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História Moderna Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Dr. Edgar da Silva Gomes Revisão Textual: Prof. Ms. Claudio Brites 5 • Introdução • A consciência da mudança • Os humanistas • Renascimento: mudança ou continuidade? • O berço do renascimento • O Renascimento e seus mecenas Procure ler, com atenção, o conteúdo disponibilizado, lembre-se que ele é a base para as questões e avaliações. Para saber mais sobre o assunto leia o material complementar. Não esqueça: a leitura é um momento oportuno para registrar suas dúvidas, por isso não deixe de registrá-las e transmiti-las ao professor-tutor. Para que a sua aprendizagem ocorra em um ambiente mais interativo possível, na pasta de atividades, você também encontrará a atividade de sistematização, o fórum de discussão. Nesta unidade, trataremos do Renascimento. É um tema bastante complexo da história da Idade Moderna e vai auxiliá-lo na compreensão do desenvolvimento de algumas interpretações sobre esse período. Por ser um tema complexo, que apresenta contribuições de diversas escolas teóricas, é necessário que você esteja ciente de que vários pesquisadores abordaram o assunto e nem sempre concordaram entre si. Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade • O legado da pintura e da escultura renascentista • Erudição e literatura renascentista • Nicolau: o maior filósofo político renascentista • Arquitetura e Escultura renascentista • Declínio da Renascença Italiana no Século XVI 6 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade Contextualização O Renascimento foi um momento marcante para a arte, a literatura e o pensamento político da humanidade. Neste espaço de contextualização, achamos importante inseri-lo numa reflexão crítica à unidade apresentada. Para isso, estamos deixando alguns filmes e documentários. Não faremos juízo de valor sobre esse material para não influenciá-lo. Esperamos que, com o conjunto de informações adquiridas, você possa observar seu cotidiano e perceber onde se encaixa a influência da arte, da literatura e a influência do pensamento político desse período. Explore Viagem na Itália Renascentista 1 • http://www.youtube.com/watch?v=XO0C5Q5Up8g Viagem na Itália Renascentista 2 • http://www.youtube.com/watch?v=Lza552HllN8 Viagem na Itália Renascentista 3 • http://www.youtube.com/watch?v=Vr2_sxqUGAM O Príncipe (Nicolau Maquiavel) • http://www.youtube.com/watch?v=l0-eUiUOoJc A Vida de Leonardo da Vinci - Parte 1/2 • http://www.youtube.com/watch?v=gk1XeiyhXXI A Vida de Leonardo da Vinci - Parte 2/2 • http://www.youtube.com/watch?v=b-jpRG4YMWU Arte Medieval e Renascentista - Parte 1 • http://www.youtube.com/watch?v=X-az2ijSqAg Arte Medieval e Renascentista - Parte 2 • http://www.youtube.com/watch?v=Tgczi_lw90A Renascimento cultural • http://www.youtube.com/watch?v=lbBhAwarP20 O Renascimento - A Era dos Médici • http://www.youtube.com/watch?v=536jg55cB30 7 Introdução A título de breve introdução aos estudos sobre o Renascimento, pretendemos deixar claro que o recorte para esta análise será de cunho intelectual, cultural e moral – apresentaremos o que emerge com os pensadores humanistas em contraposição aos pensadores escolásticos medievais. Esta posição se dá por haver dúvidas se existiu ou não alguma política ou economia que caracterizou esse período que, a grosso modo, situa-se entre a segunda metade do século XIV e o final do século XVI. O Renascimento teve como berço a península itálica com suas grandes e ricas cidades, celeiro de famílias abastadas, ávidas por perpetuar suas memórias através da arte e da literatura. Foi também um período com um Papa lembrado mais pelo desempenho político do que religioso, e um dos maiores mecenas da época. Portanto, quando falarmos do Renascimento, estaremos nos referindo a uma etapa da história cultural e intelectual europeia. A Renascença, de súbito, nos parece que foi um movimento cultural e intelectual que surgiu de um círculo acadêmico capaz de revolucionar, da noite para o dia, a literatura e as artes. Mas, como em outros eventos históricos de grande porte, a Renascença, ou Renascimento, foi um processo histórico gradual. Os renascentistas foram surgindo no século XIV e apresentavam como característica a busca pela cultura clássica antiga, suas referências são os literatos e artistas latinos e gregos. Porém, o interesse e o amor pelas obras gregas e romanas também pulsaram nas veias dos intelectuais medievais, Virgílio e Aristóteles foram as bases do pensamento de Dante e de Tomás de Aquino. Monumentos artísticos, tratados sobre arquitetura e escultura foram localizados e estudados por um número de europeus que crescia exponencialmente, eram interessados pelo estudo da língua grega e foram se familiarizando com as grandes realizações da Antiguidade clássica. A consequência disso foi o aperfeiçoamento das técnicas de construção e elaboração das obras artísticas e literárias na Idade Moderna. O homem renascentista estava vivendo em uma sociedade urbana em crescimento contínuo, o que o levou a experimentar novas ideais e técnicas para realização de sua arte, tendo como base a contribuição dos autores clássicos. Esse crescimento cultural ajudou os renascentistas a criarem uma cultura mais secular e, consequentemente, mais desligada do poder da Igreja. A Renascença já foi tida como uma cultura totalmente pagã, o que é refutado por estudos atuais, pois muitos dos artistas renascentistas salientavam convicções cristãs em suas obras.1 Por outro lado, a Igreja também se adaptava às mudanças, tornando-se mais polida e participando ativamente desse renascimento cultural e intelectual com a aquisição e patrocínio de obras e artistas. 1 BURNS, Edward M.; LERNER, Robert E.; MEACHAM, Standish. História da civilização ocidental. 42. ed. São Paulo: Globo, 2003. p. 343-344. Para definir o termo renascimento nunca houve uma resposta fechada. Existem diversas características para se descrever o que foi a Renascença. Um aspecto nítido desse período foi a busca pela erudição através de referenciais clássicos da Antiguidade. A cultura renascentista foi se desenvolvendo gradualmente. Os autores latinos da antiguidade nunca foram desprezados na Idade Média – Virgílio, Ovídeo e Cícero estiveram presentes nas obras desse período. Na Idade Moderna, outros autores foram redescobertos e valorizados, tais como: Tito Lívio, Tácito e Lucrécio. Outra importante redescoberta dos renascentistas foram as obras literárias de filósofos gregos como Platão – um ilustre desconhecido dos latinos medievais. 8 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade Segundo Silva, o Humanismo, “dependendo do historiador que o defina, foi uma filosofia ou uma reforma acadêmica, que consolidou novas ideias acerca do homem e do conhecimento”. Os humanistas, apesar de serem um grupo heterogêneo e seguirem diferentes referenciais teóricos2, tinham grande preocupação com a erudição, isto os levou ao desenvolvimento de certo cuidado tanto com a crítica histórica e com a linguística de documentos quanto com a expansão da educação, pois, para eles, o pensamento crítico deveria ser alcançado pela instrução.3 O termo Humanismo sintetiza os ideais dos pensadores renascentistas e apresenta dois significados distintos, embora complementares: o sentido mais técnico se refere a um programa de estudos que visava substituir a ênfase escolástica medieval, presa à lógica e à metafisica, pelo estudo da linguagem, da história, da literatura e da ética. Os humanistas, em sentido mais estrito, buscavam sua inspiração na literatura antiga, onde a regra era o estudo do latim clássico e do grego. Para os humanistas, a lógica escolástica era demasiadamente árida e irrelevante para a vida prática, preferindo as “humanidades”, que tinham o propósito de tornar as pessoas mais virtuosas e preparadas para desempenharem bemas funções públicas do estado. De forma mais ampla, o termo Humanismo coloca seu acento na dignidade do homem, considerando-o o mais excelso das criaturas de