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ESAAP – ESCOLA SUPERIOR DE ADVOCACIA DO AMAPÁ CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM ADVOCACIA CRIMINAL MARIVALDO DE LIMA GUERREIRO SOUZA JÚNIOR CRIME ORGANIZADO: TRÁFICO DE DROGAS E O SEU ASPECTO HISTÓRICO Macapá 2019 2 ESAAP – ESCOLA SUPERIOR DE ADVOCACIA DO AMAPÁ CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM ADVOCACIA CRIMINAL MARIVALDO DE LIMA GUERREIRO SOUZA JÚNIOR CRIME ORGANIZADO: TRÁFICO DE DROGAS E O SEU ASPECTO HISTÓRICO Macapá Trabalho apresentado à Escola Superior de Advocacia ao Curso de Pós-graduação latu sensu em advocacia criminal, como requisito parcial para obtenção de nota no módulo de metodologia da pesquisa científica. 3 2019 1- TRÁFICO DE DROGAS: UMA ANÁLISE HISTÓRICA Desde os tempos de colônia, o Brasil em sintonia com o modelo internacional de combate às drogas, vem desenvolvendo ações que visam exterminar as raízes do que o estado afirma ser o flagelo da sociedade, ações sendo desenvolvidas todos os anos como forma de combate e punição para reprimir o tráfico. A visão restrita sobre o uso de drogas e a afirmativa internacional de que a sua utilização influenciariam diretamente nos problemas de saude e na área da segurança pública fizeram com que todos os tratados internacionais sobre o assunto, fossem trazidos para o ordenamento jurídico brasileiro. Até que com o Código Penal de 1940, foi confirmado a opção do Brasil em não criminalizar o consumo. Uma visão de controle e cuidado para com quem utiliza todo tipo de droga foi aplicado ao nosso ordenamento jurídico, onde, se estabeleceu uma concepção de controle das drogas, ser dependente e usuário cotidiano é considerado uma doença e merece tratamento e suporte do estado, este por sua vez necessita, é de certa forma obrigado a estabelecer Políticas Públicas de recuperação deste que sofre dessa doença, além disso, ao contrário dos traficantes, os usuários não são criminalizados, no entanto, à época, eles estavam submetidos a um rigoroso tratamento, com internação obrigatória. Entretanto, com a década de 60 chegando, precisamente no ano de 1964, com o Golpe Militar e Leis de Segurança Nacional, o uso de drogas obteve uma conotação libertária, a juventude associou o consumo de drogas à luta pela liberdade, nesse período drogas como maconha, LSD tiveram seu uso indiscriminado e iniciaram mais uma vez a serem coibidas de todas as formas, pois o uso era associado às manifestações políticas, aos movimentos contestatórios, à contracultura, entre outros, por este motivo o estado tentava usar do poder coercitivo para manter a ordem, principalmente por se tratar de um momento onde tudo o que o estado queria era manter a segurança nacional, afastando qualquer possibilidade do regime comunista entrar no país. 4 Em 1973, o Brasil aderiu ao Acordo Sul-Americano sobre Estupefacientes e Psicotrópicos e, com base nele, baixou a Lei 6.368/1976, que separou as figuras penais do traficante e do usuário, grande conquista para determinar o verdadeiro vilão e de certa forma punir quem realmente lucra com a doença, nesse caso, do usuário de drogas. Além disso, a lei fixou a necessidade do laudo toxicológico para comprovar o uso. Por fim, com a Constituição de 1988, foi determinado que o tráfico de drogas é crime inafiançável e sem anistia. Em seguida, a Lei de Crimes Hediondos (Lei 8.072/90) proibiu o indulto e a liberdade provisória e dobrou os prazos processuais, com o objetivo de aumentar a duração da prisão provisória, vejamos o que a lei nos traz sobre o trafico de drogas: Lei de Crimes Hediondos (Lei 8.072/90), no artigo 2º, inciso II, estabelece que: Art. 2º Os crimes hediondos, a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins e o terrorismo são insuscetíveis de: II – fiança. Há, ainda, o que determinado no artigo 44 da Lei 11.343/06: Art. 44. Os crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1o, e 34 a 37 desta Lei são inafiançáveis […]. Depreende-se, portanto, que a Constituição Federal, o Código de Processo Penal, a Lei de Crimes Hediondos (Lei 8.072/90) e a Lei11.3433/06 preveem a impossibilidade de arbitramento de fiança