017). A perícia contábil possui objeto, finalidade, alcance e procedimentos peculiares, sendo um ramo específico da Contabilidade. O juiz tem por hábito intimar e determinar perícia contábil para qualquer tipo de perícia que inclua cálculos, que poderão ser feitos por contadores concursados do quadro funcional dos tribunais, ou por contadores externos ao quadro dos tribunais (CREPALDI, 2019; MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017). Por constituir-se atribuição privativa de contador devidamente inscrito no Conselho Regional de Contabilidade (CRC) da sua jurisdição, a perícia contábil possui normas expedidas pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC), a saber: • Norma Brasileira de Contabilidade, NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil, que estabelece diretrizes e procedimentos técnico-científicos a serem observados pelo perito, quando da realização de perícia contábil, no âmbito judicial e extrajudicial. • Norma Brasileira de Contabilidade, NBC PP 01 (R1) – Perito Contábil, que estabelece diretrizes inerentes à atuação do contador na condição de perito. • Norma Brasileira de Contabilidade, NBC PP 02 – Exame de Qualificação Técnica, que dispõe sobre o exame de qualificação técnica para perito contábil. 2 BREVE HISTÓRICO Acadêmico, as abordagens desenvolvidas neste subtema estabelecem os aspectos históricos da perícia em âmbito mundial e no Brasil. 20 2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS A perícia contábil é tão antiga quanto à evolução da Contabilidade, surgindo em função das atividades mercantis, econômicas e sociais, bem como da necessidade dos juízes. No Egito, por exemplo, conta Heródoto que, quando alguém perdia parte das suas terras devido ao avanço do rio, saía ao encontro do rei, dando-lhe parte do que houvera ocorrido; então o rei enviava inspetores ao local da situação do lote, e eles mediam para saber o tamanho da área que fora diminuída e, a partir daí, reduzir proporcionalmente o pagamento do tributo (ALBERTO, 2012; BLEIL; SANTIN, 2008). Assim, podemos inferir que há indícios de perícia desde o início da civilização, entre os homens primitivos, quando o líder desempenhava todos os papéis: de juiz, de legislador e executor. Há registros, na Índia, do surgimento do árbitro eleito pelas partes, que desempenhava o papel de perito e juiz ao mesmo tempo (CREPALDI, 2019; ALBERTO, 2012). Os autores Crepaldi (2019), Alberto (2012), Bleil e Santin (2008), relatam que também há vestígios de Perícia nos antigos registros da Grécia, com o surgimento das instituições jurídicas, área em que já naquela época se recorria aos conhecimentos de pessoas especializadas. Contudo, a figura do perito, ainda que associada ao árbitro, fica definida no Direito Romano primitivo, no qual o laudo do perito constituía a própria sentença. Depois da Idade Média, com o desenvolvimento jurídico ocidental, a figura do perito desvinculou-se da do árbitro. No Brasil a perícia surge em 1850, por meio da Lei nº 556 – Código Comercial e do Regulamento nº 737. O Código de Processo Civil (CPC) de 1939 já estabelecia vagas regras sobre perícia. Foi, contudo, em 1946, com o advento do Decreto-lei nº 9.295/46 (que criou o Conselho Federal de Contabilidade e definiu as atribuições do contador), que se institucionalizou a Perícia Contábil no Brasil (SÁ, 2019; MAGALHÃES, 2017): Art. 25. São considerados trabalhos técnicos de contabilidade: a) organização e execução de serviços de contabilidade em geral; b) escrituração dos livros de contabilidade obrigatórios, bem como de todos os necessários no conjunto da organização contábil e levantamento dos respectivos balanços e demonstrações; c) perícias judiciais ou extra-judiciais, revisão de balanços e de contas em geral, verificação de haveres revisão permanente ou periódica de escritas, regulações judiciais ou extra- judiciais de avarias grossas ou comuns, assistência aos Conselhos Fiscais das sociedades anônimas e quaisquer outras atribuíções de natureza técnica conferidas por lei aos profissionais de contabilidade. § 1º Os serviços profissionais de contabilidade são, por sua natureza, técnicos e singulares, quando comprovada sua notória especialização, nos termos da lei. (Incluídopela Lei nº 14.039, de 2020) https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2020/Lei/L14039.htm#art2 21 § 2º Considera-se notória especialização o profissional ou a sociedade de profissionais de contabilidade cujo conceito no campo de sua especialidade, decorrente de desempenho anterior, estudos, experiências, publicações, organização, aparelhamento, equipe técnica ou de outros requisitos relacionados com suas atividades, permita inferir que o seu trabalho é essencial e indiscutivelmente o mais adequado à plena satisfação do objeto do contrato. (Incluído pela Lei nº 14.039, de 2020) Art. 26. Salvo direitos adquiridos ex-vi do disposto no art. 2º do Decreto nº 21.033, de 8 de Fevereiro de 1932, as atribuições definidas na alínea c do artigo anterior são privativas dos contadores diplomados (BRASIL, 1946, grifo nosso). Os autores Sá (2019) e Magalhães (2017) relatam que, com o Decreto-lei nº 8.579, de 8 de janeiro de 1946, significativas alterações foram introduzidas nas normas periciais. Também a Legislação Falimentar – Decreto-lei nº 7.661/45, com as alterações da Lei nº 4.983/66 estabeleceu regras de Perícia Contábil, que definiam esta atribuição ao contador. Atualmente aplicam-se as regras da Lei de Regularização de Empresas e Falência – Lei Federal nº 11.101/2005. O Novo Código de Processo Civil (CPC – Lei nº 13.105/2015) entrou em vigor em 17 de março de 2016, formando um conjunto com as atualizações do Código de Processo Penal (CPP – alteração da Lei nº 11.960/2008), da Lei Processual Trabalhista (LTP – Lei nº 5.584/70) e da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT – Decreto-lei nº 5.452/43), combinadas às jurisprudências de natureza processual. Por fim, no que refere às normas de natureza técnica-contábil, chama-se a atenção para as atualizações das Normas expedidas pelo Conselho Federal de Contabilidade, pelos seus conteúdos elucidativos e esclarecedores. É neste conjunto de normas que estão inseridas as que disciplinam a Perícia Contábil, a saber: • Norma Brasileira de Contabilidade, NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil, que estabelece diretrizes e procedimentos técnico-científicos a serem observados pelo perito, quando da realização de perícia contábil, no âmbito judicial e extrajudicial (CFC, 2020a). • Norma Brasileira de Contabilidade, NBC PP 01 (R1) – Perito Contábil, que estabelece diretrizes inerentes à atuação do contador na condição de perito (CFC, 2020b). • Norma Brasileira de Contabilidade, NBC PP 02 – Exame de Qualificação Técnica, que dispõe sobre o exame de qualificação técnica para perito contábil (CFC, 2016). As Normas Brasileiras de Contabilidade classificam-se em Profissionais e Técnicas. As Normas Profissionais estabelecem regras de exercício profissional e classificam-se em: NBC PG – Geral. NBC PA – do Auditor Independente. NBC PP - do Perito Contábil. As Normas Técnicas estabelecem conceitos doutrinários, regras e procedimentos aplicados de Contabilidade e classificam-se em: NBC TG – Geral. IMPORTANTE https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2020/Lei/L14039.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2020/Lei/L14039.htm#art2 https://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/viwTodos/84C661D4E97D9A91032569FA00546033?OpenDocument&HIGHLIGHT=1, https://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/viwTodos/84C661D4E97D9A91032569FA00546033?OpenDocument&HIGHLIGHT=1, 22 NBC TSP – do Setor Público. NBC TA – de Auditoria Independente de Informação Contábil Histórica. NBC TASP – de Auditoria de Informação Contábil Histórica Aplicável ao Setor Público. NBC TR – de Revisão de Informação Contábil Histórica. NBC TO – de Asseguração de Informação Não Histórica. NBC TSC – de Serviço Correlato. NBC TI – de Auditoria Interna. NBC TP – de Perícia. Fonte: http://twixar.me/Bmxm. Acesso em: 10 jan. 2023. 3 PERÍCIA CONTÁBIL Nesta etapa, caro acadêmico, iremos trazer o conceito de perícia contábil, seu objeto e objetivo, bem como as modalidades e aplicações da perícia contábil. Vamos lá? 3.1 CONCEITO Como toda área do conhecimento, é necessário que saibamos os conceitos relacionados à área de estudo. No estudo da perícia contábil não é diferente, conhecer o conceito dela é de suma importância para que possamos entendê-la e prosseguir com os demais estudos inerentes a ela. Então, prezado acadêmico, vamos apresentar diversos autores que trazem o conceito da perícia contábil. Iniciaremos pelo conceito adotado pelo Conselho Federal de Contabilidade na norma que trata de perícia contábil, a NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil, no seu item 2: A perícia contábil é o conjunto de procedimentos técnico-científicos destinados a levar à instância decisória elementos de prova neces- sários a subsidiar a justa solução do litígio ou constatação de fato, mediante laudo pericial contábil e/ou parecer pericial contábil, em conformidade com as normas jurídicas e profissionais e com a legis- lação específica no que for pertinente (CFC, 2020a). Costa (2017) e Crepaldi (2019) relatam que a definição de perícia contábil trazida pelo CFC é bastante ampla, portanto, para uma melhor compreensão é necessário que a fragmentemos: 23 Figura 1 – Perícia contábil: conceituação NBC TP 01 (R1) Fonte: o autor • Conjunto de procedimentos técnico-científicos: a norma especificou que a perícia contábil é uma técnica especial, possuindo procedimentos técnico-científicos peculiares. Nisso, ela difere dos conhecidos ramos da contabilidade: escrituração, demonstrações contábeis, auditoria e análise das demonstrações contábeis. Dentre os procedimentos típicos da perícia, temos: exame, vistoria, indagação, investigação, arbitramento, mensuração, avaliação e certificação. • Destinados a levar à instância decisória: é a aplicação da ciência contábil para a instância decisória, pois a perícia contábil auxiliará da justiça na decisão da lide. • Elementos de prova: o perito sempre irá produzir um conhecimento amparado em provas, que serão apresentadas junto ao laudo ou parecer e levadas a uma instância decisória. Toda perícia tem por finalidade subsidiar um pedido, uma requisição a ser esclarecida para uma tomada de decisão. Por exemplo: o magistrado solicita perícia contábil sobre apuração de haveres de determinada pessoa física em uma ação de alimentos. O perito contábil irá identificar os rendimentos (poder econômico) da pessoa determinada e levar à instância decisória (juiz) o seu laudo pericial. O juiz, por sua vez, sentenciará o valor da pensão. ATENÇÃO 24 • Necessários a subsidiar a justa solução do litígio ou constatação de um fato: a opinião do perito, através da emissão do laudo ou parecer, subsidiará a solução de uma lide ou a constatação de um fato isolado. Vejamos dois exemplos: ◦ Exemplo 1: o litígio do item anterior, que é a determinação do valor da pensão alimentícia, será resolvido após a sentença do juiz, que estará amparada pelo laudo do perito. Com a opinião do perito, o juiz terá subsídios para determinar um valor justo à pensão alimentícia. ◦ Exemplo 2: A constatação de um fato pode ser ilustrada da seguinte forma: o ad- ministrador de determinada empresa contrata um perito contábil com a finalidade de averiguar uma possível fraude relacionada à contabilização do almoxarifado que a integra. • Em conformidade com as normas jurídicas e profissionais e a legislação específica no que for pertinente: i) as normas jurídicas são o Código Civil e do Código de Processo Civil; ii) já as normas profissionais a que se refere a NBC são pertinentes ao exercício profissional da contabilidade, ou seja, a NBC TP 01 (R1) dita os procedimentos necessários para o profissional da contabilidade desenvolver a atividade pericial, portanto é a norma técnica de perícia, e a NBC PP 01 (R1) que trata do profissional habilitado para desempenhar o papel de perito-contador; e iii) quanto à legislação específica, está condicionado àquilo que está sendo discutido no processo, nos autos, ouseja, trata-se da legislação específica do objeto da perícia. Exemplificando: ao efetuar uma perícia acerca de uma questão contábil, envolvendo uma empresa optante pelo Regime Simples Nacional, o contador deverá observar a Lei Complementar n. 123/2006 e as Resoluções do Comitê Gestor do Simples Nacional – normas específicas para as empresas optantes por esse regime. Sá (2019, p. 3) também nos traz um conceito de perícia contábil: Perícia contábil é a verificação de fatos ligados ao patrimônio indivi- dualizado, visando oferecer opinião mediante questão proposta. Para tal opinião realizam-se exames, vistorias, indagações, investigações, avaliações, arbitramentos, em suma, todo e qualquer procedimento necessário à opinião. A partir do conceito de Sá, podemos complementar o seguinte: • A necessidade de se conhecer uma opinião de especialista em Contabilidade sobre uma realidade patrimonial, em qualquer tempo, em qualquer espaço, qualitativa e quantitativamente, em causas e efeitos. • O exame do especialista sobre o que se deseja conhecer como opinião. • Por exemplo, quando ocorreu a denúncia, na Câmara Federal, sobre as corrupções no Orçamento da República, se fez necessário conhecer a “movimentação das contas bancárias” dos implicados, e isso gerou uma Perícia Contábil para cada caso. 25 Sá (2019, p. 2), nos afirma ainda, que “a perícia contábil é uma tecnologia porque é a aplicação dos conhecimentos científicos da Contabilidade”, ensejando numa opinião sobre verificação feita, relativa ao patrimônio individualizado (de empreendimentos ou de pessoas); e tal opinião foi determinada ou requerida por alguém. Examinar, realizar levantamentos, vistoriar, fazer indagações, investigar, avaliar, arbitrar (diante da falta de elementos mais concretos), em suma, fazer o necessário para ter segurança sobre o que se vai opinar, são Procedimentos Periciais. Os procedimentos periciais aplicam-se, de acordo com a pertinência, a cada caso. ATENÇÃO Para Magalhães (2017, p. 6), ao trazer alguns conceitos de perícia contábil, aponta o seguinte: Trabalho que exige notória especialização no seio das Ciências Contábeis, com o objetivo de esclarecer ao Juiz de Direito, ao Administrador Judicial (Síndico ou Comissário) e a outras autoridades formais, fatos que envolvam ou modifiquem o patrimônio de entidades nos seus aspectos quantitativos. Apresentamos, ainda, os conceitos trazidos na obra de Ornelas (2017, pp. 16-18): A perícia contábil é, pois, o exame hábil [...] com o objetivo de resolver questões contábeis, ordinariamente originárias de controvérsias, dúvidas e casos específicos determinados ou previstos em lei” (Gonçalves, 1968). A perícia contábil se caracteriza como incumbência atribuída a contador, para examinar determinada matéria patrimonial, administrativa e de técnica contábil, e asseverar seu estado circunstancial (D’Áuria, 1962). Perícia contábil é um instrumento técnico-científico de constatação, prova ou demonstração, quanto à veracidade de situações, coisas ou fatos oriundos das relações, efeitos e haveres que fluem do patrimônio de quaisquer entidades (Alberto, 1996). E agora, depois da apresentação de diversos autores que trazem o conceito de perícia contábil, já podemos trazer os elementos principais desta conceituação, quais sejam: 26 • perícia contábil é uma técnica contábil; • trata-se de uma técnica especial com procedimentos técnicos peculiares; • é realizada por contador; • subsidia a solução de litígio ou constatação; • na perícia contábil é emitido o laudo pericial contábil ou o parecer pericial contábil; • deverá seguir as normas e legislação pertinentes. Podemos, ainda, trazer os elementos principais da conceituação de perícia contábil na Figura 2 a seguir: Figura 2 – Perícia Contábil Fonte: o autor Crepaldi (2019) resume assim: a perícia contábil é o meio de prova realizado por profissional com formação e registro específico quando é necessária a aplicação de conhecimento em Contabilidade. Os procedimentos de trabalho em perícia contábil são o exame, a vistoria, a indagação, a investigação, o arbitramento, a mensuração, a avaliação e a certificação. Na esfera judicial, a perícia pode ser elemento suficientemente determinante para o convencimento do magistrado, desde que haja componentes satisfatórios para elaborar um laudo que apresente conclusão totalmente incontroversa, ou seja, aquela em que os elementos, objetos da perícia contábil, apresentem um laudo conclusivo incontestável. O critério de avaliação desses bens destinados à exploração da atividade, previsto no Código Civil, em seu Art. 1.187 (BRASIL, 2002), serão avaliados pelo custo de aquisição, criando-se fundos de amortização para os que se desgastam ou depreciam. 27 3.2 OBJETO E OBJETIVO DA PERÍCIA CONTÁBIL A perícia contábil tem por objeto, de acordo com Ornelas (2017) e Santos (2020), os fatos ou questões patrimoniais relacionados com a causa, as quais devem ser verificadas, e, por isso, são submetidas à apreciação técnica do perito contador, que deve considerar, nessa apreciação, certos limites essenciais – que são os caracteres essenciais – a saber: • limitação da matéria: refere-se à matéria que fora submetida à apreciação pericial delineada pelo próprio objeto sub judice ou pelo julgador dos pontos controvertidos quando do despacho saneador, ou em audiência; • pronunciamento adstrito à questão ou questões propostas: o perito contador deverá manifestar-se somente no que se refere aos quesitos levantados nos autos do processo, ou seja, será exigido da perícia contábil pronunciamento limitado ou adstrito àquilo que foi apreciado; • meticuloso e eficiente exame do campo prefixado: a tarefa pericial envolve a necessidade de o perito contador adotar procedimentos meticulosos e eficientes de exame das questões patrimoniais prefixadas no litígio; • escrupulosa referência à matéria periciada: o perito contador deverá constatar e identificar as fontes informativas ou reveladoras dos elementos que pesquisou, há que desenvolver e correlacionar referidas fontes com as próprias questões sob análise ou apreciação, tomando o cuidado permanecer fiel nas referências às questões objeto do trabalho pericial; • imparcialidade absoluta de pronunciamento: o laudo ou parecer, deverá refletir, com muita nitidez, uma posição de imparcialidade absoluta. Para os autores Crepaldi (2019), Moura (2020) e Müller, Timi e Heimonski (2017), a perícia contábil tem como objetivo central fundamentar as informações demandadas, evidenciando a veracidade dos fatos de forma imparcial e merecedora de fé, tornando-os instrumentos de prova para o magistrado solucionar as questões propostas na lide. Assim, caberá ao perito fornecer elementos de prova ou uma opinião especializada sobre o estado verdadeiro do objeto ou matéria examinada, com vistas a subsidiar uma decisão, conforme NBC TP 01 (R1) (CFC, 2020a). O perito contábil, para o bom exercício do trabalho que lhe for atribuído, deve: • conhecer o objeto e a finalidade da perícia, a fim de permitir a adoção de proce- dimentos que conduzam à revelação da verdade, subsidiando o juiz, o árbitro ou o interessado a tomar a decisão a respeito do litígio; • definir a natureza, a oportunidade e a extensão dos procedimentos a serem aplicados, em consonância com o objeto da perícia; • estabelecer condições para que o trabalho seja cumprido no prazo estabelecido; • identificar potenciais problemas e riscos que possam vir a ocorrer no andamento da perícia; 28 • identificar fatos importantes para a solução da demanda, de forma que não passem despercebidos e recebam a atenção necessária; • identificar a legislação aplicável ao objeto da perícia; • estabelecer como ocorrerá a divisão das tarefas entre os membros da equipe de trabalho, sempre que o perito necessitar de auxiliares; • facilitar a execução e a revisão dos trabalhos. Constitui-se objetivo de a perícia contábil definir a natureza, a oportunidadee a extensão dos exames a serem realizados, em consonância com o objeto da perícia, com os termos constantes da nomeação, dos quesitos ou da proposta de honorários oferecida pelo perito (CREPALDI, 2019). IMPORTANTE Crepaldi (2019, p. 52) aponta objetivos específicos da perícia contábil: Quadro 1 – Objetivos específicos da perícia contábil Objetividade Não se desviar da matéria que motivou a questão. Concisão Compreende evitar o prolixo e emitir uma opinião que possa de maneira fácil facilitar as decisões. Precisão Oferecer respostas pertinentes e adequadas às questões formuladas ou finalidades propostas. Confiabilidade Consiste em estar a perícia apoiada em elementos inequívocos e válidos legal e tecnologicamente. Clareza Usar em sua opinião de uma linguagem acessível a quem vai utilizar-se de seu trabalho, embora possa conservar a terminologia tecnológica e científica em seus relatos. Plena satisfação da finalidade É exatamente o resultado de o trabalho estar coerente com os motivos que o ensejaram. Fidelidade Caracteriza-se por não se deixar influenciar por terceiros, nem por informes que não tenham materialidade e consistência competentes. Fonte: adaptado de Crepaldi (2019) 29 A perícia contábil apresenta dois objetivos primordiais: • Identificar elementos de prova; e • Subsidiar a emissão de laudo pericial contábil ou parecer técnico-contábil. ATENÇÃO Por exemplo: numa demanda societária, o perito é chamado para realizar a apuração de haveres de cada sócio. Ele elencará elementos fáticos na Contabilidade (quantificação dos valores registrados na escrituração contábil) e, com base em tais fatos, emitirá laudo pericial contábil ou parecer técnico-contábil com a demonstração dos haveres dos sócios. Portanto, em seus objetivos específicos, a perícia contábil deve apresentar, de acordo com Crepaldi (2019, p. 53), os seguintes fatores: • Objetividade: caracteriza-se pela ação do perito em não se desviar da matéria que motivou a questão. • Precisão: respalda-se em oferecer respostas pertinentes e adequadas às questões formuladas ou finalidades propostas. • Clareza: fundamenta-se em utilizar, ao emitir sua opinião, uma linguagem acessível com quem fará uso de seu trabalho, embora possa conservar a terminologia tecnológica e científica em seus relatos. • Fidelidade: caracteriza-se por não se deixar influenciar por terceiros, nem por informes que não tenham materialidade e consistência competentes. • Concisão: compreende evitar a prolixidade e emitir uma opinião que possa facilitar as decisões. • Confiabilidade: consiste em estar a perícia apoiada em elementos inequívocos e válidos legal e tecnologicamente. • Plena satisfação da finalidade: é, exatamente, o resultado de o trabalho estar coerente com os motivos que o ensejaram. 3.3 PROCEDIMENTOS PERICIAIS Os procedimentos periciais técnico-científicos voltados para a atividade de perícia contábil fundamentam as conclusões que serão abordadas no laudo pericial contábil ou no parecer pericial contábil e abrangem, total ou parcialmente, segundo a natureza e a complexidade da matéria, a determinação de valores ou a solução de controvérsia (CREPALDI, 2019). 30 A NBC TP 01 (R1) (CFC, 2020a) no item 32 nos apresenta os procedimentos técnico-científicos periciais, quais sejam: exame, vistoria, indagação, investigação, arbitramento, mensuração, avaliação, certificação e testabilidade. Figura 3 – Procedimentos periciais Fonte: o autor Esses procedimentos são assim definidos: • Exame: é a análise de livros, registros das transações e documentos. Exemplo: o perito realiza exame ao analisar a conciliação bancária com o livro Diário. • Vistoria: é a diligência que objetiva a verificação e a constatação de situação, coisa ou fato, de forma circunstancial. Trata-se de um procedimento de inspeção, por exemplo: o perito faz uma vistoria in loco dos meios de controle utilizados pela empresa para a guarda do estoque. • Indagação: é a busca de informações mediante entrevista com conhecedores do objeto ou de fato relacionado à perícia. Exemplo: a realização de entrevista com os funcionários da controladoria da empresa periciada, a fim de apurar evidências para o laudo pericial. • Investigação: é a pesquisa que busca trazer ao laudo pericial contábil ou parecer técnico-contábil o que está oculto por quaisquer circunstâncias. Exemplo: o perito realiza investigação da vida particular dos envolvidos no objeto da perícia, descobrindo, por exemplo, que o fornecedor de material de uso e consumo para a empresa tem um forte vínculo de amizade com o responsável pelo setor de aquisição. 31 • Arbitramento: é a determinação de valores ou a solução de controvérsia por critério técnico-científico. Exemplo: há o arbitramento de valores ao se estimar a quantidade de combustível utilizada pelos veículos de determinada empresa. • Mensuração: é o ato de qualificação e quantificação física de coisas, bens, direitos e obrigações. Exemplo: contagem física do estoque, medidas de áreas, avaliação de componentes patrimoniais etc. • Avaliação: é o ato de estabelecer o valor de coisas, bens, direitos, obrigações, despesas e receitas. Exemplo: avaliação do imobilizado da empresa. • Certificação: é o ato de atestar a informação trazida ao laudo pericial contábil pelo perito-contador, conferindo-lhe caráter de autenticidade pela fé pública atribuída a esse profissional. Exemplo: o contador apresenta uma importação não contabilizada que foi certificada pelo despachante aduaneiro. • Testabilidade: é a verificação dos elementos comprobatórios (probantes) juntados aos autos e o confronto com as premissas estabelecidas. Exemplo: o autor de determinada ação apresenta uma planilha nos autos, então o perito contábil testará se os cálculos apresentados na planilha estão corretos. O procedimento de avaliação é semelhante ao arbitramento, no entanto, há uma diferença entre eles; no arbitramento utilizamos critérios técnico-científicos, já na avaliação somente estabelecemos o valor das coisas. Por exemplo: imagine-se a situação em que há consumo de água para a fabricação de determinado produto. Suponha, também, que o medidor de água esteja quebrado e que o perito necessite saber o volume consumido desse líquido na fabricação de determinada quantidade de produtos. Ele poderá arbitrar a quantidade de água consumida, multiplicando a vazão do cano pelo tempo em que o registro permaneceu aberto. Nesse caso, o perito utilizou um critério técnico para empreender sua obrigação. Considere outra circunstância: em um inventário, o perito tem a necessidade de verificar o valor de determinada fazenda que estava contabilizada no ativo da empresa. No caso, ele pode contratar um corretor com notório conhecimento do mercado imobiliário rural para realizar a avaliação do imóvel (CREPALDI, 2019, p. 55). ATENÇÃO 32 Quadro 2 – Atuação do perito contador i) Na inspeção judicial Art. 481. O juiz, de ofício ou a requerimento da parte, pode, em qualquer fase do pro- cesso, inspecionar pessoas ou coisas, a fim de se esclarecer sobre fato que interesse à decisão da causa. Art. 482. Ao realizar a inspeção, o juiz poderá ser assistido por um ou mais peritos (CPC, 2015). O juiz pode determinar que seja realizada uma vistoria ou exame, sobre fato ou coisa, e a referi- da inspeção poderá ser realizada por ele próprio, acompanhado de perito de sua confiança, se assim desejar. A referida inspeção judicial é realizada via diligên- cia, utilizando-se de vistoria do local ou da coisa que se deseja averiguar. Ocorre, por exemplo, em situações nas quais haja receio de perda, extravio ou desaparecimento de algum bem. ii) No direito autoral Art. 842. O mandado será cumprido por dois oficiais de justiça, um dos quais o lerá ao morador, intimando-o a abrir as portas. § 1º Não atendidos, os oficiais de justiça arrombarão as portas externas, bem como as internas e quaisquer móveis onde presu- mam que esteja ocultaa pessoa ou a coisa procurada. § 2º Os oficiais de justiça far-se-ão acompa- nhar de duas testemunhas. § 3º Tratando-se de direito autoral ou direito conexo do artista, intérprete ou executante, produtores de fonogramas e organismos de radiodifusão, o juiz designará, para acom- panharem os oficiais de justiça, dois peritos aos quais incumbirá confirmar a ocorrência da violação antes de ser efetivada a apreen- são (CPC, 2015). São necessários dois peritos em direito autoral, para acompanhamento dos oficiais de justiça, na busca e apreensão de coisas cujo direito autoral esteja comprometido. 3.4 APLICAÇÕES DA PERÍCIA CONTÁBIL Müller, Timi e Heimonski (2017) afirmam que são várias as possibilidades de atuação do perito-contador, segundo o CPC. A seguir, serão apresentadas algumas delas. 33 iii) Na prestação de contas Art. 550. Aquele que afirmar ser titular do direito de exigir contas requererá a citação do réu para que as preste ou ofereça con- testação no prazo de 15 (quinze) dias. § 1º Na petição inicial, o autor especificará, detalhadamente, as razões pelas quais exi- ge as contas, instruindo-a com documen- tos comprobatórios dessa necessidade, se existirem. § 2º Prestadas as contas, o autor terá 15 (quinze) dias para se manifestar, prosse- guindo-se o processo na forma do Capítulo X do Título I deste Livro. § 3º A impugnação das contas apresen- tadas pelo réu deverá ser fundamentada e específica, com referência expressa ao lançamento questionado. § 4º Se o réu não contestar o pedido, ob- servar-se-á o disposto no Art. 355. § 5º A decisão que julgar procedente o pedido condenará o réu a prestar as contas no prazo de 15 (quinze) dias, sob pena de não lhe ser lícito impugnar as que o autor apresentar. § 6º Se o réu apresentar as contas no prazo previsto no § 5º, seguir-se-á o procedi- mento do § 2º, caso contrário, o autor apre- sentá-las-á no prazo de 15 (quinze) dias, podendo o juiz determinar a realização de exame pericial, se necessário (CPC, 2015). A participação do perito contábil nessa ação de prestação de contas é de suma importância para que o levantamento contábil seja realizado adequadamente. Um exemplo prático são as prestações de contas de condomínios, assim como as ações de prestações de contas que envolvem operações bancárias, especificamente conta corrente. iv) Em parecer técnico e laudo pericial na liquidação por arbitramento Art. 510. Na liquidação por arbitramento, o juiz intimará as partes para a apresentação de pareceres ou documentos elucidati- vos, no prazo que fixar, e, caso não possa decidir de plano, nomeará perito, obser- vando-se, no que couber, o procedimento da prova pericial (CPC, 2015). Na fase de liquidação de sentença por arbitra- mento poderão ser apresentados pareceres técnicos dos assistentes, os quais traduzam a reprodução da sentença. Contudo, não raras vezes, ocorre uma discrepância entre os resul- tados apresentados pelas partes, o que leva o juiz a nomear perito de sua confiança para que elabore a liquidação de sentença. 34 v) Em dissolução de sociedades Art. 599. A ação de dissolução parcial de sociedade pode ter por objeto: I – a resolução da sociedade empresária contratual ou simples em relação ao sócio falecido, excluído ou que exerceu o direito de retirada ou recesso; e II – a apuração dos haveres do sócio fale- cido, excluído ou que exerceu o direito de retirada ou recesso; ou III – somente a resolução ou a apuração de haveres. § 1º A petição inicial será neces- sariamente instruída com o contrato social consolidado. § 2º A ação de dissolução parcial de socie- dade pode ter também por objeto a socie- dade anônima de capital fechado quando demonstrado, por acionista ou acionistas que representem cinco por cento ou mais do capital social, que não pode preencher o seu fim. [...] Art. 604. Para apuração dos haveres, o juiz: I – fixará a data da resolução da sociedade; II – definirá o critério de apuração dos haveres à vista do disposto no contrato social; e III – nomeará o perito (CPC, 2015). O CPC complementa as informações necessá- rias ao desenvolvimento do trabalho do perito nessa atividade, uma vez que a antiga legislação era pobre em detalhes. Os artigos servem como referencial e praticamente apresentam a sequ- ência das atividades que deverão ser seguidas para a realização do trabalho. Fonte: adapatado de Müller, Timi e Heimonski (2017) 3.5 VOCABULÁRIO, VERNÁCULO E LINGUAJAR NA PERÍCIA CONTÁBIL Caro acadêmico, um dos elementos mais importantes da prova pericial, sem dúvida nenhuma, é o vocabulário a ser utilizado, a linguagem, porque estaremos em um processo de comunicação. A comunicação deve acontecer. O juiz se serve do trabalho do perito para que possa entender uma matéria que é essencialmente técnica. E, dentro dessa parte essencialmente técnica, temos conceitos, um linguajar próprio, um vocabulário muito específico. Utilizamos algumas vezes o “contabilês”, e não o português. O magistrado pode não entender e pode cometer um erro de julgamento. Então, a produção de conhecimento é ligada diretamente a uma atividade de comunicação. Comunicação tem, de um lado, um emissor (aquele que fala, que produz a informação) e, de outro lado, um receptor (aquele que recebe a informação). 35 É importante, acadêmico, que tenhamos em mente que a perícia, a produção da prova pericial, é uma produção de conhecimento, um conhecimento técnico que ajudará a solucionar um conflito. Nesse sentido, gostaríamos de abordar as questões do linguajar do perito, de como o perito deve ter uma postura de estudo, de cuidado, de atenção para que o processo de comunicação ocorra adequadamente. É inicialmente na fase do planejamento dos trabalhos periciais que se deve procurar evitar prejulgamentos, evitar a sensação de que você conhece a matéria e pode, por exemplo, fazer o trabalho de forma até um pouco sem rigor. Gostaríamos, aqui, de passar uma nova visão de mercado, que é justamente a visão de que o contador não é um tecnicista. Ele hoje passa a efetivamente cuidar da Ciência Social Aplicada, da Contabilidade, e essa nova visão faz-nos entender que o contador é um comunicador, é responsável por fazer a informação chegar aonde deve estar, no momento adequado, da forma mais clara possível. Por isso, acadêmico, é essencial que percebamos que o vocabulário, nessa nova visão contábil, é algo extremamente importante. O uso do vernáculo, e, também aí, inclui-se a legislação relacionada, deve ser entendido pelo profissional. Devemos ter cuidado, pois tais aspectos vernaculares, principalmente no mundo jurídico, acabam englobando expressões usadas muitas vezes pelos advogados, pelos próprios juízes. Em alguns casos é o contador, o perito-contador, que vai ter dificuldade de interpretar certas afirmações jurídicas, interpretar uma sentença, interpretar um pedido feito por uma das partes, por exemplo. Então é importante que, em sua resposta, ele deixe isso claro. Se o objeto for, por exemplo, um esclarecimento, deve-se escrever aquilo que efetivamente vai interessar à parte, deixando o julgamento a cargo dos magistrados. Nesse ambiente, caro acadêmico, vamos analisar algumas locuções latinas, algumas expressões relacionadas à área contábil muito utilizadas em petições, despachos judiciais, sentenças, despachos ordinatórios e que podem confundir ou induzir o perito a cometer um erro; neste caso, a prova pericial não será eficaz. Assim, devemos nos preocupar principalmente com o vocabulário. Desse modo, analisaremos rapidamente, aqui, de acordo com Müller, Timi e Heimonski (2017), algumas expressões latinas mais tradicionais, buscando entender o conteúdo de cada uma delas. Há, com certeza, uma série de outras expressões igualmente importantes, mas selecionamos aquelas que, talvez, sejam as mais pertinentes. Lembremo-nos: não devemos achar que entendemos o termo, que somos especialistas em latim. De todo modo, não podemos deixar que nossa capacidade técnicana contabilidade seja dificultada por uma expressão jurídica, pelo “advocatês” ou pelo “juridiquês”. É isso que desejamos passar a você, acadêmico. Um laudo pode ser parcializado pela falta de entendimento terminológico ou de conteúdo teleológico. Se entendermos a boa prática e a técnica jurídica, nosso laudo pericial pode ser muito mais bem elaborado, certamente. 36 Vamos, então, apreciar algumas expressões bastante utilizadas no mundo jurídico. Uma das locuções que são bastante utilizadas no mundo jurídico, e que é bastante simples, é a que se refere a atribuições ad hoc. Ad hoc significa “para o momento, para o ato” ou “para determinado caso específico”. Caso a expressão se refira a pessoa, informa que aquele indicado será seu consultor, seu representante naquele momento, para aquele ato. Então, naquele caso específico ou naquele momento específico, essa pessoa está autorizada a fazer algo em seu nome, como se você estivesse dando a ela uma procuração, mas específica, muito específica. Não que aquela pessoa represente você, mas está fazendo algo por você naquele momento, naquele ato. Quase como um procurador, mas bastante específico e particular. Outra expressão é ad iudicia ou ad judicia, depende da forma de uso de cada um, a qual indica uma forma de procuração. Uma procuração ad judicia significa uma procuração para o foro em geral. Você pode, sim, designar o que se denominam poderes especiais, poderes específicos ou poderes expressos. É, então, isso que dará o limite daquela determinada procuração ad judicia. Então é importante que tenhamos conhecimento desse termo, para que possamos efetivamente entender o que se está procurando expor. Você, acadêmico, vai assinar uma procuração ad judicia para um advogado. O que quer dizer isso? Você está dando poderes para alguém. E se você simplesmente pretende que tal pessoa seja um representante ad hoc? Você pode estabelecer uma procuração com poderes específicos, limitados ou ilimitados. Por exemplo, é possível, na prática, que o advogado faça uma procuração, que seu cliente a assine e que ela dê a ele plenos poderes. Com tais poderes ilimitados, ele poderia vender a casa do indivíduo, fazer qualquer coisa com o patrimônio dele, o que o deixaria vulnerável. Estamos aqui ampliando o entendimento da procuração, não pensando tão somente no ambiente da perícia, mas na atuação do profissional contábil em uma consultoria, em um trabalho de mediação, meio em que se deve ter cuidado com o excesso de poderes atribuídos a um procurador. Continuando, a expressão ad referendum significa “tem a referência”; o referendo, ou seja, aquilo que está pendente, está sujeito à aprovação. Então, ad referendum refere-se ao ato que está pendente de uma provação, de uma confirmação, da ratificação de determinada pessoa. Por exemplo, em uma reunião, determinado ato constante da Ata precisa da aprovação de um Conselho. Então diz-se que esse ato está ad referendum daquele determinado Conselho. Vale ressalvar que a palavra ratificação significa “confirmação”. Retificação, por sua vez, tem outro significado, indica “correção, ajuste”. Se há um ato ad referendum tem- se um ato pendente de aprovação, de confirmação, de ratificação, e não de retificação. Outro termo ou expressão vernacular do latim muito utilizada em processos judiciais é affectio societatis. Quando se tem determinada discussão, uma briga de sócios que querem se separar, não estão mais confortáveis trabalhando juntos, diz-se que não há mais o affectio societatis. O que quer dizer isso? Não há mais afeição societária, não há mais interesse em continuar uma sociedade, a intenção de estar se consorciando. Este é o aspecto principal do affectio societatis. 