Deus, abaixo apenas dos anjos. O homem é capaz, segundo alguns autores da Renascença, de chegar ao conhecimento de Deus. Outros autores acreditavam ainda que o homem pudesse dominar o seu destino e viver com felicidade neste mundo. Mas, tanto um grupo quanto o outro, eram otimistas em relação à raça humana, apesar de, como de hábito, relegarem a mulher a um segundo plano. Mesmo assim, algumas mulheres da aristocracia recebiam a educação humanista para se tornarem mais polidas.4 O homem da transição feudal-capitalista alavancou uma das maiores revoluções culturais conhecidas pela humanidade, “os movimentos renascentista e reformista representam importantes respostas a uma tentativa de compreender o homem e, em última instância, o próprio universo à época da crise geral do feudalismo europeu”5. As ciências sociais não veem mais a Renascença como uma ruptura abrupta entre a Idade Média e a Idade Moderna, mas sim como o resultado de um lento processo de transformações, com suas raízes fincadas no período anterior.6 2 O Humanismo é um método de aprendizado filosófico que utilizou vários conceitos filosóficos da época, como, por exemplo, neoplatonismo, hedonismo, antropocentrismo, racionalismo, otimismo e individualismo. O Humanismo é um método de aprendizado que fez uso da razão individual e da evidência empírica para chegar as suas conclusões. 3 SILVA, Kalina V.; SILVA, Maciel H. Dicionário de conceitos históricos. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2008. p. 196. 4 BURNS, Edward M.; LERNER, Robert E.; MEACHAM, Standish. História da civilização ocidental. 42. ed. São Paulo: Globo, 2003. 5 O Renascimento, in, História Moderna através dos textos, p. 92. 6 Entre outros autores podemos citar: J. Delumeau; J. Burckhardt. Os humanistas [...] o Humanismo valorizava o humano, contrariando a postura teocêntrica da filosofia medieval, mas, ao mesmo tempo, possuía fortes preocupações religiosas [...]. O contexto humanista, apesar de seu antropocentrismo, foi intensamente influenciado pelo cristianismo e pelos dilemas da igreja no início da Idade Moderna (SILVA; SILVA, 2008, p. 193). 9 O Humanismo alicerçou as bases que definiu e afirmou o novo papel do homem na sociedade. Ele e a Renascença proporcionaram à Europa a renovação necessária para a entrada em uma nova fase de sua existência: a Idade Moderna. Durante os séculos XIV e XV, houve uma renovação cultural sob o signo do retorno aos clássicos gregos e latinos. Escritos ético-políticos, hoje consagrados como clássicos da literatura, proliferaram nas cidades-estados italianas, criações de escritores, filósofos, poetas, estadistas e diplomatas como: Francesco Petrarca, Giannozzo Manetti, Lorenzo Valla, Marsilio Ficino, Giovanni Pico della Mirandola, entre outros. Esses intelectuais foram posteriormente chamados de humanistas. O Humanismo refere-se genericamente a uma série de valores e ideais relacionados com a celebração do ser humano enquanto centro da criação. Como dito, esse movimento intelectual iniciado na Itália e depois difundido por boa parte da Europa rompeu com a influência da Igreja e do pensamento religioso da Idade Média. Enquanto base intelectual, o Humanismo procurou afirmar o novo papel do homem no universo: o antropocentrismo. O Humanismo forneceu os fundamentos ideológicos do Renascimento e da reforma ao romper com o paradigma teocêntrico ditado pelo modelo de mundo judaico-cristão. A ideia que os italianos tinham da divindade perdeu sua consistência, a religião e sua moral estavam enfraquecidas, suas incertezas buscaram apoio nas superstições da antiguidade, do Oriente, como a astrologia e a magia.7 Mas o homem moderno não se despiu de suas crenças, apenas não se deixou governar por elas e pelas pessoas que institucionalizavam o sagrado – a religião e sua influência na sociedade não deixaram de ser preocupação dos humanistas. O Humanismo, por ser um movimento de elite, não teve penetração consistente na sociedade pobre e camponesa de seu tempo. Segundo Heller, o Humanismo é uma corrente de pensamento ético e acadêmico do Renascimento, portanto, a religiosidade e os temores às leis de Deus impostos pela religião não se dissiparam como pretendia a elite em sua disputa de poder com o papado e sua corte.8 Atenção Na história da humanidade, os movimentos intelectuais que revolucionaram costumes, em geral, foram sendo assimilados de forma mais lenta pelas massas do que pelas elites – o Humanismo é um desses exemplos. 7 O Renascimento, in, História Moderna através dos textos, p. 93-94. 8 HELLER, Agnes. O homem do Renascimento. Lisboa: Presença, 1982. Fonte: O homem vitruviano, 1490, Leonardo da Vinci. Antropocentrismo: Filosofia que considera o homem como o centro do universo. O final da Idade Média marcou a separação da Teologia da Filosofia. O Humanismo renascentista propôs o antropocentrismo em contraposição à posição dominante da Idade Média. O antropocentrismo sugere a ideia de que o homem deve ser o centro das ações, da expressão cultural, histórica e filosófica, ao contrário do teocentrismo, onde prevalece a ideia de que Deus deve estar no centro do pensamento e das ações humanas. (CARVALHO, 2011). 10 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade Esse “novo homem” idealizado no Renascimento passou a ser protagonista de sua história, o antropocentrismo suplantou o mundo teocêntrico na literatura e nas artes, antes dominadas pela igreja, pelos reis, e pelos senhores feudais. As hierarquias “espiritual” e “temporal” passaram a ser questionadas e surgiu, desse questionamento, uma nova visão de mundo, na qual o ideário humanista dominava a produção artística e cultural – ironicamente tendo como mecenas os atores que estavam de certa forma sendo questionados. Fo nt e: A C ria çã o de A dã o, 1 51 1, M ic he la ng el o B uo na ro tti . Teocentrismo: Atitude de colocar Deus e aqueles investidos da autoridade religiosa no centro de qualquer visão do mundo e de qualquer interpretação da história. http://www.dicio.com.br/teocentrismo/ #ParaTodosVerem: uma pintura apresenta Deus, do lado direito, está representado como um ho- mem mais velho, de barbas e cabelos brancos, símbolos de sabedoria, mas envergando uma forma física jovem e vigorosa. O artista toma por base os relatos bíblicos que descrevem a sua fisionomia. Está envolto em um manto, onde carrega os seus anjos. Com o braço esquerdo, abraça uma figura feminina, normalmente interpretada como sendo Eva, a primeira mulher, que ainda não foi criada e espera nos céus, junto do Pai. Adão, do lado esquerdo, é um homem jovem e está sentado num prado, com o corpo dobrado, numa posição lânguida, como se tivesse acabado de acordar. Ainda sem forças, estende a mão em direção à imponente figura de Deus, esperando que Ele se aproxime para lhe transmitir a vida. No centro, estão os dedos indicadores de ambos, com um pequeno espaço entre si, realçado pelo vazio na pintura que não deixa nenhuma distração para o olhar de quem observa. O braço de Adão está dobrado e o seu dedo caído, sinais de fraqueza do homem, por oposição à postura de Deus, com o braço estendido e o dedo esticado, sublinhando o gesto do seu poder criador. Fim da descrição. O berço do Renascimento foi a península itálica e a cidade de Florença, comumente identificada como sendo o celeiro dos maiores intelectuais renascentistas. A Renascença se desenvolveu no final da baixa idade Média e início da Idade Moderna. Apesar da divergência entre os especialistas, a Renascença é convencionalmente situada entre a segunda metade do século XIV O berço do renascimento 11 e o final do século XVI, apesar de amplas diferenças entre as regiões e no desenvolvimento das técnicas artísticas e culturais. Durante os séculos XIV e XV, a península itálicafoi a região mais rica da Europa. Essa prosperidade se deu graças à estabilidade política, as guerras e revoltas camponesas estavam sob o controle dos governantes das cidades-estado italianas. A história econômica italiana desempenhou papel importante na fundamentação das realizações