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(
Conhecendo
 
a
 
Imagem
 
da
 
Moda
)
Conteudista: Prof. Esp. Jorge Feitosa
Revisão Textual: Prof. Me. Claudio Brites
Objetivos da Unidade:
Compreender a moda como um resultado impermanente das ações de vários setores sociais;
Apontar as principais ações que possibilitaram o desenvolvimento da moda e de seu conceito a partir do seu surgimento no século XV;
Identificar a evolução do conceito de imagem de moda a partir das ações que o promoveram;
Distinguir os principais meios de difusão da imagem de moda a partir do século XV, bem como identificar as causas e circunstâncias da evolução desses meios;
Identificar e conceituar os principais elementos que podem compor uma imagem de moda;
Identificar e conceituar a imagem de moda.
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ʪ Material Complementar
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Material Teórico
A Moda e a sua Impermanência
Nos últimos tempos, principalmente depois do avanço das informações via internet, o mercado de moda parece bem mais compreendido e assimilado por todos, desde os estilistas, designers de moda, modelistas, editores de moda, produtores de moda, influencers digitais, fotógrafos e muitos outros que trabalham com moda e desenvolvem tecnicamente essa estrutura até, e principalmente, pelos simples (e necessários) consumidores. Mas será mesmo? Se isso é verdade, por que ainda é tão necessária a criação da imagem de moda se já a conhecemos, sabemos como ela funciona, entendemos o seu mecanismo de atração, suas “repetições” (floral na primavera; xadrez no inverno) e como é processado o seu desenvolvimento – pesquisa/inspiração/criação/produção/venda/uso – e os seus códigos? Para Lipovetsky:
“Durante dezenas de milênios, a vida coletiva se desenvolveu sem culto das fantasias e das novidades, sem a instabilidade e a temporalidade efêmera da moda, o que certamente não quer dizer sem mudança nem curiosidade ou gosto pelas realidades do exterior. Só a partir do final da Idade Média é possível reconhecer a ordem própria da moda, a moda como sistema, com suas metamorfoses incessantes, seus movimentos bruscos, suas extravagâncias. A renovação das formas se torna um valor mundano, a fantasia exibe seus artifícios e seus exageros na alta sociedade, a inconstância em matéria de formas e ornamentações já não é exceção, mas regra permanente: a moda nasceu.”
- LIPOVETSKY, 2009, p. 24
Figura 1 – Moda: movimento e diversidade
Fonte: Getty Images
A partir dessa visão, entendemos que naturalmente, apesar de sua organização sistêmica, a moda já nasceu e se constitui num organismo de promoção do desejo, do consumo e da repetição, atrelado ao contexto do presente, do agora, da efemeridade das coisas. Isso pode ser uma pista para nos explicar o porquê da importância, cada vez mais, da imagem da moda. Souza (1987) corrobora a ideia de que a moda esteja ligada intrinsecamente a mudanças periódicas.
Para ela, a moda tem o mesmo caráter transmuto como nos setores políticos, estéticos, científicos, dentre vários outros que fazem parte do campo social. Mas para que não haja confusão no sentido de confundirmos moda com costumes, Souza (1987 apud TARDE, 1890, p.
267) explica que os costumes, apesar de serem também mutáveis, são caracterizados por cultivarem a permanência e a tradição, sempre se apegando ao passado como um lugar de referência, enquanto a moda cultiva e cultua o presente, o novo, apresentando-se como um respiro de sensibilidade sobre o que ela observa e mostra.
Da Moda à Imagem de Moda
Houve um tempo em que a moda, representada pelas ideias, conceitos e ações pelas quais a conhecemos hoje, não existia. Certamente ela não foi uma invenção de alguém que, em um determinado dia pensou: “vou criar a moda”. Derivada de uma construção social, isto é, formada pela combinação de vários fatores da sociedade como a cultura, a economia, as crenças e muitos outros aspectos sociais, a moda é um fenômeno social, e como tal, resultou de alguns acontecimentos que contribuíram para o seu surgimento. Segundo Baldini (2006), podemos apontar dez (10) acontecimentos que impulsionaram e, consequentemente, promoveram o surgimento da moda e de seu sistema, como veremos a seguir:
Códigos Vestimentares
Nos dias de hoje, usufruímos de uma certa “liberdade” quando pensamos em nos vestir, mas até o século XIV existiam normas rígidas a serem seguidas quanto às vestimentas, essas eram chamadas de leis sumptuárias. De modo geral, eram leis que regulamentavam os hábitos ligados ao consumo, feitas propositalmente para restringir o luxo e a extravagância quanto a vestes – desde tipos de roupas, quais cores cada classe social poderia usar, os tecidos e adereços –, comida, móveis e outras possibilidades de demonstração de grandeza, às classes sociais ligadas à nobreza. Tradicionalmente, elas regulamentavam o que cada classe social podia usar e assim por diante. Um acontecimento que deu força para a abolição de vez desse tipo de lei foi a Revolução Francesa, pois durante seu acontecimento foi aprovado um decreto dando liberdade de como vestir-se a todos os cidadãos franceses.
Revolução Têxtil
Com as inovações técnicas que surgiram no século XVIII, houve um aumento significativo da manufatura têxtil durante esse período. Tais evoluções técnicas podem ser exemplificadas através de: o surgimento de uma máquina capaz de separar fibras de vegetais usados na fabricação de tecidos; a invenção de uma máquina de fiar muito mais simples e barata que as existentes até então; seguida pelos avanços do tear de malha e o tear de Jacquard. Todas essas melhorias consequentemente permitiram o acesso de muito mais pessoas à produção e ao consumo dos produtos têxteis desenvolvidos a partir daquela época.
A Burguesia
Foi nesse período (final do século XVII) que a moda passou a acontecer como um fenômeno social relevante, já que os códigos vestimentares deixaram de ser obedecidos completamente pela burguesia. Essa atitude estabeleceu uma dinâmica onde não havia mais a distinção “figurativa” entre as classes sociais, ou seja, não se podia mais determinar o pertencimento a determinado grupo social apenas pelo modo de vestir, por exemplo. Uma característica que ganhou força com essas mudanças e acompanha a moda desde essa época é a divisão estética, muito acentuada, entre o feminino e o masculino, no que diz respeito à quantidade de adornos, enfeites e acessórios respectivamente utilizados por cada gênero. Pois até então, o vestuário masculino era até mais elaborado que o feminino em certas ocasiões. Isso foi resultado da busca por roupas mais práticas para os homens burgueses, já que eles não eram apenas peças figurativas na sociedade como os aristocratas e por isso buscavam praticidade no vestir. Mas ao mesmo tempo necessitavam mostrar sua potência econômica e para isso usavam da aparência de suas mulheres como vitrina desse poder. Isso fez com que os trajes dos homens burgueses passassem por uma “limpeza” de frufrus e detalhes estéticos, e isso fosse transportado e reforçado na figura feminina burguesa.
A Máquina de Costura
Desde 1755, homens como Karl Wiesenthall, Kremse e Madersperger promoveram algumas tentativas de se construir uma máquina de costura, mas isso só foi efetivado em 1830 pelas mãos do francês Barthélemy Thimonnier. No entanto, só a partir de 1856 foi que as máquinas de costura realmente se popularizaram, isso porque Isaac Singer, a partir dessa época, passou a vender a máquina de costura, reinventada por ele, por prestações. Isso fez com que muitas famílias das classes populares de várias partes do mundo pudessem adquiri-la. Foi também com
o Singer que a máquina de costura ganhou o formato que conhecemos até hoje. Isso foi de fato uma ação que promoveu a moda enquanto produção e repetição, colocando nas mãos de muitos a possibilidade de executar as ideias estéticas que antes eram caras e inacessíveis.
 (
Você
 