37 Temos, então, duas expressões bastante importantes: ad referendum e affectio societatis. Elas são bastante comuns no dia a dia do mundo pericial. Quando se trata de ad referendum se está referenciando uma aprovação posterior de outra entidade, de alguma outra situação. Isso é importante porque às vezes o limite da prova pericial se faz em função deste ad referendum. Já affectio societatis é uma expressão também bastante importante, bastante comum, quando se trata de dissolução de sociedades, em processos em que trabalhamos com apuração de haveres. Outra famosa expressão é data venia, que significa “com o devido consentimento, com o devido respeito, com a devida vênia”. É uma expressão de respeito. Normalmente inicia-se com data venia uma argumentação em que contrariamos a outra parte, ou seja, “com o devido respeito, eu não concordo com a sua expressão”, “com o devido respeito, eu não concordo com o que a parte está informando”. Provavelmente, na maioria das vezes, você usará essa expressão quando está discordante, por isso pede desculpas. Mostra- se respeito a quem se está dirigindo, informando que entende o argumento, mas não concorda com ele. Também pode ser utilizada a expressão data permissa (com a devida permissão, com a devida licença). As partes estão discutindo, brigando pelo entendimento de seus direitos, então uma delas tem uma argumentação forte, buscando defender seu entendimento, muitas vezes, em processos judiciais, até com algumas argumentações ofensivas. Então nós, como peritos, podemos usá-la, manifestando respeitosamente nossa discordância do ponto de vista técnico, naturalmente, e não opinativo. Tais expressões, entretanto, não devem ser usadas deliberadamente, devemos entendê-las para uma melhor postura profissional e, também para entendermos melhor o que surge dentro dos processos. Outra expressão a destacar é jus puniendi (o direito de punir). Destacamos aqui novamente o cuidado que os peritos devem ter, pois não podem julgar. O juiz deve julgar. Ele, o magistrado, é que tem a necessidade de interpretar a lei, não o perito. Nesse sentido, vale também recordar a expressão bastante conhecida, bastante comentada no mundo do direito, em especial quando se inicia um estudo na área do direito: Lex dura, sed Lex! (a lei é rígida, é dura). Apesar de ser severa, deve ser cumprida! Mas esse cumprimento passa, muitas vezes, pelo entendimento, pela interpretação. Então os peritos não podem interpretar a lei. Jamais em um laudo devemos ter a intenção de punir. O perito até pode “achar” que a parte não tem razão, mas não deve agir para punir. Jus puniendi é para o juiz, é para quem interpreta e faz cumprir a lei. Trazemos agora uma expressão que, apesar de não se destinar ao uso em laudo, é bastante significativa: Nihil est veritatis luce dulcius! (Nada é mais doce do que a luz da verdade!). Mais do que uma bela expressão, é importante que a associemos à função do laudo pericial: a busca da verdade. Quem trabalha com perícia labuta no mundo judicial, onde se usam essas expressões. Deve-se entender que o perito busca a verdade e, se você busca a verdade, não deve prejulgar. Você não está do lado de nenhuma das partes. Você é o perito judicial. É imparcial. Atua como um mediador para aproximar as “verdades” das partes, para solucionar determinado conflito. Então deve-se buscar o quê? A verdade! E, para conseguir 38 alcançá-la dentro do ambiente judicial, você vai produzir uma peça formal, um estudo chamado de laudo pericial. Este estudo é o que vai permitir que você leve elementos para o entendimento do juiz, que tem o direito de punir (jus puniendi). Ele, então, faz a interpretação da legislação, da peça contábil, peça técnica que vai lhe trazer a “luz da verdade” e, com isso, elabora a sentença e o processo continua caminhando para sua solução. Vamos à outra expressão importante: pacta sunt servanda, a qual significa que nos contratos as condições pactuadas devem ser observadas, devem ser cumpridas. Nesse sentido, devemos entender que elas devem ser rigorosamente observadas, mas devemos entender esse conceito entre aspas – “rigorosamente observadas” – porque, às vezes, pactua-se algo que pode ser prejudicial a uma das partes, a parte menos favorecida.Reside aqui um perigo, existe realmente um problema aqui, e quem terá que resolver será o magistrado, dentro do seu julgamento. Surge, então, outra expressão nas petições iniciais, a periculum in mora, que significa “o risco da demora”, muito utilizada, por exemplo, quando se pede uma tutela antecipada, quando se pede a concessão de um mandado de segurança. O perigo reside em que, se demorar o processo, pode-se ter mais prejuízo do que já está ocorrendo. É um perigo em razão da demora. Outra expressão relacionada ao tema é fumus boni iuris (há uma “fumaça”, indícios de que há um bom direito, uma boa intenção). Ainda podemos identificar expressões, tais como: • adhuc sub judice lis est: o processo ainda está com o juiz; • conditio sine qua non: condição sem a qual não; • de cujus: é uma expressão forense que se usa no lugar do nome do falecido, e autor da herança, nos termos de um inventário; • grosso modo: de modo grosseiro”. É usada como sinônimo de "aproximadamente", "cerca de" ou "por alto", "resumidamente", "de modo genérico", "sem entrar em pormenores; • in dubio pro reo: na dúvida, em favor do réu; • ipsis litteris: "pelas mesmas letras", "literalmente" ou "nas mesmas palavras"; • bis in idem: repetição sobre a mesma coisa; • pro rata: medir ou racionar proporcionalmente; • modus operandi: modo de operação; • habeas corpus: "que tenhas o teu corpo", é uma medida jurídica para proteger indivíduos que estão tendo sua liberdade infringida; • habeas data: ação que assegura o livre acesso de qualquer cidadão a informações a ele próprio relativas, constantes de registros, fichários ou bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público; • a priori: aquilo que vem antes de. 39 Neste tópico, você aprendeu: • A perícia contábil é tão antiga quanto a evolução da Contabilidade, surgindo em função das atividades mercantis, econômicas e sociais, bem como da necessidade dos juízes. • A perícia contábil, como um dos gêneros de prova pericial, é utilizada pelas pessoas (físicas ou jurídicas) para esclarecer fatos ou questões contábeis controversas, servindo como meio de prova judicial. • É solicitada pelo juiz, com vistas a auxiliá-lo na sua decisão, como meio de prova para um fato que exija conhecimento técnico da área contábil. Tal prova ou opinião somente poderá ser emitida por especialistas com conhecimentos técnicos e científicos em contabilidade, ou seja, pelo perito contábil. • O objeto da perícia contábil são as questões patrimoniais vinculadas ao litígio, cujos objetivos principais são: identificar elementos de prova e subsidiar a emissão de laudo pericial contábil ou parecer técnico-contábil. • Os procedimentos inerentes à perícia contábil estão previstos no item 32 da NBC TP 01 (R1), quais sejam: exame, vistoria, indagação, investigação, arbitramento, mensuração, avaliação, certificação e testabilidade. RESUMO DO TÓPICO 2 40 1 Os procedimentos periciais técnico-científicos voltados para a atividade de perícia contábil fundamentam as conclusões que serão abordadas no laudo pericial contábil ou no parecer pericial contábil e abrangem, total ou parcialmente, segundo a natureza e a complexidade da matéria, a determinação de valores ou a solução de controvérsia. Fonte: CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020a. NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil. Disponível em: https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de-contabilidade/nbc-tp-de-pericia/. Acesso em: 6 jan. 2023. Considerando as definições dos procedimentos periciais previsto na NBC TP 01 (R1), associe os itens, utilizando o código a seguir: I- Exame. II- Arbitramento. III- Avaliação. IV- Vistoria. V - Mensuração. VI - Investigação. VII- Certificação. ( ) Ato de atestar a informação trazida ao laudo pericial contábil pelo perito-contador, conferindo-lhe caráter de autenticidade pela fé pública atribuída a esse profissional. ( ) Estabelece o valor de coisas, bens, direitos, obrigações, despesas e receitas. ( ) São exemplos: contagem física do estoque, medidas de áreas, avaliação de componentes patrimoniais. ( ) É quando o perito analisa a conciliação bancária com o livro Diário. ( ) Pesquisa que busca trazer ao laudo pericial contábil ou parecer técnico-contábil o que está oculto por quaisquer circunstâncias. ( ) Diligência que objetiva a verificação e a constatação de situação, coisa ou fato, de forma circunstancial. ( ) É a determinação de valores ou a solução de controvérsia por critério técnico- científico. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) I – III – II – VII – VI – IV – V. b) ( ) II – III – V – VI – IV – I – VII. c) ( ) VII – III – V – I – VI – IV – II. d) ( ) II – IV – V – VI – III – I – VII. e) ( ) VII – II – V – I –VI – IV – III. AUTOATIVIDADE 41 2 Leia o texto a seguir: PF pede perícia contábil no fluxo financeiro do Grupo Schahin Os donos da empresa, em processo de falência, confessaram ter dado um empréstimo de R$ 12 milhões, em 2004, para o PT por intermédio do pecuarista José Carlos Bumlai. A Polícia Federal pediu um laudo pericial contábil para identificar pagamentos feitos pela Petrobras para o Grupo Schahin, um dos alvos da Operação Lava Jato. Os donos da empresa, em processo de falência, confessaram ter dado um empréstimo de R$ 12 milhões, em 2004, para o PT por intermédio do pecuarista José Carlos Bumlai – amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A perícia terá que fornecer, ainda, dados sobre transações financeiras do Grupo com agentes públicos, partidos políticos ou pessoas e firmas ligadas a eles, eventuais pagamentos para operadores de propina, alvos da Lava Jato, contratações de consultorias ou prestações de serviços e movimentações financeiras com empresas offshore. O pedido foi feito no dia 4 ao Setor Técnico Científico da PF pela delegada Renata da Silva Rodrigues, da equipe da Lava Jato. A análise deve abranger o período de 2004 a 2014. Fonte: https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2016/01/pf-pede-pericia-contabil-no-fluxo- financeiro-do-grupo-schahin.html. Acesso em: 10 jan. 2023. No que se refere à Perícia Contábil, e de acordo com a NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil, analise as seguintes afirmativas: I- A perícia contábil constitui o conjunto de procedimentos técnicos e científicos destinado a levar à instância decisória elementos de prova necessários a subsidiar a justa solução do litígio, mediante laudo pericial contábil, e ou parecer pericial contábil, em conformidade com as normas jurídicas e profissionais, e a legislação específica no que for pertinente. II- A perícia contábil, tanto a judicial, como a extrajudicial e a arbitral, é de competência de contabilista devidamente registrado em Conselho Regional de Contabilidade. III- Os procedimentos realizados de perícia contábil fundamentam as conclusões no laudo pericial contábil. IV- Nos casos em que a legislação admite a perícia interprofissional, aplica-se o item da alternativa B exclusivamente às questões contábeis, segundo as definições contidas nas normas do CFC. V- A presente Norma aplica-se ao perito contador nomeado em Juízo, ao contratado pelas partes para a perícia extrajudicial ou ao escolhido na arbitragem; e, ainda, ao perito-contador assistente indicado ou contratado pelas partes. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I, II, IV estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I, III, IV e V estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 42 3 A perícia contábil tem como objetivo central fundamentar as informações deman- dadas, evidenciando a veracidade dos fatos de forma imparcial e merecedora de fé, tornando-os instrumentos de prova para o juiz solucionar as questões propostas no litígio. Com relação aos objetivos específicos da perícia contábil, leia as sentenças a seguir: I- Através da fidelidade, o perito deve usar em sua opinião uma linguagem acessível a quem vai utilizar-sede seu trabalho, embora possa conservar a terminologia tecnológica e científica em seus relatos. II- Com a objetividade, o perito oferece respostas pertinentes e adequadas às questões formuladas ou finalidades propostas. III- Na concisão, a perícia contábil deve evitar a prolixidade e emitir uma opinião que possa facilitar as decisões. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 4 Um dos elementos mais importantes da prova pericial, sem dúvida nenhuma, é o vocabulário a ser utilizado, a linguagem, porque estaremos em um processo de comunicação. A comunicação deve acontecer claramente. O juiz se serve do trabalho do perito para que possa entender uma matéria que é essencialmente técnica e com um linguajar próprio, um vocabulário muito específico, podendo o magistrado não compreender e cometer um erro de julgamento. O perito deve ter uma postura de estudo, de cuidado, de atenção para que o processo de comunicação ocorra adequadamente. Diante do exposto, selecione cinco locuções latinas e interprete-as: a) ad hoc. b) ad iudicia ou ad judicia. c) ad referendum. d) affectio societatis. e) data vênia. f) data permissa. g) jus puniendi. h) Lex dura, sed Lex! i) Nihil est veritatis luce dulcius! j) pacta sunt servanda. l) periculum in mora. m) fumus boni iuris. n) adhuc sub judice lis est. o) conditio sine qua non. p) de cujus. 43 q) grosso modo. r) in dubio pro reo. s) ipsis litteris. t) bis in idem. u) pro rata. v) modus operandi. x) habeas corpus. z) a priori. 5 A NBC TP 01 (R1), no item 32, nos apresenta os procedimentos técnico-científi cos periciais, quais sejam: exame, vistoria, indagação, investigação, arbitramento, mensuração, avaliação, certifi cação e testabilidade. Fonte: CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020a. NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil. Disponível em: https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de-contabilidade/nbc-tp-de-pericia/. Acesso em: 6 jan. 2023. Considerando a fi gura a seguir, discorra sobre os procedimentos periciais previstos na NBC TP 01 (R1). Procedimentos periciais Fonte: o autor 44 45 TÓPICO 3 — PERITO JUDICIAL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, no Tema de Aprendizagem 3, abordaremos a respeito do perito judicial, que é o profissional escolhido pelo juiz ou pelas partes – inovação da lei atual, pois anteriormente à vigência do atual CPC era somente o juiz que podia definir o perito, agora as partes podem indicá-lo, de comum acordo, ao magistrado (MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017). Somente o juiz é quem pode definir o perito judicial. O perito é o auxiliar da Justiça. Os assistentes técnicos são os profissionais escolhidos pelas partes, autor ou réu na ação. O perito judicial é a pessoa que, perante um tribunal, declara possuir a característica particular de deter conhecimentos técnicos em determinada ciência, arte ou ofício, os quais lhe permitem emitir opiniões sobre materiais relevantes para a resolução de um juízo; o perito judicial, portanto, é o profissional que colabora com a justiça na busca da verdade dos fatos (CREPALDI, 2019). Para trabalhar como perito judicial, além do conhecimento técnico da área na qual pretende atuar, é necessário ser formado em um curso superior e estar filiado ao conselho regional da categoria. Podem exercer essa atividade funcionários públicos aposentados, recém-formados, profissionais liberais e colaboradores de empresas (arquitetos, médicos, engenheiros ambientais, administradores, contadores etc.) (SANTOS, 2020; CREPALDI, 2019; ORNELAS, 2017). Assim, para a obtenção da prova pericial, no âmbito judicial, é imprescindível a participação das seguintes figuras: juiz e perito (ressaltamos que as partes podem contratar também assistentes técnicos, caso queiram). Quanto à figura do juiz da causa, não requer maiores explicações. É a pessoa que decide e saneia a lide, exercendo o poder que lhe é conferido pelo Judiciário. O perito auxiliará nos assuntos técnicos e específicos sobre os quais o juiz não detém conhecimento (SANTOS, 2020; CREPALDI, 2019; MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017; ORNELAS, 2017). 2 PERITO CONTÁBIL De acordo com o Código de Processo Civil: Art. 156. O juiz será assistido por perito quando a prova do fato depender de conhecimento técnico ou científico. § 1º Os peritos serão nomeados entre os profissionais legalmente habilitados e os órgãos técnicos ou científicos devidamente inscritos em cadastro mantido pelo tribunal ao qual o juiz está vinculado (BRASIL, 2015). 46 O perito contábil é o contador registrado em Conselho Regional de Contabilidade (CRC), que exerce a atividade pericial de forma pessoal, devendo ser profundo conhecedor devido as suas qualidades e experiências da matéria periciada, segundo a NBC PP 01 (R1): Perito é o contador detentor de conhecimento técnico e científi- co, regularmente registrado em Conselho Regional de Contabi- lidade e no Cadastro Nacional dos Peritos Contábeis, que exerce a atividade pericial de forma pessoal ou por meio de órgão técnico ou científico [...] (CPC, 2020b) Para Crepaldi (2019), Müller, Timi e Heimonski (2017) e Ornelas (2017), o perito deve possuir conhecimentos técnicos, ter um aprimoramento cultural diversificado e ser especializado e aperfeiçoado em sua área de atuação. Trata-se de um profissional com formação superior que detém conhecimentos técnicos e/ou científicos que o tornam apto a auxiliar a Justiça quando é necessária a aplicação de suas habilidades para provar algum fato ou ato, conforme o Art. 149 do Código de Processo Civil: Art. 149. São auxiliares da Justiça, além de outros cujas atribuições sejam determinadas pelas normas de organização judiciária, o escrivão, o chefe de secretaria, o oficial de justiça, o perito, o depositário, o administrador, o intérprete, o tradutor, o mediador, o conciliador judicial, o partidor, o distribuidor, o contabilista e o regulador de avarias (BRASIL, 2015). O exercício da perícia contábil é privativo do Bacharel em Ciências Contábeis registrado no CRC. Assim, o perito contábil deve possuir um profundo conhecimento teórico e prático da Contabilidade (experiência), além de retidão de conduta (capacidades éticas) (CREPALDI, 2019). O Decreto-Lei nº 9.295 de 27 de maio de 1946, nos traz o seguinte: Art. 25. São considerados trabalhos técnicos de contabilidade: a) organização e execução de serviços de contabilidade em geral; b) escrituração dos livros de contabilidade obrigatórios, bem como de todos os necessários no conjunto da organização contábil e levantamento dos respectivos balanços e demonstrações; c) perícias judiciais ou extra-judiciais, revisão de balanços e de contas em geral, verificação de haveres revisão permanente ou periódica de escritas, regulações judiciais ou extra-judiciais de avarias grossas ou comuns, assistência aos Conselhos Fiscais das sociedades anônimas e quaisquer outras atribuíções de natureza técnica conferidas por lei aos profissionais de contabilidade. § 1º Os serviços profissionais de contabilidade são, por sua natureza, técnicos e singulares, quando comprovada sua notória especialização, nos termos da lei. § 2º Considera-se notória especialização o profissional ou a sociedade de profissionais de contabilidade cujo conceito no campo de sua especialidade, decorrente de desempenho anterior, estudos, experiências, publicações, organização, aparelhamento, equipe técnica ou de outros requisitos relacionados com suas atividades, permita inferir que o seu trabalho é essencial e indiscutivelmente o mais adequado à plena satisfação do objeto do contrato. 47 Art. 26. Salvo direitos adquiridos ex-vi do disposto no art. 2º do Decreto nº 21.033, de 8 de Fevereiro de 1932, as atribuições definidas na alínea c do artigo anterior são privativas dos contadores diplomados (BRASIL, 1946). As normas aplicáveisao perito-contador são as apresentadas na Figura 4: Figura 4 – Normas aplicáveis ao perito-contador Fonte: o autor Moura (2020), afirma que a perícia deverá ser executada, sempre, por uma pessoa que entenda do assunto a ser periciado, examinando com atenção e minúcia. Assim, o perito contábil, de acordo com Crepaldi (2019) e Moura (2020), para exercício na perícia judicial deverá ter capacidade de: • Adaptabilidade: os peritos deverão ser capazes de se adaptarem ao caso concreto apresentado nos autos do processo, objeto da perícia. • Responsabilidade: os peritos são os que assumirão a responsabilidade pelo trabalho realizado e apresentado ao magistrado. • Criatividade: quando da realização dos trabalhos periciais, os peritos deverão criar novas soluções, ampliando ao máximo seu ponto de vista. • Conhecimento da área: é condição primordial que, para o desempenho de um bom trabalho pericial, que o perito tenha conhecimento da área específica o objeto da perícia. • Capacidade de decisão: no desenvolvimento do trabalho pericial, será necessário que se tomem decisões assertivas e rápidas. • Experiência: aliado ao conhecimento da área específica, a experiência do perito otimizará o seu processo de tomada de decisões de forma célere e assertiva. • Conhecimento do que seja relevante: com a sua expertise, o perito segregará o que é relevante e o usará no seu trabalho pericial. • Metodologia: para o êxito do trabalho pericial será necessário o uso de rigorosos critérios metodológicos. 48 • Percepção: o perito deverá ter uma boa capacidade de percepção da situação- problema, extraindo informações de situações imperceptíveis aos demais. • Aparência pessoal: é o zelo e cuidado da aparência física, com vistas a transmitir uma boa apresentação pessoal. • Autoconfiança: o perito deve transmitir confiança nas suas ações e decisões. • Bom humor: por lidar com o público, o perito necessitará relacionar-se com diversas pessoas, devendo transmitir uma boa imagem pessoal. A NBC PP 01 (R1) nos diz que o perito contador, no exercício da atividade pericial, assume as seguintes denominações: • perito do juízo é o contador nomeado pelo poder judiciário para exercício da perícia contábil; • perito arbitral é o contador nomeado em arbitragem para exercício da perícia contábil; • perito oficial é o contador investido na função por lei e pertencente a órgão especial do Estado; • assistente técnico é o contador ou órgão técnico ou científico indicado e contratado pela parte em perícias contábeis. IMPORTANTE O contador, na função de perito do juízo ou perito-assistente técnico, segundo os autores Crepaldi (2019), Moura (2020) e Santos (2020), deve: manter adequado nível de competência profissional, com o conhecimento atualizado da Contabilidade, das Normas Brasileiras de Contabilidade pertinentes, das técnicas contábeis, da legislação relativa à profissão contábil e das normas jurídicas, em especial aquelas aplicáveis à perícia; atualizar-se permanentemente mediante programas de capacitação, treinamento, educação continuada e especialização, e realizando seus trabalhos com a observância da equidade; realizar seus trabalhos com a observância da equidade, o que significa que o perito deve atuar com igualdade de direitos, adotando os preceitos legais e técnicos inerentes à profissão contábil; pautar sua linha de conduta no sentido estritamente profissional, aplicando toda a sua técnica sobre o assunto sob seu exame, agindo com isenção e imparcialidade; possuir caráter íntegro e sujeito a todas as provas, resistindo a toda espécie de pressões e a todas as situações; conhecer as responsabilidades sociais, éticas, profissionais e legais às quais está sujeito no momento que aceita o encargo para a execução de perícias contábeis judiciais e extrajudiciais, inclusive arbitral; deve ser a favor da imparcialidade, dispensando igualdade de tratamento às partes e, especialmente, aos assistentes técnicos. 49 Acadêmico, a seguir resumimos na Figura 5 os tipos de peritos que já citamos: Figura 5 – Tipos de peritos Fonte: o autor A NBC PP 01 (R1) nos revela as responsabilidades do perito contábil, quando do exercício da perícia contábil: Responsabilidade O perito deve conhecer as responsabilidades sociais, éticas, profissionais e legais às quais está sujeito no momento que aceita o encargo para a execução de perícias contábeis judiciais e extrajudiciais, inclusive arbitral. O termo “responsabilidade” refere-se à obrigação do perito em respeitar os princípios da ética e do direito, atuando com lealdade, idoneidade e honestidade no desempenho de suas atividades, sob pena de responder civil, criminal, ética e profissionalmente por seus atos. Ciente do livre exercício profissional, deve o perito nomeado, sempre que possível e não houver prejuízo aos seus compromissos profissionais e as suas finanças pessoais, em colaboração com o Poder Judiciário, aceitar o encargo confiado ou escusar-se do encargo, no prazo legal, apresentando suas razões. O perito nomeado, no desempenho de suas funções, deve propugnar pela imparcialidade, dispensando igualdade de tratamento às partes e, especialmente, aos assistentes técnicos. Não se considera parcialidade, entre outros, os seguintes: • atender às partes ou a assistentes técnicos, desde que se assegure igualdade de oportunidades; ou • fazer uso de trabalho técnico-científico anteriormente publicado pelo perito nomeado que verse sobre matéria em discussão. Responsabilidade civil e penal A legislação civil determina responsabilidades e penalidades para o profissional que exerce a função de perito, as quais consistem em multa, indenização e inabilitação. A legislação penal estabelece penas de multa e reclusão para os profissionais que exercem a atividade pericial que descumprirem as normas legais. INTERESSANTE 50 Zelo profissional O termo “zelo”, para o perito, refere-se ao cuidado que ele deve dispensar na execução de suas tarefas, em relação a sua conduta, documentos, prazos, tratamento dispensado às autoridades, aos integrantes da lide e aos demais profissionais, de forma que sua pessoa seja respeitada, seu trabalho levado a bom termo e, consequentemente, o laudo pericial contábil e o parecer pericial-contábil sejam dignos de fé pública. O zelo profissional do perito na realização dos trabalhos periciais compreende: • cumprir os prazos fixados pelo juiz em perícia judicial e nos termos contratados em perícia extrajudicial, inclusive arbitral; • comunicar ao juízo, antes do início da perícia, caso o prazo estipulado no despacho judicial para entrega do laudo pericial seja incompatível com a extensão do trabalho, sugerindo o prazo que entenda adequado; • assumir a responsabilidade pessoal por todas as informações prestadas em matéria objeto da perícia, os quesitos respondidos, os procedimentos adotados, as diligências realizadas, os valores apurados e as conclusões apresentadas no laudo pericial contábil e no parecer pericial contábil; • prestar os esclarecimentos determinados pela autoridade competente, respeitados os prazos legais ou contratuais; • propugnar pela celeridade processual, valendo-se dos meios que garantam eficiência, segurança, publicidade dos atos periciais, economicidade, o contraditório e a ampla defesa; • ser prudente, no limite dos aspectos técnico-científicos, e atento às consequências advindas dos seus atos; • ser receptivo aos argumentos e críticas, podendo ratificar ou retificar o posicionamento anterior. A transparência e o respeito recíprocos entre o perito nomeado e os assistentes técnicos pressupõem tratamento impessoal, restringindo os trabalhos, exclusivamente, ao conteúdo técnico- científico. O perito é responsável pelo trabalho de sua equipe técnica. 2.1 CADASTRO NACIONAL DE PERITOS CONTÁBEIS (CNPC) O Cadastro Nacional de Peritos Contábeis (CNPC) foi criado através da Resolução do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) – CFC nº 1.502/2016(CFC, 2016b). O cadastro do profissional Contador no CNPC ser dará, conforme a citada Resolução, através da aprovação no Exame de Qualificação Técnica para Perito Contábil (EQT), cujo objetivo aferir o nível de conhecimento e a competência técnico-profissional necessários aos profissionais que pretendem atuar na atividade de perícia contábil. O EQT foi instituído por meio da NBC PP 02 (CFC, 2016a, grifo nosso): 1. O Exame de Qualificação Técnica (EQT) para perito contábil tem por objetivo aferir o nível de conhecimento e a competência técnico-profissional necessários ao contador que pretende atuar na atividade de perícia contábil. 2. O EQT para perito contábil será implementado pela aplicação de prova escrita, conforme definido nesta norma. 51 3. A aprovação na prova de Qualificação Técnica para perito contábil assegura ao contador o registro no Cadastro Nacional de Peritos Contábeis (CNPC) do Conselho Federal de Contabilidade (CFC). No exame de Qualificação Técnica Geral para perito contábil, serão exigidos conhecimentos do contador nas seguintes áreas: • Legislação Profissional. • Ética Profissional. • Normas Brasileiras de Contabilidade, Técnicas e Profissionais, editadas pelo Conselho Federal de Contabilidade, inerentes à perícia. • Legislação Processual Civil aplicada à perícia. • Língua Portuguesa e Redação. • Direito Constitucional, Civil e Processual Civil afetos à legislação profissional, à prova pericial e ao perito. A prova será escrita, contemplando questões para respostas objetivas e questões para respostas dissertativas. O contador será aprovado no EQT se obtiver, no mínimo, 60% (sessenta por cento) dos pontos das questões objetivas e 60% (sessenta por cento) dos pontos das questões dissertativas previstos na prova. IMPORTANTE 2.2 RECUSA, IMPEDIMENTOS E SUSPEIÇÃO De acordo com a NBC PP 01 (R1) (CFC, 2020b), impedimentos são situações fáticas ou circunstanciais que impossibilitam o perito do juízo de exercer, regularmente, suas funções ou realizar atividade pericial em processo judicial ou extrajudicial, inclusive arbitral. A norma apresenta alguns itens que demonstram os conflitos de interesses, motivadores de impedimentos a que está sujeito o perito contábil. Os impedimentos e suspeições a que está sujeito o perito do juízo, nos termos da legislação vigente e do Código de Ética do Contador, geram conflito de interesses entre as partes. ATENÇÃO 52 2.2.1 Recusa O perito poderá recusar sua nomeação, nos casos de: estado de saúde, indisponibilidade de tempo, falta de recursos humanos ou materiais; desconhecimento da matéria ou formação acadêmica diversa, conforme previsão no seguinte dispositivo do CPC: Art. 157. O perito tem o dever de cumprir o ofício no prazo que lhe designar o juiz, empregando toda sua diligência, podendo escusar-se do encargo alegando motivo legítimo. § 1º A escusa será apresentada no prazo de 15 (quinze) dias, contado da intimação, da suspeição ou do impedimento supervenientes, sob pena de renúncia ao direito a alegá-la (BRASIL, 2015). Assim, o perito do juízo terá o prazo de 15 (quinze) dias, que começará a contar a partir da sua intimação, para recusar sua nomeação. 2.2.2 Impedimento e suspeição O impedimento e/ou suspeição ocorre quando existe relação profissional com as partes, amigo ou inimigo dos litigantes, interesse direto ou indireto na causa, parentesco ou credor ou devedor do perito ou do seu cônjuge. A previsão do impedimento e suspeição está nos Arts. 144, 145, 147 e 148 e inciso II, Art. 467 do CPC, e, ainda, NBC PP 01 (R1): SUSPEIÇÃO E IMPEDIMENTO LEGAL 12. O perito nomeado deve se declarar suspeito ou impedido quando não puder exercer suas atividades, observadas as disposições legais. 13. O perito deve declarar-se suspeito quando, após nomeado ou contratado, verificar a ocorrência de situações que venham suscitar suspeição em função da sua imparcialidade ou independência e, dessa maneira, comprometer o resultado do seu trabalho em relação à decisão. 14. Os casos de suspeição e impedimento a que está sujeito o perito nomeado são os seguintes: a) ser amigo íntimo de qualquer das partes; b) ser inimigo capital de qualquer das partes; c) ser devedor ou credor em mora de qualquer das partes, dos seus cônjuges, de parentes destes em linha reta ou em linha colateral até o terceiro grau ou entidades das quais esses façam parte de seu quadro societário ou de direção; d) ser herdeiro presuntivo ou donatário de alguma das partes ou dos seus cônjuges; e) ser parceiro, empregador ou empregado de uma das partes; f) aconselhar, de alguma forma, parte envolvida no litígio acerca do objeto da discussão; e g) houver qualquer interesse no julgamento da causa em favor de uma das partes. 15. O perito pode ainda declarar-se suspeito por motivo de foro íntimo (CFC, 2020b). 53 Assim, o perito contábil deverá escusar-se quando incorrer em suspeição e impedimento, conforme Art. 467 do CPC: Art. 467. O perito pode escusar-se ou ser recusado por impedimento ou suspeição. Parágrafo único. O juiz, ao aceitar a escusa ou ao julgar procedente a impugnação, nomeará novo perito (BRASIL, 2015). Crepaldi (2019) e Moura (2020) nos trazem alguns casos de impedimento e suspeição: Quadro 3 – Casos de impedimento e suspeição Impedimento legal Impedimento técnico Ocorre quando o perito contábil: • for parte do processo; • tiver atuado como perito do juízo contratado ou prestado depoimento como testemunha no processo; • tiver cônjuge ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou em linha colateral até o terceiro grau postulando no processo, ou entidades de cujo quadro societário ou direção faça parte; • interessado, direta ou indiretamente, mediata ou imediatamente, para si, para seu cônjuge ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou em linha colateral até o terceiro grau, no resultado do trabalho pericial; • exercer cargo ou função incompatível com a atividade de perito do juízo, em função de impedimentos legais ou estatutários; • receber dádivas de interessados no processo; • subministrar meios para atender às despesas do litígio; • receber quaisquer valores e benefícios, bens ou coisas sem autorização ou conhecimento do juiz ou árbitro. O perito se declara em impedimento técnico quando: • não é especializado na matéria em litígio; • constatar que os recursos humanos e materiais de sua estrutura profissional não permitem assumir o encargo; cumprir os prazos nos trabalhos em que o perito do juízo for nomeado, contratado ou escolhido; ou naqueles em que o perito- contador assistente for indicado; • o perito-assistente técnico tiver atuado para a outra parte litigante na condição de consultor técnico ou contador responsável, direto ou indireto, em atividade contábil ou em processo no qual o objeto de perícia seja semelhante àquele da discussão, sem previamente comunicar ao contratante. Suspeição • ser amigo íntimo de qualquer das partes; • ser inimigo capital de qualquer das partes; • ser devedor ou credor em mora de qualquer das partes, dos seus cônjuges, de parentes destes em linha reta ou em linha colateral até o terceiro grau ou entidades das quais estes façam parte de seu quadro societário ou de direção; • ser herdeiro presuntivo ou donatário de alguma das partes ou dos seus cônjuges; • ser parceiro, empregador ou empregado de alguma das partes; • aconselhar, de alguma forma, parte envolvida no litígio acerca do objeto da discussão; • ter qualquer interesse no julgamento da causa em favor de alguma das partes. Fonte: adaptado de Crepaldi (2019) e Moura (2020) 54 De acordo com Código de Processo Civil, o perito-assistente técnico não está sujeito ao impedimento ou à suspeição: Art. 466. O perito cumprirá escrupulosamente o encargo que lhe foi cometido, independentemente de termo de compromisso. § 1º Os assistentes técnicos são de confiança da parte e não estão sujeitos a impedimento ou suspeição. IMPORTANTE Apesarde o CPC informar que o perito-assistente técnico não estar sujeito ao impedimento, de forma geral, entende-se que o impedimento técnico-científico para o perito-assistente, previsto na NBC PP 01, continua válido (CREPALDI, 2019). Equipe técnica: quando a perícia exigir o trabalho de terceiros (equipe de apoio, trabalho de especialistas ou profissionais de outras áreas de conhecimento), o planejamento deverá trazer a previsão de orientação e supervisão do perito nomeado, e este responderá pelos trabalhos executado pela equipe contratada. É o que está previsto no item 30 da NBC TP 01 (R1): “a execução da perícia, quando incluir a utilização de equipe técnica, deve ser realizada sob a orientação e supervisão do perito, que assume a responsabilidade pelos trabalhos” (NBC TP 01 (R1), itens 13 e 30). ATENÇÃO 3 PERITO ASSISTENTE Acadêmico, vimos que na NBC PP 01 (R1) que o perito contábil poderá assumir algumas denominações. Uma das denominações é a de assistente técnico, que é o contador ou órgão técnico ou científico indicado e contratado pela parte em perícias contábeis. O assistente técnico não é um auxiliar da Justiça, diferentemente do perito do juízo. O perito assistente técnico, ou simplesmente, assistente técnico, apesar de atuar no processo, é de livre contratação das partes, inclusive sendo estas responsáveis por seus honorários, que nem constam dos autos. O perito judicial, geralmente, é remunerado pela parte que solicita a perícia, sendo as custas ressarcidas a quem pagou, se for o caso, ao final, pelo vencido (MOURA, 2020; SOUSA, 2020; CREPALDI, 2019; MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017; ORNELAS, 2017). 55 O assistente técnico é citado em vários artigos do novo CPC. Acadêmico, diferentemente dos peritos, que são de confiança do juiz, os assistentes técnicos são de confiança da parte que os contratou e, como mencionado, não estão sujeitos a impedimento ou suspeição, conforme o Art. 466 do CPC: Art. 466. O perito cumprirá escrupulosamente o encargo que lhe foi cometido, independentemente de termo de compromisso. § 1º Os assistentes técnicos são de confiança da parte e não estão sujeitos a impedimento ou suspeição. § 2º O perito deve assegurar aos assistentes das partes o acesso e o acompanhamento das diligências e dos exames que realizar, com prévia comunicação, comprovada nos autos, com antecedência mínima de 5 (cinco) dias (BRASIL, 2015). O assistente técnico tem o momento certo para se pronunciar nos autos e prazos a cumprir junto a quem o contratou (o advogado, que também tem prazos processuais a respeitar), não estando sujeito à suspeição, impugnação e normas, como, por exemplo, ter curso superior, estar inscrito em órgão de classe etc. Mas é óbvio que para executar uma perícia contábil é preciso ser contador, como determina o CRC. Diferentemente dos peritos, que são de confiança do juiz, os assistentes técnicos são de confiança da parte que os contratou (MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017; ORNELAS, 2017). O perito deve assegurar aos assistentes técnicos o acompanhamento das diligências e dos exames a realizar com prévio aviso. IMPORTANTE Vamos agora fazer um comparativo entre o perito contábil do juízo (que cha- maremos apenas de perito) e o perito assistente técnico (que chamaremos apenas de assistente técnico): Quadro 4 – Perito versus assistente técnico Perito Assistente técnico Nomeado pelo juiz, árbitro, autoridade pública ou privada para exercício da perícia contábil. É designado para subsidiar a solução do li- tígio, ou, simplesmente, constatar um fato. Elaborará o laudo pericial contábil que será entregue para a tomada de decisão. Contratado e indicado pela parte no litígio. Acompanhará os procedimentos, bem como os trâmites processuais. Elaborará um parecer técnico contábil acerca da matéria objeto do litígio. Fonte: adaptadao de Moura, 2020; Sousa, 2020; Crepaldi, 2019; Müller; Timi; Heimonski, 2017; Ornelas, 2017. 56 O Código de Processo Civil denomina o perito assistente técnico, simplesmente, assistente técnico da perícia; Art. 465. O juiz nomeará perito especializado no objeto da perícia e fixará de imediato o prazo para a entrega do laudo. § 1º Incumbe às partes, dentro de 15 (quinze) dias contados da intimação do despacho de nomeação do perito: I – arguir o impedimento ou a suspeição do perito, se for o caso; II – indicar assistente técnico; III – apresentar quesitos (BRASIL, 2015, grifo nosso). As partes serão intimadas do despacho de nomeação do perito e, no prazo de 15 dias, contados desse despacho, indicarão seus assistentes técnicos, seus quesitos e, se for o caso, arguirão a suspeição ou o impedimento do especialista. Enquanto o perito do juízo é necessário para execução de qualquer perícia contábil, o perito-assistente só é contratado se uma parte do litígio julgar conveniente (CREPALDI, 2019; MOURA, 2020). Exemplificando: Em uma perícia judicial contábil, o juiz nomeia o contador Mário para ser o perito contábil e realizar o levantamento contábil dos bens de determinada sucessão hereditária. Joana, que é parte nesse processo, para certificar-se da lisura do trabalho do perito nomeado pelo juiz, contrata Marcos, assistente técnico. Marcos passa, então, a acompanhar os trabalhos do perito do juízo. Ao final dos trabalhos, o perito do juízo elaborará um laudo pericial que conterá a sua opinião sobre o patrimônio objeto do litígio, e Marcos (assistente técnico) manifestará a sua posição em um parecer técnico-contábil. O juiz observará o laudo e o parecer antes de proferir a sentença. O perito do juízo é sempre nomeado, enquanto o assistente técnico é sempre contratado pela parte. ATENÇÃO A NBC TP 01 (R1) traz, nos itens 22 e 23, alguns pontos a serem considerados pelo assistente técnico: 22 Ao ser intimado para dar início aos trabalhos periciais, o perito nomeado deve comunicar às partes e aos assistentes técnicos: a data e o local de início da produção da prova pericial contábil, exceto se fixados pelo juízo, juízo arbitral ou autoridade administrativa: (a) caso não haja, nos autos, dados suficientes para a localização dos assistentes técnicos, a comunicação deve ser feita aos advogados das partes e, caso estes também não tenham informado endereço nas suas petições, a comunicação deve ser feita diretamente às partes e/ou ao Juízo, juízo arbitral ou autoridade administrativa; 57 (b) assim que formalizada sua contratação, pode o assistente técnico manter contato com o perito, colocando-se à disposição para cooperar do desenvolvimento do trabalho pericial; (c) o perito nomeado deve assegurar aos assistentes técnicos o acesso aos autos e aos elementos de prova arrecadados durante a perícia, indicando local, data e hora para exame deles; (d) os assistentes técnicos têm o dever inalienável de colaborar para a revelação da verdade e comportar-se de acordo com a boa-fé e com a equidade, além de cooperar entre si e com o perito nomeado, para que se obtenha um resultado da perícia em tempo razoável; (e) os assistentes técnicos podem entregar ao perito nomeado cópia do seu parecer prévio, planilhas ou memórias de cálculo, informações e demonstrações que possam esclarecer ou auxiliar o trabalho a ser desenvolvido pelo perito nomeado, assegurado o acesso ao outro assistente. 23 O assistente técnico pode, logo após a sua contratação, manter contato com o advogado da parte que o contratou, requerendo dossiê completo do processo para conhecimento dos fatos e melhor acompanhamento dos atos processuais no que for pertinente à perícia (CFC, 2020ª, grifo nosso). Acadêmico, podemos resumir as características do perito assistente técnico na Figura 2, abaixo: Figura 6 – Características do perito assistente técnico Fonte: elaborado pelo autor 58 LEITURA COMPLEMENTAR PERÍCIA CONTÁBIL É UMA ÁREA INTERESSANTE? Patrick Anderson Você já é contador e pensou em ser um perito contábil? Se a sua resposta foi sim, então aqui você vai encontrar oque você precisa para ser um. A perícia contábil é uma área interessante das ciências contábeis, e neste artigo te daremos mais detalhes. O que você verá neste artigo: • O que é perícia? • E a perícia contábil? • Quem pode ser um perito contábil? • Quais são as funções de um perito contábil no Brasil? • Quais tipos de pericias contábeis existem? • A perícia contábil judicial. • A perícia contábil extrajudicial. • Perícia no âmbito estatal. • Perícia arbitral. • Perícia Voluntária. • O mercado de trabalho para um perito contador. O que é perícia? Em primeiro lugar, você precisa saber o que é perícia! A perícia é a capacidade de resolver com acerto, facilidade e rapidez algo que implica certa dificuldade. E a perícia contábil? Segundo as Normas Brasileiras de Contabilidade NBC TP 01 – Norma Técnica de Perícia Contábil – a perícia contábil constitui o conjunto de procedimentos técnicos e científicos destinados a levar à justa solução do litigio. Esses procedimentos são realizados mediante laudo e/ou parecer pericial contábil, em conformidade com as normas jurídicas e profissionais, e a legislação específica no que for pertinente. 59 No que se refere às questões financeiras e contábeis, ou seja, mediante os processos técnicos requeridos, o perito pode: • fazer uma investigação; • validar os argumentos; • avaliar as questões. Posteriormente ele pode dar uma opinião correspondente ao fato implicado. No Brasil, a perícia contábil foi instituída em 1946, mediante o Decreto-Lei 9295/46, o qual deu origem ao Conselho Regional de Contabilidade (CRC). Esta lei estabeleceu atribuições ao contador, podendo ser exercida somente por profissionais, legalmente, neste órgão. A seguir, vamos falar sobre algumas das atividades ilegais que são assuntos de investigação do perito contador: • corrupção; • crimes contra as finanças públicas; • crimes em licitações; • fraudes em instituições financeiras; • lavagem de dinheiro; • sonegação fiscal etc. Quem pode ser um perito contábil? O perito contábil só pode ser o contador que esteja habilitado no Conselho Regional de Contabilidade da respectiva jurisdição. Esta convenção está conforme determina a norma legal alínea “c” do Artigo 25, combinado com o Artigo 26, do Decreto- Lei n° 9.297, de 27 de maio de 1946. Também é necessário ter Cadastro Eletrônico de Peritos e Órgãos Técnicos ou Científicos (CPTEC). Além disso, é preciso enfatizar que o perito contábil deve possuir conhecimentos específicos no que se refere à perícia. Assim, mantendo um alto nível de desempenho profissional e estando atualizado sobre as Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC). Quais são as funções de um perito contábil no Brasil? Um perito contábil deve dominar de forma correta as técnicas de contabilidade, tendo critérios certos que possam comprovar as constatações que faz. Levando isso em consideração, entre as principais funções de um perito contábil está a de fazer, de forma acordante com os processos de análise, a fim de que se possa identificar se houve ou não alguma anormalidade ou irregularidade no âmbito fiscal. 