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Prévia do material em texto

Brasília-DF. 
ImunIdade na doença
Elaboração
Luciana Peniche Moreira
Produção
Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração
Sumário
APrESEntAção ................................................................................................................................. 5
orgAnizAção do CAdErno dE EStudoS E PESquiSA .................................................................... 6
introdução.................................................................................................................................... 8
unidAdE i
IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS .............................................................................................. 9
CAPítulo 1
IMUNIDADE CONTRA víRUS ...................................................................................................... 9
CAPítulo 2
IMUNIDADE CONTRA bACTéRIAS E fUNGOS ........................................................................... 25
CAPítulo 3
vACINAS ................................................................................................................................ 29
unidAdE ii
IMUNIDADE TUMORAl .......................................................................................................................... 31
CAPítulo 1
DESENvOlvIMENTO E MECANISMOS pARTICIpADORES ............................................................ 31
CAPítulo 2
RESpOSTAS pOSSívEIS ............................................................................................................. 36
unidAdE iii
IMUNIDADE NO TRANSplANTE .............................................................................................................. 43
CAPítulo 1
DESENvOlvIMENTO E MECANISMOS pARTICIpADORES ............................................................ 43
CAPítulo 2
RESpOSTAS pOSSívEIS ............................................................................................................. 45
CAPítulo 3
HISTOCOMpATIbIlIDADE .......................................................................................................... 50
unidAdE iV
AlERGIA .............................................................................................................................................. 54
CAPítulo 1
DESENvOlvIMENTO E MECANISMOS pARTICIpADORES ............................................................ 54
CAPítulo 2
RESpOSTAS IMUNES NA AlERGIA ............................................................................................. 56
CAPítulo 3
TRATAMENTO vIA COMpONENTES IMUNES .............................................................................. 66
unidAdE V
IMUNODEfICIÊNCIAS .......................................................................................................................... 71
CAPítulo 1
IMUNODEfICIÊNCIAS pRIMáRIAS ............................................................................................ 71
CAPítulo 2
IMUNODEfICIÊNCIAS SECUNDáRIAS ....................................................................................... 84
PArA (não) finAlizAr ..................................................................................................................... 99
rEfErênCiAS ................................................................................................................................ 104
5
Apresentação
Caro aluno
A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se 
entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. 
Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela 
interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da 
Educação a Distância – EaD.
Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos 
conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da 
área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que 
busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica 
impõe ao mundo contemporâneo.
Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo 
a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na 
profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira.
Conselho Editorial
6
organização do Caderno
de Estudos e Pesquisa
Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em 
capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos 
básicos, com questões para refl exão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar 
sua leitura mais agradável. Ao fi nal, serão indicadas, também, fontes de consulta, para 
aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares.
A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de 
Estudos e Pesquisa.
Provocação
Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes 
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor 
conteudista.
Para refletir
Questões inseridas no decorrer do estudo a fi m de que o aluno faça uma pausa e refl ita 
sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante 
que ele verifi que seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As 
refl exões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões.
Sugestão de estudo complementar
Sugestões de leituras adicionais, fi lmes e sites para aprofundamento do estudo, 
discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.
Praticando
Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer 
o processo de aprendizagem do aluno.
7
Atenção
Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a 
síntese/conclusão do assunto abordado.
Saiba mais
Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões 
sobre o assunto abordado.
Sintetizando
Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o 
entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.
Exercício de fi xação
Atividades que buscam reforçar a assimilação e fi xação dos períodos que o autor/
conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não 
há registro de menção).
Avaliação Final
Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, 
que visam verifi car a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única 
atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber 
se pode ou não receber a certifi cação.
Para (não) fi nalizar
Texto integrador, ao fi nal do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem 
ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado.
8
introdução
Todos os dias, nosso organismo se expõe aos mais diversos e numerosos tipos de agentes 
patogênicos. Nosso sistema imunológico é responsável por nos defender, diminuindo a 
quantidade de doenças que desenvolvemos durante nossa vida.
O desenvolvimento de doenças infecciosas envolvem interações muito complexas entre 
os micro-organismos e os mecanismos de defesa do hospedeiro, que podem permitir ou 
não a entrada, invasão e colonização dos tecidos.
Com relação aos cânceres, que surgem a partir da proliferação e disseminação descontrolada 
de clones de células malignamente transformadas, os sistemas imunológicos natural e 
adaptativo também têm uma grande importância no combate a essa doença.
Nos processos alérgicos, a resposta exacerbada do organismo se dá devido a uma 
hipersensibilidade a certos antígenos que leva a uma série de reações rápidas e com 
grandes consequências.
Contrariamente, nas imunodeficiências, defeitos nos componentes do sistema imunológico 
levam a distúrbios muitas vezes graves ou fatais que impedem o desenvolvimento das 
defesasAPCs do receptor. Então a moléculas do MHC estranha é tratada como qualquer 
antígeno proteico estranho sendo essa apresentação bem parecida com os mecanismos 
de apresentação de um antígeno proteico microbiano. 
47
iMunidAdE no trAnSPlAntE │ unidAdE iii
Ativação de linfócitos alorreativos
Essa ativação depende da apresentação de aloantígenos por APCs derivadas do doador 
presentes no enxerto (apresentação direta) ou por APCs do hospedeiro que captam e 
apresentam aloantígenos do enxerto (apresentação indireta). 
Além desse reconhecimento de aloantígenos, a coestimulação por moléculas B7 nas 
APCs também é importante para ativação dos linfócitos alorreativos. 
Mecanismos efetores da rejeição a aloenxertos
A rejeição é mediada por células alorreativas TCD4+ ou CD8+ ou aloanticorpos e pode 
ser causada por diferentes mecanismos. 
rejeição hiperaguda
Caracterizada pela oclusão trombótica da vasculatura do enxerto que se inicia minutos 
ou horas após a formação da anastomose (comunicação entre vasos sanguíneos) entre 
os vasos sanguíneos do hospedeiro e do enxerto. 
Essa rejeição é mediada por anticorpos pré-existentes na circulação do hospedeiro que 
se ligam aos antígenos endoteliais do doador. Esses anticorpos ativam complemento e, 
anticorpos e complemento induzem alterações no endotélio do enxerto que promovem 
a trombose intravascular. 
figura 15. Rejeição hiperaguda.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
rejeição aguda
É um processo de lesão vascular e parenquimatosa mediada por células T e anticorpos 
que geralmente iniciada após a primeira semana de transplante. 
48
UNIDADE III │ IMUNIDADE NO TRANSPLANTE
Os linfócitos T tem um papel central na rejeição aguda porque respondem a 
aloantígenos, incluindo moléculas do MHC presentes na vasculatura endotelial e células 
parenquimatosas, causando destruição direta das células do enxerto ou por meio da 
produção de citocinas que recrutam e ativam células inflamatórias. 
figura 16. Rejeição aguda.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
rejeição crônica
A rejeição crônica acontece quando os enxertos já estão a mais de 6 meses presentes no 
receptor e uma oclusão arterial se desenvolve lentamente como resultado da proliferação 
das células da musculatura lisa da íntima que podem entrar em insuficiência devido à 
lesão isquêmica. 
figura 17. Rejeição crônica.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
49
IMUNIDADE NO TRANSPLANTE │ UNIDADE III
Prevenção e tratamento da rejeição 
de aloenxertos
A primeira abordagem para tratar a rejeição é a imunossupressão, pois algumas drogas 
imunossupressoras podem destruir ou inibir os linfócitos T. Toxinas metabólicas 
inibem a maturação dos linfócitos de precursores imaturos e também podem destruir 
células T maduras em proliferação que foram estimuladas por aloantígenos. 
Anticorpos que reagem com a estrutura de superfície das células T e depletam ou inibem 
essas células, são usados no tratamento de rejeição aguda. 
Algumas drogas bloqueiam as vias coestimuladoras das células T prevenindo assim, a 
rejeição. Agentes antinflamatórios bloqueiam a síntese e secreção de citocinas que são 
mediadores inflamatórios dos macrófagos. 
figura 18. Métodos de imunossupressão de uso clínico.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
50
CAPítulo 3
Histocompatibilidade
A defesa contra microrganismos intracelulares bem como a ativação de células B e 
macrófagos é feita com a ajuda dos linfócitos T. As células T, ao contrário das células B, 
só reconhecem antígenos que são apresentados por outras células e essa função é feita 
por proteínas especializadas codificadas por genes chamado de complexo principal de 
histocompatibilidade (MHC). Ou seja, o MHC tem a função de apresentar peptídeos 
às células T. O MHC é dividido em dois, sendo essa divisão importante para entender 
como as células T reconhecem antígenos estranhos.
 » MHC classe I: essas moléculas apresentam peptídeos aos linfócitos 
TCD8+ citotóxicos
 » MHC classe II: essas moléculas apresentam peptídeos aos linfócitos 
TCD4+.
figura 19. Complexo de reconhecimento peptídeo-MHC.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
Além de controlarem as respostas imunológicas aos antígenos proteicos, o complexo 
MHC também controla a rejeição a enxertos nos transplantes. 
A característica estrutural do MHC é importante no desempenho de apresentação 
de antígenos e no reconhecimento dos mesmos pelos linfócitos T. Cada molécula de 
MHC tem uma fenda onde se ligam os peptídeos, um par de domínios semelhantes 
51
IMUNIDADE NO TRANSPLANTE │ UNIDADE III
às imunoglobulinas e essa molécula está fixada na membrana celular. Nessa fenda há 
uma variedade de aminoácidos fazendo com que as diferentes moléculas de MHC se 
liguem e apresentem diversos peptídeos que são reconhecidos especificamente pelos 
receptores nas células T.
A molécula de MHC I é composta de uma cadeia polipeptídica codificada pelo MHC e 
outra que não é codificada pelo MHC, ao passo que, a molécula de MHC II apresenta 
duas cadeias polipeptídicas codificadas pelo MHC. Na figura abaixo nota-se que a 
fenda de ligação de peptídeos na molécula de MHC I é fechada. Isso faz com que não 
seja permitida a ligação de peptídeos com mais de 11 aminoácidos. Por isso, proteínas 
em sua conformação nativa precisam ser processadas para gerar fragmentos pequenos 
que se liguem ao MHC e possam ser reconhecidos pelas células T. Já na molécula de 
MHC II observa-se a fenda aberta permitindo assim, a ligação de peptídeos com 30 
ou mais aminoácidos.
figura 20. MHC I. figura 21. MHC I.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
ligação dos peptídeos às moléculas de MHC
Entender as bases moleculares da interação peptídeo-MHC e por que esses peptídeos 
se ligam ao MHC é importante para saber as propriedades que tornam uma proteína 
imunogênica. 
Como foi mostrado nos desenhos acima, cada molécula de MHC I ou MHC II possui 
apenas uma fenda de ligação de peptídeo, ou seja, apenas um peptídeo pode ser ligado 
por vez. Mas as moléculas de MHC apresentam ampla especificidade à ligação de 
antígenos fazendo com que vários peptídeos diferentes possam ser acomodados. 
Qual seria a razão para que uma única molécula de MHC possa ligar vários tipos de 
peptídeos? A resposta é simples. Cada indivíduo possui somente 6 (seis) moléculas de 
52
unidAdE iii │ iMunidAdE no trAnSPlAntE
MHC I e de 10-20 moléculas de MHC II que devem ser capazes de apresentar peptídeos 
que pertencem a um enorme número de antígenos proteicos que uma pessoa possa 
entrar em contato. 
figura 22. Competição dos antígenos pelas células T.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
A taxa de degradação da dissociação do complexo peptídeo-MHC é muito lenta. Essa 
lentidão é importante para que o antígeno possa ser encontrado pelas células T e assim 
ter uma resposta imunológica efetiva. As moléculas de MHC não conseguem distinguir 
antígeno próprio de não próprios. Se ela apresenta ambos os antígenos, como saber 
quando a resposta imune deve ser ativada pelos antígenos não próprios? Simples. 
As células T examinam os peptídeos que são apresentados a eles e verificam se são 
estranhos e assim desencadeiam a resposta imune contra eles. 
Expressão das moléculas de MHC
Moléculas de MHC classe I são expressas quase que em todas as células nucleadas e 
tem a função de eliminar células infectadas por microrganismos intracelulares, como 
53
IMUNIDADE NO TRANSPLANTE │ UNIDADE III
os vírus. Já as moléculas de MHC classe II são encontradas em células dendríticas, 
macrófagos linfócitos B e apresentam peptídeos os linfócitos TCD4+ auxiliares que, 
quando diferenciados, ativam os macrófagos para que eliminem microrganismos 
extracelulares que foram fagocitados e também ativar células B a produzirem anticorpos 
que eliminam patógenos extracelulares. 
A expressão das moléculas de MHC é regulada por citocinas que são produzidas durante 
as repostas imunes natural e adquirida. 
54
unidAdE iVAlErgiA
CAPítulo 1
desenvolvimento e mecanismosparticipadores
Algumas doenças humanas causam respostas imunes a antígenos ambientais que levam 
à produção de anticorpos do tipo IgE (imunoglobulina tipo E) que são específicos para 
esses antígenos. 
Quando o antígeno se liga com células tipo mastócitos e basófilos, elas são ativadas e 
liberam vários mediadores que juntos causam aumento da permeabilidade vascular, 
vasodilatação e bronco constrição da musculatura lisa visceral reação conhecida como 
hipersensibilidade imediata, também chamada de alergia ou atopia.
Características gerais das reações de 
hipersensibilidade imediata
Ativação de células tipo Th2 e produção de IgE são o que caracterizam as doenças 
alérgicas. Há uma ordem de eventos desencadeados na alergia e é a seguinte: 
 » Exposição a um antígeno.
 » Ativação de células Th2 e produção de anticorpos específicos para o 
antígeno.
 » Produção de anticorpos IgE.
 » Ligação dos anticorpos aos receptores Fc dos mastócitos.
 » Estímulo dos mastócitos.
 » Liberação de mediadores dos mastócitos.
 » Reação patológica.
55
AlErgiA │ unidAdE iV
Muitos genes (unidade funcional onde se encontra o DNA) suscetíveis à alergia 
fazem com que haja uma forte predisposição genética para o desenvolvimento da 
hipersensibilidade imediata.
Os alérgenos, que são antígenos que desencadeiam a alergia, geralmente são proteínas 
e substâncias químicas ambientais comuns (por exemplo, pólen das flores).
Uma reação vascular e da musculatura lisa se desenvolvem rapidamente após a 
exposição repetida ao alérgeno caracterizando as manifestações clínicas e patológicas 
juntamente com uma reação inflamatória mais tardia.
A hipersensibilidade imediata se manifesta de modo diferente podendo ser alergias na 
pele, mucosas, alergias a alimentos, asma e anafilaxia sistêmica.
figura 23. Reação de hipersensibilidade.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
56
CAPítulo 2
respostas imunes na alergia
Produção de igE
A imunoglobulina IgE é o responsável por sensibilizar os mastócitos e proporcionar o 
reconhecimento do antígeno para as reações de hipersensibilidade, sendo produzido 
em altos níveis por pacientes alérgicos. 
natureza dos alérgenos
Os alérgenos podem ser proteínas ou substâncias químicas ligadas a proteínas às quais 
o indivíduo é exposto repetidamente e diferentemente dos micróbios, não estimula 
respostas imunes inatas que promoveriam a ativação de macrófagos e secreção de 
citocinas indutoras de Th1. 
Essa ativação crônica de linfócitos T, na ausência de resposta imune inata, pode 
impulsionar os linfócitos TCD4+ para a via Th2 porque os próprios linfócitos T fabricam 
IL-4 que é a principal citocina indutora de Th2.
Ativação de células th2
A ativação de células T auxiliares CD4+ do subgrupo Th2 e a secreção de IL-4 e IL-13 
são necessárias para a síntese de IgE. 
As células T se diferenciam no subgrupo Th2 de células efetoras que quando diferenciadas 
promovem a mudança para IgE. As células Th2 além de estimularem a produção de IgE 
contribuem também para a inflamação da reação tardia. 
Ativação de linfócitos B troca para igE
Células Th2 ativam os linfócitos B específicos para alérgenos. Sob a influência de 
citocinas e ligantes produzidos pelas células Th2, os linfócitos B sofrem a troca de 
isotipos (um dos cinco tipos de anticorpos (IgM, IgD, IgG, IgA e IgE) e produzem IgE. 
Quando IgE específica para alérgeno é produzida pelos linfócitos B, estes entram na 
circulação e se liga a receptores Fc nos mastócitos teciduais que ficam sensibilizados e 
a postos para reagir a um encontro subsequente com o alérgeno. 
57
ALERGIA │ UNIDADE IV
Papel de mastócitos, basófilos e eosinófilos na 
hipersensibilidade imediata
Os basófilos, eosinófilos e principalmente os mastócitos, são células efetoras das 
reações de hipersensibilidade imediata e doença alérgica, pois todas contêm grânulos 
citoplasmáticos cujos conteúdos são os principais mediadores das reações alérgicas 
como também produzem mediadores lipídicos e citocinas que induzem inflamação. 
Propriedades dos mastócitos e basófilos
Os mastócitos maduros são encontrados em todo o corpo, principalmente perto de 
vasos sanguíneos e nervos abaixo do epitélio. Variam em sua forma e tem núcleo 
redondo com citoplasma contendo grânulos ligados à membrana e corpos lipídicos. 
Os mastócitos estão subdivididos em dois subgrupos: 
 » Mastócitos do tecido conjuntivo: predominam em pele e mucosa intestinal.
 » Mastócitos das mucosas: predominam em alvéolos e mucosa intestinal.
Os basófilos não estão presentes normalmente nos tecidos, mas podem ser recrutados 
para alguns pontos de reações inflamatórias.
Ativação dos mastócitos
Eles são ativados por meio de uma ligação cruzada de moléculas do FcԑRI com antígenos 
multivalentes às moléculas de IgE que estão nos receptores Fc. Essa ativação terá três 
tipos de respostas biológicas:
 » Secreção de conteúdo pré-formado de seus grânulos por um processo 
regulado por exocitose.
 » Síntese e secreção de mediadores lipídicos.
 » Síntese e secreção de citocinas.
Compostos polibásicos, peptídeos (formados pela união de moléculas orgânicas 
chamadas aminoácidos que são essenciais ao funcionamento do organismo), 
quimiocinas (família de citocinas que estimula o movimento leucocitário e regula a 
migração de leucócitos do sangue aos tecidos) e anafilotoxinas (fragmentos derivados 
do complemento que se ligam a receptores específicos da superfície celular e promovem 
a inflamação aguda) podem ativar os mastócitos diretamente independente das 
ligações cruzadas. 
58
unidAdE iV │ AlErgiA
Essa ativação direta pode ser importante nas reações de hipersensibilidade imediata sem 
mediação imune ou podem amplificas as reações mediadas por IgE. Alguns mediadores 
são derivados dos mastócitos, como, por exemplo:
 » Aminas biogênicas: ou aminas vasoativas são mediadores pré-formados 
que são armazenadas e liberadas dos grânulos citoplasmáticos. 
O principal mediador é a histamina que tem curta duração, pois é 
removida rapidamente do meio extracelular. A ligação da histamina 
pode causar: contração celular aumentando a permeabilidade vascular; 
estimula células endoteliais a sintetizarem relaxantes musculares 
promovendo a vasodilatação; pode causar vasoconstrição da musculatura 
lisa intestinal e brônquica aumentando o peristaltismo e também 
o broncoespasmo.
 » Enzimas e peptídeoglicanos dos grânulos: a triptase e a quimase são 
os constituintes proteicos mais abundantes nos grânulos secretores 
dos mastócitos e contribuem para a lesão tecidual. Heparina e 
sulfato de condroitina são proteoglicanos que constituem os grânulos 
dos mastócitos. 
 » Mediadores lipídicos: os principais representantes são a prostaglandina 
D2 e os leucotrienos que é um derivado do ácido araquidônico e tem 
vários efeitos sobre os vasos, o músculo liso brônquico e os leucócitos. 
O fator ativador de plaquetas tem ação direta de bronco constrição, 
causa retração das células endoteliais e pode relaxar a musculatura 
lisa vascular. 
 » Citocinas: várias são produzidas e contribuem para a inflamação alérgica.
Propriedades dos eosinófilos
São granulócitos derivados da medula óssea, abundantes nos infiltrados inflamatórios 
das reações de fase tardia e contribuem para muitos processos patológicos e doenças 
alérgicas. 
Os eosinófilos são ativados e recrutados para os locais inflamatórios pelas citocinas 
produzidas pelas células Th2. Proteínas presentes nos grânulos dos eosinófilos são 
tóxicas para organismos parasitários e podem lesar o tecido normal. 
59
ALERGIA │ UNIDADE IV
figura 24. propriedades dos mastócitos, basófilos e eosinófilos.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
reações de hipersensibilidade imediata
Elas consistem em reações imediatas onde as respostas vasculares e do músculo 
liso são dominantes e a fase tardia é caracterizada pelo recrutamento de leucócitos 
e inflamação.
reação imediata
Demonstrada pela reação de pápula e halo eritematoso após a injeçãointradérmica 
de um alérgeno, devido às alterações vasculares precoces. A reação de pápula e o halo 
eritematoso é dependente de mastócitos e IgE. 
reação de fase tardia
Dentro de 2 a 4 horas após a reação de pápula e eritema ocorre a reação de fase tardia 
onde há um acúmulo de leucócitos inflamatórios, incluindo neutrófilos, eosinófilos, 
basófilos e células Th2. A reação de fase tardia pode acontecer sem reação de 
hipersensibilidade imediata precedente detectável, como acontece na asma brônquica, 
por exemplo. 
60
UNIDADE IV │ ALERGIA
Alergia, o mal do século
As alergias fazem vítimas em ritmo de epidemia. Mas novos estudos e drogas mostram que 
é possível cortar o mal pela raiz.
Por Jomar Morais
Um menino americano é atualmente um símbolo de esperança para milhões 
de pessoas que padecem de uma doença que não apenas maltrata suas vítimas 
e as inabilita para os prazeres mais corriqueiros da vida como também, não 
raro, pode matá-las. Drew William, 13 anos, é agora uma criança quase normal. 
Em Dillon, no Estado do Colorado, sua cidade natal, ele pratica esportes, brinca 
na rua com os amigos, diverte-se com animais domésticos. Não era assim 
até dois anos atrás. Jogar no time de beisebol da escola, por exemplo, era algo 
impossível. Bastavam alguns minutos de esforço físico e o menino curvava-se, 
ofegante. Ir ao cinema ou frequentar ambientes com aglomeração de pessoas 
quase sempre significava o início de uma sessão de tortura, provocada pelo 
súbito estreitamento de suas vias respiratórias. Pior: o simples contato com 
alguém que tivesse antes acariciado um gato ou um cão podia mandá-lo 
para o hospital. “Minha vida se resumia a tomar quilos de remédios”, lembra 
o garoto. Drew tinha crises agudas de asma, um tipo de alergia incômodo 
e traiçoeiro.
Drew não está curado. Não depende mais de tantos remédios, mas ainda tem 
que tomar regularmente pelo menos um medicamento. A melhoria radical em 
sua qualidade de vida, porém, é  um feito extraordinário que marca a maior 
vitória da ciência, em 80 anos, na luta para controlar as alergias em sua origem. 
Até então, todos os recursos desenvolvidos para combater a doença limitavam-
se a aliviar sintomas, sem qualquer efeito preventivo.
