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METROLOGIA DIMENSIONAL, TOLERÂNCIA DIMENSIONAL E GEOMÉTRICA (GD&T) Elaboração Helen Rodrigues Araújo Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ...................................................................................................................................................................................... 5 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA ................................................................................................. 6 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................................................. 8 UNIDADE I CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA ........................................................................................................................................... 11 CAPÍTULO 1 CONCEITOS RELATIVOS A MONITORAR, MEDIR E CONTROLAR .................................................................................................... 11 CAPÍTULO 2 PRINCIPAIS INSTRUMENTOS DE MEDIÇÃO ............................................................................................................................................ 22 CAPÍTULO 3 PROCESSO E RESULTADOS DA MEDIÇÃO ............................................................................................................................................... 60 UNIDADE II CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II...................................................................................................................................... 68 CAPÍTULO 1 UNIDADES DE MEDIDAS E SISTEMA INTERNACIONAL DE UNIDADES (SI) .............................................................................. 68 CAPÍTULO 2 ERROS DE MEDIÇÃO .......................................................................................................................................................................................... 77 CAPÍTULO 3 CALIBRAÇÃO DE SISTEMAS DE MEDIÇÃO .............................................................................................................................................. 87 UNIDADE III SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES .................................................................................................................................................................. 92 CAPÍTULO 1 FUNDAMENTOS DO GD&T E NORMAS RELACIONADAS ................................................................................................................... 92 CAPÍTULO 2 TERMINOLOGIA E SIMBOLOGIA, TOLERÂNCIA DIMENSIONAL E CÁLCULO DAS TOLERÂNCIAS-PADRÃO ........... 100 CAPÍTULO 3 SISTEMAS DE AJUSTES E TOLERÂNCIA E ESTUDOS DE CASOS RELACIONADOS ............................................................. 110 UNIDADE IV TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS ................................................................................................................................................................................... 116 CAPÍTULO 1 MÉTODO DE MEDIÇÃO DE GEOMETRIAS E TOLERÂNCIA DE FORMA ....................................................................................... 116 CAPÍTULO 2 TOLERÂNCIA DE ORIENTAÇÃO, TOLERÂNCIA DE POSIÇÃO E TOLERÂNCIA DE BATIMENTO ....................................... 127 CAPÍTULO 3 SIMBOLOGIA ASSOCIADA E ESTUDOS DE CASOS RELACIONADOS ........................................................................................ 139 4 SUMÁRIO UNIDADE V RUGOSIDADE DAS SUPERFÍCIES .............................................................................................................................................................................. 143 CAPÍTULO 1 RUGOSIDADE MÉDIA ARITMÉTICA, RUGOSIDADE MÉDIA E RUGOSIDADE MÁXIMA ........................................................ 143 CAPÍTULO 2 MEDIÇÃO DE RUGOSIDADE .......................................................................................................................................................................... 149 CAPÍTULO 3 ESTUDOS DE CASOS APLICADOS ............................................................................................................................................................. 152 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................................................................... 155 ANEXO I ................................................................................................................................................................................................... 157 5 APRESENTAÇÃO Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico- tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 7 ORGANIzAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESqUISA Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/ conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 INTRODUÇÃO Ao longo da história humana, com o desenvolvimento das transações comerciais entre os diferentes grupos, estabeleceu-se a necessidade da criação de processos de medição, devidamente aceitos pelas partes envolvidas, para identificar o valor associado a cada produto/serviço objeto das transações. As mediçõescom hastes intercambiáveis. Hastes/batentes Fonte: adaptada de Gavenda et al., 2008. » Micrômetro de profundidade (Figura 43): este instrumento é aplicado para medições de profundidade e de acordo o valor a ser medido, as hastes de contato podem ser intercambiáveis, além de ser possível encontrar deste tipo de micrômetro com visor digital. As bases e hastes são temperadas, retificadas e lapidadas, para aumentar a robustez do sistema. Figura 43. Micrômetro de profundidade analógico (esquerda) e digital (direita). Fonte: Gavenda et al., 2008. 50 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA » Micrômetro interno – Tipo paquímetro (Figura 44): Utilizam encostos para apoio da peça que se assemelham aos componentes do paquímetro e são usados para medições internas. Geralmente, o cilindro (bainha) e tambor têm acabamento cromo-acetinado. Figura 44. Micrômetro interno – Tipo paquímetro. Fonte: Silva Neto, 2012. » Micrômetro externo com contato em forma de V (Figura 45): ideal para medição de ferramentas de corte que têm número ímpar de cortes, como, por exemplo, fresas de topo, alargadores etc. O ângulo varia conforme a aplicação, para medição de ferramentas de 3 cortes é 60°, 5 cortes é 108° e 7 cortes é 128°34’17”. É um instrumento fornecido com padrão de aferição, para verificação a cada troca do sistema de angulação. Figura 45. Micrômetro externo com contato em forma de V (60º). Fonte: adaptada de Pauli e Uliana, 1996. » Micrômetro externo para medição de roscas (Figura 46): tem geometria adaptada nas hastes de apoio, para medição de diâmetro de roscas triangulares, sendo as regiões de contato do tipo cone/prisma e varia de acordo ao tipo de rosca. Tem hastes intercambiáveis para adaptação conforme o passo da rosca a ser medida. 51 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Figura 46. Micrômetro externo para medição de roscas. Fonte: Gavenda et al., 2008. Leitura em micrômetro com resolução de 0,01 mm A cada volta completa realizada pelo tambor, o parafuso micrométrico desloca-se gradualmente por uma distância conhecida como passo, que caracteriza o passo da rosca do parafuso. Para determinar a resolução de um micrômetro, que define o menor valor de deslocamento do seu parafuso micrométrico, é necessário dividir o passo da rosca do parafuso pelo número de divisões do tambor (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996), logo: passoda rosca do parafusomicrométricoResolução Númerodedivisões dotambor = Portanto, considerando um micrômetro com passo da rosca do parafuso de 0,5 mm e contendo um tambor com 50 divisões gravadas, a resolução será: 0,5 0,01 50 mmResolução mm= = Com isso, ao girar o tambor, cada divisão em relação ao eixo da escala da bainha resultará em um deslocamento de 0,01 mm no parafuso, conforme apresenta a Figura 47. Figura 47. Relação entre a movimentação do tambor e o deslocamento do parafuso micrométrico. 1 divisão 1 mm Fonte: Secco et al., 1996. 52 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA A leitura final utilizando o micrômetro, então, configura-se pela soma dos valores indicados a partir da leitura do valor inteiro, em milímetros, indicado na bainha (1º passo), da leitura das subdivisões, em décimos de milímetros, também indicado na bainha (2º passo) e, por fim, a leitura dos centésimos de milímetros indicados na escala do tambor (3º passo), conforme exemplo apresentado na Figura 48 (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). Figura 48. Leitura em micrômetro com resolução de 0,01 mm. 1º Passo (escala nominal da bainha): 17 mm 2º Passo (escala decimal da bainha): 0,5 mm 3º Passo (escala centesimal do tambor): 0,32 mm Leitura final = 17 + 0,5 + 0,32 = 17,82 mm 0,32 mm 17 mm 0,5 mm Fonte: Secco et al., 1996. Leitura em micrômetro com resolução de 0,001 mm Existem micrômetros que têm o nônio como escala complementar, no qual o número de divisões deste elemento indicará o valor a ser acrescentado à leitura obtida nas escalas da bainha e do tambor. A resolução deste instrumento dependerá no número de divisões do nônio, com isso considerando que o nônio apresenta 10 divisões a resolução será: 0,01 0,001 10 mmResolução mm divisões = = A leitura final utilizando este tipo de micrômetro configura-se pela soma dos valores indicados a partir da leitura do valor inteiro, em milímetros, indicado na bainha (1º passo), da leitura das subdivisões, em décimos de milímetros, 53 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I também indicado na bainha (2º passo), a leitura dos centésimos de milímetros indicados na escala do tambor (3º passo), e, por fim, a leitura dos milésimos de milímetros a partir da divisão do nônio que coincidir com a divisão do tambor (4º passo), conforme exemplo apresentado na Figura 49 (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). Figura 49. Leitura em micrômetro com resolução de 0,01 mm. 1º Passo (A): 20,000 mm 2º Passo (B): 0,500 mm 3º Passo (C): 0,110 mm 4º Passo (D): 0,008 mm Leitura final = 20,618 mm Escala milimétrica Es ca la ce nt es im al Nônio D A B C Fonte: Secco et al., 1996. Goniômetro O goniômetro é um instrumento cuja função fundamental é a medição de ângulos e superfícies angulares, muito utilizado nas mais diversas etapas de um processo produtivo. Entre os dispositivos mais utilizados está o transferidor, que pode ser fabricado em aço, mas que também pode ser encontrado em material plástico transparente, formando um círculo ou um semicírculo graduado. A Figura 50 mostra alguns exemplos deste instrumento. 54 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA Figura 50. Exemplos de Transferidor de graus (esquerda), Goniômetro de Precisão (direita) e Goniômetro Universal (abaixo). Escala em graus Lâmina de articulação Lâmina corrediça intercambiável Círculo graduado em graus Vernier (nônio) Disco graduado Disco do vernier Fixador do articulador Régua Articulador Fixador da régua Esquadro Fonte: Gavenda et al., 2008 e Silva Neto, 2012. No transferidor de grau como ilustrado na Figura 50, a escala graduada e o mostrador podem girar, no sentido horário ou anti-horário, até uma posição desejada e fixados/travados por meio do aperto de uma porca localizada no centro do mostrador. Os goniômetros podem ser analógicos ou digitais. Uma aplicação muito comum dos goniômetro em etapas do processo de usinagem é durante a medição do ângulo de corte de uma ferramenta como a broca, utilizada em furadeiras, ou o bite, geralmente utilizado no torneamento. A base construtiva dos goniômetros de maior precisão consiste em um disco com dupla graduação de 0° a 180°, em sentidos opostos, e um nônio (ou vernier) que apresenta uma escala graduada à esquerda e à direita, do 0° até 60°. Essa escala é ainda dividida em 12 partes iguais do grau, que equivalem à medida angular de 5’ (cinco minutos), conforme apresenta a Figura 51. Figura 51. Goniômetro de precisão de dupla escala com nônio. Fonte: Gavenda et al., 2008. 55 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I A determinação da resolução do goniômetro de precisão, que tem o nônio como elemento construtivo, segue a metodologia adotada em outros instrumento que tem tal elemento. Para isso, é necessário dividir a menor divisão da escala do disco pelo número de divisões da escala móvel (nônio): 1 60 ' 5 ' 12 12 menor divisãodaescala dodiscoResolução númerodedivisões donônio ° = = = = A leitura do goniômetro inicia pela verificação do valor em graus na escala do disco entre o zero do disco e o zero do nônio (A1 e A2 na Figura 52). A leitura do nônio deve ser realizada no mesmo sentido da incidência do ângulo, ou seja, tomando-se por referência o zero do disco graduado. Em seguida, deve-se contar o número de divisões na escala móvel, a partir do zero, até a divisão que coincida com a divisão da escala do disco (B1 e B2 na Figura 52). Após multiplicar este valor por cinco, já quecada divisão no nônio equivale à 5’, resultará no valor a ser somado ao número de graus indicado na escala do disco (SILVA NETO, 2012). A Figura 52 apresenta alguns exemplo de leitura de um goniômetro de precisão. Figura 52. Leitura no goniômetro de precisão. Escala do disco (A1) = 64° Escala do nônio (B1) = 30’ Leitura Final = 64º + 30’ = 64º30’ Escala do disco (A2) = 42° Escala do nônio (B2) = 20’ Leitura Final = 42º + 20’ = 42º20’ B1 B2 Fonte: Secco et al., 1996. Relógio Comparador Relógio comparador (Figura 53) é um tipo de dispositivo de medição por comparação, ou seja, determina a diferença entre a grandeza medida e um 56 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA padrão de dimensão pré-determinada, formado por um visor com uma escala graduada, um ponteiro indicador e uma ponta apalpadora, cuja extremidade é esférica resistente ao desgate com raio mínimo de 1,5 mm e configura-se como a região que em contato com a peça. Tais componentes são conectados por mecanismos diversos, sejam eles formados por sistema de engrenagens, de alavanca ou por amplificação mista, podendo alcançar resoluções na ordem de 0,01 mm (GAVENDA et al., 2008). Figura 53. Relógio comparador. Anel Externo Tampa transparente Haste móvel Ponta de contato Corpo Limitador Tampa traseira Mostrador móvel Mostrador fixa Haste de fixação Indicador de voltas Limitador Trava Ponteiro maior Ponteiro menor Fonte: Silva Neto, 2012. O princípio de funcionamento deste instrumento baseia-se na comparação; por isso, ao entrar em contato com a peça, por meio da ponta apalpadora, a diferença de medida provocará um deslocamento retilíneo da ponta, de avanço ou recuo, movimento esse que será transmitido mecanicamente ao sistema e resultará no giro do ponteiro indicador diante da escala, no sentido horário (diferença positiva) ou anti-horário (diferença negativa). Quando a diferença entre a dimensão da peça e do padrão é positiva, significa que a peça apresentou a grandeza com dimensão maior que o padrão preestabelecido, caso seja negativa, a dimensão da peça é menor (SILVA NETO, 2012). Ainda segundo Silva Neto (2012), existem diversos modelos de relógios comparadores sendo comercializados atualmente, porém os mais aplicados são aqueles que têm resolução de até 0,01 mm. Na maioria dos modelos, a escala se apresenta na mesma direção do eixo da ponta de contato, porém existem alguns modelos do tipo vertical que apresentam a escala perpendicular ao eixo 57 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I da ponta. O curso total que a ponta apalpadora percorre também pode variar, conforme o modelo, sendo os mais comuns aqueles que apresentam o curso de 1 mm e 10 mm (com escala no sistema métrico) e 0,250” e 1” (com escala no sistema inglês). Existem ainda os modelos de relógio comparador cujo curso proporcione mais de uma volta do ponteiro para indicar a medida; por isso, tais dispositivos apresentam outro ponteiro menor com mais uma escala indicando o número de voltas percorridas pelo ponteiro maior. Podem ser utilizados com acessórios especiais, que permitem medições especiais de superfícies verticais, de espessuras, de profundidades, entre outras grandezas (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). Alguns cuidados devem ser tomados durante o processo de medição, por exemplo, ao iniciar uma medida, deve-se fornecer uma pré-carga para o correto ajuste do zero, além disso, posicionar o relógio comparador (referência: eixo da ponta de contato) sempre em uma posição perpendicular à peça, para evitar erros durante a leitura, como o erro de paralaxe. São exemplos de aplicação dos relógios comparadores durante etapas de uma fabricação a verificação de: » paralelismo; » excentricidade de peça; » concentricidade; » alinhamento de componentes de máquinas operatrizes; » planicidade. Para evitar o desgaste prematuro destes instrumentos e auxiliar na conservação deles, são necessárias algumas medidas de precaução durante a utlização, tais como: realizar movimentos suves no momento do toque incial na peça; elevar, num pequeno curso, a ponta de contato ao retirar da peça; evitar impactos e arranhões, além de conservá-los sempre limpos e manter os mancais e engrenagens lubrificados (PAULI; ULIANA, 1996). 58 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA Leitura no Relógio Comparador Centesimal A medição que utiliza o relógio comparador centesimal deve ser realizada a partir da leitura correta das duas escalas presentes no mostrador. Na escala dos milímetros (ponteiro menor), é possível determinar o número de voltas, pois cada volta completa equivale a 1 mm. Na escala centesimal, determina-se o valor em centésimos de milímetros correspondente. O resultado, então, é a soma dos valores obtidos nas duas escalas. Quando a escala do relógio obedece ao sistema inglês, é apresentada em polegada milesimal, porém o procedimento adotado para a leitura assemelha-se ao realizado na escala no sistema métrico. A Figura 54 (esquerda) apresenta um exemplo de leitura em um relógio comparador centesimal, no qual as unidades obedecem ao sistema métrico. O ponteiro menor indica o número de voltas percorridas pelo ponteiro maior, e o valor indicado na escala corresponde ao valor em milímetros. Na figura é possível observar que o ponteiro partiu do 3 e passou pelo número 6, indicando que o ponteiro maior completou três voltas; portanto, a primeira leitura é 3 mm. A segunda leitura correspondente à escala centesimal é indicada pelo ponteiro maior, sendo 0,43 mm. Ao somar os valores das duas leituras, obtem-se a leitura final no valor de 3,43 mm. O deslocamento do ponteiro foi no sentido horário, ou seja diferença positiva, indicando que a dimensão é maior que o padrão/referência, podendo representar uma elevação ou ressalto (SILVA NETO, 2012). Na Figura 54 (direita) o ponteiro partiu do 6 e passou pelo número 4, chegando próximo ao 3, indicando que o ponteiro apenas completou duas voltas; portanto, a primeira leitura é 2 mm. A segunda leitura correspondente à escala centesimal indicada pelo ponteiro maior é de 0, 30 mm. Ao somar os valores das duas leituras, obtem-se a leitura final no valor de 2,30 mm. O deslocamento do ponteiro foi no sentido anti-horário, ou seja diferença negativa, indicando que a dimensão é menor que o padrão/referência, podendo representar uma depressão ou rebaixo. 59 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Figura 54. Exemplos de leituras em relógio comprador. Fonte: Silva Neto, 2012. Os mostradores dos relógios comparadores são giratórios, ou seja, o operador pode movimentar o valor de referência (zero) até uma posição inicial qualquer, conforme a conveniência da ocasião. 60 CAPÍTULO 3 Processo e resultados da medição Os sistemas de medição caracteriza o processo pelo qual as medições são executadas e são construídos de maneira a permitir a comparação entre a grandeza a ser medida e a unidade de medição equivalente, além de indicar quantas vezes mais a fração da unidade está contida neste valor (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). Para determinar o número de vezes que a unidade de medida está contida em um valor medido, é necessário realizar uma comparação com um valor de referência, caracterizando o método de medição por comparação, conhecido ainda como zeragem, ou obter um efeito mensurável proporcional ao valor da grandeza medida, caracterizando o método de medição por indicação, também chamado de método por deflexão, ou, ainda, a aplicação do método de medição diferencial, combinando elementos característicos dos métodos já citados. Método da Comparação Este método de medição utiliza a metodologia de comparar o valor da grandeza a ser medido com um padrão, no qual o valor de referência é muito bem definido e difundido. Para viabilizar esta metodologia, é imprescindível a criação de uma medida padrão de referência,este padrão pode ainda ser conhecido como medida materializada. Segundo Gonçalves Jr. e Sousa (2008), a medida materializada ou de referência pode ser definida como um dispositivo que tem como função reproduzir ou disponibilizar, permanentemente durante sua aplicação, um ou mais valores definidos de uma determinada grandeza. Como exemplos, pode-se citar os blocos-padrão, um resistor elétrico de referência, massas-padrão, entre outros tipos de padrões conhecidos relacionado à grandeza mensurada. Um exemplo muito didático que facilita a visualização deste tipo de método sendo aplicado é a realização de uma medição da grandeza massa em uma balança de comparação, conforme ilustra a Figura 55. Neste caso, um objeto que se deseja conhecer sua massa é colocado em um dos pratos da balança e um conjunto de massas-padrão, ou seja, cujo valor de massa é conhecido, é colocado no lado oposto até atingir um equilíbrio, isto é, até que a diferença entre os valores de 61 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I massa inseridos nos partos da balança atinja o zero. Com isso, é possível atribuir ao objeto o mesmo valor de massa atribuído ao conjunto de massas-padrão inserido no sistema. Figura 55. Aplicação do método de comparação em uma balança. Medidas materializadas Fonte: Gonçalves Jr; Sousa, 2008. Uma modalidade desse método é aplicação da medição por substituição, na qual se realiza a substituição da grandeza a ser medida por um elemento que possui o valor conhecido e tem o mesmo efeito ao ser inserido ao sistema. Ao obter equivalência no efeito causado, pode-se concluir que os valores destas grandezas são iguais. Um exemplo é apresentado na Figura 56, no qual o valor do resistor Rx é determinado por equivalência ao substituí-lo pelo Rs, cujo efeito sobre o sistema foi igual ao efeito causado pelo Rx. Figura 56. Aplicação do método de comparação por substituição. Fonte: Campilho, 2020. Método da Indicação O método de medição por indicação é elaborado de tal forma a permitir que o usuário visualize um efeito proporcional ao valor que se deseja determinar/medir. Geralmente, tais sistemas produzem o incremento de um 62 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA valor em um mostrador ou a deflexão de um ponteiro indicador. Este método pode ser conhecido também como método da deflexão (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). A Figura 57 apresenta dois sistemas de medição que utilizam a premissa da indicação. O sistema apresentado à esquerda corresponde ao princípio de funcionamento de um dinamômetro, isto é, de um medidor de forças, composto por uma mola, que ao ser submetida à uma solicitação (força) no sentido vertical, alonga-se de forma proporcional à intensidade da força aplicada. Ou seja, quanto maior o valor da força aplicada à mola, maior será seu deslocamento vertical. A indicação neste tipo de dispositivo é dada pela posição da extremidade do ponteiro horizontal sobre a escala posicionada paralelamente à mola, e é diretamente proporcional ao valor da solicitação aplicada. O sistema apresentado à direita na Figura 57 é um termômetro, um dispositivo utilizado para medição de valores de temperatura. A variação da grandeza (temperatura), no sistema que o dispositivo está inserido, gera uma dilatação volumétrica no fluido contido no interior do termômetro, que é proporcional à variação. A dilatação faz com que o fluido se expanda no tubo capilar do bulbo. Essa expansão alterará a posição do nível do fluido no capilar, fornecendo o valor de temperatura do sistema. Figura 57. Exemplos de sistemas de medição por indicação. Fonte: adaptada de Gonçalves Jr; Sousa, 2008. 63 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Método Diferencial A metodologia de medição conhecida como diferencial alia elementos característicos das medições por comparação e por indicação. O princípio de funcionamento deste método baseia-se na comparação entre o valor a ser medido e uma medida materializada (padrão), cujo valor é próximo ao objeto em medição, resultando em uma diferença entre os valores apurados. Tal diferença é medida por um dispositivo que utiliza elementos do método de indicação (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). Um exemplo clássico de aplicação deste método diferencial é a medição de uma dimensão de uma peça por um dispositivo composto por uma base e uma coluna, na qual está fixado um medidor de deslocamentos conhecido como relógio comparador. O processo de medição é realizado em duas etapas, sendo a primeira caracterizada pelo posicionamento de um bloco-padrão que tem dimensão próxima ao valor que se deseja medir. Ao entrar em contato com o bloco, o relógio mostra uma indicação correspondente à dimensão atribuída ao padrão, sendo que este valor será a referência (novo zero) para próxima etapa. Em seguida, o objeto sob medição é posicionado, fazendo com que o instrumento passe a mostrar uma nova indicação, diferente do valor anterior relativo ao bloco-padrão. A soma da diferença medida e o valor da dimensão padrão indicarão o valor da dimensão desejada. Este processo pode ser acompanhado na Figura 58. Figura 58. Medição pelo método diferencial. Relógio comparador Relógio comparador Relógio comparador Relógio comparador coluna coluna coluna coluna Base Base Base Base Fonte: adaptada de Gonçalves Jr; Sousa, 2008. 64 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA O método diferencial pode ser aplicado a medições de grandezas como temperatura, pressão, força, massa, tensão elétricas, entre outras. Conforme descreve Gonçalves Jr e Sousa (2008), a aplicação do medidor por indicação facilita o processo, pois a tarefa de medir pequenas diferenças é mais fácil do que realizar a medição de grandes diferença dimensionais, com a mesma precisão associada. Por isso, tal aplicação pode reduzir os custos associados ao processo de medição. Seleção do Método de Medição A seleção do método de medição mais adequado depende de alguns fatores da aplicação para qual a medição se destina, tais quais a velocidade de medição, a possibilidade de inserir automação ao processo, o nível de incerteza que se deseja e sua estabilidade ao longo do tempo e os custos considerados aceitáveis. A aplicação do método da indicação, normalmente, envolve velocidades de medição maiores, já que a indicação do valor medido é disponibilizada quase que no mesmo instante em que o sistema de medição é aplicado, além de, na maioria dos casos, seus sistemas operacionais são de menor complexidade. As velocidades de medição associadas às aplicações do método de medição por comparação geralmente são menores, pois o processo de compor uma medida por equivalência a uma medida materializada resulta no aumento do tempo de realização da medição, e por consequência, na redução da velocidade. Para aplicações do método diferencial, as velocidades de medição variam de acordo à aplicação. Um fator de grande importância, atualmente, e que pode influenciar significativamente no processo de seleção do método, é a possibilidade de inserir automação ao sistema. Neste caso, os sistemas de medições são interligados a computadores, nos quais as medidas são adquiridas, tratadas e registradas. Ao inserir automação aos sistemas, não somente a velocidade de execução aumenta, como também a confiabilidade nas medições, já que possibilita a eliminação de erros humanos durante o processo (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). 65 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I As medições por comparação dificultam o processo de automatização, pois, além do processo de medição, é necessária uma etapa a mais de composição do valor final da medida. Já para aplicações dos métodos de indicação e diferencial, a automação é facilitada, principalmente em sistemas de medição eletrônicos, porque os sinais elétricos são facilmente convertidos em dados para processamento pelos computadores, em curtos intervalos de tempo.Fatores como o tipo e valor estimado da grandeza a ser medida, além do investimento que se dispõe a fazer e tempo envolvido, podem influenciar na incerteza associada ao processo/método de medição que se deseja empregar, por isso, torna-se difícil afirmar quais dele é mais favorável, sem conhecer tais fatores. A estabilidade associada às características dos métodos empregados por comparação e diferencial é maior quando comparada à estabilidade das características metrológicas dos sistemas de medição por indicação, já que estes sistemas estão mais expostos à degradação em função do uso e provocada pelo desgaste precoce, envelhecimento ou contaminação dos respectivos componentes, além de serem afetados significativamente por um número maior de possíveis fontes de erros, principalmente pela temperatura (GONÇALVES JR e SOUSA, 2008). Em relação aos custos envolvidos durante a aplicação dos diferentes sistemas de medição segundo Gonçalves Jr e Sousa (2008), aqueles que operam pelo método da comparação podem requerer um investimento inicial maior, porém sua amortização ao longo do tempo de uso tende a ser favorável, pois a elevada estabilidade e baixo custo de manutenção representam uma economia que deve ser considerada. O método diferencial costuma representar a solução mais econômica para aplicações que envolvam processos de medição em série, visto que o investimento inicial aportado para aquisição dos padrões é diluído ao longo tempo, pois tais medidas materializadas podem servir para inúmeras medições. A Tabela 1 resume as características atribuídas à cada tipo de sistema de medição discutido. 