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Primum Ensino Superior em Ciências Humanas e da Saúde
Francelina de Jesus Teles
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER:
VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL SOFRIDA PELAS MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA NOS SERVIÇOS PÚBLICOS DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO.
SÃO PAULO
2024
Francelina de Jesus Teles
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER:
VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL SOFRIDA PELAS MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA NOS SERVIÇOS PÚBLICOS DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO.
Trabalho de Conclusão Cruso apresentado à Faculdade de Serviço Social – PRIMUM como requisito básico para conclusão do curso de Serviço Social. Sob Orientação: Dra. Luiza Aparecida de Barros 
São Paulo
2024
SUMÁRIO
1 Introdução…………………………………………………………………………….. 
2 Metodologia da pesquisa..................................................…………………8
3 Objetivos...............................................................................................…........10
3.1Objetivos geral.................................................................……………………..10
4 Objetivos específicos.........…………………………………………………………..10
1º Capitulo.........................................................................................................…….12
5 - Contextualização da pessoa em situação de rua no Brasil.....................…….12
5.1 Políticas voltadas para a população em situação de rua...................…………....13
5.1.2 Políticas voltadas para a população em situação de rua em são paulo…........15
5.1.3 Resgate histórico em uma sociedade de excluídos: pessoas em situação de rua em São Paulo ……………………………..………………………………………………………….17
5.1.4 Concepção da exclusão das mulheres................……………………….........18
2º Capitulo 
6.1 – O que é violência institucional…………………………………………….
6. 2 – A análise da contextualização institucional………………………………..
6.3 – Os Serviços de Acolhida da Assistência Social no município de São Paulo….
6.4 – Programas intersetoriais 
3º Capitulo 
7.1 - Análise dos dados colhido da pesquisa nos equipamentos públicos fornecido pela ouvidora do município de são Paulo ………………………
7.2 Considerações finais ………………………………………..
4º Referências Bibliográficas
 
AGRADECIMENTOS:
A realização deste trabalho é fruto de uma caminhada que contou com o, incentivo de muitas pessoas, às quais sou imensamente grata.
Primeiramente, agradeço a Trindade o Pai o Filho e o Espírito Santo, por me dar ânimo, força, saúde e perseverança ao longo de todo este percurso.
Aos meus familiares, pelo amor incondicional, paciência e compreensão em momentos de ausência e dificuldades. Sendo eles meus filhos, Enzo Gabriel Teles Santos e Eric Luiz Teles Santos, vocês foram a base de todo o meu esforço.
Meu pai Genezio Barbosa Teles, que já descansa a seis anos, minha paixão. A minha querida mãe Jardelina de Jesus, grata pelo apoio e orações diárias. Meus sete irmão que sempre estiveram por perto, João Teles, Gilson Teles, Gilberto Teles, Joesso Teles , Gerisvaldo Teles, Juracy Teles, Elias Teles e ela a única irmã Dejanira Teles, que muitas vezes fez o papel de mãe, assim como minha cunhada Aliteia Moreira. Assim como meus sobrinhos que sempre foram meus apoiadores.
Às minhas orientadoras, pofª. Dra. Sandra Paulino e profª Dra. Luiza Aparecida de Barros, foram de extrema importância para que eu viesse concluir este trabalho.
Aos meus amigos e colegas, que, direta ou indiretamente, estiveram ao meu lado, oferecendo palavras de incentivo, apoio emocional e inspiração.
Os professores, e orientadoras de estagio, pela dedicação, paciência e orientações que foram essenciais para o desenvolvimento desta conclusão. 
Sendo Eles, pfofª.Dra. Sandra Mrtine, pfofª.Dra. Ilka Custodio prof°. Dr. Valdeir Oliveira, profª. Ms. Kajali Vitorio, prof°. Dr. Marcel R. M. de Meira, pfofª.Dra.Luiza Barros, pfofª. Dra. Sandra Paulino, pfofª.Dra. Mayara Calqui, profª. Ms. Miriam Ferrari, profª. Ms. Samara Xavier, prof°. Dr. Paulo de Tarso e a profª. Ms. Tatiana Lima, por contribuírem para um ambiente de aprendizado e crescimento.
Não posso esquecer, do Tanio Leonardo, meu gerente do terceiro setor, que me chamo na sala dele e fez todo o percurso, o pai dos meus filhos Luiz Eduardo, que sempre acreditou que era possível, a querida Lazinha, que contribuía financeiramente para que eu não desistisse do curso, juntamente com seu filho Eduardo, na contribuições de livros.
As minhas orientadoras de estagio, Maisa da silva Oliveira (NPJ CREAS Perus), e Marina Meire de Oliveira, (CRAS Franco da Rocha), que me incentivaram para que esse momento fosse possível.
Por fim, a todos que, de alguma forma, contribuíram para a concretização deste projeto, meu mais sincero agradecimento.
 
 
 “A mulher, embora sofrendo a mesma repressão na rua, vivenciada de forma diferente esta “inutilidade”. Busca agradar, prestando serviços. Essa atitude pode ser analisa como historicamente condicionada, o feminino tendo sido treinado para a submissão, a obediência e a passividade. A partir do processo de controle exercido pelas instituições e pela sociedade sobre o corpo da mulher, institui-se o que o Foucault denomina de políticas das coerções, em que a força do Estado impõe o respeito à legalidade”. (TIENE (2004, p 61).
 
TELES, Francelina de Jesus. Violência institucional sofrida pelas mulheres em situação de rua nos serviços do município de são Paulo. Trabalho de Conclusão de Curso em Serviço Social - Faculdade Paulista de Serviço Social/Primum de São Paulo, 2024.
RESUMO
O presente Trabalho de Conclusão de Curso tem por objetivo compreender o conjunto de relações contraditórias posto para as mulheres em situação de rua, contextualizando a Violência institucional sofrida pelas mulheres em situação de rua nos serviços do município de são Paulo. Este estudo foi realizado através de um referencial teórico crítico sobre a história da população de rua, com base nas autoras Tiene (2004), Silva (2009), e outros autores. O estudo analisa as mulheres que estão nas ruas ou em acolhimentos. É um tema de relevância, no que diz respeito à população em situação de rua e principalmente às mulheres. À análise quanto ao aumento significativo desta população, dos inúmeros desafios para acessar aos serviços básicos, a notória exposição as diversas violências, como também, reflexões sobre efetividade das políticas, programas de capacitação, promoção de saúde e incentivos, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a população em situação de rua no Brasil cresceu 38% entre 2019 e 2022, quando atingiu 281.472 pessoas, estimando-se que a crescente está relacionada aos impactos da pandemia Covid-19. Subsequente, o Observatório Nacional dos Direitos Humanos, estima-se que nos dois primeiros meses de 2024, mais 10 mil pessoas foram para as ruas. E nesse contexto social pós pandêmico, com acirramento do ciclo da capital, a violência institucional é presente na vida das mulheres em situação de rua. É preciso evidenciar essa violência e posicionar-se etica e politicamente por serviços que promovam direitos e não os violem.
Palavras Chaves: População em situação de rua, Mulheres, instituições. 
1 - INTRODUÇÃO
 
Mesmo que as ações desenvolvidas se apresentem com propostas de
acolher ou “recolher” as pessoas, muitas vezes, a ação significa ensinar bons
costumes e disciplina. Tende-se, então, a cumprir uma função social mais
controladora do que a de propiciar qualidade de vida e cidadania.
(TIENE 2004,)
Vivenciar, ao longo de nove anos intensos, o dia a dia da população em situação de rua despertou em mim não apenas a paixão por esse trabalho, mas também uma série de questionamentos e angústias. Nesse período, mergulhei totalmente na realidade dessas pessoas, especialmente das mulheres, e me deparei com uma diferença alarmante entre as políticas previstas em lei e sua efetiva aplicação no cotidiano desses indivíduos. 
Despertando em mim a curiosidade dessa pesquisa de buscar por respostas, especialmente das mulheres, para entender o processo das instituições que esta postas para garantir direitose muitas vezes não os faz, ou faz parcialmente.