culturais da Renascença. Suas cidades eram as maiores e mais ricas da Europa. A estabilidade política na região favoreceu o desenvolvimento econômico, a locomotiva da mudança foi o comércio de especiarias vindas da Ásia através do Bósforo, entreposto de valiosas mercadorias dominado por venezianos e genoveses. Várias regiões eram dominadas por ricas famílias, como: a Casa Médici de Florença, comer- ciantes donos da guilda arte della lana; Casa Visconti, nobres lombardos; Casa Sforza, poderoso condottiero de Milão; Casa Este, nobres de Ferrara/Pádua; e Casa Gonzaga, nobres de Mântua. Gênova e Veneza foram governadas respectivamente por doges como Doria e Foscari, que fize- ram grandes governos impulsionando a economia dessas cidades. Além do comércio, essas cida- des contavam com fortes casas bancárias. Outro fator que favoreceu o renascimento intelectual e cultural na Itália, como aponta Green9 , foi a ameaça dos turco-otomanos ao império bizantino no século XV. Segundo a autora, essa ameaça levou os imperadores bizantinos a procurarem apoio da Igreja de Roma, mesmo contra a vontade de seu povo, na esperança de que a Europa Ocidental auxiliasse o império romano do Oriente. Essa trégua fez com que houvesse contatos diplomáticos com frequência, para a reunificação das duas igrejas cristãs separadas desde o cisma com o Oriente, em 1054. Esse reduzido império contava com grandes intelectuais, além de Constantinopla fazer comércio a vários anos com as cidades de Gênova e Veneza. Motivados pela possibilidade desse acordo, intelectuais como Chrysoloras, após uma missão política, estabeleceu-se em Florença para ensinar grego. O teólogo Bessarion ensinou sobre Platão para os italianos, muitos italianos foram estudar em Constantinopla antes da invasão turca à cidade10. A península itálica importou muito mais do que as finas especiarias do oriente, os italianos importaram conhecimento. 9 GREEN, Vivian H. H. Renascimento e reforma: a Europa entre 1456-1660. Lisboa: D. Quixote, 1984. p. 40. 10 GREEN, Vivian H. H. Renascimento e reforma: a Europa entre 1456-1660. Lisboa: D. Quixote, 1984. p. 40. Glossário Doge (palavra vêneta, do latim dux, comandante) é a denominação de um magistrado eleito nas antigas repúblicas de Gênova e Veneza. http://pt.wikipedia.org/wiki/Doge Condottiero (plural: condottieri) era um mercenário que controlava uma milícia, sobre a qual tinha comando ilimitado, e estabelecia contratos com qualquer Estado interessado em seus serviços. http://pt.wikipedia.org/wiki/Condottiero 12 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade O Renascimento foi visto por seus protagonistas como uma época de mudança, na qual se concebeu um novo modo de entender o mundo e o homem e se desenvolveu a ideia do humanismo, nascido no mundo literário do século XIV, depois influenciando pela primeira vez as artes figurativas e a mentalidade política e social. Os renascentistas usaram algumas expressões para definir o que estava ocorrendo em seu tempo, entre as expressões usadas temos: “fazer reviver”, “fazer voltar ao antigo esplendor”, “renovar”, “restituir a uma nova vida”, entre outros. Segundo Reale e Antiseri11 , os renascentistas interpretavam seu contexto como um período onde se forjava outra civilização, com outra cultura, e outro saber sem, no entanto, se contrapor ao medievo – ao contrário do que encontramos em algumas interpretações equivocadas que contrapõem os dois períodos, apontando, por exemplo, a civilidade como uma característica renascentista e a incivilidade como medieval, ou a cultura contra a incultura e a barbárie, o saber contra a ignorância, etc. Os renascentistas estavam propondo uma nova época para a humanidade, mesmo essa nova época sendo uma revisitação aos clássicos gregos e latinos da Antiguidade. Na sua fase inicial, o Renascimento na península itálica ocupou-se de recuperar a literatura grega e a latina com os estudos dos textos antigos. Destacaram-se nessa fase, final da Idade Média e início da Idade Moderna, Petrarca e Boccaccio, que tentavam infundir em seus contemporâneos o gosto pelos estudos dos manuscritos clássicos, esquecidos nos mosteiros medievais. Poggio Bracciolini, exímio estilista e pesquisador, encontrou valiosos manuscritos de Quintiliano, a Institutio Oratória, na abadia de Saint-Gall, em 1416, obra de onde saiu algumas das principais ideias do Renascimento sobre educação12. 11 REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia, v. 2. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1990. 12 GREEN, Vivian H. H. Renascimento e reforma: a Europa entre 1456-1660. Lisboa: D. Quixote, 1984. p. 41. A consciencia da mudança Fo nt e: R et ra to d e Pe tr ar ca , 1 45 0, A nd re a de l C as ta gn o. Francesco Petrarca (1304-1374) havia sido o primeiro a contrapor as imagens de trevas e luz, ao confrontar o presente medieval cristão com o esplendor cultural do passado clássico [...]. Não obstante, fosse problemática a identificação do passado pagão com as “luzes” e da era cristã com as “trevas”, a ideia cultivada por um grupo de literatos vingou. A metáfora cunhada por Petrarca, assim como o manifesto amor pela nudez dos clássicos, aliado ao desprezo pela espiritualidade icônica da arte mais recente, além da incorporação da mitologia clássica como alegoria cristã, foram apenas algumas das muitas contradições do cristianismo no período [...] (BYINGTON). 13 Atenção Atenção A Estilística é a parte dos estudos da linguagem que, como o próprio nome denota, preocupa-se com o estilo. Nela, a linguagem pode ser utilizada para fins estéticos, conferindo à palavra dados emotivos. A linguagem afetiva é representada por esse importante recurso, no qual podemos observar os processos de manipulação da linguagem utilizados para extrapolar a mera função de informar. Na Estilística, há um interessante contraste entre o emocional e o intelectivo, estabelecendo uma relação de complementaridade entre seu estudo e o estudo da Gramática, que aborda a linguagem de uma maneira mais normativa e sistematizada. http://www.portugues.com.br/gramatica/estilistica/ Apesar da consciência de que algo estava mudando no contexto italiano do século XIV, e os humanistas se manifestaram explicitamente a esse respeito, o mesmo não ocorreu a partir do século XIX. Historiadores investiram na polêmica sobre o momento no qual começaram a ocorrer o renascimento intelectual, cultural e moral. Existem algumas questões que são debatidas na historiografia sobre o Renascimento, além da exata periodização, é debatido se o Renascimento é um momento de mudança ou de continuidade da cultura medieval. Konrad Burdach é um historiador alemão que sustenta a continuidade entre o período medieval e o renascimento. Para Burdach, não houve nenhuma ruptura significativa entre esses dois períodos, ao contrário, para ele existiu um processo de continuidade entre o medievo e o Renascimento, pois o esse último remonta ao ano mil. Sua teoria se baseia no fato de que o mundo clássico é a mesma fonte para a cultura medieval e renascentista. Nessa linha de raciocínio também está o historiador e filosofo francês Étienne Gilson, neoescolástico e especialista na obra de Tomás de Aquino. Outro estudioso, Eugenio Garin, que a princípio defendeu a descontinuidade entre a cultura medieval e o Renascimento, reviu sua posição e passou a atestar uma continuidade entre os períodos. Jacob Burckhardt, historiador e filosofo suíço dos oitocentos, defensor da descontinuidade entre a cultura renascentista e a cultura medieval, disse que o homem medieval só tinha sentido dentro de uma coletividade e que o homem moderno apresentou o sentimento de liberdadee individualidade perante o mundo e a política. Para Burckhardt, o homem medieval foi transcendental, universalista e teocêntrico, enquanto que o homem moderno é imanentista, antropocêntrico e individualista. O recorte feito aqui não está sendo de continuidade, nem o da plasticidade temporal proposta por Burdah, mas de uma ruptura que não está isenta de portar em si elementos do passado, afinal a história é processual. O Renascimento é composto por literatos e artistas que buscaram na Antiguidade clássica inspiração para romper com uma aparente acomodação intelectual vivida nos últimos séculos nas cidades-estado da península itálica. A Antiguidade clássica foi inspiração para a criatividade daqueles artistas e intelectuais e não uma camisa de força. Renascimento: mudança ou continuidade? 