66 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA Tabela 1. Características dos diferentes sistemas de medição. Característica Por comparação Por indicação Diferencial Velocidade de medição Muito lento Muito rápido Rápido Possibilidade de automação Muito difícil Muito fácil Muito fácil Incerteza e sua estabilidade Muito estável Instável Estável Custo associado Elevado Moderado a elevado Moderado Principais aplicações Laboratórios de calibração Indústrias de médio e pequeno porte Controle de processos seriados Fonte: adaptada de Gonçalves Jr; Sousa, 2008. Medições Diretas e Indiretas O processo de medição pode ser definido como o conjunto de métodos que são utilizados para executar uma medição, e além do sistema de medição e do mensurado, integram, também, esse processo o operador, as etapas dos procedimentos de medição aplicados e as condições nas quais as medições são realizadas. A Figura 59 apresenta os elementos característicos do processo de medição. Figura 59. Elementos do processo de medição. Definição do Mensurando Procedimento de medição Condições ambientais Operador Sistema de medição Resultado da medição Fonte: Gonçalves Jr; Sousa, 2008. Fazem parte desse processo a forma de preparar o mensurando para realizar a leitura das medidas, o número de repetições das medições, que devem ser realizadas nas mesmas condições, a maneira de aplicar o sistema de medição sobre o mensurando, a forma de controlar as condições ambientais impostas e a presença de outras grandezas que podem influenciar o mensurando. Todas essas etapas realizadas devem ser claras para viabilizar a reprodução das mesmas (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). A aplicação do processo de medição pode aplicar dois tipos de métodos, aqueles que realizam a medição direta ou aqueles que executam a medição indireta. 67 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Nas medições diretas, o resultado é obtido diretamente da aplicação dos sistemas de medição. O valor da grandeza, objeto da medição, é obtido comparando-se diretamente com padrões bem definidos ou por meio da indicação de instrumentos graduados conforme as respectivas unidades. Nesse processo, apenas um sistema de medição é relacionado. Como exemplo, pode-se citar a medição do diâmetro de um eixo por um micrômetro ou paquímetro. As medições podem ser classificadas como indiretas quando o valor do mensurando é calculado a partir da utilização de recursos matemáticos envolvendo duas ou mais medidas associadas a diferentes características do mensurando, também chamadas de grandezas de entrada. Apesar de mostrar-se mais menos simples que a direta, esse tipo de medição é realizado com muita frequência, por muitas vezes justificada pela impossibilidade econômica ou operacional da realização de uma medição direta. Para obtenção de um resultado da aplicação do método de medição indireta, é preciso fazer uso de um modelo matemático que seja capaz de relacionar as grandezas de entradas obtidas com o valor de interesse. Conforme a grandeza envolvida, alguns modelos mais complexos podem ser necessários, podendo aplicar desde funções aritméticas básicas até equações diferenciais de maior complexidade. Porém, independentemente do nível de complexidade do modelo, este deve relacionar todas as grandezas de entrada cm o valor do mensurando. 68 UNIDADE II CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II CAPÍTULO 1 Unidades de medidas e Sistema Internacional de Unidades (SI) Sistema Internacional de Unidades (SI) Assim como a unidade do metro foi criado para padronizar o processo de medição de comprimentos, outras unidades foram adotadas para as demais grandezas. Por exemplo, em 1799, foi depositado no Arquivo da França, um padrão de referência para a unidade de massa, configurada por um cilindro de platina, conhecido como quilograma dos arquivos (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). Ainda segundo Gonçalves Jr e Sousa (2008), a Academia Francesa de Ciências propôs, no ano de 1946, a criação de um novo sistema de unidades que foi denominado de Metro, Quilograma, Segundo e Ampère ou MKSA, que em 1956 englobou as unidades candela e kelvin. Em 1960, após a realização da 11ª Conferência Geral de Pesos e Medidas, foi criado o Sistema Internacional de Unidades (SI), o qual foi difundindo-se gradualmente em escala mundial. Algumas vantagens podem ser citadas pela adoção de um sistema único de unidades, em escala mundial, tais quais (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008): » as relações internacionais podem ser facilitadas pela não obrigatoriedade de conversão de unidades, bem como possíveis entraves diplomáticos podem ser evitados durante as transações comerciais; » tornam-se possíveis a fabricação de produtos globalizados, nos qual componentes podem ser produzidos em diferentes países, sem problemas de compatibilidade; 69 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II | UNIDADE II » a coerência na definição das unidades contribui para a simplificação de equações utilizada para descrição de fenômenos; » pode demonstrar maturidade técnico-científica dos países que adotam. O Sistema Internacional é formado por três classes de unidades, sendo elas as unidades de base, as quais são definidas de forma clara e universal permitindo a reprodução com alto nível de exatidão, além de fornecerem as referências que permitem definir todas as demais unidades do SI; as unidades derivadas, que podem der definidas por combinação das unidades de base segundo relações algébricas, de produto e/ou quociente que interligam as respectivas grandezas, também conhecidas como produtos de potências das unidades de base; e as unidades suplementares, que têm definições puramente matemáticas e podem ser aplicada em conjunto com as unidades de base para composição das unidades derivadas (VINGE, DUTRA; MOSCATI, 2006). Conforme descreve Vinge et al. (2006), as sete grandezas de base, relacionadas às sete unidades de base, são: comprimento, massa, tempo, corrente elétrica, temperatura termodinâmica, quantidade de substância e intensidade luminosa, como resume a Tabela 2, que apresenta ainda a definição da unidade de base relacionada, o símbolo e a incerteza equivalentes. Tabela 2. Unidades de base do SI. Grandeza Definição da unidade Símbolo Incerteza Comprimento O metro é o comprimentodo trajeto percorrido pela luz no vácuo durante um intervalo de tempo de 1/299 792 458 do segundo. Assim, a velocidade da luz no vácuo, c0, e exatamente igual a 299 792 458 m/s. m 10-12 Massa O quilograma é a unidade de massa, igual à massa do protótipo internacional do quilograma. Assim, a massa do protótipo internacional do quilograma, m(K), e exatamente igual 1 kg kg 2.10-9 Tempo O segundo é a duração de 9 192 631 770 períodos da radiação correspondente à transição entre os dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133. Assim, a frequência da transição hiperfina do estado fundamental do átomo de césio 133, v (hfs Cs), é exatamente igual a 9 192 631 770 Hz. s 10-15 70 UNIDADE II | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II Grandeza Definição da unidade Símbolo Incerteza Corrente elétrica O ampere é a intensidade de uma corrente elétrica constante que, mantida em dois condutores paralelos, retilíneos, de comprimento infinito, de seção circular desprezível, e situados à distância de 1 metro entre si, no vácuo, produziria entre estes condutores uma força igual a 2.10-7 newton por metro de comprimento. Assim, a constante magnética, μ0, também conhecida como permeabilidade do vácuo, é exatamente igual a 4 .π 10-7 H/m. A 9.10-8 Temperatura Termodinâmica O kelvin, unidade de temperatura termodinâmica, é a fração 1/273,16 da temperatura termodinâmica no ponto tríplice da água. Assim, a temperatura do ponto tríplice da água, Tpta, é exatamente igual a 273,16 K. K 3.10-1 quantidade de substância 1. O mol é a quantidade de substância de um sistema contendo tantas entidades elementares quantos átomos existem em 0,012 quilograma de carbono 12; 2. quando se utiliza o mol, as entidades elementares devem ser especificadas, podendo ser átomos, moléculas, íons, elétrons, assim como outras partículas, ou agrupamentos especificados dessas partículas. Assim, a massa molar do carbono 12, M(12C), é exatamente igual a 12 g/mol. Mol 10-4 Intensidade luminosa A candela é a intensidade luminosa, numa dada direção, de uma fonte que emite uma radiação monocromática de frequência 540.1012 hertz e cuja intensidade energética nessa direção é 1/683 watt por esterradiano. Assim, a eficácia luminosa espectral, K, da radiação monocromática de frequência 540.1012 Hz é exatamente igual a 683 lm/W. Cd 2.10-9 Fonte: adaptada de VINGE et al., 2006. A Tabela 3 apresenta as grandezas e suas respectivas unidades derivadas, bem como os símbolos equivalentes. Tabela 3. Unidades de base do SI. Grandeza derivada Unidade derivada Símbolo Área Metro quadrado m2 Volume Metro cúbico m3 Velocidade Metro por segundo m/s Aceleração Metro por segundo ao quadrado m/s2 Número de ondas Inverso do metro m-1 Massa específica quilograma por metro cúbico kg/m3 Densidade superficial quilograma por metro quadrado kg/m2 Volume específico Metro cúbico por quilograma m3/kg Densidade de corrente Ampère por metro quadrado A/m2 Campo magnético Ampère por metro A/m Concentração Mol por metro cúbico mol/m3 Concentração de massa quilograma por metro cúbico kg/m3 71 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II | UNIDADE II Grandeza derivada Unidade derivada Símbolo Luminância Candela por metro quadrado cd/m2 Índice de refração Um 1 Permeabilidade relativa Um 1 Fonte: adaptada de ROZENBERG, 2006. Algumas unidades derivadas têm denominação e simbologia especiais e são utilizadas para descrever outras unidades derivadas, além de formulação mais simplificada em comparação àquelas que se utilizam das unidades de base (ROZENBERG, 2006). A Tabela 4 apresenta as principais unidades derivadas com nomes e símbolos especiais. Tabela 4. Grandezas e Unidades Derivadas com nomes especiais. Grandeza Unidade derivada Símbolo Expressão Frequência Hertz hz s-1 Força Newton N kg.m.s-2 Pressão Pascal Pa N.m-2 Trabalho, Energia Joule J kg.m2.s-2 = N.m Potência Watt W kg.m2.s-3 = J.s-1 Carga Elétrica coulomb C A.s Diferença de Potencial Elétrico Volt V W.A-1 = J.C-1 Fluxo de Indução Magnética Weber Wb V.s Indutância Henry H Wb.A-1 Temperatura Celsius grau celsius ºC K Capacitância Elétrica Farad F C.V-1 Condutância Elétrica siemens S A.V-1 Resistência Elétrica Ohm Ω S-1 = V.A-1 Fluxo Luminoso Lúmen lm cd Iluminância Lux lx lm.m-2 Atividade de um radionuclídio becquerel Bq s-1 Dose Absorvida gray Gy J.kg-1 Equivalente de Dose sievert Sv J.kg-1 Fonte: adaptada de Rozenberg, 2006 e Vinge et al., 2006. As unidades denominadas por suplementares são adimensionais e puramente matemáticas, aplicadas em combinação com a unidades de base para composição de algumas unidades derivadas (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). A Tabela 5 resume tais unidades. 72 UNIDADE II | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II Tabela 5. Unidade Suplementares. Grandeza Definição unidade Símbolo Ângulo plano O radiano é o ângulo central que abrange um arco de círculo de comprimento igual ao do respectivo raio. rad Ângulo sólido O esterradiano é o ângulo sólido que, tendo vértice no centro de uma esfera de raio unitário, abrange na superfície esférica uma área de valor igual a 1. sr Fonte: Gonçalves Jr; Sousa, 2008. Algumas unidades não são contempladas no SI, embora sejam amplamente utilizadas, como, por exemplo, unidades de tempo como minuto, hora e dia, pois elas já fazem parte de muitas culturas. Algumas ainda são usadas, por razões históricas, para atendimento a necessidades de grupos específicos com interesses especiais, ou simplesmente por não existir alternativa conveniente no SI (VINGE, DUTRA; MOSCATI, 2006). A Tabela 6 apresenta alguns exemplos assim como a relação com as unidades do SI. Tabela 6. Unidades usuais não contempladas no SI. Grandeza Unidade Símbolo Relação com SI Tempo minuto min 1 min = 60 s hora h 1 h = 3 600 s dia d 1 d = 86 400 s Volume litro L 1 L = 10-3 m3 Massa tonelada t 1 t = 103 kg carat 1 carat = 2.10-4 kg Comprimento milha naútica M 1 M = 1 852 m angstrom Å 1 Å = 10-10 m Pressão bar bar 1 bar = 105 Pa milímetro de mercúrio mmHg 1 mmHg = 133 322 Pa Ângulo grau ° 1° = π.180-1 rad minuto ‘ 1’ = π.10 800-1 rad segundo “ 1” = π.648 000-1 rad Força dina dyn 1 dyn = 10-5 N Energia elétronvolt eV 1 eV ≈ 1,602.10-19 J erg erg 1 erg = 10-7 J Densidade linear tex tex 1 tex = 10-6 kg/m Tensão de Sistema Óptico diopre 1 diopre = 1 m-1 Fonte: adaptada de Vinge et al., 2006 e Gonçalves Jr; Sousa, 2008. 73 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II | UNIDADE II Um conjunto de prefixos foi adotado para uso com as unidades do SI, para expressar os valores que são muito maiores ou muito menores do que a unidade da grandeza, a fim de a grafia destes valores e podem ser usados com qualquer unidade de base e derivadas. Os prefixos SI estão listados na Tabela 7. Tabela 7. Prefixos SI. Fator Nome Símbolo Fator Nome Símbolo 101 deca da 10-1 deci d 102 hecto h 10-2 centi c 103 quilo k 10-3 mili m 106 mega M 10-6 micro µ 109 giga G 10-9 nano n 1012 terá T 10-12 pico p 1015 peta P 10-15 femto f 1018 exa E 10-18 atto a 1021 zetta z 10-21 zepto z 1024 yotta Y 10-24 yocto y Fonte: Vinge et al., 2006. A grafia dos nomes atribuídos às unidades e dos símbolos relacionados devem seguir algumas orientações, tais quais (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008): » os nomes das unidades devem iniciar com a letra minúscula, quando escritas por extenso, até mesmo aqueles nomes próprios, como newton; » durante a escrita, somente utilizar o nome ou o símbolo atribuído. Não utilizar combinações de nomes e símbolos; » os prefixos e símbolos são invariantes e não são utilizados no plural; » os símbolos devem ser escritos no mesmo alinhamento do número (valor) a que se referem, com exceção de °, ‘, “, os quais não são contemplados no SI. Sistema Inglês Por influência de alguns países anglo-saxão que utilizavam um outro sistema de medidas, que ficou conhecido como sistema inglês, e foi muito difundido em países como Inglaterra e Estados Unidos.Tal sistema acabou se popularizando ao redor do mundo devido à importação de equipamentos, advindos destes países, que obedeciam a este sistema inglês (COELHO; SILVA, 2018). 74 UNIDADE II | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II O sistema inglês de unidades teve origem na Roma antiga, mas sua evolução se deu ao longo de séculos, principalmente na Inglaterra. No século XII, em função da popularização, o padrão criado por alfaiates ingleses e conhecido como jarda, termo originado da palavra inglesa “yard” (tradução: vara), foi oficializado pelo rei britânico Henrique I (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996; SILVA NETO, 2012). Naquela época, a unidade de comprimento jarda foi definida como a distância entre a ponta do nariz do rei e a de seu polegar, com o braço esticado (Figura 60), seguindo os mesmos conceitos dos antigos bastões de um cúbito, foram distribuídas barras metálicas na tentativa de uniformização da jarda na vida prática. Porém, esta tentativa não impediu que o padrão sofresse modificações ao longo do tempo (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). Figura 60. Medida padrão do sistema inglês, a jarda. JARDA Fonte: Secco et al., 1996. Além da unidade jarda, existem outras unidades de medida estabelecidas no sistema inglês, tais quais o pé, a polegada e a milha terrestre. Abaixo são apresentadas as relações entre estas unidades: » 1 jarda = 3 pés = 36 polegadas; » 1 milha terrestre = 1 760 jardas = 5 280 pés = 21 120 polegadas; Embora esse sistema esteja cada dia mais em desuso, muitas vezes é preciso conhecer suas particularidades, pois é ainda muito utilizado na Inglaterra e nos Estados Unidos, e por consequência no Brasil, devido ao grande número de empresas procedentes desses países, além do elevado número de importações e exportações entre estes países. Mas cabe ressaltar que, devido ao crescimento da globalização, esse sistema está, aos poucos, sendo substituído pelo Sistema Internacional de Unidades (SILVA NETO, 2012). 75 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II | UNIDADE II Em função da grande influência inglesa na história dos processos de fabricação, é comum o emprego, para medidas industriais, a unidade de medida de comprimento polegada, a qual corresponde à 25,4 mm (SI). A polegada pode ser dividida em frações ordinárias com denominadores iguais a 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, ..., obedecendo à progressão geométrica de razão 2. Após as devidas simplificações, as frações resultantes sempre serão formadas por numeradores ímpares. A simbologia atribuída à polegada são as aspas (“). A seguir, são apresentados alguns exemplos da representação fracionária da polegada: 1" 2 = meia polegada; 1" 4 = um quarto de polegada; 1" 8 = um oitavo de polegada; 1" 16 = um dezesseis avos de polegada, e assim sucessivamente. Para facilitar a leitura e principalmente agilizar os cálculos de composição da medida, foi criada a divisão decimal da polegada. No sistema inglês, diferente do SI, o ponto indica a separação dos decimais. Um exemplo de descrição de medida: 1.003” (1 polegada e 3 milésimos de polegada). Medidas e conversões entre o SI e o sistema inglês Apesar de Sistema Internacional de Unidades, atualmente, ser o mais utilizado no mundo, ainda podem ser encontrados diversos projetos, especificação de produtos, equipamentos ou ainda catálogos de fornecedores, com indicações de medidas no padrão do sistema inglês; por isso, torna-se conveniente o entendimento a respeito dos métodos de conversão de unidades entre os sistemas SI e inglês. Para obtenção das medidas em milímetros a partir de valores em polegada, é necessário apenas realizar a multiplicação da medida em polegadas pelo valor equivalente no SI, de 25,4 mm, conforme abaixo: » 3” 3” x 25,4 = 76,2 mm; » 3" 8 3" 25,4 8 x = 9,525 mm; » 1"2 16 2” x 25,4 + 1" 25,4 16 x = 52,387 mm; » 0.625” 0.625 x 25,4 = 15,875 mm. 76 UNIDADE II | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II Como explica Silva Neto (2012), para realizar a conversão das medidas em milímetro em medidas equivalentes em polegadas fracionárias, é necessário multiplicar o valor dado por 128 (resolução da polegada fracionária), e então dividir esse valor por 25,4. Em seguida, tornar este resultado em numerador, cujo denominador é 128, e realizar a simplificação que for possível, como pode ser observado nos exemplos a seguir: » 19,05 mm 19,05 1 28 25, 4 x = 96 96" 3" 128 4 = ; » 85,725 mm 85,725 1 28 25,4 x = 432 432" 3"3 128 8 = . Para conversão de medidas em milímetros para polegadas milesimais, ou em divisão decimal, é necessário apenas dividir o valor em milímetros por 25,4 mm. Por exemplo, para converter 12,7 mm 12,7 25,4 = 0.5” ou 0.500”. 77 CAPÍTULO 2 Erros de medição Em um cenário ideal, durante uma etapa da fabricação de um componente de um carro, é necessário realizar uma medição para verificar se a peça se encaixará no sistema para o qual foi projetada; para alcançar o encaixe “perfeito”, a indicação apresentada pelo sistema de medição escolhido deve corresponder, exatamente, ao valor da dimensão sob medida. Infelizmente, esse tipo situação não é sempre que ocorre. Existem fatores como condições ambientais, limitações do sistema de medição e operador, que podem interferir no processo de medição e, consequentemente, nos resultados, o que pode conduzir a erros de medição (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). Conforme explica Gonçalves Jr e Sousa (2008), é possível identificar o erro de medição a partir do momento que o comportamento real de um determinado sistema se afasta do ideal e a dimensão deste erro depende dessa diferença apresentada. O erro pode se apresentar em dois principais tipos: o erro sistemático, caracterizado pela parcela previsível do erro também considerado como erro médio, ou o erro aleatório, que configura a parcela imprevisível do erro, cuja repetições do processo apresentarão resultados distintos entre si. Segundo Silva Neto (2012), o conceito de erro de medição pode ser aplicado quando existir um valor de referência específico, como na realização de uma calibração tendo por referência um padrão cuja incerteza de medição é desprezível, ou ainda se o valor convencional for pré-determinado, o erro de medição será conhecido; ou, se o valor a ser medido é representado por valor ou um conjunto de valores verdadeiros e definidos de amplitude desprezível, o erro de medição será desconhecido. Como definem Gonçalves e Sousa (2008), “o erro de medição é a diferença entre o valor indicado pelo sistema de medição e valor verdadeiro do mensurado”. Portanto, esse parâmetro pode ser expresso por: E = I - VV 78 UNIDADE II | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II Nesta expressão, E representa o valor do erro de medição, I pode ser definido como a indicação do sistema de medição e, por fim, VV é o valor verdadeiro do mensurado. É possível perceber que o valor do erro será positivo em aplicações em que a indicação do sistema apresentar um valor superior ao valor verdadeiro da grandeza sob medição. A equação apresentada, apesar de ajudar a entender o conceito do erro associado ao processo de medição, não tem muita utilidade prática, já que, se o valor verdadeiro do mensurando já é conhecido, por lógica, retira a obrigatoriedade da realização da medição. Porém, avaliando-se pela ótica do sistema de medição, é quase impossível a aplicação de um sistema classificado como perfeito; por isso, é importante conhecer o erro associado a tais sistemas, usando por base grandezas padrões, para melhor controlar o processo de medição, e assim tornar possível a obtenção de informações confiáveis destes sistemas, desde que seja conhecida a natureza do erro (SILVA NETO, 2012). Diferença entre Exatidão e Precisão Segundo Silva Neto (2012), é muito comum confundir os termos precisão e exatidão de medição; mas, segundo o Vocabulário Internacional de Metrologia (VIM 2008), existe uma diferença substancialentre estes dois conceitos, conforme descrição a seguir: » precisão é o grau de concordância entre as indicações ou valores obtidos pela realização de medição por repetidas vezes em um mesmo objeto ou em objetos similares. A precisão de medição pode ser expressa numericamente por indicadores de incerteza, como desvio padrão, dispersão entre os valores, variância e coeficiente de variação, sob condições de medição pré-determinadas, tais quais condições de repetitividade, de precisão intermediária ou de reprodutibilidade; » exatidão de medição é o grau de concordância entre uma indicação e um valor verdadeiro de um mensurando. Por não ser uma grandeza, não pode ser atribuído um valor numérico a este parâmetro. Uma medição pode ser classificada como mais exata quando um erro de medição menor é caracterizado ao sistema. Algumas vezes, a exatidão de medição pode ser definida como o grau de concordância entre valores medidos que são atribuídos ao mensurando. 79 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II | UNIDADE II A partir da análise da Figura 61, é possível observar a diferença entre os conceitos associados à precisão e exatidão. Quando os valores das medidas realizadas destoam muito da média, ou quando os pontos se afastam entre si no caso das Figuras 61 a) e b), significa que as medidas são pouco precisas e o conjunto de valores têm alta dispersão. Entretanto, quando estes valores estão mais concentrados em torno da média, quando os pontos estão mais próximos uns dos outros, pode-se afirmar que a precisão da medição é alta (Figuras 61 c) e d) e os valores medidos possuem baixa dispersão. Quando as indicações se afastam do valor verdadeiro, aumentando o erro de medição, pode-se afirmar que a medição é de baixa exatidão, como pode ser observado nas Figuras 61 a) e c), nas quais os pontos se afastam do centro do alvo que representa o valor verdadeiro do mensurando. Já as medições de alta exatidão apresentam um elevado grau de concordância entre os valores medidos e o valor verdadeiro, com menor erro associado, o que pode ser observado nas Figuras 61 b) e d), em que os pontos estão mais próximos do centro do alvo, aumentando a exatidão de medição. Figura 61. Exemplos para ilustrar a diferença entre exatidão e precisão de medição. a) Baixa Precisão e Baixa Exatidão b) Baixa Precisão e Alta Exatidão c) Alta Precisão e Baixa Exatidão d) Alta Precisão e Alta Exatidão Fonte: Silva Neto, 2012. 80 UNIDADE II | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II Erros Sistemáticos e Aleatórios A estimativa do erro sistemático de um sistema de medição torna-se possível a partir da realização de medições repetitivas de um mensurando, cujo valor verdadeiro é conhecido. Porém, na prática, como o valor exato do mensurando raramente é conhecido, mas apenas aproximado, essa estimativa passa a ser conhecida como tendência, que calcula a diferença entre a média obtida por um número limitado de indicações e o valor verdadeiro convencionado, sendo este um valor verdadeiro estimado (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008; SILVA NETO, 2012). Nestes casos relacionados a erros sistemáticos ou estimativa por tendência, é possível a obtenção de uma indicação de um sistema de medição corrigida, ao realizar uma compensação dos erros identificados na medição. A determinação do erro aleatório associado ao sistema de medição tem baixa praticidade, visto que, para cada indicação, o erro aleatório assumirá um valor diferente, por não seguir nenhum tipo de padrão. O fator de interesse, então, passa ser a repetitividade, que é caracterizada como a faixa simétrica de valores em torno do valor médio das indicações, dentro da qual o erro aleatório de um sistema de medição passa a ser esperado com elevada probabilidade. A determinação da repetitividade auxilia na estimativa das incertezas associadas aos resultados obtidos na medição (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). De fato, durante a avaliação do comportamento do erro aleatório de medição, é necessário o entendimento de alguns conceitos pertinentes, tais quais (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008): » Distribuição normal ou gaussiana: um teorema conhecido na estatística afirma que “quanto mais variáveis aleatórias forem combinadas, mais o comportamento da combinação resultante se aproxima do comportamento de uma distribuição normal”. Uma distribuição na qual cada evento possível de um conjunto de medições tem a mesma probabilidade de ocorrer pode ser classificada como distribuição de probabilidade uniforme. Se as médias de 6, 8 ou mais dados forem analisadas, mais a distribuição resultante se aproximará da normal. Como consequência da ação conjunta de muitos fatores independentes (condições ambientais, habilidade do operador, 81 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II | UNIDADE II limitações do sistema de medição, entre outros), a distribuição resultante do erro aleatório de medição é muito similar à distribuição normal; por isso, para melhor compreender e delimitar os efeitos do erro aleatório, é comum associá-lo a este tipo de distribuição. A Figura 62 apresenta exemplos de distribuição uniforme (esquerda) e normal (direita). Figura 62. Exemplos de distribuição de probabilidade uniforme (esquerda) e normal (direita). Fonte: adaptada de Gonçalves Jr; Sousa, 2008. » Desvio-padrão (σ ou s): em cada lado da curva de distribuição de probabilidade normal há um ponto de transição conhecido como ponto de inflexão (Figura 63), no qual o raio de curvatura se torna infinito. A distância entre esse ponto de inflexão e o eixo de simetria (valor médio central µ) corresponde ao desvio-padrão, que pode ser também definido como a medida do grau de dispersão de uma distribuição. A Figura 63 apresenta a representação do desvio-padrão numa curva de distribuição de probabilidade normal (esquerda) e como os diferentes valores de desvio influencia no formato final da curva (direita), nas quais a distribuição C apresenta o maior valor de desvio-padrão associado e a distribuição A o menor valor. O desvio-padrão pode ser calculado a partir das seguintes expressões, na qual σ é o desvio-padrão para um número infinito de medições e s para um número finito, Ii é i=ésima indicação da medição, Ī é a média de todas as indicações e n é o número de medições repetitivas efetuadas: 82 UNIDADE II | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II ( )2 1lim n ii n IÎ n σ = →∞ − = ∑ (infinitas medições) ( )2 1 1 n ii IÎ s n = − = − ∑ (n. finito de medições) Figura 63. Caracterização do desvio-padrão (esquerda) e influência deste no formato das curvas (direita) de distribuição normal. Ponto de inflexão Ponto de inflexão A B C µ σ σ Fonte: adaptada de Gonçalves Jr; Sousa, 2008. » Incerteza-padrão: é o valor que determina o desvio-padrão do erro aleatório de medição, ou seja, é a medida da intensidade da componente aleatória do erro. Quando calculada por meio de um conjunto de medições repetidas, a incerteza-padrão corresponde ao desvio-padrão da amostra (s). » Graus de liberdade ( )í : o número de medições repetitivas menos um, além de ser diretamente associado à incerteza-padrão, ou seja, representa a parcela 1n − da expressão que determina o desvio/incerteza-padrão, logo 1nν = − . » Repetitividade: parâmetro associado ao erro aleatório e pode ser calculado a partir do desvio-padrão da amostra. Pode ser definida como a metade do valor da faixa dentro da qual o erro aleatório é esperado e deve sempre ser associada à uma probabilidade. A repetitividade pode ser calculada pelo produto da incerteza-padrão (u) pelo respectivo coeficiente t de Student1: ( )2 1 1 n ii IÎ s u n = − = = − ∑ .Re t u= ± 1 Coeficiente da distribuição “t” de Student com o qual é possível estimar parâmetros estatísticos a partir de amostras finitas, com resultados confiáveis. O Anexo I apresenta os valores dos coeficientes t de Student. 