60 Essa identificação leva em consideração a análise de registros de transações, livros e outros documentos que contornam os acontecimentos a serem investigados. Quais tipos de pericias contábeis existem? O que torna a perícia contábil interessante são as diversas atuações e nuances que ela possui. Para isso, você tem que saber que existem dois tipos de pericias contábeis: • perícia judicial; • perícia extrajudicial. Detalharemos mais sobre essas duas especificidades a seguir: A perícia contábil judicial É aquela na qual o perito contador é designado por um juiz. O juiz pode recorrer ao perito porque precisa de um documento técnico especializado (laudo profissional) ou para examinar o pedido de uma das partes compreendidas no processo. Além disso, o juiz pode compreender o parecer técnico do contador especializado de maneira que obtenha embasamento suficiente para a avaliação correta do processo. Geralmente uma perícia contábil judicial é requerida por uma das partes. Tanto a defesa quanto a acusação podem apresentar embasamentos que não têm a comprovação suficiente para serem validados mesmo apresentando provas. Desse modo, essa pericia serve para efetivar a conferencia de dados, verificando a veracidade das provas que foram apresentadas pelas partes envolvidas ou para ser parte da coleta de provas. Certamente, esta perícia judicial deve ser feita dentro de um prazo determinado pelo juiz. Para poder cumprir tal prazo, o perito pode ter disponibilidade de assistentes técnicos para poder apoiá-lo. A perícia judicial é de suma importância em um litigio, já que esta serve com prova em um processo, o que é fundamental solucionar as questões. Dessa maneira, esses levantamentos periciais ajudam o juiz no momento da sentença do processo. A perícia contábil judicial envolve as esferas: • criminal; • justiça do trabalho; • cível estadual; • justiça federal; • justiça da família; • varas de falências e recuperação judicial; • fazenda pública; • execuções fiscais. 61 A perícia contábil extrajudicial De fato, este tipo de perícia se sucede quando não há um pedido judicial por médio, ou ainda quando um processo judicial está sendo constituído. Dentro desta, existem três tipos: • perícia no âmbito estatal; • perícia arbitral; • perícia voluntária. Perícia no âmbito estatal A Perícia no âmbito estatal é aquela realizada pelos órgãos Estatais. Por exemplo: • as perícias criminais; • as pericias estaduais; • as pericias federais. Além disso, existem pericias realizadas por peritos do Ministério Público. Pericia Arbitral A Perícia arbitral é solicitada quando é necessária uma arbitragem para dar solução imparcial entre as partes, de forma que o juiz fará nomeação de um perito contábil independente, igualmente acordado entre os interessados. Perícia Voluntária Ela é realizada mediante contratação de empresas com a finalidade de comprovar informações de caráter contábil. É realizada de forma voluntária, sem que haja um processo judicial e, neste caso, pode ser feita em conjunto com uma auditoria. Este tipo de perícia (extrajudicial) pode ser solicitada por alguma empresa, um advogado ou pela pessoa interessada. No aspecto do trabalho, irá ocorrer comumente quando há casos de demissões de colaboradores. Ocorre quando o empregado quer saber se o valor pago que a empresa deu para ele realmente era o valor justo, levando em consideração alguns fatores, como por exemplo: o tempo trabalho no cargo o cargo exercido, e demais informações pertinentes. Servirá ainda para verificar e confirmar a correta cobrança dos contratos de financiamento, contratos bancários e outros, podendo ser solicitada imediatamente por uma empresa ou por qualquer pessoa. Este tipo de perícia também é solicitada em atuações fiscais, liquidação de haveres, partilha de bens, fusão de empresas, cálculo de indenizações, entre outros. 62 O mercado de trabalho para um perito contador Bom, agora que temos toda essa informação, vamos ver onde pode trabalhar um perito contábil. A perícia contábil é uma área interessante de se atuar, tendo em vista também o mercado. O perito contábil tem atuação na Justiça do Trabalho, Justiça do Estadual e Justiça Federal. Pode agir também em cisões e fusões empresariais que estão entre os cenários mais comuns de atuação. Para entender a remuneração do perito contador, precisamos destacar que ele pode trabalhar de duas formas: • No setor público: o perito contábil judicial no Brasil tem um salário entre R$ 1.541,14 e R$ 10.411,97, sendo o salário médio de R$ 3.853,09. Para atuação no sector público é necessário que o postulante ingresse por meio de um concurso público. • No setor privado: a base salarial do perito contábil no Brasil é de R$ 3.122,00, chegando até R$ 6.728,00, sendo a média salarial R$ 4.193,00. Fonte: adaptada de https://blog.voomp.com.br/dicas/mercado-de-trabalho/pericia-contabil-e-uma-area-in-teressante. Acesso em: 11 jan. 2023. 63 Neste tópico, você aprendeu: • A prova em juízo é aplicada com vistas a demonstrar a existência do ato, isto é, aquilo que atesta a veracidade de alguma coisa; é uma demonstração evidente, atestando ou garantindo uma intenção, um sentimento, um testemunho (MOURA, 2020). • O perito judicial é o profissional que colabora com a justiça na busca da verdade dos fatos. • Assistente técnico é o contador ou órgão técnico ou científico indicado e contratado pela parte em perícias contábeis. • A perícia contábil é um trabalho técnico privativo do contador. • Para exercer as atividades inerentes ao perito contábil, o contador deverá possuir características e atender requisitos previstos na legislação e normas contábeis. • Em casos de impedimentos e suspeitos, o contador deverá escusar sua nomeação, na forma da legislação. RESUMO DO TÓPICO 3 64 1 O perito contábil é o contador registrado em Conselho Regional de Contabilidade (CRC), que exerce a atividade pericial de forma pessoal, devendo ser profundo conhecedor da área devido as suas qualidades e experiências da matéria periciada. Quando da sua atuação nos processos, poderá assumir algumas denominações distintas. Assim, associe os itens, utilizando o código a seguir: I- Perito do juiz. II- Perito arbitral. III- Perito oficial. IV- Perito assistente. ( ) Profissional contratado pelas partes. ( ) Contador nomeado em arbitragem. ( ) Contador nomeado pelo poder judiciário. ( ) Contador investido na função por lei e pertencente a órgão especial do Estado. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) IV – II – I – III. b) ( ) I – II – III – IV. c) ( ) IV – III – II – I. d) ( ) IV – III – I – II. e) ( ) I – IV – II – III. 2 Segundo a NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil, ao ser intimado para dar início aos trabalhos periciais, o perito do juízo deve comunicar às partes e aos assistentes técnicos a data e o local de início da produção da prova pericial contábil, exceto se designados pelo juízo. Fonte: CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020a. NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil. Disponível em: https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de-contabilidade/nbc-tp-de-pericia/. Acesso em: 6 jan. 2023. Sobre esse assunto, analise as afirmativas marque V para as verdadeiras e F para as falsas: ( ) Caso não haja, nos autos, dados suficientes para a localização dos assistentes técnicos, a comunicação deve ser feita diretamente às partes e/ou ao Juízo. ( ) O perito-assistente pode, tão logo tenha conhecimento da perícia, manter contato com o perito do juízo, colocando-se à disposição para a execução da perícia em conjunto. AUTOATIVIDADE 65 ( ) Na impossibilidade da execução da perícia em conjunto, o perito do juízo deve permitir aos peritos-assistentes o acesso aos autos e aos elementos de prova arrecadados durante a perícia, indicando local e hora para exame pelo perito-assistente. ( ) O perito-assistente pode entregar ao perito do juízo cópia do parecer técnico, elaborado antecipadamente, planilhas ou memórias de cálculo, informações e demonstrações que possam esclarecer ou auxiliar o trabalho a ser desenvolvido pelo perito do juízo. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – F – F – V. b) ( ) F – F – V – V. c) ( ) F – V – V – V. d) ( ) V – V – V – F. e) ( ) F – F – F – F. 3 A transparência e o respeito recíprocos entre o perito do juízo e os peritos- assistentes técnicos pressupõem tratamento impessoal, restringindo os trabalhos, exclusivamente, ao conteúdo técnico-científico. O contador Marcos nomeado como perito do juízo, em uma ação de revisional financeira, deve atuar à luz dos critérios estabelecidos na NBC PP 01 (R1) – Perito Contábil. Fonte: CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020b. NBC PP 01 (R1) – Perito Contábil. Dispo- nível em: https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de-contabilidade/nbc-pp-do-perito-contabil/. Acesso em: 6 jan. 2023. Com relação ao excerto, analise as sentenças a seguir: I- O perito é responsável pelo trabalho de sua equipe técnica, a qual compreende os auxiliares para execução do trabalho complementar do laudo pericial contábil e/ou parecer técnico contábil. II- O perito deve conhecer as responsabilidades sociais, éticas, profissionais e legais às quais está sujeito no momento que aceita o encargo para a execução de perícias contábeis judiciais e extrajudiciais, inclusive arbitral. III- O perito do juízo não precisará se declarar impedido para exercer suas atividades em um processo judicial em que já houver atuado como parecerista de uma das partes. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 66 4 A perícia deverá ser executada, sempre, por uma pessoa que entenda do assunto a ser periciado, examinando com atenção e minúcia. A NBC PP 01 (R1) nos diz que o perito contador, no exercício da atividade pericial, assumirá algumas denominações. Fonte: CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020b. NBC PP 01 (R1) – Perito Contábil. Dispo- nível em: https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de-contabilidade/nbc-pp-do-perito-contabil/. Acesso em: 6 jan. 2023. Discorra sobre essas denominações usadas para o perito contador, conforme as normas brasileiras de contabilidade. Em seguida, compare as características do perito do juízo e do perito-assistente técnico. 5 De acordo com a NBC PP 01 (R1), impedimentos são situações fáticas ou circuns- tanciais que impossibilitam o perito do juízo de exercer, regularmente, suas funções ou realizar atividade pericial em processo judicial ou extrajudicial, inclusive arbitral. A norma apresenta alguns itens que demonstram os conflitos de interesses, motivadores de impedimentos a que está sujeito o perito contábil. Fonte: CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020b. NBC PP 01 (R1) – Perito Contábil. Dispo- nível em: https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de-contabilidade/nbc-pp-do-perito-contabil/. Acesso em: 6 jan. 2023. Disserte sobre os tipos de impedimentos e suspeição previstos na legislação e nas normas contábeis. 67 ALBERTO, V. L. P. Perícia Contábil. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2012. BLEIL, C.; SANTIN, L. A. B. A perícia contábil e sua importância sob olhar dos magistrados. RACI Revista de administração e ciências contábeis do IDEAU, [s. l.], v. 3, n. 7, fev./jul. 2008. BRASIL. Decreto nº 737, de 25 de novembro de 1850. Determina a ordem do Juízo no Processo Comercial. Brasília, DF: Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil,25 nov. 1850. BRASIL. Decreto-lei nº 1608, de 18 de setembro de 1939. Código do Processo Civil. Brasília, DF: Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, 18 set. 1939. BRASIL. Decreto-Lei nº 9.295, de 27 de maio de 1946. Cria o Conselho Federal de Contabilidade, define as atribuições do Contador e do Guarda-livros, e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, 27 maio 1946. BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código de processo Civil. Brasília, DF: Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, 10 jan. 2002. BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Institui o Código Civil. Brasília, DF: Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, 16 MAR. 2015. CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2016a. NBC PP 02 – Exame de Qualificação Técnica para Perito Contábil. Disponível em: http://twixar.me/9dxm. Acesso em: 6 jan. 2023. CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2016b. Resolução N.º 1.502, de 19 de fevereiro de 2016. Cadastro Nacional de Peritos Contábeis (CNPC) do Conselho Federal de Contabilidade (CFC). Disponível em: http://twixar.me/Jdxm. Acesso em: 6 jan. 2023. CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020a. NBC TP 01 (R1)– Perícia Contábil. Disponível em: http://twixar.me/ydxm. Acesso em: 6 jan. 2023. CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020b. NBC PP 01 (R1) – Perito Contábil. Disponível em: http://twixar.me/9dxm. Acesso em: 6 jan. 2023. COSTA, J. C. D. da. Perícia contábil: aplicação prática. São Paulo: Atlas, 2017. CREPALDI, S. Manual de perícia contábil. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. REFERÊNCIAS 68 DIÁRIO DO NORDESTE. Diário do Nordeste, 2020. Disponível em: http://twixar.me/ zdxm. Acesso em: 3 mar. 2023. JUSBRASIL. Jusbrasil, c2023. Juiz determina perícia em empresa para apurar salário extra folha. Disponível em: http://twixar.me/5dxm. Acesso em: 3 mar. 2023. MAGALHÃES, A. de D. F. Perícia Contábil. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017. MOURA, R. Perícia contábil judicial e extrajudicial. 6. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2020. MÜLLER, A. N.; TIMI, S.R. R.; HEIMOSKI, V. T. M. Perícia contábil. São Paulo: Saraiva, 2017. ORNELAS, M. M. G. de. Perícia Contábil. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017. SBT NEWS. SBT News, 2022. Após perícia, PF localiza contratante de fake news em Cuiabá. Disponívem em: http://twixar.me/Sdxm. Acesso em: 3 mar. 2023. SÁ, A. L. Perícia Contábil. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2019. SANTOS, T. A. dos. Perícia e arbitragem contábil. Curitiba: Contentus, 2020. TSE. TSE.Jus, 2022. Peritos da Polícia Federal concluem inspeção ao sistema eletrônico de votação no TSE. Disponível em: http://twixar.me/Xdxm. Acesso em: 3 mar. 2023. 69 QUESITOS E RELATÓRIO PERICIAIS: LAUDO E PARECER UNIDADE 2 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • estudar o planejamento da perícia contábil; • aprender a respeito dos quesitos inerentes à perícia contábil; • estudar os relatórios periciais; • conhecer o laudo pericial contábil e o parecer pericial contábil; A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – PLANEJAMENTO DA PERÍCIA CONTÁBIL TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – QUESITOS TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – RELATÓRIOS PERICIAIS: LAUDO E PARECER Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 70 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 71 TÓPICO 1 — PLANEJAMENTO DA PERÍCIA CONTÁBIL UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, estamos na Unidade 2, e, neste Tema de Aprendizagem 1, abordaremos o planejamento da perícia contábil. Podemos definir planejamento como o ato ou efeito de planejar; é o serviço de preparação de um trabalho, de uma tarefa, com o estabelecimento de métodos convenientes; planificação (PLANEJAMENTO, 2022). Aplicando-se à perícia, planejamento é a fase que antecede o início da perícia propriamente dita, tendo em vista que é o momento no qual o perito analisa os autos a serem periciados, verificando a existência de documentos necessários para a realização da perícia, ou diligência (CREPALDI, 2019; MÜLLER; TIMI; HEIMONSKI, 2017; ORNELAS, 2017). Moura (2020, p. 16) nos afirma que “a perícia deve ser planejada cuidadosamente, com vista ao cumprimento do prazo, inclusive o da legislação relativa ao laudo pericial ou parecer técnico”. O referido autor continua relatando que o planejamento é a etapa do trabalho na qual o perito estabelecerá as diretrizes e a metodologia a serem aplicadas. Nisso, o planejamento da perícia contábil já tem início com a leitura do processo, momento em que o perito desenvolverá os chamados “papéis de trabalho”, que consiste em transcrever na pasta virtual relativa ao processo aquilo que de mais importante foi identificado quando essa atividade foi desenvolvida nos autos do processo (COSTA, 2017). O planejamento é essencial para a coordenação de trabalhos entre os peritos, pois conseguirá avaliar a extensão e a complexidade daqueles. Essa etapa é de extrema importância, pois um planejamento bem elaborado tem vários fatores positivos, como: elaborar um cronograma de execução a fim de se cumprirem os trabalhos no prazo previsto, avaliar com precisão os custos da perícia, verificar a necessidade de equipe técnica etc. (MOURA, 2020; CREPALDI, 2019). Assim, além desta introdução, abordaremos no Subtema 2 os atos preparatórios da perícia, e no Subtema 3, o planejamento da perícia contábil propriamente dito. 72 2 ATOS PREPARATÓRIOS Para Magalhães (2017), a base processual e operacional da perícia contábil judicial e seus ritos processuais compreendem dois momentos distintos, que podemos classificar como atos preparatórios e atos de execução do trabalho pericial. Como atos preparatórios, podemos apontar, com fundamento básico no CPC: • nomeação e indicações do perito e do(s) assistente(s); • motivos e decorrências da nomeação e das indicações; • fundamentos da nomeação, das indicações e das situações decorrentes. 2.1 ATOS PREPATÓRIOS Durante os atos preparatórios, especialmente depois da intimação, o perito pode, como é habitual, acessar o processo no sistema eletrônico e/ou retirar os autos do cartório ou secretaria para inteirar-se de seu conteúdo, ou pedir vistas nos autos no próprio juízo. Conhecidas as peculiaridades do processo, o perito tem que decidir se aceita ou se escusa (declina, recusa) da função para a qual foi nomeado (MAGALHÃES, 2017). Os processos judiciais são, regra geral, feitos por meio eletrônico. Os processos eletrônicos são um grande avanço tecnológico no meio jurídico. Eles são processos, assim como os físicos, que podem ser de qualquer esfera jurídica, mas consistem em um meio digital, sendo realizados 100% de forma digital, acontecendo somente algumas questões presenciais. Os advogados, juízes e até os servidores públicos do judiciário, realizam os seus atos por meio de um sistema do próprio tribunal. Dessa forma, os eventos presenciais, como as audiências, continuam sendo realizados de forma presencial, exceto durante a pandemia, que passaram, também, a serem virtuais (CARVALHO, 2022). IMPORTANTE Acadêmico, como vimos anteriormente, para aceitar uma perícia, a regra geral é que esteja legalmente habilitado, e técnica e cientificamente preparado. O fato de haver sido nomeado não obriga o perito ao exercício pericial, pois cabe-lhe o direito de aceitar ou escusar-se (declinar) da função. E, como também já sabemos, são condições para a recusa por parte do perito: 73 • impedimento legal; • suspeição; • não ser especializado na matéria objeto da perícia; • força maior. Os atos preparatórios da perícia, portanto, são tudo aquilo que precede e decorre da nomeação do perito pelo magistrado (Art. 465) ou sua indicação pelas partes (Art. 471): Art. 465. O juiz nomeará perito especializado no objeto da perícia e fi xará de imediato o prazo para a entrega do laudo. [...] Art. 471. As partes podem, de comum acordo, escolher o perito, indicando-o mediante requerimento, desde que: I - sejam plenamente capazes; II - a causa possa ser resolvida por autocomposição. § 1º As partes, ao escolher o perito, já devem indicar os respectivos assistentes técnicos para acompanhar a realização da perícia, que se realizará em data e local previamente anunciados. § 2º O perito e os assistentes técnicos devem entregar, respectivamente, laudo e pareceres em prazo fi xado pelo juiz. § 3º A perícia consensual substitui, para todos os efeitos, a que seria realizada por perito nomeado pelo juiz (BRASIL, 2015). Assim, acadêmico, com o objetivo de auxiliá-lo no entendimento da dinâmica do processo judicial (fl uxo da tramitação) apresentamos a seguir a Figura 1: Figura 1 – Rotina das práticas processuais durante a produção da prova pericial Fonte: adaptada de Magalhães (2017) De acordo com a Figura 1, podemos visualizar as rotinas do processo durante a produção da prova pericial, com os seguintes elementos e na numeração sequenciada dos atos: 74 • Nomeia perito e determinadiligências: Juiz: nomeia perito e determina diligências. • Recebe e elabora intimação ao perito e às partes: Secretaria recebe e elabora intimação ao perito e às partes: expede intimação ao perito; expede intimação às partes. • Recebe e inclui nos autos o orçamento elaborado e protocolado pelo perito e manifestações das partes: Secretaria recebe e inclui nos autos orçamento elaborado e protocolado pelo perito e manifestações de autoria das partes. • Analisa, decide e determina diligências: Juiz: analisa, decide e determina diligências. • Dá cumprimento à decisão do juiz: Secretaria dá cumprimento à decisão do juiz: faz encaminhamento da decisão ao perito; faz encaminhamento da decisão às partes. • Recebe e inclui nos autos as provas periciais: Secretaria recebe e inclui nos autos as provas periciais: laudo de autoria do perito; pareceres de autoria dos assistentes técnicos. • Agenda audiência de conciliação e julgamento e determina diligências: Juiz: agenda audiência de conciliação e julgamento e determina diligências. • Prepara intimações: Secretaria prepara intimações: dá conhecimento ao perito, às partes e aos assistentes técnicos do agendamento da audiência; recebe das partes quesitos de esclarecimentos. Secretaria prepara intimações: intima perito dos quesitos de esclarecimentos; intima assistentes técnicos dos quesitos de esclarecimentos. • Preside audiência de instrução e julgamento onde é gerado o Termo de Audiência: Juiz: preside audiência de instrução e julgamento onde é gerado o Termo de Audiência. 2.1.1 Nomeação do perito e indicação do assistente e sua motivação Acadêmico, a nomeação do perito judicial, bem como a indicação do assistente das partes integra os atos preparatórios da perícia, no entanto, como já estudamos na Unidade 1, vamos trazer, um resumo na Figura 2 a seguir: 75 Figura 2 – Chave de fundamentação dos atos preparatórios da perícia Fonte: Magalhães (2017, p. 45) Em síntese, como atos preparatórios da perícia, podemos apontar os seguintes: nomeação de ofício; nomeação requerida; indicação simultânea; indicação de assistente; intimação; escusa/declinatória. A nomeação do perito, em resumo, é motivada em situações especiais que se tornam conhecidas no saneamento do processo, tais como: • sempre que justificar-se a produção de prova pericial, para elucidação de dúvidas na interpretação de provas; • na inspeção de pessoa ou coisa, a fim de se esclarecer sobre fato que interesse à decisão da causa; no arbitramento – para decisão de liquidação; • na resolução de sociedades, para apuração de haveres e balanço de determinação para apuração de valor patrimonial; • no inventário e partilha de bens de espólio, para avaliação das quotas sociais ou apuração de haveres e a avaliação de bens do espólio; • no levantamento de curatela, quando o juiz nomeará perito ou equipe multidisciplinar para proceder ao exame do interdito; • na realização de nova perícia, para corrigir eventual omissão ou inexatidão dos resultados da primeira. 76 Obtenção de provas dos fatos • Diligências para a obtenção de provas dos fatos; • Fundamentos para a obtenção de provas dos fatos. Produção da prova pericial • Laudo, parecer e termo de audiência, e os caminhos para a produção da prova pericial; • Fundamentos na produção da prova pericial em forma de laudo, de parecer e de termo de audiência. Os atos de execução compreendem dois conjuntos de práticas distintas e subsequentes, quais sejam: IMPORTANTE 3 PLANEJAMENTO DA PERÍCIA CONTÁBIL O planejamento da perícia é a etapa inicial do trabalho pericial que antecede as diligências, as pesquisas, os cálculos e as respostas aos quesitos, na qual o perito do juízo estabelece a metodologia dos procedimentos periciais a serem aplicados, elaborando-a a partir do conhecimento do objeto da perícia. É essencial para a coordenação de trabalhos entre os peritos, uma vez que conseguirá avaliar a extensão e a complexidade daqueles. Isso será de extrema importância, pois um planejamento bem elaborado tem vários fatores positivos, como: elaborar um cronograma de execução a fim de se cumprirem os trabalhos no prazo previsto, avaliar com precisão os custos da perícia, verificar a necessidade de equipe técnica etc. (CREPALDI, 2019). 3.1 PLANEJAMENTO DA PERÍCIA CONTÁBIL A Norma Brasileira de Contabilidade NBC TP 01 (R1), aborda o tema do planejamento da perícia nos itens 6 a 15. Inicialmente, nos traz o conceito do planejamento da perícia: “planejamento da perícia é a etapa do trabalho pericial, na qual o perito estabelece as diretrizes e a metodologia a serem aplicadas” (CFC, 2020a, s.p.). Vemos, a partir deste conceito, que o planejamento é ato prévio a realização de quaisquer diligências, pois é através dele que o perito estabelecerá a metodologia a ser adotada na execução do trabalho pericial demandado. 77 Com vistas a termos uma visão panorâmica da Perícia Contábil, apresentaremos a seguir, a Figura 3: Figura 3 – Perícia contábil – metodologia de trabalho Fonte: Crepaldi (2019, p. 166) Podemos observar, caro acadêmico, que o planejamento dos trabalhos precede às demais etapas do trabalho pericial contábil, isso implica que o perito deverá ter conhecimento prévio de todas as etapas do processo pericial, salvo aquelas que somente serão identificadas quando da execução da perícia (MOURA, 2020). Crepaldi (2019) também nos apresenta um fluxograma da perícia contábil, que contribuirá para entendermos melhor como se dá esse processo de forma genérica: • Pedido de perícia: solicitado a pedido de uma das partes ou do juiz. • Nomeação do perito judicial: o juiz, após o deferimento da perícia, nomeia o perito, intimando-o para apresentação da proposta de honorários. • Apresentação dos quesitos pelas partes e indicação de assistente pericial: as partes: 1. relacionam os quesitos (perguntas) ao perito e 2. indicam o assistente pericial. • Aceitação da nomeação e da proposição de honorários: o perito elabora uma petição, aceitando a sua nomeação e propondo seus honorários, ou declinando do cargo. • Intimação das partes para pronunciamento da proposta de honorários do perito: as partes devem se pronunciar sobre os honorários do perito, concordando ou não. • Intimação do perito judicial: manifestação das partes – se houver alteração nos valores de honorários aprovados por estas, o perito deverá manifestar sua concordância ou não com os valores alterados. 78 • Fixação do prazo para depósito dos honorários: o juiz intima a parte que arcará com o ônus da perícia para que efetue o depósito judicial do valor correspondente. • Concessão de prazo para início da perícia: o juiz fixa o prazo do início e do final da perícia (entrega do laudo), intimando tanto o perito quanto os assistentes. • Perícia propriamente dita: na data e hora convencionadas, os peritos iniciam os exames. • Elaboração e entrega do laudo: findos os exames, o perito elabora o laudo, respondendo aos quesitos. Faz sua entrega mediante protocolo. • Solicitação do levantamento de honorários: no mesmo momento em que entrega o laudo, o perito requisita o levantamento de honorários depositados em juízo. • Intimação das partes: manifestação sobre o conteúdo do laudo – as partes se manifestam sobre o conteúdo do laudo, apresentando parecer de seus assistentes técnicos. • Intimação do perito: manifestação sobre questionamento das partes em relação a pontos do laudo – o perito se manifesta, por meio de petição, sobre os pontos solicitados pelas partes. • Fim do trabalho pericial. Seguindo no sentido de uma visão sistêmica do processo pericial contábil, na Figura 4 apresentamos as etapas do trabalho do perito contábil: Figura 4 – Visão geral das etapas do trabalho do perito contábil judicial Fonte: Crepaldi (2019, p. 195) 79 A partir da Figura 4, podemos perceber que, uma vez que houve a designação do perito pelo magistrado e que há o aceito por parte do profissional contábil:• Ocorrerá a nomeação do perito contábil; Importante! A fase de planejamento já está em andamento pelo perito antes mesmo da nomeação. • Apresentação dos quesitos pelas partes e indicação de assistentes técnicos. • Intimação do perito para prestar esclarecimentos. • Atividade pericial propriamente dita, tendo como resultado a elaboração do Laudo. • Perito entrega o laudo em juízo. • As partes poderão se manifestar sobre o laudo. • O juiz apreciará os esclarecimentos e manifestação feito pelas partes. • Nesta etapa, caso seja do entendimento do magistrado, poderá ocorrer a aceitação do laudo e o encerramento dos trabalhos do perito judicial. • Ocorrerá, portanto, a homologação do laudo e o fim da atividade pericial da lide. • No entanto, caso o juízo necessite e acolha os pedidos de esclarecimentos e considerações feitos pelas partes, o perito será intimado para prestar esclarecimentos. • Assim, ocorrerá a atividade pericial para esclarecimentos; • Perito entrega os esclarecimentos em juízo; • As partes poderão fazer suas manifestações sobre os esclarecimentos; • Apreciação do juízo sobre esclarecimentos e manifestação das partes • O magistrado decidirá quanto à decisão da conclusão da perícia, o que implicará na aceitação do laudo e o encerramento dos trabalhos do perito judicial, ou poderá recusar o laudo apresentado pelo perito judicial. • Neste caso, ocorrerá a designação de nova perícia, com nomeação de outro perito. Müller, Timi e Heimonski (2017) relatam que a leitura rigorosa dos autos deverá trazer subsídios necessários para que o perito possa extrair primeiramente os objetivos do planejamento da perícia. Assim, a NBC TP01 (R1) nos revela os objetivos do planejamento da perícia, quais sejam: • conhecer o objeto e a finalidade da perícia para permitir a escolha de diretrizes e procedimentos a serem adotados para a elaboração do trabalho pericial; • desenvolver plano de trabalho onde são especificadas as diretrizes e procedimentos a serem adotados na perícia; • estabelecer condições para que o plano de trabalho seja cumprido no prazo estabelecido; • identificar potenciais problemas e riscos que possam vir a ocorrer no andamento da perícia; • identificar fatos importantes para a solução da demanda, de forma que não passem despercebidos ou não recebam a atenção necessária; • identificar a legislação aplicável ao objeto da perícia; • estabelecer como ocorrerá a divisão das tarefas entre os membros da equipe de trabalho, sempre que o perito necessitar de auxiliares. 80 Ornelas (2017) também afirma que o perito deve inteirar-se desses aspectos desenvolvendo leitura atenta dos autos do processo, em especial de duas peças, a inicial e a contestação. Em um processo judicial, denomina-se inicial, como o próprio nome evidencia, a petição inicial feita pela parte, é o primeiro ato para a formação do processo judicial. Trata-se de um pedido por escrito, onde a pessoa apresenta sua causa perante a justiça, levando ao juiz as informações necessárias para análise do direito. O CPC (BRASIL, 2015) traz os requisitos da petição inicial no Art. 319: Art. 319. A petição inicial indicará: I - o juízo a que é dirigida; II - os nomes, os prenomes, o estado civil, a existência de união estável, a profissão, o número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, o endereço eletrônico, o domicílio e a residência do autor e do réu; III - o fato e os fundamentos jurídicos do pedido; IV - o pedido com as suas especificações; V - o valor da causa; VI - as provas com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos alegados; VII - a opção do autor pela realização ou não de audiência de conciliação ou de mediação. § 1º Caso não disponha das informações previstas no inciso II, poderá o autor, na petição inicial, requerer ao juiz diligências necessárias a sua obtenção. § 2º A petição inicial não será indeferida se, a despeito da falta de informações a que se refere o inciso II, for possível a citação do réu. § 3º A petição inicial não será indeferida pelo não atendimento ao disposto no inciso II deste artigo se a obtenção de tais informações tornar impossível ou excessivamente oneroso o acesso à justiça. Art. 320. A petição inicial será instruída com os documentos indispensáveis à propositura da ação. A contestação é a resposta do advogado de um réu a uma petição inicial protocolada pelo autor do processo. É o instrumento onde a defesa apresenta os argumentos jurídicos e as provas que irá usar para contestar o pedido do autor. Está descrita no Capítulo VI do CPC (BRASIL, 2015), dos artigos 335 a 342. A seguir reproduzimos o art. 335: Art. 335. O réu poderá oferecer contestação, por petição, no prazo de 15 (quinze) dias, cujo termo inicial será a data: I - da audiência de conciliação ou de mediação, ou da última sessão de conciliação, quando qualquer parte não com- parecer ou, comparecendo, não houver autocomposição; II - do protocolo do pedido de cancelamento da audiência de conciliação ou de mediação apresentado pelo réu, quando ocorrer a hipótese do art. 334, § 4º, inciso I ; III - prevista no art. 231, de acordo com o modo como foi feita a citação, nos demais casos. INTERESSANTE https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art334%C2%A74i https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art231 81 § 1º No caso de litisconsórcio passivo, ocorrendo a hipótese do art. 334, § 6º , o termo inicial previsto no inciso II será, para cada um dos réus, a data de apresentação de seu respectivo pedido de cancelamento da audiência. § 2º Quando ocorrer a hipótese do art. 334, § 4º, inciso II , havendo litisconsórcio passivo e o autor desistir da ação em relação a réu ainda não citado, o prazo para resposta correrá da data de intimação da decisão que homologar a desistência. Da leitura da inicial, prossegue Ornelas (2017), deve restar com muita clareza quais os fatos alegados e constitutivos do direito reclamado pela parte proponente da ação e a pretensão, ou seja, o pedido submetido ao magistrado. Já quando da leitura da contestação ou impugnação, deve ser dada atenção ao conteúdo da petição no que se refere à existência ou não de fatos impeditivos, modificativos ou extintivos do direito do proponente da ação. É importante, ainda, que seja identificado a época dos fatos alegados e relatados pelas partes, já que necessário à perícia, o que vai permitir ao perito formular o pedido de quais livros e documentos devam ser exibidos. Crepaldi (2019) também faz uma abordagem nesse sentido, nos chamando a atenção para os documentos dos autos, pois estes servirão como base para obtenção das informações necessárias à elaboração do planejamento da perícia. Portanto, é imprescindível que o perito tome conhecimento do conteúdo da causa para que tenha ideia da extensão do trabalho exigido. O planejamento da perícia tem início antes da elaboração da proposta de honorários, considerando-se que, para apresentá-la ao juízo ou aos contratantes, há necessidade de se especificarem as etapas do trabalho a serem realizadas. Isso implica que o perito deve ter conhecimento prévio de todas elas, salvo aquelas que somente serão identificadas na execução da perícia. Dessa forma, o planejamento se caracteriza como serviços não remunerados. Portanto, ao elaborar os honorários e fixar o custo-hora, deve o perito atentar-se para o fato de qual parte do tempo de suas perícias (pagas) será destinada a atender ao planejamento inicial dos trabalhos. ATENÇÃO https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art334%C2%A76 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art334%C2%A74ii 82 O Quadro 1 a seguir demonstra um resumo das considerações pertinentes ao planejamento da perícia: Quadro 1 – Considerações no planejamento da perícia Objeto e prazo da perícia. O conhecimento detalhado dos fatos. As diligências a seremrealizadas. Os livros e documentos a serem consultados. A natureza, a oportunidade e a extensão dos procedimentos. A especialização da equipe de trabalho. Os quesitos. O tempo necessário para elaboração do trabalho. Fonte: Crepaldi (2019, p. 160) Corroborando as considerações apresentadas, Moura (2020) afirma que o planejamento deve considerar os seguintes fatores relevantes no desenvolvimento dos trabalhos periciais: • quesitos formulados; • conhecimento detalhado dos fatos relativos à demanda, ao litígio; • a natureza, oportunidade, abrangência, peculiaridades e a extensão dos procedimentos da perícia a serem aplicados; • as diligências a serem realizadas, inclusive em outras Comarcas, atentando para os documentos a serem consultados, livros contábeis, fiscais, societários, laudos e pareceres já realizados e informações que forem identificadas para que se possa determinar a natureza dos trabalhos a serem executados; e • o tempo necessário para elaboração do trabalho. A NBC PP 01 (R1) (BRASIL, 2020b) aborda o assunto afirmando em seu item 30 que, quando da elaboração do plano de trabalho, o perito deverá levar em consideração, entre outros fatores: • a relevância; • o vulto; • o risco; • a responsabilidade; • a complexidade operacional; • o pessoal técnico; • o prazo estabelecido; e • a forma de recebimento. 83 Papéis de trabalho se refere à documentação preparada pelo perito para a execução da perícia, sendo integrado por um processo organizado de registro de provas, por intermédio de termos de diligência, informações em papel, meios eletrônicos, plantas, desenhos, fotografias, correspondências, depoimentos, notificações, declarações, comunicações ou outros quaisquer meios de prova fornecidos e peças que assegurem o objetivo da execução pericial (CREPALDI, 2019). IMPORTANTE Vimos dois termos que parecem ser sinônimos: planejamento e plano de trabalho. Será que há diferença entre eles, caro acadêmico? Podemos dizer que, regra geral, o planejamento é um processo de tomada de decisões e o plano de trabalho (ou planificação) é a formalização das diferentes etapas ou momentos do planejamento. Resumidamente, dizemos que o plano de trabalho consiste em um documento – geralmente na forma escrita – que descreve o planejamento. De acordo com a NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a), o plano de trabalho é onde são evidenciadas as diretrizes e os procedimentos que serão adotados no trabalho pericial, revelando, assim, todas as etapas necessárias à execução da perícia, como: • diligências; • deslocamentos; • trabalho de terceiros; • pesquisas; • cálculos; • planilhas; • respostas aos quesitos; • reuniões com os assistentes técnicos; • prazo para apresentação do laudo pericial contábil ou oferecimento do parecer pericial contábil. Crepaldi (2019), nos resume da seguinte forma: planejamento da perícia é um procedimento prévio abrangente que se propõe a consolidar todas as etapas da Perícia, o programa de trabalho (ou plano de trabalho) é uma especificação de cada etapa a ser realizada que deve ser elaborada com base nos quesitos e/ou no objeto da perícia. 84 3.1.1 Desenvolvimento do planejamento Para Moura (2020), desenvolvimento é entendido como o processo de estudo e trabalho visando à obtenção de uma realização. À medida que a leitura dos autos pelo perito vai se desenvolvendo e ele vai transcrevendo os elementos mais importantes nos papéis de trabalho, as etapas da perícia devem ficar evidenciadas, bem como o tempo para que cada atividade seja cumprida (COSTA, 2017). A seguir apresentamos na Figura 5 um resumo das fases de um planejamento, que também podemos denominá-lo de cronograma: Figura 5 – Cronograma pericial Fonte: adaptada de Crepaldi (2019) Ao tratar do cronograma da perícia contábil, a NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a) apresenta os itens 14 e 15: 14. O perito nomeado deve considerar que o planejamento tem início antes da elaboração da proposta de honorários, para apresentá- la à autoridade competente ou ao contratante, há necessidade de se especificarem as etapas do trabalho a serem realizadas salvo as que possam surgir quando da execução do trabalho pericial. 15. O plano de trabalho deve evidenciar todas as etapas necessárias à execução da perícia, como: diligências, deslocamentos, trabalho de terceiros, pesquisas, cálculos, planilhas, respostas aos quesitos, reuniões com os assistentes técnicos, prazo para apresentação do laudo pericial contábil ou oferecimento do parecer pericial contábil. 85 O cronograma, portanto, é a representação da previsão da execução de um trabalho, onde nele são indicados os prazos em que serão executadas as suas diversas fases. No cronograma de trabalho devem ser evidenciados todos os itens necessários à execução da perícia (MOURA, 2020). O planejamento deve ser realizado pelo perito, ainda que o trabalho venha a ser realizado de forma conjunta com o assistente técnico, podendo este orientar-se com base no planejamento (MOURA, 2020). ATENÇÃO Moura (2020) diz que a conclusão do planejamento da perícia ocorrerá quando o perito completar as análises preliminares, dando origem, quando for o caso, à proposta de horários, aos Termo de Diligências que serão efetuadas e aos programas de trabalho. A seguir, apresentamos um modelo de planejamento para perícia judicial no Quadro 2: Quadro 2 – Modelo de planejamento para perícia judicial Fase pré-operacional ITEM ATIVIDADE AÇÕES TEMPO PRAZO ESTIMADO REAL ESTIMADO REAL 1 Carga ou recebimento do processo Após receber a intimação do juiz, quando for o caso, retirar o processo da Secretaria. h h XX/XX/XX XX/XX/XX 2 Leitura do processo Conhecer os detalhes acerca do objeto da perícia, realizando a leitura e o estudo dos autos. h h XX/XX/XX XX/XX/XX 3 Aceitação, ou não, da perícia Após estudo e análise dos autos, constatando- se que há impedimento ou suspeição, não havendo interesse do perito ou não estando habilitado para fazer a perícia, devolver o processo justificando o motivo da escusa. h h XX/XX/XX XX/XX/XX Aceitando o encargo da perícia, proceder ao planejamento. h h XX/XX/XX XX/XX/XX 86 4 Proposta de honorários Com base na relevância, no vulto, no risco e na complexidade dos serviços, entre outros, estimar as horas para cada fase do trabalho, considerando ainda a qualificação do pessoal que participará dos serviços, o prazo para a entrega dos trabalhos e a confecção de laudos interdisciplinares. h h XX/XX/XX XX/XX/XX Execução da perícia 5 Sumário Com base na documentação existente nos autos, elaborar o sumário dos autos, indicando o tipo do documento e a folha dos autos onde pode ser encontrado. h h XX/XX/XX XX/XX/XX 6 Assistentes técnicos Uma vez aceita a participação do assistente técnico, ajustar a forma de acesso dele aos trabalhos. 