Nunca havia antes trabalhado com essa população, também não tinha conhecimento das variedades de projeto, existentes para acolhimento dessa população, não tinha plena consciência da complexidade e diversidade dos projetos em São Paulo para lidar com essa população tão vulnerável. Por nove ano, trabalhando 12/36. Natal e feriados, em uma organização da Sociedade Civil, acompanhei de perto histórias de vida permeadas por lutas diárias e superações admiráveis.
Minha experiência se desenvolveu em um espaço dedicado ao atendimento de núcleos familiares em situação de vulnerabilidade social, marcados pelas violências de todas as extensões, juntamente com a pobreza, e dependência química. Após a pandemia, a realidade nos trouxe os impactos da Covid-19, que aumentou a desigualdades sociais já existentes. Levando núcleos familiares inteiros para morar nas calçadas e em baixo dos viadutos de São Paulo. 
Nove anos, acompanhando o dia a dia dessas pessoas como orientadora do equipamento me levou a uma busca por respostas, por que as políticas destinadas a garantir direitos muitas vezes falham em atender às necessidades básicas dessa população e os porquês das instituições que deveriam proporcionar-lhes assistência integral, encontram tantas dificuldades. 
O serviço em que atuei tive o contato direto com a população, famílias, mulheres e homens solteiros assim com a população LGBTQIA+ e idosos encaminhadas pelo Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua (Centro POP), localizado na região central da cidade. No ambiente de acolhimento institucionalizado, pude acompanhar a determinação de cada mulher, mesmo diante das adversidades mais desafiadoras.
A violência contra a mulher, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um problema de saúde pública, torna-se ainda mais preocupante no contexto da população em situação de rua. Tanto no aspecto físico quanto no mental, sendo necessário uma abordagem direcionada e sensível, capaz de compreender entre a questão social e a violência de gênero.
 Neste estudo, buscaremos explorar as expressões da questão social que permeiam o cotidiano dessas mulheres, levando em consideração não apenas os aspectos individuais, mas também as estruturas sociais e institucionais que contribuem para sua exclusão dos direitos básicos, como, moradias, saúde e educação.
Este estudo adota uma abordagem realizada através de um referencial teórico crítico metodológico sobre a história da população em situação de rua, no Brasil, com foco no município de São Paulo – SP. Em especial nas instituição. Sendo de grande importância a compreensão da violência de gênero no contexto da população em situação de rua sendo essencial para justificar a importância e a necessidade deste estudo. 
Historicamente e culturalmente, as mulheres são percebidas como figuras frágeis e, ao enfrentarem a condição de rua, tornam-se ainda mais vulneráveis a diversas formas de violência. Entre elas esta a violência por parceiros de vivencia das ruas, que muita os tem para proteção e são eles, em grande parte os agressores.
E os porquês as políticas destinadas a essas pessoas, especialmente às mulheres, encontram tantas dificuldades, para serem implementadas, surge a motivação para analisar os processos institucionais que deveriam garantir esses direitos, mas muitas vezes falham.
Além disso, as questões sociais da população em situação de rua, que contribuem para a falta de direitos, incluindo a falta de acesso a educação e o rompimento dos vínculos familiares, trabalho e proteção à maternidade, O fato de a população em situação de rua no Brasil ser majoritariamente negra ressaltando as condições socioeconômica, evidenciando os séculos de escravidão e racismo estrutural que contribuem para essa realidade, sendo necessário o cumprimento desses direitos básicos, para a mulher que esta acolhida em instituição ou sem abrigo.
Portanto, este estudo visa contribuir para o entendimento das experiências das mulheres em situação de rua, identificando as brechas nas políticas públicas e propondo recomendações para uma abordagem mais inclusiva, alinhada com os direitos humanos e a promoção da igualdade de gênero. 
A presente pesquisa adota uma abordagem metodológica descritiva para analisar os dados coletados nos equipamentos públicos fornecidos pela ouvidoria do município de São Paulo.
A pesquisa descritiva é caracterizada pela coleta, organização, descrição e interpretação de dados sobre um fenômeno específico. Nesse sentido, busca-se compreender as características e padrões relacionados as violência, enfrentada por mulheres em situação de rua, assim como as deficiências nas políticas públicas destinadas a esse grupo vulnerável.
Para coletar os dados, será realizada uma análise dos registros e relatórios disponíveis nos equipamentos públicos, fornecidos pela ouvidoria do município de São Paulo. Esses dados incluem denúncias de violência, solicitações de assistência e outras informações relevantes sobre as mulheres em situação de rua na região central da cidade. A análise desses registros permitirá identificar padrões, tendências e falhas nas instituições.
Além disso, serão conduzidas entrevistas com mulheres moradoras da região central de São Paulo, que estejam em situação de rua ou em acolhimento em instituições. Essas entrevistas serão realizadas de forma qualitativa, respeitando a privacidade e a dignidade das participantes, e visam aprofundar a compreensão das experiências pessoais, percepções e necessidades das mulheres em relação à violência de gênero e às políticas públicas de apoio.
A análise dos dados coletados será realizada de maneira pautada e especifica, utilizando análise qualitativa e quantitativa, conforme apropriado. 
Serão identificados padrões comuns, diferenças significativas e áreas de convergência entre os diferentes conjuntos de dados, a fim de fornecer uma visão abrangente e detalhada do fenômeno estudado.
Por meio dessa abordagem metodológica, espera-se contribuir para o conhecimento acadêmico e para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes e inclusivas para a proteção e assistência às mulheres em situação de rua no município de São Paulo.
O objetivo geral deste estudo é compreender a vivência institucional das mulheres em situação de rua que estão acolhidas, bem como identificar os tipos de violências sofridas por elas nos serviços públicos do município de São Paulo. Busca-se explorar os diversos aspectos ligados à sociedade capitalista, incluindo as condições e necessidades sociais dessas mulheres, os desafios que enfrentam e suas principais dificuldades ao lidar com os agentes responsáveis pela promoção de direitos. Pretende-se também analisar como a violência de gênero, enraizada na desvalorização histórica da mulher, contribui para a perpetuação dessas violências ao longo das décadas, evidenciando os conflitos de gênero e o preconceito presentes nesse contexto específico.
Também buscaremos:
1) Indentificar os diferentes contextos institucionais de acolhimento das mulheres em situação de rua no município de São Paulo, analisando as políticas e práticas adotadas pelos serviços públicos.
2) Identificar os tipos e formas de violência enfrentados pelas mulheres em situação de rua nos espaços institucionais de acolhimento e nos demais serviços públicos, como saúde, assistência social e educação.
3) Analisar as interações e relações estabelecidas entre as mulheres em situação de rua e os agentes responsáveis pela promoção de direitos nos serviços públicos, identificando possíveis formas de discriminação, negligência ou violação de direitos.
4) Investigar os impactos da violência de gênero e do preconceito na vida das mulheres em situação de rua, considerando suas condições socioeconômicas, de saúde e de moradia.
5) Propor recomendações e sugestões de políticas públicas e práticas institucionais que visem melhorar a proteção e assistência às mulheres em situação de rua, promovendo a igualdade de gênero, o respeitoaos direitos humanos e a superação da violência estrutural enraizada na sociedade.
Ao longo deste trabalho, a análise dos capítulos desenvolvidos permitiu aprofundar a compreensão sobre as múltiplas dimensões da violência institucional enfrentada pelas mulheres em situação de rua no município de São Paulo.
No primeiro capítulo, foi feita uma contextualização da população em situação de rua no Brasil, com destaque para os aspectos históricos e sociais que perpetuam a exclusão e a desigualdade. Também foram abordadas as políticas públicas voltadas para essa população, evidenciando tanto os avanços legislativos quanto as lacunas em sua aplicação, com foco na cidade de São Paulo. O capítulo destacou como as mulheres, em especial, enfrentam vulnerabilidades adicionais, como a violência de gênero e a exploração.
No segundo capítulo, foi discutido o conceito de violência institucional e como ele se manifesta nos serviços públicos voltados para mulheres em situação de rua. Essa análise revelou práticas discriminatórias, negligências e violações que dificultam o acesso a direitos fundamentais. Além disso, foram apresentados os serviços de acolhimento disponíveis no município de São Paulo, com suas potencialidades e limitações, demonstrando como as políticas públicas, embora estruturadas, falham em atender plenamente às necessidades dessa população.
