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Brasília-DF. ImunIdade na doença Elaboração Luciana Peniche Moreira Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APrESEntAção ................................................................................................................................. 5 orgAnizAção do CAdErno dE EStudoS E PESquiSA .................................................................... 6 introdução.................................................................................................................................... 8 unidAdE i IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS .............................................................................................. 9 CAPítulo 1 IMUNIDADE CONTRA víRUS ...................................................................................................... 9 CAPítulo 2 IMUNIDADE CONTRA bACTéRIAS E fUNGOS ........................................................................... 25 CAPítulo 3 vACINAS ................................................................................................................................ 29 unidAdE ii IMUNIDADE TUMORAl .......................................................................................................................... 31 CAPítulo 1 DESENvOlvIMENTO E MECANISMOS pARTICIpADORES ............................................................ 31 CAPítulo 2 RESpOSTAS pOSSívEIS ............................................................................................................. 36 unidAdE iii IMUNIDADE NO TRANSplANTE .............................................................................................................. 43 CAPítulo 1 DESENvOlvIMENTO E MECANISMOS pARTICIpADORES ............................................................ 43 CAPítulo 2 RESpOSTAS pOSSívEIS ............................................................................................................. 45 CAPítulo 3 HISTOCOMpATIbIlIDADE .......................................................................................................... 50 unidAdE iV AlERGIA .............................................................................................................................................. 54 CAPítulo 1 DESENvOlvIMENTO E MECANISMOS pARTICIpADORES ............................................................ 54 CAPítulo 2 RESpOSTAS IMUNES NA AlERGIA ............................................................................................. 56 CAPítulo 3 TRATAMENTO vIA COMpONENTES IMUNES .............................................................................. 66 unidAdE V IMUNODEfICIÊNCIAS .......................................................................................................................... 71 CAPítulo 1 IMUNODEfICIÊNCIAS pRIMáRIAS ............................................................................................ 71 CAPítulo 2 IMUNODEfICIÊNCIAS SECUNDáRIAS ....................................................................................... 84 PArA (não) finAlizAr ..................................................................................................................... 99 rEfErênCiAS ................................................................................................................................ 104 5 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para refl exão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao fi nal, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fi m de que o aluno faça uma pausa e refl ita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifi que seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As refl exões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, fi lmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Praticando Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer o processo de aprendizagem do aluno. 7 Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Exercício de fi xação Atividades que buscam reforçar a assimilação e fi xação dos períodos que o autor/ conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não há registro de menção). Avaliação Final Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, que visam verifi car a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber se pode ou não receber a certifi cação. Para (não) fi nalizar Texto integrador, ao fi nal do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 introdução Todos os dias, nosso organismo se expõe aos mais diversos e numerosos tipos de agentes patogênicos. Nosso sistema imunológico é responsável por nos defender, diminuindo a quantidade de doenças que desenvolvemos durante nossa vida. O desenvolvimento de doenças infecciosas envolvem interações muito complexas entre os micro-organismos e os mecanismos de defesa do hospedeiro, que podem permitir ou não a entrada, invasão e colonização dos tecidos. Com relação aos cânceres, que surgem a partir da proliferação e disseminação descontrolada de clones de células malignamente transformadas, os sistemas imunológicos natural e adaptativo também têm uma grande importância no combate a essa doença. Nos processos alérgicos, a resposta exacerbada do organismo se dá devido a uma hipersensibilidade a certos antígenos que leva a uma série de reações rápidas e com grandes consequências. Contrariamente, nas imunodeficiências, defeitos nos componentes do sistema imunológico levam a distúrbios muitas vezes graves ou fatais que impedem o desenvolvimento das defesasAPCs do receptor. Então a moléculas do MHC estranha é tratada como qualquer antígeno proteico estranho sendo essa apresentação bem parecida com os mecanismos de apresentação de um antígeno proteico microbiano. 47 iMunidAdE no trAnSPlAntE │ unidAdE iii Ativação de linfócitos alorreativos Essa ativação depende da apresentação de aloantígenos por APCs derivadas do doador presentes no enxerto (apresentação direta) ou por APCs do hospedeiro que captam e apresentam aloantígenos do enxerto (apresentação indireta). Além desse reconhecimento de aloantígenos, a coestimulação por moléculas B7 nas APCs também é importante para ativação dos linfócitos alorreativos. Mecanismos efetores da rejeição a aloenxertos A rejeição é mediada por células alorreativas TCD4+ ou CD8+ ou aloanticorpos e pode ser causada por diferentes mecanismos. rejeição hiperaguda Caracterizada pela oclusão trombótica da vasculatura do enxerto que se inicia minutos ou horas após a formação da anastomose (comunicação entre vasos sanguíneos) entre os vasos sanguíneos do hospedeiro e do enxerto. Essa rejeição é mediada por anticorpos pré-existentes na circulação do hospedeiro que se ligam aos antígenos endoteliais do doador. Esses anticorpos ativam complemento e, anticorpos e complemento induzem alterações no endotélio do enxerto que promovem a trombose intravascular. figura 15. Rejeição hiperaguda. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. rejeição aguda É um processo de lesão vascular e parenquimatosa mediada por células T e anticorpos que geralmente iniciada após a primeira semana de transplante. 48 UNIDADE III │ IMUNIDADE NO TRANSPLANTE Os linfócitos T tem um papel central na rejeição aguda porque respondem a aloantígenos, incluindo moléculas do MHC presentes na vasculatura endotelial e células parenquimatosas, causando destruição direta das células do enxerto ou por meio da produção de citocinas que recrutam e ativam células inflamatórias. figura 16. Rejeição aguda. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. rejeição crônica A rejeição crônica acontece quando os enxertos já estão a mais de 6 meses presentes no receptor e uma oclusão arterial se desenvolve lentamente como resultado da proliferação das células da musculatura lisa da íntima que podem entrar em insuficiência devido à lesão isquêmica. figura 17. Rejeição crônica. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. 49 IMUNIDADE NO TRANSPLANTE │ UNIDADE III Prevenção e tratamento da rejeição de aloenxertos A primeira abordagem para tratar a rejeição é a imunossupressão, pois algumas drogas imunossupressoras podem destruir ou inibir os linfócitos T. Toxinas metabólicas inibem a maturação dos linfócitos de precursores imaturos e também podem destruir células T maduras em proliferação que foram estimuladas por aloantígenos. Anticorpos que reagem com a estrutura de superfície das células T e depletam ou inibem essas células, são usados no tratamento de rejeição aguda. Algumas drogas bloqueiam as vias coestimuladoras das células T prevenindo assim, a rejeição. Agentes antinflamatórios bloqueiam a síntese e secreção de citocinas que são mediadores inflamatórios dos macrófagos. figura 18. Métodos de imunossupressão de uso clínico. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. 50 CAPítulo 3 Histocompatibilidade A defesa contra microrganismos intracelulares bem como a ativação de células B e macrófagos é feita com a ajuda dos linfócitos T. As células T, ao contrário das células B, só reconhecem antígenos que são apresentados por outras células e essa função é feita por proteínas especializadas codificadas por genes chamado de complexo principal de histocompatibilidade (MHC). Ou seja, o MHC tem a função de apresentar peptídeos às células T. O MHC é dividido em dois, sendo essa divisão importante para entender como as células T reconhecem antígenos estranhos. » MHC classe I: essas moléculas apresentam peptídeos aos linfócitos TCD8+ citotóxicos » MHC classe II: essas moléculas apresentam peptídeos aos linfócitos TCD4+. figura 19. Complexo de reconhecimento peptídeo-MHC. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. Além de controlarem as respostas imunológicas aos antígenos proteicos, o complexo MHC também controla a rejeição a enxertos nos transplantes. A característica estrutural do MHC é importante no desempenho de apresentação de antígenos e no reconhecimento dos mesmos pelos linfócitos T. Cada molécula de MHC tem uma fenda onde se ligam os peptídeos, um par de domínios semelhantes 51 IMUNIDADE NO TRANSPLANTE │ UNIDADE III às imunoglobulinas e essa molécula está fixada na membrana celular. Nessa fenda há uma variedade de aminoácidos fazendo com que as diferentes moléculas de MHC se liguem e apresentem diversos peptídeos que são reconhecidos especificamente pelos receptores nas células T. A molécula de MHC I é composta de uma cadeia polipeptídica codificada pelo MHC e outra que não é codificada pelo MHC, ao passo que, a molécula de MHC II apresenta duas cadeias polipeptídicas codificadas pelo MHC. Na figura abaixo nota-se que a fenda de ligação de peptídeos na molécula de MHC I é fechada. Isso faz com que não seja permitida a ligação de peptídeos com mais de 11 aminoácidos. Por isso, proteínas em sua conformação nativa precisam ser processadas para gerar fragmentos pequenos que se liguem ao MHC e possam ser reconhecidos pelas células T. Já na molécula de MHC II observa-se a fenda aberta permitindo assim, a ligação de peptídeos com 30 ou mais aminoácidos. figura 20. MHC I. figura 21. MHC I. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. ligação dos peptídeos às moléculas de MHC Entender as bases moleculares da interação peptídeo-MHC e por que esses peptídeos se ligam ao MHC é importante para saber as propriedades que tornam uma proteína imunogênica. Como foi mostrado nos desenhos acima, cada molécula de MHC I ou MHC II possui apenas uma fenda de ligação de peptídeo, ou seja, apenas um peptídeo pode ser ligado por vez. Mas as moléculas de MHC apresentam ampla especificidade à ligação de antígenos fazendo com que vários peptídeos diferentes possam ser acomodados. Qual seria a razão para que uma única molécula de MHC possa ligar vários tipos de peptídeos? A resposta é simples. Cada indivíduo possui somente 6 (seis) moléculas de 52 unidAdE iii │ iMunidAdE no trAnSPlAntE MHC I e de 10-20 moléculas de MHC II que devem ser capazes de apresentar peptídeos que pertencem a um enorme número de antígenos proteicos que uma pessoa possa entrar em contato. figura 22. Competição dos antígenos pelas células T. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. A taxa de degradação da dissociação do complexo peptídeo-MHC é muito lenta. Essa lentidão é importante para que o antígeno possa ser encontrado pelas células T e assim ter uma resposta imunológica efetiva. As moléculas de MHC não conseguem distinguir antígeno próprio de não próprios. Se ela apresenta ambos os antígenos, como saber quando a resposta imune deve ser ativada pelos antígenos não próprios? Simples. As células T examinam os peptídeos que são apresentados a eles e verificam se são estranhos e assim desencadeiam a resposta imune contra eles. Expressão das moléculas de MHC Moléculas de MHC classe I são expressas quase que em todas as células nucleadas e tem a função de eliminar células infectadas por microrganismos intracelulares, como 53 IMUNIDADE NO TRANSPLANTE │ UNIDADE III os vírus. Já as moléculas de MHC classe II são encontradas em células dendríticas, macrófagos linfócitos B e apresentam peptídeos os linfócitos TCD4+ auxiliares que, quando diferenciados, ativam os macrófagos para que eliminem microrganismos extracelulares que foram fagocitados e também ativar células B a produzirem anticorpos que eliminam patógenos extracelulares. A expressão das moléculas de MHC é regulada por citocinas que são produzidas durante as repostas imunes natural e adquirida. 54 unidAdE iVAlErgiA CAPítulo 1 desenvolvimento e mecanismosparticipadores Algumas doenças humanas causam respostas imunes a antígenos ambientais que levam à produção de anticorpos do tipo IgE (imunoglobulina tipo E) que são específicos para esses antígenos. Quando o antígeno se liga com células tipo mastócitos e basófilos, elas são ativadas e liberam vários mediadores que juntos causam aumento da permeabilidade vascular, vasodilatação e bronco constrição da musculatura lisa visceral reação conhecida como hipersensibilidade imediata, também chamada de alergia ou atopia. Características gerais das reações de hipersensibilidade imediata Ativação de células tipo Th2 e produção de IgE são o que caracterizam as doenças alérgicas. Há uma ordem de eventos desencadeados na alergia e é a seguinte: » Exposição a um antígeno. » Ativação de células Th2 e produção de anticorpos específicos para o antígeno. » Produção de anticorpos IgE. » Ligação dos anticorpos aos receptores Fc dos mastócitos. » Estímulo dos mastócitos. » Liberação de mediadores dos mastócitos. » Reação patológica. 55 AlErgiA │ unidAdE iV Muitos genes (unidade funcional onde se encontra o DNA) suscetíveis à alergia fazem com que haja uma forte predisposição genética para o desenvolvimento da hipersensibilidade imediata. Os alérgenos, que são antígenos que desencadeiam a alergia, geralmente são proteínas e substâncias químicas ambientais comuns (por exemplo, pólen das flores). Uma reação vascular e da musculatura lisa se desenvolvem rapidamente após a exposição repetida ao alérgeno caracterizando as manifestações clínicas e patológicas juntamente com uma reação inflamatória mais tardia. A hipersensibilidade imediata se manifesta de modo diferente podendo ser alergias na pele, mucosas, alergias a alimentos, asma e anafilaxia sistêmica. figura 23. Reação de hipersensibilidade. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. 56 CAPítulo 2 respostas imunes na alergia Produção de igE A imunoglobulina IgE é o responsável por sensibilizar os mastócitos e proporcionar o reconhecimento do antígeno para as reações de hipersensibilidade, sendo produzido em altos níveis por pacientes alérgicos. natureza dos alérgenos Os alérgenos podem ser proteínas ou substâncias químicas ligadas a proteínas às quais o indivíduo é exposto repetidamente e diferentemente dos micróbios, não estimula respostas imunes inatas que promoveriam a ativação de macrófagos e secreção de citocinas indutoras de Th1. Essa ativação crônica de linfócitos T, na ausência de resposta imune inata, pode impulsionar os linfócitos TCD4+ para a via Th2 porque os próprios linfócitos T fabricam IL-4 que é a principal citocina indutora de Th2. Ativação de células th2 A ativação de células T auxiliares CD4+ do subgrupo Th2 e a secreção de IL-4 e IL-13 são necessárias para a síntese de IgE. As células T se diferenciam no subgrupo Th2 de células efetoras que quando diferenciadas promovem a mudança para IgE. As células Th2 além de estimularem a produção de IgE contribuem também para a inflamação da reação tardia. Ativação de linfócitos B troca para igE Células Th2 ativam os linfócitos B específicos para alérgenos. Sob a influência de citocinas e ligantes produzidos pelas células Th2, os linfócitos B sofrem a troca de isotipos (um dos cinco tipos de anticorpos (IgM, IgD, IgG, IgA e IgE) e produzem IgE. Quando IgE específica para alérgeno é produzida pelos linfócitos B, estes entram na circulação e se liga a receptores Fc nos mastócitos teciduais que ficam sensibilizados e a postos para reagir a um encontro subsequente com o alérgeno. 57 ALERGIA │ UNIDADE IV Papel de mastócitos, basófilos e eosinófilos na hipersensibilidade imediata Os basófilos, eosinófilos e principalmente os mastócitos, são células efetoras das reações de hipersensibilidade imediata e doença alérgica, pois todas contêm grânulos citoplasmáticos cujos conteúdos são os principais mediadores das reações alérgicas como também produzem mediadores lipídicos e citocinas que induzem inflamação. Propriedades dos mastócitos e basófilos Os mastócitos maduros são encontrados em todo o corpo, principalmente perto de vasos sanguíneos e nervos abaixo do epitélio. Variam em sua forma e tem núcleo redondo com citoplasma contendo grânulos ligados à membrana e corpos lipídicos. Os mastócitos estão subdivididos em dois subgrupos: » Mastócitos do tecido conjuntivo: predominam em pele e mucosa intestinal. » Mastócitos das mucosas: predominam em alvéolos e mucosa intestinal. Os basófilos não estão presentes normalmente nos tecidos, mas podem ser recrutados para alguns pontos de reações inflamatórias. Ativação dos mastócitos Eles são ativados por meio de uma ligação cruzada de moléculas do FcԑRI com antígenos multivalentes às moléculas de IgE que estão nos receptores Fc. Essa ativação terá três tipos de respostas biológicas: » Secreção de conteúdo pré-formado de seus grânulos por um processo regulado por exocitose. » Síntese e secreção de mediadores lipídicos. » Síntese e secreção de citocinas. Compostos polibásicos, peptídeos (formados pela união de moléculas orgânicas chamadas aminoácidos que são essenciais ao funcionamento do organismo), quimiocinas (família de citocinas que estimula o movimento leucocitário e regula a migração de leucócitos do sangue aos tecidos) e anafilotoxinas (fragmentos derivados do complemento que se ligam a receptores específicos da superfície celular e promovem a inflamação aguda) podem ativar os mastócitos diretamente independente das ligações cruzadas. 58 unidAdE iV │ AlErgiA Essa ativação direta pode ser importante nas reações de hipersensibilidade imediata sem mediação imune ou podem amplificas as reações mediadas por IgE. Alguns mediadores são derivados dos mastócitos, como, por exemplo: » Aminas biogênicas: ou aminas vasoativas são mediadores pré-formados que são armazenadas e liberadas dos grânulos citoplasmáticos. O principal mediador é a histamina que tem curta duração, pois é removida rapidamente do meio extracelular. A ligação da histamina pode causar: contração celular aumentando a permeabilidade vascular; estimula células endoteliais a sintetizarem relaxantes musculares promovendo a vasodilatação; pode causar vasoconstrição da musculatura lisa intestinal e brônquica aumentando o peristaltismo e também o broncoespasmo. » Enzimas e peptídeoglicanos dos grânulos: a triptase e a quimase são os constituintes proteicos mais abundantes nos grânulos secretores dos mastócitos e contribuem para a lesão tecidual. Heparina e sulfato de condroitina são proteoglicanos que constituem os grânulos dos mastócitos. » Mediadores lipídicos: os principais representantes são a prostaglandina D2 e os leucotrienos que é um derivado do ácido araquidônico e tem vários efeitos sobre os vasos, o músculo liso brônquico e os leucócitos. O fator ativador de plaquetas tem ação direta de bronco constrição, causa retração das células endoteliais e pode relaxar a musculatura lisa vascular. » Citocinas: várias são produzidas e contribuem para a inflamação alérgica. Propriedades dos eosinófilos São granulócitos derivados da medula óssea, abundantes nos infiltrados inflamatórios das reações de fase tardia e contribuem para muitos processos patológicos e doenças alérgicas. Os eosinófilos são ativados e recrutados para os locais inflamatórios pelas citocinas produzidas pelas células Th2. Proteínas presentes nos grânulos dos eosinófilos são tóxicas para organismos parasitários e podem lesar o tecido normal. 59 ALERGIA │ UNIDADE IV figura 24. propriedades dos mastócitos, basófilos e eosinófilos. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. reações de hipersensibilidade imediata Elas consistem em reações imediatas onde as respostas vasculares e do músculo liso são dominantes e a fase tardia é caracterizada pelo recrutamento de leucócitos e inflamação. reação imediata Demonstrada pela reação de pápula e halo eritematoso após a injeçãointradérmica de um alérgeno, devido às alterações vasculares precoces. A reação de pápula e o halo eritematoso é dependente de mastócitos e IgE. reação de fase tardia Dentro de 2 a 4 horas após a reação de pápula e eritema ocorre a reação de fase tardia onde há um acúmulo de leucócitos inflamatórios, incluindo neutrófilos, eosinófilos, basófilos e células Th2. A reação de fase tardia pode acontecer sem reação de hipersensibilidade imediata precedente detectável, como acontece na asma brônquica, por exemplo. 