7 Diligências Com fundamento no conteúdo do processo e nos quesitos, preparar o(s) termo(s) de diligência(s) necessário(s), no qual será relacionada a documentação ausente nos autos. h h XX/XX/XX XX/XX/XX 8 Viagens Programar as viagens quando necessárias. h h XX/XX/XX XX/XX/XX 9 Pesquisa documental Com fundamento no conteúdo do processo, definir as pesquisas, os estudos e o catálogo da legislação pertinente. h h XX/XX/XX XX/XX/XX 87 10 Programa de trabalho Exame de documentos pertinentes à perícia. h h XX/XX/XX XX/XX/XX Exame de livros contábeis, fiscais, societários e outros. h h XX/XX/XX XX/XX/XX Análises contábeis a serem realizadas. h h XX/XX/XX XX/XX/XX Entrevistas, vistorias, indagações, investigações, informações necessárias. h h XX/XX/XX XX/XX/XX Laudos interdisciplinares e pareceres técnicos. h h XX/XX/XX XX/XX/XX Cálculos, arbitramentos, mensurações e avaliações a serem elaborados. h h XX/XX/XX XX/XX/XX Preparação e redação do laudo pericial. h h XX/XX/XX XX/XX/XX 11 Revisões técnicas Proceder à revisão final do laudo para verificar eventuaiscorreções, bem como verificar se todos os apêndices e anexos citados no laudo estão na ordem lógica e corretamente enumerados. h h XX/XX/XX XX/XX/XX 12 Prazo suple- mentar Diante da expectativa de não concluir o laudo no prazo determinado pelo juiz, requerer, antes do vencimento do prazo determinado, por petição, prazo suplementar, reprogramando o planejamento. h h XX/XX/XX XX/XX/XX 13 Entrega do laudo peri- cial contábil. Devolver os autos do processo e peticionar, requerendo a juntada do laudo e levantamento ou arbitramento dos honorários. h h XX/XX/XX XX/XX/XX Fonte: adaptado de NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a) 88 3.1.2 Honorários Crepaldi (2019) relata que uma das dificuldades da maioria dos peritos é calcular adequadamente seus honorários de forma justa e coerente. A prática é que possibilitará ao profissional a aproximação de tal cálculo à realidade, tendo em vista as várias atividades envolvidas numa perícia, como: • planejamento inicial dos trabalhos; • retirada e entrega dos autos; • leitura e interpretação do processo; • abertura de papéis de trabalho; • elaboração de petições e/ou correspondências para solicitar informações e documentos; • realização de diligências e exame de documentos; • pesquisa e exame de livros e de documentos técnicos; • realização de cálculos, simulações e análises de resultados; • laudos interprofissionais; • preparação de anexos e montagem do laudo; • reuniões com peritos-assistentes, quando for o caso; • reuniões com as partes e/ou com terceiros, quando for o caso; • redação do laudo; • revisão final. Na elaboração da proposta dos honorários, o perito contábil deverá considerar os seguintes fatores: a relevância, o vulto, o risco, a complexidade, a quantidade de horas, o pessoal técnico, o prazo estabelecido, a forma de recebimento e os laudos interprofissionais, entre outros fatores (NBC PP 01 (R1) (BRASIL, 2020b). Figura 6 – Honorários periciais Fonte: Crepaldi (2019, p. 168) 89 • A relevância corresponde à importância da perícia no contexto social e sua essencialidade para dirimir as dúvidas de caráter técnico-contábil, suscitadas em demanda judicial ou extrajudicial. O vulto é o valor da causa no que se refere ao objeto da perícia, à dimensão determinada pelo volume de trabalho e à abrangência pelas áreas de conhecimento técnico envolvidas. • O risco pode ser entendido como a possibilidade do não recebimento integral dos honorários periciais, o tempo necessário ao recebimento, bem como a antecipação das despesas necessárias à execução do trabalho. Igualmente, devem ser levadas em consideração as implicações cíveis, penais, profissionais e outras de caráter específico a que poderá estar sujeito o perito-contador. • A complexidade se refere à dificuldade técnica para a realização do trabalho pericial em decorrência do grau de especialização exigido, à dificuldade em obter os elementos necessários para a fundamentação do laudo pericial contábil e ao tempo transcorrido entre o fato a ser periciado e a realização da perícia judicial. Deve, ainda, ser considerado também o ineditismo da matéria periciada. • As horas estimadas para cada fase do trabalho corresponde ao tempo necessário para a realização da perícia judicial, mensurado em horas trabalhadas pelo perito do juízo, quando aplicável. • O pessoal técnico é formado pelos auxiliares que integram a equipe de trabalho do perito do juízo, estando sob sua orientação direta e inteira responsabilidade. • O prazo determinado nas perícias judiciais ou contratado nas extrajudiciais deve ser considerado nas propostas de honorários, considerando-se eventual exiguidade do tempo que requeira dedicação exclusiva do perito do juízo e da sua equipe para a consecução do trabalho. O prazo médio habitual de liquidação se refere ao tempo necessário para recebimento dos honorários. • A forma de reajuste deve considerar o parcelamento dos honorários, se houver. • Os laudos interprofissionais e outros inerentes ao trabalho são peças técnicas executadas por perito qualificado e habilitado na forma definida no Código de Processo Civil e de acordo com o Conselho Profissional ao qual estiver vinculado, no caso do contador, é o nosso Conselho Federal de Contabilidade. A NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a), nos traz o item 37 que trata dos riscos e custos da perícia contábil: O perito, na fase do planejamento, com vistas a elaborar a proposta de honorários, deve: (a) avaliar os riscos decorrentes das suas responsabilidades e todas as despesas e custos inerentes; (b) ressaltar que, na hipótese de apresentação de quesitos suplementares, poderá estabelecer honorários complementares. A NBC PP 01 (R1) (BRASIL, 2020b) nos apresenta também no item 34, quando trata da elaboração da proposta, o devemos levar em consideração quando da elaboração da proposta de horários: 90 O perito deve elaborar a proposta de honorários estimando, quando possível, o número de horas para a realização do trabalho, por etapa e por qualificação dos profissionais, considerando os trabalhos a seguir especificados: (a) retirada e entrega do processo ou procedimento arbitral; (b) leitura e interpretação do processo; (c) elaboração de termos de diligências para arrecadação de provas e comunicações às partes, terceiros e peritos-assistentes; (d) realização de diligências; (e) pesquisa documental e exame de livros contábeis, fiscais e so- cietários; (f) elaboração de planilhas de cálculo, quadros, gráficos, simulações e análises de resultados; (g) elaboração do laudo; (h) reuniões com peritos-assistentes, quando for o caso; (i) revisão final; (j) despesas com viagens, hospedagens, transporte, alimentação etc.; (k) outros trabalhos com despesas supervenientes. O perito deve ressaltar, em sua proposta de honorários, que nela não estão contemplados os honorários relativos a quesitos suplementares e, se estes forem formulados pelo juiz e/ou pelas partes, poderá haver incidência de honorários complementares a serem requeridos, observando os mesmos critérios adotados para elaboração da proposta feita no início dos trabalhos. IMPORTANTE Agora, caro acadêmico, vamos trazer um exemplo dessa fase do planejamento. Suponha que, na fase de planejamento, o contador estimou 134 horas, conforme a Tabela 1 a seguir: Tabela 1 – Estimativa de horas – perícia contábil Atividades Horas estimadas Análise dos autos do processo 12 Elaboração das comunicações às partes e demais atos processuais 10 Exames, diligências e outros procedimentos não especificados 80 Reunião com outros peritos 12 Elaboração do laudo pericial contábil 20 Total estimado 134 Fonte: o autor 91 Com o total de horas estimadas, o contador deverá estabelecer o valor da sua hora de trabalho e, com isso, calcular o valor dos seus honorários periciais. E como é feita esta estimativa? É o que vamos apresentar a seguir. Suponhamos que o custo mensal do contador é composto pelos itens: • custos pessoais de manutenção (alimentação, vestuário, moradia, lazer, saúde, educação, dependentes): R$ 10.000,00; • custos dos materiais de trabalho, também denominados material de expediente e de escritório (assinatura de periódicos, gastos com treinamento, internet, material de expediente, deslocamento, informática): R$ 3.333,34; • custo mensal do contador: R$ 13.333,34. Agora que já temos o custo mensal, temos que identificar a quantidade de horas trabalhadas mensalmente pelo profissional. Considerando uma jornada de trabalho de 8 horas por dia útil, ou seja, de segunda a sexta-feira, e uma média de 20 dias úteis por mês, o total de horas trabalhadas mensalmente será: 20 dias úteis × 8 horas = 160 horas/mês. Neste momento, acadêmico, já temos condições de calcular o valor da hora. Basta pegar o valor do custo mensal e dividir pelo número de horas trabalhadas no mês: R$ 13.333,34 dividido por 160 horas/mês = R$ 83,33. Assim, o valor do custo/hora é de R$ 83,33. Crepaldi (2019) nosalerta que ao identificarmos o custo/hora não significa que o perito deva cobrar esse valor. É recomendado, na fixação de preço por hora de atividade, que levemos para os custos os seguintes acréscimos: • Férias anuais: 12% sobre o valor/hora. • Margem de risco para atividade (horas ociosas e excesso de horas aplicadas sobre a estimativa): 20% sobre o valor/hora. IMPORTANTE Dessa forma, o preço/hora do perito, no nosso exemplo, ficaria assim: • Acréscimo das férias: R$ 83,33 X 12% = R$ 10,00; • Acréscimo da margem de risco: R$ 83,33 X 20% = R$ 16,67; • Total do valor da hora: R$ 83,33 + R$ 10,00 + R$ 16,67 = R$ 110,00. Portanto, os honorários se estabeleceriam da seguinte forma: 92 • Total de horas estimadas a serem aplicadas: 134 horas; preço/hora: R$ 110,00; • Total dos honorários: 134 horas × R$ 110,00 = R$ 14.740,00. Agora que já sabemos o valor da hora, bem como o valor dos honorários, estamos aptos a apresentar a proposta dos honorários ao juiz ou contratante, devendo esta proposta ser materializada através de um orçamento, o qual apresentamos na Tabela 2: Tabela 2 – Orçamento de honorários periciais Honorários periciais Custo da perícia Horas Total 1. Especificação do trabalho Previstas R$/Hora R$ Retirada e entrega dos autos 2 110,00 220,00 Leitura e interpretação do processo 4 110,00 440,00 Planejamento dos trabalhos periciais 4 110,00 440,00 Abertura de papéis de trabalho 4 110,00 440,00 Elaboração de petições e/ou de correspondências para solicitar informações e documentos 4 110,00 440,00 Realização de diligências e exame de documentos 32 110,00 3.520,00 Pesquisa e exame de livros e documentos técnicos 48 110,00 5.280,00 Realização de cálculos, simulações e análises de resultados 8 110,00 880,00 Laudos interprofissionais 0 110,00 - Preparação de anexos e montagem do laudo 6 110,00 660,00 Reuniões com peritos-assistentes, se houver 6 110,00 660,00 Reuniões com as partes e/ou com terceiros, se houver 0 110,00 - Redação do laudo 8 110,00 880,00 Revisão final 8 110,00 880,00 TOTAL 1 134 14.740,00 2. Outras despesas Passagens 800,00 Alimentação e hospedagem 1.800,00 TOTAL 2 2.600,00 TOTAL DOS HONORÁRIOS (1 + 2) 17.340,00 Fonte: adaptada de Crepaldi (2019) 93 Acadêmico, observe que, se na execução dos trabalhos de perícia envolver viagens, deveremos incluir no orçamento o custo de tais deslocamentos, incluindo também os gastos relativos à alimentação, hospedagem, passagens e outros custos relacionados. Devemos nos atentar, ainda, pois, caso haja a necessidade de desembolso para despesas supervenientes, tais como viagens e estadias para a realização de outras diligências, o perito requererá ao juízo o pagamento das despesas, apresentando o respectivo orçamento, desde que não estejam contempladas na proposta inicial de honorários (CREPALDI, 2019). 3.1.3 Levantamento dos honorários O levantamento de honorários é o pagamento dos honorários do perito do juízo. Após o aceite da proposta de honorários pelo juiz, este determina que a parte deposite o valor correspondente em juízo. Veja que o valor dos serviços do perito já será depositado numa conta judicial, com vistas a garantir o pagamento do trabalho pericial realizado. Então, concomitantemente à entrega do laudo pericial contábil, o perito do juízo deve solicitar o pagamento dos honorários. Assim, o perito poderá receber o pagamento pelos seus honorários antes mesmo do término da ação, que pode prolongar-se por vários anos (CREPALDI, 2019). Quando a perícia judicial exigir gastos com locomoção a outras localidades para sua realização, ou depender de contratação de auxiliares, o perito judicial poderá peticionar ao magistrado, requerendo o levantamento parcial dos honorários previamente depositados para custear a perícia, devendo elaborar uma petição nesse sentido, justificando sua solicitação. Vejamos agora o que nos diz o CPC no seu Artigo 465 (BRASIL, 2002): Art. 465. O juiz nomeará perito especializado no objeto da perícia e fixará de imediato o prazo para a entrega do laudo. [...] § 4º O juiz poderá autorizar o pagamento de até cinquenta por cento dos honorários arbitrados a favor do perito no início dos trabalhos, devendo o remanescente ser pago apenas ao final, depois de entregue o laudo e prestados todos os esclarecimentos necessários. § 5º Quando a perícia for inconclusiva ou deficiente, o juiz poderá reduzir a remuneração inicialmente arbitrada para o trabalho. O adiantamento de honorários poderá ser feito até o limite de 50% do valor total. Os honorários da perícia podem, ainda, ser reduzidos caso o laudo seja inconclusivo ou deficiente. 94 A seguir, apresentamos um modelo de petição de horários periciais adaptado da NBC PP 01 (R1): MODELO DE PETIÇÃO DE HONORÁRIOS PERICIAIS CONTÁBEIS EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 3ª VARA CÍVEL DA COMARCA DE JUAZEIRO DO NORTE (CE) Ref.: Processo n.º: 0011659-21.2020.8.06.0112 Ação: xxxx Autor/Requerente: XXX Autor de tal Réu/Requerido: XXX Réu de tal Perito: CONTADOR Fulano de Tal FULANO DE TAL, perito, habilitado nos termos do Art. 156 do Novo Código de Processo Civil, conforme certidão do Conselho Regional de Contabilidade do Estado do Ceará, cópia anexa, estabelecido na rua Movimentada, bairro Tranquilo, tendo sido nomeado nos autos do processo mencionado, vem à presença de Vossa Excelência apresentar proposta de honorários para a execução dos trabalhos periciais na forma que segue: Para a elaboração desta proposta, foram considerados: a relevância, o vulto, o risco e a complexidade dos serviços a executar; as horas estimadas para a realização de cada fase do trabalho; a qualificação do pessoal técnico que irá participar da execução dos serviços; e o prazo. Honorários periciais Custo da perícia Horas Total 1. Especificação do trabalho Previstas R$/Hora R$ Retirada e entrega dos autos 2 110,00 220,00 Leitura e interpretação do processo 4 110,00 440,00 Planejamento dos trabalhos periciais 4 110,00 440,00 Abertura de papéis de trabalho 4 110,00 440,00 Elaboração de petições e/ou de correspondências para solicitar informações e documentos 4 110,00 440,00 Realização de diligências e exame de documentos 32 110,00 3.520,00 Pesquisa e exame de livros e documentos técnicos 48 110,00 5.280,00 95 Realização de cálculos, simulações e análises de resultados 8 110,00 880,00 Laudos interprofissionais 0 110,00 - Preparação de anexos e montagem do laudo 6 110,00 660,00 Reuniões com peritos-assistentes, se houver 6 110,00 660,00 Reuniões com as partes e/ou com terceiros, se houver 0 110,00 - Redação do laudo 8 110,00 880,00 Revisão final 8 110,00 880,00 TOTAL 1 134 14.740,00 2. Outras despesas Passagens 800,00 Alimentação e hospedagem 1.800,00 TOTAL 2 2.600,00 TOTAL DOS HONORÁRIOS (1 + 2) 17.340,00 As horas profissionais estimadas nas várias fases do trabalho pericial, como demonstrado acima, que redundaram na presente proposta de honorários periciais, levaram em consideração as recomendações da Associação de Peritos Judiciais do Ceará, totalizando R$ 17.340,00 (dezessete mil trezentos e quarenta reais). O valor desta proposta de honorários não remunera o perito para responder a Quesitos Suplementares, Art. 469 do Novo Código de Processo Civil, fato que, ocorrendo, garante ao profissional oferecer nova proposta de honorários na forma deste documento. Por último, requer de Vossa Excelência aprovação da presente proposta de honorários, e na forma dos artigos 82 e 95 do Novo Código de Processo Civil, determinação dodepósito prévio, para início da prova pericial. Termos em que pede deferimento, Juazeiro do Norte (CE), 27 de janeiro de 2023. FULANO DE TAL Contador CRC-CE 270123 Fonte: adaptado de CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020b. NBC PP 01 (R1) – Perito Contábil. Disponível em: http://twixar.me/9dxm. Acesso em: 6 jan. 2023. 96 O perito do juízo deve, em sua proposta de honorários, ressaltar que esta não contempla os honorários relativos a quesitos suplementares. Se estes forem formulados pelo juiz e/ou pelas partes, poderá haver incidência de honorários suplementares a serem requeridos, observando os mesmos critérios adotados para elaboração da proposta anterior. O oferecimento de respostas aos quesitos de esclarecimentos formulados pelo juiz e/ou pelas partes não ensejará novos honorários periciais, uma vez que se referem à obtenção de detalhes do trabalho realizado e não de novo trabalho. ATENÇÃO E como funciona a proposta do perito contrato pelas partes? Bem, caro discente, o perito-assistente explicitará a sua proposta no contrato que, obrigatoriamente, celebrará com o seu cliente, observando as normas estabelecidas pelo Conselho Federal de Contabilidade. Deverá estabelecer, mediante Contrato Particular de Prestação de Serviços Profissionais de Perícia Contábil, o objeto, as obrigações das partes e os honorários profissionais, podendo, para tanto, utilizar- se dos parâmetros estabelecidos na NBC PP 01 – Perito Contábil, com relação aos honorários do perito do juízo (CREPALDI, 2019). E com relação ao pagamento, como funciona? Boa pergunta! Iremos ver no subtema seguinte, no entanto, já lhe adianto acadêmico: cada parte pagará a remuneração do perito-assistente técnico que houver indicado; a do perito será paga pela parte que houver requerido o exame, ou pelo autor, quando requerido por ambas as partes ou determinado por ofício pelo juiz (CREPALDI, 2019). 3.1.4 Responsabilidade de pagamento dos honorários periciais As despesas de perícia judicial integram os custos processuais, cabendo às partes prover tais despesas, antecipando-lhe o valor, que ficará consignado em juízo. Portanto, de acordo com Crepaldi (2019), cada parte adiantará a remuneração do perito-assistente técnico que houver indicado, sendo a do perito do juízo adiantada pela parte que houver requerido a perícia ou rateada quando a perícia for determinada de ofício ou requerida por ambas as partes. 97 De acordo com a Súmula 341 do Tribunal Superior do Trabalho (TST, 2003, s.p.), a indicação do perito-assistente é faculdade da parte, a qual deve responder pelos respectivos honorários, ainda que vencedora no objeto da perícia: Súmula nº 341 do TST HONORÁRIOS DO ASSISTENTE TÉCNICO A indicação do perito assistente é faculdade da parte, a qual deve responder pelos respectivos honorários, ainda que vencedora no objeto da perícia. O juiz poderá determinar que a parte responsável pelo pagamento dos honorários do perito do juízo deposite em juízo o valor correspondente. Quando o pagamento da perícia for de responsabilidade de beneficiário de gratuidade da Justiça, ela poderá ser, conforme o Art. 95, § 3º, do CPC (BRASIL, 2015): Art. 95. Cada parte adiantará a remuneração do assistente técnico que houver indicado, sendo a do perito adiantada pela parte que houver requerido a perícia ou rateada quando a perícia for determinada de ofício ou requerida por ambas as partes. § 1º O juiz poderá determinar que a parte responsável pelo pagamento dos honorários do perito deposite em juízo o valor correspondente. § 2º A quantia recolhida em depósito bancário à ordem do juízo será corrigida monetariamente e paga de acordo com o art. 465, § 4º. § 3º Quando o pagamento da perícia for de responsabilidade de beneficiário de gratuidade da justiça, ela poderá ser: I - custeada com recursos alocados no orçamento do ente público e realizada por servidor do Poder Judiciário ou por órgão público conveniado; II - paga com recursos alocados no orçamento da União, do Estado ou do Distrito Federal, no caso de ser realizada por particular, hipótese em que o valor será fixado conforme tabela do tribunal respectivo ou, em caso de sua omissão, do Conselho Nacional de Justiça. Quando o pagamento for de responsabilidade de beneficiário de gratuidade da justiça, ela será custeada com recursos alocados no orçamento do Poder Judiciário local para esse fim. No âmbito nacional, o Conselho Nacional de Justiça editou a Resolução 232/2016 (BRASIL, 2016) e alterações posteriores que traz os valores a seguir: RESOLUÇÃO Nº 232, DE 13 DE JULHO DE 2016 Fixa os valores dos honorários a serem pagos aos peritos, no âmbito da Justiça de primeiro e segundo graus, nos termos do disposto no art. 95, § 3º, II, do Código de Processo Civil – Lei 13.105/2015. Art. 1º Os valores a serem pagos pelos serviços de perícia de responsabilidade de beneficiário da gratuidade da justiça são os fixados na Tabela constante do Anexo desta Resolução, na hipótese do art. 95, § 3º, II, do Código de Processo Civil. Art. 2º O magistrado, em decisão fundamentada, arbitrará os honorários do profissional ou do órgão nomeado para prestar os serviços nos termos desta Resolução, observando-se, em cada caso: I - a complexidade da matéria; II - o grau de zelo e de especialização do profissional ou do órgão; III - o lugar e o tempo exigidos para a prestação do serviço; IV - as peculiaridades regionais. 98 § 1º O pagamento dos valores de que trata este artigo e do referente à perícia de responsabilidade de beneficiário da gratuidade da justiça será efetuado com recursos alocados no orçamento da União, do Estado ou do Distrito Federal. [...] TABELA HONORÁRIOS PERICIAIS ESPECIALIDADES NATUREZA DA AÇÃO E/ OU ESPÉCIE DE PERÍCIA A SER REALIZADA VALOR MÁXIMO 1.CIÊNCIAS ECONÔMICAS/ CONTÁBEIS 1.1 – Laudo produzido em demanda proposta por servidor(es) contra União/ Estado/Município R$ 300,00 1.2 – Laudo em ação revisional envolvendo negócios jurídicos bancários até 4 (quatro) contratos R$ 370,00 1.3 – Laudo em ação revisional envolvendo negócios jurídicos bancários acima de 4 (quatro) contratos R$ 630,00 1.4 – Laudo em ação de dissolução e liquidação de sociedades civis e mercantis R$ 830,00 1.5 – Outras R$ 370,00 2.ENGENHARIA/ ARQUITETURA 2.1 – Laudo de avaliação de imóvel urbano, conforme normas ABNT respectivas R$ 430,00 2.2 – Laudo de avaliação de imóvel rural, conforme normas ABNT respectivas R$ 530,00 2.3 – Laudo pericial das condições estruturais de segurança e solidez de imóvel, conforme normas ABNT respectivas R$ 370,00 2.4 – Laudo de avaliação de bens fungíveis/imóvel rural/urbano, conforme normas ABNT respectivas R$ 700,00 2.5 – Laudo pericial em Ação Demarcatória R$ 870,00 2.6 – Laudo de insalubridade e/ou periculosidade, conforme normas técnicas respectivas R$ 370,00 2.7 – Outras R$ 370,00 99 3.MEDICINA/ ODONTOLOGIA 3.1 – Laudo em interdição/ DNA R$ 370,00 3.2 – Laudo sobre danos físicos e estéticos R$ 370,00 3.3 – Outras R$ 370,00 4. PSICOLOGIA R$ 300,00 5. SERVIÇO SOCIAL 5.1 – Estudo social R$ 300,00 6. OUTRAS 6.1 – Laudo de avaliação comercial de bens imóveis R$ 170,00 6.2 – Laudo de avaliação comercial de bens imóveis por corretor R$ 330,00 6.3 – Outras R$ 300,00 Se a perícia for determinada de ofício pelo juiz ou requerida por ambas as partes, o valor a ser adiantado deverá ser rateado entre elas. Em qualquer caso, ao final do processo, o vencido responderá integralmente pelo pagamento da perícia, ressarcindo, se for o caso, a parte vencedora que tiver adiantado a despesa. A regra é a de que apenas após o pagamento integral dos honorários o laudo pericial será confeccionado. IMPORTANTE A percepção de honorários periciais prescreve em um ano, conforme o § 1º do Art. 206 do Código Civil, Art. 206, § 1º (BRASIL, 2002): Art. 206. Prescreve: § 1o Em um ano: I - a pretensão dos hospedeiros ou fornecedores de víveres destinadosa consumo no próprio estabelecimento, para o pagamento da hospedagem ou dos alimentos; II - a pretensão do segurado contra o segurador, ou a deste contra aquele, contado o prazo: a) para o segurado, no caso de seguro de responsabilidade civil, da data em que é citado para responder à ação de indenização proposta pelo terceiro prejudicado, ou da data que a este indeniza, com a anuência do segurador; b) quanto aos demais seguros, da ciência do fato gerador da pretensão; III - a pretensão dos tabeliães, auxiliares da justiça, serventuários judiciais, árbitros e peritos, pela percepção de emolumentos, custas e honorários; 100 IV - a pretensão contra os peritos, pela avaliação dos bens que entraram para a formação do capital de sociedade anônima, contado da publicação da ata da assembleia que aprovar o laudo; V - a pretensão dos credores não pagos contra os sócios ou acionistas e os liquidantes, contado o prazo da publicação da ata de encerramento da liquidação da sociedade. Sob hipótese nenhuma o perito nomeado pelo juiz deve aceitar receber os honorários periciais diretamente da parte, mas sempre através de depósito judicial comprovado nos autos. O recebimento dos honorários direto da parte pode abalar a credibilidade do perito do juízo. Obviamente, essa situação não se aplica ao perito-assistente, pois este normalmente recebe os seus honorários diretamente da parte que o indicou. ATENÇÃO Apresentamos a seguir mais algumas informações, em resumo, pertinentes aos honorários periciais, extraídos de Crepaldi (2019): • Honorários pagos no final do processo: ocorrem situações em que o perito nomeado pelo juiz é solicitado a realizar a perícia as suas próprias custas e receber os honorários no final – ou seja, quando o processo for concluído. Essa prática é adotada pela Justiça do Trabalho, na qual não existe a possibilidade de requerer honorários prévios a não ser em situações especiais. • Parcelamento de honorários periciais: na situação em que a parte que deve arcar com o ônus da perícia judicial não tiver condições de efetuar o depósito prévio integralmente, o juiz pode conceder, ouvido o perito do juízo, o parcelamento dos honorários. Tal parcelamento é comumente feito em duas ou três parcelas, sendo a primeira como honorários prévios, a segunda na entrega do laudo pericial contábil e a terceira após trinta dias da entrega do laudo. • Honorários periciais provisórios: no caso de o perito do juízo constatar que o trabalho é complexo e for difícil a estimativa dos honorários anteriormente, pode pedir honorários prévios provisórios e, ao concluir seus trabalhos, peticionar ao juiz o arbitramento dos honorários definitivos, requerendo, na oportunidade, a intimação das partes para efetivação do depósito complementar. • Tributação dos honorários do perito: os honorários recebidos são tributáveis pelo Imposto de Renda, devendo ser retido o IRRF respectivo, por ocasião do depósito judicial. O perito, pessoa física, poderá deduzir, em livro Caixa, as despesas pertinentes à perícia realizada (por exemplo, as despesas de viagem), desde que comprovadas por documentação hábil e idônea. • Execução de honorários periciais: os honorários periciais fixados ou arbitrados e não quitados podem ser executados, judicialmente, pelo perito em conformidade com os dispositivos do Código de Processo Civil. 101 3.2 DILIGÊNCIAS Acadêmico, podemos entender o termo diligência, em sentido amplo, como sendo as providências tomadas pelo perito, com vistas a dar-lhe condições para a confecção do laudo pericial contábil. Na abordagem stricto sensu, pode-se entender o termo diligências como uma das fases do trabalho pericial, no caso, o trabalho de campo (ORNELAS, 2017). Vejamos o que nos diz o Artigo 370 do CPC (BRASIL, 2015): Art. 370. Caberá ao juiz, de ofício ou a requerimento da parte, determinar as provas necessárias ao julgamento do mérito. Parágrafo único. O juiz indeferirá, em decisão fundamentada, as diligências inúteis ou meramente protelatórias. O trabalho de campo envolverá algumas etapas nas quais o perito tem como objetivo central a identificação dos elementos que permitirão trazer solução para as questões contábeis objeto da análise técnica pericial. O primeiro momento do trabalho de campo situa-se na formalização da própria diligência que está sendo realizada, que se materializa e documenta por meio da elaboração de termo de diligência, para aceitação e assinatura do representado legal da parte diligenciada (ORNELAS, 2017). De acordo com a NBC TP 01 (R1), termo de diligência “é o instrumento por meio do qual o perito solicita documentos, coisas, dados e informações necessárias à elaboração do laudo pericial contábil e do parecer técnico-contábil”. Por meio do termo de diligência, o perito deve solicitar por escrito todos os documentos e informações relacionadas ao objeto da perícia, fixando o prazo para entrega. Serve também para determinar o local, a data e a hora do início da perícia e, ainda, para a execução de outros trabalhos que tenham sido a ele determinados ou solicitados por quem de direito, desde que tenham a finalidade de orientar ou colaborar nas decisões judiciais ou extrajudiciais em consonância com a NBC TP 01. O termo de diligência deverá ser redigido pelo perito juízo, ser apresentado diretamente ao perito-assistente, à parte, a seu procurador ou terceiro, por escrito e juntado ao laudo. O perito deve observar os prazos a que está obrigado por força de determinação legal e, dessa forma, definir o prazo para o cumprimento da solicitação pelo diligenciado. A eventual negativa ou recusa no atendimento a diligências solicitadas ou qualquer dificuldade na execução do trabalho pericial deve ser comunicada, com a devida comprovação ou justificativa, ao juízo, tratando-se de perícia judicial; ou a parte contratante, no caso de perícia extrajudicial, solicitando as providências cabíveis. De acordo com a NBC TP 01 (R1), o termo de diligência deve conter os seguintes itens: 102 • identificação do diligenciado; • identificação das partes ou dos interessados e, em se tratando de perícia judicial ou arbitral, o número do processo ou procedimento, o tipo e o juízo em que tramita; • identificação do perito com indicação do número do registro profissional no Conselho Regional de Contabilidade; • indicação de que está sendo elaborado nos termos desta Norma; • indicação detalhada dos documentos, coisas, dados e informações, consignando as datas e/ou períodos abrangidos, podendo identificar o quesito a que se refere; • indicação do prazo e do local para a exibição dos documentos, coisas, dados e informações necessários à elaboração do laudo pericial contábil ou parecer técnico- contábil, devendo o prazo ser compatível com aquele concedido pelo juízo, contratante ou convencionado pelas partes, considerada a quantidade de documentos, as informações necessárias, a estrutura organizacional do diligenciado e o local de guarda dos documentos; • a indicação da data e hora para sua efetivação, após atendidos os requisitos da alínea (e), quando o exame dos livros, documentos, coisas e elementos tiver de ser realizado perante a parte ou ao terceiro que detém em seu poder tais provas; • local, data e assinatura. A seguir, alguns modelos de termos de diligência: Termo de diligência na perícia judicial TERMO DE DILIGÊNCIA N.º.../PROCESSO N.º... IDENTIFICAÇÃO DO DILIGENCIADO SECRETARIA: PARTES: PERITO DO JUÍZO: (categoria e n.º do registro) PERITO-ASSISTENTE: (categoria e n.º do registro) Na condição de perito do juízo, nomeado pelo Juízo em referência e/ou perito-assistente indicado pelas partes, nos termos do §3º do Art. 473 do Novo Código do Processo Civil e das Normas Brasileiras de Contabilidade, solicita-se que sejam fornecidos ou postos à disposição, para análise, os documentos a seguir indicados: 1. 2. 3. 4. etc. Para que se possa cumprir o prazo estabelecido para elaboração e entrega do laudo pericialcontábil ou parecer técnico-contábil, é necessário que os documentos solicitados sejam fornecidos ou postos à disposição deste perito até o dia __-__- __, às __h, no endereço ........ (do perito do juízo e/ou perito-assistente, e/ou parte). Solicita-se que seja comunicado quando os documentos tiverem sido remetidos ou estiverem à disposição para análise. 103 Em caso de dúvida, solicita-se esclarecê-la diretamente com o signatário no endereço e telefones indicados. Local e data Assinatura Nome do perito Contador – N.º de registro no CRC Termo de diligência na perícia extrajudicial TERMO DE DILIGÊNCIA N.º .../PROCESSO N.º ... ENDEREÇAMENTO DO DILIGENCIADO EXTRAJUDICIAL PARTE CONTRATANTE: PERITO DO JUÍZO: (categoria e n.º do registro) PERITO-ASSISTENTE: (categoria e n.º do registro) Na condição de perito do juízo e/ou perito-assistente, escolhido pelas partes, em consonância com as Normas Brasileiras de Contabilidade, nos termos contratuais, solicita-se que sejam fornecidos ou postos à disposição, para análise, os documentos a seguir indicados: 1. 2. 3. 4. etc. Para que se possa cumprir o prazo estabelecido para a elaboração e entrega do laudo pericial contábil ou parecer técnico-contábil, é necessário que os documentos solicitados sejam fornecidos ou postos à disposição deste perito até o dia __/__/__, às __h, no endereço ........ (do perito do Juízo e/ou perito-assistente, e/ou parte). Solicita-se que seja comunicado quando os documentos tiverem sido remetidos ou estiverem à disposição para análise. Em caso de dúvida, solicita-se esclarecê-la diretamente com o signatário no endereço e telefones indicados. Local e data Assinatura Nome do perito Contador – N.º de registro no CRC 104 Termo de diligência na perícia arbitral TERMO DE DILIGÊNCIA N.º .../PROCESSO N.º ... ENDEREÇAMENTO DO DILIGENCIADO ARBITRAL CÂMARA ARBITRAL: ÁRBITRO: JUIZ ARBITRAL: PARTES: PERITO: (categoria e n.º do registro) Na condição de perito do juízo, escolhido pelo árbitro, e/ou perito-assistente, indicado pelas partes, nos termos da Lei n.º 9.307/96 ou do regulamento da Câmara de Mediação e Arbitragem, ......, e ainda em consonância com as Normas Brasileiras de Contabilidade, solicita-se que sejam fornecidos ou postos à disposição, para análise, os documentos a seguir indicados: 1. 2. 3. etc. Para que se possa cumprir o prazo estabelecido para a elaboração e entrega do laudo pericial contábil ou parecer técnico-contábil, é necessário que os documentos solicitados sejam fornecidos ou postos à disposição deste perito até o dia __/__/__, às __h, no endereço ........ (do perito do Juízo e/ou perito-assistente, e/ou parte). Solicita-se que seja comunicado quando os documentos tiverem sido remetidos ou estiverem à disposição para análise. Em caso de dúvida, solicita-se esclarecê-la diretamente com o signatário nos endereços e telefones indicados. Local e data Assinatura Nome do perito Contador – N.º de registro no CRC Fonte: adaptado de http://twixar.me/Yhxm. Acesso em: 29 mar. 2023. 105 Neste tópico, você aprendeu: • O planejamento na perícia contábil é de extrema importância, pois um planejamento bem elaborado tem vários fatores positivos, como: elaborar um cronograma de execução a fim de se cumprirem os trabalhos no prazo previsto, avaliar com precisão os custos da perícia, verificar a necessidade de equipe técnica. • O planejamento dos trabalhos é anterior às demais etapas do trabalho pericial contábil, isso implica que o perito deverá ter conhecimento prévio de todas as etapas do processo pericial. • Uma das etapas do processo de planejamento é o cálculo correto dos honorários, que deverá considerar os seguintes fatores: a relevância, o vulto, o risco, a complexidade, a quantidade de horas, o pessoal técnico, o prazo estabelecido, a forma de recebimento e os laudos interprofissionais, entre outros fatores. • As diligências integram uma das fases do trabalho pericial, no caso, o trabalho de campo, por meio do qual o perito solicita documentos, coisas, dados e informações necessárias à elaboração do laudo pericial contábil e do parecer técnico-contábil. RESUMO DO TÓPICO 1 106 1 De acordo com NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a) – Perícia Contábil, o planejamento deve ser elaborado com base nos quesitos e/ou no objeto da perícia. Com relação aos objetivos do planejamento da perícia, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: Fonte: CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020a. NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil. Disponível em: http://twixar.me/ydxm. Acesso em: 6 jan. 2023. ( ) Conhecer o objeto da perícia, a fim de permitir a adoção de procedimentos que conduzam à revelação da verdade, a qual subsidiará o juízo, o árbitro ou o interessado a tomar a decisão a respeito da lide. ( ) Definir a natureza, a oportunidade e a extensão dos exames a serem realizados, em consonância com o objeto da perícia, os termos constantes da nomeação, dos quesitos ou da proposta de honorários oferecida pelo Perito. ( ) Estabelecer condições para que o trabalho seja cumprido no prazo estabelecido. ( ) Identificar a legislação aplicável ao objeto da perícia. ( ) Identificar fatos que possam vir a ser importantes para a solução da demanda de forma que não passem despercebidos ou não recebam a atenção necessária. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) F – F – F – F – V. b) ( ) F – V – V – F – F. c) ( ) V – F – F – F – F. d) ( ) V – V – V – V – V. e) ( ) F – F – F – F – F. 2 Durante o processo de planejamento do trabalho pericial, o perito deverá elaborar o plano de trabalho e, como consequência, o valor dos serviços periciais que serão cobrados, através dos seus honorários. Diante disso, analise as sentenças a seguir: I- Na fase do planejamento do trabalho pericial serão estabelecidas as diretrizes, bem como as metodologias que serão utilizadas. II- Na elaboração do plano de trabalho, bem como da proposta de honorários, o perito- contador deverá levar em conta fatores relevantes, o risco, a complexidade do trabalho, os prazos estabelecidos, e, ainda, a responsabilidade. III- Entre os objetivos do planejamento da perícia contábil, identificamos o desenvolvimento do plano de trabalho, já que nesta peça é que serão especificados os procedimentos e as diretrizes do trabalho pericial. AUTOATIVIDADE 107 Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente as sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença III está correta. c) ( ) As sentenças II e III estão incorretas. d) ( ) As sentenças I, II e III estão corretas. 3 A Associação Brasileira de Engenharia de Produção (ABEPRO) é uma entidade representativa de docentes, discentes e profissionais que atuam nas grandes áreas de conhecimento da Engenharia de Produção. De acordo com os princípios e as normativas elencadas no estatuto da ABEPRO, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A entidade tem como objetivo a inserção da Engenharia de Produção na comunidade científica e produtiva no sentido de promover o desenvolvimento social. ( ) A ABEPRO Jovem é responsável pela congregação de todos os profissionais inativos de Engenharia de Produção e busca articular com empresas e instituições de ensino. ( ) A ABEPRO tem como missão assegurar à sociedade a busca permanente de uma prática correta e responsável dos profissionais de Engenharia de Produção. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 Considere as seguintes informações relativas à uma perícia contábil, cujo perito do juízo é você: Análise dos autos: 5 horas. Elaboração das petições e comunicações das partes: 3 horas. Diligência, exames de documentos técnicos e diligências: 35 horas. Reunião com outros peritos: 6 horas. Elaboração da lauda: 8 horas. Revisão: 3 horas. Custos mensais: R$ 4.500 de custos relativos aos custos pessoais (alimentação, transporte,saúde, educação, moradia etc.). R$ 1.500 relativos aos custos relativos aos materiais de trabalho (treinamento, internet, deslocamento etc.). Carga horária: 8 horas por dia útil de segunda a sexta-feira. Média de dias úteis mensal: 20 108 Considere, ainda: 12% para férias. 20% para a margem de risco da atividade. Com base nesses dados, calcule o valor dos seus honorários e elabore sua proposta de honorários ao magistrado. 5 Um perito contador precisa calcular os juros moratórios sobre uma verba em liqui- dação de sentença no valor de R$ 96.000,00. O juiz determinou a incidência de juros simples de 0,5% ao mês, no período de 1/2/2022 a 30/9/2022. Nessa hipótese, considerando-se o mês comercial de 30 dias, calcule o total de juros. 109 QUESITOS UNIDADE 2 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, no Tema de Aprendizagem 2, trataremos dos Quesitos. Podemos definir quesito como ponto ou questão sobre a qual se pede a opinião ou o juízo de alguém; pergunta a ser respondida; requisito; pergunta formulada, por itens, pelas partes, Ministério Público ou juiz, a perito ou assistente, para a instrução da causa em questões técnicas; cada uma das perguntas que o juiz-presidente do tribunal do júri entrega aos jurados para que respondam (QUESITO, 2023, s. p.). Os quesitos buscam a verdade perseguida pelos litigantes, assim, refletem a tese, estilo e estratégia da parte, motivo pelo qual os quesitos não são idênticos em processos semelhantes. Se envolverem matéria de direito ou de outra especialização, o perito deve considerar o quesito prejudicado, sob pena de interferência em matéria exclusiva do Magistrado ou do exercício ilegal da profissão (ANDRADE, 2021). Nisso, os quesitos, de um modo geral, são apreciados e deferidos pelo juiz com vistas a evitar indagações impertinentes ou fora da verdade perseguida. Os quesitos fora do âmbito da questão, devem ser entendidos como procrastinatórios e desnecessários àqueles que abordam fatos não relacionados com a questão em litígio (ANDRADE, 2021; ORNELAS, 2017; CREPALDI, 2019). Portanto, os quesitos são as perguntas, as indagações que são elaboradas e que darão o limite, indicando o universo a ser estudado pelo perito. O responsável pelas respostas sempre será o perito que foi nomeado ou contratado (MÜLLER; TIMI; HEIMOSKI, 2017). Seu objetivo é obter uma prova cabal sobre pontos controvertidos. Naturalmente, todo o quesito implica uma resposta (ALVES et al., 2017). Assim, além desta introdução, abordaremos no Subtema 2 os quesitos, e no Subtema 3, os quesitos da perícia contábil propriamente ditos. 