83 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBREMETROLOGIA II | UNIDADE II A partir da análise do exemplo apresentado por Silva Neto (2012), será possível um melhor entendimento a cerca destes conceitos abordados. O diâmetro de um eixo padrão de 25,000 mm (valor verdadeiro convencionado) foi medido utilizando um micrômetro externo de resolução 0,001 mm. Após dez repetições, foram encontrados os resultados mostrados na Tabela 8. Com base nesses resultados, qual é o erro sistemático ou tendência do dispositivo de medição? Qual o desvio/incerteza-padrão associado(a) às medições? Qual o grau de liberdade desta distribuição? Qual a repetitividade deste instrumento com 95% de probabilidade? Tabela 8. Resultados das medições realizada a partir da utilização do micrômetro. Testes Resultados das Medições (mm) 1 25,010 2 25,015 3 25,011 4 25,014 5 25,012 6 25,009 7 25,016 8 25,013 9 25,008 10 25,012 Fonte: Silva Neto, 2012. A primeira etapa consiste em determinar o valor médio das medições: 10 1 250,120 25,012 10 ii I Î mm n == = =∑ Conhecendo o valor verdadeiro (VV) do mensurando, 25,000 mm, é possível então determinar o erro sistemático ou tendência (Td) associada a estas medições. 25,012 25,000 0,012 dT Ī VV mm� � � � � Logo, o erro sistemático associado ao dispositivo de medição, neste caso o micrômetro, é de 0,012 mm. 84 UNIDADE II | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II Para delimitar a parcela aleatória do erro. é necessário determinar o grau de dispersão destas medidas, ou seja, estimar o desvio-padrão. Como foram realizado um número finito de medições, então: ( )2 1 0,00006 0,003 1 10 1 n ii IÎ s mm n = − = = = − − ∑ O grau de liberdade, que já foi até considerado para o cálculo do desvio-padrão, é o número total de medições realizadas, 10, menos 1, logo: 1 10 1 9nν = − = − = Para identificar o coeficiente t Student, deve-se considerar 95% de probabilidade, como informado, e a incerteza-padrão de 0,003 mm, para um grau de liberdade 9. Na Tabela 22 apresentada no Anexo I, é possível encontrar o valor de t = 2,26. Com isso, a repetitividade pode calculada a partir de: 2,26.0,003 0,007 Re mm= = Portanto, existem 95% de probabilidade de o erro aleatório associado ao sistema se enquadrar numa faixa simétrica de ± 0,007 mm, centrada em torno do valor médio do diâmetro do eixo de 25,012 mm. Fontes de Erros Existem fatores cuja ação sobre os processos de medição acarretam erros aos sistemas; podem agir independentemente do sistema de medição adotado; podem ser internos ou externo aos sistemas, de maior ou menor grau; podem também gerar erros sistemáticos e/ou aleatórios. Tais fatores como o procedimento escolhido para a medição, a habilidade do operador para execução, as condições ambientais no momento da execução da medição, entre outros, são denominados de fontes de erros (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). A Figura 64 apresenta de forma esquemática como podem ser as interações o sistema de medição, o operador e o mensurado (objeto/grandeza a ser medido) e influência dos fatores externos e internos como fontes de erros. 85 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II | UNIDADE II Figura 64. Interações entre os sistemas de medição, mensurando e operador. Sistemas de Medição Fatores Internos Sinal de Medição Indicação Operador Mensurando Retroação Retroação Fatores Externos Fatores Externos Fonte: adaptada de Gonçalves Jr; Sousa, 2008. Segundo Gonçalves Jr. e Sousa (2008), a grande maioria dos sistemas de medição existentes interage, em certo grau, com o mensurando, podendo alterar o seu valor verdadeiro, e esse efeito indesejado é uma fonte de erros, conhecida como retroação. Assim como na interação entre o operador e o sistema de medição, este efeito pode estar presente. Fatores internos ao sistema de medição, como erros de geometria nos componentes e mecanismos, limitações tecnológicas e de custos, qualidade dos componentes e dos serviços de montagem dos mesmo para compor o mecanismo, até mesmo o princípio de funcionamento do sistema de medição, podem atuar diretamente como fontes erros durante o processo de medição, por exemplo: molas e/ou outros elementos não apresentam o comportamento perfeitamente elástico dos materiais, como esperado, podem contribuir para gerar erros sistemáticos/aleatórios nas leituras dos sistemas de medição de forças (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). Alguns fatores externos podem ser considerados como possíveis fontes de erros ao sistema, como as condições do ambiente no qual o sistema de medição está inserido, que podem influenciar diretamente seu comportamento, como por exemplo: » variações nos valores de temperatura, umidade do ar e pressão atmosférica podem induzir erros nos sistemas ópticos de medição com maior ou menor intensidade; 86 UNIDADE II | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II » a presença de vibrações mecânicas e as variações de temperatura podem provocar erros de medições expressivos nos sistemas de medição mecânicos; » a presença de campos eletromagnéticos de significativa magnitude, flutuações nos valores de tensão, além de variações na frequência da rede elétrica e da temperatura são fatores que podem afetar o comportamento dos sistemas de medição elétricos. Portanto, para obtenção de resultados confiáveis durante as aplicações dos sistemas de medição, deve-se considerar alguns cuidados, principalmente durante a execução, como uma forma de manter sob controle as condições ambientais, que sem dúvidas é o fator de maior interferência, como utilizar salas que tenham temperatura controlada para a realização das medições, usar redes de tensão elétrica devidamente estabilizadas, além de buscar alternativas para a blindagem eletromagnéticas dos sistema de medição elétricos (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). 87 CAPÍTULO 3 Calibração de sistemas de medição Como foi apresentado anteriormente, qualquer aplicação de um processo de medição pode estar sujeita a erros, sejam eles sistemáticos e/ou aleatórios, em maior ou menor grau, originários de fatores internos e/ou externos, por mais sofisticado que seja o processo aplicado (SILVA NETO, 2012). A utilização recorrente dos sistemas de medição tende, na maioria dos casos, a desgastar parte dos componentes que compõe tais sistemas e, consequentemente, comprometer o desempenho dos mesmos, influenciando diretamente na confiabilidade dos resultados e na qualidade do processo produtivo. Para verificar se um dispositivo de medição atende ou não aos limites estabelecidos de erros associados, é necessária avaliação periódica que tem por objetivo identificar os erros que esses instrumentos apresentam por toda faixa de medição, caracterizando, dessa forma, o seu respectivo desempenho metrológico, verificando como a indicação deste instrumento se relaciona com o valor verdadeiro do mensurando. Esse procedimento é conhecido como calibração. O conjunto de operações denominado de calibração estabelece, primeiramente, sob condições pré-determinadas, a relação entre os valores indicados pelos sistemas de medição, as incertezas definidas pelos padrões (medida materializada) relativos e as medições correspondentes com as incertezas associadas. Como etapa seguinte, utiliza a informação obtida para estabelecer uma relação com o valor verdadeiro a partir da obtenção de um resultado de medição (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008; SILVA NETO, 2012). Portanto, o resultado obtido pela realização de uma calibração permite estabelecer os valores relacionados ao objeto de medição como indicações, bem como a determina as possíveis correções necessárias a serem aplicadas nos sistemas de medição (GAVENDA et al., 2008). Para garantir qualidade às aplicações dos sistemas de medição, assim como garantir que atuem dentro da conformidade, as normas referentes aos sistemas de qualidade estabelecem procedimentos que devem ser seguidos quanto à seleção dos sistemas de medição, utilização adequada e calibraçãodos mesmos, além do controle e manutenção dos padrões de medição. Tais referências normativas têm por objetivo o controle e inspeção dos dispositivos 88 UNIDADE II | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II de medição, assegurar que a incerteza associada às medições seja conhecida e coerente com a capacidade do sistema de medição, para com isso garantir a conformidade dos processos produtivos aos requisitos especificados e prover a confiança necessária nas decisões/ações, desde o desenvolvimento até a produção, a partir dos dados obtidos nas medições (GAVENDA et al., 2008). A devida realização da calibração nos sistemas de medição permite o aprimoramento contínuo, além de garantir algumas vantagens como: a redução da variação das especificações dos produtos, redução de perdas econômicas pela prevenção de falhas nos processos e produtos, asseguram atendimento aos requisitos de desempenho pela compatibilização das medições. Os procedimentos adotados para realização da calibração podem variar de acordo ao sistema de medição; entretanto, existem características comuns neste conjunto de operações, sempre baseadas em estabelecer a relação entre as medições e o valor verdadeiro do objeto de medição (mensurando). Essas características serão detalhadas a seguir (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008; SILVA NETO, 2012): » definição do sistema de medição de referência: determinar o sistema de medição correto afetará diretamente na confiabilidade dos resultados das medições, para o qual, quanto menor a incerteza relacionada ao padrão escolhido, melhores serão as condições para calibração; » definição dos sistemas de medição críticos: primeiramente, se faz necessária a identificação das variáveis cruciais no respectivo sistema produtivo, para enfim selecionar adequadamente os dispositivos de medição que serão responsáveis por controlar estas variáveis, além de estabelecer os limites de especificação de tais variáveis para todas as etapas de produção. Estes dispositivos, então, serão definidos como críticos, afetando a priorização e cronograma de realização das calibrações; » seleção do tipo de calibração a ser aplicado: o processo de submissão de um sistema de medição aos valores verdadeiros do mensurando, bem como avaliação das medidas resultantes, além 89 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II | UNIDADE II de caracterizar o processo de calibração, pode ser realizada de, basicamente, duas maneiras, definindo os métodos de calibração direta e indireta: › a calibração direta pode ser caracterizada quando o padrão, composto pelas medidas materializadas, é aplicado diretamente aos sistemas de medição a calibrar (SMC) e a comparação em entre as indicações dos sistemas e os valores de referência (padrão) é realizada de forma direta. A Figura 65 apresenta, esquematicamente, as relações neste tipo de método. A calibração de instrumentos como micrômetro e paquímetro utilizando blocos-padrão é um exemplo de calibração direta; Figura 65. Relações entre sistemas de medição a calibrar e o padrão na calibração direta. Grandeza Padrão Sistema de Medição a Calibrar (SMC) Medida Valor Padrão Fonte: adaptada de Silva Neto, 2012. › em aplicações em que a medida materializada (valor padrão) não é bem definida e a grandeza objeto de medição é fornecida por um meio externo (gerador da grandeza), atuando simultaneamente no sistema de medição padrão e no SMC, é necessária a aplicação da calibração indireta. Os resultados obtidos por este método são comparados, para, assim, determinar os erros e realizar as devidas as correções. A Figura 66 apresenta, esquematicamente, as relações neste tipo de método. Um exemplo de calibração indireta é o procedimento adotado para calibrar o velocímetro de um veículo, já que não existe uma medida materializada para a grandeza velocidade. Para realizar a calibração deste medidor de velocidade, é preciso simular o deslocamento do veículo e a indicação do velocímetro com a de um padrão conhecido, neste caso de um tacômetro padrão. 90 UNIDADE II | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II Figura 66. Relações entre sistemas de medição a calibrar e padrão na calibração indireta. Gerador de Grandeza Sistema de medição padrão (SMP) Sistema de medição a calibrar (SMC) Medida (ISMP) Medida (ISMC) Comparação Fonte: adaptada de Silva Neto, 2012. » registro das indicações: durante a execução da calibração, é recomendado realizar o correto registro das leituras, de forma individual, para todas as escalas pertencentes ao sistema de medição a calibrar, contemplando os valores efetivamente obtidos durante as medições. Pode-se fazer uso de recursos como planilhas, conforme o número de dados envolvidos nesta operação; » definição do cronograma de realização da calibração: em qualquer dispositivo de medição, é comum ocorrer desgaste em seus componentes, podendo afetar o desempenho metrológicos de tais dispositivos e comprometer a confiabilidade das medições. Por isso. a necessidade da realização periódica da calibração nestes sistemas. A definição da periodicidade de aplicação dos procedimentos de calibração depende de fatores como: frequência de utilização e grau de severidade das condições de uso dos dispositivos de medição, do tipo de instrumento, da frequência indicada pelo fabricante dos dispositivos, das informações de tendência estimados em calibrações anteriores, histórico de manutenção realizada nos instrumentos, nível de exatidão requerida e condições ambientais de aplicação dos dispositivos; » registro dos resultados da calibração (Certificado de Calibração): a partir dos resultados de uma calibração, é possível determinar se o sistema de medição atende ou não as condições especificadas, o que pode permitir ou não a sua utilização em determinada aplicação. O registro destes resultados são descritos em um documento conhecido como certificado de calibração, que deve conter informações importantes como: indicação da data de realização do procedimento 91 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA II | UNIDADE II e o responsável pela calibração; indicação dos erros encontrados, para permitir sua comparação com os erros máximos tolerados e pré-determinados; parecer recomendando ou não a utilização do dispositivo de medição, conforme condições avaliadas. Caso a utilização do instrumento não seja recomendada, deve-se, então, recomendar a realização da manutenção ou substituição dele; » especificação da rastreabilidade metrológica: a rastreabilidade se apresenta como uma importante característica dos sistemas de medição e dos padrões, e pode ser definida como “a propriedade de um resultado de medição por meio da qual ele pode ser relacionado a uma referência através de uma cadeia ininterrupta e documentada de calibrações, cada qual contribuindo para a incerteza de medição” (SILVA NETO, 2012). Uma premissa básica relacionada à calibração é que os sistemas de medição devem ser calibrados por um sistema de medição padrão, cujas incertezas sejam devidamente conhecidas e apresentarem valores inferiores aos especificado pelo SMC. Para isso, utiliza-se um fluxograma que atesta a rastreabilidade do padrão de referência aplicado durante a calibração, que por sua vez, também deve ser calibrado, a partir de padrões com incertezas associadas de menor valor. Desta forma, a rastreabilidade dos sistemas de medição padrão é garantida, respeitando os padrões nacionais e/ou internacionais (GAVENDA et al., 2008). A calibração é, portanto, um dos recursos mais importante para o controle de qualidade do sistema de medição ou padrão de medição. A partir da aplicação das operações características da calibração, é possível evitar a utilização dos dispositivos de medição que não atendem as especificações estabelecidas. As principais normas que apresentam os fundamentos para aplicação das operações de calibração são ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 – Requisitosgerais para a competência de laboratórios de ensaio e calibração, ABNT NBR ISO 10012:2004 – Sistemas de gestão de medição – Requisitos para os processos de medição e equipamentos de medição e ABNT NBR ISO 9001:2015 – Sistemas de gestão da qualidade – Requisitos. 92 UNIDADE IIISISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES CAPÍTULO 1 Fundamentos do GD&T e normas relacionadas Para muitas pessoas, inclusive do setor de manufatura, os conceitos de Tolerância Dimensional e Geométrica, também conhecido como Geometric Dimensioning and Tolerance - GD&T, que traduzido ao português ainda pode ser chamado de Dimensionamento Geométrico e Tolerância, trata-se de um assunto relativamente novo. Foi durante a Revolução Industrial que se iniciou a aplicação de um sistema de tolerâncias nas diversas etapas de manufatura, justificada pela necessidade de intercambiabilidade entre as peças/componentes produzidos. A principal mudança provocada pela revolução foi a substituição do trabalho artesanal pela produção seriada com a utilização das máquinas, sendo o sistema de dimensionamento a partir de coordenadas cartesianas, um dos pioneiros, fundamentado pelos conceitos apresentados pelo cientista e filósofo René Descartes (BAKER, 2016). Segundo Krulikowski (1998) e Fanha (2011), em meados de 1930, o conceito de GD&T já havia sido introduzido por Stanley Parker, um engenheiro britânico ligado à marinha inglesa, que, por meio da análise de experiências realizadas e observações do processo de montagem e inspeção, verificou que os critérios de reprovação das peças, caracterizadas como insumos de produção, estavam equivocados, uma vez que o mesmo observou o devido encaixe de peças que haviam sido reprovadas durante a etapa de inspeção. Durante sua atuação na Royal Torpedo Factory, Stanley, desenvolveu um sistema de tolerância de posição, com zonas de tolerância cilíndricas como aperfeiçoamento do sistema outrora adotado. Apesar de fornecer bases para o GD&T, essa metodologia apenas ganhou destaque a partir do advento da Segunda Guerra Mundial. 93 SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, que eram um dos principais fornecedores da época, fabricavam e exportavam peças de reposição para abastecimento de diversos países. Muitas dessas peças eram manufaturadas de acordo com as especificações, porém o processo de montagem delas aconteceria nos locais de destino. E, durante esse processo de montagem, os militares envolvidos percebiam que as peças não se encaixavam e comprometiam o funcionamento adequado dos produtos finais, configurando um sério problema, naquele contexto, pois vidas dependiam do correto desempenho daqueles equipamentos. Então, depois da guerra, um comitê com representantes do governo estadunidense, da indústria e da educação foi formado. Este grupo dedicou tempo e esforços consideráveis na investigação desse problema recorrente, com o objetivo de encontrar soluções para garantir que as peças se encaixassem e permitissem o adequado funcionamento dos equipamentos aos quais eram destinadas. Como resultado foram definidos os fundamentos para o desenvolvimento do GD&T (COGORNO, 2006). Em 1945, o exército dos Estados Unidos publicou um documento sobre a temática de dimensionamento e tolerância que introduziu a utilização de símbolos para especificação de tolerâncias de forma e posição. Em 1948, publicaram, por influência britânica, o primeiro padrão normativo para dimensionamento e tolerância, conhecido como MIL-STD-8. Em 1957, a associação americana de padrões normativos, ou American Standards Association (ASA), aprovou o primeiro padrão americano dedicado ao tema. Mas foi em 1966 que o American National Standards Institute (ANSI) publicou o que viria a ser o sucessor do MIL-STD-8B, o primeiro padrão normativo, conhecido como ANSI Y14.5 – Dimensioning and Tolerancing: Engineering Drawing and Related Documentation Practices, no qual substituiu as notas por símbolos específicos em todos os sistemas de tolerância. Desde 1982, este documento vem sendo atualizado pela American Society of Mechanical Engineers (ASME) e a versão mais atualizada é de 2009 (AMERICAN SOCIETY OF MECHANICAL ENGINEERS, 2009; BAKER, 2016). A International Organization for Standardization (ISO) já publicou ao menos 300 documentos normativos de grande relevância e relacionados à temática de Especificação Geométrica de Produtos, ou Geometric Product Specification – GPS, que engloba especificações relativas ao dimensionamento e tolerância 94 UNIDADE III | SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES (BAKER, 2016). Destaca-se, entre os documentos produzidos ao longo dos anos, a primeira norma ISO que diz respeito à especificação de tolerâncias geométricas de forma e posição, a ISO 1101:2017 Geometrical Product Specifications (GPS) -- Geometrical tolerancing -- Tolerances of form, orientation, location and run-out, a qual define a linguagem dos símbolos para a especificação geométrica das peças e as regras para sua correta interpretação, além de fornecer a base para a especificação geométrica. Segundo Baker (2016), atualmente, os padrões ASME Y14.5 e a ISO 1101 são as principais normas que tratam do dimensionamento geométrico e, apesar de apresentar diferenças entre elas, fornecem elementos importantes em relação à metodologia GD&T. No Brasil, a Associação Brasileira de Normas Técnicas disponibiliza os padrões normativos NBR 6409:1997 Tolerâncias geométricas - Tolerâncias de forma, orientação, posição e batimento - Generalidades, símbolos, definições e indicações em desenho, que estabelece os princípios gerais para indicação das tolerâncias de forma, orientação, posição e batimento, e, ainda, as definições geométricas relacionadas (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997), além da NBR 6158:1995 Sistema de tolerâncias e ajustes, a qual estabelece um conjunto de princípios, regras e tabelas que se aplicam à tecnologia mecânica, com o objetivo de facilitar o processo de escolha das tolerâncias e ajustes, visando a manufatura de peças intercambiáveis (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1995). Conceitos de GD&T Conforme descreve Cogorno (2006), GD&T é uma linguagem simbólica, uma importante ferramenta de projeto, utilizada para especificar a dimensão, forma, posição e localização dos elementos de uma peça. Os recursos aplicados com a metodologia GD&T refletem a relação real entre os componentes (peças) correspondentes. Desenhos com tolerâncias geométricas aplicadas de maneira adequada fornecem uma melhor oportunidade para uma interpretação uniforme e uma montagem econômica. O GD&T foi criado para garantir a montagem adequada de peças intercambiáveis, para melhorar a qualidade de produção e reduzir custos envolvidos. 95 SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III O GD&T configura-se como uma importante ferramenta na área de engenharia de projetos (engineering drawings); é caracterizada pela especificação de simbologia e diretrizes para que os projetistas possam aplicar adequadamente os preceitos da tolerância dimensional e geométrica; eles devem considerar cuidadosamente o ajuste e a função de cada característica de cada peça. A tolerância geométrica aplicada corretamente garante que todas as peças serão montadas todas as vezes. A aplicação dos princípios estabelecidos pela GD&T além de garantir a intercambiabilidade entre as peças em produção, permitindo que os projetistas especifiquem a tolerância máxima disponível para cada condição e, consequentemente, contribui para redução dos custos envolvidos na produção ao tornar a etapa de montagem mais econômica (COGORNO, 2006; FANHA, 2011). As diretrizes estabelecidas pela tolerância dimensional e geométrica são capazes comunicar a intenção do projeto, ao revelar as características da peça a ser fabricada e como tal elemento será aplicado ao produto final, garantindo eficiência à etapa de montagem. Neste esquema de tolerância, é necessáriofazem parte do cotidiano e estão presentes em praticamente todos os ramos da atividade humana: por exemplo, no preparo de uma refeição, é necessário verificar os valores de temperatura e o tempo de cozimento dos alimentos. É possível afirmar que os diversos setores de produção, definitivamente, não poderiam existir, neste formato como são conhecidos, se medições confiáveis não tivessem sido estabelecidas. E, para atingir o grau de confiabilidade que os tempos atuais exigem, os processos de medição passaram por uma longa trajetória de evolução e aperfeiçoamento. Nesse contexto, o estudo da metrologia torna-se importante para o entendimento dos conceitos e métodos necessários para elevação da confiabilidade dos sistemas de produção, já que estabelece padronização aos mesmos, permitindo, assim, identificar procedimentos para otimização do sistema produtivo, viabilizar a reprodutibilidade na fabricação de determinado produto, e, com isso, promover redução de custos associados em tais processos. Nesta etapa da globalização, a grande maioria dos produtos necessitam ser projetados e fabricados para serem utilizados além dos limites dos países nos quais foram concebidos. Muitas vezes, cada parte que compõe o produto deve ser fabricada em um local diferente, e, ao final, deve se encaixar perfeitamente umas às outras para o devido funcionamento do produto. Para isso, cada etapa de fabricação deve ter um controle rigoroso quanto à padronização e à qualidade, sem exceções. A garantia desse controle somente é possível graças ao emprego de um sistema internacional de metrologia confiável. O desenvolvimento da metrologia está diretamente associado à evolução tecnológica. Assim, é possível afirmar que este campo da ciência ainda se encontra em constante evolução, e, consequentemente, vem alcançando níveis cada vez maiores de aperfeiçoamento nas técnicas adotadas. 9 INTRODUÇÃO A elaboração do presente material tem por finalidade facilitar a construção de novos conhecimentos, apresentando os principais conceitos relativos à metrologia e aos sistemas de tolerância (GD&T). Objetivos » Apresentar os conceitos fundamentais da metrologia, incluindo os princípios e metodologia relacionados aos sistemas de medição e os erros associados. » Definir os fundamentos do GD&T (Geometric Dimensioning and Tolerancing), tolerância dimensional e geométrica. » Apresentar a aplicação relacionada aos conceitos definidos, a partir dos sistemas de medição da rugosidade de superfícies, objeto de fundamental interesse na engenharia de usinagem. 11 UNIDADE I CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA CAPÍTULO 1 Conceitos relativos a monitorar, medir e controlar Por que medir? Imagine esta situação: você conseguiu uma entrevista em uma empresa que sempre sonhou trabalhar. Sua entrevista foi agendada para 15h15min, horário de Brasília, conforme o comunicado que recebeu por e-mail. Pontualidade é um dos requisitos sinalizados pela empresa. Para lhe auxiliar nesta tarefa, você precisará de algum equipamento que torne possível indicar o tempo exato, para poder se apresentar sem nenhum atraso no local da entrevista. Quando o motivo para realização da medição torna-se claro, é mais fácil definir qual (ais) parâmetro (s) realmente são importantes para ajudá-lo na rotina diária, na pesquisa que desenvolve ou em um processo produtivo. O porquê torna-se proridade no processo de seleção do tipo e o método a ser aplicado para obtenção da medida pretendida. Outro fator de grande relevância neste processo é a finalidade desta medida: por exemplo, um determinado resultado de uma medição pode ser aplicado em uma pesquisa científica que tem por objetivo avaliar o efeito de determinado parâmetro, no controle de qualidade de um processo de montagem de um automóvel ou, até mesmo, para auxiliar no monitoramento de fenômenos climatológicos (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). No âmbito da fabricação, a aplicação da metrologia não tem por objetivo apenas rejeitar ou aprovar os produtos; destina-se, antes, a orientar o processo de fabricação, evitando erros durante sua execução. Como consequência, representa um fator de grande impacto na redução das despesas operacionais e 12 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA no aumento de produtividade. Um método eficaz deve ser empregado em todos os estágios de transformação da matéria, integrando-se nas demais operações, após cada fase da fabricação (PAULI; ULIANA, 1996). Perceber a importância da metrologia na rotina facilita o processo de tomada de decisões, além de torná-lo mais assertivo. Na cadeia de produção, por exemplo, esta ciência da medição está presente em todas etapas, englobando aspectos práticos e teóricos, desde a verificação da qualidade associada aos processos e produtos até a na calibração dos instrumentos utilizados, independentemente da incerteza relacionada, contribuindo, assim, para aumentar o nível de confiança da qualidade e para gerar benefícios tanto para o fabricante quanto para o consumidor. Um breve histórico A palavra Metrologia é de origem grega, Metron: Medida e Logos: Ciência, sendo caracterizada com a ciência que estuda as medições, abrangendo todos os aspectos teóricos e práticos relativos ao processo de maedição (PAULI; ULIANA, 1996). As unidades de medidas, há cerca de 4000 a.c, eram baseadas em partes do corpo humano, que naquele período eram referências universais, pois podiam ser, facilmente, verificadas por qualquer pessoa. Surgindo, assim, medidas padrão como a polegada, o palmo, o pé, a jarda, a braça e o passo (Figura 1). Figura 1. Exemplo de unidades de medida padrão primitivas. ll ll ll Palmo Pé Polegada Fonte: Secco et al., 1996. As medidas podia variar de uma pessoa para outra com diferentes biotipos, acarretando em diversos equívocos durante a medição. Por isso, foi necessária a criação de padrões, equalizando os resultados obtidos. Para tal, os egípcios 13 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I criaram um padrão único, no qual substituiam o próprio corpo por barras de pedra com o mesmo comprimento outrora fixado. Nesse período, surgiu a unidade cúbito-padrão (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). Em meados dos séculos XV e XVI, os padrões mais utilizados para realizar medições de comprimento, na Inglaterra, eram a polegada, o pé, a jarda e a milha. Na França do século XVII, a Toesa passou a ser utilizada como unidade de medida linear, representando uma evolução importante na questão, a qual foi padronizada em uma barra de ferro com dois pinos fixados nas extremidades, exposta na parede externa do Grand Chatelet, nas proximidades de Paris, permitindo, assim como o cúbito-padrão, que cada interessado pudesse conferir a medida estabelecida utilizando seus próprios instrumentos. Tal medida (toesa) equivalia a, aproximadamente, seis pés. Como descreve Secco et al. (1996), esse padrão, entretanto, foi desgastando-se com o tempo e precisou ser refeito, o que impulsionou um movimento no sentido de estabelecer uma unidade que pudesse ser encontrada na natureza, facilitando sua reprodução, instituindo, desse modo, um padrão de medida. Além disso, essa unidade deveria ter submúltiplos estabelecidos conforme o sistema decimal. Este sistema decimal já havia sido inventado na Índia, 400 a.C Em 8 de maio de 1790, na França, um sistema com essas características foi apresentado por Talleyrand, compondo um projeto que se transformou em lei naquele país. Em tal projeto definiu-se que a nova unidade medida deveria ser igual à décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre, passando a ser chamada de metro, palavra oriunda do grego metron = medir. No final do século XIX, a unidade do metro era definida como a distância entre os extremos de uma barra de platina e apoiada sobre os pontos de mínima flexão, considerando a temperatura de 0 °C. Com o avanço da ciência, o metro padrão foi aperfeiçoadoidentificar as superfícies de referência (ou datums), e os recursos que estão sendo controlados para garantir qualidade na manufatura de taus superfícies. Isto é, um desenho/projeto que apresentes as tolerâncias adequadas não é apenas uma imagem que detalha o tamanho e a forma da peça, mas também explica as relações de tolerância entre as diferentes características delas (KRULIKOWSKI, 1998). GD&T e Sistema de Tolerância Cartesiano Desde meados do século XIX até a popularização de GD&T em meados do século XX, a indústria, em geral, utilizava o sistema de tolerância cartesiana (por coordenadas), também conhecido como dimensionamento cartesiano ou, ainda, Coordinate Tolerancing, para especificação nos desenhos técnicos. Este sistema, no entanto, tem diversas limitações, tais quais (COGORNO, 2006): » o sistema de tolerância cartesiana é baseado em zonas de tolerância classificadas como retangulares/quadrangulares. Uma zona de tolerância, como o exemplo apresentado na Figura 67, é um intervalo limite dentro do qual o eixo de um elemento especificado deve estar. Em zonas de tolerância retangulares, os valores da distância do centro às exterminada não é uniforme. Na Figura 67, da esquerda para a direita 96 UNIDADE III | SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES e de cima para baixo, a tolerância é de ± 0,005 mm; nas diagonais, a tolerância é de ± 0,007 mm, em relação ao eixo. Portanto, para este tipo de sistema de tolerância cartesiana, quando os projetistas apresentam especificação com ± 0,005 mm de tolerância, eles deveriam indicar que as peças correspondentes precisam aceitar até ± 0,007 mm de tolerância, que corresponde ao intervalo de tolerância de maior cota relacionado às extremidades das diagonais, caso contrário as peças que apresentassem tolerância superior à 0,005 mm seriam reprovadas; » não há como especificar tolerâncias adicionais como de localização neste sistema de tolerância cartesiana; » em aplicações do sistema de tolerância cartesiana, é comum a falta de especificação de alguns elementos do projeto, o que muitas vezes pode causar confusão nas etapas de produção e inspeção. Por exemplo, na Figura 67, as medidas (cotas) são indicadas apenas no esquerdo e inferior da peça, o que pode ser considerado com superfícies de referência (datums) implícitas. Neste caso, as informações técnicas estão implícitas e o projetista não indicou qual superfície é mais importante, ou de referência, além de não indicar se existe um terceiro elemento ao sistema; Figura 67. Aplicação clássica do sistema de tolerância cartesiano. O eixo do orifício de 3,000 mm deve respeitar a zona de tolerância quadrada de 0,010 mm. Ø 3,000-3,030 2,000±0,005 0,007 0,010 0,010 2,000±0,005 Fonte: adaptada de Cogorno, 2006. 