60 UNIDADE IV │ ALERGIA Alergia, o mal do século As alergias fazem vítimas em ritmo de epidemia. Mas novos estudos e drogas mostram que é possível cortar o mal pela raiz. Por Jomar Morais Um menino americano é atualmente um símbolo de esperança para milhões de pessoas que padecem de uma doença que não apenas maltrata suas vítimas e as inabilita para os prazeres mais corriqueiros da vida como também, não raro, pode matá-las. Drew William, 13 anos, é agora uma criança quase normal. Em Dillon, no Estado do Colorado, sua cidade natal, ele pratica esportes, brinca na rua com os amigos, diverte-se com animais domésticos. Não era assim até dois anos atrás. Jogar no time de beisebol da escola, por exemplo, era algo impossível. Bastavam alguns minutos de esforço físico e o menino curvava-se, ofegante. Ir ao cinema ou frequentar ambientes com aglomeração de pessoas quase sempre significava o início de uma sessão de tortura, provocada pelo súbito estreitamento de suas vias respiratórias. Pior: o simples contato com alguém que tivesse antes acariciado um gato ou um cão podia mandá-lo para o hospital. “Minha vida se resumia a tomar quilos de remédios”, lembra o garoto. Drew tinha crises agudas de asma, um tipo de alergia incômodo e traiçoeiro. Drew não está curado. Não depende mais de tantos remédios, mas ainda tem que tomar regularmente pelo menos um medicamento. A melhoria radical em sua qualidade de vida, porém, é um feito extraordinário que marca a maior vitória da ciência, em 80 anos, na luta para controlar as alergias em sua origem. Até então, todos os recursos desenvolvidos para combater a doença limitavam- se a aliviar sintomas, sem qualquer efeito preventivo. A virada começou nos laboratórios das empresas de biotecnologia Novartis, Genentech e Tanox, nos Estados Unidos, onde um grupo de cientistas produziu uma droga experimental, o Xolair. O remédio, previsto para chegar às farmácias no primeiro semestre de 2001, impede que as células do sistema imunológico sejam acionadas toda vez que o corpo entra em contato com algum alergênico – qualquer substância inofensiva que, por razões ainda não inteiramente compreendidas, é avaliada pelo sistema de defesa de quem é alérgico como um agente patológico. Pode ser o pólen de uma planta, a poeira doméstica impregnada de dejetos de ácaros, a proteína de um fruto do mar ou uma molécula do níquel usado em bijuterias. Mais de uma centena de substâncias atuam como alergênicos. Nessas ocasiões, o alarme falso costuma promover um cenário de guerra no qual as células de defesa disparam histaminas e outras 61 ALERGIA │ UNIDADE IV secreções letais que, na ausência de vírus e bactérias, acabam por agredir o próprio organismo, configurando a crise alérgica. O problema é sério. Cerca de dois bilhões de pessoas, um terço da população do planeta, apresentam complicações de fundo alérgico, segundo estimativas da Academia Americana de Alergia e Imunologia. Nenhuma outra doença, em momento algum da história, afetou tanta gente, dado suficiente para que especialistas comecem a encará-la como uma epidemia. Só nos Estados Unidos, a cada ano 5 000 pessoas morrem sufocadas durante crises de asma. Outros 90 milhões de americanos convivem diariamente com o desconforto de rinites e dermatites, as variedades alérgicas mais comuns. Aqui, estima-se que as alergias atazanem a vida de 25 milhões de brasileiros – 50% mais que há 20 anos – e que estejam por trás de metade das faltas ao trabalho em São Paulo, a maior cidade do país. Encontrar a cura efetiva para o mal se tornou, assim, um desafio que envolve mais do que interesses de saúde pública. A pista que levou ao desenvolvimento do Xolair foi dada por uma descoberta recente na geografia do sistema imunológico. Cientistas da Escola Médica de Harvard e da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, constataram que a imunoglobulina E, ou IgE – o anticorpo que ativa as células de defesa nos processos alérgicos –, é uma estrutura em forma de Y dotada de duas caudas que se movimentam em direção a uma espécie de fechadura existente na membrana da célula de defesa. Só após o encaixe das presilhas da imunoglobulina nessa reentrância celular é que a ação defensiva é disparada. Com o Xolair, os pesquisadores da Novartis, da Genentech e da Tanox garantem ter criado um clone de anticorpo capaz de se encaixar na “fechadura” da célula de defesa antes que o IgE a alcance, impedindo desse modo que o processo alérgico seja detonado. O anticorpo anti-IgE, como é conhecido o novo remédio entre especialistas, já foi testado em 2000 pacientes – o menino Drew é apenas o mais conhecido – e demonstrou ter ação polivalente diante de uma doença de mil faces. Substâncias alergênicas podem provocar irritações na pele, inflamações nas mucosas, distúrbio intestinal, bloqueio das vias respiratórias e muito mais. Por agir em um ponto do processo comum a todas as complicações, espera- se que o Xolair funcione em todas elas. A fórmula, porém, está longe de ser a solução definitiva do problema, segundo Wilson Rocha Filho, coordenador do Serviço de Alergia e Pneumologia Pediátrica do Hospital Felício Rocha, em Belo Horizonte. “Ela não impede a produção de IgE”, diz Wilson. “E é aí que está o xis da questão.” 62 UNIDADE IV │ ALERGIA Um alérgico que venha a tomar o Xolair poderá evitar os dissabores da reação desproporcional do seu sistema imunológico diante de um alergênico. Entretanto, o organismo prosseguirá produzindo IgE e disparando ordens de ataque que, amanhã, talvez consigam vencer o bloqueio do remédio ou provocar efeitos ainda desconhecidos no corpo. Trata-se de um detalhe que tem a ver com as causas profundas das alergias, outra área escura recentemente iluminada por novas pesquisas. Durante muito tempo imaginou-se que as alergias eram um mal hereditário, a partir de evidências que mostram ser de até 70% a probabilidade de filhos de pais alérgicos desenvolverem a doença. O avanço dos processos alérgicos no ritmo do desenvolvimento tecnológico e da melhoria das condições de vida levou os cientistas a considerar outras hipóteses. Sabe-se agora que populações carentes do Leste da Rússia, da Índia, da Indonésia e da África registram até 50% menos incidência de casos de alergias que as de países ricos – sobretudo quando comparadas aos habitantes das grandes metrópoles europeias e americanas, onde há mais assepsia e cuidados médicos. Dados de estudos realizados este ano pela pediatra alemã Erika von Martius e por cientistas do Laboratório de Imunologia e Alergia de Roma acabaram por expor um paradoxo sobre o qual se vai edificando uma explicação surpreendente para a causa das alergias – a chamada “hipótese higiênica”. Ao observar crianças que vivem em fazendas no interior da Alemanha e da Áustria, onde bebem leite cru e estão em contato com a terra e o esterco, Erika constatou que a ocorrência de complicações alérgicas entre elas é 75% menor do que entre meninos que moram nas cidades. Já o estudo italiano, que envolveu 480 cadetes da Força Aérea e foi tema de artigo no British Medical Journal, revelou que as alergias respiratórias são menos frequentes entre militares que na infância estiveram expostos a micróbios transmitidos pela água e alimentos não tratados. É inusitado, mas diante de achados como esses, os estudiosos inclinam-se a concluirque a supressão de doenças como sarampo, rubeóla, caxumba e até as verminoses da infância – todas praticamente erradicadas nos países desenvolvidos – pode ter também o seu lado nocivo, por deixar ocioso o sistema imunológico, que ficaria como que “inventando” inimigos. “Alguma coisa no estilo de vida ocidental está contribuindo para os processos alérgicos”, afirma Donald Leung, chefe da Divisão de Pediatria do National Jewish Medical and Research Center, em Denver, um dos núcleos de estudos avançados sobre as alergias. A aceitação da “hipótese higiênica” está crescendo na comunidade médica e isso pode levar a uma revisão de posturas no trato 63 ALERGIA │ UNIDADE IV com crianças. “Até meninos que ficam resfriados com mais frequência nos primeiros anos de vida parecem menos propensos a desenvolver alergias”, lembra Wilson. O zelo de pais superprotetores, que não permitem que os filhos andem descalços, tenham contato com animais ou que só banham bebês em água mineral ou fervida, seria, portanto, contraproducente. Nesse contexto também não há lugar para o pavor de germes, como o que levou o magnata americano Howard Hughes, morto em 1976, a passar os últimos 30 anos da sua vida recolhido a uma sala asséptica a fim de não contrair doenças. Essa tese apoia-se na hipótese de que a exposição a micróbios na infância reforça os linfócitos – células brancas do sangue que atuam no combate a bactérias do tipo Th1, fazendo-as prevalecer sobre os linfócitos Th2, que também reagem a parasitas, mas são responsáveis pelo erro de avaliação que induz o processo alérgico. São os Th2 que, diante de substâncias alergênicas, estimulam a produção do anticorpo IgE. Num sistema imunológico que não enfrentou agentes patológicos nos primeiros anos de vida, conforme essa hipótese, dá-se a inibição das células Th1, deixando o campo livre para as “leituras” equivocadas dos linfócitos Th2. Claro que isso tudo não significa que você deva ceder quando seu filho se recusar a tomar banho. “Mas é provável que o corpo humano não esteja conseguindo mudar tão rapidamente quanto a civilização”, diz Fernando Martinez, diretor do Departamento de Ciências da Respiração da Universidade do Arizona. Convivemos há milênios com vírus e bactérias e, de repente, nos tornamos altamente assépticos. Jamais também nossos hábitos alimentares foram alterados tão radicalmente nem houve tanto acesso a remédios e outros produtos químicos – detalhe que, pelo menos no que se refere a alergias, tem aproximado a medicina tradicional das terapias alternativas e aberto caminho para os tratamentos baseados em alimentação saudável e que prevêem menos drogas em circulação no organismo. Para quem está acostumado a aliviar crises alérgicas respiratórias com anti- histamínicos e esteroides – drogas que, entre outros efeitos colaterais, podem afetar os reflexos e o processo do crescimento em crianças, é difícil acreditar que uma simples dieta possa resolver o seu problema. Mas o músico paulistano Marcelo Effori, 30 anos, afirma que foi por meio da dieta higienista, que conseguiu livrar-se de uma rinite que o fustigava desde criança. “Fazia inalações constantes e tomei até vacinas, mas nada adiantava”, afirma. “Como fico muito tempo dentro de estúdios com ar-condicionado, gravando, a rinite era uma tortura.” 64 UNIDADE IV │ ALERGIA A homeopatia também tem sido usada com frequência no tratamento das alergias. Esse método terapêutico, criado há mais de dois séculos pelo médico alemão Samuel Hahnemann, acaba de ter sua eficácia no tratamento de rinites referendada por um estudo da Universidade de Glasgow, na Escócia. A pesquisa envolveu 51 pacientes, divididos em dois grupos. Os integrantes de um deles, tratados com remédios homeopáticos, apresentaram após um mês um índice de melhora de 28%, contra apenas 3% do grupo que tomou apenas placebo (substância sem o princípio ativo). Na clínica homeopática do Hospital do Servidor Público Municipal, em São Paulo, esse tipo de terapia tem sido eficaz em 70% dos casos de asma, segundo Romeu Carrillo Júnior, diretor da unidade. Alergias são o motivo de 10 milhões de consultas médicas por ano nos Estados Unidos. No mundo, só a venda de anti-histamínicos movimenta 8 bilhões de dólares anualmente. São números superlativos que não conseguem expressar, no entanto, o drama real de quem padece com a doença, como atesta o alergista Wilson. “Um de meus clientes, uma criança de 12 anos, é alérgica a leite de vaca e já teve vários choques anafiláticos por causa da ingestão acidental de leite, às vezes em produtos em que jamais se imaginaria existisse tal ingrediente, como sardinha enlatada”, diz o médico. A sensibilidade do menino à lactase, uma proteína láctea, é tamanha que o simples fato de o leite ferver na cozinha é suficiente para deixá-lo em crise no quarto. Seu problema continua inalterado após um tratamento de dessensibilização com vacinas experimentais americanas. Mesmo nos casos triviais, como rinites e eczemas, as alergias trazem embutidos riscos maiores. Rinites desaguam com frequência em sinusites crônicas e podem provocar pneumonia. Eczemas costumam ser um incômodo ainda maior para pessoas submetidas a estresse. Há também os casos de alergias a picadas de insetos, que podem ser fatais. “Picadas de abelha matam, a cada ano, 40 pessoas com hipersensibilidade à enzima do inseto nos Estados Unidos”, diz o dermatologista João Luiz Cardoso, do Hospital Vital Brazil, em São Paulo, especializado em problemas decorrentes do ataque de animais peçonhentos. “Em nosso hospital, 15% dos atendimentos são feitos nessa área.” Pessoas com esse tipo de fragilidade terão um dia a chance de viver normalmente? Enquanto se debate a parcela de culpa da modernidade na expansão das alergias, as esperanças de soluções em curto prazo se concentram na engenharia genética, em cujos laboratórios desenvolvem-se novos clones e vacinas que possam funcionar. No ano passado, uma equipe americana da Universidade Johns Hopkins em Baltimore testou com êxito, em ratos, uma vacina feita a partir do DNA do amendoim, pasme, uma das fontes mais frequentes e perigosas de 65 ALERGIA │ UNIDADE IV alergia alimentar. Se funcionar em humanos, dentro de algum tempo, muita gente poderá se ver livre da obrigação de andar com injeções de adrenalina, o antídoto, para proteger-se em casos de ingestão acidental do alergênico. Em Medford, Massachusets, a Kinetix Pharmaceuticals tem outro alvo: a criação de um inibidor da enzima kinase, que cataliza as reações da célula de defesa após o acoplamento do anticorpo IgE e tende a ser uma alternativa para os pacientes nos quais o anti-IgE sintético não faz efeito – afinal, cerca de 15% do grupo de teste não respondeu positivamente à droga. Podem não ser o ideal, mas são avanços que melhoram consideravelmente a rotina de pessoas como Drew William, o menino que voltou a viver após o Xolair. “Eu agora posso jogar beisebol sem preocupação”, diz o garoto. “Na verdade, posso fazer quase tudo.” Fonte: Acessado em: 3 dez. 2014. 66 CAPítulo 3 tratamento via componentes imunes imunoterapia para doenças alérgicas Os imunologistas tentam limitar o início das reações alérgicas tentando reduzir a quantidade de IgE presente no indivíduo. Vários protocolos empíricos estão sendo desenvolvidos por meio da administração repetida de pequenas quantidades de antígenos por via subcutânea para que os níveis de IgE específica diminuam e os títulos de IgG aumentem, talvez inibindo ainda mais a produção de IgE. A imunoterapia faz parte de um tratamento, ou seja, o uso de medicamentos deve ser mantido assim como as medidas de controle. Ela é indicada quando o alérgeno não for afastado totalmente do paciente, como, por exemplo, a poeira. O tempo para tratamento varia de 2 a 4 anos dependendo do grauda alergia. Por ser um tratamento de vacinação, a forma de administração é injetável subcutânea. Pessoas com rinite alérgica, asma, conjuntivite alérgica, alergias a insetos têm indicações da imunoterapia. Elas terão como benefícios a diminuição dos sintomas melhorando a qualidade de vida dos alérgicos podendo até mesmo não precisar mais usar medicamentos. imunoterapia com Alérgenos (Vacinas para Alergia) o que é imunoterapia? A imunoterapia com alérgenos, também chamada de vacina para alergia, é uma forma de tratamento utilizado há mais de 50 anos com o objetivo de diminuir a sensibilidade de pessoas que se tornaram alérgico a determinadas substâncias. O tratamento consiste na aplicação de alérgeno ao qual o paciente é sensível em doses crescentes por um período de tempo que é variável (1 a 3 anos). A imunoterapia induz uma série de alterações na resposta imune que estão associadas à melhora clínica. o que é alergia? Alergia é uma reação do sistema imunológico. Uma das apresentações mais comuns de alergia é caracterizada pela formação de anticorpos de uma determinada classe de proteína, chamada de imunoglobulina E (IgE). Esses 67 ALERGIA │ UNIDADE IV anticorpos são específicos para componentes (alérgenos) do ambiente, como os ácaros da poeira, pólens, fungos, alimentos e insetos. de que forma a Alergia pode se manifestar? Uma vez que a pessoa tenha se sensibilizado (formado anticorpos IgE), a reação alérgica pode ocorrer de forma imediata após o contato com o agente (alérgeno) ou se estabelecer lentamente vindo a se manifestar de forma contínua. Isso depende do grau de sensibilização (quantidade de anticorpos IgE), do tipo de alérgeno que suscitou a reação e da frequência do contato com o mesmo. Exemplo de manifestação aguda e potencialmente grave é a reação anafilática que pode ser desencadeada por alimentos, medicamentos e por insetos, como abelhas, vespas (marimbondos) e formigas. Por outro lado, a asma e a rinite alérgica ou rinoconjuntivite alérgica são exemplos de manifestações alérgicas que ocorrem de forma crônica por exposição contínua a alérgenos do ambiente derivados de ácaros, pólens e fungos do ar, entre outros. qual o objetivo da imunoterapia? A imunoterapia procura reduzir o grau de sensibilização (nível de anticorpos IgE e da reação nos tecidos) impedindo reações alérgicas imediatas graves – como a anafilaxia – e, também, interferir na inflamação característica das condições alérgicas de longa evolução observadas na rinite alérgica e na asma brônquica. quando a imunoterapia pode ser indicada? A imunoterapia pode ser indicada para pessoas sensíveis aos ácaros da poeira doméstica, pólens, fungos e venenos de insetos (abelhas, vespas, marimbondos e formigas). De modo geral, a sensibilização a estes alérgenos está associada a manifestações respiratórias (rinite e asma) e a reações graves, como a anafilaxia por picada de insetos. Não existe indicação de imunoterapia para alergia a alimentos e para os quadros de alergia por contato. A indicação da imunoterapia deve ser fundamentada: » na comprovação da sensibilização (presença de anticorpos IgE para os alérgenos); » na avaliação da importância da alergia no quadro clínico do paciente; e » na disponibilidade do alérgeno para o tratamento. 68 unidAdE iV │ AlErgiA É importante ressaltar que as vacinas com alérgenos não devem ser aplicadas como forma isolada de tratamento. Ao contrário, a abordagem do paciente alérgico deve contemplar medidas de controle da exposição a alérgenos e o uso de medicamentos para controle e prevenção das manifestações clínicas. Dessa forma, a imunoterapia com alérgenos deve ser considerada como parte de um plano de tratamento que inclui medidas de controle ambiental e farmacoterapia. A impossibilidade do afastamento total do contato com o alérgeno, a intensidade das manifestações clínicas que determinem necessidade de medicação constante e a concordância do paciente em receber imunoterapia são fatores que devem ser analisados na indicação da imunoterapia com alérgenos. quais os benefícios da imunoterapia? A modificação da resposta imune do paciente alérgico é o ponto de capital interesse da imunoterapia. Muitos estudos demonstram a eficácia da imunoterapia com alérgenos na rinite, na asma e nos quadros de alergia a veneno de insetos. As vacinas para alergia provocam diminuição dos sintomas de rinite e asma, com melhora perceptível na qualidade de vida da pessoa alérgica. Em pacientes com rinite existem estudos demonstrando que a imunoterapia pode prevenir o surgimento de sensibilização para outros alérgenos e também impedir a evolução de rinite para asma. O emprego de imunoterapia com veneno de insetos é muito eficaz em bloquear a reatividade do alérgico, provocando o desaparecimento da sensibilização alérgica. Por que fazer imunoterapia? A sensibilização (formação de anticorpos IgE) para alérgenos do ambiente é fenômeno duradouro. É difícil controlar totalmente a exposição a alérgenos ambientais. Dessa forma, a continuação do contato determina a perpetuação da reação imune nos tecidos (mucosa nasal, conjuntivas, brônquios). A Organização Mundial da Saúde (OMS), em relatório elaborado por especialistas internacionais, endossou o emprego das vacinas com alérgenos: 1. Em pacientes que apresentam reações graves (anafiláticas) a insetos (abelhas, vespas, marimbondos e formigas); e 2. Nos indivíduos sensíveis a alérgenos ambientais que apresentem manifestações clínicas, como rinite, asma, conjuntivite etc. 69 ALERGIA │ UNIDADE IV qual a melhor forma de aplicação de imunoterapia? O método mais utilizado de aplicação de imunoterapia é por meio de injeções subcutâneas. Estudos recentes com vacinas orais tem demonstrado efeito similar às preparações injetáveis. É necessário alertar que as vacinas com alérgenos não são disponíveis em farmácias. A pessoa alérgica somente tem acesso a esta forma de tratamento por meio de indicação e orientação médica detalhada. A duração da imunoterapia após a obtenção do máximo efeito clínico ainda não foi estabelecida. Para muitos deveria ser de 3 a 5 anos. Outros advogam tempo maior de aplicação. A decisão sobre a duração do tratamento deve ser tomada em bases individuais. quem deve orientar a imunoterapia? Para fazer a orientação adequada de imunoterapia, o médico deve estar familiarizado com alérgenos relevantes na região e com métodos apropriados de diagnóstico. A escolha do(s) alérgeno(s) para imunoterapia deve ser baseada na identificação da presença de anticorpos IgE específicos (por meio de testes cutâneos, preferencialmente) para alérgenos ambientais de importância na região. As alergias respiratórias no Brasil estão associadas à sensibilização aos ácaros da poeira doméstica, principalmente. No sul do Brasil se detecta a ocorrência de polinose, sendo as gramíneas as principais responsáveis. Para orientar a aplicação de imunoterapia, o médico deve ter capacitação específica. A imunoterapia com alérgenos é acompanhada de riscos. Ao iniciar imunoterapia o paciente deverá ser informado desta possibilidade e o médico deve estar preparado para tratar reações adversas, que podem ser graves. Reações locais são comuns e pode ocorrer urticária generalizada. Alguns pacientes apresentam agravamento transitório da manifestação clínica após aplicação do extrato alergênico. Nessas condições é necessário ajustar a dose de alérgeno empregada. Existem contraindicações à imunoterapia? Em pacientes que também sofram de asma é necessário cautela ainda maior, uma vez que apresentam maior risco de desenvolver reações. Pacientes com asma não controlada ou em crise de asma não devem receber aplicação de imunoterapia. 70 UNIDADE IV │ ALERGIA A imunoterapia é contraindicada em pacientes com doença coronariana, em pessoas que usem determinado grupo de anti-hipertensivo (betabloqueadores) ouque sofram de outras doenças do sistema imunológico, tais como imunodeficiências e doenças autoimunes. Fonte: Acessado em: 1 out. 2014. 71 unidAdE ViMunodEfiCiênCiAS CAPítulo 1 imunodeficiências primárias As imunodeficiências são defeitos em um ou mais componentes do sistema imunológico que podem causar doenças sérias e fatais. Elas podem ser primárias ou congênitas, que são defeitos genéticos que resultam no aumento na susceptibilidade a infecções que se manifesta precocemente em bebês e crianças. Já as imunodeficiências adquiridas ou secundárias são desencadeadas por causa da desnutrição, câncer disseminado, tratamento com imunossupressores ou infecção das células do sistema imunológico. Características gerais das doenças por imunodeficiência Se um paciente tem uma imunodeficiência consequentemente ele está mais susceptível a infecções, pois pode haver defeitos no desenvolvimento ou ativação dos linfócitos ou de defeitos nos mecanismos efetores da imunidade natural e adquirida, sendo essas as principais consequências das imunodeficiências. Quando há uma deficiência na imunidade humoral, o paciente fica sujeito a maiores infecções por bactérias piogênicas ao passo que defeitos na imunidade celular aumenta a susceptibilidade a infecções por vírus e microrganismos intracelulares. imunodeficiências congênitas Nas imunodeficiências, a primeira anormalidade pode ser nos componentes do sistema imunológico natural, em diferentes estágios do desenvolvimento dos linfócitos ou nas respostas dos linfócitos maduros ao estímulo antigênico. 