A virada começou nos laboratórios das empresas de biotecnologia Novartis, 
Genentech e Tanox, nos Estados Unidos, onde um grupo de cientistas produziu 
uma droga experimental, o Xolair. O remédio, previsto para chegar às farmácias 
no primeiro semestre de 2001, impede que as células do sistema imunológico 
sejam acionadas toda vez que o corpo entra em contato com algum 
alergênico – qualquer substância inofensiva que, por razões ainda não 
inteiramente compreendidas, é  avaliada pelo sistema de defesa de quem 
é alérgico como um agente patológico. Pode ser o pólen de uma planta, a poeira 
doméstica impregnada de dejetos de ácaros, a proteína de um fruto do mar ou 
uma molécula do níquel usado em bijuterias. Mais de uma centena de substâncias 
atuam como alergênicos. Nessas ocasiões, o alarme falso costuma promover um 
cenário de guerra no qual as células de defesa disparam histaminas e outras 
61
ALERGIA │ UNIDADE IV
secreções letais que, na ausência de vírus e bactérias, acabam por agredir o 
próprio organismo, configurando a crise alérgica.
O problema é sério. Cerca de dois bilhões de pessoas, um terço da população 
do planeta, apresentam complicações de fundo alérgico, segundo estimativas 
da Academia Americana de Alergia e Imunologia. Nenhuma outra doença, 
em momento algum da história, afetou tanta gente, dado suficiente para que 
especialistas comecem a encará-la como uma epidemia. Só nos Estados Unidos, 
a cada ano 5 000 pessoas morrem sufocadas durante crises de asma. Outros 90 
milhões de americanos convivem diariamente com o desconforto de rinites e 
dermatites, as variedades alérgicas mais comuns. Aqui, estima-se que as alergias 
atazanem a vida de 25 milhões de brasileiros – 50% mais que há 20 anos – e que 
estejam por trás de metade das faltas ao trabalho em São Paulo, a maior cidade 
do país. Encontrar a cura efetiva para o mal se tornou, assim, um desafio que 
envolve mais do que interesses de saúde pública.
A pista que levou ao desenvolvimento do Xolair foi dada por uma descoberta 
recente na geografia do sistema imunológico. Cientistas da Escola Médica de 
Harvard e da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, constataram 
que a imunoglobulina E, ou IgE – o anticorpo que ativa as células de defesa 
nos processos alérgicos –, é  uma estrutura em forma de Y dotada de duas 
caudas que se movimentam em direção a uma espécie de fechadura existente 
na membrana da célula de defesa. Só após o encaixe das presilhas da 
imunoglobulina nessa reentrância celular é que a ação defensiva é disparada. 
Com o Xolair, os pesquisadores da Novartis, da Genentech e da Tanox garantem 
ter criado um clone de anticorpo capaz de se encaixar na “fechadura” da célula 
de defesa antes que o IgE a alcance, impedindo desse modo que o processo 
alérgico seja detonado.
O anticorpo anti-IgE, como é  conhecido o novo remédio entre especialistas, 
já foi testado em 2000 pacientes – o menino Drew é apenas o mais 
conhecido – e demonstrou ter ação polivalente diante de uma doença de mil 
faces. Substâncias alergênicas podem provocar irritações na pele, inflamações 
nas mucosas, distúrbio intestinal, bloqueio das vias respiratórias e muito mais. 
Por agir em um ponto do processo comum a todas as complicações, espera-
se que o Xolair funcione em todas elas. A fórmula, porém, está longe de ser 
a solução definitiva do problema, segundo Wilson Rocha Filho, coordenador 
do Serviço de Alergia e Pneumologia Pediátrica do Hospital Felício Rocha, em 
Belo Horizonte. “Ela não impede a produção de IgE”, diz Wilson. “E é aí que está 
o xis da questão.”
62
UNIDADE IV │ ALERGIA
Um alérgico que venha a tomar o Xolair poderá evitar os dissabores da reação 
desproporcional do seu sistema imunológico diante de um alergênico. Entretanto, 
o organismo prosseguirá produzindo IgE e disparando ordens de ataque que, 
amanhã, talvez consigam vencer o bloqueio do remédio ou provocar efeitos 
ainda desconhecidos no corpo. Trata-se de um detalhe que tem a ver com as 
causas profundas das alergias, outra área escura recentemente iluminada por 
novas pesquisas.
Durante muito tempo imaginou-se que as alergias eram um mal hereditário, a 
partir de evidências que mostram ser de até 70% a probabilidade de filhos de 
pais alérgicos desenvolverem a doença. O avanço dos processos alérgicos no 
ritmo do desenvolvimento tecnológico e da melhoria das condições de vida 
levou os cientistas a considerar outras hipóteses. Sabe-se agora que populações 
carentes do Leste da Rússia, da Índia, da Indonésia e da África registram até 50% 
menos incidência de casos de alergias que as de países ricos – sobretudo quando 
comparadas aos habitantes das grandes metrópoles europeias e americanas, 
onde há mais assepsia e cuidados médicos. Dados de estudos realizados este 
ano pela pediatra alemã Erika von Martius e por cientistas do Laboratório de 
Imunologia e Alergia de Roma acabaram por expor um paradoxo sobre o qual 
se vai edificando uma explicação surpreendente para a causa das alergias – a 
chamada “hipótese higiênica”.
Ao observar crianças que vivem em fazendas no interior da Alemanha e da 
Áustria, onde bebem leite cru e estão em contato com a terra e o esterco, Erika 
constatou que a ocorrência de complicações alérgicas entre elas é 75% menor do 
que entre meninos que moram nas cidades. Já o estudo italiano, que envolveu 
480 cadetes da Força Aérea e foi tema de artigo no British Medical Journal, 
revelou que as alergias respiratórias são menos frequentes entre militares que 
na infância estiveram expostos a micróbios transmitidos pela água e alimentos 
não tratados. É  inusitado, mas diante de achados como esses, os estudiosos 
inclinam-se a concluirque a supressão de doenças como sarampo, rubeóla, 
caxumba e até as verminoses da infância – todas praticamente erradicadas nos 
países desenvolvidos – pode ter também o seu lado nocivo, por deixar ocioso o 
sistema imunológico, que ficaria como que “inventando” inimigos.
“Alguma coisa no estilo de vida ocidental está contribuindo para os processos 
alérgicos”, afirma Donald Leung, chefe da Divisão de Pediatria do National 
Jewish Medical and Research Center, em Denver, um dos núcleos de estudos 
avançados sobre as alergias. A aceitação da “hipótese higiênica” está crescendo 
na comunidade médica e isso pode levar a uma revisão de posturas no trato 
63
ALERGIA │ UNIDADE IV
com crianças. “Até  meninos que ficam resfriados com mais frequência nos 
primeiros anos de vida parecem menos propensos a desenvolver alergias”, 
lembra Wilson.
O zelo de pais superprotetores, que não permitem que os filhos andem descalços, 
tenham contato com animais ou que só banham bebês em água mineral ou 
fervida, seria, portanto, contraproducente. Nesse contexto também não há 
lugar para o pavor de germes, como o que levou o magnata americano Howard 
Hughes, morto em 1976, a passar os últimos 30 anos da sua vida recolhido a uma 
sala asséptica a fim de não contrair doenças.
Essa tese apoia-se na hipótese de que a exposição a micróbios na infância 
reforça os linfócitos – células brancas do sangue que atuam no combate a 
bactérias do tipo Th1, fazendo-as prevalecer sobre os linfócitos Th2, que também 
reagem a parasitas, mas são responsáveis pelo erro de avaliação que induz o 
processo alérgico. São os Th2 que, diante de substâncias alergênicas, estimulam 
a produção do anticorpo IgE. Num sistema imunológico que não enfrentou 
agentes patológicos nos primeiros anos de vida, conforme essa hipótese, dá-se 
a inibição das células Th1, deixando o campo livre para as “leituras” equivocadas 
dos linfócitos Th2.
Claro que isso tudo não significa que você deva ceder quando seu filho se 
recusar a tomar banho. “Mas é  provável que o corpo humano não esteja 
conseguindo mudar tão rapidamente quanto a civilização”, diz Fernando 
Martinez, diretor do Departamento de Ciências da Respiração da Universidade 
do Arizona. Convivemos há milênios com vírus e bactérias e, de repente, nos 
tornamos altamente assépticos. Jamais também nossos hábitos alimentares 
foram alterados tão radicalmente nem houve tanto acesso a remédios e outros 
produtos químicos – detalhe que, pelo menos no que se refere a alergias, tem 
aproximado a medicina tradicional das terapias alternativas e aberto caminho 
para os tratamentos baseados em alimentação saudável e que prevêem menos 
drogas em circulação no organismo.
Para quem está acostumado a aliviar crises alérgicas respiratórias com anti-
histamínicos e esteroides – drogas que, entre outros efeitos colaterais, podem 
afetar os reflexos e o processo do crescimento em crianças, é  difícil acreditar 
que uma simples dieta possa resolver o seu problema. Mas o músico paulistano 
Marcelo Effori, 30 anos, afirma que foi por meio da dieta higienista, que conseguiu 
livrar-se de uma rinite que o fustigava desde criança. “Fazia inalações constantes 
e tomei até vacinas, mas nada adiantava”, afirma. “Como fico muito tempo dentro 
de estúdios com ar-condicionado, gravando, a rinite era uma tortura.”
64
UNIDADE IV │ ALERGIA
A homeopatia também tem sido usada com frequência no tratamento das 
alergias. Esse método terapêutico, criado há mais de dois séculos pelo médico 
alemão Samuel Hahnemann, acaba de ter sua eficácia no tratamento de rinites 
referendada por um estudo da Universidade de Glasgow, na Escócia. A pesquisa 
envolveu 51 pacientes, divididos em dois grupos. Os integrantes de um deles, 
tratados com remédios homeopáticos, apresentaram após um mês um índice 
de melhora de 28%, contra apenas 3% do grupo que tomou apenas placebo 
(substância sem o princípio ativo). Na clínica homeopática do Hospital do 
Servidor Público Municipal, em São Paulo, esse tipo de terapia tem sido eficaz 
em 70% dos casos de asma, segundo Romeu Carrillo Júnior, diretor da unidade.
Alergias são o motivo de 10 milhões de consultas médicas por ano nos Estados 
Unidos. No mundo, só a venda de anti-histamínicos movimenta 8 bilhões de 
dólares anualmente. São números superlativos que não conseguem expressar, 
no entanto, o drama real de quem padece com a doença, como atesta o alergista 
Wilson. “Um de meus clientes, uma criança de 12 anos, é alérgica a leite de vaca 
e já teve vários choques anafiláticos por causa da ingestão acidental de leite, 
às vezes em produtos em que jamais se imaginaria existisse tal ingrediente, 
como sardinha enlatada”, diz o médico. A sensibilidade do menino à lactase, 
uma proteína láctea, é tamanha que o simples fato de o leite ferver na cozinha 
é suficiente para deixá-lo em crise no quarto. Seu problema continua inalterado 
após um tratamento de dessensibilização com vacinas experimentais americanas.
Mesmo nos casos triviais, como rinites e eczemas, as alergias trazem embutidos 
riscos maiores. Rinites desaguam com frequência em sinusites crônicas e 
podem provocar pneumonia. Eczemas costumam ser um incômodo ainda 
maior para pessoas submetidas a estresse. Há também os casos de alergias a 
picadas de insetos, que podem ser fatais. “Picadas de abelha matam, a cada ano, 
40 pessoas com hipersensibilidade à enzima do inseto nos Estados Unidos”, 
diz o dermatologista João Luiz Cardoso, do Hospital Vital Brazil, em São Paulo, 
especializado em problemas decorrentes do ataque de animais peçonhentos. 
“Em nosso hospital, 15% dos atendimentos são feitos nessa área.”
Pessoas com esse tipo de fragilidade terão um dia a chance de viver normalmente? 
Enquanto se debate a parcela de culpa da modernidade na expansão das 
alergias, as esperanças de soluções em curto prazo se concentram na engenharia 
genética, em cujos laboratórios desenvolvem-se novos clones e vacinas que 
possam funcionar. No ano passado, uma equipe americana da Universidade 
Johns Hopkins em Baltimore testou com êxito, em ratos, uma vacina feita a partir 
do DNA do amendoim, pasme, uma das fontes mais frequentes e perigosas de 
65
ALERGIA │ UNIDADE IV
alergia alimentar. Se funcionar em humanos, dentro de algum tempo, muita 
gente poderá se ver livre da obrigação de andar com injeções de adrenalina, 
o antídoto, para proteger-se em casos de ingestão acidental do alergênico. Em 
Medford, Massachusets, a Kinetix Pharmaceuticals tem outro alvo: a criação de 
um inibidor da enzima kinase, que cataliza as reações da célula de defesa após 
o acoplamento do anticorpo IgE e tende a ser uma alternativa para os pacientes 
nos quais o anti-IgE sintético não faz efeito – afinal, cerca de 15% do grupo de 
teste não respondeu positivamente à droga.
Podem não ser o ideal, mas são avanços que melhoram consideravelmente a 
rotina de pessoas como Drew William, o menino que voltou a viver após o Xolair. 
“Eu agora posso jogar beisebol sem preocupação”, diz o garoto. “Na verdade, 
posso fazer quase tudo.”
Fonte: 
Acessado em: 3 dez. 2014.
66
CAPítulo 3
tratamento via componentes imunes
imunoterapia para doenças alérgicas
Os imunologistas tentam limitar o início das reações alérgicas tentando reduzir a 
quantidade de IgE presente no indivíduo. 
Vários protocolos empíricos estão sendo desenvolvidos por meio da administração 
repetida de pequenas quantidades de antígenos por via subcutânea para que os níveis 
de IgE específica diminuam e os títulos de IgG aumentem, talvez inibindo ainda mais a 
produção de IgE.
A imunoterapia faz parte de um tratamento, ou seja, o uso de medicamentos deve ser 
mantido assim como as medidas de controle. Ela é indicada quando o alérgeno não for 
afastado totalmente do paciente, como, por exemplo, a poeira. O tempo para tratamento 
varia de 2 a 4 anos dependendo do grauda alergia.
Por ser um tratamento de vacinação, a forma de administração é injetável subcutânea. 
Pessoas com rinite alérgica, asma, conjuntivite alérgica, alergias a insetos têm indicações 
da imunoterapia. Elas terão como benefícios a diminuição dos sintomas melhorando a 
qualidade de vida dos alérgicos podendo até mesmo não precisar mais usar medicamentos.
imunoterapia com Alérgenos (Vacinas para 
Alergia)
o que é imunoterapia?
A imunoterapia com alérgenos, também chamada de vacina para alergia, é uma 
forma de tratamento utilizado há mais de 50 anos com o objetivo de diminuir a 
sensibilidade de pessoas que se tornaram alérgico a determinadas substâncias. 
O tratamento consiste na aplicação de alérgeno ao qual o paciente é sensível 
em doses crescentes por um período de tempo que é variável (1 a 3 anos). A 
imunoterapia induz uma série de alterações na resposta imune que estão 
associadas à melhora clínica.
o que é alergia?
Alergia é uma reação do sistema imunológico. Uma das apresentações mais 
comuns de alergia é caracterizada pela formação de anticorpos de uma 
determinada classe de proteína, chamada de imunoglobulina E (IgE). Esses 
67
ALERGIA │ UNIDADE IV
anticorpos são específicos para componentes (alérgenos) do ambiente, como os 
ácaros da poeira, pólens, fungos, alimentos e insetos.
de que forma a Alergia pode se manifestar?
Uma vez que a pessoa tenha se sensibilizado (formado anticorpos IgE), a reação 
alérgica pode ocorrer de forma imediata após o contato com o agente (alérgeno) 
ou se estabelecer lentamente vindo a se manifestar de forma contínua. Isso 
depende do grau de sensibilização (quantidade de anticorpos IgE), do tipo 
de alérgeno que suscitou a reação e da frequência do contato com o mesmo. 
Exemplo de manifestação aguda e potencialmente grave é a reação anafilática 
que pode ser desencadeada por alimentos, medicamentos e por insetos, como 
abelhas, vespas (marimbondos) e formigas.
Por outro lado, a asma e a rinite alérgica ou rinoconjuntivite alérgica são exemplos 
de manifestações alérgicas que ocorrem de forma crônica por exposição 
contínua a alérgenos do ambiente derivados de ácaros, pólens e fungos do ar, 
entre outros.
qual o objetivo da imunoterapia?
A imunoterapia procura reduzir o grau de sensibilização (nível de anticorpos IgE 
e da reação nos tecidos) impedindo reações alérgicas imediatas graves – como 
a anafilaxia – e, também, interferir na inflamação característica das condições 
alérgicas de longa evolução observadas na rinite alérgica e na asma brônquica.
quando a imunoterapia pode ser indicada?
A imunoterapia pode ser indicada para pessoas sensíveis aos ácaros da poeira 
doméstica, pólens, fungos e venenos de insetos (abelhas, vespas, marimbondos 
e formigas). De modo geral, a sensibilização a estes alérgenos está associada a 
manifestações respiratórias (rinite e asma) e a reações graves, como a anafilaxia 
por picada de insetos. Não existe indicação de imunoterapia para alergia a 
alimentos e para os quadros de alergia por contato.
A indicação da imunoterapia deve ser fundamentada:
 » na comprovação da sensibilização (presença de anticorpos IgE para os 
alérgenos);
 » na avaliação da importância da alergia no quadro clínico do paciente; e
 » na disponibilidade do alérgeno para o tratamento.
68
unidAdE iV │ AlErgiA
É importante ressaltar que as vacinas com alérgenos não devem ser aplicadas 
como forma isolada de tratamento. Ao contrário, a abordagem do paciente 
alérgico deve contemplar medidas de controle da exposição a alérgenos e o uso 
de medicamentos para controle e prevenção das manifestações clínicas. Dessa 
forma, a imunoterapia com alérgenos deve ser considerada como parte de um 
plano de tratamento que inclui medidas de controle ambiental e farmacoterapia.
A impossibilidade do afastamento total do contato com o alérgeno, a intensidade 
das manifestações clínicas que determinem necessidade de medicação 
constante e a concordância do paciente em receber imunoterapia são fatores 
que devem ser analisados na indicação da imunoterapia com alérgenos.
quais os benefícios da imunoterapia?
A modificação da resposta imune do paciente alérgico é o ponto de capital 
interesse da imunoterapia. Muitos estudos demonstram a eficácia da imunoterapia 
com alérgenos na rinite, na asma e nos quadros de alergia a veneno de insetos.
As vacinas para alergia provocam diminuição dos sintomas de rinite e asma, 
com melhora perceptível na qualidade de vida da pessoa alérgica. Em pacientes 
com rinite existem estudos demonstrando que a imunoterapia pode prevenir 
o surgimento de sensibilização para outros alérgenos e também impedir a 
evolução de rinite para asma.
O emprego de imunoterapia com veneno de insetos é muito eficaz em bloquear 
a reatividade do alérgico, provocando o desaparecimento da sensibilização 
alérgica.
Por que fazer imunoterapia?
A sensibilização (formação de anticorpos IgE) para alérgenos do ambiente é 
fenômeno duradouro. É difícil controlar totalmente a exposição a alérgenos 
ambientais. Dessa forma, a continuação do contato determina a perpetuação da 
reação imune nos tecidos (mucosa nasal, conjuntivas, brônquios).
A Organização Mundial da Saúde (OMS), em relatório elaborado por especialistas 
internacionais, endossou o emprego das vacinas com alérgenos:
1. Em pacientes que apresentam reações graves (anafiláticas) a insetos 
(abelhas, vespas, marimbondos e formigas); e
2. Nos indivíduos sensíveis a alérgenos ambientais que apresentem 
manifestações clínicas, como rinite, asma, conjuntivite etc.
69
ALERGIA │ UNIDADE IV
qual a melhor forma de aplicação 
de imunoterapia?
O método mais utilizado de aplicação de imunoterapia é por meio de injeções 
subcutâneas. Estudos recentes com vacinas orais tem demonstrado efeito 
similar às preparações injetáveis. É necessário alertar que as vacinas com 
alérgenos não são disponíveis em farmácias. A pessoa alérgica somente tem 
acesso a esta forma de tratamento por meio de indicação e orientação médica 
detalhada.
A duração da imunoterapia após a obtenção do máximo efeito clínico ainda não 
foi estabelecida. Para muitos deveria ser de 3 a 5 anos. Outros advogam tempo 
maior de aplicação. A decisão sobre a duração do tratamento deve ser tomada 
em bases individuais.
quem deve orientar a imunoterapia?
Para fazer a orientação adequada de imunoterapia, o médico deve estar 
familiarizado com alérgenos relevantes na região e com métodos apropriados 
de diagnóstico. A escolha do(s) alérgeno(s) para imunoterapia deve ser baseada 
na identificação da presença de anticorpos IgE específicos (por meio de testes 
cutâneos, preferencialmente) para alérgenos ambientais de importância na 
região. As alergias respiratórias no Brasil estão associadas à sensibilização 
aos ácaros da poeira doméstica, principalmente. No sul do Brasil se detecta a 
ocorrência de polinose, sendo as gramíneas as principais responsáveis.
Para orientar a aplicação de imunoterapia, o médico deve ter capacitação 
específica. A imunoterapia com alérgenos é acompanhada de riscos. Ao iniciar 
imunoterapia o paciente deverá ser informado desta possibilidade e o médico 
deve estar preparado para tratar reações adversas, que podem ser graves. 
Reações locais são comuns e pode ocorrer urticária generalizada. Alguns 
pacientes apresentam agravamento transitório da manifestação clínica após 
aplicação do extrato alergênico. Nessas condições é necessário ajustar a dose de 
alérgeno empregada.
Existem contraindicações à imunoterapia?
Em pacientes que também sofram de asma é necessário cautela ainda maior, 
uma vez que apresentam maior risco de desenvolver reações. Pacientes com 
asma não controlada ou em crise de asma não devem receber aplicação 
de imunoterapia.
70
UNIDADE IV │ ALERGIA
A imunoterapia é contraindicada em pacientes com doença coronariana, em 
pessoas que usem determinado grupo de anti-hipertensivo (betabloqueadores) 
ouque sofram de outras doenças do sistema imunológico, tais como 
imunodeficiências e doenças autoimunes.
Fonte: Acessado em: 1 out. 2014.
71
unidAdE ViMunodEfiCiênCiAS
CAPítulo 1
imunodeficiências primárias
As imunodeficiências são defeitos em um ou mais componentes do sistema imunológico 
que podem causar doenças sérias e fatais. 
Elas podem ser primárias ou congênitas, que são defeitos genéticos que resultam no 
aumento na susceptibilidade a infecções que se manifesta precocemente em bebês 
e crianças. 
Já as imunodeficiências adquiridas ou secundárias são desencadeadas por causa da 
desnutrição, câncer disseminado, tratamento com imunossupressores ou infecção das 
células do sistema imunológico.
Características gerais das doenças 
por imunodeficiência
Se um paciente tem uma imunodeficiência consequentemente ele está mais susceptível 
a infecções, pois pode haver defeitos no desenvolvimento ou ativação dos linfócitos ou 
de defeitos nos mecanismos efetores da imunidade natural e adquirida, sendo essas as 
principais consequências das imunodeficiências. 
Quando há uma deficiência na imunidade humoral, o paciente fica sujeito a maiores 
infecções por bactérias piogênicas ao passo que defeitos na imunidade celular aumenta 
a susceptibilidade a infecções por vírus e microrganismos intracelulares. 
imunodeficiências congênitas
Nas imunodeficiências, a primeira anormalidade pode ser nos componentes do sistema 
imunológico natural, em diferentes estágios do desenvolvimento dos linfócitos ou nas 
respostas dos linfócitos maduros ao estímulo antigênico. 