97 SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III Ao aplicar as diretrizes de GD&T nas especificações dos projetos, cabe destacar as três principais vantagens em relação ao sistema de tolerância cartesiano: a zona de tolerância é cilíndrica, diferentemente do sistema cartesiano que apresenta zonas retangulares/quadrangulares; a aplicação da condição de máximo material (Maximum Material Condition – MMC) e as superfícies de referência (datums) são especificadas em ordem de prioridade (COGORNO, 2006; FANHA, 2011) Para mesma aplicação apresentado na Figura 67, foi adotada a metodologia GD&T, conforme apresentada na Figura 68. Figura 68. Aplicação do sistema de tolerância GD&T. Ø 3,000-3,030 Ø 0,014 A B A C C B 2,000 2,000 Ø 0,014 MMC Zona de tolerância cilíndrica Zona de tolerância quadrangular ±0,005 mm nas direções horizontais e verticais 0,010 0,014 Ø Zona de tolerância = ඥ0,0102 + 0,0102 ≈ 0,014 Fonte: adaptada de Cogorno, 2006. Na Figura 68, é possível visualizar que a zona de tolerância adotada é cilíndrica e está localizada e orientada para uma superfície de referência definida, além de ser orientada perpendicularmente ao plano de referência A e localizada, com dimensões básicas (2,000 mm em relação ao eixo), aos planos de referência B e C. As dimensões básicas não têm tolerância diretamente associada, eliminando, assim, o indesejável empilhamento de tolerâncias. O comprimento total do eixo através da utilização deste sistema de tolerância é facilmente controlado, pois a distribuição da zona de tolerância cilíndrica se estende por toda a extensão deste elemento. Ao contrário da zona de tolerância quadrangular (sistema de tolerância cartesiano), a zona de tolerância cilíndrica define uma distância uniforme da posição real ou referencial (true position), o centro, até o limite da zona de tolerância. Então, quando uma zona de tolerância cilíndrica de 0,014 mm diâmetro é especificada sobre a posição referencial, há 98 UNIDADE III | SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES uma tolerância de 0,007 mm do centro em relação a todas as direções. Uma zona de tolerância cilíndrica circunscrita em torno de uma zona de tolerância quadrada, como mostrado na Figura 68 (direita), tem 57% mais área do que na seção quadrada, em que a dimensão real do diâmetro da peça pode apresentar (COGORNO, 2006). O símbolo da condição de máximo material ( ) no quadro de controle da peça é um modificador. Ele especifica que, conforme o furo na Figura 68 aumenta de tamanho, uma tolerância bônus é adicionada à tolerância no quadro de controle. O limite de tolerância na Figura 68 representa a menor dimensão (em diâmetro) que o furo pode apresentar, no qual Ø 3,000 representa a condição de máximo material - MMC e Ø 3.030 representa a condição de mínimo material (Least Material Condition – LMC), que especifica a condição de tolerância superior. A tolerância geométrica especifica que o furo seja posicionado com uma zona de tolerância cilíndrica de 0,014 mm em relação ao diâmetro quando o furo for produzido em sua condição de máximo material, ou seja, considerando a tolerância inferior. Quando o tamanho do furo se afasta da condição de máximo material (MMC) em direção à condição de mínimo material (LMC), a tolerância de localização adicional, chamada de tolerância bônus, é permitida na quantidade exata de tal afastamento. Por exemplo, se o furo especificado pelo quadro de controle na Figura 68 fosse realmente produzido com um diâmetro de 3,020 mm, a tolerância total disponível para esta dimensão é de 0,034 mm, já que considerando a tolerância cilíndrica já indicada de 0,014 mm somada ao valor extra apresentado pela dimensão final do diâmetro da peça produzida de 0,020 mm (condição de máximo material 3,000 mm subtraída da dimensão real da peça 3,020 mm). Logo, 0,020 + 0,014 = 0,034 mm de tolerância total. O modificador de condição de máximo do material permite que o projetista capture todas as tolerâncias disponíveis (COGORNO, 2006). Segundo Cogorno (2006) e Fanha (2011), quando os desenhos são especificados a partir do sistema de tolerância cartesiano, as superfícies de referência não são especificadas. As arestas inferior e esquerda no desenho da Figura 67 são referências implícitas porque os orifícios são dimensionados a partir dessas arestas. Porém, não é possível determinar qual o plano de referência é o mais importante, e ainda se existe um terceiro plano a ser incluído no referencial. 99 SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III Quando os dados não são especificados, os mecânicos e inspetores são forçados a fazer suposições que podem envolver sérias perdas econômicas. Quando os desenhos são dimensionados com métodos de tolerância tradicionais, uma quantidade considerável de informações é deixada para o julgamento dos profissionais de produção e inspeção. Se uma peça deve ser inspecionada da mesma maneira todas as vezes, o desenho deve especificar todos as superfícies de referência e por ordem de prioridade, como indicado no quadro de controle da Figura 68, ao lado da indicação da tolerância cilíndrica. Conforme explica Krulikowski (1998) e a NADCA (2009), a aplicação dametodologia de tolerância dimensional e geométrica, ou GD&T, pode uniformizar as especificações e, com isso, a interpretação em relação ao desenho/projeto, pois tais documentos conseguem traduzir claramente as intenções dos projetistas, evitando assim suposições e fazendo com que as equipes de projeto, produção e inspeção se comuniquem por uma só linguagem. Ainda segundo este autor, a utilização desta ferramenta, em condições específicas, pode aumentar o intervalo de tolerância facilitando o trabalho na manufatura e evitando que projetistas determinem uma tolerância em intervalos muito pequenos por não saber determinar uma tolerância funcional razoável. 100 CAPÍTULO 2 Terminologia e simbologia, tolerância dimensional e cálculo das tolerâncias-padrão A premissa básica para a fabricação e posterior comercialização de qualquer componente é de que este apresente um desempenho especificado e uniforme. Os produtos são, geralmente, produzidos em grandes lotes e ainda sob tais condições devem manter suas respectivas características de produção restritas às especificações solicitadas. Em resposta a tais demandas do mercado, os sistemas de tolerâncias foram desenvolvidos, a fim de garantir a intercambiabilidade e regularidade na performance apresentada pelos produtos manufaturados (AGOSTINHO, RODRIGUES; LIRANI, 1986; COELHO; SILVA, 2018). Definições pertinentes (NBR 6158:1995) A seguir serão apresentadas definições importantes para o correto entendimento dos princípios relacionados aos sistemas de tolerância dimensional e ajustes, conforme norma NBR 6158:1995. » Eixo: termo utilizado para descrever uma característica externa de um componente, incluindo elementos que apresentem geometria não cilíndricas. O Eixo-base denomina o eixo cujo afastamento superior é zero. » Furo: termo utilizado para descrever uma característica interna de um componente, incluindo elementos que apresentem geometria não cilíndricas. O Furo-base denomina o eixo cujo afastamento inferior é zero. » Dimensão: expressa, em uma unidade específica, o valor numérico de uma dimensão. Pode ser ainda classificada em: › dimensão nominal: a partir da qual são derivadas as dimensões limites pela aplicação dos afastamentos superior e inferior (Figura 69); 101 SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III › dimensão efetiva: dimensão resultante de uma medição; › dimensão efetiva local: qualquer dimensão medida entre dois pontos opostos quaisquer em uma seção transversal da peça; › dimensão limite: as duas dimensões extremas permissíveis para um elemento, entre as quais a dimensão efetiva deve estar contida; › dimensão máxima: maior dimensão admissível de um elemento (Figura 69); › dimensão mínima: menor dimensão admissível de um elemento (Figura 69). Figura 69. Dimensão nominal, máxima e mínima. D im en sã o M ín im a D im en sã o M áx im a D im en sã o N om in al Linha zero Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1995. » Elemento: parte em observação de uma peça/componente. » Linha zero: linha reta que especifica a dimensão nominal e serve de origem aos afastamentos em uma representação gráfica de tolerâncias e ajustes (Figura 69). De acordo com a convenção, a linha zero deves ser desenhada horizontalmente, com afastamentos positivos mostrados acima e afastamentos negativos abaixo (Figura 70). 102 UNIDADE III | SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES Figura 70. Representação convencional de um campo de tolerância. A fa st am en to (m m ) D im en sã o N om in al Afastamento inferior Campo de tolerância Afastamento superior (ES,es) Linha zero Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1995. » Afastamentos fundamentais: diferença entre uma dimensão (dimensão efetiva, dimensão limite etc.) e a correspondente dimensão nominal (Figura 70). Podem ser definidos como diferença aceitável nas dimensões nominais e pertencer ao campo positivo (superior) ou negativo (inferior), além de permitir a fabricação da peça sem prejuízo para seu funcionamento e intercambiabilidade. Os afastamentos são designados por letras maiúsculas para furos e por letras minúsculas para eixos. Para evitar confusão com outros termos, as seguintes letras não devem ser usadas para tal designação: I, i; L, l; Q, q; W, w. A Figura 71 apresenta uma representação esquemática das posições dos afastamentos fundamentais em relação à linha zero, para os elementos internos (Furos) e externos (Eixos). Ademais: › afastamento superior (ES,es): diferença entre a dimensão máxima e a correspondente dimensão nominal (Figura 70). As letras “ES” são designadas para afastamentos em furos e as letras “es” para afastamentos em eixos. Determina o limite máximo da dimensão real da peça; › afastamento inferior (EI,ei): diferença entre a dimensão mínima e a correspondente dimensão nominal. As letras “EI” são designadas para afastamentos em furos e as letras “ei” para afastamentos em eixos. Determina o limite mínimo da dimensão real da peça. 103 SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III » Tolerância: diferença entre dimensão máxima e a dimensão mínima, ou seja, diferença entre o afastamento superior e o afastamento inferior. » Tolerância-Padrão (IT): pode ser denominada tolerância-padrão, qualquer tolerância pertencente a este sistema. As letras que representam esta tolerância é IT, que significa International Tolerance. Figura 71. Representação esquemática das posições dos afastamentos fundamentais. Furos (elementos internos) Eixos (elementos externos) ES ei EI es Linha zero Linha zero Fonte: adaptada de Andretta et al., 2020; ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1995. › graus de tolerância-padrão: grupo de tolerância considerada como correspondente ao mesmo nível de precisão para todas as dimensões nominais. Os graus de tolerância-padrão são designados pelas letras IT seguidas de um número, como exemplo: 104 UNIDADE III | SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES IT9. Quando o grau de tolerância é associado a um afastamento fundamental para formar uma classe de tolerância, as letras IT são omitidas, por exemplo h7. O sistema prevê um total de 20 graus de tolerância-padrão, dos quais os graus IT1 a IT18 são de uso geral, já os IT0 e IT01 são dados para fins de informação; › campos de tolerância: o campo compreendido entre duas linhas, representando as dimensões máxima e mínima e pode ser definido pela magnitude da tolerância e sua posição relativa em relação à linha zero (Figura 70); › classe de tolerância: é o código que representa o afastamento fundamental e o número que representa o grau de tolerância-padrão, como, por exemplo, H7 para elementos internos (furos); › fator de tolerância-padrão (I,i): Fator que representa uma função da dimensão nominal e é utilizado como base para a determinação da tolerância-padrão do sistema. O fator de tolerância (IT) “i” aplicado para dimensão nominal inferior a 500 mm, e “I” para valores superiores a 500 mm. » Folga: indica a diferença positiva entre as dimensões do furo (elemento interno) e do eixo (elemento externo), antes da montagem, quando o diâmetro do eixo é menor que o diâmetro do furo (Figura 72). Pode ser classificada ainda como folga mínima, caso a diferença entre a dimensão mínima do furo e a dimensão máxima do eixo seja positiva, ou folga máxima, caso a diferença entre a dimensão máxima do furo e a dimensão mínima do eixo seja positiva. » Interferência: indica a diferença negativa entre as dimensões do furo e do eixo, antes da montagem, quando o diâmetro do eixo é maior que o diâmetro do furo (Figura 72). Pode ser classificada ainda como interferência mínima, caso a diferença entre a dimensão máxima do furo e a dimensão mínima do eixo seja negativa, ou interferência máxima, caso a diferença entre a dimensão mínima do furo e a dimensão máxima do eixo seja negativa. 105SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III Figura 72. Exemplos de folga e interferência. Folga Interferência Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1995. » Ajuste: é a relação resultante da diferença entre as dimensões dos dois elementos a serem montados. Tais elementos em ajuste devem ter o mesmo valor de dimensão nominal. » Limite Máximo Material (MML – Maximum Material Limit): é uma designação empregada a uma das dimensões limites que determina a dimensão de máximo material, como, por exemplo: dimensão máxima (superior) para um elemento externo e dimensão mínima (inferior) para um elemento interno. » Limite Mínimo Material (LML – Least Material Limit): é uma designação empregada a uma das dimensões limites que determina a dimensão de mínimo material, como, por exemplo: dimensão mínima (inferior) para um elemento externo e dimensão máxima (superior) para um elemento interno. Determinação da Tolerância-Padrão Nos projetos, para designação de uma dimensão com tolerância, deve-se indicar a dimensão nominal seguida pela designação da classe de tolerância exigida ou os afastamentos em valores numéricos. Como exemplos 37 H7, na qual 37 é a dimensão nominal da peça e H7 equivale à classe de tolerância para elementos internos (furos); ou 108 g6, na qual 108 é a dimensão nominal da peça e g8 equivale à classe de tolerância para elementos externos (eixos). 106 UNIDADE III | SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES Os valores de graus de tolerância-padrão IT1 a IT18 são fornecidos na Tabela 9. Tabela 9. Valores numéricos de graus de tolerância-padrão IT para dimensões nominais até 3150 mm. Dimensão nominal (mm) IT1 GRAUS DE TOLERÂNCIA-PADRÃO IT2 IT3 IT4 IT5 IT6 IT7 IT8 IT9 IT10 IT11 IT12 IT13 IT14 IT15 IT16 IT17 IT18 Acima Até e inclusive Tolerância µm Mm - 3 0,8 1,2 2 3 4 6 10 14 25 40 60 0,1 0,1 0,3 0,4 0,6 1 1,4 3 6 1 1,5 2,5 4 5 8 12 18 30 48 75 0,1 0,2 0,3 0,5 0,8 1,2 1,8 6 10 1 1,5 2,5 4 6 9 15 22 36 58 90 0,2 0,2 0,4 0,6 0,9 1,5 2,2 10 18 1,2 2 3 5 8 11 18 27 43 70 110 0,2 0,3 0,4 0,7 1,1 1,8 2,7 18 30 1,5 2,5 4 6 9 13 21 33 52 84 130 0,2 0,3 0,5 0,8 1,3 2,1 3,3 30 50 1,5 2,5 4 7 11 16 25 39 62 100 160 0,3 0,4 0,6 1 1,6 2,5 3,9 50 80 2 3 5 8 13 19 30 46 74 120 190 0,3 0,5 0,7 1,2 1,9 3 4,6 80 120 2,5 4 6 10 15 22 35 54 87 140 220 0,4 0,5 0,9 1,4 2,2 3,5 5,4 120 180 3,5 5 8 12 18 25 40 63 100 160 250 0,4 0,6 1 1,6 2,5 4 6,3 180 250 4,5 7 10 14 20 29 46 72 115 185 290 0,5 0,7 1,2 1,9 2,9 4,6 7,2 250 315 6 8 12 16 23 32 52 81 130 210 320 0,5 0,8 1,3 2,1 3,2 5,2 8,1 315 400 7 9 13 18 25 36 57 89 140 230 360 0,6 0,9 1,4 2,3 3,6 5,7 8,9 400 500 8 10 15 20 27 40 63 97 155 250 400 0,6 1 1,6 2,5 4 6,3 9,7 500 630 9 11 16 22 32 44 70 110 175 280 440 0,7 1,1 1,8 2,8 4,4 7 11 630 800 10 13 18 25 36 50 80 125 200 320 500 0,8 1,3 2 3,2 5 8 13 800 1000 11 15 21 28 40 56 90 140 230 360 560 0,9 1,4 2,3 3,6 5,6 9 14 1000 1250 13 18 24 33 47 66 105 165 260 420 660 1,1 1,7 2,6 4,2 6,6 11 17 1250 1600 15 21 29 39 55 78 125 195 310 500 780 1,3 2 3,1 5 7,8 13 20 1600 2000 18 25 35 46 65 92 150 230 370 600 920 1,5 2,3 3,7 6 9,2 15 23 2000 2500 22 30 41 55 78 110 175 280 440 700 1100 1,8 2,8 4,4 7 11 18 28 2500 3150 26 36 50 68 96 135 210 330 540 860 1350 2,1 3,3 5,4 8,6 14 21 33 Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1995. Os valores para determinação dos afastamentos fundamentais em relação à dimensão nominal da peça podem ser consultados na norma NBR 6158 Sistema de tolerâncias e ajustes, que indica os valores numéricos dos afastamentos para elementos externos (eixos) e internos (furos), de acordo a dimensão nominal e o grau de tolerância-padrão. A seguir, serão apresentados exemplos para verificar a aplicabilidade dos conceitos abordados. Exemplo 1: Determinação das dimensões limites para o elemento externo (eixo) Ø40g11. 107 SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III A partir do código informado, é possível inferir que a dimensão nominal do eixo é 40 mm, pertencente ao grupo (30 IT8 ≤ IT8 > IT8 ≤ IT8 > IT8 A B C CD D E EF F FG G H JS J K M N IT4 120 140 +460 +260 +200 +145 +85 +43 +14 0 +18 +26 +41 -3+∆ ‘-15+∆ -15 ‘-27+∆ 0 4 Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1995. Sabendo que o grupo de dimensão nominal acima de 120 até e inclusive 140, ao grau de tolerância-padrão IT4 (≤ IT8) e a designação do eixo é “N”, o afastamento fundamental correspondente é -27 + ∆ µm. O valor de ∆ = 4 µm, para o grau de tolerância-padrão IT4. Com isso, o valor do afastamento superior corresponde: 27 27 4 23 µm 0,023 mmafastamento superior = − + ∆ = − + = − = − O valor do afastamento inferior corresponde à diferença entre o afastamento superiore o valor da tolerância-padrão, logo afastamento inferior resultante será: 109 SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III 23 1 2 35 µm 0,035 mmafastamentoinferior = − − = − = − Portanto as dimensões limites para o eixo especificado pelo código Ø130N4 serão: 130 0,023 1 29,977 mmDimensão Máxima = − = 130 0,035 1 29,965 mmDimensão Mínima = − = Cada valor omisso nas tabelas principais de afastamento fundamental, na NBR 6158, representa exceções que são tratadas em tabelas suplementares, conforme grupo de dimensão nominal, grau de tolerância-padrão e designação ao elemento correspondente. 110 CAPÍTULO 3 Sistemas de ajustes e tolerância e estudos de casos relacionados Conforme descrevem Agostinho et al. (1986), a montagem de duas peças, normalmente relacionadas à componentes mecânicos, constituem o que antigamente era conhecido por conjunto, mas, após a padronização dos sistemas de tolerâncias e ajustes por padrões normativos, passou a constituir um sistema de ajuste. Nesse contexto, os conceitos de zonas de tolerância passam a ser adotados, primeiramente, para os sistemas de ajustes. Estas zonas podem, também, ser empregadas para definir tolerâncias de fabricação de elementos isolados, tais como peças laminadas, trefiladas, forjadas, distâncias entre faces, comprimentos de parafusos, assim como relacionada a qualquer medida de um componente acabado. Assim, os sistemas de ajustes podem ser definidos como sistemas que compreendem elementos externos (eixos) e elementos internos (furos) pertencentes a um sistema de tolerâncias. Um exemplo de um sistema de ajuste é apresentado na Figura 73. Figura 73. Exemplo de um sistema de ajuste entre os elementos interno (1) e externo (2). Ø50r6 Ø50H7 1 2 Fonte: adaptada de Agostinho et al., 1986. Os sistemas de ajustes podem ser classificados como: Eixo-base e Furo-base, conforme as condições aplicadas a cada sistema. 111 SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III Sistema de ajustes Eixo-base Sistema de ajustes no qual as folgas ou interferências exigidas são obtidas pela associação de furos de várias classes de tolerâncias com eixos de uma única classe de tolerâncias. Neste sistema, a dimensão do eixo apresenta o mesmo valor da dimensão nominal, isto é, o afastamento superior é zero, ou seja, o limite superior da tolerância do eixo deste sistema é a linha zero. Portanto, neste sistema, os eixos designados por “h” representam os eixos-base. A Figura 74 (esquerda) apresenta um sistema de ajuste eixo-base. Neste exemplo do sistema de ajuste eixo-base, as linhas contínuas horizontais representam os afastamentos fundamentais para furos ou eixos e as tracejadas representam os outros afastamentos e mostram a possibilidade de diferentes combinações entre furos e eixos, relacionados ao seu grau de tolerância, por exemplo: G7/h4, H6/h4, M5/h4 (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1995). Sistema de ajustes Furo-base Sistema de ajustes no qual as folgas ou interferências exigidas são obtidas pela associação de eixos de várias classes de tolerâncias, com furos de uma única classe de tolerâncias. Neste sistema, a dimensão do furo apresenta o mesmo valor da dimensão nominal, isto é, o afastamento superior é zero, ou seja, o limite superior da tolerância do furo deste sistema é a linha zero. Portanto, neste sistema, os furos designados por “H” representam os furos-base. A Figura 74 (direita) apresenta um sistema de ajuste furo-base. Figura 74. Sistemas de ajuste Eixo-base (esquerda) e Furo-base (direita). Eixo “h” Dimensão nominal Dimensão nominal Furo “H” Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1995. 112 UNIDADE III | SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES Nesse exemplo do sistema de ajuste furo-base (Figura 74 direita), as linhas contínuas horizontais representam os afastamentos fundamentais para furos ou eixos e as tracejadas representam os outros afastamentos e mostram a possibilidade de diferentes combinações entre furos e eixos, relacionados ao seu grau de tolerância, por exemplo: H6/h6, H6/js5, H6/p4 (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1995). Tipos de ajustes Ajuste com folga: apresenta sempre uma folga entre o furo e o eixo quando montados, isto é, a dimensão mínima do furo é sempre maior ou igual à dimensão máxima do eixo. A Figura 75 apresenta a representação esquemática dos diferentes tipos de ajustes. Figura 75. Representação esquemática dos diferentes tipos de ajustes. Furo Eixo Furo Eixo Linha zero a) Ajuste com Folga Furo Eixo Furo Eixo Linha zero b) Ajuste com Interferência Furo Eixo Linha zero c) Ajuste Incerto Eixo Eixo Furo Fonte: adaptada de Andretta et al., 2020. Ajuste com interferência: apresenta sempre uma interferência entre o furo e o eixo quando montados, isto é, a dimensão máxima do furo é sempre menor ou igual à dimensão mínima do eixo. Ajuste incerto: ajuste no qual pode ocorrer uma folga ou uma interferência entre o furo e o eixo na montagem, de acordo as dimensões efetivas do furo e do eixo, isto é, os campos de tolerância do furo e do eixo se sobrepõem parcialmente ou totalmente. A variação de um ajuste é representada pelo valor absoluto da soma das tolerâncias do furo e do eixo em ajuste. 113 SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III Escolha do sistema de ajuste A determinação do tipo de ajuste para os elementos em acoplamento/montagem, demanda do projetista um profundo conhecimento a respeito dos processos de fabricação e da disponibilidade do equipamento. Os ajustes especificados devem representar as necessidades e exigências do dimensionamento do conjunto e detalhamento das peças. Com estas informações, poderá, então, optar entre uma grande variedade de alternativas disponíveis e que melhor se adeque às demandas, para garantir a qualidade necessária ao acoplamento (AGOSTINHO, RODRIGUES; LIRANI, 1986). Nesse contexto, deve-se avaliar as exigências de construção, a taxa de consumo do material aplicado, o custo envolvido para fabricação e compra de ferramentas e dispositivos de medição, facilidade de montagem e desmontagens dos componentes, entre outros aspectos. A Tabela 12 resume aplicações usuais dos ajustes conforme demanda, especificando os elementos e graus de tolerância-padrão mais utilizados em cada situação. Tabela 12. Ajustes usualmente utilizados. Casos para emprego Eixos (afastamento) Furos H6 H7 H8 H9 H11 Eixos (IT) Pe ça s m óv ei s u m a em re la çã o à ou tra Peça onde o funcionamento necessite de uma grande folga. (dilatação, mau alinhamento etc.) c 9 11 d 9 11 Casos comuns de peças que giram ou deslizam em anéis ou guias (deve-se assegurar boa lubrificação) e 7 8 9 f 6 6-7 7 Peças com guia precisa para movimentos de pequena amplitude g 5 6 Pe ça s i m óv ei s u m a e m re la çã o à ou tra Desmontagem e remontagem possível sem danificar as peças O acoplamento não pode transmitir esforços Montagem possível à mão h 5 6 7 8 js 5 6 Montagem por golpe k 5 m 6 Desmontagem impossível sem danificar as peças O acoplamento pode transmitir esforços Montagem com prensa p 6 Montagem com prensa ou por dilatação s 7 u 7 x 7 z 7 Fonte: adaptada de Andretta et al., 2020. 