Sabia?
Com
 
a
 
invenção
 
da
 
máquina
 
de
 
costura,
 
em 1830,
 
pelas
 
mãos
 
do
 
francês
 
Barthélemy
 
Thimonnier,nasceu
 
a
 
primeira
 
oficina
 
para
 
a
 
construção
 
em
 
série
 
dessas
 
máquinas.
 
Isso
 
foi
 
considerado
 
pelos
 
costureiros
 
parisienses
 
uma
 
concorrência
 
perigosa.
 
Sendo
 
assim,
 
em
 
1831,
 
manifestantes
 
contrários
 
à
 
produção
 
de
 
tais
 
máquinas
 
destruíram
 
o
 
estabelecimento
 
que
 
as
 
fabricava.
)
Revista de Moda
Em 1797, foi lançado o Les Journal des Dameset des Modes na França. Isso impulsionou o acesso visual do que era vestido pelas senhoras da alta sociedade. Tudo exibido através dos chamados figurinos – ilustrações – expostos na revista por meio de ilustrações. Com o processo de evolução do próprio setor da imprensa, outros impressos passaram a divulgar os modos e, consequentemente, as modas da alta sociedade. Alimentando e realizando o desejo de se vestir como as damas da alta classe, de várias mulheres das classes menos favorecidas, através das várias cópias das imagens dos figurinos e da moda usada pela elite.
Os Grandes Armazéns
Surgidos em Paris e em Londres no século XIX, esses locais de comércio, de certo modo, educaram os consumidores no que diz respeito aos hábitos de compra de produtos feitos em série. Foi nesses armazéns que surgiram algumas formas de organização das vendas como vemos até os dias de hoje, como por exemplo a venda a valor fixo e a divisão por setores com vendedores específicos de cada seção.
Os Coifleurs
Antes mesmo de a figura do estilista existir, um outro profissional era tido como o protagonista no mundo da moda: o coifleur. Importantes profissionais no embelezamento da elite a partir da segunda metade do século XVIII, os cabeleireiros eram reconhecidos como figuras importantes, viviam como nobres, com belas roupas e casa com criadagem. Tudo fruto dos bem pagos serviços prestados às mulheres da alta classe. Eles carregavam em seu trabalho não só o valor material, mas também um valor de status social, resultado da ousadia com que realizavam o próprio ofício, com muita liberdade criativa, ao ponto de se considerarem artistas. Um dos principais e mais famosos coifleurs daquela época era o Le Gros, que se fez notar pelo excelente trabalho com seus maravilhosos penteados, mas também pela promoção de seu ofício. Foi o responsável pela fundação da Academia do Penteado, em Paris, onde ensinava suas técnicas e penteados aos criados das madames. Ele também, nos dias de maior movimento nas principais ruas de Paris, colocava várias moças com seus penteados para “desfilar” em meio a alta sociedade. Além de anualmente participar da feira de Santo Ovídio e de lançar publicações como divulgação própria.
O Alfaiate
No início da segunda metade do século XIX, surge em Paris a primeira loja onde se podia encontrar uma peça já pronta para a venda, isto é, diferentemente do que acontecia nas outras lojas, a cliente não encomendava a peça, ela já tinha ali uma sugestão pronta para compra. Essa loja era do Charles Frédérick Worth, costureiro que, a partir desse feito, elevou o trabalho dos alfaiates ao nível de artistas, por tirar das mãos das clientes a decisão sobre o que produzir, uma
vez que a peça era pensada e produzida sem a opinião delas. Isso acabou estimulando a liberdade criativa entre os costureiros e alfaiates a partir desse momento. Por isso ele é considerado o pai da Haute Couture, por promover a ação que fugia da repetição comumente executada pelos costureiros e alfaiates, até então.
As Mulheres