No terceiro capítulo, a análise dos dados coletados mostrou um panorama das denúncias registradas por mulheres em situação de rua, evidenciando tanto a falta de informações qualificadas sobre as queixas quanto a insuficiência de resoluções. O estudo apontou um aumento significativo nas violações registradas contra essa população, sobretudo em contextos institucionais. Por meio de entrevistas realizadas, foi possível compreender as percepções das mulheres acerca das barreiras enfrentadas, incluindo a ausência de políticas específicas e a revitimização nos serviços de acolhimento.
 A pesquisa revelou que as mulheres em situação de rua enfrentam uma sobreposição de violências: a violência de gênero, agravada pela ausência de acolhimento sensível e adequado, e a violência institucional, que se manifesta na negligência e na discriminação nos serviços públicos. Os dados analisados destacaram que, entre 2020 e 2023, as denúncias de violações aumentaram consideravelmente, mas a resolução dessas queixas ainda é insuficiente, perpetuando a exclusão social.
As entrevistas com mulheres em situação de rua trouxeram relatos marcantes sobre suas experiências nos serviços de assistência social, saúde e segurança, ressaltando a importância de políticas públicas que considerem suas especificidades. A pesquisa conclui que é fundamental uma abordagem integrada e inclusiva para superar as barreiras enfrentadas por essas mulheres e promover o respeito aos seus direitos humanos.
Portanto, este trabalho visa não apenas contribuir para o debate acadêmico sobre a violência institucional contra mulheres em situação de rua, mas também propor recomendações que possam subsidiar a formulação de políticas públicas mais efetivas e inclusivas. Ao evidenciar as lacunas nas práticas institucionais e suas consequências para essa população, o estudo busca fortalecer a luta pela garantia de direitos e pela promoção da igualdade de gênero.
1º CAPíTULO
1.1. Contextualização da pessoa em situação de rua no Brasil
A população em situação de rua no Brasil é complexa, sendo essencial que seja levada em consideração as particularidades de cada grupo, e para isso, é fundamental que os usuários sejam ouvidos, e que participem ativamente no processo de construção, inclusive nos dados relativos à população, refletindo as desigualdades do país assim como as deficiências da política em lida com as questões de moradia trabalho e assistência social. Um levantamento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aponta que, em 2022, um aumento significativo a população em situação de rua teve crescimento em todo o Brasil, só na cidade de São Paulo, são 42.240 pessoas vivendo nas ruas. 
Em todo o país totaliza em 180 mil pessoas situação de rua, dados de acordo com o observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a população de rua. Dados divulgados em, 09, de julho de 2022.
Essa população teve um aumento significativo, afirma pesquisa, chegando para 52,1 mil, pessoas em situação de rua, alta de 8,2% em 1 de setembro de 2023, tendo aumento para 53,4 mil, afirma pesquisa, essa soma no Brasil é de 236,4 mil pessoas nessa situação. O estudo atende uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que recomenda a elaboração de políticas para essa população, ou seja, a cada mil brasileiros, um não tem onde morar. 
Sendo as mulheres representado 16,6% nessa condição, das pessoas em situação de rua de São Paulo, dado da folha de são Paulo, em 8 de março de 2023. 
 A população em situação de rua no Brasil é um fenômeno complexo, e possui características variadas considerando as desigualdades sociais e econômicas do país, assim como as deficiências das políticas públicas em lidar com as questões essenciais de moradia, trabalho e assistência social. 
Entre 2012 e 2022, houve um aumento alarmante de 211% nesse segmento populacional, contrastando com o crescimento de apenas 11% da população brasileira no mesmo período, conforme dados do IBGE. Esse crescimento expressivo destaca a necessidade de abordar as causas desse problema e implementar políticas eficazes de inclusão social. Além disso, é importante reconhecer as características específicas da pessoa em situação de rua, homens, adultos, negros e pessoas com deficiência física.
Torna-se necessário aborda algumas questões sócias que percorrem por conflitos e desigualdades com a população em situação de rua, de modo que se organiza e se estrutura e se organiza, o sistema capitalista. Portanto torna a questão social, o capital e o trabalho os maiores causadores da falta de direitos dessa população, como a pobreza e o rompimento com os vínculos familiares. No Brasil a população de rua é uma população majoritariamente negra. Isso se dá devido aos séculos de escravidão e de racismo estrutural e estruturado.
 A população em situação de rua é formada por pessoas que usam espaços públicos para interações sociais, abrigo e sustento (BRASIL, 2008, p.3). Essas pessoas têm uma relação com a rua que varia em termos de tempo e identidade, influenciada pela presença ou ausência de laços familiares, comunitários ou institucionais. 
Sendo a situação de rua é um fenômeno complexo causado por diversos fatores, como falta de emprego, moradia e problemas biográficos, como doenças mentais, abuso de álcool ou drogas, e ruptura de laços familiares, além de desastres naturais. A falta de políticas públicas eficazes para abordar essas questões tem contribuído para a perpetuação desse ciclo de vulnerabilidade e exclusão social.
Além disso, é crucial reconhecer os impactos sociais, econômicos e de saúde associados à condição de rua. A falta de acesso a serviços básicos, como saúde e educação, a exclusão social e a violência são apenas algumas das consequências dessa realidade. Esses impactos não afetam apenas os indivíduos em situação de rua, mas também sobrecarregam os sistemas de saúde, segurança pública e assistência social, representando custos significativos para a sociedade como um todo.
No âmbito das políticas públicas, embora o Brasil tenha adotado iniciativas como a Política Nacional para a População em Situação de Rua (PNPR) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), ainda há muito a ser feito. Desafios como a falta de financiamento adequado, a fragmentação dos serviços e a falta de coordenação entre os diferentes níveis de governo continuam a ser obstáculos para a efetivação dessas políticas.
Diante da necessidade de uma abordagem integrada e eficaz para enfrentar o problema da população em situação de rua no Brasil. Isso inclui não apenas a implementação de políticas voltadas para a garantia de moradia digna e o acesso a serviços básicos, mas também da desigualdadee da exclusão social. 
1.2. POLÍTICAS VOLTADAS PARA A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA
A abordagem das políticas públicas voltadas para a população em situação de rua deve ser profundamente embasada em uma compreensão da história e das estruturas sociais que contribuíram para a marginalização desses grupos. Como mencionado por Silva (2009), a trajetória dessa população remonta ao período pós-escravidão, quando os indivíduos negros, mesmo após a abolição da escravatura, enfrentaram uma série de obstáculos que os empurraram para as margens da sociedade. Esses desafios incluem a falta de acesso a oportunidades de emprego digno, moradia adequada, serviços de saúde e assistência social. Além disso, 
Fernandes (2008) destaca como a imposição de um mercado de trabalho formal, muitas vezes inacessível para esses grupos marginalizados, contribuiu para sua exclusão e vulnerabilidade social. Criando assim uma base contínua para essa população, agravando os ciclos de pobreza e exclusão social.
 Diante desse contexto, a importância de uma abordagem diferenciada e contextualizada das políticas públicas torna-se evidente. Cada estado do Brasil possui suas próprias características socioeconômicas, culturais e geográficas, que influenciam diretamente as condições de vida e as necessidades da população em situação de rua. Por exemplo, áreas urbanas altamente desenvolvidas podem enfrentar desafios relacionados à falta de moradia acessível e ao aumento do custo de vida, enquanto regiões rurais podem ter dificuldades específicas relacionadas ao acesso a serviços básicos.
Portanto, ao formular e implementar políticas públicas voltadas para essa população, é crucial considerar as particularidades de cada estado e região. Isso requer uma análise aprofundada das necessidades locais, bem como uma consulta significativa e participativa com as comunidades afetadas. Somente através dessa abordagem diferenciada e sensível ao contexto é possível garantir que as políticas públicas sejam eficazes na promoção da inclusão social, no combate à pobreza e na garantia dos direitos humanos para todos, independentemente de sua condição social.