2 QUESITOS Acadêmico, vamos iniciar nossos estudos sobre os quesitos, abordando inicialmente o questionário básico, também denominados de quesitos ordinários. 110 2.1 QUESITOS ORDINÁRIOS Entendemos por quesitos ordinários, também denominado de questionário básico, os quesitos formulados, seja pelo magistrado, seja pelas partes, antes do início das diligências, isto é, antes do desenvolvimento da produção da prova pericial contábil e entrega da peça técnica (ORNELAS, 2017). São as perguntas de natureza técnica ou científica naturalmente relacionadas aos pontos convertidos fixados pelo magistrado ou pelo Tribunal Arbitral, a serem respondidas pelo perito. São, em geral, apreciadas pelo magistrado ou pelo Tribunal Arbitral e pelas partes a fim de evitar indagações impertinentes, fora do âmbito da lide proposta e/ ou dos pontos controvertidos fixados, bem como diligências desnecessárias ou procrastinatórias (ORNELAS, 2017). De acordo com o CPC (BRASIL, 2015, grifo nosso), em seu Artigo 465, as partes têm a opção de apresentar quesitos: Art. 465. O juiz nomeará perito especializado no objeto da perícia e fixará de imediato o prazo para a entrega do laudo. § 1º Incumbe às partes, dentro de 15 (quinze) dias contados da intimação do despacho de nomeação do perito: I - arguir o impedimento ou a suspeição do perito, se for o caso; II - indicar assistente técnico; III - apresentar quesitos. Costa (2017) afirma que fica evidenciada a celeridade com que esse procedimento relativo aos quesitos tem que ser concluído, ou seja, 15 dias após a nomeação do perito. Essa data é limite, e, caso a parte não a obedeça, ficará impossibilitada de fazer em outro momento, sem que tenha a anuência do juiz. Assim, é de todo conveniente que a parte cumpra com esse prazo, caso queira utilizar a prerrogativa de elaborar quesitos. Os quesitos deverão ser apreciados pelo magistrado, conforme Artigo 470 do CPC (BRASIL, 2015, grifo nosso): Art. 470. Incumbe ao juiz: I - indeferir quesitos impertinentes; II - formular os quesitos que entender necessários ao esclarecimento da causa. A apreciação e deferimento dos quesitos pelo juiz busca evitar questionamentos impertinentes ou fora da verdade perseguida, haja vista que estes têm caráter meramente protelatórios, caracterizando como desnecessários, não se relacionando com a questão da lide. 111 Mas, e aí, o que é quesito mesmo? Bem, caro acadêmico, quesitos são questionamentos a respeito do fato ou do objeto dúbio, sobre o qual versa a perícia contábil, e podem estar presentes no início da perícia contábil, no seu desenvolvimento e após o término da perícia, quando estes se denominam quesitos de esclarecimentos (CREPALDI, 2019). Costa (2017) nos afirma que as normas contábeis não tratam da definição de quesitos; somente fazem referência a “quesitos”, “quesitos suplementares” e “quesitos de esclarecimentos”. Portanto, quesitos são questionamentos, mas podem ser elaborados na afirmativa. Objetivando adquirir solução sobre o que está se discutindo nos autos, estes serão redigidos pelo assistente técnico e obrigatoriamente deverão ser respondidos pelo perito nomeado. Alves et al. (2017) afirmam que quesito pode ser entendido como uma pergunta formulada ao perito-contador, com vistas à obtenção de uma prova cabal sobre pontos controvertidos; geralmente, todo o quesito implica numa resposta por parte do perito judicial. Costa (2017) nos diz que os quesitos devem trazer em seu bojo questionamentos ou solicitações que envolvam respostas para a solução do litígio que está em julgamento no processo. Os quesitos serão elaborados pelas partes, o que ficará geralmente a cargo do assistente técnico contratado. Levantados e elaborados sobre o objeto que está em discussão no processo, os quesitos visam receber respostas do perito nomeado de maneira a levar à solução do litígio Os quesitos são de extrema importância para o procedimento pericial, pois trata-se de perguntas formuladas pelas partes ou pelo julgador, devidamente registradas nos autos, cujo objetivo central é o esclarecimento dos fatos e das operações em discussão. São perguntas de natureza técnica ou científica que serão respondidas pelo perito do juízo com objetividade, justificativa, rigor tecnológico, precisão e clareza. IMPORTANTE A seguir, apresentamos dicas trazidas pelos autores Müller, Timi e Heimoski (2017), a respeito do trabalho do perito judicial, quando da resposta aos quesitos: 112 Quadro 3 – Dos quesitos Situação Como proceder E a incerteza? Se você não tem certeza, se você não está certo de uma afirmação, negue-a. Não diga nada. Não diga que “acha” que pode ser. Se está diante do incerto, negue-se a dar opinião: “Não posso afirmar, porque não tenho ainda fundamentação”. As respostas dos quesitos devem ser fundamentadas, sempre. Pode utilizar “sim” e “não” como resposta? Cabe o “sim” e cabe o “não”. Se a pergunta for: a data do contrato foi de XX/XX/ XX? Aqui cabe uma resposta totalmente objetiva: “Sim”. Agora, se não temos certeza ou não podemos afirmar nada, há discordância. Deve-se fazer uma ressalva, ao menos. Isso é importante, para dar segurança ao laudo. Repetições? A opinião técnica que devemos exprimir deve estar limitada ao escopo do trabalho que devemos desenvolver, normalmente guiada pelos quesitos. O prolixo deve ser evitado. Deve-se deixar que o juiz decidatermos controversos. Não devemos conceder alternativas no laudo: “Se fosse de outro modo, o resultado seria tal” etc. Não devemos ser prolixos. Isso pode gerar confusão. Entretanto, se for importante repetir algo, para permitir um entendimento melhor, que isso seja feito de outra forma. Cabe subjetividade? Deve-se ter muito cuidado também com a subjetividade. Ela deve ser objeto de preocupação do perito. Quem pede uma opinião, quem faz uma pergunta, quem faz um quesito merece fidelidade objetiva, merece preocupação com uma resposta efetiva, que solucione aquela questão. Na perícia não há lugar para o subjetivo, não há lugar para polemizar. Onde tudo isso está previsto nas normas? É uma regra? Sim. No caso do perito contábil, tudo isso está previsto nas Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC). Nós, contadores, temos a NBC TP01 (R1) e a NBC PP01 (R1). Fonte: adaptado de Müller, Timi e Heimoski (2017) 3 QUESITOS DA PERÍCIA CONTÁBIL Caro acadêmico, como já aprendemos a respeito dos quesitos ordinários, agora vamos estudar os quesitos aplicados à perícia contábil. 3.1 QUESITOS DA PERÍCIA CONTÁBIL Como já vimos, acadêmico, os quesitos, de um modo geral, são perguntas que as partes fazem, muitas vezes elaboradas pelos assistentes ou pelo advogado da empresa, sobre o objeto da perícia; o limite dos quesitos é o objeto da perícia. 113 Primeiramente, são transcritos e respondidos, os quesitos oficiais e, na sequência, os das partes, na ordem em que forem juntados aos autos. As respostas aos quesitos serão circunstanciadas, não sendo aceitas aquelas como “sim” ou “não”, ressalvando-se os que contemplam especificamente esse tipo de resposta. Não devem ser sumárias, mas sempre bem fundamentadas e alicerçadas em documentos e/ou registros contábeis, evitando, dessa forma, dúvidas na leitura (CREPALDI, 2019). Muitas vezes, os quesitos não são suficientes para esclarecer, tecnicamente, a demanda, devendo, então, o perito do juízo, em suas conclusões, prestar os esclarecimentos adicionais necessários, sem, contudo, extrapolar sua pesquisa além do que está sendo questionado nos autos, ou seja, deve manter seu trabalho circunscrito ao objeto da perícia. Deve observar as perguntas efetuadas pelo juízo e/ou pelas partes, no momento próprio dos esclarecimentos, pois tal ato se limita às respostas a quesitos integrantes do laudo ou do parecer e às explicações sobre o conteúdo da lide ou sobre a conclusão. Exemplo de quesito: Com base na contabilidade da Empresa XXX Ltda., pode-se apurar o resultado contábil, para fins de tributação pelo imposto de renda? Exemplo de resposta do perito: Sim. A Empresa XXX Ltda. mantém regularmente os livros obrigatórios exigidos pela legislação comercial, demonstrando o resultado do exercício no final do livro Diário e apresentando a demonstração do lucro tributável no livro de apuração do lucro real (e-LALUR), conforme anexos 4 a 10 do presente laudo pericial contábil. Nota: Como prova, o perito do juízo anexa cópias dos termos de abertura e de encerramento dos aludidos livros. A seguir, baseados no trabalho de Costa (2017), mostraremos mais alguns exemplos de quesitos elaborados com a finalidade de mostrar sua estrutura e forma de apresentação, lembrando que a sua elaboração é de competência do assistente técnico, perito altamente especializado em assuntos contábeis, o que irá auxiliar muito o sucesso da causa para a parte. 114 1. Quesitos elaborados em um processo envolvendo financiamento habitacional. Queira o senhor perito relatar se o contrato firmado entre as partes está enquadrado como financiamento habitacional nos moldes do Sistema Financeiro da Habitação. 2. Quesitos elaborados em um processo envolvendo contrato de abertura de crédito e financiamento. Relate o senhor perito qual o instrumento contratual objeto desta lide e quais as suas principais cláusulas no que tange ao prazo, à taxa e ao valor. Houve prorrogações? 3. Quesitos elaborados em um processo envolvendo questionamentos sobre pagamentos de impostos. Identifique o senhor perito, comparando as datas de competência e as guias acostadas nos autos (bem como o cômputo de eventuais acréscimos), se os supostos débitos arrolados na inicial foram pagos. 4. Quesitos elaborados em um processo envolvendo INSS sobre obras de engenharia na construção de unidade habitacional. Queira o senhor perito relatar se foi efetuado o cálculo da mão de obra empregada em conformidade com o § 4º do Artigo 33 da Lei no 8.212/91. 5. Quesitos elaborados em um processo envolvendo auto de infração da Secretaria da Receita Federal. Compulsando os autos, pode o perito informar se a autora estava autorizada mediante decisão judicial a compensar prejuízos fiscais acumulados, independentemente da limitação prevista no Artigo 42 da Lei no 8.981/95? 6. Quesitos elaborados em um processo envolvendo empréstimos e financiamentos para pessoa jurídica. Ao senhor perito, solicitamos caracterizar o crédito indicando o valor, o prazo, a forma de pagamento, a data de vencimento e os juros contratados. 7. Quesitos elaborados em um processo envolvendo financiamento a pessoa física. Solicitamos ao senhor perito relacionar a data de vencimento e pagamento das parcelas honradas pelo réu. 8. Quesitos elaborados em um processo envolvendo financiamento para o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES). As cláusulas determinadas pela legislação da Lei no 10.260/01, que rege o FIES, estão sendo rigorosamente cumpridas? 115 9. Quesitos elaborados em um processo envolvendo financiamento de crédito rotativo para pessoa jurídica. Queira o senhor perito informar o valor e a modalidade do contrato de crédito rotativo firmado pelas partes, incluindo esclarecimentos adicionais sobre a data de vencimento da obrigação, forma de pagamento, prazo, taxa de juros pactuada, período de pactuação, garantias e encargos previstos na cláusula de inadimplência. 10. Quesitos elaborados em um processo envolvendo financiamento para aquisição de materiais de construção denominado Construcard. Defina o senhor perito o fenômeno contábil da capitalização de juros e, com base no extrato e na aplicação da tabela Price, informe se ela ocorreu. Fonte: adaptado de COSTA, J. C. D.da. Perícia contábil: aplicação prática. São Paulo: Atlas, 2017. 3.1.1 Quesitos impertinentes São questionamentos efetuados pelas partes e que abordam, geralmente, aspectos não relacionados à demanda judicial, ou perguntas que buscam do perito do juízo opinião fora de sua competência profissional e/ou o induzem a adentrar no mérito, para o qual o perito do juízo não tem competência legal. Assim, os quesitos tornam-se impertinentes quando fogem, escapam ao objeto da perícia contábil (CREPALDI, 2019; MÜLLER; TIMI; HEIMOSKI, 2017). Por exemplo: estamos realizando uma perícia contábil com a finalidade de apurar o valor do patrimônio (objeto da perícia) e há um quesito que requer verificar se a assinatura que consta do contrato social, instrumento de constituição da empresa, é realmente do sócio. Ora, se somos peritos-contadores e não peritos-grafotécnicos, não temos condições técnicas para analisar a assinatura daquela pessoa. Trata-se, então, de quesito impertinente. Outro exemplo: perguntas sobre o motivo de um sócio deixar de atuar na empresa (se por problemas de saúde etc.) também são quesitos considerados impertinentes. De acordo com o Processo Civil, deveria o juiz excluir ou considerar tais quesitos como impertinentes, antes mesmo de solicitar ao perito a elaboração do laudo. Na prática, entretanto, isso nem sempre ocorre. IMPORTANTE 116 Crepaldi (2019) nos traz mais exemplos de quesitos impertinentes: Um tipo muito comum de quesito em demandas de juros bancários é: “O Sr. Perito considera legal a cobrança de juros bancários superiores a 12% ao ano?”. Esse quesito é impertinente, pois implica uma exposição de opinião do perito do juízo, em que este se expõe a julgar, fugindo de sua competência.Outra pergunta impertinente é: “O Sr. Perito poderia definir se a parte A tem razão em relação aos argumentos apresentados na peça inicial?” Então, o que eu faço se encontrar um quesito impertinente? Uma alternativa muito utilizada pelos peritos é prejudicar a resposta, informando não estar de acordo com o objeto da perícia. Assim, salvo melhor juízo, ele deixa de ser respondido. Se for objeto de esclarecimento, pode o perito manifestar-se com a devida ressalva sobre o objeto da prova. A palavra que ora destacamos aqui é convencimento. Se o juiz estiver convencido de que aquele quesito é impertinente, ele o indeferirá. Mas e se passar por ele? Se chegar ao perito, este deve estar convicto para poder responder como “prejudicado” ou “quesito impertinente” (MÜLLER; TIMI; HEIMOSKI, 2017). ATENÇÃO Assim, caro acadêmico, diante de perguntas impertinentes, cabe ao perito do juízo denunciá-las, da seguinte forma, de acordo com Crepaldi (2019), “o quesito em questão não pode ser respondido mediante perícia contábil, já que os exames efetuados não se prestam a tal. Tratando-se de matéria cujo mérito deva ser julgado, este perito recusa-se a responder a tal quesito, por não se tratar de sua alçada fazê-lo”. Os procedimentos processuais estão previstos no Código de Processo Civil. E o Código é bem claro ao informar que compete ao juiz indeferir os quesitos impertinentes nos processos que envolvam provas periciais, como já vimos anteriormente no Art. 470 do CPC. Sendo o juiz o destinatário da prova, a ele compete ponderar sobre a necessidade ou não da sua realização, determinando aquelas provas que achar convenientes e indeferindo as inúteis ou protelatórias – Art. 139, III; Art. 370, parágrafo único – (BRASIL, 2015), bem como sobre a pertinência dos quesitos apresentados pelas partes. Assim, poderão ser indeferidos os quesitos que não tenham o condão de auxiliar a formar o convencimento do juiz ou que não apresentem qualquer relevância para a composição 117 do conflito. Também cabe ao juiz formular os quesitos que entender necessários ao esclarecimento da causa. A atuação do julgador deve ser subsidiária, de modo a não comprometer a sua imparcialidade e a não indicar prévio julgamento. Assim, de acordo com o Código de Processo Civil (CPC) (BRASIL, 2015), compete ao juiz indeferir quesitos impertinentes e formular os que entender necessários ao esclarecimento da causa. 3.1.2 Quesitos suplementares O Código de Processo Civil – Art. 469 (BRASIL, 2015) aponta que as partes poderão apresentar quesitos suplementares na fase de diligência, os quais serão respondidos pelo perito do juízo. Art. 469. As partes poderão apresentar quesitos suplementares durante a diligência, que poderão ser respondidos pelo perito previamente ou na audiência de instrução e julgamento. Parágrafo único. O escrivão dará à parte contrária ciência da juntada dos quesitos aos autos (BRASIL, 2015). Os quesitos suplementares acarretam trabalho adicional, pois não estão previstos no pedido inicial. Devido a esse aumento de trabalho, o perito pode requerer acréscimo no valor do honorário. O perito pode tomar ciência desses quesitos antes da audiência, respondê-los no próprio laudo ou em laudo complementar na própria audiência. A NBC TP 01 (R1) se reporta aos quesitos suplementares no item 57: “quesitos suplementares/complementares formulados sob a forma de esclarecimentos devem ser submetidos à autoridade julgadora”. A NBC PP 01 (R1) (BRASIL, 2020b) também trata dos quesitos suplementares no item 34: 34. O perito deve ressaltar, em sua proposta de honorários, que esta não contempla os honorários relativos a quesitos suplementares/complementares. Quando haja necessidade de complementação de honorários, deve-se observar os mesmos critérios adotados para a elaboração da proposta inicial. Geralmente, os quesitos suplementares são provocados pelo perito-assistente técnico de uma das partes, já que este, acompanhando o trabalho pericial, pode constatar que os quesitos formulados pelo seu cliente não esclarecem adequadamente determinada questão, quando, então, sugere as perguntas complementares (CREPALDI, 2019). Após a conclusão da perícia, não podem mais ser feitos quesitos suplementares, mas apenas pedido de esclarecimentos. 118 3.1.3 Quesitos para esclarecimento A entrega do laudo pericial contábil pode não representar a conclusão da atividade do perito do juízo no processo. É dever do profissional esclarecer eventuais dúvidas que possam surgir sobre o trabalho técnico apresentado, tal como estabelece o CPC (BRASIL, 2015): Art. 477. O perito protocolará o laudo em juízo, no prazo fixado pelo juiz, pelo menos 20 (vinte) dias antes da audiência de instrução e julgamento. § 1º As partes serão intimadas para, querendo, manifestar-se sobre o laudo do perito do juízo no prazo comum de 15 (quinze) dias, podendo o assistente técnico de cada uma das partes, em igual prazo, apresentar seu respectivo parecer. § 2º O perito do juízo tem o dever de, no prazo de 15 (quinze) dias, esclarecer ponto: I - sobre o qual exista divergência ou dúvida de qualquer das partes, do juiz ou do órgão do Ministério Público; II - divergente apresentado no parecer do assistente técnico da parte. A NBC PP 01 (R1) (BRASIL, 2020b) aborda o tema nos itens 38 e 39: 38. O perito deve prestar esclarecimentos sobre o conteúdo do laudo pericial contábil ou do parecer pericial contábil, em atendimento à determinação da autoridade competente. 39. Se o pedido de esclarecimentos tratar de matéria nova, alheia ao conteúdo do laudo pericial, se caracteriza quesito suplementar. O item 56 da NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a) também faz referência aos esclarecimentos sobre o laudo: 56. Havendo determinação de esclarecimentos sobre o laudo ou parecer sem a realização de audiência, o perito deve fazer, por escrito, observando em suas respostas os mesmos procedimentos adotados quando da feitura do esclarecimento em audiência, no que for aplicável. Após a entrega do laudo, as partes serão intimadas para, querendo, se manifestar sobre o laudo pericial no prazo comum de quinze dias (Art. 477, § 1º). Nesse mesmo prazo, os assistentes técnicos poderão oferecer os seus pareceres. A obrigatoriedade de intimação das partes e, consequentemente, dos assistentes é medida que visa resguardar o contraditório. A ausência de intimação deve, pois, ser considerada hipótese de nulidade relativa, sendo necessária a concessão de novo prazo para manifestação das partes, inclusive com o adiamento da audiência. Sobre as dúvidas e divergências apresentadas pelas partes, pelo juiz, pelo membro do Ministério Público ou pelos assistentes, o perito judicial terá prazo de quinze dias para esclarecê-las (Art. 477, § 2º). Para esses esclarecimentos, o assistente ou o perito devem ser intimados com 10 dias de antecedência da data marcada para a audiência (Art. 477, § 4º) (CREPALDI, 2019). 119 3.1.4 Caso prático Acadêmico, com vistas a ampliar nosso entendimento a respeito dos quesitos, vamos apresentar um caso prático de perícia contábil, trazendo os quesitos elencados por Crepaldi (2019), no qual reproduzimos na íntegra a seguir: QUESITOS: As notas fiscais de peças e pneus vinham dos respectivos estabelecimentos comerciais, constando a marca do veículo, ou outra identificação do veículo no qual seriam instaladas ou utilizadas? E, ainda, esses valores eram descontados a título de adiantamento? Sim, as notas/cupons fiscais vinham com o número da placa do veículo, BWA-0368, e com a assinatura do sr. Fulano de tal ou sr. Beltrano. Nos autos não se percebe se esses valores eram descontados a título de adiantamento, consta somente adiantamento feito aos srs. Fulano de tal ou Beltrano. Poderia o sr. Perito informar se eram feitos vales de adiantamento de fretes? Sim, eram feitos adiantamentos como consta nos autos. Quanto às notas de combustível, o Sr. Perito poderia informar se os valores do combustívelestavam incluídos no adiantamento das viagens? Pelo que consta nos autos, os valores de combustíveis não eram descontados dos adiantamentos de viagens. Os cupons fiscais saíam em nome da Transportadora Alvorada e vinculados à placa BWA-0368 e assinados pelo sr. Fulano de tal ou sr. Beltrano. Os fretes eram pagos integralmente? Nem todos os recibos de frete ou carreto eram pagos integralmente, em alguns eram descontados adiantamentos, como constam nos autos. Como exemplo, o Recibo de carreto n. 31.256, na página 67, em que consta o adiantamento sendo abatido, e o Recibo de carreto n. 6.687, na página 70, em que não consta o abatimento de adiantamento. O sr. Perito poderia informar qual a real função de cada via dos recibos de carreto? 1ª via – deverá ser entregue ao tomador do serviço; 2ª via – acompanhará o transporte até o destino, podendo servir como comprovante de entrega; 3ª via – acompanhará o transporte, para controle do Fisco deste estado; 4ª via – ficará presa ao bloco, para exibição ao Fisco. Poderia o Sr. Perito informar se a primeira via do recibo de carreto pode gerar direito de recebimento da quantia nele descrita? Sim, pois a 1ª via é entregue ao tomador do serviço, que é aquele que arca com o ônus, ou seja, o pagamento do frete. 120 O Sr. Perito pode calcular a quantia devida pelo Réu à Empresa Autora? Na documentação encontrada no processo, existem muitos erros, considerando a boa prática contábil, tais como: falta de data nos recibos de carreto, rasuras nos recibos de carreto, considerando Pedido para compor a dívida, sem documento fiscal. Por isso, o cálculo no caso dos adiantamentos liquidados foi feito com relação à data aproximada. Considerando as informações acima, o saldo em 28/8/2011, calculado considerando 6% a.a. tanto para adiantamentos quanto para baixa de adiantamentos, é de R$ 18.799,33. Seguem os cálculos: Tabela 1 – Dívidas 121 122 123 124 Fonte: adaptada de Crepaldi (2019) Tabela 3 – Resumo Fonte: adaptada de Crepaldi (2019) Fonte: CREPALDI, S. Manual de perícia contábil. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. 125 Neste tópico, você aprendeu: • Os quesitos são as perguntas, as indagações que são elaboradas e que darão o limite, indicando o universo a ser estudado pelo perito. • O responsável pelas respostas sempre será o perito que foi nomeado ou contratado. • Os quesitos tornam-se impertinentes quando fogem, escapam ao objeto da perícia contábil. • Os quesitos suplementares acarretam trabalho adicional, pois não estão previstos no pedido inicial. RESUMO DO TÓPICO 2 126 1 Os quesitos buscam a verdade perseguida pelos litigantes, assim, refletem a tese, estilo e estratégia da parte, motivo pelo qual os quesitos não são idênticos em processos semelhantes. Se envolverem matéria de direito ou de outra especialização, o perito deve considerar o quesito prejudicado, sob pena de interferência em matéria exclusiva do Magistrado ou do exercício ilegal da profissão (ANDRADE, 2021). Fonte: ANDRADE, I. R. S. Perícia Contábil. Salvador: UFBA, Faculdade de Ciências Contábeis; Superintendência de Educação a Distância, 2021. 100 p. Com relação aos quesitos constantes nos laudos periciais contábeis, analise as sentenças a seguir: I- Devem ser transcritos e respondidos, primeiro, os oficiais e, na sequência, os das partes, na ordem em que forem juntados aos autos. II- Devem ser transcritos de maneira informal, devendo o perito revisar e corrigir possíveis erros linguísticos eventualmente cometidos. III- Devem ser respondidos de forma circunstanciada, não sendo aceitas aquelas como “sim” ou “não”, ressalvando-se os que contemplam especificamente este tipo de resposta.IV- Não havendo quesitos, a perícia será orientada pelo objeto da matéria, se assim decidir quem a determinou. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 2 Numa ação judicial de cobrança de prestações vencidas em contrato de financiamento de veículo, o magistrado necessitou nomear um perito, com vistas à apuração do saldo devedor pertinente. O profissional contábil, devidamente habilitado e nomeado para a realização dos trabalhos periciais, deverá realizar seus trabalhos em conformidade com a NBC PP 01 (R1) – Perito Contábil. Sobre a forma de realização dos trabalhos periciais, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O perito assumirá a responsabilidade pessoal por todas as informações apresentadas, pelos quesitos respondidos, pelos procedimentos adotados, pelas diligências feitas, pelos valores calculados e pelas conclusões evidenciadas no relatório pericial contábil. b) ( ) durante a elaboração do laudo pericial, não há a necessidade de comunicar às partes a realização de diligências, pois é uma etapa exclusiva do perito do juízo. AUTOATIVIDADE 127 c) ( ) O perito do juízo não deve prestar esclarecimentos às partes, pois trabalha exclusivamente para o magistrado que o nomeou. d) ( ) Nunca o perito contábil deverá alterar os trabalhos que realizou, mesmo que sejam constatados equívocos ou erros. 3 De acordo com o item 39 da NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a) “o laudo e o parecer são, respectivamente, orientados e conduzidos pelo perito nomeado e pelo assistente técnico, que devem adotar padrão próprio, respeitada a estrutura prevista nas disposições legais, administrativas e nesta Norma”. Diante de exposto, analise as sentenças a seguir: Fonte: CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020a. NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil. Disponível em: http://twixar.me/ydxm. Acesso em: 6 jan. 2023. I- O perito deve prestar esclarecimentos sobre o conteúdo do laudo pericial contábil ou do parecer pericial contábil, em atendimento à determinação da autoridade competente. II- O laudo e o parecer devem evidenciar o resultado alcançado por meio de elementos de prova trazidos aos autos ou coletados em diligências que o perito tenha feito, por intermédio de peças contábeis e quaisquer outros documentos, tipos e formas. III- Caso necessário o uso de termos técnicos contábeis, recomenda-se a utilização daqueles termos já consagrados pela literatura contábil. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e III estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 4 O Código de Processo Civil aponta que as partes poderão apresentar quesitos suplementares na fase de diligência, os quais serão respondidos pelo perito do juízo. Discorra sobre os quesitos suplementares. 5 O plano de trabalho é o instrumento que trará todas as etapas necessárias à execução do trabalho pericial, a saber: cálculos, diligências, planilhas, deslocamentos, pesquisas, trabalho de terceiros, respostas aos quesitos, ou ainda, reuniões com os assistentes técnicos, prazo para apresentação do relatório pericial – NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a). Assim, discorra sobre os quesitos ordinários. Fonte: CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020a. NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil. Disponível em: http://twixar.me/ydxm. Acesso em: 6 jan. 2023. 128 129 TÓPICO 3 — RELATÓRIOS PERICIAIS: LAUDO E PARECER UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, estamos no Tema de Aprendizagem 3, e estudaremos os relatórios periciais. São considerados relatórios periciais contábeis tanto o laudo quanto o parecer. A NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a) nos diz que, após a conclusão dos trabalhos periciais, o perito do juízo deve apresentar laudo pericial contábil, e o assistente técnico pode oferecer seu parecer pericial contábil, obedecendo aos respectivos prazos legais e/ou contratuais. O laudo pericial contábil é peça técnica da lavra do perito nomeado. Pode ser elaborado em cumprimento à determinação judicial, arbitral, ou ainda por força de contratação. No primeiro caso,surge o laudo pericial contábil judicial. Nos demais, surge o laudo pericial contábil extrajudicial, um por solicitação de Tribunal Arbitral, outro em decorrência de contrato (ORNELAS, 2017). O laudo pericial, instrumento pelo qual o perito apresenta seu trabalho técnico ao magistrado, conforme Müller, Timi e Heimoski (2017), não era mencionado na lei até o início da vigência do novo CPC. Esse ordenamento jurídico exibe de forma expressa alguns itens necessários para a elaboração do laudo, que veremos no estudo deste tema. O parecer pericial contábil é trabalho técnico da lavra de perito indicado ou contratado. É elaborado por determinação judicial ou em função de contrato. Para o primeiro caso, será denominado parecer pericial contábil judicial; no segundo caso, será um parecer pericial contábil extrajudicial (ORNELAS, 2017). Assim, além desta introdução, abordaremos no Subtema 2 laudo pericial contábil, e no Subtema 3, o parecer pericial contábil. 2 LAUDO PERICIAL CONTÁBIL Acadêmico, quando o perito finaliza as operações de averiguação e coleta das informações, dos documentos necessários, é chegado o momento de elaboração do laudo pericial contábil. Assim, abordaremos este tema a partir de agora. 130 2.1 LAUDO PERICIAL Laudo pericial é uma peça tecnológica que contém opiniões do perito do juízo, como pronunciamento sobre as questões que lhe são formuladas e que requerem seu parecer. É a forma utilizada para apresentação do trabalho (CREPALDI, 2019). Atende às características do trabalho de perícia, principalmente a de examinar a verdade ou não de assunto controverso apresentado, visto que, inexistindo matéria controversa, inexiste razão para discussão. Consequentemente, não há o que periciar. A NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a) nos diz que “o laudo pericial contábil e o parecer pericial contábil têm por limite o objeto da perícia deferida ou contratada”. E prossegue no Item 36: 36. O laudo pericial contábil e o parecer pericial contábil devem ser elaborados somente por contador ou pessoa jurídica, se a lei assim permitir, que estejam devidamente registrados e habilitados. A habilitação é comprovada por intermédio da Certidão de Regularidade Profissional emitida por Conselho Regional de Contabilidade ou do Cadastro Nacional de Peritos Contábeis do Conselho Federal de Contabilidade. Constitui um elemento de prova, fornecendo fatos para firmar a convicção do julgador a respeito de assunto conflituoso. As opiniões manifestadas no laudo – pelo perito que o emitiu e que tem o domínio da área de conhecimento objeto da perícia – tornam-se basilares no processo decisório. Acumula o histórico da perícia realizada, trazendo as informações a respeito do processo do qual resultou o exame pericial, a exposição sobre o desenvolvimento do trabalho pericial, os quesitos e as respostas correspondentes. Pode ser instruído com documentos, mapas, demonstrativos, fotografias e desenhos. É um documento conclusivo (CREPALDI, 2019). O laudo pericial contábil é um documento escrito, no qual o perito contador deverá registrar, de forma abrangente, o conteúdo da perícia e particularizar os aspectos e os detalhes de forma minuciosa que envolvam o seu objeto e as buscas de elementos de prova necessários para a conclusão do trabalho pericial contábil (MOURA, 2020). Em consonância com as exposições já feitas, podemos adicionar que o laudo pericial contábil é uma peça técnica, escrita de forma objetiva, clara, precisa, concisa e completa, sendo uma peça técnica elaborada de forma sequencial e lógica. O CPC (BRASIL, 2015), no Art. 473, estabelece que o laudo pericial deverá conter: Art. 473. O laudo pericial deverá conter: I - a exposição do objeto da perícia; II - a análise técnica ou científica realizada pelo perito; III - a indicação do método utilizado, esclarecendo-o e demonstrando ser predominantemente aceito pelos especialistas da área do conhecimento da qual se originou; IV - resposta conclusiva a todos os quesitos apresentados pelo juiz, pelas partes e pelo órgão do Ministério Público. 131 § 1º No laudo, o perito deve apresentar sua fundamentação em linguagem simples e com coerência lógica, indicando como alcançou suas conclusões. § 2º É vedado ao perito ultrapassar os limites de sua designação, bem como emitir opiniões pessoais que excedam o exame técnico ou científico do objeto da perícia. § 3º Para o desempenho de sua função, o perito e os assistentes técnicos podem valer-se de todos os meios necessários, ouvindo testemunhas, obtendo informações, solicitando documentos que estejam em poder da parte, de terceiros ou em repartições públicas, bem como instruir o laudo com planilhas, mapas, plantas, desenhos, fotografias ou outros elementos necessários ao esclarecimento do objeto da perícia. Para Santos (2020), o laudo pericial conterá a observação, o julgamento e a conclusão sobre os fatos patrimoniais, de forma circunstanciada, tendo em vista que tem a missão de dirimir os pontos de discórdia que são o objeto da ação judicial ou do impasse extrajudicial. A NBC TP 01 (R1) trata do laudo pericial contábil nos itens 33 ao 57. Na Figura 7 a seguir, podemos visualizar a estrutura desta norma brasileira de contabilidade: Figura 7 – Estrutura da NBC TP 01 (R1) Fonte: o autor Podemos visualizar na estrutura da NBC TP 01(R1) (BRASIL, 2020a, grifo nosso) que o laudo pericial contábil, bem como o parecer pericial contábil, é tratado na última parte da norma. Isso nos remete ao fato de que o laudo ou parecer é elaborado ao final do trabalho pericial, conforme item 33 desta norma: 132 33. Concluídos os trabalhos periciais, o perito nomeado deve apresentar laudo pericial contábil, e o assistente técnico pode oferecer seu parecer pericial contábil, obedecendo aos respectivos prazos legais e/ou contratuais. (grifo nosso) Assim, podemos observar os seguintes pontos a respeito dessa peça pericial tão importante, na Figura 8: Figura 8 – Laudo pericial contábil Fonte: adaptada de Crepaldi (2019) Santos (2020), ao tratar das qualidades de um laudo, nos diz que devemos levar em conta seis aspectos primordiais: • A objetividade: é a exclusão do julgamento de forma subjetiva, indicando que o perito contábil deverá responder às questões trazidas no processo judicial com realidade e nos parâmetros contábeis; evitando-se opiniões vagas e imprecisas sobre a matéria periciada. • Rigor tecnológico: o laudo deve limitar-se ao que é científico dentro do campo de sua especialidade, devendo o perito ter como base a doutrina, normas e procedimentos contábeis para emitir sua opinião sobre o fato litigado. • Concisão: significa que o perito deverá evitar ser prolixo, atendo-se ao assunto de forma objetiva, sem o uso de palavras e argumentos que não trarão nenhuma contribuição à matéria periciada, com vistas a orientar o juiz sobre os fatos analisados. • Argumentação: a opinião do perito contábil deverá ter por base um raciocínio lógico e documentos comprobatórios, deixando claro para o juiz o motivo da conclusão que está no laudo. • Exatidão: é a condição essencial de um laudo, tendo em vista que é o elemento que garante a veracidade do que está apresentado na prova pericial. Assim, não se deve supor, mas somente afirmar se tiver absoluta certeza sobre o que opina. 133 • Clareza: por tratar-se de um documento elaborado para a leitura de pessoas não especialistas em matéria contábil, o laudo deverá trazer de forma clara e precisa as suas conclusões. A NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a) também nos evidencia as características de um laudo pericial contábil: 36. O laudo pericial contábil e o parecer pericial contábil devem ser elaborados somente por contador ou pessoa jurídica, se a lei assim permitir, que estejam devidamente registrados e habilitados. A habilitação é comprovada por intermédio da Certidão de Regularidade Profissional emitida por Conselho Regional de Contabilidade ou do Cadastro Nacional de Peritos Contábeis do ConselhoFederal de Contabilidade. 37. O laudo pericial contábil e o parecer pericial contábil são documentos escritos, que devem registrar, de forma abrangente, o conteúdo da perícia e particularizar os aspectos e as minudências que envolvam o seu objeto e as buscas de elementos de prova necessários para a conclusão do seu trabalho. 38. Os peritos devem consignar, no final do laudo pericial contábil ou do parecer pericial contábil, de forma clara e precisa, as suas conclusões. 39. O laudo e o parecer são, respectivamente, orientados e conduzidos pelo perito nomeado e pelo assistente técnico, que devem adotar padrão próprio, respeitada a estrutura prevista nas disposições legais, administrativas e nesta Norma. 40. A linguagem adotada pelo perito deve ser clara, concisa, evitando o prolixo e a tergiversação, possibilitando aos julgadores e às partes o devido conhecimento da prova técnica e interpretação dos resultados obtidos. As respostas aos quesitos devem ser objetivas, completas e não lacônicas. Os termos técnicos devem ser inseridos no laudo e no parecer, de modo a se obter uma redação que qualifique o trabalho pericial, respeitadas as Normas Brasileiras de Contabilidade. O perito deve elaborar o laudo e o parecer, utilizando-se do vernáculo, sendo admitidas apenas palavras ou expressões idiomáticas de outras línguas de uso comum nos tribunais judiciais ou extrajudiciais (item 42 da NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a). IMPORTANTE O laudo deve contemplar o resultado final alcançado por meio de elementos de prova inclusos nos autos ou arrecadados em diligências que o perito tenha efetuado, por intermédio de peças contábeis e quaisquer outros documentos, tipos e formas (item 43, NBC T01 (R1) (BRASIL, 2020a). 134 Para o desempenho de sua função, o perito e os assistentes técnicos podem valer- se de todos os meios necessários, ouvindo testemunhas, obtendo informações, solicitando documentos que estejam em poder da parte, de terceiros ou em repartições públicas, bem como instruir o laudo com planilhas, mapas, plantas, desenhos, fotografias ou outros elementos necessários ao esclarecimento do objeto da perícia (CREPALDI, 2019). Crepaldi (2019) diz que o laudo consensual é aquele elaborado em conjunto com os peritos-assistentes técnicos, ou uma equipe de peritos, e assinado por todos sem ressalvas. É estabelecido, então, o consenso sobre a matéria objeto da perícia judicial. Havendo divergências do laudo pericial contábil, o perito-assistente técnico transcreverá o quesito objeto de discordância, a resposta do laudo, seus comentários e, finalmente, sua resposta devidamente fundamentada. Se houver divergência entre os peritos, serão consignadas, no auto do exame, as declarações e a autoridade nomeará um terceiro. Se este divergir de ambos, a autoridade poderá mandar proceder a novo exame por outros peritos: Art. 480. O juiz determinará, de ofício ou a requerimento da parte, a realização de nova perícia quando a matéria não estiver suficientemente esclarecida. § 1º A segunda perícia tem por objeto os mesmos fatos sobre os quais recaiu a primeira e destina-se a corrigir eventual omissão ou inexatidão dos resultados a que esta conduziu. § 2º A segunda perícia rege-se pelas disposições estabelecidas para a primeira. § 3º A segunda perícia não substitui a primeira, cabendo ao juiz apreciar o valor de uma e de outra (BRASIL, 2015). As terminologias no laudo pericial contábil trazidas pela NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a) são as seguintes: • Forma circunstanciada: é a redação pormenorizada e efetuada com cautela em relação aos procedimentos e aos resultados obtidos no trabalho pericial. Síntese do objeto da perícia: definir de forma clara o propósito ou a finalidade da perícia. • Resumo dos autos: o relato ou a transcrição sucinta, de forma que resulte em leitura compreensiva dos fatos relatados sobre as questões básicas, que resultaram na nomeação ou na contratação do perito. • Diligência: ◦ lato sensu: todos os atos adotados pelo perito, inclusive, comunicações às partes e a seus assistentes, na busca de documentos, coisas, dados e informações e outros elementos de prova necessários à elaboração do trabalho pericial; ◦ stricto sensu: o trabalho de campo na busca de elementos necessários que não estejam juntados aos autos. • Critério: é a faculdade que tem o perito de distinguir como proceder em torno dos fatos alegados para decidir as diretrizes e os procedimentos que deve seguir na elaboração do trabalho pericial. • Método: é um procedimento de análise técnica e/ou científica de valoração dos elementos probantes que instruíram a demanda, predominantemente aceito pelos especialistas da área do conhecimento do qual se originou. 