nos crimes de tráfico de drogas. Deve ficar claro que dizer que o crime de tráfico de drogas é inafiançável não é o mesmo que afirmar ser impossível a concessão de liberdade provisória, ou seja, não se trata de dizer que é incabível a liberdade provisória. Cabe liberdade provisória, desde que não seja mediante a medida cautelar da fiança. Em entendimento do STF, no HC nº 108.345/SP, Primeira Turma, Relator - Dias Toffoli, DJe de 26/10/12), temos o mesmo entendimento, vejamos: http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/95503/lei-de-t%C3%B3xicos-lei-11343-06 http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1028351/c%C3%B3digo-processo-penal-decreto-lei-3689-41 http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1028351/c%C3%B3digo-processo-penal-decreto-lei-3689-41 http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1033841/lei-dos-crimes-hediondos-lei-8072-90 5 A inafiançabilidade do delito de tráfico de entorpecentes, estabelecida constitucionalmente, não significa óbice à liberdade provisória, considerado o conflito do inciso XLIII com o LXVI (ninguém será levado à prisão ou nela mantido, quando a lei admitir a liberdade provisória, com ou sem fiança), ambos do art. 5º da CF. A Lei de Drogas (Lei 11.343/06), por sua vez, eliminou a pena de prisão para o usuário e o dependente, ou seja, para aquele que tem droga ou a planta para consumo pessoal. A legislação também passou a distinguir o traficante profissional do eventual, que trafica pela necessidade de obter a droga para consumo próprio e que passou a ter direito a uma sensível redução de pena. Já a criação da Força Nacional de Segurança e as operações nas favelas do Rio de Janeiro, iniciadas em 2007 e apoiadas pelas Forças Armadas, seguidas da implantação das unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), reforçaram a repressão e levaram a presença do Estado a regiões antes entregues ao tráfico, não apenas atendendo às críticas internacionais, como também como preparação para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. As discursos a cerca do assunto, tráfico de drogas, são constantes e estão sempre em voga, pois, o uso indiscriminado prejudica o uso controlado e medicinal, enquanto não houver melhores leis, ou um entendimento pacífico sobre as drogas, sempre haverá pessoas morrendo, usuários (doentes) sofrendo. não se deve associar o uso de drogas ilícitas como algo criminoso. Mas sim como caso de saúde pública, como se trata tabagismo e alcoolismo. Na doença social e ideológica em que países pobres e em desenvolvimento vivem, devido a desigualdades e injustiças sociais; alienação política; aculturação ao modo de vida consumista e individualista; culto aos padrões de estética, moral e comportamental aos moldes estadunidenses; crise nos valores e estrutura familiar; dentre muitos outros, os vícios (lícitos ou ilícitos) adquirem dimensões ameaçadoras à própria sociedade que promove tal situação. Falar em legalização ainda é cedo demais, no entanto, devemos estudar, conhecer e analisar as verdadeiras faces da temática “drogas”, como já analisado, nem todos os envolvidos nessa temática devem ser criminalizados, a maior vítima é a sociedade e 6 diretamente o usuário, pois já está doente e dependente, no momento, só resta ofertar ajuda e recuperá-los. A droga é sim um grande destruidor de famílias e jovens. Mas não se deve encarar como simples criminalidade. Pois, se o uso for controlado pelo sistema de saúde, se for criado um órgão para o controle e oferta de Políticas Públicas de recuperação e conscientização sobre o uso, as consequências imediatas seriam: afastar o usuário do contato com crack, cocaína e outros; tirar uma das principais fontes de renda do crime organizado e transferir o problema para a saúdepública. O problema é que essa mesma burocracia, que está montada há séculos (assim como a corrupção e a falta de fiscalização), se beneficiaria com isso tudo. Além disso temos uma população ignorante quanto às noções de direitos e deveres. Assim, mesmo com a legalização tornaria a questão do uso de drogas um intenso caos e um momento ainda pior para a sociedade.