14 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade A Itália possuía a mais forte tradição clássica de todos os países da Europa Ocidental. Em muitas cidades italianas, o sistema seguia a velha tradição romana de ensino em escolas municipais, e sua cultura era mais secular do que na maioria das demais regiões da cristandade. Nas universidades italianas, o que prevalecia era o ensino do Direito e da Medicina. Enquanto que nas demais universidades europeias a Teologia e a Filosofia dominavam as cátedras. Além dos artesãos que faziam a manutenção de igrejas e monumentos públicos, os escritores também podiam ser sustentados por verbas públicas dos governos das cidades italianas. A função desses escritores e historiadores – como, por exemplo, Maquiavel – era a de exaltar as cidades, seus governantes e as instituições que patrocinavam seus serviços. A fórmula usual para a exaltação das personalidades e da municipalidade eram as cartas e os discursos. Apenas a partir de 1450 é que o mecenato privado dominou a cena e passou a patrocinar artistas e escritores. O fim desse patrocínio era o mesmo do setor público: a exaltação das famílias e de seus grandes feitos. Entre as famílias de mecenas, temos: os Médici, os Gonzaga, os Este, os Sforza, entre outros citados anteriormente. As famílias italianas não eram as únicas famílias abastadas da Europa, a grande diferença era que essas famílias sempre viveram nas cidades, diferente de outras também ricas que, em geral, habitavam o campo em castelos afastados do burburinho urbano europeu, onde circulavam os artesãos e escritores. Essas famílias impulsionaram as artes e a literatura que deram origem ao Renascimento. Mas esse movimento contou com outra força: o mecenato do papado de Roma. A influência e riqueza do Estado pontifício alavancou a carreira de inúmeros artistas desse período. Essas famílias de mecenas tinham um intuito claro ao tornarem-se protetoras das artes e da literatura: glorificarem a si próprias, como faziam as instituições públicas e seus governantes. Portanto, o mecenato se inicia na esfera pública das cidades e se transfere para a esfera privada. Nesse período surgem os “papas renascentistas”, que marcaram a história da Igreja mais pelos seus feitos mundanos do que por sua política religiosa. Com o interesse de fortalecer a reputação de Roma e dos estados pontifícios, no governo do papa Nicolau V, a Igreja passou a proteger artistas e estudiosos, e fundou a Biblioteca do Vaticano. Durante o reinado dos papas renascentistas, a Igreja de Roma contratou o serviço dos mais celebres artistas da época, como, por exemplo, Michelangelo e Rafael. Por esse motivo, Roma ficou conhecida por décadas como a capital artística do mundo. O Renascimento e seus mecenas Glossário Mecenato é um termo que indica o incentivo e patrocínio de artistas e literatos, e mais amplamente, de atividades artísticas e culturais. O termo deriva do nome de Caio Mecenas (68–8 a.C.), um influente conselheiro do imperador Augusto, que formou um círculo de intelectuais e poetas, sustentando suas produções artísticas. é um termo que indica o incentivo e patrocínio de artistas e literatos, e mais amplamente, 15 Davi - Michelangelo Pietà – Michelangelo La Fornarina - Rafael Transfiguração - Rafael #ParaTodosVerem: Conjunto de quatro fotos de obras artísticas. O anjo Davi – a primeira imagem à esquerda é a estátua em mármore de um homem em pé e nu com cabelos curtos, olhar concentrado voltado para a sua esquerda. Na mão direita segura uma pedra e o braço esticado próximo ao corpo, já a mão esquerda, sobre o ombro, segura a funda, uma espécie de arma que serve para atirar pedras. Sua genitália está à mostra e seu corpo se apoia na perna direita. Atrás da estátua aparece um semicírculo demonstrando que a estátua está exposta num museu. Fim da descrição. #ParaTodosVerem: A Pietà Bandini – a segunda imagem é de Pietà. Cena Bíblica em que um homem de capuz e barba segura em seus braços Cristo seminu e sem vida. Pietà em italiano significa piedade. O ho- mem está no centro da imagem com um véu, olhando para o corpo de Cristo cuja cabeça está jogada para o lado esquerdo do seu ombro. Outras duas mulheres ajudam a apoiar o corpo de cristo ajoelhadas, uma á sua direita e outra à sua esquerda. A cabeça de cristo está apoiada no rosto da mulher à sua esquerda. É uma escultura em mármore representando uma imagem bíblica. Fim da descrição. #ParaTodosVerem: Retrato de uma mulher jovem – a mulher é retratada com um chapéu de estilo oriental e seios nus. Ela está fazendo um gesto para cobrir o seio esquerdo, ou girá-lo com a mão, e é iluminado por uma forte luz artificial proveniente do exterior. Sua mão esquerda repousa sobre o seu colo. Seu braço es- querdo tem uma faixa estreita com a assinatura do artista, Raphael Urbinas. Foi sugerido que a mão direita na mama esquerda revela um tumor cancerígeno disfarçado em uma pose clássica de amor. Fim da descrição. #ParaTodosVerem: A Transfiguração – no alto da pintura, em um céu onde se alternam brancos intensos e tênues, azul, cinza e amarelo, Cristo tem um rosto irradiante e suas vestes brancas são brilhantes. Ele está rodeado por Elias e Moisés que conversam com ele, enquanto Pedro, junto com seus companheiros Tiago e João, estão por terra, fica assombrado com a visão de uma nuvem que os envolve e pela voz do céu que diz: Em uma composição teatral que vê os personagens dispostos em duas plataformas cênicas, no alto do Monte Tabor representa a Transfiguração, embaixo a cura da criança possuída. Os gestos enfáticos, o dinamismo das figuras e a utilização de múltiplas fontes de luz favorecem um intenso envolvimento emocional. Vários personagens são retratados como se representassem uma cena teatral. Fim da descrição. As artes plásticas do renascimento italiano se sobressaíram aos progressos intelectuais e literários de sua época. E, dentre todas as artes plásticas, a pintura é indubitavelmente a mais espetacular. Na transição do século XII para o XIII, o pintor Giotto já apontava para o progresso e para a maioridade da pintura italiana, que foi se solidificando e atingiu seu esplendor no século XV com pintores como Da Vinci. O legado da pintura e da escultura renascentistas 16 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade A questão da maturidade, alcançada apenas no século XV, deveu-se, acima de tudo, à descoberta das leis da perspectiva linear, empregadas na arte de pintar para causar a impressão de tridimensionalidade. Os artistas também estudaram cuidadosamente a anatomia e as proporções do corpo humano, aliando esses estudos à técnica de efeitos de luz e sombra: chiaroscuro. D av i e G ol ia s, p or C ar av ag gi o. T éc ni ca c hi ro sc ur o (lu z e so m br a) #ParaTodosVerem: Caravaggio retrata a imagem bíblica que retrata a vitória do pastor David sobre o gigante Golias, líder dos Filisteus, que o decapitou com a sua própria espada. Solitário e silencioso à luz da Lua, David cansado sobre o corpo caído do gigante morto. Davi está curvado apoiando-se no corpo de Golias aos seus pés com as mãos sobre o corpo, cujacabeça separada do corpo, cabeludo e de barba e olhos semiabertos parecem olhar para quem observa a figura. Davi veste um manto que cobre parte do seu corpo deixando os ombros e braços e parte da perna descobertos. Sua cor é branca. O fundo da ima- gem é escuro. Há um contraste de luzes e sombras, iluminado a musculatura de Davi. Fim da descrição. Também no século XV começou a prevalecer o espírito secular, afastando-se da obrigatorie- dade da arte em estar atrelada a uma moral religiosa. A Igreja não era mais a única fonte