72
unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS
Desenvolvimento e função alterados dos linfócitos B resultam na deficiência da produção 
de anticorpos e aumento na susceptibilidade a infecções causadas por microrganismos 
extracelulares. Já as anormalidades no desenvolvimento e função dos linfócitos T 
causam deficiência na imunidade celular aumentando a incidência de infecções por 
microrganismos intracelulares. 
defeitos na imunidade natural
As células fagocitárias e o sistema complemento são a primeira linha de defesa. Portanto, 
distúrbios que os afeta causam infecções recorrentes. 
doenças granulomatosa crônica
É uma doença rara causada por mutações em componentes do complexo da enzima 
oxidase fagocitária (produção defeituosa de espécies reativas de oxigênio), ou seja, 
há uma deficiência na atividade microbicida das células fagocitárias resultando em 
infecções recorrentes por bactérias intracelulares e fungos.
deficiência da adesão leucocitária tipo i
Também uma doença rara causada por mutações no gene que codifica a cadeia β (beta) 
das integrinas e assim causa uma deficiência na adesão e migração leucocitárias ligadas 
à expressão reduzida ou ausente nas integrinas β2. Nesse tipo de deficiência, o paciente 
apresenta infecções bacterianas e fúngicas recorrentes.
Síndrome de Chédiak-Higashi
Doença rara causada por mutações no gene que codifica a proteína reguladora do tráfego 
de lisossomos, LYST, causando defeito na fusão das vesículas e na função lisossômica nos 
neutrófilos, macrófagos, células dendríticas, células NK, células T citotóxicas (TCD8) 
e outros tipos de células. Assim, o paciente fica susceptível a infecções recorrentes 
causadas por bactérias piogênicas.
Menos de 500 casos tendo sido diagnosticados nos últimos 20 anos, e por ser 
transmitida por herança autossômica recessiva, torna-se mais frequente quando existe 
consanguinidade. Em geral é diagnosticada em crianças por volta dos 5 anos de idade 
73
iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V
e a maioria dos afetados morre antes dos 10 anos de idade. A forma homozigótica da 
doença é praticamente incompatível com a vida, pois os afetados são muito suscetíveis 
a infecções bacterianas. Em heterozigose os sintomas são mais brandos.
Os leucócitos visualizados em esfregaços de sangue ou medula óssea de pacientes que 
apresentam essa anomalia possuem granulações gigantes típicas quando visualizados 
ao microscópio óptico. As células também apresentam alterações de função, que serão 
melhor discutidas posteriormente, pois esta doença será novamente abordada com 
relação às anomalias de função dos leucócitos.
Essas granulações anômalas correspondem a lisossomas das células que adquirem 
aspecto gigante e são menos numerosos que os lisossomas das células normais. Esses 
grânulos ocorrem por associação de lisossomas ou de granulações primárias devido a 
defeito genético da membrana lisossomal.
A doença se caracteriza por uma fase crônica e uma fase acelerada ou linfoproliferativa.
A fase crônica se caracteriza por albinismo, alteração da cor dos cabelos (cinza prata), 
infecções piogênicas frequentes e febre. A fase acelerada é caracterizada por febre, 
hepatoesplenomegalia, tendência a sangramentos, aumento dos nódulos linfáticos, 
diminuição de todos os elementos celulares do sangue e infecções graves.
figura 25. leucócito apresentando granulações características da anomalia de Chédiak-Higashi-Steinbrinck. 
fonte: figura adaptada de . Acessado em: 1 jul. 2014.
,
74
UNIDADE V │ IMUNODEFICIÊNCIAS
Síndrome de Chediak-Higashi: relato de 
Caso e revisão de literatura
Chediak-Higashi’s syndrome: a case report and review of literature.
Viviane A. Colla1, Beatriz T. Costa Carvalho2, Irma C. Douglas3, Raquel B. Pires4, Maristela M. 
Salgado5,Magda M. Carneiro Sampaio6, Dirceu Solé7, Charles K. Naspitz8
resumo
Objetivo: apresentar o caso de paciente parda portadora de síndrome de 
Chediak-Higashi (SCH).
Método: além dos dados de história clínica e de exame físico, a paciente foi 
submetida à investigação laboratorial para imunodeficiência.
Resultados: as principais manifestações clínicas da paciente eram albinismo 
parcial óculo-cutâneo e infecções de repetição. Os exames laboratoriais 
revelaram a presença de inclusões intracitoplasmáticas gigantes em leucócitos 
do sangue periférico e em células precursoras na medula óssea. A avaliação 
funcional dos leucócitos do sangue periférico foi normal. Quatro meses após o 
diagnóstico, a criança desenvolveu a fase linfoproliferativa evoluindo para óbito.
Conclusões: são discutidas as principais alterações laboratoriais que caracterizam 
a SCH, tecem-se comentários sobre os possíveis fatores etiológicos, bem como 
os avanços no seu tratamento.
Rev. bras. alerg. imunopatol. 1998; 21(3):83-90 imunodeficiência, síndrome de Chediak-Higashi, 
albinismo, transplante de medula óssea.
introdução
A síndrome de Chediak-Higashi (SCH) é uma doença rara que ocorre por disfunção 
primária de fagócitos, caracterizada por albinismo parcial óculo-cutâneo, 
suscetibilidade aumentada às infecções e presença de inclusões gigantes em 
leucócitos do sangue periférico e na maioria das células.
De herança autossômica recessiva, é mais frequente em filhos de pais 
consanguíneos, sendo muito rara na raça negra. O diagnóstico da SCH geralmente 
1 Estagiárias
2 Profa. Adjunta
3 Estagiárias
4 Pesquisadora do Instituto Adolfo Lutz
5 Estagiárias
6 Professora Titular do Departamento de Imunologia - Instituto de Ciências Biomédicas - Universidade de São Paulo
7 Prof Associado e Livre-Docente
8 Prof Titular - Disciplina de Alergia, Imunologia Clínica e Reumatologia, Departamento de Pediatria, Universidade Federal de 
São Paulo- Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM)
75
IMUNODEFICIÊNCIAS │ UNIDADE V
é feito nos primeiros cinco anos de vida, mas a maioria dos pacientes morre antes 
de completar dez anos.
Além das inclusões gigantes típicas, à microscopia óptica, em esfregaço de 
sangue periférico e de medula óssea, a SCH cursa com alterações funcionais de 
fagócitos tais como: atividade quimiotática e microbicida reduzidas e alteração 
da atividade de células “natural killer”.
A fase crônica da SCH é caracterizada por albinismo, alteração da cor dos cabelos 
(cinza prata), infecções piogênicas frequentese febre. A fase acelerada, também 
denominada de linfoproliferativa, evolui com febre, hepatoesplenomegalia, 
tendência a sangramentos, linfoadenomegalia, pancitopenia e infecções graves. 
É de etiologia obscura e prognóstico sombrio.
Neste trabalho apresentamos um caso SCH em menina parda, ressaltando as 
características clínico-laboratoriais, bem como os avanços terapêuticos no 
manejo desses pacientes.
relato do caso
AGM, 18 meses, sexo feminino, parda, natural de Orós (Ceará), filha única de 
pais não consanguíneos, nasceu de parto normal a termo com peso de 2750g 
e estatura de 48cm. Durante o primeiro mês de vida apresentou impetigo e aos 
três meses foi hospitalizada por gastroenterocolite aguda. Nesta mesma ocasião 
os cabelos e a pele, em região dorsal e membros, clarearam. Foi avaliada em 
serviço médico tendo sido cogitada a hipótese diagnóstica de vitiligo. O seu 
desenvolvimento neuropsicomotor foi adequado e o esquema de vacinação 
completo para a idade.
Aos 18 meses de idade foi atendida pela primeira vez na Disciplina de 
Alergia, Imunologia Clínica e Reumatologia do Departamento de Pediatria da 
UNIFESP-EPM. Nessa ocasião apresentava ao exame físico: cabelos cinza-
prateados, fotofobia, hipocromia de pele (em face, tronco e membros) e 
adenomegalia generalizada. Foi hospitalizada com diagnóstico de abcesso 
em região cervical posterior, otite média aguda e pneumonia lobar direita que 
evoluiu com derrame pleural sem identificação do agente etiológico.
Após a alta, foi acompanhada em ambulatório e apresentava-se ao exame físico 
com os seguintes dados relevantes: estado geral regular, levemente descorada, 
com déficit pôndero-estatural (peso e estatura abaixo do percentil 2,5), albinismo 
parcial óculo-cutâneo, fotofobia, cabelos cinza-prateados, amígdalas hipertrofiadas 
e adenomegalia submandibular e retroauricular bilaterais. A investigação 
76
UNIDADE V │ IMUNODEFICIÊNCIAS
laboratorial encontra-se no quadro 2. A tomografia computadorizada de tórax, 
pelve e abdôme revelou discreta hepatoesplenomegalia. Iniciou-se vitamina C e 
ampicilina contínuos. Evoluiu sem intercorrências nos quatro meses seguintes. 
Nessa época desenvolveu otite média à direita, sinusite e adenite cervical à 
esquerda. Apesar do tratamento com antimicrobianos, desenvolveu pneumonia 
em lobos inferiores, adenomegalia dolorosa e generalizada, acompanhada 
por hepatoesplenomegalia, sendo hospitalizada. Apresentou derrame pleural 
à direita e insuficiência respiratória, aumento rápido de volume dos gânglios, 
principalmente os cervicais, edema palpebral e hepatoesplenomegalia (fígado a 
8cm do RCD e baço a 10 cm do RCE), falecendo em 48 horas.
A avaliação imunológica realizada revelou imunidades humoral e celular 
adequadas, embora os níveis de IgG estivessem elevados (quadro I). A avaliação 
do sistema do complemento foi normal. O estudo dos fagócitos mostrou 
redução da atividade quimiotática dos neutrófilos do sangue periférico, com 
índice de fagocitose e morte intracelular normais e teste do nitrobluetretazolium 
(NBT) normal.
Quadro 2. Avaliação imunológica do paciente com Síndrome de Chediak-Higashi.
77
IMUNODEFICIÊNCIAS │ UNIDADE V
No quadro 3, são apresentados alguns procedimentos realizados durante o 
seguimento da paciente.
Quadro 3. Exames realizados durante o acompanhamentoda paciente e sua relação 
com diagnóstico de Síndrome de Chediak-Higashi.
discussão
Segundo os dados do Registro Latinoamericano de Imunodeficiências Primárias 
(LAGID), as imunodeficiências primárias predominantemente de anticorpos são 
as de maior prevalência (65,7%), seguidas pelas celulares e combinadas (17,8%), 
pelas de fagócitos (13,8%) e por último, as do complemento (2,7%). Entretanto, 
os distúrbios funcionais de fagócitos têm sido cada vez mais identificados com 
a obtenção de métodos mais apropriados para o seu diagnóstico. Apesar de vir 
acompanhada de defeitos funcionais de fagócitos, de acordo com a classificação 
da OMS, a SCH está incluída nos defeitos metabólicos hereditários.
Descrita inicialmente por Begues-César em 1943, a SCH foi inicialmente 
conhecida por Enfermidade de Begues-César. Em 1952, inicialmente Chediak 
e posteriormente Higashi (1954) descreveram uma série de pacientes com 
distribuição alterada da mieloperoxidase em grânulos dos neutrófilos. 
Posteriormente a síndrome passou a ser denominada como SCH.
É uma doença rara e transmitida por herança autossômica recessiva. Dessa forma, 
é mais frequente quando existe consanguinidade, o que não ocorreu no caso 
78
UNIDADE V │ IMUNODEFICIÊNCIAS
relatado. Embora tenha sido descrita em praticamente todos os continentes, é 
muito rara em indivíduos da raça negra. Em geral, é diagnosticada ao redor dos 5 
anos e a maioria dos portadores morre antes dos 10 anos de vida . Clinicamente, 
a SCH caracteriza-se por uma fase crônica e uma fase acelerada. Na fase crônica 
há o albinismo parcial óculo-cutâneo, cabelos com coloração cinza ou prateada, 
fotofobia, febre, infecções piogênicas frequentes, neuropatia periférica e às 
vezes retardo mental.
As infecções de repetição não são tão graves quanto às da doença granulomatosa 
crônica e acometem principalmente a pele, as mucosas e o trato respiratório 
embora haja descrição de lesões intestinais semelhantes às da doença de Crohn.
Os quadros infecciosos têm como principais agentes etiológicos: Staphilococcus 
aureus, Streptococcus (beta hemolítico), enterobactérias, fungos e vírus (Epstein 
Baar (EBV), Citomegalovirus, Herpes simples ou varicela zoster). Quadros 
infecciosos crônicos pelo EBV podem evoluir para leucemia linfocítica aguda.
A fase acelerada (linfoproliferativa ou linfo-histiocítica) ocorre em cerca de 
85% dos pacientes. Caracteriza-se por: febre, icterícia, hepa-toesplenomegalia, 
linfonodomegalia e alterações neurológicas (sonolência, parestesia, paralisia 
do nervo facial, déficit sensorial, degeneração espino-cerebelar). Pode ocorrer 
pancitopenia, com neutropenia acentuada, provavelmente decorrente de 
destruição intramedular dos granulócitos e hiperesplenismo, tendência a 
sangramentos graves em sistema nervoso central e trato gastrointestinal.
Nessa fase, as infecções são muito graves. Há infiltrado linfoide e histiocítico 
extensos, processo linfoproliferativo não neoplásico ou mesmo desenvolvimento 
de doenças malignas (leucemia, linfoma), provavelmente decorrentes de 
mecanismos defeituosos no reparo do DNA e da deficiência da atividade de 
células «natural killer» (NK). Geralmente, a evolução é para o óbito, consequente 
a infecções, fenômenos hemorrágicos, linfoma ou leucemia. A nossa paciente 
evoluiu com septicemia, sangramentos, aparecimento de massa de provável 
origem linfoproliferativa (necrópsia não autorizada) e óbito.
O albinismo parcial óculo-cutâneo e as infecções de repetição são geralmente 
as manifestações clínicas iniciais. Crê-se que o defeito básico seja uma 
anormalidade nas membranas de certas organelas intracitoplasmáticas que 
se fundem formando inclusões gigantes, típicas da doença e presentes na 
maioria das células. A elevada fluidez da membrana das células (característica 
dos pacientes com SCH), levando à desorganização dos microtúbulos, poderia 
explicar alterações como a fusão descontrolada de grânulos e o defeito de 
79
iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V
mobilização de leucócitos, caracterizando uma disfunção celular generalizada. 
Essas alterações justifi cam a atividade quimiotática e a capacidade bactericida 
reduzidas, embora essas células possuam fagocitose normal e metabolismo 
oxidativo exacerbado. A paciente estudada apresentava quimiotaxia reduzida, 
embora a capacidade bactericida estivesse normal. O comprometimento da 
fusão do vacúolo fagocitário com os grânulos lisossomais justifi ca a redução da 
atividade bactericida dessas células.
A presença de mielopoiese inefetiva, sequestro esplênico, atividade quimiotática 
reduzidade macrófagos, monócitos e neutrófi los, anormalidades funcionais de 
células NK (mínima citotoxicidade), neutropenia, defi ciências quantitativas de 
proteases granulares (atraso na liberação do conteúdo enzimático lisossomal) 
e reduzida capacidade bactericida são causas de suscetibilidade aumentada às 
infecções. Não há alteração na geração de H2O2.
A agregação anormal dos grânulos de melanina nos melanócitos dos fâneros 
é responsável pelas modifi cações de pigmentação. Há melanossomos gigantes 
em pele, cabelos e olhos.
Nos exames laboratoriais, observa-se ao hemograma: anemia, neutropenia 
e trombocitopenia, ou presença de blastos na fase acelerada. Pode haver 
pancitopenia, tempo de sangramento prolongado e coagulopatia. No esfregaço 
do sangue periférico, observam-se inclusões intracitoplasmáticas gigantes de 
cor púrpura (coloração de Romanowsky), que podem ser simples ou múltiplas, 
variando de 2 a 4 nm de diâmetro. Essas inclusões são vistas em leucócitos 
(neutrófi los, monócitos, linfócitos) e plaquetas. No mielograma podem também 
ser observadas em mieloblastos e prómielócitos (fi gura 26); além de em 
melanócitos, hepatócitos, neurônios, células de Schwann, fi broblastos, células 
tubulares renais, células da mucosa gástrica, pneumócitos, células de Langerhans 
da pele, células da adrenal e outras. A função hepática e o coagulagrama estão 
alterados na fase acelerada.
figura 26. Célula da medula óssea mostrando os amplos grânulos típicos da 
Síndrome de Chediak-Higahi.
fonte: .
80
unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS
Na avaliação do fundo de olho há hipopigmentação do epitélio da retina e na 
do fio de cabelo observa-se agregação anormal de melanócitos. A biópsia de 
pele mostra grânulos gigantes anormais de melanina na epiderme, levando ao 
albinismo parcial, provavelmente por agregação anormal dos melanossomos 
gigantes e não pela ausência de melanina. Nossa paciente apresentou todas essas 
alterações (quadro 27). Na suspeita de hiperplasia linfoide ou reacional ou tumor, a 
biópsia ganglionar ou aspiração de massa tumoral podem ser necessárias.
A tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética auxiliam na 
avaliação de acometimento do sistema nervoso.
O estudo laboratorial da paciente demonstrou que no esfregaço de sangue 
periférico não haviam blastos; e o mielograma não apresentava características 
de processo neoplásico. Não foi possível realizar punção aspirativa da massa 
tumoral nem citologia oncótica de líquido pleural, pela rápida e desfavorável 
evolução da paciente.
O diagnóstico diferencial da SCH deve ser feito com outros defeitos do sistema 
fagocitário tais como doença granulomatosa crônica (DGC) e neutropenias. A 
paciente apresentava teste do NBT e capacidade bactericida normais (quadro 2) 
assim como ausência de neutropenia na fase crônica da doença.
A prevenção da SCH engloba: diagnóstico pré-natal: possível pela identificação 
de células de Chediak-Higashi em cultura de células de vilosidades coriônicas; 
triagem dos pais por esfregaço de sangue periférico para verificar a presença 
dos grânulos amplos em linfócitos e em neutrófilos (heterozigotos). O 
aconselhamento genético nesses casos é muito importante.
Em relação à terapêutica preconizada para a SCH, ela constitui-se de: 
 » medidas de suporte:
 › antitérmicos;
 › higiene oral e cuidados dentários;
 › higiene do ambiente físico e orientação nutricional; 
 › fisioterapia respiratória e motora;
 › transfusão de glóbulos vermelhos e plaquetas se necessário; 
transfusão de glóbulos brancos não irradiados: tem aparentemente 
alterado o curso clínico dos pacientes;
81
iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V
 › crianças afetadas podem se beneficiar de vacinas contra pneumococo 
e H. influenzae b;
 » tratamento com antibióticos para controle dos processos infecciosos:
 › Antibioticoterapia profilática: pode reduzir a frequência de infecções 
em pacientes com defeito de fagócitos. A associação Sulfametoxazol-
Trimetoprim é usada em alguns pacientes;
 › Antifúngicos: usado quando não houver resposta às drogas 
antibacterianas ou quando se comprova a etiologia fúngica;
 › Antivirais: Aciclovir: quando a fase acelerada se relaciona com 
infecção viral. 
 » Ácido ascórbico: na dose de 1g/dia, com baixa toxicidade. De 
acordo com alguns autores pode corrigir o defeito do citoesqueleto. 
Entretanto, Saitoh et al., mostraram que apesar da melhora da função 
do neutrófilo, in vitro, não há alteração do curso clínico e Zabala não 
documentou alguma correção do defeito celular, nem redução do 
número de infecções. A administração prévia à fase linfoproliferativa 
não evitou o seu aparecimento.
 » Fármacos que atuam nos microtúbulos: colchicina (eficaz no manejo 
da fase acelerada); prednisona, vincristina e ciclofosfamida (impede o 
processo infiltrativo da fase acelerada.
 » Interferon: segundo Barak e Nir, restaura parcialmente in vitro a 
atividade das células NK1. Vireliezer et al documentaram que o 
interferon (IFN) não foi capaz de modificar os índices de citotoxidade 
de células NK de 4 pacientes com SCH pela incubação de suas células 
com concentrações elevadas de IFN.
 » Gamaglobulina endovenosa: Kinugawa e Ohtani trataram um 
paciente durante a fase acelerada com IVIG (400 mg/kg) por 5 dias 
consecutivos, com resultados animadores. O bloqueio do receptor 
Fc reticuloendotelial e melhora da infecção viral; a redução da 
esplenomegalia, produzindo uma redistribuição do sequestro de 
células sanguíneas são algumas das hipóteses para explicá-la;
 » Interleucina 2 (IL-2): Foi documentada melhora da atividade in vitro 
das células NK na presença de IL-238; 
82
unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS
 » Esplenectomia: Harfi e Malik sugerem que a esplenectomia seja 
considerada no tratamento da fase acelerada não responsiva a outras 
formas de terapia. Em alguns pacientes observou-se melhora clínica e 
laboratorial, com normalização da quimiotaxia, da função fagocítica 
e aumento de sobrevida dos neutrófilos. A esplenectomia pode ser 
considerada na impossibilidade de realizar-se um transplante de 
medula óssea; e
 » Transplante de medula óssea (TMO): é o tratamento de escolha para 
a SCH, principalmente na fase precoce da doença. É a única opção 
válida de cura. Infelizmente, um doador adequado é difícil de se 
obter; dificuldades concomitantes com drogas imunossupressoras; 
infecção e complicações graves a longo prazo como reação enxerto 
versus hospedeiro fazem desta uma opção para poucos pacientes. O 
TMO alogênico tem sido proposto como tratamento curativo da SCH e 
capaz de prevenir a fase acelerada.
Para a paciente descrita a terapêutica instituída incluiu: cuidados pessoais, 
higiene de ambiente físico, orientação nutricional, vitamina C, tratamento com 
antibióticos para os processos infecciosos. O TMO foi indicado, entretanto, não 
se conseguiu doador compatível na época do diagnóstico e posteriormente, não 
houve tempo hábil para sua realização.
O melhor conhecimento desta doença, sem dúvida, proporcionará maior 
número de diagnósticos, assim como, possibilitará que terapias mais adequadas 
sejam instituídas visando melhora do seu prognóstico.
O artigo completo e as referências citadas no texto podem ser encontradas no endereço eletrônico: 
. Acessado em: out. 2014.
imunodeficiências combinadas graves
São imunodeficiências que afetam tanto a imunidade humoral quanto a imunidade 
celular. Essas doenças podem ser causadas por deficiência em células B e T ou apenas 
em células T. Elas podem surgir por:
 » Defeitos na sinalização das citocinas: redução do número de células T 
sendo o número de células B normal ou aumentado.
 » Defeitos nas vias de salvamento de nucleotídeos: redução progressiva no 
número das células B, T e NK.
83
iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V
 » Defeitos na recombinação V(D)J:redução no número de células B e T e 
ausência ou deficiência de células B e T.
 » Anormalidade no desenvolvimento do timo: número de células T reduzido 
e células B normal.
deficiência de anticorpos
É uma deficiência causada pelo defeito no desenvolvimento e ativação das células B. 
Pode ser: 
 » Agamaglobulinemias: número de células B e todos os outros isotipos de 
imunoglobulinas estão diminuídos.
 » Hipogamaglobulinemia/defeitos nos isotipos: IgA e IgG2 diminuídas; 
número de células B normal ou diminuído; defeitos leves ocasionais nas 
células T.
 » Síndromes de hiper-IgM: defeitos na ativação de células B, macrófagos 
e células dendríticas; defeitos na mutação somática, troca de classe e 
formação dos centros germinativos; imunidade celular defeituosa.
defeitos na ativação e função dos linfócitos t
São alguns distúrbios na composição dos grânulos ou na exocitose das CTLs e NK.
Esses defeitos podem ser:
 » Defeitos na expressão do MHC: expressão defeituosa do MHC II e deficiência 
das células T; imunidade celular e respostas humorais dependentes de 
células T defeituosas.
 » Sinalização defeituosa das células T: defeitos na imunidade celular e 
humoral dependente de célula T bem como ativação defeituosa das 
células T.