1.3. POLÍTICAS VOLTADAS PARA A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA EM SÃO PAULO
A Constituição de 1988 marcou um momento significativo no reconhecimento dos direitos sociais e no desenvolvimento de políticas públicas para a população em situação de rua. Os artigos 5º e 6º da Constituição Federal estabeleceram a igualdade perante a lei e consagraram os direitos sociais como responsabilidade do Estado. Em 1989, durante o mandato da prefeita Luiza Erundina (PT), foi realizado um Fórum sobre os trabalhos com a população em situação de rua, chegando na lei de Atenção à População em Situação de Rua (Lei Municipal 12.316/97), que, no entanto, só foi devidamente regulamentada em 2001, durante a gestão da prefeita Marta Suplicy. Essa legislação conferiu visibilidade e reconhecimento à população em situação de rua, proporcionando-lhes acesso a serviços e assistência necessários. 
No entanto, foi somente na década de 1990 que a questão da População em Situação de Rua começou a ganhar destaque na agenda de alguns governos municipais. Durante esse período, surgiram as primeiras iniciativas de diversos setores da sociedade, como organizações não governamentais, movimentos sociais e igrejas, buscando criar políticas de atenção e inclusão social para essas pessoas.
Em 1991, a cidade de São Paulo foi pioneira ao realizar o primeiro censo da População em Situação de Rua em parceria com entidades da sociedade civil organizada. Esse levantamento revelou que aproximadamente 3.800 pessoas viviam nas ruas da cidade. Posteriormente, em 1997, São Paulo também se destacou com a primeira legislação específica para a População em Situação de Rua no país, a Lei Municipal Nº 12.316 (regulamentada pelo Decreto Municipal Nº 40.232/01). Essa lei estabeleceu a obrigação do poder público municipal em prestar atendimento a essa população e atribuiu à Secretaria Municipal de Assistência Social a responsabilidade de estabelecer prioridades de demanda.
 Segundo o joarnal g1.globo.com/sp, os últimos dados de novembro de 2023, o Estado de São Paulo abriga a maior concentração de pessoas em situação de rua, totalizando 103.158 mil pessoas em situação de rua, de acordo o (CadÚnico), plataforma do governo federal que concentra informações sobre pessoas de baixa renda e em vulnerabilidade. O que representa 62% dessa população, na Capital Paulista. Essa concentração significativa da população em situação de rua.
 Em sua maioria se alojam em abrigos da sociedade civil, embaixo dos viadutos na região central da capital, a persistência e os desafios enfrentados por esses indivíduos, são inúmeros. Em nota, a secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (AMADS) publicou, que o censo 2021 publicado em 2022, apontou que 31.884 peaaoas vivem em situação de rua na cidade.
Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (2023)
Os 10 municípios com maior número de pessoa em situação de rua (PSR), concentram juntos quase 48% da população em situação de rua do Brasil[…]. São eles: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Fortaleza, Curitiba, Porto Alegre, Campinas e Florianópolis. Destaca-se que, destes, apenas Porto Alegre, Campinas e Florianópolis não estão na lista dos 10 maiores municípios do país em termos de população total. Só a cidade de São Paulo concentra uma quantidade de pessoas em situação de rua maior do que a população total de 89% dos municípios brasileiros.
Ao longo dos anos, movimentos sociais e instituições dedicadas à causa da população em situação de rua têm ganhado força, promovendo eventos significativos como o Fórum Nacional de Estudos sobre População de Rua e o “Grito dos Excluídos”. 
O estabelecimento do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) e a realização da Primeira Marcha do Povo de Rua em 2001 marcaram pontos cruciais na luta por direitos e na afirmação da dignidade desses indivíduos.
Em 2004, o trágico episódio do massacre de pessoas em situação de rua na Praça da Sé, em São Paulo, entre os dias 19 e 22 de agosto, desencadeou um movimento de mobilização contra a violência e a impunidade. Esse evento teve grande repercussão nacional e internacional, inspirando diversos ativistas e membros da sociedade civil a unirem forças no estabelecimento do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) em 2005. Atualmente, o MNPR está presente em diversos estados e municípios, desempenhando um papel fundamental na construção da Política Nacional para a População em Situação de Rua.
 Uma conquista importante nessa trajetória foi a aprovação da Lei Nº 11.258, de 30 de dezembro de 2005, que alterou o parágrafo único do artigo 23 da LOAS – Lei Orgânica da Assistência Social (Lei Nº 8742/93) e estabeleceu diretrizes para a organização dos serviços de atendimento às pessoas que vivem em situação de rua no âmbito da Assistência Social. A implementação de políticas públicas e o desenvolvimento de dispositivos para abordar essa questão têm sido fundamentais para ampliar a visibilidade e reconhecer as necessidades dessa população vulnerável.
	A implementação de políticas públicas e o desenvolvimento de dispositivos para abordar essa questão foram fundamentais para ampliar a visibilidade e o reconhecimento das necessidades dessa população. Entretanto, apesar dos avanços conquistados, ainda persistem desafios significativos no enfrentamento da questão da população em situação de rua. 
1.4. RESGATE HISTÓRICO EM UMA SOCIEDADE DE EXCLUÍDOS: PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA EM SÃO PAULO
A história das pessoas em situação de rua em São Paulo reflete os processos de transformação social, econômica e política ao longo das décadas. Desde o início do século XX, a urbanização acelerada e a industrialização geraram movimentos migratórios significativos, com indivíduos deixando o campo em busca de melhores condições de vida nas cidades. No entanto, a insuficiência de políticas habitacionais, somada à precariedade das condiçõesde trabalho, contribuiu para a formação de um contingente crescente de pessoas sem acesso à moradia. Em São Paulo, essa realidade se intensificou com a desigualdade social estrutural que caracteriza o Brasil, agravando a exclusão de grupos vulneráveis e consolidando a permanência de populações inteiras nas ruas.
As crises econômicas ao longo do século XX e início do século XXI também desempenharam um papel central no agravamento da questão. Momentos de instabilidade financeira e recessão, como os enfrentados na década de 1980 e, mais recentemente, no período pós-2014, ampliaram as disparidades sociais. Esses contextos impactaram diretamente a população de baixa renda, aumentando o desemprego, a informalidade e o número de pessoas empurradas para a pobreza extrema e, consequentemente, para as ruas. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre 2012 e 2022, o número de pessoas em situação de rua no Brasil cresceu em mais de 200%, com São Paulo liderando esse aumento em termos absolutos.
As políticas habitacionais no Brasil frequentemente falharam em atender às necessidades da população mais vulnerável. Desde os cortiços do início do século XX, passando pelas remoções forçadas em nome da modernização urbana nas décadas de 1950 e 1960, até os projetos habitacionais mais recentes que priorizam setores de renda média e alta, as iniciativas públicas não conseguiram combater de forma eficiente o déficit habitacional. A fragmentação entre políticas de assistência social, saúde, moradia e trabalho perpetuou um cenário em que as pessoas em situação de rua permanecem à margem, enfrentando barreiras para acessar serviços básicos.
Esse contexto de exclusão se agrava quando analisado sob o prisma das interseccionalidades. As mulheres em situação de rua, em particular, vivenciam desafios adicionais que vão além da ausência de moradia e da precariedade de condições de vida. São vítimas frequentes de violências de gênero, exploração sexual e discriminação. Estudos apontam que muitas delas são mães, enfrentando dificuldades para exercer a maternidade em contextos de extrema vulnerabilidade, enquanto outras lidam com questões relacionadas à saúde reprodutiva em ambientes onde o acesso a serviços médicos é limitado ou inexistente.
Além disso, a exposição constante a riscos nas ruas contribui para a perpetuação de traumas físicos e psicológicos que raramente são abordados em políticas públicas.
