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Como as editoras independentes 
resistiram à ditadura militar?
Durante o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985), as editoras independentes emergiram como 
bastião da resistência cultural e intelectual, desempenhando um papel crucial na preservação do 
pensamento crítico e da liberdade de expressão. Estas organizações, muitas operando em porões e 
espaços clandestinos, com orçamentos mensais inferiores a mil cruzeiros e sob constante vigilância do 
DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tornaram-se símbolos vivos da luta pela democracia e 
pela livre circulação de ideias.
Resistência Cultural
Entre 1968 e 1978, período mais 
duro do regime após o AI-5, 
mais de 500 livros foram 
oficialmente censurados pela 
Divisão de Censura de 
Diversões Públicas. A Editora 
Civilização Brasileira, sob a 
liderança do corajoso Ênio 
Silveira, publicou obras 
fundamentais como "Quarup" 
de Antônio Callado e "Zero" de 
Ignácio de Loyola Brandão, 
mesmo após sofrer seis 
processos por subversão. A 
Editora Brasiliense, dirigida por 
Caio Graco Prado, especializou-
se em coleções populares como 
"Primeiros Passos" e "Cantadas 
Literárias", que formaram toda 
uma geração de leitores críticos. 
A Paz e Terra, fundada por Ênio 
Silveira e Fernando Gasparian 
em 1966, tornou-se referência 
na publicação de obras de 
teologia da libertação e ciências 
sociais.
Espírito de Luta
O editor Fernando Mangarielo, 
da Editora e Livraria Mestre Jou, 
foi preso e torturado em 1975 
por publicar "História da 
Riqueza do Homem" de Leo 
Huberman. Já Rose Marie 
Muraro, da Editora Vozes, 
desenvolveu um elaborado 
sistema de distribuição 
clandestina que utilizava as 
redes de paróquias católicas 
para fazer circular obras 
proibidas. A Editora Perspectiva, 
de Jacó Guinsburg, driblava a 
censura publicando textos 
críticos sob a aparência de 
obras acadêmicas 
especializadas. Em São Paulo, a 
pequena Editora Kairós, fundada 
por Alfredo Syrkis e Carlos 
Alberto Pereira, operava em um 
porão da Rua Maria Antônia, 
usando mimeógrafos 
emprestados para produzir 
literaturas de resistência.
Difusão de Ideias
Em 1975, uma rede clandestina 
de distribuição coordenada por 
editoras independentes 
conseguiu fazer circular mais de 
30 mil exemplares de "Feliz Ano 
Novo" de Rubem Fonseca, 
mesmo após sua proibição 
oficial. A Editora Codecri, 
nascida do semanário "O 
Pasquim", publicou obras 
seminais como "O que é isso, 
companheiro?" de Fernando 
Gabeira e "Aracelli, meu amor" 
de José Louzeiro. A Editora 
Expressão Popular manteve viva 
a tradição do pensamento 
crítico publicando autores como 
Paulo Freire, cujo "Pedagogia do 
Oprimido" circulou inicialmente 
em cópias mimeografadas antes 
de sua primeira edição oficial. 
As livrarias independentes, 
como a Capitu em São Paulo e a 
Muro em Salvador, funcionavam 
como pontos de encontro e 
resistência, organizando grupos 
de leitura disfarçados de 
círculos bíblicos.
O legado dessas editoras independentes se materializa hoje em mais de 15 mil títulos preservados em 
acervos especiais, como o do Centro de Documentação e Memória da UNESP e o Arquivo Edgard 
Leuenroth da UNICAMP. Seu trabalho não apenas manteve viva a chama do pensamento crítico durante 
os 21 anos de ditadura, mas também estabeleceu as bases para uma nova geração de editoras 
independentes que continua a defender a diversidade editorial e a liberdade de expressão no Brasil 
contemporâneo.

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