72 unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS Desenvolvimento e função alterados dos linfócitos B resultam na deficiência da produção de anticorpos e aumento na susceptibilidade a infecções causadas por microrganismos extracelulares. Já as anormalidades no desenvolvimento e função dos linfócitos T causam deficiência na imunidade celular aumentando a incidência de infecções por microrganismos intracelulares. defeitos na imunidade natural As células fagocitárias e o sistema complemento são a primeira linha de defesa. Portanto, distúrbios que os afeta causam infecções recorrentes. doenças granulomatosa crônica É uma doença rara causada por mutações em componentes do complexo da enzima oxidase fagocitária (produção defeituosa de espécies reativas de oxigênio), ou seja, há uma deficiência na atividade microbicida das células fagocitárias resultando em infecções recorrentes por bactérias intracelulares e fungos. deficiência da adesão leucocitária tipo i Também uma doença rara causada por mutações no gene que codifica a cadeia β (beta) das integrinas e assim causa uma deficiência na adesão e migração leucocitárias ligadas à expressão reduzida ou ausente nas integrinas β2. Nesse tipo de deficiência, o paciente apresenta infecções bacterianas e fúngicas recorrentes. Síndrome de Chédiak-Higashi Doença rara causada por mutações no gene que codifica a proteína reguladora do tráfego de lisossomos, LYST, causando defeito na fusão das vesículas e na função lisossômica nos neutrófilos, macrófagos, células dendríticas, células NK, células T citotóxicas (TCD8) e outros tipos de células. Assim, o paciente fica susceptível a infecções recorrentes causadas por bactérias piogênicas. Menos de 500 casos tendo sido diagnosticados nos últimos 20 anos, e por ser transmitida por herança autossômica recessiva, torna-se mais frequente quando existe consanguinidade. Em geral é diagnosticada em crianças por volta dos 5 anos de idade 73 iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V e a maioria dos afetados morre antes dos 10 anos de idade. A forma homozigótica da doença é praticamente incompatível com a vida, pois os afetados são muito suscetíveis a infecções bacterianas. Em heterozigose os sintomas são mais brandos. Os leucócitos visualizados em esfregaços de sangue ou medula óssea de pacientes que apresentam essa anomalia possuem granulações gigantes típicas quando visualizados ao microscópio óptico. As células também apresentam alterações de função, que serão melhor discutidas posteriormente, pois esta doença será novamente abordada com relação às anomalias de função dos leucócitos. Essas granulações anômalas correspondem a lisossomas das células que adquirem aspecto gigante e são menos numerosos que os lisossomas das células normais. Esses grânulos ocorrem por associação de lisossomas ou de granulações primárias devido a defeito genético da membrana lisossomal. A doença se caracteriza por uma fase crônica e uma fase acelerada ou linfoproliferativa. A fase crônica se caracteriza por albinismo, alteração da cor dos cabelos (cinza prata), infecções piogênicas frequentes e febre. A fase acelerada é caracterizada por febre, hepatoesplenomegalia, tendência a sangramentos, aumento dos nódulos linfáticos, diminuição de todos os elementos celulares do sangue e infecções graves. figura 25. leucócito apresentando granulações características da anomalia de Chédiak-Higashi-Steinbrinck. fonte: figura adaptada de . Acessado em: 1 jul. 2014. , 74 UNIDADE V │ IMUNODEFICIÊNCIAS Síndrome de Chediak-Higashi: relato de Caso e revisão de literatura Chediak-Higashi’s syndrome: a case report and review of literature. Viviane A. Colla1, Beatriz T. Costa Carvalho2, Irma C. Douglas3, Raquel B. Pires4, Maristela M. Salgado5,Magda M. Carneiro Sampaio6, Dirceu Solé7, Charles K. Naspitz8 resumo Objetivo: apresentar o caso de paciente parda portadora de síndrome de Chediak-Higashi (SCH). Método: além dos dados de história clínica e de exame físico, a paciente foi submetida à investigação laboratorial para imunodeficiência. Resultados: as principais manifestações clínicas da paciente eram albinismo parcial óculo-cutâneo e infecções de repetição. Os exames laboratoriais revelaram a presença de inclusões intracitoplasmáticas gigantes em leucócitos do sangue periférico e em células precursoras na medula óssea. A avaliação funcional dos leucócitos do sangue periférico foi normal. Quatro meses após o diagnóstico, a criança desenvolveu a fase linfoproliferativa evoluindo para óbito. Conclusões: são discutidas as principais alterações laboratoriais que caracterizam a SCH, tecem-se comentários sobre os possíveis fatores etiológicos, bem como os avanços no seu tratamento. Rev. bras. alerg. imunopatol. 1998; 21(3):83-90 imunodeficiência, síndrome de Chediak-Higashi, albinismo, transplante de medula óssea. introdução A síndrome de Chediak-Higashi (SCH) é uma doença rara que ocorre por disfunção primária de fagócitos, caracterizada por albinismo parcial óculo-cutâneo, suscetibilidade aumentada às infecções e presença de inclusões gigantes em leucócitos do sangue periférico e na maioria das células. De herança autossômica recessiva, é mais frequente em filhos de pais consanguíneos, sendo muito rara na raça negra. O diagnóstico da SCH geralmente 1 Estagiárias 2 Profa. Adjunta 3 Estagiárias 4 Pesquisadora do Instituto Adolfo Lutz 5 Estagiárias 6 Professora Titular do Departamento de Imunologia - Instituto de Ciências Biomédicas - Universidade de São Paulo 7 Prof Associado e Livre-Docente 8 Prof Titular - Disciplina de Alergia, Imunologia Clínica e Reumatologia, Departamento de Pediatria, Universidade Federal de São Paulo- Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM) 75 IMUNODEFICIÊNCIAS │ UNIDADE V é feito nos primeiros cinco anos de vida, mas a maioria dos pacientes morre antes de completar dez anos. Além das inclusões gigantes típicas, à microscopia óptica, em esfregaço de sangue periférico e de medula óssea, a SCH cursa com alterações funcionais de fagócitos tais como: atividade quimiotática e microbicida reduzidas e alteração da atividade de células “natural killer”. A fase crônica da SCH é caracterizada por albinismo, alteração da cor dos cabelos (cinza prata), infecções piogênicas frequentese febre. A fase acelerada, também denominada de linfoproliferativa, evolui com febre, hepatoesplenomegalia, tendência a sangramentos, linfoadenomegalia, pancitopenia e infecções graves. É de etiologia obscura e prognóstico sombrio. Neste trabalho apresentamos um caso SCH em menina parda, ressaltando as características clínico-laboratoriais, bem como os avanços terapêuticos no manejo desses pacientes. relato do caso AGM, 18 meses, sexo feminino, parda, natural de Orós (Ceará), filha única de pais não consanguíneos, nasceu de parto normal a termo com peso de 2750g e estatura de 48cm. Durante o primeiro mês de vida apresentou impetigo e aos três meses foi hospitalizada por gastroenterocolite aguda. Nesta mesma ocasião os cabelos e a pele, em região dorsal e membros, clarearam. Foi avaliada em serviço médico tendo sido cogitada a hipótese diagnóstica de vitiligo. O seu desenvolvimento neuropsicomotor foi adequado e o esquema de vacinação completo para a idade. Aos 18 meses de idade foi atendida pela primeira vez na Disciplina de Alergia, Imunologia Clínica e Reumatologia do Departamento de Pediatria da UNIFESP-EPM. Nessa ocasião apresentava ao exame físico: cabelos cinza- prateados, fotofobia, hipocromia de pele (em face, tronco e membros) e adenomegalia generalizada. Foi hospitalizada com diagnóstico de abcesso em região cervical posterior, otite média aguda e pneumonia lobar direita que evoluiu com derrame pleural sem identificação do agente etiológico. Após a alta, foi acompanhada em ambulatório e apresentava-se ao exame físico com os seguintes dados relevantes: estado geral regular, levemente descorada, com déficit pôndero-estatural (peso e estatura abaixo do percentil 2,5), albinismo parcial óculo-cutâneo, fotofobia, cabelos cinza-prateados, amígdalas hipertrofiadas e adenomegalia submandibular e retroauricular bilaterais. A investigação 76 UNIDADE V │ IMUNODEFICIÊNCIAS laboratorial encontra-se no quadro 2. A tomografia computadorizada de tórax, pelve e abdôme revelou discreta hepatoesplenomegalia. Iniciou-se vitamina C e ampicilina contínuos. Evoluiu sem intercorrências nos quatro meses seguintes. Nessa época desenvolveu otite média à direita, sinusite e adenite cervical à esquerda. Apesar do tratamento com antimicrobianos, desenvolveu pneumonia em lobos inferiores, adenomegalia dolorosa e generalizada, acompanhada por hepatoesplenomegalia, sendo hospitalizada. Apresentou derrame pleural à direita e insuficiência respiratória, aumento rápido de volume dos gânglios, principalmente os cervicais, edema palpebral e hepatoesplenomegalia (fígado a 8cm do RCD e baço a 10 cm do RCE), falecendo em 48 horas. A avaliação imunológica realizada revelou imunidades humoral e celular adequadas, embora os níveis de IgG estivessem elevados (quadro I). A avaliação do sistema do complemento foi normal. O estudo dos fagócitos mostrou redução da atividade quimiotática dos neutrófilos do sangue periférico, com índice de fagocitose e morte intracelular normais e teste do nitrobluetretazolium (NBT) normal. Quadro 2. Avaliação imunológica do paciente com Síndrome de Chediak-Higashi. 77 IMUNODEFICIÊNCIAS │ UNIDADE V No quadro 3, são apresentados alguns procedimentos realizados durante o seguimento da paciente. Quadro 3. Exames realizados durante o acompanhamentoda paciente e sua relação com diagnóstico de Síndrome de Chediak-Higashi. discussão Segundo os dados do Registro Latinoamericano de Imunodeficiências Primárias (LAGID), as imunodeficiências primárias predominantemente de anticorpos são as de maior prevalência (65,7%), seguidas pelas celulares e combinadas (17,8%), pelas de fagócitos (13,8%) e por último, as do complemento (2,7%). Entretanto, os distúrbios funcionais de fagócitos têm sido cada vez mais identificados com a obtenção de métodos mais apropriados para o seu diagnóstico. Apesar de vir acompanhada de defeitos funcionais de fagócitos, de acordo com a classificação da OMS, a SCH está incluída nos defeitos metabólicos hereditários. Descrita inicialmente por Begues-César em 1943, a SCH foi inicialmente conhecida por Enfermidade de Begues-César. Em 1952, inicialmente Chediak e posteriormente Higashi (1954) descreveram uma série de pacientes com distribuição alterada da mieloperoxidase em grânulos dos neutrófilos. Posteriormente a síndrome passou a ser denominada como SCH. É uma doença rara e transmitida por herança autossômica recessiva. Dessa forma, é mais frequente quando existe consanguinidade, o que não ocorreu no caso 78 UNIDADE V │ IMUNODEFICIÊNCIAS relatado. Embora tenha sido descrita em praticamente todos os continentes, é muito rara em indivíduos da raça negra. Em geral, é diagnosticada ao redor dos 5 anos e a maioria dos portadores morre antes dos 10 anos de vida . Clinicamente, a SCH caracteriza-se por uma fase crônica e uma fase acelerada. Na fase crônica há o albinismo parcial óculo-cutâneo, cabelos com coloração cinza ou prateada, fotofobia, febre, infecções piogênicas frequentes, neuropatia periférica e às vezes retardo mental. As infecções de repetição não são tão graves quanto às da doença granulomatosa crônica e acometem principalmente a pele, as mucosas e o trato respiratório embora haja descrição de lesões intestinais semelhantes às da doença de Crohn. Os quadros infecciosos têm como principais agentes etiológicos: Staphilococcus aureus, Streptococcus (beta hemolítico), enterobactérias, fungos e vírus (Epstein Baar (EBV), Citomegalovirus, Herpes simples ou varicela zoster). Quadros infecciosos crônicos pelo EBV podem evoluir para leucemia linfocítica aguda. A fase acelerada (linfoproliferativa ou linfo-histiocítica) ocorre em cerca de 85% dos pacientes. Caracteriza-se por: febre, icterícia, hepa-toesplenomegalia, linfonodomegalia e alterações neurológicas (sonolência, parestesia, paralisia do nervo facial, déficit sensorial, degeneração espino-cerebelar). Pode ocorrer pancitopenia, com neutropenia acentuada, provavelmente decorrente de destruição intramedular dos granulócitos e hiperesplenismo, tendência a sangramentos graves em sistema nervoso central e trato gastrointestinal. Nessa fase, as infecções são muito graves. Há infiltrado linfoide e histiocítico extensos, processo linfoproliferativo não neoplásico ou mesmo desenvolvimento de doenças malignas (leucemia, linfoma), provavelmente decorrentes de mecanismos defeituosos no reparo do DNA e da deficiência da atividade de células «natural killer» (NK). Geralmente, a evolução é para o óbito, consequente a infecções, fenômenos hemorrágicos, linfoma ou leucemia. A nossa paciente evoluiu com septicemia, sangramentos, aparecimento de massa de provável origem linfoproliferativa (necrópsia não autorizada) e óbito. O albinismo parcial óculo-cutâneo e as infecções de repetição são geralmente as manifestações clínicas iniciais. Crê-se que o defeito básico seja uma anormalidade nas membranas de certas organelas intracitoplasmáticas que se fundem formando inclusões gigantes, típicas da doença e presentes na maioria das células. A elevada fluidez da membrana das células (característica dos pacientes com SCH), levando à desorganização dos microtúbulos, poderia explicar alterações como a fusão descontrolada de grânulos e o defeito de 79 iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V mobilização de leucócitos, caracterizando uma disfunção celular generalizada. Essas alterações justifi cam a atividade quimiotática e a capacidade bactericida reduzidas, embora essas células possuam fagocitose normal e metabolismo oxidativo exacerbado. A paciente estudada apresentava quimiotaxia reduzida, embora a capacidade bactericida estivesse normal. O comprometimento da fusão do vacúolo fagocitário com os grânulos lisossomais justifi ca a redução da atividade bactericida dessas células. A presença de mielopoiese inefetiva, sequestro esplênico, atividade quimiotática reduzidade macrófagos, monócitos e neutrófi los, anormalidades funcionais de células NK (mínima citotoxicidade), neutropenia, defi ciências quantitativas de proteases granulares (atraso na liberação do conteúdo enzimático lisossomal) e reduzida capacidade bactericida são causas de suscetibilidade aumentada às infecções. Não há alteração na geração de H2O2. A agregação anormal dos grânulos de melanina nos melanócitos dos fâneros é responsável pelas modifi cações de pigmentação. Há melanossomos gigantes em pele, cabelos e olhos. Nos exames laboratoriais, observa-se ao hemograma: anemia, neutropenia e trombocitopenia, ou presença de blastos na fase acelerada. Pode haver pancitopenia, tempo de sangramento prolongado e coagulopatia. No esfregaço do sangue periférico, observam-se inclusões intracitoplasmáticas gigantes de cor púrpura (coloração de Romanowsky), que podem ser simples ou múltiplas, variando de 2 a 4 nm de diâmetro. Essas inclusões são vistas em leucócitos (neutrófi los, monócitos, linfócitos) e plaquetas. No mielograma podem também ser observadas em mieloblastos e prómielócitos (fi gura 26); além de em melanócitos, hepatócitos, neurônios, células de Schwann, fi broblastos, células tubulares renais, células da mucosa gástrica, pneumócitos, células de Langerhans da pele, células da adrenal e outras. A função hepática e o coagulagrama estão alterados na fase acelerada. figura 26. Célula da medula óssea mostrando os amplos grânulos típicos da Síndrome de Chediak-Higahi. fonte: . 80 unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS Na avaliação do fundo de olho há hipopigmentação do epitélio da retina e na do fio de cabelo observa-se agregação anormal de melanócitos. A biópsia de pele mostra grânulos gigantes anormais de melanina na epiderme, levando ao albinismo parcial, provavelmente por agregação anormal dos melanossomos gigantes e não pela ausência de melanina. Nossa paciente apresentou todas essas alterações (quadro 27). Na suspeita de hiperplasia linfoide ou reacional ou tumor, a biópsia ganglionar ou aspiração de massa tumoral podem ser necessárias. A tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética auxiliam na avaliação de acometimento do sistema nervoso. O estudo laboratorial da paciente demonstrou que no esfregaço de sangue periférico não haviam blastos; e o mielograma não apresentava características de processo neoplásico. Não foi possível realizar punção aspirativa da massa tumoral nem citologia oncótica de líquido pleural, pela rápida e desfavorável evolução da paciente. O diagnóstico diferencial da SCH deve ser feito com outros defeitos do sistema fagocitário tais como doença granulomatosa crônica (DGC) e neutropenias. A paciente apresentava teste do NBT e capacidade bactericida normais (quadro 2) assim como ausência de neutropenia na fase crônica da doença. A prevenção da SCH engloba: diagnóstico pré-natal: possível pela identificação de células de Chediak-Higashi em cultura de células de vilosidades coriônicas; triagem dos pais por esfregaço de sangue periférico para verificar a presença dos grânulos amplos em linfócitos e em neutrófilos (heterozigotos). O aconselhamento genético nesses casos é muito importante. Em relação à terapêutica preconizada para a SCH, ela constitui-se de: » medidas de suporte: › antitérmicos; › higiene oral e cuidados dentários; › higiene do ambiente físico e orientação nutricional; › fisioterapia respiratória e motora; › transfusão de glóbulos vermelhos e plaquetas se necessário; transfusão de glóbulos brancos não irradiados: tem aparentemente alterado o curso clínico dos pacientes; 81 iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V › crianças afetadas podem se beneficiar de vacinas contra pneumococo e H. influenzae b; » tratamento com antibióticos para controle dos processos infecciosos: › Antibioticoterapia profilática: pode reduzir a frequência de infecções em pacientes com defeito de fagócitos. A associação Sulfametoxazol- Trimetoprim é usada em alguns pacientes; › Antifúngicos: usado quando não houver resposta às drogas antibacterianas ou quando se comprova a etiologia fúngica; › Antivirais: Aciclovir: quando a fase acelerada se relaciona com infecção viral. » Ácido ascórbico: na dose de 1g/dia, com baixa toxicidade. De acordo com alguns autores pode corrigir o defeito do citoesqueleto. Entretanto, Saitoh et al., mostraram que apesar da melhora da função do neutrófilo, in vitro, não há alteração do curso clínico e Zabala não documentou alguma correção do defeito celular, nem redução do número de infecções. A administração prévia à fase linfoproliferativa não evitou o seu aparecimento. » Fármacos que atuam nos microtúbulos: colchicina (eficaz no manejo da fase acelerada); prednisona, vincristina e ciclofosfamida (impede o processo infiltrativo da fase acelerada. » Interferon: segundo Barak e Nir, restaura parcialmente in vitro a atividade das células NK1. Vireliezer et al documentaram que o interferon (IFN) não foi capaz de modificar os índices de citotoxidade de células NK de 4 pacientes com SCH pela incubação de suas células com concentrações elevadas de IFN. » Gamaglobulina endovenosa: Kinugawa e Ohtani trataram um paciente durante a fase acelerada com IVIG (400 mg/kg) por 5 dias consecutivos, com resultados animadores. O bloqueio do receptor Fc reticuloendotelial e melhora da infecção viral; a redução da esplenomegalia, produzindo uma redistribuição do sequestro de células sanguíneas são algumas das hipóteses para explicá-la; » Interleucina 2 (IL-2): Foi documentada melhora da atividade in vitro das células NK na presença de IL-238; 82 unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS » Esplenectomia: Harfi e Malik sugerem que a esplenectomia seja considerada no tratamento da fase acelerada não responsiva a outras formas de terapia. Em alguns pacientes observou-se melhora clínica e laboratorial, com normalização da quimiotaxia, da função fagocítica e aumento de sobrevida dos neutrófilos. A esplenectomia pode ser considerada na impossibilidade de realizar-se um transplante de medula óssea; e » Transplante de medula óssea (TMO): é o tratamento de escolha para a SCH, principalmente na fase precoce da doença. É a única opção válida de cura. Infelizmente, um doador adequado é difícil de se obter; dificuldades concomitantes com drogas imunossupressoras; infecção e complicações graves a longo prazo como reação enxerto versus hospedeiro fazem desta uma opção para poucos pacientes. O TMO alogênico tem sido proposto como tratamento curativo da SCH e capaz de prevenir a fase acelerada. Para a paciente descrita a terapêutica instituída incluiu: cuidados pessoais, higiene de ambiente físico, orientação nutricional, vitamina C, tratamento com antibióticos para os processos infecciosos. O TMO foi indicado, entretanto, não se conseguiu doador compatível na época do diagnóstico e posteriormente, não houve tempo hábil para sua realização. O melhor conhecimento desta doença, sem dúvida, proporcionará maior número de diagnósticos, assim como, possibilitará que terapias mais adequadas sejam instituídas visando melhora do seu prognóstico. O artigo completo e as referências citadas no texto podem ser encontradas no endereço eletrônico: . Acessado em: out. 2014. imunodeficiências combinadas graves São imunodeficiências que afetam tanto a imunidade humoral quanto a imunidade celular. Essas doenças podem ser causadas por deficiência em células B e T ou apenas em células T. Elas podem surgir por: » Defeitos na sinalização das citocinas: redução do número de células T sendo o número de células B normal ou aumentado. » Defeitos nas vias de salvamento de nucleotídeos: redução progressiva no número das células B, T e NK. 83 iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V » Defeitos na recombinação V(D)J:redução no número de células B e T e ausência ou deficiência de células B e T. » Anormalidade no desenvolvimento do timo: número de células T reduzido e células B normal. deficiência de anticorpos É uma deficiência causada pelo defeito no desenvolvimento e ativação das células B. Pode ser: » Agamaglobulinemias: número de células B e todos os outros isotipos de imunoglobulinas estão diminuídos. » Hipogamaglobulinemia/defeitos nos isotipos: IgA e IgG2 diminuídas; número de células B normal ou diminuído; defeitos leves ocasionais nas células T. » Síndromes de hiper-IgM: defeitos na ativação de células B, macrófagos e células dendríticas; defeitos na mutação somática, troca de classe e formação dos centros germinativos; imunidade celular defeituosa. defeitos na ativação e função dos linfócitos t São alguns distúrbios na composição dos grânulos ou na exocitose das CTLs e NK. Esses defeitos podem ser: » Defeitos na expressão do MHC: expressão defeituosa do MHC II e deficiência das células T; imunidade celular e respostas humorais dependentes de células T defeituosas. » Sinalização defeituosa das células T: defeitos na imunidade celular e humoral dependente de célula T bem como ativação defeituosa das células T. » Linfoistiocitoses hemofagocitárias familiares: proliferação descontrolada das células B induzida pelo vírus Epstein-Bar; ativação descontrolada de macrófagos e CTLs e função defeituosa de células NK e CTLs. 84 CAPítulo 2 imunodeficiências secundárias Imunodeficiências adquiridas ou secundárias são aquelas desenvolvidas durante a vida. Podem ser causadas por dois tipos principais de mecanismos patológicos: imunossupressão e as imunodeficiências como complicação do tratamento de outras doenças (iatrogênicas). Assim, as causas e mecanismos das imunodeficiências podem