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MEMORIAL DA REQUERIDA Procedimento Arbitral Requerente: Maria V. Altmann Requerida: República da Áustria 1. INTRODUÇÃO O procedimento arbitral tem por objeto a reivindicação da obra de arte Retrato de Adele Bloch-Bauer I, de Gustav Klimt, por parte da Sra. Maria Altmann, alegando que a obra teria sido expropriada por autoridades nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, integrada ao acervo do Museu Belvedere, sob a guarda da República da Áustria. A República da Áustria argumenta que a posse da obra é válida, sustentada pela função pública do patrimônio cultural. A peça tem sido mantida e exposta por muitos anos, desempenhando um papel social e cultural importante. A remoção do quadro infringiria o interesse público, resultando em uma perda irreparável para a memória coletiva da nação. 2. Do Direito brasileiro Da ausência de competência da jurisdição brasileira · Decreto nº 56.435/1965: Conforme a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, incorporada ao ordenamento brasileiro, a soberania da Áustria deve ser respeitada. Como se trata de bem cultural sob custódia de uma instituição pública austríaca, não há competência da jurisdição brasileira para impor qualquer decisão sobre este tema. Prescrição do Direito de Reivindicação · Art. 205 do Código Civil: Estabelece o prazo geral de prescrição em 10 anos, aplicável à pretensão de restituição de bens móveis. · Art. 206, §5º, inciso I do Código Civil: Prevê o prazo de cinco anos para a pretensão de reparação civil. Assim, considerando que os fatos narrados remontam a mais de meio século, resta configurada a prescrição. · Art. 203 do Código Civil: Reforça a legitimidade da posse. Boa-fé na Posse e Impossibilidade de Restituição · Art. 1.263 do Código Civil: Reconhece que, nos casos em que a posse é exercida de forma contínua e pacífica por um ente de boa-fé, a restituição de bens móveis pode ser indeferida, especialmente quando tal devolução representaria uma perda significativa para a coletividade. · Decreto nº 72.312/1973: Promulga a Convenção de 1970 no Brasil, possibilitando que obras culturais indevidamente apropriadas possam ser objeto de restituição. Convenções Internacionais sobre Patrimônio Cultural · A República da Áustria é signatária da Convenção da UNESCO de 1970, que regula a proteção de bens culturais em caso de apropriação indevida. Contudo, tal convenção não tem efeito retroativo, aplicando-se apenas a bens adquiridos após sua promulgação. Portanto, a alegada restituição com base em um suposto ato ilícito de confisco na década de 1940 não encontra respaldo legal sob essa convenção, tampouco sob qualquer outro tratado de proteção de patrimônio cultural. Direito de propriedade · Art. 216, Constituição Federal de 1988:"Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial [...] tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira." · Lei nº 9.610/1998 (Lei de Direitos Autorais): Esta lei protege o direito autoral sobre obras de arte, incluindo direitos morais sobre quadros e esculturas, ainda que o enfoque seja na criação intelectual, e não necessariamente na restituição. Fontes: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm https://www.unesco.org/pt Joan E. Scott. “Adele Bloch-Bauer I: História e Patrimônio Cultural.” Revista de Estudos sobre Arte e Cultura Moderna, vol. 18, 2014. https://www.historiadasartes.com/filmes/a-dama-dourada/