114 UNIDADE III | SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES Estudo de caso Avaliação do tipo de ajuste para o acoplamento 45 H8/g7. » Definição dos elementos: furo representado pela designação “H” e o Eixo representado pela designação “g”. » Identificação da dimensão nominal: comum aos dois elementos, a partir do código informado é possível inferir que a dimensão nominal do eixo é 40 mm, pertencente ao grupo (30apresentado após a letra, indicadora do tipo de elemento, indica o grau de tolerância padrão associado a este afastamento, IT8; › a partir destas informações, na Tabela 9, é possível determinar a tolerância-padrão, correspondente ao grupo de dimensão nominal acima de 30 até e inclusive 50 e ao grau de tolerância-padrão IT8: tolerância-padrão = 39 µm; › sabendo que o afastamento inferior é 0 e a tolerância-padrão é 39 µm, também é possível determinar o afastamento superior: 0 39 39 µm 0,039 mmafastamento superior = + = = » Grau de tolerância-padrão e afastamento para o elemento externo (Eixo): › pela designação “g” e analisando a Figura 71, pode-se verificar que o afastamento fundamental será negativo em relação à linha zero. Além disso, o número apresentado após a letra, indicadora do tipo de elemento, aponta o grau de tolerância-padrão associado a este afastamento, IT7; › a partir destas informações, na Tabela 9, é possível determinar a tolerância-padrão, correspondente ao grupo de dimensão nominal acima de 30 até e inclusive 50 e ao grau de tolerância-padrão IT7: tolerância-padrão = 25 µm; 115 SISTEMAS DE TOLERÂNCIA E AJUSTES | UNIDADE III › de posse das informações em relação ao grupo de dimensão nominal, ao grau de tolerância-padrão e a designação do eixo “g”, também é possível determinar o afastamento fundamental. A Tabela 13 apresenta um extrato da tabela completa encontrada na norma NBR 6158. Tabela 13. Recorte de tabela dos valores numéricos dos afastamentos fundamentais para eixos (NBR 6158). Dimensão nominal (mm) Afastamento superior es Afastamentos fundamentais Acima Até e inclusive Todos os graus de tolerância-padrão IT5 e IT6 IT7 IT8 IT4 até IT7 Até IT3 (≥ IT7) a b c cd d e ef f fg g h js j k 40 50 -320 -180 -130 -80 -50 -25 -9 0 -5 -10 +2 0 Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1995. › sabendo que o grupo de dimensão nominal acima de 40 até e inclusive 50, ao grau de tolerância-padrão IT7 e a designação do eixo é “g”, o afastamento superior correspondente apresenta o valor de -9 µm (-0,009 mm); › com isso, o valor do afastamento inferior resultante será: 9 25 34 µm 0,034 mmafastamentoinferior = − − = − = − » Dimensões limites para o Furo: 45 0,039 45,039 mmDimensão Máxima = + = 45 0 45,000 mmDimensão Mínima = − = » Dimensões limites para o Eixo: 45 0,009 44,991 mmDimensão Máxima = − = 45 0,034 44,996 mmDimensão Mínima = − = A partir da análise da dimensão mínima do furo e a máxima do eixo, é possível concluir que o ajuste apresentado pelo acoplamento é Ajuste com folga.1 116 UNIDADE IVTOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS CAPÍTULO 1 Método de medição de geometrias e tolerância de forma Apesar do elevado nível de desenvolvimento tecnológico relacionado aos processos de fabricação, é quase impossível a obtenção de superfícies perfeitamente conforme com as dimensões nominais especificadas. E, para tratar esse tipo de adversidade, é importante que as discussões não se encerrem no campo das tolerâncias dimensionais. Fatores como baixo desempenho de máquinas operatrizes ou perda de eficiência da ferramenta numa aplicação de usinagem podem contribuir diretamente para a qualidade do acabamento, bem como produzir componentes com dimensões diferentes das especificadas em projeto. Tais desvios devem estar contidos nas chamadas tolerâncias geométricas, a fim de assegurar os requisitos funcionais dos respectivos componentes, assim como o princípio de intercambiabilidade aos seus elementos construtivos. Conforme descreve Agostinho et al. (1986), na maioria das aplicações, as peças formam corpos geométricos conectados entre si por superfícies de formatos relativamente simples, tais como superfícies planas, cilíndricas e/ou cônicas. No processo de fabricação tais corpos geométricos, é comum a ocorrência de desvios/erros das formas resultantes (real) em relação às especificadas previamente (teóricas). Estes desvios de forma podem ser definidos como o grau de variação superfícies resultantes em relação aos sólidos geométricos que o definem. São normalmente ocasionados por fatores como vibrações das máquinas operatrizes, imperfeições na geometria destes equipamentos e defeitos nos elementos construtivos das máquinas, entre outros. Estes desvios/erros podem ser classificados como (AGOSTINHO, RODRIGUES; LIRANI, 1986): 117 TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS | UNIDADE IV » desvios/erros macrogeométricos: desvios nas características de retilineidade, circularidade, cilindricidade, planicidade, conicidade etc., das superfícies reais. Podem ser detectados por dispositivos de medição convencionais; » desvios/erros microgeométricos: caracteriza a rugosidade superficial e é somente detectáveis por rugosímetros, perfiloscópios etc. Métodos de medição de geometrias Como resultado da evolução dos processos de fabricação, este segmento tem produzido componentes com características cada vez mais complexas, apresentando produtos com especificações das mais variadas possíveis. Nesse contexto, os sistemas de medição têm sido exigidos cada vez mais, demandando técnicas de medição mais avançadas, para atendimento a esta parcela de mercado. A seguir, serão apresentadas as principais funções que definem as possibilidades de superfícies reais para aplicação nos sistemas de medição. Face Esta função é aplicada quando se deseja realizar a medição de uma distância perpendicular em relação a um dos três planos de referência da forma. É utilizada somente em faces paralelas aos eixos de coordenadas da peça. Dessa forma, fornece resultados em apenas um eixo por vez, compensando o raio do sensor de acordo com a direção de afastamento do sensor em relação à peça (GAVENDA et al., 2008). A Figura 76 detalha a aplicação desta função na determinação de diferentes distâncias (x’, y’ e z’) em relação a um dos eixos de coordenadas. Figura 76. Função Face. Pino com face paralela aos eixos Recuar Recuar Recuar Y x' y' X Z z' Y Fonte: Gavenda et al., 2008. 118 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS Ponto de Compensação No tipo de medição pela função do ponto de compensação, pelo elevado nível de automação envolvido, um software fornece as coordenadas espaciais do elemento em medição, porém a compensação da ponta de contato é realizada apenas na direção de afastamento (GAVENDA et al., 2008). Ponto Neste processo de medição utilizando a função ponto, similar à função ponto de compensação, um software fornece as coordenadas espaciais do elemento em medição; entretanto, as coordenadas partem do centro da ponta de contato, não realizando a compensação do diâmetro. Círculo A aplicação desta função permite a medição de um círculo completo ou de apenas um segmento circular, fornecendo as coordenadas do centro do círculo, em relação aos três eixos, e à distância que caracteriza o diâmetro. Função ideal para medição das características circulares dos elementos externos (eixos) e internos (furos). Para realizar a medição de um círculo, é necessário um número mínimo de três pontos e pode-se fornecer a variância para medidas com mais de três pontos (GAVENDA et al., 2008). Linha Esta função é utilizada para medir faces que formam ângulos diferentes de zero relação ao eixo. Fornece as coordenadas do ponto de menor distância em relação ao sistema de referência, a distância direta deste ponto até a referência e sua posição angular em relação aos eixos. Para realizar a medição de uma linha, é necessário um número mínimo de dois pontos e pode-se fornecer a variância para medidas com mais de dois pontos (GAVENDA et al., 2008). Plano Com esta função, podem ser medidas faces não paralelas. Fornece a posição angular da direção normal do plano em relação aos eixos de referência, as coordenadas do ponto mais próximo da referência e a distância direta deste 119 TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS | UNIDADE IV ponto até a referência. Para realizar a medição de um plano, é necessárioum número mínimo de três pontos e pode-se fornecer a variância para medidas com mais de três pontos, e estes pontos devem ser distribuídos na superfície, espaçando-os o mais uniformemente possível (GAVENDA et al., 2008). Cilindro A partir desta função cilindro, é possível realizar medições em elementos como eixos e furos. Fornece a posição angular do eixo da forma cilíndrica em relação aos eixos de coordenadas, o diâmetro do cilindro mapeado e as coordenadas do ponto de interseção do eixo do cilindro com o plano de trabalho. Para realizar a medição de um plano, é necessário um número mínimo de cinco pontos e pode-se fornecer a variância para medidas com mais de cinco pontos, e estes pontos devem ser distribuídos criando duas circunferências na superfície perpendiculares ao seu eixo, espaçando-os o mais uniformemente possível. Os primeiros três pontos devem ser apalpados formando um círculo perpendicular ao eixo do cilindro, o quarto e o quinto pontos devem, então, ser apalpados em uma região afastada dos primeiros. O sentido do eixo é determinado pela ordem de contato (GAVENDA et al., 2008). A Figura 77 apresenta uma aplicação desta função. Cone A aplicação da função cone fornece a posição angular do eixo da forma cônica em relação aos eixos de coordenadas, o ângulo do cone mapeado e as coordenadas do vértice. Para realizar a medição de um plano, é necessário um número mínimo de seis pontos e pode-se fornecer a variância para medidas com mais de seis pontos, e estes pontos devem ser distribuídos criando duas circunferências na superfície perpendiculares ao seu eixo, espaçando-os o mais uniformemente possível. Assim como na função cilindro, os primeiros três pontos devem ser apalpados formando um círculo perpendicular ao eixo do cone, o quarto, o quinto e o sexto pontos devem, então, ser apalpados em uma região afastada dos primeiros (GAVENDA et al., 2008). 120 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS Figura 77. Função Cilindro. x' Y y' X Eixo do cilindro Sistemas de coordenadas da peça Z Fonte: Gavenda et al., 2008. Esfera Esta função é utilizada para medir uma esfera ou secção de esfera. Fornece as coordenadas do centro da esfera em relação ao sistema de referência e o diâmetro. Para realizar a medição de uma esfera, é necessário um número mínimo de quatro pontos e pode fornecer a variância, para medidas com mais de quatro pontos, e estes devem ser apalpados o mais equidistantes possível (GAVENDA et al., 2008). Elipse Esta função é utilizada para medir uma elipse ou segmento, interna ou externa. Fornece as coordenadas do centro da elipse, o comprimento do eixo menor e do maior, os ângulos do eixo maior e menor em relação ao sistema de referência. Para realizar a medição de um plano, é necessário um número mínimo de cinco pontos e pode fornecer a variância, para medidas com mais de cinco pontos, e estes devem ser distribuídos ao longo da elipse, o mais equidistantes possível (GAVENDA et al., 2008). Recomendações para realização das medições de geometrias Em muitas aplicações, as técnicas para medição de geometrias podem ser realizadas de forma direta por um dispositivo conhecido como Máquina de Medição por Coordenadas (MMC), que realiza medição com a atuação de 121 TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS | UNIDADE IV 3 eixos que se movimentam por meio de guias retilíneas e perpendiculares entre, formando o sistema de coordenadas. O método para fixação das peças neste instrumento utiliza suportes específicos (acolhedores), para dispor os elementos em medição de forma a evitar alterações nas características originais da peça. O controle da temperatura é um fator muito importante durante a aplicação destes métodos de medição, já que a variação da temperatura pode afetar diretamente os resultados da medição. Portanto, as medições devem ser realizadas à uma temperatura ambiente de 20 °C. Outro fator importante deve ser monitorado, para evitar alterações nos resultados da aplicação destes métodos, são as vibrações. Por isso, é imprescindível o planejamento em relação ao posicionamento dos dispositivos de medição, evitando a proximidade com fontes de vibração, como máquinas operatrizes. Tolerância de Forma Conforme descreve a norma NBR 6409:1997 Tolerâncias geométricas – Tolerâncias de forma, orientação, posição e batimento - Generalidades, símbolos, definições e indicações em desenho, as tolerâncias de forma e posição devem ser indicadas quando necessárias para assegurar requisitos funcionais, intercambiabilidade e processos de manufatura. As superfícies das peças fabricadas podem se apresentar diferentes da forma geométrica especificada em projeto, com a condição de que tais desvios permanecessem dentro do campo de tolerância. A tolerância geométrica para um elemento (ponto, linha, superfície ou plano de simetria) define o campo dentro do qual a posição do elemento deve estar contida. As características deste elemento que são afetadas pela tolerância de forma são retilineidade, planeza, circularidade, cilindricidade, perfil de linha qualquer e perfil de superfície qualquer. Retilineidade Condição pela qual cada reta deve estar limitada ao valor de tolerância especificada. O campo de tolerância pode ser limitado por duas linhas 122 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS paralelas afastadas de uma distância “t”, se a tolerância for especificada somente em um plano. O espaço de tolerância para a diferença admissível da reta é um cilindro de diâmetro t, se o valor da tolerância for precedido pelo símbolo Ø. O campo de tolerância é limitado por um paralelepípedo de seção transversal “t1 x t2”, se a tolerância for especificada em dois planos perpendiculares entre si. A Figura 78 apresenta as diferentes limitações dos campos de tolerância. Figura 78. Campo de tolerância (retilineidade). t Øt t1 t2 Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. A Figura 79 apresenta um exemplo de especificação deste tipo de tolerância de forma, indicando que o eixo do cilindro de 20 mm de diâmetro deverá estar compreendido em um campo de tolerância cilíndrico de 0,3 mm de diâmetro. Figura 79. Especificação de tolerância de forma de retilineidade. Ø0,3 Ø 20 0,3 Fonte: adaptada de Arcelor Brasil, 2004. Planeza O campo de tolerância para esta condição é limitado por dois planos paralelos afastados de uma distância “t”, conforme mostra a Figura 80. Quando as especificações não incluem a tolerância de planeza, admite-se que ela possa variar, desde que não ultrapasse os valores limites estabelecidos pela tolerância dimensional. 123 TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS | UNIDADE IV Figura 80. Campo de tolerância (planeza). t t Fonte: adaptada de Arcelor Brasil, 2004. A Figura 81 apresenta um exemplo de especificação deste tipo de tolerância de forma (planeza), indicando que a superfície deverá estar compreendida entre dois planos afastados de 0,05 mm. A tolerância de planeza independe da tolerância dimensional especificada pelos limites de medida de comprimento (39,80 ≤ comprimento ≤ 40,00). Figura 81. Especificação de tolerância de forma de planeza. 0,05 40,00 39,80 Fonte: adaptada de Arcelor Brasil, 2004. Os desvios de planicidade podem estar atrelados a fatores como: variação da propriedade de dureza no material durante a fabricação, desgaste da ferramenta, falha na fixação da peça, possíveis folgas em componentes da máquina, entre outros. Conforme Arcelor Brasil (2004), as tolerâncias admissíveis de planeza mais aplicadas na usinagem são: torneamento de 0,01 a 0,03 mm; fresamento de 0,02 a 0,05 mm e retificação de 0,005 a 0,01 mm. Circularidade O campo de tolerância é limitado na seção de medição por dois círculos concêntricos, afastados de uma distância “t”, conforme mostra a Figura 82 (esquerda). Os desvios possíveis em relação às especificações de projeto podem gerar as chamadas ovalizações (AGOSTINHO, RODRIGUES;LIRANI, 1986). 124 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS Figura 82. Campo de tolerância (Circularidade). 0,03 t Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. No exemplo apresentado na Figura 82 (direita), a circunferência deve estar contida entre dois círculos concêntricos no mesmo plano, afastados em 0,03 mm de tolerância. Não são comuns as especificações de tolerâncias de circularidade, já que, em casos de desvios de forma que apresentarem dimensões dentro dos limites de tolerância dimensional, normalmente atenderão os requisitos de montagem dos elementos. Entretanto, se tais erros admissíveis podem prejudicar a funcionalidade dos sistemas que esses elementos compõem, a especificação da tolerância de circularidade se torna obrigatória (ARCELOR BRASIL, 2004). As tolerâncias admissíveis de circularidade mais aplicadas na usinagem são: torneamento de 0,01 mm; fresamento de 0,01 a 0,015 mm e retificação de 0,005 a 0,015 mm. Cilindricidade O campo de tolerância é limitado por dois cilindros coaxiais, afastados de uma distância “t”, conforme mostra a Figura 83 (esquerda). Os desvios circulares possíveis em relação às especificações de projeto podem ser considerados como um caso particular de desvios de forma cilíndrica ovalizadas por meio de uma secção do cilindro por um plano perpendicular à sua geratriz (eixo) (AGOSTINHO, RODRIGUES; LIRANI, 1986). Figura 83. Campo de tolerância (Cilindricidade). 0,1 t Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. 125 TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS | UNIDADE IV No exemplo apresentado na Figura 83 (direita), a superfície cilíndrica deve estar contida entre dois cilindros coaxiais, nos quais os respectivos raios diferem em 0,1 mm. A tolerância de cilindricidade contempla tanto as tolerâncias admissíveis de circularidade, se considerar a análise da seção transversal do cilindro, quanto as tolerâncias admissíveis que compreende conicidade, concavidade e convexidade, se considerar a seção longitudinal (ARCELOR BRASIL, 2004). Forma de uma linha qualquer O campo de tolerância é limitado por duas linhas geradas por círculo de diâmetro “t”, cujo centro situa-se sobre a linha geométrica teórica, conforme mostra a Figura 84 (esquerda). Este tipo de tolerância de forma se aplica a especificações para usinagem de perfis especiais, tais como cames, curvas especiais, entre outros perfis. Figura 84. Campo de tolerância (Forma de uma linha qualquer). Øt Linha real 0,04 Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. No exemplo apresentado na Figura 84 (direita), cada seção paralela ao plano de projeção, o perfil considerado deve estar contido entre duas linhas geradas por círculos com 0,04 mm de diâmetro, cujos centros se situam sobre uma linha geométrica teórica. Forma de uma superfície qualquer O campo de tolerância é limitado por duas superfícies geradas por esfera de diâmetro “t”, cujos centros situam-se sobre a superfície geométrica teórica, conforme ilustra a Figura 85 (esquerda). Este tipo de tolerância de forma se aplica a especificações para fabricação de superfícies especiais, tais como esferas, superfícies especiais de revolução, entre outras superfícies (AGOSTINHO, RODRIGUES; LIRANI, 1986). 126 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS Figura 85. Campo de tolerância (Forma de uma superfície qualquer). Øt Superfície real 0,02 Superfície teórica Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. No exemplo apresentado na Figura 85 (direita), a superfície deve estar contida entre duas superfícies geradas por esferas com 0,02 mm de diâmetro, cujos centros situam-se sobre a superfície geométrica teórica. 127 CAPÍTULO 2 Tolerância de orientação, tolerância de posição e tolerância de batimento Os desvios definidos como o grau de variação entre as diversas superfícies reais entre si (dois ou mais elemento de uma peça), em relação ao posicionamento teórico previsto em projeto, caracterizam os desvios de posição e podem indicar erros de paralelismo, ângulos, alinhamento, perpendicularidade, simetria e posicionamento de um elemento e concentricidade (AGOSTINHO, RODRIGUES; LIRANI, 1986). As tolerâncias relacionadas serão detalhadas a seguir. Tolerância de Orientação Este tipo de tolerância geométrica se baseia na relação de orientação estabelecida entre dois ou mais elementos. Como fundamento, este campo de tolerância especifica o valor permissível de variação de um elemento da peça em relação à sua orientação teórica. No estudo das tolerâncias de orientação, os desvios de forma dos elementos associados serão considerados desprezíveis em comparação aos desvios de orientação. Paralelismo Paralelismo é a condição de uma reta ou superfície ser equidistante em todos os seus pontos de uma linha ou plano de referência. O campo de tolerância pode variar conforme a especificação da referência. Tolerância de paralelismo de uma linha em relação a uma linha de referência: O campo de tolerância é limitado por duas retas paralelas, afastadas de uma distância “t” e paralelas à linha de referência, se a tolerância for especificada em um só plano (Figura 86 a). O campo de tolerância, quando projetado em um plano, é limitado por duas retas paralelas, afastadas de uma distância “t” e paralelas à reta de referência, se a tolerância for especificada em uma única direção (Figura 86 b). Se a tolerância for especificada em duas direções perpendiculares entre si, o campo de tolerância é limitado por um paralelepípedo de seção transversal t1 x t2 e paralelo à linha de referência (Figura 86 c). E, ainda, campo de tolerância pode ser limitado por um círculo de diâmetro “t” paralelo à linha de referência, se o valor for precedido pelo símbolo Ø (Figura 86 d); 128 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS Figura 86. Campo de tolerância (Paralelismo). Linha de Referência Referência Referência Referência Ø t t t t1 t2 (a) (b) (c) (d) Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. Tolerância de paralelismo de uma linha em relação a uma superfície de referência: o campo de tolerância é limitado por dois planos paralelos, afastados de uma distância “t” e paralelos à superfície de referência, conforme Figura 87 (a). Tolerância de paralelismo de uma superfície em relação a uma linha de referência: o campo de tolerância é limitado por dois planos paralelos afastados de uma distância “t” e paralelos a uma linha de referência, conforme Figura 87 (b). Tolerância de paralelismo de uma superfície em relação a uma superfície de referência: o campo de tolerância é limitado por dois planos paralelos afastados de uma distância “t” e paralelos à superfície de referência, conforme Figura 87 (c). Figura 87. Campo de tolerância (Paralelismo). Referência t t Referência t (a) (b) (c) Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. 129 TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS | UNIDADE IV A Figura 88 apresenta alguns exemplos de especificação de tolerância de paralelismo. Na Figura 88 (esquerda), o eixo superior deve estar compreendido em uma zona cilíndrica de 0,03 mm de diâmetro, paralelo ao eixo inferior A (paralelismos de linha em relação a uma linha de referência) e na Figura 88 (direita), o eixo do furo deve estar compreendido entre dois planos distantes 0,2 mm e paralelos ao plano de referência C (paralelismo de superfície em relação a uma superfície de referência). Figura 88. Especificação de tolerância de Paralelismo. Ø0,03 A 0,2 C A C Fonte: adaptada de Arcelor Brasil, 2004. Perpendicularidade Perpendicularidade é a condição pela qual o elemento deve estar dentro do desvio angular, considerando como referência o ângulo reto entre uma superfície, ou uma linha, e considerando como elemento de referência uma superfície ou uma linha. Assim como no paralelismo, o campo de tolerância pode variarconforme a especificação da referência. Tolerância de perpendicularidade de uma linha em relação a uma linha de referência: o campo de tolerância, quando projetado em um plano, é limitado por duas retas paralelas, afastadas de uma distância “t” e perpendiculares à linha de referência, conforme ilustra Figura 89 (a). Tolerância de perpendicularidade de uma linha em relação a uma superfície de referência: o campo de tolerância, quando projetado em um plano é limitado por duas retas paralelas, afastadas de uma distância “t” e perpendiculares à superfície de referência, se a tolerância for especificada somente em uma direção (Figura 89 b). O campo de tolerância pode ser limitado por um cilindro de diâmetro “t” perpendicular à superfície de referência, se 130 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS o valor da tolerância for precedido pelo símbolo Ø (Figura 89 c). E, ainda, o campo de tolerância é limitado por um paralelepípedo de seção transversal t1 x t2 e perpendicular ao plano de referência, se a tolerância for especificada em duas direções perpendiculares entre si (Figura 89 d). Figura 89. Campo de tolerância (Perpendicularidade). t t Øt t1 t2 Referência Referência Referência Referência (a) (b) (c) (d) Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. Tolerância de perpendicularidade de uma superfície em relação a uma linha de referência: o campo de tolerância é limitado por dois planos paralelos afastados de uma distância “t” e perpendiculares à linha de referência, conforme Figura 90 (esquerda). Tolerância de perpendicularidade de uma superfície em relação a uma superfície de referência: o campo de tolerância é limitado por dois planos paralelos, afastados de uma distância “t” e perpendiculares à superfície de referência, conforme Figura 90 (direita). Figura 90. Campo de tolerância (Perpendicularidade). Referência Referência t t Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. 131 TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS | UNIDADE IV A Figura 91 apresenta alguns exemplos de especificação de tolerância de perpendicularidade. Na Figura 91 (esquerda), o eixo do cilindro deve estar compreendido em um campo cilíndrico de 0,1 mm de diâmetro, perpendicular à superfície de referência A. e na Figura 91 (direita), o eixo do cilindro deve estar compreendido entre duas retas paralelas, distantes 0,2 mm e perpendiculares à superfície de referência B. A direção do plano das retas paralelas é a indicada abaixo. Figura 91. Especificação de tolerância de Perpendicularidade. A B Ø0,1 A 0,2 B Fonte: adaptada de Arcelor Brasil, 2004. Inclinação A inclinação é a condição pela qual o elemento deve estar dentro do desvio angular, considerando como referência o ângulo (exceto o reto) entre uma superfície, ou uma linha, e considerando como elemento de referência uma superfície ou uma linha. Assim como na perpendicularidade, o campo de tolerância pode variar conforme a especificação da referência. Tolerância de inclinação de uma linha em relação a uma linha de referência: o campo de tolerância é limitado por duas retas paralelas, afastadas de uma distância “t” e inclinadas em relação à linha de referência com ângulo especificado α , como mostra a Figura 89 (a). Se a linha considerada e a linha de referência estiverem em planos diferentes, o campo de tolerância é aplicado à projeção da linha considerada em um plano contendo a linha de referência e paralelo à linha considerada (Figura 92 b). Tolerância de inclinação de uma linha em relação a uma superfície de referência: o campo de tolerância, quando projetado em um plano, é limitado por duas retas paralelas, afastadas de uma distância “t” e inclinadas em relação à superfície de referência com ângulo especificado, como mostrado em Figura 92 (c). 132 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS Tolerância de inclinação de uma superfície em relação a uma linha de referência: o campo de tolerância é limitado por dois planos paralelos, afastados de uma distância “t” e inclinados em relação à linha de referência, com ângulo especificado (Figura 92 d). Tolerância de inclinação de uma superfície em relação a uma superfície de referência: o campo de tolerância é limitado por dois planos paralelos, afastados de uma distância “t” e inclinados em relação à superfície de referência com o ângulo especificado (Figura 92 e). A Figura 93 apresenta alguns exemplos de especificação de tolerância de orientação. Na Figura 93 (esquerda), a linha de centro do furo, projetada em um plano contendo a linha de referência A-B, deve estar contida entre duas retas paralelas afastadas em 0,08 mm e inclinadas em 60° em relação à linha de referência A-B. Na Figura 93 (direita) a superfície inclinada deve estar contida entre dois planos paralelos, afastados em 0,1 mm e inclinados em 75° em relação à linha de referência A. Figura 92. Campo de tolerância (inclinação). 𝜶𝜶 𝜶𝜶 𝜶𝜶 𝜶𝜶 𝜶𝜶 t t t t t Linha de referência Linha considerada (a) (b) (c) (d) (e) Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. Figura 93. Especificação de tolerância de inclinação. A 0,08 A-B B 0,1 A 60° B 75° Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. 133 TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS | UNIDADE IV Tolerância de posição A tolerância de posição pode ser definida, de modo geral, como desvio admissível de um determinado elemento (ponto, reta, plano) em relação à sua posição teórica. É importante a aplicação dessa tolerância de posição para especificar as posições relativas, por exemplo, de furos em uma carcaça para que ela possa ser montada sem nenhuma necessidade de ajuste (ARCELOR BRASIL, 2004). Tolerância de posição de um ponto O campo de tolerância é limitado por um círculo de diâmetro “t”, com o centro na posição teórica (Figura 94 a). Tolerância de forma e posição de uma linha O campo de tolerância é limitado por duas retas paralelas, afastadas de uma distância “t” e dispostas simetricamente em relação à posição teórica das linhas consideradas, se a tolerância for especificada em uma única direção (Figura 94 b). O campo de tolerância pode ainda ser limitado por um paralelepípedo de seção transversal t1 x t2, cuja linha de centro está na posição teórica, se a tolerância for especificada em direções perpendiculares entre si (Figura 94 c). E por fim, o campo de tolerância é limitado por um cilindro de diâmetro “t” e com linha de centro na posição teórica, se o valor tolerado for precedido pelo símbolo Ø (Figura 94 d). Figura 94. Campo de tolerância de forma e posição de uma linha. t Øt t1 t2 (a) (b) (c) (d) Øt Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. Tolerância de posição de uma superfície plana ou de um plano médio O campo de tolerância é limitado por dois planos paralelos, afastados de uma distância “t” e dispostos simetricamente em relação à posição teórica 134 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS da superfície considerada. A Figura 95 apresenta o campo de tolerância (esquerda) e um exemplo de aplicação (direita), no qual a superfície inclinada, a 105°, deve estar contida entre dois planos paralelos, afastados em 0,05 mm e simetricamente dispostos em relação à posição teórica da superfície considerada em relação à superfície de referência A e à linha de referência B (eixo). Figura 95. Campo de tolerância de posição de uma superfície plana ou de um plano médio e aplicação. A 0,05 A B 105° B t 35 Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. Tolerância de concentricidade A concentricidade pode ser definida como a condição segundo a qual os eixos de duas ou mais figuras geométricas são coincidentes. Porém, na prática, é muito difícil existir essa coincidência teórica. Normalmente, háuma variação do eixo de simetria de uma das figuras em relação a outro eixo considerado como referência, caracterizando uma excentricidade. A tolerância de concentricidade é, então, a excentricidade considerada em um plano perpendicular ao eixo tomado como referência (AGOSTINHO, RODRIGUES; LIRANI, 1986). O campo de tolerância é limitado por um círculo de diâmetro “t”, cujo centro coincide com o centro de referência, se o valor da tolerância for precedido pelo símbolo Ø, como pode ser observado na Figura 96 (esquerda). Na Figura 96 (direita), é apresentado um exemplo deste tipo de tolerância geométrica, no qual o centro de um círculo ao qual o quadro de tolerância está ligado deve estar contido em um círculo de diâmetro 0,01 mm, concêntrico com o centro do círculo A (centro de referência). 