A racialidade é outro fator central que precisa ser discutido. Historicamente, a exclusão social no Brasil está profundamente atrelada ao racismo estrutural, que posiciona a população negra em situação de maior vulnerabilidade. As mulheres negras, particularmente, carregam o peso de uma dupla opressão: além do sexismo, enfrentam as desigualdades raciais que limitam seu acesso a direitos básicos e oportunidades. Em São Paulo, as mulheres negras estão desproporcionalmente representadas entre a população de rua, o que evidencia como as desigualdades estruturais reproduzem e aprofundam a exclusão. Essa marginalização racial, combinada às especificidades de gênero, cria uma realidade única de violência e abandono para essas mulheres, que raramente encontram nas políticas públicas respostas adequadas às suas demandas.
As respostas do governo e da sociedade civil a essa questão variaram ao longo do tempo. Em momentos, foram adotadas abordagens mais repressivas, com remoções forçadas e a criminalização da pobreza; em outros, políticas de assistência e acolhimento emergiram, mas com alcance limitado e frequentemente desarticuladas das realidades concretas da população de rua. Projetos como o Programa Braços Abertos e o Reencontro, implementados em São Paulo em diferentes gestões, buscaram abordar a questão de maneira integrada, mas enfrentaram desafios de continuidade, financiamento e sustentabilidade.
Nesse cenário, é essencial considerar que as pessoas em situação de rua não são apenas vítimas de um sistema excludente, mas também sujeitos de direitos e protagonismo social. A invisibilidade histórica dessa população precisa ser rompida, não apenas por meio de ações pontuais, mas por políticas estruturais que combatam as desigualdades na raiz, promovendo acesso à moradia, ao trabalho digno e à proteção contra a violência. É necessário um enfoque interseccional que contemple as especificidades de gênero, raça e classe, garantindo que as respostas públicas atendam às necessidades diversas dessa população e contribuam para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.
1.5. CONCEPÇÃO DA EXCLUSÃO DAS MULHERES 
 A análise da exclusão das mulheres em situação de rua requer um olhar profundo sobre o contexto histórico e as dinâmicas de gênero que adaptaram a essa realidade. Historicamente, as mulheres sempre enfrentaram desafios únicos devido às normas de gênero que limitavam seu acesso a recursos e oportunidades. No contexto da falta de moradia, essas desigualdades se manifestam de maneiras específicas e muitas das vezes invisíveis. 
A utilização do termo "gênero" como uma questão política e social teve origem nos anos 1970 e 1980, durante os movimentos feministas, que buscavam defender os direitos das mulheres e questionar as relações desiguais entre os gêneros. Conforme Tiene (2004, p. 55) argumenta, "a categoria de gênero surge no processo histórico de conscientização, especialmente das mulheres, mas trata de uma questão que interessa a todos, pois está presente no cotidiano de cada um, organizando e estruturando as relações sociais".
No Brasil, a abordagem do conceito de gênero relacionado à saúde começou a ganhar destaque nos anos 1990, quando se discutia a qualidade da assistência à saúde da mulher e a necessidade de eliminar as desigualdades de acesso aos serviços de saúde enfrentadas por mulheres e grupos marginalizados na sociedade (NASCIMENTO; OLIVA, 2004). De acordo com Scott (1995, p. 86), o conceito de gênero tem duas dimensões: "(1) o gênero é um componente essencial das relações sociais baseadas em percepções de diferenças entre os sexos; (2) o gênero é uma maneira fundamental de atribuir significado às relações de poder". 
A primeira dimensão refere-se aos conceitos presentes em várias esferas sociais, como religião, educação, ciência, política ou direito, que categorizam de forma rígida os papéis femininos e masculinos. A segunda dimensão diz respeito à relação de poder, que surge do controle ou do acesso diferenciado aos recursos materiais e simbólicos.
Para Tiene (2004, p. 19) 
[...] a mulher moradora de rua é minoria, se comparada à população masculina. Pode-se explicar, porque, histórica e culturalmente, a mulher sempre desempenhou o papel de reprodutora e responsável pelos cuidados com a prole, ou seja, sempre ou quase sempre, [esteve] limitada a um espaço físico e social da casa, onde procria e por isso deve viver. Submissa no âmbito doméstico, tem tratamento desigual nas relações de trabalho, o que parece repetir também na rua é espaço público. 
A violência de gênero tem sido uma causa significativa da falta de moradia entre as mulheres ao longo da história. Relacionamentos abusivos muitas vezes forçam as mulheres a sair de suas casas, deixando-as sem recursos ou apoio para garantir moradia estável.
Além disso, as mulheres sem-teto enfrentam riscos aumentados de violência sexual e exploração nas ruas, devido à sua vulnerabilidade e à falta de acesso a espaços seguros. De maneira geral, as violências enfrentadas por mulheres são frequentemente desconsideradas, e muitas mulheres têm receio de denunciar seus agressores. No caso das mulheres que vivem nas ruas, essa falta de informações é ainda mais evidente. 
 Como uma estratégia de sobrevivência e proteção, elas buscam redes de relacionamentos para garantir possibilidades de garantia para o dia a dia. No entanto, mesmo 
assim, as manifestações de afeto, sexualidade e intimidade são frequentemente intensas, opressivas e conflituosas. Seus corpos se tornam objetos de troca ou fontes de renda, onde as mulheres acabam se submetendosexualmente em troca de proteção, o que acarreta em consequências graves, e sem possibilidades de escolhas. Como destacado por Tiene (2004), essas situações descreve uma dinâmica onde os corpos das mulheres são percebidos como instrumentos de utilidade e obediência, impondo um peso significativo sobre elas.
A falta de instalações sanitárias adequadas também é uma preocupação, com implicações diretas para a saúde e o bem-estar das mulheres. A concepção da exclusão das mulheres em situação de rua deve considerar não apenas sua falta de moradia, mas também as estruturas de poder e desigualdade. Isso inclui o reconhecimento das múltiplas formas de discriminação que as mulheres enfrentam, tanto dentro da população de pessoas sem-teto quanto na sociedade em geral.
 Para aborda a exclusão das mulheres em situação de rua, é essencial adotar uma abordagem de interação que leve em consideração não apenas a falta de moradia, mas também as compreensões entre gênero, classe, raça e outras formas de identidade. Isso requer políticas públicas sensíveis, e programas de apoio específicos e uma mudança estrutural para promover a igualdade de gênero em todas as esferas da sociedade.
1.6. RACISMO ESTRUTURAL E A VULNERABILIDADE DAS MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA
A exclusão social vivenciada pelas mulheres em situação de rua no Brasil é atravessada de forma crucial pela questão racial. A interseccionalidade entre raça, gênero e classe social, conforme discutido por autores como Scott (1995) e Silva (2009), permite compreender como o racismo estrutural, combinado à desvalorização histórica das mulheres, perpetua ciclos de vulnerabilidade e marginalização que afetam, de maneira desproporcional, as mulheres negras. Para além de uma análise simplista sobre a pobreza ou a ausência de moradia, é imprescindível considerar o papel do racismo estrutural na produção e manutenção da exclusão social.
A história do Brasil, marcada por mais de três séculos de escravidão, construiu uma sociedade estruturada em desigualdades raciais que permanecem até os dias de hoje. Essa herança se manifesta na desigualdade de oportunidades, na precarização das condições de trabalho e na ausência de acesso a direitos fundamentais para a população negra. Mulheres negras, em particular, ocupam a base da pirâmide social, enfrentando uma dupla opressão que combina racismo e sexismo. Como destacou Gonzalez (1984), o Brasil perpetua um sistema que racializa e subalterniza a mulher negra, colocando-a em um lugar de invisibilidade e vulnerabilidade extrema.
No contexto das mulheres em situação de rua, essa dinâmica se intensifica. Dados revelam que a maioria das pessoas em situação de rua no Brasil é negra, um reflexo direto do racismo estrutural que limita o acesso a moradia, emprego e educação (Ipea, 2023). Mulheres negras, embora representem uma minoria quantitativa dentro da população de rua, enfrentam formas agravadas de violência, exclusão e exploração. Isso ocorre porque elas não apenas carregam o estigma da pobreza e da rua, mas também enfrentam preconceitos ligados à cor da pele e ao gênero, que historicamente as relegaram a papéis de subserviência e utilidade, seja na esfera privada ou pública.