 » Linfoistiocitoses hemofagocitárias familiares: proliferação descontrolada 
das células B induzida pelo vírus Epstein-Bar; ativação descontrolada de 
macrófagos e CTLs e função defeituosa de células NK e CTLs.
84
CAPítulo 2
imunodeficiências secundárias
Imunodeficiências adquiridas ou secundárias são aquelas desenvolvidas durante 
a vida. Podem ser causadas por dois tipos principais de mecanismos patológicos: 
imunossupressão e as imunodeficiências como complicação do tratamento de outras 
doenças (iatrogênicas). 
Assim, as causas e mecanismos das imunodeficiências podem ser as seguintes:
 » Infecção pelo vírus HIV: ocorre depleção das células T CD4+ auxiliares.
 » Desnutrição proteico-calórica: distúrbios metabólicos que inibem o 
desenvolvimento e função dos linfócitos.
 » Irradiação e quimioterapia: redução dos precursores dos linfócitos na 
medula óssea.
 » Metástases de câncer e leucemia: redução da área para o desenvolvimento 
dos leucócitos.
 » Imunossupressão para transplantes e doenças autoimunes: redução da 
ativação de linfócitos.
 » Remoção do baço: redução na fagocitose dos microrganismos.
Vírus da imunodeficiência humana e a 
síndrome da imunodeficiência adquirida
A AIDS é a doença causada pelo vírus HIV caracterizando uma imunossupressão 
profunda associada a infecções oportunistas e tumores malignos, perda de peso e 
degeneração do sistema nervoso central. O HIV infecta várias células do sistema imune, 
entre elas macrófagos células dendríticas e células T auxiliares CD4+. Ele é membro 
de uma família de vírus que são capazes de causar infecção latente de longo prazo das 
células e efeitos citopáticos (alterações morfológicas das células infectadas por vírus) e 
todos eles produzem doenças fatais de progressão lenta. 
Patogenia da infecção pelo HiV e AidS
A AIDS, doenças causada pelo HIV, começa com uma infecção aguda (infecção das células 
T CD4+ de memória e a morte de várias células infectadas) que é controlada parcialmente 
85
iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V
pelo sistema imune adquirido e avança para uma doença crônica progressiva (disseminação 
do vírus, viremia e desenvolvimento de respostas imunológicas do hospedeiro). As 
células dendríticas podem passar o HIV para células TCD4+ por meio do contato direto 
célula-célula. Na fase crônica o vírus tem preferência pelo baço e linfonodos para fazer a 
replicação viral e destruição celular. 
Mecanismos da imunodeficiência causada pelo HiV
A função dos sistemas imunes adquiridos e natural fica comprometida com a infecção 
pelo HIV principalmente pelo efeito citopático direto nas células TCD4+ causando uma 
perda significativa destas. A lise direta das células TCD4+ infectadas pelo vírus junto 
com os defeitos funcionais do sistema imunológico dos indivíduos infectados por HIV 
exacerbam a deficiência imunológica causada pela depleção de células TCD4+.
respostas imunológicas ao HiV
Respostas humorais e celulares específicas para o HIV se desenvolvem após a infecção, 
porém com uma proteção limitada. De início, a resposta imune ao HIV é semelhante a 
respostas a outros vírus, mas essas respostas não conseguem erradicar o vírus e assim 
a infecção consegue progredir. 
Expansão das células TCD8+ específicas para peptídeos virais é a resposta inicial do 
sistema imune adquirido ao HIV. As respostas de anticorpos contra o HIV é detectada 
de 6 a 9 semanas após a infecção.
AidS: o que fazer?
Promoção: Centro de Estudos da Escola Nacional de Saúde Pública -CEENSP 
Organização: Álvaro Hideyoshi Mattida
O Centro de Estudos da Escola Nacional de Saúde Pública (CEENSP) promoveu, 
em agosto de 1985, uma mesa redonda sobre a Síndrome de Imunodeficiência 
Adquirida (SIDA), com a participação do Dr. Bernardo Galvão-Castro, imunologista 
do Instituto Oswaldo Cruz, que abordou os aspectos clínicos e laboratoriais da 
doença, o Dr. Gelli Pereira, virologista do Instituto Oswaldo Cruz que discorreu 
sobre a etiologia da SIDA e o sociólogo Herbert de Souza do Instituto Brasileiro 
de Análises Socioeconômicas (IBASE) que refletiu sobre o impacto social e 
psicológico da SIDA na população, em geral, e nos grupos de maior risco, 
em particular. A Síndrome de Imunodeficiência Adquirida vem causando 
inquietação e perplexidade a Medicina moderna. Na era das doenças crônicas 
e degenerativas, somos novamente surpreendidos por um vírus, o HTLV-III/LAV 
86
unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS
que tem se propagado em crescimento exponencial nas populações onde já foi 
introduzido e carrega consigo a perversidade de ser 100% letal. Nas exposições 
que se seguem, podemos encontrar uma avaliação séria e criteriosa deste 
programa que vem afligindo a humanidade e do qual, infelizmente, já somos 
também vítimas em nosso país. O Dr. Álvaro Hideyoshi Mattida, Coordenador do 
Programa de Controle e Prevenção da SIDA na Secretaria de Estado de Saúde e 
Higiene do Rio de Janeiro muito nos ajudou na organização final desta publicação. 
Agradecemos a ele mais este esforço empreendido na divulgação da Síndrome 
de Imunodeficiência Adquirida. Maria do Carmo Leal, Presidente do CEENSP 
BERNARDO GALVÃO CASTRO – Departamento de Imunologia — Fundação 
Oswaldo Cruz SÍNDROME DE IMUNODEFICIÊNCIA ADQUIRIDA (SIDA/AIDS) 
ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS, IMUNOLÓGICOS E DIAGNÓSTICO SOROLÓGICO. 
A identificação dos primeiros casos de síndrome de imunodeficiência adquirida 
se deu por meio do sistema de vigilância epidemiológica do Centro para Controle 
de Doença Recebido para publicação em 9/10/1985 dos Estados Unidos da 
América do Norte. Em começo de 1981, foram notificados 5 casos de pneumonia 
por Pneumocistis carinii em homossexuais hospitalizados em Los Angeles e 26 
casos de sarcoma de Kaposi em jovens homossexuais provenientes de New York 
ou Los Angeles. A ausência de doença básica imunodepressora e o grupo etário 
jovem dos pacientes, acrescidos do número inusitado de casos registrados 
em curto período de tempo, levaram a se pensar em uma nova doença. Esta 
síndrome foi então definida empiricamente pelo Center for Disease Control dos 
Estados Unidos da América do Norte para fins de vigilância epidemiológica 
como o aparecimento de sarcoma de Kaposi e/ou infecções oportunistas 
frequentemente fatais em indivíduos previamente sadios, abaixo dos 60 anos de 
idade e que não apresentavam anteriormente uma condição imunossupressora. 
Essa doença é caracterizada por diferentes formas clínicas: 
 » Síndrome de Linfoadenopatia Crônica em Homossexuais Masculinos 
(SLC). É definida por meio dos seguintes critérios:
 › Linfoadenopatia em homossexuais com mais de três meses de 
duração envolvendo dois ou mais sítios extrainguinais.
 › Ausência de qualquer doença atual ou uso de droga conhecidacomo causadora de linfoadenopatia.
 › Presença de hiperplasia reativa em um linfonodo.
 › Qualquer combinação de dois ou mais dos seguintes sintomas: perda 
de peso (maior do que 10% do peso normal), febre intermitente ou 
contínua, diarreia crônica, mal-estar e suores noturnos.
87
iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V
 » Complexo relacionado com a SIDA Compreende indivíduos do grupo 
de risco com uma multiplicidade de sinais e sintomas que podem 
incluir linfoadenopatia generalizada, perda de peso, diarreia crônica, 
mal-estar, letargia, linfopenia, leucopenia, anemia, trombocitopenia, 
idiopática, anormalidades características da SIDA. Entretanto, estes 
indivíduos não apresentam as típicas infecções oportunistas ou 
sarcoma de Kaposi.
 » Síndrome de Imunodeficiência Adquirida Clássica – A SIDA clássica 
é caracterizada clinicamente por infecções oportunistas, sarcoma 
de Kaposi e outras malignidades do sistema linfoide. As infecções 
oportunistas são chamadas desta maneira porque são causadas por 
germes incapazes de causar doença em indivíduos sadios e aproveitam 
a oportunidade dos pacientes estarem com o seu sistema de defesa 
deficiente para invadir seus organismos e causar danos graves. Os 
patógenos oportunistas mais frequentemente associados à SIDA 
incluem protozoários, fungos, bactérias, vírus, e estão sumarizados na 
tabela abaixo: 
Infecções Oportunistas frequentes na SIDA
O sarcoma de Kaposi foi descrito em 1872 pelo médico húngaro Moritz Kaposi. 
É uma neoplasia rara que se caracteriza pelo aparecimento de nódulos ou placas 
88
unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS
violáceas de pequenas dimensões, distribuídos no tegumento, sobretudo nos 
membros inferiores. Esse tumor, inicialmente de comportamento benigno, 
estava limitado à Europa Central e Bacia do Mediterrâneo, acometendo 
indivíduos adultos acima dos 60 anos de idade, tendo uma evolução insidosa e 
muito raramente envolvia outros órgãos, como os intestinos, por exemplo. 
A partir da década de 1940, verificou-se que este tumor podia apresentar-se sob 
uma forma maligna, desde que no Continente Africano, mais precisamente na 
África Equatorial, esta neoplasia apresentou um caráter invasivo, se disseminando 
na pele e envolvendo frequentemente outros órgãos, tais como gânglios 
linfáticos e intestinos, atingindo principalmente adultos jovens e crianças, estas 
com um prognóstico mais grave. No Brasil e nos Estados Unidos da América do 
Norte, a sua ocorrência era, até o surgimento da SIDA, semelhante a da Europa, 
atingindo cerca de 0,35 por 100.000 habitantes. Mais recentemente, verificou-se 
que cerca de 1/3 dos pacientes acometidos pela SIDA tem sarcoma de Kaposi. 
Nesse caso, ele apresenta características acentuadamente agressivas, 
localizando-se em qualquer região do corpo, particularmente na face, tendo um 
prognóstico ruim, com uma sobrevida média de 2 anos. Essa doença que surgiu, 
aparentemente nos EUA em 1979, e identificada como entidade clínica em 1981, 
já apresenta atualmente nesse país uma prevalência de 42,2 casos por milhão de 
habitantes, perfazendo um total de 9.608 casos. A prevalência desta síndrome 
está aumentando exponencialmente com o número total de casos, duplicando 
a cada 6 (seis) meses, estimando-se em 20.000 o número de casos até o final de 
1985. Embora a doença ainda esteja concentrada nos EUA, ela vem sendo 
diagnosticada em vários países, inclusive no Brasil, notadamente nos Estados de 
São Paulo e Rio de Janeiro. Sem nenhuma dúvida, estamos diante de uma nova 
epidemia. Entretanto, se compararmos a prevalência dessa doença em relação 
às de doença de Chagas, malária, esquistossomose, diarreias virais ou mesmo 
aquelas relativas à mortalidade infantil, desnutrição, a câncer e acidentes de 
trânsito, a prevalência de SIDA seria numericamente irrelevante. Essa análise 
poderá erroneamente minimizar a gravidade do problema, pois uma das 
características epidemiológicas mais importantes desta síndrome é a rapidez do 
surgimento de novos casos. No Brasil, a progressão da doença ocorre de maneira 
semelhante à observada em outros países. Outra característica importante é a 
mortalidade de 100% dos casos de SIDA clássica, não existindo até o momento 
agentes imunoprofiláticos e terapêuticos eficazes. Embora os primeiros casos de 
SIDA tenham sido observados em homossexuais masculinos, posteriormente se 
constatou que outros grupos, como toxicômanos que utilizam drogas por via 
venosa e hemofílicos, eram também atingidos. A tabela 2 apresenta uma 
distribuição dos casos de SIDA segundo o grupo de risco no Brasil e EUA. 
89
iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V
Entende-se por grupo de risco aqueles onde a prevalência da doença é maior, 
quando comparada com a população geral. Obviamente isto não implica o fato 
de que, por exemplo, um indivíduo com determinada orientação ou que utilize 
drogas injetáveis por via venosa, seja obrigatoriamente doente ou mesmo 
portador do vírus. Os hemofílicos, por apresentarem uma alteração no sistema 
de coagulação sanguínea, são obrigados a receber regularmente concentrados 
de fator deficiente (fator VIII ou IX), que são preparados a partir do sangue de 
doadores. Esses hemoderivados, mesmo após serem filtrados para a eliminação 
de microrganismo de um determinado tamanho, tais como: bactérias, 
protozoários e fungos, continuavam transmitindo a doença. Essas observações 
clínicas e epidemiológicas indicavam que essa doença era transmitida por via 
sexual e sanguínea, e que um vírus seria provavelmente o agente etiológico, 
pois este é o único agente que não seria retido pelo filtro. Atualmente, sabe-se 
que a SIDA é uma doença transmissível causada por um retrovírus denominado 
vírus da linfoadenopatia (LAV) ou vírus linfotrópico para células T humanas 
(HTLV-III). A identificação, o isolamento e a manutenção in vitro do agente 
etiológico da SIDA foi fundamental para a compreensão da patogenia e 
instalação de métodos sorológicos de detecção de anticorpos contra o vírus 
HTLV-III/ LAV. Esse vírus, com o seu tropismo predominante para a célula central 
do sistema imune, é responsável por disfunções graves da resposta imune. Uma 
linfopenia acentuada, observada nos pacientes com SIDA clássica. Esta 
diminuição não reflete o acometimento de toda população linfocitária, 
parecendo haver uma diminuição seletiva dos linfócitos T auxiliares ou helper/
inducer, uma subpopulação de linfócitos timo-dependentes (linfócito T). Essas 
células são definidas como células ÒKT4 + e Leu3 + porque são reconhecidas 
pelos anticorpos monoclonais OKT4 e Leu3. A subpopulação dos linfócitos T 
supressores (OKT8), assim como os linfócitos B, está intacta ou mesmo 
ligeiramente aumentada, ocorrendo, então, uma diminuição da relação entre o 
número de células OKT4 +, podendo alcançar valores iguais ou inferiores a 0,4. 
Existe também um déficit funcional dos linfócitos T auxiliares. Este déficit pode 
ser observado tanto in vivo quanto in vitro. In vivo ele se manifesta por uma maior 
susceptibilidade ao desenvolvimento de neoplasias, de infecções oportunistas e 
uma resposta diminuída aos testes cutâneos. In vitro praticamente todas as 
medidas utilizadas para avaliação das funções de células T mostram valores 
inferiores àqueles em pacientes normais. Nesses pacientes, a resposta 
proliferativa linfocitária apresenta-se diminuída após a estimulação por 
mitógenos ou antígenos específicos. Entretanto, observou-se mais recentemente 
que a resposta proliferativa é normal quando populações purificadas de células 
helper/inducer (OKT4) ou supressoras/citotóxicas (OKT8) são estudadas 
90
unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS
isoladamente, ao contrário do que se observa quando se estudam populações 
celulares não fracionadas. Esses dados indicam que a diminuição da resposta 
proliferativa a mitógenos in vitro decorre de alterações quantitativas das 
subpopulações linfocitárias. Por outro lado, a diminuiçãonecessárias no combate diário aos agentes patogênicos.
Nesta unidade estudaremos as respostas do sistema imune aos diferentes tipos de 
antígenos com os quais entramos em contato ao longo da vida e entenderemos melhor a 
necessidade da ação conjunta dos diversos tipos de mecanismos de defesa que compõe 
o nosso sistema imunológico.
objetivos
 » Promover o conhecimento dos diversos tipos de defesa desenvolvidos 
pelo sistema imunológico em resposta aos diferentes tipos de agentes 
causadores de doença ao qual estamos expostos.
 » Analisar diferentes tipos de doenças que exigem respostas rápidas e 
específicas do sistema imunológico.
 » Compreender os diferentes mecanismos utilizados na resposta aos 
antígenos.
9
unidAdE iiMunidAdE ContrA 
AgEntES EXtErnoS
CAPítulo 1
imunidade contra vírus
Os vírus são agentes infecciosos que podem causar doenças tanto em organismos que 
possuem células eucariontes (animais, vegetais e fungos), quanto em organismos que 
possuem células procariontes (bactérias). 
Esses micro-organismos são parasitas intracelulares obrigatórios, ou seja, precisam 
utilizar os componentes da maquinaria celular para conseguir dar início ao seu processo 
de replicação e disseminação.
Para causar infecção nos mais diversos tipos celulares, os vírus utilizam os receptores 
externos da superfície celular para adentrá-las. A replicação dos vírus no interior 
das células altera seu funcionamento normal, interferindo na síntese e na função das 
proteínas levando à lesão e posteriormente á morte da célula infectada. Quando ocorre 
a lise celular a infecção é denominada lítica.
Além disso, os vírus são capazes de causar infecções latentes, onde permanecem 
escondidos no organismo do hospedeiro, integrando seu genoma ao genoma normal 
das células, e assim podem permanecer por muito tempo.
A resposta imunológica aos vírus é ativada para interromper a infecção e eliminar 
as células infectadas e sua compreensão é fundamental para a compreensão da 
patogênese viral, para definir estratégias de diagnóstico, prevenção e controle por meio 
de vacinação.
imunidade inata
A resposta imune inata compõe a primeira linha de defesa contra os micro-organismos, 
ocorrendo rapidamente e de forma não específica aos patógenos e sem conferir 
imunidade duradoura. 
10
unidAdE i │ iMunidAdE ContrA AgEntES EXtErnoS
A primeira defesa contra a infecção é constituída pelas barreiras físicas, como pele, 
pelos, muco, enzimas e peptídeos antivirais e antibacterianos, produzidos para prevenir 
o início da infecção, que só ocorrerá caso o micro-organismo consiga ultrapassar 
essas barreiras.
Todas essas barreiras são consideradas mecanismos da resposta imune inata e agem 
não só contra vírus, mas sim contra qualquer micro-organismo infeccioso. 
Contra os vírus temos como principais mecanismos a inibição da infecção por 
citocinas (moléculas envolvidas na emissão de sinais entre as células que regulam 
e coordenam a resposta imune), como interferons do tipo I, e a morte das células 
infectadas pelas células matadoras naturais ou natural killer (NK), bem como a 
atuação importante das células dendríticas como resposta primária na imunidade e 
apresentação de antígenos virais para o início da resposta imune adaptativa, que será 
abordada posteriormente.
Células dendríticas
As células dendríticas imaturas são provenientes principalmente dos monócitos 
circulantes no sangue, que entram nos tecidos e se diferenciam inicialmente como 
células dendríticas imaturas, quando presente na epiderme estas células recebem 
o nome de células de Langerhans. Sua maturação ocorre após o encontro com um 
patógeno potencial levando a sua captura e apresentação aos linfócitos T nos órgãos 
linfoides secundários.
O progenitor linfoide comum dá origem a uma subpopulação menor de células 
dendríticas, porém, como existem mais células mieloides progenitoras comuns do 
que progenitores linfoides comuns, a maioria das células dendríticas do organismo se 
desenvolvem a partir de progenitores mieloides comuns. 
O termo células dendríticas veio de sua forma estrelada devido à presença de numerosos 
prolongamentos citoplasmáticos longos e contorcidos, como os dendritos das células 
nervosas. Elas representam uma população variada de células que residem em quase 
todos os tecidos, representando de 1 a 2% do número total de células locais. 
Como os macrófagos e neutrófilos, elas degradam os patógenos que capturaram, mas 
sua principal função no sistema imune não é a eliminação de micro-organismos. 
São consideradas as APCs mais potentes, sendo capazes de iniciar a resposta imune 
adaptativa por meio da ativação de linfócitos T. Apesar dos macrófagos também serem 
capazes de atuar como apresentadores de antígenos são as células dendríticas as mais 
especializadas nessa função.
11
iMunidAdE ContrA AgEntES EXtErnoS │ unidAdE i
Apresentam também um importante papel na regulação da resposta imune mediada 
por linfócitos T, balanceando as diferentes respostas imunológicas que se desenvolvem. 
Elas sintetizam citocinas que influenciam tanto a regulação da resposta imune inata 
quanto adaptativa.
figura 1. fotografia das células dendríticas em processo de maturação.
fonte: figura adaptada de Sirgo, G. e colaboradores. (2010, p. 562).
Na infecção viral, as células dendríticas constituem as principais produtoras de 
interferon I (IFN-I), tendo assim, fundamental importância na ativação das células NK 
e no controle das infecções.
Os interferons do tipo I são produzidos por células infectadas por vírus em resposta 
a sinalização intracelular e se ligam a receptores em células vizinhas não infectadas 
ativando vias de sinalização que induzem a expressão de genes cujos produtos interferem 
com a replicação viral.
Além disso, os IFN-I se ligam a receptores de células infectadas e induzem a expressão 
de genes cujos produtos aumentam a suscetibilidade da célula a morte mediada pelos 
linfócitos T citotóxicos.
Células apresentadoras de antígenos (APCs) e o 
reconhecimento das infecções virais
As principais células apresentadoras de antígenos do sistema imune são as células 
dendríticas, monócitos e macrófagos. Estas células têm a capacidade de capturar e 
processar os antígenos de forma que eles possam ser reconhecidos pelas células T. 
As células T somente reconhecem os antígenos quando estes estão associados a 
moléculas do complexo de histocompatibilidade principal Major Histocompatibility 
Complex (MHC), formando o complexo MHC/peptídeo. As APCs então convertem os 
antígenos proteicos em peptídeos que se associam ao MHC e são externalizados na 
superfície celular para apresentação aos linfócitos T.
12
UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS
O complexo de histocompatibilidade principal pode ser dividido em MHC de classe I 
e MHC de classe II. Em seres humanos esse grupo genético recebe a denominação de 
Antígenos Leucocitários Humanos (HLA).
Todas as células nucleadas expressam MHC de classe I, enquanto que o MHC de classe 
II é expresso apenas por tipos muito específicos de células, o que inclui pincipalmente 
as APCs.
Por sua vez, as APCs, e não somente elas, mas também os neutrófilos possuem receptores 
de patógenos, os receptores de reconhecimento de padrões (PRRs), que reconhecem 
moléculas simples e padrões regulares de estruturas conhecidas como padrões 
moleculares associados aos patógenos (PAMPs), que podem estar presentes em muitos 
micro-organismos, mas não nas próprias células. É dessa forma que o sistema imune 
inato distingue o próprio do não próprio.
Para ativar as células dendríticas os vírus presentes no meio extracelular ou os 
componentes virais gerados intracelularmente durante a infecção (RNA de fita simples, 
RNA de fita dupla, ou DNA com padrão CpG) devem ser reconhecidos por PRRs, esse 
reconhecimento leva a uma cascata de sinais intracelulares que levam a produção de 
interferon tipo I, citocinas e quimiocinas e estimulam a produção de correceptores e 
moléculas do complexo de histocompatibilidadeda resposta a antígenos 
solúveis como a anatoxina tetânica resulta não só da diminuição quantitativa de 
células 14 circulantes como também de uma anormalidade qualitativa desta 
subpopulação linfocitária. Outros testes destinados a avaliar a competência de 
linfócitos T em exercer algumas de suas funções, tais como, o auxílio a células B 
ou o desenvolvimento de uma resposta citotóxica vírus-específica, mostraram 
igualmente resultados alterados. Por exemplo, uma das provas que avalia as 
alterações entre as células B e T auxiliares e a síntese de imunoglobulinas (Ig) 
após o estímulo com Pokeweed (PWM). Normalmente, células B, quando 
estimuladas por este mitógeno e na presença de células T auxiliares, produzem 
níveis elevados de imunoglobulinas, mesmo em uma proporção 25:1. Entretanto, 
células T4 + provenientes de indivíduos com SIDA, mesmo em uma proporção 1 
célula 14 normal para 1,6 células B normais, não foram capazes de auxiliar a 
resposta humoral, não havendo síntese de Ig in vitro. A adição de células T8 
supressoras, provenientes de indivíduos sadios ou com SIDA, foi capaz de 
suprimir a síntese de Ig. Esses dados indicam que não existe alteração desta 
última subpopulação nos pacientes com SIDA. Além disto, existe uma deficiência 
funcional da subpopulação de células citotóxicas quando testada in vitro e na 
presença de células auxiliares de indivíduos com SIDA. Essa função pode ser 
restaurada com a adição da Interleucina 2, fator produzido pelas células T 
auxiliares. Isso demonstra que as células citotóxicas estão intactas, havendo uma 
deficiência na produção de Interleucina 2 pelas células T auxiliares dos indivíduos 
com SIDA. Outra alteração observada nos indivíduos com SIDA é a ativação 
policlonal de linfócitos B. Esses linfócitos podem ser especificamente ativados 
após contato com o antígeno (Ag) correspondente. Eles podem também ser 
ativados por mitógenos B ou ativadores policlonais de linfócitos B (APB) que vão 
ativar simultaneamente vários clones de linfócitos B de diferentes especificidades. 