ser as seguintes: » Infecção pelo vírus HIV: ocorre depleção das células T CD4+ auxiliares. » Desnutrição proteico-calórica: distúrbios metabólicos que inibem o desenvolvimento e função dos linfócitos. » Irradiação e quimioterapia: redução dos precursores dos linfócitos na medula óssea. » Metástases de câncer e leucemia: redução da área para o desenvolvimento dos leucócitos. » Imunossupressão para transplantes e doenças autoimunes: redução da ativação de linfócitos. » Remoção do baço: redução na fagocitose dos microrganismos. Vírus da imunodeficiência humana e a síndrome da imunodeficiência adquirida A AIDS é a doença causada pelo vírus HIV caracterizando uma imunossupressão profunda associada a infecções oportunistas e tumores malignos, perda de peso e degeneração do sistema nervoso central. O HIV infecta várias células do sistema imune, entre elas macrófagos células dendríticas e células T auxiliares CD4+. Ele é membro de uma família de vírus que são capazes de causar infecção latente de longo prazo das células e efeitos citopáticos (alterações morfológicas das células infectadas por vírus) e todos eles produzem doenças fatais de progressão lenta. Patogenia da infecção pelo HiV e AidS A AIDS, doenças causada pelo HIV, começa com uma infecção aguda (infecção das células T CD4+ de memória e a morte de várias células infectadas) que é controlada parcialmente 85 iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V pelo sistema imune adquirido e avança para uma doença crônica progressiva (disseminação do vírus, viremia e desenvolvimento de respostas imunológicas do hospedeiro). As células dendríticas podem passar o HIV para células TCD4+ por meio do contato direto célula-célula. Na fase crônica o vírus tem preferência pelo baço e linfonodos para fazer a replicação viral e destruição celular. Mecanismos da imunodeficiência causada pelo HiV A função dos sistemas imunes adquiridos e natural fica comprometida com a infecção pelo HIV principalmente pelo efeito citopático direto nas células TCD4+ causando uma perda significativa destas. A lise direta das células TCD4+ infectadas pelo vírus junto com os defeitos funcionais do sistema imunológico dos indivíduos infectados por HIV exacerbam a deficiência imunológica causada pela depleção de células TCD4+. respostas imunológicas ao HiV Respostas humorais e celulares específicas para o HIV se desenvolvem após a infecção, porém com uma proteção limitada. De início, a resposta imune ao HIV é semelhante a respostas a outros vírus, mas essas respostas não conseguem erradicar o vírus e assim a infecção consegue progredir. Expansão das células TCD8+ específicas para peptídeos virais é a resposta inicial do sistema imune adquirido ao HIV. As respostas de anticorpos contra o HIV é detectada de 6 a 9 semanas após a infecção. AidS: o que fazer? Promoção: Centro de Estudos da Escola Nacional de Saúde Pública -CEENSP Organização: Álvaro Hideyoshi Mattida O Centro de Estudos da Escola Nacional de Saúde Pública (CEENSP) promoveu, em agosto de 1985, uma mesa redonda sobre a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA), com a participação do Dr. Bernardo Galvão-Castro, imunologista do Instituto Oswaldo Cruz, que abordou os aspectos clínicos e laboratoriais da doença, o Dr. Gelli Pereira, virologista do Instituto Oswaldo Cruz que discorreu sobre a etiologia da SIDA e o sociólogo Herbert de Souza do Instituto Brasileiro de Análises Socioeconômicas (IBASE) que refletiu sobre o impacto social e psicológico da SIDA na população, em geral, e nos grupos de maior risco, em particular. A Síndrome de Imunodeficiência Adquirida vem causando inquietação e perplexidade a Medicina moderna. Na era das doenças crônicas e degenerativas, somos novamente surpreendidos por um vírus, o HTLV-III/LAV 86 unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS que tem se propagado em crescimento exponencial nas populações onde já foi introduzido e carrega consigo a perversidade de ser 100% letal. Nas exposições que se seguem, podemos encontrar uma avaliação séria e criteriosa deste programa que vem afligindo a humanidade e do qual, infelizmente, já somos também vítimas em nosso país. O Dr. Álvaro Hideyoshi Mattida, Coordenador do Programa de Controle e Prevenção da SIDA na Secretaria de Estado de Saúde e Higiene do Rio de Janeiro muito nos ajudou na organização final desta publicação. Agradecemos a ele mais este esforço empreendido na divulgação da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida. Maria do Carmo Leal, Presidente do CEENSP BERNARDO GALVÃO CASTRO – Departamento de Imunologia — Fundação Oswaldo Cruz SÍNDROME DE IMUNODEFICIÊNCIA ADQUIRIDA (SIDA/AIDS) ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS, IMUNOLÓGICOS E DIAGNÓSTICO SOROLÓGICO. A identificação dos primeiros casos de síndrome de imunodeficiência adquirida se deu por meio do sistema de vigilância epidemiológica do Centro para Controle de Doença Recebido para publicação em 9/10/1985 dos Estados Unidos da América do Norte. Em começo de 1981, foram notificados 5 casos de pneumonia por Pneumocistis carinii em homossexuais hospitalizados em Los Angeles e 26 casos de sarcoma de Kaposi em jovens homossexuais provenientes de New York ou Los Angeles. A ausência de doença básica imunodepressora e o grupo etário jovem dos pacientes, acrescidos do número inusitado de casos registrados em curto período de tempo, levaram a se pensar em uma nova doença. Esta síndrome foi então definida empiricamente pelo Center for Disease Control dos Estados Unidos da América do Norte para fins de vigilância epidemiológica como o aparecimento de sarcoma de Kaposi e/ou infecções oportunistas frequentemente fatais em indivíduos previamente sadios, abaixo dos 60 anos de idade e que não apresentavam anteriormente uma condição imunossupressora. Essa doença é caracterizada por diferentes formas clínicas: » Síndrome de Linfoadenopatia Crônica em Homossexuais Masculinos (SLC). É definida por meio dos seguintes critérios: › Linfoadenopatia em homossexuais com mais de três meses de duração envolvendo dois ou mais sítios extrainguinais. › Ausência de qualquer doença atual ou uso de droga conhecidacomo causadora de linfoadenopatia. › Presença de hiperplasia reativa em um linfonodo. › Qualquer combinação de dois ou mais dos seguintes sintomas: perda de peso (maior do que 10% do peso normal), febre intermitente ou contínua, diarreia crônica, mal-estar e suores noturnos. 87 iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V » Complexo relacionado com a SIDA Compreende indivíduos do grupo de risco com uma multiplicidade de sinais e sintomas que podem incluir linfoadenopatia generalizada, perda de peso, diarreia crônica, mal-estar, letargia, linfopenia, leucopenia, anemia, trombocitopenia, idiopática, anormalidades características da SIDA. Entretanto, estes indivíduos não apresentam as típicas infecções oportunistas ou sarcoma de Kaposi. » Síndrome de Imunodeficiência Adquirida Clássica – A SIDA clássica é caracterizada clinicamente por infecções oportunistas, sarcoma de Kaposi e outras malignidades do sistema linfoide. As infecções oportunistas são chamadas desta maneira porque são causadas por germes incapazes de causar doença em indivíduos sadios e aproveitam a oportunidade dos pacientes estarem com o seu sistema de defesa deficiente para invadir seus organismos e causar danos graves. Os patógenos oportunistas mais frequentemente associados à SIDA incluem protozoários, fungos, bactérias, vírus, e estão sumarizados na tabela abaixo: Infecções Oportunistas frequentes na SIDA O sarcoma de Kaposi foi descrito em 1872 pelo médico húngaro Moritz Kaposi. É uma neoplasia rara que se caracteriza pelo aparecimento de nódulos ou placas 88 unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS violáceas de pequenas dimensões, distribuídos no tegumento, sobretudo nos membros inferiores. Esse tumor, inicialmente de comportamento benigno, estava limitado à Europa Central e Bacia do Mediterrâneo, acometendo indivíduos adultos acima dos 60 anos de idade, tendo uma evolução insidosa e muito raramente envolvia outros órgãos, como os intestinos, por exemplo. A partir da década de 1940, verificou-se que este tumor podia apresentar-se sob uma forma maligna, desde que no Continente Africano, mais precisamente na África Equatorial, esta neoplasia apresentou um caráter invasivo, se disseminando na pele e envolvendo frequentemente outros órgãos, tais como gânglios linfáticos e intestinos, atingindo principalmente adultos jovens e crianças, estas com um prognóstico mais grave. No Brasil e nos Estados Unidos da América do Norte, a sua ocorrência era, até o surgimento da SIDA, semelhante a da Europa, atingindo cerca de 0,35 por 100.000 habitantes. Mais recentemente, verificou-se que cerca de 1/3 dos pacientes acometidos pela SIDA tem sarcoma de Kaposi. Nesse caso, ele apresenta características acentuadamente agressivas, localizando-se em qualquer região do corpo, particularmente na face, tendo um prognóstico ruim, com uma sobrevida média de 2 anos. Essa doença que surgiu, aparentemente nos EUA em 1979, e identificada como entidade clínica em 1981, já apresenta atualmente nesse país uma prevalência de 42,2 casos por milhão de habitantes, perfazendo um total de 9.608 casos. A prevalência desta síndrome está aumentando exponencialmente com o número total de casos, duplicando a cada 6 (seis) meses, estimando-se em 20.000 o número de casos até o final de 1985. Embora a doença ainda esteja concentrada nos EUA, ela vem sendo diagnosticada em vários países, inclusive no Brasil, notadamente nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Sem nenhuma dúvida, estamos diante de uma nova epidemia. Entretanto, se compararmos a prevalência dessa doença em relação às de doença de Chagas, malária, esquistossomose, diarreias virais ou mesmo aquelas relativas à mortalidade infantil, desnutrição, a câncer e acidentes de trânsito, a prevalência de SIDA seria numericamente irrelevante. Essa análise poderá erroneamente minimizar a gravidade do problema, pois uma das características epidemiológicas mais importantes desta síndrome é a rapidez do surgimento de novos casos. No Brasil, a progressão da doença ocorre de maneira semelhante à observada em outros países. Outra característica importante é a mortalidade de 100% dos casos de SIDA clássica, não existindo até o momento agentes imunoprofiláticos e terapêuticos eficazes. Embora os primeiros casos de SIDA tenham sido observados em homossexuais masculinos, posteriormente se constatou que outros grupos, como toxicômanos que utilizam drogas por via venosa e hemofílicos, eram também atingidos. A tabela 2 apresenta uma distribuição dos casos de SIDA segundo o grupo de risco no Brasil e EUA. 89 iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V Entende-se por grupo de risco aqueles onde a prevalência da doença é maior, quando comparada com a população geral. Obviamente isto não implica o fato de que, por exemplo, um indivíduo com determinada orientação ou que utilize drogas injetáveis por via venosa, seja obrigatoriamente doente ou mesmo portador do vírus. Os hemofílicos, por apresentarem uma alteração no sistema de coagulação sanguínea, são obrigados a receber regularmente concentrados de fator deficiente (fator VIII ou IX), que são preparados a partir do sangue de doadores. Esses hemoderivados, mesmo após serem filtrados para a eliminação de microrganismo de um determinado tamanho, tais como: bactérias, protozoários e fungos, continuavam transmitindo a doença. Essas observações clínicas e epidemiológicas indicavam que essa doença era transmitida por via sexual e sanguínea, e que um vírus seria provavelmente o agente etiológico, pois este é o único agente que não seria retido pelo filtro. Atualmente, sabe-se que a SIDA é uma doença transmissível causada por um retrovírus denominado vírus da linfoadenopatia (LAV) ou vírus linfotrópico para células T humanas (HTLV-III). A identificação, o isolamento e a manutenção in vitro do agente etiológico da SIDA foi fundamental para a compreensão da patogenia e instalação de métodos sorológicos de detecção de anticorpos contra o vírus HTLV-III/ LAV. Esse vírus, com o seu tropismo predominante para a célula central do sistema imune, é responsável por disfunções graves da resposta imune. Uma linfopenia acentuada, observada nos pacientes com SIDA clássica. Esta diminuição não reflete o acometimento de toda população linfocitária, parecendo haver uma diminuição seletiva dos linfócitos T auxiliares ou helper/ inducer, uma subpopulação de linfócitos timo-dependentes (linfócito T). Essas células são definidas como células ÒKT4 + e Leu3 + porque são reconhecidas pelos anticorpos monoclonais OKT4 e Leu3. A subpopulação dos linfócitos T supressores (OKT8), assim como os linfócitos B, está intacta ou mesmo ligeiramente aumentada, ocorrendo, então, uma diminuição da relação entre o número de células OKT4 +, podendo alcançar valores iguais ou inferiores a 0,4. Existe também um déficit funcional dos linfócitos T auxiliares. Este déficit pode ser observado tanto in vivo quanto in vitro. In vivo ele se manifesta por uma maior susceptibilidade ao desenvolvimento de neoplasias, de infecções oportunistas e uma resposta diminuída aos testes cutâneos. In vitro praticamente todas as medidas utilizadas para avaliação das funções de células T mostram valores inferiores àqueles em pacientes normais. Nesses pacientes, a resposta proliferativa linfocitária apresenta-se diminuída após a estimulação por mitógenos ou antígenos específicos. Entretanto, observou-se mais recentemente que a resposta proliferativa é normal quando populações purificadas de células helper/inducer (OKT4) ou supressoras/citotóxicas (OKT8) são estudadas 90 unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS isoladamente, ao contrário do que se observa quando se estudam populações celulares não fracionadas. Esses dados indicam que a diminuição da resposta proliferativa a mitógenos in vitro decorre de alterações quantitativas das subpopulações linfocitárias. Por outro lado, a diminuiçãonecessárias no combate diário aos agentes patogênicos. Nesta unidade estudaremos as respostas do sistema imune aos diferentes tipos de antígenos com os quais entramos em contato ao longo da vida e entenderemos melhor a necessidade da ação conjunta dos diversos tipos de mecanismos de defesa que compõe o nosso sistema imunológico. objetivos » Promover o conhecimento dos diversos tipos de defesa desenvolvidos pelo sistema imunológico em resposta aos diferentes tipos de agentes causadores de doença ao qual estamos expostos. » Analisar diferentes tipos de doenças que exigem respostas rápidas e específicas do sistema imunológico. » Compreender os diferentes mecanismos utilizados na resposta aos antígenos. 9 unidAdE iiMunidAdE ContrA AgEntES EXtErnoS CAPítulo 1 imunidade contra vírus Os vírus são agentes infecciosos que podem causar doenças tanto em organismos que possuem células eucariontes (animais, vegetais e fungos), quanto em organismos que possuem células procariontes (bactérias). Esses micro-organismos são parasitas intracelulares obrigatórios, ou seja, precisam utilizar os componentes da maquinaria celular para conseguir dar início ao seu processo de replicação e disseminação. Para causar infecção nos mais diversos tipos celulares, os vírus utilizam os receptores externos da superfície celular para adentrá-las. A replicação dos vírus no interior das células altera seu funcionamento normal, interferindo na síntese e na função das proteínas levando à lesão e posteriormente á morte da célula infectada. Quando ocorre a lise celular a infecção é denominada lítica. Além disso, os vírus são capazes de causar infecções latentes, onde permanecem escondidos no organismo do hospedeiro, integrando seu genoma ao genoma normal das células, e assim podem permanecer por muito tempo. A resposta imunológica aos vírus é ativada para interromper a infecção e eliminar as células infectadas e sua compreensão é fundamental para a compreensão da patogênese viral, para definir estratégias de diagnóstico, prevenção e controle por meio de vacinação. imunidade inata A resposta imune inata compõe a primeira linha de defesa contra os micro-organismos, ocorrendo rapidamente e de forma não específica aos patógenos e sem conferir imunidade duradoura. 10 unidAdE i │ iMunidAdE ContrA AgEntES EXtErnoS A primeira defesa contra a infecção é constituída pelas barreiras físicas, como pele, pelos, muco, enzimas e peptídeos antivirais e antibacterianos, produzidos para prevenir o início da infecção, que só ocorrerá caso o micro-organismo consiga ultrapassar essas barreiras. Todas essas barreiras são consideradas mecanismos da resposta imune inata e agem não só contra vírus, mas sim contra qualquer micro-organismo infeccioso. Contra os vírus temos como principais mecanismos a inibição da infecção por citocinas (moléculas envolvidas na emissão de sinais entre as células que regulam e coordenam a resposta imune), como interferons do tipo I, e a morte das células infectadas pelas células matadoras naturais ou natural killer (NK), bem como a atuação importante das células dendríticas como resposta primária na imunidade e apresentação de antígenos virais para o início da resposta imune adaptativa, que será abordada posteriormente. Células dendríticas As células dendríticas imaturas são provenientes principalmente dos monócitos circulantes no sangue, que entram nos tecidos e se diferenciam inicialmente como células dendríticas imaturas, quando presente na epiderme estas células recebem o nome de células de Langerhans. Sua maturação ocorre após o encontro com um patógeno potencial levando a sua captura e apresentação aos linfócitos T nos órgãos linfoides secundários. O progenitor linfoide comum dá origem a uma subpopulação menor de células dendríticas, porém, como existem mais células mieloides progenitoras comuns do que progenitores linfoides comuns, a maioria das células dendríticas do organismo se desenvolvem a partir de progenitores mieloides comuns. O termo células dendríticas veio de sua forma estrelada devido à presença de numerosos prolongamentos citoplasmáticos longos e contorcidos, como os dendritos das células nervosas. Elas representam uma população variada de células que residem em quase todos os tecidos, representando de 1 a 2% do número total de células locais. Como os macrófagos e neutrófilos, elas degradam os patógenos que capturaram, mas sua principal função no sistema imune não é a eliminação de micro-organismos. São consideradas as APCs mais potentes, sendo capazes de iniciar a resposta imune adaptativa por meio da ativação de linfócitos T. Apesar dos macrófagos também serem capazes de atuar como apresentadores de antígenos são as células dendríticas as mais especializadas nessa função. 11 iMunidAdE ContrA AgEntES EXtErnoS │ unidAdE i Apresentam também um importante papel na regulação da resposta imune mediada por linfócitos T, balanceando as diferentes respostas imunológicas que se desenvolvem. Elas sintetizam citocinas que influenciam tanto a regulação da resposta imune inata quanto adaptativa. figura 1. fotografia das células dendríticas em processo de maturação. fonte: figura adaptada de Sirgo, G. e colaboradores. (2010, p. 562). Na infecção viral, as células dendríticas constituem as principais produtoras de interferon I (IFN-I), tendo assim, fundamental importância na ativação das células NK e no controle das infecções. Os interferons do tipo I são produzidos por células infectadas por vírus em resposta a sinalização intracelular e se ligam a receptores em células vizinhas não infectadas ativando vias de sinalização que induzem a expressão de genes cujos produtos interferem com a replicação viral. Além disso, os IFN-I se ligam a receptores de células infectadas e induzem a expressão de genes cujos produtos aumentam a suscetibilidade da célula a morte mediada pelos linfócitos T citotóxicos. Células apresentadoras de antígenos (APCs) e o reconhecimento das infecções virais As principais células apresentadoras de antígenos do sistema imune são as células dendríticas, monócitos e macrófagos. Estas células têm a capacidade de capturar e processar os antígenos de forma que eles possam ser reconhecidos pelas células T. As células T somente reconhecem os antígenos quando estes estão associados a moléculas do complexo de histocompatibilidade principal Major Histocompatibility Complex (MHC), formando o complexo MHC/peptídeo. As APCs então convertem os antígenos proteicos em peptídeos que se associam ao MHC e são externalizados na superfície celular para apresentação aos linfócitos T. 12 UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS O complexo de histocompatibilidade principal pode ser dividido em MHC de classe I e MHC de classe II. Em seres humanos esse grupo genético recebe a denominação de Antígenos Leucocitários Humanos (HLA). Todas as células nucleadas expressam MHC de classe I, enquanto que o MHC de classe II é expresso apenas por tipos muito específicos de células, o que inclui pincipalmente as APCs. Por sua vez, as APCs, e não somente elas, mas também os neutrófilos possuem receptores de patógenos, os receptores de reconhecimento de padrões (PRRs), que reconhecem moléculas simples e padrões regulares de estruturas conhecidas como padrões moleculares associados aos patógenos (PAMPs), que podem estar presentes em muitos micro-organismos, mas não nas próprias células. É dessa forma que o sistema imune inato distingue o próprio do não próprio. Para ativar as células dendríticas os vírus presentes no meio extracelular ou os componentes virais gerados intracelularmente durante a infecção (RNA de fita simples, RNA de fita dupla, ou DNA com padrão CpG) devem ser reconhecidos por PRRs, esse reconhecimento leva a uma cascata de sinais intracelulares que levam a produção de interferon tipo I, citocinas e quimiocinas e estimulam a produção de correceptores e moléculas do complexo de histocompatibilidadeda resposta a antígenos solúveis como a anatoxina tetânica resulta não só da diminuição quantitativa de células 14 circulantes como também de uma anormalidade qualitativa desta subpopulação linfocitária. Outros testes destinados a avaliar a competência de linfócitos T em exercer algumas de suas funções, tais como, o auxílio a células B ou o desenvolvimento de uma resposta citotóxica vírus-específica, mostraram igualmente resultados alterados. Por exemplo, uma das provas que avalia as alterações entre as células B e T auxiliares e a síntese de imunoglobulinas (Ig) após o estímulo com Pokeweed (PWM). Normalmente, células B, quando estimuladas por este mitógeno e na presença de células T auxiliares, produzem níveis elevados de imunoglobulinas, mesmo em uma proporção 25:1. Entretanto, células T4 + provenientes de indivíduos com SIDA, mesmo em uma proporção 1 célula 14 normal para 1,6 células B normais, não foram capazes de auxiliar a resposta humoral, não havendo síntese de Ig in vitro. A adição de células T8 supressoras, provenientes de indivíduos sadios ou com SIDA, foi capaz de suprimir a síntese de Ig. Esses dados indicam que não existe alteração desta última subpopulação nos pacientes com SIDA. Além disto, existe uma deficiência funcional da subpopulação de células citotóxicas quando testada in vitro e na presença de células