135 TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS | UNIDADE IV Figura 96. Campo de tolerância de concentricidade de um ponto e aplicação. A Ø0,01 A Øt Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. Tolerância de Coaxilidade Os desvios de concentricidade podem ser considerados como um caso particular dos desvios de coaxilidade quando avaliados em um plano perpendicular ao eixo de simetria adotado como referência (AGOSTINHO, RODRIGUES; LIRANI, 1986). O campo de tolerância é limitado por um cilindro de diâmetro “t”, cuja linha de centro coincide com a linha de referência, quando o valor da tolerância for precedido pelo símbolo Ø, como pode ser observado na Figura 97 (esquerda). Na Figura 97 (direita), é apresentado um exemplo deste tipo de tolerância geométrica, a linha de centro do cilindro ao qual o quadro de tolerância está ligado deve estar contida em um campo cilíndrico de diâmetro 0,08 mm, coaxial com a linha de centro A-B. Figura 97. Campo de tolerância de coaxilidade de um eixo e aplicação. Ø0,08 A-B Øt B Ø Ø Ø A Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. Tolerância de Simetria A tolerância de simetria assemelha-se à de posição de um elemento, porém utilizada em condição independente, pois não leva em consideração a grandeza do elemento. 136 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS Tolerância de simetria de um plano médio: o campo de tolerância é limitado por dois planos paralelos, afastados de uma distância “t” e dispostos simetricamente em relação à linha de referência ou plano de referência, conforme apresenta a Figura 98 (a). Tolerância de simetria de uma linha ou de um eixo: o campo de tolerância é limitado por duas retas paralelas, ou dois planos paralelos, afastados de uma distância “t” e dispostos simetricamente em relação à linha de referência ou plano de referência, se a tolerância for especificada em uma única direção (Figura 98 b). O campo de tolerância também pode ser limitado por um paralelepípedo de seção transversal t1 x t2, cuja linha de centro coincide com a linha de referência, se a tolerância for especificada em duas direções perpendiculares entre si (Figura 98 c). Figura 98. Campo de tolerância de simetria de um plano médio, de uma linha ou de um eixo. t (a) (b) (c) t t1 t2 Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. Na Figura 99 é apresentado um exemplo deste tipo de tolerância geométrica de posição, no qual o eixo do furo deve estar compreendido entre dois planos paralelos, distantes 0,08, e dispostos simetricamente em relação ao plano de referência A-B. Figura 99. Aplicação de tolerância de simetria de um eixo. 0,08 A-B B A Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. 137 TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS | UNIDADE IV Tolerância de Batimento Conforme afirma Agostinho et al. (1986), as superfícies de revolução produzidas na usinagem, como, por exemplo, as cilíndricas ou de furos, devem ser convenientemente dimensionadas com suas respectivas tolerâncias, pois podem estar sujeitas à variações diversas de fabricação, como ovalização, erros de conicidade desvios de excentricidade em relação ao seu eixo, entre outros desvios. Tais variações devem ser controladas ou delimitadas nas especificações de projeto, para assegurar a qualidade da fabricação, bem como a facilidade de montagem entre os elementos. A produção destas superfícies de revolução tem uma adversidade adicional ao processo: a dificuldade de localização de seu eixo de simetria nas peças reais. As tentativas de localização correta deste parâmetro podem gerar uma composição de erros entre a superfície em medição, a superfície de referência e a linha de centro teórica. Logo, os desvios de batimento podem ser definidos como os desvios compostos de forma e posição de superfície de revolução quando medidos a partir de um eixo ou superfície de referência (AGOSTINHO, RODRIGUES; LIRANI, 1986; ARCELOR BRASIL, 2004). As tolerâncias de batimento podem delimitar a variação máxima admissível da posição de um elemento considerado, ao completar uma revolução em torno de um eixo de referência sem haver o deslocamento axial. Tolerância de batimento circular radial: o campo de tolerância é limitado, em qualquer plano perpendicular à linha de centro, por dois círculos concêntricos, afastados de uma distância “t”, cujos centros coincidem com a linha de referência, como mostra a Figura 100 (a). Tolerância de batimento circular axial: o campo de tolerância é limitado em qualquer posição radial por duas circunferências idênticas, afastadas axialmente de uma distância “t”, definindo uma superfície cilíndrica cuja linha de centro coincide com a linha de referência (Figura 100 b). Tolerância de batimento circular em qualquer direção: o campo de tolerância é limitado por duas circunferências, afastadas radialmente de uma distância “t”, pertencentes a uma superfície de revolução cuja linha de centro coincide com a linha de referência. A menos que especificado em contrário, a direção de medição é perpendicular à superfície, como mostrado na Figura 100 (c), onde o valor de α não é definido. 138 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS Tolerância de batimento circular em uma direção especificada: o campo de tolerância é limitado por duas circunferências, afastadas radialmente de uma distância “t”, pertencentes a qualquer superfície de revolução com ângulo especificado, cuja linha de centro coincide com a linha de referência, como mostrado na Figura 100 (c), onde o valor de α é definido. Figura 100. Campo de tolerância de batimento circular. t t t t 𝜶𝜶 Cone de medição Cilindro tolerado Seção transversal (a) (b) (c) Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. Tolerância de batimento total radial: o campo de tolerância é limitado por duas superfícies cilíndricas coaxiais, afastadas de uma distância “t”, cujas linhas de centro coincidem com a linha de referência, como pode ser observado na Figura 101 (a). Tolerância de batimento total axial: o campo de tolerância é limitado por dois planos paralelos, afastados de uma distância “t” e perpendicular à linha de referência, como pode ser observado na Figura 101 (b). Na Figura 101 (c), é apresentado um exemplo deste tipo de tolerância geométrica de batimento, no qual o desvio de batimento radial não deve ultrapassar 0,1 mm, em qualquer plano, durante uma rotação completa em torno da linha de centro comum de A e B (eixo de referência). Figura 101. Campo de tolerância de batimento total e aplicação. t t 0,1 A-B B A Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. 139 CAPÍTULO 3 Simbologia associada e estudos de casos relacionados As Tabelas 14 e 15 apresentam os símbolos que representam as tolerâncias geométricas de forma, orientação e posição. Cada tipo de tolerância é apresentado com o seu respectivo símbolo característico, assim como são apresentados os símbolos de indicação de referência e modificadores. Tabela 14. Símbolos para característica tolerada.Características afetadas pelas tolerâncias Símbolo Fo rm a pa ra el em en to s i so la do s Retilineidade Planeza Circularidade Cilindricidade Forma de uma linha qualquer Forma de uma superfície qualquer Or ie nt aç ão pa ra el em en to s as so cia do s Paralelismo Perpendicularidade Inclinação Po siç ão pa ra el em en to s a ss oc ia do s Posição de um elemento Concentricidade Coaxilidade Simetria Batimento Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. 140 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS Tabela 15. Símbolos para indicação de referência e modificadores. Indicação em desenho Símbolo Elemento tolerado Direto Indireto Elemento de referência Direto Indireto Dimensão teoricamente correta (cota básica) Tolerância projetada Condição de máximo material Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. Nos desenhos/especificações, as tolerâncias de forma e posição devem ser inscritas em um quadro retangular, dividido em duas ou mais partes. Nessas divisões, são inscritos da esquerda para direita e na seguinte ordem: » símbolo da característica; » valor da tolerância na unidade usada para dimensões lineares. Este valor é precedido pelo símbolo ∅, se a zona de tolerância for circular ou cilíndrica; » quando for o caso, letra ou letras para identificar o elemento ou os elementos de referência. Conforme exemplos na Figura 102. Figura 102. Exemplos de quadros de indicação de tolerâncias geométricas. 0,01 0,02 A Ø 0,1 A B C Fonte: adaptada de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1997. Estudo de Caso O estudo conduzido por Rodrigues (2017)the test bodies (pins and blocks buscou definir procedimentos de medição para efetuar o controle dimensional 141 TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS | UNIDADE IV e geométrico dos corpos de prova utilizados no reparo por atrito e verificar, se eles se encontraram dentro das tolerâncias indicadas em projeto. Foram realizadas a identificação das dimensões, tolerâncias dimensionais e tolerâncias geométricas e foram definidos os valores, como os apresentados a seguir na Tabela 16. Tabela 16. Dimensões e tolerâncias do corpo de prova. Mensurando Característica Valor nominal Tipo de tolerância Tolerância 7 Faces Laterais - Paralelismo 200 µm 8 Distância entre rasgo de encaixe e corpo do pino 4,7 mm Dimensional ±100 µm 9 Distância entre parte superior do encaixe e corpo do pino 11 mm Dimensional 100 µm 10 Distância faces internas do rasgo de encaixe 3 mm Dimensional 100 µm 50 µm 11 Faces interna do rasgo de encaixe - Simetria 50 µm 12 Diâmetro do encaixe 12 mm Dimensional -40 µm -20 µm Fonte: adaptada de Rodrigues, 2017. A partir das dimensões e tolerâncias especificadas, foram definidas as resoluções requeridas para o dispositivo de medição de controle, conforme apresenta a Tabela 17. Tabela 17. Resolução do sistema de medição exigida. Mensurando Tolerância Resolução 7 200 µm 20 µm 8 ±100 µm 20 µm 9 100 µm 10 µm 10 100 µm 50 µm 5 µm 11 50 µm 5 µm 12 -40 µm -20 µm 2 µm Fonte: adaptada de Rodrigues, 2017. Na Tabela 18, são apresentados os valores medidos e os valores de projeto. A partir destes dados, é possível concluir quais mensurando foram corretamente fabricados, ou seja, se encontraram dentro dos valores aceitáveis. 142 UNIDADE IV | TOLERÂNCIAS GEOMÉTRICAS Tabela 18. Comparação dos valores medidos e os valores teóricos. Mensurando Tolerância Tolerância Valor nominal Resultado da Medição 7 200 µm 0,2 mm - 0,171 ± 0,007 mm 8 ±100 µm ±0,2 mm 4,7 mm 4,666 ± 0,005 mm 9 100 µm 0,1 mm 11 mm 11,073 ± 0,006 mm 10 100 µm 50 µm 0,1 mm 0,05 mm 3 mm 3,393 ± 0,007 mm 12 -40 µm -20 µm -0,04 mm -0,02 mm 12 mm 11,978 ± 0,004 mm Fonte: adaptada de Rodrigues, 2017. Como conclusão do estudo, foi observado que dos 5 mensurandos que tinham tolerâncias especificadas, sejam dimensionais ou geométricas, medidos com uma Máquina de Medição por Coordenadas (MMC), 4 se encontraram dentro dos limites estabelecidos em projeto. Entretanto, para o mensurando 10, os resultados de medição não se enquadraram nos valores aceitáveis. Por meio da média das indicações do projetor de perfil, concluiu-se que o mensurando 11 encontrava-se fora da tolerância de projeto. 143 UNIDADE VRUGOSIDADE DAS SUPERFÍCIES CAPÍTULO 1 Rugosidade média aritmética, rugosidade média e rugosidade máxima As etapas de produção de um determinado componente, na grande maioria das vezes, são aplicadas a partir de um material considerado “bruto” para formação do produto acabado. Durante o processo de fabricação, este material bruto sofre transformações de forma, de dimensão e, também, em suas propriedades. É pertinente entender que o processo de manufatura deste componente afeta as condições de acabamento, de funcionalidade e as demais características do produto. Como lei geral da indústria, quanto melhor o acabamento requerido, maior será o custo de execução desta peça. Portanto, para evitar o aumento excessivo dos custos relativos à fabricação, as peças devem apresentar o grau de acabamento adequado à sua aplicação/função (SILVA NETO, 2012). Nas aplicações dos processos de fabricação, as superfícies resultantes podem apresentar imperfeições, sejam elas macrogeométricas e/ou microgeométricas. Os erros macrogeométricos e respectivas tolerâncias já foram discutidos nas Unidades III e IV. Os erros microgeométricos contemplam as imperfeições conhecidas como rugosidade. A rugosidade superficial pode ser definida como irregularidades (saliências e reentrâncias) microscópicas produzidas na superfície, que podem, por exemplo, ser geradas pela ferramenta de corte após aplicação de um processo de usinagem. Devido aos avanços tecnológicos e às demandas associadas, torna-se cada vez mais importante o controle sobre os parâmetros de produção, com o objetivo de minimizar problemas relacionados ao atrito, ajuste e tolerâncias, os quais podem prejudicar o adequado funcionamento e reduzir a vida útil de componente. A avaliação da rugosidade é de grande relevância, já que auxilia na análise de confiabilidade da peça e pode fornecer informações para avaliação qualitativa do comportamento da ferramenta durante a produção (SILVA NETO, 2012). 144 UNIDADE V | RUGOSIDADE DAS SUPERFÍCIES A avaliação da rugosidade fornece base para verificar características de componentes mecânicos como: a qualidade de deslizamento entre elementos, resistência ao desgaste, possibilidade de ajuste do acoplamento com interferência, grau de resistência oferecida pela superfície ao escoamento de fluidos e lubrificantes, qualidade de aderência que a estrutura oferece às camadas protetoras, resistência à corrosão e à fadiga, nível de vedação que o componente pode oferecer e condição de acabamento superficial (aparência) (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). Para garantir a funcionalidade de um acoplamento entre elementos, é imprescindível que a rugosidade seja compatível com as tolerâncias dimensionais e de forma, uma vez que peças com elevada rugosidade podem não viabilizar os acoplamentos deslizantes, por exemplo. Entretanto, para redução de custos envolvidos, as superfícies não envolvidas em acoplamento não necessitam apresentar baixos valores de rugosidade e, na maioria das vezes, apenas a condição de aparência requerida que determina os valores máximos de rugosidade (COELHO; SILVA, 2018). A depender do valor limite de rugosidade especificado, alguns processos de usinagem não capazes de atender, restringindo a gama de escolhas. A condição do acabamento superficial é fundamental em superfícies de componentes deslizantes como guia, mancais, entre outros elementos. Nestes casos, os valores de rugosidade e também a característica de forma da textura superficial se tornam importantes para minimizar efeitos como desgaste, atrito e corrosão, além de influenciar as propriedades de resistência à fadiga, transmissão de calor,e determinado a partir da medida da seção transversal em X, buscando-se uma maior estabilidade à medição. Na composição foram adicionados 10% de irídio, para tornar o sistema mais robusto, além de definidos dois traços em seu plano neutro, de maneira a tornar o processo de medição mais preciso. Assim, o metro padrão pode ser definido como a distância entre os eixos de duas marcações principais indicadas na superfície neutra do padrão internacional, atualmente depositado no Bureau Internacional des Poids ét Mésures (BIPM), à 14 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA temperatura de 0 °C, sob pressão atmosférica de 760 mmHg e apoiado sobre os pontos de mínima flexão. Atualmente, uma das barras-padrão está depositada no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São José dos Campos – SP (Figura 2) (GAVENDA et al., 2008). Figura 2. Exemplo de barra utilizada como padrão do metro. Plano Neutro Fonte: Gavenda et al., 2008. Ainda segundo Gavenda et al. (2008), a definição recomendada pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), apresentada na 17ª Conferência Geral dos Pesos e Medidas (1983), é que o metro pode ser determinado pelo comprimento do trajeto percorrido pela luz, no vácuo, durante um intervalo de tempo da razão entre 1 e 299.792.458 de segundo. O sistema métrico difundiu-se nos mais diversos países em meados do século XIX. No Brasil, o sistema métrico passa a ser adotado a partir da promulgação da Lei Imperial nº 1157, de 26 de junho de 1862, na qual se estabeleceu a substituição dos padrões antigos num prazo de dez anos após a lei entrar em vigência. Conforme descreve Silva Neto (2012), com o crescimento industrial no século XIX, era necessária a criação no Brasil de métodos e equipamentos (instrumentos) mais eficazes para voiabilizar o controle do processo de medição, bem como impulsionar e proteger fabricantes e consumidores. Em 1961, foi criado o Instituto Nacional de Pesos e Medidas (INPM), integrando a Rede Brasileira de Metrologia Legal e Qualidade, implementando o Sistema Internacional de Unidades (SI) em todo o território nacional. 15 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Com o ritmo acelerado de crescimento industrial, em pouco tempo, identificou-se que tais ações não seriam suficiente para acompanhar, nesta corrida tecnológica mundial, as exigências para atingir um grau adequado de exatidão e confiabilidade do processo produtivo. Com isso, foi criado o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), em 1973, com objetivo de fortalecer as empresas nacionais, elevando-se os níveis de produtividade, por meio do emprego de mecanismos que possibilitassem o aperfeiçoamento de serviços e produtos. Definições pertinentes A seguir, serão apresentadas algumas definições relativas ao tema em estudo segundo autores como Coelho e Silva (2018), Silva Neto (2012), Agostinho et al. (1986) e Pauli e Uliana (1996). » Metrologia pode ser definida como a ciência das medidas e suas aplicações, ou seja, o estudo das unidades de medida e dos processos de medição, abrangendo todos os aspectos teóricos e práticos que asseguram a precisão demandada no processo de fabricação, a fim de garantir a qualidade de produtos e serviços. Na maioria dos casos, durante a aplicação dos processos de manufatura, as dimensões finais obtidas não reproduzem as medidas indicadas na concepção do projeto, por isso é necessário estabelecer intervalos de tolerância que permitam variações dimensionais nos limites aceitáveis para o desempenho do produto. O controle dimensional tem grande relevância na aplicação destes processos, uma vez que permite manter as variações dimensionais oriundas da fabricação nos valores de tolerâncias especificadas na fase de projeto, sendo a base fundamental para a competitividade das empresas. » Entende-se por Medição um conjunto de operações que tem por objetivo determinar o valor de uma grandeza, ou seja, sua expressão quantitativa, geralmente na forma de um número multiplicado por uma unidade de medida. Do ponto de vista técnico, quando uma medição é realizada, espera-se que ela seja: exata (próximo do valor verdadeiro), repetitiva (com pouca ou nenhuma diferença entre medições efetuadas sob as mesmas condições) e reprodutiva (com 16 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA pouca ou nenhuma diferença entre medições realizadas sob condições diferentes). Essas operações podem ser realizadas de duas maneiras: medição manual realizada a partir do conhecimento e da habilidade do operador. Nesse caso, o processo de medição é dependente da responsabilidade, cuidado com os instrumentos, sensibilidade, domínio do processo do profissional envolvido; medição automática realizada por máquinas ou instrumentos com a intervenção indireta do operador. As medições podem ainda ser classificadas como: › medições diretas: a grandeza medida é comparada diretamente com uma escala padrão devidamente definida. São exemplos: réguas, paquímetros etc.; › medições indiretas: a grandeza medida é comparada com um padrão conhecido, porém seu real valor não é conhecido, já que, neste tipo de medição, sabe-se apenas se está de acordo ou não a um determinado intervalo estabelecido. Um exemplo são os calibradores (Figura 3); › medições relativas: o objeto da medição é o valor comparativo entre a grandeza medida e de um padrão de referência. Um exemplo é a medição de paralelismo realizada por instumentos como o relógio comparador (Figura 4). Figura 3. Exemplo de medição indireta pela utilização de um calibrador do tipo passa-não-passa. Pa ss a N ão -P as sa máx. máx. -0 -0,013 27 h6 IS O Fonte: Coelho e Silva, 2018. 17 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Figura 4. Exemplo de medição relativa de paralelismo. Coluna Base (referência) Relógio Comparador Fonte: adaptada de Coelho e Silva, 2018. » Tolerância é o valor total que as dimensões de determinado produto pode variar de uma dimensão especificada. O intervalo de tolerância é estabelecido entre os valores limites de máximo e mínimo. » Unidade pode ser definida como um determinado valor em função do qual outros valores são enunciados. Por exemplo, a unidade metro pode ser utilizada para caracterizar o comprimento. A unidade é fixada por definição e independe do prevalecimento das condições físicas como temperatura, grau de umidade, pressão, entre outras. » O Padrão é a materialização da unidade, sob condições físicas específicas. O metro-padrão, por exemplo, somente pode ser considerado como o comprimento de um metro, quando a relaização da medição obedece a determinadas condições de temperatura e pressão. A alteração no valor de qualquer uma dessas condições modificará o comprimento original. » Intercambiabilidade é a possibilidade de, quando se monta um conjunto mecânico a partir da utilização de um lote de peças semelhantes, prontas e verificadas, dará condições para o funcionamento do mecanismo de acordo com o que foi projetado, de modo que desempenhe sua função com segurança. » A Repetibilidade configura-se como a capacidade que o instrumento tem de reproduzir os resultados, ou seja, de ser repetitivo. Sabe-se que 18 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA os próprios instrumentos de medição têm incertezas associadas devido aos seus respectivos processos de fabricação. Portanto, é de se esperar que um mesmo instrumento produza leituras levemente diferentes a cada medição. Quanto menor a variação entre as leituras, maior sua repetibilidade. Para quantificar essa variação entre as medições, o parâmetro conhecido como desvio-padrão é relacionado a leituras consecutivas de uma mesma medição. » Exatidão é a diferença entre a leitura realizada por meio de um instrumento e o valor real da dimensão. O valor pode ser consideradopropriedades óticas, escoamento de fluidos, entre outras (COELHO; SILVA, 2018). O termo textura está relacionado aos picos e vales produzidos na superfície pela aplicação de um determinado processo de fabricação. Por convenção, a definição de textura engloba duas componentes: a rugosidade e a ondulação. A superfície de um componente pode ser dividida em duas camadas limite distintas: a externa e a interna. A camada interna é resultado da ação mecânica do processo de fabricação aplicado e sua profundidade depende da severidade da força de usinagem a que foi submetida, já camada externa define o limite entre a atmosfera externa e a estrutura atômica do material (SILVA NETO, 2012). 145 RUGOSIDADE DAS SUPERFÍCIES | UNIDADE V Para produção de superfícies com o acabamento adequado é preciso especificar as devidas condições de usinagem e, para isso, deve-se determinar os parâmetros que possibilite a avaliação da rugosidade. Rugosidade Média (Ra) É a média aritmética dos valores absolutos das ordenadas de afastamento (yi), dos pontos do perfil de rugosidade em relação à linha média, no percurso de medição (lm) (Figura 103). Essa grandeza pode corresponder à altura de um retângulo, cuja área é igual à soma absoluta das áreas delimitadas pelo perfil de rugosidade e pela linha média, tendo por comprimento o percurso de medição (lm), com isso pode ser calculada por: 1 n i yi Ra n == ∑ Figura 103. Rugosidade Aritmética. lm y (µ m ) y1 y2 y3 yn R a Fonte: adaptada de Secco et al., 1996. Conforme define Secco et al. (1996), esse parâmetro denominado Ra (Roughness Average), determina a rugosidade média. É conveniente a aplicação deste parâmetro quando se deseja avaliar as seguintes situações: quando for necessário o controle contínuo da rugosidade nas linhas de produção; em superfícies em que o acabamento apresenta sulcos de usinagem bem orientados, como peças provenientes de torneamento, fresagem etc.; em superfícies de pouca responsabilidade, cujo grau de acabamentos seja apenas para fins estéticos. O parâmetro Ra é um dos mais utilizado pela indústria, em geral. A rugosidade média (Ra) pode ser empregada para avaliação superficial de diversos componentes, como peças fabricadas por torneamento, fresagem, aplainamento 146 UNIDADE V | RUGOSIDADE DAS SUPERFÍCIES e retificação, guias de máquinas ou atém mesmo em componentes que não necessitem de acabamento especial e sendo aplicável à maioria dos processos de fabricação. Os riscos superficiais inerentes ao processo, normalmente, não alteram significativamente seu valor. Para a maioria das superfícies, o valor da rugosidade nesse parâmetro, Ra, está de acordo com a curva de distribuição de Gauss (SILVA NETO, 2012). O valor de Ra determinado em um comprimento de amostragem apenas indica a média dos picos e vales nesse intervalo. Por isso, se um pico ou vale não típico aparecer na superfície, o valor da média pode não sofrer alterações significativas, podendo ocultar um possível defeito. O valor de Ra não define o formato das irregularidades do perfil, portanto é possível determinar um mesmo valor de Ra para superfícies originadas de processos diferentes de usinagem. Para alguns processos de fabricação com frequência muito alta de vales ou picos na superfície, a utilização do parâmetro Ra não é recomendável, pois a distorção provocada pelo filtro eleva o erro associado a altos níveis (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). A norma ABNT NBR 8404:1984 define que a característica principal (o valor) da rugosidade Ra pode ser indicada pelos números (N) da classe de rugosidade correspondente, conforme apresenta a Tabela 19; é possível verificar que quanto maior for o valor de N maior será o valor da rugosidade em micrometros (μm), o qual caracteriza a pior condição de acabamento superficial. Tabela 19. Classe de rugosidade. Classe Ra (µm) N12 50 N11 25 N10 12,5 N9 6,3 N8 3,2 N7 1,6 N6 0,8 N5 0,4 N4 0,2 N3 0,1 N2 0,05 N1 0,025 Fonte: adaptada de Silva Neto, 2012. 147 RUGOSIDADE DAS SUPERFÍCIES | UNIDADE V Rugosidade Máxima (Ry) Este parâmetro é definido como o maior valor das rugosidades parciais (Zi) que se apresenta no percurso de medição (lm). Na Figura 104, o maior valor parcial é o Z3, que está localizado no 3º cut-off e corresponde à rugosidade máxima Ry. Este parâmetro é ideal para avaliação de superfícies de vedação, superfícies de assento de anéis de vedação, superfícies dinamicamente carregadas, tampões em geral, parafusos sujeitos a elevados carregamentos e superfícies de deslizamento em que o perfil efetivo é periódico. A rugosidade máxima Ry releva a máxima deteriorização da superfície vertical da peça, além de ser um parâmetro de fácil obtenção quando o equipamento de medição fornece o gráfico de superfície. A avaliação da rugosidade máxima pode fornecer informações complementares ao parâmetro Ra, que dilui os valores dos picos e vales. Porém, a avaliação individual deste parâmetro não apresenta informação suficiente a respeito da superfície, pois não é capaz de indicar o formato da superfície (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). Figura 104. Rugosidade máxima e total. lm lt lv ln Ry Z1 Z2 Z3 Z4 le Z5 Rt Fonte: adaptada de Silva Neto, 2012. Rugosidade Total Corresponde à distância vertical entre o pico mais alto e o vale mais profundo no comprimento de avaliação (lm), independentemente dos valores de rugosidade parcial (Zi), como mostrado na Figura 104. 148 UNIDADE V | RUGOSIDADE DAS SUPERFÍCIES As aplicações do parâmetro de rugosidade total (Rt) assemelham-se àquelas descritas para o parâmetro de rugosidade máxima (Ry), porém Rt costuma ser mais abrangente, pois considera todos os picos e vales existentes no comprimento de amostragem (le). Rugosidade média (Rz) Corresponde à média aritmética dos cinco valores de rugosidade parcial (Zi), na qual a rugosidade parcial (Zi) representa a soma dos valores absolutos das ordenadas dos pontos de maior afastamento, acima e abaixo da linha média, existentes no comprimento de amostragem (lm). Na representação gráfica do perfil, esse valor corresponde à altura entre os pontos máximo e mínimo do perfil no comprimento de amostragem, com isso: 5 1 1 2 3 4 5 5 5 = + + + + = =∑ i z Zi Z Z Z Z ZR 149 CAPÍTULO 2 Medição de rugosidade Critérios para avaliar a rugosidade Inicialmente, para avaliação do perfil efetivo de uma superfície, determina-se o comprimento lm, que caracteriza o comprimento total de avaliação. Conforme norma ISO (NBR ISO 4287:2002), o comprimento le designa o comprimento de amostragem. O comprimento de amostragem nos equipamentos eletrônicos de medição de rugosidade, chamado de cut-off (le), não pode ser confundido com a distância total (lt) percorrida pelo apalpador sobre a superfície. É recomendado pela norma que os dispositivos de medição de rugosidade devem indicar o valor médio, a cada grupo de 5 comprimentos de amostragem medidos. A Figura 105 apresenta esses parâmetros. Figura 105. Comprimentos para avaliação de rugosidade. lv le le le le le ln lm lt Fonte: adaptada de Secco et al., 1996. A distância percorrida pelo apalpador do dispositivo deverá representar o valor equivalente a cinco vezes o comprimento de amostragem (le) somado à distância para atingir a velocidade de medição (lv) e o comprimento para definir a parada do apalpador (ln). Como o perfil apresenta rugosidade e ondulação, o comprimento de amostragem realiza a filtragem da ondulação. Na medição da rugosidade, são recomendados valores para o comprimento da amostragem (le ou cut-off), de acordo ao valor de rugosidade média aritmética (Ra), conforme mostrado na Tabela 20. 