de patrocínio dos artistas, a riqueza circulante enchia os cofres da burguesia emergente que sentia a necessidade de consumir arte e, desse modo, aproximar-se dos ricos tradicionais. Essa “liberdade” proporcionada aos artistas pela burguesia não deixou de lado a pintura com temas religiosos. Segundo Burns, “tornou-se frequente então pintar retratos com o objetivo de revelar os segredos da alma”. Ao lado de pinturas que aguçavam o intelecto, surgiram também pinturas com cores fortes e vibrantes, em grande parte por conta da introdução da pintura a óleo, cuja principal finalidade era atrair os olhares e deleitar os expectadores. Para Burns, essa técnica teve muito a ver com o progresso artístico do período, pois a tinta a óleo não secava tão depressa 17 quanto as tintas utilizadas em afrescos. Com isso, os artistas podiam trabalhar durante mais tempo e com mais dedicação à obra, fazendo correções se necessário fosse.13 Alguns pintores italianos que se destacaram nesse período, por contado domínio dessas téc- nicas e também pela inovação de temas, foram: Tommaso di Ser Giovanni di Mone Cassai, ou simplesmente Masaccio (1401-1428), que viveu apenas 27 anos, mas inspirou outros artistas contemporâneos a ele. Exímio na arte de “imitar a natureza”, transformou o tema em valor fun- damental do Renascimento. Ao utilizar as técnicas de chiaroscuro, obteve resultados dramáticos e comoventes como, por exemplo, no quadro Expulsão de Adão e Eva do Éden, onde deixa transparecer de forma convincente a culpa e a vergonha dos personagens. A ressureição do filho de Teófilo, Masaccio. - Nesse quadro o pintor “insere” seu auto retrato #ParaTodosVerem: a pintura mostra São Pedro sentado em um trono superior a todos e cercado por anjos e santos, enquanto ele milagrosamente ressuscita o filho de Teófilo dos mortos. A pintura usa a perspectiva linear para criar a ilusão de profundidade e espaço na cena. Além disso, a figura da criança morta está em um ângulo diagonal, adicionando uma sensação de movimento e tensão ao trabalho. O colorido da pintura é vibrante e cheio de vida, com tons quentes e brilhantes que enfatizam a importância do milagre que está acontecendo. Os detalhes das roupas dos personagens e a arquitetura de fundo mos- tram a capacidade de criar uma sensação de realismo e profundidade em seu trabalho. Fim da descrição. Sandro Botticelli, outro grande pintor italiano, teve influência direta de Masacio. Esse florentino pintou temas clássicos e religiosos. As telas de Botticelli primam pela perfeição dos detalhes e pela representação minuciosa da natureza. Os nus femininos estão entre as mais belas pinturas de Botticelli. Para Burns, a contribuição desse pintor está relacionada ao fato do artista dar fundamentação filosófica aos seus trabalhos. Para os Médici, Botticelli pintou muitos retratos. Em Florença, ele se ligou a filósofos neoplatônicos, período em que pintou uma de suas mais famosas telas: O nascimento de Vênus; ilustrando, nesse trabalho, conceitos neoplatônicos relativos à deusa do amor. Botticelli aproximou-se de Savonarola no período em que este foi governante de Florença e pregava contra a decadência moral e a vida mundana da cidade. Pintou, nesse período, a Natividade Mística, pintura religiosa que retrata a visão do apocalipse relatada em um sermão de Savonarola. 13 BURNS, Edward M.; LERNER, Robert E.; MEACHAM, Standish. História da civilização ocidental. 42. ed. São Paulo: Globo, 2003. p. 350. 18 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade Nascimento de Vênus, Botticelli #ParaTodosVerem: Vênus emerge das águas sobre uma concha, sendo empurrada para a margem por Zéfiro, o Vento Oeste, símbolos das paixões espirituais, e recebendo, de uma Hora (as Horas eram as deu- sas das estações), um manto bordado de flores. O pescoço é irrealisticamente longo e o ombro esquerdo posiciona-se em ângulo muito difícil, no entanto, esta escolha se relaciona com a manutenção da harmo- nia compositiva da tela. Os ventos sopram e movem as águas e os cabelos da Vênus e das outras figuras, cabelos e mantos no sentido oposto, uma das Horas, talvez Flora. Esta seria filha de Júpiter e era ligada às estações do ano, acolhe Vênus com um manto, que por conta do vento, oscila intensamente, marcado pelas linhas curvas do tecido no ar ou do próprio tecido colado rente ao corpo de Flora. Ao fundo o céu e árvores completam a pintura. Fim da descrição. Natividade Mística, Botticelli #ParaTodosVerem: o quadro representa e festeja a chegada da Primavera. No meio do bosque de laranjeiras Vénus, a deusa do Amor, surge num prado, por cima do qual o seu filho Eros atira as flechas de amor, com os olhos vendados. Soberana do bosque, Vénus encontra-se um pouco atrás. A atitude e o movimento das perso- nagens demonstram uma harmoniosa unidade entre o homem e a natureza. Por cima de Vénus, as laranjeiras fecham-se em semicírculo, como uma auréola que circunda a deusa, principal personagem do quadro, com lirismo surge a divindade de Zéfiro, brisa que banha as planícies de orvalho, as cobre de doces perfumes e 19 veste a terra de inúmeras flores. Esta personagem está representada à direita do quadro sob a forma de um ser alado, azul esverdeado. É Zéfiro que persegue uma ninfa com vestes transparentes (Clóris) que olha para o deus com horror. Da sua boca caem flores e misturam-se com as que decoram o vestido de uma outra personagem que avança ao lado dela. Esta nova personagem tira do regaço um punhado de rosas que coloca no jardim. Do lado esquerdo, vemos as Três Graças (Aglaia, Tália e Eufrósina), que representam a beleza, a castidade e a sensualidade, dançando numa roda cheia de encanto. A seguir está Mercúrio, o mensageiro dos deuses, que fecha o quadro à esquerda. É reconhecido pelas suas sandálias aladas e a espada que tem na mão direita. A presença do sabre que Mercúrio transporta, demonstra a sua função de guardião do bosque. Fim da descrição. Considerado por muitos críticos de arte como o maior artista florentino do renascimento, Leonardo da Vinci (1452-1519) foi muito talentoso e versátil. Da Vinci foi a personificação do “homem do renascimento”. Além de pintor, também foi escultor, escritor, músico, arquiteto, engenheiro e inventor. Começou a estudar muito novo com o artista florentino Verrocchio, de boa reputação na época. Ao montar seu próprio estudo, ganhou a proteção dos Médici, na figura de Lourenço, o Magnifico, que era o governante da cidade-estado nesse período. Apesar de ser um gênio, Da Vinci também foi muito “genioso” e não aceitava trabalhar com os prazos fixados por seus mecenas, o que causou atrito entre ele e os Médici, provocando sua mudança para a cidade de Milão, onde esteve sob a proteção dos Sforza a partir do ano de 1482. Com os Sforza, conquistou mais prazo para se dedicar aos seus talentos. Viveu e trabalhou em Milão até a invasão francesa no ano de 1499. Depois de perambular pela península itálica, aceitou viver sob a proteção do monarca francês Francisco I, e foi assim até sua morte. As pinturas de Da Vinci foram um divisor de águas e marcaram o período conhecido como a Alta Renascença na Itália. Da Vinci acreditava que uma pintura deveria ser a exata imitação da natureza, aproximando-se dela o máximo possível, até o limite da perfeição. Observava com minucias desde as asas de um pássaro, ou os detalhes de uma cachoeira, até a anatomia humana, chegando a dissecar cadáveres parasua observação, o que era proibido em sua época. Todas essas observações serviam para aprimorar sua pintura e também seus inventos. A adoração dos Magos, Leonardo Da Vinci Estudo de um cavalo, Leonardo Da Vinci #ParaTodosVerem: duas pinturas de Leonardo Da Vinci. A primeira apresenta o fundo é marcado por uma arquitetura irregular, que serve de cenário para várias lutas entre cavalos. Em primeiro plano, situ- a-se um verdadeiro turbilhão de personagens com as mais diversas expressões faciais, distribuídos em 20 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade torno da imagem de Maria e Jesus. Estes dois se