Como resultado, temos uma síntese aumentada de Ig e a produção de anticorpos 
(Ac) de várias especificidades, incluindo hetero e autoanticorpos. Na SIDA, apesar 
do déficit quantitativo e qualitativo das células T auxiliares e da normalidade do 
comportamento supressor do sistema imune, observa-se um alto grau da APB. A 
APB leva a um aumento dos níveis séricos de Ig, sobretudo de IgG e de IgA; como 
também de complexos imunes circulantes e aumento do número de células B 
secretoras de Ig. Uma vez que não existe na SIDA excesso de auxílio proveniente 
das células T auxiliares (T4 +), pensa-se que este estado de APB seria induzido 
nesses pacientes por infecções oportunistas causadas pelos vírus dotados de 
91
iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V
propriedades de APB, tais como o vírus Epstein-Barr. Por outro lado, é observado 
que as células provenientes de pacientes com SIDA são incapazes de desenvolver 
uma resposta imune secundária in vitro (após imunização primária in vivo) a 
hemocianina de peixe (KLH). Além disso, os indivíduos com SIDA assim 
imunizados desenvolveram níveis de Ac KLH inferiores àqueles observados em 
controles heterossexuais sãos. Esse fato tem obviamente relevância sob o ponto 
de vista clínico, vista a incapacidade do sistema imune de um indivíduo com 
SIDA em desenvolver uma resposta humoral específica eficaz contra um agente 
agressor ou a possibilidade de resultados falsos negativos se a resposta desses 
indivíduos for utilizada em testes para diagnóstico sorológico de infecções. Além 
das alterações acima, outras, cuja relevância no processo de doença não está 
ainda claramente definida, foram descritas, tais como, a presença de uma forma 
termo lábil de Interferon, níveis elevados de alfa 1 Timosina e a presença de 
substâncias séricas capazes de suprimir a resposta imune de linfócitos normais 
in vitro.
Resultados preliminares de Frederick et alii, (não publicados – citados por Fanci 
et alii, 1984) mostraram uma atividade Natural Killer (NK) reduzida na maioria 
dos pacientes com SIDA. Esses pacientes foram estudados paralelamente quanto 
à existência de infecção por citomegalovírus (CMV) e a atividade de células 
citotóxicas. Esses autores demonstram que o efeito estimulador do Interferon B 
sobre a atividade NK, normalmente observado em células de indivíduos normais, 
não era detectado quando células de indivíduos com SIDA foram estudadas. 
Contudo, tanto essa atividade NK quanto a citotoxidade específica ou CMV é 
potencializadora pela adição de Interleucina 2 (IL 2) que também restabelece 
a capacidade de produção de Interferon (If ). Os mecanismos por meio dos 
quais a IL 2 restabelece esses mecanismos efetores não é ainda conhecida, 
mas é possível que seu efeito sobre a produção de If seja relevante uma vez 
que este é importante na diferenciação de células T citotóxicas. Mostrou-se, 
também, que a estimulação in vitro de linfócitos de pacientes com SIDA com a 
fito-hemaglutinina (PHA) é seguida de uma produção diminuída tanto de IL 2 
quanto de If, quando comparada àquela observada após estímulo de células de 
controles heterossexuais sãos. Um achado digno de nota é a associação entre 
a presença de Ag HLA-Dr 5 e o sarcoma de Kaposi associado à SIDA. Friedman-
Kieni et alii, encontraram uma frequência de 63% de indivíduos portadores 
do Ag HLA-Dr 5 entre os casos de sarcoma de Kaposi associado à SIDA, 
contrastando com os 23% observados em indivíduos homossexuais masculinos 
normais. Mais curioso é o achado de que os indivíduos HLA-Dr 5 + com 
sarcoma de Kaposi apresentam números de células OKT4+ superiores àqueles 
observados em pacientes HLA-Dr 5 — com sarcoma de Kaposi, onde pensam 
92
unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS
que indivíduos predispostos geneticamente ao sarcoma de Kaposi (clássico ou 
epidêmico) desenvolveriam Kaposi epidêmico mesmo com menores níveis de 
imunodeficiência que pacientes não predispostos ao desenvolvimento desta 
patologia. Existem, pelo menos, quatro métodos para detecção de anticorpos 
contra o LAV/HTLV-III: imunofluorescência (IF), ensaio imunoenzimático (ELISA), 
ensaio imunorradiométrico (RIA), e Western blot. Essas técnicas têm valor 
principalmente para:
a. Confirmar o diagnóstico das diferentes formas clínicas;
b. Determinar a prevalência da infecção na comunidade;
c. Triagem do sangue para transfusões ou fracionamento;
d. Triagem de doadores de órgãos ou sêmen.
Os princípios básicos são similares para IF, ELISA e RIA, isto é, o soro do paciente 
é adicionado sobre o antígeno ligado a um suporte sólido. Entretanto, o sistema 
de revelação das reações é diferente, levando a diferentes níveis de sensibilidade 
e especificidade. Na IF, o revelador é um antianticorpo ligado a um fluorocromo. 
Os principais fluorocromos são a fluoresceína e a rodamina B. Para a leitura 
da reação, emprega-se um microscópio dotado de um sistema de iluminação 
adequado, pois os fluorocromos absorvem radiações de baixo comprimento 
de onda e emitem radiações na faixa do verde para fluoresceína e do vermelho 
para rodamina. Para a revelação do ensaio imunoenzimático (enzyme linked 
immunosorbent assay — ELISA) utiliza-se o antianticorpo ligado a uma enzima, 
geralmente a peroxidase, e adiciona-se o seu substrato específico com uma 
substância cromogena. A reação é colorida e pode ser avaliada a olho nu ou 
medida por meio de um espectrofotômetro. No RIA, o anticorpo é ligado a um 
isótopo radioativo, por exemplo, I125 ou I131, e a revelação é feita pela medida 
da radiação emitida. Na técnica de «Western blot», o antígeno é inicialmente 
submetido a uma eletroforese em gel de poliacrilamida, quando as proteínas 
são separadas de acordo com os seus pesos moleculares. Após a eletroforese, as 
proteínas são transferidas para um papel de nitrocelulose, permitindo a reação 
dos soros dos pacientes com os antígenos fracionados. O sistemade revelação 
da reação antígeno-anticorpo pode ser o mesmo empregado para o teste de 
ELISA ou RIA.
Estas técnicas apresentam uma série de vantagens e desvantagens quanto a seu 
funcionamento. Por exemplo, ELIZA e RIA são técnicas semiautomatizadas que 
permitem a avaliação de uma grande quantidade de soros em um curto período 
de tempo, o que torna a sua utilização adequada para triagem em bancos de 
93
iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V
sangue. Entretanto, o alto grau de sensibilidade desses testes torna necessário a 
utilização de antígenos purificados para evitar reações falsas positivas. Por outro 
lado, o manuseio com material radioativo põe em risco a saúde do operador. 
A fluorescência, embora seja uma técnica de fácil execução, é de interpretação 
trabalhosa e subjetiva, necessitando de um operador bem treinado. A técnica 
de Western blot embora seja a mais específica no diagnóstico da SIDA, não é 
aconselhável para atividade de rotina devido a sua complexidade de execução e 
o seu custo operacional elevado. Os testes mais utilizados para a triagem são IF e 
ELISA. Os soros repetidamente positivos em uma dessas técnicas com antígeno 
preparado com células infectadas, mas negativo com antígeno processado com 
células não infectadas, devem ser testados por um método adicional antes do 
estabelecimento do diagnóstico. O método mais adequado deve compreender 
a detecção de anticorpos dirigidos contra determinadas proteínas estruturais do 
vírus. Por exemplo, RIA, utilizando a proteína p-24 como antígeno ou a técnica 
de Western blot. No caso da SIDA, as técnicas laboratoriais incluem também o 
isolamento do vírus e a detecção de componentes virais. Entretanto, ainda não 
é de uso rotineiro a detecção de componentes virais em espécimes clínicos, 
o que seria a evidência direta da infecção. Resta, portanto, a evidenciação 
indireta mediante a identificação de anticorpos anti-HTLVIII/ LAV. No entanto, a 
presença isolada destes anticorpos não pode ser considerada como diagnóstico 
da doença, mas indica que o indivíduo foi sensibilizado pelo agente viral ou 
seus produtos. Em princípios, este indivíduo é potencialmente transmissor da 
infecção e deveria ser excluído como doador de órgãos ou fluidos orgânicos. Por 
outro lado, não existe nenhuma evidência que a albumina e a imunoglobulina 
preparada pelo fracionamento convencional de Cohn, 1946, transmita o vírus. 
Dados da literatura indicam que os anticorpos aparecem cerca de 2 a 4 semanas 
após o contato com o vírus. Estes anticorpos persistem por vários anos e podem 
se apresentar em títulos mais baixos ou ausentes no estágio final da doença.
Anticorpos neutralizantes não são predominantes e têm se isolado amostras 
virais de indivíduos com altos níveis de imunoglobulinas específicas. Não se 
sabe ainda o significado da sorologia positiva em casos de indivíduos 
assintomáticos. Entretanto, dados preliminares indicam que cerca de 10% destes 
indivíduos podem desenvolver a doença no período de dois anos. Somente 
estudos prospectivos bem elaborados poderão fornecer informações científicas 
suficientes para se estabelecer o valor da sorologia na história natural da doença. 
GELLI PEREIRA – Instituto Oswaldo Cruz (IOC). As minhas considerações vão ser 
principalmente a respeito da etiologia da doença que estamos discutindo. Em 
primeiro lugar devo dizer que foi impressionante não só a rapidez com que essa 
doença se expandiu, mas também a rapidez com que foram adquiridos 
94
unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS
conhecimentos sobre a sua etiologia. Isso foi possível porque o vírus causador 
dessa doença pertence a um grupo de agentes, os retrovírus, que vinham sendo 
investigados com grande intensidade, mais pelo interesse em suas propriedades 
básicas do que pela sua associação com doenças humanas previamente 
conhecidas. Esses vírus são incluídos na família retroviridae que é dividida em 
várias subfamílias, cujos membros são encontrados infectando uma grande 
variedade de hospedeiros vertebrados. Os retrovírus se caracterizam por 
apresentarem partículas infecciosas com um lipo-glico-protéico. Essas estruturas 
são formadas por subunidades representadas no capsídio interno por antígenos 
grupo-específicos (gag) e enzimas, incluindo em uma polimerase reversa (pol), e 
no envelope por glicoproteínas (env) de que tratarei mais adiante. No interior do 
capsídeo é encontrado o genoma viral que consiste em duas moléculas idênticas 
de ácido ribonucléico (ARN) de fita simples. Cada uma dessas moléculas contém 
a informação genética necessária à replicação viral. Esse processo envolve, como 
para todos os outros vírus e mesmo para os seres vivos, em geral, uma série de 
processos gerando um fluxo de informação do genoma, por meio de vários 
estágios intermediários até os produtos finais representados por proteínas 
funcionais e estruturais de gerações sucessivas de partículas virais. Nos 
organismos mais complexos do que os vírus, e também nos vírus cujo genoma 
consiste de ácido desoxirribonucleico (ADN), o fluxo de informações nos 
processos biossintéticos se faz a partir do ADN que é transcrito a ARN que, por 
sua vez, é traduzido a proteínas. Na maioria dos vírus cujo genoma consiste de 
ARN, as proteínas virais são produtos de tradução do próprio ARN viral ou de 
ARN complementar ao genoma viral. A descoberta de que os retrovírus se 
excetuam a essa regra constituiu um dos avanços da biologia molecular. Ao 
contrário de todos os outros vírus até então estudados, verificou-se então que o 
ciclo replicativo dos retrovírus necessita de uma inversão do fluxo genético na 
direção de ARN para ADN. Essa inversão dá origem ao prefixo “retro” de retrovírus 
e é catalizada por uma enzima designada transcritase reversa ou polimerase de 
ADN dependente de ARN (RNA dependent DNA polymerase) que é uma das 
proteínas estruturais dos retrovírus. Outro aspecto importantíssimo do ciclo 
replicativo dos retrovírus é o que o ADN transcrito do genoma viral pode se 
incorporar em cromossomas da célula hospedeira sob a forma de “provírus” 
permanecendo aí integrado e sendo transmitido como um caráter hereditário 
mendeliano. Isso acontece como regra nos retrovírus ditos endógenos que são 
incapazes de se propagar por intermédio de partículas virais infecciosas, a não 
ser que sejam complementados por coinfecção por outros retrovírus ditos 
«auxiliares». Em contraste, os retrovírus hexógenos, como o agente causal da 
SIDA, são ditos competentes, isto é, capazes de se propagar independentemente, 
95
iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V
por meio de partículas infecciosas. A existência de retrovírus integrados no 
aparelho genético dos organismos hospedeiros sob a forma de provírus tem 
importantes consequências patogênicas e epidemiológicas. O vírus pode se 
manter sem expressão, isto é, em forma inaparente e completamente protegido 
das defesas do hospedador por longos períodos. Uma vez estabelecido esse 
estado, é difícil de se conceber uma estratégia para se combater a infecção por 
métodos presentemente usados para outros vírus. Outro aspecto de grande 
interesse em relação aos retrovírus é a sua semelhança, quando sob a forma de 
provírus, com moléculas de ADN que se comportam como gens móveis, isto é, 
que se translocam a diferentes sítios nos cromossomas de células eucarióticas. 
Esses elementos chamados retrotransposons, cuja geração é também 
dependente da ação enzimática de transcriptases reversas, apresentam 
sequências de nucleotídeos muito semelhantes a dos provírus, tendo ambos em 
suas extremidades longas sequências repetidas de nucleotídeos (long terminal 
repeats ou LTR) entre as quais se localizam sequências codificadoras para várias 
proteínas, além de sequências não codificadoras. Várias amostras do vírus da 
SIDA foram completamente sequenciadas, tendo sido localizados os gens 
codificadores das várias proteínas virais (gag, pol, env). Estudos comparativosdas sequências e outras características de diferentes grupos de retrovírus 
sugerem que o vírus da SIDA (HTLV-III ou LAV) é menos relacionado a retrovírus 
humanos associados a linfomas (HTLV-I e HTLV-II) previamente descritos do que 
a um grupo de retrovírus de ovinos (Visna, Maedi) e de equinos (anemia equina 
infecciosa) reunidos sob o nome de lentivírus. Comprometimento do sistema 
nervoso em pacientes com SIDA é outro aspecto em que essa doença se 
assemelha àquelas causadas pelos lentivírus em carneiros. Desejo, em seguida, 
discutir alguns aspectos do diagnóstico etiológico da SIDA. O Doutor Galvão já 
discorreu sobre o diagnóstico clínico e imunológico que é de grande importância 
em se tratando de indivíduos em grupos de alto risco ou com sintomas da 
doença. Resta falar sobre as importantes questões dos indivíduos assintomáticos 
e dos doadores de sangue. Um dos benefícios práticos de maior importância da 
descoberta do vírus da SIDA foi a possibilidade de serem desenvolvidos métodos 
diagnósticos. Tais métodos são baseados presentemente na detecção de 
anticorpos específicos para o vírus. Vários métodos têm sido empregados para 
este fim: a imunofluorescência, o ensaio imunoenzimático, o radioimunoensaio 
e a imunoeletrotransferência (Western blot). Embora todos esses métodos deem 
resultados com alta especificidade e sensibilidade, nenhum pode ser aceito 
como infalível. Para confirmação de diagnóstico clínico qualquer um desses 
métodos fornece valioso apoio. Para triagem de doadores de sangue, positividade 
de cada uma dessas provas deve ser aceita para exclusão do uso terapêutico de 
96
unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS
produtos sanguíneos, mas conclusões diagnósticas devem ser reservadas até 
que haja ou não confirmação por provas alternativas. Do ponto de vista de saúde 
pública, considero prioridade máxima o exame obrigatório de doadores de 
sangue para anticorpos do vírus da SIDA. Dos métodos existentes, o que melhor 
se adapta a essa finalidade é o ensaio imunoenzimático. O seu custo permanece, 
entretanto, proibitivo entre nós, e há necessidade premente de que essa situação 
possa ser corrigida pela produção de conjuntos diagnósticos por laboratórios 
nacionais. Paralelamente, devem ser incentivados esforços para controlar a 
comercialização de produtos sanguíneos. Resultados muito preliminares obtidos 
por nós com a prova de imunofluorescência sugerem que a proporção de 
doadores de sangue com anticorpos para a SIDA no Rio de Janeiro pode atingir 
a níveis de 1% a 2%. Isso seria altamente alarmante, mas deve ser interpretativo 
com cautela, pois o grupo examinado até agora é pequeno e não foi selecionado 
como representativo da população total. De qualquer modo, é imprescindível 
que esses resultados sejam confirmados, ou não, por outras provas, e que esses 
estudos sejam ampliados até se tornarem abrangentes à totalidade dos doadores 
de sangue.
HErBErt dE SouzA – instituto Brasileiro de Análises 
Socioeconômicas – iBASE
Começo expressando uma grande dúvida de como me comportar aqui, porque 
me foi pedido que eu falasse como sociólogo. Na verdade eu sou hemofílico 
e, como vocês podem perceber, é muito difícil, neste momento, fazer essa 
separação. Inclusive porque a estatística, os números relacionados à questão 
da hemofilia não são nada generosos com a hemofilia. Pelo menos nos testes 
que foram apresentados aqui. Vou fazer um esforço para falar como sociólogo, 
mas antes quero fazer esse parêntese: uma vez eu falei no Globo Repórter, como 
hemofílico e como sociólogo, e acreditava que estava extremamente tranquilo 
até que me vi no Globo Repórter. Aí percebi que estava em um estado de 
tensão extremamente grande, inclusive um pouco maior que a minha própria 
capacidade de me perceber. Esse estado de tensão tinha passado, quando 
fui ao Centro de Hematologia e tive uma conversa com uma hematóloga 
para pedir orientação — aí não era o sociólogo, era o hemofílico que estava 
pedindo orientação à médica. Cheguei à conclusão que, do ponto de vista do 
meu comportamento e das medidas que deveria tomar, eu não tinha de fazer 
literalmente nada, e que se eu começasse a ter SIDA antes de ter, eu morreria 
de SIDA mesmo sem ter. Então decidi realmente não me preocupar mais com a 
questão naquilo que se referia à minha pessoa, porque tenho 49 anos e há pelo 
menos 40 anos tomo transfusões. Já devo ter tomado toneladas ou centenas de 
97
iMunodEfiCiênCiAS │ unidAdE V
litros de sangue. Portanto, qualquer imunologista, qualquer pesquisador teria 
em mim um laboratório completo para fazer qualquer tipo de teste em relação a 
esse problema. E só diante de debates como estes é que, de repente, reemerge 
a minha situação de hemofílico e me deixa um pouco preocupado. Mas, como 
vocês sabem também, tenho 2 (dois) irmãos hemofílicos: um é Henfil, que já tem 
40 anos — e quando a gente fala 40 anos, são 40 anos de transfusões – e o outro 
é Francisco Mário, que tem quase 30 anos. Bom, os três homens da minha família 
são três hemofílicos. Enfim, esta é uma nota de pé de página como hemofílico. 
Agora vou tentar falar como sociólogo. Acho que a questão que nós estamos 
vendo, que atinge ou que pode atingir uma boa parte da humanidade, tem três 
componentes que são altamente explosivos e complicados em sua abordagem. 
A primeira delas é que a SIDA está relacionada de uma maneira muito direta à 
questão do sexo. A gente não precisa ser psicanalista para saber que a questão 
do sexo é uma questão complexa. A segunda é que, como consequência de 
estar relacionada à questão do sexo, ela está relacionada ao problema da moral, 
do comportamento de cada um. Apesar de muitas pessoas ignorarem estes 
fatores ou este campo da reflexão humana que é a moral, a moral domina o 
nosso cotidiano, quer queiramos, quer não. E a terceira, que talvez tenha 
um componente explosivo muito maior do que pensamos, é que ele toca à 
questão da morte. Eu diria que a SIDA, hoje, provoca mais medo da morte do 
que o câncer, e que talvez seja a doença mais diretamente associada à morte. 
Basta ver o número de suicidas noticiados, de pessoas que, ao perceberem 
que estão com SIDA, preferem morrer por sua própria vontade a morrer dessa 
doença. Uma pessoa com SIDA não dura mais que 1 a 2 anos, pelo menos 
essa é a noção que é difundida em nível de opinião pública. E isso realmente 
é a notícia da morte. Bem, então uma infeliz de uma doença como essa, que 
reúne em si esses três componentes – do sexo, da moralidade e da morte – e 
que, além do mais, segundo as pesquisas ou as opiniões científicas existentes, 
assume características epidêmicas a nível mundial, reúne realmente quatro 
componentes que são altamente provocadores do pânico. Minha primeira 
reflexão é essa: que cada um deles tem um lado perverso. O relacionar a doença 
à questão do sexo, e do sexo em homossexuais, leva a um lado perverso, o da 
repressão sexual. A vinculação à questão da moral leva a outro lado perverso, o 
moralismo. Há muita gente que está mais preocupada com os componentes do 
comportamento humano, da moral, do que com a própria doença, e, portanto, 
revelam uma imensa incapacidade de percebê-la e de tratá-la como doença. O 
moralismo e a repressão levam a dois subprodutos extremamente complicados e 
danosos a qualquer sociedade humana, que é a criminalização de um fenômeno 
e a marginalização das pessoas que são afetadas por uma doença. Finalmente, 
98
unidAdE V │ iMunodEfiCiênCiAS
o lado perverso da questão da morte é que o simples enunciado de que a 
SIDA provoca a morte, nos faz esquecer primeiro de que somos todos mortais 
e depois leva a que o trato com o fenômeno provoque de imediato o pânico. 
O pânico é tudo, menos um enfrentamento racional de qualquer situação que 
seja. Então queria colocar estas dimensões, porque acho que os cientistas, os 
homens que tratam da questão da saúde pública, os políticos, os sociólogos, 
os economistas,enfim, todos aqueles que estão envolvidos, de uma forma ou 
de outra nessa questão, não podem ignorar as três dimensões, mesmo quando 
falam simplesmente, como fez o Dr. Gelli, do DNA. Na verdade é um DNA muito 
complicado, este que nós estamos analisando. Essas eram as questões que 
eu queria colocar. Feito isso, teríamos que definir, ao lado de uma política de 
saúde pública, uma posição, uma postura ética, científica e política em relação 
à questão da SIDA. Positivamente, creio que teríamos de fazer todo esforço 
para tratar a SIDA por aquilo que ela é, isto é, uma doença; uma doença que, 
sendo uma ameaça à humanidade, deve exigir da sociedade uma mobilização 
global de recursos. Os estados que são capazes de gastar bilhões de dólares com 
armamentos deveriam dedicar pelo menos 10% (dez por cento) dos gastos com 
armamentos para curar a SIDA, destinar recursos à pesquisa científica, que é o 
que a SIDA necessita. Outra coisa, e aí eu gostei muito da colocação do Gelli, 
em uma coisa muito particular, é que a transmissão pelo componente sangue, 
pela transfusão, é extremamente relevante na difusão da SIDA. Este é um campo 
onde o Estado e a sociedade podem fazer muito, se devidamente mobilizados 
e se forem aplicadas políticas realmente sérias no campo da saúde pública. 