135 • Conclusão: é a exposição sintética da matéria fática constatada, indicando o suporte técnico-científico que justifica as conclusões a que chegou o perito ou o assistente técnico. Outras informações ou elementos relevantes, que não constaram da quesitação, devem ser consignados. • Apêndices: são documentos elaborados pelo perito contábil; e Anexos são documentos entregues a estes pelas partes e por terceiros, com o intuito de complementar a argumentação ou elementos de prova. • Esclarecimentos: são informações prestadas pelo perito aos pedidos de esclarecimentos sobre trabalho pericial, determinados pelas autoridades competentes, por motivos de obscuridade, incompletudes, contradições ou omissões. O laudo deve conter, no mínimo, de acordo com o item 53 da NBC TP01 (R1), os seguintes itens: • identificação do processo ou do procedimento, das partes, dos procuradores e dos assistentes técnicos; • síntese do objeto da perícia; • resumo dos autos; • análise técnica e/ou científica realizada pelo perito; • método científico adotado para os trabalhos periciais, demonstrando as fontes doutrinárias deste e suas etapas; • relato das diligências realizadas; • transcrição dos quesitos e suas respectivas respostas conclusivas para o laudo pericial contábil; • conclusão; • termo de encerramento, constando a relação de anexos e apêndices; • assinatura do perito: deve constar sua categoria profissional de contador, seu número de registro em Conselho Regional de Contabilidade e, se houver, o número de inscrição no Cadastro Nacional de Peritos Contábeis (CNPC), e sua função: se laudo, perito nomeado e se parecer, assistente técnico da parte. É permitida a utilização da certificação digital, em consonância com a legislação vigente e com as normas estabelecidas pela Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileiras – ICP–Brasil. Acadêmico, apresentamos um exemplo prático de Laudo Pericial Contábil. Acesse em: http://twixar.me/7hxm . DICA 136 3 PARECER PERICIAL CONTÁBIL Acadêmico, estudaremos agora a peça denominada parecer técnico ou parecer pericial contábil, que é um documento elaborado pelo assistente técnico, cujo escopo é emitir opinião sobre o laudo feito pelo perito nomeado pelo juiz, servindo como instrumento da parte que o contratou. As regras para a elaboração do parecer pericial contábil são semelhantes às técnicas aplicadas ao laudo pericial contábil (SANTOS, 2020). 3.1 PARECER PERICIAL CONTÁBIL O parecer técnico contábil, isto é, o parecer técnico, é uma peça escrita na qual o contador deve registrar, de forma abrangente, o conteúdo da perícia e particularizar os aspectos e as minudências que envolvam a demanda (MOURA, 2020; CREPALDI, 2019). Em outras palavras, conforme Moura (2020), o parecer técnico contábil, é peça escrita na qual o contador, expressa, de forma circunstanciada, clara e objetiva, os estudos, as observações e as diligências que realizou e as conclusões com fundamento nos trabalhos realizados. Sempre que o parecer técnico-contábil for contrário às posições do laudo pericial contábil, o perito-assistente técnico deve fundamentar suas manifestações. Deve registrar no parecer técnico-contábil os estudos, as pesquisas, as diligências ou as buscas de elementosde prova necessários para a conclusão dos seus trabalhos. Pode ser apresentado por uma das partes já na petição inicial (abertura do processo), antes mesmo que seja designado um perito do juízo, ou na contestação. Se o juiz considerar o parecer técnico contábil suficiente, quando apresentar de fato pareceres técnicos ou documentos elucidativos, poderá dispensar a nomeação de um perito do juízo (CREPALDI, 2020). Por força da legislação vigente, o perito na função de assistente técnico é responsável pela oferta de parecer pericial contábil, ou seja, oferece, por meio de trabalho próprio, sua opinião técnica, crítica ou concordante, a respeito do laudo pericial contábil oferecido pelo perito judicial (ORNELAS, 2017). Na esfera judicial, o parecer técnico serve para subsidiar o juiz e as partes, bem como para analisar de forma técnica e científica o laudo pericial contábil. Na esfera extrajudicial, serve o parecer técnico para subsidiar as partes nas suas tomadas de decisões. E, na esfera arbitral, subsidiará o árbitro e as partes nas suas tomadas de decisão (MOURA, 2020). IMPORTANTE 137 A estrutura formal do parecer técnico pode conter as seguintes etapas, conforme proposto por Ornelas (2017): Figura 9 – Etapas do parecer pericial contábil Fonte: adaptada de Ornelas (2017) Crepaldi (2019), nos detalha as etapas do parecer pericial contábil, conforme demonstrado na Quadro 3, a seguir: Quadro 4 – Parecer técnico contábil Busca detalhar com critério técnico suas críticas ao laudo pericial contábil. Deve ser elaborado de acordo com a estrutura abaixo. Abertura Parágrafo introdutório com declaração do assistente técnico acerca da apresentação formal do parecer técnico. Considerações iniciais sobre o laudo pericial contábil Parte destinada às críticas em relação ao que foi detalhado inicialmente pelo perito e, ainda, identificação da existência necessária de aspectos relevantes do processo. Comentários sobre o desenvolvimento do trabalho pericial Apresentação de considerações técnicas convergentes ou divergentes dos procedimentos de trabalho do perito, como metodologia, pesquisas e diligências. Comentários sobre os quesitos e as respostas Transcrição dos quesitos formulados pelo juiz e pelas partes, com as respostas do perito e a apresentação de comentários críticos, convergentes ou divergentes, devidamente fundamentados e justificados pelo perito-assistente técnico. Conclusão técnica Considerações técnicas finais do parecer, ou aprontamento da conclusão técnica do parecer, favorável ou desfavorável ao laudo, devidamente justificado pelo perito-assistente técnico. Encerramento Fechamento do trabalho com o detalhamento da quantidade de páginas existentes, a relação de anexos e documentos, o local, a data e a assinatura do perito-assistente técnico, seguida do número de registro profissional (CRC). Anexos Demonstrativos de cálculos, planilhas e gráficos desenvolvidos pelo perito-assistente técnico. Fonte: Crepaldi (2019, p. 138) 138 O laudo pericial contábil e o parecer pericial contábil são sempre dirigidos ao magistrado responsável pelo processo objeto da perícia contábil realizada. Para tanto, o laudo pericial contábil, assim como o respectivo parecer pericial contábil, contêm uma primeira página de endereçamento ou de apresentação, na qual é identificado a qual magistrado se dirigem, são especificados o processo e as respectivas partes, bem como se se trata de laudo pericial contábil ou de parecer pericial contábil (ORNELAS, 2017). Não é recomendado entregar de pronto o laudo ou o parecer no mesmo dia em que é terminado. Uma boa prática é aquela de deixar a peça técnica em repouso, por um ou dois dias. Passado o tempo sugerido, recomenda-se nova leitura do conteúdo do trabalho técnico. ATENÇÃO Os esclarecimentos adicionais são informações prestadas pelo perito do juízo aos pedidos de elucidação sobre laudo pericial contábil e parecer técnico contábil, determinados pelas autoridades competentes, por motivos de obscuridade, incompletudes, contradições ou omissões (CREPALDI, 2019). Os esclarecimentos podem ser prestados de duas maneiras, de acordo com a NBC TP 01 (R1) (BRASIL, 2020a): • Escritos: os pedidos de esclarecimentos que forem deferidos e apresentados ao perito contábil deverão ser prestados de forma escrita. • Oral: os esclarecimentos poderão ser prestados, quando da audiência, na forma oral. O perito do juízo e o perito-assistente técnico somente estarão obrigados a prestar esclarecimentos ao juiz quando intimados a comparecer à audiência, formulando as perguntas, sob a forma de quesitos, quando intimados dez dias antes da audiência – CPC, Art. 477, § 4º– (BRASIL, 2015). Os esclarecimentos sobre o conteúdo do laudo pericial contábil ou do parecer técnico-contábil, em atendimento à determinação do juiz ou do árbitro que preside o feito, podem não ensejar novos honorários periciais se forem apresentados para obtenção de detalhes do trabalho realizado, uma vez que as partes podem formulá-los com essa denominação, mas ser quesitos suplementares. O parecer técnico-contábil, na esfera judicial, serve para subsidiar o juiz e as partes, bem como para analisar de forma técnica e científica o laudo pericial contábil. Na esfera extrajudicial, serve para subsidiar as partes nas suas tomadas de decisão. Na esfera arbitral, serve para subsidiar o árbitro e as partes nas suas tomadas de decisão (CREPALDI, 2019). 139 LEITURA COMPLEMENTAR A DIGITALIZAÇÃO DO TRABALHO PERICIAL CONTÁBIL COMO FATOR DE ECONOMIA E SUSTENTABILIDADE André Silva Neto Almeciano José Maia Júnior 1 INTRODUÇÃO A Perícia como prova técnica, produzida por profissionais de elevada habilitação profissional, tem na digitalização de suas peças mais um facilitador para o exercício do seu mister. Com a informatização dos processos cíveis, penais, trabalhistas, e juizados especiais providos pela Lei 11.419/06, assim como os autos da Receita Federal do Brasil (RFB) e vários outros órgãos dos entes públicos: federal; estadual; municipal; e distrito federal. Esta lei teve por premissa a economicidade da gestão pública e a proteção ao meio ambiente, principalmente evitando o corte de arvores para produção de celulose. A Perícia Contábil não tardará a seguir os passos da digitalização, visto que é um meio de prova de ilibada confiança dos juízes. A era digital já se tornou presente em nossas vidas, quando pagamos contas pelo celular ou fechamos contratos via Internet e não nos imaginamos mais sem os incríveis recursos tecnológicos de que dispomos. Uma política de Estado com base nessa visão nos conduzirá, certamente, a avanços importantes na redução e racionalização da burocracia e na capacidade de uma competitividade sustentável para o país, no viés da economia de escala ao se gestar o uso de recursos diversos para atender a sociedade. Assim em uma abordagem mais explícita a questão que surge é se a informatização do processo trará impactos positivos na rotina de trabalho das partes de um processo e, por conseguinte, na otimização da justiça como um todo, acarretando a melhora do setor público. Acredita-se que, apesar dos entraves decorrentes do uso da tecnologia como ferramenta de trabalho, em especial com relação à saúde dos usuários, os efeitos negativos do processo judicial eletrônico serão superados com a adoção de medidas de tutela do ambiente de trabalho e com a mudança de atitudes dos profissionais que nele atuam, impactando positivamente nos resultados de seus serviços. O objetivo do presente artigo é apresentar ao leitor o uso de recursos na Perícia Contábil sobre a ótica da Lei 11.419/06, detectar vantagens e desvantagens da digitalização da peça probatória, bem como a economia pública e do meio ambiente, as quais acarretariam tal informatização, o mais importante feito ocasionado da possível virtualização. 140 [...] 2.1 A PERÍCIA A Perícia Contábil se encontra em evolução desde 1945, quando o DecretoLei nº 9.295/46 que criou a profissão do Contador, a este atribuiu, entre suas diversas competências, com exclusividade a da Perícia e da Auditoria Contábil, as quais enobrecem o exercício profissional. Segundo Lopes de Sá (1996, p. 14), é uma atividade realizada ou executada por peritos, a fim de esclarecer ou evidenciar fatos, objeto do litígio judicial ou por interesse extrajudicial. Significa, dessarte, a pesquisa, as vistorias, a investigação, o exame, os arbitramentos, as avaliações, a realidade de certos fatos ou verificação da verdade, por pessoas que tenham habilitação profissional, reconhecida experiência quanto à matéria e ilibada idoneidade moral. A perícia é, então, a diligência com aplicação da essência de alguma ciência em busca da comprovação sobre coisas ou seres no estado em que se encontram, reportando-se as suas formas e efeitos anteriores e/ou atuais, devendo, se for o caso, enfocar aspectos e situações futuras que advirão do caso de estudo (CABRAL, 2003). Ao longo dos anos, várias têm sido as denominações dadas à perícia contábil. Francisco D’Àuria, em seu livro Revisão e Perícia Contábil (1950, p. 16 apud ROSA, 2003), “a perícia é uma incumbência confiada ao perito-contador no sentido de informar, de modo geral, mediante exame da matéria pré-limitada, e opinar, tecnicamente, se solicitado, interessando, geralmente, a partes em litígio”. Lopes de Sá, em seu livro Perícia Contábil (1994, p. 15 apud ROSA, 2003): Perícia contábil é a verificação de fatos ligados ao patrimônio individualizados visando oferecer opinião, mediante questão proposta. Para tal opinião realizam-se exames, vistorias, indagações, investigações, avaliações, arbitramentos, em suma, todo e qualquer procedimento necessário à opinião. Valder Palombo, em seu livro Perícia Contábil (1996, p. 15 apud ROSA, 2003): “Perícia é um instrumento especial de constatação, prova ou demonstração, científica ou técnica, da veracidade de situações, coisas ou fatos”. Francisco Maia, em seu livro Roteiro Prático de Avaliações e Perícias Judiciais (1996, p. 159 apud ROSA, 2003): Perícia é uma prova admitida no processo, destinada a levar ao Juiz elementos relativos a fatos que careçam de conhecimentos técnicos, podendo consistir numa declaração de ciência, na afirmação de um juízo, ou em ambas, simultaneamente. 141 Todos os autores citados referenciam do pensamento contábil brasileiro, atestam a relevância para o exercício da perícia contábil, em conjunção do elevado conhecimento técnico e indubitável formatação documental, como baluarte ao adequado exercício do habilitado labor. Assim indica o pensamento do Conselho Federal de Contabilidade (CFC). O Conselho Federal de Contabilidade, na Norma Brasileira Contábil T-13 (2015): A perícia contábil constitui o conjunto de procedimentos técnico- científicos destinados a levar à instância decisória elementos de prova necessários a subsidiar a justa solução do litígio ou constatação de fato, mediante laudo pericial contábil e/ou parecer técnico-contábil, em conformidade com as normas jurídicas e profissionais e com a legislação específica no que for pertinente. Portanto, após tantas elucidações a respeito do objeto e objetivo da perícia, entende-se que é o exame profissional das provas que servirá como testemunho, incontroverso, auxiliar para a tomada de decisões. Como orienta o Código de Processo Civil (BRASIL, Arts. 420-439), em seus Art. 420 a 439, que estabelece a prova pericial como um dos legais meios de prova a servir de base para a decisão do Juízo. 2.2 O PERITO Conhecida a especificidade da Perícia Contábil, narrada nos parágrafos anteriores, o Perito Contador se torna um constante expert em constante aculturamento. O próprio órgão fiscalizador, Conselho Federal de Contabilidade (CFC), criou em 2016, através da Resolução nº 1502, o Cadastro Nacional de Peritos Contadores (CNPC). Que após o período de reconhecimento dos profissionais que já exerciam, passou a fazer o exame de qualificação específico. Peritos “são pessoas entendidas e experimentadas em determinados assuntos e que, designadas pela justiça, recebem a incumbência de ver e referir fatos de natureza permanente cujo esclarecimento é de interesse num processo. Cabe-lhes o visum et repertum segundo antiga expressão” (FAVERO, 2000, p. 37 apud ROSA, 2003). O perito deve ser sempre aquele que possui a total sabedoria técnica/científica do assunto a ser resolvido e seu trabalho se forra de função social/econômica/judicial. Inúmeras têm sido as nomeações, judiciais ou não, que deram aos peritos contábeis atribuições para produzir provas técnicas que auxiliam a resolução das questões impostas ou sob dúvida, mas que têm relevância ao interesse das partes envolvidas (seja judicial ou extrajudicial) registrem-se as seguintes: Segundo Lopes de Sá (1995, p. 354 apud ROSA 2003), perito-contador é: “o contador que desempenha as funções de perito, ou examinador de escritas e fatos”. O Conselho Federal de Contabilidade, na Norma Brasileira Contábil T-13 (2015): 142 O perito deve documentar os elementos relevantes que serviram de suporte à conclusão formalizada no laudo pericial contábil e no parecer técnico - contábil, quando não juntados aos autos, visando fundamentar o laudo ou parecer e comprovar que a perícia foi executada de acordo com os despachos e decisões judiciais e as Normas Brasileiras de Contabilidade. Martinho Ornelas (2000, p. 49 apud ROSA 2003), cita Amaral Santos para definir perito: é uma pessoa que, pelas qualidades especiais que possui, geralmente de natureza cientifica ou artística, supre as insuficiências do juiz no que tange à verificação ou apreciação daqueles fatos da causa que para tal exijam conhecimentos especiais ou técnicos. E, o Conselho Federal de Contabilidade, na Norma Brasileira Contábil P-2 (2015): “Perito é o Contador regularmente registrado em Conselho Regional de Contabilidade, que exerce a atividade pericial de forma pessoal, devendo ser profundo conhecedor, por suas qualidades e experiência, da matéria periciada”. Também a respeito do assunto, Hilário Franco (1991, p. 273 apud ROSA, 2003), emitiu o seguinte parecer: A globalização dos negócios, com suas atividades cruzando fronteiras, requer um código de normas éticas que estabeleça padrões de conduta e princípios fundamentais a serem observados por todos os comuns. Uma das marcas distintas da profissão contábil é a sua responsabilidade para com o público. É salutar, lembrar que os contadores são mais notados por serem honestos do que por serem confiáveis. Como contadores, precisamos reconhecer que nosso comportamento ético é envolvido não apenas pelo que vemos como ético, mas pelo que é visto por terceiros que nos observam. O perito necessita ter robusto conhecimento da área, não se permitindo a erros, mantendo o zelo ético/moral e, desse modo, exercer sua função com independência. Deve estar sempre em conformidade com os códigos vigentes (civil, penal, trabalhista, dentre outros) e possuir pleno domínio destes para atender as demandas propostas por quaisquer das partes de um processo. Assim, atenderá com presteza e eficiência ao trabalho a si confiado. 2.3 A DIGITALIZAÇÃO PROCESSUAL Desde a Lei n° 11.419/06, a qual inseriu a informatização do processo judicial, dilatando ao Artigo o §2°, o qual indica: “‘Todos os atos e termos do processo podem ser produzidos, transmitidos, armazenados e assinados por meio eletrônico, na forma da lei”. Sendo assim, no esteio dos Certificados Digitais e regulamentação pelos regimentos internos dos tribunais, entre outros afincos, o processo eletrônico, também intitulado de e- process, tem sido instaurado. 143 De acordo com Wilson Zappa Hoog (2010), a informatização de dados pode propiciar diversos benefícios para os profissionais da perícia, do direito e de todas as instituições que a adotam. Em suas palavras, “em breve, na maioria dos fóruns, as pessoas terão acesso ao processo atravésdo sistema virtual, onde os autos poderão ficar em tempo real, 24 horas por dia à disposição dos juízes, dos peritos, dos assistentes e das partes”. A exponencial utilização de recursos da informática nos processos judiciais pelos tribunais brasileiros trouxe grandes benefícios às partes, aos patronos, peritos e ao Poder Judiciário. Como exemplo, Abrão (2011) salienta a redução de custos com procedimentos e incidentes, o considerável aumento na agilidade de tramitação dos feitos judiciais, a maior transparência e garantia de acesso aos procedimentos e atos judiciais realizados, a melhor sintonia entre a segunda e a primeira instância e o fim de volumes de autos físicos e de riscos de extravios de seus registros. Foi enorme a economia dos recursos públicos, com a redução do uso do papel, cartuchos de impressão, tintas, carimbos, grampeadores e outros materiais acessórios. Houve ganhos para o meio ambiente, já que esses materiais causam impactos diretos e significativos ao serem produzidos. Conforme Teixeira (2014, p. 444): Antes do advento do processo eletrônico, por ano, eram consumidas aproximadamente 46.000 toneladas de papel pelos processos judiciais impressos do Brasil, o que equivale a 690.000 árvores. Cada processo físico custava em média R$20,00 entre papel, grampos etc. Considerando que à época eram cerca de 70 milhões de processos em andamento, o Os reflexos da implantação do processo judicial eletrônico sobre a saúde de seus sujeitos processuais custo anual ficava em R$1.400.000.000. Esse número seria ainda maior ao se considerar que o ano de 2012 foi encerra - do com 92 milhões de processos em andamento, conforme levantamento do Conselho Nacional de Justiça. Em contrapartida, também há uma série de desvantagens que titubeiam a total implementação da informatização processual. Em um país tão desigual, onde a maioria da sua população possui uma baixa renda, pessoas que não possuem acesso livre à internet, as quais não necessariamente seja em razão de ordem financeira, a digitalização dos processos pode inviabilizar a obtenção total à Justiça. No Brasil, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), transita 99,7 milhões de processos no ano de 2014, sendo que 91,9 milhões deles são em primeiro grau, o que representa um percentual de 92% do total de processos. Advogados mais experientes, resistentes às tecnologias oriundas da nova era digital, podem ficar para trás nesta integração ao processo digital. Sem contar aqueles que possuem dificuldades em lidar com toda a automação necessária para se adequar às novidades. 144 Para Marcos Mamede (2011): Este intento (processo eletrônico), o Estado deve garantir às partes e disponibilizar nas sedes dos tribunais e foros em geral um serviço de informatização capaz de possibilitar atender o amplo exercício ao direito de defesa e de petição, sob pena do processo não poder ser exclusivamente eletrônico, como pretendem alguns. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS A digitalização da Perícia é um viés com várias lacunas a serem abordadas, ocasiona em uma série de vantagens e desvantagens que podem ocorrer, dentre as quais descritas no Quadro 1. A economia de recursos e a maior celeridade na tramitação dos feitos judiciais são alguns dos muitos proveitos advindos de sua informatização. Por essas razões, a digitalização dos procedimentos judiciais pode ser vista como medida inconversível e, segundo Chelab (2012, p. 121): Diante da rápida expansão desse ambicioso projeto, não há como ignorá-lo. Saber e compreender a nova realidade do processo judicial virtual é uma necessidade urgente, que se impõe a jurisdicionados, estudantes de direito, estagiários, advogados, procuradores, servidores e magistrados. Quadro 1 – Descrição das vantagens e desvantagens Vantagens Desvantagens • Celeridade processual, no que tange às partes envolvidas, com destaque para as citações, intimações e notificações. • Consulta aos Autos a qualquer momento, sem a necessidade de fazer carga física no Fórum. • Protocolo virtual, sem necessidade de deslocamento ao Fórum. • Redução das custas processuais com material de expediente. • Contingência do risco de danos e extravio de documentos e dos Autos. • Retenção no impacto ambiental pelo não uso de celulose e acessórios. • Economia de prédio e instalações para guarda do acervo físico. • Acesso a sistemas específicos e a internet não são passivos a toda população. • Onerosidade da Certificação Digital. • Documentação suporte, por muitas vezes, ainda é física. • Sistema eletrônico pode travar constantemente, estando sujeito a reparos por técnicos especializados. • Sujeição a crackers e hackers por estar no mundo digital, podendo ocorrer perda no sigilo pessoal. • Ilegibilidade de documentos quando digitalizados. • Maior fadiga na leitura dos Autos. Fonte: o autor 145 Embora, a digitalização processual apresente vantagens e desvantagens é na racionalidade e economicidade dos recursos naturais o seu mais brioso mérito. Entretanto, devido ao desequilíbrio da distribuição de renda no país, em que apenas 1% da população detém quase 50% de sua riqueza, sobra para os menos favorecidos, tanto no âmbito social quanto econômico, o severo ônus de não ter como judicionado o pleno direito de usufruir as suas garantias constitucionais. A Perícia como prova técnica, produzida por profissionais de elevada habilitação profissional, tem na digitalização de suas peças mais um facilitador para o exercício do seu mister. A competência esclarecedora da peça probante, produzida pelo expert, não se mitiga com a sua digitalização, apenas é uma forma de apresentação. Na esperança de incorporar ao desenlace do problema apresentado, celeridade ao interesse das partes. Acredita-se que ainda irá haver maior fluidez, facilidade, a este procedimento que toma corpo desde o início do século XXI. Fonte: Adaptado de http://twixar.me/Nhxm. Acesso em: 31 jan. 2023. 146 Neste tópico, você aprendeu: • São considerados relatórios periciais contábeis tanto o Laudo quanto o Parecer. E que, após a conclusão dos trabalhos periciais, o perito do juízo deve apresentar laudo pericial contábil, e o assistente técnico pode oferecer seu parecer pericial contábil, obedecendo aos respectivos prazos legais e/ou contratuais. • O laudo pericial contábil é um documento escrito, no qual o perito contador deverá registrar, de forma abrangente, o conteúdo da perícia e particularizar os aspectos e os detalhes de forma minuciosa que envolvam o seu objeto e as buscas de elementos de prova necessários para a conclusão do trabalho pericial contábil. • O parecer técnico contábil é peça escrita, na qual o contador expressa, de forma circunstanciada, clara e objetiva, os estudos, as observações e as diligências que realizou e as conclusões com fundamento nos trabalhos realizados. • O laudo pericial contábil e o parecer pericial contábil são sempre dirigidos ao magistrado responsável pelo processo, objeto da perícia contábil realizada. RESUMO DO TÓPICO 3 147 1 A NBC TP 01 (R1) é a Norma Brasileira de Contabilidade que estabelece as diretrizes e os procedimentos técnicos e científicos que deverão ser observados pelo perito, no desempenho dos trabalhos de perícia contábil, quer seja no âmbito judicial ou extrajudicial. Fonte: CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020a. NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil. Disponível em: http://twixar.me/ydxm. Acesso em: 6 jan. 2023. Sobre os procedimentos de acordo com a NBC TP 01 (R1), associe os itens, utilizando o código a seguir: I- Planejamento. II- Termo de diligência. III- Laudo pericial contábil. IV- Parecer pericial contábil. V- Forma circunstanciada. VI- Síntese do objeto da perícia e resumo dos autos. ( ) Documento elaborado pelo perito do juízo. ( ) Redação pormenorizada, minuciosa, efetuada com cautela e detalhamento em relação aos procedimentos e aos resultados do laudo e do parecer. ( ) Etapa do trabalho pericial queantecede diligências, pesquisas, cálculos e respostas aos quesitos, na qual o perito do juízo estabelece a metodologia dos procedimentos periciais a serem aplicados, elaborando-os a partir do conhecimento do objeto da perícia. ( ) Relato ou transcrição sucinta, de forma que se converta numa leitura compreensiva dos fatos relatados sobre as questões básicas que resultaram na nomeação ou na contratação do perito. ( ) Documento elaborado pelo contador contratado pelas partes. ( ) Instrumento por meio do qual o perito solicita documentos, coisas, dados e informações necessárias à elaboração do laudo pericial contábil e do parecer técnico-contábil. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) I – III – II – VI – IV – V. b) ( ) II – III – IV – VI – IV – I. c) ( ) III – V – I – VI – IV – II. d) ( ) I – IV – V – VI – III – II. e) ( ) II – V – I – VI – IV – III. AUTOATIVIDADE 148 2 A NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil – nos revela os conceitos pertinentes ao trabalho do perito, quando da realização de pericias contábeis, entre eles define o que são os relatórios periciais. Fonte: CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020a. NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil. Disponível em: http://twixar.me/ydxm. Acesso em: 6 jan. 2023. A respeito dos relatórios periciais normatizados pela NBC TP 01 (R1), analise as sentenças a seguir: I- Parecer pericial contábil é a indagação e a busca de informações, mediante conhecimento do objeto da perícia solicitada nos autos. II- Laudo pericial contábil é a investigação e a pesquisa sobre o que está oculto por quaisquer circunstâncias nos autos. III- Parecer pericial contábil é a peça escrita elaborada pelo perito-assistente, na qual ele deve registrar, de forma abrangente, o conteúdo da perícia e particularizar os aspectos e as minudências que envolvam o seu objeto e as buscas de elementos de prova necessários para a conclusão do seu trabalho. IV- Laudo pericial contábil é o documento escrito, no qual o perito do juízo deve registrar, de forma abrangente, o conteúdo da perícia e particularizar os aspectos e as minudências que envolvam o seu objeto e as buscas de elementos de prova necessários para a conclusão do seu trabalho. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças III e IV estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Após o término do trabalho pericial, o perito-contador nomeado pelo magistrado deverá apresentar o relatório pericial, bem como, o assistente técnico, que fora contratado pelas partes, ambos sempre em conformidade com os respectivos prazos legais e/ou contratuais. Diante do excerto, analise as sentenças a seguir: I- A linguagem adotada pelo perito deve ser prolixa, com vistas a tratar da complexidade do trabalho realizado pelo perito. II- No laudo pericial contábil, as respostas aos quesitos formulados deverão ser subjetivas, pois é uma opinião do perito, que, caso não concorde, o assistente técnico deverá contestá-las de forma completa e lacônica. III- Os termos técnicos devem ser inseridos no laudo e no parecer, de modo a se obter uma redação que qualifique o trabalho pericial, respeitadas as Normas Brasileiras de Contabilidade. 149 Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 4 A perícia contábil constitui o conjunto de procedimentos técnico-científicos destinados a levar à instância decisória elementos de prova necessários a subsidiar a justa solução do litígio ou constatação de um fato, mediante laudo pericial contábil e/ou parecer técnico contábil. Discorra sobre o laudo pericial contábil. 5 Os relatórios periciais, em conformidade com as Normas Brasileiras de Contabilidade, são o laudo pericial contábil apresentado pelo perito do juízo, e o parecer pericial contábil confeccionado pelo perito assistente, ou simplesmente assistente, contratado pelas partes. Diante disso, apresente os elementos mínimos que deverá conter o laudo pericial contábil, de acordo com a NBC TP 01 (R1). 150 ALVES, A. et al. Perícia Contábil I. Porto Alegre: SAGAH, 2017. ANDRADE, I. R. S. Perícia Contábil. Salvador: UFBA, Faculdade de Ciências Contábeis; Superintendência de Educação a Distância, 2021. 100 p. BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código de processo Civil. Brasília, DF: Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, 10 jan. 2002. BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: http://twixar.me/chxm. Acesso em: 3 jan. 2023. BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Resolução nº 232, de 13 de julho de 2016. Fixa os valores dos honorários a serem pagos aos peritos, no âmbito da Justiça de primeiro e segundo graus, nos termos do disposto no art. 95, § 3º, II, do Código de Processo Civil – Lei 13.105/2015. Brasília, DF: Conselho Nacional de Justiça, 2016. CARVALHO, L.da C. BV/A, 2022. Os processos eletrônicos e os desafios enfrentados. Disponível em: https://bvalaw.com.br/processos-eletronicos/. Acesso em: 21 jan. 2023. CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020a. NBC TP 01 (R1) – Perícia Contábil. Disponível em: http://twixar.me/ydxm. Acesso em: 6 jan. 2023. CFC. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Cfc.org, 2020b. NBC PP 01 (R1) – Perito Contábil. Disponível em: https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de- contabilidade/nbc-pp-do-perito-contabil/. Acesso em: 6 jan. 2023. COSTA, J. C. D.da. Perícia contábil: aplicação prática. São Paulo: Atlas, 2017. CREPALDI, S. Manual de perícia contábil. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. MAGALHÃES, A. de D. F. Perícia Contábil. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017. MOURA, R. Perícia contábil judicial e extrajudicial. 6. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2020. MÜLLER, A. N.; TIMI, S. R. R.; HEIMOSKI, V. T. M. Perícia contábil. São Paulo: Saraiva, 2017. ORNELAS, M. M. G. de. Perícia Contábil. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017. PLANEJAMENTO. In: HOUAISS, Dicionário On-line de Português. São Paulo, Uol/Houaiss: 2022. Disponível em: http://twixar.me/shxm.Acesso em: 18 jan. 2023. REFERÊNCIAS 151 QUESITO. In: HOUAISS, Dicionário On-line de Português. São Paulo, Uol/Houaiss: c2023. Disponível em: http://twixar.m e/Qhxm. Acesso em: 30 jan. 2023. SANTOS, T. Ap. dos. Perícia e arbitragem contábil. Curitiba: Contentus, 2020. TST. TST.Jus, 2003. Súmula nº 341 do TST. Honorários do assistente técnico. Disponível em: http://twixar.me/Mhxm. Acesso em: 29 jan. 2023. 152 153 ARBITRAGEM: NOÇÕES E LEGISLAÇÃO APLICÁVEL UNIDADE 3 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • estudar noções a respeito da arbitragem; • entender os métodos adequados de solução de conflitos; • conhecer a legislação de arbitragem; • aprender a mediação e a conciliação. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – NOÇÕES DE ARBITRAGEM TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – LEI DE ARBITRAGEM TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – MEDIAÇÃO E CONCILIAÇÃO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 154 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 155 TÓPICO 1 — NOÇÕES DE ARBITRAGEM UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Em nosso país prevalece a cultura da judicialização, ou seja, as pessoas tentam resolver seus conflitos levando suas demandas para o Poder Judiciário, às vezes de forma desnecessária. Em virtude disso, as demandas judiciais crescem ao longo dos anos, o que pode trazer uma lentidão nas análises e julgamentos, acarretando prazos extremamente longos, quase que intermináveis,e, ainda, na pior das hipóteses, a questão nem chega a ser julgada, devido à prescrição. No entanto, há alternativas para a resolução de conflitos, inclusive extrajudicialmente, o que levaria a uma redução das demandas feitas junto ao Poder Judiciário, tendo em vista que diversas contendas poderiam ser resolvidas por meio de meios alternativos. O Código de Processo Civil (Brasil, 2015), nos traz no § 3º do Art. 3º o seguinte: § 3º A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial. Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), nos afirmam que a opção pela solução extrajudicial de uma lide caberá às partes envolvidas através de um acordo, pois deriva da autonomia da vontade, inexistindo a necessidade de que o método escolhido esteja previsto em lei. São os denominados métodos adequados de solução de conflitos (MASC), a saber: • negociação; • mediação; • conciliação; • arbitragem; e • dispute boards. Na negociação, as partes por si mesmas procuram a solução do conflito, sem a interveniência de um terceiro, estranho às partes. Com relação à mediação e à conciliação, a diferença entre os instrumentos é sutil, pois, na mediação, o mediador, na sua neutralidade e imparcialidade, auxilia as partes na composição do conflito; enquanto na conciliação, o conciliador, neutro e imparcial, exerce um papel mais proativo na administração do diálogo, apresentando sugestões e buscando o acordo. 156 A arbitragem, por sua vez, representa forma de heterocomposição de conflitos, pois o terceiro, expert e imparcial (árbitro), por convenção privada das partes envolvidas, decide o conflito e não o juiz (o Estado). Os dispute boards, também conhecidos como Comitês de Resolução de Conflitos, foram utilizados de forma pioneira nos Estados Unidos na década de 70, durante a construção do Eisenhower Tunnel, no Colorado. Os dispute boards são órgãos colegiados, geralmente formados por três experts, indicados pelas partes no momento da celebração do contrato, que têm por objetivo acompanhar a sua execução, com poderes para emitir recomendações e/ou decisões, conforme o caso (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). 2 ARBITRAGEM A arbitragem é interpretada por diversos autores como um dos mais antigos meios de composição de conflitos através da heterocomposição, isto é, a solução do conflito por um terceiro imparcial, que pode ser exercido por um árbitro ou por um Tribunal Arbitral, escolhido pelas partes, que profere sentença com vistas a trazer uma solução para a controvérsia submetida a sua análise, nos limites estabelecidos na convenção de arbitragem (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021; SCAVONE JR., 2020). O processo de arbitragem também possui alguns princípios norteadores explícitos. São a boa-fé das partes, a igualdade das partes, o contraditório e a ampla participação das partes no processo, a celeridade e a imparcialidade do árbitro, além de seu livre convencimento (ALVES et al., 2017). 2.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA ARBITRAGEM Figueira Jr. (2019) relata que o instituto jurídico da arbitragem é um dos mais antigos de que se tem notícia na história do Direito e, particularmente, no que se refere à jurisdição ou justiça privada, é identificado na Babilônia por volta de 3.000 anos a.C., bem como na Grécia antiga e também em Roma. A seguir, de acordo com Figueira Jr. (2019), trazemos uma visão geral da evolução da arbitragem: • Numa etapa preliminar das civilizações, a justiça era praticada de mão própria ou autotutela, tendo em vista à fragilidade das instituições da época e na sua incapacidade de resolução dos conflitos de interesse existentes naqueles tempos, quer seja por falta de organização, quer seja por falta de autoridade. As funções da autoridade política do magistrado com a função de sacerdote eram confundidas na mesma pessoa, sendo identificada esta situação tanto na Grécia antiga quanto em Roma – inclusive durante o período monárquico e o regime republicano. 157 • Em seguida, dá-se a continuidade da chamada justiça privada, no entanto não mais diretamente pelo ofendido, e sim por grupo de pessoas da sociedade ou até mesmo através de terceiros designados especificamente para desfazer determinadas controvérsias. A justiça pública oferecida pelo Estado surge num momento histórico bem posterior. • A evolução da forma como os conflitos são solucionados surge em quatro etapas, a saber: ◦ i) a primeira etapa é a que traz a resolução das questões pela autotutela, que é o uso da força individual ou do grupo, sendo que os costumes, com o passar dos anos, foram firmando as regras para diferenciar a violência legítima da ilegítima; ◦ ii) a segunda etapa foi o arbitramento facultativo, no qual o ofendido resolve escolher, de comum acordo com a parte contrária, por receber uma indenização ou indicar um árbitro (que é um terceiro) para definir a indenização; ◦ iii) a terceira etapa é o chamado arbitramento obrigatório, que é determinado pelo Estado, pois as partes litigantes não indicavam árbitros de sua escolha para solucionar o conflito; neste caso, coube também ao Estado assegurar a execução forçada da sentença, caso a parte sucumbente não a cumprisse de forma espontânea; ◦ iv) a quarta etapa foi a justiça pública, desempenhada pelo Estado com o objetivo de solução dos conflitos, com execução forçada da sentença, caso necessário. No entanto, em regime de exceção, as partes tem a opção, ainda, de constituírem um árbitro. Considerando-se que a justiça privada antecedeu historicamente aos juízes ou tribunais estatais, é no Direito Romano que vamos encontrar as raízes mais profícuas do instituto da arbitragem ou do compromisso arbitral (FIGUEIRA JR., 2019). IMPORTANTE No entanto, caro acadêmico, é na Idade Média, que vamos encontrar a origem mais próxima do juízo arbitral, período em que o instituto foi bastante incrementado, tendo como causas: • a ausência de legislação ou sua excessiva dureza e truculência; • a ausência de proteções jurisdicionais; • a grande variedade de ordenamentos; • a fragilidade dos Estados; e • as divergências entre a Igreja e o Estado. 158 Figueira Jr. (2019) nos revela que, com o advento do século XII, a Idade Média passou a contar com diversos casos de arbitragem, como por exemplo: entre barões, proprietários feudais, cavaleiros, e soberanos distintos, nesse mesmo período também temos o surgimento da arbitragem comercial, à medida que os comerciantes preferiam que seus conflitos fossem dirimidos por árbitros que eles indicassem, porquanto mais rápidos e eficientes em relação aos tribunais oficiais. No direito lusitano medieval, mesmo antes de Portugal ser elevado à condição de reino, o instituto da arbitragem já estava presente. No Brasil, podemos verificar que a arbitragem está presente desde os tempos do Império, quando a matéria já era tratada na Constituição do Império de1824, que trazia a matéria no Art. 160, no Título destinado a tratar do Poder Judiciário, in verbis: “Nas cíveis, e nas penais civilmente intentadas, poderão as Partes nomear Juízes Árbitros. Suas sentenças serão executadas sem recurso, se assim o convencionarem as mesmas partes” (FIGUEIRA JR., 2019, p. 49). 2.2 ARBITRAGEM NO CENÁRIO ATUAL A evolução histórica nos evidencia que a arbitragem se consolidou no campo normativo como importante método extraestatal e adequado de solução de controvérsias. Nas relações entre particulares e, de forma crescente, nas relações que envolvem a Administração Pública, o juízo arbitral representa uma forma eficiente para resolução de disputas, o que demonstra a relevância do estudo da Lei de Arbitragem (SCHMIDT, FERREIRA & OLIVEIRA, 2021). No cenário no qual vivemos, de globalização e deformação de grandes blocos econômicos que possuem objetivos comuns previamente definidos e afinidades políticas, com tendência de acentuar-se paulatinamente, a arbitragem surge como um instrumento viável de pacificação social e mundialmente aceito para dirimir os litígios de maneira tecnicamente qualificada, rápida, menos onerosa e efetiva. Conforme Figueira Jr, (2019, p. 12), “sem dúvida, não é a única forma de solução desses conflitos, em face da possibilidade da instituição de tribunais supranacionais ou comuns; todavia, as dificuldades existentes para a formação desses órgãos não encontram qualquer paralelo com o juízo arbitral, sem contar que a existência daqueles não exclui a formação deste último”. 