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FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA Prof. Elton Vinícius Sadao Tada FILOSOFIA Marília/SP 2022 “A Faculdade Católica Paulista tem por missão exercer uma ação integrada de suas atividades educacionais, visando à geração, sistematização e disseminação do conhecimento, para formar profissionais empreendedores que promovam a transformação e o desenvolvimento social, econômico e cultural da comunidade em que está inserida. Missão da Faculdade Católica Paulista Av. Cristo Rei, 305 - Banzato, CEP 17515-200 Marília - São Paulo. www.uca.edu.br Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. Todos os gráficos, tabelas e elementos são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência, sendo de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Diretor Geral | Valdir Carrenho Junior FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 5 SUMÁRIO CAPÍTULO 01 CAPÍTULO 02 CAPÍTULO 03 CAPÍTULO 04 CAPÍTULO 05 CAPÍTULO 06 CAPÍTULO 07 CAPÍTULO 08 CAPÍTULO 09 CAPÍTULO 10 CAPÍTULO 11 CAPÍTULO 12 CAPÍTULO 13 CAPÍTULO 14 CAPÍTULO 15 06 12 21 28 38 47 58 67 74 83 89 97 103 111 117 POR QUE ESTUDAR FILOSOFIA? AS ORIGENS DA FILOSOFIA TEORIA DO CONHECIMENTO E EPISTEMOLOGIA FILOSOFIA GREGA: SÓCRATES, PLATÃO E ARISTÓTELES O HELENISMO OS MEDIEVAIS: A TEOLOGIA FILOSÓFICA A MODERNIDADE E A RAZÃO: DESCARTES E OS EMPIRISTAS ILUMINISMO OS MESTRES DA SUSPEITA AS DIVERSAS FORMAS DE ÉTICA A CRÍTICA SOCIAL: OS FRANKFURTIANOS ESTÉTICA E FILOSOFIA DA ARTE DIREITOS HUMANOS E FILOSOFIA FENOMENOLOGIA E HERMENÊUTICAS TEMAS ATUAIS EM FILOSOFIA FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 6 INTRODUÇÃO Alunas e alunos, este é o nosso material didático da disciplina de Filosofia. Esse material foi especialmente pensado para nossas necessidades no decorrer do curso, trabalhando com temas que apresentam pontos de maior contato com o curso de Teologia e com as demandas da formação teológica. Para contemplar nossos objetivos, escolhemos duas linhas transversais para serem seguidas. Uma das linhas é da história da filosofia, trabalhando com elementos desde a mitologia grega, anterior ao surgimento da filosofia, até elementos atualíssimos dos estudos filosóficos. A segunda linha é temática, contemplando assim os principais pontos que precisamos pensar para as reflexões em nosso curso. Esses temas abordam questões de ontologia, ética, política, teoria do conhecimento, estética e hermenêutica. O fato de trabalharmos com a filosofia como uma ciência em diálogo com a teologia não deve tornar nossos objetivos mais próximos de algum tipo de filosofia religiosa. O que precisamos trabalhar, de forma geral, são as estruturas filosóficas que dão sustentação para uma reflexão profunda e sistemática. Assim, aprendendo as bases da filosofia, podemos desenvolver nossas habilidades de reflexão em sentido profundo. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 7 CAPÍTULO 1 POR QUE ESTUDAR FILOSOFIA? Existem diversos motivos para o estudo da filosofia, mas nós precisamos conversar mais sobre o que nos interessa de forma partícula, o estudo da filosofia como parte do percurso de formação do ensino superior. Sem fazermos uma regressão muito ampla, podemos pensar um pouco sobre o caráter da filosofia. Ela é uma matéria que tem sua origem na antiguidade grega, e justamente por isso está nas bases da estrutura de pensamento ocidental. As demais disciplinas vão surgindo da especialização e se separando filosofia de acordo com as mudanças da história. A filosofia é uma ciência reflexiva. Na origem do termo, filosofia significa amar o conhecimento, ou seja, ter uma relação de encontro e dedicação com a função racional e reflexiva da vida. Obviamente, essa definição é muito ampla e não funciona na prática para mostrar a função da filosofia. Inclusive, o amor ao conhecimento não explica, por si só, a necessidade dessa disciplina. Assim, podemos pensar que é possível definir algo a mais no trabalho filosófico. Quando não é fácil fazer uma definição pela via positiva (dizendo o que é), sempre temos a possibilidade de fazer a definição pela via negativa (dizendo o que não é). Se você pensar que a matemática é a ciência que dá base para os cálculos, é fácil diferenciar o trabalho da matemática em relação à filosofia. Entretanto, se você perguntar “o que é um número”, pode fazê-lo tanto a partir da matemática quanto a partir da filosofia. O método utilizado para responder é o que define s o trabalho é filosófico ou matemático. Portanto, se você quer pintar uma parede, e precisa saber quantos metros quadrados serão pintados para definir quanta tinta deve comprar, é bem melhor que você utilize uma metodologia matemática. Multiplicando os dois metros de largura da parede pelos três metros de altura você saberá que precisa comprar tinta suficiente para pintar seis metros quadrados. O filósofo e a filósofa talvez perguntem se realmente é necessário ´pintar aquela parede e se o custo da tinta vale o benefício da renovação de cor. Nesse sentido, a filosofia pensa sobre as coisas, sem necessariamente tentar responder a seus objetivos finais. O pensamento é feito porque é possível e válido. Portanto, a filosofia não tenta responder às especificidades que as ciências respondem por si só. Essas questões devem ser respondidas cada qual por sua própria estrutura FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 8 científica. Por outro lado, a filosofia está disposta a pensar – e possui ferramentas para isso – sobre questões que ninguém mais se dispõe a fazer. Além disso, a filosofia possui seus próprios temas clássicos. O primeiro deles é o que se chama de ontologia, ou o estudo do ser. A ontologia não responde apenas “quem eu sou” com uma pergunta identitária pessoal, mas também e principalmente como é possível que as coisas todas sejam o que são e não sejam o que não são. As coisas que existem possuem uma estrutura de ser, uma base, e uma forma de apresentação, uma imagem. Aquilo que existe também possui limites, sendo que para além deles há o não ser, aquilo que não é. Nós conhecemos muito essa estrutura a partir da reflexão sobre a vida. Nós passamos a existir no mundo ao nascermos e deixamos de existir ao morrermos. Dentro desses limites há vida, fora dele não há, pelo menos não a vida como a conhecemos. Outro tema próprio da filosofa é o que é certo e o que é errado. Esse tema é trabalhado pela ética. A ética é pensada em alguma escala pelas mais diversas ciências e até mesmo fora delas, no conhecimento popular. Quando você, ao chegar em casa, percebe que recebeu cinquenta reais a mais de troco em uma compra que fez em uma loja, reflete sobre o que deve fazer com aquele dinheiro, está desenvolvendo uma reflexão ética. A partir dessa reflexão, você pode decidir retornar à loja e devolver o dinheiro. Como existem diversas situações na vida que são corriqueiras e repetidas, existem códigos de ética e de moral que regem o funcionamento básico da sociedade. Entretanto, algumas coisas não acontecem com frequência ou ainda não foram incorporadas pela sociedade, de modo que é necessário que se faça uma ampla reflexão sobre a correção de determinada atitude. Sempre que surge um novo desenvolvimento técnico, surge também a demanda por uma reflexão que sustente essa técnica. Foi assim com a reprodução in vitro, com a clonagem, com o congelamento de óvulos e o descarte de embriões. O mesmo acontece quando surgem novas leis, novos remédios e drogas, novas formas de comunicação, novas organizações sociais. A ética funciona, portanto, como um ponto de apoio para o qual se volta sempre que é necessário decidir sobre a correção de uma atitude do ser humano. Além de pensar o que é correto, a filosofia tambémpelo músico e etc (PEREIRA, 2017, p.42). A finalidade é aquilo para o qual algo é destinado, seu sentido final, seu objetivo como tal. A teoria das quatro causas de Aristóteles permite sua definição teológica mais central, sua ideia de que existe um primeiro motor que é imóvel e que pode mover todas as coisas sem ser movido por força alguma externa a si mesma. Essa seria a base de uma ideia aristotélica de deus. A teoria aristotélica do motor imóvel se fundamenta no argumento da existênciade uma coisa movida e de um motor movido, o que implica a existência de um motor não movido. Isso evidentemente não impede que, entre a coisa movida e o motor imóvel, exista uma cadeia de motores, na qual cada um mova o seguinte.O exemplo recorrente, trazido pelo Estagirita, é o de um homem que empurra uma pedra com a ajuda de um bastão. O próprio bastão, que move a pedra, é movido pela mão, assim como a mão também é movida por esse motor antecedente, que será tanto a sua alma, como o objeto de seu desejo(Física VIII 5). Deve-se acrescentar que um elemento- chave dessa cinética, e que foi a origem de sua derrocada, é que todo FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 38 motor imóvel não deve atuar, ao longo da realização do movimento do qual é motor, ignorando, assim, o princípio do ímpeto e da inércia, fundamentos da física moderna.Aristóteles admite a existência de múltiplos motores imóveis, que seriam divinos, mas sustenta que apenas um pode ser o primeiro motor, no qual confluem uma causa eficiente e uma causa final, ou seja, algo que atua, como agente externo das mudanças, e um fim, para o qual as coisas tendem (VALOIS, 2021, p.39). Com essas explicações, podemos ver as noções básicas do pensamento de Sócrates, Platão e Aristóteles, a tríade que marca a era clássica da filosofia grega e que lança base para o desenvolvimento de toda a filosofia ocidental. ISTO ESTÁ NA REDE Veja no vídeo a seguir uma comparação entre os pensamentos de Platão e Aristóteles, especialmente em suas concepções de mundo e de metafísica: https://www.youtube.com/watch?v=NFMeZls5DQk ANOTE ISSO Quando pensamos na tradição religiosa e teológica ocidental é muito importante pensarmos sobre a influência dos pensamentos de Platão e Aristóteles sobre a constituição do pensamento cristão. É bom lembrar que tanto geográfica quanto temporalmente esses seriam dois pensamentos que estariam à disposição dos primeiros pensadores cristãos e em muitos pontos se assemelha com as ideias cristãs de Deus e de sagrado. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 39 CAPÍTULO 5 O HELENISMO Para o estudo das correntes filosóficas helênicas trabalharemos com quatro correntes, a saber, o ceticismo, o epicurismo, o estoicismo e o cinismo. Com estudo dessas quatro correntes teremos uma noção bastante precisa do desenvolvimento da filosofia e do pensamento ocidental no período helenista, estruturando bases para o desenvolvimento de uma história da filosofia. Ceticismo O ceticismo não é uma corrente uníssona, mas sim uma base a partir da qual se desenvolvem diferentes correntes, sendo as duas principais a do ceticismo acadêmico e do ceticismo pirrônico. Vejamos primeiro o ceticismo acadêmico: O ceticismo acadêmico floresceu no terceiro século A.C. sob a direção dos escolarcas Arcesilau e Carnéades. Nascido na Ásia Menor, Arcesilau (315-241 A.C.) estudou matemática e em Atenas foi discípulo de Teofrasto, sucessor de Aristóteles no Liceu. Transferiu-se posteriormente para a Academia e no ano de 270 A.C. foi eleito o novo chefe da escola platônica. Sob sua liderança a Academia passa a adotar uma postura mais crítica com relação à herança filosófica de Platão e, inspirando-se sobretudo em diálogos aporéticos como o Teeteto e o Parmenides, passa a defender uma prática dialética livre de dogmas inspirada na sentença de Sócrates “Só sei que nada sei” (DA COSTA, 2014, p.46). Temos aqui, portanto, dois nomes principais para os quais devemos direcionar nossos olhares, o primeiro seria o de Arcesilau e o segundo de Carnéades. Arcesilau teria sido aquele que fez uma reforma na Academia, lembrando que academia, nesse caso, diz respeito àquela escola fundada por Platão, na qual foi desenvolvida grande parte da filosofia grega da época. A academia possuiu basicamente três fases, sendo a primeira a de Platão, a segunda a de Arcesilau e a terceira de Lácides. Carnéades também pertenceu a essa mesma academia, sendo esse o motivo pelo qual essa corrente do ceticismo é chamada de ceticismo acadêmico. Essa escola, que se estruturava basicamente a partir do pensamento de Sócrates e que exprimia traços de negação extrema do conhecimento, foi recebida por críticas tantos por outras correntes de pensamento quanto por outros céticos do período: FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 40 A negação do conhecimento certo e infalível empreendida pelo ceticismo acadêmico encontrou resistência não somente entre as escolas filosóficas dogmáticas, mas também, como visto anteriormente, entre os céticos pirrônicos. Estes acusavam os acadêmicos de dogmatismo negativo, pois, se os estoicos eram dogmáticos porque afirmavam a possibilidade de um conhecimento certo e indubitável da natureza última das coisas, os acadêmicos eram igualmente dogmáticos porque negavam peremptoriamente a possibilidade de tal gênero de conhecimento (DA COSTA, 2014, p.46). Ora, nesse ponto, já podemos entender que o ceticismo se trata, antes de mais nada de uma atitude de negação do conhecimento infalível, ou seja, de uma atitude a partir da qual todo conhecimento deveria ser posto à prova. A diferença, portanto, nas correntes do ceticismo está no quanto o conhecimento pelos sentidos é descreditado e na forma que a argumentação é feita. Vejamos, assim, a segunda escola cética, o ceticismo pirrônico. Pirro de Élis Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pirro_de_%C3%89lis#/media/Ficheiro:Pyrrho_in_Thomas_Stanley_History_of_Philosophy.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 41 Mesmo tendo como referência o nome de Pirro de Élis, a escola pirrônica não foi de fato construída por ele. Pouco se sabe a respeito do próprio Pirro. O que se sabe é que esse pensador teria influenciado no pensamento de Enesidemo, esse sim, dissidente da academia e crítico do pensamento de Arcesilau e Carnéades: Enesidemo, nascido provavelmente em Creta, fez seus estudos em Alexandria e posteriormente juntou-se à Academia. Abandonou a escola platônica denunciando o que entendia ser o dogmatismo negativo de Arcesilau e Carnéades e formulou uma série de dez argumentos chamados “tropos” ou “modos” em que tenta mostrar a incapacidade dos sentidos de descobrir a natureza das coisas que percebe. Além desses argumentos, outros oito “tropos” sobre a causalidade foram formulados pelo pensador cretense, nos quais mostra as falácias envolvidas nas diversas doutrinas sobre a causalidade (DA COSTA, 2014, p.48). Apesar de sua marca como fundador da corrente cética pirrônica, Enesidemo não foi seu principal representante, sendo que este título foi tomado por um médico chamado de Sexto Empírico. Sexto não apenas exercia a medicina, mas se dedicou também a compilar o pensamento cético, defendendo a corrente pirrônica em detrimento da corrente acadêmica: Nascido na Grécia durante o segundo século da era cristã e tendo aparentemente estudado em Atenas e Alexandria, o médico Sexto chamado Empírico (os empíricos eram uma escola de medicina) foi o principal divulgador do ceticismo no mundo antigo romano. Sua obra nada tem de original, sendo basicamente Sexto um compilador das ideias dos céticos que o antecederam. A importância de seus escritos reside justamente no fato de reunirem de forma sistemática os argumentos tradicionais do ceticismo contra as pretensões gnosiológicasdos filósofos dogmáticos (DA COSTA, 2014, p.48). Note que há um grande período de tempo entre Enesidemo e Sexto Empírico, marcando a longa duração da escola cética. Sobre o pensamento de Sexto Empírico e dos céticos perrônicos, devemos saber basicamente que existe ali uma ideia de necessidade de contínua investigação, na qual não se estabelece um dogma final, fazendo-se apenas relatos parciais a partir da investigação filosófica: FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 42 Logo no início do Hipotiposes Pirrônicas, Sexto Empírico afirma existirem basicamente três tipos de filosofia, as quais representam três atitudes frente aos resultados possíveis de uma pesquisa filosófica. Ao fim de uma investigação, pode-se afirmar a obtenção de uma verdade, ou a inapreensibilidade da mesma ou ainda continuar buscando a resposta. O primeiro caso, segundo Sexto, é o dos dogmáticos como Aristóteles, Epicuro e os estoicos que pretendem haver alcançado a verdade sobre os seus objetos de investigação. O segundo é o caso de Arcesilau e Carnéades da Academia platônica que negavam qualquer possibilidade de conhecimento certo da natureza última das coisas25 . Os céticos representam o terceiro caso, pois nada afirmam ou negam, apenas seguem buscando e investigando. Sexto é cuidadoso o suficiente para enfatizar que qualquer argumento ou afirmação que fará dali por diante em seu livro deverá ser tomado não como uma postulação de que as coisas realmente se dão como é dito, mas que ele estará somente relatando cada fato como lhe aparece naquele momento, à maneira de um cronista26 . Cumpre notar que, já nas primeiras páginas de sua obra mais importante, o médico grego fornece ao leitor uma das chaves- mestras da interpretação do ceticismo pirrônico: o cético não nega ou afirma, somente se atém ao que lhe aparece no momento e segue buscando (DA COSTA, 2014, p.48). Passemos agora à análise do epicurismo. Epicurismo Na Atenas de IV séculos a.C. surgiu um pensador chamado de Epicuro de Samos. Os escritos desse pensador, bem como seus ensinamentos em sua escola, conhecida como “Jardins”, deram base para o desenvolvimento de uma corrente chamada de epicurismo. O epicurismo possui uma forte tendência ética e é centrada em questões mais materialistas, deixando de lado a problemática mais metafísica. Epicuro desenvolveu uma filosofia muito voltada para a qualidade de vida, sendo que no centro dessa discussão encontra-se a ideia de prazer. Para o filósofo, deveria ser buscado um prazer moderado e uma apreensão do funcionamento do mundo para prever os eventos futuros. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 43 Epicuro Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Epicuro#/media/Ficheiro:Epikouros_BM_1843.jpg No esforço de construir sua filosofia voltada para a materialidade da vida, focando inclusive os desejos e medos do ser humano, Epicuro negou boa parte dos ensinamentos da tríade clássica Sócrates, Platão e Aristóteles: É curioso notar, ainda, que o pensamento de Epicuro, que se opôs às ideias centrais dos platônicos, aristotélicos e estóicos, deu origem a uma tradição filosófica homogênea, a ponto de se poder dizer que o pensamento de Epicuro e o epicurismo são praticamente idênticos. Alguns de seus seguidores foram Hermarco, Polistrato, Metrodoro de Lâmpsaco, Timócrates etc., os quais, apesar de suas variantes pessoais, apresentaram um pensamento bastante próximo ao do mestre Epicuro. Como dizíamos acima, é justamente no quadro de uma experiência cosmopolita do mundo que Epicuro elabora sua filosofia. Talvez por isso se compreenda que o eixo de seu pensamento seja a ética, ou melhor, que a sua filosofia seja fundamentalmente uma ética, pois se percebe que seu pensamento procura responder não apenas teoricamente, mas existencialmente às interrogações postas pelos indivíduos do novo mundo, em face da tarefa de sua auto-realização. Em outros termos, seu interesse exprimia-se pelas três perguntas que Kant, muito posteriormente, iria consagrar como as três tarefas da filosofia: saber O Que Conhecer, Como Agir e O Que Esperar. Em síntese, Epicuro talvez tenha sido o primeiro a elaborar uma filosofia que fosse, ao mesmo tempo, visão de mundo e forma de vida² (SAVIAN FILHO, 2009, p. 13). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 44 Nesse sentido, a filosofia de Epicuro é amplamente uma filosofia prática, uma filosofia voltada para a forma de viver. Esse elemento salienta que o núcleo da filosofia epicurista é uma ética materialista que tenta encontrar os caminhos para uma Eudaimonia, ou seja, felicidade. Na busca pela felicidade, Epicuro e os epicuristas debatem a questão do desejo, entendendo a necessidade um prazer moderado aliado a um cuidado com a saúde do corpo e da alma: O desejo, assim, “brota” no indivíduo; não depende de nenhuma ponderação dele. Justamente por isso é que Epicuro insistia na necessidade de adquirir um conhecimento seguro dos desejos, pois esta seria a condição para bem direcionar toda escolha (aíresis) ou recusa (phygé) da saúde do corpo (sómatos hygíeia) e da serenidade da alma (psychês ataraksía). Obter a saúde do corpo e a serenidade ou imperturbabilidade da alma constitui, segundo Epicuro, a finalidade da vida feliz. Para ele (cf. § 13), tudo o que fazemos visa afastar a dor e o medo, ou seja, obter a saúde do corpo e a serenidade da alma. Esse estado de completude associa-se diretamente ao que Epicuro chamava de prazer (hedoné). A vida feliz, portanto, será uma vida de prazer, mas não qualquer prazer, e sim o da completude da saúde do corpo e da serenidade da alma. (SAVIAN FILHO, 2009, p. 16) Se o prazer, por um lado, é o elemento a ser buscado, a dor é o elemento a ser evitado. Assim, não se trata de buscar um prazer a qualquer custo, mas sim o de equilibrar prazeres e renúncias em prol de uma completude, encontrando saúde e tranquilidade. Estoicismo Ao contrário do pensamento epicurista, que centrava a questão do prazer, o estoicismo centrava o autocontrole, a abnegação. A palavra central do estoicismo é a virtude, que é uma prática pensada, um treinamento em prol de um comportamento considerado mais correto. Entretanto, o que seria essa ideia de correção? A correção estava voltada para o fluxo da natureza. Assim, negar o desejo em prol de uma adequação com a realidade das coisas naturais seria o foco da virtude estóica. Historicamente, o estoicismo se desenvolveu como uma longa corrente de pensamento helênica: FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 45 O estoicismo perdurou por um considerável tempo na antigui-dade. Devido a essa extensão temporal, ele foi dividido em três fases: antigo, médio e imperial. O principais representantes do período antigo são Zenão, Cleantes e Crisipo, que conduziram a escola ainda em Atenas. Posteriormente, para além dos limites atenienses, Panécio e Possidônio se destacaram na continuida-de dos ensinamentos, sendo responsáveis também por uma es-pécie de sincretismo filosófico (Sedley, 2006, p. 21-26). Por fim, à época do império romano, podemos destacar alguns nomes como Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio (DA LUZ, 2019, p.110). Sendo seu fundador considerado Zenão do Chipre, talvez, seu principal representante tenha sido Sêneca. Esse é um dos autores que temos textos que chegam até nós e a partir dos quais podemos entender um pouco sobre o pensamento estóico. Sêneca Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9neca#/media/Ficheiro:Duble_herma_of_Socrates_and_Seneca_Antikensammlung_Berlin_07.jpg https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9neca#/media/Ficheiro:Duble_herma_of_Socrates_and_Seneca_Antikensammlung_Berlin_07.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 46 Assim como as outras correntes helenísticas, o estoicismo também possuiu forte tendência ética, voltando suas investigaçõespara os modos corretos do bem viver. No que se refere à doutrina, um dos aspectos mais rele-vantes, que perpassou todas essas fases, foi a questão da busca por uma vida boa, sábia – nomeadamente a parte ética da doutrina. De acordo com os estoicos, a vida boa é aquela que se conecta plenamente ao momento, ao acontecimento (Deleuze, 2011, p. 149), é a que se concretiza naquele que consegue se compatibilizar devidamente ao fluxo das coisas; é a que não precisa de algo a mais para ser feliz, pois nada a insatisfaz; é a que não se frustra com o que ocorre, porque consciente de que é o estado de espírito perante as situações que realmente importa na consideração de quão sabiamente se vive. Para alcançar a fortaleza da pessoa sábia perante as oscilações da fortuna é preciso reagir de forma correta ao que se apresenta. Isso ocorre por meio do assentimento correto às representações, visto que estas intermedeiam a nossa relação com o mundo (Acad., I, 40–421). No entanto, é importante ressaltar que a habilidade nas representações não se confunde com uma habilidade genérica ou superficial no seu manuseio (como ocorre na sofística), mas à aplicação correta e constante de bons assentimentos de maneira a firmar e estabilizar uma disposição, tornando-a virtuosa (Boeri, 2007, p. 311-312) (DA LUZ, 2019, p.110). O estoicismo é, portanto, em resumo, uma corrente que aponta para as coisas que precisam ser suprimidas no comportamento humano em prol da construção de virtudes que levam, em última instância, à felicidade, final último de toda a vida consciente. Cinismo O cinismo é uma das escolas de filosofia helênica que ganhou grande proporção em seu tempo e que tem sido sempre estudada ao longo do pensamento ocidental. Enquanto seu fundador, Antístenes, pregava uma forma de seguir a natureza para encontrar a felicidade, seu principal personagem Diógenes de Sinope extremou seus princípios, pregando uma atitude de saída da lógica da sociedade. Para Diógenes existia na sociedade um sistema de valores que confundiam os valores reais da natureza, de modo a relevar questões menos importantes e diminuir questões mais importantes. Por isso, o cinismo se desenvolve como uma atitude de descrença em relação às atitudes humanas, que podem ser enganosas. Como consequência do pensamento cínico, há uma atitude de autarquia, ou seja, de autosuficiência que o indivíduo deveria ter em relação à sociedade. Essa autosuficiência poderia levar a práticas ascéticas, ou seja, de afastamento da vida comum. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 47 Diógenes de Sínope Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Di%C3%B3genes_de_Sinope#/media/Ficheiro:Jean-L%C3%A9on_G%C3%A9r%C3%B4me_-_Diogenes_-_Walters_37131.jpg ISTO ESTÁ NA REDE O vídeo a seguir mostra de forma resumida o papel do Helenismo na filosofia antiga e suas principais configurações. https://www.youtube.com/watch?v=gPzwTNHtYq8 ANOTE ISSO Para quem estuda Teologia, o estudo do período helênico é importante porque mostra as bases do pensamento que estava em voga nos séculos finais antes do período cristão e nos séculos iniciais da era cristã. Assim, eram basicamente as correntes que estavam valendo no momento da formação do cristianismo primitivo e da fundação do cristianismo como religião e como teologia. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 48 CAPÍTULO 6 OS MEDIEVAIS: A TEOLOGIA FILOSÓFICA A idade média é um grande período do pensamento ocidental e possui suas características específicas. Vale a pena entendermos que existe uma diferença entre a perspectiva histórica e filosófica dos períodos. Enquanto a história costuma marcar os períodos a partir de grandes eventos políticos e bélicos, a filosofia marca seus períodos pela mudança de pensamentos e perspectivas. Diferença entre Patrística e escolástica Uma das grandes distinções que devem ser entendidas na idade média são as duas principais correntes de pensamento do período, a patrística e a escolástica. A patrística é a corrente de pensamento que marca o início do medievo. Na verdade, a patrística se inicia no final da antiguidade, quando existe relação entre o surgimento do cristianismo com a filosofia greco-romana. Se o cristianismo surge como um movimento popular de cunho bastante prático, logo em seguida há um esforço pela teorização da religião, ou seja, pela tentativa de explicar em termos teóricos os ensinamentos cristãos. Esse esforço marcou um empenho mútuo da filosofia com a teologia, sendo que uma das grandes tentativas do período foi a de defender o pensamento cristão. Nesse sentido, a patrística teve um cunho apologético, ou seja, de defesa da fé. Já a escolástica é a corrente de pensamento desenvolvida por um cristianismo muito mais estruturado, que estava no poder político e econômico da segunda metade do medievo. A escolástica se diferencia da patrística em grande parte por conter um apelo maior ao pensamento de Aristóteles, filósofo grego que de certa forma foi recuperado pelo pensamento ocidental a partir do movimento ao oriente feito nas grandes cruzadas. O pensamento escolástico está muito ligado ao surgimento e desenvolvimento das universidades europeias. Tendo os principais dogmas do cristianismo já desenvolvidos, a escolástica se dedica a um estudo mais sistemático e intelectualizado da fé cristã com os recursos de seu período histórico. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 49 Apesar do pensamento medieval ser construído por uma grande variedade de pensadores, nos deteremos aqui ao estudo de três deles, sendo Agostinho de Hipona, Anselmo de Cantuária e Tomás de Aquino, pensadores esses que viriam a se tornar santos da Igreja. Agostinho de Hipona Santo Agostinho de Hipona foi um importante pensador da patrística, possivelmente o mais importante pensador desse período. É um autor importante não apenas por seu pensamento, mas também por sua biografia, que é até hoje muito lida e estudada em todo o universo cristão. A particularidade da biografia de Agostinho é sua conversão tardia ao cristianismo e sua mudança de vida a partir da mesma. Em sua obra chamada “Confissões” Agostinho conta em primeira pessoa a transformação que ocorreu em sua vida. Quando jovem, viveu uma vida de libertinagem, voltada aos prazeres carnais. Mais tarde aderiu a uma corrente de pensamento chamada de maniqueísmo, que pode ser resumida como a crença na existência de poderes bons e maus que se chocam, gerando um constante confronto no ser humano. Ao se converteu para o cristianismo, Agostinho começa a deixar de lado os princípios do maniqueísmo e passa a desenvolver seu sistema de pensamento com base nos ensinamentos cristãos. Com isso, o problema da natureza humana é inserido na discussão da antropologia cristã, da queda e da graça, bem como na constituição de uma ideia de mal. O problema do mal, pensado constantemente por Agostinho, estava no cerne de sua compreensão da ideia de Deus e da natureza humana: Agostinho, no decorrer de sua trajetória intelectual, demonstrou grande inquietação em relação à questão do mal. Para evidenciarmos essa profunda inquietação, podemos ressaltar uma significativa passagem das Confissões, onde Agostinho menciona a questão que o acompanhou durante a vida: “Qual a sua origem, se Deus, que é bom, fez todas as coisas? Sendo o supremo e sumo Bem, criou bens menores do que Ele; mas, enfim, o Criador e as criaturas, todos são bons. Donde, pois, vem o mal”? (COELHO, 2003, p.13). Veja que a questão levantada por Agostinho segue um princípio bastante lógico e corresponde a um problema próprio da ideia de criação. Se Deus, em sua absoluta bondade cria tudo o que existe, ele teria também criado o mal? A criação do mal não FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 50 implicaria na falta de bondade da parte de Deus? Se esse fosse o caso, não poderiaser Deus a origem do mal, portanto o mal teria sido criado por alguma outra força. Entretanto, a ideia de que outra força teria criado o mal é própria da filosofia maniqueísta a qual Agostinho já julgava não ser suficiente para resolver suas questões filosóficas: Simpatizante, por alguns anos de sua vida, da seita gnóstica dos maniqueus, o bispo de Hipona compactuou com o dualismo ontológico estabelecido pela mesma. Neste dualismo ontológico, bem e mal seriam princípios originários: o bem representaria a luz. O mal (ou matéria) representaria as trevas. De acordo com a doutrina dos maniqueus, o mal se justificaria em função de o ser humano ser definido como uma mescla de corpo e alma. O corpo (matéria) seria a causa do mal, o que isentaria o homem de responsabilidade na causa deste (COELHO, 2003, p.13). Com o desenvolver de seus estudos, e especialmente a partir do contato com o pensamento de Plotino e de sua ontologia, Agostinho passa a considerar que a divisão do bem e do mal derivada da divisão do corpo e da alma como algo limitado: Através da leitura de filósofos neoplatônicos, sobretudo Plotino, onde apreendeu a noção de participação e o conceito de não-ser como equivalente ao nada, Agostinho muniu-se de argumentos que lhe seriam fundamentais para resolver a questão do mal. Travando contato com a leitura do apóstolo Paulo, Agostinho descobre a necessidade da humildade cristã em detrimento do orgulho racionalista que o habitava. Passa a perceber que a plena sabedoria e felicidade residem em Deus, e que, para alcançá-Lo, é preciso transcender a razão. A conversão agostiniana à fé cristã foi decisiva e serviu como alicerce para o bispo de Hipona responder satisfatoriamente ao problema referente ao mal. É pela crença num Deus sumamente bom, que criou todas as coisas a partir do nada, que Agostinho supera a teoria dos maniqueus (COELHO, 2003, p.13). Agostinho chega então à sua fórmula central que é a ideia de que Deus criou todas as coisas e que criou as coisas como sendo boas. O pecado, e o mal como seu derivado seriam o distanciamento de Deus. Uma decorrência lógica da preocupação com o mal, com a criação e com a possibilidade do ser humano de fazer o mal é a questão do livre arbítrio, também muito tematizada por Agostinho. O livre arbítrio, para o filósofo é um livre arbítrio para o bem, pois não há na natureza humana uma liberdade deliberada para o mal, FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 51 mas apenas a possibilidade da aproximação e do distanciamento de Deus, que é o sumo bem. Agostinho de Hipona Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Agostinho_de_Hipona#/media/Ficheiro:Saint_Augustine_by_Philippe_de_Champaigne.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 52 Anselmo de Cantuária Outro filósofo medieval que precisamos trabalhar para entender o pensamento do medievo é Santo Anselmo de Cantuária. Santo Anselmo nasceu em 1033 e viveu até 1109, sendo portanto um homem do século XI. Foi um monge beneditino inglês e chegou a ser arcebispo de Cantuária. Anselmo de Cantuária foi um dos primeiros pensadores escolásticos, buscando portanto uma racionalização dos princípios cristãos a partir da lógica filosófica. Santo Anselmo de Cantuária Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Anselmo_de_Cantu%C3%A1ria#/media/Ficheiro:Anselm-CanterburyVit.jpg Anselmo determinou que a fé deveria preceder a compreensão, de modo a acreditar que sua fé deveria ser direcionada para a racionalidade e não o contrário. Nesse FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 53 sentido, apesar de todo seu esforço racional, não acreditava que a crença derivava da compreensão, mas o contrário. Dentre seus trabalhos, talvez o que devemos ressaltar são as provas ontológicas da existência de Deus. Devemos ressaltar duas obras, o “monologion” e o “proslogion”. O monologion seria a prova única da existência de Deus. O proslogion é uma explicação que o autor lança posteriormente como uma forma de rebater as críticas e apresentar respostas a seus leitores. A argumentasção de Anselmo sobre a existência de Deus pode ser resumida em uma frase, “Deus é aquilo que não pode se pensar nada maior”: O Proslogion pode ser dividido em duas partes: dos capítulos 2 a 4 pretende-se provar a existência de Deus, enquanto que no restante da obra, capítulos 5 a 26, pretende-se provar a natureza de Deus5 (Cf. Barth 5, p. 81). Nas duas partes, o núcleo da argumentação de Anselmo é o “algo tal que não se pode pensar nada maior”. O primeiro ponto que é preciso levar em consideração é a origem dessa frase. Anselmo diz crer que Deus é algo tal que não se possa pensar nada maior, contudo, mesmo que se procure intensamente nas Escrituras não se encontrará Deus sendo nomeado dessa forma. Então, de que maneira pode Anselmo dizer que crê nisso? A resposta surge quando se compreende que, para Anselmo, as conseqüências lógicas das Escrituras corretamente interpretadas devem ser, conjuntamente com as Escrituras, verdadeiras. A partir disso, vê-se que crer em Deus como algo tal que não se possa pensar nada maior não é uma difi culdade para Anselmo, pois tal designação não entra em confl ito com as Escrituras (COSTA, 2005, p.159). Note que não há uma busca de justificação do argumento a partir das escrituras bíblicas, mas sim a tentativa de apontar para uma compreensão lógica que se enquadre com o pensamento bíblico. Como consequência de que Deus é aquilo que não se pode pensar nada maior, há também o fato da existência de Deus na realidade. A lógica utilizada por Anselmo é simples, mas bastante sofisticada. Se pensarmos que Deus é de tal forma que não se pode pensar nada maior do que ele, teremos em última instância a infinitude e a perfeição. Essa perfeição, no pensamento, não poderia ser vazia, pois se fosse vazia não seria perfeita. Portanto, essa perfeição diz respeito a algo que existe também para além do pensamento, na realidade. É nesse sentido que a ideia de Deus como aquilo que não se pode pensar nada maior serve como uma prova não apenas de uma ideia de Deus, mas também de sua existência na realidade. Por isso que entendemos que FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 54 o argumento de Santo Anselmo é um argumento ontológico, ou seja, um argumento sobre a existência. São Tomás de Aquino São Tomás de Aquino viveu de 1225 a 1274. Foi membro da escolástica e desenvolveu sua própria escola de pensamento, o tomismo, considerada uma das mais importantes escolas do cristianismo, sendo que seu pensamento adentra o período moderno, seja por concordância ou por refutação. Tomás de Aquino centralizou o pensamento de Aristóteles, mesmo não tendo concordado com tudo que o filósofo propôs. Ele colocou, de certo modo, Aristóteles como referencial teórico fundamental do pensamento cristão. De Aristóteles tomou basicamente sua ideia de movimento e sua compreensão da natureza, aplicando o pensamento cristão a essa lógica. O ponto central de seu pensamento teológico-filosófico são as cinco provas da existência de Deus, que ele mesmo explica que não são provas em si, acreditando que a existência de Deus é auto-explicativa e evidente. O que ele enfatiza, no entanto, é que nós, humanos, só podemos compreender a existência de Deus por suas consequências no mundo. As cinco provas da existência de Deus seriam as seguintes: o movimento, a causa, a existência do necessário e do desnecessário, a gradação e as tendências ordenadas da natureza. É importante notar que essas provas são, antes de mais nada, filosóficas e não teológicas. Elas são uma base filosófica na qual Tomás de Aquino constrói sua Teologia. O movimento: no mundo as coisas se movem. Por exemplo, uma semente pode virar uma árvore. Uma árvore pode morrer e se desintegrar no solo. Ou seja, há um movimento. Tomás de Aquino entende que esse movimento não é provocadopelas próprias coisas, mas por um motor que lhes seja anterior. Assim, é necessário que haja um primeiro motor, que move todas as coisas. Essa é uma argumentação derivada da ideia de primeiro motor imóvel de Aristóteles. A causa: o argumento da causa se assemelha ao argumento do movimento. As coisas não são causadas por si mesmas, mas por algo anterior a si. Nesse sentido, a cadeia das causalidades nos levaria a uma causa primeira, que seria Deus. A existência do necessário e do desnecessário: algumas coisas que existem são desnecessárias. Por exemplo, se a cadeira na qual você está sentado não existisse, você FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 55 poderia se sentar em outra cadeira, ou no chão. No entanto, se pensarmos assim, em algum momento poderíamos chegar à ideia de que tudo que existe é desnecessário. Se tudo que existe é desnecessário, não haveria a existência. Assim, é importante que exista algo necessário, o que seria, para Tomás de Aquino o próprio Deus. A gradação: nós podemos fazer o bem, mas o bem que fazemos não é absoluto, e sim apenas parcial. Se existem coisas parciais é necessário que exista algo absoluto. O absoluto é, para Tomás de Aquino, Deus. Ordem da natureza: na natureza, apesar de existirem muitas coisas que não possuem consciência própria, existe uma ordem nas coisas. Por exemplo, a água da chuva sempre cai, e o vapor sempre sobe. Nesse sentido, existe uma organização para as coisas na natureza, e essa organização vem de Deus. Entendendo os cinco argumentos da prova de Deus de Tomás de Aquino, devemos relevar sua importância: Parece justificável considerar os cinco argumentos como provas filosóficas. Pois, Tomás afirma que pode ser provado,pela razão natural,que Deus existe. E a razão natural para o filósofo é tida como o instrumento da filosofia, em sua procura pela verdade. A verdade de que Deus existe cai, portanto, sobre oâmbito do conhecimento filosófico (natural). Para Tomás, um relato filosófico da realidade requer como fundamento a afirmação de um primeiro princípio explicativo, de tudo o que existe. Tomás acredita que esse conhecimento natural de Deus advém através das escrituras–Romanos: 1,20 que dizem: “as ocultas coisas de Deus podem ser claramente entendidas a partir das coisas que ele fez”. E aqui vemos claramente porque Tomás tem como princípio das suas vias aquilo que podemos observar no mundo (os efeitos de Deus). Todavia, seguindo a transformação da razão na recente era moderna, as clássicas provas da existência de Deus receberam uma interpretação epistemológica. Com isso, as provas ofereceriam certeza e justificação epistêmicassobre a crença da existência de Deus. No entanto, deve ser notado que o contexto epistemológico moderno é diferente do contexto em que se situava a filosofia medieval. A questão real para Tomás não é se Deus existe como matéria, nem mesmo se consideramos possível justificar racionalmente que Deus existe. Seu foco, de certa maneira,não é espistemológico. Tomás não está procurando por alguma espécie de razão, que possa justificar seu assentimento à proposição de que Deus existe. O que o filósofo está procurando é explicar a maneira pela qual o intelecto intelige a verdade da proposição de que Deus existe (IZÍDIO, 2013, p.36). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 56 Ao explicar a existência de Deus, Tomás de Aquino não apenas fala de uma noção teológica, mas exprime também algo importante sobre a possibilidade da compreensão humana sobre as coisas metafísicas. Tomás de Aquino Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tom%C3%A1s_de_Aquino#/media/Ficheiro:Benozzo_Gozzoli_004a.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 57 ISTO ESTÁ NA REDE No vídeo a seguir você poderá ter um resumo bem estruturado sobre as principais ideias do pensamento medieval: https://www.youtube.com/watch?v=rNQbsOsWKWs ANOTE ISSO A teologia e a filosofia da religião não surgem juntamente com o cristianismo e não são expostas nas escrituras bíblicas. Desse modo, é importante entender que existe um desenvolvimento histórico do pensamento cristão, de modo que o medievo foi um período fértil desse desenvolvimento. O pensamento medieval, portanto, é uma importante parte do cânone filosófico e teológico que constitui o cristianismo que conhecemos hoje. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 58 CAPÍTULO 7 A MODERNIDADE E A RAZÃO: DESCARTES E OS EMPIRISTAS Fim do pensamento medieval Para começarmos a falar sobre o pensamento moderno é importante entendermos que há um declínio do pensamento medieval. Mas, o pensamento, ele não declina por si só, ele se enquadra com a situação econômica e política. Durante séculos, o estilo de vida medieval foi enfraquecendo, chegando a uma situação insustentável. O modo de vida medieval foi muito centrado no estilo de vida que se organizava em feudos, ou seja, núcleos políticos e econômicos comandados por um Senhor feudal que devia tributos e respeito a um principado que atribuía o poder. Nesses feudos, o senhor feudal trocava o trabalho de seus súditos pela alimentação e defesa, havendo obviamente uma balança de exploração do trabalho dos servos. O início da modernidade é marcado pela formação de cidades que não se organizavam mais em torno do poder de um senhor feudal, mas em torno de uma atividade econômica, normalmente o comércio. Com isso, o trânsito das pessoas e a iniciativa produtiva se tornou muito mais livre, de modo que os conhecimentos também poderiam ser trocados de forma mais livre. Outro fato que marcou o fim do período medieval foi a invenção da prensa móvel, tecnologia que permitiu a publicação de livros em grande escala. Durante o medievo, os livros só poderiam ser reproduzidos a partir da cópia manual, encarecendo o processo e dificultando o acesso ao conhecimento. Com o surgimento da prensa móvel, o acesso ao conhecimento foi facilitado, aumentando grandemente o acesso a diversos textos, especialmente o acesso aos textos religiosos. Esse acesso foi muito importante porque o poder da Igreja na interpretação dos textos bíblicos e da tradição cristã foi absoluto durante o período medieval. Com a abertura do conhecimento a partir da publicação de livros, as pessoas puderam acessar de modo mais direto as informações de cunho religioso. Inclusive, é na religião que acontece uma das grandes mudanças do início do período moderno. A reforma protestante apresenta uma divisão de perspectiva entre cristãos de diversos locais e tradições a partir da qual aconteceram mudanças intelectuais e teológicas, assim como mudanças na organização política. Todas essas situações marcam uma profunda mudança na sociedade europeia que perduram do século XV até o século XVII. É nesse século que produz o filósofo e matemático René Descartes, que marca o início de uma filosofia moderna. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 59 René Descartes: Racionalismo, Método e eu Durante o período medieval a autoridade esteve muito ligada à Igreja, de modo que os argumentos eram muito associados com a lógica cristã. A fé, nesse sentido possuía papel importante na organização do pensamento que justificava a autoridade e a explicação do mundo. O pensamento moderno surge com uma novidade, o aumento da importância da racionalidade em detrimento da fé. Se as explicações medievais eram desenvolvidas a partir da autoridade da fé, as explicações modernas passam a ser construídas a partir da demonstração racional. O pensamento de Descarte está no âmbito do que chamamos de Teoria do conhecimento e entende que deve estabelecer normas específicas sobre a possibilidade de conhecer. O método desenvolvido por Descartes é conhecido como o método dadúvida hiperbólica, ou seja, o método da dúvida exagerada, sobre o qual ele coloca alguns critérios: Nessa busca de conhecimento preciso e correto o filósofo constrói um método, este que fez com que Descartes duvidasse de tudo, como diz Bertrand Russel: Afim de ter uma base firme para a sua filosofia, resolve duvidar de tudo o que lhe seja possível duvidar. Como prevê que o processo possa levar algum tempo, decide, entrementes, regular sua conduta segundo as normas comumente admitidas; isto permitirá à sua mente sentir-se embaraçada das possíveis consequências de suas dúvidas em relação com a prática. (RUSSEL,1977, p. 87). Com a construção do método, Descartes formula algumas regras para que qualquer um que busque um conhecimento verdadeiro possa alcançá- lo a partir de sua própria razão. Na concepção de Reale, o método de Descartes “é um estilo fácil e nãopedante, dirigido, mais que a alunos, a todos os homens inteligentes do mundo” (REALE, 1990, p. 348). O Filósofo dividiu seu método em quatro regras, eis uma a uma, conforme vemos abaixo:O primeiro era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que eu não conhecesse claramente como tal; isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; e de compreender em meus julgamentos só o que se apresentasse tão claramente e tão distintamente a meu espírito que eu não tivesse a menor dúvida (O.L.1953, p. 137).A segunda, de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse, em tantas parcelas que se poderia fazê-lo e que seria requerido para melhor as resolver (O.L.1953, p. 138).A terceira, de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos os mais simples e os mais fáceis a conhecer, para subir, pouco a pouco, como por graus, até o conhecimento dos mais compostos; e supondo ordem mesmo entre aqueles que não se precedem naturalmente uns dos outros (O.L.1953, p. 138).E a última, de fazer por tudo enumerações tão completas, e revisões tão gerias, que eu estava certo de nada omitir (O.L.1953, p. 138).Estas regras foram formuladas por Descartes visando o não engano, ou, ao menos, para que se diminuam as possibilidades de equívoco (ZANETE; SARMENTO, 2016, p.52-53). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 60 Primeiramente devemos entender como funciona a dúvida cartesiana. O filósofo parte do princípio de que para um conhecimento ser válido o mesmo deve ser claro e distinto, ou seja, um conhecimento que vença toda forma de dúvida e que possa ser compreendido amplamente. Para se chegar a conhecimentos que sejam claros e distintos Descartes propõe a necessidade de passar esses conhecimentos pelo crivo da dúvida. Entretanto, essa dúvida não deve ser uma simples desconfiança, mas sim um procedimento de perceber se aquele conhecimento se susta ante a todo e qualquer tipo de dúvida. É assim que se desenvolve o método hiperbólico. René Descartes Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ren%C3%A9_Descartes#/media/Ficheiro:Frans_Hals_-_Portret_van_Ren%C3%A9_Descartes.jpg Após o processo de duvidar de todos os seus conhecimentos, Descartes chega a uma verdade firme o suficiente para sustentar seu sistema, a ideia de que não pode duvidar do pensamento, uma vez que enquanto está pensando ou duvidando, não pode duvidar da própria dúvida. Assim, o ato de pensar, o cogito, se estabelece como centro do pensamento cartesiano. O conhecimento proposto por Descartes possui uma característica própria que devemos lembrar, o solipsismo. Solipsismo é a ideia de que o conhecimento se dá na solidão plena, de modo que a prova da existência do ser pensante não precisa de um mundo ou de outra pessoa para existir. O ser pensante existe a partir do FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 61 pensamento, ou seja, por conta própria, sem a necessidade de um mundo no qual se ancore. Essa característica perpassa grande parte do racionalismo moderno de cunho mais idealista, ou seja, um racionalismo que se ancore unicamente nas ideias e não na materialidade das coisas. Por incrível que possa parecer, o pensamento de Descartes possui um argumento forte de caráter teológico. Em sua discussão sobre o conhecimento acaba desenvolvendo um argumento sobre a existência de Deus: E pelo aprofundamento de sua solidão que Descartes escapará dessa solidão. Dentre as idéias do meu cogito existe uma inteiramente extraordinária. É a idéia de perfeição, de infinito. Não posso tê-Ia tirado de mim mesmo, visto que sou finito e imperfeito. Eu. tão imperfeito. que tenho a idéia de Perfeição, só posso tê-Ia recebido de um Ser perfeito que me ultrapassa e que é o autor do meu ser. Por conseguinte, eis demonstrada a existência de Deus. E note-se que se trata de um Deus perfeito, que, por conseguinte, é todo bondade. Eis o fantasma do gênio maligno exorcizado. Se Deus é perfeito, ele não pode ter querido enganar-me e todas as minhas idéias claras e distintas são garantidas pela veracidade divina. Uma vez que Deus existe, eu então posso crer na existência do mundo. O caminho é exatamente o inverso do seguido por São Tomás. Compreenda- -se que, para tanto, não tenho o direito de guiar-me pelos sentidos (cujas mensagens permanecem confusas e que só têm um valor de sinal para os instintos do ser vivo). Só posso crer no que me é claro e distinto (por exemplo: na matéria, o que existe verdadeiramente é o que é claramente pensável, isto é, a extensão e o movimento). Alguns acham que Descartes fazia um círculo vicioso: a evidência me conduz a Deus e Deus me garante a evidência! Mas não se trata da mesma evidência. A evidência ontológica que, pelo cogito, me conduz a Deus fundamenta a evidência dos objetos matemáticos. Por conseguinte, a metafísica tem, para Descartes, uma evidência mais profunda que a ciência. É ela que fundamenta a ciência (um ateu, dirá Descartes, não pode ser geometra) (VERGEZ; HUISMAN, 1976, p.5). A existência de Deus, para Descartes, é um argumento importante para a construção de sua metafísica e também para a construção de sua ideia de conhecimento. Os empiristas Se, por um lado, Descartes desenvolve sua teoria do conhecimento a partir da razão em ligação com as ideias, um outro grupo de pensadores modernos acredita que o conhecimento não está na ideia, mas nos objetos. Isso significa que o conhecimento acontece quando o sujeito vai até o objeto e extrai dele sua verdade. Esses pensadores são conhecidos como os empiristas. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 62 Para resumirmos bem a relação entre o racionalismo solipsista cartesiano e os empiristas, podemos partir de um exemplo. Imagine que nós queremos saber o que é uma árvore. Para Descartes você vai pensar sobre a ideia de árvore, duvidar de todo conhecimento de árvore que você já tenha e construir, com base no raciocínio uma verdade sobre a árvore. Para os empiristas, você deve ir até a árvore, medi-la, observá-la, experimentá-la, tocá-la e então desenvolver um conhecimento com base nessa experiência. Vejamos alguns dos principais pensadores empiristas. David Hume David Hume foi um filósofo inglês que se inseriu na corrente do empirismo. Essa corrente teve uma especial importância na filosofia britânica, contando com vários representantes. O primeiro, que poderia ser citado, foi John Locke. Também não devemos deixar de citar George Berkeley. Tendo vivido de 1711 a 1766, Hume pôde contar com a obra de Locke já pronta, pois ele morreu em 1704. Desenvolvendo a tradição empirista, Hume acredita que existem alguns pontos dessa corrente que podem ser aperfeiçoados, discordando em diversos pontos de seus demais colegas empiristas. Basicamente, para ele, o conhecimento surge sim da experiência, mas ele não entende que a mente seja passiva ao conhecimento que vem do objeto: Gostaria de sustentar que, se há algum sentido em classificar a filosofia de Hume como empirista, é preciso esclarecer as diferenças fundamentaisque seu empirismo apresenta em relação ao de Locke e seus herdeiros. Comecemos pelas semelhanças que podem evidenciar a adequação do termo “empirismo” a ambos os paradigmas. De fato, para Hume, assim como para Locke, o conhecimento humano, ou grande parte dele, deriva da experiência. Como bem observou Monteiro (2009, p.16), “dos empiristas, Hume conserva especialmente uma atitude metodológica: a recusa em aceitar qualquer teoria que não se submeta à prova da experiência”. Ambos, ainda, rejeitam a teoria das ideias inatas, que estariam desde sempre inscritas na alma humana, por obra do Criador e atribuem papel secundário à razão no processo de conhecimento. As semelhanças, contudo, cessam aí. O empirismo de Hume é marcado por um deslocamento radical, através do qual o conceito de “experiência” afasta-se do sentido lockeano. A experiência, para Locke, abrange os processos de sensação e reflexão. O primeiro consiste na recepção pela mente, através dos órgãos dos sentidos, dos estímulos emitidos pelos objetos componentes do mundo material (GONÇALVES, 2020, p.2). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 63 Com seu posicionamento, Hume garante uma crítica forte ao pensamento cartesiano, no qual há um forte apelo metafísico. David Hume Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/David_Hume#/media/Ficheiro:David_Hume_1754.jpeg Francis Bacon Francis Bacon foi um filósofo empirista inglês, que assim como John Locke, assina a primeira geração do empirismo moderno. Viveu de 1561 a 1626. Seu pensamento se tornou importante tanto para a filosofia como para a ciência moderna, isso porque o autor se dedicou a produzir vasto conteúdo sobre o método e as possibilidades corretas do conhecer. Primeiramente devemos entender que para Bacon o conhecimento deve ser alcançado na natureza, a partir de um procedimento empírico, baseado na experimentação: A pretensão do filósofo inglês com seu método é elaborar uma forma de tornar o conhecimento da natureza acessível, assim ele se posiciona fortemente contra o modelo científico vigente em sua época, isto é, as deduções silogísticas aristotélicas. Bacon diz haver duas formas de se conhecer a natureza, entretanto, só uma proporciona melhores êxitos: [...] chamamos à forma ordinária da razão humana voltar-se para o estudo da natureza de antecipações FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 64 da natureza (por se tratar de intento temerário e prematuro). E à que procede da forma devida, a partir dos fatos, designamos por interpretação da natureza. (NO I, 26) A forma de antecipação da natureza é oriunda da filosofia aristotélica, essa forma consiste na elaboração de enunciados universais fundamentados em poucos casos da experiência, o que pode incorrer em erros. Por outro lado, se nos distanciarmos desse procedimento de dedução e recorrermos a indução teremos melhores resultados. É preciso, entretanto, separarmos o que chama Bacon de indução vulgar da indução verdadeira. A indução vulgar ao estabelecer um axioma e este em algum caso particular é negado, procura salva-lo ignorando o tal caso; já a indução verdadeira busca corrigir o axioma ao invés de ignorar o caso particular e manter o axioma equívoco, ou seja, a interpretação da natureza (CUNHA; RHODEN, 2020, p.16). Francis Bacon https://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Bacon#/media/Ficheiro:Francis_Bacon,_Viscount_St_Alban_from_NPG_(2).jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 65 Além da forte proposição de um método científico de caráter indutivo e experimental, Bacon também nos aponta a presença de falhas comuns em nosso pensamento, falhas tais que ele chama de ídolos: Ídolos da tribo: corresponde a humanidade como tudo ou a ajuntamentos sociais; estes ídolos surgem quando nos condicionamos a ver a realidade de apenas uma perspectiva, isto é, quando elegemos determinados conhecimentos como verdadeiros apenas por meras convicções ou por se apresentarem assim aos nossos sentidos. A ocorrência dos ídolos da tribo se deve ao fato de os seres humanos possuírem o caráter de tentar explicar a totalidade e complexidade da natureza com meras simplificações. Ídolos da caverna: caverna é a metáfora que representa nossa individualidade; cada um de nós está preso em sua caverna, assim, estamos sujeitos a equívocos pela forma singular que vemos e interpretamos o mundo. Ídolos do foro: ou ídolos do mercado ou da feira são erros caracterizados pela ambiguidade das palavras, pelos erros de comunicação e os desentendimentos entre interlocutores. Ídolos do teatro: surgem dos sistemas e teorias filosóficas, como que em um palco, estas se apresentam como verdades, entretanto, não passam de fabulações (CUNHA; RHODEN, 2020, p.16). A partir da concepção desses quatro ídolos é possível evitarmos de antemão os problemas mais comuns do conhecimento, abrindo espaço assim para a proposição de uma ciência que seja mais assertiva. ISTO ESTÁ NA REDE Nesse vídeo podemos conhecer um pouco mais sobre o pensamento de Descartes: https://www.youtube.com/watch?v=vv2kKJ45MQw&t=218s E nesse vídeo podemos ver um resumo sobre o empirismo: https://www.youtube.com/watch?v=mzN9w1SGBQw https://www.youtube.com/watch?v=vv2kKJ45MQw&t=218s https://www.youtube.com/watch?v=mzN9w1SGBQw FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 66 ANOTE ISSO Tudo o que conhecemos hoje e tudo aquilo que acreditamos ser verdade passa por uma forma específica de busca pelo conhecimento. O conhecimento religioso, por exemplo, é desenvolvido com base na autoridade da revelação e da fé. Já o conhecimento científico tem se desenvolvido por séculos para chegarmos às formas mais adequadas de elaboração da verdade. É com base nesse conhecimento que usamos medicamentos, que temos tratamentos médicos, que fazemos psicoterapia e até mesmo que andamos em um carro. É nesse sentido que se torna tão importante conhecermos o desenvolvimento do método do conhecimento. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 67 CAPÍTULO 8 ILUMINISMO A idade da razão O iluminismo foi um dos mais importantes movimentos da modernidade, sendo dividido entre partes mais teóricas e partes mais práticas. O que acontece de fato é que aquela mudança de pensamento proposta desde o declínio da idade média chega a seu ápice. Basicamente, o iluminismo parte do pressuposto de que a razão humana pode lançar luzes, iluminar o desenvolvimento da história humana, sendo necessário para isso alguns princípios fundamentais. Um dos princípios adotados pelo iluminismo é o de que o ser humano é capaz de se governar por intermédio da sua própria razão, pois é dotado tanto de racionalidade quanto de liberdade. Assim, é preciso sair da menoridade da razão, quando ainda não se está no pleno domínio de todas as suas atribuições, mas respeitando a um governo externo. Esse governo externo poderia ser, por exemplo, o governo da fé ou da mitologia, ou seja, poderia ser qualquer força externa que te faça seguir uma vida sem passar por um julgamento crítico racional. Revolução Francesa A revolução francesa foi o período no qual os princípios iluministas se converteram em práticas sociais, mudando significativamente a organização da política e da vida social na Europa moderna. A França foi o local onde estourou uma revolução buscando o fim do governo monárquico e a instauração de uma república sustentada a partir de uma constituição, ou seja, de uma carta que constitui os princípios da organização legal da sociedade. A revolução francesa levanta bandeiras como a da liberdade, igualdade e fraternidade, defendendo que com base nesses princípios a sociedade se organizaria de forma mais racional, instaurando assim uma maioridade social. Esses princípios estiverampresentes nas bases da formação de países como os Estados Unidos da América e o FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 68 Brasil. Com eles, estabelece-se não apenas a lógica da filosofia moderna, mas também grande parte dos princípios das organizações modernas de sociedade. Beccaria, Voltaire, Diderot Alguns autores ficaram conhecidos por suas importantes contribuições no âmbito do pensamento iluminista. Cada qual em sua área, somaram esforços diversos, constituindo assim grande parte do que conhecemos como conhecimento moderno. Cesare Beccaria foi um pensador italiano que viveu de 1738 a 1794, sendo responsável por um grande avanço no campo do Direito penal. A tradição medieval e a modernidade até o século XVIII trabalhavam com um sistema de penalizações bastante injusto e injustificável, como por exemplo a possibilidade de transferência da pena de um Senhor para seu súdito. Ainda cria-se também na intervenção sobrenatural para a resolução de problemas penais, o que subjetivava muito o sistema legal. Cesare Beccaria Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cesare_Beccaria#/media/Ficheiro:Cesare_Beccaria.jpg Beccaria escreveu uma obra chamada “Dos delitos e das penas” na qual lançou mão da discussão básica sobre direitos fundamentais, direitos humanos e da utilização de meios e sistemas justos de julgamento e de aplicação de penas que fossem proporcionais ao delito, buscando assim uma elevação da função racional das sentenças. Com isso constituiu e até hoje é tocado como a base da nossa ideia de sistema penal atual. Já Voltaire foi um importante pensador na defesa das liberdades, uma das mais fortes bandeiras da revolução francesa e do iluminismo. Para Voltaire, as liberdades deveriam ser amplas, constituindo portanto ideias fundamentais de um liberalismo no FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 69 qual deve existir a liberdade de crença, de pensamento, de manifestação, de comércio, entre outros. Voltaire Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Voltaire#/media/Ficheiro:Atelier_de_Nicolas_de_Largilli%C3%A8re,_portrait_de_Voltaire,_d%C3%A9tail_(mus%C3%A9e_ Carnavalet)_-002.jpg Voltaire desenvolveu um pensamento especialmente importante para a liberdade que hoje consideramos corriqueira, ou seja, para o estabelecimento de princípios e garantias da liberdade de imprensa, de opinião, de religião, entre outras, que constituem o mote das democracias liberais. Denis Diderot foi o fundador de um movimento muito conhecido no contexto do iluminismo, o movimento enciclopedista, que estaria presente na sociedade moderna até meados do século XX, quando se inicia um processo de especialização. Os enciclopedistas acreditavam que o conhecimento deveria ser disseminado de forma ampla, de modo que deveria ser publicado no formato de enciclopédias, ou seja, livros que tratam das definições e comentários dos mais diversos assuntos. As ideias de Diderot e dos enciclopedistas interferiram na forma de se pensar o ideal moderno de educação e a distribuição ampla do conhecimento. Immanuel Kant Kant é um dos principais filósofos da modernidade e o é por diversos motivos, como seu trabalho amplo e sistemático, sua presença no iluminismo e especialmente por sua resolução do problema entre o racionalismo cartesiano e o empirismo. Essa resolução se dá a partir de seu criticismo que é uma característica importante de seu pensamento. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 70 Immanuel Kant Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant#/media/Ficheiro:Kant_foto.jpg Juízos analíticos e sintéticos Kant divide o raciocínio humano em duas categorias, sendo o de juízos analíticos e de juízos sintéticos. Os juízos analíticos são aqueles que não dependem da experiência, mas que existem justamente pela necessidade da definição conceitual de algo. Por exemplo, quando se diz que o triângulo tem três lados, esse é um juízo analítico, pois diz apenas aquilo que é necessário ao objeto. O predicado da afirmação “ter três lados” faz parte da própria definição do sujeito, o triângulo. Não é possível que o triângulo não tenha três lados, pois essa é sua definição. Os juízos analíticos são, portanto, aqueles que se dão à priori. São anteriores à experiência, independe delas. Já os juízos sintéticos são aqueles que derivam da experiência, e que por isso dependem do sujeito da experiência e de sua interpretação do conhecimento para existirem. Quando você diz que a chuva está forte, apesar de estar fazendo uma percepção sobre a natureza, não está dando uma definição, mas apresentando um juízo a posteriori, um juízo derivado da experiência, sendo conhecido portanto como juízo sintético. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 71 Criticismo O criticismo é o procedimento desenvolvido por Kant para fazer sua investigação sobre o conhecimento, sendo que a crítica é direcionada diretamente para as teorias do conhecimento em voga, especialmente o racionalismo e empirismo. O racionalismo, especialmente aquele representado por Descartes, acredita que as ideias são naturais da mente humana e que portanto, as verdades se encontram no exercício humano de pensar. Já os empiristas acreditam que o conhecimento está nos objetos externos ao ser humano, sendo portanto necessário que se experimente aquele objeto, que o observe para extrair dele a verdade. Kant acredita que essa divisão é limitada e insuficiente, sendo necessário que se entenda melhor a forma do pensamento: Kant afirmou que apesar da origem do conhecimento ser a experiência se alinhando aí com o empirismo , existem certas condições a priori para que as impressões sensíveis se convertam em conhecimento fazendo assim uma conces- são ao racionalismo. Esta concessão ao racionalismo não devia ser levada ao extremo, pois “todo o conhecimento das coisas proveniente só do puro entendi- mento ou da razão pura não passa de ilusão; só na experiência há verdade” (Kant apud Pascal, 1999; p. 45). Se não começarmos da experiência ou se não procedermos se- gundo leis de interconexão empírica dos fenômenos, nos van- gloriamos em vão de querer adivinhar ou procurar a existência de qualquer coisa (Kant, 1987; p. 273/274). A reflexão kantiana tentou mostrar que a dicotomia empiris- mo/ racionalismo requer uma solução intermediária já que “pensamentos sem con- teúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas”12 (Kant, 1987; p. 75). O enfoque que procura determinar e analisar as condições a priori de qualquer experiência, ele denominou de transcendental. Denomino transcendental todo o conhecimento que em geral se ocupa não tanto com os objetos, mas com nosso modo de conhecimento de objetos na medida em que este deve ser possível a priori. Um sistema de tais conceitos de- nominar-se-ia filosofia transcendental. (Kant, 1987, p. 26. Grifo no original) O enfoque transcendental constituiu-se, segundo seu idealizador, em uma revolução copernicana na filosofia (SILVEIRA, 2002, p.36). Ética: Imperativo categórico No campo da ética, Kant elabora um sistema também centrado na razão e na elevação da capacidade da razão como ferramenta de desenvolvimento da sociedade. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 72 Lembramos que a ética tem sido uma preocupação filosófica desde a antiguidade e que no caso específico da modernidade, dada a profunda e intensa mudança social, carecia de novos paradigmas. A ética kantiana parte de uma reflexão sobre a possibilidade de relativização dos comportamentos de acordo com os afetos e da negação da possibilidade de tomar tal ato. Kant se pergunta se seria justo, por exemplo, que você livrasse seu pai de uma pena, sabendo que ele é culpado do ato que levou a tal pena. Em caso extremo, se você pudesse tirar seu pai da forca por conta de um crime que ele cometeu, seria justo tirá-lo?O filósofo defende que isso não seria justo, porque a abertura de uma exceção desmonta o sistema ético do comportamento humano como um todo. Funciona assim, se você acredita ser justo tirar seu pai da forca sabendo que ele é merecedor da punição, todas as outras pessoas também podem achar que é justo que cada qual abra uma exceção quando o caso for de seu interesse afetivo. Por isso, Kant propõe que a ética deve ser desenvolvida a partir do princípio do imperativo categórico, que diz o seguinte: faça apenas aquilo que poderia se tornar uma regra universal. O que isso significa? Significa que cada atitude sua, cada decisão que você vai tomar sobre qualquer ação deve ser pensada a partir da possibilidade daquela ação se tornar uma regra universal: O dever, a lei moral, é universal. Único motivo que pôde influir nas determinações de um ser livre e racional, a lei moral deve ser necessariamente uma cousa conforme á natureza dos seres livres e racionaes. A razão tem um caracter universal; e, pois, o dever, a lei moral, deve ser também universal. O dever é universal; é uma influencia que se impõe a todos os seres racionaes e livres. Também é obrigatório, porque a razão de todos os seres livres, comprehendendo-o, se lhe submette, sem coacção. A universalidade e a obrigatoriedade são caracteres necessários do dever, ou lei moral, ou motivo legitimo, que inflúe na actividade dos seres racionaes e livres (LESSA, 1902, p.224). Imaginemos o seguinte exemplo: você precisa comprar um remédio em uma farmácia, e a única vaga disponível para estacionar seu carro nos arredores da farmácia é uma vaga destinada exclusivamente para idosos. Mesmo você não sendo idoso, pensa em utilizar aquela vaga, pois você acabou de sair do hospital e está com mal estar. Kant te perguntaria, a partir do princípio do imperativo categórico, se essa ação poderia se tornar uma regra universal, ou seja, se toda vez que alguém queira comprar um remédio na farmácia deva utilizar a vaga destinada a idosos. Se fosse esse o caso, FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 73 certamente a vaga destinada a idosos perderia sua função, se tornando então mais uma vaga universal. Nesse caso, é melhor que você deixe seu carro em um local distante e volte andando, pois assim você não atrapalha o princípio ético que rege a sociedade. ISTO ESTÁ NA REDE Nesse vídeo, Daniel Omar Perez apresenta um resumo interessante sobre a Crítica da Razão Pura, de Kant: https://www.youtube.com/watch?v=AigtcwMbN58 ANOTE ISSO No iluminismo está presente a primeira grande onda de Direitos humanos que vai se desenvolver ao longo do Século XIX e sofrer forte queda no século XX por conta das grandes guerras mundiais e dos regimes nazista e fascista. É importante, para entender o pensamento sobre Direitos humanos na contemporaneidade, entender também suas origens modernas em correntes de pensamento como o iluminismo. https://www.youtube.com/watch?v=AigtcwMbN58 FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 74 CAPÍTULO 9 OS MESTRES DA SUSPEITA O filósofo francês Paul Ricoeur, que atuou em grande parte do século XX e início do século XXI, em um livro sobre Freud, acabou chamando a tríade Nietzsche, Marx e Freud como os “mestres da suspeita”. Esse interessante nome, diz respeito às características específicas desses três autores, que colocam à prova, pontos importantes da tradição filosófica ocidental. De modo resumido, Nietzsche questiona a metafísica, Marx questiona a economia e Freud questiona o Eu. Entretanto, veremos a seguir que há mais do que isso. Na verdade, o que esses três autores nos apresentam é uma forma de fazer filosofia que aparece, no processo hermenêutico, a partir da dinâmica da suspeita em prol da construção e desconstrução de verdades. Comecemos falando sobre Friedrich Wilhem Nietzsche, um filósofo alemão, nascido em 1844 e que viveu até 1900, sendo, portanto um pensador que se enquadra amplamente no espectro do século XIX. Nietzsche está longe de ser um filósofo ortodoxo e um academicista. Ele dialoga e se aproxima com a arte, especialmente com a música e a poesia, incluindo em seu próprio estilo um pouco dessa veia artística. Ao invés de escrever tratados, Nietzsche opta por aforismos, pequenos trechos que trazem em si um tom mais direto, criticando assim inúmeros pontos de maneira objetiva. Em sua escrita, utiliza muitos recursos irônicos e satíricos, aplicando até mesmo certa indignação jocosa. No pensamento de Nietzsche destaca-se sua crítica à religião, que é utilizada erroneamente como uma forma de distanciar o autor da filosofia da religião e da Teologia. Entretanto, o pensamento crítico de Nietzsche aponta justamente para uma perspectiva de revisão de princípios religiosos muito caros ao cristianismo. Para entendermos o pensamento de Nietzsche devemos olhar um pouco para seu contexto. O autor fala a partir da Alemanha do século XIX, amplamente organizada ao redor do luteranismo. Há, nesse caso, uma presença muito forte da religião na sociedade não apenas a partir dos ritos religiosos, mas na própria formação do Estado e da mentalidade. Essa presença, para Nietzsche, se apresenta de forma assombrosa, pois o cristianismo seria uma força contrária ao movimento da modernidade, que trazia em seu bojo o cientificismo e o retorno ao ser humano central da arte grega. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 75 A mentalidade moderna, que entende na racionalidade do ser humano sua chave de libertação, acaba sendo antagonizada por um sentimento de covardia que vem de uma leitura do cristianismo como uma espécie de religião do sacrifício, na qual as pessoas se identificam, antes de mais nada, com a figura do cordeiro crucificado, diminuindo assim sua potencialidade de compreensão do horizonte da existência humana. É nesse sentido que Nietzsche afirma a morte de deus, sendo esse deus a representação metafísica de um sentimento humano de dependência e limitação. Nietzsche não nega, por si só, os poderes da religião como fenômeno, nem suas contribuições para humanidade, mas ressalta que um religiosidade limitadora não estaria de acordo com a potência de vida do ser humano de seu tempo. Inclusive, Nietzsche coloca figuras como as de Cristo e buda na mais alta estima, sendo esses referências para humanidade que devem lê-los a partir de um princípio de força e resiliência e não a partir de uma lógica derrotista. Essa percepção de Nietzsche não é isolada em sua obra, apesar de não ter sido algo amplamente sistematizado. O filósofo mostra diversos pontos de sua leitura de mundo que revelam uma leitura crítica da tradição filosófica ocidental. Ao invés de fundar valores específicos em patamares metafísicos, sejam estes filosóficos ou teológicos, Nietzsche buscou pela história dos valores, a história de seu surgimento, assim como seu sentido. O pensamento ao qual o filósofo chama de metafísico nunca foi capaz de aceitar uma origem histórica para os valores e, por isto mesmo, nunca colocou a questão sobre o valor dos valores. Para a metafísica, “os fenômenos morais não poderiam, portanto, comportar uma ‘origem’ e muito menos uma ‘história’” (MARTON, 2000, p. 75). Nietzsche rompe com essa tradição filosófica e irá mostrar que os valores humanos, as concepções sobre o bem e o mal, o certo e o errado, são criações humanas e, por isto, possuem necessariamente uma história. Ao contar essa história, abre o caminho para uma nova forma de pensar a moral, uma forma que coloca o ser humano como centro das decisões e criações e, por isto mesmo, lhe atribui uma responsabilidade ainda não imaginada (CAMARGO, 2011, p.81). Ao olhar para a história do ocidente, Nietzsche percebe que não há, justamente, uma razão explícita que justifique a firmação de tais bases. Assim, entende que os valores são criados e que essas criações são processos históricos da mentalidade humana. Aquientendemos que há, no pensamento de Nietzche, uma revisão da moral e da valoração estática de princípios morais: FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 76 Ao entender que o homem bom não é aquele que faz o bem, e sim, aquele que faz o que quer, abre-se a possibilidade para um mundo sem uma moral universal, isto é, sem valores que obrigatoriamente valham para todos. Isto é muito diferente de todas as filosofias anteriores que sempre se reservaram o direito de julgar o que é certo e errado e, a partir daí, estipular como todos deveriam agir. Nietzsche propõe que a escolha dos valores pertença a cada um, pois a hierarquia dos valores muda ao longo da história. Temos, por exemplo, um período em que a vingança era mais valorizada do que a justiça. Hoje, valorizar a vingança é ser imoral. Mas é imoral apenas por não estar de acordo com os valores mais aceitos de uma época. São esses valores, que são mutáveis, que determinam o que é moral e imoral. Ser imoral, portanto, é apenas agir conforme valores que não são os mais valorizados naquele período. “Mas a hierarquia dos bens não é fixa e igual em todos os tempos; quando alguém prefere a vingança à justiça, ele é moral segundo a medida de uma cultura passada, imoral segundo a atual” (MA I, 42). Além disto, alerta: não é a moral que estabelece a hierarquia dos valores, é a determinação do valor dos valores que estabelece a moral (MA I, 42) (CAMARGO, 2011, p.83). Essa nova percepção sobre a moral e os valores inaugura uma forma de ler a realidade diferente, na qual bondade e maldade são ressignificados, e o que acaba realmente importando é a capacidade de impor e de fazer acontecer os desejos de um indivíduo. Com essa nova leitura nietzscheana, o filósofo propõe uma figura importante, o “Übermensch” que podemos traduzir para o português como o “super homem”. O super homem de Nietzsche é na verdade um supra-homem, um homem além da média, que supera a lógica média da vida do ser humano comum, que construiu ao longo dos séculos formas de apoio metafísicos para a vida, ou seja, que construiu estruturas mentais e intelectuais para fugir das lutas e dificuldades da vida natural que acontece dentro da história. No caminho de demonstrar essa figura superior, que representa basicamente a superação da história da metafísica ocidental, Nietzche apresenta um conceito importante para sua filosofia, o conceito de amor fati. Esse conceito significa basicamente a aceitação da vida, a aceitação das contingências todas da vida, ou seja, o abraço da vida como ela é, independente do que possa de fato acontecer no quotidiano. Essa aceitação do destino e das contingências da vida, não é, de forma alguma, uma aceitação passiva do que pode acontecer por conta dos mandos e desmandos alheios, mas sim uma aceitação ativa daquilo que não pode ser evitado por conta da natureza própria do ser humano, das características do existir e da existência. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 77 Os conceitos de Übermensch e amor fati estão estreitamente relacionados. Se o primeiro exprime a travessia trágica do criar e do destruir na ordem de uma aquiescência profunda, a mesma aquiescência que liga Nietzsche, Zaratustra e Dionísio, o segundo elucida a tragicidade da travessia por resgatar os motivos não conscientes na base dos sentidos e valores que, ao conferirem gratuidade ao agir, remetem à mesma anuência. A intenção torna-se condição, o dever converte-se em imposição de perspectiva e o seu ser assim transmuda- se no movimento constante de seu vir-a-ser como fatum. O amor fati exprime a anuência à necessidade que vige em profundidade, ao reconhecer, na base das interpretações, um certo destino. A luta entre os impulsos introduz interpretações que revelam aproximadamente um plano desconhecido governado pelo pensar, querer e sentir que atravessa o corpo humano e impõem uma perspectiva de corpo social. Se não há causa primeira, também não existe razão última. Ao remeter a condição humana tão-somente às suas inclinações que manifestam necessidades, o amor fati conduz a afirmação do caráter fortuito da própria existência à sua singularidade, casualidade e finitude. É a aceitação da necessidade independentemente de justificativas que resgata a condição trágica do humano, na aquiescência àquilo que se é enquanto necessidade do que se vem a ser, no domínio das interpretações impostas. Enquanto interpretação ética, o amor fati expõe o processar-se da ação no homem como uma interpretação do próprio agir. Enfim, o percurso nietzschiano da dissolução da metafísica à ética do amor fati excluiu dos domínios interpretativos a noção de fundamento e conduziu à incompatibilidade entre culpa e ética. Eis o sentido do riso que atravessa Zaratustra (AZEREDO, 2011, p.132). Com essas palavras, podemos ver que o pensamento de Nietzsche, em sua poética, é uma tentativa de revisão da história da metafísica ocidental e que por isso é entendido, de certo modo, como um filósofo de difícil acesso e complexa interpretação. Friedrich Nietzsche Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Nietzsche#/media/Ficheiro:Nietzsche187a.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 78 Passemos agora para nosso próximo filósofo, um dos pensadores que talvez seja mais mal compreendido na sociedade contemporânea, Karl Marx. Isso se dá porque uma das questões centrais do pensamento de Marx se dá no campo da economia e a economia interfere diretamente nos posicionamentos políticos. No mundo de hoje nós possuímos concepções já prontas e definidas das relações entre economia e política. Entretanto, essas políticas foram construídas historicamente o trabalho de Marx está exatamente no centro dessa construção. Karl Marx nasceu na Alemanha em 1818, vivendo portanto o núcleo da revolução industrial europeia, que iniciou-se na Inglaterra, local utilizado por Marx para exemplificar suas ideias econômicas. Tendo vivido até 1883, Marx, assim como Nietzsche, foi um cidadão e pensador do século XIX. Para começarmos a nos aproximar da obra de Marx, podemos seguir o caminho clássico de suas ideias econômicas, deixando para depois as reflexões mais filosóficas. Marx, buscando entender o funcionamento da sociedade, se dedicou ao estudo do capital, ou, de forma mais ampla, o estudo do sistema econômico capitalista. O capitalismo é o sistema no qual o acúmulo de capital possui um papel central, que é inclusive um dos elementos principais para o qual a vida se direciona. O sistema capitalista permite que as pessoas troquem bem e serviços por recursos financeiros e a possibilidade de acúmulo é ilimitada. Por outro lado, assim como não há um teto para o acúmulo de capital, não há um piso para a ausência do mesmo. Com isso, o sistema capitalista permite que haja uma discrepância muito grande das condições de vida das pessoas. A reflexão de Marx começa com o valor do trabalho. Nesse sentido, ele questiona a diferença entre o preço de um produto vendido e quanto o trabalhador que fez aquele produto ganha por isso. Digamos que um sapato, por exemplo, custe no varejo cem reais. Ainda, digamos que um trabalhado consiga fazer cem sapatos em um mês. Com isso, ele produziu uma riqueza de dez mil reais em um mês. Seu empregador, o dono da fábrica de sapatos, paga a ele um salário de mil reais por mês. Lhe sobra, portanto, o valor de nove mil reais, com os quais ele vai pagar todos os custos da produção, os fornecedores, os impostos, sendo que o restante será o seu lucro. Digamos que todos os custos de produção e impostos sejam do montante de quatro mil reais. Sobrará ao dono da fábrica uma riqueza de cinco mil reais e isso se aplica para cada um de seus trabalhadores, de modo que a riqueza final do dono da fábrica de sapatos será maior do que a riqueza de todos os trabalhadores juntos. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICApensa sobre o que é belo, e esse ramo da filosofia é conhecido como estética. Já parou pra pensar, por exemplo, porque algumas coisas são consideradas bonitas pelas mais diversas pessoas ou por que algumas pessoas gostam de um tipo de música enquanto outras pessoas acham aquela mesma música repugnante? Pois bem, a filosofia investiga a beleza e ajuda na compreensão das produções artísticas humanas. A filosofia é tão ampla, que pensa inclusive sobre o próprio conhecimento. Como é possível conhecer e como é possível distinguir conhecimentos verdadeiros de conhecimentos enganosos? A área da filosofia que faz essa reflexão é a epistemologia. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 9 A filosofia política é aquela que se dedica a entender a pólis, ou seja, a cidade no sentido antigo, o que talvez para nós seja melhor traduzido como a sociedade e as formas de organização e poder social. A vida não acontece em uma bolha, mas em uma coletividade, de modo que as pessoas se organizam em grupos e estabelecem relações de poder entre esses grupos. Entender essa dinâmica é essencial para que se saia de uma compreensão superficial da sociedade e se chegue a uma compreensão mais profunda dessa estrutura viva da coletividade. Existem formas de filosofia que estão ligadas a outras ciências diretamente. Essas filosofias dialogam ao mesmo tempo em que dão sustento à reflexão de uma área específica. É assim a Filosofia da educação, a filosofia da religião, e a filosofia do Direito, por exemplo. A filosofia da religião, por exemplo, estuda objetos iguais ou semelhantes aos da teologia. Entretanto, a forma de investigação é um pouco diferente, pois enquanto a teologia parte do princípio da fé como base, a filosofia não parte desse pressuposto, por mais que possa, em algum momento chegar a discutir a fé. Com esse breve panorama podemos perceber que a filosofia não é algo único e estático, mas um pensamento em movimento que se direciona para diferentes objetos, de acordo com demanda específica. A principal característica da filosofia é, nesse sentido, pensar de modo diverso daquele que nos é dado pelo conhecimento comum, ou seja, forçar os objetos a entregar algo a mais do que o óbvio que é dado pela tradição ou pelas construções populares de sentido: E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas idéias, os mesmos gostos, as mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: O que é um valor? O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O que é a moral? O que é a vontade? O que é a liberdade? Alguém que tomasse essa decisão, estaria tomando distância da vida cotidiana e de si mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, nossa existência. Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo, desejando conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são nossas crenças e nossos sentimentos. Esse alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude filosófica. Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido (CHAUÍ, 2000, p.9). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 10 A filosofia é um pensamento que sai do âmbito dos pensamentos cotidianos, chegando a uma reflexão criteriosa, minuciosa, lógica e metodológica sobre os mais diversos objetos, inclusive sobre o próprio cotidiano. Desse modo, a filosofia não possui uma padronização de objetos ou de métodos, mas sim uma estrutura fundamental de atitude. O que há de mais constante na atitude filosófica é a construção do conhecimento a partir de sistemas, ou seja, da elucidação não de um ponto isolado, mas de encadeamentos de pensamentos que precisam ser provados, demonstrados e postos à prova pela própria filosofia, pela razão e pelos pares: As indagações filosóficas se realizam de modo sistemático. Que significa isso? Significa que a Filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos, busca encadeamentos lógicos entre os enunciados, opera com conceitos ou idéias obtidos por procedimentos de demonstração e prova, exige a fundamentação racional do que é enunciado e pensado. Somente assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiência cotidiana, nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si mesmas. Não se trata de dizer “eu acho que ”, mas de poder afirmar “eu penso que”. O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático porque não se contenta em obter respostas para as questões colocadas, mas exige que as próprias questões sejam válidas e, em segundo lugar, que as respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas entre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos coerentes de idéias e significações, sejam provadas e demonstradas racionalmente (CHAUÍ, 2000, p.13). A filosofia, apesar dessa possível acomodação de diversas demandas, não pode ser construída a partir de opiniões e convicções, mas de pensamentos corretamente concatenados. Existem diversos espaços para as opiniões na sociedade, ou seja, lugares nos quais o posicionamento pode ser dado de forma não demonstrada ou demonstrada a penas parcialmente. No caso da filosofia, a aceitação de uma opinião não fundamentada erradica a premissa própria da atitude filosófica e torna a discussão inviável. Com a atitude filosófica o que é provável só é aceitável com sua argumentação, demonstração racional dentro das próprias regras da razão. Na poesia, por exemplo, as expressões mais densas e silenciosas da alma possuem espaço inquestionável, pois são exatamente a revelação do ser humano em sua cultura, ser humano esse que não precisa estar submetido ao jogo das discussões sistemáticas. Já a filosofia é a forma de ciência hermenêutica que quer elevar o logos, a palavra dita FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 11 e concatenada racionalmente. É tudo uma questão de perspectiva de procedimento. A poesia pode ser analisada pela filosofia, contanto com uma atitude filosófica, mas nesse momento a poesia deixa de ser expressão da alma para tornar-se objeto da razão. É outro jogo, com outras regras. Ao fim e ao cabo, quando pensamos no sentido inicial e mais amplo da filosofia, podemos pensa-la de forma mais ingênua, uma atividade humana para a compreensão do viver: Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas. Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua afirmando que a Filosofia não serve para nada. Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de fato, a Filosofia não serviria para nada, se “servir” fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade econômica, obtendo lucros com eles; consideram também que a Filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica. Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não seriam os conhecimentos (que ficam por conta da ciência), nem as aplicações de teorias (que ficam por conta da tecnologia), mas o ensinamento moral ou ético. A Filosofia seria a arte do bem viver. Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo naPAULISTA | 79 A diferença entre a riqueza que um trabalhador produz e a riqueza que ele recebe por seu trabalho é chamada por Marx de “Mais-valia”. Esse conceito de Marx se aplica aos mais diversos meios de produção e trabalho, tanto quando é fácil medir essa diferença quanto quando é difícil. A mais-valia, para Marx está na base da injustiça e da desigualdade na sociedade. Por conta da necessidade de superação dessa injustiça estrutural que Marx aponta para a necessidade de uma nova revolução, revolução tal que tirasse os meios de produção dos burgueses (donos dos burgos, ou meios de produção) e entregasse essa riqueza para os próprios trabalhadores. Esse procedimento revolucionário serviria primeiramente para socializar os meios de produção, ou seja, distribuí-los na sociedade, e depois para levar, em última instância para um Estado comunista. O comunismo seria construído quando toda riqueza fosse igualmente distribuída na sociedade, a partir de uma percepção individual da necessidade de partilha coletiva das riquezas de um país. A proposta de Marx contraria fortemente a lógica capitalista. Essa lógica foi utilizada e reformulada politicamente ao longo do século XX em alguns países do mundo. Entretanto, para nós é importante entender os princípios filosóficos por trás das ideias econômicas de Marx. No contexto filosófico, Marx esteve na esteira do que é conhecido como idealismo alemão. Estudou especialmente a obra de Hegel, filósofo que desenvolveu a ideia de que há uma dialética no Espírito que corre por trás da história, constituindo assim o desenvolvimento da sociedade. Marx pegou o princípio da dialética hegeliana e fez uma mudança significativa, tirando a mesma do âmbito idealista e a trazendo para o campo material, ou seja, para dentro da história. Por isso, a filosofia de Marx é conhecida como uma filosofia materialista. No centro da filosofia de Marx há um problema existencial. O trabalhador, que como vimos anteriormente, vende sua força de trabalho para receber parte da riqueza gerada por seu trabalho, ao fazê-lo, está vendendo seu tempo de vida e sua potência de viver. Com isso, quando há uma injustiça social e econômica, há também uma injustiça de cunho existencial. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 80 Karl Marx Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx#/media/Ficheiro:Karl_Marx_001.jpg Freud Sigmund Freud Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sigmund_Freud#/media/Ficheiro:Sigmund_Freud_LIFE.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 81 O terceiro autor que queremos tratar aqui na aula dedicada aos mestres da suspeita é Sigmund Freud. Ao contrário de Nietzsche e Marx, que foram pensadores do século XIX, Freud viveu a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX. Freud foi um médico que se dedicou ao estudo de doenças relacionadas à mente. Na verdade, Freud elaborou partes importantes da teoria que conhecemos hoje sobre o funcionamento das psicopatologias. Ele alterou partes importantes tanto da medicina quanto da psicologia. Desenvolveu e ficou conhecido como pai da psicanálise, que é uma forma de tratamento específico na qual o paciente faz associações livres entre suas experiências íntimas como sonhos e os sentidos das mesmas. Freud apoiou boa parte de sua produção em sua ideia em sua concepção de inconsciente. É como se a mentalidade humana fosse dividida em duas partes, sendo uma delas a consciente, ou seja, aquilo que sabemos que sabemos, e a parte inconsciente na qual não sabemos exatamente o que está presente. Entretanto, partes daquilo que está presente em nosso inconsciente podem aparecer ao nosso consciente em pequenas revelações, como em sonhos e em nossos desejos mais íntimos. Além da divisão entre consciente e inconsciente, há também a divisão entre id, ego e superego. Comecemos pelo id: O id foi concebido como um conjunto de conteúdos de natureza pulsional e de ordem inconsciente, constituindo o polo psicobiológico da personalidade. É considerado a reserva inconsciente dos desejos e impulsos de origem genética, voltados para a preservação e propagação da vida. Contém tudo o que é herdado, que se acha presente no nascimento, acima de tudo os elementos instintivos que se originam da organização somática. Do ponto de vista “topográfico”, o inconsciente, como instância psíquica, virtualmente coincide com o id. Portanto, os conteúdos do id, expressão psíquica das pulsões, são inconscientes, por um lado hereditários e inatos e, por outro lado, adquiridos e recalcados. Do ponto de vista “econômico”, o id é, para Freud, a fonte e o reservatório de toda a energia psíquica do indivíduo, que anima a operação dos outros dois sistemas (ego e superego). Do ponto de vista “dinâmico”, o id interage com as funções do ego e com os objetos, tanto os da realidade exterior como aqueles que, introjetados, habitam o superego. Do ponto de vista “funcional”, o id é regido pelo princípio do prazer, ou seja, procura a resposta direta e imediata a um estímulo instintivo, sem considerar as circunstâncias da realidade. Assim, o id tem a função de descarregar as tensões biológicas, regido pelo “princípio do prazer” (LIMA, 2010, p.281). Em seguida, vejamos o conceito de ego: FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 82 O ego se desenvolve a partir da diferenciação das capacidades psíquicas em contato com a realidade exterior. Sua atividade é, em parte, consciente (percepção e processos intelectuais) e, em parte, pré-consciente e também inconsciente. É regido pelo princípio da realidade, que é o fator que se incumbe do ajustamento ao ambiente e da solução dos conflitos entre o organismo e a realidade. O ego lida com a estimulação que vem tanto da própria mente como do mundo exterior. Desempenha a função de obter controle sobre as exigências das pulsões, decidindo se elas devem ou não ser satisfeitas, adiando essa satisfação para ocasiões e circunstâncias mais favoráveis ou reprimindo parcial ou inteiramente as excitações pulsionais. Assim, o ego atua como mediador entre o id e o mundo exterior, tendo que lidar também com o superego, com as memórias de todo tipo e com as necessidades físicas do corpo (LIMA, 2010, p.281). E, por fim, vejamos a noção de superego: O superego desenvolve-se a partir do ego, em um período que Freud designa como período de latência, situado entre a infância e o início da adolescência. Nesse período, forma-se nossa personalidade moral e social. O superego atua como um juiz ou um censor relativamente ao ego. Freud vê na consciência moral, na auto-observação, na formação de ideais, funções do superego. Classicamente, o superego constitui- se por interiorização das exigências e das interdições parentais. Num primeiro momento, o superego é representado pela autoridade parental que molda o desenvolvimento infantil, alternando as provas de amor com as punições, geradoras de angústia. Num segundo tempo, quando a criança renuncia à satisfação edipiana, as proibições externas são internalizadas (LIMA, 2010, p.281). A teoria de Freud se torna algo realmente importante quando entendemos seu sentido mais amplo. Para além da ideia básica da constituição da psique humana, Freud mostra que o ser humano não é, como na concepção cartesiana uma racionalidade solta no espaço, mas sim um ser de experiências. Com isso, o ser humano contemporâneo passa a ser entendido de forma diferente, a partir de uma perspectiva de experiências emocionais. ISTO ESTÁ NA REDE No vídeo a seguir, vemos a professora Scarllet Marton, principal estudiosa de Nietszche no Brasil, nos apresentando as principais ideias do autor: https://www.youtube.com/watch?v=qrDV2TyIKJQ https://www.youtube.com/watch?v=qrDV2TyIKJQ FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 83 CAPÍTULO 10 AS DIVERSAS FORMAS DE ÉTICA Ética e moralidade Existe um problemacomum de se falar de ética e moralidade, um problema que é próprio da filosofia, pois é uma dificuldade de definição e de distinção entre termos. Nesse sentido, o que se fala sobre ética e moralidade pode ser facilmente confundido, ou definido de maneira contraditória. Em senso geral, tanto ética quanto moralidade dizem respeito ao comportamento do ser humano. Entretanto, enquanto a moral fala sobre os costumes associados com determinado grupo social em determinado período, a ética trata das decisões que podem ser tomadas em qualquer momento da vida, quando nos é dada a possibilidade de escolher. Podemos dizer, assim, que a moralidade está mais próxima do que aprendemos, do que é transmitido culturalmente dentro de um grupo. O que é moral ou imoral, depende, portanto, das regras daquele grupo. A ética, por outro lado, não depende necessariamente de uma regra de um grupo, mas da possibilidade de decisão ante a uma situação específica. Se você fizer parte, por exemplo, de uma família vegetariana, e nesse caso, comer carne pode ser um ato imoral. Por outro lado, a decisão ética sobre a possibilidade de comer carne ou não depende da sua racionalidade, dos seus princípios filosóficos e da sua capacidade de decidir diante desse ato. Os exemplo aqui poderiam ser os mais diversos, o importante, no entanto, é lembrar que essa distinção deve ser feita com muitas ressalvas, pois em determinadas situações os termos ética e moral podem ser utilizados de maneira diversa a essa. Ética de Aristóteles Como já vimos anteriormente, Aristóteles foi o terceiro da tríade clássica grega, Sócrates, Platão e Aristóteles. Dentre os diversos pontos de seu pensamento que são até hoje estudados, temos sua ética, que apresenta uma inovação sobre a ética platônica. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 84 Platão acreditava que existia um bem supremo, que estava presente no mundo ideal, o qual deveríamos buscar em nossa vida no mundo de aparências. Aristóteles, por outro lado, trouxe essa investigação para o mundo material: Neste sentido, Aristóteles é o fundador da ética como “ciência prática”, em contraposição à ética como “ciência teórica” intentada por Platão3 . O pensamento ético de Aristóteles, pode-se dizer, é desenvolvido, sobretudo, nas obras: Ética a Eudemo, Ética a Nicômacos, Política e Grande Ética (NODARI, 1997, p.384). A ciência prática de Aristóteles, sua ética, encontrava ressonância em outros campos de seu pensamento. O filósofo pensava na sociedade como um conjunto dos agrupamentos menores e voltado para o bem comum. A amizade estava entre seus interesses investigativos, e a felicidade no centro de seu estudo ético. A ética Aristotélica pode ser chamada de uma ética teleológica, pois apresenta um direcionamento para um fim, para uma finalidade última: Esclarecidos esses aspectos preliminares, podemos, agora, iniciar, propriamente, a discussão do problema do bem supremo em Aristóteles. Logo no início da Ética a Nicômacos, Aristóteles dá o tom geral de toda sua ética. Toda arte e toda investigação e igualmente toda ação e toda escolha tendem a algum bem10. Toda ação visa alguma coisa e de sua tendência a produzir esta coisa ela tira seu valor. A ética aristotélica é nitidamente teleológica. Aristóteles interpreta a ação humana segundo a categoria de meio e fim. O fim ao qual tende uma ação particular não pode ser senão um meio em vista de um fim ulterior, mas é necessário que tenha um limite para a seqüência. Cada ação deve ter um fim último que tenha um valor nele mesmo, e, conclui Aristóteles, sem hesitação, o fim último de todas as coisas deve ser o mesmo [...] Assim, um só bem tem uma perfeição absoluta. É desejado “por si” e “por causa de si” sem jamais ser subordinado a um outro bem. Ora, como já dissemos, um só bem responde a tal exigência. É a felicidade. Deste modo, os prazeres, a potencialidade política, a contemplação, que são fins últimos para cada um dos gêneros de vida em questão preeminente, são, na verdade, fins relativos à felicidade. Esta é um verdadeiro fim com toda a excelência e o único fim verdadeiramente último. A Felicidade é, então, o fim último e perfeito, isto que é jamais visto em vista de outra coisa. Mas é sempre em vista dele que o homem faz tudo o resto. É o bem supremo e final que torna o homem feliz. A felicidade faz parte dos bens excelentes e perfeitos e ela é o princípio em vista do qual nós fazemos todos os nossos atos. E nós dizemos que o princípio e a causa dos outros bens é algo estimável e divino19 (NODARI, 1997, p.386-388). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 85 O fim último, a felicidade, seria encontrada a partir de um bom senso, senso tal que só seria encontrado a partir de um caminho médio, sendo que esse caminho se daria pelo exercício das virtudes, comportamentos que deveriam ser buscados. Ética da alteridade: Emmanuel Levinas Saindo da antiguidade e chegando no século XX, vamos conhecer agora um pouco sobre o pensamento de Emmanuel Levinas, um filósofo nascido na Lituânia, que fora perseguido durante a ascensão do terceiro Reich por conta de sua origem judaica. Nesse ambiente de fuga e ódio, Levinas constrói um pensamento ético extremamente humanista entendendo a importância da diferença, aproximando a ética da ontologia. Para Levinas nós só existimos porque existimos para o outro e o outro é alguém totalmente outro, ou seja, alguém que não repousa na nossa compreensão ou imaginação. A partir dessa ideia do outro como totalmente outro, Levinas percebe a importância da alteridade, que é a ideia da primazia do outro sobre o si mesmo. Emmanuel Levinas Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Emmanuel_Levinas#/media/Ficheiro:Emmanuel_Levinas.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 86 O ser humano com seu modelo racional humanista da sociedade contemporânea cometeu um grande erro na compreensão de mundo, fechado em si mesmo, onde tenta se impor sobre o outro, buscando o modelo da concorrência e da competividade, dando mais valor as coisas e objetos do que ao ser humano. Lévinas faz sua crítica à filosofia Ocidental, que coloca a ontologia como filosofia primeira, por se tratar do Ser. A ontologia para Lévinas (2009) é egocêntrica, no decorrer da história só se preocupa com o Eu, a ontologia trata o Eu como centro do Universo. Frente a essa concepção, Lévinas (2009) propõe uma nova filosofia a partir da ética como filosofia primeira, abordando o conceito de Alteridade como princípio da relação humana (COSTA, 2014, p.199). Levinas entende que esse fechamento no Eu gerou uma ideia de totalidade, na qual as pessoas são ensinadas para a manutenção dos poderes estabelecidos sem pensar na integridade dos infinitos outros que existem fora de nós, fora do convencional. Na ética levinasiana, as decisões não devem ser tomadas a partir do si mesmo, a partir do eu, a partir da totalidade, mas sim a partir do outro que precisa ser respeitado para garantir a própria existência de qualquer eu que exista no mundo, afinal de contas o eu só pode ser afirmado quando esse eu é visto e reconhecido por alguém como um outro. Imagine que, priorizando os interesses do outro, não haveria violência e haveria, antes de mais nada, a busca pela paz, pois a paz para o outro significa o entendimento e o acolhimento das mais diversas formas de eu. Ética da responsabilidade A ética da responsabilidade pode ser pensada a partir de diversas frentes, de diversos autores. Nós escolhamos pensa-la a partir de Hans Jonas, um filósofo alemão, contemporâneo a Levinas, que aponta as necessidades de atenção ante aos diversos descontroles de nossa sociedade com o destino da natureza do mundo. Jonas aponta para as consequências quase inimagináveis do estilo de vida moderno, que pensando ter controlado a natureza, perdeu o controle sobre suas próprias ações, podendo assim ter desencadeadouma situação irremediável de ameaça à vida no mundo: FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 87 Vive-se, portanto, segundo Jonas, uma crise sem precedentes em nossos dias atuais. O espectro da crise é tão amplo que soluções tradicionais não têm eficácia. Para Jonas, a tradição do pensamento ocidental se encontra profundamente interpelada por esta nova situação e incapacitada de enfrentá-la, uma vez que suas diferentes éticas não são de responsabilidade em relação ao futuro. O que importa na atual situação de crise da modernidade é uma ética de conservação, de proteção e cuidado e não uma ética do progresso e do desenvolvimento desenfreados. Numa palavra, trata-se da crítica da idéia do progresso voraz e de seu “utopismo tecnológico”, a fim de poder garantir a sobrevivência da vida humana e salvar a dignidade humana de suas ameaças, porque o ideal grandioso ambicioso moderno, segundo Jonas, desemboca em um dilema crucial: por um lado, o poder tecnológico alargou, de forma nunca conhecida dantes, a extensão e as possibilidades da ação humana, gerando, por conseguinte, a necessidade premente de regrar, por meio de normas, o uso efetivo deste enorme potencial; e, por outro lado, o tipo de racionalidade, que conduz este processo, reduz-se ao controle dos fenômenos, e, em última instância, no momento atual, põe em dúvida a possibilidade mesma de uma verdade objetiva, teórica ou prática, na vida humana (NODARI, 2014, p.3). A ética de Jonas nos apresenta para um princípio amplo de responsabilidade, no qual somos responsáveis não apenas por aquilo que fazemos, mas também por aquilo que deixamos, por omissão, de fazer. Ética latino-americana: enrique Dussel Enrique Dussel é o principal responsável por aquilo que chamamos de Filosofia latino-americana da libertação. Para o autor, a filosofia europeia encontra limites ao responder os problemas latino-americanos, pois as forças da colonização e as heranças pré-colombianas fazem com que a situação e as demandas sejam diferentes em nosso continente. Por isso, a forma de pensar precisa ser liberta dos princípios da colonização, deve ser voltada para um pensamento de libertação. No intento de desenvolver uma ética da libertação para os latino-americanos Dussel pega a ética da alteridade de Levinas faz uma sutil, porém decisiva mudança. Enquanto para Levinas o outro é uma figura qualquer que se põe ante ao sujeito e permite que ele seja entendido como um eu, na ética latino-americana da libertação esse outro é sempre um pobre latino-americano, que fora explorado pela colonização e que herdou as consequências da grande violência contra seu povo. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 88 Nesse sentido, a existência do eu depende da existência do pobre latino-americano e as decisões tomadas pela ética do eu devem contribuir para a libertação do pobre latino-americano. Sendo assim, a ética é voltada para a concepção de uma América Latina mais justa. Enrique Dussel Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Enrique_Dussel#/media/Ficheiro:EnriqueDussel.jpg ISTO ESTÁ NA REDE No vídeo a seguir voc~e poderá ter mais algumas reflexões sobre o funcionamento da ética para Aristóteles: https://www.youtube.com/watch?v=FHF1HBpjLXw https://www.youtube.com/watch?v=FHF1HBpjLXw FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 89 CAPÍTULO 11 A CRÍTICA SOCIAL: OS FRANKFURTIANOS O século XX foi o grande momento histórico de desenvolvimento tecnológico e de regresso na organização social ao redor do mundo. A velocidade das mudanças tecnológicas no século XX exigiram que diversas reflexões fossem feitas sobre como a sociedade se organizava e sobre qual seria a destinação da humanidade. É importante notar que depois da Revolução Industrial, no final do século XVIII, o ritmo das mudanças tecnológicas começou a escalar, passando pelo século XIX com diversos avanços, mas alcançando um aumento vertiginoso da velocidade de desenvolvimento no século XX. Com o desenvolvimento técnico, houve também uma mudança do comportamento social e humano. Apenas para efeito de ilustração, imagine que há pouco tempo atrás, não existiam telefones celulares. Eles passaram a existir e a serem acessados aos poucos e foram se desenvolvendo rapidamente, de modo que hoje os recursos possíveis em um aparelho celular são ilimitados. Portanto, se há algum tempo quando você queria dizer algo a alguém teria que ligar para o telefone fixo da casa ou do trabalho de uma pessoa, agora você pode mandar uma mensagem gratuita por um aplicativo a qualquer momento do dia ou da noite, independente da distância, alcançando aquela pessoa instantaneamente. Com isso, o comportamento das relações de trabalho, por exemplo muda. As relações afetivas mudam, o tempo da comunicação muda. Podemos ilustrar a conversa com imagens e vídeos, etc. Da mesma forma, as mudanças tecnológicas que aconteceram no século XX alteraram as relações pessoais e sociais. A comunicação esteve no centro dessas mudanças. Nesse caso, a comunicação estava centrada na escalada da presença primeiro dos rádios e depois dos televisores nas casas das pessoas. Imagine que antes das plataformas de rádio e televisão, a maior forma de atingir um grande número de pessoas seria a partir da comunicação impressa, plataforma tecnológica inventada ainda no século XV. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 90 A escola de Frankfurt foi um grupo de pensadores que se organizou inicialmente na universidade de Frankfurt para pensarem as inovações de seu tempo. Essa reunião juntou pensadores de algumas áreas, especialmente da filosofia, sociologia e da psicologia, fazendo assim uma abordagem multidisciplinar dos estudos propostos. Um dos principais conceitos da escola de Frankfurt foi a ideia de Indústria cultural, desenvolvido por Theodor Adorno e Max Horkheimer: Na indústria cultural, “não se deve tomar de maneira literal o termo indústria”. O fenômeno não se define pela sua base tecnológica. O vocábulo em destaque refere-se sobretudo ao manejo das técnicas de distribuição (difusão e venda) e à padronização da estrutura dos bens simbólicos (“estandardização da própria coisa”) . A cultura não pode ser motivo de indústria. As tecnologias de comunicação, o cinema, o rádio, o vídeo, os cassetes, os programas de computador etc, considerados como um “conjunto [formador] de [...] experiências entre si relacionadas, e no entanto diferentes por sua técnica e efeitos, constituem [apenas] o clima da indústria da cultura”5 . Entretanto incorreríamos em erro também reduzindo o terreno do conceito às empresas que produzem e difundem os bens culturais para a sociedade. O fundamental aqui é o processo social que transforma a cultura em bem de consumo. O esquema, e não a coisa. Os empreendimentos culturais e os conglomerados multimídia são um momento do processo de acumulação do capital e não a sua totalidade. O capitalismo não é o conjunto das indústrias que abastecem o mercado, trata-se antes de uma relação social, cujo movimento condiciona toda a sociedade A perspectiva é igualmente válida para a indústria cultural. O conceito designa basicamente o conjunto das relações sociais que os homens entretém com a cultura no capitalismo avançado (RUDIGER, 1998, p.18). Adorno e Horkheimer foram dois dos principais teóricos da escola de Frankfurt. Ambos se preocupavam em refletir a sociedade a partir da tradição filosófica, relendo a teoria social de Karl Marx. O marxismo, nesse momento, já tinha caído nas graças de algumas correntes ao redor do mundo e havia acumulado erros e benefícios, cada qual em sua proporção. Entretanto, a proposta frankfurtiana seria não apenas de repetir a forma como se lia Karl Marx e as desigualdades sociais, mas atualizá-lo para ler os novos problemas do capitalismo daquele período. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADAFACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 91 Theodor Adorno Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Theodor_W._Adorno#/media/Ficheiro:Theodor_W._Adorno.jpg A indústria cultural seria o procedimento de produção em massa de produtos comunicativos e comunicadores com o objetivo de alcançar o máximo possível de consumidores desses produtos, reduzindo assim a cultura a um produto talhado de acordo com os interesses do mercado. Até hoje existe esse controle dos bens culturais a partir da indústria da comunicação, de modo que a tendência é a de que o indivíduo tenha que se adaptar ao que vende na produção cultural, sendo que qualquer pessoa que discorde disso será considerada estranha ou inadequada. O aumento dos meios de comunicação no começo do século XX ajudaram não apenas no processo de venda de produtos, mas também na disseminação de ideologias diversas. Essa é a ideia de propaganda, uma ideia de convencimento em massa a partir de técnicas de comunicação. Inclusive, o regime nazista se valeu muito da propaganda para se estabelecer como poder absoluto na Alemanha: FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 92 Em 1933 o partido nazista já estava no poder e estabelecendo o Ministério do Reich para o esclarecimento da propaganda. Joseph Goebbels foi encarregado deste departamento com o objetivo de garantir que a ideologia fosse transmitida por mensagens através da arte, música, teatro, filmes, livros, rádios, materiais escolares e imprensa. As propagandas passavam por audiências para serem aprovadas e tinham como função criar uma atmosfera propensa que antecedia o estabelecimento das leis antissemitas3 (PORTAL USHMM 2016). O cinema desenvolveu um papel muito importante na propagação de ideias antissemitas, raciais ou de superioridade do poder militar do país, esclarecendo, os filmes retratavam alemães como heróis de guerra criando uma essência nacionalista para a população. E também caracterizavam os judeus como vilões e seres sub-humanos que se infiltravam na sociedade ariana (TADA; GRACINO, 2018, p.45). A força da propaganda sobre o comportamento das pessoas foi amplamente utilizada pelo regime Nazista e tem sido utilizada por diversas formas de poder ao longo do século XX. Além da propagação de ideologias, a comunicação social foi utilizada também em favor do próprio capitalismo propondo um estilo de vida centrado no consumo. O consumo foi um assunto bastante tratado por Erich Fromm, filósofo e psicanalista da escola de Frankfurt. Em sua famosa obra “Ter ou Ser” Fromm reflete sobre como existe um desvio da compreensão do ser humano do século XX sobre a qualidade da vida, sobre a forma de ser. Erich Fromm Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Erich_Fromm#/media/Ficheiro:Erich_Fromm_1974.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 93 Para Fromm, o indivíduo capitalista confunde aquilo que é com as coisas que tem, de modo que afirma sua existência a partir de suas posses. As posses funcionam como uma forma de afirmar a existência de uma pessoa que centra sua vida no consumo, como se objetos e marcas formatassem o valor existencial de alguém. Obviamente, Fromm critica essa postura e afirma que existe a necessidade de se resgatar o sentido da existência humana, que o autor defende ser estabelecida a partir do humanismo: Erich Fromm, em seu livro “Ter ou Ser?” faz uma análise psicológica e social com influências filosóficas, teológicas e psicanalíticas de dois modos de existência, o modo Ter e o modo Ser. No início, Fromm introduz a ideia da “Grande Promessa” da era industrial e o porquê dessa promessa ter sido um fracasso. Ele afirma que cada vez mais chegamos ao consenso de que “a satisfação irrestrita de todos os desejos não é conducente ao bem-estar, nem é a via para a felicidade ou mesmo para o máximo prazer” (p. 24). [...] É importante que se destaque tais questões, pois assim o argumento de Erich Fromm fica claro: de que o tipo de caráter que é incentivado – culto do eu, egoísmo e cobiça – pelo nosso sistema socioeconômico, ou seja, nosso modo de vida é patogênico, e de fato produz pessoas doentes e por consequência uma sociedade doente. Baseado nisso, vem o argumento de que são necessárias (de forma urgente) profundas mudanças psicológicas no homem como uma alternativa para a catástrofe econômica e ecológica. Essa necessidade surge agora de forma diferente, pois chegamos ao ponto em que “viver corretamente” é não mais apenas o cumprimento de uma ordem ética ou religiosa, não é apenas uma exigência psicológica decorrente da natureza doentia do nosso caráter social atual. Pela primeira vez, a sobrevivência física da espécie humana depende de uma radical mudança no coração humano (MEIRA;LIMA, 2016, p.1-2). A reflexão levantada por Fromm serve a nossos dias, pois o capitalismo de consumo tem cada vez mais se acirrado, de modo que a vida das pessoas se reflete cada vez mais a partir de sua capacidade e interesse de consumir os mais diferentes tipos de bens e produtos. O último ponto que queremos tratar nessa aula é sobre o conceito de Capitalismo como religião, elaborado por Walter Benjamin, filósofo também pertencente à escola de Frankfurt. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 94 Walter Benjamin Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin#/media/Ficheiro:Walter_Benjamin_vers_1928.jpg Nas palavras de Benjamin: O capitalismo deve ser visto como uma religião, isto é, o capitalismo está essencialmente a serviço da resolução das mesmas preocupações, aflições e inquietações a que outrora as assim chamadas religiões quiseram oferecer resposta. A demonstração da estrutura religiosa do capitalismo, que não é só uma formação condicionada pela religião, como pensou Weber, mas um fenômeno essencialmente religioso, nos levaria ainda hoje a desviar para uma polêmica generalizada e desmedida. Não temos como puxar a rede dentro da qual nos encontramos. Mais tarde, porém, teremos uma visão geral disso. Em primeiro lugar, o capitalismo é uma religião puramente cultual, talvez até a mais extremada que já existiu. Nele, todas as coisas só adquirem significado na relação imediata com o culto; ele não possui nenhuma dogmática, nenhuma teologia. Sob esse aspecto, o utilitarismo obtém sua colaboração religiosa (BENJAMIN, 2013, p.21). https://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin#/media/Ficheiro:Walter_Benjamin_vers_1928.jpg https://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin#/media/Ficheiro:Walter_Benjamin_vers_1928.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 95 Por meio dessa definição apresentada por Benjamin nota-se que o filósofo entende um comportamento religioso cúltico na prática do capitalismo. Ao contrário do que normalmente se nota nas religiões, nas quais os cultos possuem características expiatórias, o culto capitalista possui uma característica culpabilizadora, na qual quem não consome é tido como culpado de sua incapacidade: Em terceiro lugar, esse culto é culpabilizador. O capitalismo presumivelmente é o primeiro caso de culto não expiatório, mas culpabilizador. Uma monstruosa consciência de culpa que não sabe como expiar lança mão do culto, não para expiar essa culpa, mas para torná-la universal, para martelá-la na consciência e, por fim e acima de tudo, envolver o próprio Deus nessa culpa, para que ele se interesse pela expiação. Esta, portanto, não deve ser esperada do culto em si, nem mesmo da reforma dessa religião, que deveria poder encontrar algum ponto de apoio firme dentro dela mesma; tampouco da recusa de aderir a ela. Faz parte da essência desse movimento religioso que é o capitalismo aguentar até o fim, até a culpabilização final e total de Deus, até que seja alcançado o estado de desespero universal, no qual ainda se deposita alguma esperança. Nisto reside o aspecto historicamente inaudito do capitalismo: a religião não é mais reforma do ser,mas seu esfacelamento. Ela é a expansão do desespero ao estado religioso universal, do qual se esperaria a salvação. A transcendência de Deus ruiu. Mas ele não está morto; ele foi incluído no destino humano. Essa passagem do planeta “ser humano” pela casa do desespero na solidão absoluta de sua órbita constitui o éthos definido Nietzsche. Esse ser humano é o ser super-humano [Übermench], o primeiro que começa a cumprir conscientemente a religião capitalista (BENJAMIN, 2013, p.22). Com essa reflexão podemos notar como foi ampla a reflexão feita pelos frankfurtianos sobre sua sociedade e sobre a necessidade de se entender a profundidade do domínio do capital sobre a sociedade contemporânea. ISTO ESTÁ NA REDE No vídeo a seguir vemos o professor Franklin Leopoldo e Silva fala sobre a teoria crítica de um autor que não trabalhamos em nossa aula, mas que também foi importante para a escola de Frankfurt, Herbert Marcuse: https://www.youtube.com/watch?v=KrFuihZXgQU https://www.youtube.com/watch?v=KrFuihZXgQU FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 96 ANOTE ISSO Podemos fazer uma reflexão, com base em nossa aula, sobre qual o papel do consumo em nossas vidas e em nossa sociedade. Se olharmos com muita atenção veremos que a propaganda gera “necessidades” de consumo que não são reais e que não apontam para a criação de uma sociedade mais justa. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 97 CAPÍTULO 12 ESTÉTICA E FILOSOFIA DA ARTE Para quem não conhece a filosofia, dificilmente passará a ideia de que é no âmago da filosofia que se discute o que é beleza e o que é arte. Aparentemente se entende que a filosofia é mais ligada às questões do ser, com os problemas do conhecimento e do sentido da existência. Todavia, desde o início da filosofia há uma preocupação com a ideia de belo, com a ideia daquilo que transmite a produção humana sobre aquilo que nos agrada os sentidos. O que é estética A estética enquanto ramo da filosofia foi desenvolvida na modernidade a partir do pensamento de um autor alemão do século XVIII, Alexander Baumgarten. Como sabemos, o século XVIII foi um período de grande discussão sobre as questões relacionadas ao conhecimento, especialmente com a aura do iluminismo, mas não apenas por conta disso. Baumgarten, como filósofo e educador, propôs uma reforma na distribuição dos campos da filosofia, entendendo que há um tipo de conhecimento diferente do conhecimento lógico. Essa forma distinta do conhecimento seria o conhecimento estético, que é um conhecimento derivado dos sentidos: Entre 1750 e 1758, Baumgarten escreve sua Aesthetica, na qual postula a inclusão de uma nova disciplina no campo filosófico, a saber, a disciplina estética. O principal objetivo dessa obra é comprovar a autonomia do conhecimento sensível em relação ao conhecimento lógico. A partir de tal fundamento, Baumgarten pretende defender a existência da verdade estética, paralela à já aceita verdade lógica. Em outra obra, as Meditationes philosophicae de nonnullis ad poema pertinentibus(1735), o filósofo havia demonstrado em que consiste a especificidade do conhecimento sensívelem relação ao conhecimento lógico através da análise de um poema. Para Baumgarten6, o poema é um discurso (oratio) constituído de representações sensíveis, diferente dos discursos que se constituem apenas de representações lógicas. No entanto, mesmo assim, segundo Baumgarten, não se pode dizer que sua representação não veicula algum conhecimento. Por essa mesma razão, Baumgarten sugere, mais tarde, que a filosofia inclua, em seu escopo, uma nova disciplina, a estética, que se encarregaria de estudar esse tipo específico de cognição (KIRCHOF, 2012, p.28). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 98 Justamente por conta dessa divisão entre o conhecimento estético e o conhecimento lógico que aquilo que se apreende através dos sentidos nem sempre é explicável a partir do discurso lógico. Com a divisão feita por Baumgarten, há um distanciamento entre a ideia de beleza e a ideia de bondade. O bom era aproximado do belo desde a filosofia platônica. Para Platão, o bom e o belo eram categorias muito aproximadas, pois ambas estavam no ideal platônico de perfeição, algo semelhante à ideia de Deus. Nesse sentido, a maior beleza estava no âmbito ético, relacionado a uma maior bondade. Ao entender que existe o âmbito estético na filosofia, Baumgarten propõe que assim como a verdade lógica é alcançada através da ciência, também é necessário que se desenvolva uma ciência para o conhecimento estético: Conforme esclarece Cassirer, Baumgarten não pretende que a ciência seja rebaixada ao domínio da sensibilidade: é o sensível que deve ser elevado ao status do saber, o que ocorrerá somente se for dominado por uma forma científica específica. Daí a necessidade da formulação de uma ciência capaz de tratar desse fenômeno diferente – embora análogo – ao fenômeno lógico.8 Portanto, para saber como a sensibilidade é capaz de gerar cognição, na filosofia de Baumgarten, é necessário perguntar quais são as faculdades estéticas do espírito, de um lado, e quais são as regras capazes de levar as representações de tais faculdades a produzirem um conhecimento análogo ao conhecimento lógico, em vez de erro, de outro lado (KIRCHOF, 2012, p.29). As regras para o conhecimento estético em Baumgarten vem do estudo da poética, uma reflexão filosófica que já se fazia presente desde Aristóteles, e amplamente difundida na história da filosofia. A poética e a retórica foram elementos estudados na história da filosofia desde seu início, pois a poesia e o discurso sempre foram elementos de interesse para o campo do conhecimento. Para Baumgarten, a estética deve seguir uma ideia de representação para que se chegue à beleza propriamente dita. Em suma, o conceito de conhecimento estético, em Baumgarten, está subordinado a uma teoria da representação que equivale o seu resultado sensível (obtido pelas faculdades inferiores), elevado a uma condição de perfeição (dada pela ordem das representações com as coisas e com os signos), ao efeito da beleza. No entanto, tal efeito será alcançado apenas caso a representação siga as regras de disposição, conforme acima enumeradas. Em outros termos, de FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 99 um lado, o efeito estético pressupõe uma certa liberdade, uma vez que algumas das faculdades inferiores, como a fantasia, a criação e a habilidade linguística, são capazes de produzir representações quase ilimitadas, como fábulas, paixões e sonhos. Por outro lado, contudo, tal liberdade é coagida pelos critérios claros e restritivos da ordem,unidade e adequação, buscados por Baumgarten nas tradições da poética e da retórica (KIRCHOF, 2012, p.29). A representação, como vemos, possui no entendimento estético uma certa liberdade, podendo passar pela imaginação, mas também deve seguir uma ordem, a ordem da adequação. Schelling Friedrich Schelling foi um filósofo alemão que nasceu na quadra final do século XVIII, tendo produzido na primeira metade do século XIX. Sendo contemporâneo de Hegel, Schelling foi um dos principais representantes da corrente de pensamento conhecida como idealismo alemão. O idealismo alemão surgiu como uma leitura pós-kantiana, um grupo de filósofos que desenvolveram seu pensamento como uma leitura do pensamento de Kant. Friedrich Schelling Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Wilhelm_Joseph_von_Schelling#/media/Ficheiro:Nb_pinacoteca_stieler_friedrich_wilhelm_joseph_von_schelling.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 100 O idealismo é, em sentido simples, uma teoria que se compõe a partir do estudo de ideias, como se opondo a uma teoria materialista. O idealismo alemão possui algumas particularidades, mas o que mais nos interessa nessemomento é a perspectiva estética de Friedrich Schelling: Schelling é, na filosofia, talvez o melhor intérprete de uma época que uniu idealismo e romantismo num objetivo comum: atribuir à arte a função de religação (substituindo a religião) entre o particular e o universal, entre o indivíduo e o absoluto, após a radicalidade crítica da modernidade em relação quer à metafísica, quer às instituições que sustentavam o discurso religioso. Vemo-lo assim unido a personalidades como Hölderlin, Novalis ou Schleiermacher naquilo que Georges Gusdorf designou «a invenção de uma religião», como o próprio Schelling referiu, «nesse santuário onde a religião e a poesia se aliam»15. Para Schelling sobre os ombros da arte e da estética, enquanto procura do belo, recai talvez a maior responsabilidade do seu tempo, que ultrapassa em muito um desígnio teorético, ou uma especulação sobre valores. Trata-se, em suma, da reconciliação da humanidade consigo mesma, perdidos que estavam os equilíbrios e as conexões que mantinham a Weltanschaung grega e medieval, enquanto totalidades coerentes, projetando-se até à Revolução Francesa (CASTRO, 2016, p.262). Há em Schelling a presença de um conceito que será importante especialmente para os movimentos existenciais que seguirão o fim do século XIX e início do século XX, a ideia de absoluto. O absoluto, em Schelling, apresenta uma relação com a natureza, que não é natureza apenas como as coisas que existem no mundo, mas como princípio de tudo que existe. O naturalismo em Schelling prevê a reunião entre a arte e a natureza, o que é a união entre a o racional e o irracional, entre a criatura e o criador: A relação do livre agir com a arte é explorada na última parte do Sistema do Idealismo Transcendental. Para Schelling a atividade estética é exatamente a que promove a unificação entre dois tipos de atividade: a atividade inconsciente, do mundo real da natureza, com a atividade consciente, ideal, racional, caracterizada pela arte (URDANOZ, ibidem, p. 225). Em Deus estas duas atividades não se distinguem. O real na natureza, caracterizado pela atividade inconsciente, é uma objetivação da pura idealidade ou da atividade consciente, de modo que todo finito é, em relação ao Absoluto, também infinito. O logos criador não está separado da criatura, mas é causa imanente desta. Assim, a arte e a contemplação estética é uma forma de acessar o próprio Absoluto em sua perfeita unidade, FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 101 que é em si mesmo acima de qualquer conceito. [...] A intuição estética corresponde, assim, à intuição intelectual, ressaltando que a intuição intelectual é de caráter subjetivo, enquanto a intuição estética é de caráter objetivo. O Absoluto, sendo acima de qualquer predicado, é acessível apenas mediante a arte e seus produtos, de modo que a arte constitui o verdadeiro objeto da filosofia. A indiferença entre o ideal e o real, entre o infinito e o finito, que caracteriza o Absoluto, é expressa na arte (Urdanoz, op. cit., p. 227-228). A Beleza, segundo Schelling, é caracterizada como a expressão do infinito no finito (URDANOZ, ibidem, p. 227). Poderíamos dizer, em função disso, que todo ser particular é dotado de beleza (MAIA, 2015, p.135). A presença do logos criador na criatura faz com que haja uma extensão da natureza divina nos seres finitos, e os seres finitos podem expressar a beleza absoluta a partir da arte, que é representação da natureza em sua completude. A ideia de completude e de absoluto é central para o pensamento de Schelling, pois para ele há uma unificação entre o que é verdadeiro e o que é belo: No princípio do diálogo Bruno Schelling (1973, p. 239-240) considera a questão da unidade entre o verdadeiro e o belo. O belo é aquilo que é atemporal e eterno, isto é, os arquétipos eternos e perfeitos contidos no logos divino, dos quais as coisas sensíveis e temporais são imagem. Tais arquétipos eternos, contudo, considerados como os únicos portadores da Beleza, são também os únicos absolutamente verdadeiros. Assim, “conhecer as coisas com absoluta verdade significa o mesmo que: conhece-las em seus conceitos eternos” (Schelling, ibidem, p. 240), o que implica na suprema unidade da verdade e da beleza. A verdade de cada coisa, portanto, é seu conceito eterno, e cada coisa só é bela na medida em que se refere a este. Qualquer outro tipo de verdade é necessariamente uma verdade subordinada e relativa, não tendo relação com a Beleza em si mesma. A respeito disso, Schelling (ibidem, p. 241) afirma: Essa espécie de verdade, que pactua mesmo com o que é imperfeito e temporal nas formas, com aquilo que lhe é imposto de fora e que não se desenvolveu vitalmente a partir de seu conceito, só pode ser tornada regra e norma da beleza por aquele que nunca contemplou a beleza eterna e sagrada. Da imitação dessa verdade nascem aquelas obras nas quais admiramos apenas a arte com que atingem o natural, sem poder vinculá-lo com o divino. Mas dessa verdade nem sequer pode ser dito (...) que é subordinada à beleza, mas antes que não tem nada em comum com ela. Mas aquela única e alta verdade não é contingente à beleza, nem esta a ela, e, assim como a verdade que não é beleza também não é verdade, inversamente, a beleza que não é verdade também não pode ser beleza. Assim, Schelling (idem) conclui que “a suprema beleza e a verdade de todas as coisas é, pois, intuída em uma e mesma ideia” e que “essa ideia é a do eterno” (MAIA, 2015, p.135). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 102 O eterno é o princípio que unifica a verdade e a beleza, que não são subordinadas entre si, mas que estão presentes no princípio ideal. ISTO ESTÁ NA REDE Neste vídeo, o professor Francisco Porfírio faz um passeio sobre a ideia de estética e filosofia da arte. Esse vídeo pode complementar nossa abordagem ao tema, fortalecendo nossa compreensão do assunto: https://www.youtube.com/watch?v=1hhSJ9D5bxU ANOTE ISSO Analise o quadro a seguir: Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Guernica_(quadro)#/media/Ficheiro:Mural_del_Gernika.jpg Esse é o Mural chamado “Guernica”, do pintor Pablo Picasso. Nessa pintura Picasso retrata um ataque a bomba sofrido pela cidade de Guernica durante a Guerra civil espanhola. Note que a formação fragmentária das imagens do quadro apontam para a destruição gerada pela guerra e pela violência, apresentando vários pontos de desespero e falta de sentido. A composição retrata o sentimento de destruição gerada pela violência e pela guerra, fazendo assim um discurso a partir dos sentidos. https://www.youtube.com/watch?v=1hhSJ9D5bxU FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 103 CAPÍTULO 13 DIREITOS HUMANOS E FILOSOFIA Direitos humanos e revolução francesa Quando pensamos em Direitos Humanos temos a ideia de tópicos específicos que são discutidos na sociedade atual, mas que são na verdade desenvolvimentos de uma discussão mais geral que surge há algum tempo no campo da reflexão sobre a sociedade. Os Direitos humanos surgem como uma discussão moderna, mesmo tendo havido em alguns momentos da história alguns pontos de presença de ações sobre a dignidade dos seres humanos. Um ponto importante da modernidade é a discussão sobre o jusnaturalismo, ou seja, a ideia de que existe uma justiça natural do ser humano, um direito que é próprio da natureza do ser humano. Esse pensamento concorre com outro pensamento de uma corrente que é conhecida como contratualismo. O contratualismo parte do princípio que a justiça se dá a partir do contrato civil adotado na sociedade: Lewandowsky (1984) assinala que a teoria dos direitos humanos teve sua origem no Iluminismo e no Jusnaturalismo desenvolvidos na Europa dos séculos XVII e XVIII, quando se firmou a noção de que o homem tinha direitos inalienáveis e imprescritíveis, decorrentes da própria natureza humana e existentesindependentemente do Estado. O pensamento iluminista, com suas ideias sobre a ordem natural, sua exaltação às liberdades e sua crença nos valores individuais do homem acima dos sociais, constitui a gênese da teoria dos direitos humanos. Não se pretende, entretanto, afirmar que antes da Modernidade as ideias sobre dignidade, liberdade e igualdade não estivessem presentes, mas essas não eram formuladas como direitos reivindicáveis por todos os seres humanos. Assim, os direitos previstos na Magna Carta de 1215 e no Bill of Rights da Inglaterra de 1689 foram concebidos como concessões do poder soberano a um grupo determinado de pessoas, e não como direitos inerentes a todo ser humano (BOBBIO, 1992, p. 101) (LOPES, 2019, p.8). Com a modernidade surge uma ideia de direito bastante diferente das ideias anteriores de justiça. De acordo com Norberto Bobbio, há uma virada de compreensão FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 104 da proposição fundamental de Direito. Na modernidade o direito se organiza não mais a partir dos deveres, mas a partir dos direitos de cada cidadão. Assim se organizam as sociedades em torno de constituições, o que se tornou algo cada vez mais comum nos estados de direito. A revolução francesa marca um momento em que as sociedades começam a pensar nos direitos que são básicos, elementares para todos os cidadãos como o direito à vida, à liberdade, e assim por diante. Esses direitos básicos dão base para desenvolvimentos de direitos mais específicos como temos hoje, o direito dos idosos, das crianças, direitos trabalhistas, entre outros. Vejamos, portanto, um pouco sobre os direitos humanos a partir da aproximação filosófica do século XX. Hannah Arendt Hannah Arendt foi uma filósofa judia nascida na Alemanha no início do século XX. Arendt ficou conhecida por diversas contribuições para a filosofia de seu tempo, especialmente contribuições no campo dos direitos humanos. O contexto da Segunda Guerra mundial foi muito produtivo para produções em termos de direitos humanos. O surgimento do autoritarismo na Europa rompeu uma situação de violência sem limites, culminando com os terrores dos campos de concentração nazista. Arendt foi perseguida pelo regime nazista, perdendo sua nacionalidade alemã e migrando para os Estado Unidos da América para fugir da perseguição. Tendo sua nacionalidade cassada, Arendt se tornou uma apátrida, conceito que seria importante para seu pensamento. Uma pessoa apátrida é aquela que não possui uma pátria definida, tendo sido por algum motivo expulsa de sua pátria natal. Levando em consideração que as leis que regem um cidadão são as leis de seu país, quando as pessoas são apátridas, elas não possuem leis que garantem seus direitos e que apontem seus deveres. Essas pessoas, em resumo, estão fora do alcance das leis, estando, portanto, órfãs do princípio civil que sustenta uma vida em sociedade. Hannah Arendt Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hannah_Arendt#/media/Ficheiro:Hannah_Arendt_auf_dem_1._Kulturkritikerkongress,_Barbara_Niggl_Radloff,_FM-2019-1-5-9- 16.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 105 Outro conceito importante de Arendt é o de “banalidade do mal”. A ideia de banalidade do mal, ou seja, a ideia de que o mal está presente no cotidiano da sociedade: Segundo Hannah Arendt, o mal é trivial e não há em si profundidade alguma, daí a noção arendtiana de ‘banalidade do mal’. Para ela, basta que haja pessoas supérfluas, banais e simplistas, pessoas essas que sigam, cotidianamente, a normalidade da vida – como um fotógrafo ou um burocrata – para que o mal consiga tão facilmente se estabelecer na sociedade. Entretanto, com isso, ela não minimiza as consequências individuais ou coletivas das horripilantes atrocidades que advém dessa incapacidade de julgar, criticar e conhecer a realidade. Pelo contrário, na concepção de Hannah Arendt, o mal em seu estágio máximo de perversidade, ou seja, em regimes totalitaristas, só se tornam tão aceitavelmente perversos por causa das ações dessas pessoas supérfluas, banais e simplistas – esses termos não são pejorativos ou depreciativos, apenas se referem à cotidianização da vida. A banalização do mal está em conformidade com o processo de cotidianização da vida, sendo é nesse estágio em que a maldade se torna aceitável, praticável e corriqueira, mesmo que seus algozes nunca precisem engatilhar um revólver, ou empunhar uma faca, ou cometer qualquer ato considerável atroz. Basta-lhes seguir o cronograma, seguir as normas, seguir as regras e limitar sua capacidade de julgamento (conhecimento) a apenas suas próprias atividades individuais. A banalidade do mal, nesse sentido, é o estado de normose social em que não se questiona as ações coletivas e não se busca compreender a extensão dos atos individuais. O mal, segundo Hannah Arendt, não é externo aos indivíduos, e, provavelmente, não se deixa conhecer-se a si mesmo por completo, talvez, esse seja o grande triunfo do mal, sua invisibilidade e naturalidade social (SILVA, 2013). Nesse viés, para o mal ter êxito, basta que a vida seja fracionada em intervalos existenciais descompassados com o coletivo; basta que o trabalho laboral seja dividido em etapas tantas que praticamente se torne incomunicável as partes do todo; e, basta que as fronteiras invisíveis do coletivo se tornem tão intransponíveis ao ponto de produzir um abismo entre o “eu” e o “outro”. Contudo, aqueles que se permitem questionar, duvidar e conhecer, ou seja, ter profundidade, poderão romper com o ciclo da perpetuação da ‘banalidade do mal’, que, ao que tudo indica, já está em vigor na sociedade moderna (GUIMARÃES, 2019, p.61). Para Arendt, a preocupação deve estar na compreensão de uma vida fragmentada de modo a trazer a falta de reflexão à vida, propiciando assim as condições para a presença de anormalidades como o totalitarismo na sociedade. O totalitarismo é uma perversão que, segundo Arendt, surge desse descuidado com a crítica social, com a falta de reflexão sobre as condições da maldade e da bondade no mundo. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 106 Michel Foucault Michel Foucault foi um filósofo francês que viveu de 1926 a 1984 e segue uma linha de pensadores do século XX que não se restringe a um tema específico, mas que amplia seu trabalho para campos um pouco distintos. Foucault deixou contribuições valiosas no campo da filosofia social, da história e da linguística/crítica literária. Alguns de seus trabalhos mais importantes tratam da história da loucura e da história da sexualidade, mostrando como existem relações de poder dentro dessas definições e entre os sujeitos dos grupos sociais. O método utilizado por Michel Foucault é essencialmente de arqueologia e genealogia de conceitos e ideias, ou seja, a investigação das origens e das cadeias estruturais que sustentam uma ideia. Basicamente, quando se aproxima de um problema Foucault questiona de onde veio esse problema, como ele surgiu como ideia e como chega até nossos dias. Michel Foucault Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault#/media/Ficheiro:Michel_Foucault_1974_Brasil.jpg O primeiro grande ponto que devemos entender em Foucault é sua reflexão sobre o poder. O filósofo entende que há uma organização capilar do poder na sociedade: Atendo-se a uma análise nominalista, Foucault recusa-se a pensar o poder enquanto coisa ou substância, as quais seriam possuídas por uns e extorquidas de outros. O poder opera de modo difuso, capilar, espalhando-se por uma rede social que inclui instituições diversas como a família, a escola, o hospital, a clínica. Ele é, por assim dizer, um conjunto de relações de força multilaterais (Foucault, 1999).As reflexões do filósofo consistem na tentativa de estabelecer uma análise que escape às teorias políticas tradicionais, para as quais as relações de força são pensadasa partir do modelo do contrato social, da luta de classes, ou ainda da figura de um Estado absoluto e opressivo em oposição à sociedade civil.Nesse sentido, o poder FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 107 atua não em conformidade à lógica binária dos dominadores versus dominados. Não é da onisciência de um soberano-que-tudo-sabe que o poder emana ou conserva-se. Ele irradia-se de modo microfísico, sem possuir um centro permanente. As relações de força são móveis e suscetíveis de se modificarem, compõem arranjos transitórios dados a uma constante transfiguração. Será tal mobilidade que permitirá Foucault (1995) contemplar a possibilidade de resistência face ao controle, reconhecendo-a enquanto elemento indissociável de seu exercício.Igualmente, o filósofo contesta a ideia consagrada segundo a qual o poder agiria por meio da supressão, da repressão, coibindo e impedindo a manifestação de condutas indesejáveis. Ele atuaria, ao contrário, de maneira a produzir, incitar comportamentos. A sociedade ocidental teria menos reprimido os sujeitos, que os levado a emitir certos padrões de resposta (Foucault, 1976/2010a) (FURTADO, 2016, p.35). A capilaridade do poder nas estruturas da sociedade faz com que as relações de poder não sejam relações binárias, na qual um sujeito se incide diretamente sobre outro, mas há sim uma relação difusa de diversas formas de poder em cada estrutura e em cada relação social. Como consequência de sua ideia de poder, Foucault constrói uma ideia de biopoder, que é uma forma de poder sobre a vida, de um controle sobre os processos vitais humanos. Há também, nessa esteira, uma biopolítica, ou seja, uma ação política que incide na vida dos indivíduos da sociedade, formas de controle e negociação do modo de viver. Em 1978, no curso intitulado Segurança, território, população, Foucault estabelece como fio condutor de suas análises o estudo do biopoder, definindo-o como “o conjunto dos mecanismos pelos quais aquilo que, na espécie humana, constitui suas características biológicas fundamentais, vai poder entrar numa política, numa estratégia política, numa estratégia geral do poder” (Foucault, 2008a, p. 3).As origens da problemática do biopoder em Foucault remontam, contudo, às conferências proferidas pelo filósofo no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado da Guanabara, atual UERJ, em 1974. No contexto dessas comunicações, Foucault (1979/2010b), utilizando-se do neologismo “biopolítica”, defende a hipótese segundo a qual com o capitalismo assistimos não à privatização da prática médica, mas à crescente presença da medicina nos espaços públicos.Tomado como objeto de sofisticadas tecnologias políticas, o corpo torna-se público, e o público “somatocrático” (Foucault, 2010c, p. 171). Isto significa que “vivemos num regime em que uma das finalidades da intervenção estatal é o cuidado do corpo, a saúde corporal, a relação entre as doenças e a saúde, etc.” (Foucault, 2010c, p. 171) (FURTADO, 2016, p.35). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 108 Note-se que o corpo, o próprio núcleo material da existência humana é tipo como Foucault como um campo de disputa de poder, um local de ação política para domínio de comportamentos e controle dos processos da existência. No campo dos direitos humanos, a reflexão de Foucault traz novas frentes e novas ferramentas para o pensamento sobre quais são dos direitos fundamentais dos seres humanos e como eles podem ser pensados tanto em seu sentido mais teórico quanto na prática do cotidiano. Giorgio Agamben Giorgio Agamben é um filósofo italiano que ainda está vivo e que tem atuado na reflexão sobre os direitos humanos seguindo a reflexão tanto de Hannah Arendt quanto de Michel Foucault. Agamben tem um projeto amplo que se chama Homo Sacer, que pode ser traduzido ao português como “homem santo, ou homem sagrado”. Esse projeto faz um grande esforço arqueológico de entender o funcionamento da justiça e do poder na história, partindo da reflexão de um conceito do Direito romano, o conceito de Homo Sacer. O homo sacer era um conceito presente no direito romano que entendia que uma pessoa poderia ser punida por um determinado crime com a pena de exclusão do alcance da lei. O que isso significa? Ao invés da pessoa ser punida e levada à prisão ou à morte, essa pessoa era excluída da cidade, de modo que poderia viver, mas não estaria protegida pelo sistema legal. Com isso, qualquer mal que fosse infringido a essa pessoa não seria considerado um crime, pois esse indivíduo já não se encontrava nos limites da lei. Em relação ao homo sacer, existe uma reflexão sobre o poder soberano. Ainda no direito romano, o soberano seria aquele que poderia decidir sobre a vida de todos, aquele que concentrava em si o poder absoluto, a decisão de fazer com que alguém viva ou morra. Diante do soberano, todos seriam homo sacer, pois todos estariam fora da defesa da lei. Por outro lado, para as pessoas que fossem condenadas a saírem da cidade, tornando-se assim homo sacer, qualquer pessoa teria um poder soberano, pois qualquer um poderia escolher sobre a vida e a morte daquela pessoa. Com essa base teórica, Agamben pensa sobre qual é ou quais são os poderes soberanos em nossos dias e consequentemente sobre quem são as pessoas que vivem como homo sacer, ou seja, fora do alcance da lei. Digamos que haja em nossa sociedade um benefício para as pessoas que vivem em situação de rua. Se, entretanto, FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 109 um indivíduo que vive em situação de rua não possui documentos que o inscrevam no sistema de dados do governo, esse indivíduo não atinge esse benefício, não sendo alcançado pela lei. Giorgio Agamben Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Giorgio_Agamben#/media/Ficheiro:Agamben.png De forma muito erudita e minuciosa, Giorgio Agamben provoca um novo tipo de reflexão sobre os direitos humanos, apontando para problemáticas até hoje pouco percebidas em nossa concepção atual de justiça e de direitos fundamentais. ISTO ESTÁ NA REDE Nesse programa, Lenio Streck discute o tema “Homo Sacer” com os convidados Eloísa Capovilla, professora de História da Unisinos, Kathrin Rosenfield, professora de Filosofia e de Literatura da UFRGS e Fábio D’ávila, professor de Direito da PUCRS. https://www.youtube.com/watch?v=EAHEuhwb0e8 FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 110 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Na prática os assuntos de Direitos humanos costumam ser tratados a partir de demandas específicas, como por exemplo os direitos raciais, os direitos de gênero ou os direitos de classe. No entanto, é comum que essas demandas sejam muito particularizadas, como por exemplo a partir das demandas específicas das mulheres negras, ou das demandas dos jovens periféricos na cidade. De fato, existem particularidades de casa caso que podem gerar discussões distintas em cada caso. O papel da filosofia está em fornecer bases para esse tipo de discussão e se aproximar dos casos específicos de acordo com cada necessidade. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 111 CAPÍTULO 14 FENOMENOLOGIA E HERMENÊUTICAS Nesta aula vamos discutir sobre duas abordagens da filosofia que aparecem com frequência nos últimos dois séculos do pensamento e que são tomadas como ferramentas importantes do fazer filosófico. Fenomenologia e hermenêutica podem ser utilizadas em conjunto ou sozinhas, como método e atitude filosófica ante a questões particulares. O que é fenomenologia O termo fenomenologia designa o estudo dos fenômenos, ou seja, o estudo daquilo que se mostra. Pelo termo, o sentido de fenomenologia pode ser muito amplo, de modo que é melhor conceituarmos a fenomenologia como método, desenvolvida principalmente por Edmund Husserl. A fenomenologia como método indica umcaminho de conhecimento, ou seja, uma técnica filosófica voltada para o conhecer, e nesse sentido se coloca em categorias de teorias do conhecimento como o racionalismo ou o empirismo. Na fenomenologia parte-se do pressuposto que o conhecimento não está apenas na mente do sujeito, como em Descartes, nem apenas no objeto, como para os empiristas. O conhecimento está no que é possível que se apreenda da revelação do objeto para o sujeito. Em termos práticos, cada vez que vemos um objeto, vemos apenas aquilo que ele revela naquela experiência, sendo necessário olha-lo de uma maneira específica para vermos tudo aquilo que ele nos revela sem sermos atrapalhados por outras coisas que estão ao redor, por nossa imaginação ou nossos conceitos pré-estabelecidos. Portanto, a mente precisa, nesse caso, de uma disciplina do olhar, que Husserl estabelece em seu método fenomenológico. Edmund Husserl Edmund Husserl foi um filósofo alemão nascido em 1859 e que elaborou em sua fase mais madura uma proposta de fenomenologia que influenciou diversos pensadores FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 112 do século XX, incluindo mesmo uma área nova na filosofia ocidental. Entre as pessoas influenciadas por Husserl temos Martin Heidegger, Marcel Merleau-Ponty, Edith Stein, Jean-Paul Sartre, entre outros. Edmund Husserl Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_Husserl#/media/Ficheiro:Edmund_Husserl_1900.jpg Husserl discutia lógica e teoria do conhecimento, de modo a problematizar a capacidade humana de conhecer a verdade sobre as coisas. Nesse exercício, propôs a necessidade de retorno às coisas mesmas, que acabou sendo chamada de redução suspensão fenomenológica, ou redução eidética. Essa ferramenta faz com que se olhe não apenas para o objeto, mas para a consciência que olha ao objeto enquanto fenômeno, buscando entender o que é essencial naquela imagem que se forma na consciência. O método fenomenológico geralmente nos é apresentado como possuindo dois passos: O primeiro passo consiste em uma epoché, ou epoché, a suspensão provisória da nossa crença na vigência de uma ciência ou teoria psicológica, colocando-se tudo isso “entre parênteses”. Com essa atitude, o fenômeno que se apresenta à consciência, aparecerá, para sermos víeis a expressão husserliana, ele mesmo em “carne e osso” (HUSSERL, 2006; GUIMARÃES, 2008). [...] A segunda etapa, etapa transcendental, corresponde ao momento articulado da evidenciação formal das categorias entrelaçadas no FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 113 conjunto de significações ou essências intuídas na imediatidade da manifestação do mundo da vida. Essa etapa se encarrega da evidenciação das essências como significações e sentidos dos objetos ou fatos constitutivos do nosso vivido imediato. Se fenomenologia é “ciência do vivido”, o fundamento último dessa ciência está enraizado no plano transcendental da consciência pura, pois é o lugar de toda evidenciação possível. (GUIMARÃES, 2008, p. 25-26) Assim como afirma Guimarães (2008, p. 73): “a fenomenologia não se interessa imediatamente pelos objetos ou pelos fatos, mas pelos sentidos que neles podem ser percebidos. Fenomenologia é o ato de perceber e descrever as essências ou sentidos dos objetos. Enquanto as ciências positivas buscam suas verdades nos fatos, a fenomenologia descreve essas verdades a partir da percepção das essências dos fatos, pois é nelas que os seus sentidos se revelam tais quais são.” (BORBA, 2010, p.100). O que é hermenêutica Se pudéssemos falar da hermenêutica de maneira muito simples poderíamos dizer que ela é a ciência da interpretação. Como não é algo tão simples, o melhor é definirmos algumas bases da hermenêutica. A hermenêutica sempre existiu como uma referência ao trabalho de Hermes a divindade responsável por levar as mensagens. Sendo responsável por dar as mensagens, Hermes tinha o controle sobre o que era dito e como era dito. Portanto, a hermenêutica sempre teve essa relação com a mensagem. Entretanto, na modernidade, há uma reformulação da hermenêutica, a proposição da hermenêutica como método filosófico específico. Desse modo, a hermenêutica acabou sendo utilizada na modernidade por diversas disciplinas como a teologia e o direito. A hermenêutica moderna estabelece formas para que o conhecimento seja alcançado a partir da construção de sentido dentro do horizonte de possibilidades. Uma mesma mensagem pode ter diversos sentidos, mas para que esses sentidos sejam válidos é necessário que se tenham as condições adequadas. Schleiermacher Friedrich Schleiermacher foi um filósofo e teólogo alemão responsável pela formulação da hermenêutica como campo próprio da filosofia, tirando essa arte da interpretação do discurso do nível de ciência auxiliar e centralizando-a como método constituinte do fazer filosófico. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 114 Friedrich Schleiermacher Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Schleiermacher#/media/Ficheiro:Friedrich_Daniel_Ernst_Schleiermacher.jpg Tendo vivido de 1768 a 1834, Schleiermacher foi quem primeiro propôs uma guinada na ideia de hermenêutica da modernidade, sendo seguido por Whilhem Dilthey e outros filósofos modernos. Falar ou ouvir falar em hermenêutica implica pensar primeiramente no nome de Schleiermacher, ao menos na Alemanha e desde a sua divulgação por Dilthey - afirma Peter Szondi. 1 As histórias da hermenêutica, que por ele iniciam, reconhecem normalmente que foi em seu pensamento que se operou o giro hermenêutico. Com ele, pois, a hermenêutica passa a integrar o cenário filosófico, 2 ao deixar sua função de mera disciplina auxiliar (da exegese ou da literatura) e erigir-se em ciência autônoma como arte da compreensão e da interpretação. Sua indagação transcende os estreitos limites de uma interpretação específica, perguntando pelas condições gerais da compreensão e da interpretação, à semelhança da pergunta de Kant pelas condições de possibilidade do conhecimento. Com Apel poderíamos caracterizar o seu empreendimento “como uma transformação da crítica da razão em crítica do sentido”. Constitui-se em certo “divisor de águas”, dando início, na filosofia e na hermenêutica, a uma nova etapa de discussão, o que nos permite falar dele como de um “clássico da hermenêutica moderna” (RUEDELL, 1999, p.28). Basicamente, a ideia de hermenêutica em Schleiermacher faz com que o trabalho de interpretação deixe de ser guiado pelo esforço de compreensão da lógica interna FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 115 do texto, buscando uma análise da intencionalidade do autor e comparando-a com a possibilidade de sentido gerada no receptor. Com isso, o que se decorre é um processo de hermenêutica que dá vida ao texto, que interpreta não apenas pelos signos linguísticos, mas também pelo contexto hermenêutico que circunda o mundo do texto. Martin Heidegger Martin Heidegger foi um filósofo alemão do século XX que trouxe duas discussões para um campo comum, as discussões sobre a fenomenologia e sobre a hermenêutica. Com isso, Heidegger faz uma filosofia que se reconhece como analítica existencial, tendo um método que é ao mesmo tempo fenomenológico-hermenêutico. Com sua analítica existencial, Heidegger inaugura de modo mais sistemático o que seria conhecido como filosofia da existência, ou existencialismo. Para Heidegger, existir é interpretar. Somos, enquanto ser-aí, interpretação e pertencer ao ser é o mesmo que compreender o ser. Essa compreensão que temos, a priori, do ser, Heidegger chama de ontologia fundamental. O sentido do ser para a ontologia fundamental não é algo dado, ela denota a recuperação da pergunta pelo ser esquecida pela tradição metafísica.O homem só compreende porque já é pertencente ao ser, o ser o constitui. O Dasein é o único ente capaz de questionar,dialogar e assim ele se faz capaz de interpretar. Dessa forma, qualquer intuito e tentativa de interpretação deve estar mediada pela presença do ser (ser-aí). Daí o signifi cado do termo Dasein, Heidegger o designa como sendo o lugar de manifestação do ser, onde a questão do ser surge (um ser no ser).Se o Dasein é o único capaz de compreender é, exatamente por este ser marcado pela possibilidade do vir-a-ser, seu modo de ser no mundo, obviamente, é pura possibilidade (ALMEIDA, 2012, p.339). A filosofia da existência de Heidegger é possível a partir de um conceito de DASEIN, palavra alemã que pode ser traduzida como ser-aí, ou seja, o ser sendo no mundo. Tendo sido o principal discípulo de Husserl, Heidegger dá um passo além de seu mestre indicando que são precisos dois elementos no conhecimento filosófico, o primeiro sendo o de voltar às coisas elas mesmas, anteriores ao conhecimento teórico, sendo conhecimento da vida que se revela, e o segundo a construção do sentido do ser a partir de um horizonte viável de sentidos, não indicando assim um conhecimento final, mas um conhecimento possível dentro da experiência de cada ser-aí em sua jornada no mundo. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 116 Paul Ricoeur Paul Ricoeur foi um filósofo francês que é considerado um dos maiores eruditos do século XX, tendo uma ampla produção em diversas frentes, como história, hermenêutica, linguística e semiótica. Paul Ricoeur Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Ric%C5%93ur#/media/Ficheiro:Paul_Ricoeur_Balzan.png Dentre as diversas contribuições de Ricoeur está sua formulação de método hermenêutico que, já contanto com grande parte da produção do século XX, soma esforços de outros campos no projeto entregar uma possibilidade de sentido e de compreensão do sentido das coisas: Com uma finalidade exclusivamente didática e a partir de um esquema muito representativo, Althaus-Reid apresenta a hermenêutica de Paul Ricoeur em quatro passos: Seguindo o esquema de Ricoeur em teoria da interpretação, e com o objetivo de esclarecimento, eu organizei aqui uma descrição do paso-apasso metodológico que na realidade não é tão definidamente separada como esta apresentação pode sugerir. Estes momentos da interpretação de acordo com Ricoeur e com os princípios gerais da hermenêutica fenomenológica são os seguintes: 1) adivinhação; 2) explanação; 3) compreensão; 4) apropriação (ALTHAUS-REID, 1993, p.32). Esses quatro passos propostos por Ricoeur são muito próximos do caminho da fenomenologia de Husserl. Apresenta-se uma aproximação a partir do lugar-entre o sujeito e o objeto do conhecimento, de modo que o primeiro contato, que traduzimos aqui como adivinhação é de fato a relação ontológica fundamental da participação no círculo hermenêutico (TADA, 2022, p.16-17). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 117 CAPÍTULO 15 TEMAS ATUAIS EM FILOSOFIA Por mais que a filosofia tenha seus temas clássicos e contínuos, é de seu caráter que sempre responda às demandas de seu tempo. Nosso tempo possui características muito específicas, pois o mundo tem se organizado de um modo ao mesmo tempo global e local, vivendo ao mesmo tempo a tecnologia e a tradição. Nessa aula temos a tarefa de apresentar alguns dos temas que tem sido discutidos pela filosofia contemporânea, servindo sobretudo como uma exemplificação que possa se adequar a diversos outros assuntos. Filosofia e meio ambiente A questão ambiental nas últimas décadas tem saído de um nicho específico de ambientalistas e pessoas que se especializam na temática para se tornar algo presente nas mais diversas camadas e setores da sociedade. A economia, especialmente, tem voltado seu olhar para a questão ambiental, pois é necessário que se estabeleçam formas de consumo que permitam ao mesmo tempo a manutenção da vida na terra, uma vez que a forma como se encontra hoje é algo basicamente insustentável. A modernidade é a chave de leitura para o entendimento da falta de sustentabilidade das questões ambientais. Na modernidade, a natureza foi instrumentalizada, mecanizada, de modo a ser mais um elemento controlado a serviço do desenvolvimento técnico e econômico: Na Filosofia e ciência modernas, por meio da revolução mecanicista que procura compreender a natureza através dos princípios da matemática, o modelo antigo e medieval do cosmos vivo é gradativamente substituído pela ideia do universo como máquina, uma máquina que obedece a leis deterministas e universais. De acordo com essa nova concepção, a natureza em geral não tem vida própria, sendo desprovida de alma e destituída de qualquer espontaneidade. Ela é antes de mais nada matéria física, movendo-se em obediência às leis matemáticas eternas dadas por Deus, que passa a ser concebido como um Deus que se guia por um pensamento racional e mecânico. Dentro desta tradição moderna, René Descartes é o pensador quem primeiro sistematiza o paradigma mecanicista de compreensão da Natureza (PINTO, 2014, p.3). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 118 No campo específico da filosofia, alguns autores tem proposto formas de leitura a partir das quais podemos ter opções de pensamento para conciliar a vida contemporânea com o cuidado ambiental. Uma dessas teorias é pensada por Feliz Guattari: Guattari (2009) afirma que os modos de vida humanos individuais e coletivos evoluem no sentido de uma progressiva deterioração do nosso planeta. Nesse sentido, os problemas ambientais da contemporaneidade são resultados das ações humanas sem projeção consciente ao longo do tempo, prejudicando o futuro da natureza. Assim, torna-se relevante a discussão ecosófica abordada pelo filósofo francês Félix Guattari, que procurou concatenar de modo lógico e heterogêneo os conceitos do que é natural e do que é cultural, relacionando natureza e meio ambiente com o humano. De acordo com Guattari (2009), vivemos no planeta sob a aceleração das mutações técnico-científicas que podem ser identificadas no tempo atual, onde vivemos uma crise ambiental, de revoluções políticas, sociais e culturais. Através de três registros. Assim, a proposta ecosófica defendida por Guattari busca resposta e ações para a problemática ambiental que vivenciamos no cotidiano. A tomada de consciência ecológica futura não deverá se contentar com a preocupação com os fatores ambientais, mas deverá também ter como objeto devastações ambientais no campo social e no domínio mental (GUATTARI, 2009, p. 41). Dessa forma, torna-se imprescindível a compreensão da formação do sujeito ambiental atualmente, inserido no processo de inclusão nas práticas ecológicas e ações ambientais para buscar soluções para as ações antrópicas de destruição. Assim, sem transformações das mentalidades e dos hábitos coletivos haverá apenas medidas ilusórias relativas ao meio material (CAVALCANTE, 2017, p.73). Felix Guattari entende que devemos pensar a subjetividade em relação ao meio ambiente, de modo a entendermos que o sujeito se veja como partícipe do meio ambiente, como constituinte da vida do mundo. Bioética Assim como é comum nas ciências atualmente, a bioética trata de uma matéria transdisciplinar, sendo contemplada por diversos campos do conhecimento. De certo modo, a bioética poderia ser pensada em conjunto com o meio ambiente, pois trata- se em última instância da vida. Por outro lado, sabemos que o termo bioética tem sido utilizado para tratar de coisas mais relacionadas a saúde, ao indivíduo e suas questões relacionadas a vida e a morte: FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 119 Se procurarmos o verbete Bioética num dicionário ou enciclopédia teremos, provavelmente, a desagradável surpresa de não achá-lo. Trata-se de um conceito novo. O neologismo Bioética foi cunhado e divulgado pelo oncologista e biólogo americano Van Rensselaer Potter no seucompanhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinarnos a virtude, que é o princípio do bem-viver (CHAUÍ, 2000, p.11). Imagine que todas as matérias possuem limites. Esses limites estão normalmente marcados pelas fronteiras da razão, pelas concepções culturais ou pelas decisões pessoais. O viver, depende, por exemplo, do querer-viver, do desejo de cada indivíduo ou de uma sociedade. Por isso, o que é fundamental para uma pessoa pode ser absolutamente fútil para outra. Entretanto, como a filosofia não responde ao senso comum e não é pautada por opiniões, mas pela reflexão que se expõe na palavra, ela pode entrar em espaços que estariam, a princípio, para além dos limites das matérias particulares. O jurista sabe argumentar com toda razão sobre os fundamentos jurídicos FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 12 de uma lei, mas nem sempre consegue compreender os impactos dessa mesma lei em uma vida. Por isso, a filosofia é quem dá o passo anterior de refletir sobre o que é justiça e, em casos particulares, dá passos outros, mostrando desdobramentos e consequências que a lei por si só não alcança. O âmbito da fé é, talvez, aquele que melhor expresse como o trabalho da filosofia é precedente e complementar ao de outra ciência. A teologia parte do pressuposto da fé para entender as minúcias de uma religião ou de um fenômeno religioso. A filosofia é quem pode questionar o que é o sagrado, o que é religião e mesmo o que é a fé. Nota-se uma atitude distanciamento dos resultados e de aproximação à razão, pois é ela a ferramenta universalmente disposta para o ser humano. ISTO ESTÁ NA REDE Neste vídeo, vemos dois dos principais estudiosos da filosofia no Brasil conversando sobre nossa questão central, o estudo da filosofia. Esses professores são Franklin Leopoldo e Silva e Oswaldo Giacoia Junior. https://www.youtube.com/watch?v=s3jEDxpfu9I ANOTE ISSO A atitude filosófica segue, em grande parte, o desenvolvimento histórico da filosofia e das ciências. Por exemplo, a filosofia inicia ainda na Grécia antiga uma reflexão sobre o ser, sobre as coisas que são, dando assim os primeiros sentidos não mitológicos para a existência. No vocabulário dessa reflexão encontra-se a psiché (alma), palavra que mais tarde dará origem à psicologia, ciência que estuda as emoções e comportamentos humanos. O surgimento de uma ciência especializada não exclui o que foi produzido pela filosofia, pelo contrário, incorpora esse conhecimento para aprofundar suas reflexões em termos de técnicas específicas voltadas para a saúde humana. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 13 CAPÍTULO 2 AS ORIGENS DA FILOSOFIA Como vimos na aula anterior, a filosofia possui características bastante específicas. Não é diferente em relação à sua história, que mais do que ser uma narrativa sobre fatos que já aconteceram, é campo de disputa teórica sobre perspectivas distintas para a explicação de como e por que a filosofia surgiu. Façamos essa reflexão em conjunto. A filosofia não existia, não existia uma atitude de pensamento sobre o ser e sobre outros temas da vida para além daqueles providos pela religião e pelo senso comum. Em determinado momento, essa reflexão passou a existir. Por quais motivos o ser humano construiria uma reflexão com esse caráter? Uma corrente teórica defende que a filosofia surgiu de um rompimento com a forma religiosa/mitológica de se pensar o mundo. O que dizia esse conteúdo religioso? Primeiramente, os conhecimentos sagrados haviam sido compilados pelos escritos dos grandes poetas, nominalmente Homero e Hesíodo. Esses autores escreveram textos como a Ilíada e a Odisseia e continham histórias dos deuses e de suas relações com os humanos. Neles, se entendia que as divindades possuíam características específicas. Afrodite, por exemplo, era a deusa do amor e teria nascido, segundo Hesíodo, de um evento intrigante, de quando Cronos, o deus do tempo, cortou a genitália de Urano, o deus dos céus. Tendo lançado a genitália ao mar, Afrodite surgiu das espumas do mar. Já segundo Homero, ela seria filha de Zeus e Dione. Ela é, na narrativa mitológica, a mãe de Eros. Nesse sentido, podemos ver que são narrativas que explicam as relações das forças da natureza e acima dela. Quando alguns pensadores passaram a desconfiar das explicações dadas pelos mitos, surge então a necessidade de uma nova explicação, sendo a filosofia a alternativa que surge dessa necessidade. Por outro lado, existe uma corrente de pensamento que acredita que a filosofia surgiu de uma continuação, um desenvolvimento natural da mitologia. Nessa corrente, entende-se que a narrativa mitológica explicou até onde pôde, mas que das próprias reflexões mitológicas surgiram novas formas de reflexão, como o pensamento filosófico. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 14 Pensemos um pouco. A mitologia, oferecia uma forma de explicação da origem e do sentido da vida. A filosofia busca essa mesma investigação, entretanto, com meios diferentes. Portanto, há uma similaridade fundamental, distanciada pela forma de explicação utilizada: Enquanto o pensamento mítico se caracterizava grosso modo pela intervenção constante de divindades nos desígnios humanos e naturais, o pensamento racional procurava identificar elementos estruturais que subjazessem aos fenômenos e os regulassem de forma independente de entidades personificadas (ou antropomorfizadas). As divindades mitológicas podiam ter personalidade7 , mas não estavam submetidas a regras fixas de comportamento ou leis. Em termos do conceito de causalidade, isso equivale a dizer que os mesmos efeitos podiam ter, em princípio, causas eventualmente diferentes. Assim, parte da explicação dos fenômenos observados na natureza (e, principalmente, na sociedade) era vedada ao conhecimento humano, pois era fruto exclusivo da vontade divina. A substituição do pensamento mitológico pelo pensamento racional representa o fim dessa proibição, pois a vontade divina como causa de processos naturais foi (quase) completamente eliminada8 . Novamente, em termos do conceito de causalidade, a consequência imediata foi o começo da busca por regras que permitissem descrever a conexão constante entre tipos de efeitos e tipos de causas. Nesse contexto, a substituição da mitologia pela razão permitiu a fundação do pensamento teórico – em contraposição ao pensamento prático –, caracterizado pela construção de sistemas de explicação que, indo além da mera compilação de conhecimentos e técnicas úteis para os mais diversos fins, procurava submeter o todo da natureza a princípios gerais de funcionamento (POLITO; SILVA FILHO, 2014, p.329). Note que há uma mudança significativa do tipo de pensamento utilizado na mitologia e na filosofia. O pensamento prático, que explicava mitologicamente a fundação e o sentido do mundo, foi substituído por um pensamento teórico que se preocupa mais com a investigação do que com o resultado. Esse pensamento teórico dá bases para a atitude filosófica, que se estende ao longo do pensamento ocidental. Quando pensamos nas origens da filosofia, devemos aprender um vocabulário básico. Existe um período de transição do mito para a filosofia, sendo que o surgimento formal da filosofia é marcado em Sócrates e pela tríade Sócrates, Platão e Aristóteles. Entretanto, existem pensadores anteriores a Sócrates e esses pensadores são conhecidos como os pré-socráticos, ou seja, aqueles que vieram antes de Sócrates. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 15 Entre poetas, matemáticos e pensadores livres, alguns nomes se destacam entre os pré-socráticos. O primeiro que devemos conhecer é Tales de Mileto. Tales viveu entre o final do século VII e início do século VI a.C. Tales acreditava que a água seria a origem de todas as coisas. Reflita, a água realmente está presentelivro Biocthics: bridge to the feature (16). 0 sentido do termo Bioética tal como é usado por Potter é diferente do significado ao mesmo hoje atribuído. Potter usou o termo para se referir à importância das ciências biológicas na melhoria da qualidade de vida; quer dizer, a Bioética seria, para ele, a ciência que garantiria a sobrevivência no planeta. Certamente, se impõe a necessidade de serem adotados determinados valores até agora considerados de caráter não relevante. A Terra está em perigo, vítima do crescimento descontrolado da sociedade industrial e de sua tecnologia. O respeito à ecologia e a necessidade de estabelecer limites ao desenvolvimento industrial e tecnológico são inquestionáveis para a sociedade universal no fim do segundo milênio. Assim foi que a Organização das Nações Unidas criou em 1983 a Comissão Mundial para o Meio Ambiente ou Comissão Brundtland. A partir de então, multiplicaram-se o número de entidades e sessões dedicadas a esses temas. Cabe recordar o protagonismo brasileiro na Declaração do Rio de Janeiro sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em junho de 1992. O termo Bioética poderia ser usado também com o significado amplo referente à ética ambiental planetária, por exemplo: o tema dos agrotóxicos ou o uso indiscriminado de animais em pesquisas ou experimentos biológicos. Mas não é essa, atualmente, sua conotação específica e mais comum. Segundo a Encyclopedia of Bioethics (17)-resultado da colaboração de 285 especialistas e 330 supervisores, e a maior contribuição coletiva para a Bioética numa só obra, com sua segunda edição em fase final de elaboração..., Bioética é “o estudo sistemático da conduta humana na área das ciências da vida e dos cuidados da saúde, na medida em que esta conduta é examinada à luz dos valores e princípios morais” (18). Outros autores preferem a expressão ética biomédica (19), porém sem ampla aceitação. A Bioética ocupa-se, principalmente, dos problemas éticos referentes ao início e fim da vida humana, dos novos métodos de fecundação, da seleção de sexo, da engenharia genética, da maternidade substitutiva, das pesquisas em seres humanos, do transplante de órgãos, dos pacientes terminais, das formas de eutanásia, entre outros temas atuais (CLOTET, 2009, p.3). Desde que o projeto genoma se desenvolveu há uma dúvida social sobre os limites da engenharia genética, sobre como é possível pensar a vida a partir das possibilidades técnicas que tem sido atualizadas atualmente. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 120 As limitações em relação ao aborto e eutanásia também tem se instalado em nossos dias, especialmente por conta de demandas da saúde pública, que precisam ser refletidas em parceria com as atualidades morais e éticas. Não é nosso objetivo refletir aqui sobre a validade ou não dos pontos levantados pela bioética, mas apenas sabermos que a filosofia precisa dar sua contribuição nesse sentido. O que não podemos deixar de pensar é que há uma instrumentalização do corpo humano em nossos dias: Na cultura ocidental contemporânea, o corpo humano foi “reduzido” a objeto e matéria-prima, com seu valor técnico e mercantil, sobrepujando, em muitos contextos, o seu valor moral. Decomposto em peças e em partes, o corpo humano torna-se uma potência mecânica, um objeto, em que se exerce uma relação de posse e poder; o corpo se torna um servo do próprio homem. A questão ética que se impõe sobre o tema corpo / objeto é: como tratar de temas como aborto, sexualidade, contracepção, transplante de órgãos, clonagem, início e fim da vida, etc., se o ser humano reduz sua corporeidade a um objeto no qual exerce manipulação e controle? A ciência, como consequência da hiperespecialização, “(...) perde a consciência de si mesma e, cega diante da própria marcha”, perde a referência ética de seus atos, métodos e técnicas. As questões “do que fazer, com quem, a quem, com quais meios, com que objetivos” devem ser levantadas para o balizamento ético das ações do homem1 . Em um momento histórico de “empolgação” com o corpo e a corporeidade, a oferta tecnológica, com oportunismo, se oferece para satisfazer “(...) os desejos da subjetividade e da valorização do prazer: no cultivo do corpo, nos avanços biotecnológicos que prometem a potencialização da vida corpórea” (MARQUES, 2012, p.316). Inteligência artificial Saindo do campo da ética, outro ponto que se apresenta é o do avanço tecnológico no sentido da informática e de suas ciências. A inteligência artificial é um dos pontos que podem ser pensados. Imagine que a possibilidade de computar dados chegou a uma realidade tão avançada que é possível pensar na construção artificial da inteligência: FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 121 O conceito de inteligência artificial é bastante claro e preciso nas ciências da computação; contudo, possui implicações que vão além de seu emprego técnico, pois aponta para a possibilidade de se criar pensamento nas máquinas, ou seja, a mente artificial. Aqui chegamos ao ponto focal de nosso artigo: o que é pensamento? O filósofo John Searle, que escreveu vários textos sobre o assunto, demonstra o quanto é controverso o tema ao citar o teórico que cunhou o termo “inteligência artificial”, John McCarthy: “O meu termostato tem três crenças - está demasiado quente aqui, está demasiado frio aqui e está bem aqui” (Searle,1997a, p. 38) - se, ter crenças é pensar; então, o termostato pensa? Searle (1990) faz uma distinção entre dois projetos distintos de inteligência artificial: o projeto “fraco”, onde o computador é visto apenas como uma ferramenta que pode imitar alguns comportamentos racionais; e o “forte”, cujo objetivo é produzir uma mente artificial a partir do computador (PORTO, 2006, p.13). A inteligência artificial, junto com outros avanços da informática e da computação são assuntos que podem ser pensados em profundidade a partir das ferramentas da filosofia. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 122 CONCLUSÃO Ao longo de nossa disciplina trabalhamos os principais pontos da filosofia, abordamos temáticas como o surgimento da filosofia, os sofistas, o pensamento pré-socrático, o pensamento grego clássico, a filosofia helenista, medieval, moderna e contemporânea. É certo que não trabalhamos tudo que a filosofia pode oferecer e esse não seria nosso objetivo. O que se pretendia e que esperamos ter alcançado foi oferecer ferramentas básicas para que as demandas de cada aluno e aluna possam caminhar por conta própria a partir daqui. Alguém que, tendo lido nosso material, se interesse, por exemplo, de estudar mais sobre o pensamento de René Descartes, poderá, por sua própria conta, se aventurar nesses estudos. Desse modo podemos fazer uma utilização mais instrumental da filosofia, evitando nos aprofundarmos onde não há interesse ou necessidade da parte do docente e abrindo o horizonte para o contato mais profundo de acordo com o exercício intelectual de cada um. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 123 ELEMENTOS COMPLEMENTARES LIVRO Título: [O que é filosofia] Autor: [Caio Prado Junior] Editora: [Brasiliense] Sinopse: [Qual a natureza, o objeto e o valor da investigação filosófica? A filosofia é apenas uma criação literária ou uma modalidade de conhecimento? Qual a relação entre conhecimento científico e conhecimento filosófico? A filosofia enquanto conhecimento do conhecimento. A filosofia segundo os próprios filósofos: dos antigos gregos até Hegel e Marx.] FILME Título: [O Show de Truman] Ano: 1998] Sinopse: [Essa comédia estrelada por Jim Carrey é um filme com profunda possibilidade de reflexão filosófica. Nele, o personagem principal tem toda sua vida em torno de um espetáculo, moldada como um projeto televisivo sem seu conhecimento ou consentimento] FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADECATÓLICA PAULISTA | 124 WEB [Na página da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia - Anpof você pode acessar diversos eventos, publicações, boletins, resenhas, entre outros assuntos que tratam sobre a produção de filosofia no Brasil]. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 125 REFERÊNCIAS Bibliografia CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000. 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As origens da filosofia Teoria do Conhecimento e Epistemologia Filosofia grega: Sócrates, Platão e Aristóteles O helenismo Os medievais: a teologia filosófica A modernidade e a razão: Descartes e os empiristas Iluminismo Os mestres da suspeita As diversas formas de ética A crítica social: os frankfurtianos Estética e filosofia da arte Direitos humanos e filosofia Fenomenologia e hermenêuticas Temas atuais em filosofianos mais diversos elementos da natureza, nos vegetais, nos animais, e até mesmo em nosso corpo. Mesmo assim, o que mais nos chama a atenção não é a água em si, mas a tentativa de explicar a origem das coisas a partir de um elemento da natureza. Tales de Mileto Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Illustrerad_Verldshistoria_band_I_Ill_107.jpg Primeiramente, crer que há uma origem para as coisas que são é o princípio de uma reflexão sobre o próprio ser. Nesse caso, Tales não estaria satisfeito com a ideia de que os deuses seriam origem e sentido do ser. Portanto, buscou outra forma de explicação, a reflexão a partir da observação e do argumento. Em segundo lugar, Tales mostra uma busca por unidade, na qual um único elemento seria originário e isso deriva de sua ideia de arché: Aristóteles referiu-se a Tales como archégòs philosophías, o inici-ador da filosofia. Mas, qual foi mesmo a filosofia que Tales, segundoAristóteles, iniciou? A filosofia da arché, expressa no conceito água ouumidade. Entretanto, será que deveríamos levar essa FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 16 questão arcaica asério? Dentre outros, além de Aristóteles, também Nietzsche acreditavaque sim. Vejamos o que eles dizem, em primeiro, Nietzsche:“A filosofia grega parece começar com uma idéia absurda, com a proposição de que a água é a origem e o seio materno de todas as coisas. Será realmente necessário parar aqui e levar esta idéia a sério? Sim, e por três razões: primeiro, porque a proposição assere algo acerca da origem das coisas; em segundo lugar, porque faz isso sem imagens e fábulas; e, finalmente, porque contém, embora em estado de crisálida, a idéia de que “tudo é um”. A primeira destas três razões ainda deixa Tales na comunidade dos homens religiosos e supersticiosos, a segunda separa-o dessa sociedade e mostra-o como investigador da natureza, a terceira faz de Tales o primeiro filósofo grego” (SPINELLI, 2002, p.72-73). A ideia, portanto, que dá origem à filosofia pré-socrática é a ideia de que “tudo é um”, tudo possui uma natureza comum, encadeada, originária. Além desse princípio primeiro, de lidar com o ser como uma unidade, Tales também deu origem a uma corrente que perduraria por todo o período da filosofia pré-socrática, a elevação da natureza. Por isso, esses pensadores do início da filosofia ficaram conhecidos como fisiólogos, ou seja, estudiosos da natureza: Seja como for, o fato de Aristóteles ter denominado Tales arché gós philosophías (e mesmo de reconhecer que o seu pensamento deixou de ser uma alegoria ou um mito), não foi porque ele disse simplesmente que “a água é o princípio gerador de todas as coisas”. Aristóteles lhe atribuiu esse título porque compreendeu nessa tese (aparentemente trivial) um significado grandioso, pois que estava contida a idéia deum princípio, único, que poderia explicar o móvel do fazer-se da geração como um todo. Ora, foi por causa dessas idéias (inevitavelmente carregadas com o sentido da sua teoria da phýsis e das archai dageração) que ele concedeu a Tales o título de iniciador da filosofia da arché. E, mais ainda, ele também concedeu a Tales o mérito de ter sido o iniciador da filosofia da phýsis (SPINELLI, 2002, p.75). Na corrente dos fisiólogos, depois de Tales, mais dois nomes são importantes e não podem ser confundidos. O primeiro é Anaximandro de Mileto e o outro é Anaxímenes. Anaximandro viveu de 610 a 546 a.C. e foi um pensador de diversas áreas. Para esse pensador, existia um elemento que era o princípio de todas as coisas, assim como em Tales, porém, esse não era um elemento conhecido da natureza, como a água. A esse elemento, Anaximandro deu o nome de apeiron, que significa, grosso modo, o ilimitado. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 17 Anaximandro de Mileto Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Anaximandro#/media/Ficheiro:Anaximander.jpg O apeiron, de acordo com o pensamento de Anaximandro não consiste de um elemento derivado de outros elementos, ele é o elemento infinito, originário, total. Não tendo sido criado, dá base para o surgimento de tudo que existe. Portanto, em Anaximandro, tudo deriva, de algum modo, do apeiron. A estrutura do apeiron serve como base para uma cosmologia, ou seja, uma ideia de mundo bastante elaborada para a época. Anaximandro acredita que existe uma relação paradoxal entre as coisas do mundo. Primeiramente, no mundo existem opostos, mas todos os opostos derivam, originalmente, de uma unidade. Portanto, essa divisão seria um distanciamento da unidade central do ser. Como consequência dessa divisão, FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 18 os opostos lutam entre si para defender cada qual sua própria existência, em um movimento de superação ao contrário do movimento de união: O elogio de Dirk Couprie (2003, p.1) 2 a Anaximandro 610 a.C, reconhecendo o milésio como uma das mentes mais brilhantes que já existiu, evoca aos tempos atuais o contributo que Anaximandro deu, ao seu modo, às investigações cosmológicas e, sobretudo, os parâmetros pelos quais na aurora do pensamento no ocidente, nortearam as convicções do milésio sobre a arquitetura do cosmo. A genialidade que Dirk atribui ao milésio relaciona-se, portanto, especificamente à capacidade de elevação do intelecto de Anaximandro que, não obstante estar inscrito em um século marcado com as cores do quadro mental da tradição mítica, não se recuou na busca de um modelo cosmológico que se explique por intermédio da razão. A cosmologia de Anaximandro, no entanto, ganhou notoriedade, sobretudo, por amalgamar na sua constituição, elementos que inauguraram uma cosmologia à frente da proposta por seu mestre Tales3 624 a.C., ou seja, Anaximandro versa por uma cosmologia esférica cuja estabilidade se dá por espaços isotrópicos, simétricos e harmônicos, ainda não contemplados. No mesmo trilho, assinala Jean-Pierre Vernant (1990, p. 248), “trata-se por certo de um espaço essencialmente definido por relações de distância e de posição, um espaço que permite fundamentar a estabilidade da terra na definição geométrica do centro em suas relações com a circunferência” (FREIRE, 2016, p.9-10). Como podemos ver, Anaximandro, ainda em um período marcado pelo pensamento mitológico, consegue estabelecer uma arquitetura do cosmos um tanto quanto sofisticada, marcada por uma dicotomia central entre união do todo e separação e distanciamento das partes. Discípulo de Anaximandro, Anaxímenes deu continuação à tradição jônica, concordando com a ideia de que existia um elemento básico a partir do qual todas as coisas seriam derivadas. Entretanto, para Anaxímenes esse elemento seria o ar. Esse elemento é escolhido pelo pensador a partir de suas observações da natureza, reforçando assim o caráter físico do pensamento pré-socrático. Seguindo na linha de pensamento crítico ao princípio mitológico e interessado em uma nova explicação de mundo, a Grécia antiga vai apresentar outras figuras que desenvolverão o pensamento anterior a Sócrates. Para nossos objetivos, não devemos deixar de conhecer uma dupla de pensadores importantes e opostos, a saber, Parmênides de Eléia e Heráclito de Éfeso. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 19 Nascido já nas últimas décadas do século VI a.C., Parmênides inaugurou uma terminologia que seria propriamente adotada pela filosofia, uma terminologia que expressa em si a preocupação com o Ser. De certo modo, Parmênides inaugura a corrente ontológica que vai perdurar ao longo de toda a história da filosofia. Vejamos, na tradução de Barbieri, trechos do poema “Sobre a Natureza” de Parmênides: Há de haver o pensar, o dizer e o ser, pois o ser é e o nada, não. Peço que o peses. Dessa primeira via de exame te afasto, mas também daquela outra em que os néscios mortais 5 deambulam com duascabeças, guiadas suas mentes errantes pelo imo inepto. Surda e cega, é levada a hesitante e confusa raça, crendo que o ser e o não ser são o mesmo e o não mesmo, e o caminho de tudo regride (DK, fr 4b) (BARBIERI, 2020, p.318). Ao afirmar que o ser é e o nada, não é, Parmênides lança as bases para a ideia de ser e não ser como estrutura fundamental da existência. Nesse momento você pode pensar, mas isso não demasiadamente óbvio, e a resposta é não. Isso só é óbvio para nós porque ao longo dos últimos vinte e seis séculos tal princípio tem sido depurado no ocidente. Em diversas partes do pensamento oriental, por exemplo, o ser e o não ser, o positivo e o negativo, são unidos e participantes um da realidade do outro. Continuando a leitura do próprio poema de Parmênides, podemos ver: Resta só um relato sobre a via que é. Há sinais nela, muitos, vários, de que o ser é incriado e indelével, pois completo é, imóvel e ainda infindo. 5 Nem já foi nem será; ora é, todo e coeso e contínuo e um. Que orto há p’ra apurar? Onde e como iria crescer? Pois te vedo a pensá-lo e exprimi-lo. Não se pensa ou fala do que não é. Forçou-o qual necessidade, 10 em tempo ido ou vindouro, a nascer desde o nada? Assim, deve algo ser totalmente ou nunca. E jamais o poder da Fé há de aprovar do ser vir o não ser. Logo, não permitiu-lhe nem surgir nem morrer a Justiça, lasseando 15 seus grilhões, mas contendo-os. Tal é o veredito: ou algo é ou não é (DK, fr 7b) (BARBIERI, 2020, p.318). Nesse trecho podemos ver Parmênides argumentando que o ser não pode surgir do não ser, bem como o não ser não pode surgir do ser. Como consequência dessa ideia, FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 20 Parmênides acredita que tudo aquilo que existe, existe de maneira acabada, de modo tal que não há movimento no mundo, pois não há a possibilidade de surgimento de algo novo que antes não existia. O que existe, existe e pronto, de maneira definitiva. Só existem mudanças na forma da matéria, mas não em seu ser. Parmênides de Eléia Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Parm%C3%AAnides#/media/Ficheiro:Parmenides.jpg Como oposição a Parmênides e a seu pensamento sobre o ser estático, há o pensamento de Heráclito de Éfeso. Heráclito, que viveu aproximadamente entre os anos 500 e 450 a.C. acreditava que o movimento da existência era algo constante. É dele a célebre frase de que um homem não pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio não seria o mesmo e o homem não seria o mesmo. Essa ideia de movimento de Heráclito dá as bases ao que conhecemos como dialética e que será estudado em diversos momentos da história da filosofia, como em Sócrates, Hegel e Marx. A ideia de dialética consiste, basicamente do princípio de que existem polos opostos e que a oposição entre esses polos gera um movimento fundamental. Para Heráclito, o elemento fundamental é o fogo, de modo que tudo surge do fogo. Ainda, esse elemento retrata a ideia de Heráclito de que tudo está em constante FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 21 fruição, na luta entre ser e não algo, tornando-se algo novo. Assim, talvez, a máxima que devemos lembrar de Heráclito é que “tudo flui”. ISTO ESTÁ NA REDE No vídeo a seguir temos uma explicação resumida sobre os pré-socráticos. Essa explicação pode ser uma boa aproximação para fixarmos os conteúdos dessa aula. Filósofos Pré-socráticos (resumo) ANOTE ISSO Note que indivíduos há mais de vinte e seis séculos constroem uma cosmovisão, ou seja, uma organização do mundo a partir da qual é possível explicar a origem e o sentido da existência. Qual seria, hoje, a sua cosmovisão? Como você entende a estrutura do mundo e por quê? Ainda, quais são as cosmovisões mais comuns em nossos dias? https://www.youtube.com/watch?v=hbDr8L4M1T8 FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 22 CAPÍTULO 3 TEORIA DO CONHECIMENTO E EPISTEMOLOGIA Uma coisa é certa, o ser humano tem a capacidade de conhecer a si mesmo e o mundo ao seu redor. Entretanto, existem inúmeras questões que circulam o campo do conhecimento, de modo que não é unanimidade como o conhecimento existe e quais são suas estruturas no ser humano. Imagine, por exemplo, que você visite uma cidade que não conhecia e volta para sua cidade original com a sensação de que aquela é uma cidade fria. Ao conversar com um amigo, você expõe sua sensação, de que aquela cidade é fria e seu amigo discorda completamente de você. Quem está correto? Qual é o conhecimento correto sobre aquela cidade que ambos conheceram? Existem variáveis que devem ser levadas em conta, de modo que a verdade sobre a temperatura daquela cidade seja apreciada. Nós, olhando de fora, podemos analisar que você visitou aquela cidade no inverno e seu amigo a visitou no verão. Com isso, podemos entender que aquela cidade é muito fria no inverno e muito quente no verão. Além disso, podemos entender também, que as pessoas possuem experiências diferentes e que, com isso, desenvolvem crenças diferentes sobre a verdade. Dado esse exemplo inicial, podemos pensar agora sobre quais são os limites do conhecimento dado a partir da experiência. Por outro lado, podemos ver também que a memória que temos sobre as experiências são elementos importantes do conhecimento, pois se ao voltar para sua cidade você esquecesse da experiência que teve na cidade que foi visitar, sua crença sobre a temperatura daquela cidade seria afetada. O trabalho de análise é aquele que pega um dado e compara a outro, dentro da situação específica. Fizemos análise ao entendermos que você visitou a cidade no inverno e seu amigo o fez no verão. Com a comparação da situação, pudemos entender algo novo que expressa um conhecimento novo sobre o contexto. Se não soubéssemos qual era o período do ano que você e seu amigo visitaram a cidade, poderíamos imaginar que justamente no dia de sua visita uma massa de ar polar passava por aquela cidade, mas na verdade ela era em geral uma cidade quente. Poderíamos imaginar também o contrário, que aquela cidade era normalmente fria, mas que por conta de um fenômeno meteorológico qualquer, no dia da visita de seu amigo, a temperatura estava nas alturas. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 23 Note, existem várias formas de conhecer e várias ferramentas para que o conhecimento seja desenvolvido. A filosofia, com sua atitude filosófica, busca entender o que está para além da superfície, e sua forma de investigação permite que as bases e as estruturas sejam questionadas. Nessa aula, vamos aprender um pouco mais sobre o conhecimento e suas estruturas. Marilena Chauí, nos afirma que: Com os filósofos gregos, estabeleceram-se alguns princípios gerais do conhecimento verdadeiro: ? as fontes e as formas do conhecimento: sensação, percepção, imaginação, memória, linguagem, raciocínio e intuição intelectual; ? a distinção entre o conhecimento sensível e o conhecimento intelectual; ? o papel da linguagem no conhecimento; ? a diferença entre opinião e saber; ? a diferença entre aparência e essência; ? a definição dos princípios do pensamento verdadeiro (identidade, nãocontradição, terceiro excluído, causalidade), da forma do conhecimento verdadeiro (idéias, conceitos e juízos) e dos procedimentos para alcançar o conhecimento verdadeiro (indução, dedução, intuição); ? a distinção dos campos do conhecimento verdadeiro, sistematizados por Aristóteles em três ramos: teorético (referente aos seres que apenas podemos contemplar ou observar, sem agir sobre eles ou neles interferir), prático (referente às ações humanas: ética, política e economia) e técnico (referente à fabricação e ao trabalho humano, que pode interferir no curso da Natureza, criar instrumentos ou artefatos: medicina, artesanato, arquitetura, poesia, retórica, etc.). Para os gregos, a realidade é a Natureza e dela fazem parte os humanos e as instituiçõeshumanas. Por sua participação na Natureza, os humanos podem conhecê-la, pois são feitos dos mesmos elementos que ela e participam da mesma inteligência que a habita e dirige. O poeta alemão Goethe criou estes versos, que exprimem como os antigos concebiam o conhecimento: Se os olhos não fossem solares Jamais o Sol nós veríamos; Se em nós não estivesse a própria força divina, Como o divino sentiríamos? O intelecto humano conhece a inteligibilidade do mundo, alcança a racionalidade do real e pode pensar a realidade porque nós e ela somos feitos da mesma maneira, com os mesmos elementos e com a mesma inteligência (CHAUÍ, 2000, p.141-142). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 24 Vamos destrinchar essa citação que nos ajudará muito nos rumos de nossa aula. Primeiramente, é afirmado que os gregos estabeleceram: “as fontes e as formas do conhecimento: sensação, percepção, imaginação, memória, linguagem, raciocínio e intuição intelectual”. Nesse trecho, vemos que já nos gregos antigos havia uma preocupação com as fontes do conhecimento, ou seja, com a investigação sobre de onde vem conhecimento. Pela proposição dos gregos, podemos ver, por exemplo que o conhecimento é possível a partir da sensação, como no exemplo que demos acima sobre a sensação que a temperatura de uma cidade pode gerar em você. Além dessa forma de conhecimento, existem diversas outras, e isto, estamos pensando apenas a partir da produção dos gregos antigos, sem levar em conta seus desenvolvimentos ao longo da história. O segundo ponto que devemos entender é que existe uma diferença entre o conhecimento sensível e o conhecimento intelectual. Boa parte do conhecimento que carregamos conosco se enquadra no âmbito do conhecimento sensível, aquele que deriva das experiências práticas da vida. Entretanto, uma outra parte do que conhecemos, deriva de nossa capacidade de intelecção, nossa capacidade de inteligir. Imagine, por exemplo, que você aprende na faculdade de medicina, que um remédio qualquer seja bom para dor de cabeça. Você aprende os princípios farmacológicos e as reações fisiológicas daquele remédio, e por isso, indica a seus pacientes que eles tomem aquele remédio para dor de cabeça. Por acaso, você é uma pessoa que não costuma ter casos de dor de cabeça, e por isso, nunca tomou aquele remédio. Por outro lado, seu paciente, que não estudou aquele remédio, o tomou, e alguns minutos após tê-lo tomado sentiu, de fato, que aquele remédio funciona para dor de cabeça. Nesse caso, ambos possuem um conhecimento, porém, você tem esse conhecimento pela via intelectual e seu paciente tem um conhecimento pela via sensível. Por mais que esse conhecimento seja parecido, ele possui uma estrutura diferenciada, e por isso, é um conhecimento diferente. Na sequência, devemos pensar um pouco sobre o papel da linguagem no conhecimento. A comunicação em geral, e a linguagem em particular, tem papel importante na formação do conhecimento. Quantas vezes, no quotidiano, enfrentamos problemas para resolver alguma situação por conta da incapacidade de comunicação efetiva. Não estamos falando aqui de linguagem formal ou informal, mas de efetividade de comunicação, ou seja, de uma comunicação que transmita, de fato, as intenções dos comunicantes. Digamos que você vá à padaria e peça um pingado. No Paraná e em São Paulo um pingado significa um copo de café com leite. Em outras partes do Brasil, não necessariamente se entenderá o que se deseja. Mas, digamos que você consiga superar essa dificuldade e explique que deseja um copo de café com leite. No entanto, você está acostumado a tomar um copo quase cheio de café, com apenas 10 FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 25 % de leite. Então, você pede um copo de café com pouco leite. O atendente, que está acostumado a tomar um copo quase cheio de leite e apenas 10% de café, entende que deve diminuir a quantidade de leite, mas não necessariamente diminuir a apenas 10% de leite. Com isso, você recebe um copo com metade de leite e metade de café. Note como uma situação simples, quando não explicada corretamente, gera uma grande dificuldade de compreensão. Para que se chegue ao desejado é necessário que haja uma explicação ampla, bem definida, apresentando cada passo e cada elemento que constitui aquele ponto desejado. Na filosofia, essa necessidade de definição é ainda maior, pois muitos dos conceitos são extremamente específicos e complexos. Passando para uma reflexão um pouco mais complexa veremos o exemplo da diferença fundamental da ideia de conhecimento entre os sofistas e Aristóteles. Dentre os sofistas havia uma forte tendência a acreditar que o conhecimento se dava de forma relativa, ou seja, que o conhecimento verdadeiro dependeria da verdade do próprio observador. Essa perspectiva foi refutada por Aristóteles, que acreditava que havia uma diferença entre a aparência e a sensação: Segundo a tese sofística sobre o conhecimento, podemos dizer brevemente que ela se desdobra dessa maneira: se conhecimento é sensação, então (i) tudo o que conheço é o que me aparece e é verdadeiro para mim e (ii) o conhecimento depende da disposição do percipiente, i.e., se muda a disposição, muda-se o conhecimento. Ou seja, se o conhecimento é sensação, então o que conheço, o que é verdadeiro para mim é aquilo que aparece aos meus sentidos, e, como a sensação depende da disposição do percipiente, então também o conhecimento depende da disposição do percipiente, portanto, se o saudável pensa que o vinho é doce, mas o doente que é amargo, então é verdadeiro que o vinho seja doce e amargo ao mesmo tempo, visto que o modo pelo qual conhecem depende da disposição de cada um. Aristóteles refuta esta argumentação ao mostrar o que é qualidade sensível e em que ela difere do que aparece ao sujeito, que conhecimento não é sensação de modo absoluto e nem o ser é perceber de modo absoluto, mas apenas em parte. As diferenças, portanto, entre conhecimento e sensação e entre ser e perceber se tornarão evidentes a partir dos seguintes argumentos: o primeiro argumento consiste em dizer que a qualidade sensível e o que me aparece, bem como a sensação e a mera aparência são coisas distintas. A qualidade sensível é uma propriedade real da coisa externa e independente do sujeito, já a aparência é uma afecção do sujeito, algo interno e dependente daquele que a sente. Porém, como veremos, nem tudo o que me aparece é verdadeiro, já a sensação dos sensíveis próprios será sempre verdadeira. O segundo argumento consiste em mostrar que aquilo que é não é absolutamente idêntico ao mundo sensível. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 26 Quanto ao primeiro argumento, Aristóteles nos diz que a sensação deve ser distinta da mera aparência, sendo que a primeira pode ser verdadeira, e assim o é quanto aos sensíveis próprios; já a segunda normalmente é falsa, ou seja, não corresponde ao objeto externo apreendido. Neste sentido, Aristóteles tem o intuito de refutar a tese relativista de que o ser é apenas ser percebido e sempre verdadeiro para quem o percebe. É claro que o conceito de verdade, no caso do fenômeno perceptivo, é ambíguo, pois não podemos negar que aquele que percebe algo amargo, verdadeiramente tenha a sensação da amargura. Todavia, podemos investigar se o objeto percebido, verdadeiramente tem a qualidade amarga no momento em que esta foi percebida, ou é apenas uma me ra aparência que não corresponde à real natureza do objeto percebido. Em outras palavras, nem sempre é possível discriminar verdadeiramente a naturezada qualidade sensível de acordo com o modo pelo qual as coisas nos aparecem. Em primeiro lugar, sabemos que o que nos aparece nem sempre é verdadeiro, isto é, nem sempre corresponde ao que é o objeto externo, mas sabemos que a sensação do sensível próprio pelo órgão adequado é sempre verdadeira (como a cor percebidapela visão, os sons pela audição e assim com os outros sensíveis). Por exemplo, se um certo objeto aparece para o saudável com certa qualidade e para o doente com outra, não significa que o objeto tenha e não tenha ao mesmo tempo certa qualidade, nem em diferentes tempos, pois o órgão do sentido não deixa de apreender adequadamente o seu sensível próprio seja simultânea ou sucessivamente. Todavia, é fato que indivíduos em condições ou disposições diversas têm opiniões diferentes acerca dos objetos que lhes aparecem, como o doente e o saudável. Ora, nem simultaneamente, nem em diferentes tempos o órgão do sentido deixa de apreender adequadamente o seu objeto próprio se as seguintes condições forem cumpridas: o percipiente deve estar, no instante de percepção, em certas condições adequadas e com certa disposição adequada, assim como, o próprio objeto percebido não venha a mudar para outro estado, assumindo outros atributos diferentes do atual (AGGIO, 2006, p.9-10). Vejamos quais são as consequências dessa compreensão. Aristóteles separa o campo da aparência e da sensação, sendo que a aparência é aquilo que corresponde ao próprio objeto. Digamos que você coloque a mão em uma bacia de água e note que a água está quente. A temperatura da água não depende da sua sensação, ela é algo que pode ser medida objetivamente. Se a água está a uma temperatura de 25 graus, ela está a 25 graus independente da sua sensação. Se a temperatura ambiente está 40 graus, você terá a sensação de que a água está fria. Entretanto, se a temperatura ambiente estiver a 0 grau, sua sensação será de que a água está quente. A sensação é verdadeira para quem sente, mas não diz a verdade absoluta do objeto externo. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 27 Protágoras ao centro (sofista) Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Prot%C3%A1goras#/media/Ficheiro:Salvator_Rosa_-_D%C3%A9mocrite_et_Protagoras.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 28 Essa percepção de Aristóteles difere muito da concepção sofista de que o conhecimento é absolutamente relativo, ou seja, de que ele varia de acordo com cada sujeito. O que varia, de fato, é apenas a sensação, mas verdade objetiva sobre a temperatura da água é uma e a mesma, a de que ela está a 25 graus. Hoje, por exemplo, nós temos com facilidade o auxílio de termômetros. A utilização dessa ferramenta depende da nossa ideia de que há uma verdade objetiva a ser compreendida para além de nossa sensação. Esse exemplo de Aristóteles nos ajuda a entender a diferença fundamental entre os períodos da teoria do conhecimento e epistemologia. A teoria do conhecimento é esse esforço filosófico geral que abrange o problema do conhecimento como um todo. A epistemologia, especialmente a epistemologia moderna, por outro lado, diz respeito ao conhecimento específico de uma ciência. Pode-se falar, por exemplo da epistemologia nas ciências biológicas ou na física. Mas, essa reflexão está dentro do problema de como se pode desenvolver um conhecimento verdadeiramente científico e não necessariamente sobre o problema da capacidade de conhecer em si. ISTO ESTÁ NA REDE O vídeo a seguir explica de modo esquemático um pouco sobre a epistemologia e sobre a teoria do conhecimento: https://www.youtube.com/watch?v=UYYucWHzCko ANOTE ISSO Hoje nós estamos muito acostumados a lidar com uma infinidade de informações que querem nos ensinar sobre tudo, sobre como devemos comer, como nos exercitarmos, como nos relacionarmos com nossa família, como ganhar dinheiro, como nos vestirmos, etc. Nem sempre aquilo que tem a aparência de um conhecimento verdadeiro é um conhecimento criterioso que realmente tem validade e que pode ser utilizado em nossa vida. Para entendermos a validade dos saberes e das informações devemos nos dedicar um pouco ao estudo do conhecimento em si. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 29 CAPÍTULO 4 FILOSOFIA GREGA: SÓCRATES, PLATÃO E ARISTÓTELES Agora chegamos ao núcleo do pensamento grego: Sócrates, Platão e Aristóteles. Se é importante conhecermos diversos pensadores que vieram antes ou depois dessa tríade, é essencial que entendamos o que foi desenvolvido por esses três pensadores. Primeiro é importante que saibamos que esses três pensadores se dão nessa mesma ordem cronológica, Sócrates veio primeiro, depois Platão e em seguida Aristóteles. Em seguida, podemos entender que dois desses filósofos foram escritores, Platão e Aristóteles. Sócrates não escreveu nada. Seu pensamento foi transmitido a partir dos escritos de Platão. Sócrates nasceu em 470 a.C. e Aristóteles morreu em 322 a.C. Assim, eles viveram e produziram quase na totalidade dos séculos IV e V a.C. Como Sócrates não escreveu nada, o que sabemos sobre o seu pensamento vem da escrita de outra pessoa, nesse caso, de Platão. Platão se dedicou tanto ao pensamento de Sócrates que algumas pessoas questionam se Sócrates realmente existiu ou se foi apenas um personagem de Platão. Existem alguns outros poucos registros de um Sócrates na época, como na escrita de Aristófanes, o que nos dá a ideia de que sim, ele deve ter sido uma figura histórica. Das coisas que podemos aprender com Sócrates, talvez a mais central é a de que existe um processo dialético no conhecimento. Para o filósofo, a relação entre pólos seria o princípio de movimentação do conhecimento e seria a partir dele que teríamos a possibilidade de gerar saber. O nome que devemos registrar é “maiêutica”, ou, a arte da velha parteira. Para Sócrates, a geração do conhecimento pode ser comparada com a arte das parteiras. Sua mãe teria sido uma parteira famosa e por isso ele teria desenvolvido essa teoria. Ora, para Sócrates, é necessário ajudar o conhecimento a nascer, é necessário que se faça o parir do saber. Essa arte, é feita a partir de um processo dialético, na qual dois polos se põem em diálogo, sabidamente o mestre e o discípulo, o professor e o aluno. Não seria possível que o mestre passasse um conhecimento diretamente para o aluno, pois o conhecimento vem da investigação e não do depósito. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 30 Sócrates Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%B3crates#/media/Ficheiro:Plato-raphael.jpg Sócrates explica que em sua época, a parteira não tinha o papel apenas de auxiliar no parto, mas devia também fazer o encontro dos casais, servir como casamenteira. Nesse sentido, quem ensina deve também apresentar ao aluno as condições do conhecimento. Essas condições são dadas através de questões, para que o próprio aluno possa pensar sobre as mesmas e responde-las, gerando assim um conhecimento a partir de si mesmo. Na prática, a filosofia de Sócrates consiste em uma aproximação em busca de diálogo com a juventude, buscando com isso pessoas dispostas a gerar conhecimento, e no caminho do diálogo gerar as definições, as essências que permitem uma prática ética válida. Disso, resulta uma necessidade imperiosa de definir. Definir claramente as virtudes morais, em primeiro lugar. A definição, a chamada “caça às essências”, é uma das grandes contribuições de Sócrates à filosofia. Constitui a última etapa do método que ficou conhecido como método socrático. Conhecida a essência de determinado valor ético, segue- se a ação, porque agora se dispõe de um conceito universalmente válido, não mais uma atitude relativista. Ê o império da Razão. O método socrático tinha o aspecto geral do uso do diálogo vivo, já que o escrito — e a isso já nos referimos no começo, quando lembramos a passagem do Fedro (275 e) — tolhia o uso livre do melhor no homem: seu caráter racional. A ironia, a maiêutica e a “caça às essências” constituíam suas etapas (IANNI, 1983, p.52). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 31 A busca por essências em Sócrates acompanha a lógica essencialistaque será proposta por Platão. Além disso, aponta para a elevação da racionalidade contra o uso superficial do discurso, sua principal crítica aos sofistas, que eram mestres da retórica que compunham uma escola de pragmatismo discursivo. Platão desenvolveu seu próprio sistema essencialista apresentando uma cosmovisão. A cosmovisão platônica entende que existem dois mundos, um mundo das essências e outro mundo das aparências. Nós vivemos no mundo das aparências, onde as coisas são tangíveis – ou seja, tocáveis – e podem mudar de aparência. Por exemplo, digamos que exista uma cadeira na qual você está sentado. Essa cadeira pode ser a clássica cadeira de cozinha, de madeira e com quatro pernas. Entretanto, pode ser também uma cadeira de escritório, com rodinhas, feita de metal. Pode ser ainda uma daquelas cadeiras de plástico branca. Todas essas cadeiras, que são diferentes, possuem a mesma essência de cadeira, mas possuem aparências diferentes, pois aqui, no nosso mundo, as coisas são contingentes, podem mudar. Com isso, Platão desenvolve sua teoria das ideias, o que seria, de certa forma, o ponto de partida para toda a metafísica ocidental: Para Platão, o tipo de método dos naturalistas, fundado sobre os sentidos, não esclarece, mas obscurece o conhecimento. O novo tipo de método, portanto, deverá fundar-se sobre as Idéias, e mediante elas deverá tentar captar a verdade das coisas (Fédon 100 a – 101 d)6. A passagem do sensível ao supra-sensível, ou seja, a introdução de uma causa não-física, metafísica, torna-se necessária justamente para explicar o sensível e libertá-lo das contradições nas quais cairia se fosse deixado a si mesmo7. “O benefício da ‘segunda navegação’, como vimos, é a descoberta de um novo tipo de ‘causa’, que consiste nas realidades puramente inteligíveis”8. O sensível e o físico não são considerados causa verdadeira. Sensível é meio e instrumento mediante o qual a “causa verdadeira” se realiza. Neste sentido, a intelecção e a opinião devem ser cuidadosamente distintas quanto à sua origem e quanto à sua natureza. Segue-se, por conseguinte, que é necessário postular a existência de uma outra realidade, diferente da que percebemos. A realidade das Idéias é, pois, baseada na distinção entre dois modos de conhecimento e limita a pretensão do sensível de esgotar a verdade do real (NODARI, 2004, p.361-362). Note-se que há uma grande mudança entre a perspectiva platônica e a perspectiva dos pré-socráticos. Para os pré-socráticos, a natureza seria o objeto de investigação FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 32 e seria na própria natureza que se encontrariam as causas de tudo que acontece no mundo. Para Platão, por outro lado, há uma outra causa, uma causa que está para além da física (natureza), uma metafísica. Platão Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Plat%C3%A3o#/media/Ficheiro:Plato_Silanion_Musei_Capitolini_MC1377.jpg O idealismo de Platão desenvolve um sistema no qual não apenas existem as ideias, mas que existem também elementos supremos. Como aqui no mundo das aparências a bondade é parcial, há, no mundo das ideias uma bondade que é absoluta. Esse bem absoluto recebeu o nome de sumo bem: Platão, na República, chama o Princípio Supremo de Bem25. No Bem, a unidade não é somente a perfeição de um gênero. É a perfeição absoluta. É o perfeito em si. É o Bem em si no qual identidade e diferença estão unidas. O Bem, aos olhos de Platão, é a Idéia Suprema que constitui o tema do mais alto grau do conhecimento (República 505 a), o qual, não obstante seja o grau mais elevado do conhecimento, constitui-se também no mais difícil, pois o Bem permanece sempre mais além de tudo o que o homem pode alcançar. Por isso, enquanto em si absoluto, a Idéia do Bem propaga luz sobre os objetos do conhecimento e confere ao sujeito, que conhece, o poder de conhecer (República 508 a – 509 b), sendo que “(...) o verdadeiro conhecimento consiste em saber unificar a multiplicidade numa visão sinótica que reúne a multiplicidade sensorial na unidade da Idéia da qual depende” (NODARI, 2004, p.364). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 33 O supremo bem, de Platão, se identifica com a beleza, sendo ao mesmo tempo um sumo bem e um sumo belo. Note-se que essas noções platônicas de divisão em dois mundos, de existência de um ser com características supremas e da consideração do mundo real como algo passageiro, indica um princípio metafísico que será amplamente utilizado na cosmovisão cristã. No campo da política, que passou a ser um elemento importante na filosofia antiga a partir de Platão, há uma crítica incisiva sobre o funcionamento da democracia como regime político: É sabido que a indagação acerca do problema da democracia – seu valor, seu modo de funcionamento, seus princípios – dispõe, no registro da filosofia política desenvolvida por Platão, de um lugar teórico destacado e privilegiado. Mais ainda, poderíamos dizer que Platão é um dos primeiros autores da história do pensamento ocidental a efetuar uma análise rigorosa, sistemática e profunda da politeía democrática, submetendo o que se convencionou chamar de “sistema de governo popular” a uma abordagem filosófica radical e consistente, que, não obstante os mais de dois mil anos que dela nos separam, conserva até hoje seu vigor e sua atualidade.1 É certo que, via de regra e de um modo geral, essa análise assume contornos nitidamente críticos e polêmicos, visando denunciar, de maneira contundente, aquelas que seriam as possíveis insuficiências políticas e institucionais do referido regime – procedimento que provoca no leitor contemporâneo certo estranhamento e perplexidade, de vez que, em nossos dias, a democracia parece ter se estabelecido como única forma de governo realmente legítima, como um valor político, portanto, inquestionável e inconcusso.2 Porém, deve-se reconhecer ao mesmo tempo que, apesar de seu tom profundamente polêmico e não muito amistoso, a reflexão platônica sobre a democracia possui um caráter instigante e sobremaneira provocador, podendo, portanto, como tal, contribuir para que alcancemos uma compreensão mais madura e filosoficamente menos ingênua do fenômeno democrático, para além das considerações meramente apologéticas e laudatórias que costumam dominar os discursos convencionais sobre o tema (OLIVEIRA, 2017, p. 28-29). A crítica básica de Platão é simples e ele a expõe em seu livro “O Político”. O filósofo afirma que a democracia é o governo do povo, mas entende que o povo não está preparado para governar. Seria necessário, portanto, que o governante fosse instruído, desde sua infância, na arte do governo da coisa pública. Com isso, Platão defende a existência de um rei-filósofo. Aristóteles, discípulo de Platão, é o primeiro filósofo sistemático, que apresenta tratados em busca da construção de um sistema de pensamento mais completo. FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 34 Aristóteles define a metafísica de quatro formas ao longo do seu trabalho, sendo que a primeira causa seria a seguinte: A primeira, já citada acima, aparece logo no início da Metafísica, 2014, I em 982 b 5-10, p. 11: “[...] esta deve especular sobre os princípios primeiros e as causas [...]”. A metafísica, portanto, é a ciência que estuda os princípios e as causas supremas presentes na realidade. Ressalta-se o fato de que os objetos da metafísica não são quaisquer causas ou princípios, mas sim os supremos, pois os particulares são objetos das ciências particulares. É necessáriauma ciência que estude os princípios e causas universais para que as demais ciências tenham fundamentos para se apoiarem e se desenvolverem. E, segundo Aristóteles, aqueles que possuem conhecimento sobre as causas são mais sábios, dado que o conhecimento sensível é mais básico e está disponível a todos. Ora, de fato, qualquer um é capaz de perceber que o fogo queima, contudo, nem todos podem dizer por que ele queima (PEREIRA, 2017, p.17). Desse modo, o sentido da metafísica seria o estudo das causas primeiras, os princípios. Essa ideia de metafísica serve como uma estrutura básica a partir da qual as demais ciências podem se firmar. Ou seja, não é apenas uma estrutura metafísica, mas uma estrutura metafísica que aponta para a física e para o funcionamento das ciências. Aristóteles Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles#/media/Ficheiro:Aristotle_Altemps_Inv8575.jpg FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 35 O segundo sentido da metafísica em Aristóteles é: Num segundo sentido, porém, complementar ao anterior, a metafísica é, como nos diz Aristóteles em Metafísica, 2014, IV, 1003 a 20-21, p. 131: “[...] ciência que considera o ser enquanto ser, e as propriedades que lhe competem enquanto tal”. O ser, em última instância, é também um determinado tipo de causa suprema, já que é o responsável pelos atos e perfeições das coisas. Entretanto, sobre o conceito específico de ser trataremos posteriormente (PEREIRA, 2017, p.18). Esse é o sentido recuperado na fenomenologia hermenêutica de Martin Heidegger já no século XX. Segundo Heidegger, a história da filosofia se dedicou muito mais ao estudo dos entes, ou seja, das coisas que são, do que do Ser propriamente dito. O terceiro sentido da metafísica em Aristóteles é: Em sua terceira significação, Aristóteles apresenta a metafísica como teoria da substância: “O objeto sobre o qual versa nossa pesquisa é a substância: de fato, os princípios e as causas que estamos pesquisando são as das substâncias” (ARISTÓTELES, 2014, XII, 1069 a 18 - 19, p. 543). Para ajudar a compreender melhor a questão, Reale nos diz, em Metafísica, 2001, p. 42: “[...] o ser tem múltiplos significados, dos quais o de substância não só é o principal, mas até mesmo o fundamento de todos os outros”. A metafísica é ciência da substância na medida em que a substância é o significado máximo do ser e permite que todos os outros sentidos dele não somente ocorram, mas ocorram de maneira fundamentada (PEREIRA, 2017, p.18). Nesse sentido, a metafísica assume uma das ideias principais de Aristóteles, sua noção de substância, que é o sentido principal do Ser. Por último a metafísica em Aristóteles possui o seguinte sentido: “Por fim, a metafísica é definida como teologia, pois a ciência dos primeiros princípios é também ciência divina e das coisas relativas a Deus, ou seja, do suprassensível” (PEREIRA, 2017, p.18). Teologia, que nesse caso é o próprio estudo sobre Deus ou sobre a divindade, estava ainda no horizonte de interesses de Aristóteles, e ali ele inicia a fusão entre a metafísica e a religião de forma sistemática. Vejamos também algo sobre uma importante proposição de Aristóteles, sua teoria das quatro causas. Para Aristóteles existem as seguintes causas: material, formal, eficiente e final. As causas são, antes de mais nada, o elemento anterior que permite com que algo seja exatamente o que é. Vejamos primeiramente a causa material: FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 36 A primeira causa, a material, é aquilo imanente de onde algo provém e, ainda, é causa intrínseca do ente real. Ela é sujeito de toda e qualquer determinação e mudança do devir e, portanto, não possui determinação alguma. Ou seja, a matéria é o subjacente da transformação de toda substância considerada nela mesma, pois ela não se predica de nada; ao contrário, todas as coisas se predicam da matéria, inclusive a substância [...] (PEREIRA, 2017, p.39). A segunda causa, para Aristóteles, é a causa formal: A forma, em contrapartida, é o oposto da matéria, pois uma de suas características é a necessidade de sempre portar-se em algo. Além disso, ela é responsável por trazer as determinações para a matéria e, por essa razão, diz o que a coisa é. Vale ressaltar que, assim como a matéria, a forma é sempre causa intrínseca na coisa, porque ainda que ela advenha de terceiros, ela só pode ser concretamente enquanto num substrato. Na natureza, ela se divide em duas, como explica Tomás Alvira [et al] (2014, p. 264): “A forma sem a qual um ente não seria nada é denominada forma substancial; as que agem em um ente já em ato, acrescentando-lhe ulteriores determinações, são as formas acidentais”. Em outras palavras, a forma substancial é a responsável por trazer o ato da matéria à luz, pois é a matéria que a recebe como sujeito e, nesse sentido, o ente passa a ser uma substância própria. Já as formas acidentais dão determinações ulteriores à substância composta, ou seja, atualizam a matéria segunda com perfeições que necessitam sempre da substância composta; por exemplo, a altura de um homem, a cor dos seus olhos, cabelo e etc (PEREIRA, 2017, p.41). É importante perceber que existem formas substanciais, ou seja, aquelas que são básicas para que algo seja o que é e existem também formas acidentais, que não determinam aquilo que algo é, mas que fazem parte de sua forma mesmo assim. A terceira causa é a eficiente, que também é chamada de causa motriz: A causa eficiente ou motriz, diferentemente da matéria e da forma, porém também de fundamental importância, é aquilo de onde provém o movimento ou repouso das coisas. Artigas explica que, para Aristóteles, a causa motriz encontra-se no contato de umas coisas com outras: “Aristóteles afirmou que, no âmbito natural, a causa agente sempre atua por contato” (ARTIGAS, M. 2005, p. 321). A causa eficiente na natureza ocorre quando os entes, que são providos de movimento, tocam-se uns nos outros. No âmbito da técnica é fácil identificar esse tipo de causa, pois o agente é sempre quem delibera e move-se em direção a determinada ação como, por exemplo, o construtor de uma casa; após estabelecer o fim último da ação e possuir a matéria necessária para esse tipo de construção, ele move-se deliberadamente e inicia o processo de construção da casa (PEREIRA, 2017, p.41). FILOSOFIA PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 37 Entende-se portanto que a causa eficiente é aquela força que um ente exerce sobre o outro, movimentando-o para uma nova posição ou configuração. A quarta e última causa é a causa final, ou seja, aquela que determina a finalidade de algo, sua destinação: Temos, por fim, a causa final, que é a finalidade e o objetivo da realização do movimento. Aristóteles explica: “Certas coisas, por sua vez, são causas como o acabamento e o bem de outras: aquilo em vista de que outras coisas se dão é o melhor e tende a ser acabamento delas [...]” (ARISTÓTELES, 2009, Física II, 195 a 15, p. 49). Na natureza, ela se efetiva por via da forma, pois todas as coisas naturais sempre são em vista de algo e a forma, como já foi dito, traz atualidade à potencialidade. Trataremos melhor dessa questão mais adiante. No processo técnico, ela parte da intenção do agente e, aqui, o fim é fim de duas maneiras: enquanto causa e enquanto efeito. Enquanto causa, é aquilo que determinado processo visa alcançar, ou seja, o objetivo: do escultor, a escultura; do construtor de casas, a casa; do conhecimento, a ciência e assim por diante. Se subtraído esse fim, o processo sequer pode ser iniciado, pois ele é causa da ação do agente; não é causa do agente em si, mas é o que move o agente para cumprir determinada meta posta por ele mesmo. Enquanto efeito, ele é aquilo que se concretiza ao final do processo de criação de algo ou de determinada ação: a mesa feita pelo marceneiro, a música produzida