Um aspecto central dessa análise é o impacto do racismo institucional, que se manifesta nos serviços públicos destinados à população em situação de rua. Mioto (2015) argumenta que o despreparo técnico-político dos agentes públicos frequentemente resulta em práticas discriminatórias que negam direitos e revitimizam as mulheres negras. Essa discriminação não é apenas individual, mas estrutural, pois reflete um sistema que desconsidera as especificidades raciais e de gênero na formulação e implementação de políticas públicas. Mulheres negras em situação de rua frequentemente enfrentam barreiras adicionais ao buscar acolhimento, saúde ou proteção contra a violência, sendo tratadas como corpos descartáveis ou como "casos perdidos", em vez de sujeitos de direitos.
O racismo estrutural também se conecta diretamente à violência institucional, como apontado por Tiene (2004). Muitas vezes, as mulheres negras em situação de rua são vistas não apenas como vítimas de um sistema excludente, mas como responsáveis por sua própria condição. Essa culpabilização é uma extensão do mito da democracia racial, que mascara as desigualdades estruturais e transfere a responsabilidade para os indivíduos, negando a existência de barreiras raciais e sociais. Essa dinâmica é especialmente evidente em relatos de mulheres negras que enfrentaram violência em serviços de acolhimento ou foram ignoradas ao denunciar agressões.
Além disso, a condição de rua acentua as dinâmicas históricas de controle sobre o corpo negro feminino. Desde a escravidão, o corpo da mulher negra foi instrumentalizado como mão de obra e objeto sexual. Essa herança colonial se reflete nas ruas, onde muitas mulheres negras se veem forçadas a recorrer à exploração sexual ou à submissão a relações abusivas como estratégias de sobrevivência. Essas relações de opressão são reforçadas pelas práticas institucionais, que frequentemente ignoram as especificidades de gênero e raça no atendimento às mulheres em situação de rua.
A ausência de dados desagregados por raça e gênero nos serviços públicos também contribui para a perpetuação dessa invisibilidade. Embora haja estatísticas que apontem a predominância de pessoas negras na população de rua, pouco se sabe sobre como as políticas públicas impactam especificamente as mulheres negras. Essa lacuna reflete a negligência do Estado em reconhecer e enfrentar o racismo como uma dimensão central da exclusão social. Como destacou Silva (2009), a falta de articulação entre os diferentes setores — saúde, assistência social, educação e habitação — impede que políticas públicas sejam eficazes na promoção da equidade racial e de gênero.
Adotar uma perspectiva interseccional significa reconhecer que o racismo, o sexismo e a pobreza não são fatores isolados, mas dimensões que se sobrepõem e se reforçam mutuamente, criando formas únicas de opressão. Mulheres negras em situação de rua enfrentam não apenas a ausência de moradia, mas também a exclusão racial, a violência de gênero e o desprezo institucional, que juntas configuram uma realidade de exclusão extrema. A violência que sofrem, tanto nas ruas quanto nos serviços que deveriam protegê-las, evidencia a necessidade urgente de repensar as políticas públicas sob uma ótica que integre as dimensões de raça, gênero e classe.
Portanto, a análise da condição das mulheres negras em situação de rua deve partir do reconhecimento do racismo estrutural como base da exclusão social no Brasil. É fundamental que as políticas públicas sejam formuladas e implementadas a partir de uma perspectiva antirracista e interseccional, que leve em conta as especificidades das experiências dessas mulheres. Isso inclui o fortalecimento de iniciativas de acolhimento que considerem as dinâmicas de raça e gênero, a capacitação de profissionais para o atendimento humanizado e a produção de dados qualificados que evidenciem as desigualdades raciais e de gênero. Apenas com uma abordagem sensível e integrada será possível romper com os ciclos de opressão e garantir que as mulheres negras em situação de rua sejam tratadas com a dignidade e o respeito que lhes são devidos.
2º. Capitulo
2.1 – O que é violência institucional?
A violência institucional contra mulheres em situação de rua nos serviços públicos do município de São Paulo é uma problemática que reflete a exclusão, o desrespeito e a desumanização por parte de instituições que deveriam garantir proteção e acolhimento. Esse tipo de violência se manifesta em diversas formas, como negligência, estigmatização, discriminação e revitimização, sendo agravado pela interseccionalidade de fatores como gênero, raça e condição socioeconômica. A vulnerabilidade dessas mulheres não se restringe à situação de rua, mas é amplificada pela falta de políticas públicas específicas e pela ausência de um atendimento adequado e digno nosserviços públicos.
A negligência no atendimento é um dos aspectos mais recorrentes da violência institucional. Mulheres em situação de rua frequentemente enfrentam barreiras no acesso a serviços essenciais, como saúde, assistência social, abrigo e segurança. Profissionais dessas instituições, muitas vezes, não estão preparados ou sensibilizados para atender as necessidades específicas dessa população. Em muitos casos, essas mulheres não são ouvidas ou têm suas demandas ignoradas, reforçando um ciclo de exclusão que perpetua sua condição de vulnerabilidade. Segundo Mioto (2015)
A falta de preparação técnico-política no âmbito das políticas públicas reforça o ciclo de exclusão social ao negligenciar os direitos fundamentais de grupos vulneráveis. A ausência de respostas efetivas para demandas específicas de populações como mulheres em situação de rua contribui para a reprodução das desigualdades sociais e para a perpetuação da violência estrutural. (MIOTO, 2015, p. 93).
Essa negligência é ainda mais evidente em emergências, como violência de gênero, em que o atendimento imediato e adequado poderia salvar vidas, mas acaba sendo tardio ou inexistente.
A estigmatização e discriminação também são marcantes. Mulheres em situação de rua são frequentemente vistas como "casos perdidos", sendo responsabilizadas pela própria situação em que se encontram. Essa visão preconceituosa reflete um despreparo institucional que não reconhece os contextos estruturais e individuais que levam uma pessoa à rua, como violência doméstica, desemprego, problemas de saúde mental e dependência química. Como aponta Yasbek (2003):
A assistência social, ao se deparar com grupos em extrema vulnerabilidade, muitas vezes reproduz uma lógica moralista e meritocrática, que deslegitima as trajetórias de sofrimento e exclusão vividas por essas populações. Ao atribuir responsabilidade individual a situações claramente estruturais, os serviços públicos afastam-se de seu papel de proteção social. (YASBEK, 2003, p. 45).
 O estigma é ainda mais grave para mulheres negras, indígenas, LGBTQIA+ ou com deficiência, que enfrentam camadas adicionais de opressão devido ao racismo, capacitismo e LGBTfobia presentes nas instituições.
A ausência de políticas públicas específicas para mulheres em situação de rua é outro fator que contribui para a perpetuação da violência institucional. Apesar da existência de legislações como a Lei Maria da Penha, muitas mulheres nessa condição não conseguem acessar medidas protetivas devido à burocracia, à morosidade da justiça e à falta de informações claras sobre seus direitos. Além disso, há uma lacuna na elaboração de políticas que levem em conta suas necessidades específicas, como saúde reprodutiva, proteção contra violência de gênero e acesso a moradia digna. Segundo Silva (2009):
Políticas públicas eficazes devem considerar as condições materiais e simbólicas das populações a que se destinam. A falta de articulação entre diferentes setores — saúde, segurança, assistência social e educação — compromete a implementação de medidas que poderiam, de fato, transformar a realidade dessas mulheres. (SILVA, 2009, p. 112).
A litigância abusiva também interfere na busca por justiça dessas mulheres, especialmente em casos que envolvem violência de gênero. Essa prática ocorre quando uma parte usa o sistema judicial para dificultar ou atrasar processos, criando obstáculos adicionais às vítimas. Um exemplo é o uso inadequado da teoria da alienação parental, que, apesar de amplamente criticada, ainda é utilizada para desacreditar mulheres em processos de guarda de filhos, ignorando os impactos reais do abuso. Esse tipo de manipulação é especialmente prejudicial em casos envolvendo mulheres em situação de rua, que já enfrentam barreiras significativas para acessar a justiça.