Termino com esse ponto porque é exatamente o que interessa aos hemofílicos, 
porque o hemofílico é, e principalmente a criança hemofílica, um ser que vive 
na medida em que tem a cobertura das transfusões. É impensável, hoje em dia, 
um hemofílico sem transfusões. Portanto, para esse grupo de risco chamado 
hemofílico, a questão da transfusão é absolutamente crucial. Desde que a minha 
preocupação com a SIDA começou, eu não tomei nenhuma transfusão. Não é 
fácil tomar uma transfusão depois que o fenômeno assumiu a dimensão que está 
aí. Essas eram as reflexões que queria fazer. Para mim também foi uma satisfação 
muito grande poder estar em uma casa reaberta, arejada como esta, que está 
tratando de trazer de novo aqueles cientistas exilados que saíram deste país. 
Só me dá alegria poder estar aqui tentando aprender e comunicar um pouco 
daquilo que sinto mais do que sei em relação a este problema. Muito obrigado.
Artigo completo e referências citadas podem ser encontrados no endereço eletrônico.
Disponível em: . 
Acessado em: 1 out. 2014.
99
Para (não) finalizar
Durante nosso estudo pudemos observar a importância do sistema imunológico no 
combate aos diversos tipos de agentes patogênicos a que somos expostos diariamente. 
O texto abaixo resume de forma clara as ações das defesas do nosso organismo.
Sistema imunológico: os defensores
Milhões de células vivem para matar qualquer invasor que ameace a 
saúde do ser humano. Em caso de perigo iminente, esse exército se 
lança a uma guerra sem quartel, em que ninguém faz prisioneiros. O 
nome dessa tropa de elite é sistema imunológico
Por Lúcia Helena de Oliveira
Um leve corte no dedo, tão superfi cial que mal assustaria uma criança. Indigno de 
merecer mais do que um “ai” ou, quem sabe, um palavrão. Afi nal, ninguém morre por 
causa de um corte no dedo – pelo menos em 99,9 por cento dos casos. Não que um 
corte não possa matar, se mais não mata é graças a uma tropa de elite, em permanente 
prontidão para ir à luta pela vida. É uma guerra secreta: enquanto uma dorzinha no 
lugar é praticamente tudo o que a pessoa retém do acidente, dentro do organismo reina 
grande agitação e todas as atenções se voltam para a vizinhança do pequeno corte; ali a 
batalha poderá começar a qualquer momento. A tropa de elite – o sistema imunológico 
– está preparada para o que der e vier.
A mesma dor que avisa a pessoa que ela se machucou fez soar outro alarme, destinado 
às células de defesa. Dai começou o corre-corre. A circulação sanguínea transporta 
rapidamente batalhões inteiros dessas células ao local atingido, onde passam a ocupar 
posições estratégicas, entrincheiradas entre os tecidos. Toda a movimentação é apenas 
uma medida de segurança. Pode ser que o pequeno corte seja apenas um machucado 
sem consequências e que as células de defesa logo possam se dispersar sem ter disparado 
um tiro. Aliás, essa tropa é tão precavida que pega em armas diante de qualquer ameaça: 
por menor que seja uma lesão física, desencadeia o alerta. Até mesmo quando se leva 
um tapa, o sistema imunológico fi ca a postos.
As células de defesa já estão se dispersando quando soa de novo o alarme – na verdade, 
trata-se da liberação das substâncias químicas produzidas pela pele ferida e também 
pelos invasores. Isso porque até um pequeno arranhão abre uma grande brecha para a 
100
Para (Não) FiNalizar
ação de micróbios solertes, toxinas perversas, partículas exóticas. Ao segundo alarme, 
os soldados da infantaria – que os cientistas chamam granulócitos – se lançam à 
batalha, sem perda de tempo, valendo-se do alto grau de preparo que os tornam ágeis 
e dinâmicos. Muitos deles vão tombar em combate. Junto com os restos mortais do 
inimigo derrotado, formarão o pus que aparece nas feridas.
Então se aproxima a artilharia dos macrófagos, células mais fortes, cujos canhonaços 
pulverizam não só os invasores, vivos ou mortos, como os próprios granulócitos eliminados 
no começo da batalha. Tamanha é a quantidade de macrófagos, comprimidos nos espaços 
entre as células, que são uma das causas do inchaço no local machucado. Granulócitos 
e macrófagos usam armas fabricadas há muito tempo, tanto que foram encontradas 
nos arsenais de espécies primitivas, como as esponjas. Graças a esse material bélico de 
comprovada eficiência, as enzimas existentes em seu interior, eles engolem, trituram e 
digerem os inimigos. Outras enzimas, produzidas por diversos órgãos, como o estômago, 
podem ajudar, perfurando a membrana de micróbios e parasitas feito balas de canhão.
Chamadas de fagocitárias, essas células reconhecem os invasores (conhecidos antígenos) 
por meio das substâncias químicas que Ihes são comuns. Não é difícil a identificação, tais 
substâncias inexistem no organismo. Ou seja, o uniforme do inimigo é inconfundível. 
Certas bactérias, como as pneumococci da pneumonia, ao longo da evolução aprenderam, 
porém, a se camuflar e a passar despercebidas. Contra isso os vertebrados inventaram há 
400 milhões de anos uma resposta formidável, as células linfócitos B. Assim que uma 
bactéria da pneumonia tenta invadir o corpo pelo pequeno corte, os linfócitos B disparam 
seus mísseis teleguiados que se encaixam na molécula da bactéria, ou de qualquer outro 
invasor infeccioso, bloqueando-a para que não contamine outras células do organismo.
Essas proteínas são os tão falados anticorpos. Sua função principal, porém, é típica dos 
serviços de contraespionagem: desmarcar os inimigos camuflados. A técnica funciona 
às mil maravilhas. Ao combinar-se com o odiado antígeno, o anticorpo chama a atenção 
do macrófago para a presença do estranho. O inimigo, então, fica encurralado. “Além 
de tornar o antígeno reconhecível, os anticorpos ajudam os macrófagos a ingeri-los”, 
explica o professor de Imunologia Momtchillo Russo, da USP.
Os linfócitos B, em geral, são os soldados mais especializados do exército de defesa. Nas 
aves, são treinados para o ataque na Bursa de Fabricius (daí a letra B), que fica na cloaca, 
a ponta do canal intestinal. Já no homem, que não tem bursa, essas células nascidas na 
medula óssea são treinadas em tecidos como os do baço, intestino, amídalas, fígado. 
Dali vão navegar na corrente sanguínea, prontas para a luta, onde quer que se localize 
o teatro de operações. Se todas as células da pele humana são idênticas, o mesmo não 
acontece com os linfócitos B. Faz sentido: afinal, precisam especializar-se na produção 
101
Para (Não) FiNalizar
de anticorpos de tamanhos e formatos diversos, para se encaixar como peças de quebra-
cabeça em uma infinidade de inimigos. Calcula-se que entre o trilhãode linfócitos B do 
organismo, haja cerca de 1 milhão de tipos diferentes.
No curso de uma infecção, algumas células B adquirem o que os cientistas chamam 
memória: a propriedade que Ihes permite estudar detalhadamente as táticas do invasor, 
de maneira que, se ele infectar o corpo uma segunda vez, haverá células B especializadas 
no seu combate e capazes de agir mais rapidamente do que no ataque anterior. Quando 
um linfócito B se encontra, porém, face a face com o seu antígeno, não se põe a disparar 
anticorpos imediatamente, como um amador. Espera a ordem de atacar dada por uma 
substância, a interleucina enviada pela célula T auxiliar. A T auxiliar é um dos três tipos 
de células que rumam da medula óssea para o timo (daí a letra T), uma glândula atrás 
das costelas, na altura do coração. Sua função é controlar todo o sistema imunológico.
Como não produz anticorpos, embora seja especializada em um único invasor, não se 
sabe até hoje quais são seus receptores, isto é, como ela encaixa e percebe o inimigo, 
ativando a partir dai tanto as células B como os macrófagos. Além das interleucinas, a T 
auxiliar tem uma segunda arma: a interferona, que funciona como um gás paralisante 
nas células infectadas e dificulta a propagação do antígeno.
Quem nasce sem timo não sobrevir, por falta de células T para organizar suas defesas. 
Quando tais células são destruídas pelo vírus da AIDS, por exemplo, o mesmo 
acontece. Não seria então o caso de simplesmente injetar interleucina no organismo 
dos pacientes para suprir a produção natural prejudicada? A resposta infelizmente é 
negativa. “Lançada na circulação, a interleucina ativaria todo o sistema imunológico em 
vez de estimular apenas o lifócito B necessário”, esclarece o professor Russo, da USP. 
“O sistema muito ativado é tão nefasto quanto o deficiente, causando febres, dores, 
coagulação do sangue. Enfim, pode levar à morte”.
Quem corrige os lamentáveis, mas nem sempre evitáveis excessos da repressão e ao 
mesmo tempo dá a ordem para o recuo é um segundo tipo de célula T, a supressora. 
Ela envia uma substância que inibe a ação da célula T auxiliar e, por tabela, de todas as 
outras células. Na verdade, cientistas desconhecem como essas duas células, a auxiliar 
e a supressora, mantêm o equilíbrio do sistema imunológico. Como será que sabem 
quando é hora de parar? Essa é a grande questão que a Imunologia busca responder. 
O terceiro e último tipo de célula T, ao contrário de suas irmãs, não dá ordens – nem 
por isso é menos importante. Trata-se da célula citotóxica, uma espécie de assassino 
profissional. Daí a sua alcunha em inglês: killer, assassina. Enquanto as demais células 
do sistema reconhecem apenas os antígenos (substâncias estranhas), a killer perscruta 
os tecidos do próprio organismo, os quais vive espionando: se estiver faltando algo, 
102
Para (Não) FiNalizar
como nas células cancerosas que degeneram, ou se houver algo a mais, como nas 
células infectadas que retiveram em suas membranas partículas de um vírus invasor, 
ela se ativará. Então, aproxima-se da célula doente e, como se Ihe desse o beijo da 
morte, transmite-lhe uma substância tóxica destruidora. Se a killer destrói as células 
defeituosas, por que então se morre de câncer? Quando se tem trilhões de células como 
no organismo humano é normal que no decorrer da vida certo número delas comece 
a apresentar defeitos. Portanto, a pergunta correta deveria ser: por que se pode viver 
sem câncer? E a resposta é: graças ao controle exercido pela killer. O problema aparece 
quando ela se ausenta – como na AIDS, em que o doente logo padece de tipos raros da 
enfermidade, ou quando já não existem killers em número suficiente, como em pessoas 
idosas. “Com o passar dos anos, o sistema imunológico se enfraquece”, esclarece o 
imunologista Antonio Lauro Coscina, do Hospital Albert Einstein.
Apesar das vastas zonas de sombra que ainda desafiam os imunologistas, avanços 
importantes têm ocorrido. Nos Estados Unidos, pesquisadores conseguiram isolar em 
laboratório as interleucinas específicas para ativar as células T que combatem determinado 
tipo de câncer. Também se descobriu que, em alguns casos, quando a célula cancerosa é 
contaminada por bactérias, as células killer vão ao ataque mais rapidamente. Por isso, os 
cientistas estão inoculando essas bactérias em tumores de pele, com resultados positivos. 
Sem dúvida, porém, uma das descobertas mais significativas foi a dos anticorpos 
monoclonais, no início dos anos de 1980: são anticorpos específicos, desenvolvidos em 
laboratório, marcados com substâncias radioativas.
Eles não só identificam células cancerosas, mas também o tipo de câncer, permitindo 
o diagnóstico precoce da doença. Às vezes, ao invés de estimular o sistema de defesa, a 
ciência deve colocar-lhe freios. É o que ocorre nas doenças autoimunes, quando algo faz 
com que as células de defesa passem a tratar as células do próprio corpo como inimigas. 
Suspeita-se que algumas doenças, como úlceras estomacais e intestinais, artrite 
reumatoide, problemas de tireoide e esclerose múltipla, sejam autoimunes. O conceito 
existe desde a década de 1950, mas até hoje pouco se sabe sobre os seus mecanismos. 
Há três hipóteses que não se excluem necessariamente: 
1. As doenças autoimunes são provocadas em tecidos de cuja existência o 
sistema de defesa não teve conhecimento prévio e por isso não estaria 
capacitado a reconhecer. Há casos de esterilidade masculina produzida 
por anticorpos que aniquilam os espermatozoides.
2. Determinada infecção poderia alterar a aparência das membranas 
celulares de um órgão qualquer, tornando suas células estranhas para o 
sistema de defesa.
103
Para (Não) FiNalizar
3. Desequilíbrio nas funções das células T supressoras e auxiliares que 
controlam o sistema inteiro. Cientistas americanos, que testaram o sangue 
de portadores de doenças autoimunes, constataram que nele havia menos 
células T supressoras do que normal.
Atualmente, essas doenças têm sido tratadas com drogas chamadas imunossupressoras 
que inibem o sistema imunológico. São os mesmos medicamentos usados em casos de 
transplante, para evitar a rejeição do órgão. Mas evidentemente essas drogas têm a 
grande desvantagem de diminuir a eficiência do sistema como um todo. As pesquisas 
mais recentes voltam-se para a produção de anticorpos, ou seja, anticorpos que anulem 
os anticorpos fabricados pelo organismo contra si próprio. O professor Coscina acredita 
que no futuro a solução será ainda melhor: “A Imunologia daqui a alguns anos será 
a Imunogenética”, diz. “Manipulando os genes se poderá ter sistemas de defesa mais 
eficientes e sanar os problemas das doenças autoimunes.”
Fonte:. Acessado em: 1 out. 2014.
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referências
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imunológico. Tradução da 2a edição. Rio de Janeiro. Elsevier Editora Ltda, 354p., 2007.
ABBAS, A. K; LICHTMAN, A. H.; PILLAI, S. Imunologia celular e molecular. 6a 
edição. Rio de Janeiro. Elsevier Editora Ltda, 562 p., 2007.
CASTRO, B. G.; PEREIRA, G.; SOUZA, H. de. AIDS: o que fazer? Cadernos de saúde 
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FONSECA, Sylvia Maria Dantas et al. Avaliação do estado imune de mulheres 
em idade reprodutiva em relação ao vírus da rubéola. Rev. Bras. Ginecol. 
Obstet., vol.21, no 5, p.261-266, Jun 1999.
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SEIxAS, Ana Maria; SORRIA-COSTALES; TANIA, A.; et al. Síndrome de Chediak-
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dez.1999.
SILVA, W.D.; MOTA, I. Bier Imunologia básica e aplicada. Rio de Janeiro: 
Guanabara Koogan, 2003.principal (MHC).
Células natural killer (nK)
As células natural killer (NK) ou matadoras naturais, não apresentam receptores 
antígenos específicos como os linfócitos T e B, fazendo parte do sistema imune inato, 
porém apresentam funções efetoras semelhantes às das células T citotóxicas.
Do ponto de vista morfológico, as células NK são maiores do que os linfócitos T e B e 
possuem citoplasma granular. Em sua superfície apresentam os marcadores celulares 
CD16 e CD56. Essas células correspondem a cerca de 10 a 20% dos linfócitos circulantes.
Sua ação citotóxica principal ocorre contra células infectadas por vírus e células 
tumorais, agindo por intermédio de secreção de citocinas, perforinas e granzimas para 
levar a apoptose.
As células NK possuem um receptor conhecido como killer immunoglobulin-like 
receptor, ou KIR. Este receptor é responsável por fazer uma espécie de reconhecimento 
das moléculas de MHC de classe I das células, ou seja, as células NK reconhecem as 
células que estão infectadas pela ausência ou presença das moléculas de MHC de classe 
I em sua superfície.
13
IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I
Esse mecanismo é importante devido ao fato de que células infectadas por vírus ou 
células tumorais em geral apresentam diminuição ou ausência da expressão do MHC, 
dessa forma as NK tem a capacidade de reconhecer as células anormais e destruí-las.
Para se tornarem ativadas, as células NK dependem não só do reconhecimento de 
células que expressam pouco ou nenhum MHC, como também precisam reconhecer 
ligantes para receptores de ativação, que servem como segundo sinal para se tornarem 
citotóxicas. Sabe-se que quando ocorre a expressão exagerada desses ligantes na célula 
alvo, a célula NK também tornasse ativada. 
Resumidamente, a ação das células NK depende da concentração apropriada e específica 
das moléculas de MHC na superfície das células alvo, além do equilíbrio entre sinais 
ativadores e inibitórios mediados por receptores nas células NK.
As células normais do organismo, que apresentam concentrações normais de MHC 
em sua superfície, são reconhecidas pelas células NK que geram um sinal inibidor, 
impedindo a destruição das mesmas.
Para as crianças, a imunidade inata e as células NK são de grande importância, 
pois muitas doenças são combatidas por meio dessas células enquanto a imunidade 
adaptativa ainda não está totalmente desenvolvida.
Além de destruir células infectadas por vírus, as células NK contribuem para a defesa 
antiviral pela secreção de várias citocinas, incluindo o IFN-I. Os Pacientes com ausência 
de células NK sofrem infecções virais persistentes. Principalmente pelos herpes vírus.
figura 2. Ação da célula NK com relação à presença ou ausência de HlA na célula alvo.
fonte: figura adaptada de Jobim, M e Jobim, .f.J (2008, p. S60).
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UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS
imunidade adaptativa
A resposta imune adaptativa é altamente específica e se desenvolve ao longo do tempo de 
acordo com as diferentes exposições a agentes agressores durante a vida do indivíduo, 
gerando a chamada memória imunológica. 
A imunidade adaptativa contra as infecções virais é mediada por anticorpos produzidos 
pelas células B, que bloqueiam a ligação do vírus aos receptores celulares impedindo 
sua entrada, e por células T citotóxicas, que destroem as células infectadas.
imunidade adaptativa mediada por células B
Os linfócitos B são uma população de células que expressam em sua superfície 
celular os receptores de antígeno das células B (BCR), que são os anticorpos ligados a 
membrana que serão secretados quando a célula for ativada, também conhecidos como 
imunoglobulinas de membrana. As imunoglobulinas são uma classe de substâncias que 
compreendem os anticorpos. 
A secreção e ligação de anticorpos a antígenos são formas de sinalizar outras células 
para que estas realizem a fagocitose, processamento ou remoção da substância ligada.
Quando os linfócitos B são ativados pelo antígeno específico, eles proliferam e se 
diferenciam em plasmócitos que são as células secretoras de anticorpos. Sua principal 
função é secretar anticorpos no sangue e em outros líquidos orgânicos, efetuando assim 
a imunidade humoral. Cada célula B produz um tipo específico de anticorpo capaz de 
se ligar a um tipo de proteína.
As células B reconhecem os seguintes antígenos na forma solúvel:
 » Proteínas.
 » Ácidos nucléicos.
 » Polissacarídeos.
 » Alguns antígenos lipídios.
 » Pequenos agentes químicos (haptenos).
O reconhecimento do antígeno pelo BCR é baseado na complementariedade entre a 
região de ligação do receptor e o epítopo do antígeno. Enquanto os anticorpos possuem 
um único tipo de receptor, os antígenos podem ter múltiplos epítopos, assim, um único 
antígeno pode ser reconhecido por diferentes moléculas de anticorpo.
15
IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I
De acordo com as diferenças nas sequências de aminoácidos na região constante das 
cadeias pesadas, as imunoglobulinas podem ser divididas em cinco classes diferentes:
1. IgG – Cadeias pesadas gama.
2. IgM – Cadeias pesadas mu.
3. IgA – Cadeias pesadas alfa.
4. IgD – Cadeias pesadas delta.
5. IgE – Cadeias pesadas épsilon.
Os linfócitos B que são ativados, mas não se diferenciam em plasmócitos, constituem 
as células B de memória, que são capazes de responder rapidamente a uma segunda 
infecção e produzem anticorpos que se ligam ao antígeno com maior afinidade do que 
os anticorpos produzidos nas respostas imunes primárias.
Os vírus possuem fases extracelulares durante o curso da infecção. Essas fases ocorrem 
no início da infecção, antes de infectar a célula, e quando as partículas virais são 
liberadas da célula após a replicação, por brotamento ou lise celular. É exatamente 
nessas fases extracelulares que os anticorpos tem sua efetiva ação contra estes 
agentes patogênicos.
Os anticorpos antivirais específicos podem prevenir tanto a infecção inicial quanto a 
propagação das partículas infecciosas para outras células.
A imunidade humoral é extremamente importante para a defesa contra as infecções 
virais, pois a resistência a um determinado tipo de vírus, que pode ser induzida 
tanto pela infecção natural quanto por vacinação, é geralmente específica para o tipo 
sorológico do vírus (que é definido pelo anticorpo que atua contra ele).
É importante lembrar que uma vez que os vírus estejam dentro da célula, os anticorpos 
não tem mais capacidade de ação sobre eles, portanto, a imunidade humoral sozinha 
não é capaz de extinguir uma infecção viral.
As principais atividades antivirais dos anticorpos são:
 » Neutralização: a neutralização é o mecanismo mais direto de ação dos 
anticorpos contra vírus. Os anticorpos se ligam às partículas virais e 
impedem sua ligação aos receptores celulares. A neutralização pode 
ocorrer por imunoglobulinas das classes IgA, presente nas mucosas e em 
secreções, ou por IgM e IgG, presentes no plasma sanguíneo.
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UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS
 » Aglutinação: as IgM e IgG têm a capacidade de aglutinar partículas 
virais, facilitando a remoção mediada pelo sistema complemento e por 
células fagocítica.
 » Opsonização: as moléculas IgM e IgG possuem a capacidade de revestir 
as partículas virais facilitando a ligação e remoção das partículas pelas 
células fagocíticas.
imunidade adaptativa mediada por células t
Os linfócitos T são os mediadores da imunidade celular, seus precursores têm origem na 
medula óssea e posteriormente migram até o timo. Quando chegam ao timo, as células 
precursoras proliferam e diferenciam-se originando linfócitos T jovens e posteriormente 
os linfócitos T maduros. 
Os dois tipos principais de células T são as células T CD4+ auxiliares (helper- Th) e 
as células T CD8+ citotóxicas. Existe ainda um terceiro tipo de células T chamado de 
células T CD4+ reguladoras.
Essas células expressam em sua superfície os receptores de antígeno das células T 
(TCR), que compõe uma classe de proteínasde membrana relacionadas evolutivamente 
às imunoglobulinas, porém muito diferentes em relação à estrutura e propriedades de 
reconhecimento. Esses receptores estão adaptados para reconhecer apenas peptídeos 
associados ao MHC, portanto não são capazes de reconhecer antígenos solúveis.
Os linfócitos T CD4+ reconhecem antígenos associados ao MHC de classe II. Uma das 
respostas primordiais dessas células é a secreção da citocina denominada interleucina 
2 (IL-2). Essa citocina atua sobre os linfócitos ativados por antígenos, estimulando a 
expansão clonal. 
A ativação dessas células faz com que elas saiam dos órgãos linfoides onde foram geradas 
e migrem para o local da infecção, essas células ativadas e quando expostas novamente 
ao antígeno passam a iniciar as funções que levam a eliminação do micro-organismo.