Como já vimos, com o surgimento da burguesia, o imagético do luxo, riqueza e adornos vestimentares foi ficando cada vez mais elaborado nos trajes femininos, efeito totalmente contrário ao que acontecia com a aristocracia. As mulheres, de alguma forma, passaram a ser usadas como “peças decorativas”, como propaganda do poder monetário de sua família burguesa. Cada vez mais, eram estimuladas a consumir as novidades oferecidas pelos coifleurs, pelos costureiros, pelas lojas, enfim, muito do espírito jovem, efêmero e passageiro da moda comercial que conhecemos hoje foi elaborado para e pelas mulheres, a partir dessa época. No entanto, apenas após a Segunda Guerra Mundial é que as mulheres passaram a serem realmente vistas como consumidoras, já que esse foi o período em que elas tiveram acesso ao próprio trabalho como fonte de liberdade econômica e assim puderam comprar e consumir o que realmente lhes interessava. Passaram a ter o verdadeiro poder de compra.
Prêt-à-porter
Apesar de já há algum tempo existirem peças prontas à venda, em lojas de departamentos ou armazéns, ou até em alguns ateliês, o prêt-à-porter (“pronto pra usar”) se estabelece de fato após a Segunda Guerra Mundial, entre as décadas de 1950 e 1960. Com a crise estabelecida nas maisons de luxo, houve a necessidade de se produzir peças mais simples e com custo bem menor que as peças da alta costura. Sem dúvida, uma saída da crise econômica para várias grifes e, por outro lado, o início da democratização da moda, estabelecendo a sua nova era a partir desse momento.
Como vimos, a moda – como a conhecemos hoje – percorreu um longo caminho até a nossa contemporaneidade. Ela foi sendo desenvolvida ao longo dos anos, desde o século XV, quando se originaram os primeiros acontecimentos que a promoveram e a desenvolveram, para que a conhecêssemos como ela se apresenta. E todos esses caminhos e essas mudanças foram
resultados de realizações e alterações ligadas a vários setores sociais como os costumes (o modo como se vivia), a economia, a religião, e tudo isso foi sendo absorvido e transmutado na cultura de cada época. Certamente, no futuro, todos esses elementos sociais passarão por uma revisão e serão comparados ao nosso tempo, isso é natural e inevitavelmente cíclico. Tudo que vivemos hoje, todo entendimento sobre vários assuntos a partir de diversas perspectivas, é de alguma maneira provisório. E assim como usamos a nossa percepção atual sobre esses fatores para balizarmos o que aconteceu no passado em relação ao nosso tempo, a sociedade futura constituirá um consenso próprio (a partir de suas vivências) como parâmetro de julgamento para si, em relação ao seu passado. Ou seja, o ciclo de percepção da mudança sempre existirá, principalmente quando relativizarmos o Zeitgeist do nosso tempo em relação ao espírito de um tempo passado. Esse movimento é na verdade a constatação de que verdadeiramente o passar do tempo é a melhor maneira para saber até que ponto as aceitações ou rejeições culturais dependem dos acontecimentos e condições sociais de sua época. E é por esse motivo que os fenômenos sociais atuais devem ser revisados futuramente.
Tudo isso é importante como background para entendermos como a imagem de moda também foi sendo – e ainda é – construída desde antes mesmo da percepção sobre ela como peça fundamental na moda. A moda sempre foi uma forma visual de expressão, ela está ligada intrinsecamente à aparência, ao imagético, ao figurativo. Não existe moda sem a imagem de moda e vice-versa, uma depende da outra para ser apreciada, absorvida e, por fim, consumida e é importante deixar óbvio que aqui não estamos fazendo julgamento quanto ao tipo ou qualidade da imagem de moda produzida ou apresentada, se ela é mais ou menos interessante ou que tipo de suporte físico foi utilizado para apresentar essa imagem – desenho, gravura, fotografia ou algum outro tipo. Pois muito antes que a imagem de moda existisse como a conhecemos, sempre existiram meios de divulgação e, consequentemente, meios de promoção do vestuário vigente, o que logicamente causava desejo por esses itens.
Meios e Imagens