auxiliares de indivíduos com SIDA. Essa função pode ser restaurada com a adição da Interleucina 2, fator produzido pelas células T auxiliares. Isso demonstra que as células citotóxicas estão intactas, havendo uma deficiência na produção de Interleucina 2 pelas células T auxiliares dos indivíduos com SIDA. Outra alteração observada nos indivíduos com SIDA é a ativação policlonal de linfócitos B. Esses linfócitos podem ser especificamente ativados após contato com o antígeno (Ag) correspondente. Eles podem também ser ativados por mitógenos B ou ativadores policlonais de linfócitos B (APB) que vão ativar simultaneamente vários clones de linfócitos B de diferentes especificidades. Como resultado, temos uma síntese aumentada de Ig e a produção de anticorpos (Ac) de várias especificidades, incluindo hetero e autoanticorpos. Na SIDA, apesar do déficit quantitativo e qualitativo das células T auxiliares e da normalidade do comportamento supressor do sistema imune, observa-se um alto grau da APB. A APB leva a um aumento dos níveis séricos de Ig, sobretudo de IgG e de IgA; como também de complexos imunes circulantes e aumento do número de células B secretoras de Ig. Uma vez que não existe na SIDA excesso de auxílio proveniente das células T auxiliares (T4 +), pensa-se que este estado de APB seria induzido nesses pacientes por infecções oportunistas causadas pelos vírus dotados de 91 iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V propriedades de APB, tais como o vírus Epstein-Barr. Por outro lado, é observado que as células provenientes de pacientes com SIDA são incapazes de desenvolver uma resposta imune secundária in vitro (após imunização primária in vivo) a hemocianina de peixe (KLH). Além disso, os indivíduos com SIDA assim imunizados desenvolveram níveis de Ac KLH inferiores àqueles observados em controles heterossexuais sãos. Esse fato tem obviamente relevância sob o ponto de vista clínico, vista a incapacidade do sistema imune de um indivíduo com SIDA em desenvolver uma resposta humoral específica eficaz contra um agente agressor ou a possibilidade de resultados falsos negativos se a resposta desses indivíduos for utilizada em testes para diagnóstico sorológico de infecções. Além das alterações acima, outras, cuja relevância no processo de doença não está ainda claramente definida, foram descritas, tais como, a presença de uma forma termo lábil de Interferon, níveis elevados de alfa 1 Timosina e a presença de substâncias séricas capazes de suprimir a resposta imune de linfócitos normais in vitro. Resultados preliminares de Frederick et alii, (não publicados – citados por Fanci et alii, 1984) mostraram uma atividade Natural Killer (NK) reduzida na maioria dos pacientes com SIDA. Esses pacientes foram estudados paralelamente quanto à existência de infecção por citomegalovírus (CMV) e a atividade de células citotóxicas. Esses autores demonstram que o efeito estimulador do Interferon B sobre a atividade NK, normalmente observado em células de indivíduos normais, não era detectado quando células de indivíduos com SIDA foram estudadas. Contudo, tanto essa atividade NK quanto a citotoxidade específica ou CMV é potencializadora pela adição de Interleucina 2 (IL 2) que também restabelece a capacidade de produção de Interferon (If ). Os mecanismos por meio dos quais a IL 2 restabelece esses mecanismos efetores não é ainda conhecida, mas é possível que seu efeito sobre a produção de If seja relevante uma vez que este é importante na diferenciação de células T citotóxicas. Mostrou-se, também, que a estimulação in vitro de linfócitos de pacientes com SIDA com a fito-hemaglutinina (PHA) é seguida de uma produção diminuída tanto de IL 2 quanto de If, quando comparada àquela observada após estímulo de células de controles heterossexuais sãos. Um achado digno de nota é a associação entre a presença de Ag HLA-Dr 5 e o sarcoma de Kaposi associado à SIDA. Friedman- Kieni et alii, encontraram uma frequência de 63% de indivíduos portadores do Ag HLA-Dr 5 entre os casos de sarcoma de Kaposi associado à SIDA, contrastando com os 23% observados em indivíduos homossexuais masculinos normais. Mais curioso é o achado de que os indivíduos HLA-Dr 5 + com sarcoma de Kaposi apresentam números de células OKT4+ superiores àqueles observados em pacientes HLA-Dr 5 — com sarcoma de Kaposi, onde pensam 92 unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS que indivíduos predispostos geneticamente ao sarcoma de Kaposi (clássico ou epidêmico) desenvolveriam Kaposi epidêmico mesmo com menores níveis de imunodeficiência que pacientes não predispostos ao desenvolvimento desta patologia. Existem, pelo menos, quatro métodos para detecção de anticorpos contra o LAV/HTLV-III: imunofluorescência (IF), ensaio imunoenzimático (ELISA), ensaio imunorradiométrico (RIA), e Western blot. Essas técnicas têm valor principalmente para: a. Confirmar o diagnóstico das diferentes formas clínicas; b. Determinar a prevalência da infecção na comunidade; c. Triagem do sangue para transfusões ou fracionamento; d. Triagem de doadores de órgãos ou sêmen. Os princípios básicos são similares para IF, ELISA e RIA, isto é, o soro do paciente é adicionado sobre o antígeno ligado a um suporte sólido. Entretanto, o sistema de revelação das reações é diferente, levando a diferentes níveis de sensibilidade e especificidade. Na IF, o revelador é um antianticorpo ligado a um fluorocromo. Os principais fluorocromos são a fluoresceína e a rodamina B. Para a leitura da reação, emprega-se um microscópio dotado de um sistema de iluminação adequado, pois os fluorocromos absorvem radiações de baixo comprimento de onda e emitem radiações na faixa do verde para fluoresceína e do vermelho para rodamina. Para a revelação do ensaio imunoenzimático (enzyme linked immunosorbent assay — ELISA) utiliza-se o antianticorpo ligado a uma enzima, geralmente a peroxidase, e adiciona-se o seu substrato específico com uma substância cromogena. A reação é colorida e pode ser avaliada a olho nu ou medida por meio de um espectrofotômetro. No RIA, o anticorpo é ligado a um isótopo radioativo, por exemplo, I125 ou I131, e a revelação é feita pela medida da radiação emitida. Na técnica de «Western blot», o antígeno é inicialmente submetido a uma eletroforese em gel de poliacrilamida, quando as proteínas são separadas de acordo com os seus pesos moleculares. Após a eletroforese, as proteínas são transferidas para um papel de nitrocelulose, permitindo a reação dos soros dos pacientes com os antígenos fracionados. O sistemade revelação da reação antígeno-anticorpo pode ser o mesmo empregado para o teste de ELISA ou RIA. Estas técnicas apresentam uma série de vantagens e desvantagens quanto a seu funcionamento. Por exemplo, ELIZA e RIA são técnicas semiautomatizadas que permitem a avaliação de uma grande quantidade de soros em um curto período de tempo, o que torna a sua utilização adequada para triagem em bancos de 93 iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V sangue. Entretanto, o alto grau de sensibilidade desses testes torna necessário a utilização de antígenos purificados para evitar reações falsas positivas. Por outro lado, o manuseio com material radioativo põe em risco a saúde do operador. A fluorescência, embora seja uma técnica de fácil execução, é de interpretação trabalhosa e subjetiva, necessitando de um operador bem treinado. A técnica de Western blot embora seja a mais específica no diagnóstico da SIDA, não é aconselhável para atividade de rotina devido a sua complexidade de execução e o seu custo operacional elevado. Os testes mais utilizados para a triagem são IF e ELISA. Os soros repetidamente positivos em uma dessas técnicas com antígeno preparado com células infectadas, mas negativo com antígeno processado com células não infectadas, devem ser testados por um método adicional antes do estabelecimento do diagnóstico. O método mais adequado deve compreender a detecção de anticorpos dirigidos contra determinadas proteínas estruturais do vírus. Por exemplo, RIA, utilizando a proteína p-24 como antígeno ou a técnica de Western blot. No caso da SIDA, as técnicas laboratoriais incluem também o isolamento do vírus e a detecção de componentes virais. Entretanto, ainda não é de uso rotineiro a detecção de componentes virais em espécimes clínicos, o que seria a evidência direta da infecção. Resta, portanto, a evidenciação indireta mediante a identificação de anticorpos anti-HTLVIII/ LAV. No entanto, a presença isolada destes anticorpos não pode ser considerada como diagnóstico da doença, mas indica que o indivíduo foi sensibilizado pelo agente viral ou seus produtos. Em princípios, este indivíduo é potencialmente transmissor da infecção e deveria ser excluído como doador de órgãos ou fluidos orgânicos. Por outro lado, não existe nenhuma evidência que a albumina e a imunoglobulina preparada pelo fracionamento convencional de Cohn, 1946, transmita o vírus. Dados da literatura indicam que os anticorpos aparecem cerca de 2 a 4 semanas após o contato com o vírus. Estes anticorpos persistem por vários anos e podem se apresentar em títulos mais baixos ou ausentes no estágio final da doença. Anticorpos neutralizantes não são predominantes e têm se isolado amostras virais de indivíduos com altos níveis de imunoglobulinas específicas. Não se sabe ainda o significado da sorologia positiva em casos de indivíduos assintomáticos. Entretanto, dados preliminares indicam que cerca de 10% destes indivíduos podem desenvolver a doença no período de dois anos. Somente estudos prospectivos bem elaborados poderão fornecer informações científicas suficientes para se estabelecer o valor da sorologia na história natural da doença. GELLI PEREIRA – Instituto Oswaldo Cruz (IOC). As minhas considerações vão ser principalmente a respeito da etiologia da doença que estamos discutindo. Em primeiro lugar devo dizer que foi impressionante não só a rapidez com que essa doença se expandiu, mas também a rapidez com que foram adquiridos 94 unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS conhecimentos sobre a sua etiologia. Isso foi possível porque o vírus causador dessa doença pertence a um grupo de agentes, os retrovírus, que vinham sendo investigados com grande intensidade, mais pelo interesse em suas propriedades básicas do que pela sua associação com doenças humanas previamente conhecidas. Esses vírus são incluídos na família retroviridae que é dividida em várias subfamílias, cujos membros são encontrados infectando uma grande variedade de hospedeiros vertebrados. Os retrovírus se caracterizam por apresentarem partículas infecciosas com um lipo-glico-protéico. Essas estruturas são formadas por subunidades representadas no capsídio interno por antígenos grupo-específicos (gag) e enzimas, incluindo em uma polimerase reversa (pol), e no envelope por glicoproteínas (env) de que tratarei mais adiante. No interior do capsídeo é encontrado o genoma viral que consiste em duas moléculas idênticas de ácido ribonucléico (ARN) de fita simples. Cada uma dessas moléculas contém a informação genética necessária à replicação viral. Esse processo envolve, como para todos os outros vírus e mesmo para os seres vivos, em geral, uma série de processos gerando um fluxo de informação do genoma, por meio de vários estágios intermediários até os produtos finais representados por proteínas funcionais e estruturais de gerações sucessivas de partículas virais. Nos organismos mais complexos do que os vírus, e também nos vírus cujo genoma consiste de ácido desoxirribonucleico (ADN), o fluxo de informações nos processos biossintéticos se faz a partir do ADN que é transcrito a ARN que, por sua vez, é traduzido a proteínas. Na maioria dos vírus cujo genoma consiste de ARN, as proteínas virais são produtos de tradução do próprio ARN viral ou de ARN complementar ao genoma viral. A descoberta de que os retrovírus se excetuam a essa regra constituiu um dos avanços da biologia molecular. Ao contrário de todos os outros vírus até então estudados, verificou-se então que o ciclo replicativo dos retrovírus necessita de uma inversão do fluxo genético na direção de ARN para ADN. Essa inversão dá origem ao prefixo “retro” de retrovírus e é catalizada por uma enzima designada transcritase reversa ou polimerase de ADN dependente de ARN (RNA dependent DNA polymerase) que é uma das proteínas estruturais dos retrovírus. Outro aspecto importantíssimo do ciclo replicativo dos retrovírus é o que o ADN transcrito do genoma viral pode se incorporar em cromossomas da célula hospedeira sob a forma de “provírus” permanecendo aí integrado e sendo transmitido como um caráter hereditário mendeliano. Isso acontece como regra nos retrovírus ditos endógenos que são incapazes de se propagar por intermédio de partículas virais infecciosas, a não ser que sejam complementados por coinfecção por outros retrovírus ditos «auxiliares». Em contraste, os retrovírus hexógenos, como o agente causal da SIDA, são ditos competentes, isto é, capazes de se propagar independentemente, 95 iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V por meio de partículas infecciosas. A existência de retrovírus integrados no aparelho genético dos organismos hospedeiros sob a forma de provírus tem importantes consequências patogênicas e epidemiológicas. O vírus pode se manter sem expressão, isto é, em forma inaparente e completamente protegido das defesas do hospedador por longos períodos. Uma vez estabelecido esse estado, é difícil de se conceber uma estratégia para se combater a infecção por métodos presentemente usados para outros vírus. Outro aspecto de grande interesse em relação aos retrovírus é a sua semelhança, quando sob a forma de provírus, com moléculas de ADN que se comportam como gens móveis, isto é, que se translocam a diferentes sítios nos cromossomas de células eucarióticas. Esses elementos chamados retrotransposons, cuja geração é também dependente da ação enzimática de transcriptases reversas, apresentam sequências de nucleotídeos muito semelhantes a dos provírus, tendo ambos em suas extremidades longas sequências repetidas de nucleotídeos (long terminal repeats ou LTR) entre as quais se localizam sequências codificadoras para várias proteínas, além de sequências não codificadoras. Várias amostras do vírus da SIDA foram completamente sequenciadas, tendo sido localizados os gens codificadores das várias proteínas virais (gag, pol, env). Estudos comparativosdas sequências e outras características de diferentes grupos de retrovírus sugerem que o vírus da SIDA (HTLV-III ou LAV) é menos relacionado a retrovírus humanos associados a linfomas (HTLV-I e HTLV-II) previamente descritos do que a um grupo de retrovírus de ovinos (Visna, Maedi) e de equinos (anemia equina infecciosa) reunidos sob o nome de lentivírus. Comprometimento do sistema nervoso em pacientes com SIDA é outro aspecto em que essa doença se assemelha àquelas causadas pelos lentivírus em carneiros. Desejo, em seguida, discutir alguns aspectos do diagnóstico etiológico da SIDA. O Doutor Galvão já discorreu sobre o diagnóstico clínico e imunológico que é de grande importância em se tratando de indivíduos em grupos de alto risco ou com sintomas da doença. Resta falar sobre as importantes questões dos indivíduos assintomáticos e dos doadores de sangue. Um dos benefícios práticos de maior importância da descoberta do vírus da SIDA foi a possibilidade de serem desenvolvidos métodos diagnósticos. Tais métodos são baseados presentemente na detecção de anticorpos específicos para o vírus. Vários métodos têm sido empregados para este fim: a imunofluorescência, o ensaio imunoenzimático, o radioimunoensaio e a imunoeletrotransferência (Western blot). Embora todos esses métodos deem resultados com alta especificidade e sensibilidade, nenhum pode ser aceito como infalível. Para confirmação de diagnóstico clínico qualquer um desses métodos fornece valioso apoio. Para triagem de doadores de sangue, positividade de cada uma dessas provas deve ser aceita para exclusão do uso terapêutico de 96 unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS produtos sanguíneos, mas conclusões diagnósticas devem ser reservadas até que haja ou não confirmação por provas alternativas. Do ponto de vista de saúde pública, considero prioridade máxima o exame obrigatório de doadores de sangue para anticorpos do vírus da SIDA. Dos métodos existentes, o que melhor se adapta a essa finalidade é o ensaio imunoenzimático. O seu custo permanece, entretanto, proibitivo entre nós, e há necessidade premente de que essa situação possa ser corrigida pela produção de conjuntos diagnósticos por laboratórios nacionais. Paralelamente, devem ser incentivados esforços para controlar a comercialização de produtos sanguíneos. Resultados muito preliminares obtidos por nós com a prova de imunofluorescência sugerem que a proporção de doadores de sangue com anticorpos para a SIDA no Rio de Janeiro pode atingir a níveis de 1% a 2%. Isso seria altamente alarmante, mas deve ser interpretativo com cautela, pois o grupo examinado até agora é pequeno e não foi selecionado como representativo da população total. De qualquer modo, é imprescindível que esses resultados sejam confirmados, ou não, por outras provas, e que esses estudos sejam ampliados até se tornarem abrangentes à totalidade dos doadores de sangue. HErBErt dE SouzA – instituto Brasileiro de Análises Socioeconômicas – iBASE Começo expressando uma grande dúvida de como me comportar aqui, porque me foi pedido que eu falasse como sociólogo. Na verdade eu sou hemofílico e, como vocês podem perceber, é muito difícil, neste momento, fazer essa separação. Inclusive porque a estatística, os números relacionados à questão da hemofilia não são nada generosos com a hemofilia. Pelo menos nos testes que foram apresentados aqui. Vou fazer um esforço para falar como sociólogo, mas antes quero fazer esse parêntese: uma vez eu falei no Globo Repórter, como hemofílico e como sociólogo, e acreditava que estava extremamente tranquilo até que me vi no Globo Repórter. Aí percebi que estava em um estado de tensão extremamente grande, inclusive um pouco maior que a minha própria capacidade de me perceber. Esse estado de tensão tinha passado, quando fui ao Centro de Hematologia e tive uma conversa com uma hematóloga para pedir orientação — aí não era o sociólogo, era o hemofílico que estava pedindo orientação à médica. Cheguei à conclusão que, do ponto de vista do meu comportamento e das medidas que deveria tomar, eu não tinha de fazer literalmente nada, e que se eu começasse a ter SIDA antes de ter, eu morreria de SIDA mesmo sem ter. Então decidi realmente não me preocupar mais com a questão naquilo que se referia à minha pessoa, porque tenho 49 anos e há pelo menos 40 anos tomo transfusões. Já devo ter tomado toneladas ou centenas de 97 iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V litros de sangue. Portanto, qualquer imunologista, qualquer pesquisador teria em mim um laboratório completo para fazer qualquer tipo de teste em relação a esse problema. E só diante de debates como estes é que, de repente, reemerge a minha situação de hemofílico e me deixa um pouco preocupado. Mas, como vocês sabem também, tenho 2 (dois) irmãos hemofílicos: um é Henfil, que já tem 40 anos — e quando a gente fala 40 anos, são 40 anos de transfusões – e o outro é Francisco Mário, que tem quase 30 anos. Bom, os três homens da minha família são três hemofílicos. Enfim, esta é uma nota de pé de página como hemofílico. Agora vou tentar falar como sociólogo. Acho que a questão que nós estamos vendo, que atinge ou que pode atingir uma boa parte da humanidade, tem três componentes que são altamente explosivos e complicados em sua abordagem. A primeira delas é que a SIDA está relacionada de uma maneira muito direta à questão do sexo. A gente não precisa ser psicanalista para saber que a questão do sexo é uma questão complexa. A segunda é que, como consequência de estar relacionada à questão do sexo, ela está relacionada ao problema da moral, do comportamento de cada um. Apesar de muitas pessoas ignorarem estes fatores ou este campo da reflexão humana que é a moral, a moral domina o nosso cotidiano, quer queiramos, quer não. E a terceira, que talvez tenha um componente explosivo muito maior do que pensamos, é que ele toca à questão da morte. Eu diria que a SIDA, hoje, provoca mais medo da morte do que o câncer, e que talvez seja a doença mais diretamente associada à morte. Basta ver o número de suicidas noticiados, de pessoas que, ao perceberem que estão com SIDA, preferem morrer por sua própria vontade a morrer dessa doença. Uma pessoa com SIDA não dura mais que 1 a 2 anos, pelo menos essa é a noção que é difundida em nível de opinião pública. E isso realmente é a notícia da morte. Bem, então uma infeliz de uma doença como essa, que reúne em si esses três componentes – do sexo, da moralidade e da morte – e que, além do mais, segundo as pesquisas ou as opiniões científicas existentes, assume características epidêmicas a nível mundial, reúne realmente quatro componentes que são altamente provocadores do pânico. Minha primeira reflexão é essa: que cada um deles tem um lado perverso. O relacionar a doença à questão do sexo, e do sexo em homossexuais, leva a um lado perverso, o da repressão sexual. A vinculação à questão da moral leva a outro lado perverso, o moralismo. Há muita gente que está mais preocupada com os componentes do comportamento humano, da moral, do que com a própria doença, e, portanto, revelam uma imensa incapacidade de percebê-la e de tratá-la como doença. O moralismo e a repressão levam a dois subprodutos extremamente complicados e danosos a qualquer sociedade humana, que é a criminalização de um fenômeno e a marginalização das pessoas que são afetadas por uma doença. Finalmente, 98 unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS o lado perverso da questão da morte é que o simples enunciado de que a SIDA provoca a morte, nos faz esquecer primeiro de que somos todos mortais e depois leva a que o trato com o fenômeno provoque de imediato o pânico. O pânico é tudo, menos um enfrentamento racional de qualquer situação que seja. Então queria colocar estas dimensões, porque acho que os cientistas, os homens que tratam da questão da saúde pública, os políticos, os sociólogos, os economistas,enfim, todos aqueles que estão envolvidos, de uma forma ou de outra nessa questão, não podem ignorar as três dimensões, mesmo quando falam simplesmente, como fez o Dr. Gelli, do DNA. Na verdade é um DNA muito complicado, este que nós estamos analisando. Essas eram as questões que eu queria colocar. Feito isso, teríamos que definir, ao lado de uma política de saúde pública, uma posição, uma postura ética, científica e política em relação à questão da SIDA. Positivamente, creio que teríamos de fazer todo esforço para tratar a SIDA por aquilo que ela é, isto é, uma doença; uma doença que, sendo uma ameaça à humanidade, deve exigir da sociedade uma mobilização global de recursos. Os estados que são capazes de gastar bilhões de dólares com armamentos deveriam dedicar pelo menos 10% (dez por cento) dos gastos com armamentos para curar a SIDA, destinar recursos à pesquisa científica, que é o que a SIDA necessita. Outra coisa, e aí eu gostei muito da colocação do Gelli, em uma coisa muito particular, é que a transmissão pelo componente sangue, pela transfusão, é extremamente relevante na difusão da SIDA. Este é um campo onde o Estado e a sociedade podem fazer muito, se devidamente mobilizados e se forem aplicadas políticas realmente sérias no campo da saúde pública. Termino com esse ponto porque é exatamente o que interessa aos hemofílicos, porque o hemofílico é, e principalmente a criança hemofílica, um ser que vive na medida em que tem a cobertura das transfusões. É impensável, hoje em dia, um hemofílico sem transfusões. Portanto, para esse grupo de risco chamado hemofílico, a questão da transfusão é absolutamente crucial. Desde que a minha preocupação com a SIDA começou, eu não tomei nenhuma transfusão. Não é fácil tomar uma transfusão depois que o fenômeno assumiu a dimensão que está aí. Essas eram as reflexões que queria fazer. Para mim também foi uma satisfação muito grande poder estar em uma casa reaberta, arejada como esta, que está tratando de trazer de novo aqueles cientistas exilados que saíram deste país. Só me dá alegria poder estar aqui tentando aprender e comunicar um pouco daquilo que sinto mais do que sei em relação a este problema. Muito obrigado. Artigo completo e referências citadas podem ser encontrados no endereço eletrônico. Disponível em: . Acessado em: 1 out. 2014. 