concebem como eixo compositivo, aparecendo isolados simbolicamente. Constituem o foco de luz que ilumina indistintamente as figuras que os rodeiam. Com os reis magos prostrados diante deles, formam uma composição piramidal. À esquerda da Maria tem uma árvore rodeada ao fundo de vários cavalos. Ao fundo à direita de Maria desenha-se as ruínas de um castelo e uma escada semidestruída. Considera-se que o âmbito semicircular situado em primeiro plano representa o mundo cristão. Encarna o que é verdadeiro, perante um mundo de trevas, que corresponde ao fundo do quadro. A palmeira é símbolo bíblico de paz e de vitória, enquanto a árvore anterior, que une céu e terra, é vista por alguns como sinal premonitório da Paixão de Cristo. As cores variam do escuro ao pastel típicas de uma pintura em quadro de Da Vinci. A segunda pintura “Estudo de um cavalo“. Na ima- gem do que seria uma tela na vertical há o desenho de um cavalo forte e de lado na parte superior como se fosse pintado a lápis com variações de tons. Na parte inferior direita temos um cavalo desenhado de frente, com os músculos em realce. Esses desenhos sobre uma espécie de papel desgastado pelo tempo, envelhecido. Fim da descrição. Outro grande pintor renascentista foi Rafael Sanzio de Urbino (1483-1520), artista que viveu o apogeu e a decadência do Renascimento italiano. Bastante influenciado por Leonardo Da Vinci e pelo Humanismo, é um dos mais populares artistas desse período. Rafael desenvolveu uma arte ligada às concepções de uma humanidade espiritualizada e enobrecida. Sua representação do homem trazia em si a imagem de equilíbrio, sensatez e dignidade. A representação alegórica é uma marca de seu trabalho. Na tela Escola de Atenas, Rafael tenta descrever o conflito entre a filosofia platônica e a aristotélica: é a disputa da “espiritualidade” platônica e a crença na materialidade aristotélica. Rafael se tornou famoso também pelas pinturas de retratos e virgens. A Escola de Atenas, Rafael Sanzio #ParaTodosVerem: a Escola de Atenas (Scuola di Atenas, no original) é considerada uma das obras mais célebres de Rafael Sanzio, ou Rafaello, um dos grandes gênios da Alta Renascença italiana. Na pintura dois personagens são facilmente identificados, Platão (à esquerda) e Aristóteles (à direita) ao centro, sendo que o manto da Aristóteles predomina a cor azul claro e o manto de Platão predomina a cor laranja estão na frente da Escola de Atenas de arquitetura em mármore clara. Na direita, ao alto, temos a estátua do deus grego Apolo e na esquerda a de Atena, deusa da sabedoria. Os discípulos estão distribuídos pelo salão, do lado esquerdo da pintura, vestindo um manto verde, Sócrates distraído do que acontece no cen- tro, o mestre está de costas e conversa com seus discípulos, gesticulando como se contasse ou explicasse alguma coisa. Fim da descrição. 21 O casamento da Virgem, Rafael Sanzio #ParaTodosVerem: se destacam as figuras principais de Maria vestindo azul e vermelho, o Sumo Sa- cerdote de barba longa e manto preto e São José, à esquerda do Sacerdote, com barba e cabelos curtos, vestindo um manto dourado sobre o ombro esquerdo cobrindo uma vestimenta preta, estão adiantados um pouco mais sobre os assistentes ao casamento, destacando, desta maneira, o assunto principal. A cena se acentua pela forma circular do oratório que ao fundo é acessado por escadas, onde encontramos algu- mas pessoas transitando. No fundo também se vê o céu azul e a torre com pequenas estátuas decorativas abaixo do teto em forma de abóbada. Fim da descrição. Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475-1564) é um artista desse período digno de nota. Da Alta Renascença, talvez o último grande pintor florentino, idealista neoplatônico, estava mais atento às verdades metafísicas do que à natureza, que foi tão cara a Da Vinci, Rafael e Masaccio. Michelangelo foi também escultor, arquiteto e poeta. O tema predileto desse artista era a figura humana, retratada sempre de forma esplendorosa e colossal. Sua realização mais conhecida é a pintura do teto da Capela Sistina em Roma, onde trabalhou durante quatro anos para o papa Júlio II. Essa pintura é composta de cenas que narram a história da humanidade segundo os relatos bíblicos do Antigo Testamento. O rapto de Ganimedes, Michelangelo. #ParaTodosVerem: no desenho de Michelangelo, Júpiter em forma de águia, agarra as pernas de Gani- medes e as separa dominando-o totalmente. Nesse desenho, Ganimedes, não é mais um menino, mas um jovem e belo adulto totalmente nu. Júpiter aparece na pintura tomando a taça da mão de Ganimedes e aproximando a cabeça de Ganimedes da sua para beijá-lo. A imagem está no centro da pintura como se estivessem nas nuvens mesclando o branco e a cor pastel. Fim da descrição. 22 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade A história do renascimento literário com sua erudição humanista, no sentido técnico da palavra, tem em Petrarca (1304-1374) o “pai” dessa corrente de pensadores. Para esse pensador, cristão e erudito, a teologia e a filosofia escolástica estavam caminhando no sentido errado, por concentrarem-se na especulação abstrata sem dialogar com a realidade de seu tempo. Para Petrarca, a teologia e a filosofia escolástica não cumpriam o papel de ensinar ao ser humano o caminho da salvação, segundo ele, o teólogo deveria ser “exemplo” a ser seguido pelas pessoas, seus escritos deveriam conduzi-las ao bem – e esse modelo de reflexão deveria ser inspirado nos clássicos antigos, que estavam impregnados de ética e sabedoria. Petrarca era poeta e literato, escreveu tratados de moral baseados nos clássicos antigos, após minuciosa busca de textos latinos ainda não descobertos por seus contemporâneos, dos quais imitava a forma e fazia citações das frases copiadas. “Inaugurou, destarte, um programa de estudos ‘humanistas’ que exerceria influência durante séculos”.14 Petrarca desenvolveu seu pensamento baseado em um ideal cristão de conduta ascética e contemplativa. Porém, a geração posterior, representada pelos florentinos Leonardo Bruni (1370- 1444) e Leon Battista Alberti (1404-1472), denominados de humanistas cívicos, concordava com Petrarca sobre o dever do humanista de ser eloquente e estudioso da literatura clássica; mas, para essa geração, a natureza do homem estava apta a ação, devendo ser útil à família e a sociedade, além de ter o dever de servir o Estado, “segundo entendiam, a ambição e a busca da glória constituíam impulsos nobres que deveriam ser encorajados”.15 Para os humanistas cívicos, o êxito e o progresso faziam parte da história humana, e a conquista de bens e o domínio da terra faziam parte dessa história, a qual não condenavam. Os humanistas cívicos não eram antirreligiosos, apenas se preocupavam com os assuntos terrenos em seus escritos – algo inaceitável na teologia e na filosofia medieval, pois o homem passava, dessa forma, a dominar a natureza e planejar o seu destino. Os humanistas cívicos do século XV descobriram muitos textos em grego clássico antigo, inaugurando os estudos desses textos, diferenciando-se de Petrarca, que se ateve aos estudos dos textos clássicos antigos latinos. Segundo Burns, essa busca, inclusive com viagens ao oriente próximo para adquirir manuscritos, deveu-se ao incentivo dos sábios bizantinos, que imigraram para a península itálicana primeira metade do século XV. Os humanistas cívicos, a partir de 1450, foram gradualmente substituídos pela escola humanista de caráter neoplatônico. Essa nova escola humanista mesclava a influência de Platão e Plotino com as tendências do misticismo antigo e do cristianismo. Entre os humanistas que se destacaram nesse período, podemos citar os mais importantes: Marsílio Ficino (1433-1499) e Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494). Esses dois florentinos eram associados à academia de estudos neoplatônicos, fundada por Cosino de Médici em Florença, onde seus membros se reuniam para fazer conferências e ouvir leituras e discursos. O maior feito de Ficino foi traduzir para o latim os escritos de Platão, colocando-os a dis- posição dos europeus ocidentais pela primeira vez. Ficino é questionado sobre seu enquadramento 14 BURNS, Edward M.; LERNER, Robert E.; MEACHAM, Standish. História da civilização ocidental. 