A imagem de moda como a conhecemos não existe há muito tempo. Já os meios visuais de disseminação da moda sim e, assim como a própria moda, passaram por diversas fases de desenvolvimento e em diferentes épocas foram apresentados em distintos formatos.
Atualmente o que entendemos como imagem de moda é muito mais elaborado no visual e, sobretudo, conceitualmente do que podemos considerar como a imagem de moda do século XV ou XVI, por exemplo.
Para Calza (2011), em seu estudosobre diferentes meios de comunicação da difusão do sistema da Moda, existiram por diferentes épocas ou apenas em períodos específicos (determinados por costumes passageiros e efêmeros como a própria moda), alguns itens que serviram de propaganda do vestuário, principalmente o usado pela nobreza, os quais ele classifica como “representações iconográficas”. Ao mesmo tempo que a ideia de moda surgia, acontecia também o nascimento da imprensa (século XV) e isso reforçou de forma significativa a disseminação dos costumes vestimentares da nobreza durante a época. A seguir, serão apontados três (03) meios imagéticos importantes como fontes de propagação dos costumes de moda. Podemos também considerá-los precursores da imagem de moda, no sentido da transmissão e criação do desejo por ela.
Bonecas de Moda
Houve um tempo em que não havia tantas formas de comunicação visual como as que temos acesso hoje, principalmente os meios impressos. Por isso, antes mesmo da invenção e disseminação das referências de moda via impressão em papel, as chamadas bonecas de moda eram verdadeiras top models da época. Conhecidas também como Pandoras, as bonecas de moda já circulavam pela nobreza, muito restritamente, antes do século XV. Mas a sua difusão acontece mesmo no final do século XVII, com a ascensão das famílias burguesas, havidas pelas novidades da corte. Com o passar do tempo, elas tornaram-se um meio muito importante de divulgação da moda usada pelos nobres e burgueses da época, pois elas eram transportadas pela Europa inteira como verdadeiros modelos do bom gosto. Isso acontecia mensalmente e a partir de Paris, o que, aos poucos, foi firmando a cidade como centro referencial de moda. As peças do vestuário usadas pelas bonecas eram feitas com artigos de luxo, desde os tecidos utilizados em suas vestes como também as joias utilizadas e os materiais nobres dos adereços. Muitas até tinham cabelos humanos, apresentados em magníficos penteados que seguiam a estética e moda da época. Os nobres tinham profissionais que cuidavam especificamente de seu guarda-roupa e esse era o célebre caso da rainha Maria Antonieta da França, que era vestida pela Rose Bertin que também fazia uso das Pandoras, tanto para apresentar suas sugestões para a rainha, quanto para divulgar o seu trabalho e sua moda pela Europa. Segundo Braga (2009, p. 11), “ela ditou verdadeiramente moda e, em sua loja em Paris, mais do que roupas, apresentava também propostas para penteados, chapéus, joias e sapatos (...)”. Esse é um exemplo de toda a riqueza de estudos e detalhes repassados adiante através das bonecas de moda.
Publicações de Moda
Comparadas com as bonecas de moda, cuja fabricação e disseminação eram restritas, as gravuras de moda e outros tipos de impressão posteriormente desenvolvidas circulavam mais facilmente entre as classes da aristocracia e da burguesia. Principalmente depois do desenvolvimento das prensas tipográficas, que possibilitaram a produção de um modo de divulgação imagética da moda da época que custava muito menos que as próprias bonecas e, também, menos que algo como os desenhos, croquis ou ilustrações produzidos à mão, como acontecia anteriormente. Outro fator importante das imagens produzidas através da tipografia era a facilidade com que esse meio de exibição se constituía e se apresentava: figuras em folhas de papel. Isso acelerou a chegada das novidades, pois era muito mais fácil levar de um lado para o outro a informação de moda por meio da imagem. Para Calza:
“Essas representações iconográficas eram conhecidas como fashion costumes ou imagens de roupa, quando retratavam a indumentária do passado, construindo e apresentando a moda “após o acontecimento”; e, fashion plates ou imagens de moda, quando representavam e/ou difundiam algo contemporâneo e, talvez, até mesmo posterior à sua publicação – já observando-se aí o seu caráter estratificador, além das características presentes nos desenhos e imagens de moda atuais, que procuram apresentar criações antes destas serem confeccionadas.
Ademais, tais estampas e desenhos muitas vezes eram criados com base em retratos de personalidades da corte e da sociedade à época.”
- CALZA, 2011, p. 4-5 apud LAVER 1989, p. 144
Isso nos dá um parâmetro de entendimento sobre como a imagem de moda foi evoluindo conjuntamente às várias mudanças sociais ao longo de diversas épocas, até apresentar-se na forma como a conhecemos hoje.
Figura 2 – Maria Antonieta
Fonte: Wikimedia Commons
Gravura vintage de Maria Antonieta (1755 a 1793) durante o
reinado de Luís XVI, 1788. Nascida arquiduquesa da Áustria, foi rainha da França e Navarra de 1774 a 1792. Modos e trajes históricos 1864.
Entre os séculos XVI e XVIII, a forma de evolução desse meio gráfico de divulgação da imagem de moda foram as publicações onde a imagem não aparecia de maneira isolada, isto é, os livros, revistas e jornais onde essa iconografia de moda podia ser vista uniam às imagens os textos explicativos. Dessa forma, entende-se que existia nessa ação um certo interesse em promover a informação pretendida, para além do simples apreciamento da figura com a imagem de roupas e acessórios expostos, pois os textos geralmente possuíam um tom muito didático e explicativo, direcionando informações sobre matéria prima, como tecidos e outros materiais, e também sobre técnicas de modelagem e modo de confecção. Era a chamada imprensa de moda ou impressa feminina.
Fotografia
O próximo passo na evolução da construção do que é hoje a imagem de moda, e com certeza o mais influente nesse processo, foi o surgimento da fotografia e, posteriormente, a sua utilização no propósito de difusão desse meio de comunicação de moda. Isso acontece de forma mais abrangente no final do século XIX, quando a imagem fotográfica era realmente impressa a partir da cópia da imagem original, pois até então existiram outros processos distintos da impressão, mais caros e restritos, para inclusão da imagem fotográfica nas revistas, jornais e outros tipos de impressos com informações de moda. De acordo com Calza (2001 apud VAENA, 2004, p. 44):
“Uma das primeiras utilizações comerciais da fotografia com o intuito de documentar a Moda surge em 1850, com a criação de um novo formato: as fotografias cartes-de-visite, retratos de formato em miniatura, amplamente divulgados e comercializados para toda a população, por retratarem as celebridades
e nobres da época, em poses e trajes formais. Ademais, cabe também ressaltar a popularidade e a importância dos portraits e da coleção de fotografia, como a primeira tentativa de documentação fotográfica de figurinos e da Moda e do estilo dos sujeitos: o álbum de 288 fotografias da Condessa de Castiglione, produzido pelo estúdio Mayer and Pierson de Paris (1853 –1857).”
- CALZA, 2011, p. 12, apud VAENA, 2004, p. 44
Vimos que, inicialmente, a utilização da fotografia como meio de divulgação de moda deu-se aparentemente como substituição das ilustrações e gravuras já existentes. Mas, dentro do processo evolutivo da disseminação desse novo suporte técnico de comunicação, posteriormente, as fotografias passaram a ser usadas nas revistas, sendo que a partir desse momento houve particularidades técnicas que nortearam o uso da fotografia pelos meios impressos, como explicado abaixo:
As primeiras revistas a utilizarem a fotografia apenas as colavam diretamente na revista. Não existia ainda o processo de reprodução da imagem. Isso tornava o processo muito caro e a revista muito exclusiva, não suprindo o desejo da divulgação desejada;
Num segundo momento, chegou-se ao processo técnico da fotogravura, em que um profissional produzia uma gravura a partir de uma fotografia e depois fazia a matriz que seria usada para reprodução dessa imagem. Aqui a fotografia era usada apenas como referência;
Com a evolução dos processos mecânicos na indústria gráfica, a partir de 1880, a fotografia passou a ser reproduzida de forma impressa nas revistas de moda num processo direto, sem colagens ou pré-produção de uma gravura.
Figura 3
Fonte:Adaptada de Wikimedia Commons | Reprodução
Capas da revista Vogue, em diferentes edições (1894, 1912, 1921 e 1932, respectivamente, quando a revista incorpora pela primeira vez a fotografia de Edward Steichen, alternando o uso destes dois tipos de ilustrações e representações iconográficas a partir de então).
É certo que esses processos foram sendo utilizados pelos periódicos de moda, a partir de seus respectivos surgimentos, de forma combinada e complementar. Isso quer dizer que numa mesma revista podia haver as gravuras, as fotogravuras e a fotografias juntas. O que de certa maneira existe até os nossos dias, pois muitas vezes nos apropriamos de diversos tipos de linguagens visuais para comunicar a imagem de moda.
Composição da Imagem de Moda
Hoje a imagem de moda é considerada muito importante por si só, ela não é mais apenas um meio expositivo do produto, como acontecia nos primórdios da história da moda ocidental. Ela apresenta e representa todo um conceito que, para além de mostrar um item comercial, exibe uma mistura de lifestyle e propósitos de uma marca ou de quem a propôs. Por conta de toda a inovação tecnológica pela qual passamos, desde o século XV até hoje, cada vez mais ela está
presente e é disseminada através de diversas plataformas, sejam elas físicas, desde àquela época, ou digitais, muito mais comuns e usuais agora.
Vídeo
Levi's 1989 Pickup (Be My Baby)
Assista, a seguir, o comercial da Levi's de 1989.
Na prática, a imagem de moda é o resultado de uma pesquisa que está intimamente ligada à cultura visual e que se estabelece a partir de muitas áreas do conhecimento e da sociedade como um todo. Mas, apesar de ela poder ser elaborada a partir de qualquer ideia ou conceito imagético,
o primeiro pensamento sobre a sua construção é: para quem será criada essa imagem? Logicamente, atrelado ou a partir desse questionamento, surgem diversos outros pontos que são parâmetro para o seu desenvolvimento. Sendo que tudo isso sempre deverá ser guiado pelo ponto fundamental nesse processo que, como vimos acima, são os receptores dessa imagem de moda.
Atualmente, em um editorial, campanha ou qualquer outro tipo de trabalho que resulte numa imagem de moda para uma marca, toda sua produção deve estar alinhada com o valor que essa marca possui, tanto o imagético (o que a marca é, o que ela representa e como ela transmite a informação de moda, o seu propósito e o seu lifestyle) quanto o financeiro (metas de faturamento, vendas, expansão da marca). Isso não quer dizer que a matemática do desenvolvimento de uma imagem de moda seja exata (pesquisa + produção = imagem de moda = super retorno financeiro), mas o investimento nesse tipo de trabalho que é super criativo e conceitual exige, dentro de seus estudos, uma perspectiva alinhada com os ideais comerciais da marca que o contrata. Afinal, a criação de uma imagem de moda é, mercadologicamente falando, a execução de um serviço. E, assim sendo, a preocupação com resultados, palpáveis ou não, existe.
 (
Você
 