159 No Brasil, caro acadêmico, apesar da arbitragem estar presente em nosso sistema jurídico desde o Império, foi somente com o advento da Lei 9.307 (BRASIL, 1996) que a sua utilização passou a consolidar-se através da prática sempre crescente, seja por meio de instituições arbitrais ou de árbitros singulares ou colegiados, o que se deve à excelência e contemporaneidade da aludida norma de regência, porquanto em sintonia com as legislações de ponta da atualidade. INTERESSANTE A promulgação da Lei de Arbitragem no Brasil, que é a Lei 9.307 (BRASIL, 1996), conforme nos apontam Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), consolidou as normas de arbitragem, com a revogação dos dispositivos sobre o tema do Código Civil de 1916 e do Código de Processo Civil de 1973. Nada falou, contudo, sobre o emprego da arbitragem nos conflitos envolvendo a Administração Pública. Assim é que, nos anos seguintes, foram aprovadas leis diversas, autorizando o uso da via arbitral para solucionar conflitos relacionados a contratos administrativos, nos setores de infraestrutura. Nesse sentido, a Lei Geral de Telecomunicações, Lei nº 9.472 (BRASIL, 1997a) estabelece que o contrato de concessão deverá indicar o modo para solução extrajudicial das divergências contratuais (Art. 93, XV): Art. 93. O contrato de concessão indicará: [...] XV - o foro e o modo para solução extrajudicial das divergências contratuais. A Lei nº 9.478 (BRASIL, 1997b) (Lei do Petróleo) preconiza que são cláusulas essenciais, nos contratos de concessão do setor de óleo e gás, aquelas que dispõem sobre solução de controvérsias, relacionadas com o contrato e sua execução, inclusive a conciliação e a arbitragem internacional (Art. 43, X): Art. 43. O contrato de concessão deverá refletir fielmente as condições do edital e da proposta vencedora e terá como cláusulas essenciais: [...] X - as regras sobre solução de controvérsias, relacionadas com o contrato e sua execução, inclusive a conciliação e a arbitragem internacional; Também temos a Lei nº 10.233 (BRASIL, 2001), que criou a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) esclarece que devem constar, obrigatoriamente, dos contratos de concessão, como cláusulas essenciais, as regras sobre solução de controvérsias relacionadas com o contrato e sua execução, incluindo conciliação e arbitragem’ (Art. 35, XVI), entre outras que se seguiram: Art. 35. O contrato de concessão deverá refletir fielmente as condições 160 do edital e da proposta vencedora e terá como cláusulas essenciais, ressalvado o disposto em legislação específica, as relativas a: [...] XVI – regras sobre solução de controvérsias relacionadas com o contrato e sua execução, inclusive a conciliação e a arbitragem; A Lei 13.129 (BRASIL, 2015) (Reforma da Lei de Arbitragem), que alterou a Lei 9.307 (BRASIL, 1996) para, entre outras modificações na legislação então em vigor, admitir, de forma ampla, a arbitragem na Administração Pública (Art. 1º, §§ 1º e 2º; Art. 2º, § 3º), tratar da tutela cautelar e de urgência (Arts. 22-A e 22-B) e dispor sobre a carta arbitral (Art. 22-C): Art. 1º ................................................................... § 1º A administração pública direta e indireta poderá utilizar-se da arbitragem para dirimir conflitos relativos a direitos patrimoniais disponíveis. § 2º A autoridade ou o órgão competente da administração pública direta para a celebração de convenção de arbitragem é a mesma para a realização de acordos ou transações. [...] Art. 2º ........................................................................... § 3º A arbitragem que envolva a administração pública será sempre de direito e respeitará o princípio da publicidade. [...] Art. 22-A. Antes de instituída a arbitragem, as partes poderão recorrer ao Poder Judiciário para a concessão de medida cautelar ou de urgência. Parágrafo único. Cessa a eficácia da medida cautelar ou de urgência se a parte interessada não requerer a instituição da arbitragem no prazo de 30 (trinta) dias, contado da data de efetivação da respectiva decisão. Art. 22-B. Instituída a arbitragem, caberá aos árbitros manter, modificar ou revogar a medida cautelar ou de urgência concedida pelo Poder Judiciário. Parágrafo único. Estando já instituída a arbitragem, a medida cautelar ou de urgência será requerida diretamente aos árbitros Art. 22-C. O árbitro ou o tribunal arbitral poderá expedir carta arbitral para que o órgão jurisdicional nacional pratique ou determine o cumprimento, na área de sua competência territorial, de ato solicitado pelo árbitro. Parágrafo único. No cumprimento da carta arbitral será observado o segredo de justiça, desde que comprovada a confidencialidade estipulada na arbitragem 161 Com a promulgação da Lei 13.467 (BRASIL, 2017), que alterou a CLT, passou a ser admitida a estipulação de cláusula compromissória, desde que por iniciativa do empregado ou mediante a sua concordância expressa, nos contratos individuais de trabalho cuja remuneração seja superior a duas vezes o limite máximo estabelecido para os benefícios do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), na forma do Art. 507-A da CLT. Assim, caro acadêmico, vemos que a evolução histórica demonstra que a arbitragem se consolidou no campo normativo como importante método extraestatal e adequado de solução de controvérsias. Nas relações entre particulares e, de forma crescente, nas relações que envolvem a Administração Pública, o juízo arbitral representa uma forma eficiente para resolução de disputas, o que demonstra a relevância do estudo da Lei de Arbitragem (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021; FIGUEIRA JR., 2019). 2.3 CONCEITUAÇÃO DE ARBITRAGEM Scavone Jr. (2020, p. 2), define a arbitragem como “o meio privado, jurisdicional e alternativo de solução de conflitos decorrentes de direitos patrimoniais e disponíveis por sentença arbitral, definida como título executivo judicial e prolatada pelo árbitro, juiz de fato e de direito, normalmente especialista na matéria controvertida”. O autor complementa a definição, afirmando que, em outras palavras, “a arbitragem resulta de negócio jurídico mediante o qual as partes optam pela solução arbitral, abdicando da jurisdição estatal em razão dos seus direitos patrimoniais e disponíveis” (SCAVONE JR., 2020, P. 2). Para Kamel (2017) a arbitragem é uma modalidade extrajudicial de resolução de conflito, na qual um árbitro, que é um terceiro escolhido pelas partes, decide um litígio; seu uso é feito quando as partes decidem que não querem levar a lide ao Poder Judiciário, escolhendo a resolução arbitral, sendo, portanto, um método extrajudicial de solução de conflitos. Santos (2020) relata que a arbitragem é um procedimento extrajudicial para a resolução de conflitos, sendo o meio eficaz, seguro, sigiloso e técnico de solução definitiva de litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis, onde as partes elegem um árbitro, por meio de documento assinado, para proferir laudo arbitral. A arbitragem, como trazem Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021, p. 24): é um método heterocompositivoe extrajudicial de solução de conflitos, por meio do qual o terceiro imparcial (árbitro ou Tribunal Arbitral), escolhido pelas partes, profere sentença para solucionar a controvérsia submetida a sua análise, nos limites fixados na convenção de arbitragem. 162 Portanto, é uma forma heterocompositiva de resolução de conflitos, já que a decisão é de competência de um terceiro imparcial escolhido pelos interessados. Configura, ainda, solução extrajudicial, uma vez que a arbitragem envolve o exercício de jurisdição não estatal, cabendo ao expert, escolhido pelas partes, a resolução definitiva do litígio (SCHMIDT, FERREIRA E OLIVEIRA, 2021). Os meios para solução dos conflitos que surgem na sociedade são: 1- Heterocomposição: • Jurisdição estatal; • Arbitragem (jurisdição privada); 2- Autocomposição: • Conciliação; • Mediação; e, • Transação (Código Civil, Arts. 840 a 850). A jurisdição estatal e a arbitragem representam heterocomposi- ção. A heterocomposição é a solução do conflito pela atuação de um terceiro dotado de poder para impor, por sentença, a norma aplicável ao caso que lhe é apresentado. A solução através do Poder Judiciário (jurisdição estatal) decorre da atribuição siste- mática do Estado, que deve dizer o direito e, principalmente, impor a solução do conflito. Sendo assim, a solução judicial será dada pela heterocomposição (SCAVONE JR., 2020, p. 8). INTERESSANTE 2.4 PRINCÍPIOS DA ARBITRAGEM A arbitragem encontra-se submetida a alguns princípios consagrados, expressa ou implicitamente, na Lei nº 9.307/1996. Os autores Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), Santos (2020) e Scavone Jr. (2020) trazem alguns princípios aplicáveis à arbitragem, que destacamos a seguir: • Princípio da autonomia privada: confere às partes o poder da autorregulamentação e autodeterminação de seus interesses, em esfera arbitral, desde que não sejam contrários à ordem pública, aos bons costumes e às normas vigentes. • Princípio da boa-fé: veda o abuso de direito, o comportamento contraditório, o ato emulativo e/ou eivado de boa-fé, bem como alegação em juízo, por qualquer das partes que voluntariamente elegeram a esfera arbitral para solução de conflito. • Princípio da autonomia da cláusula da convenção de arbitragem em relação ao contrato: significa que, independentemente da nulidade do contrato, a cláusula da convenção arbitral é soberana, ou seja, a nulidade do contrato não implicará na nulidade da cláusula arbitral. 163 • Princípio da autonomia da vontade: a arbitragem é voluntária e a sua utilização depende de manifestação de vontade das partes, por meio da celebração da convenção de arbitragem (cláusula compromissória ou compromisso arbitral), na forma do Art. 3º da Lei de Arbitragem. • Princípio Competência-Competência: o árbitro é o juiz primeiro da sua própria competência. Assim, cabe ao árbitro, com prioridade ao Poder Judiciário, decidir, de ofício ou por provocação das partes, se possui competência para julgar o conflito, inclusive sobre a existência, validade e eficácia da convenção de arbitragem e do contrato que contenha a cláusula compromissória. • Princípio do contraditório: é o que chamamos do devido processo legal, ou seja, não há processo justo sem que se assegure à parte o direito ao contraditório. Por força do contraditório, as partes devem ser cientificadas de todos os atos do procedimento, desde a instauração da arbitragem, até a sentença arbitral final, para que possam se manifestar a respeito e ter os seus argumentos considerados pelo árbitro da causa. Tem a parte o direito de ser ouvida e de produzir as provas necessárias à demonstração da veracidade de suas alegações, assegurando-se sempre à parte adversa a possibilidade de contraditar as evidências produzidas. Assim, a comunicação dos atos processuais deverá ser feita com o máximo de diligência, mesmo que por acordo entre as partes ou por determinação da entidade arbitral, permitindo que os litigantes possam influenciar nas tomadas de decisões. • Princípio da igualdade das partes: os árbitros devem dispensar tratamento isonômico às partes durante todo o procedimento arbitral, inclusive na produção de provas, na escolha e nas impugnações dos árbitros, sendo vedada a discriminação odiosa ou desproporcional entre as partes. • Princípio da imparcialidade do árbitro: os árbitros devem atuar com imparcialidade durante todo o procedimento, revelando qualquer situação que possa trazer dúvida a respeito da sua independência ou imparcialidade. Esta revelação deverá ocorrer antes mesmo da sua aceitação da função de árbitro. Cabe, assim, reforçarmos a importância da imparcialidade do árbitro, mantendo-se distante dos interessados, isto é, não ser devedor ou credor das partes, sem quaisquer ligações entre elas, além de não ter não possuir interesse na lide. • Princípio do livre convencimento motivado: os árbitros possuem liberdade para avaliação e valoração das provas, com a prolação de decisão fundamentada sobre as questões suscitadas no procedimento arbitral. O julgamento a ser proferido pelo árbitro deverá ser feito com o seu livre convencimento a respeito das provas e das circunstâncias do procedimento arbitral. • Princípio da não revisão do mérito da sentença arbitral: não cabe ao Poder Judiciário rever o mérito da sentença arbitral. Destaca-se que, mesmo nos casos restritos de cabimento da ação anulatória da sentença arbitral, a atuação do Poder Judiciário restringe-se à eventual anulação da decisão para submeter o litígio a nova decisão do Tribunal Arbitral, não podendo o juiz substituir o árbitro no julgamento do mérito da causa. As hipóteses restritas de anulação da sentença arbitral relacionam-se aos casos de erros no procedimento e não à justiça material da decisão arbitral. 164 2.5 LIMITE GERAL IMPOSTO À POSSIBILIDADE DE SOLUÇÃO ARBITRAL Nos termos do Art. 1º da Lei nº 9.307 (BRASIL, 1996), Lei de Arbitragem, a arbitragem se limita à capacidade de contratar e aos direitos patrimoniais e disponíveis: Art. 1º As pessoas capazes de contratar poderão valer-se da arbitragem para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis. Para um melhor entendimento, caro acadêmico, podemos afirmar que os direitos são, sob o aspecto patrimonial, conforme Scavone Jr. (2020), divididos em: • Direitos patrimoniais; e, • Direitos não patrimoniais. Scavone Jr. (2020, p.12) nos diz que “entre os direitos de cunho patrimonial, encontramos as relações jurídicas de direito obrigacional, ou seja, aquelas que encontram sua origem nos contratos, nos atos ilícitos e nas declarações unilaterais de vontade”. Ao passo que, em relação aos direitos não patrimoniais são aqueles ligados aos direitos da personalidade, como o direito à vida, à honra, à imagem, ao nome e ao estado das pessoas, como, por exemplo, a capacidade, a filiação e o poder familiar, entre outros com a mesma natureza (SCAVONE JR., 2020). No entanto, para que possa ser adotada como meio de solução dos conflitos, além de se limitar aos direitos patrimoniais, a arbitragem ainda exige a existência de direitos disponíveis. A disponibilidade dos direitos está relacionada à possibilidade de alienação. Por exemplo, não é possível transacionar acerca do direito ao próprio corpo, à liberdade, à igualdade e ao direito à vida. As questões passíveis de arbitragem são aquelas que envolvem transações relativas a direitos patrimoniais disponíveis; portanto, não são passíveis de arbitragem questões penais, questões relativas ao estado das pessoas, bem como, alusivas à matéria tributária e direitos pessoais concernentes ao direito de família. IMPORTANTE 165 2.6 PROCEDIMENTO DA ARBITRAGEM De acordo com Figueira Jr. (2019), a arbitragem é instituída quando a nomeação for aceita pelo árbitro ou por todos os escolhidos, se forem vários, ou seja, e, portanto, neste momento é instaurado o processo arbitral, conforme Art. 19 daLei da Arbitragem (BRASIL, 1996): Art. 19. Considera-se instituída a arbitragem quando aceita a nomeação pelo árbitro, se for único, ou por todos, se forem vários. Assim, semelhantemente ao que ocorre no processo civil tradicional, a instauração da arbitragem terá como um de seus efeitos a interrupção da prescrição, fará litigiosa a coisa e induzirá a litispendência, conforme preceitua a Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996): Art. 19. [...] § 2º A instituição da arbitragem interrompe a prescrição, retroagindo à data do requerimento de sua instauração, ainda que extinta a arbitragem por ausência de jurisdição. Assim, de forma resumida, apresentamos as etapas do procedimento arbitral na Figura 1 a seguir: Figura 1 – etapas do procedimento arbitral Fonte: o autor Figueira Jr. (2019) e Scavone Jr. (2020) nos afirmam que o tipo de procedimento a ser aplicado no processo arbitral dependerá de três circunstâncias: • o rito do procedimento na convenção de arbitragem é definido pelas partes; • o órgão arbitral institucional ou entidade especializada definirá o procedimento, considerando a complexidade do litígio, ou pelo árbitro ou tribunal arbitral, conforme definido na convenção arbitral; • na ausência acerca da estipulação do procedimento, será disciplinado pelo árbitro ou colégio arbitral. 166 Ressalvados os procedimentos relativos às tutelas de urgência, o processo arbitral é essencialmente de conhecimento e, como tal, em linhas gerais, o rito observará quatro fases básicas: • postulatória; • ordinatória; • instrutória; e • fase decisória. Na primeira fase, as partes apresentam aos árbitros seus requerimentos com base nas relações fáticas ou jurídicas de direito civil ou comercial (sempre de natureza patrimonial disponível), violadas ou ameaçadas, cujos pedidos deverão estar em sintonia com a causa de pedir próxima e remota (fatos e fundamentos jurídicos do pedido). O pleito poderá ser apresentado por intermédio de advogado, que é o detentor natural da capacidade postulatória, ou diretamente pelos litigantes, facultando-lhes a lei a designação de terceiro que os represente ou a eles assista durante todo o procedimento arbitral ou em apenas certos atos. Antes mesmo que se instaure a primeira fase do procedimento arbitral, isto é, antes da apresentação dos requerimentos iniciais, e, portanto, da formação do contraditório e da relação jurídico-processual, o árbitro ou tribunal arbitral deverá, necessariamente, designar uma audiência preliminar de conciliação. As partes ou os árbitros não podem prescindir dessa audiência, que tem por escopo tentar a autocomposição, mesmo que os litigantes já tenham realizado tentativa pretérita frustrada, a qualquer título. Trata-se de fase procedimental obrigatória, pois bem sabe o legislador da importância e das vantagens da resolução do conflito de maneira pacífica. IMPORTANTE Se a audiência de conciliação for exitosa, a sentença homologatória consignará os termos do acordo, que conterá os requisitos do Art. 26 da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996), tratando-se, como as demais, de decisão irrecorrível. Não obtida a composição amigável em audiência preliminar de conciliação, o árbitro ou colégio arbitral dará seguimento ao processo, de acordo com o rito previamente estabelecido. Contudo, nada obsta que no curso do processo, em outras fases, se os árbitros entenderem conveniente ou se uma das partes manifestar o desejo de acordar, uma nova tentativa seja realizada. 167 No que tange aos atos das partes no processo arbitral, podemos dizer que com a instituição da arbitragem (o que se dá com a aceitação da nomeação pelo árbitro, ou por todos, se forem vários) inicia-se, no mundo jurídico, uma relação processual caracterizada por uma série de atos previamente definidos e regulados na convenção de arbitragem ou pelo órgão arbitral indicado pelos litigantes. São, portanto, os atos que se destinam a constituir, adquirir, resguardar ou modificar direitos ou deveres processuais. Esses atos são praticados pelos sujeitos integrantes da relação jurídico-processual arbitral e somente por eles: no caso do juízo arbitral, nós temos as partes litigantes, seus advogados, os árbitros e os auxiliares diversos da justiça privada (secretário, peritos, assessores etc.). Nos termos da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996): “Art. 22- Poderá o árbitro ou o tribunal arbitral tomar o depoimento das partes, ouvir testemunhas e determinar a realização de perícias ou outras provas que julgar necessárias, mediante requerimento das partes ou de ofício”. IMPORTANTE 2.7 SENTENÇA ARBITRAL Para não deixar qualquer dúvida quanto a sua natureza, Scavone Jr. (2020) nos diz que a lei determina que a decisão do árbitro constitui uma sentença e, como tal é dotada da mesma eficácia do provimento judicial transitado em julgado nos termos do Art. 31 da Lei de Arbitragem e deve ser proferida por escrito – Art. 24 da Lei de Arbitragem – (BRASIL, 1996). Lembre-se que o árbitro é “juiz de fato e de direito” e, nesta qualidade, nos termos dos Arts. 18 e 31 da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996), prolata sentença que constitui título executivo judicial (Art. 515, VII, do CPC). No entanto, como não tem poderes coercitivos, o cumprimento forçado da sentença dar-se-á pelo procedimento judicial. Scavone Jr (2020, p. 58) nos afirma que as sentenças arbitrais, assim como as judiciais, podem ser, portanto: a) Terminativas, de conteúdo meramente processual, quando, por exemplo, reconhecem a invalidade do compromisso arbitral ou o impedimento ou suspeição sem que haja possibilidade de substituição do árbitro, porque assim foi convencionado (Art. 12, I e II, da Lei de Arbitragem); b) Definitivas, aquelas que reconhecem o direito de uma das partes e podem ser, assim como as sentenças judiciais, condenatórias, constitutivas ou declaratórias. Sendo terminativa ou definitiva, quanto à abrangência, a sentença arbitral poderá ser: 168 a) parcial, nos termos do § 1º do Art. 23 da Lei de Arbitragem (Brasil, 1996), incluído pela Lei 13.129 (BRASIL, 2015), segundo o qual: “§ 1º Os árbitros poderão proferir sentenças parciais”. Com a sentença parcial, a parte interessada pode, desde logo, exigir o cumprimento daquilo que já foi decidido e prosseguir na parte que ainda dependa de decisão arbitral; b) total, na exata medida em que enfrentar a integralidade da pretensão deduzida no processo. 3 ÁRBITRO Quem poderá ser árbitro? Bem, o único requisito de caráter objetivo definido na Lei nº 9.307/1996 é que a pessoa sobre a qual recairá a indicação e exercerá as funções de árbitro esteja em gozo de sua plena capacidade civil, nada mais (FIGUEIRA JR., 2019). A confiabilidade que as partes haverão de depositar nos árbitros não chega a ser um requisito, por se tratar de um corolário ligado à própria escolha, tendo-se como certo que os litigantes não indicarão como árbitros pessoas não confiáveis ética, moral e profissionalmente (FIGUEIRA JR., 2019). 3.1 ÁRBITRO Os árbitros deverão ser pessoas capazes e que gozem da confiança das partes (Art. 13, caput, da Lei 9.307 (BRASIL, 1996): “Pode ser árbitro qualquer pessoa capaz e que tenha a confiança das partes”. É importante destacar que, nos termos do Art. 18 da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996), o árbitro é juiz de fato e de direito, prolata sentença que não está sujeita a recurso ou a homologação pelo Poder Judiciário, constituindo título executivo judicial. IMPORTANTE E uma empresa, que é pessoa jurídica, poderá ser nomeada como árbitra? Bem, de acordo com Scavone Jr. (2020), a doutrina não admite e costuma sustentar que o árbitro deve, obrigatoriamente, ser pessoa natural. No entanto, o referido autor traz um posicionamento diferente, pois o Art. 13 da Lei de Arbitragem, ao tratar do árbitro, apenas e tão somente exige que seja “pessoa capaz e que tenha a confiança das partes”. 169 Para Scavone Jr. (2020), fica evidenteque pessoa jurídica também é pessoa, dotada, igualmente, de personalidade jurídica que, aliás, é distinta daquela atribuída aos seus membros. Assim, na visão do citado autor, não se encontra qualquer óbice para que a pessoa jurídica seja árbitra desde que devidamente representada e de acordo com os seus atos constitutivos. Para evitar qualquer possibilidade de empate na votação, o que inviabilizaria por completo a solução da lide apresentada ao colégio arbitral, o número de componentes deverá sempre ser ímpar, com ou sem; nada impede, porém, que a nomeação seja em número par, hipótese em que os indicados ficam autorizados, por expressa previsão normativa, e, desde logo, a nomear mais um membro a compor o colégio arbitral, de maneira que o tribunal se forme com número ímpar de julgadores (FIGUEIRA JR, 2019). Pois bem, após a formação do colégio arbitral – o que se dá com a participação de três (mais comum), cinco ou mais árbitros –, os seus membros, por maioria simples, elegerão o presidente do tribunal (ou colégio). Não havendo consenso para a indicação, será designado presidente o mais idoso, independentemente da experiência, qualificação ou titulação – critério simples, porém objetivo (FIGUEIRA JR, 2019). Não podemos confundir o número de árbitros com as pessoas por eles convocadas para auxiliá-los na consecução dos trabalhos, quais sejam, os terceiros que exercerão o secretariado, o assessoramento, as perícias etc. O quantitativo de colaboradores à realização cabal do procedimento arbitral é indeterminado e dependerá apenas das necessidades do caso concreto. INTERESSANTE A escolha dos árbitros é feita pelas partes, correspondendo, pois, à essência da própria jurisdição privada, por decorrer logicamente da confiança que os litigantes neles depositam. Dessa maneira, a liberdade de escolha dos árbitros é o mote da jurisdição arbitral, sem o que o instituto não encontraria aceitação, credibilidade e a consequente respeitabilidade. Enquanto no juízo estatal o julgador é investido do poder jurisdicional diretamente pelo próprio Estado, no juízo arbitral, diferentemente, dá-se a investidura do árbitro pela manifestação de vontade das próprias partes (FIGUEIRA JR, 2019). Conforme Figueira Jr. (2019) nos diz, estabelece-se entre as partes e os árbitros uma relação contratual com características especiais (“contrato para arbitrar” ou “contrato de árbitro”) que tem por objeto a prestação da tutela jurisdicional privada para a resolução do conflito que lhe é apresentado (lide), de maneira a investir o escolhido nas funções de julgador que, por sua vez, assume a obrigação (de resultado) de proferir sentença de mérito. Percebe-se claramente que, em no juízo arbitral, dois contratos bem distintos são realizados: 170 • primeiramente, a convenção de arbitragem, que significa a submissão do litígio à jurisdição privada mediante acordo das partes; • e, em momento sucessivo, quando exsurge o conflito, o contrato do árbitro, atinente aos direitos e obrigações recíprocos entre os árbitros e partes, tratando-se de contrato autônomo, distinto da convenção arbitral e gerador de efeitos, mesmo após a prolação da sentença. Vê-se, se maneira recorrente, que o árbitro seja um especialista na matéria que está sendo objeto do litígio, sendo esta a recomendação dos experts. É comum que o árbitro seja um engenheiro, médico etc. No entanto, na prática, é recomendado ao menos um dos árbitros seja advogado ou formado em ciências jurídicas. A razão da recomendação, de resto evidente, se dá em função de possíveis nulidades no desenvolvimento do procedimento arbitral, que demanda conhecimento dos aspectos formais da Lei 9.307/1996 (SCAVONE JR., 2020). IMPORTANTE O principal requisito para o bom desempenho da função arbitral, de acordo com Scavone Jr. (2020) e Figueira Jr. (2019), está intimamente ligado com a escolha adequada do julgador ou julgadores pelos litigantes, que haverão de atentar-se não só aos requisitos genéricos e subjetivos da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996), mas também para a formação ética, moral, técnica ou científica dos árbitros, pois, como dissemos precedentemente, são essas as vigas mestras sobre as quais a confiança das partes encontra sustentação. Ninguém é árbitro por profissão, pois o árbitro é, acima de tudo, um profissional de destaque, reconhecido, bem-conceituado em determinada área do conhecimento, sendo este um forte balizador para a escolha do seu nome pelas partes. Portanto, ao concluir o ofício jurisdicional privado que lhe foi confiado pelos litigantes, despe-se o profissional dessa elevada função de julgar, e, por conseguinte, deixa de ser árbitro (SCAVONE JR., 2020; FIGUEIRA JR., 2019). 171 Neste tópico, você aprendeu: • A arbitragem é um dos mais antigos meios de composição de conflitos pela heterocomposição. • Os métodos adequados de solução de conflitos (MASC), são: negociação, mediação, conciliação, arbitragem e dispute boards. • A arbitragem se limita à capacidade de contratar e aos direitos patrimoniais e disponíveis. • O árbitro é juiz de fato e de direito, prolata sentença que não está sujeita a recurso ou a homologação pelo Poder Judiciário, constituindo título executivo judicial. RESUMO DO TÓPICO 1 172 1 A arbitragem é um dos mais antigos meios de composição de conflitos pela heterocomposição, ou seja, a solução do conflito por um terceiro imparcial (árbitro ou Tribunal Arbitral), escolhido pelas partes, que profere sentença para solucionar a controvérsia submetida a sua análise, nos limites fixados na convenção de arbitragem (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021; SCAVONE JR., 2020). Fonte: SCHMIDT, G. da R.; FERREIRA, D. l B.; OLIVEIRA, R. C. R. Comentários à Lei de Arbitragem. Rio de Janeiro: Forense; Método, 2021. SCAVONE JR., L. A. Arbitragem: mediação, conciliação e negociação. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020. Sobre este tema, analise as sentenças a seguir: I- No Brasil, apesar de a arbitragem estar presente em nosso sistema jurídico desde o Império, foi somente com o advento da Lei 9.307/1996 que a sua utilização passou a consolidar-se através da prática sempre crescente. II- Os meios para solução dos conflitos que surgem na sociedade são a heterocomposição e a autocomposição. III- A arbitragem é cabível em quaisquer hipóteses, destacando-se a capacidade de contratar e aos direitos patrimoniais e disponíveis. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a sentença I está correta. b) ( ) As sentenças I e II estão corretas. c) ( ) Somente a sentença III está correta. d) ( ) Somente a sentença II está correta. 2 Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021) nos afirmam que a opção pela solução extrajudicial de uma lide caberá às partes envolvidas através de um acordo, pois deriva da autonomia da vontade, inexistindo a necessidade de que o método escolhido esteja previsto em lei. São os denominados métodos adequados de solução de conflitos (MASC). Fonte: SCHMIDT, G. da R.; FERREIRA, D. l B.; OLIVEIRA, R. C. R. Comentários à Lei de Arbitragem. Rio de Janeiro: Forense; Método, 2021. AUTOATIVIDADE 173 A respeito desse tema, analise as sentenças a seguir: I- Somente a negociação e a mediação, podem ser considerados exemplos de MASC. II- Os dispute boards são órgãos colegiados, geralmente formados por três experts, indicados pelas partes no momento da celebração do contrato, que têm por objetivo acompanhar a sua execução, com poderes para emitir recomendações e/ ou decisões, conforme o caso. III- Na negociação, as próprias partes buscam a solução do conflito, sem a participação de um terceiro, estranho às partes. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a sentença I está correta. b) ( ) As sentenças II e III estão corretas. c) ( ) Somente a sentença III está correta. d) ( ) As sentenças I e III estão corretas. 3 De acordo com Figueira Jr. (2019), a arbitragemé instituída quando a nomeação for aceita pelo árbitro ou por todos os escolhidos, se forem vários, ou seja, e, portanto, nesse momento é instaurado o processo arbitral. Fonte: FIGUEIRA JR., J. D. Arbitragem. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019. A respeito desse tema, analise as sentenças a seguir: I- O processo arbitral é essencialmente de conhecimento e, como tal, em linhas gerais, o rito observará quatro fases básicas: postulatória, ordinatória, instrutória e fase decisória. II- Diferentemente ao que ocorre no processo civil tradicional, a instauração da arbitragem não terá seus efeitos no que tange à interrupção da prescrição. III- As questões que tratarem de direitos patrimoniais disponíveis não são passíveis de arbitragem. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a sentença II está correta. b) ( ) As sentenças I e III estão corretas. c) ( ) Somente a sentença III está correta. d) ( ) As sentenças II e III estão corretas. 174 4 Para não deixar qualquer dúvida quanto a sua natureza, Scavone Jr. (2020) nos diz que a lei determina que a decisão do árbitro constitui uma sentença e, como tal é dotada da mesma eficácia do provimento judicial transitado em julgado nos termos do Art. 31 da Lei de Arbitragem e deve ser proferida por escrito (Art. 24 da Lei de Arbitragem). Fonte: SCAVONE JR., L. A. Arbitragem: mediação, conciliação e negociação. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020. Discorra a respeito da classificação das sentenças arbitrais. 5 O árbitro é “juiz de fato e de direito” e, nessa qualidade, nos termos dos Arts. 18 e 31 da Lei de Arbitragem, prolata sentença que constitui título executivo judicial – Art. 515, VII, do CPC. Fonte: BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015a. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, 16 mar. 2015. Disponível em: http://twixar.me/rhxm. Acesso em: 3 jan. 2023. Discorra a respeito do árbitro. 175 LEI DE ARBITRAGEM UNIDADE 3 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, estamos no Tema de Aprendizagem 2, e nele trataremos a respeito da Lei de Arbitragem, a Lei nº 9.307, de 23 de setembro de 1996, sendo alterada posteriormente, em 2015, pela Lei nº 13.129 (BRASIL, 2015b). A Lei nº 9.307 (BRASIL, 1996), estabelece todas as normas relativas à arbitragem. Ela especifica que as pessoas podem se utilizar dessa ferramenta para acabar com problemas de ordem legal ligados a direitos patrimoniais disponíveis. Isso inclui órgãos tanto da administração direta quanto da administração indireta das três esferas governamentais. O processo de arbitragem também possui alguns princípios norteadores explícitos. São a boa-fé das partes, a igualdade das partes, o contraditório e a ampla participação das partes no processo, a celeridade e a imparcialidade do árbitro, além de seu livre convencimento (ALVES et al., 2017). Para ser um árbitro é necessário seguir o que estabelece a Lei nº 9.307 (BRASIL, 1996). De acordo com ela, se deve ter a confiança das partes envolvidas no processo, e a pessoa deve ser legalmente capaz. As partes podem efetuar a nomeação de um ou mais árbitros, mas sempre totalizando um número ímpar. Isso também vale para o número dos suplentes. A utilização de um número ímpar de árbitros evita a situação de empate nos julgamentos. As partes também podem convencionar que utilizarão um órgão arbitral institucional ou uma empresa que preste serviços de seleção de árbitros (ALVES et al., 2017). Um processo arbitral é finalizado com a emissão da sentença. Esta é firmada pelo árbitro ou pelo conjunto de árbitros, se houver. Para que ele seja finalizado, também é necessário que o relatório contenha os nomes de todas as partes e um breve resumo da causa geradora da lide. Devem constar ainda os fundamentos para a decisão tomada, em que se tomam como base todas as provas e ocorridos de fato e de direito (ALVES et al., 2017). Além desta introdução, que é o Subtema 1, abordaremos os Capítulos I e II da Lei de Arbitragem no Subtema 2, já os capítulos III e IV serão tratados no Subtema 3 e, por fim, no Subtema 4 será visto o Capítulo V da Lei de Arbitragem. 176 2 CAPÍTULOS I E II DA LEI DE ARBITRAGEM Neste subtema, abordaremos os capítulos I e II da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996), que tratam das Disposições Gerais e Da Convenção de Arbitragem e seus Efeitos, respectivamente. 2.1 CAPÍTULO I DA LEI DE ARBITRAGEM A Lei nº 9.307 (BRASIL, 1996) estabeleceu as normas relativas à arbitragem no Brasil. Nela, podemos identificar as pessoas podem fazer uso da arbitragem, com vistas a solucionar seus problemas de ordem legal ligados a direitos patrimoniais disponíveis. Nessa diretriz, também estão incluídos os órgãos públicos, tanto da administração direta, quanto da administração indireta, nas três esferas governamentais. O Capítulo I desta Lei será tratado neste subtema, em que transcrevemos os Art.s da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996) e comentaremos em seguida. Iniciaremos pelo Artigo 1º: LEI Nº 9.307, DE 23 DE SETEMBRO DE 1996. Dispõe sobre a arbitragem. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Capítulo I Disposições Gerais Art. 1º As pessoas capazes de contratar poderão valer-se da arbitragem para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis. § 1º A administração pública direta e indireta poderá utilizar-se da arbitragem para dirimir conflitos relativos a direitos patrimoniais disponíveis. § 2º A autoridade ou o órgão competente da administração pública direta para a celebração de convenção de arbitragem é a mesma para a realização de acordos ou transações. Acadêmico, como já estudamos no Tema de Aprendizagem 1, a arbitragem é um mecanismo extrajudicial de solução de litígios, conforme nos relatam Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), sendo um dos principais métodos adequados de solução de conflitos. De acordo com o Art. 1º da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996) supra, a opção pela solução extrajudicial de um litígio caberá as partes e deverá ser feita por acordo. Na arbitragem a disputa será submetida ao árbitro, a quem caberá decidir, em definitivo, o litígio instaurado, tendo por objetivo colocar fim à lide. 177 Com a promulgação da Lei 9.307 (BRASIL, 1996) consolidaram- se no Brasil as normas de arbitragem, no entanto, nada foi dito a respeito do emprego da arbitragem nos conflitos envolvendo a Administração Pública. Somente com a reforma da Lei de Arbitragem feita pela Lei 13.129 (BRASIL, 2015), que promoveu alterações na Lei 9.307 (BRASIL, 1996), é que, entre outras modificações na legislação então em vigor, foi admitida, de forma ampla, a arbitragem na Administração Pública, como se identifica no §§ 1º e 2º do Art. 1º. INTERESSANTE A solução arbitral somente pode envolver os litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis. Portanto, acadêmico, somente direitos passíveis de conversão monetária e de livre disposição pelos interessados podem ser submetidos à arbitragem. Excluem-se do juízo arbitral, por exemplo, as questões relativas aos direitos da personalidade (ex.: direito à vida, à honra), ao estado das pessoas (ex.: filiação, interdição, guarda) e ao exercício do poder de polícia do Estado (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). Vamos agora trazer o Artigo 2º da Lei 9.307 (BRASIL, 1996): Art. 2º A arbitragem poderá ser de direito ou de equidade, a critério das partes. § 1º Poderão as partes escolher, livremente, as regras de direito que serão aplicadas na arbitragem, desde que não haja violação aos bons costumes e à ordem pública. § 2º Poderão, também, as partes convencionar que a arbitragem se realize com base nos princípios gerais de direito, nos usos e costumes e nas regras internacionais de comércio. § 3º A arbitragem que envolva a administração pública será sempre de direito e respeitará o princípio da publicidade. Em conformidade com o Art.2º, citado, a arbitragem poderá ser, a critério das partes: • de direito; ou • de equidade. Mas o que isso significa? Bem, enquanto na arbitragem de direito os árbitros devem decidir a controvérsia com fundamento nas normas em vigor no ordenamento jurídico, na arbitragem por equidade a decisão é adotada com apoio, exclusivamente, nos critérios de justiça, de bom senso e de equilíbrio dos árbitros. Na arbitragem de direito, as partes podem, inclusive, escolher as normas jurídicas que serão aplicadas na solução da controvérsia, desde que não violem aos bons costumes e à ordem pública. As partes podem, ainda, convencionar que a arbitragem se realize com base nos princípios gerais de direito, nos usos e costumes e nas regras internacionais de comércio (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). 178 As partes possuem liberdade de escolher entre a arbitragem de direito ou por equidade, no entanto, quando arbitragem envolver a Administração Pública, esta deverá ser sempre de direito. IMPORTANTE A arbitragem na Administração Pública deve respeitar o princípio da publicidade, em obediência ao princípio constitucional, pois a publicidade e a transparência na administração pública são fundamentais para efetividade do controle social (sociedade civil) e institucional (Procuradorias estatais, Ministério Público, Tribunais de Contas etc.). 2.2 CAPÍTULO II DA LEI DE ARBITRAGEM O Capítulo 2 da Lei 9.307 (BRASIL, 1996), que trata da convenção de arbitragem e seus efeitos, será abordado neste subtema, onde transcrevemos os Art.s da citada Lei e comentaremos em seguida. Iniciaremos pelo Artigo 3º: Capítulo II Da Convenção de Arbitragem e seus Efeitos Art. 3º As partes interessadas podem submeter a solução de seus litígios ao juízo arbitral mediante convenção de arbitragem, assim entendida a cláusula compromissória e o compromisso arbitral. Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021) afirmam que a convenção de arbitragem é um acordo de vontades, por meio da qual as partes contratam que a solução de eventuais disputas relacionadas a direitos patrimoniais disponíveis será submetida ao juízo arbitral, excluindo-se a jurisdição estatal. Assim, acadêmico, em conformidade com o Art. 3º da Lei 9.307 (BRASIL, 1996), a convenção de arbitragem é gênero que se divide em duas espécies: • cláusula compromissória: “convenção através da qual as partes em um contrato comprometem-se a submeter à arbitragem os litígios que possam vir a surgir, relativamente a tal contrato” (Art. 4º); e • compromisso arbitral: “convenção através da qual as partes submetem um litígio à arbitragem de uma ou mais pessoas, podendo ser judicial ou extrajudicial” (Art. 9º). Enquanto a cláusula compromissória, de acordo com Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), é a estipulação contratual que dispõe que as controvérsias eventuais, indeterminadas e futuras serão resolvidas pelo juízo arbitral, o compromisso arbitral, por sua vez, é o ajuste que submete conflito, contratual ou extracontratual, já existente e determinado à solução arbitral. 179 Sigamos com a leitura do Art. 4º: Art. 4º A cláusula compromissória é a convenção através da qual as partes em um contrato comprometem-se a submeter à arbitragem os litígios que possam vir a surgir, relativamente a tal contrato. § 1º A cláusula compromissória deve ser estipulada por escrito, podendo estar inserta no próprio contrato ou em documento apartado que a ele se refira. § 2º Nos contratos de adesão, a cláusula compromissória só terá eficácia se o aderente tomar a iniciativa de instituir a arbitragem ou concordar, expressamente, com a sua instituição, desde que por escrito em documento anexo ou em negrito, com a assinatura ou visto especialmente para essa cláusula. § 3º (VETADO). § 4º (VETADO). Acadêmico, como acabamos de ver, a cláusula compromissória é a convenção por meio da qual as partes resolvem submeter à arbitragem eventuais e futuros litígios. Assim, ao fixarem a cláusula compromissória, as partes convencionam que as controvérsias advindas do contrato serão analisadas pelo juízo arbitral, afastando-se, por consequência, a jurisdição estatal. Cabe destacar que a cláusula compromissória, em regra geral, deverá ser feita por escrito, ou no próprio instrumento contratual ou em documento apartado que esteja vinculado ao contrato. A cláusula compromissória, conforme nos apresentam Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), se divide em duas categorias: • cláusula compromissória cheia (ou determinada): opção pela arbitragem, com a definição prévia de todas as questões necessárias à instituição do procedimento arbitral; e • cláusula compromissória vazia (indeterminada ou em branco): apenas define a submissão do contrato à arbitragem sem qualquer definição ou detalhamento sobre a instituição que irá gerir o procedimento arbitral ou quanto ao procedimento a ser seguido para a instauração da arbitragem. Nesse caso, a instauração da arbitragem dependerá de acordo posterior (compromisso arbitral) a ser firmado pelas partes ou, na sua falta, da intervenção do Poder Judiciário, já que nela estão ausentes os elementos mínimos necessários para a instituição da arbitragem. Abordaremos a seguir, acadêmicos, os Artigos 5º e 6º: Art. 5º Reportando-se as partes, na cláusula compromissória, às regras de algum órgão arbitral institucional ou entidade especializada, a arbitragem será instituída e processada de acordo com tais regras, podendo, igualmente, as partes estabelecer na própria cláusula, ou em outro documento, a forma convencionada para a instituição da arbitragem. 