A morosidade do sistema judicial também agrava a violência institucional. Em casos de violência doméstica, por exemplo, a demora na concessão de medidas protetivas pode expor as mulheres a novos episódios de violência e prolongar o sofrimento emocional. Essa lentidão compromete a coleta de provas, a resolução dos casos e a própria segurança das vítimas, minando a confiança no sistema de justiça. Segundo Hyezza (2024), a criação de varas especializadas, a digitalização de processos e a capacitação contínua de profissionais são medidas essenciais para combater esse problema e garantir um atendimento mais ágil e eficaz.
Para além das questões legais, é fundamental considerar os impactos interseccionais da violência sobre mulheres racializadas. Segundo Gonzalez (1984), o racismo e o sexismo se interseccionam na cultura brasileira, perpetuando uma dupla opressão que agrava as experiências de violência vividas por mulheres negras e indígenas. No contexto das mulheres em situação de rua, essa interseccionalidade torna-se ainda mais evidente, pois elas enfrentam tanto a exclusão social quanto as barreiras impostas pelo racismo estrutural. Políticas públicas que não considerem essa realidade estão fadadas a falhar, reforçando a marginalização dessas populações.
Outro aspecto importante é o impacto emocional e psicológico da violência institucional sobre as mulheres em situação de rua. A experiência de ser negligenciada, discriminada ou revitimizada por serviços que deveriam protegê-las contribui para o desenvolvimento de traumas, baixa autoestima e desconfiança nas instituições. Esses impactos não só dificultam a reinserção social dessas mulheres, como também perpetuam o ciclo de pobreza e exclusão. Programas de acolhimento que integrem suporte psicológico, capacitação profissional e acesso a direitos básicos são essenciais para romper esse ciclo.
A superação da violência institucional exige uma abordagem interseccional e integrada. É necessário que o Estado invista em políticas públicas adaptadas às especificidades dessas populações, capacite os profissionais para um atendimento humanizado e elimine práticas discriminatórias nos serviços públicos. Como enfatiza Sposati (2007): 
A formação dos trabalhadores sociais precisa incorporar um compromisso ético com a justiça social, a equidade e o respeito à dignidade humana. Sem essa base ética, o risco de reprodução da violência institucional é significativo, mesmo quando as intenções individuais são positivas. (SPOSATI, 2007, p. 66).
 No âmbito judicial, medidas como a criação de varas especializadas, a implementação de processos ágeis e a ampliação do acesso à justiça são fundamentais para garantir um sistema mais justo e equitativo. Somente assim será possível combater a violência institucional e promover a inclusão social das mulheres em situação de rua.
2.2 – A análise da contextualização institucional
A análise da contextualização institucional da pessoa em situação de rua requer uma compreensão aprofundada das múltiplas dimensões que estruturam essa realidade. Trata-se de um fenômeno complexo, enraizado em dinâmicas históricas, sociais e econômicas que operam em diferentes níveis e perpetuam ciclos de exclusão. Estar em situação de rua não é apenas resultado da ausência de moradia, mas sim de uma interconexão de fatores estruturais, como desigualdade econômica, desemprego e déficit habitacional, somados a questões pessoais e familiares. Essa realidade revela o impacto de um sistema que falha em garantir proteção social suficiente, expondo indivíduos e grupos inteiros a condições de vulnerabilidade extrema.
No contexto brasileiro, a urbanização desordenada e a especulação imobiliária têm contribuído de maneira significativa para o agravamento dessa questão, intensificando o processo de marginalização de populações de baixa renda. Paralelamente, a precarização das condições de trabalho e a concentração de riqueza aprofundam os abismos sociais, dificultando o acesso a direitos básicos e inviabilizando alternativas de sobrevivência digna. Essa exclusão econômica opera de forma a ampliar desigualdades históricas, particularmente para grupos já oprimidos, como mulheres e pessoas negras, cujas experiências são marcadaspela sobreposição de vulnerabilidades sociais e institucionais.
É importante destacar que a situação de rua também é reflexo de rupturas em redes de apoio. Fatores como conflitos familiares, violência doméstica e separações emergem como causas significativas desse fenômeno. No caso das mulheres, essas dinâmicas são frequentemente agravadas por situações de violência de gênero, que as obrigam a abandonar seus lares em busca de segurança, apenas para enfrentarem novas formas de violência e exclusão na rua. Assim, para compreender a realidade das mulheres em situação de rua, é indispensável adotar uma abordagem interseccional que considere a interação entre gênero, raça e classe. Mulheres negras, em especial, enfrentam opressões múltiplas que as colocam em condições ainda mais adversas, refletindo tanto o legado histórico de racismo quanto as estruturas contemporâneas de desigualdade.
Outro aspecto crucial é a relação entre a situação de rua e a saúde mental. A experiência de viver nas ruas frequentemente agrava condições psicológicas preexistentes, como depressão, transtornos de ansiedade e esquizofrenia, ao mesmo tempo em que pode gerar novos transtornos em decorrência do sofrimento diário, da falta de proteção e da exposição constante a situações de risco. A ausência de políticas públicas efetivas para o atendimento em saúde mental perpetua esse ciclo de exclusão, tornando as possibilidades de reintegração social ainda mais remotas. Adicionalmente, a dependência química aparece como um fator tanto causador quanto consequência da situação de rua, agravando ainda mais a vulnerabilidade dessa população. O uso de substâncias muitas vezes é uma tentativa de lidar com o sofrimento, mas acaba por intensificar o isolamento social e dificultar o acesso a redes de apoio.
A violência, tanto interpessoal quanto institucional, constitui outra camada significativa dessa realidade. As pessoas em situação de rua frequentemente são tratadas com hostilidade e desprezo, não apenas por parte da sociedade, mas também por agentes públicos e instituições que deveriam oferecer proteção. A criminalização da pobreza, manifestada em políticas repressivas e práticas discriminatórias, reforça a exclusão e perpetua a marginalização, ignorando as causas estruturais que colocam essas pessoas nas ruas. Essa abordagem punitiva não apenas desumaniza, mas também invisibiliza a complexidade do problema, dificultando a construção de soluções efetivas.
Compreender a situação de rua como um fenômeno multidimensional exige uma análise que vá além dos aspectos aparentes e investigue os fatores estruturais e contextuais que mantêm essa população em um ciclo de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, é essencial reconhecer as especificidades das trajetórias individuais, que são atravessadas por dinâmicas institucionais e sociais desiguais. Somente a partir dessa compreensão integrada será possível propor intervenções que atendam às necessidades reais dessa população, rompendo com a lógica excludente que tem caracterizado as políticas públicas direcionadas ao tema.
2.3 – Os Serviços de Acolhida da Assistência Social no município de São Paulo
Existem serviços tipificados voltados à população em situação de rua, tanto na área da saúde quanto na assistência social, com o objetivo de garantir o acesso a direitos fundamentais e promover a inclusão social. 
São os principais serviços disponíveis para a população em situação de rua os, centro de acolhida, assim como os equipamentos destinados ao acolhimento temporário de pessoas em situação de rua. Oferecem alimentação, local para dormir e higiene pessoal, além de suporte para reintegração social. Podendo encontra em diferentes modalidades de centros de acolhida Centros de Acolhida para Adultos, espaços para homens e mulheres adultos que buscam pernoitar ou necessitam de acolhimento temporário. 
Os Centros de Acolhida Especializados para Mulheres oferecem atendimento exclusivo para mulheres, incluindo aquelas que estão acompanhadas de seus filhos.
Os Centros de Acolhida Especializados para Famílias acolhem famílias inteiras, disponibilizando uma estrutura adequada para atender crianças e adolescentes.
O Serviço Especializado de Abordagem Social (SEAS) é realizado por equipes que percorrem as ruas da cidade com o objetivo de identificar, abordar e encaminhar pessoas em situação de rua para serviços de acolhimento e outros programas assistenciais. As equipes também fornecem orientações sobre os direitos e recursos disponíveis.