42. ed. São Paulo: Globo, 2003. p. 347. 15 BURNS, Edward M.; LERNER, Robert E.; MEACHAM, Standish. História da civilização ocidental. 42. ed. São Paulo: Globo, 2003. p. 348. Erudição e literatura renascentista 23 ou não na categoria de humanista, pois trocou a ética pela metafísica e defendeu que o indivíduo deveria voltar-se para a vida além-túmulo. Em relação a Pico della Mirandola, a única certeza é que ele não foi um humanista cívico, pois via pouco valor nos assuntos públicos e mundanos, para ele não existia “nada mais maravilhoso do que o homem”; no entanto, é certo que eles são considera- dos pela maioria dos críticos como pertencentes à tradição dos humanistas italianos.16 Nicolau Maquiavel (1469-1527) não pode ser enquadrado em nenhuma escola filosófica de seu tempo, porém ocupa um lugar de destaque na história da filosofia política por sua originalidade e influência teórica, sendo ainda hoje bastante estudado e debatido nas academias contemporâneas – inúmeras teses, dissertações e livros sobre sua filosofia política podem ser encontrados com certa facilidade. Segundo Burns, “mais do que ninguém, ele contribuiu para virar de cabeça para baixo todas as anteriores concepções da base ética da política ou para inaugurara a desapaixonada observação direta da vida política”. Maquiavel exaltou o constitucionalismo, a igualdade, a liberdade, também defendia a subordinação da Igreja aos interesses do Estado.17 Maquiavel escreveu sua obra mais conhecida, O Príncipe, relatando a deplorável situação política, econômica e social da península itálica de sua época. No final do século XV, uma acirrada disputa entre a França e os estados pontifícios pelo controle e pela lealdade das cidades-estado da península itálica estava tornando a vida insuportável. Por outro lado, as várias regiões da península itálica estavam divididas politicamente, tornando-se presas fáceis para invasões estrangeiras. Maquiavel tornou-se chanceler e secretário da recém-fundada república de Florença (1498). Sua principal missão diplomática consistiu em visitar outros estados. Numa dessas visitas, foi à Roma, onde se aproximou de César Bórgia, filho do papa Alexandre VI. Para Maquiavel, Bórgia combinava dureza e astúcia para unificar o Estado, a moralidade para César estava subordinada aos objetivos políticos. Maquiavel exerceu sua função até o ano de 1512, quando os Médici retomaram o poder da cidade-estado, derrubando a república. Ele passou a viver no exílio, suas obras relatam as práticas de governos e a política não como um ideal elevado, mas como realmente eram. Ele apresentou uma visão cínica da natureza humana, expondo seus desejos e motivos egoístas, dominados pelo poder e pela prosperidade material. Maquiavel, ao julgar dessa forma a natureza humana, defendeu que o governante não deveria confiar na lealdade dos súditos. Porém, esses governantes deveriam manter a segurança 16 BURNS, Edward M.; LERNER, Robert E.; MEACHAM, Standish. História da civilização ocidental. 42 ed. São Paulo: Globo, 2003. p. 348. 17 BURNS, Edward M.; LERNER, Robert E.; MEACHAM, Standish. História da civilização ocidental. 42. ed. São Paulo: Globo, 2003. p. 348. Nicolau: o maior fi lósofo político renascentista Fo nt e: W ik im ed ia C om m on s O termo “maquiavélico” é injustamente atribuído a Nicolau Maquiavel, que defendeu em seus escritos a ética na política. Em função das ideias defendidas no livro O Príncipe, o termo “maquiavélico” passou a ser usado para aquelas pessoas que praticam atos desleais para obter vantagens, manipulando as pessoas. 24 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade e o poder dos países por eles governados, e não deveriam permitir que nenhuma cláusula de justiça, misericórdia ou santidade nos tratados impedisse seus caminhos. O grande desejo de Maquiavel foi o de ver unificada a Itália, sonho que se realizou apenas no século XIX. No século XVI, a literatura italiana ainda produziu alguns autores interessantes, como o diplomata conde Baldesar Castiglione (1478-1529), autor do livro O cortesão, obra que descrevia a corte italiana do renascimento, popularizando o ideal do “homem da Renascença” com as qualidades de “corajoso, espirituoso e civilizado” – além, claro, desse “homem da Renascença” dominar vários campos de atividade. Outro importante literato e historiador italiano desse período foi o embaixador e governador dos estados papais Francesco Guicciardini (1483-1540), que escreveu uma interessante e pormenorizada história da vida política da Itália renascentista, deixou seus relatos sobre as motivações humanas desse período no livro História da Itália. Outro autor de epopeias desse período foi o poeta Ludovico Ariosto (1474-1533), mais criativo que Castiglione e Guicciardini, escreveu o poema Orlando furioso, baseado nos romances de aventura e nas lendas sobre Carlos magno. Ariosto conseguiu traduzir em sua obra toda a desilusão da Renascença tardia e a tendência que procurava consolo no prazer estético, a perda da fé e da esperança. Sua obra diferia radicalmente dos contos épicos medievais. Inúmeros foram os literatos humanistas, mas colocamos aqui os principais autores renascentista. Mais detalhes sobre esse rico período da arte e da literatura italiana, você pode pesquisar em obras como A história social da arte e da literatura, de Arnold Hauser.18 Na escultura, o primeiro grande mestre que surgiu na Renascença foi Donato di Niccoló di Betto Bardi (138[?]-1466), conhecido como Donatello. Sua estátua de Davi subjugando Golias foi o primeiro nu desde a Antiguidade clássica e que consagrou a glorificação do nu seguida durante muitos anos pelos escultores. Foi autor da primeira estátua equestre em bronze 18 HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1998. Fo nt e: W ik im ed ia C om m on s Ludovico Ariosto Francesco Guicciardini Fonte: Wikimedia Commons Arquitetura e Escultura renascentista 25 de grandes proporções desde os tempos do domínio dos romanos, uma imponente obra em bronze, representando o guerreiro Gattamelata. Contudo, foi o pintor e escultor Michelangelo que ficou conhecido como um dos maiores escultores de todos os tempos com suas esculturas magnificas e monumentais. Fonte: Thinkstock/Getty Images - Prasenberg Fonte: Wikimedia Commons #ParaTodosVerem: uma imagem aparece à esquerda com a escultura em chumbo de um Cavalo muito forte montado por um soldado com uma espada em sua mão direita segurando as rédeas. A Escultura está sobre uma plataforma e o fundo da imagem este em azul. Ao lado direito dessa imagem temos a escultura em mármore de um homem forte sentado, de barbas longas despido até a cintura onde segura um manto. Sua mão esquerda segura a barba longa e seu rosto olha para a sua esquerda, como se ob- servasse algo. Ao fundo da imagem temos pilastras de um ambiente que pode ser um castelo ou grande salão. A cor predominante é o brando. Fim da descrição. A arquitetura renascentista estava com suas bases muitomais profundas no passado do que a pintura e a escultura. Seu estilo eclético buscou inspiração nos elementos construtivos da Idade Média e da Antiguidade clássica. A inspiração para o estilo da arquitetura renascentista foi o romano romântico. Esse estilo prevaleceu em detrimento dos estilos gótico e grego porque encontrou ressonância nas tradições italianas e pela admiração à cultura latina. Fo nt e: W ik im ed ia C om m on s #ParaTodosVerem: na imagem temos uma planta no uma catedral no centro, sendo que à esquerda temos a imagem de um senhor de barbas brancas com olhar contemplativo. Tem na cabeça uma toca ver- melha, mesma cor de sua vestimenta, pelas características da roupa deduzimos que é um religioso, refor- çado pelo trono em que está sentado. No lado direito da planta temos a imagem de outro religioso, mas novo que o descrito acima, sem barba e de perfil, também com uma toca vermelha e túnica vermelha em seda com gola decorada com renda branca. O fundo da imagem é escuro não possibilitando ver detalhes. Entre estas duas figuras temos a planta do que parece ser uma catedral com um círculo no centro, em for- mato de cruz temos os corredores que demonstram dar acesso às saídas da catedral. Nas diagonais temos quatro círculos menores e nos extremos mais quatro pequenos círculos que seriam os cantos da catedral em formato quadrado. Traços detalham o que podem ser janelas, portas e escadas. Fim da descrição. 