Os linfócitos T CD8+ citotóxicos reconhecem antígenos associados ao MHC de classe I. 
Essas células possuem grânulos citoplasmáticos contendo enzimas que causam a morte 
das células que contêm micro-organismos em seu citoplasma ou células tumorais. 
Em geral as células reconhecidas pelo linfócito T citotóxico podem estar infectadas por 
vírus, bactérias intracelulares, ou bactérias ingeridas pelos macrófagos que conseguem 
escapar do fagosomo.
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IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I
Pouco tempo depois que ocorre o reconhecimento da célula alvo pelo linfócito T 
citotóxico, a célula alvo começa a sofrer um processo de apoptose ou morte celular 
programada, induzida pelo linfócito T CD8+.
Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia 
Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.21 no 5 Rio de Janeiro June 1999.
Avaliação do estado imune de mulheres em 
idade reprodutiva em relação ao vírus 
da rubéola
Sylvia Maria Dantas Fonseca, Valéria Cristina Ribeiro Dantas, 
Marianna Toscano Dantas, José Veríssimo Fernandes
resumo
Objetivo: avaliar o estado imune de mulheres em idade reprodutiva, em relação 
ao vírus da rubéola. 
Métodos: foram analisadas alíquotas de soros de 2.243 mulheres na faixa etária 
dos 15 aos 45 anos (média de 26 anos), residentes na área urbana de Natal, 
RN, para avaliação do estado imune em relação ao vírus da rubéola. Do total 
das mulheres examinadas, 1.170 (52,1%) eram gestantes e 1.073 (47,9%) não 
gestantes. Foi pesquisada a presença de anticorpos das classes IgM e IgG no 
soro de todas as pacientes, empregando-se a técnica de ELISA em fase sólida, 
revelada mediante fluorescência (ELFA).
Resultados:  do total das pacientes analisadas, 1.632 se apresentaram imunes 
e 611 se mostraram suscetíveis ao vírus da rubéola. Os índices médios de 
imunidade e de suscetibilidade observados nos 4 anos estudados foram 73,0 e 
27,0% respectivamente. No grupo das mulheres consideradas suscetíveis, 14,5% 
não apresentaram qualquer sinal da presença de anticorpos contra o vírus da 
rubéola, 7,7% apresentaram anticorpos da classe IgM isoladamente e em 4,8% 
delas foi detectada a presença simultânea de anticorpos IgM e IgG.
Conclusão:  os achados revelaram que uma parcela significativa da população 
feminina de Natal, em idade reprodutiva, ainda se encontra suscetível ao vírus 
da rubéola, revelando a existência real de risco de infecção congênita por esse 
patógeno. Recomenda-se a vacinação seletiva dessas mulheres contra a rubéola, 
como forma segura de prevenir as manifestações relacionadas à síndrome de 
rubéola congênita.
PALAVRAS-CHAVE: Rubéola. Gravidez normal. Pré-natal. Vacinação.
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UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS
introdução
A rubéola é uma doença viral, exantemática aguda, autolimitada, de evolução 
benigna, que atinge preferencialmente crianças e adultos jovens, ocorrendo 
muitas vezes na forma assintomática. O vírus da rubéola infecta exclusivamente 
a espécie humana, de forma que a manutenção desse patógeno na natureza 
depende da existência, na comunidade, de indivíduos suscetíveis. Em 
comunidades urbanas, a rubéola apresenta caráter endêmico, ocorrendo, 
entretanto, surtos epidêmicos a intervalos mais ou menos regulares. Pouco se 
sabe sobre o comportamento dessa enfermidade nas comunidades rurais e em 
populações isoladas.
Uma extensa epidemia de rubéola foi registrada nos Estados Unidos, em 1964 
e 1965, com a ocorrência de 1.800.000 casos da doença, dos quais 250.000 em 
mulheres grávidas, ocasionando dezenas de milhares de natimortos e de crianças 
nascidas a termo, mas apresentando anomalias conhecidas como síndrome 
de rubéola congênita (SRC). Outras epidemias dessa virose foram registradas 
em diversas partes do mundo, conforme descrito por Cutts et al., com índices 
variáveis de manifestações de SRC. Em Singapura em 1986, o índice encontrado 
foi de 1,5 por 1000 crianças nascidas vivas, em Israel, 1972, esse índice foi de 1,7, 
no Panamá, 1986, 2,2 e no Sri Lanka, 1994, 0,9.
Do ponto de vista patológico, a rubéola teria pouca importância, não fosse a 
possibilidade de ocorrência da infecção congênita, decorrente da infecção 
materna durante os três primeiros meses de gestação tendo em vista a ação 
teratogênica do vírus. Na infecção congênita, pode haver a invasão do complexo 
placenta-feto pelo vírus, com disseminação pelos tecidos embrionários, 
podendo resultar no aborto espontâneo ou no nascimento a termo de crianças 
apresentando manifestações relacionadas à SRC.
A ação teratogênica do vírus da rubéola sobre o organismo do feto se faz 
por meio de dois mecanismos: a infecção crônica, que pode se prolongar por 
vários meses após o nascimento, e a inibição da atividade mitótica das células 
embrionárias, afetando o crescimento e a diferenciação celular, podendo resultar 
na ausência completa de órgãos ou na formação defeituosa destes. A infecção 
do feto durante o primeiro trimestre da gestação aumenta em 50% o risco de 
ocorrência de aborto espontâneo e causa um percentual ainda mais elevado de 
anomalias relacionadas com a SRC.
As manifestações da SRC podem ser transitórias, tais como: hepato-
esplenomegalia, púrpura trombocitopênica e icterícia, ou permanentes, entre 
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IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I
estas catarata, surdez sensorial, anormalidades cardiovasculares, displasia da 
retina, coriorretinite, microcefalia, lesão cerebral e retardo mental, ou ainda 
manifestações tardias como é o caso da diabetes mellitus.
O risco absoluto da ocorrência de SRC varia amplamente em diferentes estudos, 
provavelmente em função da idade em que as crianças são examinadas, tendo 
em vista que algumas das sequelas são transitórias, desaparecendo após algum 
tempo ao passo que outras só aparecem tardiamente. Estudando 269 crianças 
nascidas de mães que foram infectadas pelo vírus da rubéola durante a gestação, 
Miller et al., demonstraram que o risco de infecção congênita foi de 81%, com 
ocorrência de malformações em 69% do casos, quando a infecção materna se 
deu no primeiro trimestre da gestação.
Em um estudo desenvolvido por Cutts et al.  no qual se avaliou o grau 
de suscetibilidade de mulheres em idade reprodutiva, em 45 países em 
desenvolvimento, demonstrou-se que em 13 desses países a proporção de 
mulheres suscetíveis foi menor que 10%, mas em 20 deles esse índice variou 
de 10 a 24% e nos outros 12 países o índice de suscetibilidade foi maior ou 
igual a 25%.
Halstead et al. em um estudo epidemiológico realizado no Havaí, envolvendo 
adolescentes e adultos, demonstraram que a porcentagem de indivíduos 
suscetíveis à rubéola naquele estado americano variou de 25 a 50% da população 
examinada. No Brasil, vários estudos baseados na pesquisa de anticorpos em 
gestantes ou mulheres em idade reprodutiva, realizados em diversas regiões do 
país, mostram que pelo menos 20% das mulheres dessa faixa etária ainda são 
suscetíveis à rubéola.
O presente trabalho teve como objetivo investigar o grau de suscetibilidade 
ao vírus da rubéola, de um grupo de mulheres em idade reprodutiva, que 
procuraram o nosso serviço no período de 1994 a 1997para verificar o seu 
estado imune em relação a essa enfermidade, tendo em vista a suspeita 
clínica da infecção por esse vírus. Esse tipo de abordagem se reveste da maior 
relevância, não apenas pelo fato de permitir esclarecer o estado imune das 
pacientes, mas principalmente por revelar a proporção de mulheres em 
idade fértil que ainda se encontram suscetíveis ao vírus da rubéola. Essa 
informação permite orientar os órgãos encarregados da saúde pública, na 
definição de possíveis campanhas de vacinação contra a rubéola, visando 
à prevenção da infecção congênita e consequentemente dos seus efeitos 
tão indesejáveis.
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UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS
Pacientes e Métodos
Casuística
Foram analisadas alíquotas de soros de um grupo de 2.243 mulheres, das quais 
1.170 eram gestantes e 1.073 não gestantes. Todas estavam na faixa etária de 
15 a 45 anos com média de idade de 26 anos e eram residentes na área urbana 
da cidade de Natal (RN). Essas pacientes foram encaminhadas ao Centro de 
Patologia Clínica, no período compreendido entre janeiro de 1994 a dezembro 
de 1997, para avaliação do seu estado imune em relação ao vírus da rubéola, 
tendo em vista a existência de suspeita clínica da infecção por esse patógeno.
Antes da coleta de sangue para a obtenção do soro, foi solicitado a todas as 
mulheres que concordaram em participar do estudo, que respondessem a um 
inquérito epidemiológico, realizado por meio de um questionário padronizado, 
a partir do qual foram obtidas informações tais como: idade, estado de gravidez 
ou não, história pregressa de rubéola ou de doença exantemática, contato 
com indivíduos portadores da doença, vacinação contra essa enfermidade e 
dados clínicos.
Análise laboratorial
De cada paciente foi obtida uma única amostra de soro, na qual foi pesquisada, 
em reações separadas, a presença de anticorpos das classes IgM e IgG, específicos 
para o vírus da rubéola. O método empregado foi o ensaio imunoenzimático 
(ELISA) em fase sólida, com leitura final por meio de fluorescência utilizando 
a técnica denominada Enzyme Linked Fluorescent Assay (ELFA), realizada 
utilizando o sistema Vidas-Rub, da Bio Mérieux. Trata-se de um ensaio 
quantitativo, automatizado, em que a leitura da reação é feita pela quantificação 
da fluorescência emitida, utilizando-se filtro de 450 nm. A intensidade de 
fluorescência emitida é proporcional à quantidade de anticorpos presentes na 
amostra de soro pesquisada. A concentração de anticorpos da classe IgM na 
amostra é expressa na forma de índice de sinalização de fluorescência, ao passo 
que a concentração de anticorpos da classe IgG é expressa na forma de unidades 
internacionais por mililitro.
Foram consideradas negativas, para anticorpos da classe IgM, as pacientes 
cujos soros apresentaram índices de sinalização de fluorescência menores que 
0,8, e positivas aquelas em que esses índices foram iguais ou superiores a 1,2. 
Com relação aos anticorpos da classe IgG, foram consideradas negativas as 
pacientes cujos soros apresentaram menos de 10 UI/ml, e positivas aquelas que 
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IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I
apresentaram valores de leitura iguais ou superiores a 15 UI/ml. Para efeito de 
interpretação dos resultados obtidos, foram consideradas suscetíveis ao vírus da 
rubéola, dentro da sua faixa etária, todas as mulheres que não apresentaram 
qualquer sinal da presença de anticorpos para o vírus da rubéola e aquelas nas 
quais foi detectada a presença de anticorpos da classe IgM, seja isoladamente ou 
em associação com anticorpos da classe IgG.
resultados
Foram examinadas alíquotas de soro de 313 mulheres durante o ano de 1994, 521 
em 1995, 703 em 1996 e 706 em 1997, perfazendo um total de 2.243 pacientes 
pesquisadas. Desse total, 1.170 mulheres, o equivalente a 52,1% da amostra, 
eram gestantes e 1.073 (47,9%) não gestantes. No grupo das mulheres gestantes, 
252 (11,2%) se mostraram suscetíveis e 918 (40,9%) se apresentaram imunes ao 
vírus da rubéola. As porcentagens de suscetibilidade à doença nesse grupo, nos 
4 anos pesquisados, variaram de 10,8 a 11,5%, apresentando um índice médio 
de suscetibilidade de 11,2%, ao passo que as porcentagens de mulheres imunes 
desse mesmo grupo variaram de 39,8 a 42,4%, sendo que o índice médio de 
imunidade encontrado nos 4 anos pesquisados foi de 41,0% do total da amostra.
No grupo das mulheres não gestantes, 359 (16,0%) se apresentaram suscetíveis 
e 714 (31,8%) se mostraram imunes ao vírus da rubéola. As porcentagens de 
susceptibilidade à doença nesse grupo variaram de 14,4 a 17,9%, nos 4 anos 
pesquisados, apresentando um índice médio de susceptibilidade de 15,8% do 
total das pacientes examinadas, ao passo que as porcentagens de mulheres 
imunes ao vírus, nesse mesmo grupo, variaram de 30,9 a 33,2%. O índice médio 
de imunidade encontrado foi de 32,0% do total da amostra (Tabela 1).
Tabela 1. Estado imune de mulheres em idade reprodutiva, gestante e não gestantes, em 
relação ao virús da rubéola.
Constatou-se que, no geral, isto é, sem separar as mulheres gestantes das não 
gestantes, um total de 339 pacientes, o que representa 15,1% da amostra, 
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UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS
não apresentaram qualquer sinal da presença de anticorpos dirigidos contra 
o vírus da rubéola. As porcentagens de mulheres nessa condição, no decorrer 
dos 4 anos estudados, variaram de 12,1 a 18,8%, com média de 14,5% do total 
de pacientes examinadas. Observou-se ainda que 158 pacientes, equivalente 
a 7,0% da amostra, apresentaram anticorpos da classe IgM isoladamente. As 
porcentagens de mulheres nessa condição variaram de 3,5 a 11,2%. Além disso, 
em 114 mulheres (5,1%) foi detectada a presença simultânea de anticorpos das 
classes IgM e IgG. As porcentagens de pacientes nessa condição variaram de 2,2 a 
6,7%, no período estudado, com média de 4,8% do total da amostra pesquisada.
Quando se consideraram apenas as condições de imunidade ou de susceptibilidade 
ao vírus da rubéola, sem especificar o tipo de resposta apresentada pelas pacientes, 
observou-se que no grupo das mulheres classificadas como suscetíveis ao vírus 
da rubéola, num total de 611 pacientes, o equivalente a 27,2% da amostra, as 
porcentagens de susceptibilidade a esse patógeno variaram de 25,6 a 29,3%, nos 
4 anos estudados, apresentando um índice médio de susceptibilidade de 27,0% 
do total de mulheres pesquisadas. No grupo das mulheres classificadas como 
imunes ao vírus da rubéola, isto é, aquelas que apresentaram somente anticorpos 
da classe IgG, num total de 1.632 pacientes, o que representa 72,8% da amostra, 
observou-se que as porcentagens de mulheres nessa condição variaram de 70,7 
a 74,4%, nos 4 anos pesquisados, apresentando índice médio de imunidade de 
73,0% do total da amostra (Tabela 2).
Tabela 2. Estado imune de um grupo de mulheres em idade reprodutiva em relação 
à rubéola.
discussão
Nesse estudo, apresentamos os resultados de uma avaliação do estado imune 
para o vírus da rubéola em uma parcela da população feminina da cidade de 
Natal, em idade reprodutiva, na faixa etária dos 15 aos 45 anos, média de 26 
anos, que foram encaminhadas ao nosso laboratório com suspeita clínica de 
infecção pelo vírus da rubéola. A porcentagem elevada de mulheres grávidas na 
23
IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS │ UNIDADE I
amostra estudada (52.1%) reflete a preocupação tanto das pacientes quanto dos 
médicos com a possibilidade de ocorrência da infecção por esse vírus durante o 
período de gestação.
Consideraram-se como suscetíveis as mulheres que não apresentaram 
anticorpos contra o vírus da rubéola e aquelas que apresentaram anticorpos 
da classe IgM, isoladamente ou em associação com anticorpos da classe IgG. 
Por outro lado, foram classificadas na condição de imunes as mulheres que 
apresentaram somente anticorpos da classe IgG, específicos para o vírus da 
rubéola. Esse critériofoi adotado tendo em vista que a presença de anticorpos 
IgM, seja isolada ou simultaneamente com anticorpos da classe IgG, indica a 
ocorrência de infecção recente. Como nosso objetivo foi determinar o grau 
de susceptibilidade apresentado pelas mulheres examinadas, dentro de uma 
faixa etária estabelecida, em que a unidade de referência foi o período de um 
ano, as mulheres que desenvolveram a infecção pouco tempo antes de serem 
examinadas foram classificadas como suscetíveis à doença, dentro da sua 
faixa etária.
Analisando-se o estado imune das mulheres pesquisadas, de acordo com a 
especificação do tipo de resposta apresentada, constatou-se que em média 
14,5% das mulheres pesquisadas não apresentaram qualquer sinal da presença 
de anticorpos dirigidos contra o vírus da rubéola, 7,7% delas apresentaram 
anticorpos da classe IgM isoladamente e em 4,8% do total da amostra, foi 
detectada a presença simultânea de anticorpos das classes IgM e IgG. O 
percentual relativamente elevado de mulheres com a presença de anticorpos 
IgM, 12,5% do total da amostra estudada, justifica-se, provavelmente, devido 
ao fato de grande parte dessas pacientes terem procurado os serviços médicos 
durante o período em que encontravam-se sob a suspeita clínica de infecção 
pelo vírus da rubéola, que em muitos casos foi confirmada sorologicamente, 
mediante a detecção de anticorpos IgM, específicos para o referido patógeno, 
comprovando, assim, a ocorrência de infecção recente.
Quando, no entanto, o estado imune das mulheres pesquisadas foi analisado 
de uma forma global, isto é, sem fazer distinção entre grávidas e não grávidas, 
verificou-se que 73,0% das pacientes se apresentaram imunes à rubéola, 
conforme demonstrado sorologicamente pela presença isolada de anticorpos 
da classe IgG. No entanto, 27,0% do total da amostra estudada se mostrou 
suscetível à rubéola, tendo em vista a ausência total de anticorpos dirigidos 
contra esse patógeno ou a presença de anticorpos da classe IgM, seja isolada ou 
simultaneamente com anticorpos da classe IgG.
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UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS
Os dados obtidos nesse estudo mostram que o índice médio de suscetibilidade 
à rubéola apresentado pelas mulheres de Natal está um pouco acima dos 
encontrados em cidades de outras regiões do país, em mulheres de faixas etárias 
semelhantes. Na cidade de São Paulo, um estudo realizado por Cotillo revelou 
a existência de um índice de suscetibilidade à rubéola de 22,8%, em um grupo 
de mulheres gestantes. No Rio de Janeiro, Schatzmayr e Mesquita encontraram 
índice de suscetibilidade de 20%. Já em Porto Alegre, Estrella encontrou um índice 
de suscetibilidade à rubéola de 19,0% em mulheres na faixa etária de 20 aos 
40 anos. Por outro lado, esses resultados confirmam o índice de suscetibilidade 
encontrado em outro estudo com características semelhantes realizado em Natal, 
por Fonseca et al. no qual o índice apresentado foi de 26,0%. Além disso, o índice 
de suscetibilidade encontrado nesse estudo está em perfeita concordância com 
os índices de suscetibilidade para a rubéola, encontrados por Cutts et al. em um 
grupo de 12 países em desenvolvimento. Os achados mostram que uma parcela 
considerável da população feminina de Natal, em idade reprodutiva, ainda se 
encontra suscetível ao vírus da rubéola, o que representa um alvo em potencial 
para esse patógeno.
Considerando-se a ação teratogênica do vírus da rubéola, um índice de 
suscetibilidade tão elevado a esse patógeno, em mulheres da faixa etária estudada, 
deve ser motivo de preocupação por parte das autoridades sanitárias, tendo em 
vista a possibilidade da ocorrência da infecção congênita e das consequências dela 
decorrentes. Assim sendo, justifica-se a realização de campanhas de vacinação 
seletiva dessas mulheres contra a rubéola, como forma segura de prevenir a 
infecção congênita por esse vírus e consequentemente impedir a ocorrência das 
manifestações associadas à síndrome da rubéola congênita.
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CAPítulo 2
imunidade contra bactérias e fungos
Bactérias que são capazes de se replicar fora das células do hospedeiro são chamadas 
de bactérias extracelulares. 
Muitas espécies podem causar doença e isso acontece por meio de dois mecanismos:
 » Induzem inflamação, que resulta em destruição do tecido inflamado.
 » Produzem toxinas com diversos efeitos patológicos.
imunidade natural contra 
bactérias extracelulares
Os principais mecanismos são a ativação do complemento, fagocitose e resposta 
inflamatória. 
A ativação do complemento pode ser feito por duas vias: 
 » Via alternativa: ativada por bactérias gram positivas que contém 
peptideoglicano (uma molécula que causa rigidez) em sua parede celular e 
também por bactérias gram negativas que tem o lipopolissacarídeo (LPS) 
uma molécula altamente tóxica derivada da membrana celular externa 
dessas bactérias. 
 » Via da lectina: ativada por bactérias que expressam manose (um tipo de 
açúcar simples) na sua superfície.
Os fagócitos usam vários receptores como, receptores de manose (reconhecem bactérias 
extracelulares), receptores Fc, receptores do complemento (reconhecem bactérias 
opsonizadas), receptores semelhantes à Toll (ativam fagócitos). Esses receptores são 
importantes para promoverem a fagocitose dos micro-organismos e estimular a atividade 
microbicida dos fagócitos que podem produzir citocinas que induzem a infiltração de 
leucócitos nos locais da inflamação.
imunidade adquirida às bactérias 
extracelulares
A produção de anticorpos por meio da imunidade humoral é a principal resposta 
imune contra bactérias extracelulares e atua bloqueando a infecção, eliminando os 
micro-organismos e neutralizando suas toxinas. 
26
UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS
Os anticorpos são produzidos contra antígenos da parede celular e toxinas secretadas e 
associadas às células. 
Efeitos lesivos das respostas imunológicas
Inflamação e choque séptico são as principais consequências lesivas das respostas 
imunológicas. O dano tecidual causado pela produção local de espécies reativas de 
oxigênio e enzimas lisossômicas, que funcionam também para erradicar a infecção, 
normalmente são autolimitadas e controladas. 
O choque séptico é uma consequência grave de infecção causada por bactérias gram 
negativas e algumas gram positivas. Ele é causado por doses muito grandes de citocinas 
e pode estar relacionado com a depleção de células T.
figura 3. Resposta imunológica adquirida às bactérias extracelulares.
Neutralização
Anticorpo
Célula BBactérias
Bactérias
Apresentação de 
antígenos protéicos
Ativação do 
complemento
Células T auxiliares 
(para antígenos 
protéicos)
Células T 
auxiliar 
CD4+APC
Inflamação
InflamaçãoTNF
IFN-γ
Lise bacteriana
Resposta de 
anticorpo
Citocinas 
diversas
Ativação de 
 macrófagos = 
fagocitose e 
destruição bacteriana
Opsonização e 
fagocitose 
 mediada por receptor 
a Fc
Fagocitose das 
bactérias revestidas 
com C3b
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
imunidade contra bactérias intracelulares
O que diferencia as bactérias extracelulares das bactérias intracelulares, é que estas são 
capazes de sobreviver e replicar dentro dos fagócitos. 
27
iMunidAdE ContrA AgEntES EXtErnoS │ unidAdE i
imunidade natural contra bactérias intracelulares
Imunidade feita principalmente por fagócitos, que ingerem e tentam destruir essas 
bactérias, porém elas resistem aos fagócitos e células natural killer (NK) que produzem 
citocinas que ativam macrófagos promovendo a destruição das bactérias fagocitadas. 
Assim as células NK desempenham um papel de defesa inicial antes que a imunidade 
adquirida seja desenvolvida. 
imunidade adquirida às bactérias intracelulares
A imunidade mediada por células é a principal resposta protetora contra bactérias 
intracelulares, pois acontece a ativação do macrófago que resulta na morte do 
micro-organismo fagocitado e lise das células infectadas por meio de linfócitosT 
citotóxicos (CTLs). 