Sabia?
Diana
 
Vreeland
 
foi
 
quem
 
levou
 
para
 
as
 
revistas
 
de
 
moda,
 
mais
 
precisamente
 
para
 
a 
Harper's
 
Bazaar
,
 
a
 
ideia
 
de
 
imagem
 
de
 
moda
 
como a
 
conhecemos
 
hoje,
 
como
 
um
 
modo
 
de
 
se
 
contar
 
uma
 
história
 
usando
 
a
 
imagem
 
da
 
revista.
 
Isso
 
foi
 
desenvolvido
 
por
 
ela
 
durante
 
o
 
período
 
em
 
que
 
ela
 
permaneceu
 
como
 
editora
 
chefe
 
da
 
revista.
)
Segundo Façanha e Mesquita (2012), os vários elementos que compõem uma imagem de moda possuem relevância equivalente entre si. O interessante, e esperado, nesse processo é que a configuração imagética final, resultante da junção desses componentes, comunique emocionalmente a mensagem ao receptor final, ou seja, ao cliente. E para entendermos a relevância de cada um desses elementos que podem estar presentes numa imagem de moda, segue a descrição dos principais deles.
Locação
Basicamente é o local (geográfico) onde serão feitas as imagens e que, tanto podem servir de cenário por si só – exemplo: uma parede; a praia –, como também podem ser usados como base para um cenário específico – exemplo: um jardim com a parede de fundo; gazebo de descanso na praia.
Cenário
É a composição final formada pelos itens e objetos (elementos cênicos) que compõem a cena – exemplo: cena na praia com o gazebo, cadeiras de sol, guarda-sol, mesas, cortinas, toalhas.
Iluminação
Geralmente é decidida a partir da ideia conceitual da proposta e tecnicamente é pensada junto com o fotógrafo ou diretor de fotografia. Ela pode ser natural, artificial ou montada num mix com esses dois tipos de iluminação.
Fotógrafo
É muito importante contratar, para a execução do projeto de uma imagem de moda, um fotógrafo que tenha como referência estilística ideias ligadas ao conceito do plano que será executado.
Casting
É pensado e elaborado também a partir do conceito da história a ser contada com a imagem de moda que será produzida. É formado pelas pessoas que participam da cena, seja manequim, modelo, ator, figurante ou pessoas comuns.
Beleza
Aqui estão englobados os serviços de cabelo e maquiagem geralmente executados pelos beauty artists, que são contratados de acordo com a necessidade do projeto. Pois há conceitos onde o cabelo e a maquiagem é natural, sem muitos elementos a serem explorados. Já em alguns projetos, é preciso uma elaboração maior do que será executado – exemplo: uma maquiagem artística, com o uso de máscaras de látex ou elementos similares.
Edição
É o tipo de organização em que as peças, produtos ou acessórios serão apresentados. A edição é elaborada de maneira a valorizar o conceito. “A edição não é o que usamos para criar a imagem de moda, e sim como o usamos” (FAÇANHA; MESQUITA, 2012, p. 31).
Cor
Está ligada intimamente ao resultado da imagem de moda a ser produzida, pois ela acaba interferindo diretamente nos elementos da imagem, tanto de modo físico – quando as cores estão presentes na luz e sua incidência sobre determinado produto altera a sua cor, o seu tom – como de modo emocional – quando a composição das cores apresentadas na imagem final provoca determinadas sensações ao cliente ou expectador.
Conceito
“É a identidade da imagem” (FAÇANHA; MESQUITA, 2012, p. 32). É a partir dele que todo o processo se desenrola, através de uma decupagem das ideias que possam representá-lo e compor a imagem desejada. Mas, em alguns casos, o conceito vai tomando forma durante a feitura do projeto, principalmente quando os profissionais envolvidos têm liberdade de experimentação.
A partir da combinação desses principais elementos, que podem fazer parte ou não da imagem de moda, é que o stylist desenvolve o trabalho de produção de moda em busca de contar uma história que afete diretamente o público-alvo com a campanha a ser desenvolvida.
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Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
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 (
ACESSE
)
 Livro
Psicologia Fashion: Consultoria de Estilo, Imagem e Marca Pessoal
ALMEIDA, L. Psicologia fashion: consultoria de estilo, imagem e marca pessoal. São Paulo:
Dialética, 2020.
 Vídeo
O Poder da Imagem de Moda
 Leitura
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 (
ACESSE
)
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Referências
BALDINI, M. A invenção da moda: as teorias, os estilistas, a história. Lisboa: Edições 70, 2006. Disponível em: . Acesso em: 25/01/2022.
BRAGA, J. Histórias: Rose Bertin. dObra[s] Revista da Associação Brasileira de Estudos de Pesquisas em Moda, S. l., v. 3, n. 6, p. 10–12, 2009. Disponível em:
. Acesso em: 24/01/2022.
CALZA, M. U. Sobre a evolução da imagem em moda e meios. In: ABEPEM, Colóquio de Moda, 7., 2011, Maringá. Anais. Disponível em:
%202011/GT10/GT/GT_89473_Sobre_a_Evolucao_da_Imagem_em_Moda_e_Meios_.pdf>
. Acesso em: 27/01/2022.
FAÇANHA, A.; MESQUITA, C. Styling e criação de imagem de moda. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2012.
LIPOVETSKY, G. O Império do Efêmero: a Moda e seu Destino nas Sociedades Modernas. Tradução Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
MCASSEY, J. Styling de moda. Tradução: Mariana Bandarra. Scientific Linguagem Ltda; Revisão técnica: Fernanda Heizelmann. Porto Alegre: Bookman, 2013.
SOUZA, G. M. O espírito das roupas: a moda no século dezenove. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
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