Os serviços de saúde e assistência sociais voltadas à população em situação de rua no município de São Paulo são amplos e visam garantir direitos e promover a reinserção social dessas pessoas. Contudo, desafios como o subdimensionamento dos serviços, a insuficiência de vagas em centros de acolhimento e a dificuldade de acesso regular a cuidados de saúde indicam. No município de São Paulo, existem serviços tipificados voltados à população em situação de rua, tanto na área da saúde quanto na assistência social, com o objetivo de garantir o acesso a direitos fundamentais e promover a inclusão social.
Tabela 1. Serviços disponíveis à população em situação de rua da cidade de São Paulo.
	Centros POP (Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua)
	Os Centros POP são unidades especializadas da assistência social, que oferecem atendimento diurno à população em situação de rua. Neles, as pessoas podem tomar banho, guardar pertences, se alimentar e acessar serviços de convivência, encaminhamento para acolhimento, documentação, e também inserção em políticas públicas de emprego, habitação e saúde.
	Albergues e Repúblicas
	Os albergues funcionam como moradia provisória para pessoas que buscam reinserção social. As repúblicas, por sua vez, são voltadas para a convivência de adultos em situação de vulnerabilidade que estão em fase de reabilitação, oferecendo uma moradia temporária com mais autonomia e suporte para reintegração.
	Programa “De Braços Abertos”
	 Esse programa foi direcionado ao atendimento da população em situação de rua na região da Cracolândia, com uma abordagem de redução de danos para pessoas que fazem uso abusivo de drogas. Embora tenha sido substituído pelo programa “Redenção”, focado na saúde, essa foi uma importante iniciativa no passado.
	Bolsa Aluguel Social
	Programa que oferece apoio financeiro temporário para famílias ou pessoas em situação de vulnerabilidade social, possibilitando o acesso às moradias de aluguel enquanto elas buscam uma solução habitacional definitiva, normalmente e de 6 meses a dois anos.
	Serviços de Saúde, Consultórios na Rua
	São equipes multidisciplinares de saúde que atuam diretamente nas ruas, oferecendo atendimento de saúde básico e especializado à população em situação de rua. Essas equipes são compostas por médicos, enfermeiros, assistentes sociais e outros profissionais de saúde que atendem em locais de concentração da população de rua e fazem encaminhamentos para serviços de saúde, quando necessário.
	Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Estratégia Saúde da Família
	A população em situação de rua tem acesso às Unidades Básicas de Saúde (UBS) para atendimento preventivo, consulta médica, distribuição de medicamentos e acompanhamento. No entanto, devido à dificuldade de acesso regular a esses serviços, o programa Consultório na Rua busca ampliar essa cobertura.
	Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)
	Os CAPS oferecem serviços de saúde mental, com foco no tratamento de pessoas com transtornos mentais graves ou dependência química. São fundamentais no acompanhamento da população em situação de rua que enfrenta problemas relacionados à saúde mental e uso de substâncias. Existem modalidades específicas, como o CAPS AD (Álcool e Drogas), voltadas ao tratamento de dependência química.
	Hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPA)
	Pessoas em situação de rua também têm direito a atendimento em unidades hospitalares e UPA em casos de urgências e emergências. No entanto, o acesso a esses serviços é muitas vezes dificultadopela falta de documentação e pela desinformação sobre os direitos.
	Programa Redenção
	Programa que atua na área da Cracolândia, com foco no atendimento integral da população em situação de rua que faz uso de substâncias, oferecendo serviços de saúde e assistência social com uma abordagem de redução de danos. Além disso, visa a reinserção social e a oferta de oportunidades de trabalho e moradia.
	Programa “Reencontro”
	Lançado pela Prefeitura de São Paulo, o Reencontro é voltado à população em situação de rua e busca oferecer acolhimento, apoio psicossocial, oportunidades de trabalho e encaminhamento para serviços de saúde e habitação.
Fonte: Prefeitura Municipal de São Paulo. Tabela organizada pela autora (2024).
2.4. Sem dados e sem violência?
Quando inicie o percurso do TCC foi construído um referencial de dados que seriam interessantes para compreender de que forma a violência era notificada no município de São Paulo, pelas mulheres em situação de rua.
Os dados solicitados foram 
São Paulo, 05 de abril de 2024
À ouvidoria Pública Municipal da Cidade de São Paulo
Ref: Solícitação de dados sobre queixas institucionais realizadas por mulheres em
situação de rua no Município de São Paulo
Eu Francelina de Jesus Teles, portadora da RG 36510553-3,estuda nte do 7o período, do curso de Serviço Social da Faculdade Primum (antiga Faculdade Paulista de Serviço Social - FAPSS/SP),regularmente matriculada sob o número 2L705244, em acordo com a Lei no. 13.709, de 14 deagosto de 2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais - LGPD), solicito, para fins de realização de pesquisa acadêmica para Trabalho de Conclusão de Curso, as seguintes informações:
. Reclamações, registradas por mulheres em situação de rua, acerca dos serviços
públicos (de administração direta ou indireta/parcerias) prestados no Município de
são Paulo, no período de 2020 a 2023, destacando:
 a) Qual a incidência das denúncias
 b) Quais as principais queixas prestadas
 c) Quais os serviços denunciados
 d) Quais os encaminhamentos dados às queixas
 e) Perfil racial destas mulheres
 f) Faixa etária
 e) Se possível, o percentual de resolubilidade das queixas prestadas
Após meses aguardando retorno recebemos somente o quadro organizado a seguir:
	Serviços
	Feminino
	Masculino
	Não se identificou
	não-binário
	Outras identidades
	Transexual
	Total Geral
	Acolhimento para pessoas em situação de rua – Operação Baixas Temperaturas
	14210
	84863
	321727
	30
	102
	750
	421682
	Altas Temperaturas – Solicitar Atendimento Social
	208
	872
	5306
	3
	3
	18
	6410
	Baixas temperaturas? Solicitar atendimento social
	5373
	30876
	134023
	41
	42
	470
	170825
	Denunciar violação de direitos humanos da população em situação de rua
	145
	495
	2248
	5
	0
	9
	2902
	Denunciar violações de direitos da população em situação de rua nas ações de Zeladoria Urbana
	4
	14
	72
	0
	0
	0
	90
	Denunciar violência e discriminação contra pessoa em situação de rua
	1
	1
	15
	0
	0
	0
	17
	Pessoa em situação de rua? Solicitar atendimento social
	2992
	22190
	91391
	13
	20
	291
	116897
	Total Geral
	22933
	139311
	554782
	92
	167
	1538
	718823
Os dados informados não qualificam o conteúdo da denúncia, dificultando sobremaneira a compreensão do que é registrado pela população. Por outro lado, a falta de dados também leva a reflexão do significado da compreensão de uma política pública que no lugar de acolher, viola direitos em ações que excluem uma população sistematicamente excluída do sistema de produção social.
Quando olhamos para os dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, o cenário se agrava ainda mais. Em janeiro de 2024, foram registradas 6.117 violações contra pessoas em situação de rua no Disque 100, e o estado de São Paulo ocupa o primeiro lugar no ranking das denúncias. Entre 2022 e 2023, houve um aumento de 40% nas denúncias feitas por mulheres, o que evidencia que a violência contra elas é uma questão urgente e crescente, mas que permanece invisibilizada na organização dos dados institucionais.
Os registros de 22.933 mulheres em contato com os serviços públicos no período analisado representam apenas números. Sem qualificação das queixas, não é possível avançar na compreensão das condições vividas por essas mulheres ou do impacto das políticas públicas em suas vidas. Mais uma vez, a falta de dados se apresenta como um entrave, enquanto o sistema público, que deveria acolher, continua reproduzindo práticas que marginalizam e expõem essas mulheres ao constrangimento e à violação de direitos.
Diante disso, é preciso refletir sobre o papel do próprio sistema de políticas públicas como violador. Um sistema que não reconhece essas mulheres como sujeitos de direitos, mas sim como números em relatórios sem profundidade, continua contribuindo para a exclusão que deveria combater. Daqui para frente, o desafio está em usar os dados disponíveis para interlocução, evidenciar as lacunas e tensionar a construção de políticas que garantam dignidade, proteção e acesso pleno aos direitos fundamentais para essas mulheres.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
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FERNANDES, Florestan. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. 3. ed. - Rio de Janeiro: Zahar, 1972
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