99 Para (não) finalizar Durante nosso estudo pudemos observar a importância do sistema imunológico no combate aos diversos tipos de agentes patogênicos a que somos expostos diariamente. O texto abaixo resume de forma clara as ações das defesas do nosso organismo. Sistema imunológico: os defensores Milhões de células vivem para matar qualquer invasor que ameace a saúde do ser humano. Em caso de perigo iminente, esse exército se lança a uma guerra sem quartel, em que ninguém faz prisioneiros. O nome dessa tropa de elite é sistema imunológico Por Lúcia Helena de Oliveira Um leve corte no dedo, tão superfi cial que mal assustaria uma criança. Indigno de merecer mais do que um “ai” ou, quem sabe, um palavrão. Afi nal, ninguém morre por causa de um corte no dedo – pelo menos em 99,9 por cento dos casos. Não que um corte não possa matar, se mais não mata é graças a uma tropa de elite, em permanente prontidão para ir à luta pela vida. É uma guerra secreta: enquanto uma dorzinha no lugar é praticamente tudo o que a pessoa retém do acidente, dentro do organismo reina grande agitação e todas as atenções se voltam para a vizinhança do pequeno corte; ali a batalha poderá começar a qualquer momento. A tropa de elite – o sistema imunológico – está preparada para o que der e vier. A mesma dor que avisa a pessoa que ela se machucou fez soar outro alarme, destinado às células de defesa. Dai começou o corre-corre. A circulação sanguínea transporta rapidamente batalhões inteiros dessas células ao local atingido, onde passam a ocupar posições estratégicas, entrincheiradas entre os tecidos. Toda a movimentação é apenas uma medida de segurança. Pode ser que o pequeno corte seja apenas um machucado sem consequências e que as células de defesa logo possam se dispersar sem ter disparado um tiro. Aliás, essa tropa é tão precavida que pega em armas diante de qualquer ameaça: por menor que seja uma lesão física, desencadeia o alerta. Até mesmo quando se leva um tapa, o sistema imunológico fi ca a postos. As células de defesa já estão se dispersando quando soa de novo o alarme – na verdade, trata-se da liberação das substâncias químicas produzidas pela pele ferida e também pelos invasores. Isso porque até um pequeno arranhão abre uma grande brecha para a 100 Para (Não) FiNalizar ação de micróbios solertes, toxinas perversas, partículas exóticas. Ao segundo alarme, os soldados da infantaria – que os cientistas chamam granulócitos – se lançam à batalha, sem perda de tempo, valendo-se do alto grau de preparo que os tornam ágeis e dinâmicos. Muitos deles vão tombar em combate. Junto com os restos mortais do inimigo derrotado, formarão o pus que aparece nas feridas. Então se aproxima a artilharia dos macrófagos, células mais fortes, cujos canhonaços pulverizam não só os invasores, vivos ou mortos, como os próprios granulócitos eliminados no começo da batalha. Tamanha é a quantidade de macrófagos, comprimidos nos espaços entre as células, que são uma das causas do inchaço no local machucado. Granulócitos e macrófagos usam armas fabricadas há muito tempo, tanto que foram encontradas nos arsenais de espécies primitivas, como as esponjas. Graças a esse material bélico de comprovada eficiência, as enzimas existentes em seu interior, eles engolem, trituram e digerem os inimigos. Outras enzimas, produzidas por diversos órgãos, como o estômago, podem ajudar, perfurando a membrana de micróbios e parasitas feito balas de canhão. Chamadas de fagocitárias, essas células reconhecem os invasores (conhecidos antígenos) por meio das substâncias químicas que Ihes são comuns. Não é difícil a identificação, tais substâncias inexistem no organismo. Ou seja, o uniforme do inimigo é inconfundível. Certas bactérias, como as pneumococci da pneumonia, ao longo da evolução aprenderam, porém, a se camuflar e a passar despercebidas. Contra isso os vertebrados inventaram há 400 milhões de anos uma resposta formidável, as células linfócitos B. Assim que uma bactéria da pneumonia tenta invadir o corpo pelo pequeno corte, os linfócitos B disparam seus mísseis teleguiados que se encaixam na molécula da bactéria, ou de qualquer outro invasor infeccioso, bloqueando-a para que não contamine outras células do organismo. Essas proteínas são os tão falados anticorpos. Sua função principal, porém, é típica dos serviços de contraespionagem: desmarcar os inimigos camuflados. A técnica funciona às mil maravilhas. Ao combinar-se com o odiado antígeno, o anticorpo chama a atenção do macrófago para a presença do estranho. O inimigo, então, fica encurralado. “Além de tornar o antígeno reconhecível, os anticorpos ajudam os macrófagos a ingeri-los”, explica o professor de Imunologia Momtchillo Russo, da USP. Os linfócitos B, em geral, são os soldados mais especializados do exército de defesa. Nas aves, são treinados para o ataque na Bursa de Fabricius (daí a letra B), que fica na cloaca, a ponta do canal intestinal. Já no homem, que não tem bursa, essas células nascidas na medula óssea são treinadas em tecidos como os do baço, intestino, amídalas, fígado. Dali vão navegar na corrente sanguínea, prontas para a luta, onde quer que se localize o teatro de operações. Se todas as células da pele humana são idênticas, o mesmo não acontece com os linfócitos B. Faz sentido: afinal, precisam especializar-se na produção 101 Para (Não) FiNalizar de anticorpos de tamanhos e formatos diversos, para se encaixar como peças de quebra- cabeça em uma infinidade de inimigos. Calcula-se que entre o trilhãode linfócitos B do organismo, haja cerca de 1 milhão de tipos diferentes. No curso de uma infecção, algumas células B adquirem o que os cientistas chamam memória: a propriedade que Ihes permite estudar detalhadamente as táticas do invasor, de maneira que, se ele infectar o corpo uma segunda vez, haverá células B especializadas no seu combate e capazes de agir mais rapidamente do que no ataque anterior. Quando um linfócito B se encontra, porém, face a face com o seu antígeno, não se põe a disparar anticorpos imediatamente, como um amador. Espera a ordem de atacar dada por uma substância, a interleucina enviada pela célula T auxiliar. A T auxiliar é um dos três tipos de células que rumam da medula óssea para o timo (daí a letra T), uma glândula atrás das costelas, na altura do coração. Sua função é controlar todo o sistema imunológico. Como não produz anticorpos, embora seja especializada em um único invasor, não se sabe até hoje quais são seus receptores, isto é, como ela encaixa e percebe o inimigo, ativando a partir dai tanto as células B como os macrófagos. Além das interleucinas, a T auxiliar tem uma segunda arma: a interferona, que funciona como um gás paralisante nas células infectadas e dificulta a propagação do antígeno. Quem nasce sem timo não sobrevir, por falta de células T para organizar suas defesas. Quando tais células são destruídas pelo vírus da AIDS, por exemplo, o mesmo acontece. Não seria então o caso de simplesmente injetar interleucina no organismo dos pacientes para suprir a produção natural prejudicada? A resposta infelizmente é negativa. “Lançada na circulação, a interleucina ativaria todo o sistema imunológico em vez de estimular apenas o lifócito B necessário”, esclarece o professor Russo, da USP. “O sistema muito ativado é tão nefasto quanto o deficiente, causando febres, dores, coagulação do sangue. Enfim, pode levar à morte”. Quem corrige os lamentáveis, mas nem sempre evitáveis excessos da repressão e ao mesmo tempo dá a ordem para o recuo é um segundo tipo de célula T, a supressora. Ela envia uma substância que inibe a ação da célula T auxiliar e, por tabela, de todas as outras células. Na verdade, cientistas desconhecem como essas duas células, a auxiliar e a supressora, mantêm o equilíbrio do sistema imunológico. Como será que sabem quando é hora de parar? Essa é a grande questão que a Imunologia busca responder. O terceiro e último tipo de célula T, ao contrário de suas irmãs, não dá ordens – nem por isso é menos importante. Trata-se da célula citotóxica, uma espécie de assassino profissional. Daí a sua alcunha em inglês: killer, assassina. Enquanto as demais células do sistema reconhecem apenas os antígenos (substâncias estranhas), a killer perscruta os tecidos do próprio organismo, os quais vive espionando: se estiver faltando algo, 102 Para (Não) FiNalizar como nas células cancerosas que degeneram, ou se houver algo a mais, como nas células infectadas que retiveram em suas membranas partículas de um vírus invasor, ela se ativará. Então, aproxima-se da célula doente e, como se Ihe desse o beijo da morte, transmite-lhe uma substância tóxica destruidora. Se a killer destrói as células defeituosas, por que então se morre de câncer? Quando se tem trilhões de células como no organismo humano é normal que no decorrer da vida certo número delas comece a apresentar defeitos. Portanto, a pergunta correta deveria ser: por que se pode viver sem câncer? E a resposta é: graças ao controle exercido pela killer. O problema aparece quando ela se ausenta – como na AIDS, em que o doente logo padece de tipos raros da enfermidade, ou quando já não existem killers em número suficiente, como em pessoas idosas. “Com o passar dos anos, o sistema imunológico se enfraquece”, esclarece o imunologista Antonio Lauro Coscina, do Hospital Albert Einstein. Apesar das vastas zonas de sombra que ainda desafiam os imunologistas, avanços importantes têm ocorrido. Nos Estados Unidos, pesquisadores conseguiram isolar em laboratório as interleucinas específicas para ativar as células T que combatem determinado tipo de câncer. Também se descobriu que, em alguns casos, quando a célula cancerosa é contaminada por bactérias, as células killer vão ao ataque mais rapidamente. Por isso, os cientistas estão inoculando essas bactérias em tumores de pele, com resultados positivos. Sem dúvida, porém, uma das descobertas mais significativas foi a dos anticorpos monoclonais, no início dos anos de 1980: são anticorpos específicos, desenvolvidos em laboratório, marcados com substâncias radioativas. Eles não só identificam células cancerosas, mas também o tipo de câncer, permitindo o diagnóstico precoce da doença. Às vezes, ao invés de estimular o sistema de defesa, a ciência deve colocar-lhe freios. É o que ocorre nas doenças autoimunes, quando algo faz com que as células de defesa passem a tratar as células do próprio corpo como inimigas. Suspeita-se que algumas doenças, como úlceras estomacais e intestinais, artrite reumatoide, problemas de tireoide e esclerose múltipla, sejam autoimunes. O conceito existe desde a década de 1950, mas até hoje pouco se sabe sobre os seus mecanismos. Há três hipóteses que não se excluem necessariamente: 1. As doenças autoimunes são provocadas em tecidos de cuja existência o sistema de defesa não teve conhecimento prévio e por isso não estaria capacitado a reconhecer. Há casos de esterilidade masculina produzida por anticorpos que aniquilam os espermatozoides. 2. Determinada infecção poderia alterar a aparência das membranas celulares de um órgão qualquer, tornando suas células estranhas para o sistema de defesa. 103 Para (Não) FiNalizar 3. Desequilíbrio nas funções das células T supressoras e auxiliares que controlam o sistema inteiro. Cientistas americanos, que testaram o sangue de portadores de doenças autoimunes, constataram que nele havia menos células T supressoras do que normal. Atualmente, essas doenças têm sido tratadas com drogas chamadas imunossupressoras que inibem o sistema imunológico. São os mesmos medicamentos usados em casos de transplante, para evitar a rejeição do órgão. Mas evidentemente essas drogas têm a grande desvantagem de diminuir a eficiência do sistema como um todo. As pesquisas mais recentes voltam-se para a produção de anticorpos, ou seja, anticorpos que anulem os anticorpos fabricados pelo organismo contra si próprio. O professor Coscina acredita que no futuro a solução será ainda melhor: “A Imunologia daqui a alguns anos será a Imunogenética”, diz. “Manipulando os genes se poderá ter sistemas de defesa mais eficientes e sanar os problemas das doenças autoimunes.” Fonte:. Acessado em: 1 out. 2014. 104 referências ABBAS, A. K; LICHTMAN, A. H. Imunologia básica: funções e distúrbios do sistema imunológico. Tradução da 2a edição. Rio de Janeiro. Elsevier Editora Ltda, 354p., 2007. ABBAS, A. K; LICHTMAN, A. H.; PILLAI, S. Imunologia celular e molecular. 6a edição. Rio de Janeiro. Elsevier Editora Ltda, 562 p., 2007. CASTRO, B. G.; PEREIRA, G.; SOUZA, H. de. AIDS: o que fazer? Cadernos de saúde pública. Rio de Janeiro. V. 2, p. 66 – 83, Jan./Mar. 1986. FONSECA, Sylvia Maria Dantas et al. Avaliação do estado imune de mulheres em idade reprodutiva em relação ao vírus da rubéola. Rev. Bras. Ginecol. Obstet., vol.21, no 5, p.261-266, Jun 1999. HOFFBRAND, A.V.; MOSS, P.A.H. Fundamentos em hematologia. Porto Alegre: Artmed, 2013. JUNQUEIRA, Luiz C.; CARNEIRO, José. Histologia básica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. POLEJACK, L.; SEIDL, E. M. F. Monitoramento e avaliação da adesão ao tratamento antirretroviral para HIV/Aids: desafios e possibilidades. Ciência e saúde coletiva. Rio de Janeiro. V. 15, p. 1201 – 2018, Jun. 2010. SEIxAS, Ana Maria; SORRIA-COSTALES; TANIA, A.; et al. Síndrome de Chediak- Higashi: relato de caso e revisão da literatura. Na. Bras. Dermatol.74(6):605-9, Nov, dez.1999. SILVA, W.D.; MOTA, I. Bier Imunologia básica e aplicada. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003.principal (MHC). Células natural killer (nK) As células natural killer (NK) ou matadoras naturais, não apresentam receptores antígenos específicos como os linfócitos T e B, fazendo parte do sistema imune inato, porém apresentam funções efetoras semelhantes às das células T citotóxicas. Do ponto de vista morfológico, as células NK são maiores do que os linfócitos T e B e possuem citoplasma granular. Em sua superfície apresentam os marcadores celulares CD16 e CD56. Essas células correspondem a cerca de 10 a 20% dos linfócitos circulantes. Sua ação citotóxica principal ocorre contra células infectadas por vírus e células tumorais, agindo por intermédio de secreção de citocinas, perforinas e granzimas para levar a apoptose. As células NK possuem um receptor conhecido como killer immunoglobulin-like receptor, ou KIR. Este receptor é responsável por fazer uma espécie de reconhecimento das moléculas de MHC de classe I das células, ou seja, as células NK reconhecem as células que estão infectadas pela ausência ou presença das moléculas de MHC de classe I em sua superfície. 13 IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I Esse mecanismo é importante devido ao fato de que células infectadas por vírus ou células tumorais em geral apresentam diminuição ou ausência da expressão do MHC, dessa forma as NK tem a capacidade de reconhecer as células anormais e destruí-las. Para se tornarem ativadas, as células NK dependem não só do reconhecimento de células que expressam pouco ou nenhum MHC, como também precisam reconhecer ligantes para receptores de ativação, que servem como segundo sinal para se tornarem citotóxicas. Sabe-se que quando ocorre a expressão exagerada desses ligantes na célula alvo, a célula NK também tornasse ativada. Resumidamente, a ação das células NK depende da concentração apropriada e específica das moléculas de MHC na superfície das células alvo, além do equilíbrio entre sinais ativadores e inibitórios mediados por receptores nas células NK. As células normais do organismo, que apresentam concentrações normais de MHC em sua superfície, são reconhecidas pelas células NK que geram um sinal inibidor, impedindo a destruição das mesmas. Para as crianças, a imunidade inata e as células NK são de grande importância, pois muitas doenças são combatidas por meio dessas células enquanto a imunidade adaptativa ainda não está totalmente desenvolvida. Além de destruir células infectadas por vírus, as células NK contribuem para a defesa antiviral pela secreção de várias citocinas, incluindo o IFN-I. Os Pacientes com ausência de células NK sofrem infecções virais persistentes. Principalmente pelos herpes vírus. figura 2. Ação da célula NK com relação à presença ou ausência de HlA na célula alvo. fonte: figura adaptada de Jobim, M e Jobim, .f.J (2008, p. S60). 14 UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS imunidade adaptativa A resposta imune adaptativa é altamente específica e se desenvolve ao longo do tempo de acordo com as diferentes exposições a agentes agressores durante a vida do indivíduo, gerando a chamada memória imunológica. A imunidade adaptativa contra as infecções virais é mediada por anticorpos produzidos pelas células B, que bloqueiam a ligação do vírus aos receptores celulares impedindo sua entrada, e por células T citotóxicas, que destroem as células infectadas. imunidade adaptativa mediada por células B Os linfócitos B são uma população de células que expressam em sua superfície celular os receptores de antígeno das células B (BCR), que são os anticorpos ligados a membrana que serão secretados quando a célula for ativada, também conhecidos como imunoglobulinas de membrana. As imunoglobulinas são uma classe de substâncias que compreendem os anticorpos. A secreção e ligação de anticorpos a antígenos são formas de sinalizar outras células para que estas realizem a fagocitose, processamento ou remoção da substância ligada. Quando os linfócitos B são ativados pelo antígeno específico, eles proliferam e se diferenciam em plasmócitos que são as células secretoras de anticorpos. Sua principal função é secretar anticorpos no sangue e em outros líquidos orgânicos, efetuando assim a imunidade humoral. Cada célula B produz um tipo específico de anticorpo capaz de se ligar a um tipo de proteína. As células B reconhecem os seguintes antígenos na forma solúvel: » Proteínas. » Ácidos nucléicos. » Polissacarídeos. » Alguns antígenos lipídios. » Pequenos agentes químicos (haptenos). O reconhecimento do antígeno pelo BCR é baseado na complementariedade entre a região de ligação do receptor e o epítopo do antígeno. Enquanto os anticorpos possuem um único tipo de receptor, os antígenos podem ter múltiplos epítopos, assim, um único antígeno pode ser reconhecido por diferentes moléculas de anticorpo. 15 IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I De acordo com as diferenças nas sequências de aminoácidos na região constante das cadeias pesadas, as imunoglobulinas podem ser divididas em cinco classes diferentes: 1. IgG – Cadeias pesadas gama. 2. IgM – Cadeias pesadas mu. 3. IgA – Cadeias pesadas alfa. 4. IgD – Cadeias pesadas delta. 5. IgE – Cadeias pesadas épsilon. Os linfócitos B que são ativados, mas não se diferenciam em plasmócitos, constituem as células B de memória, que são capazes de responder rapidamente a uma segunda infecção e produzem anticorpos que se ligam ao antígeno com maior afinidade do que os anticorpos produzidos nas respostas imunes primárias. Os vírus possuem fases extracelulares durante o curso da infecção. Essas fases ocorrem no início da infecção, antes de infectar a célula, e quando as partículas virais são liberadas da célula após a replicação, por brotamento ou lise celular. É exatamente nessas fases extracelulares que os anticorpos tem sua efetiva ação contra estes agentes patogênicos. Os anticorpos antivirais específicos podem prevenir tanto a infecção inicial quanto a propagação das partículas infecciosas para outras células. A imunidade humoral é extremamente importante para a defesa contra as infecções virais, pois a resistência a um determinado tipo de vírus, que pode ser induzida tanto pela infecção natural quanto por vacinação, é geralmente específica para o tipo sorológico do vírus (que é definido pelo anticorpo que atua contra ele). É importante lembrar que uma vez que os vírus estejam dentro da célula, os anticorpos não tem mais capacidade de ação sobre eles, portanto, a imunidade humoral sozinha não é capaz de extinguir uma infecção viral. As principais atividades antivirais dos anticorpos são: » Neutralização: a neutralização é o mecanismo mais direto de ação dos anticorpos contra vírus. Os anticorpos se ligam às partículas virais e impedem sua ligação aos receptores celulares. A neutralização pode ocorrer por imunoglobulinas das classes IgA, presente nas mucosas e em secreções, ou por IgM e IgG, presentes no plasma sanguíneo. 16 UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS » Aglutinação: as IgM e IgG têm a capacidade de aglutinar partículas virais, facilitando a remoção mediada pelo sistema complemento e por células fagocítica. » Opsonização: as moléculas IgM e IgG possuem a capacidade de revestir as partículas virais facilitando a ligação e remoção das partículas pelas células fagocíticas. imunidade adaptativa mediada por células t Os linfócitos T são os mediadores da imunidade celular, seus precursores têm origem na medula óssea e posteriormente migram até o timo. Quando chegam ao timo, as células precursoras proliferam e diferenciam-se originando linfócitos T jovens e posteriormente os linfócitos T maduros. Os dois tipos principais de células T são as células T CD4+ auxiliares (helper- Th) e as células T CD8+ citotóxicas. Existe ainda um terceiro tipo de células T chamado de células T CD4+ reguladoras. Essas células expressam em sua superfície os receptores de antígeno das células T (TCR), que compõe uma classe de proteínasde membrana relacionadas evolutivamente às imunoglobulinas, porém muito diferentes em relação à estrutura e propriedades de reconhecimento. Esses receptores estão adaptados para reconhecer apenas peptídeos associados ao MHC, portanto não são capazes de reconhecer antígenos solúveis. Os linfócitos T CD4+ reconhecem antígenos associados ao MHC de classe II. Uma das respostas primordiais dessas células é a secreção da citocina denominada interleucina 2 (IL-2). Essa citocina atua sobre os linfócitos ativados por antígenos, estimulando a expansão clonal. A ativação dessas células faz com que elas saiam dos órgãos linfoides onde foram geradas e migrem para o local da infecção, essas células ativadas e quando expostas novamente ao antígeno passam a iniciar as funções que levam a eliminação do micro-organismo. Os linfócitos T CD8+ citotóxicos reconhecem antígenos associados ao MHC de classe I. Essas células possuem grânulos citoplasmáticos contendo enzimas que causam a morte das células que contêm micro-organismos em seu citoplasma ou células tumorais. Em geral as células reconhecidas pelo linfócito T citotóxico podem estar infectadas por vírus, bactérias intracelulares, ou bactérias ingeridas pelos macrófagos que conseguem escapar do fagosomo. 