As células TCD4+ sob influência de citocinas, se diferenciam em células efetoras Th1 que 
ativam macrófagos a produzirem substâncias microbicidas como as espécies reativas 
de oxigênio, óxido nítrico e enzimas lisossômicas. 
Se os antígenos bacterianos forem transportados dos fagossomos para o citosol ou se as 
bactérias escaparem dos fagossomos e entrarem no citoplasma das células infectadas, 
ocorre ativação de células TCD8+.
figura 4. Imunidade natural e adquirida contra bactérias intracelulares.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
As bactérias intracelulares conseguem resistir à morte dentro de fagócitos e assim, 
persistem por longos períodos e causam estimulação antigênica crônica e ativação da 
célula T e macrófago que pode resultar em lesão tecidual. 
28
UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS
imunidade aos fungos
Micoses são as infecções causadas por fungos. Algumas são endêmicas, causadas por 
fungos que estão no meio ambiente e outras são oportunistas porque em indivíduos 
sadios elas podem ser infecções leves ou não causar nenhuma doença, porém em 
indivíduos imunocomprometidos podem causar doença grave. 
Alguns fungos podem viver no tecido extracelular e dentro de fagócitos. Portanto, 
as respostas imunológicas é uma mistura de resposta a bactérias extracelulares e 
intracelulares. Mas ainda pouco se sabe sobre a imunidade antifúngica. 
Neutrófilos e macrófagos são as principais células respondedoras da imunidade natural 
contra fungos. Os neutrófilos podem produzir e liberar espécies reativas de oxigênio e 
enzimas lisossômicas que são substâncias antifúngicas e também fagocitam os fungos 
para a morte intracelular. 
Na resposta imune adquirida, o principal mecanismo responsável é a imunidade 
mediada por células. A resposta Th1 é considerada protetora enquanto que a resposta 
Th2 é prejudicial e há uma cooperação entre as células TCD4+ e TCD8+ na eliminação 
de alguns tipos de fungos.
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CAPítulo 3
Vacinas
As vacinas vieram como uma forma de reduzir a incidência de doenças infecciosas. A 
imunologia junto com a biologia molecular lançaram novas vacinas e novas estratégias 
de vacinação (SCHATZMAYR, 2003). Porém, a indústria farmacêutica tem pouco 
interesse no desenvolvimento e produção de novas vacinas (GRECO, 2002). Vários são 
os fatores que limitam os investimentos na área do desenvolvimento de vacinas. Entre 
eles podemos citar:
 » Risco de responsabilidade por reações adversas.
 » Alto custo de desenvolvimento com preços não atrativos.
 » Países em desenvolvimento, que seriam o principal alvo das vacinas, 
possuem uma limitação muito grande para compra. 
Mesmo com todos esses problemas é interessante pensar na relação custo-benefício da 
vacinação. Para isso, basta comparar, por exemplo, o tratamento contra a hepatite B. 
O que é mais viável e com menos custo: disponibilizar três doses da vacina contra a 
doença ou fazer o tratamento do paciente, este, que pode ser estender por anos?
Para o desenvolvimento de vacinas primeiro é necessário entender os mecanismos 
imunológicos envolvidos nas respostas às infecções. A mucosa é a primeira barreira 
mecânica entre os meios interno e externo que os micro-organismos encontram 
dificultando então a adesão à superfície das células epiteliais de revestimento 
(BARASCHI et al., 2003). Células epiteliais ativadas atraem células imunes como 
macrófagos, neutrófilos, células natural killer, linfócitos além de ativarem sistema 
complemento. 
As células dendríticas são consideradas hoje as mais importantes células apresentadoras 
de antígenos para induzir resposta imune de células auxiliar TCD4+e também de TCD8+ 
citotóxicas. As células dendríticas têm a capacidade de capturar e processar antígenos 
levando-os para os nódulos linfáticos que é onde acontece a resposta imunológica 
(BANCHEREAU; STEINMAN, 1998).
A imunização serve para prevenir o desenvolvimento do quadro clínico no indivíduo 
bem como controlar ou até mesmo eliminar determinada virose quando se alcançar um 
alto nível de imunidade. 
30
UNIDADE I │ IMUNIDADE CONTRA AGENTES EXTERNOS
tipos de vacinas utilizadas
Vacinas vivas atenuadas
Contém vírus vivo e atenuado em laboratório. A principal vantagem da vacina viva 
é que ela envolve todos os componentes do sistema imune para o desenvolvimento 
da imunidade. Assim a resposta imune é completa e mantém-se por longos períodos. 
Apresentam menor custo de produção. Efeitos adversos podem surgir fazendo com 
que a vacina se torne mais “virulenta” sendo esta uma desvantagem das vacinas vivas 
e a possibilidade de deterioração também se torna grande sendo necessário todo um 
aparato refrigerado para seu transporte adequado. 
Vacinas mortas ou inativadas
Os micro-organismos são mortos por agentes químicos. Portanto, elas não provocam 
doença, pois há total ausência do poder infeccioso do agente. Porém, a resposta imune 
induzida não é tão boa e longa quanto a respostas causada por micro-organismo 
atenuado. Elas podem ser:
 » Inteiras (de vírus ou bactérias intactos).
 » Fragmentadas (Contêm pequenas frações ou porções de vírus ou bactérias).
 » Toxoide.
 » Polissacarídicas.
 » Conjugadas.
Quadro 1. vacina X Medicamento.
fonte: . Acessado em: 1 out. 2014.
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unidAdE iiiMunidAdE tuMorAl
CAPítulo 1
desenvolvimento e mecanismos 
participadores
O câncer é um problema de saúde no mundo todo e uma das causas mais relevantes 
de mortalidade e morbidade (relação entre saudáveis e doentes). Os cânceres surgem 
da proliferação e disseminação descontrolada de clones de células transformadas e seu 
crescimento é determinado, na maioria das vezes, pela capacidade de proliferação das 
células tumorais e a capacidade destas, de invadir os tecidos do hospedeiro e disseminar 
para locais distantes, bem como a capacidade de evadir ou superar os mecanismos de 
defesa do hospedeiro. 
Falando um pouco mais afundo sobre o câncer, acontece o seguinte: as células dos 
animais são formadas pela membrana celular (parte externa), citoplasma (corpo da 
célula) e o núcleo (que tem os cromossomos compostos por genes). Os genes guardam 
e fornecem instruções para a organização das estruturas, formas e atividades celulares. 
Essas informações estão no DNA e é por meio dele que os cromossomos passam as 
informações para a célula. 
Uma célula normal pode sofrer mutações, alterações no DNA dos genes, e assim recebem 
instruções erradas para suas atividades. Essas modificações acontecem nos protoncogenes 
que são inativos nas células normais. Porém, quando ativos, transformam-se em 
oncogenes responsáveis pela malignização das células normais, sendo então denominadas 
células cancerosas. 
32
unidAdE ii │ iMunidAdE tuMorAl
figura 5. Malignização das células no câncer.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
O conceito de vigilância imunológica afirma que, uma função fisiológica do sistema 
imunológico é reconhecer e destruir clones de células transformadas, antes que eles 
se transformem em tumores, e destruir os tumores depois que eles já estão formados. 
Esse conceito foi o impulso para o desenvolvimento de muitos trabalhos no campo da 
imunologia tumoral. 
Aspectos gerais da imunidade tumoral
Para compreender as respostas imunológicas aos tumores e a imunoterapia, é necessário 
conhecer algumas características dos antígenos tumorais e das respostas imunológicas 
ativadas por eles. 
Os tumores expressam antígenos que são reconhecidos como estranhos pelo sistema 
imunológico adquirido e assim causam resposta imunológica, principalmente mediada 
pelos linfócitos T. Porém, as respostas imunológicas, por diversos motivos, frequentemente 
falham na prevenção de crescimento de tumores. 
33
iMunidAdE tuMorAl │ unidAdE ii
Podemos citar, como exemplo: as células tumorais derivam de células do hospedeiro 
e, portanto, se parecem normais (são fracamente imunogênicos); o rápido crescimento 
e disseminação do tumor podemsuperar a capacidade do sistema imunológico de 
erradicar as células tumorais e muitos tumores têm mecanismos especializados para 
evadir da resposta imune do hospedeiro.
figura 6. Imunidade tumoral.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
Antígenos tumorais
Uma diversidade de antígenos tumorais, que podem ser reconhecidos pelos linfócitos 
B e T em humanos e animais, tem sido identificada. Em humanos é importante 
identificar esses antígenos, pois eles podem ser usados como componentes de vacinas 
tumorais e anticorpos e células T efetoras produzidas contra esses antígenos podem ser 
utilizadas para imunoterapia. 
Os antígenos tumorais foram classificados primeiramente em antígenos específicos 
de tumores (antígenos expressos em células tumorais, mas não expressos em células 
34
UNIDADE II │ ImUNIDADE tUmorAl
normais) e antígenos associados a tumores (antígenos tumorais que também são 
expressos em células normais, porém com expressão aberrante ou desregulada). Hoje a 
classificação é fundamentada na origem e estrutura molecular dos antígenos. 
figura 7. Tipos de antígenos reconhecidos pelas células T.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
Os anticorpos antitumorais não reconhecem os peptídeos associados ao complexo de 
histocompatibilidade (MHC), que são os antígenos vistos pelas células T. Os antígenos 
tumorais reconhecidos pelas células T são provavelmente os principais indutores da 
imunidade humoral. Os antígenos tumorais reconhecidos pelas células TCD8+ são 
peptídeos derivados de proteínas processadas no citosol e expressas na superfície da 
célula tumoral ligada às moléculas do MHC classe I. 
Os antígenos tumorais podem ser proteínas normais que são produzidas em baixos 
níveis em células normais, porém são superexpressas em células tumorais. Um exemplo 
é a tirosinase, uma enzima envolvida na biossíntese de melanina, expressa apenas em 
melanócitos normais e em melanomas (tipo mais perigoso de câncer de pele).
35
ImunIdade tumoral │ unIdade II
Os produtos de vírus oncogênicos funcionam como antígenos tumorais e provocam 
respostas específicas de célula T que podem servir para erradicar os tumores. Assim, um 
sistema imunológico competente pode ter um papel na vigilância imunológica contra 
tumores induzidos por vírus. 
Já os antígenos oncofetais, são proteínas expressas em altos níveis nas células 
cancerosas e em fetos com desenvolvimento normal, porém não são expressas em 
tecidos de adultos. Eles podem ser importantes para fornecer marcadores que auxiliam 
no diagnóstico de tumores. 
Os tumores expressam antígenos de diferenciação tecido-específico, ou seja, são 
específicos para linhagens ou estágios particulares de diferenciação de diversos tipos 
de células sendo assim, importantes para imunoterapia e identificação do tecido de 
origem do tumor.
36
CAPítulo 2
respostas possíveis
In vitro, foi demonstrado que mecanismos efetores tanto da imunidade natural quanto 
da adquirida destroem células tumorais. Porém, o grande desafio dos imunologistas de 
tumores é determinar quais desses mecanismos contribuem para a resposta imunológica 
in vivo.
resposta imune natural
As duas principais células da resposta imune natural que tem a capacidade de destruir 
células tumorais são: células natural killer (NK) e macrófagos. As primeiras destroem 
muitos tipos de células tumorais, mas principalmente as que pouco expressam moléculas 
do MHC I, mas expressam ligantes para receptores ativadores das células NK. As células 
NK respondem na ausência de moléculas do MHC I, pois o reconhecimento dessas 
moléculas fornece sinais inibitórios para as células NK. A capacidade tumoricidade das 
células NK, é aumentada pelas citocinas, principalmente interferons e interleucinas 2 e 
IL-12. Porém, o papel das NK na imunidade tumoral in vivo ainda não está claro. 
Os macrófagos têm um papel ainda não muito conhecido na imunidade tumoral, porém 
in vitro, já foi demonstrado que eles têm maior capacidade de destruir células tumorais 
do que células normais. Essa destruição pode ser feita por meio de vários mecanismos 
e possivelmente são os mesmos usados na destruição de organismos infectantes, como, 
por exemplo, liberação de enzimas lisossômicas, espécies reativas de oxigênio e óxido 
nítrico. Quando os macrófagos estão ativados, eles podem produzir fator de necrose 
tumoral (TNF) que é um agente, como o próprio nome diz, capaz de destruir tumores. 
resposta imune adquirida
Resposta imunológica mediada por células T quanto resposta imunológica humoral 
mediada por anticorpos, acontecem espontaneamente a tumores, porém algumas 
evidências sugerem que a resposta das células T tem um papel protetor. 
A destruição das células tumorais pelas CTLsCD8+, é o principal mecanismo de 
imunidade tumoral. Essas células são capazes de desempenhar função de vigilância 
quando reconhecem e destroem células potencialmente malignas que são apresentadas 
em associação às moléculas de MHC I. 
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ImunIdade tumoral │ unIdade II
Para que as células TCD8+ respondam aos antígenos tumorais, é necessária uma 
apresentação cruzada com APCs profissionais (células profissionais apresentadoras de 
antígenos), como as células dendríticas, pois não expressam coestimuladores necessários 
para dar início às respostas de células T nem as moléculas do MHC II necessárias para 
estimular as células T auxiliares. Quando CTLs efetores são produzidos eles são capazes 
de reconhecer e destruir as células tumorais sem a necessidade de coestimulação. 
figura 8. Indução de respostas por células TCD8+ contra tumores.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
O papel das células TDC4+ auxiliares não é muito claro. Mas sugere-se que, elas podem 
secretar citocinas como TNF e IFN-ʏ que podem aumentar a expressão de MHC I pelas 
células tumorais e a sensibilidade à lise por CTLs.
Anticorpos podem ser produzidos por portadores de tumor. Eles podem destruir as células 
tumorais ativando o complemento ou por meio da citotoxicidade mediada por anticorpos 
onde macrófagos portadores de receptor Fc ou células NK medeiam a destruição. 
A capacidade dos anticorpos de destruir células tumorais foi extensamente comprovada 
in vitro, porém há poucas evidências da imunidade humoral efetiva contra tumores.
Evasão das respostas imunológicas 
pelos tumores
Muitos tumores possuem mecanismos para escapar do sistema imune do hospedeiro e 
esse é o grande desafio da imunologia do tumor: compreender como as células tumorais 
fazem isso para que possam intervir na imunogenicidade dos tumores, aumentando-a 
bem como aumentar também a resposta do hospedeiro. 
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unidAdE ii │ iMunidAdE tuMorAl
A “edição do tumor” é o processo que resulta na sobrevivência e propagação de células 
tumorais variantes, com imunogenicidade reduzida. Os antígenos tumorais podem 
induzir tolerância imunológica, pois são antígenos próprios encontrados pelo sistema 
imunológico em desenvolvimento ou porque as células tumorais apresentam seus 
antígenos de uma forma tolerogênica. 
As células T reguladoras são aumentadas em pacientes com tumor e podem ser 
encontradas nos infiltrados celulares em certos tumores e isso faz com que tenha uma 
supressão da resposta da célula T ao tumor. Ou seja, se há uma depleção de células 
T reguladoras, há um aumento na imunidade antitumoral e consequente redução do 
crescimento tumoral.
Tumores que têm crescimento rápido perdem antígenos que são reconhecidos por CTLs 
específicos para tumor, inibindo então a resposta imunológica. Os tumores também 
pode não induzir CTLs já que a grande maioria das células tumorais não expressa 
coestimuladores (necessários para dar início às respostas das células T) ou moléculas 
MHC II (que são importantes para ativação das células T auxiliares, que estimulam a 
diferenciação dos CTLs).
figura 9. Mecanismos de evasão do sistema imune causados pelos tumores.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
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ImunIdade tumoral │ unIdade II
imunoterapia para tumores
As terapias atuais contra ocâncer se baseiam em medicamentos que destroem as células 
que se dividem ou param a divisão celular, porém esses medicamentos têm efeitos 
graves sobre as células normais fazendo com que a taxa de mortalidade e morbidade 
nos pacientes em tratamento contra o câncer seja alta. 
A imunoterapia tem como objetivo potencializar a fraca resposta imunológica aos 
tumores ou administrar anticorpos ou células T específicas para o tumor sendo assim, 
um tratamento mais bem elaborado e mais específico sem causar muitos prejuízos às 
células normais. 
figura 10. Estratégias para melhorar as respostas imunológicas tumorais.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
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UNIDADE II │ ImUNIDADE tUmorAl
figura 11. vacinas tumorais.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
imunização com células tumorais e 
antígenos tumorais
Esse tipo de imunização é feita com células tumorais mortas ou antígenos tumorais 
resultando em uma resposta imune aumentada sobre o tumor. 
Aumento da imunidade do hospedeiro contra 
tumores por meio de citocinas e coestimuladores
Como o próprio nome sugere uma expressão aumentada de citocinas e coestimuladores 
em células tumorais de indivíduos portadores de tumor, estimula a proliferação 
e diferenciação de linfócitos T e células NK com consequente potencialização da 
imunogenicidade das células tumorais.
Bloqueamento das vias inibitórias para promover 
imunidade tumoral
Estratégia baseada na ideia de que as células T usam várias vias normais de regulação ou 
tolerância imunológica para escaparem da resposta imune do hospedeiro. Estudos em 
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ImunIdade tumoral │ unIdade II
camundongos mostraram que, se estes forem portadores de tumor e forem vacinados 
com o tumor e tratados com o anticorpo que bloqueia os CTLA-4 (receptor inibidor 
de B7, que funciona para desligar respostas), eles vão desenvolver fortes respostas 
antitumorais de células T e destruir o tumor.
Estimulação inespecífica do sistema imunológico
A administração local de substâncias inflamatórias ou por tratamento sistêmico com 
agentes que funcionam como ativadores policlonais de linfócitos T estimulam a resposta 
imune a tumores.
imunoterapia passiva para tumores com 
células t e anticorpos
O que é a imunoterapia passiva?
É a transferência de efetores imunológicos, incluindo células T e anticorpos específicos 
para tumor, em pacientes. Ela é rápida, porém, não é duradoura.
São três os tipos de imunoterapia passiva: terapia celular adotiva, efeito enxerto-versus-
Leucemia e terapia com anticorpos antitumorais.
terapia celular adotiva
É um tipo de terapia onde células imunológicas são cultivadas in vitro para serem 
transferidas ao paciente portador de tumor e assim causar reatividade antitumoral. 
Efeito enxerto-versus-leucemia
A administração de células T alorreativas (linfócitos T de um indivíduo que reconhecerão 
antígenos em células ou tecidos de outro indivíduo geneticamente diferente) junto com 
transplante de células tronco hematopoiéticas, em indivíduos portadores de leucemia, 
pode ajudar na erradicação do tumor.
terapia com anticorpos antitumorais
Esses anticorpos tumorais por meio dos mesmos mecanismos efetores na eliminação de 
microrganismos como opsonização, fagocitose e ativação do sistema do complemento, 
podem ajudar na eliminação de tumores. Porém, um dos grandes problemas desse tipo 
de terapia é que os anticorpos antitumorais podem ter um crescimento excessivo das 
variantes e assim perder os antígenos que são reconhecidos pelos anticorpos.
42
UNIDADE II │ ImUNIDADE tUmorAl
o papel do sistema imunológico na 
promoção do crescimento tumoral
Até então o que sabemos é que o sistema imunológico tem um papel de proteção contra 
tumores. Mas ele também pode contribuir com o crescimento de alguns desses tumores. 
A inflamação crônica, por exemplo, tem sido muito estudada e apontada como um fator 
de risco para o desenvolvimento de tumor. Porém, não se sabe ao certo como ela pode 
promover o desenvolvimento tumoral, mas algumas possibilidades são colocadas.
A ativação crônica das células do sistema imune natural, como os macrófagos, é 
caracterizada por angiogênese (nova formação vascular regulada por vários fatores 
proteicos elaborados por células do sistema imune inato e adaptativo e frequentemente 
acompanhados por inflamação crônica) e remodelação tecidual ambas favorecendo 
a formação do tumor, sendo considerados os mais diretos culpados por promover 
tumores. As células imunes naturais podem gerar radicais livres que são prejudiciais 
ao DNA levando a mutações nos genes supressores de tumor e oncogenes, ou seja, 
favorecendo o aparecimento de tumor.
O sistema imunológico adquirido, indiretamente, pode contribuir para a ativação 
crônica de células imunes naturais por meio da ativação mediada pelas células T, dos 
macrófagos, nas infecções microbianas intracelulares persistentes. Assim, ele intensifica 
as atividades promotoras de tumores do sistema imunológico natural.
Os efeitos promotores de tumores do sistema imunológico são paradoxais e estão 
constantemente sendo estudados.
43
unidAdE iiiiMunidAdE no 
trAnSPlAntE
CAPítulo 1
desenvolvimento e mecanismos 
participadores
O transplante consiste na retirada de células, tecidos ou órgãos (chamados enxertos) de 
um indivíduo que serão colocados em outro (geralmente diferente). 
Na prática, o transplante serve para suprir uma deficiência funcional ou anatômica no 
receptor (indivíduo que recebe o enxerto). Mas o transplante não é tão simples quanto 
parece. Para ter sucesso, é preciso driblar o sistema imune do receptor ao tecido doado, 
já que aquele enxerto é considerado estranho podendo desencadear uma resposta 
imunológica causando a rejeição do órgão. 
Pode haver dois tipos de rejeição:
 » Primária: enxertos que são geneticamente diferentes são rejeitados em 
um prazo de 7 a 10 dias.
 » Secundária: enxerto subsequente do mesmo doador para o mesmo 
receptor é rejeitado mais rápido, em um prazo de 2 a 3 dias.
44
unidAdE iii │ iMunidAdE no trAnSPlAntE
figura 12. Rejeição primária e secundária.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
Os tipos de enxertos podem ser divididos da seguinte forma:
 » Enxerto autólogo ou autoenxerto: é aquele que é transplantado de um 
indivíduo para si mesmo. 
 » Enxerto singênico: é o enxerto transplantado entre dois indivíduos 
geneticamente idênticos (gêmeos). 
 » Enxerto alogênico ou aloenxerto: é aquele enxerto transplantado entre 
indivíduos geneticamente diferentes. 
 » Enxerto xenogênico ou xenoenxerto: é o enxerto transplantado entre 
indivíduos de espécies diferentes. 
45
CAPítulo 2
respostas possíveis
Os aloantígenos, moléculas reconhecidas como estranhas nos aloenxertos, desencadeiam 
respostas imunológicas celular e humoral.
figura 13. Reconhecimento direto e indireto de aloantígenos.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
As reações de rejeição rápida, forte, quase sempre são desencadeadas pelas moléculas 
do complexo principal de histocompatibilidade (MHC), pois é o MHC que desempenha 
papel fundamental nas respostas imunológicas normais a antígenos estranhos. Assim, 
o MHC tem um papel de reconhecimento secundário a aloantígenos. 
Como isso acontece?
Moléculas do MHC alogênicas podem ser apresentadas aos linfócitos T de forma direta 
e indireta. A forma direta envolve o reconhecimento de uma molécula de MHC intacta 
exibida por células apresentadoras de antígenos (APCs) do doador no enxerto. Ou seja, a 
apresentação direta é exclusiva de moléculas de MHC estranhas. Trocando em miúdos: 
é uma apresentação cruzada de um receptor de célula T (TCR) que foi selecionado para 
reconhecer uma molécula no MHC própria, ou seja, do próprio indivíduo, e um peptídeo 
estranho, com uma molécula do MHC alogênica e um peptídeo. 
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UNIDADE III │ IMUNIDADE NO TRANSPLANTE
figura 14. Reconhecimento direto de moléculas do MHC alogênicas.
fonte: figura adaptada de Abbas, 2007.
A apresentação indireta envolve o processamento de moléculas do MHC do doador 
pelas

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