150 UNIDADE V | RUGOSIDADE DAS SUPERFÍCIES Tabela 20. Comprimento da amostragem (le) em função de Ra (μm). Rugosidade Ra (µm) Mínimo comprimento de amostragem (le) (mm) De 0 até 0,1 0,25 Maior que 0,1 até 2,0 0,80 Maior que 2,0 até 10,0 2,50 Maior que 10,0 8,00 Fonte:adaptada de Silva Neto, 2012. Sistemas de medição da rugosidade superficial São usados dois sistemas básicos de medida: o da linha média M e o da envolvente E. O sistema da linha média é o mais utilizado, porém existem países que adotam ambos os sistemas. No Brasil, por diretrizes das Normas ABNT NBR 6405:1988 e NBR 8404:1984, é adotado o sistema M. Sistema M No sistema M (sistema da linha média), todas as grandezas de medição da rugosidade são definidas a partir do conceito de linha média, que caracteriza a linha paralela à direção geral do perfil, no comprimento da amostragem (le), de tal forma que a soma das áreas superiores, compreendidas entre ela e o perfil efetivo, seja igual à soma das áreas inferiores, como ilustrado na Figura 106, onde A3 = A1 + A2. Figura 106. Comprimento da Amostragem. A3 A1 A2 Superfície efetiva Linha Média Comprimento da amostragem le Fonte: adaptada de Silva Neto, 2012. 151 RUGOSIDADE DAS SUPERFÍCIES | UNIDADE V A medição da rugosidade, a depender do tipo de acabamento desejado, da tolerância dimensional exigida e da aplicabilidade da peça produzida, pode ser realizada vários métodos, desde a comparação visual e táctil, a utilização de rugosímetros mecânicos e digitais. Rugosímetros O rugosímetro é um dos principais dispositivos de medição utilizados para medir a rugosidade. O princípio de funcionamento deste instrumento consiste, basicamente, em fazer percorrer a superfície da peça um apalpador, que possui um sensor na região de contato. O apalpador é acionado por um sistema mecânico que permite seu movimento de avanço e retorno, permitindo ao instrumento realizar uma varredura na superfície de interesse. O movimento do apalpador é responsável pela caracterização da rugosidade, que é formada em função das ondulações detectadas pelo apalpador. No sensor existe um elemento semelhante a uma agulha, cujo movimento é traduzido em impulsos elétricos no amplificador de sinais. Tais sinais elétricos são registrados no visor do rugosímetro, que apresenta como resultado da medição um gráfico do perfil de rugosidade da superfície. Alguns equipamentos permitem que esse perfil seja impresso para arquivo ou posterior análise (SILVA NETO, 2012). A Figura 107 apresenta o esquema de funcionamento de um rugosímetro. Figura 107. Esquema do funcionamento básico de um rugosímetro. Apalpador Acionamento do apalpador Amplificador de sinais Impressão de gráfico Registrador da rugosidade Sensor Peça Fonte: adaptada de Silva Neto, 2012. A metodologia para avaliação das medições da rugosidade tem como base a NBR ISSO 4287:2002, que estabelece termos, definições e parâmetros da rugosidade, e a NBR 8404:1984 Indicação do estado de superfícies em desenhos técnicos. 152 CAPÍTULO 3 Estudos de casos aplicados Estudo Estudo da rugosidade de superfícies plana usinadas por fresas de topo esférico O estudo conduzido por Batista (2006) tinha por objetivo avaliar o acabamento das superfícies produzidas por usinagem, mais especificamente pela aplicação de fresas de topo esférico, demonstrando que os valores teóricos de altura de picos fornecidos pelos softwares CMA não são valores reais. Os resultados mostraram que os parâmetros de usinagem estudados tiverem grande influência sobre a rugosidade, principalmente o sentido de corte. Tais conhecimentos a respeito dos melhores parâmetros de usinagem e influência sobre a condição de rugosidade das peças acabadas, oferecem informações às empresas e os operadores de usinagem no sentido de agilizar o planejamento efetivo e execução de moldes e matrizes. A metodologia aplicada utilizou um rugosímetro para medição dos parâmetros de rugosidade das superfícies obtidas num comprimento de amostragem (le), no estudo designado por cut-off), tais como a rugosidade aritmética Ra e rugosidade média Rz. Nesse sentido, foram observadas pequenas variações nos valores de rugosidade aritmética Ra com a variação nos valores de profundidade de corte ae e com a variação do avanço por aresta fz. Já o sentido de corte discordante foi o que apresentou menores valores de Ra, como pode ser observado no gráfico apresentado na Figura 108. Figura 108. Relação entre os parâmetros de avanço por aresta, profundidade e sentido de corte em Ra. fz=0,15 concordante fz=0,15 discordante fz=0,10 concordante fz=0,10 discordante fz=0,05 concordante fz=0,05 discordante Rz teórico Profundidade de corte radial (mm) R a (µ m ) Fonte: adaptada de Batista, 2006. 153 RUGOSIDADE DAS SUPERFÍCIES | UNIDADE V Foi verificado, também, que os parâmetros de processo como o sentido de corte, seja ele discordante ou concordante, avanço por fresta fz e profundidade de corte ae, influenciaram significativamente os valores de rugosidade média, Rz, como pode ser observado no gráfico apresentado na Figura 109, confirmando a característica observada na avaliação do parâmetro Ra. Figura 109. Relação entre os parâmetros de avanço por aresta, profundidade e sentido de corte em Rz. Rugosidade Rz fz=0,15 concordante fz=0,15 discordante fz=0,10 concordante fz=0,10 discordante fz=0,05 concordante fz=0,05 discordante Rz teórico R z ( µm ) ae = 0,346 ae = 0,268 ae = 0,155 Fonte: adaptada de Batista, 2006. Estudo da rugosidade superficial no torneamento do aço AISI 8640 com ferramentas alisadora e convencional O estudo conduzido por Deveras (2016) apresenta um estudo comparativo entre as ferramentas de corte convencional (standard) e alisadora (wiper) no torneamento do aço AISI 8640, utilizando diferentes parâmetros de corte para avaliação da qualidade da superfície gerada, para, assim, definir a melhor combinação dos parâmetros de usinagem, com o objetivo de otimizar processos de fabricação e minimizar as rugosidades geradas na superfície das peças. A metodologia aplicada utilizou como instrumento o rugosímetro para medição dos parâmetros de rugosidade das superfícies obtidas num comprimento de amostragem (le), tais como a rugosidade aritmética Ra e rugosidade total Rt. Após a realização dos experimentos e medições pertinentes, conforme os parâmetros de usinagem preestabelecidos, foram obtidos os valores apresentados na Tabela 21, referentes aos parâmetros de rugosidade dos corpos de prova para os diferentes avanços (f) e profundidades de corte (ap). As rugosidades Ra 154 UNIDADE V | RUGOSIDADE DAS SUPERFÍCIES e Rt foram medidas em três regiões distintas, em cada amostra. A Figura 110 apresenta gráfico da média obtida a partir das três medições realizadas. Tabela 21. Valores medidos de Ra e Rt na usinagem do aço AISI 8640 para as ferramentas standard (ST) e wiper (WP). Vc (m/min) ap (mm) f (mm/rot) Ra ST (µm) Ra WP (µm) Rt ST (µm) Rt WP (µm) 148,44 0,4 0,104 1,33 0,629 11,5 4,589 0,229 1,34 1,078 8,779 6,123 0,8 0,104 1,882 1,317 10,83 6,044 0,229 1,966 1,692 10,39 7,91 Fonte: adaptada de Deveras, 2016. Figura 110. Rugosidades média (Ra) e total (Rt) para as ferramentas standard (ST) e wiper (WP). R ug os id ad es R a e R t ( µm ) Ra ST Ra WP Rt ST Rt WP Número da Amostra Fonte: adaptada de Deveras, 2016. A partir da avaliação dos resultados obtidos, por fim, foi possível perceber que os valores das rugosidades teórica e das rugosidades medidas mostram-se bastante discrepantes, devido principalmente à grande quantidade de vibração ocorrida durante a realização dos testes. A melhor situação obtida para a ferramenta convencional (ST) foi a da amostra 1 (Ra = 1,33 μm) e amostra 2 (Rt = 8,779 μm) e as melhores condições para a ferramenta alisadora (WP) foram da amostra 1 (Ra = 0,629 μm e Rt = 4,589 μm). Foi observado, também, que a ferramenta wiper se mostrou mais eficiente quanto à redução da rugosidade superficial nos corpos de prova, pois em todas as ocasiões ela apresentou valores de rugosidade média (Ra) e rugosidade total (Rt) menores quando comparadas à ferramenta standard, com variações de até150% menores (Rt na amostra 1). 155 REFERÊNCIAS AGOSTINHO, O. L.; RODRIGUES, A. C. S.; LIRANI, J. Tolerâncias, Ajustes, Desvios e Análise de Dimensões. 3a. ed. São Paulo-SP: Edgard Blucher Ltda, 1986. AMERICAN SOCIETY OF MECHANICAL ENGINEERS. ASME T14.5 Dimensioning and Tolerancing - Engineering Drawing and Related Documentation Practices, 2009. ANDRETTA, C. S.; AFONSO, R. S.; ALVES JR, V. Tolerâncias e ajustes (sistema ISO), 2020. ARCELOR BRASIL. PCO. Programa de Certificação Operacional CST - Metrologia Básica. Espírito Santo: CST, 2004. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6158 Sistema de tolerâncias e ajustes, 1995. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6409 Tolerâncias geométricas - Tolerâncias de forma, orientação, posição e batimento - Generalidades, símbolos, definições e indicações em desenho, 1997. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR NM 216 Paquímetros e paquímetros de profundidade – Características construtivas e requisitos metrológicos, 2000. BAKER, J. M. C. Dimensionamento Geométrico: Análise de Diferenças entre Medições de Perpendicularidade aplicando a Norma ISO 1101/2012 e ASME Y14.5- 2009 e suas Implicações. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2016. BATISTA, M. F. Estudo da rugosidade de superfícies plana usinadas por fresas de topo esférico. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006. CAMPILHO, A. Métodos de Medição e Instrumentação. Porto: FEUP Edições, 2020. COELHO, R. T.; SILVA, E. J. Metrologia e Inspeção Dimensional em Processos de Usinagem. São Paulo-SP: [s.n.]. COGORNO, G. R. Geometric, Dimensioning and Tolerancing for Mechanical Design. United States: McGraw-Hill, 2006. DEVERAS, A. M. Estudo da rugosidade superficial no torneamento do aço AISI 8640 com ferramentas alisadora e convencional. 48 f. 2016. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade Tecnológica Federal do Paraná. FANHA, M. C. A. Estudo de estratégias de medição para controle do dimensionamento geométrico e toleranciamento (GD&T) em peças estampadas. 131 f. 2011. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade Tecnológica Federal do Paraná. GAVENDA, A.; LAPOLLI, E.; BONETTI, I.; WITTACZIC, J. A.; SCHERER, J. F.; FONTANIVE, M. V.; MOTTA, R. Metrologia. Florianópolis: SENAI/SC, 2008. GONÇALVES JR, A. A.; SOUSA, A. R. Fundamentos Metrologia Científica e Industrial. 1a. ed. Barueri-SP: Manole, 2008. KRULIKOWSKI, A. Fundamentals of Geometric Dimensioning and Tolerancing. 2a. ed. Albany - NY: Delmar Staff, 1998. 156 REFERêNCIAS NADCA. Engineering & Design: Geometric Dimensioning. Product Specification Standards for Die Castings, 2009. PAULI, E. A.; ULIANA, F. S. Metrologia Básica - Mecânica. SENAI - ES, 1996. RODRIGUES, G. B. Controle Dimensional e Geométrico de Corpos de Prova Utilizados em Reparo por Atrito. p. 125, 2017. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade Tecnológica Federal do Paraná. ROZENBERG, I. M. O sistema internacional de unidades - SI. 3a. ed. São Paulo: Instituto Mauá de Tecnologia, 2006. SECCO, A. R.; VIEIRA, E.; GORDO, N. Mecânica: metrologia. São Paulo: Globo, 1996. SILVA NETO, J. C. Metrologia e Controle Dimensional. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. VINGE, J. J.; DUTRA, A. C.; MOSCATI, G. Resumo do Sistema Internacional de Unidades - SI. 8a. ed. BIPM/Inmetro, 2006. 157 ANEXO I Tabela 22. Coeficiente t Student para alguns valores de probabilidade. Graus de Liberdade Probabilidade 50% 60% 70% 80% 90% 95% 98% 99% 99,90% 1 1,00 1,38 1,96 3,08 6,31 12,71 31,82 63,66 636,60 2 0,82 1,06 1,39 1,89 2,92 4,30 6,97 9,93 31,60 3 0,77 0,98 1,25 1,64 2,35 3,18 4,54 5,84 12,92 4 0,74 0,94 1,19 1,53 2,13 2,78 3,75 4,60 8,61 5 0,73 0,92 1,16 1,48 2,02 2,57 3,37 4,03 6,87 6 0,72 0,91 1,13 1,44 1,94 2,45 3,14 3,71 5,96 7 0,71 0,90 1,12 1,42 1,90 2,37 3,00 3,50 5,41 8 0,71 0,89 1,11 1,40 1,86 2,31 2,90 3,36 5,04 9 0,70 0,88 1,10 1,38 1,83 2,26 2,82 3,25 4,78 10 0,70 0,88 1,09 1,37 1,81 2,23 2,76 3,17 4,59 11 0,70 0,88 1,09 1,36 1,80 2,20 2,72 3,11 4,44 12 0,70 0,87 1,08 1,36 1,78 2,18 2,68 3,06 4,32 13 0,69 0,87 1,08 1,35 1,77 2,16 2,65 3,01 4,22 14 0,69 0,87 1,08 1,35 1,76 2,15 2,62 2,98 4,14 15 0,69 0,87 1,07 1,34 1,75 2,13 2,60 2,95 4,07 16 0,69 0,87 1,07 1,34 1,75 2,12 2,58 2,92 4,02 17 0,69 0,86 1,07 1,33 1,74 2,11 2,57 2,90 3,97 18 0,69 0,86 1,07 1,33 1,73 2,10 2,55 2,88 3,92 19 0,69 0,86 1,07 1,33 1,73 2,09 2,54 2,86 3,88 20 0,69 0,86 1,06 1,33 1,73 2,09 2,53 2,85 3,85 21 0,69 0,86 1,06 1,32 1,72 2,08 2,52 2,83 3,82 22 0,69 0,86 1,06 1,32 1,72 2,07 2,51 2,82 3,79 23 0,69 0,86 1,06 1,32 1,71 2,07 2,50 2,81 3,77 24 0,69 0,86 1,06 1,32 1,71 2,06 2,49 2,80 3,75 25 0,68 0,86 1,06 1,32 1,71 2,06 2,49 2,79 3,73 26 0,68 0,86 1,06 1,32 1,71 2,06 2,48 2,78 3,71 27 0,68 0,86 1,06 1,31 1,70 2,05 2,47 2,77 3,69 28 0,68 0,86 1,06 1,31 1,70 2,05 2,47 2,76 3,67 29 0,68 0,85 1,06 1,31 1,70 2,05 2,46 2,76 3,66 30 0,68 0,85 1,06 1,31 1,70 2,04 2,46 2,75 3,65 40 0,68 0,85 1,05 1,30 1,68 2,02 2,42 2,70 3,55 50 0,68 0,85 1,05 1,30 1,68 2,01 2,40 2,68 3,50 60 0,68 0,85 1,05 1,30 1,67 2,00 2,39 2,66 3,46 158 ANEXO I Graus de Liberdade Probabilidade 80 0,68 0,85 1,04 1,29 1,66 1,99 2,37 2,64 3,42 100 0,68 0,85 1,04 1,29 1,66 1,98 2,36 2,63 3,39 120 0,68 0,85 1,04 1,29 1,66 1,98 2,36 2,62 3,37 ∞ 0,67 0,84 1,04 1,28 1,65 1,96 2,33 2,58 3,29 Fonte: adaptada de Silva Neto, 2012. _Hlk51579878 _Hlk51600307 _Hlk52051192 _Hlk52168724 Apresentação Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Introdução Unidade i Conceitos Fundamentais sobre Metrologia Capítulo 1 Conceitos relativos a monitorar, medir e controlar Capítulo 2 Principais instrumentos de medição Capítulo 3 Processo e resultados da medição Unidade ii Conceitos Fundamentais sobre Metrologia II Capítulo 1 Unidades de medidas e Sistema Internacional de Unidades (SI) Capítulo 2 Erros de medição Capítulo 3 Calibração de sistemas de medição Unidade iii Sistemas de Tolerância e Ajustes Capítulo 1 Fundamentos do GD&T e normas relacionadas Capítulo 2 Terminologia e simbologia, tolerância dimensional e cálculo das tolerâncias-padrão Capítulo 3 Sistemas de ajustes e tolerância e estudos de casos relacionados Unidade iv Tolerâncias Geométricas Capítulo 1 Método de medição de geometrias e tolerância de forma Capítulo 2 Tolerância de orientação, tolerância de posição e tolerância de batimento Capítulo 3 Simbologia associada e estudos de casos relacionados Unidade v Rugosidade das Superfícies Capítulo 1 Rugosidade média aritmética, rugosidade média e rugosidade máxima Capítulo 2 Medição de rugosidade Capítulo 3 Estudos de casos aplicados Referências Anexo Icomo real, quando medido por um instrumento mais exato (menor incerteza associada), até obtenção de um valor que se aproxime do padrão absoluto. No campo da fabricação, geralmente, são utilizados os blocos-padrões, conforme dimensão requerida, cujas medidas foram realizadas por instrumentos que têm rastreabilidade conhecida (relativa ao metro-padrão). » Todo instrumento tem uma Resolução característica, definida como a menor leitura que um instrumento de medição é capaz de fornecer, ou seja, é considerada sua menor divisão. Por exemplo, uma régua tem resolução de 1 mm, pois suas menores divisões estão a 1 mm de distância entre si. Monitorar Durante uma aplicação, a medição tem por finalidade monitorar, controlar e/ou investigar determinado processo ou fenômeno associado. O ato de monitorar pode ser caracterizado como observar passivamente o valor de uma grandeza. O interesse principal pode estar em registrar seu valor instantâneo ou acumulado, ou até mesmo em acompanhar sua evolução num determinado intervalo de tempo. A monitoração é muito utilizada pelo mercado comercial para atribuir valores aos produtos, conforme oscilações nas demandas, além disso pode ser utilizada para controle de estoques. Estes são alguns exemplos de aplicação da monitoração (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008): » indicação da quantidade de energia elétrica consumida em uma unidade residencial; 19 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I » medição da velocidade, quantidade de combustível consumido e temperatura do motor de um automóvel; » observação de parâmetros climáticos; » duração de uma chamada telefônica; » indicação do volume de água transferida por uma bomba etc. Controlar Conforme destaca Gonçalves Jr. e Sousa (2008), os sistemas de controle têm por finalidade manter uma ou mais grandezas ou processos dentro de limites pré-determinados. A ação de controlar é sempre de natureza ativa, ao contrário da monitoração, que é passiva. O mecanismo da operação de controle está ilustrado na Figura 5. Figura 5. Mecanismo de ação dos sistemas de controle. Processo Medir Comparar Agir Fonte: adaptada de Gonçalves Jr; Sousa, 2008. O mecanismo tem início a partir da realização da medição de uma ou mais grandezas relacionada ao processo objeto do sistema de controle. O valor medido é, então, comparado a um valor de referência. A partir dos resultados desta comparação, o sistema de controle pode definir ações a ser tomadas sobre a (s) grandeza (s) medida, para mantê-la (s) nos limites definidos. Para realizar o controle da temperatura no interior de um refrigerador, é necessária a formação de um sistema formado por um sensor de termperatura e um termostato, para que os valores mensurados de temperatura sejam comparados com os limites pré-definidos. Caso a temperatura exceda o valor máximo estabelecido, o motor do compressor é acionado para refrigeração do 20 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA ambiente até que a temperatura interna atinga o limite mínímo, para o motor ser desligado. O sistema de isolamento do equipamento é capaz de manter a temperatura abaixo do limite máximo por um período; com isso, o motor permanece desligado enquanto a temperatura interna interna do refrigerador estiver nos limites estabelecidos, voltando a funcionar apenas quando o valor de temperatura ultrapassar o limite máximo novamente. No âmbito do processo produtivo, o controle de qualidade envolve um conjunto de ações e procedimentos relacionados para garantir qualidade tanto aos processos quanto aos produtos derivados. A essência básica deste sistema contempla as tarefas de realizar medições de diversas grandezas ao longo da cadeia de produção e comparar os resultados obtidos a especificações técnicas pré definidas. A partir desta comparação, ações são tomadas a fim de regular o processo para garantir que os produtos apresentem as especificações dos limites estabelecidos (GONÇALVES JR; SOUSA, 2008). Investigar A investigação pela realização de experimentos caracteriza-se, ainda, como um precioso meio de obtenção de conhecimentos nas mais diversas áreas da ciência, bem como na fabricação. Os resultados decorrentes destas aplicações são capazes de revelar inúmeras descobertas científicas; para viabilizar tais descobertas, é necessário medir as grandezas relacionadas de forma confiável. É nesta etapa da investigação que os processos de medição são mais utilizados, uma vez que, a depender do objeto de estudo, pequenas variações nos valores medidos podem revelar a existência de novos fenômenos. Por isso, conforme afirmam Gonçalves e Sousa (2008), dispor de sistemas de medição capazes de indicar com grande segurança e precisão essas pequenas variações nas medições, além de pessoas devidamente capacitada para distinguir essas diferenças das margens de incertezas é um dos maiores desafios da ciência das medições: a metrologia. No campo científico, a investigação desempenha um papel de grande relevância, permitindo, por exemplo, a adequada compreensão de fenômenos naturais e seus respectivos efeitos. Além disso, os processos investigativos 21 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I estão fortemente presentes na área de desenvolvimento tecnológico, visto que, com a realização de experimentos, é possível, por exemplo, aumentar a eficiência de um determinado equipamento, desenvolver novas classes de materiais, desenvolver ou otimizar novos processos produtivos, entre outros. 22 CAPÍTULO 2 Principais instrumentos de medição A Metrologia é uma das funções fundamentais do processo de garantia da qualidade, que está diretamente associada à quantificação das características do processo e do produto, a qual, por sua vez, pode ser obtida por meio de: definição de unidades de medida padronizadas que permitam a conversão de concepções em grandezas quantificáveis e a utilização de instrumentos devidamente calibrados para determinação das dimensões relacionadas a tais grandezas. Em relação ao executor da operação de medir, é preciso conhecer e dominar a operação dos instrumentos a ser aplicados, adaptar-se às circunstâncias envolvidas no processo de medição, além de escolher o método mais eficiente para operação e interpretação dos resultados (SILVA NETO, 2012). Nesse sentido: A inspeção dimensional é parte de um processo mais amplo destinado ao controle de qualidade em processos de manufatura. Um produto final, máquina ou equipamento, por exemplo possui um atributo de qualidade intimamente conectado aos processos de fabricação pelos quais passaram seus componentes. Pode-se afirmar, de maneira geral, que se os processos de manufatura de um produto possuem boa qualidade, o produto final resultará em uma qualidade igualmente boa. Assim, mantendo-se a qualidade dos processos de manufatura, pode-se inferir que o produto final resultará proporcionalmente bom, segundo suas especificações de desempenho e satisfação do mercado. O controle da qualidade dos processos de manufatura, mais especificamente o controle dimensional é também diretamente proporcional ao custo final, pois inspeções dimensionais demandam tempo, máquinas e instrumentos de alto custo. Por isso, deve-se usar o controle dimensional com cautela e somente em condições realmente imprescindíveis, sobe pena de aumento significativo de custos (COELHO; SILVA, 2018). Para garantir a confiabilidade de um processo de medição, é necessário selecionar adequadamente os instrumentos ou dispositivos de medição, a partir do conhecimento acerca da grandeza que se pretende medir, além disso, é preciso entender os parâmetros repetibilidade, exatidão e resolução associados ao processo de medição e ao instrumento. 23 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Para realizar as diversas medições requeridas pelos diferentes processos de fabricação, principalmente a usinagem, existe um grande número de instrumentose dispositivos de medição devidamente padronizados e que podem ser adquiridos comercialmente (COELHO; SILVA, 2018). A seguir, serão apresentados os instrumentos mais utilizados atualmente nas mais diversas etapas dos diferentes processos de fabricação. Régua, metro articulado e trena Os instrumentos conhecidos como régua graduada (ou escala), metro articulado e a trena são extensivamente utilizados em trabalhos relacionados à traçagem e, provavelmente, são os dispositivos de medição mais conhecidos e de mais simples operação, entre os instrumentos de medida linear. A régua graduada apresenta-se, geralmente, em forma de lâmina cuja composição é de aço carbono ou de aço inoxidável. Nessa lâmina estão dispostas marcações indicando as medidas em milímetro (mm), divisão normalmente é contada de 0,5 mm em 0,5 mm ou de 1 mm em 1 mm, e em centímetro (cm), ambas derivadas do sistema métrico, ou ainda podem indicar marcações em polegadas (“) e respectivas frações, divisões de 1" 16 ” ou 1" 32 ”, conforme o sistema inglês. É muito comum a comercialização de réguas graduadas que apresentem a escala dupla, na qual um lado representa o sistema métrico e no outro lado apresente a medida equivalente do sistema inglês, conforme ilustra a Figura 6 (GAVENDA et al., 2008). Figura 6. Régua graduada com escala dupla. graduação face borda 36 mm 2 mm 114 mm 137 mm 𝟏𝟏" 𝟒𝟒 𝟏𝟏𝟏𝟏" 𝟑𝟑𝟑𝟑 𝟑𝟑𝟏𝟏"𝟑𝟑 𝟑𝟑𝟕𝟕"𝟖𝟖 𝟓𝟓 𝟕𝟕" 𝟏𝟏𝟏𝟏 Fonte: Gavenda et al., 2008. 24 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA As réguas têm vários comprimentos, sendo as medidas mais comuns de 152,4 mm (ou 6”), de 203,2 mm (ou 8”) e de 304,8 mm (ou 12”), mas também é comum a comercialização das réguas graduadas de 1.000 mm, 2.000 mm ou ainda com comprimentos maiores. Instrumentos como régua graduada, trena ou metro articulado devem ser utilizados em aplicações que não demandem muita exatidão, já que este processo de medição enfrenta dificuldades em manter uma referência estrita dos pontos a serem medidos. Ao medir uma grandeza linear com uma régua durante um processo produtivo, como, por exemplo, nas operações de corte de chapas, em que é recomendável deixar a amostra com dimensões um pouco superior às dimensões indicadas em projeto. Nesse caso, a quantidade de sobremetal (quantidade em excesso para etapa de acabamento) varia de acordo a máquina que vai realizar o corte da amostra (SILVA NETO, 2012). A Figura 7 mostra uma peça, na qual uma de suas dimensões é medida por uma régua graduada, conforme sistema métrico. A dimensão linear medida pelo instrumento é de 49 mm. Figura 7. Medição de uma peça com uma régua graduada. 49 mm PEÇA Fonte: adaptada de Silva Neto, 2012. É comum a aplicação da régua graduada em processos de medição nos quais o “erro admissível” seja superior à menor graduação (marcação) indicada pelo instrumento. Normalmente, essa graduação equivale a 0,5 mm ou 1" 32 . As réguas graduadas mais usadas em oficinas de fabricação são as de 152,4 mm (6”) e 304,8 mm (12”). Devido ao manuseio constante, estes instrumentos, para serem considerados de qualidade, devem apresentar um bom acabamento superficial, de preferência com faces polidas, além disso, devem ser fabricados a partir de aços tratados 25 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I termicamente. É necessário, também, que as marcações (traços) da escala sejam bem definidos, finos, uniformes e equidistantes, para facilitar a leitura (GAVENDA et al., 2008). Deve-se ter um cuidado maior durante o manuseio destes instrumentos, pois o empenamento de tais dispositivos, ou riscos e/ou entalhes na escala, pode inviabilizar a correta interpretação das leituras, tornando os resultados imprecisos. É recomendável realizar uma limpeza nestes instrumentos após o uso, além de aplicar uma leve camada de óleo, antes de guardá-los. A seguir, serão apresentados os principais tipos de réguas graduadas, comumente aplicadas nas mais diversas etapas do processo produtivo. Régua de encosto interno Este tipo de disposto é normalmente utilizado em medições de peças que apresentam faces internas para servir de referência durante a leitura (Figura 8). Figura 8. Régua graduada de encosto interno. Encosto Interno Fonte: adaptada de Gavenda et al., 2008. Régua com encosto A Figura 9 ilustra este tipo de régua, geralmente, empregada em medições de comprimento, nas quais a face externa torna-se o ponto de partida, além disso pode ser utilizada como encosto para o instrumento. Figura 9. Régua graduada com encosto. Fonte: Gavenda et al., 2008. 26 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA Régua sem encosto Durante a aplicação deste tipo de dispositivo, é necessário subtrair o valor indicado no ponto de referência do resultado, conforme exemplifica a Figura 10. A leitura indica 76 mm, porém, ao subtrair o valor indicado pelo ponto de referência, 10 mm, a dimensão medida é 66 mm. Figura 10. Régua graduada sem encosto. 10 mm 76 mm Dimensão = 76 – 10 = 66 mm Fonte: Gavenda et al., 2008. Régua de dois encostos As réguas de dois encostos apresentam duas escalas, sendo uma de referência interna e outra de referência externa, o que amplia o campo de aplicações destes dispositivos. A Figura 11 apresenta este instrumento e respectivos elementos. Figura 11. Régua de dois encostos. Encosto externo (graduação do lado oposto) Encosto Interno Graduação interna Fonte: Gavenda et al., 2008. Régua de profundidade As réguas graduadas de profundidade são aplicadas nas medições de canais ou rebaixos internos. A Figura 12 ilustra uma régua de profundidade numa aplicação. 27 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Figura 12. Régua graduada de profundidade em medição da profundidade de um rasgo. Fonte: Gavenda et al., 2008. Régua rígida com seção retangular As réguas rígidas com seção retangular, normalmente fabricada em aço carbono, são muito utilizadas para realizar medições de dimensões lineares, medições de deslocamento em máquinas-ferramentas, etapas de traçagem etc. A Figura 13 apresenta um exemplo deste tipo de régua. Figura 13. Régua rígida com seção retangular. Seção Retangular Fonte: adaptada de Gavenda et al., 2008. Metro Articulado O dispositivo de medição conhecido como metro articulado (Figura 14), geralmente, é fabricado a partir da madeira, alumínio ou fibra. Pode apresentar duas escalas, sendo uma conforme sistema métrico (em milímetros), divisão normalmente de 1 em 1 mm, e outra conforme sistema inglês (em polegadas fracionárias), com menor divisão de 1" 16 . A aplicação do metro articulado é normalmente indicada para medição em peças que não exigem maiores níveis de exatidão e/ou têm acabamento mais “grosseiro”. Este dispositivo é, em geral, comercializado com comprimento de 1.000 mm ou 2.000 mm. A Figura 14 mostra um metro articulado de alumínio (direita) e outro de madeira (esquerda) (SILVA NETO, 2012). 28 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA Figura 14. Metro articulado de alumínio (à direita) e de madeira (à esquerda). Fonte: Silva Neto, 2012. A obtenção de uma leitura a partir da utilização do metro articulado é relativamente simples, já que é necessário apenas coincidir o zero da escala do dispositivo, ou seja, a extremidade do instrumento, com uma das extremidades da peça que se deseja medir. O traço da escala que coincidir com a extremidade da peça indicará o valor da leitura. A Figura 15 apresenta exemplos da utilização do metro articulado para medição do comprimento da rosca, que mede 20 mm (ou 2 cm), além da medição do diâmetro do parafuso, conforme imagem é de 18 mm (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). Figura 15. Aplicação do metro articulado para medição do comprimento da rosca (à esquerda) e do diâmetro do parafuso (à direita). Fonte: Secco et al., 1996. Para garantir a conservação deste dispositivo de medição,é importante o manuseio adequado e com os devidos cuidados, principalmente durante a abertura; evitar que o instrumento sofra impactos como quedas, além de manter as articulações devidamente lubrificadas. 