17 IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I Pouco tempo depois que ocorre o reconhecimento da célula alvo pelo linfócito T citotóxico, a célula alvo começa a sofrer um processo de apoptose ou morte celular programada, induzida pelo linfócito T CD8+. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.21 no 5 Rio de Janeiro June 1999. Avaliação do estado imune de mulheres em idade reprodutiva em relação ao vírus da rubéola Sylvia Maria Dantas Fonseca, Valéria Cristina Ribeiro Dantas, Marianna Toscano Dantas, José Veríssimo Fernandes resumo Objetivo: avaliar o estado imune de mulheres em idade reprodutiva, em relação ao vírus da rubéola. Métodos: foram analisadas alíquotas de soros de 2.243 mulheres na faixa etária dos 15 aos 45 anos (média de 26 anos), residentes na área urbana de Natal, RN, para avaliação do estado imune em relação ao vírus da rubéola. Do total das mulheres examinadas, 1.170 (52,1%) eram gestantes e 1.073 (47,9%) não gestantes. Foi pesquisada a presença de anticorpos das classes IgM e IgG no soro de todas as pacientes, empregando-se a técnica de ELISA em fase sólida, revelada mediante fluorescência (ELFA). Resultados: do total das pacientes analisadas, 1.632 se apresentaram imunes e 611 se mostraram suscetíveis ao vírus da rubéola. Os índices médios de imunidade e de suscetibilidade observados nos 4 anos estudados foram 73,0 e 27,0% respectivamente. No grupo das mulheres consideradas suscetíveis, 14,5% não apresentaram qualquer sinal da presença de anticorpos contra o vírus da rubéola, 7,7% apresentaram anticorpos da classe IgM isoladamente e em 4,8% delas foi detectada a presença simultânea de anticorpos IgM e IgG. Conclusão: os achados revelaram que uma parcela significativa da população feminina de Natal, em idade reprodutiva, ainda se encontra suscetível ao vírus da rubéola, revelando a existência real de risco de infecção congênita por esse patógeno. Recomenda-se a vacinação seletiva dessas mulheres contra a rubéola, como forma segura de prevenir as manifestações relacionadas à síndrome de rubéola congênita. PALAVRAS-CHAVE: Rubéola. Gravidez normal. Pré-natal. Vacinação. 18 UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS introdução A rubéola é uma doença viral, exantemática aguda, autolimitada, de evolução benigna, que atinge preferencialmente crianças e adultos jovens, ocorrendo muitas vezes na forma assintomática. O vírus da rubéola infecta exclusivamente a espécie humana, de forma que a manutenção desse patógeno na natureza depende da existência, na comunidade, de indivíduos suscetíveis. Em comunidades urbanas, a rubéola apresenta caráter endêmico, ocorrendo, entretanto, surtos epidêmicos a intervalos mais ou menos regulares. Pouco se sabe sobre o comportamento dessa enfermidade nas comunidades rurais e em populações isoladas. Uma extensa epidemia de rubéola foi registrada nos Estados Unidos, em 1964 e 1965, com a ocorrência de 1.800.000 casos da doença, dos quais 250.000 em mulheres grávidas, ocasionando dezenas de milhares de natimortos e de crianças nascidas a termo, mas apresentando anomalias conhecidas como síndrome de rubéola congênita (SRC). Outras epidemias dessa virose foram registradas em diversas partes do mundo, conforme descrito por Cutts et al., com índices variáveis de manifestações de SRC. Em Singapura em 1986, o índice encontrado foi de 1,5 por 1000 crianças nascidas vivas, em Israel, 1972, esse índice foi de 1,7, no Panamá, 1986, 2,2 e no Sri Lanka, 1994, 0,9. Do ponto de vista patológico, a rubéola teria pouca importância, não fosse a possibilidade de ocorrência da infecção congênita, decorrente da infecção materna durante os três primeiros meses de gestação tendo em vista a ação teratogênica do vírus. Na infecção congênita, pode haver a invasão do complexo placenta-feto pelo vírus, com disseminação pelos tecidos embrionários, podendo resultar no aborto espontâneo ou no nascimento a termo de crianças apresentando manifestações relacionadas à SRC. A ação teratogênica do vírus da rubéola sobre o organismo do feto se faz por meio de dois mecanismos: a infecção crônica, que pode se prolongar por vários meses após o nascimento, e a inibição da atividade mitótica das células embrionárias, afetando o crescimento e a diferenciação celular, podendo resultar na ausência completa de órgãos ou na formação defeituosa destes. A infecção do feto durante o primeiro trimestre da gestação aumenta em 50% o risco de ocorrência de aborto espontâneo e causa um percentual ainda mais elevado de anomalias relacionadas com a SRC. As manifestações da SRC podem ser transitórias, tais como: hepato- esplenomegalia, púrpura trombocitopênica e icterícia, ou permanentes, entre 19 IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I estas catarata, surdez sensorial, anormalidades cardiovasculares, displasia da retina, coriorretinite, microcefalia, lesão cerebral e retardo mental, ou ainda manifestações tardias como é o caso da diabetes mellitus. O risco absoluto da ocorrência de SRC varia amplamente em diferentes estudos, provavelmente em função da idade em que as crianças são examinadas, tendo em vista que algumas das sequelas são transitórias, desaparecendo após algum tempo ao passo que outras só aparecem tardiamente. Estudando 269 crianças nascidas de mães que foram infectadas pelo vírus da rubéola durante a gestação, Miller et al., demonstraram que o risco de infecção congênita foi de 81%, com ocorrência de malformações em 69% do casos, quando a infecção materna se deu no primeiro trimestre da gestação. Em um estudo desenvolvido por Cutts et al. no qual se avaliou o grau de suscetibilidade de mulheres em idade reprodutiva, em 45 países em desenvolvimento, demonstrou-se que em 13 desses países a proporção de mulheres suscetíveis foi menor que 10%, mas em 20 deles esse índice variou de 10 a 24% e nos outros 12 países o índice de suscetibilidade foi maior ou igual a 25%. Halstead et al. em um estudo epidemiológico realizado no Havaí, envolvendo adolescentes e adultos, demonstraram que a porcentagem de indivíduos suscetíveis à rubéola naquele estado americano variou de 25 a 50% da população examinada. No Brasil, vários estudos baseados na pesquisa de anticorpos em gestantes ou mulheres em idade reprodutiva, realizados em diversas regiões do país, mostram que pelo menos 20% das mulheres dessa faixa etária ainda são suscetíveis à rubéola. O presente trabalho teve como objetivo investigar o grau de suscetibilidade ao vírus da rubéola, de um grupo de mulheres em idade reprodutiva, que procuraram o nosso serviço no período de 1994 a 1997para verificar o seu estado imune em relação a essa enfermidade, tendo em vista a suspeita clínica da infecção por esse vírus. Esse tipo de abordagem se reveste da maior relevância, não apenas pelo fato de permitir esclarecer o estado imune das pacientes, mas principalmente por revelar a proporção de mulheres em idade fértil que ainda se encontram suscetíveis ao vírus da rubéola. Essa informação permite orientar os órgãos encarregados da saúde pública, na definição de possíveis campanhas de vacinação contra a rubéola, visando à prevenção da infecção congênita e consequentemente dos seus efeitos tão indesejáveis. 20 UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS Pacientes e Métodos Casuística Foram analisadas alíquotas de soros de um grupo de 2.243 mulheres, das quais 1.170 eram gestantes e 1.073 não gestantes. Todas estavam na faixa etária de 15 a 45 anos com média de idade de 26 anos e eram residentes na área urbana da cidade de Natal (RN). Essas pacientes foram encaminhadas ao Centro de Patologia Clínica, no período compreendido entre janeiro de 1994 a dezembro de 1997, para avaliação do seu estado imune em relação ao vírus da rubéola, tendo em vista a existência de suspeita clínica da infecção por esse patógeno. Antes da coleta de sangue para a obtenção do soro, foi solicitado a todas as mulheres que concordaram em participar do estudo, que respondessem a um inquérito epidemiológico, realizado por meio de um questionário padronizado, a partir do qual foram obtidas informações tais como: idade, estado de gravidez ou não, história pregressa de rubéola ou de doença exantemática, contato com indivíduos portadores da doença, vacinação contra essa enfermidade e dados clínicos. Análise laboratorial De cada paciente foi obtida uma única amostra de soro, na qual foi pesquisada, em reações separadas, a presença de anticorpos das classes IgM e IgG, específicos para o vírus da rubéola. O método empregado foi o ensaio imunoenzimático (ELISA) em fase sólida, com leitura final por meio de fluorescência utilizando a técnica denominada Enzyme Linked Fluorescent Assay (ELFA), realizada utilizando o sistema Vidas-Rub, da Bio Mérieux. Trata-se de um ensaio quantitativo, automatizado, em que a leitura da reação é feita pela quantificação da fluorescência emitida, utilizando-se filtro de 450 nm. A intensidade de fluorescência emitida é proporcional à quantidade de anticorpos presentes na amostra de soro pesquisada. A concentração de anticorpos da classe IgM na amostra é expressa na forma de índice de sinalização de fluorescência, ao passo que a concentração de anticorpos da classe IgG é expressa na forma de unidades internacionais por mililitro. Foram consideradas negativas, para anticorpos da classe IgM, as pacientes cujos soros apresentaram índices de sinalização de fluorescência menores que 0,8, e positivas aquelas em que esses índices foram iguais ou superiores a 1,2. Com relação aos anticorpos da classe IgG, foram consideradas negativas as pacientes cujos soros apresentaram menos de 10 UI/ml, e positivas aquelas que 21 IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I apresentaram valores de leitura iguais ou superiores a 15 UI/ml. Para efeito de interpretação dos resultados obtidos, foram consideradas suscetíveis ao vírus da rubéola, dentro da sua faixa etária, todas as mulheres que não apresentaram qualquer sinal da presença de anticorpos para o vírus da rubéola e aquelas nas quais foi detectada a presença de anticorpos da classe IgM, seja isoladamente ou em associação com anticorpos da classe IgG. resultados Foram examinadas alíquotas de soro de 313 mulheres durante o ano de 1994, 521 em 1995, 703 em 1996 e 706 em 1997, perfazendo um total de 2.243 pacientes pesquisadas. Desse total, 1.170 mulheres, o equivalente a 52,1% da amostra, eram gestantes e 1.073 (47,9%) não gestantes. No grupo das mulheres gestantes, 252 (11,2%) se mostraram suscetíveis e 918 (40,9%) se apresentaram imunes ao vírus da rubéola. As porcentagens de suscetibilidade à doença nesse grupo, nos 4 anos pesquisados, variaram de 10,8 a 11,5%, apresentando um índice médio de suscetibilidade de 11,2%, ao passo que as porcentagens de mulheres imunes desse mesmo grupo variaram de 39,8 a 42,4%, sendo que o índice médio de imunidade encontrado nos 4 anos pesquisados foi de 41,0% do total da amostra. No grupo das mulheres não gestantes, 359 (16,0%) se apresentaram suscetíveis e 714 (31,8%) se mostraram imunes ao vírus da rubéola. As porcentagens de susceptibilidade à doença nesse grupo variaram de 14,4 a 17,9%, nos 4 anos pesquisados, apresentando um índice médio de susceptibilidade de 15,8% do total das pacientes examinadas, ao passo que as porcentagens de mulheres imunes ao vírus, nesse mesmo grupo, variaram de 30,9 a 33,2%. O índice médio de imunidade encontrado foi de 32,0% do total da amostra (Tabela 1). Tabela 1. Estado imune de mulheres em idade reprodutiva, gestante e não gestantes, em relação ao virús da rubéola. Constatou-se que, no geral, isto é, sem separar as mulheres gestantes das não gestantes, um total de 339 pacientes, o que representa 15,1% da amostra, 22 UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS não apresentaram qualquer sinal da presença de anticorpos dirigidos contra o vírus da rubéola. As porcentagens de mulheres nessa condição, no decorrer dos 4 anos estudados, variaram de 12,1 a 18,8%, com média de 14,5% do total de pacientes examinadas. Observou-se ainda que 158 pacientes, equivalente a 7,0% da amostra, apresentaram anticorpos da classe IgM isoladamente. As porcentagens de mulheres nessa condição variaram de 3,5 a 11,2%. Além disso, em 114 mulheres (5,1%) foi detectada a presença simultânea de anticorpos das classes IgM e IgG. As porcentagens de pacientes nessa condição variaram de 2,2 a 6,7%, no período estudado, com média de 4,8% do total da amostra pesquisada. Quando se consideraram apenas as condições de imunidade ou de susceptibilidade ao vírus da rubéola, sem especificar o tipo de resposta apresentada pelas pacientes, observou-se que no grupo das mulheres classificadas como suscetíveis ao vírus da rubéola, num total de 611 pacientes, o equivalente a 27,2% da amostra, as porcentagens de susceptibilidade a esse patógeno variaram de 25,6 a 29,3%, nos 4 anos estudados, apresentando um índice médio de susceptibilidade de 27,0% do total de mulheres pesquisadas. No grupo das mulheres classificadas como imunes ao vírus da rubéola, isto é, aquelas que apresentaram somente anticorpos da classe IgG, num total de 1.632 pacientes, o que representa 72,8% da amostra, observou-se que as porcentagens de mulheres nessa condição variaram de 70,7 a 74,4%, nos 4 anos pesquisados, apresentando índice médio de imunidade de 73,0% do total da amostra (Tabela 2). Tabela 2. Estado imune de um grupo de mulheres em idade reprodutiva em relação à rubéola. discussão Nesse estudo, apresentamos os resultados de uma avaliação do estado imune para o vírus da rubéola em uma parcela da população feminina da cidade de Natal, em idade reprodutiva, na faixa etária dos 15 aos 45 anos, média de 26 anos, que foram encaminhadas ao nosso laboratório com suspeita clínica de infecção pelo vírus da rubéola. A porcentagem elevada de mulheres grávidas na 23 IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I amostra estudada (52.1%) reflete a preocupação tanto das pacientes quanto dos médicos com a possibilidade de ocorrência da infecção por esse vírus durante o período de gestação. Consideraram-se como suscetíveis as mulheres que não apresentaram anticorpos contra o vírus da rubéola e aquelas que apresentaram anticorpos da classe IgM, isoladamente ou em associação com anticorpos da classe IgG. Por outro lado, foram classificadas na condição de imunes as mulheres que apresentaram somente anticorpos da classe IgG, específicos para o vírus da rubéola. Esse critériofoi adotado tendo em vista que a presença de anticorpos IgM, seja isolada ou simultaneamente com anticorpos da classe IgG, indica a ocorrência de infecção recente. Como nosso objetivo foi determinar o grau de susceptibilidade apresentado pelas mulheres examinadas, dentro de uma faixa etária estabelecida, em que a unidade de referência foi o período de um ano, as mulheres que desenvolveram a infecção pouco tempo antes de serem examinadas foram classificadas como suscetíveis à doença, dentro da sua faixa etária. Analisando-se o estado imune das mulheres pesquisadas, de acordo com a especificação do tipo de resposta apresentada, constatou-se que em média 14,5% das mulheres pesquisadas não apresentaram qualquer sinal da presença de anticorpos dirigidos contra o vírus da rubéola, 7,7% delas apresentaram anticorpos da classe IgM isoladamente e em 4,8% do total da amostra, foi detectada a presença simultânea de anticorpos das classes IgM e IgG. O percentual relativamente elevado de mulheres com a presença de anticorpos IgM, 12,5% do total da amostra estudada, justifica-se, provavelmente, devido ao fato de grande parte dessas pacientes terem procurado os serviços médicos durante o período em que encontravam-se sob a suspeita clínica de infecção pelo vírus da rubéola, que em muitos casos foi confirmada sorologicamente, mediante a detecção de anticorpos IgM, específicos para o referido patógeno, comprovando, assim, a ocorrência de infecção recente. Quando, no entanto, o estado imune das mulheres pesquisadas foi analisado de uma forma global, isto é, sem fazer distinção entre grávidas e não grávidas, verificou-se que 73,0% das pacientes se apresentaram imunes à rubéola, conforme demonstrado sorologicamente pela presença isolada de anticorpos da classe IgG. No entanto, 27,0% do total da amostra estudada se mostrou suscetível à rubéola, tendo em vista a ausência total de anticorpos dirigidos contra esse patógeno ou a presença de anticorpos da classe IgM, seja isolada ou simultaneamente com anticorpos da classe IgG. 24 UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS Os dados obtidos nesse estudo mostram que o índice médio de suscetibilidade à rubéola apresentado pelas mulheres de Natal está um pouco acima dos encontrados em cidades de outras regiões do país, em mulheres de faixas etárias semelhantes. Na cidade de São Paulo, um estudo realizado por Cotillo revelou a existência de um índice de suscetibilidade à rubéola de 22,8%, em um grupo de mulheres gestantes. No Rio de Janeiro, Schatzmayr e Mesquita encontraram índice de suscetibilidade de 20%. Já em Porto Alegre, Estrella encontrou um índice de suscetibilidade à rubéola de 19,0% em mulheres na faixa etária de 20 aos 40 anos. Por outro lado, esses resultados confirmam o índice de suscetibilidade encontrado em outro estudo com características semelhantes realizado em Natal, por Fonseca et al. no qual o índice apresentado foi de 26,0%. Além disso, o índice de suscetibilidade encontrado nesse estudo está em perfeita concordância com os índices de suscetibilidade para a rubéola, encontrados por Cutts et al. em um grupo de 12 países em desenvolvimento. Os achados mostram que uma parcela considerável da população feminina de Natal, em idade reprodutiva, ainda se encontra suscetível ao vírus da rubéola, o que representa um alvo em potencial para esse patógeno. Considerando-se a ação teratogênica do vírus da rubéola, um índice de suscetibilidade tão elevado a esse patógeno, em mulheres da faixa etária estudada, deve ser motivo de preocupação por parte das autoridades sanitárias, tendo em vista a possibilidade da ocorrência da infecção congênita e das consequências dela decorrentes. Assim sendo, justifica-se a realização de campanhas de vacinação seletiva dessas mulheres contra a rubéola, como forma segura de prevenir a infecção congênita por esse vírus e consequentemente impedir a ocorrência das manifestações associadas à síndrome da rubéola congênita. 25 CAPítulo 2 imunidade contra bactérias e fungos Bactérias que são capazes de se replicar fora das células do hospedeiro são chamadas de bactérias extracelulares. Muitas espécies podem causar doença e isso acontece por meio de dois mecanismos: » Induzem inflamação, que resulta em destruição do tecido inflamado. » Produzem toxinas com diversos efeitos patológicos. imunidade natural contra bactérias extracelulares Os principais mecanismos são a ativação do complemento, fagocitose e resposta inflamatória. A ativação do complemento pode ser feito por duas vias: » Via alternativa: ativada por bactérias gram positivas que contém peptideoglicano (uma molécula que causa rigidez) em sua parede celular e também por bactérias gram negativas que tem o lipopolissacarídeo (LPS) uma molécula altamente tóxica derivada da membrana celular externa dessas bactérias. » Via da lectina: ativada por bactérias que expressam manose (um tipo de açúcar simples) na sua superfície. Os fagócitos usam vários receptores como, receptores de manose (reconhecem bactérias extracelulares), receptores Fc, receptores do complemento (reconhecem bactérias opsonizadas), receptores semelhantes à Toll (ativam fagócitos). Esses receptores são importantes para promoverem a fagocitose dos micro-organismos e estimular a atividade microbicida dos fagócitos que podem produzir citocinas que induzem a infiltração de leucócitos nos locais da inflamação. imunidade adquirida às bactérias extracelulares A produção de anticorpos por meio da imunidade humoral é a principal resposta imune contra bactérias extracelulares e atua bloqueando a infecção, eliminando os micro-organismos e neutralizando suas toxinas. 26 UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS Os anticorpos são produzidos contra antígenos da parede celular e toxinas secretadas e associadas às células. Efeitos lesivos das respostas imunológicas Inflamação e choque séptico são as principais consequências lesivas das respostas imunológicas. O dano tecidual causado pela produção local de espécies reativas de oxigênio e enzimas lisossômicas, que funcionam também para erradicar a infecção, normalmente são autolimitadas e controladas. O choque séptico é uma consequência grave de infecção causada por bactérias gram negativas e algumas gram positivas. Ele é causado por doses muito grandes de citocinas e pode estar relacionado com a depleção de células T. figura 3. Resposta imunológica adquirida às bactérias extracelulares. Neutralização Anticorpo Célula BBactérias Bactérias Apresentação de antígenos protéicos Ativação do complemento Células T auxiliares (para antígenos protéicos) Células T auxiliar CD4+APC Inflamação InflamaçãoTNF IFN-γ Lise bacteriana Resposta de anticorpo Citocinas diversas Ativação de macrófagos = fagocitose e destruição bacteriana Opsonização e fagocitose mediada por receptor a Fc Fagocitose das bactérias revestidas com C3b fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. imunidade contra bactérias intracelulares O que diferencia as bactérias extracelulares das bactérias intracelulares, é que estas são capazes de sobreviver e replicar dentro dos fagócitos. 27 iMunidAdE ContrA AgEntES EXtErnoS │ unidAdE i imunidade natural contra bactérias intracelulares Imunidade feita principalmente por fagócitos, que ingerem e tentam destruir essas bactérias, porém elas resistem aos fagócitos e células natural killer (NK) que produzem citocinas que ativam macrófagos promovendo a destruição das bactérias fagocitadas. Assim as células NK desempenham um papel de defesa inicial antes que a imunidade adquirida seja desenvolvida. imunidade adquirida às bactérias intracelulares A imunidade mediada por células é a principal resposta protetora contra bactérias intracelulares, pois acontece a ativação do macrófago que resulta na morte do micro-organismo fagocitado e lise das células infectadas por meio de linfócitosT citotóxicos (CTLs). As células TCD4+ sob influência de citocinas, se diferenciam em células efetoras Th1 que ativam macrófagos a produzirem substâncias microbicidas como as espécies reativas de oxigênio, óxido nítrico e enzimas lisossômicas. Se os antígenos bacterianos forem transportados dos fagossomos para o citosol ou se as bactérias escaparem dos fagossomos e entrarem no citoplasma das células infectadas, ocorre ativação de células TCD8+. figura 4. Imunidade natural e adquirida contra bactérias intracelulares. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. As bactérias intracelulares conseguem resistir à morte dentro de fagócitos e assim, persistem por longos períodos e causam estimulação antigênica crônica e ativação da célula T e macrófago que pode resultar em lesão tecidual. 28 UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS imunidade aos fungos Micoses são as infecções causadas por fungos. Algumas são endêmicas, causadas por fungos que estão no meio ambiente e outras são oportunistas porque em indivíduos sadios elas podem ser infecções leves ou não causar nenhuma doença, porém em indivíduos imunocomprometidos podem causar doença grave. Alguns fungos podem viver no tecido extracelular e dentro de fagócitos. Portanto, as respostas imunológicas é uma mistura de resposta a bactérias extracelulares e intracelulares. Mas ainda pouco se sabe sobre a imunidade antifúngica. Neutrófilos e macrófagos são as principais células respondedoras da imunidade natural contra fungos. Os neutrófilos podem produzir e liberar espécies reativas de oxigênio e enzimas lisossômicas que são substâncias antifúngicas e também fagocitam os fungos para a morte intracelular. Na resposta imune adquirida, o principal mecanismo responsável é a imunidade mediada por células. A resposta Th1 é considerada protetora enquanto que a resposta Th2 é prejudicial e há uma cooperação entre as células TCD4+ e TCD8+ na eliminação de alguns tipos de fungos. 29 CAPítulo 3 Vacinas As vacinas vieram como uma forma de reduzir a incidência de doenças infecciosas. A imunologia junto com a biologia molecular lançaram novas vacinas e novas estratégias de vacinação (SCHATZMAYR, 2003). Porém, a indústria farmacêutica tem pouco interesse no desenvolvimento e produção de novas vacinas (GRECO, 2002). Vários são os fatores que limitam os investimentos na área do desenvolvimento de vacinas. Entre eles podemos citar: » Risco de responsabilidade por reações adversas. » Alto custo de desenvolvimento com preços não atrativos. » Países em desenvolvimento, que seriam o principal alvo das vacinas, possuem uma limitação muito grande para compra. Mesmo com todos esses problemas é interessante pensar na relação custo-benefício da vacinação. Para isso, basta comparar, por exemplo, o tratamento contra a hepatite B. O que é mais viável e com menos custo: disponibilizar três doses da vacina contra a doença ou fazer o tratamento do paciente, este, que pode ser estender por anos? Para o desenvolvimento de vacinas primeiro é necessário entender os mecanismos imunológicos envolvidos nas respostas às infecções. A mucosa é a primeira barreira mecânica entre os meios interno e externo que os micro-organismos encontram dificultando então a adesão à superfície das células epiteliais de revestimento (BARASCHI et al., 2003). Células epiteliais ativadas atraem células imunes como macrófagos, neutrófilos, células natural killer, linfócitos além de ativarem sistema complemento. As células dendríticas são consideradas hoje as mais importantes células apresentadoras de antígenos para induzir resposta imune de células auxiliar TCD4+e também de TCD8+ citotóxicas. As células dendríticas têm a capacidade de capturar e processar antígenos levando-os para os nódulos linfáticos que é onde acontece a resposta imunológica (BANCHEREAU; STEINMAN, 1998). A imunização serve para prevenir o desenvolvimento do quadro clínico no indivíduo bem como controlar ou até mesmo eliminar determinada virose quando se alcançar um alto nível de imunidade. 30 UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS tipos de vacinas utilizadas Vacinas vivas atenuadas Contém vírus vivo e atenuado em laboratório. A principal vantagem da vacina viva é que ela envolve todos os componentes do sistema imune para o desenvolvimento da imunidade. Assim a resposta imune é completa e mantém-se por longos períodos. Apresentam menor custo de produção. Efeitos adversos podem surgir fazendo com que a vacina se torne mais “virulenta” sendo esta uma desvantagem das vacinas vivas e a possibilidade de deterioração também se torna grande sendo necessário todo um aparato refrigerado para seu transporte adequado. Vacinas mortas ou inativadas Os micro-organismos são mortos por agentes químicos. Portanto, elas não provocam doença, pois há total ausência do poder infeccioso do agente. Porém, a resposta imune induzida não é tão boa e longa quanto a respostas causada por micro-organismo atenuado. Elas podem ser: » Inteiras (de vírus ou bactérias intactos). » Fragmentadas (Contêm pequenas frações ou porções de vírus ou bactérias). » Toxoide. » Polissacarídicas. » Conjugadas. Quadro 1. vacina X Medicamento. fonte: . Acessado em: 1 out. 2014. 31 unidAdE iiiMunidAdE tuMorAl CAPítulo 1 desenvolvimento e mecanismos participadores O câncer é um problema de saúde no mundo todo e uma das causas mais relevantes de mortalidade e morbidade (relação entre saudáveis e doentes). Os cânceres surgem da proliferação e disseminação descontrolada de clones de células transformadas e seu crescimento é determinado, na maioria das vezes, pela capacidade de proliferação das células tumorais e a capacidade destas, de invadir os tecidos do hospedeiro e disseminar para locais distantes, bem como a capacidade de evadir ou superar os mecanismos de defesa do hospedeiro. Falando um pouco mais afundo sobre o câncer, acontece o seguinte: as células dos animais são formadas pela membrana celular (parte externa), citoplasma (corpo da célula) e o núcleo (que tem os cromossomos compostos por genes). Os genes guardam e fornecem instruções para a organização das estruturas, formas e atividades celulares. Essas informações estão no DNA e é por meio dele que os cromossomos passam as informações para a célula. Uma célula normal pode sofrer mutações, alterações no DNA dos genes, e assim recebem instruções erradas para suas atividades. Essas modificações acontecem nos protoncogenes que são inativos nas células normais. Porém, quando ativos, transformam-se em oncogenes responsáveis pela malignização das células normais, sendo então denominadas células cancerosas. 32 unidAdE ii │ iMunidAdE tuMorAl figura 5. Malignização das células no câncer. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. O conceito de vigilância imunológica afirma que, uma função fisiológica do sistema imunológico é reconhecer e destruir clones de células transformadas, antes que eles se transformem em tumores, e destruir os tumores depois que eles já estão formados. Esse conceito foi o impulso para o desenvolvimento de muitos trabalhos no campo da imunologia tumoral. Aspectos gerais da imunidade tumoral Para compreender as respostas imunológicas aos tumores e a imunoterapia, é necessário conhecer algumas características dos antígenos tumorais e das respostas imunológicas ativadas por eles. Os tumores expressam antígenos que são reconhecidos como estranhos pelo sistema imunológico adquirido e assim causam resposta imunológica, principalmente mediada pelos linfócitos T. Porém, as respostas imunológicas, por diversos motivos, frequentemente falham na prevenção de crescimento de tumores. 33 iMunidAdE tuMorAl │ unidAdE ii Podemos citar, como exemplo: as células tumorais derivam de células do hospedeiro e, portanto, se parecem normais (são fracamente imunogênicos); o rápido crescimento e disseminação do tumor podemsuperar a capacidade do sistema imunológico de erradicar as células tumorais e muitos tumores têm mecanismos especializados para evadir da resposta imune do hospedeiro. figura 6. Imunidade tumoral. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. Antígenos tumorais Uma diversidade de antígenos tumorais, que podem ser reconhecidos pelos linfócitos B e T em humanos e animais, tem sido identificada. Em humanos é importante identificar esses antígenos, pois eles podem ser usados como componentes de vacinas tumorais e anticorpos e células T efetoras produzidas contra esses antígenos podem ser utilizadas para imunoterapia. Os antígenos tumorais foram classificados primeiramente em antígenos específicos de tumores (antígenos expressos em células tumorais, mas não expressos em células 34 UNIDADE II │ ImUNIDADE tUmorAl normais) e antígenos associados a tumores (antígenos tumorais que também são expressos em células normais, porém com expressão aberrante ou desregulada). Hoje a classificação é fundamentada na origem e estrutura molecular dos antígenos. figura 7. Tipos de antígenos reconhecidos pelas células T. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. Os anticorpos antitumorais não reconhecem os peptídeos associados ao complexo de histocompatibilidade (MHC), que são os antígenos vistos pelas células T. Os antígenos tumorais reconhecidos pelas células T são provavelmente os principais indutores da imunidade humoral. Os antígenos tumorais reconhecidos pelas células TCD8+ são peptídeos derivados de proteínas processadas no citosol e expressas na superfície da célula tumoral ligada às moléculas do MHC classe I. Os antígenos tumorais podem ser proteínas normais que são produzidas em baixos níveis em células normais, porém são superexpressas em células tumorais. Um exemplo é a tirosinase, uma enzima envolvida na biossíntese de melanina, expressa apenas em melanócitos normais e em melanomas (tipo mais perigoso de câncer de pele). 35 ImunIdade tumoral │ unIdade II Os produtos de vírus oncogênicos funcionam como antígenos tumorais e provocam respostas específicas de célula T que podem servir para erradicar os tumores. Assim, um sistema imunológico competente pode ter um papel na vigilância imunológica contra tumores induzidos por vírus. Já os antígenos oncofetais, são proteínas expressas em altos níveis nas células cancerosas e em fetos com desenvolvimento normal, porém não são expressas em tecidos de adultos. Eles podem ser importantes para fornecer marcadores que auxiliam no diagnóstico de tumores. Os tumores expressam antígenos de diferenciação tecido-específico, ou seja, são específicos para linhagens ou estágios particulares de diferenciação de diversos tipos de células sendo assim, importantes para imunoterapia e identificação do tecido de origem do tumor. 36 CAPítulo 2 respostas possíveis In vitro, foi demonstrado que mecanismos efetores tanto da imunidade natural quanto da adquirida destroem células tumorais. Porém, o grande desafio dos imunologistas de tumores é determinar quais desses mecanismos contribuem para a resposta imunológica in vivo. resposta imune natural As duas principais células da resposta imune natural que tem a capacidade de destruir células tumorais são: células natural killer (NK) e macrófagos. As primeiras destroem muitos tipos de células tumorais, mas principalmente as que pouco expressam moléculas do MHC I, mas expressam ligantes para receptores ativadores das células NK. As células NK respondem na ausência de moléculas do MHC I, pois o reconhecimento dessas moléculas fornece sinais inibitórios para as células NK. A capacidade tumoricidade das células NK, é aumentada pelas citocinas, principalmente interferons e interleucinas 2 e IL-12. Porém, o papel das NK na imunidade tumoral in vivo ainda não está claro. Os macrófagos têm um papel ainda não muito conhecido na imunidade tumoral, porém in vitro, já foi demonstrado que eles têm maior capacidade de destruir células tumorais do que células normais. Essa destruição pode ser feita por meio de vários mecanismos e possivelmente são os mesmos usados na destruição de organismos infectantes, como, por exemplo, liberação de enzimas lisossômicas, espécies reativas de oxigênio e óxido nítrico. Quando os macrófagos estão ativados, eles podem produzir fator de necrose tumoral (TNF) que é um agente, como o próprio nome diz, capaz de destruir tumores. resposta imune adquirida Resposta imunológica mediada por células T quanto resposta imunológica humoral mediada por anticorpos, acontecem espontaneamente a tumores, porém algumas evidências sugerem que a resposta das células T tem um papel protetor. A destruição das células tumorais pelas CTLsCD8+, é o principal mecanismo de imunidade tumoral. Essas células são capazes de desempenhar função de vigilância quando reconhecem e destroem células potencialmente malignas que são apresentadas em associação às moléculas de MHC I. 37 ImunIdade tumoral │ unIdade II Para que as células TCD8+ respondam aos antígenos tumorais, é necessária uma apresentação cruzada com APCs profissionais (células profissionais apresentadoras de antígenos), como as células dendríticas, pois não expressam coestimuladores necessários para dar início às respostas de células T nem as moléculas do MHC II necessárias para estimular as células T auxiliares. Quando CTLs efetores são produzidos eles são capazes de reconhecer e destruir as células tumorais sem a necessidade de coestimulação. figura 8. Indução de respostas por células TCD8+ contra tumores. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. O papel das células TDC4+ auxiliares não é muito claro. Mas sugere-se que, elas podem secretar citocinas como TNF e IFN-ʏ que podem aumentar a expressão de MHC I pelas células tumorais e a sensibilidade à lise por CTLs. Anticorpos podem ser produzidos por portadores de tumor. Eles podem destruir as células tumorais ativando o complemento ou por meio da citotoxicidade mediada por anticorpos onde macrófagos portadores de receptor Fc ou células NK medeiam a destruição. A capacidade dos anticorpos de destruir células tumorais foi extensamente comprovada in vitro, porém há poucas evidências da imunidade humoral efetiva contra tumores. Evasão das respostas imunológicas pelos tumores Muitos tumores possuem mecanismos para escapar do sistema imune do hospedeiro e esse é o grande desafio da imunologia do tumor: compreender como as células tumorais fazem isso para que possam intervir na imunogenicidade dos tumores, aumentando-a bem como aumentar também a resposta do hospedeiro. 38 unidAdE ii │ iMunidAdE tuMorAl A “edição do tumor” é o processo que resulta na sobrevivência e propagação de células tumorais variantes, com imunogenicidade reduzida. Os antígenos tumorais podem induzir tolerância imunológica, pois são antígenos próprios encontrados pelo sistema imunológico em desenvolvimento ou porque as células tumorais apresentam seus antígenos de uma forma tolerogênica. As células T reguladoras são aumentadas em pacientes com tumor e podem ser encontradas nos infiltrados celulares em certos tumores e isso faz com que tenha uma supressão da resposta da célula T ao tumor. Ou seja, se há uma depleção de células T reguladoras, há um aumento na imunidade antitumoral e consequente redução do crescimento tumoral. Tumores que têm crescimento rápido perdem antígenos que são reconhecidos por CTLs específicos para tumor, inibindo então a resposta imunológica. Os tumores também pode não induzir CTLs já que a grande maioria das células tumorais não expressa coestimuladores (necessários para dar início às respostas das células T) ou moléculas MHC II (que são importantes para ativação das células T auxiliares, que estimulam a diferenciação dos CTLs). figura 9. Mecanismos de evasão do sistema imune causados pelos tumores. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. 39 ImunIdade tumoral │ unIdade II imunoterapia para tumores As terapias atuais contra ocâncer se baseiam em medicamentos que destroem as células que se dividem ou param a divisão celular, porém esses medicamentos têm efeitos graves sobre as células normais fazendo com que a taxa de mortalidade e morbidade nos pacientes em tratamento contra o câncer seja alta. A imunoterapia tem como objetivo potencializar a fraca resposta imunológica aos tumores ou administrar anticorpos ou células T específicas para o tumor sendo assim, um tratamento mais bem elaborado e mais específico sem causar muitos prejuízos às células normais. figura 10. Estratégias para melhorar as respostas imunológicas tumorais. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. 40 UNIDADE II │ ImUNIDADE tUmorAl figura 11. vacinas tumorais. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. imunização com células tumorais e antígenos tumorais Esse tipo de imunização é feita com células tumorais mortas ou antígenos tumorais resultando em uma resposta imune aumentada sobre o tumor. Aumento da imunidade do hospedeiro contra tumores por meio de citocinas e coestimuladores Como o próprio nome sugere uma expressão aumentada de citocinas e coestimuladores em células tumorais de indivíduos portadores de tumor, estimula a proliferação e diferenciação de linfócitos T e células NK com consequente potencialização da imunogenicidade das células tumorais. Bloqueamento das vias inibitórias para promover imunidade tumoral Estratégia baseada na ideia de que as células T usam várias vias normais de regulação ou tolerância imunológica para escaparem da resposta imune do hospedeiro. Estudos em 41 ImunIdade tumoral │ unIdade II camundongos mostraram que, se estes forem portadores de tumor e forem vacinados com o tumor e tratados com o anticorpo que bloqueia os CTLA-4 (receptor inibidor de B7, que funciona para desligar respostas), eles vão desenvolver fortes respostas antitumorais de células T e destruir o tumor. Estimulação inespecífica do sistema imunológico A administração local de substâncias inflamatórias ou por tratamento sistêmico com agentes que funcionam como ativadores policlonais de linfócitos T estimulam a resposta imune a tumores. imunoterapia passiva para tumores com células t e anticorpos O que é a imunoterapia passiva? É a transferência de efetores imunológicos, incluindo células T e anticorpos específicos para tumor, em pacientes. Ela é rápida, porém, não é duradoura. São três os tipos de imunoterapia passiva: terapia celular adotiva, efeito enxerto-versus- Leucemia e terapia com anticorpos antitumorais. terapia celular adotiva É um tipo de terapia onde células imunológicas são cultivadas in vitro para serem transferidas ao paciente portador de tumor e assim causar reatividade antitumoral. Efeito enxerto-versus-leucemia A administração de células T alorreativas (linfócitos T de um indivíduo que reconhecerão antígenos em células ou tecidos de outro indivíduo geneticamente diferente) junto com transplante de células tronco hematopoiéticas, em indivíduos portadores de leucemia, pode ajudar na erradicação do tumor. terapia com anticorpos antitumorais Esses anticorpos tumorais por meio dos mesmos mecanismos efetores na eliminação de microrganismos como opsonização, fagocitose e ativação do sistema do complemento, podem ajudar na eliminação de tumores. Porém, um dos grandes problemas desse tipo de terapia é que os anticorpos antitumorais podem ter um crescimento excessivo das variantes e assim perder os antígenos que são reconhecidos pelos anticorpos. 42 UNIDADE II │ ImUNIDADE tUmorAl o papel do sistema imunológico na promoção do crescimento tumoral Até então o que sabemos é que o sistema imunológico tem um papel de proteção contra tumores. Mas ele também pode contribuir com o crescimento de alguns desses tumores. A inflamação crônica, por exemplo, tem sido muito estudada e apontada como um fator de risco para o desenvolvimento de tumor. Porém, não se sabe ao certo como ela pode promover o desenvolvimento tumoral, mas algumas possibilidades são colocadas. A ativação crônica das células do sistema imune natural, como os macrófagos, é caracterizada por angiogênese (nova formação vascular regulada por vários fatores proteicos elaborados por células do sistema imune inato e adaptativo e frequentemente acompanhados por inflamação crônica) e remodelação tecidual ambas favorecendo a formação do tumor, sendo considerados os mais diretos culpados por promover tumores. As células imunes naturais podem gerar radicais livres que são prejudiciais ao DNA levando a mutações nos genes supressores de tumor e oncogenes, ou seja, favorecendo o aparecimento de tumor. O sistema imunológico adquirido, indiretamente, pode contribuir para a ativação crônica de células imunes naturais por meio da ativação mediada pelas células T, dos macrófagos, nas infecções microbianas intracelulares persistentes. Assim, ele intensifica as atividades promotoras de tumores do sistema imunológico natural. Os efeitos promotores de tumores do sistema imunológico são paradoxais e estão constantemente sendo estudados. 43 unidAdE iiiiMunidAdE no trAnSPlAntE CAPítulo 1 desenvolvimento e mecanismos participadores O transplante consiste na retirada de células, tecidos ou órgãos (chamados enxertos) de um indivíduo que serão colocados em outro (geralmente diferente). Na prática, o transplante serve para suprir uma deficiência funcional ou anatômica no receptor (indivíduo que recebe o enxerto). Mas o transplante não é tão simples quanto parece. Para ter sucesso, é preciso driblar o sistema imune do receptor ao tecido doado, já que aquele enxerto é considerado estranho podendo desencadear uma resposta imunológica causando a rejeição do órgão. Pode haver dois tipos de rejeição: » Primária: enxertos que são geneticamente diferentes são rejeitados em um prazo de 7 a 10 dias. » Secundária: enxerto subsequente do mesmo doador para o mesmo receptor é rejeitado mais rápido, em um prazo de 2 a 3 dias. 44 unidAdE iii │ iMunidAdE no trAnSPlAntE figura 12. Rejeição primária e secundária. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. Os tipos de enxertos podem ser divididos da seguinte forma: » Enxerto autólogo ou autoenxerto: é aquele que é transplantado de um indivíduo para si mesmo. » Enxerto singênico: é o enxerto transplantado entre dois indivíduos geneticamente idênticos (gêmeos). » Enxerto alogênico ou aloenxerto: é aquele enxerto transplantado entre indivíduos geneticamente diferentes. » Enxerto xenogênico ou xenoenxerto: é o enxerto transplantado entre indivíduos de espécies diferentes. 45 CAPítulo 2 respostas possíveis Os aloantígenos, moléculas reconhecidas como estranhas nos aloenxertos, desencadeiam respostas imunológicas celular e humoral. figura 13. Reconhecimento direto e indireto de aloantígenos. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. As reações de rejeição rápida, forte, quase sempre são desencadeadas pelas moléculas do complexo principal de histocompatibilidade (MHC), pois é o MHC que desempenha papel fundamental nas respostas imunológicas normais a antígenos estranhos. Assim, o MHC tem um papel de reconhecimento secundário a aloantígenos. Como isso acontece? Moléculas do MHC alogênicas podem ser apresentadas aos linfócitos T de forma direta e indireta. A forma direta envolve o reconhecimento de uma molécula de MHC intacta exibida por células apresentadoras de antígenos (APCs) do doador no enxerto. Ou seja, a apresentação direta é exclusiva de moléculas de MHC estranhas. Trocando em miúdos: é uma apresentação cruzada de um receptor de célula T (TCR) que foi selecionado para reconhecer uma molécula no MHC própria, ou seja, do próprio indivíduo, e um peptídeo estranho, com uma molécula do MHC alogênica e um peptídeo. 46 UNIDADE III │ IMUNIDADE NO TRANSPLANTE figura 14. Reconhecimento direto de moléculas do MHC alogênicas. fonte: figura adaptada de Abbas, 2007. A apresentação indireta envolve o processamento de moléculas do MHC do doador pelas