26 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade Em geral, a inspiração para os arquitetos renascentista foram as igrejas e os mosteiros româ- nicos, que copiavam a decoração das ruínas da Roma antiga. A arquitetura teve como resultado uma planta cruciforme, nave e transepto, e seus elementos eram a coluna e o arco, ou a colu- na e o lintel, a colunata e a cúpula. Predominou nesse estilo as linhas horizontais. A diferença entre a arquitetura romântica e a renascentista era que a arquitetura renascentista se ocupava muito mais da harmonia e da proporção de seus edifícios. Sob o mecenato dos papas Júlio II e Leão X, encontramos uma das mais suntuosas obras arquitetônicas da Renascença italiana: a Catedral de São Pedro de Roma, com projeto do arquiteto Donato Bramante (1444-1514) e de Michelangelo. O declínio da Renascença italiana foi um longo processo, aproximadamente cinquenta anos, e deu-se na segunda metade do século XVI. Aos desastres políticos, que contaram com a invasão da península itálica no ano de 1494 pelos franceses, somou-se o fim da prosperidade econômica que vinha se desgastando ao longo do século XVI. Carlos VIII da França avançou sobre o domínio dos Médici e estava pronto para tomar Nápoles, esse foi o erro do monarca francês, que despertou a atenção da então poderosa Espanha, detentora da Sicília que, para defender seus interesses, aliou- se aos estados pontifícios: Milão, Veneza e o Sacro Império Romano-Germânico. Essa ação forçou o reino francês a desistir de seu projeto de dominar algumas cidades-estado da península itálica. No entanto, com a morte de Carlos VIII, seu sucessor entrou em guerra contra a península itálica por trinta anos, quase ininterruptamente. Nesse período, formaram-se alianças e contra alianças. O pior desastre dessa longa guerra se deu no ano de 1527 com o saque de Roma, realizado pelos soldados espanhóis e alemães sob o comando de Carlos V da Espanha, que não tinha o controle sob seus comandados. Foi somente em 1529 que Carlos V conseguiu controlar seus comandados e dar fim aos conflitos na península itálica, restaurando seus principados. O desvio das rotas marítimas comerciais do mediterrâneo para o atlântico enfraqueceu economicamente a península itálica, colocando um ponto final na supremacia das cidades italianas como centro do monopólio do comércio mundial de especiarias vindas do oriente próximo. Outro acontecimento que causou o início do declínio nas artes e no pensamento italiano foi a reforma católica empreendida a partir do Concilio de Trento (1545-1563). Nesse período, as únicas expressões artísticas que continuaram a ser estimuladas foram a arquitetura barroca e a música, que ainda contavam com o forte patrocínio da Igreja Católica; ao contrário dos artistas e pensadores que começaram a ser perseguidos pela Inquisição. A península itálica foi o berço do Renascimento, alguns críticos argumentam que sua expansão para o restante da Europa se deu após as invasões e guerras no final do século XV e início do XVI; e, mesmo assim, na sua forma mais bruta e menos glamorosa, que foi o Maneirismo. Esse movimento artístico do início do século XVI tentou fazer uma revisão dos valores clássicos e naturalistas, valores do humanismo renascentista. Esse movimento teve impacto na Europa e tem quem defenda que ele chegou inclusive à América na época dos “descobrimentos”, com os espanhóis. Enfim, a maioria dos críticos e historiadores defende o Renascimento como sendo funda- mentalmente um movimento da alma italiana dos séculos XIV ao XVI, porém, assim como o Maneirismo, o Renascimento também não deixou de influenciar artistas e literatos de outras partes da Europa. Declínio da Renascença Italiana no Século XVI 27 #ParaTodosVerem: a imagem mostra o mapa da Itália em 1494. Num quadrado branco com margens em verde está escrito Itália 1494, no lado direito desse quadrado em formato quase triangular na cor verde está a Sicília, uma ilha na ponta de uma bota, à esquerda em verde claro, Nápoli, na sequência, Pontifício que tem na parte inferior a cidade de Roma, o mapa está na cor laranja. Em formatos diversos temos Siena e República de Firenze complementando a imagem semelhante a uma bota do mapa. Na parte norte do mapa temos o Ducado de Savoia, di Milano, República de Genova, República de Venezia em verde, mais a direita no norte do mapa. Na parte superior do mapa, os países que fazem fronteira: Elvetica, Contea de Tirolo, Áustria, Ducato di Carinzia, Ducato di Carniola, ao leste Ungheria e abaixo o Impero Ottomano em verde Republica di Ragusa. Fim da descrição. Fo nt e: W ik im ed ia C om m on s 28 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade Material Complementar e Trazemos aqui algumas dicas bibliográficas complementares à bibliografia apresentada na disciplina de História Moderna, para que você possa aprofundar as discussões realizadas no material teórico sobre o Renascimento. Livros sobre o Renascimento Cultural A Cultura do Renascimento na Itália • Autor: Burckhardt, Jacob • Editora: Companhia de Bolso O Bazar do Renascimento - Da Rota da Seda a Michelangelo • Autor: Brotton, Jerry • Editora: Grua Livros O Renascimento - Coleção Discutindo a História • Autor: Sevcenko, Nicolau • Editora: Atual História Geral da Arte - Renascimento e Barroco • Autor: Janson, H.W. • Editora: Martins Editora A Civilização do Renascimento • Autor: Delumeau, Jean • Editora: Edições 70 As Cortesas do Renascimento • Autor: Lawner, Lynne • Editora: Martins Editora Importante Não se torna um historiador sem muita leitura e reflexão! 29 Ciência e Vida Civil no Renascimento Italiano • Autor: Garin, Eugenio • Editora: Unesp Conheça Florença - Berço do Renascimento • Autor: Machado, Lucia Helena Monteiro • Editora: Nova Fronteira Figuras e Caminhos do Renascimento em Portugal • Autor: Serrao, Joaquim Verissimo • Editora: Fundação Oriente Fogo Sobre a Terra - A Mentalidade Medieval e o Renascimento • Autor: Manchester, William • Editora: Ediouro O Renascimento - Historia Essencial • Autor: Johnson, Paul • Editora: Objetiva O Renascimento Italiano • Autor: Burke, Peter • Editora: Nova Alexandria Religiao e Ciencia no Renascimento • Autor: Woortmann, Klaas • Editora: UNB Renascimento e Humanismo - Coleçao História Geral em Documentos • Autor: Acker, Maria Teresa Van • Editora: Atual 30 Unidade: Arte e Literatura Transformando a Política e Sociedade Referências ARRUDA, José Jobson. História integrada:da idade média ao nascimento do mundo moderno. 4. ed. São Paulo: Editora Ática, 1997. BURNS, Edward M.; LERNER, Robert E.; MEACHAM, Standish. História da civilização ocidental. 42. ed. São Paulo: Globo, 2003. BURKE, Peter. Il Rinascimento. Bologna: Il Mulino, 2001. _____. Il Rinascimento europeo - Centri e periferie. Roma-Bari: Laterza, 2009. BYINGTON, Elisa. O Projeto do Renascimento. Rio de Janeiro: Jorger Zahar, 2009. DUBY, Georges; PERROT, Michelle. Storia delle donne. Dal Rinascimento all’età Moderna. Roma-Bari, Laterza, 1991. GARIN, Eugênio. Ciência e vida civil no renascimento italiano. São Paulo: Unesp, 1996. GREEN, Vivian H. H. Renascimento e reforma: a Europa entre 1456-1660. Lisboa: D. Quixote, 1984. HAUSER, Arnold. Historia social da arte e da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1998. HELLER, Agnes. O homem do Renascimento. Lisboa: Presença, 1982. LARIVAILLE, Paul. La vita quotidiana delle cortigiane nell’Italia del Rinascimento. 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