180 As partes podem estipular na cláusula compromissória ou no compromisso arbitral que as regras para instituição e processamento da arbitragem serão aquelas previstas no respectivo regulamento da entidade responsável pela administração da arbitragem. As entidades, câmaras ou instituições arbitrais são pessoas jurídicas de direito privado instituídas para administrar as arbitragens, na forma das normas previstas nos seus respectivos regulamentos, que deverão ser observadas pelas partes, árbitros e pela própria entidade arbitral (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). As funções das entidades arbitrais são predominantemente administrativas, englobando não apenas a prestação de serviços de secretaria, com alguma semelhança com um cartório judicial, como também a tomada de decisões nos procedimentos arbitrais, com a assessoria de arbitralistas altamente qualificados, de modo a assegurar o regular desenvolvimento da arbitragem, sobretudo até que se tenha Tribunal Arbitral (ou árbitro único, se for o caso) devidamente constituído. INTERESSANTE Art. 6º Não havendo acordo prévio sobre a forma de instituir a arbitragem, a parte interessada manifestará à outra parte sua intenção de dar início à arbitragem, por via postal ou por outro meio qualquer de comunicação, mediante comprovação de recebimento, convocando-a para, em dia, hora e local certos, firmar o compromisso arbitral. Parágrafo único. Não comparecendo a parte convocada ou, comparecendo, recusar-se a firmar o compromisso arbitral, poderá a outra parte propor a demanda de que trata o Art. 7º desta Lei, perante o órgão do Poder Judiciário a que, originariamente, tocaria o julgamento da causa (BRASIL, 1996). Acadêmico, a maneira de instituir a arbitragem pode ser convencionada na cláusula compromissória, que já vimos que podemos também chamá-la de cláusula cheia, ou no compromisso arbitral. No entanto, quando na hipótese de cláusula compromissória vazia, inexistir os elementos mínimos necessários para a instituição da arbitragem, a parte interessada notificará a outra parte para demonstrar a sua intenção de iniciar a arbitragem. Esta notificação poderá ser realizada por via postal ou qualquer outro meio idôneo de comunicação (meio eletrônico, por exemplo), mediante comprovação de recebimento, com a convocação da outra parte para firmar ocompromisso arbitral no dia, hora e local indicados (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). Analisando o Artigo 7º a seguir, depreendemos que, na ausência de celebração amigável (extrajudicial) do compromisso arbitral e havendo cláusula compromissória vazia, a parte interessada poderá propor ação judicial para lavratura do compromisso. 181 Art. 7º Existindo cláusula compromissória e havendo resistência quanto à instituição da arbitragem, poderá a parte interessada requerer a citação da outra parte para comparecer em juízo a fim de lavrar-se o compromisso, designando o juiz audiência especial para tal fim. § 1º O autor indicará, com precisão, o objeto da arbitragem, instruindo o pedido com o documento que contiver a cláusula compromissória. § 2º Comparecendo as partes à audiência, o juiz tentará, previamente, a conciliação acerca do litígio. Não obtendo sucesso, tentará o juiz conduzir as partes à celebração, de comum acordo, do compromisso arbitral. § 3º Não concordando as partes sobre os termos do compromisso, decidirá o juiz, após ouvir o réu, sobre seu conteúdo, na própria audiência ou no prazo de dez dias, respeitadas as disposições da cláusula compromissória e atendendo ao disposto nos arts. 10 e 21, § 2º, desta Lei. § 4º Se a cláusula compromissória nada dispuser sobre a nomeação de árbitros, caberá ao juiz, ouvidas as partes, estatuir a respeito, podendo nomear árbitro único para a solução do litígio. § 5º A ausência do autor, sem justo motivo, à audiência designada para a lavratura do compromisso arbitral, importará a extinção do processo sem julgamento de mérito. § 6º Não comparecendo o réu à audiência, caberá ao juiz, ouvido o autor, estatuir a respeito do conteúdo do compromisso, nomeando árbitro único. § 7º A sentença que julgar procedente o pedido valerá como compromisso arbitral (BRASIL, 1996). O objetivo da ação judicial é a formalização do compromisso arbitral, excluído da apreciação judicial o mérito da controvérsia. IMPORTANTE Leiamos, agora, o Artigo 8º: Art. 8º A cláusula compromissória é autônoma em relação ao contrato em que estiver inserta, de tal sorte que a nulidade deste não implica, necessariamente, a nulidade da cláusula compromissória. Parágrafo único. Caberá ao árbitro decidir de ofício, ou por provocação das partes, as questões acerca da existência, validade e eficácia da convenção de arbitragem e do contrato que contenha a cláusula compromissória (BRASIL, 1996). Este Art. nos traz a informação de que, mesmo que o contrato seja nulo ou anulável, a cláusula compromissória continua com sua validade intacta. Assim, exemplificando, numa eventual hipótese de a celebração de contrato ser fruto de corrupção (suborno, por exemplo), o julgamento por arbitragem não será prejudicado mesmo que os árbitros decidam pela nulidade do contrato (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). 182 O compromisso arbitral é tratado no Artigo 9º e, de acordo Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), é a convenção por meio da qual as partes submetem determinado litígio existente à arbitragem, podendo ser judicial ou extrajudicial. Sua celebração é feita após o surgimento do conflito contratual ou extracontratual. Art. 9º O compromisso arbitral é a convenção através da qual as partes submetem um litígio à arbitragem de uma ou mais pessoas, podendo ser judicial ou extrajudicial. § 1º O compromisso arbitral judicial celebrar-se-á por termo nos autos, perante o juízo ou tribunal, onde tem curso a demanda. § 2º O compromisso arbitral extrajudicial será celebrado por escrito particular, assinado por duas testemunhas, ou por instrumento público (BRASIL, 1996). O compromisso arbitral pode ser dividido em duas espécies: • judicial: implementado por decisão judicial; ou • extrajudicial: firmado pelas próprias partes, por instrumento particular, assinado por duas testemunhas, ou por instrumento público. Trataremos, neste momento, dos requisitos formais obrigatórios do compromisso arbitral nos termos constantes nos Artigos 10 e 11 da Lei de Arbitragem: Art. 10. Constará, obrigatoriamente, do compromisso arbitral: I - o nome, profissão, estado civil e domicílio das partes; II - o nome, profissão e domicílio do árbitro, ou dos árbitros, ou, se for o caso, a identificação da entidade à qual as partes delegaram a indicação de árbitros; III - a matéria que será objeto da arbitragem; e IV - o lugar em que será proferida a sentença arbitral. Art. 11. Poderá, ainda, o compromisso arbitral conter: I - local, ou locais, onde se desenvolverá a arbitragem; II - a autorização para que o árbitro ou os árbitros julguem por eqüidade, se assim for convencionado pelas partes; III - o prazo para apresentação da sentença arbitral; IV - a indicação da lei nacional ou das regras corporativas aplicáveis à arbitragem, quando assim convencionarem as partes; V - a declaração da responsabilidade pelo pagamento dos honorários e das despesas com a arbitragem; e VI - a fixação dos honorários do árbitro, ou dos árbitros. Parágrafo único. Fixando as partes os honorários do árbitro, ou dos árbitros, no compromisso arbitral, este constituirá título executivo extrajudicial; não havendo tal estipulação, o árbitro requererá ao órgão do Poder Judiciário que seria competente para julgar, originariamente, a causa que os fixe por sentença (BRASIL, 1996). Conforme transcrito anteriormente, o compromisso arbitral deverá conter, obrigatoriamente, os seguintes elementos formais: 183 • o nome, profissão, estado civil e domicílio das partes; • o nome, profissão e domicílio do árbitro, ou dos árbitros, ou, se for o caso, a identificação da entidade à qual as partes delegaram a indicação de árbitros; • a matéria que será objeto da arbitragem; • o lugar em que será proferida a sentença arbitral. Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021) destacam que: • A primeira exigência formal refere-se à identificação das partes, sendo relevante para definição dos limites subjetivos da arbitragem. • O segundo requisito formal permitirá que as partes indiquem no compromisso arbitral, desde logo, o árbitro (árbitro único) ou todos os árbitros (Tribunal Arbitral) que resolverão o litígio; é possível, também, que as partes identifiquem a entidade arbitral que ficará incumbida de indicar os árbitros. • O terceiro requisito formal a ser atendido no compromisso arbitral diz respeito à definição da matéria que será objeto da arbitragem. É informação importante para fixar os limites objetivos da arbitragem. Evidentemente, só podem ser submetidos ao juízo arbitral eventuais litígios que versem sobre direitos patrimoniais disponíveis. • O quarto requisito formal é a indicação do lugar em que será proferida a sentença arbitral. Em complemento ao Artigo 10, o Artigo 11 que nos diz que o compromisso arbitral poderá conter, ainda, os seguintes elementos: • local, ou locais, onde se desenvolverá a arbitragem; • autorização para que o árbitro ou os árbitros julguem por equidade, se assim for convencionado pelas partes; • prazo para apresentação da sentença arbitral; • indicação da lei nacional ou das regras corporativas aplicáveis à arbitragem, quando assim convencionarem as partes; • declaração da responsabilidade pelo pagamento dos honorários e das despesas com a arbitragem; • fixação dos honorários do árbitro, ou dos árbitros. Finalizando o Capítulo II, trazemos o Artigo 12, onde são tratadas as hipóteses de extinção do compromisso arbitral: Art. 12. Extingue-se o compromisso arbitral: I - escusando-se qualquer dos árbitros, antes de aceitar a nomeação, desde que as partes tenham declarado, expressamente, não aceitar substituto; II - falecendo ou ficando impossibilitado de dar seu voto algum dos árbitros, desde que as partes declarem, expressamente, não aceitar substituto; e III - tendo expirado o prazo a que se refere o Art. 11, inciso III, desde que a parte interessada tenha notificado o árbitro, ou o presidentedo tribunal arbitral, concedendo-lhe o prazo de dez dias para a prolação e apresentação da sentença arbitral (BRASIL, 1996). 184 O compromisso arbitral poderá ser extinto, primeiramente, de forma consensual pelas partes. No entanto, o Art. 12 da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996), de acordo com Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), elencam três hipóteses específicas de extinção do compromisso arbitral, que independem da vontade das partes: • A primeira hipótese de extinção do compromisso arbitral é a dispensa de qualquer dos árbitros indicados, antes de aceitar a nomeação, desde que as partes tenham declarado na própria convenção, expressamente, que não aceitam substituto. • A segunda hipótese de extinção do compromisso é o falecimento ou a impossibilidade de votar de algum dos árbitros, também desde que as partes tenham declarado, expressamente, não aceitar substituto. • A terceira hipótese de extinção é o transcurso do prazo convencional ou legal para proferir a sentença arbitral, desde que a parte interessada tenha notificado o árbitro, ou o presidente do Tribunal Arbitral, concedendo-lhe o prazo de dez dias para a prolação e apresentação da sentença arbitral. 3 CAPÍTULOS III E IV DA LEI DE ARBITRAGEM Neste subtema, abordaremos o capítulo III, que trata dos árbitros e o capítulo IV que aborda o procedimento arbitral, da Lei 9.307 (BRASIL, 1996). 3.1 CAPÍTULO III DA LEI DE ARBITRAGEM O Capítulo III da Lei 9.307 (BRASIL, 1996), que trata dos árbitros, será abordado neste subtema, onde transcrevemos os Art.s da citada Lei e comentaremos em seguida. Iniciaremos pelo Artigo 13: Art. 13. Pode ser árbitro qualquer pessoa capaz e que tenha a confiança das partes. § 1º As partes nomearão um ou mais árbitros, sempre em número ímpar, podendo nomear, também, os respectivos suplentes. § 2º Quando as partes nomearem árbitros em número par, estes estão autorizados, desde logo, a nomear mais um árbitro. Não havendo acordo, requererão as partes ao órgão do Poder Judiciário a que tocaria, originariamente, o julgamento da causa a nomeação do árbitro, aplicável, no que couber, o procedimento previsto no Art. 7º desta Lei. § 3º As partes poderão, de comum acordo, estabelecer o processo de escolha dos árbitros, ou adotar as regras de um órgão arbitral institucional ou entidade especializada. § 4º Sendo nomeados vários árbitros, estes, por maioria, elegerão o presidente do tribunal arbitral. Não havendo consenso, será designado presidente o mais idoso. § 4º As partes, de comum acordo, poderão afastar a aplicação de dispositivo do regulamento do órgão arbitral institucional ou entidade especializada que limite a escolha do árbitro único, coarbitro ou 185 presidente do tribunal à respectiva lista de árbitros, autorizado o controle da escolha pelos órgãos competentes da instituição, sendo que, nos casos de impasse e arbitragem multiparte, deverá ser observado o que dispuser o regulamento aplicável. § 5º O árbitro ou o presidente do tribunal designará, se julgar conveniente, um secretário, que poderá ser um dos árbitros. § 6º No desempenho de sua função, o árbitro deverá proceder com imparcialidade, independência, competência, diligência e discrição. § 7º Poderá o árbitro ou o tribunal arbitral determinar às partes o adiantamento de verbas para despesas e diligências que julgar necessárias (BRASIL, 1996). Acadêmico, a partir da leitura do Art. 13 supracitado, podemos depreender a existência de dois requisitos para o exercício da função de árbitro: • que a pessoa seja capaz; e • que seja de confiança das partes. O árbitro, conforme comentam Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), é juiz de fato e de direito para a causa, e que a sentença arbitral constitui título executivo judicial, à luz do Art. 18 da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996), e, no exercício da função, encontra- se equiparado aos agentes públicos, para os efeitos da legislação penal, nos exatos termos do Art. 17 do diploma arbitral. Efeito disso é que o árbitro pode ser enquadrado na tipificação dos crimes contra a Administração Pública, a saber: concussão, corrupção passiva e prevaricação, conforme dispõem os Arts. 312 e seguintes e 330 a 333 do Código Penal. Somente pode ser árbitro a pessoa capaz, na forma do Código Civil brasileiro. Por conseguinte, não podem ser árbitros os relativamente e, menos ainda, os absolutamente incapazes. IMPORTANTE Portanto, no âmbito da Lei em estudo, qualquer pessoa física, desde que de confiança das partes, poderá ser escolhida para julgar uma controvérsia que trate sobre direitos patrimoniais disponíveis. Exemplos: advogados, engenheiros, contadores, futebolistas, youtubers. Tampouco, não há exigência de formação acadêmica para a nomeação. Inclusive, a depender da matéria técnica litigiosa, pode ser recomendável a indicação de engenheiro, contador ou algum outro especialista. Mesmo o analfabeto pode ser árbitro, ainda que isso seja bastante improvável. Também o estrangeiro, ainda que não conheça o vernáculo, pode ser árbitro, sem qualquer restrição, o que, aliás, ocorre corriqueiramente, até porque as partes podem livremente escolher o idioma que será utilizado no procedimento arbitral (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). 186 Veremos agora, o Artigo 14, que tratará do impedimento, suspeição e o dever de revelação: Art. 14. Estão impedidos de funcionar como árbitros as pessoas que tenham, com as partes ou com o litígio que lhes for submetido, algumas das relações que caracterizam os casos de impedimento ou suspeição de juízes, aplicando-se lhes, no que couber, os mesmos deveres e responsabilidades, conforme previsto no Código de Processo Civil. § 1º As pessoas indicadas para funcionar como árbitro têm o dever de revelar, antes da aceitação da função, qualquer fato que denote dúvida justificada quanto à sua imparcialidade e independência. § 2º O árbitro somente poderá ser recusado por motivo ocorrido após sua nomeação. Poderá, entretanto, ser recusado por motivo anterior à sua nomeação, quando: a) não for nomeado, diretamente, pela parte; ou b) o motivo para a recusa do árbitro for conhecido posteriormente à sua nomeação (BRASIL, 1996). Acadêmico, podemos verificar que o Art. supracitado trata das hipóteses nas quais o árbitro poderá ser considerado parcial e, portanto, passível de arguição de recusa por uma das partes. Aplica-se, nos termos descritos no dispositivo legal, as regras de impedimento e suspeição previstas nos Arts. 144 e 145 do Código de Processo Civil, uma vez que, nos termos do Art. 18 da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996), o árbitro é considerado juiz de fato e de direito, equiparado, na forma do Art. 17 da Lei, aos funcionários públicos. O árbitro, conforme Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), deverá revelar, por escrito, toda e qualquer situação que, em sua percepção (e aos olhos das partes), possa constituir possível conflito de interesses. E mais: na dúvida, é sempre melhor revelar. A não revelação pode dar a aparência, sob a perspectiva de uma das partes, de tentativa dolosa de ocultar a informação e, por consequência, da própria parcialidade do árbitro. A finalidade maior do dever de revelação do árbitro é gerar certeza quanto a sua idoneidade e assegurar, com isso, a validade da sentença que será expedida. O dever de revelar se relaciona a fatos anteriores a instauração do procedimento arbitral, a fatos cujas partes tomem conhecimento durante o procedimento e, até mesmo, a fatos posteriores à sentença, os quais podem lastrear eventual ação anulatória de sentença arbitral. IMPORTANTE 187 No que se refere à recusa, é direito da parte impugnar o árbitro, impedido ou suspeito, rejeitando-se as impugnações inconsistentes e acolhendo as impugnações justificadas. A seguir, o Art. 15 abordará a arguição de recusa, trazendo os requisitos formais e procedimento e o Art. 16 versará a respeito das hipóteses e do procedimento inerentes à substituição do árbitro: Art.15. A parte interessada em arguir a recusa do árbitro apresentará, nos termos do Art. 20, a respectiva exceção, diretamente ao árbitro ou ao presidente do tribunal arbitral, deduzindo suas razões e apresentando as provas pertinentes. Parágrafo único. Acolhida a exceção, será afastado o árbitro suspeito ou impedido, que será substituído, na forma do Art. 16 desta Lei (BRASIL, 1996). Este artigo indica os requisitos formais da arguição de recusa de árbitro, por impedimento ou suspeição, com referência ao procedimento estabelecido pelo Art. 20 da Lei de Arbitragem (que estabelece que a arguição deve ser apresentada na primeira oportunidade após a instituição da arbitragem). De resto, conforme nos relatam Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), a lei exige que a arguição de recusa seja acompanhada: • de fundamentação: as razões que justificam a recusa; e • das provas pertinentes: com vistas a comprovar os fatos que dão suporte à impugnação, evidenciando a causa de impedimento ou suspeição e, por conseguinte, a ausência de imparcialidade do árbitro. Art. 16. Se o árbitro escusar-se antes da aceitação da nomeação, ou, após a aceitação, vier a falecer, tornar-se impossibilitado para o exercício da função, ou for recusado, assumirá seu lugar o substituto indicado no compromisso, se houver. § 1º Não havendo substituto indicado para o árbitro, aplicar-se-ão as regras do órgão arbitral institucional ou entidade especializada, se as partes as tiverem invocado na convenção de arbitragem. § 2º Nada dispondo a convenção de arbitragem e não chegando as partes a um acordo sobre a nomeação do árbitro a ser substituído, procederá a parte interessada da forma prevista no Art. 7º desta Lei, a menos que as partes tenham declarado, expressamente, na convenção de arbitragem, não aceitar substituto (BRASIL, 1996). O árbitro poderá recusar a sua indicação, antes da aceitação de sua nomeação sem a necessidade de apresentar quaisquer justificativas. Agora, uma vez aceita a indicação, o árbitro passará a ter vínculo com as partes e a recusa na continuidade da atividade dependerá da correspondente justificativa. Como as partes já despenderam recursos, o árbitro pode, teoricamente, responder pelas perdas e danos que causar com o abandono das tarefas. Isso, contudo, não tem precedente na prática da arbitragem (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). 188 O Art. 17 da Lei 9.307 (Brasil, 1996) nos diz o seguinte: “os árbitros, quando no exercício de suas funções ou em razão delas, ficam equiparados aos funcionários públicos, para os efeitos da legislação penal”. Constatamos a partir desta leitura, acadêmico, a responsabilidade civil dos árbitros, fazendo sua equiparação aos funcionários públicos para efeitos da legislação penal (Art. 327 do Código Penal). Portanto, os árbitros, no exercício de suas funções, poderão, em caso de desvio de conduta, incorrer nos crimes contra a administração pública, como concussão, corrupção e prevaricação, tipificados nos Arts. 316, 317 e 319 do Código Penal. Da mesma forma, os árbitros podem ser vítimas de delitos praticados contra agentes públicos, por exemplo, o crime de desobediência, tipificado no Art. 330 do Código Penal. O principal problema criminal que pode surgir na arbitragem está no crime de corrupção passiva, com o recebimento de alguma vantagem pecuniária ou indevida para que o árbitro prolate sentença parcial ou definitiva. Em tal hipótese, cabe ação anulatória da sentença arbitral, sendo o ônus da prova da parte que o alegou (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). Por fim, o Art. 18 desta Lei em estudo, encerra o Capítulo III: “Art. 18. O árbitro é juiz de fato e de direito, e a sentença que proferir não fica sujeita a recurso ou à homologação pelo Poder Judiciário”. A sentença arbitral é título executivo judicial, e faz coisa julgada, tal e qual a sentença judicial, não cabendo, no entanto, execução provisória. A jurisdição arbitral deve ser exercida dentro dos limites da convenção de arbitragem, sob pena de anulação da sentença arbitral no judiciário. Essa é uma das hipóteses de maior incidência de anulação de sentença arbitral no Poder Judiciário. Afirmar que o árbitro é juiz de fato e de direito para a causa significa dizer que, no exercício de sua função, é equiparado ao magistrado, sem possuir, contudo, os mesmos poderes e as mesmas prerrogativas (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). 3.2 CAPÍTULO IV DA LEI DE ARBITRAGEM O Capítulo IV da Lei 9.307 (BRASIL, 1996), que tratará do procedimento arbitral e será abordado neste subtema, onde transcrevemos os Art.s da citada Lei e comentare- mos em seguida. Iniciaremos pelo Art. 19: Art. 19. Considera-se instituída a arbitragem quando aceita a nomeação pelo árbitro, se for único, ou por todos, se forem vários. § 1º Instituída a arbitragem e entendendo o árbitro ou o tribunal arbitral que há necessidade de explicitar questão disposta na convenção de arbitragem, será elaborado, juntamente com as partes, adendo firmado por todos, que passará a fazer parte integrante da convenção de arbitragem. 189 § 2º A instituição da arbitragem interrompe a prescrição, retroagindo à data do requerimento de sua instauração, ainda que extinta a arbitragem por ausência de jurisdição (BRASIL, 1996). O Art. 19 supracitado, acadêmico, trata especificamente da instauração da arbitragem. De acordo com os autores Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021), o procedimento arbitral pode ser dividido em três momentos: • instauração; • organização; e • desenvolvimento. Em seguida, temos o Art. 20 que tratará das arguições iniciais no procedimento arbitral e preclusão: Art. 20. A parte que pretender arguir questões relativas à competência, suspeição ou impedimento do árbitro ou dos árbitros, bem como nulidade, invalidade ou ineficácia da convenção de arbitragem, deverá fazê-lo na primeira oportunidade que tiver de se manifestar, após a instituição da arbitragem. § 1º Acolhida a argüição de suspeição ou impedimento, será o árbitro substituído nos termos do Art. 16 desta Lei, reconhecida a incompetência do árbitro ou do tribunal arbitral, bem como a nulidade, invalidade ou ineficácia da convenção de arbitragem, serão as partes remetidas ao órgão do Poder Judiciário competente para julgar a causa. § 2º Não sendo acolhida a argüição, terá normal prosseguimento a arbitragem, sem prejuízo de vir a ser examinada a decisão pelo órgão do Poder Judiciário competente, quando da eventual propositura da demanda de que trata o Art. 33 desta Lei (BRASIL, 1996). De acordo com o Art. 20 supracitado, a parte que pretender arguir questões relativas à competência, suspeição ou impedimento do(s) árbitro(s), bem como nulidade, invalidade ou ineficácia da convenção de arbitragem, deverá fazê-lo na primeira oportunidade após a instituição da arbitragem. Acadêmico, agora, vamos analisar o Art. 21: Art. 21. A arbitragem obedecerá ao procedimento estabelecido pelas partes na convenção de arbitragem, que poderá reportar-se às regras de um órgão arbitral institucional ou entidade especializada, facultando-se, ainda, às partes delegar ao próprio árbitro, ou ao tribunal arbitral, regular o procedimento. § 1º Não havendo estipulação acerca do procedimento, caberá ao árbitro ou ao tribunal arbitral discipliná-lo. § 2º Serão, sempre, respeitados no procedimento arbitral os princípios do contraditório, da igualdade das partes, da imparcialidade do árbitro e de seu livre convencimento. § 3º As partes poderão postular por intermédio de advogado, respeitada, sempre, a faculdade de designar quem as represente ou assista no procedimento arbitral. § 4º Competirá ao árbitro ou ao tribunal arbitral, no início do procedimento, tentar a conciliação das partes, aplicando-se, no que couber, o Art. 28 desta Lei (BRASIL, 1996). 190 O Art. 21 nos evidencia as modalidades e regrasdo procedimento arbitral. Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021) afirmam que sempre deverá prevalecer a autonomia da vontade das partes na escolha das regras aplicáveis ao procedimento, cabendo ao árbitro, na hipótese de omissão, fixar o procedimento, sempre com respeito à garantia do devido processo legal. As partes e os árbitros deverão observar as especificidades de cada disputa ao disciplinarem o procedimento arbitral. A escolha mais usual é a estipulação de cláusula compromissória reportando-se às regras de uma instituição arbitral, ante a expertise que possuem na administração de procedimentos arbitrais. O § 2º do Art. 21 da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996), consagra os princípios fundamentais do procedimento arbitral, quais sejam: o contraditório, a igualdade das partes, a imparcialidade do árbitro e o livre convencimento. Diferentemente do processo judicial, em que a regra é que a parte se faça representar, obrigatoriamente, por advogado, o § 3º do Art. 21 da Lei de Arbitragem (BRASIL, 1996) diz que “as partes poderão postular por intermédio de advogado”, o que revela uma faculdade; e não uma imposição legal. Podem, mas não estão obrigadas. Prevalece, mais uma vez aqui, a autonomia privada (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). Acadêmico, prosseguindo com nosso estudo da Lei 9.307 (BRASIL, 1996), o Art. 22 tratará da produção de provas no procedimento arbitral: Art. 22. Poderá o árbitro ou o tribunal arbitral tomar o depoimento das partes, ouvir testemunhas e determinar a realização de perícias ou outras provas que julgar necessárias, mediante requerimento das partes ou de ofício. § 1º O depoimento das partes e das testemunhas será tomado em local, dia e hora previamente comunicados, por escrito, e reduzido a termo, assinado pelo depoente, ou a seu rogo, e pelos árbitros. § 2º Em caso de desatendimento, sem justa causa, da convocação para prestar depoimento pessoal, o árbitro ou o tribunal arbitral levará em consideração o comportamento da parte faltosa, ao proferir sua sentença; se a ausência for de testemunha, nas mesmas circunstâncias, poderá o árbitro ou o presidente do tribunal arbitral requerer à autoridade judiciária que conduza a testemunha renitente, comprovando a existência da convenção de arbitragem. § 3º A revelia da parte não impedirá que seja proferida a sentença arbitral. § 4º (Revogado pela Lei nº 13.129, de 2015) § 5º Se, durante o procedimento arbitral, um árbitro vier a ser substituído fica a critério do substituto repetir as provas já produzidas (BRASIL, 1996). Schmidt, Ferreira e Oliveira (2021) afirmam que há grandes diferenças entre o procedimento arbitral e o processo judicial, tendo em vista que cada um possui suas diferenças e especificidades. Isso se reproduz, no geral, na mecânica da produção de provas. Sistemas distintos, com regras e práticas distintas. Na arbitragem, não se aplica o Código de Processo Civil. É admitido na arbitragem qualquer meio de prova, típico ou atípico, como: 191 • a produção de prova técnica (perícia); • realização de vistoria; • apresentação de documentos; • oitiva de testemunhas; • colheita de depoimento pessoal. É possível agrupar os principais meios de prova, na arbitragem, em quatro grandes grupos: • produção de documentos; • depoimento de testemunhas do fato (escrito ou oral); • opiniões de experts (por escrito ou oral); e • inspeção do objeto em disputa. Com as alterações trazidas pela Lei 13.129 (2015), foi incluído o Capítulo 4-A e 4-B, com os Arts 22-A, 22-B e 22-C, a seguir transcritos: CAPÍTULO IV-A DAS TUTELAS CAUTELARES E DE URGÊNCIA Art. 22-A. Antes de instituída a arbitragem, as partes poderão recorrer ao Poder Judiciário para a concessão de medida cautelar ou de urgência. Parágrafo único. Cessa a eficácia da medida cautelar ou de urgência se a parte interessada não requerer a instituição da arbitragem no prazo de 30 (trinta) dias, contado da data de efetivação da respectiva decisão (BRASIL, 1996). Neste Art. 22-A, são tratadas as tutelas de urgência na arbitragem, os requisitos para o deferimento da tutela de urgência e o prazo para a apresentação do requerimento de instauração da arbitragem. Assim, antes de instituída a arbitragem, com a nomeação dos árbitros, a competência para decidir sobre os pedidos de tutela de urgência é entregue ao Judiciário, salvo havendo a previsão, no regulamento da câmara eleita, da figura do árbitro de emergência. Art. 22-B. Instituída a arbitragem, caberá aos árbitros manter, modificar ou revogar a medida cautelar ou de urgência concedida pelo Poder Judiciário. Parágrafo único. Estando já instituída a arbitragem, a medida cautelar ou de urgência será requerida diretamente aos árbitros (BRASIL, 1996). De acordo com o Art. 22-B, uma vez nomeado e confirmado os árbitros, estes terão jurisdição plena sobre a causa, competindo-lhe examinar não só o mérito da demanda, mas também pedidos de tutela de urgência (novos ou anteriores), não sendo mais lícito às partes propor tal medida perante o Poder Judiciário (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). 192 CAPÍTULO DA CARTA ARBITRAL Art. 22-C. O árbitro ou o tribunal arbitral poderá expedir carta arbitral para que o órgão jurisdicional nacional pratique ou determine o cumprimento, na área de sua competência territorial, de ato solicitado pelo árbitro. Parágrafo único. No cumprimento da carta arbitral será observado o segredo de justiça, desde que comprovada a confidencialidade estipulada na arbitragem (BRASIL, 1996). Acadêmico, com a reforma da Lei 9.307 (BRASIL, 1996), feita pela da Lei 13.129 (BRASIL, 2015), foi instituída a carta arbitral, que é um instrumento análogo à carta precatória, sendo um instrumento formal voltado para auxiliar a cooperação entre os juízos arbitral e estatal. 4 CAPÍTULOS V E VI DA LEI DE ARBITRAGEM Neste subtema, abordaremos o capítulo V, que trata da sentença judicial e o capítulo VI, que trata do reconhecimento e execução de sentenças arbitrais estrangeiras, da Lei 9.307 (BRASIL, 1996). 4.1 CAPÍTULO V DA LEI DE ARBITRAGEM O Capítulo V da Lei 9.307 (BRASIL, 1996), que trata da sentença arbitral, será abordado neste subtema, onde transcrevemos os Art.s da citada Lei e comentaremos em seguida. Iniciaremos pelo Art. 23: Art. 23. A sentença arbitral será proferida no prazo estipulado pelas partes. Nada tendo sido convencionado, o prazo para a apresentação da sentença é de seis meses, contado da instituição da arbitragem ou da substituição do árbitro. § 1º Os árbitros poderão proferir sentenças parciais. § 2º As partes e os árbitros, de comum acordo, poderão prorrogar o prazo para proferir a sentença final (BRASIL, 1996). Da leitura do caput do Art. 23, depreende-se que o prazo para expedir a sentença arbitral poderá ser livremente convencionado pelas partes. Na ausência de convenção sobre o tema, a sentença arbitral deverá ser proferida em até seis meses, contados da instituição da arbitragem ou, se for o caso, da substituição do árbitro. Tal prazo poderá ser prorrogado. A sentença parcial, que se caracteriza pelo julgamento do litígio por etapas, permite a fragmentação da solução do mérito da disputa, sempre que a resolução parte das pretensões deduzidas pelas partes seja interessante (financeiramente, inclusive), ao menos para uma delas, com vistas a facilitar o acordo entre as partes (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). 193 Continuando com nosso estudo, o Art. 24 traz os requisitos formais da sentença arbitral: Art. 24. A decisão do árbitro ou dos árbitros será expressa em documento escrito. § 1º Quando forem vários os árbitros, a decisão será tomada por maioria. Se não houver acordo majoritário, prevalecerá o voto do presidente do tribunal arbitral. § 2º O árbitro que divergir da maioria poderá, querendo, declarar seu voto em separado (BRASIL, 1996). Vimos que a forma escrita é requisitoessencial da sentença arbitral. Efeito disso é que, se for prolatada em audiência, por via oral, deve ser reduzida a termo e assinada pelos árbitros, sob pena de nulidade (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). O Art. 25 foi revogado pela Lei 13.129 (BRASIL, 2015). O Art. 26 evidencia os requisitos essenciais (formais) da sentença arbitral: Art. 26. São requisitos obrigatórios da sentença arbitral: I - o relatório, que conterá os nomes das partes e um resumo do litígio; II - os fundamentos da decisão, onde serão analisadas as questões de fato e de direito, mencionando-se, expressamente, se os árbitros julgaram por eqüidade; III - o dispositivo, em que os árbitros resolverão as questões que lhes forem submetidas e estabelecerão o prazo para o cumprimento da decisão, se for o caso; e IV - a data e o lugar em que foi proferida. Parágrafo único. A sentença arbitral será assinada pelo árbitro ou por todos os árbitros. Caberá ao presidente do tribunal arbitral, na hipótese de um ou alguns dos árbitros não poder ou não querer assinar a sentença, certificar tal fato (BRASIL, 1996). Da mesma forma como se dá na sentença judicial, que possui seus elementos essenciais previstos no Art. 489 do CPC, a sentença arbitral deve respeitar a forma escrita e, de acordo com o Art. 26 supra, deverá conter, obrigatoriamente: • relatório; • fundamentação; • dispositivo; e • data e lugar em que foi proferida. O não atendimento dos requisitos indicados anteriormente acarretará a nulidade da sentença arbitral (SCHMIDT; FERREIRA; OLIVEIRA, 2021). 194 As despesas e custas incorridas no processo arbitral são tratados no Art. 27: Art. 27. A sentença arbitral decidirá sobre a responsabilidade das partes acerca das custas e despesas com a arbitragem, bem como sobre verba decorrente de litigância de má-fé, se for o caso, respeitadas as disposições da convenção de arbitragem, se houver (BRASIL, 1996). Conforme Art. 28 (BRASIL, 1996), caso as partes cheguem a um acordo, deverá ser formalizada a respectiva transação, sendo competência do árbitro a tentativa de conciliação entre as partes no início do procedimento: Art. 28. Se, no decurso da arbitragem, as partes chegarem a acordo quanto ao litígio, o árbitro ou o tribunal arbitral poderá, a pedido das partes, declarar tal fato mediante sentença arbitral, que conterá os requisitos do Art. 26 desta Lei (BRASIL, 1996). A comunicação da sentença arbitral é tratada no Art. 29: Art. 29. Proferida a sentença arbitral, dá-se por finda a arbitragem, devendo o árbitro, ou o presidente do tribunal arbitral, enviar cópia da decisão às partes, por via postal ou por outro meio qualquer de comunicação, mediante comprovação de recebimento, ou, ainda, entregando-a diretamente às partes, mediante recibo (BRASIL, 1996). As hipóteses de cabimento do pedido de esclarecimentos, os chamados embargos arbitrais, são abordados no Art. 30: Art. 30. No prazo de 5 (cinco) dias, a contar do recebimento da notificação ou da ciência pessoal da sentença arbitral, salvo se outro prazo for acordado entre as partes, a parte interessada, mediante comunicação à outra parte, poderá solicitar ao árbitro ou ao tribunal arbitral que: I - corrija qualquer erro material da sentença arbitral; II - esclareça alguma obscuridade, dúvida ou contradição da sentença arbitral, ou se pronuncie sobre ponto omitido a respeito do qual devia manifestar-se a decisão. Parágrafo único. O árbitro ou o tribunal arbitral decidirá no prazo de 10 (dez) dias ou em prazo acordado com as partes, aditará a sentença arbitral e notificará as partes na forma do Art. 29 (BRASIL, 1996). Existem apenas duas formas de se postular a revisão da sentença arbitral: • mediante a apresentação de pedido de esclarecimentos; e • mediante a propositura de ação anulatória da sentença arbitral. O Art. 31 traz os efeitos da sentença arbitral: “asentença arbitral produz, entre as partes e seus sucessores, os mesmos efeitos da sentença proferida pelos órgãos do Poder Judiciário e, sendo condenatória, constitui título executivo”. 195 No que tange à nulidade da sentença arbitral, temos o Art. 32: Art. 32. É nula a sentença arbitral se: I - for nula a convenção de arbitragem; II - emanou de quem não podia ser árbitro; III - não contiver os requisitos do Art. 26 desta Lei; IV - for proferida fora dos limites da convenção de arbitragem; V - Revogado VI - comprovado que foi proferida por prevaricação, concussão ou corrupção passiva; VII - proferida fora do prazo, respeitado o disposto no Art. 12, inciso III, desta Lei; e VIII - forem desrespeitados os princípios de que trata o Art. 21, § 2º, desta Lei (BRASIL, 1996). Encerrando o Capítulo V, o Art. 33 nos revela o seguinte: Art. 33. A parte interessada poderá pleitear ao órgão do Poder Judiciário competente a declaração de nulidade da sentença arbitral, nos casos previstos nesta Lei. § 1º A demanda para a declaração de nulidade da sentença arbitral, parcial ou final, seguirá as regras do procedimento comum, previstas na Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil), e deverá ser proposta no prazo de até 90 (noventa) dias após o recebimento da notificação da respectiva sentença, parcial ou final, ou da decisão do pedido de esclarecimentos § 2º A sentença que julgar procedente o pedido declarará a nulidade da sentença arbitral, nos casos do Art. 32, e determinará, se for o caso, que o árbitro ou o tribunal profira nova sentença arbitral § 3º A decretação da nulidade da sentença arbitral também poderá ser requerida na impugnação ao cumprimento da sentença, nos termos dos arts. 525 e seguintes do Código de Processo Civil, se houver execução judicial. § 4º A parte interessada poderá ingressar em juízo para requerer a prolação de sentença arbitral complementar, se o árbitro não decidir todos os pedidos submetidos à arbitragem (BRASIL, 1996). A ação anulatória de sentença arbitral deve seguir o procedimento comum previsto no Código de Processo Civil, sendo competente para processar e julgá-la a juízo de primeiro grau. 4.2 CAPÍTULO VI DA LEI DE ARBITRAGEM O Capítulo VI da Lei 9.307 (BRASIL, 1996), que tratará do reconhecimento e execução de sentenças arbitrais estrangeiras e será abordado neste subtema, onde transcrevemos os Arts da citada Lei e comentaremos em seguida. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L5869.htm#art525 196 Iniciaremos pelo Art. 34: Art. 34. A sentença arbitral estrangeira será reconhecida ou executada no Brasil de conformidade com os tratados internacionais com eficácia no ordenamento interno e, na sua ausência, estritamente de acordo com os termos desta Lei. Parágrafo único. Considera-se sentença arbitral estrangeira a que tenha sido proferida fora do território nacional (BRASIL, 1996). O Art. 34 supracitado aborda o conceito e reconhecimento de sentença arbitral estrangeira. A sentença arbitral estrangeira, para ser executada no Brasil, deve ser previamente submetida à homologação no Superior Tribunal de Justiça. O Art. 35 (BRASIL, 1996) nos revela que a competência para homologação da sentença estrangeira cabe ao Superior Tribunal de Justiça (STJ): Art. 35. Para ser reconhecida ou executada no Brasil, a sentença arbitral estrangeira está sujeita, unicamente, à homologação do Superior Tribunal de Justiça (BRASIL, 1996). A aplicação do CPC no procedimento de homologação de sentença arbitral estrangeira é abordada no Art. 36: Art. 36. Aplica-se à homologação para reconhecimento ou execução de sentença arbitral estrangeira, no que couber, o disposto nos arts. 483 e 484 do Código de Processo Civil (BRASIL, 1996). O Art. 37 trata da Petição inicial e pressupostos positivos de homologação das sentenças arbitrais estrangeiras: Art. 37. A homologação de sentença arbitral estrangeira será requerida pela parte interessada, devendo