29 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Trena A trena é um dispositivo de medição constituído por uma fita de aço, tecido ou fibra, a qual apresenta escala graduada, ao longo de seu comprimento, em uma ou ambas as faces, com divisões conforme sistema métrico, em milímetros, e/ou inglês, em polegadas fracionárias. A fita é montada em um estojo, no qual aquela enrola e desenrola à medida que sua extremidade é distendida. Este mecanismo permite recolher a fita de modo manual ou automático, podendo ou não ser dotado de uma trava (SILVA NETO, 2012). As trenas, em geral, são produzidas com comprimento total de 3.000 mm, 5.000 mm, 8.000 mm, 10.000 mm, 20.000 mm, 30.000 mm, 50.000 mm, podendo ser fornecidas com comprimentos ainda maiores. Tais instrumentos são, geralmente, utilizadas em medições que não exigem elevado grau de exatidão, realizadas tanto em peças com pequenas dimensões quanto naquelas de grandes dimensões. Por não oferecer um elevado nível de exatidão à medição, durante o processo de leitura, recomenda-se mantê-la o mais reto possível na peça a ser medida e verificar qual divisão do instrumento que coincide com a extremidade da peça, indicando o valor da medida. A Figura 16 apresenta um exemplo de trena e o processo de medição com este instrumento. Figura 16. Trena de 8.000 mm (esquerda), o processo de medição do comprimento de um tubo (meio) e medição do perímetro de um cilindro (direita). Encosto de referência Fonte: adaptada de Silva Neto, 2012 e Secco et al., 1996. As fitas das trenas podem ser curvas ou planas; estas últimas são aplicadas para medição de perímetros em cilindros (Figura 16), aplicação dificultada quando curva. A fita das trenas conhecidas como “de bolso” (comprimentos menores) é fabricada em aço fosfatizado ou esmaltado e apresentam largura de 12,7 mm e comprimento total entre 2.000 mm e 5.000 mm. Na extremidade das fitas, as trenas apresentam uma pequena chapa metálica, dobrada em ângulo de 90º, chamada de encosto de referência (Figura 15) (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). 30 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA Atualmente, já existem trenas com tecnologia de mira a laser embutida, para realizar medições em comprimentos superiores a 50.000 mm. Para executar as medições utilizando esse tipo de trena, é necessário apontar o feixe de laser para um determinado ponto de referência e, na sequência, apontar para outro ponto. A leitura indicada no visor da trena é a distância entre os dois pontos nos quais o laser incidiu. Em alguns tipos de trena a laser, é necessário que tais pontos estejam perpendicularmente dispostos, para viabilizar a medição, como, por exemplo, na medição da distância entre duas paredes (SILVA NETO, 2012). Paquímetro A origem do nome paquímetro é grega, formada por paqui = espessura e metro = medida. É um instrumento composto por uma escala graduada, com encosto fixo, sobre a qual desliza um cursor, que se ajusta à escala e permite sua livre movimentação com um mínimo de folga associada ao mecanismo. Diferentemente das réguas utilizadas para medir faces, estes instrumentos são usados para medição de peças e podem ser utilizados para medir as dimensões lineares externas, internas e de profundidade de uma peça (GAVENDA et al., 2008). A norma NBR NM 216:2000 (Paquímetros e paquímetros de profundidade – Características construtivas e requisitos metrológicos), da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), define o paquímetro como um instrumento que realiza as medições sob o movimento de um cursor com medidor ou base de medição em relação à uma régua com escala com ou sem medidores fixos, na qual a leitura pode ser analógica ou digital. Este documento normativo determina os principais requisitos dimensionais, construtivos e de desempenho dos paquímetros, em várias faixas de medição (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2000)” Normalmente, o paquímetro é fabricado em aço inoxidável (coeficiente de dilatação linear α = 11,5 µm/m.K), com superfícies planas e polidas e suas graduações referem-se a medições realizadas à temperatura de, aproximadamente, 20ºC. A escala fixa é duplamente graduada, conforme sistema métrico e inglês, em milímetros e polegadas, respectivamente, podendo a polegada ser fracionária ou milesimal. O cursor, que se movimenta para obtenção da leitura, é dotado de uma escala auxiliar, conhecida como 31 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I nônio ou vernier, que se desloca sobre a escala fixa, permitindo a leitura do valor da dimensão medida, bem como permite indicar frações da menor divisão da graduação fixa. No mercado atual, existem diversos tipos de paquímetros, os quais se distinguem pela faixa de indicação da escala, pelo nônio (ou vernier), pelas dimensões e formas dos bicos, porém o mais utilizado é o chamado paquímetro universal. Geralmente, são construídos para uma faixa de indicação de 120 a 2.000 mm, e o comprimento dos bicos variam de 35 a 200 mm, respectivamente. A Figura 17 apresenta o paquímetro universal e os elementos que o compõem. Figura 17. Paquímetro universal e seus respectivos elementos construtivos. Medida Interna Garras ou faces Encosto Móvel Medida Externa Vernier (pol.) Fixador Cursor Escala (polegada) Medida de profundidade Haste de profundidade Escala (mm) Régua Impulsor Nônio ou Vernier Bico móvel Bico Fixo Fonte: Gavenda et al., 2008. Os paquímetros universais podem ser utilizados para realizar medições internas, externas, ressaltos e profundidade das mais diferentes geometrias. Durante o processo de medição devem ser observadas as várias técnicas para o correto manuseio e posicionamento do objeto da medição, aplicáveis tanto à peça quanto ao instrumento, visando minimizar os erros associados. A Figura 18 ilustra os diferentes exemplos de medições com o uso do paquímetro. 32 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA Figura 18. Paquímetro universal e aplicações em medições interna (A), de ressalto (B), externa (C) e de profundidade (D). A Interna B de ressalto C Externo D de profundidade Fonte: Gavenda et al., 2008. Para realizar a medição de uma peça circular ou cilíndrica, é necessário apoiá-la de forma que ambos os bicos permaneçam em contato com a peça para formar um apoio adequado e minimizando possíveis erros de leitura, conforme detalhe C da Figura 18, evitando-se apoiar somente nas pontas dos encostos para evitar o desgaste prematuro destes elementos. Já para medição de rebaixos, diâmetros e superfícies internas, deve-se utilizar as garras de medição interna do paquímetro universal, porque a distância entre as duas garras coincide com a abertura dos encostos (bicos) fixo e móvel do paquímetro; com isso, a leitura configura-se a partir dos valores que aparecerem nas escalas fixa e móvel, conforme detalhe A da Figura 18. No caso da medição de profundidade, utiliza-se a haste de profundidade para medir. No paquímetro, a abertura da haste de profundidade coincide com a distância entre a abertura dos bicos fixo e móvel do instrumento; assim, a leitura configura-se a partir dos valores que aparecerem nas escalas fixa e móvel do paquímetro, conforme detalhe D da Figura 18 (SILVA NETO, 2012). Princípio do Nônio (ou Vernier) A escala do cursor móvel do paquímetro é conhecida como Nônio, designação atribuída aos portugueses em homenagem ao inventor Pedro Nunes, a quem se atribui a sua invenção. Este cursor pode ser chamado também de Vernier, pois de acordo aos franceses, responsáveis por esta denominação, o inventor de tal 33 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I ferramenta trata-se do Pierre Vernier. A escala de tal elemento consiste na divisãodo valor N de uma escala graduada fixa por N-1, ou seja, pelo número de divisões de uma escala graduada móvel (Figura 19). Por consequência, o nônio tem uma divisão a mais que a unidade usada na escala fixa (PAULI e ULIANA, 1996). Figura 19. Escala do elemento nônio. 𝟗𝟗 𝒎𝒎𝒎𝒎 𝟏𝟏𝟏𝟏 = 𝟏𝟏, 𝟗𝟗 𝒎𝒎𝒎𝒎 ESCALA NÔNIO Fonte: adaptada de Pauli e Uliana, 1996. Considerando o comprimento total do nônio, pelo sistema métrico, igual a 9 mm (mais comum), conforme observado na Figura 19, logo a razão entre este comprimento do nônio pelo número de divisões dele (10 divisões), pode-se concluir que cada intervalo entre a divisões equivale a 0,9 mm, como demonstra o detalhe na Figura 19. Portanto, é possível observar uma diferença entre a primeira divisão do nônio e a primeira divisão da escala fixa; extrapolando tal observação, pode-se concluir que cada divisão do nônio é 0,1 mm menor que cada subdivisão da escala fixa (1/28” no sistema inglês de medição), em crescimento aritmético, conforme mostra a Figura 20. Esta diferença é a aproximação máxima fornecida pelo dispositivo de medição. Figura 20. Diferenças entre as divisões do nônio e da escala fixa. Nº de divisões do nônio Escala móvel Escala graduada móvel Escala graduada fixa Escala fixa Fonte: adaptada de Secco et al.,1996. 34 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA Estas diferenças entre a escala móvel (nônio) e fixa de um paquímetro determinam a resolução do instrumento, sendo esta a menor medida que o dispositivo de medição pode oferecer. Ou seja, ao dividir o valor da unidade da escala fixa pelo número de divisões do nônio obtêm-se a resolução como por exemplo considerando o menor valor da escala fixa igual a 1 mm (sistema métrico): » escala móvel (nônio) com 10 divisões: 1 0,1 10 mmResolução mm divisões = = ; » escala móvel (nônio) com 20 divisões: 1 0,05 20 mmResolução mm divisões = = ; » escala móvel (nônio) com 50 divisões: 1 0,02 50 mmResolução mm divisões = = . Este cálculo da resolução, também chamado de sensibilidade ou aproximação do instrumento, por meio da relação entre o menor valor da escala fixa e o número de divisões da escala móvel, é aplicável a qualquer dispositivo de medição que tenha o nônio, como, por exemplo paquímetros, micrômetros, goniômetros, entre outros. A seguir, serão apresentadas algumas variações de paquímetros utilizadas na manufatura. Paquímetro universal digital Este tipo de paquímetro é muito utilizado para realizar leituras rápidas e livres de erros de paralaxe. A Figura 21 apresenta um exemplo deste tipo de paquímetro. Figura 21. Paquímetro universal digital. Fonte: Gavenda et al., 2008. Paquímetro universal com relógio Este dispositivo de medição tem um relógio indicador acoplado, que facilita a leitura do valor medido, agilizando o processo assim como o digital. A Figura 22 apresenta um exemplo. 35 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Figura 22. Paquímetro universal com relógio. Fonte: Secco et al., 1996. Paquímetro com bico móvel Este instrumento é destinado a medições de peças cônicas ou com rebaixos de diâmetros diferentes, conforme ilustra a Figura 23. Figura 23. Paquímetro com bico móvel (basculante). Bico móvel Fonte: Secco et al., 1996. Paquímetro de bicos alongados Este paquímetro tem aplicação limitada, é geralmente utilizado para medições de partes internas. Um exemplo deste dispositivo é apresentado na Figura 24. Figura 24. Paquímetro de bicos alongados. Fonte: Gavenda et al., 2008. 36 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA Paquímetro de profundidade Este dispositivo é utilizado para medições de profundidade de rasgos, rebaixos, furos não vazados, entre outros. Podem ser encontrados com haste simples ou haste com gancho, conforme podem ser observados na Figura 25. Figura 25. Paquímetros de profundidade com haste simples (esquerda) e de haste com gancho. Haste simples Haste com gancho Fonte: Secco et al., 1996. Paquímetro duplo Este tipo de paquímetro possui dupla escala e é ideal para medições de elementos construtivos como dentes de engrenagens. A Figura 26 apresenta o instrumento e sua respectiva aplicação. Figura 26. Paquímetro duplo. Fonte: Secco et al., 1996 e Gavenda et al., 2008. Leitura do paquímetro no sistema métrico Para a correta aplicação de um instrumento como o paquímetro, é imprescindível saber como realizar a leitura e, assim, interpretar adequadamente os valores obtidas durante o processo de medição. 37 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Durante a medição, a leitura do valor na escala fixa do paquímetro, anterior ao zero do nônio, corresponde ao valor nominal em milímetros da medida. Após determinar este valor, deve-se contabilizar as divisões da escala móvel até o ponto em que uma destas divisões coincida com uma divisão da escala fixa. Depois deste processo, é necessário somar o valor obtido na escala fixa ao valor definido pela escala móvel (nônio), para assim determinar a leitura final. Para facilitar o entendimento deste processo de leitura no paquímetro, no sistema métrico, serão apresentados alguns exemplos (Figuras 27, 28 e 29): » Escala fixa em milímetros e nônio com 10 divisões Resolução (aproximação) = 1 0,1 10 mm mm divisões = Figura 27. Leitura em paquímetro com nônio de 10 divisões. Leitura: 59 mm → escala fixa +0,5 mm → escala móvel (traço coincidente: 5º) 59,5 mm → Leitura Final Leitura: 1 mm → escala fixa +0,3 mm → escala móvel (traço coincidente: 3º) 1,3 mm → Leitura Final Traço coincidente Fonte: Secco et al., 1996. » Escala fixa em milímetros e nônio com 20 divisões. Resolução (aproximação) = 1 0,05 20 mm mm divisões = Figura 28. Leitura em paquímetro com nônio de 20 divisões. Leitura: 73 mm → escala fixa +0,65 mm → escala móvel 73,65 mm → Leitura Final Leitura: 17 mm → escala fixa +0,45 mm → escala móvel 17,45 mm → Leitura Final Traço coincidente Fonte: Secco et al., 1996. 38 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA » Escala fixa em milímetros e nônio com 50 divisões. Resolução (aproximação) = 1 0,02 50 mm mm divisões = Figura 29. Leitura em paquímetro com nônio de 50 divisões. Leitura: 68 mm → escala fixa +0,32 mm → escala móvel 68,32 mm → Leitura Final Leitura: 17 mm → escala fixa +0,56 mm → escala móvel 17,56 mm → Leitura Final Fonte: Secco et al., 1996. Leitura do paquímetro no sistema inglês de medição O procedimento de leitura do paquímetro que adota o sistema inglês como padrão segue as mesmas etapas adotadas no sistema métrico. Porém, neste sistema, cada polegada da escala fixa divide-se em 40 partes iguais, ou seja, cada divisão mede 1”/40 = 0.025”, quando a escala é apresentada em polegada milesimal. Como o nônio tem 25 divisões, a resolução desse instrumento é: 0.025" 0.001" 25 Resolução = = Com isso, cada divisão no nônio equivale a 0.001”. A Figura 30 apresenta alguns exemplos de leitura utilizando uma escala no sistema inglês, com polegada milesimal. Figura 30. Leitura em paquímetro com escala em polegada milesimal. Leitura: 0.050” → escala fixa +0.014” → escala móvel 0.064” → Leitura Final Leitura: 1.700” → escala fixa +0.021” → escala móvel 1.721” → Leitura Final Fonte: Secco et al., 1996. 39 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Já quando a escala é apresentada em polegadas e frações de polegadas, a menor divisão da escala fixa é 1" . 16 Como o nônio tem 8 divisões, a resolução desse instrumento passa a ser: 1" 1 1 1"16 8 16 8 128 Resolução x= = = Com isso, cada divisão no nônio equivale a 1” 128 , crescente em progressão aritmética (Figura 31). A Figura 32 apresenta alguns exemplos de leitura utilizando uma escala no sistema inglês, com polegada e fração de polegada. Figura 31. Representação das divisões no nônio em frações depolegadas. Fonte: Secco et al., 1996. Figura 32. Leitura em paquímetro com escala em polegada e fração de polegada. Leitura: 3”1 16 → escala fixa + 5” 128 → escala móvel 3 5 24 5 291 1 1 16 128 128 128 128 + = + = ” ” ” ” ” → Leitura Final Leitura: 1” 16 → escala fixa + 3” 64 → escala móvel 1 3 4 3 7 16 64 64 64 64 + = + = ” ” ” ” ” → Leitura Final Fonte: Secco et al., 1996. Para facilitar a leitura e correta interpretação desse tipo de processo de medição, utilizando o paquímetro com escala em polegada e fração de polegada, Secco et al. (1996) recomenda seguir as seguintes etapas: 40 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA 1ª Etapa: Verificar se o zero da escala móvel (nônio) coincide com um dos traços da escala fixa. Caso coincida, realizar a leitura apenas da escala fixa e este será o valor final da medida. Exemplo indicado na Figura 33. Figura 33. Leitura na qual o zero da escala fixa e móvel coincidem. Leitura final = 4" 1"7 7 16 4 = Fonte: Secco et al., 1996. 2ª Etapa: Caso o zero do nônio não coincida com as divisões da escala fixa, é necessário verificar qual das divisões do nônio coincide, e, assim, realizar a leitura do nônio, com valores indicados na Figura 34. Figura 34. Detalhamento da escala móvel (nônio). Leitura do Nônio →→ Fonte: Secco et al., 1996. 3ª Etapa: Verificar na escala fixa quantas divisões existem antes do zero do nônio. 4ª Etapa: Sabendo que cada divisão da escala fixa corresponde ao valor de 1" 2" 4" 8" 16 32 64 128 = = = (múltiplos da fração que representa o menor da escala fixa, 1" 16 ). Com base no valor indicado no nônio, é necessário escolher uma fração da escala fixa de mesmo denominador (múltiplo de 1" 16 ). Por exemplo: » Leitura do nônio 3" 64 fração a ser escolhida da escala fixa 4" 64 ; » Leitura do nônio 7" 128 fração a ser escolhida da escala fixa 8" 128 . 41 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I 5ª Etapa: Multiplicar o número de divisões da escala fixa, obtido na 3ª etapa, pelo numerador da fração escolhida na 4ª etapa. Em seguida, somar este valor com a fração do nônio verificada na 2ª etapa, para, assim, obter o valor da leitura final. A Figura 35 apresenta um exemplo aplicando o procedimento descrito acima. Figura 35. Procedimento para leitura em paquímetro com escala em polegada e fração de polegada. Como o zero do nônio não coincide com as divisões da escala fixa, portanto a 1ª etapa não é aplicável; 2ª Etapa (escala nônio): 3" 64 3ª Etapa: 1 divisão 4ª Etapa: 3" 64 → fração escolhida 4" 64 5ª Etapa: 4" 3" 7"1 64 64 64 x + = Leitura final = 7" 64 Fonte: Secco et al., 1996. Possíveis erros associados e cuidados necessários ao manuseio do paquímetro As leituras efetuadas com um mesmo instrumento podem variar, ainda que realizada pelo mesmo operador, podendo ocorrer em qualquer operação de medição. Tal fato deve-se a erros aleatórios causados por diversos fatores, muitos deles incontroláveis. A alternância estre os operadores pode contribuir para o aumento desses erros, devido a outros fatores. A intensidade de pressão que o operador exerce na parte móvel durante a leitura e o erro de paralaxe são as variações mais comum quando se alteram 42 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA os operadores durante a realização de medições com paquímetros, podendo contribuir para aumentar o nível de incerteza associado ao processo de medição. Para um mesmo operador tais variáveis podem ser mais bem controladas e recomenda-se, sempre que possível, analisar os procedimentos adotados por cada operador em relação à pressão exercida e ao alinhamento de leitura, verificando se estão de acordo aos padrões considerados aceitáveis. Além disso, a posição de medição influencia significativamente a leitura obtida a partir do uso do paquímetro (COELHO; SILVA, 2018). Por isso, torna-se imprescindível o entendimento a respeito dos possíveis fatores que possam contribuir para elevar o nível de incertezas associados ao processo de medição utilizando o paquímetro, já que, a depender do nível de exatidão exigido, a aplicação de determinado instrumento pode-se tornar inviável. Erros de leitura Conforme o ângulo de visão do operador varia durante a leitura, torna-se possível ocorrer o erro por paralaxe, pois, de acordo a esse ângulo, pode haver a coincidência entre uma divisão da escala fixa com outra da escala móvel, podendo resultar em um valor diferente da dimensão real. O cursor no qual são gravadas as divisões do nônio, por razões técnicas de construção, normalmente têm uma espessura mínima (a – indicada na Figura 36), e, por princípio de funcionamento do paquímetro, é posicionado sobre a escala fixa do instrumento. Assim, as divisões do nônio (TN – indicada na Figura 36) estão dispostas num plano mais elevado que o plano em que se encontram as divisões da escala fixa (TM – indicada na Figura 36). Ao dispor o instrumento em uma posição não perpendicular à linha de visão do operador, estando sobrepostos as divisões TN (nônio) e TM (escala fixa), cada um dos olhos projeta a divisão TN em posição diferente, o que acarreta um erro à leitura (Figura 36) (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). 43 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Figura 36. Detalhe do posicionamento entre as escalas fixa e móvel (nônio) do paquímetro. Devido a posição inclinada, o observador poderá achar que a medida correta é 0,60 mm. Observando frontalmente, que a leitura correta é 0,45 mm. TN TM a Fonte: Secco et al., 1996. Para evitar cometer o erro de paralaxe, recomenda-se que a leitura seja realizada posicionando o paquímetro em uma posição perpendicular aos olhos. Outro erro que pode ser associado à execução da medição com o paquímetro é devido à pressão de medição, originada durante a movimentação do cursor controlado por uma mola, podendo ocasionar uma inclinação do cursor em relação à régua (escala fixa), o que pode influenciar significativamente a leitura. A Figura 37 indica o modo correto de manuseio do paquímetro para realização da medição. Figura 37. Pressão de medição. errado certo Fonte: adaptada de Secco et al., 1996. Para facilitar o deslocamento da escala móvel sobre a escala fixa, o cursor deve estar adequadamente regulado, buscando um equilíbrio na fixação entre elas. Portanto, antes de iniciar a medição, o operador deve regular a mola, adaptando o instrumento à sua mão. Caso identifique uma folga irregular, deve-se, então, 44 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA ajustar os parafusos de regulagem da mola (Figura 38). Após realizar o ajuste recomendado, o deslocamento do cursor deve ser suave e sem folga atípica (SECCO, VIEIRA; GORDO, 1996). Figura 38. Parafusos de regulagem do paquímetro para redução de folgas. Parafusos de regulagem Fonte: adaptada de Secco et al., 1996. Cuidados para utilização do paquímetro Para a correta utilização do instrumento como o paquímetro, certos cuidados são necessários para minimizar os erros na leitura e para a devida conservação deste dispositivo de medição, tais como: » manter os elementos de contato (bicos, garras, haste etc.) sempre limpos; » posicionar corretamente as peças entre os bicos; » evitar choques, principalmente nas peças móveis, tendo o cuidado de abrir o paquímetro com uma distância maior que a dimensão a ser medida; » conservar os elementos móveis; para isso, recomenda-se, ao realizar a medição, que, primeiramente, o centro do encosto (bico) fixo entre em contato com a extremidade da peça, e, então, o encosto móvel seja deslocado suavemente até entrar em contato com a outra extremidade da peça, evitando o choque; » posicionar as peças para que a área de contato seja a maior possível de forma que as superfícies de medição estejam devidamente apoiadas, para aumentar a exatidão da leitura e evitaro desgaste dos bicos; 45 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I » nas medições internas, as garras precisam ser posicionadas o mais profundamente possível, garantindo que o paquímetro esteja sempre paralelo à peça que está sendo medida; » para realização das medições de profundidade, é necessário apoiar o instrumento corretamente sobre a peça, evitando que ele fique inclinado; » manusear o paquímetro sempre com todo cuidado, evitando impactos; » evitar que o instrumento entre em contato com outras ferramentas, o que pode lhe causar danos; » evitar arranhões ou entalhes, pois isso prejudica a devida leitura da graduação; » evitar pressão excessiva sobre o cursor; » limpar e guardar o paquímetro em local apropriado, após sua utilização. Micrômetro O francês Jean Louis Palmer foi responsável pela invenção, em 1848, de um instrumento que permitia realizar medições com maior exatidão quando comparadas às realizada com o paquímetro. A partir da utilização deste “novo” instrumento, podia ser feita a medição de pequenas dimensões, da ordem de centésimos de milímetro ou menos, por meio do aperfeiçoamento da técnica. Tal instrumento recebeu o nome de micrômetro. Entretanto, na França, ele é mais conhecido como Palmer, em homenagem ao seu inventor (SILVA NETO, 2012). O micrômetro é um instrumento utilizado para medição de comprimento. Por apresentar precisão maior que o paquímetro, permite medir, por leitura direta, dimensões até um mícron (0,001 mm); daí a origem do nome deste instrumento. O funcionamento deste dispositivo de medição baseia-se no deslocamento gradual de um parafuso micrométrico, no sentido longitudinal (GAVENDA et al., 2008). Os materiais empregados para manufatura do principal elemento construtivo micrômetro, o parafuso micrométrico, são as liga de aço, geralmente os aços inoxidáveis, já que este confere ao parafuso maior resistência a oxidação, porém a dureza associada a tais aços é menor quando comparada a um fuso de aço 46 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA carbono. Por isso, os parafusos micrométricos são submetidos a tratamentos como retificação e têmpera, para conferir dureza de aproximadamente 63 HRC, visando aumentar a durabilidade dos mesmos (GAVENDA et al., 2008). A Figura 39 as principais partes do micrômetro. Figura 39. Micrômetro e respectivos elementos construtivos. Contatores Parafuso micrométrico Luva interna Luva externa Porca de ajuste Catraca ou Controle de pressão Tambor Fixador Protetor antitérmico Arco 0 - 25 Fonte: Pauli e Uliana, 1996. Detalhando os principais componentes do micrômetro: » o arco é constituído de aço especial ou tratado termicamente para eliminar as possíveis tensões residuais internas, além de ser munido de protetor antitérmico, para evitar a dilatação pelo calor no contato com as mãos; » o parafuso micrométrico é fabricado em aço especial temperado e retificado, a fim de garantir maior exatidão ao passo da rosca; » os contatores são as faces de medição, ou seja, a região que entra em contato com a peça a ser medida e, por isso, apresentam-se rigorosamente planos e paralelos. Em alguns micrômetros, os contatores são constituídos de metal duro, de alta resistência ao desgaste; » a porca de ajuste permite, quando necessário, o ajuste da folga do parafuso micrométrico; » o tambor é o componente onde se encontra a escala centesimal, que permite a complementação das medidas. Realiza o movimento rotativo 47 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I ligado ao parafuso micrométrico, com isso, a cada volta realizada, equivale ao passo do parafuso micrométrico; » a catraca ou controle de pressão assegura a aplicação de uma pressão de medição constante; » a luva externa, ou bainha, é a região em que se encontram as divisões da escala, conforme capacidade de medição do instrumento; » a trava permite fixar o parafuso numa medida específica. A norma NBR NM ISO 3611:1997 (Micrômetro para medições externas), da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), descreve as características dimensionais, funcionais e qualitativas dos micrômetros para realização de medições externas (SILVA NETO, 2012). O princípio de funcionamento do micrômetro é caracterizado pelo avanço gradual do parafuso micrométrico; que, por sua vez, é fixado ao tambor por meio de uma rosca de passo específico, que gira em uma porca. Como consequência, uma volta completa do tambor provoca o deslocamento da face do parafuso em um movimento longitudinal de comprimento igual ao passo da rosca. Portanto, sendo o passo da rosca conhecido e dividindo-se o tambor em um determinado número de partes iguais, é possível medir qualquer deslocamento da face do parafuso micrométrico, por menor que apresente. Conforme descreve Silva Neto (2012), o tambor se move por meio de uma porca que é ligada a um componente conhecido como bainha. Quando ocorre a movimentação do tambor, a graduação gravada em sua superfície circular desloca-se em torno da bainha. Em paralelo, de acordo ao sentido do movimento aplicado, a face do parafuso se aproxima ou se afasta da face do contator fixo. As roscas do parafuso micrométrico e de sua respectiva porca precisam ser de grande precisão. Na bainha, as divisões são em milímetros e no tambor a graduação circular tem 50 divisões. Quando as faces dos contatores estão juntas, a borda do tambor coincide com a divisão correspondente ao zero da graduação da bainha, assim como o eixo da escala longitudinal gravada na bainha coincide com o zero da graduação do tambor. Considerando o passo do parafuso de 0,5 mm, uma volta completa 48 UNIDADE I | CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA do tambor deslocará sua extremidade para coincidir com a primeira divisão, indicando 0,5 mm na escala. Duas voltas posicionará a extremidade do tambor à divisão correspondente à 1 mm, e assim sucessivamente. Portanto, o deslocamento de apenas uma divisão da graduação do tambor resulta, neste caso, em uma resolução de: ( )1 1 1 0,01 50 2 100 x passodo fuso mm divisões = = . Esse valor é a menor diferença entre as indicações de um dispositivo mostrador que pode ser medida. As resoluções dos micrômetros geralmente são de 0,01 mm; 0,005 mm ou 0,001 mm, conforme a medida do passo do parafuso e o número de divisões no tambor (SILVA NETO, 2012). Quanto à capacidade de medição, os micrômetros podem ser comercializados com faixas para leitura de 0 a 25 mm, 25 a 50 mm, 50 a 75 mm e assim sucessivamente, podendo chegar à capacidade de medir dimensões superiores a 2.000 mm. Podem ser definidos também de acordo a capacidade em polegada milesimal: 0 a 1,000”, 1,000” a 1,250” e assim sucessivamente. Conforme aplicação deste tipo de instrumento, existem diferentes tipos para atender a tais demandas; alguns deles serão apresentados a seguir. » Micrômetro digital: tem visor digital que indica a leitura em milímetros e centésimos ou milésimos de milímetros (Figura 40). Figura 40. Micrômetro digital. Fonte: Gavenda et al., 2008. » Micrômetros internos: são destinados para realizar medições em superfícies cilíndricas internas. Existem dois tipos principais, os micrômetros interno de três contatos e de dois contatos (Figura 41). São baseados no deslocamento de parafuso micrométrico (passo de 0,5 mm), que a cada volta avança o valor do passo longitudinalmente. Entretanto, o avanço do fuso resulta na expansão das pontas de medição, que se encontram apoiadas em um cone. 49 CONCEITOS FUNDAMENTAIS SOBRE METROLOGIA | UNIDADE I Figura 41. Micrômetro interno de dois contato. Contator Encaixe das hastes Contator Cilindro graduado Tambor Cabo curto Fonte: Pauli e Uliana, 1996. » Micrômetro externo com batentes (hastes) intercambiáveis: aplicável para medições de diferentes dimensões, utilizando as diferentes hastes para ajustar-se à demanda, conforme ilustra a Figura 42. Figura 42. Micrômetro externo